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A CLÍNICA DO SUICÍDIO 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Giseli Cipriano Rodacoski 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Artigos recentes estão problematizando a eficiência da campanha 
nacional Setembro Amarelo de prevenção do suicídio, relacionando o início da 
campanha com a coincidência do aumento de casos de suicídio. Nesta etapa, 
vamos analisar criticamente essa questão. O suicídio é uma das três maiores 
causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo e este é um período 
importante para processos identitários. 
 Por que setembro e por que amarelo? 
O dia 10 de setembro foi adotado pela Organização Mundial da Saúde 
(OMS) em 2003 como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Amarelo foi a 
cor escolhida por ter simbolizado o luto pelo jovem Mike Emme, de 17 anos que 
morreu por suicídio em 1994. Ele havia restaurado um Mustang e o pintou de 
amarelo. Amava aquele carro e foi dentro dele, na garagem de casa, que usou 
uma arma de fogo para terminar a sua vida. 
No dia do funeral, os amigos colocaram uma cesta com fitas amarelas 
disponíveis para quem quisesse usá-las e possuíam uma mensagem 
“se você precisar, peça ajuda”. Este ato provocou forte repercussão e 
em poucas semanas o tema suicídio apareceu em diferentes espaços 
e muitos jovens pediram ajuda. (Penso; Sena, 2020, p. 74) 
O Brasil segue a campanha mundial desde 2015, sob a coordenação e 
orientação do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de 
Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). 
TEMA 1 – ACESSO À INFORMAÇÃO 
 Apenas a partir de 2014 as notificações de morte por suicídio passaram a 
ser compulsórias (obrigatórias) para os profissionais de saúde, e a partir de 2019 
a notificação também passa a ser obrigatória para todos os profissionais, não 
apenas para os da saúde, o que fez aumentar em muito as informações sobre a 
ocorrência de mortes por suicídio. Isso nos faz pensar que havia muita 
subnotificação, e que o suposto “aumento” de casos por volta de 2015 em diante 
pode ser apenas a visibilidade de algo que já acontecia, mas que ficava 
inespecífico ao ser notificado como “morte por causas externas” assim como 
acidentes automobilísticos, traumas, quedas em que a intencionalidade não era 
investigada. A instituição da Política Nacional de Prevenção do Suicídio 
 
 
3 
publicada em 2019 deu visibilidade e disciplinou sobre o monitoramento de 
ocorrências e acesso à informação. 
Para pesquisar dados oficiais sobre morte por suicídio, o caminho é 
acessar o site do Datasus >> acesso à informação >> tabnet >> estatísticas vitais 
>> mortalidade desde 1966 pela CID 10. Na CID -10 (Código Internacional de 
Doenças) o suicídio é nomeado como X70 - Lesão autoprovocada 
intencionalmente, com diversos outros especificadores conforme tipo de meio ou 
local de ocorrência. A pesquisa pode ser feita por ano, território e outras 
classificações. Pesquisadores nos facilitam a transformação de dados em 
informações e compartilham em artigos científicos e em exposições orais em 
congressos. O psiquiatra e pesquisador Neury Botega apresentou uma 
compilação destes dados no Congresso Nacional de Prevenção do Suicídio 
(2024): 
 
Fonte: Congresso Nacional de Prevenção do Suicídio, 2024. 
Uma consideração a fazer na interpretação de gráficos com números 
absolutos (n. de casos) é o contexto, para estabelecer relação entre a quantidade 
de população no início e no final do estudo, pois a população no Brasil também 
aumentou no mesmo período, o que justificaria um n. maior (absoluto) de 
ocorrências. 
O recente artigo de Damiano et al. (2024) faz associações entre uma 
campanha brasileira de conscientização sobre suicídio e tendências de suicídio 
 
 
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de 2000 a 2019, concluindo que houve uma mudança na inclinação da curva 
representando uma aceleração nos suicídios a partir do ano de 2015. A 
campanha nacional Setembro Amarelo, orientada pela Associação Brasileira de 
Psiquiatria, consiste em campanhas de mídia digitais, folhetos informativos e 
materiais gráficos para dar subsídios à imprensa, materiais de conscientização 
pública, materiais educacionais sobre suicídio e problemas de saúde mental. 
O Brasil experimentou um aumento nos suicídios entre 2000 e 2019, 
enquanto a taxa global de suicídio diminuiu. Além do aumento nas mortes por 
suicídio, houve um aumento acentuado nas notificações de autolesão e 
hospitalizações durante o mesmo período (Damiano, 2021). 
Podemos dar destaque a três aspectos para analisar criticamente esse 
artigo: 
• A obrigatoriedade da notificação de mortes por suicídio passou a ser 
obrigatória em 2014 e isso pode justificar o aumento nos casos. 
• A campanha nacional implementada em 2015 pode ter sensibilizado a 
população para diferenciar a morte por suicídio de morte por causas 
externas, como antes costumava ser notificado. 
• A popularização da campanha sem a suficiente orientação e fiscalização 
de especialistas pode fazer uso de comunicação inadequada tendo um 
efeito contrário aos objetivos iniciais da campanha. 
Um exemplo dessa última questão é a interpretação errônea de um dado 
científico sob a relação entre transtornos mentais e suicídio apontada por Botega 
(2016). Em uma revisão de 31 artigos científicos entre 1959 e 2001 – a maioria 
de quatro países do Hemisfério Norte – englobando 15.629 suicídios demonstrou 
que em 97% dos casos caberia um diagnóstico de transtorno mental à época do 
ato fatal. Botega entende que: 
Muito provavelmente foi a interpretação apressada dos resultados 
desse estudo que levou muitos, no Brasil, a afirmarem que 90% dos 
suicídios podem ser evitados. Como se, ao provermos tratamento 
psiquiátrico a todos os doentes mentais, pudéssemos evitar suicídios. 
O tratamento adequado de um transtorno mental é um recurso valioso 
para evitar uma parcela de suicídios, mas não todos. O estudo de 
Berlote e Fleishmann é retrospectivo e descritivo. Ele não nos informa 
sobre risco de morte por categoria diagnóstica, nem quantos suicídios 
poderiam ser evitados. (Botega, 2016, p. 111) 
A rápida relação entre transtornos mentais e suicídio favorece a busca por 
tratamentos médicos e medicamentosos. 
 
 
5 
TEMA 2 – IDENTIFICAÇÃO DE SINAIS 
Alimentar a ideia de que é possível identificar sinais também é uma atitude 
contraproducente. Não é sempre possível identificar sinais, e mesmo que sejam 
identificados, nem sempre é possível reverter o comportamento suicida. Nem 
sempre a pessoa em sofrimento emocional dá sinais. Por isso a orientação 
“esteja atento aos sinais” é errônea e dá a falsa sensação de que a família e os 
profissionais poderiam vigiar e evitar suicídios. Nem todos os suicídios são 
evitáveis. 
A psicanálise tem um grande potencial para atuar na promoção e 
prevenção de sofrimentos mentais. Na promoção, as ações seriam na proteção 
de vínculos parentais saudáveis, qualificando as funções parentais para o 
holding. Ao identificar situações de risco, já estamos falando em prevenção. 
Neste caso, os psicanalistas atuariam no atendimento de pessoas que já estão 
identificadas como grupo de risco, como por exemplo: mães adolescentes, 
gestantes sem rede de apoio psicossocial, população privada de liberdade. 
As campanhas de prevenção adotadas nos serviços de saúde pública, 
rede educacional e em outros ambientes institucionais recomendam o uso de um 
instrumento de rastreio para identificar sinais de risco psíquico. O Patient Health 
Questionnaire-9 (PHQ-9) foi originalmente desenvolvido para identificar 
transtornos mentais comuns, que são aqueles cujas queixas são difusas e em 
geral não motivam a procura por tratamento, mas que limitam e prejudicam o dia 
a dia da pessoa, como por exemplo: depressão, ansiedade, abuso de álcool, 
transtornos somatoformes e transtornos da alimentação. A proposta desse 
instrumento de rastreio é ser aplicado como ação de prevenção, para rastreioapenas. Não é um instrumento diagnóstico. 
Tem sido aplicado em contexto institucional, como por exemplo: pacientes 
hospitalizados, estudantes universitários e outros grupos grandes. O PHQ-9 é 
altamente sensível e pouco específico, isso quer dizer que ele é capaz de filtrar 
pessoas que podem estar em sofrimento. Isso ajudaria a identificar quem precisa 
ser avaliado e encaminhado para atendimento individual. 
 
 
 
6 
TEMA 3 – INSTRUMENTOS DE RASTREIO – PHQ-9 
Quadro 1 – Perguntas do questionário PHQ-9 
ANAMNESE 
Nome do paciente: 
Data de aplicação do instrumento: 
Possui diagnóstico de depressão? [ ] Não [ ] Não sabe [ ] Sim. Desde quando? ____________________ 
Já encontra-se em tratamento da depressão: [ ] Não [ ] Sim. Tempo de atamento:_____________________ 
Tratamento atual para depressão: 
Tratamentos prévios para depressão: 
PHQ-9 (Patient Health Questionnaire) 
Durante as últimas 2 semanas, com que frequência você 
foi incomodado/a por qualquer um dos problemas 
abaixo? 
Nenhuma 
vez 
Vários 
dias 
Mais da 
metade 
dos dias 
Quase 
todos os 
dias 
1. Pouco interesse ou pouco prazer em fazer as coisas 0 1 2 3 
2. Se sentir “para baixo”, deprimido/a ou sem perspectiva 0 1 2 3 
3. Dificuldade para pegar no sono ou permanecer dormindo, 
ou dormir mais do que de costume 
0 1 2 3 
4. Se sentir cansado/a ou com pouca energia 0 1 2 3 
5. Falta de apetite ou comendo demais 0 1 2 3 
6. Se sentir mal consigo mesmo/a — ou achar que você é um 
fracasso ou que decepcionou sua família ou você mesmo/a 
0 1 2 3 
7. Dificuldade para se concentrar nas coisas, como ler o jornal 
ou ver televisão 
0 1 2 3 
8. Lentidão para se movimentar ou falar, a ponto das outras 
pessoas perceberem. Ou o oposto – estar tão agitado/a ou 
irrequieto/a que você fica andando de um lado para o outro 
muito mais do que de costume 
0 1 2 3 
9. Pensar em se ferir de alguma maneira ou que seria melhor 
estar morto/a 
0 1 2 3 
 Total ______ = _____ + ____ + _____ + _____ 
Se você assinalou qualquer um dos problemas, indique o grau de dificuldade que os mesmos lhe causaram para 
realizar seu trabalho, tomar conta das coisas em casa ou para se relacionar com as pessoas? 
( ) Nenhuma dificuldade ( ) Alguma dificuldade ( ) muita dificuldade ( ) extrema dificuldade 
Interpretação do Score Total do PHQ-9 
Escore Total Gravidade da depressão 
1-4 Depressão Mínima 
5-9 Depressão Leve 
 
10-14 Depressão Moderada 
15-19 Depressão Moderadamente Grave 
20-27 Depressão Grave 
Fonte: Kroenke et al., 2021. 
Em um dos casos que deu um escore alto, sinalizando depressão grave, 
a estudante foi chamada até a sala de atendimento médico na universidade para 
uma consulta. Ela relatou ao médico que recentemente havia feito uma grande 
tatuagem na pele e estava muito dolorida, fazendo com que ela não conseguisse 
dormir, interferindo na sua mobilidade e na capacidade de prestar atenção nas 
aulas. No entanto, a estudante não se sentia deprimida. Estudos realizados com 
 
 
7 
universitários brasileiros indicam que a prevalência de sofrimentos mentais varia 
de 33,7% a 49,1%. O monitoramento foi feito por meio do instrumento de rastreio, 
SRG-20 (Graner; Cerqueira; 2019), que será apresentado a seguir. 
TEMA 4 – INSTRUMENTOS DE RASTREIO – SRG-20 
Outro instrumento de rastreio é o SRG-20, que é um questionário de 
autorrelato para preenchimento on-line (Graner; Cerqueira; 2019). O Self-
Reporting Questionnaire (SRQ-20) é uma escala de rastreio utilizada em 
serviços de atenção básica para avaliar indicadores de transtornos mentais 
comuns – TMC. Em um estudo conduzido por Silveira et al. (2022, p. 49), “O 
SRQ-20 mostrou-se também bom preditor do risco de suicídio. A escala 
demonstrou ser uma ferramenta útil, principalmente na avaliação breve de TMC 
e possíveis sinais de risco”. 
É frequentemente utilizado por instituições que disponibilizam as 
perguntas para preenchimento on-line com direcionamento a orientações e 
recursos de saúde mental. 
Quadro 2 – SRG-20 
Instruções 
Estas questões são relacionadas a problemas que podem ter lhe 
incomodado nos últimos 30 dias. Se você acha que a questão se aplica a 
você nos últimos 30 dias responda SIM. Se a questão não se aplica ou 
você não teve o problema nos últimos 30 dias, responda NÃO. 
OBS: O resultado não é um diagnóstico. 
 
 
SIM 
 
 
NÃO 
1 Tem dores de cabeça com frequência? 
2 Tem falta de apetite? 
3 Dorme mal? 
4 Assusta-se com facilidade? 
5 Tem tremores de mão? 
6 Sente-se nervoso(a), tenso(a) ou preocupado(a)? 
7 Tem má digestão? 
8 Tem dificuldade para pensar com clareza? 
9 Tem se sentido triste ultimamente? 
10 Tem chorado mais do que de costume? 
11 Encontra dificuldades para realizar com satisfação suas atividades 
diárias? 
 
12 Tem dificuldades para tomar decisões? 
13 Tem dificuldades no serviço (seu trabalho é penoso, causa 
sofrimento)? 
 
 
 
8 
14 É incapaz de desempenhar um papel útil em sua vida? 
15 Tem perdido o interesse pelas coisas? 
16 Sente-se uma pessoa inútil, sem préstimo? 
17 Tem tido ideias de acabar com a vida? 
18 Sente-se cansado(a) o tempo todo? 
19 Tem sensações desagradáveis no estômago? 
20 Cansa-se com facilidade? 
TOTAL 
Fonte: Rodacoski, 2019. 
 Um total de 7 respostas “sim” indica que há sofrimento mental leve, e 
quanto maior o escore, maior é a necessidade de consultar um serviço de saúde 
mental. Na identificação de sinais, novamente fica em evidência que a clínica é 
soberana à teoria. O preenchimento dos instrumentos de autorrelato acima não 
confirma diagnósticos. Para planejar intervenções em contextos institucionais, 
com equipe multiprofissional, os instrumentos acima podem ser úteis, mas 
precisamos cuidar para que a instrumentalização dos aplicativos e outras 
ferramentas não se confundam com a clínica, pois o diagnóstico psicanalítico, 
psiquiátrico e/ou psicológico se pauta por outras análises e não por esse tipo de 
questionário. Em atendimentos individuais, esses questionários não se aplicam, 
apenas se aplicam a uma grande população com o objetivo de rastreio e 
organização de atendimento. Todas essas investigações são anteriores ao início 
do processo psicanalítico, ou seja, cumprem uma função mais administrativa do 
que analítica. 
TEMA 5 – OUTROS INSTRUMENTOS 
Cada vez mais estão disponíveis serviços de saúde mental que ampliam 
o acesso da população em geral. Um exemplo é o aplicativo COMVC criado pela 
Universidade de São Paulo (USP), inicialmente para rastrear a saúde mental dos 
seus alunos e posteriormente ampliado à população em geral. O acesso ao 
aplicativo é gratuito e tem o objetivo de orientar e ofertar material educativo sobre 
temas sobre saúde mental. 
A estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E. é indicada para a gestão autônoma de 
crises. Cada letra da palavra corresponde a uma orientação de manejo. 
Explicações e cartilhas sobre essa estratégia estão disponíveis na internet, em 
forma de arquivos de texto e vídeos. 
 
 
9 
A técnica de respiração quadrada é amplamente recomendada para 
manejo de crises de ansiedade, também com a intenção orientar o autocuidado 
da saúde mental. A técnica consiste em: 
• Inspirar o ar durante 4 segundos; 
• Segurar o ar por 4 segundos; 
• Expirar o ar por 4 segundos; 
• Esperar 4 segundos antes de inspirar novamente; 
• Repetir esse processo 4 vezes. 
 Na iminência ou durante uma crise de ansiedade, a respiração costuma 
ficar acelerada. A intenção da técnica é deslocar a atenção da pessoa dos 
estímulos causa da ansiedade (sejam internos ou externos) e focar em uma ação 
consciente, intencional e procedimental. Não se trata de uma técnica 
psicanalítica, mas sim uma ação para intervir em situação de urgência psíquica. 
Da mesma maneira que não se podeavançar em uma sessão psicanalítica 
quando a pessoa está com uma urgência miccional. A psicanálise não 
desconsidera o organismo, apenas não define suas intervenções neste campo. 
Portanto, os instrumentos e ferramentas aqui apresentados são válidos 
para rastreio, triagem, organização de fila de espera e acolhimento de pessoas 
em crise. Podem ser usados por psicanalistas que atuam em contextos 
institucionais e na atenção à saúde publica ou coletiva. Uma demanda crescente 
tem sido para atuação em serviços de segurança pública. O 18º anuário de 
Segurança Pública (FBSP, 2024) aponta que, em 2023, mais policiais militares 
morreram por suicídio do que em confronto no Brasil. Esses recursos de rastreio 
são úteis para ações de autocuidado apoiado a grupos como este. São recursos 
de uso aberto a toda comunidade, disponíveis na internet. 
 Ao identificar pessoas em situação de risco, o próprio psicanalista pode 
chamar para uma consulta individual. Perceba que a demanda tem origem no 
profissional e não se trata de um desejo de análise por parte do paciente. É muito 
importante não ser mais invasivo do que isso. Com o objetivo de implementar 
ações de prevenção o profissional (seja ele psicanalista, professor, enfermeiro 
ou qualquer outro) deve adequar a sua comunicação à condição de não se ter 
uma relação transferencial com esse paciente que é chamado ao consultório. 
Com o objetivo de acolher e se necessário, motivar para começar um tratamento, 
as perguntas iniciais não podem ser invasivas. É mais adequado que se inicie a 
 
 
10 
consulta com perguntas fáceis de responder e, se for possível, depois de 
estabelecido uma transferência positiva, avançar para perguntas que convocam 
o paciente a falar mais sobre isso. 
• Perguntas mais fáceis de responder 
o Qual? 
o Quem? 
o Quando? 
o Onde? 
o O que você acha? 
o Por quê? 
• Perguntas mais difíceis de responder 
o Como? 
o Para quê? 
o Explique. 
Iniciar a conversa com perguntas mais fáceis de responder irá favorecer 
uma maior disposição para que a conversa seja mantida. Quando o profissional 
inicia a conversa fazendo perguntas difíceis de responder para uma pessoa que 
nem pediu para estar ali, a tendência é que ele queira encerrar a consulta o mais 
rápido possível, pois não é agradável falar sobre sofrimentos emocionais e 
algumas vezes a pessoa que sofre acredita que ninguém poderá ajudá-lo. 
Depois de criada uma conexão, ou vínculo, o profissional poderá ter a confiança 
do paciente para perguntar sobre questões mais complexas. 
NA PRÁTICA 
É possível que um paciente que esteja em atendimento regular com um 
psicanalista, seguindo as regras fundamentais da psicanálise: associação livre e 
atenção flutuante, que já suporte bem as intervenções e já tenha superado 
algumas resistências, seja surpreendido em sua vida por fatores de risco ao 
ponto de desorganizar seu psiquismo. 
Por exemplo um jovem homossexual que já tenha progredido na análise 
pessoal sobre seus processos identitários, conseguindo diminuir a ansiedade 
sentida em ambientes sociais, familiares e profissionais. Atualmente inseguro 
quanto à decisão de ir morar na casa do namorado. Associa livremente sobre 
seus conflitos na sessão, tolera bem as intervenções do psicanalista. 
 
 
11 
Esse jovem telefona ao psicanalista solicitando um horário a mais na 
semana e chega muito desorganizado, com sinais de autolesão nos braços e 
parecendo estar sob efeito de drogas. Conta ter sido violentado sexualmente. 
Anda pela sala com agitação psicomotora, se arranha e diz estar se sentindo 
sujo. O psicanalista continua sentado em sua poltrona em silêncio. 
Nessa situação de urgência subjetiva, o processo que vinha sendo 
seguido até a sessão anterior pode ficar em suspenso. A ética da autonomia dá 
lugar à ética do cuidado. Com cuidado para não gratificar mais do que o 
necessário. A atitude do psicanalista pode ser no sentido de dar continência, 
sendo mais acolhedor e menos abstinente, sem excessos. É possível sentar-se 
com o corpo inclinado em direção ao paciente, qualificar o pedido de consulta 
valorizando a atitude de estar ali como algo bom, aceitar a desorganização com 
a qual o paciente se apresenta, não confrontar, não pedir mais explicações, 
demonstrar empatia, entender como crise. É preciso saber interromper o 
processo anterior, deixar em suspenso, para que se possa dar atenção à 
urgência subjetiva. 
Esse caso pode evoluir para caminhos diferentes: reintegração psíquica 
e o evento traumático passa a fazer parte do processo anterior, aos poucos 
sendo elaborado com a mesma disponibilidade anterior do paciente para a 
associação livre. Ou, passam a ser recorrentes os pedidos de gratificação, para 
atendimentos fora do horário, esperando que o psicanalista dê conta de sua 
angústia. A postura do analista é delicada. Ele pode ficar refém do paciente que 
em alguma situação pode dizer: se você não puder me atender agora, eu vou 
me matar. Até que seja desenvolvida segurança e habilidade clínica, a 
supervisão frequente dos casos atendidos é indispensável. É preciso discutir em 
supervisão a melhor maneira de fazer a notificação de casos de autolesão e de 
suicídio. Apesar de obrigatório desde 2014, ainda não é um processo bem 
definido nos serviços de saúde. 
FINALIZANDO 
A notificação obrigatória do suicídio passou a ser obrigatória no Brasil a 
partir de 2014, mesmo período em que se observou um aumento de casos. Ter 
mais casos confirmados, do ponto de vista gerencial, não é necessariamente 
ruim. Pode ser apenas a visibilidade de algo que já acontecia e não era 
 
 
12 
percebido. Admitir sofrimento emocional ainda é um tabu e muitos casos podem 
estar subnotificados. 
Sofrimentos Psíquicos são considerados Transtornos Mentais Comuns 
(TMC). São queixas difusas, que não preenchem os critérios para transtornos 
mentais específicos e por isso não aquirem prioridade para atendimento na rede 
de atenção à saúde pública. No entanto, podem ser bastante desorganizadores 
e afetar significativamente o cotidiano das pessoas. São sofrimentos psíquicos 
típico de seres humanos, mas podem ser potencializados por fatores sociais tais 
como: derrocada financeira, vexame público, divórcio, demissão, dentre outros. 
Para atuação de psicanalistas em contextos de atenção coletiva, ex.: 
Psicanálise Institucional, psicanálise escolar ou na saúde coletiva em que se faz 
atendimento de grupos, podem ser usados instrumentos gerenciais para 
identificar grupos de risco, aos quais deve ser planejada atenção individual. 
 Nesta etapa, foram apresentados os seguintes recursos, que podem ser 
recomendados para o autocuidado da saúde mental a grandes públicos: PHQ-9, 
SRQ-20, aplicativo COMVC, estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E., técnica de respiração 
quadrada, bem como foram orientadas atitudes de acolhimento e manejo clínico. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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n. 3, p. 231-236, set. 2014. 
_____. Crise Suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2016. 
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Anais... Brasília, 2024. 
CASSORLA, R. S. Suicídio e sociedade Narcísica: um estudo de caso. In: 
Suicídio – complexidade e urgências na cena contemporânea. Londrina: Lucto 
editora, 2024. 
CARVALHO, S. A morte pode esperar? Clínica psicanalítica do suicídio. 
Salvador: Associação Campo Psicanalítico, 2014. 
DAMIANO, R. F. et al. Compreendendo o suicídio. Barueri: Manole, 2021. 
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GRANER, K. M.; CERQUEIRA, A. T. DE A. R. Revisão integrativa: sofrimento 
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Coletiva, v. 24, n. 4, p. 1327-1346, abr. 2019. 
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RIBEIRO, D. M. Suicídio: critérios científicos e legais de análise. Revista Jus 
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