Prévia do material em texto
COTIDIANO DAS RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS Maria Paula Leal* Bianca Machado** Michelly Vieira da Silva*** Acho que o quintal onde a gente brincou é maior que o da A gente só descobre isso depois de grande... (Manoel de Barros) Apesar de o cotidiano, trazer em si algo referente ao que é feito todo dia, ao habitual e corriqueiro, o cotidiano é também o que nos traz surpresas e questionamentos. No trabalho em Residências Terapêuticas, o cotidiano, em alguns momentos, vem na contramão do que é natural ou mesmo habitual. Os recursos destinados, as equipes formadas, os documentos necessários para que cada morador possa ter acesso aos benefícios, e mesmo a política de Saúde Mental, são fatores que possi- bilitam tornar a vida dos moradores (de uma certa maneira) cotidiana. As residências são desdobramentos de muitos trabalhos que acontecem no hospital, nos leitos de longa permanência, nos serviços ambulatoriais, nos CAPS, nas reuniões da intersetorialidade e principalmente na própria coordenação de saúde mental. Programa de Residências Terapêuticas compõe essas dimen- A nossa proposta é abordar um dos detalhes desta questão: o cotidiano das residências. que podemos entender disso, como e por que esse trabalho. En- tendemos aqui, que só podemos falar desse cotidiano a partir da experiência que temos. o que é cotidiano? dicionário diz: aquilo que se faz todos os dias, o que acontece habitualmente. Henri Lefebvre (1969) reflete sobre o tema: o que é ele? É o econômico, ou o psicológico, ou o sociológico, objetos e domínios particulares atingíveis por métodos e diligências específicas. É o alimento, a veste, os móveis, a casa a habitação, a vizinhança, os Há algo específico no cotidiano de uma residência terapêutica que sempre nos remete a uma tensão: é casa ou não. É casa, pois o telefone toca, a campainha toca, a vizinha reclama, o gato da vizinha pula para a casa, a vizinha desvia nossa água, e a um aniversário, os vizinhos estiveram presentes. Mas existe cuidador, Assistente social e coordenadora do Programa de Residências Terapeuticas da Coordena- ção de Saúde Mental de (SRT) assistente técnica do Programa de Residências Terapeuticas da Coordenação de Saúde Mental de (SRT) de psicologia do Programa de Residências Terapeuticas da Coordenação de Saúde Mental de (SRT) 81Maria Paula Leal, Bianca Machado e Michelly Vieira da Silva coordenadora, estagiários. Os moradores não pagam contas de telefone, aluguel e nem luz. que sabemos é a única coisa que não pode ser: Talvez a base de todo trabalho nas residências resida nesse ponto, onde encontramos nos- SOS limites e impasses. Seja com os moradores, seja com a equipe. Como podemos fazer para que o cotidiano da casa pelo menos dê notícias do que é uma casa, do que é viver no território, viver no social? Primeiramente, o nosso trabalho é introduzir os moradores no social. No que é uma casa, no que são as ruas, os bairros, a cidade. Padaria, mercado, cinema, teatro, comprar roupas, relógio, fora. Todas essas atividades, que são tão corriqueiras, precisam ser construídas, mais ainda, precisam de tempo para isso. Tempo de cada um, tempo de trabalho. simples fato de o morador pedir algo processo de sair e comprar cada coisa que se pede -, precisa de um tempo para ser Nesse processo, ocorrem empecilhos, combinações que não se cum- prem, até acontecer a saída. É preciso produzir uma casa. Construir com eles novas significações que permitam estar na cidade. Esse movimento produz novas histórias e relembra an- tigas. Nesse sentido, é preciso que nós estejamos com eles nesses espaços, reco- lhendo histórias e lembranças, mediando o contato, para que assim possam esta- belecer outros laços. Quem está mais próximo do dia-a-dia da casa são os cuidadores. E este é um outro trabalho, também, cotidiano. A coordenação desse projeto precisa estar muito próxima deles seja na casa ou em reuniões Acompanhar o trabalho junto aos cuidadores não é mais fácil do que o trabalho com os moradores. Eles também podem cair na rotina, no seu papel é essencial, pois visa inserir os moradores nos papéis desempenhados nos cuidados da casa, mediando essas tarefas e não fazendo por eles. A questão da rotina se faz nesse momento da e em duas vias. Uma rotina na casa é necessário. Rotina presente de um cotidia- no, rotina dinâmica, do movimento entre eles. Qualquer casa tem a sua. Só a importantes tem de e ser é dos moradores e não dos São detalhes extremamente que preciso que estejamos atentos a eles. assim continuar nesse movimento de mediação. Talvez cada um, e Com os moradores, é preciso suportar esse tempo de mesmo morador mos esteja toda dificuldade, a tensão, nessa relação cuidador- que essa relação é diária, tem mas principalmente o trabalho. Sabe- técnicos ram na casa. Essa troca de afetos é necessária troca de afetos, e não é intenção, criar estejam sam exatamente num lugar esse isso: diferente os laços dos moradores, Entretanto, numa porque posição é preciso esses que moradores os cuidadores que perde- pos- "regular" atenta, para Além disso, inclui os cuidados na com residência as medicações diferente de qualquer casa, o cotidiano ingerindo ou estão jogando (existe na casa está faltando, se estão em as complicações detrimento os cuidados com com a alimentação ou específica com ser 82 do grupo, numa dinâmica de a particularidade de de cada cada casa. um, semcotidiano das residências terapêuticas A rede de cuidados também realiza-se através de dois CAPS. Apesar de es- em constante contato com esses dispositivos, acreditamos que é essencial separarmos tarmos o que é cuidado da casa e o que é tratamento no CAPS. Fazer essa diferença mais uma tentativa de construir essa casa, o morar. Como lidamos com residências, moradores, equipes e territórios diferentes, a construção desse traba- lho e dos projetos terapêuticos também é diferente. Assim, num CAPS, com uma técnica daquele serviço, fazemos reuniões com participação dos cuidadores para discutir os impasses causados pela entrada e inserção de uma moradora na resi- dência. Nesse momento precisávamos de um apoio maior do CAPS, inclusive dentro da casa. Depois de um tempo passamos a discussão dos outros moradores. Essas reuniões são constantemente revistas dependendo da necessidade e do mo- mento em que nos encontramos. Dessas discussões, resultou o acompanhamento por um Acompanhante Do- miciliar, dentro e fora da casa, a um morador para que pudesse acontecer uma aproximação que o levasse ao CAPS, já que ele recusava-se a a uma simples consulta. Como efeito desse acompanhamento, o pedido de uma consulta semanal de "10 minutos" com a sua psicóloga, além de sua inserção em outras atividades como a assembléia e o jornal do CAPS. Em outro CAPS, mais da metade dos moradores, iam ao serviço em dias e horários iguais, sempre acompanhados de um AD. Após nova discussão os proje- tos terapêuticos foram revistos e a equipe da RT foi incluída no acompanhamento do trajeto até o CAPS e a volta a casa, que passou a ser feita de uma outra maneira. Esse é o ponto de partida para movimentar os cuidadores para o acompanhamento fora da casa. A mudança dos projetos parte de um incômodo, de uma sensação de não haver sentido para cada um deles a ida ao CAPS. Assim, criavam-se os cons- tantes pedidos dos moradores de não ir ao CAPS. A partir do momento em eles, que seus projetos terapêuticos são revistos, ao CAPS passa a ter sentido para a pois os mesmos incluem seus interesses. Márcia, muito vaidosa, nunca recusa-se ir ao CAPS na quarta-feira. É claro! É o dia da oficina de beleza! Retornando ao trabalho cotidiano na casa, 20 podemos anos internada falar de Miriam, numa clínica uma das moradoras da casa que, após passar quase contratada, relação aos efeitos de estar numa casa. As mu- nos impressiona com território, danças das significações nas relações com os outros moradores, com detalhes. o Em com o CAPS casa são percebidas aos poucos e em pequenos cuidadora acompa- uma das idas e ao com CAPS, a Miriam entra no ônibus sem que não a saltou, como a era um Entrou ônibus certo para ir ao CAPS, só que da RT) e o Centro ônibus circular, no ficou rodando no ônibus entre o Fonseca (bairro (bairro Noutro do CAPS). dia, na Conta hora o de que saltar, aconteceu: não saiu "Fui do em ônibus. Niterói. A diz: cuidadora "Bora Miriam, chama e... eu motorista que tenho nada. Para hora!" nossa e assim, surpresa, rindo, quem ela salta. intervém Este é é o o mesmo motorista a quem pergunta as horas para saber se vai atrasar na ida ao CAPS. 83Maria Paula Leal, Bianca Machado e Michelly Vieira da Silva Desde que chegou na casa, dizia, todos os dias, que iria embora, que sua viria buscá-la. Sempre pergunto para onde e ela responde a mesma minha casa no Cubango". Um dia na festa do CAPS ela pede para Pergunto para onde, ela responde: "para casa nova". Desde então, não fala mais em in para casa ou que sua irmã irá buscá-la. Consegue a casa e se das atividades diárias, como lavar a louça, participar do fazer as Criando um sentido do que é morar. A frase embora" é algo que ronda a casa de Pendotiba. Todos querem embora. Eles são muito firmes em dizer que ali não é a sua casa. Uma quer in atrás da sua casa no morro, mas após uma ida ao morro onde tentou reaver essa casa, percebe que não será possível e que nesse momento é necessário continuar na RT Outro quer morar sozinho, um projeto em construção com vários fatores que ain- da o impedem, um deles é o receio de perder a referencia e voltar a ser internado "por depressão", chegando a perguntar: "vocês vão me visitar se eu sair daqui?". Ainda tem aquela a repetir que vai voltar para Fundação Leão XIII. E aquele que quer morar com a prima ou quer morrer: "é muito difícil viver sem uma família!". Para cada um é possível um desfecho como resposta. Isso nos faz perceber que a residência, para alguns, pode ser uma passagem breve ou até mais longa, e para outros talvez seja o único lugar possível. Denis da casa há dois anos e às vezes passa o dia de domingo lá. Todos gostam dessa convivência, e isto parece contribuir para eles acreditarem que lá fora existe outra possibilidade. Faz manter a questão da saída da casa presente. Mas também pode- mos perceber nesse movimento, tanto de a casa quanto no vínculo que mantém com a coordenadora do programa, que mesmo após a saída, tanto a casa quanto a equipe e os moradores não deixaram de ser referencias na sua vida. Talvez não fosse possível a saída da casa sem que esta continuasse como uma referência. Esse pensa- mento acaba por orientar-nos quando pensamos na saída de outros Mas para sair é necessário chegar. E como se chega nas residências? São maneiras diversas: Contra tudo e contra todos, a casa nos ajuda a dizer: serei um habitante do mundo, apesar do mundo. (Gaston Bachelard). É a partir de um caso, de chegada à residência terapêutica, que apresentare- mos a importância de podermos estar construindo "a clínica do morar". Antônio marca sua chegada na residência de forma diferenciada, possibili- tando a reflexão sobre cada momento na sua vida, sobre os elementos em seu quadro clínico, e a partir daí indicando a mudança a ser feita no nosso posicionamento, reforçando a idéia de que nosso trabalho precisa estar sob cons- tante reflexão, para ser criativo e aberto à reformulações. A CHEGADA No início de janeiro de 2005, Antonio estava internado na emergência do HPJ e foi através daquele serviço que ocorreu sua apresentação à coordenação do Programa de Residência Terapêutica, pela equipe do CAPS Casa do Largo. 84cotidiano das residências terapêuticas internação havia sido ocasionada por um forte sentimento de solidão, devido Sua às festas de final de ano. Mesmo tendo família, ninguém procurava. Antonio do quarto, pois segundo ela, estava causando problemas. Assim, ao alugava uma vaga na casa de outra paciente do CAPS, mas estava sendo despejado da internação não tinha onde morar. É nessa emergência, clínica e de mora- sair dia. que inicia-se a construção da indicação de morar na residência terapêutica de Pendotiba. Antonio sai de alta e vai à residência acompanhado de um AD para conhecer lugar, os outros moradores e algumas pessoas da equipe. Cada vez que uma indicação é feita, os moradores são comunicados e participam dessa decisão, as- sim essa visita era esperada. Antonio é acolhido com um cafezinho. Mostra-se reservado e de poucas palavras. Um morador já o conhecia e gosta da idéia de ele morar ali. Quatro dias depois, Antonio chega à residência trazendo seus pertences roupas, sapateira (seu armário), uma geladeira velha e uma pequena televisão. Tudo em péssimas condições de uso e de higiene. Aos poucos, vamos percebendo que Antonio parecia não gostar de banho. Durante muitos dias apresenta-se bastante falante: a polícia denunciar e processar Ana. Ela pegou o meu dinheiro". Não conseguia entender por que teria de pagar pelo quarto, nos dias em que ficou internado, por ainda ter seus pertences na casa. Consegue a solidariedade revoltada dos moradores da casa e dos frequentadores do CAPS. Apaixona-se imediatamente por uma das cuidadoras, fazendo pedidos de casamento, chega algumas vezes a não dormir para ficar conversando e olhando para ela. Comemora seu aniversário na casa e a seu pedido é feito bolo e salgadinhos. Seus convidados mais importantes, seus parentes, não comparecem. Antonio fica triste por um bom tempo, dizia não querer mais fazer aniversário. Antonio, de a feira, de 8 às 17hs, com sol, chuva ou frio e frequenta o CAPS. Após uns meses da mudança da direção daquele serviço, logo após a ida de Antônio para a RT, numa reunião de equipe, alguns técnicos do CAPS comentam: "ele não é assim! Depois dessa última internação, Antonio ainda não voltou a ficar bem". Buscávamos maior conhecimento do caso, mas saio daquela reunião com a sensação que continuava sem muitos dados, continu- ava trabalhando na 'urgência'. Depois dessa internação, haveria quantas mais? Se "não é assim" como conhecê-lo? Qual seria o seu outro jeito de ser? Meses depois, Antonio não estava dormindo, falava muito sobre religião, gastava todo seu dinheiro com balas e refrigerante, molhava as plantas em ex- cesso jogando água por fora do muro, implicava com outros moradores e muito atra- vessava a rua sem tomar cuidado, correndo risco de vida. Tinha os As olhos duas equi- vermelhos e uma aparência de cansaço. Acaba por ser internado. con- pes acompanham essa internação, estando muito presentes. A coordenação Elerequeriaum 85Paula Leal, Bianca Machado e Michelly Vieira da Silva Maria trabalho individual.. um tempo de aproximação... só assim poderia quela nova residência... REFLETINDO SOBRE ESSA CHEGADA Diante importantes do trabalho nas Residências Terapêuticas: dos primeiros seis meses de Antonio na RT, podemos apontar alguns aspectos chegada na RT é consenso que a entrada de um paciente na casa siga A orientação: conhecimento prévio, apresentação da história de vida e a seguinte adaptação. caso de Antonio ilustra pela negatividade. O que significaria odo de um paciente sair de um setor de emergência do hospital para uma RT? 0 que para Antonio? E para os outros moradores? E para a equipe cuidadores? significaria para Sabíamos que tratava-se de uma urgência e "a urgência foi tudo" de Sem dúvida para Antonio tudo foi estranhamento: o lugar, as pessoas e a rotina. Ele precisou de um tempo. Aliás, todos nós. trabalho clínico, do CAPS e do morar na clínica do CAPS temos 0 caso como diagnóstico, tratamento, oficinas terapêuticas e culturais, oficinas de gera- ção de renda e o trabalho com os pacientes para que o CAPS constitua-se em um lugar de tratamento. Já a clínica do morar está referida ao habitar, a construção do estar numa casa, a divisão do cotidiano com as mesmas pessoas, a troca de afetos, as preocupações, os segredos e até as fofocas. A casa é lugar do descanso, da intimidade, da proteção e das particularidades. É o espaço da intimidade no que diz respeito aos objetos de pertencimento de cada um, seja de pequeno ou de grande valor. Assim, são guardados nos armários, roupas, retratos, bilhetes, presen- tes recebidos. Nas camas estão os lençóis, fronhas e colchas escolhidas e compradas com dinheiro que recebem por direito de trabalho exercido anteriormente a doença e/ou do Programa de Volta para Casa. A casa é o lugar da atividade doméstica, na residência terapêutica é onde reside uma clínica específica e que deve ser acompa- nhada com muita atenção. trabalho da equipe em uma residência é de mediar e suportar as dificuldades e criar saídas para as situações do cotidiano, tentando am- pliar o projeto de vida de cada morador, mas mantendo o olhar clinico no particular de cada um, de como chega, permanece, se relaciona e constrói a sua morada. As REFLEXÕES DE ANTONIO Do que faz no CAPS: "agora, nada. Fico sentado esperando o almoço, Quanto à visita da família: "não tenho...pelo menos tenho os amigos da resi- sossegado" Primeira internação na casa: "Uma coceira dentro dos miolos, estava desas- Sobre o que é Psiquiatria: "deixa a pessoa fora de si, sem memória, Sobre que "esquecendo da vida... saia andando pelas ruas". 86cotidiano das residências terapêuticas Sobre a nova moradora: "Ela vem da fundação, é metida com polícia. Em um não presta... em cem, um não presta". Sobre seu médico: "ele é meu médico, ele que sabe quando a pessoa está mal". REFERÊNCIAS BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Coleção tópicos) LEFEBVRE, Henri. A vida quotidiana no mundo moderno. ed. Ulisseia. Lisboa, 1969. CADERNOS IPUB. Rio de Janeiro: UFRJ/IPUB, 2006. n. 22. periódicos de pesquisa. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. V. 1, n. 1. 87