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SINTAXE DA LÍNGUA ESPANHOLA Roberta Spessato Revisão técnica: Marina Leivas Waquil Doutora e Mestra em Letras – Teorias Linguísticas do Léxico Bacharel em Letras – Português/Espanhol Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin - CRB -10/2147 S749s Spessatto, Roberta. Sintaxe da língua espanhola / Roberta Spessatto, Aline Bizello; [revisão técnica: Marina Leivas Waquil] . – Porto Alegre: SAGAH, 2018. 249 p. : il. ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-495-3 1. Língua espanhola – Sintaxe. I. Bizello, Aline. II.Título. CDU 811.134.3’367 Sintaxe_lingua_espanhola_Book.indb 2 20/07/2018 11:28:59 Sintaxe e morfologia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever as consequências da morfologia flexiva na sintaxe. Identificar os processos de derivação e composição e sua influência na sintaxe. Discutir as relações de concordância na interação da morfologia com a sintaxe. Introdução A morfologia e a sintaxe possuem uma unidade de estudo em comum: a palavra. Segundo a Real Academia Española (RAE) (2010), a palavra cons- titui a unidade máxima da morfologia e a unidade mínima da sintaxe, ou seja, enquanto a primeira análise acaba na palavra, a segunda se inicia com ela. De acordo com a RAE (2010), a morfologia é a parte da gramática que lida com a estrutura das palavras, as suas variantes e o papel gramatical desempenhado por cada segmento em relação aos demais elementos que as compõem. Geralmente, é dividida em dois ramos: a morfologia flexiva e a morfologia lexical. A primeira não altera a classe das palavras a que a base pertence, enquanto a segunda frequentemente o faz. Neste capítulo, você aprenderá que, mesmo que as informações flexio- nais e derivacionais tenham propriedades morfológicas muito diferentes, ambas compartilham uma forte ligação com a sintaxe. Propriedades flexionais: uma análise morfossintática A morfologia fl exional ou fl exiva estuda as variações das palavras que envolvem mudanças de conteúdo gramatical com consequências nas relações sintáticas, como ocorre na concordância verbal ou nominal. O conjunto dessas variantes da morfologia fl exional constitui a fl exão da palavra ou o seu paradigma. C06_Sintaxe_Morfologia.indd 1 16/07/2018 09:49:46 As consequências da morfologia flexional na sintaxe são visíveis quando pensamos na categoria número, por exemplo. Cabe ressaltar que o número pode ser subdividido em dois grupos: o primeiro é composto por substantivos e pronomes, e o segundo por determinantes, adjetivos e verbos. O primeiro grupo possui informações quantitativas sobre entidades que já são designadas, ou melhor, que são responsáveis pela sentença, como ocorre com coches e com ellas. Já o número do segundo grupo só está presente pela exigência de concordância, como ocorre com o verbo salir da oração “Ellas salieron”. Nos verbos, a vogal temática é um segmento flexional sem repercussão semântica, mas que distingue as três conjugações: -ar, como em hablar (falar); -er, como em comer (comer); e -ir, como salir (sair). Outra propriedade da morfologia flexiva é a pessoa. Dessa propriedade, fazem parte os pronomes pessoais (yo, ellos), os pronomes possessivos (tuyo, su, nuestro) e o verbo (nosotros nos despertamos). Em relação à flexão dos verbos, segundo a RAE (2010), a morfologia flexiva ocorre na marcação de tempo, de aspecto e de modo. A primeira marcação constitui uma informação dêitica, no sentido de que localiza certa situação em relação ao momento em que o enunciado é emitido. A segunda marcação está relacionada de maneira intrínseca ao aspecto, que é a categoria (não dêitica) que expressa a estrutura interna das situações e distingue, por exemplo, a situação que simplesmente ocorre no presente — estoy estudiando (estou estudando) — da que se repete — estudio mucho todos los días (estudo muito todos os dias). A terceira mar- cação, a de modo, mostra na flexão verbal da relação a atitude do falante com a informação que é enunciada, mas também expressa a dependência formal de algumas sentenças subordinadas em relação às classes de palavras que as selecionam ou das relações sintáticas em que aparecem. Propriedades da flexão De acordo com Fábregas e Scalise (2012), uma operação morfológica é con- siderada fl exional quando atende a dois critérios básicos: 1. não muda a classe gramatical da base nem o seu significado – ou o número ou a classe de constituintes por ela selecionada; 2. não produz novas palavras, mas formas que uma mesma palavra pode assumir em contextos sintáticos (podendo envolver operações como número, gênero, caso, aspecto, tempo ou modo). Sintaxe e morfologia2 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 2 16/07/2018 09:49:46 Casos em que apenas uma dessas propriedades é atendida são considerados de difícil classificação. Além disso, nos dicionários, uma forma flexionada nunca aparecerá como um lema separado. Lema é a forma gráfica de uma palavra que é usada como entrada de verbete em dicionários ou vocabulários (por exemplo, o lema da forma verbal terá é ter) (LEMA, 2018). Mesmo que a sintaxe não se preocupe com a formação do lexema, as suas categorias são fundamentais para a sua estrutura. As categorias verbais e nominais podem sofrer inúmeros processos flexionais em diferentes línguas, mas cabe ressaltar que as suas mudanças nem sempre ocorrem pelos mesmos motivos. Há situações que dependem de um contexto sintático e há outras que determinam a estrutura sintática. Estando a flexão envolvida na sintaxe e sendo a sintaxe maximamente produtiva, espera-se que todo processo flexional seja produtivo. Além disso, a flexão, também por interagir com a sintaxe, está sujeita ao fenômeno da concordância, isto é, o morfema flexional pode ser copiado por outros elementos da frase, o que não ocorre com a derivação. Como podemos ver, a morfologia flexiva é extremamente relevante para a sintaxe. Com isso, Rosa (2011), baseando-se em Anderson (1988), aborda os processos flexionais a partir de três propriedades: inerentes, de concordância e configuracionais. Propriedades inerentes Rosa (2011) caracteriza as propriedades inerentes como as que pertencem a cada palavra e que são acessíveis à sintaxe para que ocorra a concordância. Veja exemplos na língua espanhola: a) O sufixo indicador de modo, tempo e aspecto, como -ba na forma verbal “hablábamos em Cuando niña, mis hermanos y yo hablábamos mucho sobre las vacaciones”. b) No âmbito dos substantivos, o número é uma marca, como muchachos em “Los muchachos llegaron temprano”. 3Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 3 16/07/2018 09:49:46 Propriedades de concordância Essas propriedades representam as marcas fl exionais de determinados vocá- bulos, que são determinadas por outros vocábulos de uma mesma estrutura sintática. Rosa (2011) afi rma que há um item responsável por essa concordância, o qual a autora denomina controlador. Ela afi rma também que a concordância não deixa de ser uma propriedade inerente, mas o que a caracteriza é o fato de que várias palavras pertencem a um mesmo constituinte. Veja um exemplo na língua espanhola: Los niños rubios salieron tarde. Nessa oração, o elemento controlador é niños, e todos os outros elementos se obrigam a concordar com ele. Caso mudássemos o elemento controlador para niñas, três elementos dessa oração mudariam para concordar com o novo elemento controlador — o qual deixou de ser masculino plural e passou a ser feminino e singular. A nova oração seria “Las niñas rubias salieron tarde”. Propriedades configuracionais As propriedades confi guracionais ocorrem quando a escolha da fl exão é determinada pela função ou pela posição ocupada por uma palavra em uma dada confi guração sintática. Nessa análise, ocorrem as relações existentes entre o predicado e os seus argumentos. A seguir você pode ver um exemplo da ordem dos constituintes na língua espanhola: Vi a Juan. O objeto direto necessariamentevem após o verbo. Veja o exemplo de colocação pronominal: Vi una falda roja linda. La compraré lo más pronto posible. Nessa construção, o pronome de objeto direto la ocorre em função das propriedades configuracionais, ou seja, ele possui um lugar específico e um referente determinado. De forma mais concreta e resumida, temos a seguir uma adaptação do quadro de categorias de Rosa (2011) para a língua espanhola: Sintaxe e morfologia4 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 4 16/07/2018 09:49:46 Fonte: Adaptado de Rosa (2011). Categoria Classes a que tipicamente se liga Tipo de propriedade Número Nome Verbo Pronome Adjetivo Inerente Por concordância Inerente Por concordância Gênero Nome Verbo Adjetivo Inerente Por concordância Por concordância Grau Nome Adjetivo Advérbio Inerente Por concordância Por concordância Posse Nome Por concordância Tempo (presente, passado, futuro) Verbo Inerente Aspecto (ativo, estativo, perfectivo, imperfectivo) Verbo Inerente Modo (indicativo, subjuntivo, imperativo) Verbo Inerente Voz (ativa, passiva, média, causativa) Verbo Advérbio Configuracional Por concordância Pessoa (primeira, segunda, terceira) Verbo Pronome Por concordância Inerente Quadro 1. Categorias da língua espanhola A questão do gênero gramatical Em relação ao gênero gramatical, os substantivos e os pronomes possuem essa propriedade de forma inerente. As outras classes, como o adjetivo, adquirem-no pela concordância. Ainda que a tradição gramatical da língua espanhola tenha favorecido a categoria gênero como uma propriedade fl exiva, em que a vogal o caracteriza os substantivos masculinos e a vogal a, a feminina, atualmente ela é bastante questionada. 5Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 5 16/07/2018 09:49:46 Cabe salientar que a distinção entre masculino e feminino que corresponde a uma distinção do gênero natural não deve ser confundida com o conceito de gênero gramatical. Obviamente, o primeiro corresponde ao sexo das entidades do mundo real. Já o segundo, além de uma possível e provável correspondência com o sexo dos seres sexuados nas línguas espanhola e portuguesa, representa um sistema de classificação gramatical dos nomes que pode, conforme as línguas, não ter qualquer ligação com o gênero natural. O status do gênero nas diferentes línguas, segundo Fábregas e Scalise (2012), é controverso. Diferentemente do número, o gênero não tem uma associação sistemática com significados particulares. Apesar da correspondência com sexo, o fato de ser atribuído a seres inanimados torna a designação de gênero irrelevante semanticamente (leite é masculino em português; leche é feminino em espanhol), mas não gramaticalmente. Há mais sistematicidade translinguística, o que, para Fanti (2012), representa ir além da linguística do sistema. Embora a translinguística e a linguística estudem a língua, cada uma a estuda sob diferentes perspectivas: a primeira se volta para as relações dialógicas, a segunda, para as relações lógicas. A translinguística, desse modo, sem desconsiderar as relações lógicas, preocupa- -se em observar a vida da linguagem, sua dinamicidade e seu caráter de novidade, que permite a circulação de posições avaliativas de sujeitos situados histórico-socialmente e a permanente renovação de sentidos. Na atribuição de número, línguas que têm trial, em geral têm dual, plural e singular; porém, línguas com plural e singular não terão necessariamente trial ou dual. Por outro lado, línguas com masculino e feminino nem sempre apresentam neutro. Sobre esse aspecto, é importante perceber que, se existem nomes sexuados do gênero masculino que se referem a uma entidade do sexo masculino (em português, temos menino, rapaz; em espanhol, temos niño e hombre) e nomes femininos que se referem a uma entidade do sexo feminino (em português, temos menina, mulher; em espanhol, temos niña e mujer), também há nomes animados que não correspondem necessariamente ao sexo dos seus referentes. Por exemplo, tanto o português quanto o espanhol possuem nomes sexuados sem correspondência, como os sobrecomuns, que são sempre ou masculinos ou femininos, independentemente do sexo dos referentes. Em português, temos, por exemplo, a pessoa, a testemunha; já em espanhol, temos el testiguo, la persona. Dessa forma, pode-se perceber que nem sempre a correspondência entre gênero biológico e gênero gramatical ocorre. Inclusive, Corbett (1991) reconhece que existem fatores formais para a marcação de gênero gramatical. Nos nomes não sexuados, sobretudo, Corbett (1991) reconhece a existência de fatores formais que são constituídos tanto por regras morfológicas — que Sintaxe e morfologia6 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 6 16/07/2018 09:49:46 têm em conta a estrutura mórfica da palavra e compreendem mecanismos morfológicos como a flexão e a derivação — quanto por regras fonológicas. Contudo, o autor admite que, mesmo com a existência de ambas as regras em muitas línguas, nem sempre é simples distinguir entre o seu estatuto morfológico e/ou fonológico. Portanto, para Corbett (1991), os nomes que possuem determinada declinação já carregam determinado gênero, ou seja, há uma correlação entre esses itens morfológicos e o valor de gênero gramatical nos nomes. Quando analisamos a categoria número anteriormente, percebemos que a sua realização nos substantivos se diferencia da dos adjetivos. O que discutimos agora não é simplesmente a relação existente entre singular e plural, mas quais mecanismos sintáticos resultam em determinada estrutura. De acordo com Fábregas e Scalise (2012), morfema, em sentido mais estrito, diz respeito ao conteúdo semântico-gramatical que é exponenciado ou realizado por um morfe — a unidade mapeada na fonologia para dar conta daquele sentido. Quando mais de um morfe corresponde a um só morfema, estamos diante do fenômeno de alomorfia. Para os estruturalistas, o morfema era o morfe que tinha maior distribuição no contexto de alomorfia. A alomorfia pode se ocorrer devido a causas fonológicas, morfológicas e, para alguns, até lexicais (mas sempre se supõe algum grau de im- predizibilidade, sob pena de se confundir com outros processos, como a alofonia). Supleção é o grau máximo dessa impredizibilidade, mas não tem status de alomorfia (p. ex. soy, era, fui). Classes de morfemas Há duas grandes classes de morfemas: raízes e afixos. Essa distinção se baseia (i) na posição fixa ou não fixa dentro da palavra; (ii) na independência (existência isolada); (iii) no significado mais ou menos específico. Afixos com existência isolada e morfemas neoclássicos desafiam o argumento morfológico para essa distinção. As principais operações morfológicas são a flexão (que não altera crucialmente o significado da forma de base nem a sua categoria) e a formação de palavras (derivação, composição e outros processos), que, além de alterar o significado da base, podem alterar a sua categoria gramatical. Como morfemas se realizam ou se exponenciam Raiz é um elemento mínimo irredutível, comum a uma família de palavras conhecidas como cognatas. Algumas línguas, como o português e o espanhol, fazem uso de marcadores formais, como -a em canta ou -o em perro. Uma palavra, para se instanciar, precisa associar a raiz a esses marcadores, formando o que chamamos de stem. Isso não significa que o conceito não valha também para línguas como o inglês, que não utilizam esses marcadores. Em termos de tradução, stem equivale a tema (e, em alguns contextos, a radical). 7Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 7 16/07/2018 09:49:46 Derivação e composição: processos morfossintáticos Pela nossa competência lexical, como falantes, somos capazes de formar novas palavras e reconhecer a estrutura interna de muitas outras. Segundo a RAE (2010), a morfologia lexical também é chamada de formação de palavras e estuda a estrutura das palavras e os seus padrões, que permitem construir ou derivar outros. Ela é tradicionalmentedividida em duas subdisciplinas: derivação e composição. Em ambas, estudam-se os processos morfológicos que se aplicam a determinadas bases léxicas. As propriedades da derivação De acordo com Fábregas e Scalise (2012), os processos derivacionais criam novas palavras, alterando uma ou várias das seguintes propriedades: 1. a categoria gramatical da forma de input (blanco > blancura); 2. a semântica conceitual (infeliz x feliz); 3. o número de argumentos ou a subcategorização da base e as restrições selecionais que se impõem sobre os argumentos (correr é intransitivo, mas recorrer é transitivo). A noção de morfema A noção de morfema (pareamento entre forma e significado) é problemática. Para o estruturalismo, algo pode ser chamado de morfema quando: (i) é isolável; (ii) é contrastivo; (iii) é recorrente; (iv) porta significado. Por exemplo, -ción em computación, mas não -is, -mo ou -ta em formalismo e formalista, respectivamente. Significado em geral se define como a denotação de entidades ou estado de coisas de realidade externa à linguística (como -ista em formalista). Isso, porém, nem sempre é tão simples: -e em ragazze, do italiano, denota feminino e plural, mas em bionde é apenas uma marca de concordância. Nesse caso, o seu significado veicula uma relação formal entre um adjetivo e o nome que o modifica. Também no domínio do significado, é preciso pensar sobre bases como -ferir em verbos como preferir, referir, conferir, e -t- ou -o-, respectivamente, em tetera ou gasómetro. O critério de isolabilidade e recorrência tampouco é trivial. Em uma palavra como fusión, do espanhol, apesar da recorrência de -sión, não é simples isolar fu- como uma base sincrônica da língua ou mesmo como um alomorfe, uma vez que só se realiza nessa palavra. Tratar como uma palavra listada, por outro lado, representa abrir mão de uma informação sobre a produtividade do sufixo. Sintaxe e morfologia8 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 8 16/07/2018 09:49:46 A sintaxe não impõe exigências sobre a derivação, como faz para a flexão. Possivelmente por isso, a flexão é sempre produtiva, ao contrário da derivação. Derivação por afixação Existe uma relação entre a derivação e a fl exão: ambas usam morfemas adicionados à raiz para expressar diferenças. Porém, a fl exão não envolve mudança de referentes; as marcas adicionadas têm um propósito estritamente gramatical. Enquanto as pala- vras fl exionadas escribo (escrevo), escribiendo (escrevendo), escribía (escrevia) são variantes da mesma unidade lexical escribir (escrever), as palavras derivadas escrita (escrita), escritor (escritor) constituem bases distintas. Assim como o paradigma fl exional é a série das variantes fl exionais de uma palavra como delgada (magra), delgado (magro), delgadas (magras), delgados (magros), o paradigma derivacional é concretizado com as bases derivadas de determinada palavra. A derivação é transparente para a sintaxe; a flexão não o é. Ainda que o processo seja semelhante, cabe ressaltar que os prefixos e os sufixos não cum- prem necessariamente a mesma função em determinada língua. Por exemplo, tanto na língua espanhola quanto na portuguesa, os prefixos não alteram a categoria gramatical; já os sufixos sim. No entanto, os prefixos podem alterar o significado de uma palavra drasticamente. Quando a prefixação e a derivação ocorrem simultaneamente, chamamos o processo de parassíntese, como em arrodillar (ajoelhar): A + rodilla + AR. A derivação permite ao léxico designar vários sentidos a partir de um número muito menor de raízes ou lexemas. A afixação é um dos processos mais recorrentes na formação de novos vocábulos. De acordo com Schwindt (2014), os afixos podem se ancorar em diferentes posições de base: antes (prefixação), depois (sufixação) e em seu anterior (infixação). Veja exemplos de afixação na língua espanhola: Prefixação pro + poner = proponer (propor) Sufixação bello + eza = belleza materno + al = maternal 9Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 9 16/07/2018 09:49:46 Parassíntese en + cantar + miento = encantamiento A derivação também está sujeita a assimetrias entre prefixos e sufixos, como acontece na maioria das línguas românicas. Prefixos não têm o poder de alterar a categoria gramatical das bases a que se ligam, ao passo que sufi- xos têm. Por exemplo, proponer continua sendo verbo, como poner; já bello (adjetivo) passa a belleza (substantivo). Prefixos também se ligam, nessas línguas, a bases de diferentes categorias gramaticais, ao passo que sufixos parecem respeitar a hipótese de base unitária — na qual o afixo não pode se conectar aleatoriamente a bases de classes diferentes, selecionando somente uma categoria. Nesse domínio, parecem também produzir palavras de mesma categoria (o que confirmaria que o afixo ou a regra carregariam a informação de categoria de base e produto). Por exemplo, materno (adjetivo) aceita o sufixo -al, mas permanece um adjetivo com maternal (substantivo). Os limites entre flexão e derivação Espera-se que a morfologia fl exional, ao contrário da derivacional, seja maxi- mamente produtiva e não mude o signifi cado. Contudo, as línguas apresentam formas fl exionais defectivas (para as quais faltam formas fl exionais), mas que possuem signifi cado particular fl exionadas, como caries (cárie), que apenas aceita forma no plural, não existindo singular. Isso leva a pensar na distinção entre fl exão e derivação mais como tendências do que como generalização. Marantz (2001 apud FÁBREGAS; SCALISE, 2012) afi rma que o fato de uma palavra estar no plural, por exemplo, é tão relevante sintaticamente quanto dizer que é um nome ou um verbo. Se isso é verdade, a derivação também deve ser relevante para a sintaxe, mesmo que não esteja sujeita à concordância. Afixos apreciativos — ou seja, aqueles que dão conta de expressar o jul- gamento do falante em relação a um objeto, já que a sua função é modificar a interpretação semântica da base à qual se juntam — como marcadores de grau em português ou espanhol (sobretudo de diminutivo) são exemplos de sobreposição entre flexão e derivação. Por exemplo, em El flaco ganó en la lotería y se compró un pedazo de cochecito, pedazo de cochecito é irônico, pois ele provavelmente comprou um carro muito caro. Entre as suas propriedades, eles (i) não mudam a categoria da base, (ii) são muito produtivos, (iii) tendem a aparecer na posição mais interna (em relação aos afixos flexionais), (iv) não se sujeitam a concordância, (v) podem assumir significado idiossincrático. Sintaxe e morfologia10 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 10 16/07/2018 09:49:46 Outro caso limítrofe entre flexão e derivação diz respeito ao que tradicio- nalmente se rotula como formas nominais do verbo — categorias híbridas. Exemplos podem ser encontrados no infinitivo do espanhol, como o verbo cantar. El cantar del pájaro es lindo. Voy a cantar una música ahora. Na primeira sentença, o verbo infinitivo assume o papel nominal de subs- tantivo; já na segunda, assume o papel verbal de verbo auxiliar. Composição A composição é basicamente uma palavra composta por dois ou mais radicais. Tanto a derivação quanto a composição possuem processos morfológicos que se aplicam às bases lexicais. Palavras derivadas são formadas a partir de uma base lexical por meio de um processo de afi xação. Assim, comedor (sala de jantar/refeitório) é criado a partir de comer, e carnicería (açougue) e tem como base carne (carne). Na composição, há duas bases lexicais: paraguas (guarda-chuva), parachoques (para-choque). Segundo Schwindt (2014), a maneira de distinguir uma composição de uma construção sintática é complexa. A interface com outros níveis de análise lin- guística pode auxiliar, como propriedades fonológicas, sintáticas e semânticas. Morfologização é parte de um fenômeno mais geral (a gramaticalização), responsável por converter, na história, palavras lexicais em palavras gramaticais — e, em seu estágio mais avançado,em morfemas (formas presas). Fábregas e Scalise (2012) ilustram isso com o futuro nas línguas românicas, em que uma forma verbal (auxiliar) se converte numa marca morfológica (cantare habeo > cantar-é). O processo de morfologização está sujeito a atrito, isto é, o morfema se torna se- mântica e morfologicamente reduzido. Os autores demonstram — além da forma de futuro, que se reduz em número de sílabas e se torna uma forma acentuada — com man, do inglês, em formas como barman: não se vê mais um composto ou uma estrutura sintática. Outro efeito da morfologização é que elementos que podiam intercalar-se entre os dois vocábulos na estrutura sintática precoce perdem essa potencialidade na forma gramaticalizada (cantare non habeo, mas *cantar-no-é). 11Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 11 16/07/2018 09:49:47 Morfologia e sintaxe: uma interface Ter um bom conhecimento morfológico na língua espanhola é pré-requisito para que se obtenha sucesso nos estudos sintáticos, pois ambas as áreas (morfologia e sintaxe) são disciplinas interligadas. Umas das principais controvérsias nos estudos contemporâneos em gramática é a defi nição da natureza da relação da morfologia com a sintaxe. Para algumas correntes de semântica gerativa, nos anos 1960, as palavras deviam ser analisadas como a manifestação de uma estrutura sintática com- plexa. Chomsky mostrou que há diferenças empíricas entre a análise de uma palavra e de uma frase. São basicamente três as propriedades que as diferen- ciam: produtividade, impredizibilidade e inacessibilidade à estrutura interna. É talvez historicamente acurado dizer que a forma como Chomsky (1970) foi entendido à época sinalizou a postulação de um conjunto de regras capazes de captar diferenças empíricas entre palavras e frases. Para ele, a sintaxe deveria ser cega para a morfologia. A tese que se tornou conhecida como morfologia gerativa ou morfologia lexical se baseava na premissa da existência de um módulo gerativo independente: o léxico. Essa independência e a sua posição na arquitetura da gramática explicariam as três propriedades diferenciadoras da sintaxe apresentadas. O lexicalismo também foi entendido como projecionismo, baseado na ideia de que o léxico precede a sintaxe — o que quer dizer que as palavras, tomadas na cadeia sintática, projetam as suas propriedades lexicais. Uma consequência disso é que o léxico passo a ser o lugar onde todas as diferenças sintáticas encontram sua origem. Nesse sentido, contribui para a tese de maior universalidade da sintaxe. O lexicalismo e o construcionismo O lexicalismo contou com uma versão forte e uma versão fraca. Na hipótese lexicalista forte, defendida, por exemplo, por Halle (1973), tanto a derivação quanto a fl exão são do domínio do léxico. Na hipótese lexicalista fraca, determi- nada por Chomsky (1970), apenas a derivação é lexical; toda fl exão é sintática. Chomsky resolveu problemas como o do caso não especificando qualquer traço lexical ou valendo-se de subespecificação. Segundo Fábregas e Scalise (2012), na hipótese lexicalista fraca, há uma divisão de trabalho entre fonologia e sintaxe. Embora o léxico contenha informação sobre a forma que a palavra assumirá na flexão, o seu valor é indeterminado até a sintaxe. Sintaxe e morfologia12 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 12 16/07/2018 09:49:47 Nessa hipótese, contudo, derivação e composição são inteiramente do domínio do léxico. Além disso, a f lexão é mais externa do que a de- rivação, e ela também pode ser inerente ou contextual. A f lexão inerente não é produto de concordância e pode gerar significado eventualmente inesperado (como gênero ou número em nomes). A flexão contextual, ao contrário, é produto de concordância, não assume significado próprio e raramente seleciona formas irregulares do verbo (como concordância de número nos verbos). No construcionismo, só há um componente gerativo na gramática: a sintaxe. Há léxico, mas sem o poder de formar novas palavras. O modelo mais representativo dessa corrente é o da morfologia distribuída (DM), proposta inicialmente por Halle e Marantz (1993). A DM assume que a sintaxe precede a morfologia; portanto, a primeira determina a segunda. Deixa, assim, de ser projecionista para ser construcionista, no sentido de que a sintaxe constrói as propriedades das palavras que serão tão somente lidas pela morfologia. Mudanças de estrutura argumental sintática baseada na morfologia Processos derivacionais podem alterar a estrutura argumental da base, isto é, o conjunto de complementos ou de modifi cadores que um predicado pode ou deve ter. Essa alteração pode afetar: a) o número de argumentos (vuela > sobrevuela); b) a projeção sintática do argumento (dijo que > se desdijo de que); c) as restrições selecionais (o verbo derivado, ao contrário da forma de base, pode selecionar objetos humanos e não humanos: calló al niño / *calló las noticias > acalló al niño / las noticias); d) as relações entre os argumentos (destruir algo > autodestruir *algo). Quando um processo muda a estrutura argumental sem marca adicional, entende-se que houve uma alternância lexical — La puerta se cerró (a porta fechou), Juan cerró la puerta (João fechou a porta) — com alternância causativo-incoativa. Numa abordagem lexicalista, costuma-se analisar essa mudança como projeção, na sintaxe, de uma propriedade gramatical do item lexical — nesse caso, a associação a dois ou mais argumentos. 13Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 13 16/07/2018 09:49:47 1. Sobre a hipótese lexicalista fraca, é correto afirmar que: a) apenas a derivação é lexical; toda flexão é sintática. b) tanto a derivação quanto a flexão são do domínio do léxico. c) derivação e composição não são do domínio do léxico. d) só há um componente gerativo na gramática, a sintaxe. e) há léxico, mas sem o poder de formar novas palavras. 2. A afixação é um dos processos mais recorrentes na formação de novos vocábulos, e os afixos podem se ancorar em diferentes posições de base. Das alternativas abaixo, qual é a única que não se enquadra no processo de derivação por afixação? a) El pararrayos es un asta de cobre o aluminio. b) Infelizmente no pudimos salir tarde de la fiesta. c) El ruido del avión es ensordecedor. d) Marco tuvo que proponer otras tareas a su jefe. e) La belleza de la mujer está en la sonrisa. 3. Em relação à derivação, é correto afirmar que: a) a flexão é transparente para a sintaxe, a derivação não o é. b) os prefixos e os sufixos cumprem a mesma função numa determinada língua. c) os prefixos não podem alterar o significado de uma palavra, apenas a classe. d) quando a prefixação e a derivação ocorrem simultaneamente, chamamos o processo de composição. e) os processos derivacionais criam palavras. 4. Sobre a morfologia flexional, é correto afirmar que: a) ela estuda as variações das palavras que envolvem mudanças de conteúdo gramatical. b) o conjunto das suas variantes constitui a derivação da palavra ou do seu paradigma. c) uma das suas propriedades é a parassíntese. d) ela é irrelevante para a sintaxe. e) uma operação morfológica é considerada flexional quando muda a classe gramatical da base. 5. Os afixos apreciativos, como marcadores de grau em português ou espanhol, são exemplos de sobreposição entre flexão e derivação. Entre suas propriedades, eles: a) se sujeitam à concordância. b) não podem assumir significado idiossincrático. c) mudam a categoria da base. d) são muito produtivos. e) tendem a aparecer em uma posição mais externa. Sintaxe e morfologia14 C06_Sintaxe_Morfologia.indd 14 16/07/2018 09:49:47 CHOMSKY, N. Remarks on nominalization. In: JACOBS; R.; ROSENBAUM, P. (Org.). Rea- dings in English transformational grammar. Walthan: Braisdell, 1970. CORBETT, G. Gender. 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Manual de linguística: fonologia, morfologia e sintaxe. Petrópolis: Vozes, 2014. 15Sintaxe e morfologia C06_Sintaxe_Morfologia.indd 15 16/07/2018 09:49:47 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. C06_Sintaxe_Morfologia.indd 16 16/07/2018 09:49:47 Conteúdo: