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Psicofarmacologia Texto 01 TEMA 1 – SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS TEMA 2 – EXAME DAS FUNÇÕES MENTAIS TEMA 3 – CLASSE DOS ANTIDEPRESSIVOS TEMA 4 – CLASSE DOS ANTIPSICÓTICOS TEMA 5 – CLASSE DOS OPIOIDES Conversa inicial Neste estudo, vamos estudar os conceitos básicos da psicofarmacologia, o mecanismo de ação dos psicofármacos, efeitos terapêuticos esperados e adversos e algumas interações medicamentosas perigosas. Vamos estudar a relação entre farmacologia e psicopatologia; limites de competências e questões éticas envolvendo profissionais que atuam no tratamento de pessoas que fazem uso de medicação controlada. Entendemos que o estudo da psicofarmacologia por multiprofissionais da saúde mental favorece a integração de conhecimentos e o trabalho em equipe e aumenta a capacidade para identificar sinais e sintomas decorrentes do efeito dos fármacos sobre o sistema nervoso central. É esperado que ao final deste estudo você esteja mais bem preparado para discutir com base em evidência científicas o efeito terapêutico, iatrogênico e os limites éticos no uso de medicação e outras drogas de efeito psicoativo. Nesta etapa, vamos abordar de forma breve um pouco do vocabulário farmacêutico, o que são as substâncias e os medicamentos psicoativos, psicotrópicos, psicofármacos e as drogas e os seus efeitos no organismo. Iniciaremos com algumas classes farmacológicas. Em etapas seguintes, vamos explorar mais detalhadamente as diversas classes de psicofármacos. TEMA 1 – SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS Créditos: Lightspring/Shutterstock. Eticamente, durante o atendimento clínico de pacientes que fazem uso de substâncias psicoativas, não nos cabe julgar se a droga é lícita ou ilícita. Os profissionais têm a função de prestação de serviços de saúde mental, mesmo que também sejam delegados de polícia, se estiverem atuando na condição de profissional de assistência clínica à saúde mental, precisam diferenciar um compromisso de outro. Portanto, não será foco de nossa preocupação neste estudo se a substância em discussão é lícita ou ilícita. Alguns termos são usados para se referir às substâncias farmacológicas que agem sobre o sistema nervoso central (SNC): ● Drogas psicotrópicas; ● Substâncias psicoativas; ● Medicamento psiquiátrico; ● Psicofármaco (termo utilizado para medicamento ou fármaco). Os medicamentos e as substâncias que atuam no SNC podem ser chamados de drogas psicotrópicas ou psicoativas e estão sujeitos a um controle especial pela Portaria SVS/MS n. 344, de 12 de maio de 1998. O que mais diferencia esses termos utilizados são as palavras medicamentos, fármacos (princípio ativo do medicamento), drogas ou substâncias. O medicamento se refere a um produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado. Nem todas as substâncias e nem todas as drogas adquirem o status de medicamento ou fármaco. Entretanto, pode-se utilizar o termo droga e substância se referindo aos medicamentos e aos fármacos. A palavra psicotrópica pode significar que determinadas substâncias podem causar dependência física ou psíquica, como também um tropismo, um direcionamento dessas substâncias para o cérebro. Por esse motivo, trata-se de substâncias controladas ou sujeitas a controle especial, isto é, um controle mais rígido do que o controle das substâncias comuns. A droga assume diferentes significados. Desde substância ou matéria-prima que tenha finalidade medicamentosa ou sanitária, como também pode ser definida como qualquer substância que no organismo altera processos físicos ou psíquicos (o funcionamento). Assim como pode ser denominada como substâncias entorpecentes, psicotrópicas e precursoras e outras sob controle especial da Portaria 344/1998: “Consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União” (Brasil, 1998, p. 5). O termo medicamento psiquiátrico, assim como o termo psicofármaco se referem aos medicamentos e fármacos que agem no SNC. Nem todos os medicamentos disponíveis atravessam a barreira hematoencefálica e chegam ao sistema nervoso. Elas estão classificadas em três categorias: as depressoras, as estimulantes e as perturbadoras, com base na interferência que provocam no SNC. Essas substâncias psicoativas podem (Elisabetsky, 2021): ● Estimular o ritmo cerebral: cafeína, cocaína, nicotina, chocolate, anfetamina, guaraná; ● Deprimir o ritmo cerebral: álcool, barbitúrico, benzodiazepínicos, opiáceos; ● Perturbar o SNC, modificando o padrão de atividade cerebral: maconha, psicodélicos. Alguns autores consideram a maconha uma substância psicodélica. A psicopatologia é uma área de investigação científica e clínica que estuda a estrutura do funcionamento mental e suas alterações. Para tanto, utiliza-se de padrões de normalidade (comportamento típico) para identificar as manifestações atípicas. Vamos ver a seguir um pouco sobre o Exame do Estado Mental, que possibilita a observação de sinais que sugerem algumas dessas alterações nas funções mentais. TEMA 2 – EXAME DAS FUNÇÕES MENTAIS Tomando como base a classificação das funções mentais utilizada pela psicopatologia, podemos observar quais são as funções consideradas básicas e algumas de suas alterações: Quadro 1 – Alterações nas funções mentais FUNÇÕES MENTAIS ALGUMAS ALTERAÇÕES Consciência Lucido, sonolento, hipervigilante, delirium (confusão), estados de coma, períodos de ausência. Atenção Diminuída, aumentada (mania), distração, desinteresse, dificuldade de concentração. Orientação Autopsíquica: saber que é, dizer seu próprio nome. Alopsíquica: orientação temporal e espacial, saber dizer onde está, saber o dia da semana/mês. Sensação Sensibilidade dos órgãos dos sentidos (tato, audição, olfato, paladar, visão). Maior ou menor intensidade na capacitação de estímulos sensoriais. Ilusão, Alucinação. Memória Amnésia, confabulações (conteúdo fantasioso), troca de nomes. Afetividade/hu mor Coerente ou contraditório com a situação, indiferença, euforia, embotamento afetivo, labilidade emocional (rápida oscilação), perda do interesse ou do prazer pelas situações. Vontade Impulsividade, incapacidade de controlar o comportamento, controle rígido, ambivalência, comportamento autolesivo. Psicomotricida de Agitação, lentificado, apatia, irritabilidade, imitação, maneirismos. Pensamento Lento, acelerado, inibido, fuga de ideias, não conclui o raciocínio, esquece palavras, desagregação do pensamento, prolixo, mudanças bruscas de assunto. Juízo de realidade Delírio, perseguição, grandeza, místicos, culpa. Linguagem Mutismo, fala acelerada, lentidão para falar, imitação do que o outro fala (ecolalia), emissão involuntária de palavras. Fonte: Baseado em Jaspers, 2000; Sanches et al., 2004. O Exame do Estado Mental é uma observação que se faz em um dado momento, descreve o que está acontecendo em um momento, na situação presente (aqui, agora). Não tem validade como avaliação diagnóstica da personalidade, pois as alterações podem ser temporárias, podem mudar no instante seguinte. O estado mental das pessoas é dinâmico, portanto não se pode atestar que o paciente é e sim que ele está de determinada maneira (Mackinnon, 2008). A avaliação da personalidade é uma atribuição de médicos e psicólogos habilitados para o uso de testes padronizados e que são de uso privativo daquela categoria profissional. No entanto, alterações nas funções psíquicas podem ser observadas por todas as pessoas que convivem ou presenciam uma das alterações listadas por Jaspers (2000) e Sanches et al. (2004). A estabilidade das funções mentais favorece a adaptação à realidade e dá sinais de uma estrutura de personalidade com processos psicológicos saudáveis, sob o ponto de vista da psicopatologia. As drogas psicotrópicasagem sobre o sistema nervoso, influindo em várias funções mentais, interferindo na sensibilidade, na atividade muscular somática voluntária e involuntária, no sistema visual, e no controle do comportamento, por exemplo. Desse modo, não é possível dizer, apenas pela observação, se a pessoa tem um transtorno mental, ou apenas está sob efeito de medicação. TEMA 3 – CLASSE DOS ANTIDEPRESSIVOS Os antidepressivos são medicamentos que atuam no sistema nervoso central (SNC) empregados no tratamento de transtornos depressivos, ansiosos, em várias condições psiquiátricas e até mesmo não psiquiátricas. Por exemplo, na dor crônica. Os antidepressivos constituem os medicamentos mais prescritos na atualidade. Esses medicamentos podem ser chamados de psicotrópicos e estão sujeitos a um controle especial da Portaria 344/1998. Na embalagem da maioria dos antidepressivos, há uma tarja vermelha na caixa desses medicamentos anunciando a necessidade de prescrição de um profissional habilitado e de que não são capazes de causar dependência. Diferente da embalagem dos medicamentos cetamina e a escetamina, que possuem uma tarja preta anunciando que são capazes de causar dependência. Esses dois medicamentos são administrados sob supervisão e necessitam de uma Notificação de Receita “B” (azul). Ambos agem em receptores glutamatérgicos N-metil-D-aspartato (NMDA). Esses receptores estão sendo apontados como potenciais alvos de novas terapias para o tratamento da depressão (Zaccarelli-Magalhães et al., 2018). Há uma tendência para a ampliação do uso clínico da cetamina como antidepressivo. Esse fármaco tem potencial promissor para o tratamento dos transtornos depressivos no geral, incluindo a depressão pós-parto e tem seu uso por via endovenosa (injetável) e não pela via oral, o que pode dificultar o seu acesso, uma vez que encarece o tratamento. Estudos clínicos constataram que uma única administração de cetamina por via intravenosa reduz sintomas de depressão por cerca de uma semana. Seus efeitos antidepressivos aparecem dentro de quatro horas após sua administração (Zaccarelli-Magalhães et al., 2018). A escetamina é derivada da cetamina, tem sua apresentação farmacêutica como spray nasal, no entanto seu valor é em torno de R$ 2.900,00. Seu uso é indicado em casos de depressão refratária. Em outras palavras, a depressão refratária é conhecida como resistente, em que os pacientes não obtêm a melhora desejada, mesmo após o uso de antidepressivos. O tratamento farmacológico tradicional para a depressão consiste no uso prolongado de antidepressivos e a grande maioria tem como alvo os sistemas monoaminérgicos. Esses medicamentos são classificados em: tricíclicos, inibidores da monoaminoxidase, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) e antidepressivos atípicos. Essas diferentes classes de antidepressivos serão mais detalhadas em etapa posterior. Estudos demonstram que não há diferenças de eficácia entre diferentes antidepressivos de uma mesma classe, como também entre as diferentes classes farmacológicas. Cada classe de antidepressivos apresenta peculiaridades em relação aos efeitos adversos, sendo essa a principal diferença, isto é, o perfil de segurança e de tolerabilidade. Os antidepressivos não são a primeira linha de tratamento para os casos mais leves, como também não são para o tratamento inicial em adolescentes (OPAS, 2018), em gestantes e em mulheres que estejam amamentando (Silva; Vasconcelos; Moura, 2021). Esses medicamentos não devem ser usados para tratar depressão em crianças. Em casos mais resistentes ao tratamento da depressão, pode ser necessário o uso combinado de mais de um antidepressivo ou a adição de outras classes de psicofármacos, como os antipsicóticos e os estabilizadores do humor (Guimarães-Fernandes et al., 2021). Os antidepressivos tradicionais necessitam de uma administração continuada por várias semanas para o aparecimento do efeito terapêutico, o que implica o aumento do risco de suicídios. Essa aplicação continuada poderia resultar em alterações plásticas do SNC, responsáveis pelos efeitos terapêuticos conquistados pelo uso prolongado (Graeff; Guimarães, 2021). Apesar do grande número de antidepressivos existentes para tratar a depressão, muitos pacientes não aderem ao tratamento até o final. Em torno de 25% a 35% dos pacientes com depressão conseguem se recuperar totalmente com o uso de antidepressivos tradicionais (Zaccarelli-Magalhães et al., 2018). Os principais motivos acerca da não adesão ao tratamento farmacológico da depressão envolve os efeitos adversos indesejáveis, a demora na aquisição dos efeitos benéficos do tratamento e a elevada porcentagem de pacientes resistentes aos tratamentos tradicionais (Zaccarelli-Magalhães et al., 2018). Evidencia-se que há necessidade de desenvolver novos medicamentos com outros mecanismos de ação que escape do sistema das monoaminas, que tenham resposta rápida, maior eficácia e menos efeitos adversos (Zaccarelli-Magalhães et al., 2018). TEMA 4 – CLASSE DOS ANTIPSICÓTICOS A psicose é caracterizada como perda do contato com a realidade. Ela acompanha diversas condições psiquiátricas, porém a esquizofrenia acaba sendo uma referência para a compreensão das psicoses e a principal indicação terapêutica dos antipsicóticos (Graeff; Guimarães, 2021). Os transtornos psicóticos mais comuns abrangem mania (transtorno bipolar), psicose induzida por drogas (cocaína) e esquizofrenia. A esquizofrenia é uma condição grave, crônica e altamente incapacitante, marcada por sintomas positivos (delírios, alucinações), negativos (isolamento social, embotamento afetivo, anedonia) e cognitivos (déficits de memória). O tratamento com antipsicóticos para esquizofrenia foi introduzido na década de 1950, com a clorpromazina, possibilitando um menor tempo de hospitalização e outras formas de tratamento. Os antipsicóticos foram chamados inicialmente de neurolépticos, que significa segurar, controlar os nervos (Elisabetsky, 2021). Esses medicamentos não curam a esquizofrenia e apresentam diversos efeitos colaterais (Graeff; Guimarães, 2021). Após a clorpromazina foram lançados diversos compostos com propriedades farmacológicas semelhantes, mesmo com estrutura química diferente. Ainda que tenha muitos antipsicóticos disponíveis, com exceção da clozapina, não há superioridade de eficácia entre eles. Os antipsicóticos típicos diferenciam-se quanto à potência, à farmacocinética e ao perfil de efeitos colaterais (Graeff; Guimarães, 2021). Com o uso dos antipsicóticos típicos, a melhora inicial ocorre com a diminuição da ansiedade e da agitação (contenção química). Esses fármacos são úteis no alívio de sintomas positivos e pouco eficazes no alívio dos sintomas negativos da esquizofrenia (Graeff; Guimarães, 2021). Há resistência ao efeito benéfico dos típicos em torno de 30% dos pacientes com esquizofrenia. O mecanismo de ação está relacionado à neurotransmissão da dopamina (Graeff; Guimarães, 2021). Alguns exemplos de antipsicóticos típicos são: clorpromazina, tioridazina e haloperidol. Tanto a clorpromazina quanto o haloperidol estão disponíveis na rede pública de saúde. Há uma pequena janela terapêutica entre a dose eficaz e a dose que afeta o sistema motor. Esses medicamentos provocam com frequência síndromes extrapiramidais (movimentos). Esses efeitos incluem parkinsonismo (rigidez muscular, tremores, lentidão dos movimentos), distonias (contração muscular dolorosa) e acatisia (necessidade de movimentação, frequentemente das pernas) (Guimarães-Fernandes et al, 2021). Após anos de uso, pode aparecer a discinesia tardia, que se caracteriza por movimentos involuntários e repetitivos, que podem incluir protusão da língua, movimentos rápidos das extremidades e movimentos de contorçãode face, tronco e membros. Na tentativa de se prevenir efeitos adversos, pode-se usar a dose eficaz mais baixa do antipsicótico típico (Elisabetsky, 2021). Até meados de 1980 um elevado número de compostos antipsicóticos foi desenvolvido, contudo um progresso na terapêutica com esses fármacos só foi possível com um melhor conhecimento de sua farmacocinética e farmacodinâmica (Graeff; Guimarães, 2021). Os novos antipsicóticos lançados receberam a denominação genérica de atípicos. No entanto, autores divergem se esses fármacos constituiriam de fato um grupo independente dos típicos (Graeff; Guimarães, 2021). O mecanismo de ação comum dos antipsicóticos atípicos é o fato de atuarem em receptores de serotonina e dopamina. Vários estudos clínicos demonstraram que não há superioridade dos antipsicóticos atípicos frente aos típicos. As principais diferenças se concentram no perfil de efeitos adversos (Graeff; Guimarães, 2021). Exemplos de antipsicóticos atípicos: clozapina, risperidona, paliperidona, olanzapina, aripiprazol, quetiapina e ziprasidona. Vários antipsicóticos atípicos podem ser indicados (e são eficazes) para o controle da mania no transtorno bipolar e provavelmente o início do efeito é mais rápido do que com o lítio. Além disso, podem ser utilizados como potencializadores de fármacos antidepressivos no tratamento da depressão unipolar (Graeff; Guimarães, 2021). A risperidona e o aripiprazol podem ser usados para controlar sintomas de irritabilidade e agressividade em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (Elisabetsky, 2021). Embora o uso contínuo não seja indicado, antipsicóticos atípicos têm sido empregados no manejo de sintomas psicóticos e agitação em pacientes com demência. Esses medicamentos estão relacionados com o aumento da mortalidade. Seu uso pode ser justificado em pacientes com sintomas psicóticos graves e debilitantes, que colocam em risco a segurança de pacientes e cuidadores (Elisabetsky, 2021). Os antipsicóticos atípicos podem apresentar efeitos metabólitos que dificultam a adesão ao tratamento. Esses efeitos contemplam aumento do apetite, ganho de peso, hiperglicemia, aumento de triglicerídeos e hipertensão. Essas alterações metabólicas tornam o paciente mais suscetível ao desenvolvimento de diabetes e aumento de eventos cardiovasculares. A escolha do antipsicótico, em geral, é feita em função do perfil de efeitos colaterais, o que se assemelha com os antidepressivos. O custo do antipsicótico atípico é consideravelmente maior em comparação com os típicos, outro fator que deve ser considerado na escolha do tratamento. Tanto os efeitos adversos quanto a eficácia limitada fazem com que a adesão ao tratamento seja muito baixa (Elisabetsky, 2021). TEMA 5 – CLASSE DOS OPIOIDES O termo opioide foi proposto para designar os medicamentos com ação semelhante à da morfina, porém com estrutura química diferente. O conceito de opioide evoluiu e passou a incluir todas as substâncias naturais, semissintéticas ou sintéticas que reagem com os receptores opioides. Em outras palavras, opioide é qualquer componente, endógeno ou exógeno, que se liga ao receptor opioide (Duarte, 2005). Os receptores opioides estão dispostos em todo o Sistema Nervoso Central (SNC) (encéfalo e medula espinhal) e no Sistema Nervoso periférico (SNP). O ópio, substância original dessa classe farmacológica de opioides, é extraído da papoula, nome popular do Papaver somniferum. O ópio teve grande importância na civilização romana, simbolizando o sono e a morte. Galeno, considerado o pai da medicina romana, percebeu os riscos do seu uso exagerado. Percebe-se que, a partir dos romanos, a propriedade analgésica do ópio passou a ser reconhecida (Duarte, 2005; Campos et al., 2021). O uso correto de medicações prescritas para dor e para ansiedade pode produzir tolerância. O conceito de tolerância não implica em um uso abusivo ou de dependência. A tolerância pode ser definida como a redução na resposta a uma substância após administrações repetidas. Portanto, uma dose maior é necessária para produzir o mesmo efeito que antes era obtido com uma dose menor (Goodman; Gilman, 2003). É tênue o que separa um uso abusivo de uma dependência. No uso abusivo, existe algum aspecto da vida da pessoa sendo atingido, seja no âmbito da família, do trabalho ou educacional. Já a dependência é entendida como um conceito mais amplo, em que todos os aspectos da vida da pessoa são atingidos, englobando comportamentos prejudiciais, que ocasionam sofrimento e no qual se tem controle prejudicado, resultando em desinteresse em atividades antes prazerosas. Os termos dependência física e psicológica não são mais aplicados, sendo considerados transtornos relacionados ao uso de substância (Guimarães-Fernandes et al, 2021). Os opioides são mais efetivos e mais comumente utilizados no tratamento da dor moderada a intensa, especialmente no câncer. As diferenças de respostas ao uso dos opioides são aceitas, atualmente, como devidas a polimorfismos genéticos relacionados aos receptores opioides. Além de serem fármacos indicados para as dores crônicas, são utilizados no tratamento de dependência ou desintoxicação por opioides (Campos et al., 2021). Os pacientes com dor crônica (dor superior a 30 dias) frequentemente sofrem de depressão e essa condição deve ser tratada (Brasil, 2012). Há uma escada analgésica, que consiste em um uso sequencial de fármacos para analgesia. Geralmente se inicia o tratamento com analgésicos simples ou anti-inflamatórios não hormonais (dipirona, paracetamol). Se não há controle da dor, o passo seguinte é uma combinação de analgésicos com opioides fracos (como tramadol ou codeína). Caso não haja melhora da dor, muda-se para um terceiro passo, que inclui o uso de analgésicos simples em associação com opioides fortes (como morfina, metadona, oxicodona) (Campos et al., 2021). De acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica (Brasil, 2012), a base do tratamento de um tipo de dor chamada neuropática (que aparece em pacientes com diabetes e pacientes que fazem quimioterapia) envolve o uso de medicamentos antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes na maioria dos casos, sendo os opioides reservados somente a pacientes com dor a eles refratária. Vale ressaltar que, apesar de os medicamentos fazerem parte de classes farmacológicas, eles não servem para tratarem apenas determinadas patologias. Assim, dependendo da concentração do medicamento o fármaco pode ter indicações diferentes. Por exemplo, um antidepressivo tricíclico pode ser usado para tratar dor e não somente depressão e um anticonvulsionante (carbamazepina, ácido valproico, lamotrigina) também pode ser utilizado como estabilizador do humor para o tratamento de transtornos afetivos bipolares e não apenas convulsões. Assim como um opioide pode ser prescrito para tratar a tosse. O aumento da dose de opioides é associado com efeitos adversos que incluem sedação, confusão mental, náuseas e vômitos e depressão respiratória. Opioides produzem alterações do humor, incluindo alívio da ansiedade, euforia (sentimentos agradáveis) e disforia (sentimentos desagradáveis). Os efeitos depressores do SNC podem ser acentuados em usuários de álcool, barbitúricos ou benzodiazepínicos. Depressão respiratória é o efeito adverso mais sério. Exemplos de fármacos opioides (Campos et al., 2021): ● Morfina (fármaco de escolha para dor intensa); ● Codeína (fármaco de escolha em dor leve a moderada, não controlada com anti-inflamatórios); ● Tramadol (causa menos constipação intestinal, depressão respiratória e dependência do que outros opioides); ● Metadona (opioide sintético e potente. É uma alternativa à morfina, causa menos dependência, menos euforia e sedação do que a maioria dos outros opioides). Os opioides morfina, metadonae codeína estão disponíveis na rede pública de saúde pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF). Na prática Com base em uma compreensão psicanalítica, as pessoas buscam o efeito da substância para lidar com algum mal-estar, por terem dificuldade em tolerar frustrações impostas por uma dada realidade ou para obter um efeito calmante diante de uma realidade estressante. Um exemplo bastante comum é a pessoa que, diante de muitas preocupações que a deixam ansiosa e hipervigilante, faz uso de um remédio para conseguir dormir. Ela não resolveu a rotina diária que a deixa ansiosa, no entanto se utiliza de uma substância que lhe traga as condições necessárias para que ela possa relaxar e dormir. Em outra situação, um executivo era constantemente cobrado em sua produtividade. Sentia-se exausto, buscou ajuda médica e iniciou o uso de uma medicação estimulante. Passou a se sentir mais disposto e produtivo nos meses e seguiu o uso. Cada vez que seu médico orientava a retirada da medicação, o paciente dizia que não queria mais voltar a ser como era antes. Preferia ser a pessoa que se tornou, com o uso da medicação. Em um processo psicanalítico é possível enfrentar o mal-estar no lugar de se adaptar organicamente a ele. É bem frequente que as pessoas não queiram tocar no assunto quando se sentem incapazes de interferir em uma situação, por exemplo: luto, separações traumáticas, medo de uma derrocada financeira. É importante que o psicanalista ajude a pessoa a identificar qual é a função da substância na vida dela, qual lugar ocupa e como a pessoa se sente fazendo uso ou não daquela substância. O resultado desse processo leva à autonomia da pessoa que vai decidir se sustenta a decisão de continuar ou interromper o uso da substância, e tal posicionamento precisa ser respeitado pelos profissionais da saúde, inclusive pelos psicanalistas. Como vimos, muitas das substâncias psicoativas fazem parte dos hábitos de vida das pessoas e são empregadas em tratamentos médicos para fins terapêuticos. Passa a ser um problema quando o uso é abusivo, de modo que cause dependência e prejuízo à saúde. O consumo de substâncias alucinógenas e estimulantes tem crescido ao longo do tempo. Elas são consumidas em diferentes contextos, nas mais variadas formas e objetivos. Os dados estatísticos revelam que o consumo de drogas tem aumentado de um modo geral, em especial nos jovens, como apresenta o artigo de autoria da psicanalista Tânia Mara Monteiro (2020). Uma análise crítica que precisa ser feita é em relação ao excesso de demandas do mundo do trabalho, à patologização de emoções básicas, tais como a tristeza e o excesso de expectativas em relação a um padrão de vida sinônimo de felicidade, que subordina as pessoas. FINALIZANDO Nesta etapa, abordamos o que são as substâncias e os medicamentos psicoativos, psicotrópicos e os seus efeitos no organismo, assim como aprendemos sobre o termo droga, que pode ser aplicado tanto para medicamentos, fármacos como para substâncias que causam alteração no organismo. Nossa preocupação não é diferenciar as substâncias em lícitas ou ilícitas, no entanto elas adquirem um status diferenciado em termos de legitimidade para seu uso social. Vale lembrar que, no caso dos medicamentos, eles também podem ser chamados de psicofármacos. Independentemente da forma de nomeá-los, todos eles agem no SNC e alguns deles podem causar dependência. Todos estão sujeitos ao controle especial pela Portaria n. 344/1998. Essas substâncias e medicamentos podem ser divididos em três grandes grupos: as que estimulam o SNC (estimulantes como anfetaminas, cocaína, café), as que deprimem o SNC (depressoras como os opioides, benzodiazepínicos, álcool) e as que perturbam o SNC, representados, sobretudo, pelos psicodélicos. Também abordamos sobre o estado mental das pessoas que se faz de forma dinâmica. A pessoa pode estar de determinada forma, mas não de maneira fixa, ou seja, ela não é daquela maneira. Como as drogas psicotrópicas agem sobre o sistema nervoso, interferindo na sensibilidade, nos pensamentos e no comportamento, não é possível dizer, apenas pela observação, se a pessoa tem um transtorno mental ou apenas está sob efeito de algo. Também abordamos acerca de algumas classes de medicamentos. Como os antidepressivos, os antipsicóticos e os opioides. Esses medicamentos serão abordados com mais profundidade nas etapas que se seguirão. Cabe ressaltar que, apesar de serem classificados, esses medicamentos não ficam engessados em suas classificações, podendo ter indicações variadas para o tratamento de diversas patologias. Assim, não é incomum a prescrição de um antidepressivo para o tratamento de outra condição psiquiátrica ou não (como ansiedade, pânico, dor crônica). Isso vale para outras classes farmacológicas, por exemplo, o uso de anticonvulsivantes (carbamazepina, ácido valproico, lamotrigina) para o tratamento de transtornos afetivos bipolares ou mesmo para casos de dores crônicas (gabapentina).