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A CLÍNICA DO SUICÍDIO AULA 5 Prof.ª Giseli Cipriano Rodacoski 2 CONVERSA INICIAL Artigos recentes estão problematizando a eficiência da campanha nacional Setembro Amarelo de prevenção do suicídio, relacionando o início da campanha com a coincidência do aumento de casos de suicídio. Nesta etapa, vamos analisar criticamente essa questão. O suicídio é uma das três maiores causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo e este é um período importante para processos identitários. Por que setembro e por que amarelo? O dia 10 de setembro foi adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2003 como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Amarelo foi a cor escolhida por ter simbolizado o luto pelo jovem Mike Emme, de 17 anos que morreu por suicídio em 1994. Ele havia restaurado um Mustang e o pintou de amarelo. Amava aquele carro e foi dentro dele, na garagem de casa, que usou uma arma de fogo para terminar a sua vida. No dia do funeral, os amigos colocaram uma cesta com fitas amarelas disponíveis para quem quisesse usá-las e possuíam uma mensagem “se você precisar, peça ajuda”. Este ato provocou forte repercussão e em poucas semanas o tema suicídio apareceu em diferentes espaços e muitos jovens pediram ajuda. (Penso; Sena, 2020, p. 74) O Brasil segue a campanha mundial desde 2015, sob a coordenação e orientação do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). TEMA 1 – ACESSO À INFORMAÇÃO Apenas a partir de 2014 as notificações de morte por suicídio passaram a ser compulsórias (obrigatórias) para os profissionais de saúde, e a partir de 2019 a notificação também passa a ser obrigatória para todos os profissionais, não apenas para os da saúde, o que fez aumentar em muito as informações sobre a ocorrência de mortes por suicídio. Isso nos faz pensar que havia muita subnotificação, e que o suposto “aumento” de casos por volta de 2015 em diante pode ser apenas a visibilidade de algo que já acontecia, mas que ficava inespecífico ao ser notificado como “morte por causas externas” assim como acidentes automobilísticos, traumas, quedas em que a intencionalidade não era investigada. A instituição da Política Nacional de Prevenção do Suicídio 3 publicada em 2019 deu visibilidade e disciplinou sobre o monitoramento de ocorrências e acesso à informação. Para pesquisar dados oficiais sobre morte por suicídio, o caminho é acessar o site do Datasus >> acesso à informação >> tabnet >> estatísticas vitais >> mortalidade desde 1966 pela CID 10. Na CID -10 (Código Internacional de Doenças) o suicídio é nomeado como X70 - Lesão autoprovocada intencionalmente, com diversos outros especificadores conforme tipo de meio ou local de ocorrência. A pesquisa pode ser feita por ano, território e outras classificações. Pesquisadores nos facilitam a transformação de dados em informações e compartilham em artigos científicos e em exposições orais em congressos. O psiquiatra e pesquisador Neury Botega apresentou uma compilação destes dados no Congresso Nacional de Prevenção do Suicídio (2024): Fonte: Congresso Nacional de Prevenção do Suicídio, 2024. Uma consideração a fazer na interpretação de gráficos com números absolutos (n. de casos) é o contexto, para estabelecer relação entre a quantidade de população no início e no final do estudo, pois a população no Brasil também aumentou no mesmo período, o que justificaria um n. maior (absoluto) de ocorrências. O recente artigo de Damiano et al. (2024) faz associações entre uma campanha brasileira de conscientização sobre suicídio e tendências de suicídio 4 de 2000 a 2019, concluindo que houve uma mudança na inclinação da curva representando uma aceleração nos suicídios a partir do ano de 2015. A campanha nacional Setembro Amarelo, orientada pela Associação Brasileira de Psiquiatria, consiste em campanhas de mídia digitais, folhetos informativos e materiais gráficos para dar subsídios à imprensa, materiais de conscientização pública, materiais educacionais sobre suicídio e problemas de saúde mental. O Brasil experimentou um aumento nos suicídios entre 2000 e 2019, enquanto a taxa global de suicídio diminuiu. Além do aumento nas mortes por suicídio, houve um aumento acentuado nas notificações de autolesão e hospitalizações durante o mesmo período (Damiano, 2021). Podemos dar destaque a três aspectos para analisar criticamente esse artigo: • A obrigatoriedade da notificação de mortes por suicídio passou a ser obrigatória em 2014 e isso pode justificar o aumento nos casos. • A campanha nacional implementada em 2015 pode ter sensibilizado a população para diferenciar a morte por suicídio de morte por causas externas, como antes costumava ser notificado. • A popularização da campanha sem a suficiente orientação e fiscalização de especialistas pode fazer uso de comunicação inadequada tendo um efeito contrário aos objetivos iniciais da campanha. Um exemplo dessa última questão é a interpretação errônea de um dado científico sob a relação entre transtornos mentais e suicídio apontada por Botega (2016). Em uma revisão de 31 artigos científicos entre 1959 e 2001 – a maioria de quatro países do Hemisfério Norte – englobando 15.629 suicídios demonstrou que em 97% dos casos caberia um diagnóstico de transtorno mental à época do ato fatal. Botega entende que: Muito provavelmente foi a interpretação apressada dos resultados desse estudo que levou muitos, no Brasil, a afirmarem que 90% dos suicídios podem ser evitados. Como se, ao provermos tratamento psiquiátrico a todos os doentes mentais, pudéssemos evitar suicídios. O tratamento adequado de um transtorno mental é um recurso valioso para evitar uma parcela de suicídios, mas não todos. O estudo de Berlote e Fleishmann é retrospectivo e descritivo. Ele não nos informa sobre risco de morte por categoria diagnóstica, nem quantos suicídios poderiam ser evitados. (Botega, 2016, p. 111) A rápida relação entre transtornos mentais e suicídio favorece a busca por tratamentos médicos e medicamentosos. 5 TEMA 2 – IDENTIFICAÇÃO DE SINAIS Alimentar a ideia de que é possível identificar sinais também é uma atitude contraproducente. Não é sempre possível identificar sinais, e mesmo que sejam identificados, nem sempre é possível reverter o comportamento suicida. Nem sempre a pessoa em sofrimento emocional dá sinais. Por isso a orientação “esteja atento aos sinais” é errônea e dá a falsa sensação de que a família e os profissionais poderiam vigiar e evitar suicídios. Nem todos os suicídios são evitáveis. A psicanálise tem um grande potencial para atuar na promoção e prevenção de sofrimentos mentais. Na promoção, as ações seriam na proteção de vínculos parentais saudáveis, qualificando as funções parentais para o holding. Ao identificar situações de risco, já estamos falando em prevenção. Neste caso, os psicanalistas atuariam no atendimento de pessoas que já estão identificadas como grupo de risco, como por exemplo: mães adolescentes, gestantes sem rede de apoio psicossocial, população privada de liberdade. As campanhas de prevenção adotadas nos serviços de saúde pública, rede educacional e em outros ambientes institucionais recomendam o uso de um instrumento de rastreio para identificar sinais de risco psíquico. O Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) foi originalmente desenvolvido para identificar transtornos mentais comuns, que são aqueles cujas queixas são difusas e em geral não motivam a procura por tratamento, mas que limitam e prejudicam o dia a dia da pessoa, como por exemplo: depressão, ansiedade, abuso de álcool, transtornos somatoformes e transtornos da alimentação. A proposta desse instrumento de rastreio é ser aplicado como ação de prevenção, para rastreioapenas. Não é um instrumento diagnóstico. Tem sido aplicado em contexto institucional, como por exemplo: pacientes hospitalizados, estudantes universitários e outros grupos grandes. O PHQ-9 é altamente sensível e pouco específico, isso quer dizer que ele é capaz de filtrar pessoas que podem estar em sofrimento. Isso ajudaria a identificar quem precisa ser avaliado e encaminhado para atendimento individual. 6 TEMA 3 – INSTRUMENTOS DE RASTREIO – PHQ-9 Quadro 1 – Perguntas do questionário PHQ-9 ANAMNESE Nome do paciente: Data de aplicação do instrumento: Possui diagnóstico de depressão? [ ] Não [ ] Não sabe [ ] Sim. Desde quando? ____________________ Já encontra-se em tratamento da depressão: [ ] Não [ ] Sim. Tempo de atamento:_____________________ Tratamento atual para depressão: Tratamentos prévios para depressão: PHQ-9 (Patient Health Questionnaire) Durante as últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado/a por qualquer um dos problemas abaixo? Nenhuma vez Vários dias Mais da metade dos dias Quase todos os dias 1. Pouco interesse ou pouco prazer em fazer as coisas 0 1 2 3 2. Se sentir “para baixo”, deprimido/a ou sem perspectiva 0 1 2 3 3. Dificuldade para pegar no sono ou permanecer dormindo, ou dormir mais do que de costume 0 1 2 3 4. Se sentir cansado/a ou com pouca energia 0 1 2 3 5. Falta de apetite ou comendo demais 0 1 2 3 6. Se sentir mal consigo mesmo/a — ou achar que você é um fracasso ou que decepcionou sua família ou você mesmo/a 0 1 2 3 7. Dificuldade para se concentrar nas coisas, como ler o jornal ou ver televisão 0 1 2 3 8. Lentidão para se movimentar ou falar, a ponto das outras pessoas perceberem. Ou o oposto – estar tão agitado/a ou irrequieto/a que você fica andando de um lado para o outro muito mais do que de costume 0 1 2 3 9. Pensar em se ferir de alguma maneira ou que seria melhor estar morto/a 0 1 2 3 Total ______ = _____ + ____ + _____ + _____ Se você assinalou qualquer um dos problemas, indique o grau de dificuldade que os mesmos lhe causaram para realizar seu trabalho, tomar conta das coisas em casa ou para se relacionar com as pessoas? ( ) Nenhuma dificuldade ( ) Alguma dificuldade ( ) muita dificuldade ( ) extrema dificuldade Interpretação do Score Total do PHQ-9 Escore Total Gravidade da depressão 1-4 Depressão Mínima 5-9 Depressão Leve 10-14 Depressão Moderada 15-19 Depressão Moderadamente Grave 20-27 Depressão Grave Fonte: Kroenke et al., 2021. Em um dos casos que deu um escore alto, sinalizando depressão grave, a estudante foi chamada até a sala de atendimento médico na universidade para uma consulta. Ela relatou ao médico que recentemente havia feito uma grande tatuagem na pele e estava muito dolorida, fazendo com que ela não conseguisse dormir, interferindo na sua mobilidade e na capacidade de prestar atenção nas aulas. No entanto, a estudante não se sentia deprimida. Estudos realizados com 7 universitários brasileiros indicam que a prevalência de sofrimentos mentais varia de 33,7% a 49,1%. O monitoramento foi feito por meio do instrumento de rastreio, SRG-20 (Graner; Cerqueira; 2019), que será apresentado a seguir. TEMA 4 – INSTRUMENTOS DE RASTREIO – SRG-20 Outro instrumento de rastreio é o SRG-20, que é um questionário de autorrelato para preenchimento on-line (Graner; Cerqueira; 2019). O Self- Reporting Questionnaire (SRQ-20) é uma escala de rastreio utilizada em serviços de atenção básica para avaliar indicadores de transtornos mentais comuns – TMC. Em um estudo conduzido por Silveira et al. (2022, p. 49), “O SRQ-20 mostrou-se também bom preditor do risco de suicídio. A escala demonstrou ser uma ferramenta útil, principalmente na avaliação breve de TMC e possíveis sinais de risco”. É frequentemente utilizado por instituições que disponibilizam as perguntas para preenchimento on-line com direcionamento a orientações e recursos de saúde mental. Quadro 2 – SRG-20 Instruções Estas questões são relacionadas a problemas que podem ter lhe incomodado nos últimos 30 dias. Se você acha que a questão se aplica a você nos últimos 30 dias responda SIM. Se a questão não se aplica ou você não teve o problema nos últimos 30 dias, responda NÃO. OBS: O resultado não é um diagnóstico. SIM NÃO 1 Tem dores de cabeça com frequência? 2 Tem falta de apetite? 3 Dorme mal? 4 Assusta-se com facilidade? 5 Tem tremores de mão? 6 Sente-se nervoso(a), tenso(a) ou preocupado(a)? 7 Tem má digestão? 8 Tem dificuldade para pensar com clareza? 9 Tem se sentido triste ultimamente? 10 Tem chorado mais do que de costume? 11 Encontra dificuldades para realizar com satisfação suas atividades diárias? 12 Tem dificuldades para tomar decisões? 13 Tem dificuldades no serviço (seu trabalho é penoso, causa sofrimento)? 8 14 É incapaz de desempenhar um papel útil em sua vida? 15 Tem perdido o interesse pelas coisas? 16 Sente-se uma pessoa inútil, sem préstimo? 17 Tem tido ideias de acabar com a vida? 18 Sente-se cansado(a) o tempo todo? 19 Tem sensações desagradáveis no estômago? 20 Cansa-se com facilidade? TOTAL Fonte: Rodacoski, 2019. Um total de 7 respostas “sim” indica que há sofrimento mental leve, e quanto maior o escore, maior é a necessidade de consultar um serviço de saúde mental. Na identificação de sinais, novamente fica em evidência que a clínica é soberana à teoria. O preenchimento dos instrumentos de autorrelato acima não confirma diagnósticos. Para planejar intervenções em contextos institucionais, com equipe multiprofissional, os instrumentos acima podem ser úteis, mas precisamos cuidar para que a instrumentalização dos aplicativos e outras ferramentas não se confundam com a clínica, pois o diagnóstico psicanalítico, psiquiátrico e/ou psicológico se pauta por outras análises e não por esse tipo de questionário. Em atendimentos individuais, esses questionários não se aplicam, apenas se aplicam a uma grande população com o objetivo de rastreio e organização de atendimento. Todas essas investigações são anteriores ao início do processo psicanalítico, ou seja, cumprem uma função mais administrativa do que analítica. TEMA 5 – OUTROS INSTRUMENTOS Cada vez mais estão disponíveis serviços de saúde mental que ampliam o acesso da população em geral. Um exemplo é o aplicativo COMVC criado pela Universidade de São Paulo (USP), inicialmente para rastrear a saúde mental dos seus alunos e posteriormente ampliado à população em geral. O acesso ao aplicativo é gratuito e tem o objetivo de orientar e ofertar material educativo sobre temas sobre saúde mental. A estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E. é indicada para a gestão autônoma de crises. Cada letra da palavra corresponde a uma orientação de manejo. Explicações e cartilhas sobre essa estratégia estão disponíveis na internet, em forma de arquivos de texto e vídeos. 9 A técnica de respiração quadrada é amplamente recomendada para manejo de crises de ansiedade, também com a intenção orientar o autocuidado da saúde mental. A técnica consiste em: • Inspirar o ar durante 4 segundos; • Segurar o ar por 4 segundos; • Expirar o ar por 4 segundos; • Esperar 4 segundos antes de inspirar novamente; • Repetir esse processo 4 vezes. Na iminência ou durante uma crise de ansiedade, a respiração costuma ficar acelerada. A intenção da técnica é deslocar a atenção da pessoa dos estímulos causa da ansiedade (sejam internos ou externos) e focar em uma ação consciente, intencional e procedimental. Não se trata de uma técnica psicanalítica, mas sim uma ação para intervir em situação de urgência psíquica. Da mesma maneira que não se podeavançar em uma sessão psicanalítica quando a pessoa está com uma urgência miccional. A psicanálise não desconsidera o organismo, apenas não define suas intervenções neste campo. Portanto, os instrumentos e ferramentas aqui apresentados são válidos para rastreio, triagem, organização de fila de espera e acolhimento de pessoas em crise. Podem ser usados por psicanalistas que atuam em contextos institucionais e na atenção à saúde publica ou coletiva. Uma demanda crescente tem sido para atuação em serviços de segurança pública. O 18º anuário de Segurança Pública (FBSP, 2024) aponta que, em 2023, mais policiais militares morreram por suicídio do que em confronto no Brasil. Esses recursos de rastreio são úteis para ações de autocuidado apoiado a grupos como este. São recursos de uso aberto a toda comunidade, disponíveis na internet. Ao identificar pessoas em situação de risco, o próprio psicanalista pode chamar para uma consulta individual. Perceba que a demanda tem origem no profissional e não se trata de um desejo de análise por parte do paciente. É muito importante não ser mais invasivo do que isso. Com o objetivo de implementar ações de prevenção o profissional (seja ele psicanalista, professor, enfermeiro ou qualquer outro) deve adequar a sua comunicação à condição de não se ter uma relação transferencial com esse paciente que é chamado ao consultório. Com o objetivo de acolher e se necessário, motivar para começar um tratamento, as perguntas iniciais não podem ser invasivas. É mais adequado que se inicie a 10 consulta com perguntas fáceis de responder e, se for possível, depois de estabelecido uma transferência positiva, avançar para perguntas que convocam o paciente a falar mais sobre isso. • Perguntas mais fáceis de responder o Qual? o Quem? o Quando? o Onde? o O que você acha? o Por quê? • Perguntas mais difíceis de responder o Como? o Para quê? o Explique. Iniciar a conversa com perguntas mais fáceis de responder irá favorecer uma maior disposição para que a conversa seja mantida. Quando o profissional inicia a conversa fazendo perguntas difíceis de responder para uma pessoa que nem pediu para estar ali, a tendência é que ele queira encerrar a consulta o mais rápido possível, pois não é agradável falar sobre sofrimentos emocionais e algumas vezes a pessoa que sofre acredita que ninguém poderá ajudá-lo. Depois de criada uma conexão, ou vínculo, o profissional poderá ter a confiança do paciente para perguntar sobre questões mais complexas. NA PRÁTICA É possível que um paciente que esteja em atendimento regular com um psicanalista, seguindo as regras fundamentais da psicanálise: associação livre e atenção flutuante, que já suporte bem as intervenções e já tenha superado algumas resistências, seja surpreendido em sua vida por fatores de risco ao ponto de desorganizar seu psiquismo. Por exemplo um jovem homossexual que já tenha progredido na análise pessoal sobre seus processos identitários, conseguindo diminuir a ansiedade sentida em ambientes sociais, familiares e profissionais. Atualmente inseguro quanto à decisão de ir morar na casa do namorado. Associa livremente sobre seus conflitos na sessão, tolera bem as intervenções do psicanalista. 11 Esse jovem telefona ao psicanalista solicitando um horário a mais na semana e chega muito desorganizado, com sinais de autolesão nos braços e parecendo estar sob efeito de drogas. Conta ter sido violentado sexualmente. Anda pela sala com agitação psicomotora, se arranha e diz estar se sentindo sujo. O psicanalista continua sentado em sua poltrona em silêncio. Nessa situação de urgência subjetiva, o processo que vinha sendo seguido até a sessão anterior pode ficar em suspenso. A ética da autonomia dá lugar à ética do cuidado. Com cuidado para não gratificar mais do que o necessário. A atitude do psicanalista pode ser no sentido de dar continência, sendo mais acolhedor e menos abstinente, sem excessos. É possível sentar-se com o corpo inclinado em direção ao paciente, qualificar o pedido de consulta valorizando a atitude de estar ali como algo bom, aceitar a desorganização com a qual o paciente se apresenta, não confrontar, não pedir mais explicações, demonstrar empatia, entender como crise. É preciso saber interromper o processo anterior, deixar em suspenso, para que se possa dar atenção à urgência subjetiva. Esse caso pode evoluir para caminhos diferentes: reintegração psíquica e o evento traumático passa a fazer parte do processo anterior, aos poucos sendo elaborado com a mesma disponibilidade anterior do paciente para a associação livre. Ou, passam a ser recorrentes os pedidos de gratificação, para atendimentos fora do horário, esperando que o psicanalista dê conta de sua angústia. A postura do analista é delicada. Ele pode ficar refém do paciente que em alguma situação pode dizer: se você não puder me atender agora, eu vou me matar. Até que seja desenvolvida segurança e habilidade clínica, a supervisão frequente dos casos atendidos é indispensável. É preciso discutir em supervisão a melhor maneira de fazer a notificação de casos de autolesão e de suicídio. Apesar de obrigatório desde 2014, ainda não é um processo bem definido nos serviços de saúde. FINALIZANDO A notificação obrigatória do suicídio passou a ser obrigatória no Brasil a partir de 2014, mesmo período em que se observou um aumento de casos. Ter mais casos confirmados, do ponto de vista gerencial, não é necessariamente ruim. Pode ser apenas a visibilidade de algo que já acontecia e não era 12 percebido. Admitir sofrimento emocional ainda é um tabu e muitos casos podem estar subnotificados. Sofrimentos Psíquicos são considerados Transtornos Mentais Comuns (TMC). São queixas difusas, que não preenchem os critérios para transtornos mentais específicos e por isso não aquirem prioridade para atendimento na rede de atenção à saúde pública. No entanto, podem ser bastante desorganizadores e afetar significativamente o cotidiano das pessoas. São sofrimentos psíquicos típico de seres humanos, mas podem ser potencializados por fatores sociais tais como: derrocada financeira, vexame público, divórcio, demissão, dentre outros. Para atuação de psicanalistas em contextos de atenção coletiva, ex.: Psicanálise Institucional, psicanálise escolar ou na saúde coletiva em que se faz atendimento de grupos, podem ser usados instrumentos gerenciais para identificar grupos de risco, aos quais deve ser planejada atenção individual. Nesta etapa, foram apresentados os seguintes recursos, que podem ser recomendados para o autocuidado da saúde mental a grandes públicos: PHQ-9, SRQ-20, aplicativo COMVC, estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E., técnica de respiração quadrada, bem como foram orientadas atitudes de acolhimento e manejo clínico. 13 REFERÊNCIAS BOTEGA, N. J. Comportamento suicida: epidemiologia. Psicologia USP, v. 25, n. 3, p. 231-236, set. 2014. _____. Crise Suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2016. CONGRESSO NACIONAL DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO, 2024, Brasília. Anais... Brasília, 2024. CASSORLA, R. S. Suicídio e sociedade Narcísica: um estudo de caso. 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