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APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 4. Fisiopatologia O desenvolvimento da FR está intimamente relacionado às características do mimetismo molecular, onde o sistema imunológico do indivíduo ataca suas próprias tecidos, acreditando erroneamente que são estranhos devido à semelhança com as proteínas bacterianas. A. Infecção Estreptocócica e Resposta Imune Inicial A febre reumática ocorre após uma infecção pela bactéria Streptococcus pyogenes, frequentemente causada por faringite estreptocócica. Quando o organismo é infectado, o sistema imunológico gera anticorpos contra as proteínas do estreptococo. Algumas dessas proteínas (como a proteína M do estreptococo) têm semelhanças estruturais com as proteínas do corpo humano, como as encontradas nas válvulas cardíacas, no miocárdio e nas articulações. B. Mimetismo Molecular As aparências de mimetismo molecular ocorrem quando o sistema imunológico, ao tentar combater a infecção estreptocócica, começa ataca as células do próprio organismo, detectando incorretamente as proteínas humanas (do miocárdio e das válvulas cardíacas) como se fossem do estreptococo. As moléculas bacterianas, devido à sua semelhança com as moléculas humanas, são reconhecidas de forma cruzada, ou seja, o sistema imunológico confunde as proteínas bacterianas com as próprias, causando uma resposta imune contra os tecidos do hospedeiro. C. Ativação de Linfócitos e Produção de Citocinas A resposta imunológica é mediada pela ativação dos linfócitos T, que são células do sistema imunológico responsáveis pela defesa contra infecções e pela regulação da resposta imune. Os linfócitos T estimulam a liberação de citocinas inflamatórias, como o fator de necrose tumoral (TNF) e interleucinas, que intensificam a inflamação nos tecidos afetados, como o coração e as articulações. Os danos resultantes levam a lesões nos órgãos afetados, incluindo o miocárdio, as válvulas cardíacas e as cardíacas. 1. Definição e Patogênese A (FR) é uma doença inflamatória sistêmica, ou seja, é uma complicação não supurativa (sem formação de pus) da faringoamigdalite estreptocócica (é uma infecção de faringe e amígdalas). Causada pelo Streptococcus pyogenes, um estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Ocorre devido a uma resposta imune tardia em indivíduos geneticamente predispostos. Afeta principalmente crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, podendo comprometer articulações, coração, sistema nervoso central e pele. Apenas 20% dos casos ocorrem em adultos. Muito raro antes dos 3 anos e após os 23 anos. A infecção estreptocócica leva à formação de autoanticorpos devido ao mimetismo molecular entre proteínas do estreptococo e tecidos humanos (miosina, tropomiosina, laminina). A principal complicação da FR é a cardite reumática, que pode levar à doença cardíaca reumática crônica. 2. Epidemiologia A FR é mais prevalente em países em desenvolvimento, onde as condições de higiene e acesso à saúde são precárias. A incidência é maior em regiões de clima temperado e populações com aglomeração urbana significativa. Estima-se que cerca de 39 milhões de pessoas no mundo vivam com sequelas da FR. 3. Etiologia A FR é desencadeada por uma resposta imunológica anômala após infecção de orofaringe por Streptococcus pyogenes. O mimetismo molecular entre antígenos estreptocócicos e tecidos humanos leva à produção de anticorpos que atacam estruturas corporais, como articulações e coração. Fatores genéticos e ambientais, como condições de vida precárias, considerados para a suscetibilidade à doença S5P2: Febre Reumática Objetivos: Entender a epidemiologia, etiologia, manifestações clínicas, exames, diagnóstico, tratamento (mecanismo de ação) e prevenção da febre reumática; Compreender os grupos, morfofisiológica e estrutura da bactéria causadora da febre reumática Elucidar como a febre reumática pode evoluir para complicações cardíacas; APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Poliartrite migratória: Manifestação mais comum (presente em mais de 70% dos casos). Inflamação dolorosa que afeta sucessivamente grandes articulações, como joelhos, tornozelos, cotovelos e punhos. Responde bem a anti-inflamatórios e não deixa sequelas. Coreia de Sydenham: Ocorre em 5% a 36% dos pacientes. Caracteriza-se por involuntários, rápidos e descoordenados, fraqueza muscular e alterações comportamentais, afetando principalmente rosto, mãos e pés. Mais comum em meninas e pode aparecer 2 a 4 meses após uma faringoamigdalite Eritema marginado: Lesões aparentemente em forma de anéis (manchas) róseas, e centro claras e bordas serpiginosas (vermelhas), geralmente não pruriginosas. Mais comum no tronco e membros, e nas extremidades proximais, poupando a face. Nódulos subcutâneos: São raros (2% a 5% dos casos) e indicam sepultura cardite. Nódulos firmes, pequenos, indolores e móveis. Localizados sobre superfícies extensoras de articulações e proeminências ósseas, detalhados em articulações como cotovelos e joelhos. Critérios Menores: Febre: Temperatura corporal elevada (≥38,5°C). Artralgia: dor articular sem sinais de aumento. Elevação de reagentes de fase aguda: Aumento da velocidade de hemossedimentação (VHS ≥60 mm/h) e/ou proteína C-reativa (PCR ≥3 mg/dL). Prolongamento do intervalo PR no eletrocardiograma: Indica bloqueio atrioventricular de primeiro grau. D. Cardite Reumática e Formação de Corpúsculos de Aschoff A cardite reumática é uma inflamação do coração, afetando o miocárdio, as válvulas cardíacas (mitral e aórtica) e o endocárdio. Durante a cardite, formam-se corpúsculos de Aschoff, áreas inflamatórias características, compostas por linfócitos, macrófagos e células gigantes multinucleadas. Esses corpúsculos são uma característica patognomônica de febre reumática. E. Danos Tissulares e Consequências Clínicas A resposta inflamatória e os danos nos tecidos levam a complicações como: Valvulite: Danos nas válvulas cardíacas, especialmente nas válvulas mitral e aórtica, podendo evoluir para insuficiência valvar crônica. Artrite Migratória: Inflamação das articulações, geralmente de forma migratória. Eritema Marginado: Manchas vermelhas na pele, típicas da febre reumática. Coreia de Sydenham: Distúrbio neurológico caracterizado por movimentos involuntários, causado pela inflamação do sistema nervoso central. Manifestações Clínicas As manifestações clínicas da FR são convenções em critérios maiores e menores, conforme os critérios de Jones revisados: Critérios Maiores: Cardite: Manifestação mais grave, presente em até 50% dos casos. Inflamação das camadas cardíacas (endocárdio, miocárdio e pericárdio), podendo causar sopros, cardiomegalia e insuficiência cardíaca (insuficiência mitral e aórtica). Os sintomas incluem problemas cardíacos, taquicardia, dor torácica e sinais de insuficiência cardíaca congestiva APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 5. Tratamento Os objetivos do tratamento incluem redução de infecções, interrupção dos sintomas, prevenção de recorrências e proteção cardíaca. 4.1 Artrite Os anti-inflamatórios não hormonais (AINEs) são a primeira escolha (ibuprofeno ou naproxeno). A aspirina pode ser usada, mas com cautela devido ao risco de Síndrome de Rey . 4.2 Cardite Glicocorticoides (prednisona 2mg/kg/dia) são indicados para cardite moderada a grave. Diuréticos e IECA podem ser usados em doenças cardíacas. Repouso relativo a 4 semanas. 4.3 Coreia Tratamento indicado paracasos moderados e graves. Opções: haloperidol, carbamazepina, ácido valpróico. Os glicocorticóides podem ser usados em casos graves. 5. Tratamento Tratamento de Febre Reumática e Mecanismo de Ação O tratamento da febre reumática (FR) tem 3 objetivos principais: 1. Erradicação da tecnologia estreptocócica para prevenir novas reações imunológicas. 2. Controle da inflamação e dos sintomas para minimizar os danos cardíacos e articulares. 3. Profilaxia secundária para evitar recorrências da doença. 1. Erradicação da Infecção Estreptocócica O tratamento da faringoamigdalite estreptocócica é essencial para eliminar a bactéria Streptococcus pyogenes e prevenir a FR primária ou novos surtos da doença. Opções terapêuticas: Penicilina G benzatina (dose única, IM) → primeira escolha Amoxicilina ou Penicilina V → via oral por 10 dias Alternativas para alérgicos: Eritromicina, Azitromicina, Claritromicina ou Clindamicina 3. Diagnóstico O diagnóstico de FR é clínico e baseia-se nos critérios de Jones revisados. Para o primeiro episódio, é necessária a presença: Critérios Maiores ✔ Cardite ✔ Poliartrite ✔ Coreia de Sydenham ✔ Nódulos subcutâneos ✔ Eritema marginado Critérios Menores ✔ Febre ✔ Artralgia ✔ Aumento de PCR e VHS ✔ Intervalo PR prolongado no ECG 2 critérios maiores, ou 1 maior + 2 menores Além de evidência de infecção estreptocócica prévia, como: Cultura positiva de orofaringe, Teste rápido de antígeno positivo, ou Títulos elevados ou em ascensão de anticorpos estreptocócicos (por exemplo, antiestreptolisina O - ASLO). 4. Exames Diagnósticos Exames complementares auxiliam na avaliação da atividade inflamatória e do comprometimento cardíaco: Hemograma completo: Pode revelar leucocitose. VHS (Velocidade de Hemossedimentação): marcador inflamatório inespecífico. Elevados indicam atividade inflamatória. PCR (Proteína C Reativa): outro marcador inflamatório elevado na fase aguda. Elevados indicam atividade inflamatória. Eletrocardiograma (ECG): Pode mostrar prolongamento do intervalo PR (Bloqueios atrioventriculares.). Ecocardiograma: Avaliação de comprometimento cardíaco, incluindo detecção de cardite subclínica. ASLO (Antiestreptolisina O): marcador de infecção estreptocócica prévia. FAN (Fator Antinuclear): investigação de doenças autoimunes associadas. Cultura de orofaringe e teste rápido para estreptococo. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 2.2 Tratamento da Cardite A cardite reumática é a complicação mais grave da FR, podendo levar a insuficiência cardíaca e doença cardíaca reumática crônica. Glicocorticoides (Prednisona ou Metilprednisolona) Prednisona (2 mg/kg/dia, VO, dose máxima 60 mg/dia, redução gradual, por 2-12 semanas) Pulsoterapia com Metilprednisolona (30 mg/kg/dia, IV, por 3 dias) → casos graves Drogas auxiliares em insuficiência cardíaca Diuréticos: Furosemida → 1 mg/kg/dose VO/IV (para insuficiência cardíaca) Espironolactona → 1 mg/kg/dia, VO (para retenção hídrica) redução de sobrecarga de volume IECA (Enalapril, Captopril) → Dose ajustada conforme resposta, redução da pós-carga na insuficiência mitral/aórtica Mecanismo de ação dos glicocorticoides: Glicocorticoides (Prednisona, Metilprednisolona): Ligam-se aos receptores intracelulares de glicocorticoides. Inibem a fosfolipase A2, reduzindo a produção de prostaglandinas e leucotrienos e a produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-α). Reduzem a permeabilidade vascular, edema e migração de leucócitos para o miocárdio e válvulas. Diuréticos (Furosemida, Espironolactona): Reduzem a pré-carga cardíaca e o volume circulante, aliviando sintomas congestivos. IECA (Enalapril, Captopril): Inibem a enzima conversora de angiotensina, reduzindo a pós-carga e a sobrecarga do miocárdio. 2.3 Tratamento da Coreia de Sydenham A coreia ocorre devido a uma resposta autoimune contra os gânglios da base podendo comprometer atividade motora e cognição. Anticonvulsivantes e Antipsicóticos Haloperidol (0,5-1 mg/dia, VO, até 5 mg/dia) Carbamazepina (3,5-10 mg/kg/dose, VO, 12/12h) Ácido Valproico (7,5-10 mg/kg/dose, VO, 12/12h) Opções terapêuticas: Penicilina G benzatina (dose única, IM) → primeira escolha Amoxicilina ou Penicilina V → via oral por 10 dias Alternativas para alérgicos: Eritromicina, Azitromicina, Claritromicina ou Clindamicina Mecanismo de ação: Penicilinas e derivados: Inibem a síntese da parede celular bacteriana ao bloquear a transpeptidase, uma enzima essencial para a formação do peptidoglicano. Isso leva à lise da bactéria. Macrolídeos (eritromicina, azitromicina, claritromicina): Inibem a síntese proteica ao se ligar ao ribossomo 50S da bactéria, impedindo a tradução de proteínas essenciais para sua sobrevivência. Clindamicina: Atua de forma semelhante aos macrolídeos, inibindo a subunidade ribossômica 50S, com efeito bacteriostático. 2. Controle da Inflamação A resposta inflamatória da FR pode afetar múltiplos sistemas, especialmente as articulações (artrite) e o coração (cardite). 2.1 Tratamento da Artrite AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Naproxeno (10-20 mg/kg/dia, VO, 12/12h) Ibuprofeno (30-40 mg/kg/dia, VO, 6/6-8/8h) Aspirina (AAS) (80-100 mg/kg/dia, VO, fracionado) (uso reduzido devido ao risco de Síndrome de Reye) Mecanismo de ação dos AINEs: AINEs (Ibuprofeno, Naproxeno, AAS): Inibem a ciclo-oxigenase (COX-1 e COX-2), reduzindo a síntese de prostaglandinas, responsáveis por dor, febre e inflamação. Reduzem aumento vascular, edema e migração de leucócitos para os tecidos inflamados. Aspirina (AAS): Potente anti-inflamatório, mas seu uso deve ser cauteloso devido ao risco de Síndrome de Reye em infecções virais concomitantes. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Glicocorticoides em casos graves Prednisona (1 mg/kg/dia, VO, por 2 semanas, com redução progressiva) Mecanismo de ação: Haloperidol: Bloqueia receptores dopaminérgicos D2 nos gânglios da base, reduzindo os movimentos involuntários. Carbamazepina e Ácido Valproico: Moduladores do canal de sódio, estabilizam a transmissão nervosa e reduzem hiperexcitabilidade neuronal. 3. Profilaxia Secundária (Prevenção de Recorrências) A profilaxia antibiótica impede novos surtos de FR e protege contra a progressão da doença cardíaca reumática crônica. FR sem cardite: Até os 21 anos ou 5 anos após o último surto FR com cardite prévia leve: Até os 25 anos ou 10 anos após o último surto FR com lesão valvar residual moderada/grave: Até os 40 anos ou por toda a vida Após cirurgia valvar: Por toda a vida Antibióticos Penicilina G benzatina IM a cada 21 dias → primeira escolha Sulfadiazina (alérgicos a penicilina): 500 mg/dia (30 kg). 4. Tratamento de Complicações Cardíacas (Se Necessário) Pacientes com valvulopatia grave podem precisar de cirurgia cardíaca, incluindo: Troca ou reparo valvar em casos de estenose mitral ou insuficiência mitral grave. Prevenção A prevenção da FR é dividida em: Prevenção primária: Diagnóstico precoce e tratamento adequado das faringoamigdalites estreptocócicas com antibióticos adequados, como a penicilina, para evitar o desenvolvimento da FR. Prevenção secundária: Profilaxia antibiótica contínua em pacientes que já tiveram FR para prevenir recorrências e evitar danos cardíacos adicionais. Características da bactéria Streptococcus pyogenes A febre reumática é causada pelo Streptococcus pyogenes, uma bactéria que pertence ao grupo A dos estreptococos β-hemolíticos. Essa bactéria possui diversas características morfofisiológicas e estruturais que apresentam característicaspara sua patogenicidade. 1. Classificação e Grupos Classificação Bacteriana: Reino: Bactérias Filo: Firmicutes Classe: Bacilos Ordem: Lactobacillales Família: Streptococcaceae Gênero: Streptococcus Espécie: Streptococcus pyogenes Classificação Sorológica (Lancefield): Faz parte do Grupo A dos estreptococos β- hemolíticos, de acordo com o sistema de Lancefield, que se baseia na composição dos antígenos de carboidrato da parede celular. Hemólise em Ágar-Sangue: S. pyogenes é β-hemolítico, ou seja, produz enzimas que destroem totalmente os eritrócitos no ágar-sangue, formando áreas transparentes ao redor das colônias. 2. Morfologia e Estrutura Morfologia Bacteriana: S. pyogenes é um coco Gram-positivo, medindo cerca de 0,6 a 1,0 µm de diâmetro. Disposto em cadeias curtas ou longas, dependendo das condições de cultivo. Não forma esporos e não possui flagelos, sendo propriedade. Parede Celular: Composta por peptidoglicano espesso, conferindo rigidez estrutural e resistência à lise osmótica. Possui um antígeno específico do grupo A, um polissacarídeo C ligado ao peptidoglicano. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Cápsula de Ácido Hialurônico: Atua como fator de virulência, impedindo a fagocitose dos neutrófilos. Como o ácido hialurônico é um componente natural dos tecidos humanos, essa cápsula permite que uma bactéria escape da resposta imune (mimetismo molecular). Membrana Citoplasmática: Composta por uma bicamada lipídica com proteínas transmembranares envolvidas na cartilagem de proteínas e transporte de nutrientes. 3. Fisiologia e Metabolismo Metabolismo: S. pyogenes é uma bactéria facultativamente anaeróbica, ou seja, pode crescer tanto na presença quanto na ausência de oxigênio. Utiliza como principal via metabólica, produzindo ácido lático a partir da glicose. Requisitos Nutricionais: Exige meios de cultura enriquecidos, como ágar-sangue, pois necessita de fatores específicos para crescer. Sensível à bacitracina, o que ajuda na identificação do seu laboratório 4. Fatores de Virulência e Mecanismos de Patogenicidade 1. Proteína M: Principal fator de virulência. Impedir a fagocitose ao inibir a opsonização pelos componentes do complemento (C3b). Interfere na resposta imunológica, sendo um dos alvos do mimetismo molecular, que contribui para a febre reumática. 2. Exotoxinas pirogênicas (Spe A, Spe B, Spe C): São superantígenos que ativam de forma descontrolada o sistema imunológico, causando uma inflamação sistêmica. Associadas a síndromes graves, como febre escarlatina e choque tóxico estreptocócico. 3. Estreptolisinas (O e S): Enzimas hemolisinas que destroem as membranas celulares, causando lise dos eritrócitos e outros tipos celulares. A estreptolisina O é imunogênica, e a presença de anticorpos contra ela (ASLO - Antiestreptolisina O) é um marcador de diagnóstico de infecção recente. 4. Hialuronidase: Degrada o ácido hialurônico dos tecidos, facilitando a propagação de bactérias pelo organismo. 5. DNAses (A, B, C, D): Degradam o DNA do pus, permitindo a evasão do sistema imunológico. A DNase B também é um marcador sorológico de infecção estreptocócica recente. Evolução da Febre Reumática para Complicações Cardíacas A Febre Reumática (FR) é uma doença inflamatória sistêmica que pode levar a complicações cardíacas graves e progressivas, conhecidas como cardite reumática e doença cardíaca reumática crônica (DCRC). Essas complicações resultam de uma resposta autoimune desencadeada pela infecção estreptocócica, que afeta as válvulas cardíacas e pode comprometer permanentemente a função cardíaca. 1. Mecanismos Imunológicos da Cardite Reumática A inflamação cardíaca na FR ocorre devido a um fenômeno de mimetismo molecular entre proteínas do estreptococo do grupo A (Streptococcus pyogenes) e proteínas do tecido cardíaco. Fases do Processo Autoimune: 1. Infecção Estreptocócica Inicial: O S. pyogenes expressa a proteína M, altamente imunogênica, que se assemelha a proteínas cardíacas (miosina, tropomiosina, laminina e vimentina). Isso induz a produção de anticorpos anti- estreptocócicos, que podem atacar os tecidos cardíacos por reatividade cruzada. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 2. Resposta Inflamatória Sistêmica: Ativação de linfócitos T e B → Produção de autoanticorpos e citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6, IL-1). Inflamação no miocárdio, pericárdio e endocárdio, levando à pancardite reumática. 3. Lesão e Fibrose Valvar Progressiva: Com o tempo, a inflamação persistente leva à destruição e cicatrização das válvulas, resultando em estenose e insuficiência valvar crônica. O acometimento valvar pode evoluir para doença cardíaca reumática crônica (DCRC). 2. Cardite Reumática: Manifestações Clínicas e Evolução A cardite reumática ocorre em até 50% dos casos de FR e é a principal causa de morbimortalidade da doença. 2.1 Tipos de Comprometimento Cardíaco A pancardite reumática afeta as três camadas do coração: 1. Endocardite (mais grave) → Afeta as válvulas cardíacas. 2. Miocardite → Inflamação do miocárdio, podendo levar à insuficiência cardíaca. 3. Pericardite → Inflamação do pericárdio, causando derrame pericárdico. 3. Progressão para Doença Cardíaca Reumática Crônica (DCRC) A doença cardíaca reumática crônica (DCRC) é a sequela mais grave da FR, resultante da inflamação persistente e do remodelamento valvar. 3.1 Fatores de Risco para Progressão Surtos repetidos de FR devido à falta de profilaxia secundária. Gravidade da cardite inicial (quanto mais grave a inflamação, maior o risco de sequelas). Aderência inadequada ao tratamento e profilaxia. 3.2 Principais Válvulas Acometidas 1. Válvula mitral (mais comum – 60-80%) Insuficiência mitral → Progride para estenose mitral devido à fibrose valvar. Pode levar a hipertensão pulmonar e fibrilação atrial. 2. Válvula aórtica (segunda mais comum) Insuficiência aórtica → Evolui para estenose aórtica e insuficiência cardíaca. 3. Válvulas tricúspide e pulmonar (raramente afetadas). 4. Complicações Cardiovasculares a Longo Prazo A DCRC pode evoluir para insuficiência cardíaca congestiva grave, arritmias e até necessidade de cirurgia de troca valvar. 4.1 Complicações Específicas Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC) Causada pela sobrecarga volumétrica e pressórica devido à disfunção valvar. Pode exigir uso de diuréticos, inibidores da ECA e beta-bloqueadores. Fibrilação Atrial (FA) Comum na estenose mitral. Pode levar a tromboembolismo sistêmico, aumentando o risco de AVC. Endocardite Infecciosa As válvulas danificadas são mais suscetíveis à infecção por bactérias. Profilaxia antibiótica deve ser considerada em procedimentos invasivos. Hipertensão Pulmonar Desenvolve-se devido ao aumento da pressão atrial esquerda na estenose mitral. Pode levar a disfunção do ventrículo direito e cor pulmonale.