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DIREITO ADMINISTRATIVO II 1 B E N S P Ú B L I C O S 1. Noção de Bens Públicos e suas divergências conceituais Assim como outros tantos temas do direito administrativo, não existe um consenso quanto à definição de bens públicos. Isso porque a legislação administrativa pátria não apresenta uma definição, ao passo que coube ao Código de Civil de 2002, uma legislação de direito privado, trazer um conceito para o instituto. Sendo assim, vejamos como o CC/2002 define bens públicos em seu art. 98, in verbis: Art. 98. São públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno; todos os outros são particulares, seja qual for a pessoa a que pertencerem. Esse conceito trazido pelo legislador civil não é aceito pela maioria dos doutrinadores administrativistas. Por isso, desenvolveram-se três principais correntes para conceituar bem público. Para a Corrente Exclusivista, defendida por autores como José dos Santos Carvalho Filho, o conceito de bem público necessariamente deve estar vinculado à ideia de pertencerem ao patrimônio de pessoas de direito público. Essa corrente, portanto, se alinha a opção adotada pelo CC/2002. Para eles bens públicos são todos aqueles que, de qualquer natureza ou a qualquer título, pertençam às pessoas jurídicas de direito público, aí incluídas a União, os Estados, os Município e o Distrito federal, bem como seus respectivos entes da administração indireta que tenham natureza jurídica de direito público (autarquias, fundações públicas de direito público e associações públicas). A Corrente Inclusivista é defendida por autores como Helly Lopes Meirelles e Zanella Di Pietro. Segundo seus defensores bens públicos são todos aqueles pertencentes à Administração Pública direta e indireta. Perceba que a diferença da corrente exclusivista é sutil. Para os inclusivistas os bens dos entes da administração pública indireta de natureza de direito privado também são considerados bens públicos. Já a Corrente Mista, adotada por autores como Celso Antônio Bandeira de Mello, defende que são bens públicos todos os que pertencem a pessoas jurídicas de direito público, bem como os que estejam afetados à prestação de um serviço DIREITO ADMINISTRATIVO II 2 público. Essa corrente é a mais coerente com o direito positivo nacional, pois reconhece a existência de especial tratamento normativo aos bens pertencentes a pessoas jurídicas de direito privado, estatais ou não, indispensáveis à continuidade da prestação de serviços públicos. É importante o aluno ter em mente que, por se filiar explicitamente à corrente adotada pelo Código Civil, a corrente mais aceitas pelas bancas de concurso é a corrente exclusivista. Todavia, entre os doutrinadores mais modernos a corrente mista é a preferida. Quando tratamos de conceituar bens públicos, existe outro termo que é sempre lembrado: Domínio Público. Em sentido amplo, o domínio público refere-se à autoridade do Estado sobre os bens públicos, abrangendo também a sua capacidade de regulamentar os bens que integram o patrimônio privado. Essa noção mais abrangente está relacionada ao chamado domínio eminente, definido como o “poder político pelo qual o Estado submete à sua vontade todas as coisas situadas em seu território”. Contudo, é importante destacar que o domínio eminente não significa que o Estado seja proprietário de todos os bens existentes em seu território. Os bens públicos são de titularidade estatal, enquanto os bens privados estão sujeitos a uma regulamentação jurídica por parte do poder público. Já em um sentido estrito, a expressão domínio público engloba o conjunto de bens, sejam móveis ou imóveis, corpóreos ou incorpóreos, que pertencem ao Estado. Nessa perspectiva mais específica, o conceito de domínio público se aproxima bastante do conceito civilista de bem público. Por fim, ainda se tratando de questões conceituais, é preciso tratar da Res Nullius. Além dos bens pertencentes ao domínio público e bens pertencentes ao domínio privado, existe uma terceira categoria composta por bens sem proprietário definido, conhecidos como res nullius ou bens adéspotas. Esses bens não estão expressamente regulamentados pelo ordenamento jurídico e incluem tanto os bens inapropriáveis, como a luz, que não podem ser possuídos, quanto os bens condicionadamente inapropriáveis, como os animais selvagens, cuja apropriação depende de captura ou posse efetiva. DIREITO ADMINISTRATIVO II 3 2. Classificação dos Bens Públicos A classificação dos bens públicos costuma levar em conta três critérios principais que, para facilitar a compreensão, estudaremos na seguinte ordem: 1º) quanto à destinação; 2º) quanto à disponibilidade; e, 3º) Quanto à titularidade. Mas, antes de adentrarmos no tema, precisamos conhecer duas expressões que são de fundamental importância para entendermos os dois primeiros critérios de classificação acima citados. Trata-se dos conceitos de afetação e desafetação. A afetação é o ato ou fato por meio do qual um bem, não vinculado a um fim específico, passa a sofrer uma destinação a um fim público. Uma vez afetado, o bem se tornará bem de uso comum do povo ou bem de uso especial. Já a desafetação ocorre por meio de ato que retira a destinação pública outrora estabelecida. Portanto, o ato de afetação significa dar destinação pública a um bem que não tinha tal destinação. E a desafetação é retirar a destinação pública do bem. A afetação e a desafetação podem ser expressa, quando decorrerem de lei ou ato administrativo, ou tácita, quando resultar da atuação da Administração Pública, porém sem manifestação expressa a respeito, ou de fato da natureza. Feita essa explicação, avencemos para a classificação dos bens públicos. 2.1. Bens Públicos quanto a sua destinação Por esse critério os bens públicos se dividem em três tipos: a) bens de uso comum do povo; b) bens de uso especial; e, c) bens dominicais. a) Bens de uso comum do povo: Também conhecidos como bens do domínio público, são aqueles abertos à utilização universal, por toda a população, como os logradouros públicos, praças, mares, ruas, florestas, meio ambiente etc. É o que dispõe art. 99, I, do CC/02 “Art. 99. São bens públicos: I – os de uso comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças”. Os bens de uso comum do povo, enquanto mantiverem essa qualidade, não podem ser alienados ou onerados (art. 100 do CC/02). Assim, tais bens fazem parte do patrimônio público indisponível. Somente após o processo de desafetação, sendo transformados em dominicais, estes bens poderiam ser alienados. DIREITO ADMINISTRATIVO II 4 Os bens de uso comum do povo admitem utilização gratuita ou remunerada, conforme for estabelecido legalmente pela entidade a cuja administração pertençam (art. 103 do CC/02). b) Bens de uso especial: Também chamados de bens do patrimônio administrativo são aqueles afetados a uma destinação específica. Fazem parte do aparelhamento administrativo, sendo considerados instrumentos para execução de serviços públicos. São exemplos de bens de uso especial os edifícios de repartições públicas, mercados municipais, cemitérios públicos, veículos da Administração, terras tradicionalmente ocupadas pelos índios etc. É o que dispõe art. 99, II, do CC/02 “Art. 99. São bens públicos: I – os de uso especial, tais como edifícios ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento da administração federal, estadual, territorial ou municipal, inclusive os de suas autarquias”. Assim como os de uso comum, os bens de uso especial, enquanto mantiverem essa qualidade, não podem ser alienados ou onerados (art. 100 do CC/02), compondo o denominado patrimônio público indisponível. A alienação de tais bens somente será possível com sua transformação, via desafetação, em bens dominicais.c) Bens dominicais: Também chamados de bens do patrimônio público disponível ou bens do patrimônio fiscal, os bens dominicais ou dominiais, são todos aqueles sem utilidade específica, podendo ser utilizados em qualquer fim ou, mesmo, alienados pela Administração, se ela assim o desejar. São exemplos de bens dominiais as terras devolutas, viaturas sucateadas, terrenos baldios, carteiras escolares danificadas, dívida ativa etc. A Administração pode, em relação aos bens dominicais, exercer poderes de proprietário, como usar, gozar e dispor. Diz-se que os bens dominicais são aqueles que o Poder Público utiliza como dele se utilizariam os particulares Assim, os bens dominicais podem ser alienados, nos termos do disposto na legislação, por meio de compra e venda, doação, permuta, dação, investidura etc. A doação, a permuta, a dação em pagamento, a investidura e a venda a outro órgão ou entidade da Administração Pública dispensam a realização de licitação. Os bens de uso especial e os bens de uso comum do povo estão afetados à proteção dos interesses da coletividade, vale dizer, do interesse público primário. Pelo DIREITO ADMINISTRATIVO II 5 contrário, os bens dominicais estão vinculados ao interesse patrimonial do Estado, que é o interesse público secundário. 2.2. Bens Públicos quanto à disponibilidade Por esse critério os bens públicos se dividem em três tipos: a) bens indisponíveis por natureza; b) bens patrimoniais indisponíveis; e, c) bens patrimoniais disponíveis. a) Bens indisponíveis por natureza: São aqueles que, devido à sua intrínseca condição não patrimonial, são naturalmente insuscetíveis a alienação ou oneração. Os bens indisponíveis por natureza são necessariamente bens de uso comum do povo, destinados a uma utilização universal e difusa. É o caso do meio ambiente, dos mares e do ar. b) Bens patrimoniais indisponíveis: São aqueles dotados de uma natureza patrimonial, mas que, por pertencerem às categorias de bens de uso comum do povo ou de uso especial, permanecem legalmente inalienáveis enquanto mantiverem tal condição. Por isso, são naturalmente passíveis de alienação, mas legalmente inalienáveis. Exemplos: ruas, praças, estradas e demais logradouros públicos. c) Bens patrimoniais disponíveis: São aqueles bens legalmente passíveis de alienação. É o caso dos bens dominicais, como as terras devolutas. 2.3. Bens Públicos quanto à titularidade Por esse critério os bens públicos se dividem em federais, estaduais, distritais, territoriais ou municipais, de acordo com o nível federativo da pessoa jurídica a que pertençam. Os bens da União se encontram indicados no art. 20 da CF/88. “Art. 20. São bens da União: I - os que atualmente lhe pertencem e os que lhe vierem a ser atribuídos; II - as terras devolutas indispensáveis à defesa das fronteiras, das fortificações e construções militares, das vias federais de comunicação e à preservação ambiental, definidas em lei; III - os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais; DIREITO ADMINISTRATIVO II 6 IV as ilhas fluviais e lacustres nas zonas limítrofes com outros países; as praias marítimas; as ilhas oceânicas e as costeiras, excluídas, destas, as que contenham a sede de Municípios, exceto aquelas áreas afetadas ao serviço público e a unidade ambiental federal, e as referidas no art. 26, II; V - os recursos naturais da plataforma continental e da zona econômica exclusiva; VI - o mar territorial; VII - os terrenos de marinha e seus acrescidos; VIII - os potenciais de energia hidráulica; IX - os recursos minerais, inclusive os do subsolo; X - as cavidades naturais subterrâneas e os sítios arqueológicos e pré- históricos; XI - as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios.” Embora não mencionado nos incisos do citado artigo, o §1º desse mesmo dispositivo, assegura a participação nos resultados da exploração de petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica e de outros recursos minerais no respectivo território, plataforma continental, mar territorial ou zona econômica exclusiva, ou compensação financeira por essa exploração. Percebe-se que a maioria dos bens públicos existentes no Brasil é de titularidade da União. Os bens dos Estados encontram descritos no art. 26 da CF/88. “Art. 26. Incluem-se entre os bens dos Estados: I - as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União; II - as áreas, nas ilhas oceânicas e costeiras, que estiverem no seu domínio, excluídas aquelas sob domínio da União, Municípios ou terceiros; III - as ilhas fluviais e lacustres não pertencentes à União; IV - as terras devolutas não compreendidas entre as da União.” É preciso ter bastante atenção com relação à titularidade das terras devolutas. Elas são, a princípio, de titularidade dos Estados (art. 26, IV), porém quando indispensáveis à defesa das fronteiras, das fortificações e construções militares, das vias federais de comunicação e à preservação ambiental, as terras devolutas pertencem à União (art. 20, II). DIREITO ADMINISTRATIVO II 7 O art. 32 da Constituição Federal, dispositivo que trata das linhas gerais sobre organização e funcionamento do Distrito Federal, não faz qualquer referência aos bens públicos distritais. Devem ser assim considerados todos os bens onde estão instaladas as repartições públicas distritais, tanto quanto os indispensáveis para prestação dos serviços públicos de atribuição do Distrito Federal. A Constituição Federal de 1988 não faz referência aos bens públicos dos Municípios, devendo ser assim considerados todos aqueles onde se encontram instaladas repartições públicas municipais, bem como os equipamentos destinados à prestação dos serviços públicos de competência municipal. Pertencem aos Municípios, ainda, as estradas municipais, ruas, parques, praças, logradouros públicos e outros bens da mesma espécie. 3. Atributos dos bens públicos Os bens públicos estão sujeitos a um regime jurídico específico que os distingue dos bens privados. As normas que regem esse regime diferenciado e especial podem ser sintetizadas em quatro atributos: a) inalienabilidade; b) impenhorabilidade; c) imprescritibilidade; e d) não onerabilidade. a) Inalienabilidade: O Estado não tem a mesma liberdade do particular para alienar seus bens (ex.: vender, doar, fazer permuta). Ele está sujeito a várias restrições legais. Tratando-se de bem afetado, ele precisa ser previamente desafetado para que possa ser alienado. Isso significa que, enquanto afetados, os bens públicos são absolutamente inalienáveis, ou seja, não poderá acontecer sua transferência para terceiros. É o que estabelece o art. 100 do CC/2002: “Art. 100. Os bens públicos de uso comum do povo e os de uso especial são inalienáveis, enquanto conservarem a sua qualificação, na forma que a lei determinar.” Noutros termos, uma vez desafetados (suprimida sua destinação pública), esses bens poderão ser alienados, desde que sejam atendidas algumas exigências legais, que veremos mais adiante. Por essa razão, alguns autores preferem chamar esse atributo de alienabilidade condicionada. DIREITO ADMINISTRATIVO II 8 b) Impenhorabilidade: A Administração Pública submete-se a um processo de execução especial, na forma do CPC. Trata-se de um processo de execução próprio, via precatórios, regido pelo art. 100 da Constituição Federal, não se admitindo a penhora de bens públicos. “Art. 100. Os pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e Municipais, em virtudede sentença judiciária, far-se-ão exclusivamente na ordem cronológica de apresentação dos precatórios e à conta dos créditos respectivos, proibida a designação de casos ou de pessoas nas dotações orçamentárias e nos créditos adicionais abertos para este fim.” Se o Poder Público tem uma condenação judicial que lhe impõe uma obrigação de pagamento e não a realiza espontaneamente, não poderá ter os seus bens penhorados. O juiz deve fazer um precatório (espécie de “título”), apresentar ao Presidente do Tribunal e este faz constar na lei orçamentária para que ocorra o pagamento no prazo previsto no art. 100 da CF. O Estado deve se programar para saber quais débitos deve pagar. c) Imprescritibilidade: A legislação brasileira, tanto em nível constitucional quanto infra, deixa clara a impossibilidade de os bens públicos serem adquiridos pela usucapião, conforme art. 102 do CC/2002 e art. 183, §3º da CF/88. “CC/2002 Art. 102. Os bens públicos não estão sujeitos a usucapião.” “CF/88 Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural §3º Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião.” Assim, mesmo que uma pessoa ocupe um bem público por 30 anos ou mais, jamais o adquirirá por usucapião. Inclusive, é importante lembrar que em relação a bens públicos não é possível o uso das ações possessórias em face do poder público se o particular ocupa irregularmente uma área pública, pois estamos de caso de mera detenção. Mas em relação a outros particulares que ameaçam a “posse” é possível sim o manejo das ações DIREITO ADMINISTRATIVO II 9 possessórias. Ex: O MST ameaça a “posse” de uma pessoa que já ocupa área pública, esta poderá opor uma ação possessória contra o MST. d) Não onerabilidade: De maneira direta, não onerabilidade significa que os direitos reais de garantia sobre bens regulados no Código Civil não podem incidir sobre os bens públicos. Direitos reais de garantia são mecanismos jurídicos que asseguram ao credor o cumprimento de uma obrigação por meio de um bem específico dado como garantia pelo devedor. Esses direitos vinculam o bem diretamente à satisfação da dívida, permitindo que o credor tenha preferência no recebimento do valor devido em caso de inadimplência. Assim, por exemplo, a União não pode pegar um empréstimo com um banco e hipotecar o prédio do Ministério da Fazenda como garantia, uma vez que não paga a dívida, o imóvel dado em garantia seria transferido ao banco. 4. Do uso dos bens públicos Os bens públicos são geridos pelo Estado. Essa atividade de gestão inclui a utilização dos bens pela própria administração pública (Ex.: bens de uso especial, como os prédios onde funcionam as repartições), e, também, a criação conservação fiscalização e ordenação dos bens cuja utilização é voltada primordialmente aos administrados (Ex.: bens de uso comum do povo como praças e ruas). O uso dos bens públicos deve ser racional e sustentável, maximizando-se conscientemente a sua utilidade. O prédio de uma escola pública, por exemplo, pode ser utilizado, também, para eventos recreativos e culturais da comunidade. A utilização dos bens públicos pode ser feita pelos administrados de duas formas: a) uso comum, normal ou ordinário e; b) uso privativo, especial ou extraordinário. 4.1. Uso comum, normal ou ordinário de Bens Públicos O uso comum de um bem público nada mais é do que a sua utilização da forma esperada, isto é, para a qual foi idealizado. Assim, por exemplo, o tráfego de veículos é o uso comum e esperado de uma rua (bem público de uso comum do povo). Outro exemplo é quando o prédio de uma escola é utilizado para abrigar alunos e professores durante o horário das aulas. DIREITO ADMINISTRATIVO II 10 4.2. Uso privativo, especial ou extraordinário de Bens Públicos Há, contudo, hipóteses em que o ordenamento jurídico permite que o estado consinta que particulares utilizem bens públicos de maneira privativa, consistindo em um uso especial de bens públicos. Esse uso especial pressupõe, sempre, um ato de consentimento do Estado, já que este é quem detém a gestão sobre estes bens. Além disso, embora o uso privativo favoreça interesses particulares, por evidente que ele somente pode ocorrer caso não haja violação ao interesse público. A legislação pátria traz uma série de institutos para a viabilização desta permissão estatal. A seguir abordaremos as principais, de acordo com a nomenclatura mais comum adotada pela doutrina. Isso significa que pode haver discrepâncias, de modo que, nos casos concretos, deve-se verificar qual a nomenclatura e regime jurídico adotado pelo ente federativo. A autorização de uso de bem público consiste em ato administrativo, discricionário, unilateral e precário, pelo qual a Administração Pública autoriza que um ou vários particulares usem temporariamente determinado bem público em prol de seus interesses privados. É o caso, por exemplo, da autorização para o fechamento de uma rua para a realização de uma festa junina dos moradores da região. A permissão de uso de bem público também consiste num ato administrativo, discricionário, unilateral e precário. Percebe-se que as características são as mesmas da autorização de uso. Essa similaridade levou parte da doutrina, a exemplo de José dos Santos Carvalho Filho, com a qual concordamos, a defender que atualmente não há razões jurídicas relevantes a gerar uma diferenciação entre esses institutos, de modo que podem ser considerados intercambiáveis. Acrescente-se ainda que, embora haja certo debate quanto a necessidade de licitação para os casos de permissão de uso, entendemos que, conforme magistério do professor Flávio Garcia Cabral1, por se referir a um ato unilateral e precário, mostra-se desnecessária e, até incabível, a realização de licitação, a qual acarreta a formalização de um contrato retirando o aspecto da unilateralidade e da precariedade. Estar-se-ia diante de uma verdadeira concessão de uso de bem público disfarçada. Isso não quer dizer que não possa haver algum procedimento de seleção entre os particulares. 1 CABRAL, F. G.; SARAI, L. Manual de direito administrativo, 2ª ed., Leme-SP: Mizuno, 2023, p. 618/619. DIREITO ADMINISTRATIVO II 11 A concessão de uso de bem público se distingue das demais pelo fato de constituir-se pela forma contratual. E trata-se, portanto, de um contrato administrativo, marcado pela bilateralidade, por meio do qual o poder público consente a um particular a utilização privativa, por prazo determinado, de um bem público. Assim, por possuir natureza de contrato administrativo, como regra deve sempre haver um prévio procedimento licitatório. De igual modo, atrai-se o regime jurídico dos contratos administrativos, tais como prazos, presença de cláusulas exorbitantes, necessidade de manutenção do equilíbrio econômico-financeiro etc. As concessões de uso de bem público são utilizadas comumente em acordos nos quais o particular precisa realizar investimentos significativos, como por exemplo, na concessão de uso de uma espaço de um prédio público para instalação de um restaurante ou a concessão de espaços em bens de uso especial para instalação de agências bancárias.