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GESTALT AULA 5 Profª Luiza Sionek 2 CONVERSA INICIAL Você provavelmente já ouviu falar sobre o uso de técnicas em Gestalt- terapia, não é mesmo? Os workshops e seminários de Perls são famosos, e suas gravações são facilmente encontradas na internet. Entretanto, esse assunto já despertou polêmicas e mal entendidos, isso porque, como afirma Figueiroa (2015), a técnica na Gestalt-terapia possui caráter inovador, o que acabou ocultando os aspectos teóricos fundamentais que embasaram as práticas, as grandes responsáveis por seu diferencial. Perls tinha pouco interesse em relação à sistematização teórica, preferindo a parte experiencial, que era o seu grande motor – a parte teórica foi mais dirigida por Paul Goodman. Além disso, as obras Gestalt-terapia explicada (1969) e Tornar-se presente (1971), de John O. Stevens, com descrições de técnicas e experimentos, colaboraram para o destaque da teoria, mas, ao mesmo tempo, para o surgimento de mal-entendidos, levando a crenças de que a Gestalt-terapia era uma mera execução de técnicas e que o estilo próprio de Perls era o que determinava a abordagem. Em alguns momentos, a parte foi confundida com o todo, ou seja, o uso das técnicas foi confundido com a Gestalt-terapia em si, e toda a teoria, bases filosóficas e conceitos da abordagem foram diminuídos. Mas, como vimos nas aulas anteriores, somos muito bem amparados teoricamente por meio do existencialismo, da fenomenologia, da teoria de campo, da teoria organísmica, do ciclo do contato, do pensamento diferencial e de conceitos muito valiosos, como os ajustamentos criativos, o aqui e agora, e awareness e self, todos com muitas referências que respaldam a nossa prática. Sanado este primeiro mal entendido, começaremos então os temas desta aula. No Tema 1, abordaremos as técnicas em Gestalt-terapia, seu conceito e utilização. No Tema 2, veremos as regras, que são um tipo de técnica mais estruturada e que inclui: princípio básico do agora, relação eu e tu, linguagem neutra e linguagem do eu, princípio do contínuo da conscientização, não tagarelar e fazer perguntas. Em seguida, no Tema 3, abordaremos os jogos, outro tipo de técnica dentro dessa abordagem, mas mais fluída e numerosa. Já no Tema 4, entraremos na experimentação, trazendo técnicas famosas como a cadeira vazia e o trabalho com sonhos. Por fim, no último tema, informaremos sobre as especificidades das técnicas individuais para adolescentes e crianças. 3 TEMA 1 – TÉCNICAS Na Gestalt-terapia, quando falamos de técnicas, temos dois grupos norteadores: as regras e os jogos. De acordo com Levitsky e Perls (1980), as primeiras são mais restritas e delimitadas, sendo explicadas de antemão. Já os jogos são variados e permitem ousadia na criação. Nos próximos tópicos abordaremos cada uma delas e falaremos também sobre os experimentos. De acordo com Ribeiro (2016, p. 179), “toda técnica deve levar o cliente a um contato positivo e criativo com o mundo externo e consigo mesmo, que deve levá-lo na direção de suas necessidades e a movimentar-se no sentido de satisfazê-las”. É o auxilio para que a resposta que já existe dentro do cliente se mostre. Ela não produz respostas, mas busca algo que já está ali e só precisa de auxílio pra ser mostrado. Figueiroa (2015) defende que não basta aplicar uma técnica ou sugerir um experimento, mas perceber o fenômeno que está emergindo e aproveitá-lo da melhor maneira possível em benefício da awareness. O autor ainda ressalta a importância de encontrar o seu modo e caminho, processos que acontecem juntos, a partir do seu acervo, do que já experimentou e conhece, e o caminho é o que se apresenta neste momento. O fenômeno é muitas vezes surpreendente, por se tratar de um método experiencial e experimental, que pode dar certo ou não, e, mesmo quando não ocorre o esperado, também pode trazer benefícios. Ademais, “a técnica ou o experimento tem de estar sempre a serviço do processo psicoterapêutico do cliente, isto é, promovendo awareness, contato e fluidez na formação de Gestalten” (Figueroa, 2015, p. 106). A partir disso é que os ajustamentos criativos ocorrem, pois há contato, mudando a configuração, ou seja, cliente e terapeuta não são mais iguais. Sendo assim, é um processo paradoxal, no qual cada recorrência é uma chance para o novo, e estar aberto a essa mudança demanda espera atenta, paciente, ativa e presente. TEMA 2 – REGRAS As regras se diferenciam de mandamentos. Nelas possuímos o objetivo de reunir pensamento e sentimento, proporcionando um momento de maior awareness, e, de forma alguma, temos a intenção de sermos decisivos e determinantes. Buscamos a experimentação, que muitas vezes revela bloqueios e limitações que o cliente estabelece consigo e o mundo (Levitsky; Perls, 1980). 4 Vejamos a seguir as seis principais regras na Gestalt-terapia. 2.1 Princípio básico do agora Corresponde à experiência de promover contato com o aqui e agora, de auxiliar o cliente a se perceber e ter consciência do momento presente. Algumas perguntas norteadoras que auxiliam nesse processo são: “O que você está sentindo?”, “Como você está nesse momento?” e “Qual é o seu agora?”. A ênfase no presente não quer dizer que negligenciamos o passado ou futuro, mas o que nos importa é como eles são vividos no hoje. A busca é por vivenciar esses momentos no presente (Levitsky; Perls, 1980). 2.2 Contato genuíno com o cliente – eu e tu Trata-se de enfatizarmos, sempre que possível, a interação emissor e receptor, utilizando perguntas como “A quem está dizendo isso?”, “Quem são os outros?”. Assim, é preciso que o cliente envie a mensagem diretamente ao seu receptor, utilizando seu nome e promovendo a diferenciação do “falar para” e “falar com”. A partir disso é possível também conferir se essa mensagem está clara e está chegando ao ouvinte, se é um contato superficial ou genuíno (Levitsky; Perls, 1980). 2.3 Linguagem neutra e linguagem do eu O objetivo dessa regra é evidenciar a responsabilização. Muitas vezes observamos uma distanciação dos nossos corpos e atitudes, falando “sobre” em uma linguagem neutra em terceira pessoa. O convite é para que o cliente experimente dizer “Eu estou rígido” em vez de “O pescoço está rígido” e, mais ainda, “Eu estou me enrijecendo”, tendo, assim, um grau diferente de responsabilidade e envolvimento. Com isso, aumentam-se as chances de se ver como ativo nas situações e não como mero receptor do que acontece ao seu redor (Levitsky; Perls, 1980). 2.4 Princípio do contínuo da conscientização Aqui, o objetivo é redirecionar o foco do “por quê”, que permanece na interpretação, ao “o quê” e “como”, que correspondem à psicoterapia experiencial. Isso afasta as longas verbalizações, explicações e interpretações 5 e conduz à conscientização de sensações e percepções. Levitsky e Perls (1980) afirmam que, ao auxiliar o cliente a acreditar em seus sentidos, auxiliamos também a diferenciar a realidade da fantasia. Vemos um exemplo dessa regra demostrada por Levitsky e Perls (1980, p. 198) no seguinte diálogo: T. De que é que você está cônscia agora ? P. Agora, estou cônscia de falar consigo. Vejo os outros na sala. Estou cônscia de John contorcendo-se. Posso sentir a tensão em meus ombros. Estou cônscia de que fico ansiosa ao dizer isso. T. Como sente a ansiedade ? P. Ouço minha voz tremendo. A minha boca está seca. Falo de um modo muito entrecortado. T. Está cônscia do que os seus olhos estão fazendo ? P. Bom, agora apercebo-me de que os meus olhos estão olhando para outro lado... T. Pode ser agora os seus olhos ? Escreva o diálogo por eles. P. Eu sou os olhos de Mary. Tenho dificuldade em fixar-me insistentemente num ponto. Fico o tempo todo saltando e vagueando. 2.5 Não tagarelar Essa regra diz respeito a incentivaros sentimentos e evitar resistências. De acordo com Levitsky e Perls (1980), a tagarelice corresponde ao ato de falar sobre um sujeito quando ele está presente, e a comunicação poderia ser realizada diretamente a ele. Dessa maneira, direcionamos as falas para seus respectivos receptores, saindo do “falar sobre” para o “falar com”, facilitando o enfrentamento dos sentimentos por meio de intervenções fenomenológicas. Essa técnica é muito utilizada em terapia de casal, interferindo para que os cônjuges falem entre si, e não sobre eles. 2.6 Fazer perguntas Por fim, a última regra que abordaremos é a de fazer perguntas. Com ela temos a intenção de analisar cuidadosamente o objetivo das perguntas de nossos clientes, que muitas vezes podem corresponder à necessidade de obter respostas do outro. Ao transformar as perguntas em afirmações, permitimos que o cliente se aproprie de suas questões e se responsabilize por elas, promovendo um apoio autêntico (Levitsky; Perls, 1980). TEMA 3 – JOGOS A utilização dos jogos na Gestalt-terapia demanda um olhar apropriado do momento vivido e experienciado pelo grupo ou sujeito em questão. Como 6 mencionamos no Tema 1, os jogos possuem maior autonomia em sua criação, e, como afirmam Levitsky e Perls (1980), qualquer maneira de organização social pode ser vista como uma proposta de jogo, o que demanda também liberdade para identificar o que faz sentido naquele momento, dentro da proposta criada. Sendo assim, a intenção é trazer consciência aos jogos nos quais somos inseridos e substituir os que não fazem mais sentido, buscando adaptá-los aos mais pertinentes ao momento. Citaremos em seguida alguns jogos conhecidos dentro da Gestalt-Terapia, mas é fundamental ressaltar que são apenas algumas das muitas possibilidades existentes. Muitos deles envolvem dramatização, por conta da forte afinidade de Perls com o teatro, visto que seu trabalho traz muitos elementos teatrais (Perls, 1979). 3.1 Jogos de diálogo Podem ser realizados com qualquer polarização de personalidade, com partes do corpo ou com outras pessoas. Consistem em solicitar um diálogo real entre essas duas partes, no qual o cliente imagina as respostas e argumenta como cada uma delas (Levitsky; Perls, 1980). 3.2 Inversões Levitsky e Perls (1980) afirmam que muitas vezes um comportamento aparente representa uma inversão de impulsos contidos. A técnica de inversão consiste em propor a representação de uma outra polaridade, por exemplo, se o paciente apresenta excessiva calma, será convidado a experimentar a agitação, tocando uma parte de si que estava adormecida. Se o cliente é pudico, é convidado a experimental ser sensual, falar de maneira sensual ou andar de maneira sensual. Todavia, é importante avaliar o grau do convite a ser experimentado: pedir que o cliente desfile de maneira sensual pode ser um pouco desafiador em um primeiro momento, mas solicitar que viva a sensualidade por meio da fala pode ser mais possível. 3.3 Exageração É um jogo relacionado ao princípio do contínuo de conscientização (tópico 2.4) e oferece uma nova maneira de perceber nosso corpo. Ele pode estar relacionado a aumentar a intensidade de movimentos corporais, como no caso 7 de o cliente estar mexendo as mãos e, então, pede-se para que ele exagere repetidamente o movimento, para que faça mais rápido e mais forte. Essa proposta evidencia o gesto e clareia o significado interno. A exageração também pode ser realizada verbalmente, pedindo para que repita alguma frase ou palavra utilizada, objetivando que o cliente entre em contato com o que está sendo falado e de fato se escute (Levitsky; Perls, 1980). Figueiroa (2015) aponta para a necessidade de um olhar sensível por parte do terapeuta, que precisa estar atento ao que será exagerado, sendo essa seleção fundamental para o processo. O autor afirma também que, frequentemente, o que é exagerado é algo que está cristalizado, como um sintoma, dessensibilização ou interrupção, e, a partir do pedido para que isso seja intensificado, o contato é decisivo e a awareness é proporcionada. TEMA 4 – EXPERIMENTOS Antony (2017, p. 58) descreve que “o experimento transforma as técnicas em experiências”. Figueroa (2015) defende, ainda, que os experimentos são as ferramentas mais notáveis da Gestalt-terapia, visto que seu processo frequentemente engloba as interferências técnicas mais tradicionais da abordagem, sendo sempre uma consequência do que está emergindo, com caráter único e singular. Além disso, é formado no momento, por meio de uma construção compartilhada entre cliente e terapeuta, com um convite que sugere uma experiência. O fundamental é que essa construção seja a partir do que emerge na sessão, na interação entre cliente e terapeuta. Ademais, Figueroa (2015) ressalta a importância de estar atento a essa relação (cliente-terapeuta) e se certificar de que é um desejo do cliente participar do experimento e checar sua disponibilidade para continuar ou interrompê-lo, visto que uma carga excessiva pode ser mobilizada, o que não seria positivo para a experiência do cliente. Zinker (2007) aponta que todos os experimentos são pautados na vida experiencial da pessoa, na maneira como se mostra naquele momento. Técnicas impostas, desconectados com a experiência, não configuram Gestalt-terapia, visto que não possuem ligação com a vida do cliente, e tal ligação é fundamental para o aprendizado. Sobre a criatividade e potência do trabalho com experimentos, Zinker (2007, p. 30) afirma que 8 A Gestalt-terapia é, na realidade, uma permissão para ser criativo. Nossa ferramenta metodológica básica é o experimento, uma abordagem comportamental para passar a um novo patamar de funcionamento. O experimento se dirige ao cerne da resistência, transformando a rigidez em um suporte elástico para a pessoa. Não precisa ser pesado, sério, nem ter uma comprovação rigorosa; pode ser teatral, hilário, louco, transcendente, metafísico, engraçado. O experimento nos dá licença para sermos sacerdotes, prostitutas, gays, santos, sábios, magos- todas as coisas, seres e noções que se ocultam em nós. Os experimentos não precisam brotar de conceitos; podem começar simplesmente como brincadeiras e desencadear profundar revelações cognitivas. Sendo assim, o experimento consiste em um dos recursos pra tirar o cliente de situações inacabadas, favorecendo a awareness, auxiliando no processo de figura-fundo e nos ajustamentos criativos. Na sequência veremos alguns do experimentos mais conhecidos na Gestalt-terapia. 4.1 Cadeira vazia A cadeira vazia consiste em representar em uma cadeira ou almofada uma pessoa, situação inacabada, polaridades, projeções ou o que considerar importante de ser trabalhado (Figueroa, 2015). A técnica acontece com o diálogo que o cliente estabelece com a representação escolhida, trocando de lugar e alternando os papéis. Para que a técnica aconteça, é fundamental que o cliente entre na fantasia e permita que os papéis ganhem vida própria. Para isso, a introdução da técnica é fundamental. Por exemplo, se a representação for de uma pessoa, pode pedir para que o cliente descreva a roupa, o modo como está sentado, a sensação que tem ao olhar para essa pessoa. Assim, quando o cliente se envolve plenamente, é possível que ele entre em contato com o material novo que está sendo reintegrado pela awareness (Figueroa, 2015). 4.2 Fantasia dirigida Existem diversas sugestões de fantasias dirigidas, e, conforme você se sentir confiante e familiarizado com elas, poderá criar novas de acordo com a sua demanda e desejo, mas Stevens (2013) ressalta a importância do preparo para esse experimento, visto que será muito difícil que o cliente entre na fantasia se permanecer preso na realidade, se estiver tenso ou aflito com questões externas. Sendo assim, é fundamental quevocê elabore uma boa introdução, sugerindo que o cliente busque uma posição confortável, com os olhos fechados e entre em contato com suas sensações físicas. Outro aspecto sugerido pelo 9 autor é que a fantasia seja relatada em primeira pessoa e no presente, proporcionando um aprofundamento nas sensações. Ademais, quando o cliente conta sua fantasia, fica mais consciente de si e, compartilhando tal consciência, se relaciona com o outro em um contato genuíno. 4.3 Trabalho com sonhos O trabalho com os sonhos é uma das técnicas mais famosas dentro da Gestalt-terapia. Perls considerava que o sonho é o produto mais autêntico de uma pessoa, visto que acontece sem mediação ou intenção determinada, e todos os elementos são criações de quem sonha, não importando se consciente ou inconsciente, sendo o sonhador o autor e testemunha de sua criação onírica (Lima Filho, 2015). Perls considerava que tudo que é visto no outro, ou no mundo, é uma projeção, e que em determinado momento tudo teria estado em unidade até que foi dissociado, alienado e rejeitado, e nosso sistema psíquico busca por essa unificação novamente, se aproximando do objeto afastado, sendo o sonho uma das maneiras para integração (Lima Filho, 2015). Lima Filho (2015) descreve que inicialmente é solicitado ao cliente que descreva seu sonho em primeira pessoa e no presente. Quando a narração de alguma forma está bloqueada, pode investigar o sentimento presente, as sensações corporais. Se a fala está muito fluida, sem emoções, pode-se pedir para que o cliente se identifique com um elemento do sonho, como um personagem, um objeto ou aspeto psicológico. Se perceber opostos, pode solicitar um diálogo entre os polos buscando perceber a fluidez dessa energia. TEMA 5 – TÉCNICAS NO ATENDIMENTO COM ADOLESCENTES E CRIANÇAS Como já mencionado, as técnicas possuem diferentes modalidades, e seu uso é muito abrangente. Entretanto, quando pensamos no atendimento com adolescentes e crianças, das técnicas já mencionadas, a mais utilizada no trabalho infanto-juvenil é a fantasia dirigida. Em seu livro Descobrindo crianças, Violet Oaklander aborda o uso da fantasia e do desenho com fantasia, trazendo descrições que podem ser utilizadas com crianças e adolescentes. Além da fantasia dirigida, outras técnicas usadas com maior frequência são a cadeira vazia, o trabalho com sonhos e as representações, mas existem outras propostas interessantes para trabalhar situação inacabadas com esse público. 10 Livros como Gestalt-terapia infanto-juvenil, com organização de Cintia Brandão; Gestalt-terapia com crianças, de Luciana Aguiar; Gestalt-terapia: cuidando de crianças, de Sheila Antony; A Clínica Gestáltica com adolescentes: caminhos clínicos e institucionais, de Rosana Zanella; e, claro, o mais clássico Descobrindo crianças, de Violet Oaklander, são ótimas referências e abordam técnicas e experimentos relevantes. A seguir traremos alguns deles. 5.1 Técnicas no atendimento com adolescentes Segundo Silveira (2018), o experimento é um método que potencializa a awareness, a aprendizagem de si e de novos ajustamentos criativos. Quando formado anterior à sessão, configura-se como técnica, com elementos teóricos buscando abrir para novas possibilidades, mas, de acordo com D’Acri, Lima e Orgler (2012 citados por Silveira, 2018) é durante a relação terapêutica, baseada no método fenomenológico, que o experimento acontece, no aqui e agora. Silveira (2018) sugere algumas técnicas que utiliza em sua prática com adolescentes vestibulandos, ressaltando a importância de cada terapeuta elaborá-las de acordo com o que fizer sentido para ele, e considerando que não cabem apenas para esse momento de vida. Entre elas estão: • Cartaz do presente: vários materiais são disponibilizados (imagens, revistas, cartolina, cola, canetas etc.) e é solicitado que o cliente elabore uma representação de seu momento presente. Em seguida, ele dá um título e faz uma apresentação de si por meio do material (Silveira, 2018). • Mandala do eu: é introduzida com um exercício de relaxamento. Com uma folha e giz pastel, é pedido para que visualize cores, imagens e movimentos que representem seu eu interior. No caso do exemplo apresentado pela autora, seria de acordo com as pressões do vestibular, mas pode ser utilizado para outros momentos. A parte de dentro seria o mundo interior e a parte de fora o exterior (Silveira, 2018). • Sentindo o corpo: convida-se o cliente a ficar de pé e formar com seu corpo uma escultura de como percebe sua postura diante da preparação para o vestibular (mas podemos pensar em qualquer outra situação). Permanecendo na mesma posição, é solicitado que descreva como está se sentindo, suas percepções físicas, perceba a rigidez, tencione e solte essas partes, trabalhando a consciência corporal para ampliar awareness. 11 • Construção do agora: solicita-se que o adolescente entre em contato com a emoção do presente, imagine uma representação para esse sentimento e construa com massinha ou argila. Questiona-se sobre o que percebe, qual seu peso, cor, o que representa, se tem sentido com mais alguma coisa em sua vida, qual seria esse objetivo etc. A utilização desse material, por sua maleabilidade, confere fluidez e ressignificação ao processo, que pode ser redefinido conforme o experimento e a necessidade do cliente (Silveira, 2018). 5.2 Técnicas no atendimento com crianças De acordo com Antony (2017), o processo terapêutico com crianças não pode ser realizado somente verbalmente, sendo que, para facilitar essa relação, é necessário utilizar técnicas projetivas, que buscam favorecer a manifestação do mundo interno e particular da criança, com suas fantasias, sonhos e introjetos; e expressivas, que objetivam auxiliar a expressão de si, de maneira autêntica. A autora também propõe técnicas integrativas, que integram partes rejeitadas. Oaklander (1980) expõe que existem muitas técnicas que auxiliam as crianças na exposição de seus sentimentos, como desenhos e pinturas, mas que o que é mais importante é ajuda-la a tomar consciência de si e de sua existência: Cada terapeuta encontrará o seu próprio estilo para conseguir esse delicado equilíbrio entre dirigir e orientar a sessão, de um lado, e acompanhar e seguir a direção da criança, de outro. As sugestões aqui apresentadas tem apenas o intuito de mostrar a você as infinitas possibilidades e libertar o seu próprio processo criativo. Não se pretende que sejam seguidas mecanicamente. O processo de trabalho com a criança é delicado, fluido – um acontecimento orgânico. O que se passa dentro de você, o terapeuta, e o que se passa dentro da criança numa sessão qualquer, constituem uma suave fusão. (Oaklander, 1980, p. 69, grifo nosso) Uma das técnicas abordadas pela autora é o uso de desenhos. Oaklander aponta diversas maneiras de trabalhá-los, ressaltando que, mesmo sem intervenções, o desenho é por si só uma ótima expressão de si. Algumas dessas maneiras são: pedir que a criança compartilhe a experiência de desenhar e como foi seu processo; solicitar que compartilhe o desenho em si; perguntar sobre as formas, contornos e cores etc. A autora também descreve experimentos utilizando materiais diversos, como argila, massinha, massinha de farinha, água, esculturas e construções, madeira e ferramentas, colagem e figuras. É possível também a realização de 12 trabalhos utilizando histórias, livros, poesias e teatro de bonecos. Outra técnica interessante é utilizar as experiências sensoriais, que exploram o tato, visão, audição, paladar, olfato, intuição, e, para isso, podemos usar texturas, músicas, alimentos e técnicas de respiração. Antony (2017) ressalta a importância de respeitar o tempo da criança, aguardando sua resposta, de acordo com seu momento, visto que a relação terapêutica é valiosa, e,para isso, o vínculo deve estar bem estabelecido, promovendo segurança para que a criança participe da proposta. Como defende Aguiar (2005), é a relação dialógica que proporciona o uso das técnicas. Sem ela, permanecemos em um brincar sem significado. NA PRÁTICA É importante ressaltar que a organização sugerida nesta aula condiz com uma demanda mais didática do que prática, visto que precisamos olhar para o todo, que é sempre maior do que a soma das partes. Dessa forma, os conceitos de regra, jogos, técnicas ou experimentos são fundos e permitem e favorecem o surgimento de figuras. As regras e técnicas estarão sempre presentes no fundo do terapeuta, que precisa estar atento ao que emerge. Já jogos e experimentos são produtos do fenômeno apresentado, sendo mais ou menos estruturados, mas devem sempre visar a ampliação de consciência do cliente, o fechamento de gestaltens e a identificação de bloqueios e impasses. Os jogos e experimentos devem ser experienciados também pelo terapeuta, pois, como afirma Oaklander (1980), é fundamental que o profissional se sinta familiarizado com sua proposta, que esteja disponível para o manejo fenomenologicamente, considerando que pode dar “tudo certo” ou não, mas é indispensável a presença e abertura para as infinitas possibilidades que surgirão dessa relação. Existem muitos vídeos disponíveis na internet com técnicas utilizadas por Perls, nos quais é possível vê-lo aplicando e conduzindo experimentos em grupo e individualmente. Assistir a esses vídeos pode trazer clareza em algumas aplicações, mas lembre-se de que o que está sendo mostrado faz parte do estilo de atendimento de Perls, e cada terapeuta precisa encontrar o seu próprio modelo, suas preferências e estilos. É necessário buscar o que faz sentido para você e seu cliente no momento que se apresenta, mas, para que isso seja possível, é fundamental conhecer as técnicas e estudar suas possibilidades. 13 Outro aspecto que demanda atenção é a utilização de técnicas na psicoterapia online. Diante da atual exigência de ajustamentos criativos com a pandemia vivenciada, precisamos nos reinventar e adaptar nossos recursos terapêuticos. Algumas das técnicas apresentadas aqui ficam impossibilitadas, mas um universo novo de possibilidades também se abre. Podemos utilizar ferramentas digitais, sites, jogos online, o próprio compartilhamento de tela das plataformas usadas, podemos solicitar que o cliente já leve para a sessão algum material específico, ou mesmo utilizar o que nos é apresentado pela câmera, no cenário em que o cliente se encontra, trazendo elementos novos, diante de um campo que não se tornaria figura em uma sessão presencial, por exemplo. No atendimento online infantil muitas vezes aparecem animais, objetos, rotinas que não nos seriam possibilitados em um outro momento, e isso tudo pode levar a novos experimentos. FINALIZANDO Como vimos, independentemente de o trabalho ser com adultos, crianças ou adolescentes, ou de envolver uma regra, jogo ou experimento, é fundamental que seja utilizado a serviço do cliente e jamais como uma “carta na manga” em momento de insegurança, ou para evitar um silêncio indesejado. Como Gestalt- terapeutas, utilizamos as técnicas e experimentos para proporcionar awareness, ou seja, fazer com que o cliente entre em contato consigo e se perceba no mundo. Para isso, a fenomenologia é nossa metodologia. Não interpretamos, e sim exploramos o fenômeno e descrevemos o que estamos vendo. Somos presentes nessa relação, inteiros, disponíveis e abertos para o que emergir. Cada um de nós poderá desenvolver maior afinidade com um tipo de prática, e isso faz parte do nosso perfil de trabalho, e a técnica em si não é o que nos importa, mas seu movimento criativo e vivo. Ela não é um acontecimento, ela é um instrumento para acontecer. Figueroa (2015, p. 128) utiliza uma história zen sobre o vento, para compará-lo com as técnicas: “se você tentar guardá-lo em uma caixa, quando você a fechar ele não mais estará lá”. Para finalizar, trago uma fala de Lima Filho, (2015, p.136, grifo nosso) sobre o trabalho com sonhos, mas que podemos utilizar para pensar todas as técnicas e experimentados citados: O método de Perls inclui procedimentos uniformes e estáveis, o que permite a formulação de uma teoria geral. Mas também se divisa 14 imensa diversidade de modos de condução dos experimentos, o que deixa aberta a possibilidade de que quaisquer condutores, psicoterapeutas ou facilitadores desenvolvam repertórios próprios de recursos terapêuticos, ainda que se mantenham leais às proposições básicas de Perls e da abordagem gestáltica. Não seria compatível com o espírito da abordagem os psicoterapeutas se limitarem a reproduzir os ensinamentos de seu mestre e mentor. A diversidade e a criatividade consubstanciam a formação do Gestalt-terapeuta e falam da compatibilidade entre a pessoa do psicoterapeuta e identidade profissional por ele eleita. Meras reproduções seriam contrárias ao fluxo de awareness na experiência do próprio psicoterapeuta na situação de atendimento. 15 REFERÊNCIAS AGUIAR , L. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. Campinas: Livro Pleno, 2005. ANTONY, S, M, R. Gestalt-terapia: cuidando de crianças – teoria e arte. Curitiba: Juruá, 2017. FIGUEROA, M. As técnicas em Gestalt-terapia. In: FRAZÃO, L. M; FUKUMITSU, K. O. (Org.). A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestal- terapia. São Paulo: Sumus, 2015. (Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas) LIMA FILHO, A. P. Teoria e técnica do trabalho com sonhos em Gestalt-terapia. In: FRAZÃO, L. M; FUKUMITSU, K. O. (Org.). A clínica, a relação psicoterapêutica e o manejo em Gestalt-terapia. São Paulo: Sumus, 2015. Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas. LEVITSKY, A.; PERLS, F. As regras e os jogos em Gestalt-terapia. In: FAGAN, J.; SHEPHERD, I. (Org.). Gestalt-terapia: teoria, técnicas e aplicações. 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