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PSICOPATOLOGIA AULA 6 Profª Maria Cecília Beltrame Carneiro 2 CONVERSA INICIAL Daremos continuidade aos estudos dos principais transtornos mentais e seus fenômenos psicopatológicos. Incluiremos um tópico sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), devido à importância e o aumento progressivo na prevalência ao longo do tempo. TEMA 1 – SÍNDROMES ANSIOSAS Primeiramente, vale ressaltar que a ansiedade em si é uma reação adaptativa, ou seja, é uma resposta do corpo para se defender de algum tipo de estressor externo: diante de uma ameaça, o organismo reage aumentando seu ritmo e capacidade de resposta para que este possa se preparar para lutar ou fugir, acionando o sistema nervoso autônomo, como o aumento da frequência cardíaca e respiratória. Quando falamos em ansiedade patológica, essa definição se torna mais subjetiva, com um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, tensão antecipatória ante a um perigo futuro (real ou imaginário). Em relação à definição de medo, ele seria a resposta a um perigo iminente real ou imaginário. Os dois podem ocorrer no mesmo paciente, mas se manifestam de formas diferentes: no medo há maior hiperativação autonômica, necessária para a resposta de luta ou fuga como vimos no parágrafo anterior, e na ansiedade há tensão muscular e hipervigilância, se preparando para um futuro perigo, além de comportamento de cuidado e evitação. Tanto o medo quanto a ansiedade são classificados como transtorno quando são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo ou diferentes do que se observa como normal naquela faixa etária, prejudicando o funcionamento do indivíduo, implicando em comprometimento ocupacional, social e acadêmico, sofrimento emocional considerável e perda considerável de tempo do dia em respostas de esquiva e evitação. Nos quadros ansiosos ocorre uma exaltação do afeto, oscilação da atenção, hipomnésia anterógrada, aumento da velocidade da fala e do pensamento e diminuição da latência da resposta e ainda são comuns as de insônia, alteração do apetite e aumento da atividade motora. 3 Para a consideração de tratamento (seja psicoterápico e/ou farmacológico), deve-se levar em conta os fatores estressores desencadeadores, além das características individuais do sujeito. As síndromes ansiosas ocorrem em condições estressantes variadas, corriqueiras na rotina de um profissional de saúde, como associadas a doenças clínicas, situações de violência, na vigência de uso de medicamentos ou drogas e comórbidas com outros transtornos mentais. 1.1 Características Resumidamente, podemos caracterizar as síndromes por "grupos de sintomas”. Conforme Sampaio e Lotufo Neto (2019), eles podem ser divididos em: sintomas psíquicos (tensão, nervosismo, apreensão, mal estar indefinido, insegurança, dificuldade de concentração, sensação de estranheza ou despersonalização e desrealização etc.) comportamentais (p.ex. inquietação, sobressaltos, evitação) e sintomas somáticos, que podem ser divididos em: autonômicos (taquicardia, vasoconstrição, suor, aumento de peristaltismo intestinal, taquipneia, piloerecção, midríase); musculares (dores, contraturas, tremores); cenestésicos (parestesias, calafrios, adormecimentos, ondas de calor); respiratórios (sensação de afogamento ou sufocação, dispnéia). 1.2 Exame do estado mental Nos quadros ansiosos, podemos observar expressão facial tensa, preocupada ou amedrontada. A tensão muscular pode ser mais intensa nos músculos cervicais do pescoço e na musculatura da face. Em episódios agudos de ansiedade, ocorre uma descarga intensa do sistema nervoso autônomo: na descarga simpática, há a reação de lutar ou fugir, com manifestações físicas como a vasoconstrição cutânea, palidez da face e midríase (dilatação das pupilas), podendo haver ereção dos pelos, aumento da frequência cardíaca, sudorese e tremores das extremidades, sensação de sufocamento e/ou aumento da frequência respiratória. A voz pode ficar hesitante, o que pode tornar a compreensão da fala difícil (Dalgalarrondo, 2019). 1.3 Classificação dos transtornos São estados de ansiedade patológica repetitivos, persistentes e que causam prejuízos. As classificações atuais consideram os seguintes quadros 4 nosológicos como transtornos ansiosos (Sampaio e Lotufo Neto, 2019): transtorno de pânico ou ansiedade episódica paroxística, transtornos fóbico- ansiosos (fobias específicas ou isoladas, agorafobia, fobias sociais), transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade devido a uma condição física ou uso de substância psicoativa e transtorno de ansiedade sem outra especificação. A síndrome ansiosa é encontrada principalmente no transtorno de ansiedade generalizada e no transtorno de pânico, mas pode ocorrer também nos outros transtornos de ansiedade e em diversos outros transtornos mentais, como a esquizofrenia e a depressão. Outras causas da síndrome de ansiedade são: abstinência de nicotina, benzodiazepínicos ou opioides; intoxicação por cafeína, simpaticomiméticos ou estimulantes; hipertireoidismo; hipoxia; hipoglicemia; epilepsia do lobo temporal; e isquemia cerebral, conforme lista Cheniaux (2015). No transtorno de ansiedade generalizada, a ansiedade é crônica e praticamente contínua, sem picos ansiosos bem delimitados, as preocupações são persistentes e excessivas acerca de vários domínios, incluindo desempenho no trabalho e escolar e as quais o paciente encontra dificuldade em controlar. As manifestações mais comuns e que fazem parte dos critérios diagnósticos são os sintomas físicos, incluindo inquietação ou sensação de “nervos à flor da pele”; fatigabilidade; dificuldade de concentração ou “ter brancos”, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono (American Psychological Association, 2014). Já no transtorno de pânico, há episódios bem delimitados e recorrentes de ansiedade, que são de grande intensidade e que duram apenas alguns minutos, os chamados “ataques de pânico”. Estes ataques constituem-se de vários sinais e sintomas físicos que ocorrem simultaneamente e de maneira intensa, como palpitação, dor no peito, falta de ar, vertigem, sensação de desmaio, tremor, ondas de calor ou calafrios, náuseas e formigamento. Pode ocorrer também a despersonalização, como comentamos anteriormente. Os ataques de pânico são tão intensos que o indivíduo apresenta medo de morrer, de enlouquecer ou de perder o controle sobre seus atos. Em função das alterações cardiorrespiratórias, muitas vezes acredita estar tendo um infarto (APA, 2014). A síndrome fóbica é sempre direcionada a um objeto, atividade ou situação específica e a reação é desproporcional a este e, se for criança ou adolescente, a reação pode ser desproporcional ao esperado na faixa etária; medo, ansiedade ou esquiva são quase sempre imediatamente induzidos pela 5 situação fóbica, até um ponto em que são persistentes e fora de proporção em relação ao risco real que se apresenta. Existem vários tipos de fobias específicas: a animais, ambiente natural, sangue-injeção-ferimentos, situacional e outros. Uma forma bem específica de fobia é a agorafobia, que consiste em um comportamento de esquiva em relação a lugares ou situações em que a fuga seria difícil ou embaraçosa, ou que o socorro poderia não ser disponível, caso o indivíduo apresente um ataque de pânico. O paciente pode evitar passar por túneis ou pontes, andar de trem, metrô ou avião, estar no meio de uma multidão ou em uma fila. Em casos mais graves, recusa-se a ficar sozinho ou não sai mais de casa. Outra forma de fobia é a ansiedade social (anteriormente chamada fobia social), que se caracteriza por um medo persistente, excessivo e incapacitante de agir em situações sociais como encontrar-se com pessoas que não lhe são familiares, situações em que oindivíduo pode ser observado comendo ou bebendo e situações de desempenho diante de outras pessoas. A distorção cognitiva associada é a de ser avaliado negativamente por terceiros. A exposição a essas situações sociais produz uma reação física imediata de ansiedade e, assim, são geralmente evitadas. Pessoas com ansiedade social são muito sensíveis às reações e expressões faciais dos outros, sobretudo de mínimos sinais negativos, percebidos de forma exagerada em indivíduos considerados como “importantes” ou dotados de significação “superior”. Os indivíduos com ansiedade social vivem em frequente estado de hipervigilância. Já as síndromes do espectro obsessivo-compulsivo ganharam classificação própria, que veremos a seguir. Os transtornos decorrentes de situações traumáticas, como o transtorno por estresse pós-traumático, também deixaram de fazer parte dos transtornos ansiosos, pois suas manifestações clínicas são distintas e faz parte dos critérios diagnósticos que o paciente tenha vivenciado situação de ameaça à sua vida ou a de terceiros. TEMA 2 – SÍNDROME OBSESSIVO-COMPULSIVAS (SOCs) No Brasil, segundo dados apresentados em Dalgalarrondo (2019), estudos epidemiológicos nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro revelaram a presença de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), nos últimos 12 meses da referida pesquisa, em 2,8 a 3,9% da população (casos graves em 42,5% dos casos) e, pelo menos uma vez na vida, em 3,6 a 4,1%. Os quadros obsessivo- compulsivos dividem-se em três subtipos básicos: aqueles nos quais 6 predominam as ideias obsessivas, os predominam os comportamentos compulsivos (mais comum em crianças) e, mais frequentemente, observamos as formas mistas. 2.1 Entrevista e exame do estado mental nas SOCs Nas SOCs, segundo Cheniaux, (2015): podem ocorrer ideias obsessivas (alteração do conteúdo do pensamento) e/ou comportamento compulsivo (alteração da vontade). As ideias obsessivas se apresentam de forma recorrente (há perseveração do pensamento) e são vivenciadas como absurdas, irracionais, sem sentido, repulsivas, desagradáveis ou ansiogênicas. Elas invadem a consciência do indivíduo contra a sua vontade, produzindo assim uma luta interna ou resistência contra elas, o que denominamos de pensamentos intrusivos. Eles são reconhecidos pelo indivíduo como produto da sua própria mente e não impostas a partir do exterior. São exemplos de ideias obsessivas: dúvidas (se trancou a casa, se desligou o gás, se executou uma tarefa de forma completa ou perfeita), preocupação com contaminação (maçanetas, banheiros, dinheiro), imagens de conteúdo agressivo, assustadoras, presságios quanto a tragédias, de cunho religioso, obsceno e pensamentos ou imagens sem sentido (números, letras, músicas). Os atos compulsivos são comportamentos repetitivos e intencionais, na maioria das vezes realizados em resposta a uma ideia obsessiva. Ocorrem de acordo com certas “regras” ou de uma maneira estereotipada. O comportamento objetiva neutralizar ou prevenir desconforto ou evitar algum evento ou situação pavorosa. As compulsões mais observadas envolvem rituais de contagem, verificação, limpeza, arrumação, tocar em objetos e há também as compulsões ou rituais mentais – como repetir mentalmente números, frases etc. O ato compulsivo muitas vezes não tem relação lógica com o pensamento e, assim como as ideias obsessivas, o paciente também tem a noção de que é irracional e tenta fazer algum esforço para resistir em executá-lo, mas, ao longo do tempo isso vai se tornando cada vez mais difícil – por exemplo: vem à mente do paciente um pensamento repetitivo de algum familiar seu vai morrer, e que tal situação só será evitada se bater em um objeto determinado 5 vezes seguidas; outro exemplo é somar os algarismos das placas de todos os automóveis na rua até que uma soma resulte num múltiplo de nove, “uma regra” o que “assegura” que nada de mal irá ocorrer. Em outros casos estão interligados, por exemplo, o medo relacionado com contaminação/doenças leva a um ritual de limpeza excessiva e repetitiva. Outros achados do exame do estado mental nestes pacientes podem ser a rigidez da atenção (o foco permanece apenas na ideia obsessiva) e 7 minuciosidade. O insight da doença, ou seja, a noção da morbidade, está preservado, embora em alguns casos mais graves possa estar prejudicado. 2.2 Principais transtornos associados Os quadros obsessivos compulsivos são mais característicos do transtorno obsessivo compulsivo e síndrome de Tourette (que é um transtorno de tique), podendo surgir na esquizofrenia e na depressão. O padrão de comportamento compulsivo ocorre também no transtorno por uso de substâncias, na cleptomania, no jogo patológico e na tricotilomania (estes fazem parte da classificação de síndromes impulsivas – capítulo específico também no DSM-5, para que você possa estudar e diferenciar das SOCs). TEMA 3 – SÍNDROMES PSICÓTICAS Neste tópico iremos focar principalmente na esquizofrenia, pois sua prevalência é em torno de 1% da população mundial. Com relação à idade de início, o pico de incidência se dá em torno de 20-25 anos e as mulheres desenvolvem a doença em média cinco anos mais tarde que os homens e apresentam ainda um segundo pico de incidência dos 45 aos 49 anos. A susceptibilidade à esquizofrenia é multifatorial e um dos mais marcantes é a predisposição genética. Segundo Sampaio e Lotufo Neto (2019), estudos indicam que “complicações na gestação, desenvolvimento fetal anormal e complicações no parto (como hipóxia) são fatores de risco para esquizofrenia. O uso de cannabis está associado ao desencadeamento de sintomas psicóticos em indivíduos normais e à piora dos sintomas em pacientes com esquizofrenia”. Estudos de neuroimagem e neuropatologia identificaram de forma consistente redução do volume cerebral total e do volume de substância cinzenta, alargamento dos ventrículos e redução de estruturas como áreas mediais dos lobos temporais, do córtex pré-frontal e do tálamo. 3.1 Características principais da esquizofrenia A apresentação clínica pode ser dividida nas seguintes dimensões (aqui resumidas de acordo com Sampaio e Lotufo Neto, 2019). 1. Sintomas positivos: delírios e alucinações. 8 2. Sintomas negativos: embotamento afetivo, diminuição da motivação, isolamento social, empobrecimento do pensamento. 3. Sintomas cognitivos: déficits de memória, de atenção e de funções executivas. 4. Sintomas de humor: sintomas depressivos ou sintomas maníacos e ansiedade. 5. Sintomas de desorganização: desorganização do pensamento e comportamento, afeto inapropriado ou incongruente. 3.2 Critérios segundo o DSM V É necessário que o paciente apresente pelo menos dois dos sintomas característicos (delírios, alucinações, desorganização de discurso, desorganização de comportamento ou sintomas negativos), por pelo menos 1 mês. Além disso, um mínimo de seis meses de sintomas ainda que atenuados (ou apenas sintomas negativos) e declínio no nível de seu funcionamento global (dificuldades ocupacionais, sociais e acadêmicas). É necessário diferenciar os sintomas que se devam a alguma condição médica, uso de substâncias e transtornos do humor dos sintomas psicóticos. A esquizofrenia é uma doença grave e crônica, com surtos recorrentes e não há, de modo geral, remissão completa dos sintomas após a estabilização dos surtos. O curso da doença é dividido em três fases: fase pré-mórbida, fase de sintomas psicóticos e fase crônica, em que há graus diversos de prejuízos funcionais e cognitivos. 3.3 Entrevista e exame do estado mental na esquizofrenia Indivíduos esquizofrênicos apresentam insight muito prejudicado em relação aos seus sintomas. Diferenciar a esquizofrenia de outros transtornos mentais psicóticos graves pode ser difícil em um primeiro momento: as manifestações psicopatológicas variam muito entreos pacientes e ao longo do curso da doença, além dos déficits cognitivos também apresentarem grande amplitude considerável. De forma geral, podemos observar as seguintes alterações no EEM. • Atitude: nos quadros em que predominam os sintomas negativos ou na catatonia, pode haver indiferença em relação ao interlocutor e à 9 entrevista. Nos quadros paranoides, observa-se uma atitude suspicaz, hostil, querelante, ou de fuga. • Atenção: paciente em psicose aguda podem se distrair com qualquer estímulo externo. Já em casos de sintomas negativos predominantes, a atenção pode estar globalmente diminuída, devido à apatia e desinteresse. Podemos suspeitar de atividade alucinatória no momento da consulta se ocorrer uma rigidez ou labilidade da atenção. Nos casos em que há delírios persecutórios, a atenção espontânea costuma se intensificar. • Sensopercepção: apresenta grande riqueza alucinatória, predominando as alucinações auditivas, e o paciente pode descrever vozes que dialogam entre si, vozes depreciativas sobre o paciente ou que ordenam algo. • Memória: segundo Cheniaux (2015), “é possível surgir uma hipomnésia de fixação, devido ao embotamento e desinteresse quanto ao mundo externo, ou quando há agitação psicomotora importante. Há uma hipermnésia seletiva em relação a eventos que possa julgar como relacionados a seus delírios e uma hipomnésia para aqueles que os contradizem. Ainda podem ocorrer alomnésias (memorias distorcidas de eventos passados) e paramnésias (“recordar” fatos que na verdade nunca ocorreram, como se criasse memorias “novas” do passado). Estudos atuais baseados em avalições neuropsicológicas têm mostrado que alguns esquizofrênicos podem apresentar alterações de memória semelhantes às encontradas nas demências”. • Linguagem: podemos observar as alterações como mussitação, solilóquio, jargonofasia, neologismos, maneirismos, pararrespostas e até a aprosódia completa. • Conteúdo do pensamento: é quase que característico o delírio bizarro, com um conteúdo impossível. Pode ser primário (quando intuitivo) ou secundário (à atividade alucinatória). • Inteligência: há uma deterioração intelectual, relacionada às alterações formais e empobrecimento do pensamento e os sintomas psicóticos também pode prejudicar o desempenho cognitivo. Atualmente, estudos também deterioração cognitiva na esquizofrenia seja primária e relacionada diretamente a alterações estruturais no cérebro. 10 • Volição: a hipobulia é considerada um sintoma negativo da esquizofrenia, mas também podem ocorrer atos impulsivos, suicídio, negativismo e obediência automática. • Psicomotricidade: podem manifestar apraxia, catatonia, agitação (que reflete a desorganização do pensamento, sem relação com estímulos do ambiente) e maneirismos. • Afetividade: O embotamento afetivo é um dos sintomas negativos principais da esquizofrenia. Em quadros delirantes francos ou de agitação psicomotora o afeto de tônus ansioso pode prevalecer, caracterizando uma hipertimia. Podem ser encontradas também rigidez afetiva, paratimias, ambitimias e neotimias (adaptado de Cheniaux, 2015). 3.4. CNV na esquizofrenia No caso da esquizofrenia, dividimos os CNVs nos momentos agudos e crônicos do transtorno. Nos estados agudo, principalmente nos estágios iniciais da esquizofrenia, podemos identificar gestos e movimentos faciais denotando um estado de medo e desconfiança ou perplexidade relacionados às vivências paranoides como delírio de perseguição e vozes ameaçadoras (alucinações auditivas). Além disso, neste momento, é frequente que o paciente se apresente com desorganização mental e comportamental, até mesmo em atividades de vida diária, como alimentação e higiene pessoal, em posturas bizarras de repouso, e na interação social. Nos quadros já crônicos, identificamos uma diminuição da expressão afetiva, desde uma indiferença afetiva discreta até o embotamento afetivo. Pacientes esquizofrênicos têm dificuldade em expressar emoções tanto negativas como positivas; ainda podem apresentar estereotipias faciais com caretas, piscamento dos olhos e movimentos orofaciais repetitivos. A prosódia também está diminuída. Estes pacientes também tendem a “apresentar distorção na interpretação da interação social do interlocutor: em quadros paranoides observam em detalhes a mímica e da voz dos outros (que, muitas vezes, emitiram apenas sinais neutros), sinais ameaçadores, com conteúdo de desprezo, ameaça ou condenação em relação a eles” (Dalgalarrondo, 2019). 11 3.5 Outros transtornos psicóticos São o transtorno psicótico breve (presença de sintomas psicóticos já descritos) por um período de 1 dia a 1 mês, sem a presença de sintomas residuais após sua remissão; transtorno esquizofreniforme (que tem duração maior que um mês e menor que seis meses); já no transtorno delirante persistente, a definição é dada pela recorrência de ideias delirantes, com duração de pelo menos um mês, e a ocorrência de alucinações táteis e olfativas; o transtorno esquizoafetivo, que consiste em episódio de alteração de humor (depressão e/ou mania) somados aos sintomas psicóticos característicos da esquizofrenia e em que, obrigatoriamente, o paciente deve apresentar um intervalo de pelo menos duas semanas no qual os sintomas psicóticos estão presentes e os sintomas de humor estão ausentes. Por último, os transtornos de personalidade do cluster A podem ser confundidos com esquizofrenia – paranoide, esquizoide e esquizotípico – pois nos dois primeiros observam-se crenças idiossincráticas similares aos delírios e no transtorno de personalidade esquizoide há um comportamento de isolamento social importante (Sampaio e Lotufo Neto, 2019). TEMA 4 – SÍNDROMES RELACIONADAS AO COMPORTAMENTO ALIMENTAR A conduta alimentar envolve sensações básicas de fome, sede e saciedade e os transtornos alimentares, por sua vez, são caracterizados por perturbação persistente no comportamento alimentar com prejuízos psíquicos e físicos. Além da relação com o hipotálamo (centro da saciedade) e várias estruturas límbicas e corticais, mediadas por substâncias como a insulina, a leptina e a grelina, mudanças sociais e culturais também contribuem para o aumento da prevalência de casos mundo afora. Neste quarto tema, daremos preferência aos transtornos mais frequentes: anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar. 12 4.1 Anorexia Nervosa Anorexia Nervosa (AN) é um transtorno alimentar no qual as três características essenciais são a restrição persistente da ingesta calórica, medo intenso de ganhar peso e perturbação na percepção da própria forma e peso. A prevalência da AN na população é de cerca de 0,5 a 1%. Dentre todos os transtornos psiquiátricos, a AN é a responsável pela maior morbimortalidade, sendo que metade das mortes em pacientes com AN ocorre por suicídio e o restante por complicações clínicas decorrentes do quadro, principalmente por arritmias cardíacas. Os critérios diagnósticos, segundo o DSM V (APA, 2013) são os que se seguem. 1. Restrição persistente da ingesta calórica levando ao baixo peso corporal significativo (relacionado àquilo que é minimamente esperado para idade, sexo, desenvolvimento e saúde física). 2. Medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persis- tente que interfira no ganho de peso (apesar do significativo baixo peso). 3. Distúrbio na maneira que o indivíduo experiencia seu peso ou forma corporal, influência indevida do peso e forma corporal na autoavaliação ou falta de reconhecimento do risco do baixo peso atual. Subtipos: tipo restritivo e purgativo (com compulsão alimentar). 4.2 Bulimia Nervosa A Bulimia Nervosa (BN) é definida por episódios recorrentes de compulsão alimentar, com ingestão de grande quantidade de alimentos em determinado período, juntamentecom um sentimento de falta de controle, além de comportamentos compensatórios inapropriados, para impedir o ganho de peso. A autoavaliação destes pacientes é influenciada pelo peso e pela forma corporal, com prejuízos sociais e funcionais. A prevalência de BN varia entre 1,1% e 4,2% e as comorbidades são frequentes, como depressão, transtornos ansiosos, abuso de substâncias e transtornos de personalidade. Segundo o DSM V (APA, 2013): um episódio de compulsão alimentar é caracterizado por: 1. comer em um pequeno período (intervalo de 2 horas) uma quantidade de comida definitivamente maior que a maioria das pessoas comeria durante o mesmo tempo e em circunstâncias parecidas; 13 2. sensação de perda de controle alimentar durante o episódio (sensação que o indivíduo não consegue parar de comer ou não controla “o quê” nem quanto come). Comportamento compensatório inapropriado buscando prevenir ganho de peso como, por exemplo, vômitos autoinduzidos; uso inadequado de laxativos, diuréticos ou outros medicamentos; jejum ou exercício excessivo. A compulsão alimentar e a compensação inapropriada ocorrem, em média, uma vez por semana em período mínimo de 3 meses. Autoavaliação é indevidamente influenciada pelo peso e forma corporal. O distúrbio não ocorre exclusivamente durante episódios de Anorexia Nervosa. 4.3 Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA) Resumidamente, a TCA é caracterizada por (APA, 2014): “episódios recorrentes de compulsão alimentar, nos quais o paciente ingere uma grande quantidade, com sensação de falta de controle, come mais rapidamente que o normal e até se sentir desconfortavelmente cheio. Pode comer grandes quantidades de alimento sem a sensação de fome e pode ficar com vergonha e comer sozinho”. Após o episódio, é comum se sentir culpado ou triste. Para diagnosticarmos o TCA, é necessário que as compulsões alimentares ocorram com frequência média de 1 vez por semana durante um tempo mínimo de 3 meses. Destacamos que no TCA não são utilizados métodos compensatórios, característica que o distingue da BN. TEMA 5 – TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo Sampaio e Lotufo Neto (2019), é caracterizado por “prejuízo nas habilidades sociais, déficit na comunicação verbal, comportamentos repetitivos associados a interesses restritos”. Sobre a prevalência, os autores indicam que ela: varia entre os estudos, mas é estimada em 30-100 para cada 10.000 pessoas, afetando 3-5 homens para cada mulher. Sua origem é multifatorial e tem grande influência de componentes genéticos, com taxa de herdabilidade estimada em 50 a 90%. Sobre os fatores de risco, os autores notam que normalmente “englobam uma história de familiar positiva em primeiro grau, doença congênita no paciente e idade parental (mãe ou pai) acima de 40 anos, exposição a determinadas substâncias químicas, deficiência de vitamina D ou de ácido fólico, infecções maternas, uso de ácido valpróico durante a gestação, prematuridade (abaixo de 35 semanas) e baixo peso ao nascer (apresentam com frequência comportamentos repetitivos (estereotipias motoras), como balanceio do tronco, andar na ponta dos pés, balançar as mãos como bater asas (flapping), emissão de ruídos e estalos com a boca ou mãos. Apresentam déficit em expressar seus interesses e conquistas para os outros. Podem ter dificuldade em compartilhar o que estão fazendo, chamar para fazer uma atividade junto ou demonstrar quando querem ou necessitam de algo (apontar um objeto, por exemplo). Em relação à voz e aos elementos sonoros da comunicação verbal, pacientes com TEA nível leve apresentam o desenvolvimento da fala e da linguagem, mas tendem a apresentar uma voz com prosódia monótona, com volume alto ou baixo ou ainda a entonação se assemelhar à de personagens de desenho animado ou à de um robô. Outra observação marcante são os déficits no reconhecimento facial e da expressão emocional pela mímica facial, os quais não correspondem a um simples atraso no desenvolvimento, mas tendem a ser persistentes (sobretudo naqueles que não recebem tratamento especializado e adequado). Ao que parece, o reconhecimento de emoções mais complexas, como orgulho ou constrangimento, é bem mais difícil que o de emoções simples, como alegria e tristeza (McGee; Morrier, 2003). Nas últimas décadas, com o desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais específicas (como Análise do Comportamento Aplicada [ABA]), tem sido verificado que alguns aspectos das dificuldades comunicacionais das pessoas 17 com TEA podem ser adaptados com a elaboração de estratégias alternativas ou originais para incrementar e melhorar a qualidade da interação e da comunicação (Dalgalarrondo, 2019). NA PRÁTICA Aqui usaremos como exemplo um caso clínico, recolhido por Sampaio e Lotufo Neto (2019): Um jovem de 18 anos é levado ao setor de emergência pelos amigos depois de ter iniciado uma briga com um deles e ficado inconsciente com um soco recebido. Ao recuperar a consciência, afirma que estava brigando pela “liberdade do mundo” e que “as vozes em sua cabeça” lhe disseram que os amigos tinham a chave para vencer essa batalha. Irritável e agitado, perambula pelo setor de emergência. Não consegue ficar sentado ao ser entrevistado, preferindo ficar em pé e de costas para a porta enquanto é entrevistado. Seus amigos relatam está mais isolado e a piora do rendimento acadêmico nos últimos 8 meses. Relatam que seu humor ficou irritável somente nos últimos dias. Os resultados do screening toxicológico são negativos, exame físico sem alterações, embora este último tenha sido limitado devido a sua pouca colaboração. Qual diagnóstico é o mais provável para esse paciente? Na sequência, alguns pontos para a discussão: “o paciente está apresentando um típico episódio de psicose, que parece ter aumentado gradativamente com o surgimento de paranoia (ficar em pé com suas costas para a porta enquanto fala com o médico) e irritabilidade extrema, o que pode nos levar, nos passos seguintes, descartar (sempre!) se o mesmo apresenta sintomas de mania psicótica ou uma evolução já estabelecida de esquizofrenia (pela duração das alterações de comportamento e faixa etária de risco)”. Recomendamos um vídeo bem didático sobre sinais precoces de TEA, comparando o desenvolvimento de uma criança neurotípica e uma atípica. Já nos primeiros anos de vida, é possível rastrear possíveis sinais e sintomas. O vídeo pode ser acessado pelo link a seguir. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2021. FINALIZANDO Primeiramente queremos parabenizar você, que chegou até o final desta aula. Estudar e continuar se atualizando sobre psicopatologia e as principais síndromes é essencial, é a base para a boa prática clínica. Ter esse 18 conhecimento bem sedimentado garante que você será bem-sucedido na sua prática clínica, independente da área de atuação que escolher. 19 REFERÊNCIAS AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. Bringing the Early Signs of Autism Spectrum Disorders Into Focus. Jenna Diaz. 29 de agosto de 2013. Disponível em: . Acesso em: 29 set 2021. CHENIAUX JUNIOR, E. Manual de psicopatologia / Elie Cheniaux. - 5. ed. - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015. DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais [recurso eletrônico], 3. ed. Porto Alegre :Artmed, 2019. SAMPAIO, L. A. N. P. C.; LOTUFO NETO, F. (editores). Psiquiatria - O Essencial. 1a edição. São Paulo: Edimédica, 2019.