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FORMAÇÃO DOCENTE PARA A DIVERSIDADE 1. EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS HUMANOS Estudar o processo educativo requer, antes de tudo, compreender que a Educação é uma atividade que envolve seres humanos e esses devem ser considerados como detentores de direitos e deveres. Em relação a esses direitos, é interessante ressaltar que os Direitos Humanos é um conjunto de ações necessárias para o bem estar social dos integrantes de uma determinada sociedade, de modo que a convivência seja harmônica e privada de qualquer forma de violência. Pensar em Direitos Humanos é pensar em uma gama de possibilidades necessárias e fundamentais para a vivência em sociedade, e isso inclui Educação, Saúde, Saneamento Básico, Assistência Social, Segurança, Alimentação, dentre outras possibilidades que garantem o mínimo para a sobrevivência das pessoas. Outro aspecto interessante que está intimamente relacionado com os Direitos Humanos, é o fato de que as diferenças entre as pessoas não podem ser instrumento de qualquer forma de violência. Muito pelo contrário: as diferenças é o que compõem os seres humanos e devem ser respeitadas, reconhecidas e consideradas no processo formativo de cada pessoa, de modo que esse indivíduo não sofra qualquer retaliação por conta de suas características singulares. Nesse sentido, a primeira unidade desse livro busca discutir, em um primeiro momento, o que vem a ser os Direitos Humanos; posteriormente, o texto busca enfatizar a discussão da Educação em uma perspectiva dos Direitos Humanos. 1.1. DIREITOS HUMANOS Para darmos início a essa discussão, é primordial entender que os Direitos Humanos, de acordo com Arendt (1979), são frutos de um passado e de um presente, construídos a partir de lutas e ações sociais. Portanto, o debate acerca dos Direitos Humanos perpassa um debate histórico, cultural e social. Figura 01 - Direitos Humanos. Fonte: Tocantins (2016). Ressalta-se que até o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não havia menção aos Direitos Humanos ou aos direitos das minorias (ou grupos fragilizados) (HÖFLING, 2001). Esse tema entrou em cena no ano de 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 1948). Esse documento, adotado por 192 países (incluindo o Brasil), apresenta 30 artigos relacionados ao bem-estar social e conjunto entre as pessoas (DUDH, 1948), servindo, principalmente, para que todos tenham garantidos direitos básico à sobrevivência. No final da Segunda Guerra Mundial, expõe Claude (2005), o mundo estava em ruínas, dilacerado pela violência internacional, da Polônia às Filipinas, da tundra aos trópicos. A discussão sobre a importância da Educação como fator indispensável para a reconstrução do pós-guerra emergiu nos primeiros trabalhos da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Esse órgão foi criado em 1946, pelo Conselho Econômico, Social e Cultural da entidade, para elaborar recomendações que promovessem o respeito e a observância dos direitos humanos, partindo da teoria não comprovada de que os regimes que respeitam os direitos humanos não guerreiam com outros regimes similares. A partir dos estudos sobre a DUDH (1948), é preciso enfatizar que os Direitos Humanos também apresentam contradições. Comparato (1997, p. 01) faz uma discussão acerca do assunto quando infere que [...] de um lado, o Estado do Bem-Estar Social do segundo pós- guerra pareceu concretizar, definitivamente, o ideal socialista de uma igualdade básica de condições de vida para todos os homens. De outro lado, no entanto, a vaga neoliberal deste fim de século demonstrou quão precário é o princípio da solidariedade social, base dos chamados direitos humanos da segunda geração, diante do ressurgimento universal dos ideais individualistas. Nessa mesma trajetória, Neves (2005, p. 03) vai além na discussão relacionada às críticas e limites da DUDH, pois [...] de um lado, [a DUDH] serve à afirmação e realização generalizada de direitos relacionados com a inclusão jurídica em condições de dissenso estrutural; de outro lado, atua como forma de manipulação política, seja para encobrir situações de carência de direitos, seja, mais bruscamente, para dar ensejo à opressão política, implicando, nesse caso, ofensas escandalosas aos próprios direitos humanos de amplas parcelas da população civil inocente. Assim, é possível afirmar que, de acordo com Comparato (1997) e Neves (2005), os Direitos Humanos respondem às exigências sociais de autonomia das várias esferas de comunicação e de discursos, com ênfase para a manutenção da ordem social. Mesmo considerando os aspectos contraditórios apresentados acerca das discussões sobre os Direitos Humanos, é importante considerá-los, sobretudo porque é uma das bases acessíveis para a tentativa de buscar humanizar as relações sociais. Nesse sentido, o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, apresenta que ninguém pode sofrer qualquer tipo de violência quando apresenta o seguinte texto: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (DUDH, 1948, art. 1, grifos do autor). O documento expressa que as pessoas devem viver harmoniosamente em espírito de fraternidade, o que dá vazão para o fato de que crianças e adolescentes não podem sofrer violências, por exemplo. Em uma interpretação simples, o Minidicionário Escolar da Língua Portuguesa apresenta que fraternidade se remete à “[...] harmonia, amizade, concórdia” (BUENO, 2010, p. 227). No terceiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos é exposto que “[...] todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” (DUDH, 1948, art. 3, grifos do autor). A segurança pessoal pode ser entendida como a convivência longe das violências, fica evidente que é crime para crianças e adolescentes – ou qualquer outra pessoa, de qualquer classe, etnia, orientação sexual, posicionamento político, condição de saúde etc. – sofrerem agressões sexuais. O texto chama a atenção que “[...] ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos crueis, desumanos e degradantes” (DUDH, 1948, art. 5, grifos do autor). Assim, sofrer agressão sexual é um ato desumano e degradante, esse fato, por si só, deve ser combatido socialmente. O que está manifestado na referida Declaração, inclusive no artigo vigésimo segundo, é que “[...] toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social” (DUDH, 1948, art. 22, grifos do autor). Figura 02 - Tortura é crime. Fonte: Uipi (2013). Por fim, a Declaração Universal dos Direitos Humanos expõe em seu vigésimo quinto artigo que “[...] a maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam a mesma proteção social” (DUDH, 1948, art. 25). Esse artigo, específico sobre maternidade e infância, garante que esse público tenha acesso à proteção especial. A infância necessita de proteção especial por ser um grupo vulnerável; para Costa e Bigras (2007, p. 1102), “[...] este importante segmento da população é mais vulnerável porque é formado de indivíduos ainda imaturos para enfrentar sozinhos as exigências do ambiente”. Assim, a infância precisa ser tutelada – além da família – pelos organismos que compõem a sociedade, buscando sempre o cuidado e o amparo, garantindo as necessidades básicas de sobrevivência: alimentação, saúde, educação, lazer, saneamento, proteção etc. INDICAÇÃO DE FILME Nome do Filme: A lista de Schindler Direção: Steven Spielberg Local e ano: EUA, 1993 Principais temas a serem debatidos: Direitos Humanos Sinopse: A história real ronda em torno do alemão Oskar Schindler, que viu na mão- de-obra judia uma solução barata e viável para lucrar com negócios durante a guerra. Com sua forte influência dentro do partido nazista, foi fácil conseguir as autorizações e abrir uma fábrica (FILMOW, 2016). O que poderia parecer uma atitudeàs discussões de gênero e sexualidade. Carrara et al (2009, p. 102) definem que orientação sexual “[...] refere-se ao sexo que elegemos como objeto de desejo e afeto”. Essa definição é válida, portanto, outros autores expressam que em vez de utilizar a palavra sexo, é mais abrangente utilizarmos a palavra gênero. Então, a orientação sexual, refere-se à atração (ou ausência de atração) pelo gênero ou sexo da outra pessoa. Abaixo, com o objetivo de didatizar, vamos apresentar as cinco principais formas de vivenciar a orientação sexual: Quadro 03 – Definição das diversas orientações sexuais. NOME DEFINIÇÃO ASSEXUALIDADE É a falta de atração sexual a qualquer pessoa de qualquer gênero, ou pequeno ou inexistente interesse nas atividades sexuais humanas. BISSEXUALIDADE É a atração sexual pelo gênero masculino e pelo gênero feminino. HETEROSSEXUALIDADE É a atração sexual pelo gênero oposto ao seu gênero. HOMOSSEXUALIDADE É a atração sexual pelo mesmo gênero que o seu. PANSEXUALIDADE É a atração sexual independente do gênero da outra pessoa. Fonte: Elaborado pelo autor (2018). O quadro mostra as cinco principais manifestações acerca da orientação sexual. Mas, vale destacar que conforme os estudos sobre sexualidade vão avançando, é possível que outras nomenclaturas possam surgir para definir a orientação sexual humana. A partir desse cenário de conceitos, vamos, a seguir, discutir alguns aspectos da formação de professores para o trabalho com as questões voltadas a gênero e sexualidade. 3.2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA AS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE O assunto que vamos debater a partir de agora refere-se à formação de professores para atuarem com os temas relacionados às questões de gênero e sexualidade. Lembramos que o conhecimento que será construído aqui é científico, pautado em documentos e ligados à realidade social brasileira. A vida profissional de um educador inicia-se com uma marca muito forte na vida acadêmica, ou seja, na universidade. Concordamos com Fávero (2011, p. 58) quando aponta que a universidade deve se dedicar a [...] promover o avanço do saber e do saber fazer, ela deve ser o espaço da invenção, da descoberta, da teoria, de novos processos; deve ser o lugar da pesquisa, buscando novos conhecimentos, sem a preocupação obrigatória com sua aplicação imediata: deve ser o lugar da inovação, onde se persegue o emprego de tecnologias e de soluções. Assim, um bom professor necessita de boas referências em sua formação – tanto inicial como continuada. As instituições de ensino superior devem propiciar estudos científicos sobre inúmeros assuntos os quais o futuro professor poderá se deparar em sua atuação pedagógica futura. A pesquisa deve fazer parte do dia a dia de um professor em formação, sobretudo porque a sociedade está em constante transformação e o docente precisa acompanhar essas mudanças todas. É fato que um professor está em contínua formação para poder lidar com as diversidades encontradas dentro e fora da sala de aula. Em relação às questões de gênero e sexualidade, a formação do professor precisa ser bastante pautada em estudos científicos, atualizados e desatravessados de preconceitos. Isso, evidentemente, fará com que o professor saiba lidar com as várias situações que envolvem gênero e sexualidade. Figura 28 - É fundamental que os docentes respeitem a diversidade, sem qualquer forma de preconceito. Fonte: Garcia (2016). Um equívoco muito comum na prática pedagógica é quando os professores se baseiam em ideias normativas em relação às questões de gênero e sexualidade. Meyer e Soares (2004, p. 11) apontam que [...] de modo geral, e por razões muito variadas, professores e professoras tendem a se apoiar em abordagens normativas quando se deparam com questões de gênero e de sexualidade, e suas ações, nestes campos, são banalizadas por saberes que, supostamente, permitem classificar e diferenciar “com certeza” o que é normal e o que é desviante. Ao diferenciar o que é “normal” do que é “anormal”, o professor está emitindo juízo de valor. E essa função não é sua. Muito pelo contrário: o professor precisa saber lidar com toda a diversidade humana, pois em sua sala de aula, com certeza, ele encontrará pessoas de inúmeras características diferentes. Defendemos, então, que os professores devem realizar atividades pedagógicas de maneira contra hegemônica e fazer com que os alunos percebam que não há nada de inadequado e desviante quando um menino ou uma menina não age de acordo com o que a sociedade impôs como “natural”, “normal”, “aceitável”. É fato que esse trabalho não é tão simples, porém, ainda acreditamos que há a necessidade de desfazer a concepção de que existe apenas um modo adequado e “normal” de viver a masculinidade e a feminilidade. É bastante comum, por exemplo, as escolas separarem as atividades de meninos e de meninas, de modo que a brincadeira (ou o brinquedo) que – erroneamente – é designado a um gênero não pode fazer parte do contato com o outro gênero. Exemplificando: geralmente as escolas separam bonecas para meninas e carrinhos para meninos; além disso, as brincadeiras que exigem maior esforço físico são designadas aos meninos, enquanto as brincadeiras mais delicadas são designadas às meninas. Essa segregação em nada contribui para a formação dos alunos. Pelo contrário, isso faz com que as crianças cresçam abominando determinados tipos de brincadeiras ou brinquedos. O papel da escola é fazer com que as crianças brinquem com todos os brinquedos disponíveis; e durante essas brincadeiras, o professor deve, constantemente, enfatizar que nem o menino e nem a menina pode ser discriminado ou sofrer outra forma de violência por querer ou preferir determinada brincadeira que está designado, socialmente, ao gênero oposto. REFLITA! É função da escola, também, ensinar que tanto meninos como meninas podem escolher o brinquedo que mais lhe atrai ou lhe chama a atenção. E as demais crianças devem respeitar as escolhas. Para que um professor realize um bom trabalhe acerca das questões de gênero e sexualidade é necessário que este entenda o que é sexismo e estereótipos sexuais. Concordamos com Nunes e Silva (2006, p. 71) quando asseveram que “[...] uma educação sexual emancipatória busca identificar os estereótipos sexuais e questionar seus fundamentos e representações” e, junto a isso, é fundamental compreender o significado de sexismo, visto que essa prática que é algo muito percebido nas relações escolares e não escolares. O sexismo, por sua vez, se refere ao “[...] chamado preconceito de sexo, que consiste em identificar características que evoquem determinismos diferenciais e conceituações significativas pejorativas entre as identidades de gênero” (NUNES E SILVA, 2006, p. 69). Como exemplos desse preconceito citamos as frases: o homem é sempre autônomo, forte, lógico, viril, capaz, e a mulher é frágil, incapaz, dependente, sensível, emotiva. Junto a isso, quando o assunto é estereótipo sexual, escrevem que, [...] entendemos por estereótipos os rótulos, lugares-comuns, representações conceituais, simbólicas e institucionais, sobre o comportamento do homem e da mulher. Identifica-se o estereótipo por sua irracionalidade, congelando aqueles caracteres que são conjunturais e passíveis de serem compreendidos como acidentais, secundários, apreendidos como se fossem naturais, determinantes e idiossincráticos (NUNES; SILVA, 2006, p. 71). Dessa forma, de acordo com Oliveira (2013), torna-se vital que o educador conheça essas definições, para realizar seu trabalho com cuidado quando fala, quando escreve e quando está colocando alguma atividade em ação. Queremos, com isso, afirmar que, muitas vezes, o docente desconhece o vocabulário que trazem estereótipos sexuais, e com isso seu discurso apresenta-se preconceituoso e discriminatório. No momento que um professor diz a frase “menino não chora”, ou então “para de ficar correndo, menina, isso é coisa de menino”, seudiscurso é marcado por preconceitos mesmo que sem intencionalidade. É nesse caminho que se torna necessário o zelo do profissional da Educação aos conceitos, para, assim, sua prática ser realizada de forma não-sexista. INDICAÇÃO DE FILME Nome do Filme: Orações para Bobby Direção: Russel Mulcahy Local e ano: EUA, 2009 Principais temas a serem debatidos: Homossexualidade, preconceito, discriminação em relação à orientação sexual. Sinopse: Mary é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo” (SANTOS, 2010). No entanto, Bobby não suporta a pressão e se atira de uma ponte, encerrando sua vida aos 20 anos de idade. Depois desse fato, Mary descobre um diário do garoto e passa a conhecer melhor o mundo dos homossexuais, tornando-se, logo, uma ativista em prol dos diretos gays (SANTOS, 2010). Este é um filme baseado na história verídica. Um filme intenso, dramático, e que espelha ainda hoje a realidade de muitos jovens no mundo (SANTOS, 2010). Além disso, a formação de professores deve se atentar às individualidades, ou seja, cada ser é único e deve ser respeitado em sua peculiaridade, seja ela de etnia, religião, gênero, classe social, sexualidade etc. Nesse sentido, corroboramos com as ideias de Nunes e Silva (2006, p. 71) quando insistem que [...] educar para a compreensão significativa e igualitária da identidade de gênero, de modo a representar homens e mulheres, masculino e feminino, como formas psico-históricas da condição humana e humanização e diferentes em suas expressões culturais, subjetivas e ontológicas. Ser homem e ser mulher seriam duas formas de ser a pessoa humana, de ser essencialmente humano, com características sociais e psicológicas distintas, a partir de identidades biológico-naturais diversas. Portanto, ao discutir homens e mulheres em sala de aula (ou em qualquer prática pedagógica), o docente deve respeitar as características individuais de cada sujeito, sugerindo a sua importância na história da humanidade, bem como afirmando que cada pessoa é diferente, e que não existem seres inferiores a outros. Assim, o respeito e a emancipação de cada um podem surgir aos poucos. É papel do professor – e de todos os profissionais que lidam a com a formação de crianças e jovens – estabelecer que a figura feminina não é inferior à figura masculina. É muito comum pessoas defenderem que o homem é superior à mulher, no entanto, as práticas educativas devem se atentar para a quebra desse estereótipo social e cultural, buscando fazer com que os alunos compreendam que ambos os gêneros devem conviver com igualdade de oportunidade e nenhum deles deve sofrer qualquer forma de discriminação. Figura 30 - Os estudos de gênero propõem que nem a figura feminina e nem a figura masculina é inferior à outra. Fonte: TV Mundo Maior (2018). Ainda vale destacar que a Educação, ao discutir a sexualidade humana, não pode se basear em uma mera descrição biológica dos seres (deve incluí-la, mas não se resumir a isso), é importante saber que essa Educação visa a emancipação humana, como um modo de “abrir os olhos” dos alunos para a vivência de suas sexualidades sem a marca dos preconceitos, discriminação, além de promover o alcance do seu bem-estar. Nesse contexto, para alcançar o êxito nesse percurso, é necessário que educandos e educadores compreendam a igualdade da condição de homem e mulher, bem como as várias possibilidades relacionadas à sexualidade. Nesse sentido, compactuamos com Figueiró (2010, p. 03) quando a pesquisadora afirma que a Educação voltada à sexualidade deve ser vista como toda ação ensino e aprendizagem acerca da sexualidade humana, seja no “[...] nível do conhecimento de informações básicas, seja no nível do conhecimento e/ou discussões e reflexões sobre valores, normas, sentimentos, emoções e atitudes”. Nessa perspectiva, o trabalho com a sexualidades deve envolver questões das mais “simples” às mais “complexas”, e as dúvidas dos alunos devem ser sanadas com muita discussão e reflexões sobre as várias atitudes da vida sexual. Figueiró (2010, p. 92) ainda discute que “[...] infelizmente, a Educação Sexual informal, negativa, em que o sexo é visto como algo sujo e vergonhoso e como assunto do qual não se deve falar, persiste na cultura brasileira”. Assim, é necessário que a formação inicial e continuada de professores se atente para uma discussão emancipatória, sem emitir juízo de valor, por exemplo. É importante salientar que quando uma criança, por exemplo, ouve de um professor que não se deve fazer questionamentos sobre sexo, ou que esse assunto não deve ser comentado e discutido, essa criança crescerá com um interdito, relacionando o sexo como algo vergonhoso ou proibido. REFLITA! O melhor a se fazer quando o assunto é sexo, é a discussão aberta, pautada nos Direitos Humanos e sempre com um viés científico, buscando sempre embasar os posicionamentos a partir de teóricos que já estudam o assunto de maneira científica e respeitosa. Figura 29 - Os Direitos Humanos devem fazer parte das discussões de formação de professores, sobretudo quando o assunto é a diversidade humana. Fonte: Observatório (2018). Vale ressaltar, ainda, que educar sexualmente uma criança não é tirar a sua inocência, mas tirar a sua ignorância. Logo, ao discutir aspectos sobre gênero e sexualidade na escola, o professor está levando conhecimento para a sala de aula e, evidentemente, sanando dúvidas que os próprios alunos carregam consigo. Nesse caminho, a partir dos estudos de Oliveira (2013), antes de um professor realizar um trabalho voltados às questões de gênero e sexualidade, este/a profissional deve se desfazer das ideias preconceituosas, deixando de lado seus preceitos religiosos, patriarcais, que não condizem com uma prática emancipatória. Caso isso não aconteça, o trabalho realizado será em vão, ou pior: poderá trazer aos alunos uma ideia de que realmente o sexo é algo desprezível. Oliveira e Maio (2012, p. 50) discutem que [...] a comunidade acadêmica deve articular seus espaços para que consiga estabelecer uma reflexão crítica e contextualizada a respeito da educação. E em se tratando de educação sexual, é necessário que esta se articule com a produção intelectual, com os fatores econômicos e com a ideologia de cada época (OLIVEIRA; MAIO, 2012, p. 50). Dito isto, é necessário pensar sobre os debates de gênero e sexualidade; estes devem continuadamente estar amparados e interligados a outros eventos sociais e educacionais como a produção intelectual. “A educação sexual deve pensar as questões de gênero e de sexualidade como fatores que redimensionam o pensamento dos/as alunos/as e as suas formas de viver enquanto seres sexuados e formadores de sexualidades” (OLIVEIRA; MAIO, 2012, p. 50). Nesse sentido, a formação acerca de gênero e sexualidade deve ser entendida em uma dinâmica móvel e necessária. 4. FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Após as discussões acerca dos Direitos Humanos, da diversidade étnica e das questões de gênero e sexualidade, esse material finaliza esse debate apresentando aspectos relacionados ao Atendimento Educacional Especializado. Conforme temos apresentado no decorrer do livro, cada pessoa apresenta características diferenciadas; e isso compõe a diversidade humana. Isso também ocorre com o corpo das pessoas, além de suas funções psicológicas. Ou seja, nas instituições escolares encontramos pessoas com deficiência física, mental, intelectual, dificuldades de aprendizagem etc. A partir desse cenário, devemos estar preparados para conviver e levar o conhecimento a todas essas pessoas, sem preconceito e sem discriminação. O objetivo principal dessa unidade é, portanto, reconhecer mais essas diferenças entre as pessoas e estabelecer que é função do professor contribuir para o desenvolvimento das mesmas, utilizandorecursos e ferramentas apropriadas a cada uma das deficiências. Para atingir ao objetivo, em um primeiro momento serão apresentados aspectos do Atendimento Educacional Especializado e, posterior a isso, esse atendimento será relacionado com a formação de professores. Destacamos que o debate perpassará pelo atendimento aos alunos, da Educação Básica, com deficiência visual, deficiência auditiva, deficiência mental e deficiência física. Lembrando que a prática pedagógica deve sempre buscar a qualidade do ensino. 4.1. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Goulart e Mori (2008, p. 91) alertam que desde as últimas décadas do século anterior, “[...] o movimento em prol do respeito à diversidade e ao atendimento às diferenças tem sido fortemente ampliado”. Isso quer dizer que autoridades de vários países têm se reunido com o objetivo de refletir a respeito do Atendimento Educacional Especializado, além do combate às variadas formas de preconceito. O Atendimento Educacional Especializado (AEE) busca atender os alunos que apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem, seja por conta de deficiência mental ou física, surdez, cegueira, surdocegueira, altas habilidades. Figura 31 - Atendimento Educacional Especializado (AEE). Fonte: Itec (s/d). Esse atendimento, que tomaremos por base a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), visa criar condições de permanência, dos alunos citados anteriormente, no contexto do ensino comum. Vale ressaltar que o documento apresenta uma mudança conceitual e terminológica para referendar o contingente de alunos caracterizados como da Educação Especial, bem como, lança as diretrizes para a Educação Especial, dentre elas, para implementação e funcionamento do Atendimento Educacional Especializado (AEE) (BRASIL, 2008). Vale destacar que a consciência de que a inclusão somente é reivindicada pelo fato de vivermos em uma sociedade bastante excludente e preconceituosa, permite-nos compreender a necessidade de pensar o movimento da realidade como essencialmente contraditório e em constante transformação (GOULART; MORI, 2008). REFLITA! É fato que é preciso pensar em inclusão exatamente por conta de sermos uma sociedade que ainda exclui as diferenças, provocando discriminação, preconceitos e outras formas de violência contra as pessoas que não atendem a um padrão de aceitação social. O movimento mundial pela educação inclusiva é uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os estudantes de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum tipo de discriminação. Nesse sentido, a educação inclusiva constitui um paradigma educacional fundamentado na concepção de Direitos Humanos, que conjuga “[...] igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola” (BRASIL, 2008, p. 01). Ao reconhecer que as dificuldades enfrentadas nos sistemas de ensino evidenciam a necessidade de confrontar as práticas discriminatórias e criar alternativas para superá-las, “[...] a educação inclusiva assume espaço central no debate acerca da sociedade contemporânea e do papel da escola na superação da lógica da exclusão” (BRASIL, 2008, p. 01). A partir dos referenciais para a construção de sistemas educacionais inclusivos, a organização de escolas e classes especiais passa a ser repensada, implicando uma mudança estrutural e cultural da escola para que todos os estudantes tenham suas especificidades atendidas (BRASIL, 2008). Assim, há uma nova demanda que precisa ser atendida pelas unidades escolares: compreender as diferenças e traçar objetivos que atendam a diversidade humana. Junto a isso, é fundamental que as escolas quebrem com o modelo tradicional de escola: A partir da visão dos direitos humanos e do conceito de cidadania fundamentado no reconhecimento das diferenças e na participação dos sujeitos, decorre uma identificação dos mecanismos e processos de hierarquização que operam na regulação e produção das desigualdades. Essa problematização explicita os processos normativos de distinção dos estudantes em razão de características intelectuais, físicas, culturais, sociais e linguísticas, entre outras, estruturantes do modelo tradicional de educação escolar (BRASIL, 2008, p. 01). É característico a união entre Educação e Direitos Humanos, isso se dá por conta da necessidade de buscar garantir o direito à Educação a que todas as pessoas possuem, sem nenhuma forma de discriminação. Figura 32 - Educação sem Discriminação. Fonte: Tech (2014). A escola, assim, não pode operar de maneira a descaracterizar as diferenças, muito pelo contrário: ela deve reconhecer as diferenças e atuar de forma a atender todas as pessoas que frequentam aquele espaço. Historicamente, a Educação Especial, no Brasil, passou a ser representada em Lei no ano de 1961 (na LDBEN nº. 4.024/61) em que apontava os direitos dos “excepcionais” à Educação, preferencialmente dentro do sistema de ensino. Essa Lei foi um marco para os estudos atuais da Educação Especial e suas características. Mais tarde, no ano de 1971, a Lei 5.692/71 alterou a então LDBEN e definiu que os estudantes com deficiências mentais, físicas, além dos que se encontravam com atraso considerável quando à idade de matrícula e os superdotados poderiam ter um tratamento especial no processo educativo. Vale ressaltar que essa Lei não garantiu uma organização específica para atender a esses estudantes e nem o encaminhamento para as turmas e instituições especiais. Mais recentemente, no ano de 1988, a Constituição da República Federativa do Brasil apresentou em seu terceiro artigo, que é função do Estado “[...] promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (BRASIL, 1988, art. 03). O mesmo documento ainda ressalva que a Educação, de acordo com o artigo 205, é um direito de todos e deve garantir o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988). A referida Constituição ainda infere, em seu artigo 206, que deve haver, nas escolas, igualdade de condições de acesso e permanência, sendo que esse preceito deve ser garantido pelo Estado. Além disso, o artigo 208 apresenta que o Estado deve garantir a oferta do Atendimento Educacional Especializado “[...] preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988, art. 208). Vale destacar um documento fundamental nas discussões acerca do AEE, que se trata da Declaração de Salamanca (SALAMANCA, 1994). Esse documento especifica uma linha de trabalho que atenda às necessidades de todos os alunos: • toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem, • toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas, • sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades, • aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades, • escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas proveem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional (SALAMANCA, 1994, p. 01). Assim, fica exposto que todas as crianças têm direito à Educação, independentemente de suas necessidades educacionais especiais.A escola deve se organizar para atender às especificidades de todos os seus alunos, sem nenhuma forma de exclusão. O documento ainda destaca que as características de cada criança são únicas, sendo que o respeito a tal diversidade deve ser garantido no interior das instituições escolares. É visível, ainda, que o documento defende que as crianças com necessidades educacionais especiais devem frequentar a escola regular, de modo a ter interação com todas as crianças, sem ônus para seu desenvolvimento. REFLITA! As escolas devem se organizar para atender a todas as necessidades das crianças, sendo que as atividades devem ser centradas no desenvolvimento de todo o grupo de alunado, sem nenhuma forma de discriminação. A referida declaração ainda defende, enquanto fator relativo à escola, o seguinte texto: [...] o desenvolvimento de escolas inclusivas que ofereçam serviços a uma grande variedade de alunos em ambas as áreas rurais e urbanas requer a articulação de uma política clara e forte de inclusão junto com provisão financeira adequada – um esforço eficaz de informação pública para combater o preconceito e criar atitudes informadas e positivas - um programa extensivo de orientação e treinamento profissional - e a provisão de serviços de apoio necessários. Mudanças em todos os seguintes aspectos da escolarização, assim como em muitos outros, são necessárias para a contribuição de escolas inclusivas bem-sucedidas: currículo, prédios, organização escolar, pedagogia, avaliação, pessoal, filosofia da escola e atividades extracurriculares (SALAMANCA, 1994, p. 08). A escola inclusiva, então, precisa ser articulada com os poderes de tomadas de decisões (como governos, por exemplo), a fim de buscarem sempre ampliar e qualificar o atendimento. Junto a isso, há de se garantir a formação continuada constante dos professores e toda a equipe pedagógica, com o objetivo de ofertar um atendimento cada vez mais qualificado. Nesse cenário, o currículo escolar deve ser adaptado para atender a todas as crianças, independentemente de suas aptidões ou necessidades, gerando, portanto, um atendimento amplo, sem prejudicar o desenvolvimento de nenhum aluno. A referida Declaração ainda ressalta que as crianças com necessidades “[...] especiais deveriam receber apoio instrucional adicional no contexto do currículo regular, e não de um currículo diferente” (SALAMANCA, 1994, p. 09). Portanto, é preciso que as crianças com necessidades educacionais especiais sejam inseridas na educação regular, sempre com um apoio suficiente para que consigam se adaptar a essa realidade e desenvolvam-se. Voltando a atenção, novamente, às Leis brasileiras, é imprescindível discutirmos o que apresenta a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº. 9.394/19960 (BRASIL, 1996) acerca do AEE. De acordo com o documento, em seu terceiro título, ao discutir o direito à Educação e sobre o dever de educar, é posto que o país deve oferecer “[...] atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1996, art. 4). O entendimento sobre o que é Educação Especial no Brasil está exposto no quinto capítulo da referida Lei quando aponta que “[...] entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores1 [sic] de necessidades especiais” (BRASIL, 1996, art. 58). O mesmo artigo ainda exibe o seguinte: §1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender as peculiaridades da clientela de educação especial. §2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns do ensino regular. §3º A oferta da educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil. Essa caracterização do AEE vem ao encontro do que fora apresentado, por exemplo, na Declaração de Salamanca, em que é fundamental ofertar esse atendimento preferencialmente em salas de aula do ensino regular, de modo a garantir o desenvolvimento do educando com necessidades educacionais especiais. 1 É primordial lembrarmos que a literatura mais atual sobre Atendimento Educacional Especializado não utiliza mais o termo “portadores de necessidades educacionais especiais”. O termo utilizado é pessoas com necessidades educacionais especiais. Esse entendimento se dá porque uma necessidade não é algo que seja possível de portar em um momento e logo em seguida não portá-lo mais, sendo que é uma característica da pessoa. Quadro 04: Direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais no Brasil. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais I – currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II – terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV – educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V – acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. Fonte: Brasil (1996, art. 59) Portanto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional é bem marcante no tocante ao AEE, explicitando todos os direitos que os alunos com necessidades educacionais especiais têm. Feita essa retomada de construção acerca da AEE, nesse momento vamos destacar, brevemente, algumas características acerca da deficiência intelectual, surdez, cegueira e baixa visão, surdocegueira, deficiência física, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades e superdotação. A deficiência intelectual, de acordo com Shimazaki e Tsukamoto (2012) é uma incapacidade caracterizada por limitações significativas em ambos, funcionamento intelectual e comportamento adaptativo, e está expresso nas habilidades sociais, conceituais e práticas. A incapacidade se origina antes da idade de 18 anos. O indivíduo surdo, de acordo com Sander (2012, p. 76), é a pessoa que, por apresentar perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, sendo que suas manifestações são realizadas com o uso da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), assim, “[...] as pessoas surdas não se sentem deficientes; a língua de sinais supre todas as suas necessidades linguísticas”. Enquanto que a pessoa com deficiência auditiva tem uma perda considerável da audição, podendo ser tratada. Em relação à cegueira e baixa visão, Sierra e Sierra (2012, p. 86, grifos do original) definem da seguinte forma: Baixa visão: alteração da capacidade funcional da visão, decorrente de inúmeros fatores isolados ou associados, tais como baixa acuidade visual significativa, redução importante do campo visual, alterações corticais e/ou de sensibilidade aos contrastes que interferem ou limitam o desempenho visual do indivíduo. Crianças com baixa visão podem apresentar desde condições de indicar projeção de luz até o grau em que a redução da acuidade visual interfere ou limita seu desempenho. Cegueira: perda total da visão até a ausência de projeção de luz. Uma pessoa cega é aquelaque, com correção e com melhor olho, possui 20/200 de acuidade visual, ou seja, consegue ver a 20 pés (6 metros) o que uma pessoa com a visão normal poderia ver a 200 pés (60 metros) e o diâmetro mais largo de seu campo visual subtende um arco não maior de 20 graus. É também conhecida como cegueira legal ou cegueira econômica, uma vez que o campo visual é restrito, denominado visão em túnel ou cabeça de alfinete. Assim, é possível afirmar que há diferença entre os dois termos, sendo necessário conhecer os termos para não cometermos erros no momento de discutir o assunto. Para didatizar, aqui nesse material vamos utilizar deficiência visual, não esquecendo das especificidades de cada termo. Costa e Cambruzzi (2012, p. 99) destacam que ser uma pessoa com surdocegueira é apresentar “[...] uma combinação das perdas dos sentidos de distância (audição e visão)”. As autoras ainda ressalvam que a surdocegueira “[...] constitui uma deficiência única, não a união de duas deficiências: auditiva e visual e nem a junção de duas metodologias: uma para surdo e outra para cego para o atendimento da criança com surdocegueira” (COSTA; CAMBRUZZI, 2012, p. 99). Acerca do assunto, Maia (2004, p. 06) define como [...] uma deficiência singular que apresenta perdas auditivas e visuais concomitantemente em diferentes graus, levando a pessoa surdocega a desenvolver diferentes formas de comunicação para entender, interagir com as pessoas e o meio ambiente, proporcionando-lhes o acesso a informações, uma vida social com qualidade, orientação, mobilidade, educação e trabalho. REFLITA! Portanto, a surdocegueira apresenta características que lhes são próprias, não podendo ser confundida com a união de duas deficiências, conforma a história do termo apresenta. Em relação à deficiência física, a Organização Mundial da Saúde (2012, apud LIMA, 2012) define deficiência física a pessoa que possui alterações que afetam uma estrutura ou função do corpo – musculares, ósseas, articulares e/ou neurológicas – em tal grau que limite, dificulte e impossibilite a execução de tarefas nas situações de sua vida cotidiana. Lima (2012, p. 112) completa afirmando que as implicações dessas deficiências “[...] na escola comprometem a execução de atos como sentar, levantar, locomover e desenvolver tarefas como manipular materiais (escrever, colar, recortar, entre outras) durante o processo de desenvolvimento pedagógico”. Lima (2012) ainda destaca que as deficiências físicas que mais se apresentam nas escolas são: a amputação, a lesão raquimedular, a espinha bífida, a distrofia muscular, a encefalopatia crônica não evolutiva da infância (Paralisia Cerebral – PC), entre outras. Acerca das pessoas com transtorno global do desenvolvimento (TGD), Mori e Brandão (2012, p. 128-129) destacam que a partir do ano de 2008, o Ministério da Educação (MEC) passou a usar o termo Transtorno Global de Desenvolvimento para se referir “[...] aos alunos que apresentam alterações e prejuízos qualitativos nas interações sociais recíprocas e no desenvolvimento da linguagem e na comunicação”, bem como “[...] repertório restrito, estereotipado e repetitivo de interesses, motivações e atividades que dificultam o acompanhamento das atividades curriculares”. Estão incluídos nesse grupo os educandos com autismo, síndromes do espectro do autismo – entre elas a Síndrome de Asperger – e psicose infantil. Na versão revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2000 (DSM IV-TR apud MORI; BRANDÃO, 2012, p. 129), o TGD é definido como o comprometimento “[...] grave e global em diversas áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação ou presença de estereotipias de comportamento, interesses e atividades”. Essa seção abarca: Transtorno Autista, Transtorno de Asperger, Transtorno de Rett, Transtorno Desintegrativo da Infância, Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação (TSOE). Mori e Brandão (2012) ainda discutem que há diferenças na forma de conceituação utilizada pelo MEC e a versão do DSM-IV, a qual não considera a psicose como TGD. Todavia, há concordância de que eles afetam as interações sociais recíprocas, se manifestam nos primeiros cinco anos de vida e caracterizam-se por padrões de comunicação estereotipados e repetitivos, assim como pelo estreitamento nos interesses e nas atividades. Ao contrário do que muita gente pensa, as pessoas com Altas Habilidades e Superdotação também necessitam de AEE. O Parecer 17/2001 (BRASIL, 2001 apud LIMA; BRANDÃO, 2012, p. 141) estabelece os alunos com altas habilidades/superdotação como aqueles que revelam [...] grande facilidade de aprendizagem que os levem a dominar rapidamente os conceitos, os procedimentos e as atitudes e que, por terem condições de aprofundar e enriquecer esses conteúdos, devem receber desafios suplementares em classe comum, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para concluir, em menor tempo, a série ou etapa escolar. Fica evidente que o aluno com Altas Habilidades/Superdotação precisa de um acompanhamento específico para conseguir desenvolver-se de maneira positiva. Nos documentos publicados pelo Ministério da Educação (MEC), encontramos que os alunos com altas habilidades/superdotação demonstram potencial elevado em “[...] qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes”, além de apresentar “[...] grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse” (BRASIL, 2008, p. 9). INDICAÇÃO DE FILME Nome do Filme: Intocáveis Direção: Eric Toledano, Olivier Nakache Local e ano: França, 2011 Principais temas a serem debatidos: Deficiências, Superação, Sinopse: O filme conta a história de Philippe, um homem rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Precisando contratar um assistente, sua história cruza com a de Driss, jovem de baixa renda e sem nenhuma experiência na função de cuidador. O percurso trilhado pelos dois é de aprendizagem mútua. Driss contribui para a retomada da identidade e da autoestima de Philippe a partir de um trabalho que mostra o cuidado com as deficiências, mas também uma atenção ímpar com as potencialidades envolvidas. A seguir, vamos discutir acerca de alguns aspectos fundamentais para a formação de professores no tocando ao Atendimento Educacional Especializado, enfatizando suas principais características na busca de uma Educação de qualidade. 4.2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO É basilar que os educadores tenham formação apropriada para lidar com toda a diversidade na escola, assim, a Declaração de Salamanca (SALAMANCA, 1994, p. 10) defende que a “[...] preparação apropriada de todos os educadores constitui-se um fator chave na promoção de progresso no sentido do estabelecimento de escolas inclusivas”. Nesse sentido, ainda de acordo com a Declaração, “[...] as habilidades requeridas para responder as necessidades educacionais especiais deveriam ser levadas em consideração durante a avaliação dos estudos e da graduação de professores” (SALAMANCA, 1994, p. 11). Shimazaki e Tsukamoto (2012, p, 71) apontam que para que as pessoas com deficiência intelectual abstraiam e generalizem conceitos “[...] é preciso que a educação a elas oferecida se volte para a sua aprendizagem e desenvolvimento”. Isso só é possível quando se busca formas diferenciadas de trabalho, quer sejam no ensino regular ou em programas de atendimento educacional especializados. Convém salientar que os conteúdos escolares ensinados às pessoas com deficiência intelectual devem ser os mesmos ensinados no ensino regular, todavia o fazer pedagógico deve ser diferenciado, atendendo às suas necessidades. É importante que o professor, em sua prática pedagógica, busque alternativas para que osalunos se apropriem do saber sistematizado. INDICAÇÃO DE LEITURA NOME DO LIVRO: Atendimento Educacional Especializado do Aluno com Deficiência Intelectual AUTOR: Adriana Leite Limaverde Gomes ANO DE PUBLICAÇÃO: 2015 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Este livro foi elaborado para orientar as ações dos professores do atendimento educacional especializado dos alunos que apresentam deficiência intelectual, aos pais desses alunos, assim como explicitar as ações do professor do AEE junto às salas de aula regulares nas quais se inserem os alunos. Detalha o trabalho desse professor, o qual gravita em torno de três polos - gestão, avaliação e acompanhamento da aprendizagem dos alunos. A gestão da aprendizagem inclui os processos de aprendizagem do aluno no interior da sala multifuncional e fora dela. A avaliação das possibilidades e dificuldades de aprendizagem em interação com o meio escolar é familiar. Já o acompanhamento implica o desenvolvimento de ações específicas visando à evolução do aluno e à transformação das ações dos diferentes atores que interagem com esse aluno. Dessa forma, em relação aos alunos com Deficiência Intelectual, é necessário o uso de diferentes gêneros textuais, jogos, brincadeiras, origamis, música, escultura, pintura, pesquisa, roda de conversas, excursões, passeios e outras atividades pouco presentes no cotidiano escolar. A formação de professores também deve assegurar um bom preparo para que os docentes tenham conhecimento acerca do trabalho a ser realizado com os alunos surdos. Sander (2012, p. 76) enfatiza com relação a esse aluno é primordial que o mesmo receba a educação bilíngue, isto é, na língua portuguesa e língua brasileira de sinais, recomenda-se ainda “[...] o serviço do profissional tradutor/intérprete de LIBRAS e a língua portuguesa para a garantia da acessibilidade comunicativa”. Ainda vale enfatizar que as instituições escolares devem garantir que os alunos surdos estejam com outros surdos, nas turmas comuns da escola regular para que possam interagir com outros falantes da língua de sinais. Figura 33 - A formação de professores como instrumento necessário ao AEE. Fonte: Replay (2016). Sander (2012) ainda defende que nas escolas comuns que possuam alunos surdos, estes têm direito ao tradutor/ intérprete de língua de sinais (TILS). O TILS tem a competência linguística em LIBRAS/língua portuguesa e atua em diferentes contextos nos quais há pessoas surdas inseridas. De acordo com a autora, o TILS “[...] é um mediador na comunicação entre surdos e ouvintes e ouvintes e surdos, sendo também visto como uma ferramenta de inclusão” (SANDER, 2012, p. 77), sendo que na formação docente, é primordial que os professores tenham consciência do seu papel e possibilitem que essa interação seja possível, a fim de contribuir no desenvolvimento dos alunos surdos. Acerca da Deficiência Visual, Sierra e Sierra (2012, p. 87) afirmam que na nova política, o processo educacional na área passa a ocorrer “[...] no ensino comum, e o aluno deverá frequentar o Atendimento Educacional Especializado – AEE – em Salas de Recursos Multifuncionais – SRM – ou Centros de Atendimento Educacional Especializado – CAEE – em contraturno”. Esse atendimento, por sua vez, tem como função complementar ou suplementar a formação do aluno por meio de serviços, recursos e estratégias que viabilizem a aprendizagem e a participação efetiva do sujeito na sociedade. Para tanto, a formação docente precisa acompanhar essas mudanças, possibilitando sempre atividades e práticas que contribuam para o desenvolvimento do aluno. As autoras ainda enfatizam que Os alunos com baixa visão podem ser atendidos na SRM tipo I, já que esta dispõe de materiais adaptados para esses alunos, tais como lupa eletrônica, impressora a laser, lupa manual, lupa conta – fio dobrável e lupa de régua, dominó com textura, plano inclinado – estante para leitura, dentre outros. Outra possibilidade de atendimento a esses alunos são os CAEE da rede pública ou de instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos. Para os alunos cegos, o AEE deve ocorrer nas Salas de Recurso Multifuncional tipo II, que dispõem dos seguintes equipamentos e materiais: impressora Braille, máquina Braille, reglete de mesa, punção, soroban, guia de assinatura, globo terrestre adaptado, kit de desenho geométrico adaptado, calculadora sonora e software para produção de desenhos gráficos e táteis (SIERRA; SIERRA, 2012, p. 87, grifos do original). A criança com baixa visão, assim, pode contar com muitos recursos que a auxiliarão em seu processo de enxergar melhor, minimizando muitas dificuldades que encontrará no seu processo educacional. Para que isto ocorra, necessitará aprender a utilizar os recursos de acessibilidade, os auxílios ou recursos ópticos e não ópticos, materiais didáticos e pedagógicos acessíveis com ampliação de fontes, materiais com contraste visual, dentre outros (SIERRA; SIERRA, 2012), sendo que a formação do professor é basilar para compreender o desenvolvimento desses alunos e poder atuar conjuntamente no processo de desenvolvimento dos mesmos. Dando sequência, Costa e Cambruzzi (2012) destacam que em relação à formação de professores para a atuação com alunos Surdocegos, um aspecto fundamental é atenção especial à comunicação. Nas palavras das autoras, em relação à comunicação, deve-se observar a importância que as “[...] mãos têm para o estabelecimento da comunicação: se tornam a voz, ou o principal meio de expressão. Esse aspecto tão primordial deve ser levado em consideração pelas metas educacionais” (COSTA; CAMBRUZZI, 2012, p. 108). Lima (2012, p. 112), em relação à Deficiência Física, ressalta que é indispensável o professor “[...] conhecer a forma de aquisição da deficiência, as características, as alterações musculoesqueléticas”, além de dar atenção sobre “[...] as limitações e as possibilidades de respostas motoras e sensoriais para que as ações pedagógicas sejam transpostas para todos os alunos”. Essa atenção especial deve se iniciar na formação docente e se entender durante toda a sua prática. Figura 34 - O professor precisa estar atento à atualização do conhecimento. Fonte: Cecierj (2014). Nessa mesma perspectiva, Mori e Brandão (2012, p. 128) enfatizam que discutir a educação de alunos com TGD implica em considerar que se trata de uma área de confluência entre educação e saúde, “[...] cuja articulação é garantida mediante o estabelecimento de ações de uma rede de profissionais da educação e da saúde que juntamente com os familiares trabalha em parceria e colaboração”. Assim, a articulação entre a escola e os espaços de tratamento de saúde contribui para dar suporte às ações e adequações necessárias à participação desses alunos na classe comum e, quando necessário, ao atendimento educacional especializado. Mori e Brandão (2012, p. 133) ainda discutem que os alunos com TGD requerem “[...] atenção especial que favoreça seu desenvolvimento por meio de atividades diferenciadas e específicas”. Nesse sentido, faz-se necessária a individualização dos processos de ensinar e aprender. É essencial também, que durante a formação docente, os educadores aprendam a construir um espaço em que possam discutir os sentidos por eles atribuídos aos alunos com TGD, as relações com eles estabelecidas e receber apoio para o trabalho em sala de aula. Figura 35 - O diálogo é essencial na formação de professores. Fonte: Arquivo Público (2015). Acerca dos alunos com Altas Habilidades/Superdotação, Lima e Brandão (2012, p. 144-145) destacam que a escola também pode oferecer a suplementação dos conteúdos, ou seja, “[...] o enriquecimento curricular através do atendimento educacional especializado em Sala de Recursos ou em Sala de Recursos Multifuncional – Tipo I para Altas Habilidades/Superdotação”. Esses atendimentos especializados são de natureza pedagógica, destinados a alunos superdotados que frequentam a Educação Básica na redepública de ensino. Por ter caráter específico, o professor que atua nesse tipo de serviço deve ter formação na área e promover atividades que ampliem e aprofundem o conhecimento dos alunos, sempre em contraturno. As autoras ainda defendem que uma das necessidades educacionais especiais comuns aos alunos com Altas Habilidades/Superdotação é de enriquecimento curricular, o qual consiste na organização de estratégias pedagógicas que “[...] proporcionem a ampliação e o aprofundamento de conteúdos nas áreas de maior habilidade e interesse do aluno e pode ser aplicado em sala de aula comum” (LIMA; BRANDÃO, 2012, p. 144-145). A partir do exposto, é fundamental compreendermos que a educação oferecida às pessoas com Necessidades Educacionais Especiais deve nelas desenvolver as funções psicológicas superiores a fim que se tornem pessoas inclusas na sociedade. Além de repensar a prática pedagógica, é primordial também a realização de pesquisas acerca da formação de professores. Não bastam as políticas voltadas para o contexto escolar; é preciso pensar também em como formar os profissionais que atuam nesse contexto, a fim de garantir uma Educação de qualidade a todos os alunos. Ainda destacamos, a partir dos escritos de Lima (2012, p. 121), que quanto à questão educacional, é necessário que a formação de professores ultrapasse a tradição conteudista, buscando visualizar a diversidade, nas palavras da autora é fundamental “[...] estabelecer a interlocução para o diálogo é ir além desses padrões de valores, é respeitar as individualidades, o tempo de resposta sensorial e/ou motora bem como a alteridade educacional”. Compreendemos que a função de nós, educadores, é a de facilitar, orientar e expor as potencialidades conexas no desenvolvimento das atividades pedagógicas para cada aluno. REFERÊNCIAS ÁFRICA. Moradia, Culinária e Religião. 2012. Disponível em: . Acesso em: 09 jun. 2018. ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Tradução: Roberto Raposo. 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De acordo com o sítio eletrônico do Observatório do PNDH – 3, o Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, e atualizado pelo Decreto nº 7.177, de 12 de maio de 2010, é produto de uma construção democrática e participativa, incorporando resoluções da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, além de propostas aprovadas em mais de 50 conferências temáticas, promovidas desde 2003, em áreas como segurança alimentar, educação, saúde, habitação, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, idosos, meio ambiente etc. (BRASIL, s/d). Figura 03: Programa Nacional de Direitos Humanos – 3. Fonte: Geledés (2010). O mesmo sítio eletrônico apresenta que O PNDH-3 concebe a efetivação dos direitos humanos como uma política de Estado, centrada na dignidade da pessoa humana e na criação de oportunidades para que todos e todas possam desenvolver seu potencial de forma livre, autônoma e plena. Parte, portanto, de princípios essenciais à consolidação da democracia no Brasil: diálogo permanente entre Estado e sociedade civil; transparência em todas as áreas e esferas de governo; primazia dos Direitos Humanos nas políticas internas e nas relações internacionais; caráter laico do Estado; fortalecimento do pacto federativo; universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais; opção clara pelo desenvolvimento sustentável; respeito à diversidade; combate às desigualdades; erradicação da fome e da extrema pobreza (BRASIL, s/d, s/p). REFLITA Portanto, o PNDH3 é um documento fundamental para pensarmos as práticas dos Direitos Humanos frente à organização da Educação brasileira, com olhos voltados para a melhoria da qualidade e criação de oportunidades para todas as pessoas, buscando alcançar, cada vez mais, a dignidade da pessoa humana, de maneira democrática e saudável. O próprio documento, aponta em sua apresentação, que [...] não haverá paz no Brasil e no mundo enquanto persistirem injustiças, exclusões, preconceitos e opressão de qualquer tipo. A equidade e o respeito à diversidade são elementos basilares para que se alcance uma convivência social solidária e para que os Direitos Humanos não sejam letra morta da lei Este PNDH-3 será um roteiro consistente e seguro para seguir consolidando a marcha histórica que resgata nosso País de seu passado escravista, subalterno, elitista e excludente, no rumo da construção de uma sociedade crescentemente assentada nos grandes ideais humanos da liberdade, da igualdade e da fraternidade (BRASIL, 2010, p. 13). INDICAÇÃO DE LEITURA NOME DO MATERIAL: Programa Nacional de Direitos Humanos 3 ORGANIZADORES: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República ANO DE PUBLICAÇÃO: 2010 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO MATERIAL: Aspectos voltados aos Direitos Humanos, com ênfase em uma relação entre as pessoas baseada em diálogo, democracia e respeito às diferenças. 1.2. EDUCAÇÃO ENQUANTO PROPOSTA DOS DIREITOS HUMANOS Fernandes e Paludeto (2010) escrevem que os direitos sociais se referem ao bem-estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social, levando uma vida de ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade (consumo, lazer, segurança). O sistema educacional e os serviços sociais deverão garantir estes direitos. A educação é um pré-requisito necessário à liberdade civil, pois os direitos civis se destinam a ser utilizados por pessoas inteligentes e de bom senso, que aprenderam a ler e escrever. Nesse sentido, é fundamental destacar que os direitos humanos estão intimamente ligados com os direitos sociais, sendo que ambos buscam a melhor organização da vida dos indivíduos. Nessa mesma linha de pensamento, Costa e Novais (2011) defendem que ainda é tímida a introdução da temática dos Direitos Humanos na formação inicial e continuada dos educadores no Brasil. A partir disso, é urgente a modificação dessa situação, principalmente pelo fato de que, por um lado, identificamos a ampliação dos movimentos sociais que lutam ativamente pelo estabelecimento da cidadania ativa e pela vigência da terceira versão do Programa Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNDH-3), material brevemente discutido anteriormente. Por outro lado, verificamos que a violação sistemática dos direitos humanos é uma conduta incompatível com qualquer projeto nacional que vise a uma sociedade justa, igualitária, não violenta e democrática. Figura 04 - Movimentos sociais. Fonte: Sul21 (2016). A essência pura e simples de educação em direitos humanos consiste na criação e socialização de uma cultura que contribua para fortalecer e empoderar os grupos vulneráveis ou vítimas de violação dos direitos humanos, ancorada no reconhecimento de que todas as pessoas devem ser respeitadas em sua condição humana e de sujeitos de direitos, sendo que as diferenças entre as pessoas não podem ser motivo para qualquer forma de violência. Paulo Freire (1970, p. 67) assim escreve: [...] a educação como prática de liberdade, abomina a ideia do homem abstrato, desligado do mundo e também a ideia do mundo como uma realidade ausente dos homens e suas relações com o mundo como uma realidade em transformação. Por meio da problematização dessa realidade, a educação libertadora busca permanentemente refletir como os homens “estão sendo no mundo” se empenhando na desmistificação da realidade (FREIRE, 1970, p. 67). Portanto, uma Educação ligada aos Direitos Humanos deve considerar o ser humano inserido em uma realidade social, cultural e política, de modo que suas características não sejam alvo de agressões e qualquer forma de violência, mas ao contrário, as características humanas devem fazer parte do reconhecimento das diferenças entre as pessoas, além de serem valorizadas. Figura 05 - Reconhecimento das Diferenças. Fonte: Fórmulageo (2012). Partindo desse pressuposto, a noção de dignidade sugere a garantia de liberdade e de autonomia do sujeito e tem como características fundamentais: a) a dignidade da pessoa humana reporta-se a todas e cada uma das pessoas e é a dignidade da pessoa individual e concreta; b) cada pessoa vive em relação comunitária, mas a dignidade que possui é dela mesma, e não da situação em si; c) o primado da pessoa é o do ser, não o do ter; a liberdade prevalece sobre a propriedade; d) a proteção da dignidade das pessoas está para além da cidadania [...] e postula uma visão universalista da atribuição de direitos; e) a dignidade da pessoa pressupõe a autonomia vital da pessoal, a sua autodeterminação relativamente ao Estado, às demais entidades públicas e às outras pessoas (MIRANDA, 1991, p.169). A partir do exposto, é fundamental pensarmos que a dignidade humana perpassa inúmeras características que já vem sendo discutidas ao longo desse material, à medida em que é fundamental estabelecer questões voltadas à liberdade, ao diálogo e ao cuidado para com os diferentes grupos sociais, buscando sempre melhorar a condição de vida das pessoas. Costa e Novais (2011) ainda enfatizam que o preconceito e a discriminação de mulheres, negros, índios, homossexuais, portadores de necessidade especiais, e de tantos outros excluídos, nos mostram a falta de compreensão da noção da dignidade humana que nos impõe a obrigação de considerar o Outro, de respeitá-lo em qualquer dimensão humana e em qualquer lugar que ele esteja. Figura 06 - o exercício do Respeito. Fonte: Barsanulfo (2016). As autoras defendem que a dignidade humana é considerada o cerne da Declaraçãodos Direitos Humanos (material já discutido anteriormente), pois em seu preâmbulo já anuncia e reconhece a dignidade inerente a todos os membros da família humana. Para o estabelecimento de relações não violentas e de acolhimento é preciso que haja a compreensão da dignidade humana tal como é considerada na referida Declaração, ou seja, como um valor inerente ao ser humano, que nos faz considerá-los como algo diferente de uma coisa, de um objeto (COSTA; NOVAIS, 2011). A partir do que foi exposto, é fundamental destacarmos que educar em Direitos Humanos significa ter a vida cotidiana como referência contínua. É um aprendizado que não ocorre de forma pontual, isolada ou independente, mas que, ordenadamente, faz parte da ação educacional. Por isso, é admirável a elaboração de abordagens condizentes com este tipo de educação, que possam contribuir para seu exercício. O ponto inicial deve ser o de uma prática pedagógica crítica, empoderadora, dialógica, que articule os saberes dos profissionais da educação em Direitos Humanos e que oportunize aos educadores uma ampla gama de opções, de observações, de análises, de descobertas. É preciso consolidar o aprendizado pela vivência, fazer do exercício cotidiano da cidadania uma prioridade. Figura 07 - Prática pedagógica empoderadora como ação fundamental para o alcance dos Direitos Humanos. Fonte: Rothbard (2012). Hoje, é preciso considerar a diversidade existente entre os seres humanos para que possamos, de fato, alcançar uma Educação baseada nos Direitos Humanos. Silveira (2014, p. 204) enfatiza que anteriormente, a escola não atentava “[...] para as diversidades nela existentes porque estava organizada de acordo com uma concepção de educação segundo a qual os seres humanos eram considerados semelhantes e deveriam ser tratados dessa maneira”. Assim, fica evidente que considerar todas as pessoas iguais faz com que esqueçamos de suas características específicas, colaborando para um regime de exclusão. A relação entre Educação e Direitos Humanos é muito bem embasada por Fernandes e Paludeto (2010) quando os autores defendem que ao compreendermos que a Educação é um direito, as lutas pela educação pública, gratuita, obrigatória e laica ganham espaço no contexto nacional. Observamos, sobretudo a partir dos anos 2000, a expansão do ensino fundamental e a abertura para novas vagas no ensino médio; o Estado começa a focar na educação básica, influenciado, de acordo com os autores, “[...] pelas exigências das instituições financeiras internacionais, como FMI e Banco Mundial” (FERNANDES; PALUDETO, 2010). REFLITA Importante ressaltar que assegurar o direito à educação significa não só o acesso e permanência, mas a terminalidade do processo escolar, a qualidade do ensino, estruturas escolares adequadas, condições básicas de trabalho aos profissionais da escola, enfim, tornar as leis um fato, ou seja, sair do texto e se direcionar para o contexto. Tudo isso faz com que, de fato, a Educação seja vista como um direito. Portanto, formar indivíduos que incorporem os conceitos de Direitos Humanos no ambiente escolar é algo infinitamente prioritário, visto que a escola é um espaço de sociabilização e formação, que potencializa o encontro das diversidades, da aprendizagem, da construção, da sociabilidade, da reflexão, da criticidade. Candau (2012, p. 09) escreve que Manifestações de preconceito, discriminação e violência se multiplicam em número crescente em muitas de nossas escolas. Desafiam as práticas habituais do cotidiano escolar. Como educadores e educadoras ficamos perplexos/as e muitas vezes nos sentimos impotentes. Algumas iniciativas são tomadas, de caráter pontual, dirigidas a grupos determinados, em momentos específicos do ano escolar, projetos que abordam temas concretos são implementados. Mas os desafios permanecem e, em muitos casos, se agravam. O excerto acima merece destaque por discutir, diretamente, que os ambiente escolar ainda é um lócus de opressão, um ambiente que desmotiva as pessoas a continuarem suas vidas de maneira saudável. Figura 08 - A escola ainda oprime. Fonte: Inteligência (s/d). É fundamental que as escolas se apropriem de um diálogo que reconheça as diferenças, de modo a combater qualquer prática discriminatória, sempre se apoiando nos preceitos dos Direitos Humanos como uma saída para as inúmeras formas de violência. Merece destaque, também, o fato de que as instituições escolares devem criar projetos contínuos de trabalho que almeja o combate à violência, buscando sempre aprimorar suas práticas pedagógicas sob um discurso (e uma ação) que envolva todas pessoas que fazem parte desse contexto escolar. A formação de professores é uma ferramenta bastante importante para se pensar, de modo que os profissionais da educação devem saber lidar com todas as formas de diferenças, abolindo de seus discursos falas discriminatórias e ações degradantes em relação ao outro ser humano. Evidente que para modificar esse quadro de violência contra a dignidade humana, é preciso um trabalho conjunto entre indivíduos e Estado, de modo que se estabeleça uma relação de convivência harmônica e que ninguém se sinta menosprezado por conta de quaisquer características ligadas à religião, sexualidade, gênero, classe social, e tantas outras. Candau (2012, p. 09) destaca que se trata de “[...] promover uma educação em direitos humanos na perspectiva intercultural crítica que afete todos os atores e dimensões do processo educativo, assim como os diferentes âmbitos em que ele se desenvolve”. A mesma autora ainda acrescenta: Trata-se de uma tarefa de longo prazo, mas, ao mesmo tempo, podemos colocá-la em prática hoje, no nosso contexto educacional específico. De fato, já existem muitos educadores e educadoras comprometidos/as com ela. Estamos convidados/as a fortalecer esta ação coletiva, na nossa escola e nos movimentos sociais. Sabemos que a escola não é onipotente. Mas acredito que, articulando suas ações com as de outros atores sociais, muito poderemos contribuir para a construção de uma educação e uma sociedade mais igualitárias e democráticas (CANDAU, 2012, p. 09). Candau (2012), a partir do exposto, chama a atenção para o fato de que a escola deve começar as suas atividades de práticas voltadas aos Direitos Humanos o quanto antes. Mesmo que a escola não mude a sociedade como um todo, a sua contribuição é bastante valiosa. Nessa mesma perspectiva, é necessário pensarmos que as atividades escolares devem estar caminhando conjuntamente com as atividades e práticas de outras instituições, para que se alcance os objetivos de maneira mais eficaz. Discutir a dignidade humana é uma tarefa árdua e necessária e deve ser feita com o apoio das mais várias instituições públicas e privadas. Figura 09 - A escola deve estar conectada a outras instituições. Fonte: JusTocantins (2013). A partir do que vimos analisando até o momento, podemos destacar que a garantia do direito à Educação, enquanto direito humano fundamental, cursa um caminho caracterizado por vários sujeitos sociais: pelas lutas que afirmam esse direito, pela responsabilidade do Estado em fornecer os meios indispensáveis à sua consolidação e pela adoção de concepção de uma educação cujo princípio de igualdade considere o necessário respeito e reconhecimento à diversidade humana. Educar para os direitos humanos é, antes de tudo, admitir a postura de diálogo que mobiliza uma teia de relações desenvolvidas a partir da qual educadores e educandos ajustam a definição das situações sociais, tendo como artefato intercessor seus próprios saberes. Figura 10 - Diálogo como ação para se alcançar os Direitos Humanos. Fonte: Serra (2018). Tal noção de educação para os direitos humanos guarda íntima conexão com os ideais de democracia, cidadania, direito, paz e justiça social, tão caros aos que militam pelos direitos humanos no nosso país. Assim, é interessante retomar os escritos de Claude (2005) que enfatiza que a Educaçãoé valiosa por ser a mais eficiente ferramenta para crescimento pessoal. E assume o status de direito humano, principalmente por ser parte integrante da dignidade humana e contribuir para ampliá-la com conhecimento, saber e discernimento. Além disso, pelo tipo de instrumento que constitui, trata- se de um direito de múltiplas faces: social, econômica e cultural. Nos dias de hoje, afirma Claude (2005, p. 62), “[...] muitos observadores, ativistas e educadores percebem o início de um movimento internacional em apoio ao ensino dos direitos humanos”. Tais iniciativas tornaram-se mais viáveis graças aos recursos da ONU disponíveis mundialmente, além de uma rede internacional de cooperação de grupos públicos e privados, em rápida expansão. O ponto de vista compartilhado pelos envolvidos focaliza a construção de uma “cultura universal de direitos humanos”, não mais uma utopia fantasiosa, e sim “[...] um desafio atual para um mundo globalizado, que precisa compartilhar valores positivos. Estamos diante da obrigação, em nível internacional, nacional, local e pessoal, de adotar programas eficazes de ensino de direitos humanos” (CLAUDE, 2005, p. 62) e empregar métodos que possam garantir que a tarefa seja bem-feita, de maneira consistente com os objetivos de paz mundial e respeito aos direitos humanos por toda parte. Figura 11 - O esforço conjunto é basilar para alcançar a dignidade humana. Fonte: Zoom (2018). Para concluir a Unidade 01, vale reforçar que são muitos os documentos internacionais e nacionais que buscam contribuir para o alcance dos Direitos Humanos. Sendo assim, o quadro abaixo apresenta 25 (vinte e cinco) desses documentos. 01 CÓDIGO DE HAMURABI (MESOPOTÂMIA/BABILÔNIA, 2067-2025 A.C) 02 CÓDICO DE MANU (ÍNDIA, 1300 – 1800 A.C) 03 LEI DAS XII TÁBUAS (ROMA, 451 A.C) 04 MAGNA CHARTA LIBERTATUM (INGLATERRA, 1215) 05 PETITION OF RIGHT (INGLATERRA, 1628) 06 HABEAS CORPUS ACT (INGLATERRA, 1628) 07 BILL OF RIGHT (INGLATERRA, 1689) 08 ACT OS SEATTLEMENT (INGLATERRA, 12/07/1701) 09 DECLARAÇÃO DE DIREITOS DA VIRGÍNIA (EUA, 1776) 10 DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS DA AMÉRICA (1776) 11 CONSTITUIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (1787) 12 DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO (FRANÇA, 26/08/1789) 13 CONSTITUIÇÃO FRANCESA (03/09/1791) 14 CONSTITUIÇÃO FRANCESA (24/06/1793) 15 CONSTITUIÇÃO CÁDIS (ESPANHA, 19/03/1812) 16 CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA (1822) 17 CONSTITUIÇÃO BELGA (07/02/1831) 18 DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CONSTITUIÇÃO FRANCESA (04/11/1848) 19 CONSTITUIÇÃO MEXICANA (31/01/1917) 20 CONSTITUIÇÃO DE WEIMAR (ALEMANHA, 11/08/1919) 21 DECLARAÇÃO SOVIÉTICA DOS DIREITOS DO POVO TRABALHADOR E EXPLORADO (17/01/1918) 22 CARTA DO TRABALHO (ITÁLIA, 1927) 23 DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (FRANÇA, 1948) 24 CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA (1988) 25 PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS 03 (2010) Quadro 01: Principais documentos históricos sobre os Direitos Humanos. Disponível em: . Acesso em: 22 mai. 2018. 2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A DIVERSIDADE ÉTNICA Como foi discutido até aqui, é fundamental compreendermos que os Direitos Humanos são fundamentais para a convivência harmônica entre as pessoas. Garantir a dignidade humana é uma tarefa necessária e que deve ser feita em conjunto entre as instituições escolares e demais instituições existentes, sejam públicas ou privadas. Portanto, a formação de professores (que vem sendo discutida nesse material) é uma ferramenta basilar para que as escolas estejam preparadas para lidar com a diversidade humana, buscando sempre melhorar suas práticas, de modo a não discriminar ou violentar de qualquer outra forma as pessoas que participam desse contexto. Partindo desse cenário, destacamos, aqui, a importância de pensarmos as questões étnicas, de modo a não discriminar ou violentar as pessoas por conta de sua etnia. Sabemos que o Brasil é um país heterogêneo e multicultural, logo, todas essas características relacionadas à etnia humana devem ser reconhecidas. Ainda salientamos que a etnia dos indivíduos não pode servir de degrau para justificar uma discriminação, um preconceito, uma injúria ou outras maneiras de violência contra as pessoas. Assim, a Unidade dois busca discutir, a partir de conhecimento científico, em um primeiro momento, a diversidade étnica e, em um segundo momento, a formação de professores levando em consideração essa diversidade. O diálogo construído aqui é fortalecido a partir de documentos legais e estudos já realizados na área. 2.1. DIVERSIDADE ÉTNICA Um ponto inicial de discussão é que é necessário pensarmos a diversidade étnica não apenas como a diferença do outro em relação a mim, mas qual a relação entre o outro e eu. Desse modo, a diversidade étnica precisa ser vista como uma característica humana frente às relações estabelecidas entre si. Nesse cenário, é preciso sabermos o que, de fato, é a diversidade étnica, para que possamos estabelecer nossas práticas a partir de ações que promovam o bem estar entre as pessoas. Figura 12 - Diversidade Étnica no Brasil. Fonte: Disponível em: Nova Escola (2014). Fernandes (2005, p. 379) destaca que Muitos antropólogos, historiadores e cientistas sociais, a exemplo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo e, mais recentemente, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, Alfredo Bosi e Renato Ortiz, já se preocuparam em definir e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas dimensões. Todos, a par de suas diferentes posições político-ideológicas, são unânimes em concordar que a característica marcante de nossa cultura é a riqueza de sua diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continentais de nossa territorialidade. A partir do exposto, é fundamental pensarmos na constituição multicultural do povo brasileiro, em que essa cultura é composta por uma diversidade étnica bastante variada. Isso se dá por conta do processo histórico de formação e, também, por conta da grande territorialidade a qual o Brasil se encontra. Nesse sentido, o mais adequado é pensarmos em culturas brasileiras em vez de utilizarmos o termo no singular (cultura brasileira); justamente pelo fato de o povo brasileiro ser instituído a partir de uma variedade enorme de características. Fernandes (2005, p. 379) ainda enfatiza que apesar da influência marcante da cultura de matriz europeia por força da colonização ibérica no Brasil, “[...] a cultura tida como dominante não conseguiu, de todo, apagar as culturas indígena e africana”. Muito pelo contrário, continua o autor destacando que o colonizador europeu “[...] deixou-se influenciar pela riqueza da pluralidade cultural de índios e negros. No entanto, o modelo de organização implantado pelos portugueses também se fez presente no campo da educação e da cultura” (FERNANDES, 2005, p. 379). Assim, mesmo havendo uma colonização europeia em nosso país, os traços e as características indígenas e africanas não foram totalmente apagadas, fazendo parte – e apresentando grande importância – para a realidade histórica e social desse país. Figura 13 - Miscigenação. Fonte: Veja (2015). É fundamental que a população negra seja protagonista da história do Brasil, de modo a fazer parte das tomadas de decisões e, consequentemente, ocupando os mais variados espaços públicos e privados. Fernandes (2005, p. 381, grifos do original) escreve que A partir do final dos anos 70 do século XX, novos atores sociais na cena política, protagonizados pelos movimentos populares, sobretudo os ligados ao gênero e à etnia, passaram a reivindicar uma maior participação e reconhecimento de seus direitos de cidadania. Entre esses movimentos sociais, podemosindicar o movimento indigenista, que reivindica, do governo, a demarcação das terras indígenas e o direito à sua própria cultura, e os movimentos de consciência negra, que lutam, em todo o país, contra quaisquer formas de preconceito e discriminação racial, bem como pelo direito à diferença, pautada no estudo e valorização de aspectos da cultura afro- brasileira. Esses movimentos servem para assegurar a presença de culturas fundamentais na escrita da história do Brasil, juntamente com as bandeiras da não-discriminação e do combate ao preconceito em relação às diferenças culturais, sobretudo à população negra. Os movimentos sociais funcionam como um instrumento de levar à sociedade algo que parece bastante óbvio: todas as pessoas devem ser respeitadas, independentemente de sua etnia, seu gênero, sua posição política etc. Figura 14 - Movimento Negro no Brasil. Fonte: Gazeta do Povo (2018). Torna-se essencial discutirmos acerca do movimento negro no Brasil, sobretudo pela representatividade desses movimentos junto às lutas pelo combate à discriminação e outras formas de violência. Vamos atenuar nossos estudos para os movimentos negros pelo fato de essa ser a população que mais vem sofrendo com a discriminação étnica em nosso país. INDICAÇÃO DE LEITURA NOME DO MATERIAL: Trajetória e Perspectivas do Movimento Negro no Brasil AUTOR: Amauri Mendes Pereira ANO DE PUBLICAÇÃO: 2008 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO MATERIAL: Este Conjunto de três ensaios de Amauri Mendes Pereira propõe uma leitura atualizada do que significou a emergência e a consolidação, no século XX, do Movimento Negro Brasileiro um movimento social liderado, desde o seu início, por intelectuais, artistas e sindicalistas afrodescendentes. O autor reconstitui tal trajetória destacando três momentos singulares: o primeiro impulso, na década de trinta, com o advento de Frente Negra; o segundo impulso, com ênfase no surgimento do Teatro Popular Experimental do Negro e, em seguida, do Teatro Popular Brasileiro; e, finalmente, o terceiro impulso, em que se consolidou definitivamente o movimento anti- racista de reivindicação, com a criação, em 1978, do Movimento Negro Unificado, o MNU. Domingues (2008, p. 103) enfatiza que a ditadura militar que foi implantada a partir do golpe militar de 1964, no Brasil, desarticulou a luta “[...] política do movimento negro organizado. Seus militantes eram vigiados pelos órgãos de repressão. A discussão pública da questão racial foi praticamente banida”. Portanto, ao término desse regime totalitário é que os movimentos da negritude voltaram a atuar com maior ênfase e visibilidade. Domingues (2005, p. 103-104) destaca que Na década de 1980 e, principalmente, depois do processo de redemocratização do País, iniciou-se uma tendência de atomização do movimento negro. Foram criados centenas de grupos afro-brasileiros por todo o território nacional. Em São Paulo, surgiram o Instituto do Negro Padre Batista, o Núcleo de Consciência Negra na USP, a Afrobras; no Rio de Janeiro, apareceu o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP); em Recife, o Djumbay; no Pará, o Centro de Defesa do Negro do Pará (Cedenpa); em Aracaju, a União de Negros de Aracaju (UNA); no Maranhão, o Centro de Cultura Negra (CCN); em Belo Horizonte, a Casa Dandara, entre muitos outros grupos. Como protesto à ausência de espaço, tanto no movimento feminista, quanto no movimento negro, as mulheres afro-brasileiras fundaram suas próprias organizações, como o Geledes, em São Paulo; a Criola, no Rio de Janeiro; a Nzinga, Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte; a Associação das Mulheres Negras, de Porto Alegre. Esses movimentos foram fundamentais para se reestabelecer uma luta diária de combate ao preconceito em relação às pessoas negras no Brasil. O período marcado pela redemocratização do Brasil é um ponto crucial para essas lutas, ao passo que vários movimentos foram se fortalecendo ao longo dos anos. O início década de 1990 também é decisivo na luta em prol dos movimentos negros. Domingues (2008, p. 104) afirma que em 1991 foi realizado o primeiro Encontro Nacional de Entidades Negras (ENEN), em São Paulo. Na avaliação da comissão organizadora, “[...] o conclave ampliou a visibilidade do Movimento Negro; os contornos da discriminação racial ficaram mais nítidos a outros movimentos sociais”, além disso, “[...] rompeu-se o isolamento político do Movimento Negro; o ENEN permitiu que o Movimento Negro ganhasse maior grau de organização”; junto a essas conquistas, “[...] o ENEN permitiu, apesar de todos os problemas ocorridos, que houvesse um fortalecimento do relacionamento entre as entidades”. No final do conclave foi fundada a Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), funcionando como uma espécie de central das organizações afro-brasileiras de base de todo país e articulando os Fóruns Estaduais de Entidades Negras. Ainda na década de 1990, verificou-se uma outra tendência: muitas entidades negras se especializaram, passando a atuar em uma única área. Com esse espírito, [...] surgiram as entidades voltadas para atuar na área da educação, como a Associação Afro-Brasileira de Educação Cultural e Preservação da Vida (Abrevida), em São Paulo; o Educafro, no Rio de Janeiro; o Núcleo de Estudos do Negro (NEN), em Florianópolis; as entidades dedicadas à saúde reprodutiva da mulher negra, como a ONG Fala Preta!, de São Paulo; as direcionadas aos empresários negros, como o Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-Brasileiros do Triângulo Mineiro (Ceabra); as destinadas a enfrentar o racismo à luz do Direito, como as Comissões do Negro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); as dirigidas para tratar dos problemas psicológicos decorrentes do racismo, como o Amma – Psique e Negritude, de São Paulo; as voltadas para conscientizar os protestantes negros, como o grupo Negros em Cristo e, até mesmo, aquelas criadas para defender os direitos dos gays negros, como o Quimbanda-Dudu, de Salvador (DOMINGUES, 2008, p. 105). Esse cenário nos mostra que os movimentos da negritude buscavam – e ainda buscam – participar de ambientes de tomada de decisões, buscando sempre minimizar os efeitos do preconceito étnico. Figura 15 - Contra o preconceito étnico. Fonte: Colégio Pro Futuro (2013). Avançando um pouco no tempo, na atualidade, a principal tendência do movimento negro é impulsionar a campanha em prol das ações afirmativas. De acordo com Domingues (2008), a proposta mais polêmica de ações afirmativas é o programa de cotas para negros. REFLITA O termo Ação Afirmativa refere-se a um conjunto de políticas públicas para proteger minorias e grupos que, em uma determinada sociedade, tenham sido discriminados no passado. A ação afirmativa visa remover barreiras, formais e informais, que impeçam o acesso de certos grupos ao mercado de trabalho, universidades e posições de liderança. Em termos práticos, as ações afirmativas incentivam as organizações a agir positivamente a fim de favorecer pessoas de segmentos sociais discriminados a terem oportunidade de ascender a postos de comando. De acordo com Oliven (2007), o debate sobre políticas de ação afirmativa é relativamente recente em nosso país. O autor ainda explica que esse debate ganha mais repercussão social com a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, ocorrida em 2001, em Durban, África do Sul, “[...] em que o Brasil se posiciona a favor de políticas públicas que venham a favorecer grupos historicamente discriminados” (OLIVEN, 2007, p. 40). O debate sobre cotas raciais no Brasil divide opiniões entre os favoráveis, os não favoráveis e os que não possuem opinião formada. Uma coisa é certa: a nossa sociedade tem oprimido as pessoas por conta de sua etnia, logo, é fundamental que o Estado repare esse dano causado, principalmente, à população negra. Nesse sentido, as cotas são ações afirmativas que buscam diminuir o degrau de oportunidades entre aspessoas negras e as pessoas não negras. É fato que quem defende as cotas raciais não as defendem como uma medida eterna. Ao contrário: espera-se que essa medida sirva para diminuir a discriminação para com as pessoas negras; além disso, anseia-se que as cotas sejam necessárias apenas por um período de tempo curto, ou seja, até que as oportunidades, de fato, sejam as mesmas para todas as pessoas. Figura 16 - A necessidade das cotas raciais. Fonte: Combate (2018). Estudado esse cenário fundamental acerca da diversidade étnica, a seguir, esse material expressará algumas ideias que rodeiam a formação de professores para a diversidade étnica. Buscamos enfatizar, a seguir, a Educação como foco da diminuição do preconceito étnico, sendo que a escola deve ser um lugar de acolhimento e reconhecimento das diferenças. 2.2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E DIVERSIDADE ÉTNICA A escola, ao longo do tempo, tem sido marcada como uma instituição que promove, constantemente, a segregação entre as pessoas. Esse ambiente deve ser diferente: deve ser um lugar de reconhecimento das diferenças, em que as relações humanas sejam sadias e livre de qualquer preconceito. Figura 17 - A escola, muitas vezes, oprime. Fonte: New Car Interative (2016). É preciso lembrarmos que somos um país multicultural e que as diferenças não podem ser alvo de qualquer forma de violência. Corroborando com isso, Fernandes (2005, p. 379) destaca que Apesar desse fato incontestável de que somos, em virtude de nossa formação histórico-social, uma nação multirracial e pluriétnica, de notável diversidade cultural, a escola brasileira ainda não aprendeu a conviver com essa realidade e, por conseguinte, não sabe trabalhar com as crianças e jovens dos estratos sociais mais pobres, constituídos, na sua grande maioria, de negros e mestiços. Os atores escolares necessitam se engajar em uma luta de humanização, à medida em que é fundamental que esse espaço seja um espaço de diversidade e convivência harmônica. Aqui, vamos discutir, mais especificamente, questões voltadas à população negra que é a que mais sofre por conta de preconceito étnico no Brasil. Temos acompanhado, constantemente, matérias midiáticas que mostram o quão grande ainda é o preconceito étnico contra a população negra brasileira, além disso, ao analisarmos algumas práticas a nossa volta, também podemos chegar a essa conclusão. Felipe e Teruya (2014, p. 99) defendem que ao pensarmos na constituição de uma Educação escolar que valorize a população negra de nosso país, sentimos “[...] a necessidade de discutir a importância da inserção de elementos da história africana no currículo escolar nacional”. INDICAÇÃO DE LEITURA NOME DO MATERIAL: Memórias d’África: a temática africana em sala de aula. AUTOR: Carlos Serrano; Mauricio Waldman ANO DE PUBLICAÇÃO: 2007 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO MATERIAL: Compreender a África é sumamente um exercício crítico. Uma meta declarada de 'Memória d'África' aponta para o desvendamento de realidades encobertas por mitos, ficções e imagens fantasiosas. Indiscutivelmente, ainda que existam visões estereotipadas cultivadas contra outros povos e regiões, a África, mais do que qualquer outro continente, terminou encoberta por um véu de preconceitos que ainda hoje marcam a percepção da sua realidade. Daí que uma nova África, vibrante e esperançosa, pode surgir da leitura dessa publicação verdadeiramente original, que no final das contas associa-se também às expectativas de muitos outros milhões de humanos excluídos e que crescentemente estão privados de segurança social, política e econômica. Portanto, o estudo do continente conduz a uma melhor compreensão do mundo e da sociedade brasileira, contribuindo para sua transformação rumo a uma sociedade justa e em equilíbrio para consigo mesma. É este o objetivo e a pretensão de 'Memória d'África'. Fernandes (2005, p. 381) contribui para essa análise ao postular que é de fundamental [...] importância a inclusão do ensino de história da África no currículo da educação básica, por saber que a instituição escolar tem um papel fundamental no combate ao preconceito e à discriminação, porque participa na formulação de atitudes e valores essenciais à formação da cidadania de nossos educandos. Figura 18 - Ensino da história da África. Fonte: Nova Escola (s/d). A escola tem um papel de destaque na formação humana, ao passo que deve acolher toda a diversidade humana. Esse ambiente precisa abrir os olhos para todas as formas de preconceito e discriminação que acontecem ali, desde um xingamento até uma violência física. Os professores – que estão em constante relação direta com os alunos – precisam ter uma base de formação sólida, ou seja, devem estar preparados para atuarem de maneira a não perpetuar o preconceito étnico. Salientamos que essa formação deve acontecer nas universidades – em cursos de formação inicial – e também em cursos de formação continuada, visto que a sociedade está em constante transformação, portanto a formação docente precisa acompanhar tais mudanças. Figura 19 - A sociedade está em transformação e os professores precisam acompanha-la. Fonte: Dependência Química e Sociedade (2012). Voltando ao estudo da história da África nas escolas, essa ação é primordial, sobretudo para compreendermos as gerações passadas, além das diversas características dos nossos povos. Somente o conhecimento da história da África e do negro poderá contribuir para se desfazer os preconceitos e estereótipos ligados ao segmento afro-brasileiro, além de contribuir para o resgate da autoestima de milhares de crianças e jovens que se veem marginalizados por uma escola de padrões eurocêntricos, que nega a pluralidade étnico-cultural de nossa formação. (FERNANDES, 2005, p. 382). Assim, a prática pedagógica deve ser organizada de modo a quebrar os padrões eurocêntricos, buscando sempre com que todas as etnias se sintam incluídas no processo educacional de modo que suas características sejam, efetivamente, visibilizadas nas ações dos professores. Em relação à Educação, vale lembrar que no ano de 2003, o Conselho Nacional de Educação promoveu a alteração da Lei nº. 9.394/1996 (LDBEN) por meio da Lei nº. 10.639/2003, com o objetivo de incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da disciplina História e Cultura Afro-Brasileira. A referida lei estabelece que se estude a história da África e dos africanos, além de dar visibilidade para a luta dos negros no Brasil e discutir a história da cultura negra brasileira e do negro na formação de nossa sociedade. Junto a isso, a Lei nº. 10.639/2003 subsidia no resgate da contribuição do povo negro nas áreas sociais, econômicas e políticas no que se refere à história do Brasil, tornando obrigatória a inclusão dessas questões no currículo escolar da Educação Básica (BRASIL, 2003). Felipe e Teruya (2014) defendem que o ensino sobre as africanidades é fundamental para o Brasil. Nas palavras dos autores, se o Brasil fosse um país sem nenhuma parcela de afrodescendentes negros, “[...] não seria surpreendente que os currículos escolares dispensassem estes conteúdos” (FELIPE; TERUYA, 2014, p. 104). O surpreendente, afirmam os autores, é que embora em nosso país tenha “[...] cerca da metade de sua população que reconhece sua ancestralidade no continente africano, não tenha o ensino sobre os aspectos da história africana na construção de seu currículo escolar” (FELIPE; TERUYA, 2014, p. 104). Figura 20 - A cultura africana muito contribuiu (e contribui) para a cultura brasileira. Fonte: África (2012). Os mesmos autores ainda enfatizam o papel da escola no tocante ao trabalho com as variadas culturas: Cabe à escola a tarefa de pensar possibilidades de acesso às diferentes culturas, não no sentido de incluir em seu calendário datas exclusivas para trabalha-las, mas no sentido de possibilitar a compreensão sobre as diferenças e semelhanças entre uma cultura e outra. As relações de disputa porposições sociais e conhecimentos são carregadas de interesses particulares inerentes tanto à sua própria cultura quanto às outras. Por isso, é necessário que os alunos conheçam a cultura de outros grupos e a história de sua própria cultura em um processo de interação e alteridade (FELIPE; TERUYA, 2014, p. 105). Portanto, a formação docente deve proporcionar aos futuros professores (e aos professores já atuantes) estratégias de diálogo entre as diferentes culturas, a fim de compor um processo de conhecimento, respeito e reconhecimento em relação as mais variadas características culturais. Nesse sentido, a África, seus povos e suas culturas tornam-se foco de “[...] interesse para os profissionais da educação, os quais necessitam de formação inicial e continuada para perceberem que a constituição da história de um povo perpassa a dimensão do poder e do saber” (FELIPE; TERUYA, 2014, p. 105-106). Ainda vale destacar que os estudos da história e da cultura africana articulam a realidade daquele continente com a realidade do Brasil, de modo a salientar as identidades formadoras desse povo que é constituído pela diversidade étnica. É possível afirmar, então, que há fortes e grandes laços entre a nossa sociedade brasileira com a sociedade africana, desde os aspectos religiosos, políticos, culinários, de comunicação etc. Esses aspectos que unem essas duas realidades precisam estar estampados nos materiais escolares da Educação Básica, de modo que os alunos percebam a semelhança, além da ligação entre suas características, com o objetivo de reconhecer tais aspectos. Felipe e Teruya (2014, p. 106-107) escrevem: Defendemos um estudo da história do continente africano a partir de suas próprias estruturas, para conhecer as inter- relações dentro do próprio continente e também as relações com o mundo extra-africano. Somente assim poderemos descobrir uma história que se contrapõe à visão eurocêntrica sobre o continente africano. Precisamos compreender as múltiplas maneiras pelas quais os povos africanos e seus descendentes interferiram nos espaços ocupados em diversas partes do mundo. Um enfoque diacrônico, que contemple tanto as relações intra-africanas como a interação do continente com o mundo exterior, permitirá conhecer os fenômenos e os períodos que ainda se mantêm na escuridão e que são as lacunas do conhecimento mundial. REFLITA Os currículos escolares – e junto a isso a formação de professores – deve caminhar para uma formação que amplie os horizontes dos atores educacionais, com o mérito de desconstruir os aspectos eurocêntricos, colaborando para o reconhecimento de todas as culturas possíveis. Assim, a formação de professores para a diversidade étnica deve contemplar o reconhecimento da diversidade. Canen (2001, p. 222) analisa que “[...] reconhecer a diversidade de universos culturais de alunos no âmbito de práticas docentes implica não só a conscientização acerca do peso dessas práticas no sucesso ou no fracasso destes alunos”, mas sobretudo na importância em “[...] se trabalhar no sentido de mobilizar expectativas positivas que promovam a aprendizagem de todos, independentemente de raça, classe social, sexo ou padrões culturais”. Somente assim a Educação cumprirá seu papel: formar a todas as pessoas com qualidade. Figura 21 - Formação de qualidade aos professores. Fonte: PortalRB (2015). A mesma autora ainda defende: [...] trabalhar com uma proposta de conscientização cultural em formação docente significa, também, ter em vista as representações e o saber desenvolvido por docentes em seu cotidiano escolar, de forma que se incorporem as iniciativas de ruptura com a homogeneização cultural e se combatam as expectativas negativas com relação àqueles cujos padrões culturais não correspondem aos dominantes. Fica evidente a necessidade do rompimento com a homogeneização cultural, sendo fundamental compreendermos toda a gama de cultura e diversidade existente entre os povos, de maneira a sempre enaltecer essas diferenças ao invés de reprimi-las. Canen (2001, p. 223) ainda ressalta que a aproximação com o cotidiano escolar em cursos de formação docente, “[...] aliada a uma proposta imbuída por uma perspectiva intercultural crítica, poderia permitir uma rica interlocução para o avanço de uma preparação docente coadunada com a pluralidade cultural”. INDICAÇÃO DE FILME Nome do Filme: 12 anos de escravidão Direção: Steve McQueen Local e ano: EUA, 2013 Principais temas a serem debatidos: Luta para a sobrevivência, preconceito étnico, escravidão, sofrimento da negritude. Sinopse: 12 Anos de Escravidão é baseado na inacreditável verdadeira história de um homem que luta por sobrevivência e liberdade. Na época pré- Guerra Civil dos Estados Unidos, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro livre do norte de Nova York, é sequestrado e vendido como escravo. Diante da crueldade de um dono de escravos (Michael Fassbender) e de gentilezas inesperadas, Solomon luta não só para se manter vivo, mas também para manter sua dignidade. No décimo segundo ano de sua odisseia inesquecível, Solomon encontra casualmente com um abolicionista canadense (Brad Pitt), que muda sua vida para sempre. Importante ressaltar que para que o respeito seja alcançado em relação às pessoas de etnia diferente da europeia, é fundamental conhecimento acerca do tema, além de formação de qualidade e emancipatória a partir da mais tenra idade. Reconhecer as diferenças é um papel difícil em um país que ainda é marcado pelo preconceito, pela discriminação e pela falta de respeito. No entanto, a escola tem papel importantíssimo na quebra de estereótipos e na condução de estudos que contribuam para o combate a qualquer forma de violência. É um trabalho árduo, porém, necessário. 3. FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA AS RELAÇÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE Outra dimensão humana que ganha destaque nos debates em relação à diversidade é a respeito das relações de gênero e as questões relacionadas à sexualidade. Sobretudo a partir do ano de 2014, aqui no Brasil, as palavras gênero e sexualidade têm sido colocadas como um tabu muito grande e o seu uso errôneo contribui para a disseminação de um pseudoconhecimento, gerando um certo pânico moral em nossa sociedade. Naquele ano foi promulgado o Plano Nacional de Educação, e grupos conservadores organizaram grandes discussões distorcendo os termos. Além disso, no Brasil, o número de mulheres que são mortas todos os anos é algo absurdo, assim como as mortes contra as pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Por conta desse cenário, se justifica unir conhecimentos científicos acerca dos temas gênero e sexualidade, para que os professores em formação (inicial e continuada) tenham embasamento teórico crítico para desenvolverem as suas práticas pedagógicas de maneira a não discriminar nenhuma pessoa que esteja em sala de aula. Assim, é interessante pensarmos que tais relações devem ser compreendidas pelos professores, a fim de buscar maior reconhecimento das diferenças individuais. Portanto, a unidade três busca, em um primeiro momento, apresentar uma discussão sobre gênero e sexualidade. Posterior a isso, será discutida a formação de professores relacionada às questões de gênero e sexualidade. 3.1. GÊNERO E SEXUALIDADE O debate acerca das questões de gênero e sexualidade têm se tornado cada vez mais necessário no âmbito das políticas públicas, principalmente no tocante à área da Educação. É fato que compromissos políticos, sociais e jurídicos são firmados por reformas e documentos visando à promoção da diversidade, no entanto, ainda há muita resistência para as discussões voltadas a gênero e sexualidade. Esse quadro precisa avançar. E uma das formas desse quadro avançar, é por meio do conhecimento. Figura 22 - O conhecimento é fundamental para as discussões de gênero e sexualidade. Fonte: Marques (2015). A partir disso, é fundamental conceituar os aspectos relacionados a gênero e sexualidadepara que possamos dar sequência a esse diálogo. Meyer (2010, p. 16) afirma que “[...] gênero aponta para a noção de que, ao longo da vida, através das mais diversas instituições e práticas sociais, nos constituímos como homens e mulheres, num processo que não é linear, progressivo ou harmônico”. Aponta, também, que esse processo “[...] nunca está finalizado ou completo” (MEYER, 2010, p. 16). Assim, o gênero de uma pessoa não é algo estático ou inflexível, mas é uma característica que vai se moldando ao longo das vivências e experiências acumuladas pelo indivíduo. O gênero pode ser compreendido (de uma maneira um pouco mais didática) como masculino, feminino, nenhum dos dois, ou ambos. Figura 23 - As várias possibilidades de configuração de gênero. Fonte: Inesc (2015). Meyer (2010, p. 17) afirma que “[...] como nascemos e vivemos em tempos, lugares e circunstâncias específicos, existem muitas e conflitantes formas de definir a feminilidade e a masculinidade”. Compreendemos, então, que existem várias maneiras de se viver a masculinidade, a feminilidade, as duas características ou nenhuma delas. Logo, entendemos como uma concepção simplista, a afirmação que existe uma única noção de homem ou mulher (OLIVEIRA, 2013). Meyer (2010, p. 18) ainda acrescenta que [...] o conceito de gênero propõe [...] um afastamento de análises que repousam sobre uma ideia reduzida de papéis/funções de mulher e de homem, para aproximar-nos de uma abordagem muito mais ampla que considera que as instituições sociais, os símbolos, as normas, os conhecimentos, as leis, as doutrinas e as políticas de uma sociedade são constituídas e atravessadas por representações e pressupostos de feminino e de masculino ao mesmo tempo em que estão centralmente implicadas com sua produção, manutenção ou ressignificação. Logo, para compreender as questões que envolvem os aspectos de gênero, é fundamental compreender também todas as instituições que fazem parte do cotidiano de um indivíduo. Como se nota, tomando como base os estudos de Oliveira (2013), não existe um único papel para homem ou mulher; essas categorias vão além de papéis fixos e funções determinadas. REFLITA As concepções de masculinidade e feminilidade estão em todos os momentos da dinâmica social, cheias de novas definições, significados, possibilidades. Nesse sentido, lembramos as obras de Simone de Beauvoir (1980a; 1980b) intituladas O Segundo Sexo (v.1 e v.2) sobre a ideia de que “[...] ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade [mas sim] o conjunto da civilização” (BEAUVOIR, 1980b, p. 09). Acrescenta ainda, que “[...] todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade” (BEAUVOIR, 1980a, p. 07). Avaliamos, portanto, que ninguém nasce homem, mas se torna homem (o mesmo ocorre com a mulher), por meio de suas relações, aspectos culturais, históricos, sociais. INDICAÇÃO DE LEITURA NOME DO LIVRO: O Segundo Sexo AUTORA: Simone de Beauvoir ANO DE PUBLICAÇÃO: 1949 O QUE PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO: Esse livro é uma das obras mais celebradas e importantes para o movimento feminista. O pensamento de Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade (BEAUVOIR, 1980a). A premissa do livro é a de que a mulher não é o “segundo sexo” ou o “outro” por razões naturais e imutáveis, mas sim por uma série de processos sociais, culturais e históricos que criaram esta situação. Toda a sua argumentação gira em torno do questionamento da existência do chamado “eterno feminino”, visto pela sociedade como algo intrínseco a qualquer mulher e que as prenderia a uma gama restrita de características e, principalmente, limitações (BEAUVOIR, 1980a). Outra importante estudiosa do tema, Louro (2001, p. 09) debate ideias fundamentais e que servem para embasar o que foi dito acerca de gênero. A autora expõe que “[...] as muitas formas de fazer-se mulher ou homem, as várias possibilidades de viver prazeres [...] são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente”. Essas características são, também, “[...] renovadamente, reguladas, condenadas ou negadas” (LOURO, 2001, p. 09). Isso nos faz pensar mais uma vez que o gênero é construído de forma social e cultural, nunca estando estável ou sendo fixo. Figura 24 - O gênero é uma construção social e cultural. Fonte: PngTree (2015). Pautados em Louro (2000, p. 26), gênero é [...] a construção social feita sobre diferenças sexuais, gênero refere-se, portanto, ao modo como as chamadas “diferenças sexuais” são representadas ou valorizadas; refere-se àquilo que se diz ou se pensa sobre tais diferenças, no âmbito de uma dada sociedade, num determinado grupo, em determinado contexto. Defendemos, motivados nos autores que já apresentamos, que o gênero é mutável. Do mesmo modo, acreditamos que a sexualidade também não é fixa. Esses são aspectos que defendemos como critérios necessários à prática docente, com o intuito de desconstruir as normas sociais vigentes postuladas como naturais em nossa sociedade. Vale ressaltar que a nossa sociedade constrói estereótipos em relação ao gênero dos indivíduos. Para ilustrar, utilizamos as pesquisas de Oliveira, Pastana e Maia (2011) em que analisaram 10 livros infantis, selecionados em livrarias virtuais. Nesse estudo, as autoras afirmaram que os conteúdos (ou as ilustrações) dos livros apresentavam visões estereotipadas de feminilidade e masculinidade, padrões de famílias patriarcais e tradicionais, noção romantizada de casamento e reprodução, e estereótipos de beleza. As autoras concluíram que “[...] os livros de educação sexual infanto- juvenis reproduzem padrões normativos podendo estimular uma educação sexista não devendo ser utilizados em trabalhos de educação sexual sem reflexão crítica” (OLIVEIRA; PASTANA; MAIA, 2011, p. 80). É válido lembrar então que é sempre necessário analisar e realizar um trabalho de crítica com os materiais utilizados em sala de aula, para acabar, ou ao menos diminuir, as práticas de reafirmação de estereótipos. Para as mesmas autoras, é posto que [...] desde a gestação há a separação, por exemplo, de que azul é de menino e rosa de menina, que brincar de luta é para meninos, e brincar de boneca, para meninas. No decorrer do desenvolvimento tais divisões continuam e é de menino ser “durão” e de menina ser “delicada” (OLIVEIRA; PASTANA; MAIA, 2011, p. 81). Louro (2001) explica que o conceito de gênero procura de contrapor à ideia de uma essência (masculina ou feminina) natural, universal e imutável, enfatizando processos de construção ou formação histórica, linguística e socialmente determinadas. É fundamental sabermos que a identidade de gênero, portanto, é formada constantemente, diariamente, no decorrer da vida de uma pessoa. Essa identidade pode ser modificada, porém, ninguém pode obrigar uma pessoa a fazê-lo. Uma explicação interessante sobre identidade de gênero consiste em que esse conceito é a maneira como alguém se sente e se apresenta para si e para as demais pessoas como masculino ou feminino, ou ainda pode ser uma mistura de ambos ou nenhum dos dois. Figura 25 - A identidade de gênero é complexa e tem muitas facetas. Fonte: ParaDiversidade (2010). Vale ressaltar, também, que a identidade de gênero independe do sexo biológico (fêmea ou macho) ou da orientação sexual (orientação do desejo: homossexual, heterossexual, bissexual, assexual). Portanto, a identidade de gênero é a forma como as pessoas se reconhecem e desejam que os outros as reconheçam. Isso inclui a maneira como cada um age (jeito de ser), a maneira como se veste, anda, fala (o linguajar que utilizam), se vestem. Abaixo, um quadro expondo as duas principais identidades de gênero que conhecemos: cisgênero e transgênero. Quadro 02 – Diferença entre cisgênero e transgênero. NOME DEFINIÇÃO CISGÊNERO É o termo utilizadopara se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”. TRANSGÊNERO É o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica com um gênero diferente daquele que corresponde ao seu gênero atribuído no momento do nascimento. Fonte: Elaborado pelo autor (2018). Além disso, a experiência de masculino e feminino em determinado lugar pode ser bem diferente da experiência de outro lugar. Jesus (2012, p. 08) enfatiza que Mulheres de países nórdicos têm características que, para nossa cultura, são tidas como masculinas. Ser masculino no Brasil é diferente do que é ser masculino no Japão ou mesmo na Argentina. Há culturas para as quais não é o órgão genital que define o sexo. Ser masculino ou feminino, homem ou mulher, é uma questão de gênero. Logo, o conceito básico para entendermos homens e mulheres é o de gênero. A partir disso, é fundamental compreendermos que as questões relacionadas a gênero não são biológicas, mas sociais, culturais, políticas. Sexo, nesse sentido, é biológico, enquanto gênero é social, construído pelas diferentes culturas. “E o gênero vai além do sexo: O que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos ou a conformação genital, mas a auto-percepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente” (JESUS, 2012, p. 08). Destacamos aqui a divisão feita na maioria das vezes por pais, mães, tios, tias, familiares, amigos/as que acompanham o desenvolvimento de uma criança. As características são bem marcadas e reafirmadas. Esses padrões de gênero, juntamente com os padrões de heteronormatividade, “[...] são reproduzidos e reiterados pelas mais diversas instâncias da sociedade: a família, a escola, as instituições, os meios de comunicação etc.” (OLIVEIRA; PASTANA; MAIA, 2011, p. 81). E o que é esse padrão de heteronormatividade? Louro (2010, p. 43-44) afirma que a heteronormatividade é o pensamento de que existe apenas “[...] um modo adequado, legítimo, normal de masculinidade e de feminilidade e uma única forma sadia e normal de sexualidade, a heterossexualidade”. Todas as características que fogem a essa delimitação são consideradas desvios. Ainda nas palavras da autora, “[...] afastar-se desse padrão [de heterossexualidade] significa buscar o desvio, sair do centro, tornar-se excêntrico” (LOURO, 2010, p. 44). Percebemos que o conceito de diversidade não existe para a heteronormatividade, e se existe, está fora do “comum”, do aceitável. Figura 26 - Conceito de heteronormatividade. Fonte: Dicio (s/d). Aproveitando o exemplo citado acima, vamos discutir acerca do conceito de sexualidade. Em relação aos aspectos da sexualidade, Louro (2001, p. 11) defende que “[...] a sexualidade não é apenas uma questão pessoal, mas é social e política [...] é “aprendida”, ou melhor, é construída, ao longo de toda a vida, de muitos modos, por todos os sujeitos”. Weeks (2001, p. 39) faz menção às sexualidades quando escreve que “[...] é, entretanto, além de uma preocupação individual, uma questão claramente crítica e política, merecendo, portanto, uma investigação e uma análise histórica e sociológica cuidadosas”. Logo, é percebida, novamente, a característica de construção e reconstrução da noção das categorias de gênero e de sexualidade. Lourenço (2002), em sentido amplo, afirma que a sexualidade se expressa no estilo de vida que cada pessoa adota, no modo como se demonstram os afetos, na percepção erotizada dos estímulos sensoriais e também nos papéis de gênero – jeito adotado para vivenciar o feminino ou para vivenciar o masculino, que tem implicações nas relações estabelecidas entre homens e mulheres. Figura 27 - O tema sexualidade faz parte da curiosidade dos alunos e precisa ser debatido na escola. Fonte: Iped (s/d). Nesse mesmo sentido, o Governo Federal, em 2013, publicou um material intitulado “Saúde Sexual e Reprodutiva” em que desmistifica vários conceitos relacionados à sexualidade. Esse documento do Ministério da Saúde enfatiza que a sexualidade [...] envolve, além do corpo, os sentimentos, a história de vida, os costumes, as relações afetivas e a cultura. Portanto, é uma dimensão fundamental de todas as etapas da vida de homens e mulheres, presente desde o nascimento até a morte, e abarca aspectos físicos, psicoemocionais e socioculturais (BRASIL, 2013, p. 39). A partir desse cenário, é possível observarmos que a sexualidade envolve muitas características humanas, desde as relações afetivas até os aspectos culturais e sociais. Portanto, é uma dimensão bastante ampla do ser humano e merece atenção especial. O documento citado anteriormente continua informando que Existe, atualmente, preocupação em não rotular ou estigmatizar comportamentos sexuais em “normais” ou “anormais”. Busca-se discutir os comportamentos e as práticas sexuais sem preconceitos, considerando que são relativos, dependendo da cultura, do contexto histórico, social e de vida da pessoa. Dessa forma, é fundamental valorizar, promover e incentivar o autoconhecimento, que implica buscar conhecer a si próprio, os valores, o modo de ver e viver a vida e as relações com os outros, em tomar contato com os sentimentos, em conhecer o corpo e em identificar as potencialidades e dificuldades/bloqueios de diversas ordens. Da mesma forma, é importante estimular a construção de relacionamentos que contribuam para o crescimento pessoal, que ajudem na superação das dificuldades e fortaleçam a autoestima (BRASIL, 2013, p. 40). Assim, fica evidente o esforço do Estado em buscar uma formação que não rotule os aspectos da sexualidade, sobretudo para que sejam diminuídos os casos de discriminação e outras formas de violência. Carrara et al (2009, p. 99) explicitam que a sexualidade diz respeito “[...] à privacidade e ao bem-estar de cada indivíduo, e sua expressão está constantemente sujeita à pressão e à vigilância pública para que seja exercida conforme o que ‘naturalmente’ se espera”. REFLITA Quando uma sociedade delimita que há uma forma “normal”, “correta” de sexualidade, essa mesma sociedade está informando que o que não segue essa norma é algo “anormal”, “errado”. Há a necessidade de se tomar cuidado com essa conceituação, pois disso pode resultar o preconceito, a violência, a discriminação. Há tempos, os estudos mais recentes relacionados à sexualidade têm enfatizado que não há “erro” ao vivenciar a sexualidade (exceto em casos de violência sexual), mas há formas diferentes de vivencia-la. Portanto, todas as formas devem ser consideradas como válidas. Carrara et al (2009, p. 99) ainda destacam que [...] é comum, por exemplo, que tomemos como pressuposto a ideia de que quem tem pênis é ‘homem’ e, portanto, deve se sentir ‘masculino’ e se comportar como tal, e quem tem vagina é ‘mulher’, e deve se sentir ‘feminina’ e se comportar como tal. O homem tem que desejar a mulher e a mulher, o homem e somente o homem e a mulher podem se unir em casamento e formar uma família. Isto corresponde ao que é considerado ‘certo’ e ‘normal’ pelo senso comum. Porém, um homem pode se sentir ‘masculino’ e desejar outro homem. Uma mulher pode se sentir ‘feminina’ e desejar outra mulher. Alguém que nasceu com atributos corporais masculinos e foi educado para ‘atuar como homem’ pode se sentir ‘feminino’ (ou vice-versa), a ponto de querer modificar seu corpo tornando-se tão mulher (ou tão homem) quanto quem teve esse gênero atribuído ao nascer. Contudo, defendemos ainda, amparados em Felipe (2009, p. 47) que “[...] gênero e sexualidade são conceitos indissociáveis, vinculados às relações de poder entre os indivíduos e grupos sociais. Não é possível discutir um sem referir o outro”. Logo, é fundamental analisar as relações entre homens e mulheres quando o assunto é também a Educação, visto que essas relações são sempre de poder e estão ligadas à vida em sociedade. Ainda abrimos um parênteses para apresentar o que é orientação sexual, visto que esse termo está intimamente relacionado