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1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ A Síndrome de Guillain-Barré (SGB), também conhecida como polirradiculoneurite aguda, é a maior causa de paralisia flácida generalizada no mundo. OBS.: Paralisia porque causa déficit motor; flácida porque causa hipotonia, um sinal de síndrome do neurônio motor inferior; e aguda porque a intensidade máxima de sintomas é atingida dentro de quatro semanas (ESTRATÉGIAMED). A polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda. Vamos decifrar o significado. Como há comprometimento de raízes (radiculopatia) e de nervo, com padrão em “bota e luva”, típico de polineuropatia, os dois nomes foram misturados: o termo “radiculopatia” foi colocado no meio de “polineuropatia” e, assim, formou-se a palavra polirradiculoneuropatia (ESTRATÉGIAMED). Polirradiculoneurite inflamatória aguda (em até 4 semanas) autolimitada (o quadro clínico dura até 8 semanas após a fase aguda) SNMI - acomete raízes e nervos periféricos (arreflexia ou hiporreflexia, musculatura flácida, hipotonia). FAIXA ETÁRIA: a população entre 20 e 40 anos de idade, de ambos os sexos. ↠ Durante a flavirose pelo vírus Zika, em 2015, com aumento de incidência de SGB, aventou-se a possibilidade de relação direta entre essas duas condições e estimulou- se melhor coleta de informações epidemiológicas. FISIOPATOLOGIA • Infecção por algum microrganismo. • Fenômeno autoimune (humoral) desencadeado por uma infecção respiratória ou gastrointestinal. • A viral são os agentes etiológicos mais comuns. ↠ A SGB é uma doença de caráter autoimune que acomete primordialmente a mielina da porção proximal dos nervos periféricos de forma aguda/subaguda. Aproximadamente 60% a 70% dos pacientes com SGB apresentam alguma doença aguda precedente (1 a 3 semanas antes). ↠ A infecção por Campylobacter jejuni a mais frequente (32%), seguida por citomegalovírus (13%), vírus Epstein Barr (10%) e outras infecções virais, tais como hepatite por vírus tipo A, B e C, influenza e vírus da imunodeficiência humana (HIV). QUADRO CLÍNICO • Parestesia de MMII e MMSS. • Paresia, plegia simétrica ascendentes. • Arreflexia, flácida. • PICO dos sintomas é na segunda semana. • Não ultrapassando 8 semanas. • Disestesias (dormência, parestesias, queimação). • Disparesia facial (VII par). • Disautonomia - pode ter variações dos sinais vitais. • Dor neuropática lombar. Síndrome de Miller-Fisher: ataxia oftalmoplegia e hiporreflexia. ↠ A maioria dos pacientes percebe inicialmente a doença pela sensação de parestesias nas extremidades distais dos membros inferiores e, em seguida, superiores. ↠ Dor neuropática lombar ou nas pernas pode ser vista em pelo menos 50% dos casos. Síndrome de Guillain Barré 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Fraqueza progressiva é o sinal mais perceptível ao paciente, ocorrendo geralmente nesta ordem: membros inferiores, braços, tronco, cabeça e pescoço. A intensidade pode variar desde fraqueza leve, que sequer motiva a busca por atendimento médico em nível primário, até ocorrência de tetraplegia completa com necessidade de ventilação mecânica (VM) por paralisia de musculatura respiratória acessória. ↠ Fraqueza facial ocorre na metade dos pacientes ao longo do curso da doença. Entre 5%-15% dos pacientes desenvolvem oftalmoparesia e ptose. A função esfincteriana é, na maioria das vezes, preservada, enquanto a perda dos reflexos miotáticos pode preceder os sintomas sensitivos até mesmo em músculos pouco afetados. Instabilidade autonômica é um achado comum, causando eventualmente arritmias importantes, mas que raramente persistem após duas semanas. OBS.: A síndrome usualmente progride por 2 a 4 semanas. Pelo menos 50% a 75% dos pacientes atingem seu nadir (pico de piora) na segunda semana, 80% a 92% até a terceira semana e 90% a 94% até a quarta semana. OBS.: Insuficiência respiratória com necessidade de VM ocorre em até 30% dos pacientes nessa fase. Progressão de sinais e sintomas por mais de 8 semanas exclui o diagnóstico de SGB, sugerindo então uma polineuropatia inflamatória desmielinizante crônica (PIDC). Passada a fase da progressão, a doença entra em platô por vários dias ou semanas, com subsequente recuperação gradual da função motora ao longo de vários meses. Entretanto, apenas 15% dos pacientes ficarão sem nenhum déficit residual após 2 anos do início da doença e 5% a 10% permanecerão com sintomas motores ou sensitivos incapacitantes. A mortalidade nos pacientes com SGB é de aproximadamente 5% a 7%, geralmente resultante de insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar, arritmias cardíacas e sepse hospitalar. ↠ Os fatores de risco para um mau prognóstico funcional são idade acima dos 50 anos, diarreia precedente, início abrupto de fraqueza grave (menos de 7 dias), necessidade de VM e amplitude do potencial da neurocondução motora menor que 20% do limite normal. O prognóstico motor é melhor nas crianças, pois necessitam menos de suporte ventilatório e recuperam- se com maior rapidez. VARIANTES DA SG ↠ Há muitas variantes da doença com apresentações clínicas diferentes da forma mais clássica da SGB. A fraqueza ou o déficit sensitivo podem ser marcadamente assimétricos em alguns casos, indicando erroneamente o diagnóstico de mononeuropatia múltipla. Há também formas nas quais o envolvimento de nervos cranianos pode preceder o início da fraqueza ou mesmo permanecer como a clínica mais proeminente (BERTOLUCCI et al., 2021). ↠ Apesar de ser definida classicamente como uma polirradiculoneuropatia aguda de natureza desmielinizante (comprometimento predominante da bainha de mielina/células de Schwann), são amplamente reconhecidas formas em que o comprometimento nervoso é de natureza axonal. Tais casos de SGB de natureza axonal, tal como a neuropatia motora axonal aguda (AMAN), correspondem à minoria dos pacientes (da meningite, o paciente mostra-se irritável. Nas crianças, ocorre com frequência um choro agudo e estridente característico (choro meníngeo). Com a evolução da doença, ocorre obnubilação da consciência, e pode haver desenvolvimento de torpor ou coma. Em certas ocasiões, o início pode ser fulminante e acompanhado de coma profundo (LOUIS et al., 2018). COMPLICAÇÕES: convulsões em 20% dos pacientes, meningococcemia – coma pode aparecer em poucas horas, taxa de letalidade acima de 40%, óbito nas primeiras 48h do início dos sintomas. ↠ Com frequência, as crises epilépticas constituem um sinal inicial, particularmente em crianças; todavia, os sinais neurológicos focais são incomuns na apresentação inicial (LOUIS et al., 2018). Streptococcus pneumoniae (pneumococo) • Bactéria Gram-positiva com característica morfológica esférica (cocos), disposta aos pares. • É alfahemolítico e não agrupável, possuindo mais de 90 sorotipos capsulares. • Transmissão por gotículas de saliva e ou muco – ficar em ISOLAMENTO RESPIRATÓRIO. • Portador assintomático (criança). ↠ O S. pneumoniae é responsável por cerca de 50% de todos os casos de meningite bacteriana. A infecção pode ocorrer em qualquer idade, porém mais de 50% dos pacientes têm menos de 1 ano de idade ou mais de 50 anos (LOUIS et al., 2018). ↠ A infecção meníngea constitui habitualmente uma complicação de infecções pulmonares, otite média, mastoidite, sinusite, fraturas do crânio, fistulas do LCS e infecções respiratórias superiores (LOUIS et al., 2018). Mycobacterium tuberculosis • Bacilo não formador de esporos, sem flagelos e que não produz toxinas. • É uma espécie aeróbica estrita, necessitando de oxigênio para crescer e se multiplicar. Tem a forma de bastonete, medindo de 1 a 4 micra. Quando corado pelo método de Ziehl-Neelsen, fixa a fucsina, não se descorando depois de tratado pelos álcoois (álcool-ácido resistente). Meningite 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Haemophilus influenzae • Bactéria gram-negativa que pode ser classificada, atualmente, em 6 sorotipos (a, b, c, d, e, f), a partir da diferença antigênica da cápsula polissacarídica. OBS.: As infecções das meninges por H. influenzae foram historicamente uma doença de lactentes e crianças até a introdução da vacina contra o H. influenzae. Hoje em dia, a meningite causada por H. influenzae é mais comum em adultos (LOUIS et al., 2018). ↠ O Haemophilus influenzae, desprovido de cápsula, encontra-se nas vias respiratórias de forma saprófita, podendo causar infecções assintomáticas ou doenças não invasivas, tais como: bronquite, sinusites e otites, tanto em crianças como em adultos (BRASIL, 2012). ↠ Nos adultos, a meningite causada por H. influenzae é mais comumente secundária a sinusite aguda, otite média ou fratura do crânio. Está associada a rinorreia do LCS, deficiência imunológica, diabetes melito e alcoolismo (LOUIS et al., 2018). ↠ Os sinais e sintomas da meningite por H. influenzae assemelham-se aos de outras formas de meningite bacteriana aguda (LOUIS et al., 2018). ↠ Início súbito, febre, cefaleia intensa, náusea, vômito e rigidez de nuca. Meningite viral ↠ São representadas principalmente pelos enterovírus. Nesse grupo, estão incluídas as 3 cepas dos poliovírus, 28 cepas de echovírus, 23 cepas do vírus coxsackie A, 6 do vírus coxsackie B e 5 outros enterovírus (BRASIL, 2012). Meningite tuberculosa • 5% de tuberculose não pulmonar; • Doença de países pobres; • Fonte: pacientes bacilíferos. ↠ Mycobacterium tuberculosis é um bacilo gram-positivo aeróbico intracelular, pleomórfico álcool-acidorresistente, que pode causar meningite crônica. A meningite tuberculosa é uma forma agressiva de doença extrapulmonar, que é mais comum em pacientes infectados pelo HIV (LOUIS et al., 2018). ↠ A meningite é tipicamente precedida de sintomas inespecíficos de mal-estar, anorexia, fadiga, perda de peso, febre, mialgia e cefaleia. Em pacientes imunocompetentes, as manifestações clínicas características consistem em cefaleia, vômitos, sinais meníngeos, déficits focais, perda da visão, paralisias de nervos cranianos e elevação da PIC (LOUIS et al., 2018). Meningite fúngica • Criptococcus neoformans: indivíduo imunocomprometido. • AIDS (evolução do HIV, pior prognóstico). • Transplantados. TRANSMISSÃO: Em geral, a transmissão é de pessoa a pessoa, através das vias respiratórias, por gotículas e secreções da nasofaringe, havendo necessidade de contato íntimo (residentes da mesma casa, pessoas que compartilham o mesmo dormitório ou alojamento, comunicantes de creche ou escola, namorado) ou contato direto com as secreções respiratórias do paciente. A meningite tuberculosa é uma complicação da infecção tuberculosa. Os casos de tuberculose pulmonar com escarro positivo à baciloscopia constituem a principal fonte de infecção, pois eliminam grande número de bacilos, podendo provocar uma infecção maciça dos contatos, com maior probabilidade de desenvolvimento de formas graves da doença, como a meningite. A transmissão fecal-oral é de grande importância em infecções por enterovírus (BRASIL, 2012). Manifestações clínicas ↠ A tríade clássica da meningite bacteriana (febre, rigidez de nuca e alteração do sensório) pode não estar presente na sua totalidade. Cefaleia é a principal queixa, intensa e holocraniana ou retro-orbitária, podendo ser acompanhada de náuseas e vômitos. Febre é um achado quase universal (STEFANI; BARROS, 2019). ↠ A meningite é uma síndrome na qual, em geral, o quadro clínico é grave e caracteriza-se por febre, cefaléia intensa, náusea, vômito, rigidez de nuca, prostração e confusão mental, sinais de irritação meníngea, acompanhados de alterações do líquido cefalorraquidiano (LCR) (BRASIL, 2012). ATENÇÃO: Crianças de até 9 meses poderão não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea. Nesse grupo, outros sinais e sintomas permitem a suspeita diagnóstica, tais como: febre, irritabilidade ou agitação, choro persistente, grito meníngeo (criança grita ao ser 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck manipulada, principalmente, quando se flete as pernas para trocar a fralda) e recusa alimentar, acompanhada ou não de vômitos, convulsões e abaulamento da fontanela (BRASIL, 2012). ↠ A irritação meníngea associa-se aos sinais descritos abaixo: (BRASIL, 2012). • No sinal de Kernig, o paciente estará em decúbito dorsal com a coxa fletida em 90º e, ao tentarmos estender a perna do membro fletido, ele oferecerá resistência e terá dor (ESTRATÉGIAMED). • O sinal de Brudzinski é classicamente descrito como positivo quando o examinador faz a flexão do pescoço de um paciente em decúbito dorsal e nota que ocorre flexão dos joelhos e quadris, mas também pode ocorrer flexão contralateral do joelho quando o examinador promove a flexão do joelho contralateral (ESTRATÉGIAMED). DEFINIÇÃO DE CASO Suspeito • Crianças acima de 1 ano de idade e adultos com febre, cefaléia intensa, vômitos em jato, rigidez da nuca, sinais de irritação meníngea (Kernig, Brudzinski), convulsões e/ou manchas vermelhas no corpo. • Em crianças abaixo de 1 ano de idade, os sintomas clássicos acima referidos podem não ser tão evidentes. É importante considerar, para a suspeita diagnóstica, sinais de irritabilidade, como choro persistente, e verificar a existência de abaulamento de fontanela. Confirmado • Todo caso suspeito confirmado através dos seguintes exames laboratoriais específicos: cultura, contraimunoeletroforese (CIE) e látex; ou, • Todo caso suspeito de meningite com história de vínculo epidemiológico com caso confirmado laboratorialmente por um dos exames especificados acima; ou, • Todo caso suspeito com bacterioscopia positiva (diplococo Gram negativo) ou clínica sugestiva, com petéquias (meningococcemia). Diagnósticolaboratorial ↠ O diagnóstico laboratorial das meningites é realizado através do estudo do líquido cefalorraquidiano, sangue e raspado de lesões petequiais, quando se suspeitar de meningococcemia e doença meningocócica. O diagnóstico das meningites virais também pode ser realizado através da urina e fezes (BRASIL, 2012). OBS.: O aspecto do líquor, embora não considerado um exame, funciona como um indicativo. O líquor normal é límpido e incolor, como “água de rocha”. Nos processos infecciosos, ocorre o aumento de elementos figurados (células), causando turvação, cuja intensidade varia de acordo com a quantidade e o tipo desses elementos (BRASIL, 2012). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck PUNÇÃO LOMBAR • Para a realização da punção lombar deve-se avaliar exame de imagem (sem sinal de HIC); coagulograma normal, plaquetas acima de 50.000. • ARTRODESE: mais difícil fazer a punção. • O local da punção não pode ter sinal de inflamação. • Não é indicado fazer em local da tatuagem, pois pode infiltrar substância no canal medular. ↠ Complicações que podem acontecer após esse procedimento: (ESTRATÉGIAMED). • Cefaleia pós-punção é a complicação mais comum desse procedimento, presente em até 36.5% dos pacientes. Muitos centros recomendam repouso de, no mínimo, 60 minutos em decúbito dorsal, embora essa medida não tenha evidência na prevenção dessa complicação caso a punção seja feita com agulhas finas. • Dor, sangramento, infecção local e fístula pós- punção. Técnica da punção lombar 1- Paciente em decúbito lateral, flexão dos joelhos em direção ao tórax (posição fetal); 2- Identificação da crista ilíaca superior (ponto de reparo). A linha média é obtida palpando-se os processos espinhosos. 3- Uma linha perpendicular ao plano da maca, passando pela crista ilíaca superior, intersecta habitualmente o espaço L3-L4. Espaços seguros para punção lombar: L2-L3; L3-L4; L4-L5. 4- Assepsia e anti-sepsia cuidadosa da pele. 5- Botão anestésico em pele e subcutâneo com xilocaína 2% sem vasoconstritor. 6- Toda punção deve ser realizada com agulha tipo Quincke de calibres finos 7 ou 8 (20 ou 22) com mandril. Certifique-se de que o mandril completa totalmente a agulha e de que esta desliza corretamente no seu mandril. A utilização de agulhas ditas atraumáticas ou em ponta de lápis é recomendada, sobretudo, em pacientes que apresentam maior risco de cefaleia pós-punção. 7- Introdução da agulha à meia distância do espaço entre os processos espinhosos das vértebras. A agulha é direcionada rostralmente para cicatriz umbilical com angulação de aproximadamente 10 a 15 graus, sem desvio lateral. 8- Se a agulha tocar em osso, deve ser retirada até o subcutâneo e reintroduzida com angulação maior ou menor à inicial. 9- Uma agulha bem direcionada desliza facilmente através dos tecidos, sentindo-se uma resistência firme no ligamento amarelo, seguida de uma leve resistência quando ultrapassa a dura-máter e aracnóide. A agulha deve progredir sempre com o mandril no seu interior, introduzindo completamente. 10- Retirando-se o mandril, o LCR começa a escoar. Se isso não ocorrer, estando-se no espaço subaracnóideo, uma raiz ou filamento da dura-máter pode estar obstruindo a agulha. A agulha deve ser rodada a mais ou menos 90 graus. 11- Mede-se a pressão intra-raquiana com manômetro (mm de H2O). As pressões do LCR variam com a posição do indivíduo. Em decúbito lateral, a pressão independe do local da punção, mantendo-se constante entre 50 e 200 mm de H2O. 12- Na punção lombar, deve-se evitar a aspiração do LCR, para que não haja lesão de raízes presentes no fundo de saco dural. 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck 13- Após a coleta do LCR, a agulha é retirada com ou sem a introdução do mandril. 14- Não há embasamento científico para o valor do repouso após a punção lombar. Recomenda-se habitualmente, porém, que os pacientes permaneçam em repouso por algumas horas e que bebam muito líquido (no mínimo 2 horas após a punção). Cabe ressaltar que aproximadamente 10% das pessoas, mesmo com todos estes cuidados poderão apresentar cefaleia. PUNÇÃO COM SANGUE: coleta-se 3 frascos – caso as cores sejam as mesmas indica-se hemorragia subaracnoide, porém se for um acidente de punção o líquor vai ficando mais claro. MATERIAIS NECESSÁRIOS • Agulha para punção espinhal com estilete 20 ou 22 gauge; • Agulha 25 x 0,7 mm (22 gauge) ou 25 x 0,8 mm (21 gauge) e seringa para anestesia; • Lidocaína 1 ou 2% sem vasoconstritor; • Frascos estéreis para coleta do líquor; • Conector three-way e manômetro para realização de medida da pressão de abertura; • Solução para degermação (clorexidina ou solução iodada); • Solução para antissepsia (alcoólica); • Luvas estéreis, campos estéreis e equipamentos de proteção individual (máscara e óculos); • Material para curativo. QUANTIDADE DO LCR COLETADO: Em geral, são coletados 10-15ml de LCR para fins diagnósticos. Devem ser consideradas, no momento da coleta, as análises a serem solicitadas no LCR. Para um LCR completo (glicose, proteína, citologia global e diferencial), o mínimo necessário é de 3 ml. Para eletroforese de proteínas, o mínimo exigido é 5 ml. OBS.: A punção occipital pode ser feita em paciente em coma. Quimioprofilaxia IMPORTANTE: Preencher ficha de notificação compulsória (até mesmo em caso de suspeita). Proteção individual e da população: o isolamento do paciente está indicado apenas durante as primeiras 24 horas do tratamento com o antibiótico adequado. Deve-se proceder à desinfecção concorrente em relação às secreções nasofaríngeas e aos objetos contaminados por elas. Nos casos de doença meningocócica ou meningite por H. influnzae, está indicada a quimioprofilaxia do caso e dos contatos íntimos. É importante a vigilância desses contatos por um período mínimo de 10 dias, orientando a população sobre os sinais e sintomas da doença e indicando os serviços de saúde que devem acessados frente a uma suspeita diagnóstica de meningite (BRASIL, 2012). OBS.: A quimioprofilaxia não está indicada para pessoal médico ou de enfermagem que tenha atendido pacientes com meningites bacterianas, a menos que tenha havido exposição às secreções respiratórias, durante procedimentos como respiração boca a boca e/ou entubação (BRASIL, 2012). ↠ A quimioprofilaxia, muito embora não assegure efeito protetor absoluto e prolongado, tem sido adotada como uma medida eficaz na prevenção de casos secundários. Está indicada para os contatos íntimos de casos de doença meningocócica e meningite por H. influenzae (BRASIL, 2012). ↠ A droga de escolha para a quimioprofilaxia é a rifampicina, que deve ser administrada em dose adequada e simultaneamente a todos os contatos íntimos, preferencialmete até 48 horas da exposição à fonte de infecção, sendo considerados o prazo de infectibilidade e o período de incubação da doença (BRASIL, 2012). Doença meningocócica H. influenzae Referências BRASIL. MENINGITES. Guia de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde, 7ª edição, 2012. LOUIS, Elan D.; MAYER, Stephan A.; ROWLAND, Lewis P. Merritt - Tratado de Neurologia, 13ª edição. Grupo GEN, 2018. STEFANI, Stephen D.; BARROS, Elvino. Clínica médica. Grupo A, 2019. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Ombro ANATOMIA E FISIOLOGIA ↠ O ombro é a articulação que apresenta maior mobilidade no corpo humano. Sua principal articulação é a glenoumeral, formada por uma cabeça umeral grande, suportada por uma pequena e rasa cavidade glenoide. Queixas relacionadas ao ombro são muito frequentes, sendo a terceira causa mais comum entre os pacientes que procuram atenção médica por razões musculoesqueléticas (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). A mobilidade do ombro é derivada de uma complexaestrutura interconectada de três articulações, três grandes ossos e três grupos musculares principais, muitas vezes referidos como a cintura escapular. Essas estruturas são vistas como estabilizadores dinâmicos, que são capazes de movimentação, ou estabilizadores estáticos, incapazes de movimentação (BICKLEY et al., 2022). Estabilizadores dinâmicos: consistem basicamente nos músculos SITS do manguito rotador (Supraespinal, Infraespinal, redondo menor [Teres minor, em latim] e Subescapular), que movem o úmero e comprimem e estabilizam a cabeça do úmero na cavidade glenoidal. Outros músculos, como o bíceps braquial, o latíssimo do dorso e o peitoral maior, também atuam na estabilização do ombro (BICKLEY et al., 2022). Os distúrbios do manguito rotador são a causa mais comum de dor no ombro nos serviços de atenção primária (BICKLEY et al., 2022). Se as superfícies das bolsas estiverem inflamadas (bursite subacromial/subdeltóidea), pode haver dor logo abaixo da extremidade do acrômio, dor à abdução e rotação, e o movimento é feito com dificuldade (BICKLEY et al., 2022). Ombros (paciente de pé) • Abdução (120°) • Flexão ou elevação anterior (180°) • Extensão ou movimentação para trás (60°) • Rotação externa (90°) • Rotação interna posterior (90°). EXAME FÍSICO Inspeção ↠ Inspecionar o ombro e a cintura escapular anteriormente e, depois, as escápulas e os músculos relacionados posteriormente (BICKLEY et al., 2022). A escoliose pode causar elevação de um ombro. Com o deslocamento anterior do ombro, a superfície lateral arredondada do ombro parece retificada (BICKLEY et al., 2022). Na escápula alada, a borda medial da escápula projeta-se para trás, levantando a suspeita de fraqueza dos músculos trapézio ou serrátil anterior (observada na distrofia muscular) ou lesão do nervo torácico longo. Em indivíduos muito magros, as escápulas podem parecer “aladas” mesmo quando a musculatura está intacta (BICKLEY et al., 2022). Exame clínico do sistema músculo esquelético: MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DO OMBRO, JOELHO E TORNOZELO 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Palpação ↠ Comece palpando os contornos ósseos e as estruturas do ombro; em seguida, palpe qualquer área de dor (BICKLEY et al., 2022). Amplitude de movimento ↠ Os seis movimentos fundamentais da cintura escapular são flexão, extensão, abdução, adução e rotação interna e externa (BICKLEY et al., 2022). Manobras especiais Teste de Neer ↠ Com o braço do paciente no plano da escápula (30 graus no plano coronal), realiza-se uma abdução passiva até 120 graus, enquanto se mantém a escápula do paciente estabilizada (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). • Positividade: Dor ou defesa em algum momento da abdução. • Condizente com: Impacto subacromial, que, quanto maior, mais grave deve ser o impacto. Teste de Jobe (“teste da lata vazia”) ↠ É realizado no plano da escápula, porém a 90 graus de abdução e em rotação interna (com os polegares apontando para o chão, como se estivessem virando uma lata para baixo), o paciente resiste à tentativa de adução do examinador (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). • Positividade: Dor com incapacidade de resistir à adução. • Condizente com: É um teste mais específico para lesão de supraespinhal. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck Teste de Speed ↠ Para realizar o Teste de Speed, o examinador coloca o braço do paciente em flexão do ombro, rotação externa, extensão total do cotovelo e supinação do antebraço; a resistência manual é então aplicada pelo examinador em uma direção descendente. O teste é considerado positivo se a dor no tendão bicipital ou no sulco bicipital for reproduzida. PRINCIPAIS COMPONENTES DO EXAME DA ARTICULAÇÃO DO OMBRO • Inspecionar o ombro e a cintura escapular (cíngulo do membro superior segundo a Terminologia Anatômica) anteriormente, e as escápulas e os músculos relacionados posteriormente (tumefação, deformidade, atrofia, fasciculações, posicionamento anormal). • Palpar a articulação esternoclavicular, a clavícula, a articulação acromioclavicular, o processo coracoide, o tubérculo maior, o tendão do músculo bíceps braquial, as bolsas subacromial e subdeltóidea e os músculos SITS palpáveis abaixo. • Avaliar a amplitude do movimento: flexão e extensão, abdução e adução, rotação interna e externa. • Realizar manobras especiais (se indicadas): teste do arco doloroso, teste de Neer, teste de Hawkins, “lag test” para rotação interna, “lag test” para rotação externa, teste de queda do braço, teste de resistência à rotação externa e teste da “lata vazia”. Joelho ANATOMIA E FISIOLOGIA ↠ A articulação do joelho é a maior articulação do corpo. É uma articulação em gínglimo que envolve três ossos: o fêmur, a tíbia e a patela (ou rótula), com três superfícies articulares, duas entre o fêmur e a tíbia e uma entre o fêmur e a patela (BICKLEY et al., 2022). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck EXAME FÍSICO ↠ Sempre se deve comparar o joelho afetado com o joelho contralateral, pois muitos testes diagnósticos utilizam, como critério de positividade, a comparação com o joelho íntegro (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). ↠ É importante ressaltar que a dor no joelho também pode ser originada de patologias localizadas na coluna lombar e no quadril (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). ↠ As patologias mais frequentes no paciente ambulatorial são lesões dos menisco, de ligamento cruzado anterior e de ligamentos colaterais, além de osteoartrite e ligamento cruzado posterior (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). Pernas arqueadas (joelho varo) e pernas em tesoura (joelho valgo) são comuns. Uma atrofia do quadríceps pode indicar fraqueza da cintura pélvica em adultos mais velhos (BICKLEY et al., 2022). Inspeção ↠ Inspecione se a marcha apresenta um fluxo rítmico suave quando o paciente entrar na sala. O joelho deve estar estendido na fase de toque do calcanhar e levemente flexionado em todas as outras fases do apoio e balanço (BICKLEY et al., 2022). ↠ Verifique o alinhamento e os contornos dos joelhos. Observe se há atrofia dos músculos quadríceps (BICKLEY et al., 2022). Palpação ↠ Peça que o paciente sente na borda da mesa de exame com os joelhos pendurados e relaxados em flexão. Nessa posição, os pontos de referência ósseos são mais visíveis e os músculos, tendões e ligamentos estão mais relaxados, facilitando sua palpação (BICKLEY et al., 2022). ↠ Preste muita atenção a qualquer área dolorosa. Dor é uma queixa comum em problemas do joelho e a localização da estrutura responsável pela dor com a maior precisão possível é importante para uma avaliação correta e para restringir seu diagnóstico diferencial (BICKLEY et al., 2022). Amplitude do movimento Manobras especiais Teste de McMurray ↠ Com o paciente em decúbito dorsal, com o quadril fletido em torno de 90 graus e o joelho na máxima flexão possível, deve-se colocar uma mão na face anterior do joelho, com o polegar e os demais dedos sobre a interlinha articular, enquanto a outra mão segura o calcanhar do paciente (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). Para testar o menisco medial, realiza-se lenta extensão do joelho com o pé em rotação externa (de modo a trazer o seu corno posterior para a frente). Já para testar o menisco lateral, o pé deve estar em rotação interna. Leves forças em valgo e varo podem ser aplicadas durante o teste a fim de aumentar o estresse aplicado sobre o menisco, o que, supostamente, aumentaria a sensibilidade do teste (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). • Positividade: Quando, durante a manobra, o paciente referir dor em algum ponto da interlinha articular, com ou sem crepitação. • Condizente com: Lesão de menisco medial ou lateral. 5 JúliaMorbeck – @med.morbeck Sinal da gaveta anterior ↠ Com o paciente em decúbito dorsal, quadris flexionados, joelhos flexionados em 90° e os pés apoiados por completo na mesa, coloque suas mãos ao redor do joelho com os polegares na linha articular medial e lateral e os outros dedos nas inserções medial e lateral dos músculos isquiotibiais (BICKLEY et al., 2022). ↠ Sente-se sobre o pé do paciente para garantir que ele não se mova durante a manobra. Tracione a tíbia para frente e observe se ela desliza para frente (como uma gaveta) por baixo do fêmur. Compare o grau de movimento anterógrado com o joelho oposto. O joelho deve exibir um ponto final firme, com movimentação mínima. A ausência de um ponto final firme com movimentação excessiva pode indicar que o LCA já não está intacto (BICKLEY et al., 2022). Sinal da gaveta posterior ↠ Posicione o paciente e coloque suas mãos nas posições descritas para o teste da gaveta anterior. Sente- se sobre o pé do paciente para minimizar a movimentação do pé. Empurre a tíbia posteriormente e observe o grau de movimento retrógrado no fêmur. O movimento posterior e a excursão da tíbia em relação ao fêmur devem ser mínimos. Um movimento excessivo sugere insuficiência ou laceração do LCP (BICKLEY et al., 2022). PRINCIPAIS COMPONENTES DO EXAME DA ARTICULAÇÃO DO JOELHO • Inspecionar a marcha (flexão do joelho) e inspecionar o joelho, incluindo as depressões ao redor da patela (alinhamento, contorno, tumefação) e os músculos quadríceps (atrofia, contusão). • Palpar a articulação tibiofemoral (dor, cristas). Compartimento medial: côndilo medial do fêmur, tubérculo do adutor, porção medial do platô tibial e LCM. Compartimento lateral: côndilo lateral do fêmur, porção lateral do platô tibial e LCL. Compartimento patelofemoral: patela, ligamento da patela, tuberosidade da tíbia, bolsa pré- patelar, bolsa anserina e fossa poplítea. • Avaliar a amplitude do movimento: flexão e extensão. • Realizar manobras especiais (se indicadas): teste de McMurray (menisco), teste de abdução ou valgo (LCM), teste de adução ou varo (LCL), sinal da gaveta anterior ou teste de Lachman (LCA) e sinal da gaveta posterior (LCP). Derrames: sinal do abaulamento, sinal do balão e rechaço patelar. Tornozelo ANATOMIA E FISIOLOGIA ↠ O peso total do corpo é transmitido pelo tornozelo até o pé. O tornozelo e o pé devem equilibrar o corpo e absorver o impacto do toque do calcanhar e da marcha. Apesar do amplo acolchoamento ao longo dos dedos dos pés, da planta do pé e do calcanhar e da existência de ligamentos estabilizadores nos tornozelos, o tornozelo e o pé são locais frequentes de entorses e lesões ósseas (BICKLEY et al., 2022). ↠ O tornozelo é uma articulação em gínglimo formada pela tíbia, pela fíbula e pelo tálus. A tíbia e a fíbula agem como um encaixe, com a tíbia e a fíbula envolvendo o tálus e estabilizando o movimento de um lado para outro (BICKLEY et al., 2022). Tornozelos • Dorsiflexão ou flexão dorsal (0 a 45°) • Flexão plantar (0 a 45°) • Inversão (0 a 20°) 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Eversão (0 a 40°). EXAME FÍSICO Inspeção ↠ Observar todas as superfícies dos tornozelos e pés, a procura de deformidades, nódulos, tumefações, calosidades ou cornos cutâneos (BICKLEY et al., 2022). Palpação ↠ Com seus polegares, palpe a superfície anterior de cada articulação do tornozelo, observando a presença de consistência pastosa, tumefação ou dor (BICKLEY et al., 2022). Na palpação do tornozelo e do pé, deve-se inicialmente avaliar se há presença de edema ou alteração de temperatura em relação ao resto do corpo. Depois, realiza-se a palpação da artéria tibial posterior, que está localizada atrás do maléolo medial, e da artéria pediosa, que é encontrada entre o primeiro e o segundo raios na região dorsal do tarso. Além disso, deve-se palpar o tendão de Aquiles posterior do tornozelo, buscando saliências ou alterações que possam condizer com tendinopatia e entesite do calcâneo (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). Amplitude do movimento ↠ Avaliar a flexão e a extensão na articulação tibiotalar (tornozelo). No pé, avaliar a inversão e a eversão nas articulações talocalcânea e transversa do tarso. Em condições normais, o tornozelo deve apresentar cerca de 20° de dorsiflexão e aproximadamente 50° de flexão plantar em relação à posição neutra (BICKLEY et al., 2022). ↠ O pé exibe cerca de 35° de inversão e 25° de eversão em relação à posição neutra (BICKLEY et al., 2022). Manobras especiais Teste de Thompson (teste de compressão) ↠ Com o paciente em decúbito ventral, com o terço distal das pernas e dos pés pendentes na maca, deve-se segurar e comprimir os músculos gastrocnêmio e sóleo (panturrilha) (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). • Positividade: Se, mediante a compressão da panturrilha, não houver movimento de flexão plantar, o teste é positivo. • Condizente com: Insuficiência ou ruptura do tendão aquiliano. Teste do estresse em varo e valgo ↠ Com o paciente sentado na maca com os joelhos a 90 graus, deve-se estabilizar a porção distal da perna, forçando o pé lateral (estresse em valgo) e medialmente (estresse em varo) no plano sagital, sob uma leve flexão plantar (RAYMUNDO; MIRANDA, 2021). • Positividade: Quando houver instabilidade lateral (estresse em varo) ou medial (estresse em valgo) do tornozelo, será positivo. • Condizente com: Instabilidade ligamentar. 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck PRINCIPAIS COMPONENTES DO EXAME DA ARTICULAÇÃO DO TORNOZELO E DO PÉ • Inspecionar o tornozelo e o pé (deformidades, nódulos, tumefação, calosidades, cornos cutâneos). • Palpar a articulação do tornozelo (consistência pastosa, edema, dor), o tendão do calcâneo (nódulos, dor), o osso calcâneo, a fáscia plantar (esporões, dor), os ligamentos mediais e laterais do tornozelo, o maléolo medial e lateral (dor, edema, equimoses), as articulações metatarsofalângicas (MTF) (dor), os ossos metatarsais (dor, anormalidades), os músculos gastrocnêmio e sóleo (defeitos, dor, tumefação). • Avaliar a amplitude do movimento: flexão (flexão plantar) e extensão (dorsiflexão), inversão e eversão. • Realizar manobras especiais (se indicadas). Testes da integridade articular: tibiotalar, subtalar ou talocalcânea, talocrural, transversa do tarso e metatarsofalângica. Teste da integridade do tendão do calcâneo. Escala Analógica da Dor AVALIAÇÃO DO PACIENTE COM DOR INDICADORES FISIOLÓGICOS DE DOR: FC, PA, ausência de sono. AVALIAÇÃO DA DOR: adoção de postura de proteção, agitação persistente, diminuição do apetite ou da ingesta alimentar. TIPOS DE INSTRUMENTOS o Instrumentos unidimensionais o Instrumentos multidimensionais o Instrumentos específicos INSTRUMENTOS unidimensionais PARA AVALIAR E TRATAR A DOR ↠ A escala analógica visual (EAV) e a escala verbal numérica graduam o nível de dor de 0 (sem dor) a 10 (pior dor possível). A escala verbal categórica gradua o escore de dor como sem dor, leve, moderada, intensa e insuportável. Avaliar o impacto da dor sobre o sono, o humor, a mobilidade e as atividades diárias. É necessária reavaliação após cada medida de tratamento implementada. ↠ A escada analgésica da Organização Mundial da Saúde (OMS) serve de base para a abordagem do paciente com dor. Na dor crônica, sobe-se a escada iniciando o tratamento com analgésicos comuns. Na dor aguda, desce-se a escada da OMS, usando técnicas invasivas e opioides fortes, geralmente por tempo limitado (48-72 h), a partir do qual se espera que a dor diminua, acompanhando a resolução do quadro agudo. 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck INSTRUMENTOS MULTIDIMENSIONAIS o Inventario de McGill: descritores são divididosem quatro grupos: sensorial discriminativo, afetivo motivacional, avaliativo cognitivo, e miscelânea. o Breve Inventário de Dor: intensidade, interferência da dor na habilidade para caminhar, atividades diárias do paciente, no trabalho, atividades sociais, humor e sono. Referências BICKLEY, Lynn S.; SZILAGYI, Peter G.; HOFFMAN, Richard M. Bates - Propedêutica Médica. Grupo GEN, 2022. PORTO, Celmo C.; PORTO, Arnaldo L. Exame Clínico, 8ª edição. Grupo GEN, 2017. RAYMUNDO, José Luiz P.; MIRANDA, Isabel H. Ortopedia para clínicos: exame e diagnóstico. Editora Manole, 2021. FILHO, T. E. P. B.; LECH, O. Exame físico em Ortopedia. Sarvier, 2ª edição, 2002. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Anatomia e fisiologia COLUNA VERTEBRAL ↠ A coluna vertebral consiste em 33 vértebras assim distribuídas: 7 cervicais, 12 torácicas, 5 lombares, 5 sacrais e 4 formando o cóccix (PORTO, 2019). ↠ As funções da coluna vertebral são: promover estabilidade; proporcionar mobilidade; proteger a medula espinal; coordenar os movimentos do esqueleto apendicular (PORTO, 2019). ↠ Divide-se em 4 regiões pela morfologia de seus componentes e pela sua função, tendo cada região uma curva própria. No plano frontal, a coluna é retilínea, mas, no plano sagital, ela pode ser em cifose, quando a convexidade é posterior, ou em lordose, quando a convexidade é anterior (PORTO, 2019). O disco tem aspecto característico e consiste em 2 partes: núcleo pulposo e anel fibroso. O núcleo pulposo ocupa a parte central e é uma substância gelatinosa provinda embriologicamente do notocórdio. Trata-se de uma gelatina transparente contendo 88% de água, hidrófila por excelência, formada por mucopolissacarídios, cuja matriz contém substâncias ligadas a proteínas. Com o aumento da idade, o núcleo diminui sua capacidade de absorver água, perdendo seu estado protendido ou de tensão interna, o que explica a perda da flexibilidade da coluna das pessoas idosas. (PORTO, 2019). CURVATURAS Movimentos da coluna vertebral ↠ O complexo de que é formada a articulação intervertebral não somente suporta carga, mas também possibilita mobilidade nos 3 planos do espaço. Constitui, portanto, uma articulação de 3º grau. No plano frontal, os movimentos de lateralidade; no plano sagital, flexão e extensão; e, no plano transverso, movimento de rotação, direita ou esquerda. Pode-se usar o termo “torção” no lugar de rotação (PORTO, 2019). Exame clínico do sistema músculo esquelético: MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA COLUNA CERVICAL E LOMBAR Vértebra e disco intervertebral. 1. Núcleo pulposo. 2. Anel fibroso com suas fibras que se entrecruzam obliquamente, aumentando a resistência do núcleo pulposo. Movimentos da coluna. A. Flexão lateral. B. Extensão Movimentos da coluna. C. Flexão. D. Rotação. 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck As síndromes dolorosas (cervicalgia, dorsalgia e lombociatalgia) constituem um dos problemas mais frequentes da prática médica; podem ser relacionadas com alterações posturais, desvios da coluna e diferentes afecções que comprometem a coluna vertebral (degeneração discal, hérnia de disco, artrose, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, osteoporose, estenose do canal medular, tuberculose vertebral, neoplasias, espondilolistese, fraturas), mas, também, podem decorrer de afecções de estruturas extratorácicas ou abdominais, bem como de obesidade e tensão nervosa (PORTO; PORTO, 2017). Coluna vertebral Cervical (pescoço) • Flexão (o mento deve tocar a fúrcula esternal. A separação entre ambos deve ser medida com fita métrica) • Extensão (o mento deve afastar-se cerca de 18 cm da fúrcula esternal) • Rotação esquerda e direita (60°) • Lateralidade esquerda e direita (30°) Torácica • Rotação direita e esquerda (75°) • Flexão e extensão • Lateralidade esquerda e direita Lombar • Flexão (medir a distância polpas digitais-chão) • Extensão (30°) • Rotação esquerda e direita (90°) • Lateralidade esquerda e direita (35°). Anamnese ↠ Na identificação do paciente, informações úteis podem ser obtidas (PORTO; PORTO, 2017). • Idade: faixas etárias em que, com mais frequência, ocorrem os vários tipos de doença reumática: a febre reumática, dos 5 aos 15 anos; a doença reumatoide, dos 20 aos 40 anos; o lúpus eritematoso sistêmico, entre 20 e 40 anos; a gota, após a quinta década. • Sexo: sabe-se que o lúpus eritematoso disseminado, a doença reumatoide, a esclerose sistêmica progressiva, os nódulos de Heberden e a osteoporose são mais frequentes no sexo feminino, enquanto a espondilite anquilosante, a gota e a poliarterite nodosa predominam no sexo masculino. Não se deve esquecer, contudo, que algumas doenças reumáticas não apresentam preferência quanto ao sexo, como é o caso da moléstia reumática, das artroses em geral e da lombociatalgia. • Ocupação do paciente pode ser útil no raciocínio diagnóstico; assim, não é rara, nas lavadeiras, a síndrome do túnel do carpo; nos digitadores, a tendinite do ombro; nos tenistas, a epicondilite; nas pessoas que se mantêm, por longos períodos, sentadas ou trabalham em má postura, a lombalgia. ↠ Na história da doença atual, a duração da queixa articular tem significado clínico: (PORTO; PORTO, 2017). • menos de 1 mês na febre reumática, podendo durar anos na doença reumatoide; • o modo de início (insidioso na doença reumatoide, abrupto na gota e na bursite); • a presença de sinais e sintomas inflamatórios (dor, calor, rubor e edema), nos processos reumáticos em atividade; • crepitação ou estalidos nos processos degenerativos; • apenas artralgias na maioria das colagenoses. Fundamentalmente, na história da doença atual, deve-se explorar mais minuciosamente o sintoma dor, que pode ser aguda (gota, bursite), surda (artrose), localizada (doença reumatoide) e com irradiação para o trajeto do nervo comprometido (cervicobraquialgia ou lombociatalgia) (PORTO; PORTO, 2017). Além da dor, indagar sobre a presença ou não de rigidez pós- repouso, acompanhante habitual dos reumatismos de natureza inflamatória e degenerativa; nos primeiros, persiste durante horas, Movimentos da coluna cervical (pescoço) Movimentos da coluna torácica e lombar. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck enquanto, nos degenerativos (artroses), cede rapidamente (PORTO; PORTO, 2017). A ocorrência de manifestações sistêmicas (febre, anorexia, perda de peso, fraqueza) também precisa ser esclarecida ao se obter a história do paciente, bem como os tratamentos realizados, a evolução, o comprometimento extra-articular, os antecedentes pessoais e familiares, dos quais são obtidas informações de grande utilidade na elaboração do diagnóstico (PORTO; PORTO, 2017). SINTOMAS COMUNS OU RELEVANTES Dor articular ↠ Dor muscular generalizada é denominada mialgia. Artralgia é uma dor articular sem evidências de artrite (BICKLEY et al., 2022). • Localização: Pergunte ao paciente quais articulações são dolorosas. Peça que o paciente aponte a dor, idealmente com um dedo, se possível. Monoarticular, oligoarticular e poliarticular. • Características: Como é a dor? Pergunte: “Você consegue descrever a dor (com que ela parece)?” Os pacientes podem descrever a dor de muitas maneiras diferentes, incluindo uma dor surda, lancinante ou tensa. • Início e relação temporal: O início é especialmente importante. Quando a dor começou (ou começa)? Quanto tempo dura? Com que frequência aparece? Há quanto tempo a dor está presente? A dor apresentou uma progressão lenta ou oscilou entre períodos de melhora e piora? Há variação ao longo do dia e de que modo? • Fatores que causam remissão ou exacerbação: Pergunte o que provoca um agravamento ou alívio da dor. Quais são os efeitos do exercício ou daatividade física, repouso, medicamentos e fisioterapia? • Manifestações associadas: Inflamação. Pergunte sobre os quatro sinais cardinais da inflamação – edema, calor e rubor, além da dor. Limitação do movimento e rigidez. • Sintomas constitucionais associados e manifestações sistêmicas em outros sistemas orgânicos: Alguns problemas articulares apresentam sintomas constitucionais associados, como febre, calafrios, erupção cutânea, fadiga, anorexia, perda de peso e fraqueza. Dor cervical A dor cervical é uma queixa comum, mas é essencial diferenciar uma dor cervical que exija estabilização imediata da dor provocada por causas musculoesqueléticas mais comuns (BICKLEY et al., 2022). ↠ Dor cervical em geral é autolimitada, sem necessidade de tratamento, mas é importante perguntar sobre irradiação para o braço ou a região escapular, fraqueza no braço, dormência ou parestesias que possam indicar compressão da medula espinal ou de um dos nervos espinais (BICKLEY et al., 2022). Dor lombar ↠ Usando questões abertas, obtenha um quadro claro e completo do problema, em especial localização, irradiação da dor, posições específicas que provocam exacerbação e qualquer história pregressa de trauma (BICKLEY et al., 2022). A maioria das diretrizes classifica a dor lombar em três grupos: inespecífica (> 90%), aprisionamento da raiz nervosa com radiculopatia ou estenose do canal vertebral (aproximadamente 5%) e dor decorrente de uma doença subjacente específica (1 a 2%) (BICKLEY et al., 2022). ↠ Determine se a dor está localizada na linha média (sobre os processos espinhosos das vértebras) ou fora da linha média (nos músculos paravertebrais ao redor da coluna vertebral) (BICKLEY et al., 2022). A dor ciática é uma dor nos glúteos e região posterior das pernas, geralmente causada por compressão das raízes nervosas nos níveis de L4–S1. Até 85% dos casos estão associados a um distúrbio discal, em geral nos níveis de L4–L5 ou L5–S1. Uma dor associada a manobras de flexão da coluna vertebral para frente, elevação da perna esticada ou tocar as pontas dos pés, manobra de Valsalva ou ao espirrar, é sugestiva de doença discal subjacente. Uma dor na perna que melhora com a flexão lombar para frente ocorre na estenose do canal vertebral (BICKLEY et al., 2022). ↠ Considerar a síndrome da cauda equina decorrente de uma herniação discal ou tumor na linha média, no nível de S2–S4, se houver disfunção intestinal ou vesical (geralmente com retenção urinária ou incontinência paradoxal), especialmente em associação à anestesia em sela ou dormência perineal (BICKLEY et al., 2022). Artralgia significa apenas dor na articulação, enquanto artrite denuncia a presença de sinais flogísticos (dor, edema, calor e rubor) aos quais se soma quase sempre a limitação dos movimentos (PORTO; PORTO, 2017). Exame Físico Um exame físico normal não exclui a possibilidade de uma doença óssea. A osteoporose, por exemplo, é assintomática e o aparecimento de dor levanta a possibilidade de fratura que pode ser espontânea ou provocada por pequenos traumas (PORTO; PORTO, 2017). ↠ O exame físico da coluna vertebral é realizado pela inspeção e pela palpação, tanto em repouso como em movimento (PORTO, 2019). ↠ A abordagem da coluna deve ser feita em três planos: frontal (anterior e posterior) e sagital (PORTO, 2019). No plano sagital, ou de perfil, deve-se observar o grau das lordoses lombar e cervical, assim como a cifose torácica (PORTO, 2019). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck o Inspeção estática; o Inspeção dinâmica; o Palpação; o Avaliação Neurológica; o Testes especiais. Avaliar a postura do paciente ao entrar no consultório. Sempre pedir autorização ao paciente antes de iniciar o exame físico CERVICAL INSPEÇÃO ESTÁTICA ▪ Analisar assimetria no pescoço (torcicolo); ▪ Deformidades redutíveis ou irredutíveis; ▪ Alterações na pele; ▪ Presença de vesículas, descolorações ou cicatrizes (tireoidectomia). INSPEÇÃO DINÂMICA ↠ Avaliando a amplitude de cada um dos movimentos da coluna cervical. Solicite ao paciente que realize ativamente flexão (paciente encosta o queixo no tórax) extensão, (alinhamento da fronte e do nariz com o plano horizontal), rotação (queixo alinhado com os ombros), inclinação lateral (solicita para encostar a orelha no ombro). Como rotina, o paciente deve segurar um abaixador de língua com a boca e realizar flexão e extensão, lateralização e rotação do segmento cervical, para a análise da amplitude dos seus movimentos. PALPAÇÃO • Partes moles: trígono anterior e trígono posterior. Paciente em posição supina – relaxar a musculatura do pescoço. Palpar músculo esternocleidomastóideo. Palpar tireoide, parótidas e fossa supraclavicular. Paciente sentado. Palpar o trapézio em toda a sua extensão. Partes ósseas: trígono anterior (osso hioide (se opõe a C3; cartilagem tireóidea – nível de C4; 1º anel cricoide – nível de C6) Trígono posterior (linha média posterior – palpar os processos espinhosos de C2-C7). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck EXAME NEUROLÓGICO ↠ Cada nível neurológico corresponde a uma distribuição sensitiva, um teste motor e um exame de reflexos. Dor com irradiação fala a favor de radiculopatia. A avaliação da sensibilidade pode ser tátil (algodão), dolorosa (agulha romba), térmica (tubos de ensaio quentes e frios) e vibratória/proprioceptiva (diapasão). Raramente tais métodos são utilizados no dia a dia do generalista, tendo maior relevância na avaliação de lesões medulares incompletas. • 2 – normal; • 1 – alterada (aumentada ou diminuída); • 0 – ausente. C5 • Inerva os músculos flexores do cotovelo – deltoide e bíceps. Com o cotovelo em semiflexão e o antebraço pronado, deve-se colocar um dedo sob o tendão bicipital e percutir sobre o dedo. • Positividade: Quando houver hiporreflexia em relação ao lado oposto ou arreflexia. Sempre comparativo. • Condizente com: Lesão do nervo musculocutâneo (C5 e C6). C6 • Inerva os músculos extensores do punho. • ÁREA DE SENSIBILIDADE: face lateral mais inferior do braço, incluindo o primeiro dedo. Com o punho em posição intermediária, com o polegar voltado anteriormente, deve-se percutir logo acima da apófise estiloide do rádio. • Positividade: Quando houver hiporreflexia em relação ao lado oposto ou arreflexia. • Condizente com: Lesão de nervo radial (C5 e C6). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck C7 Com o cotovelo pendente e semifletido, deve-se identificar o tendão tricipital posteriormente e realizar percussão direta sobre o tendão. • Positividade: Quando houver hiporreflexia em relação ao lado oposto ou arreflexia. • Condizente com: Lesão de nervo radial (C7 e C8). TESTES ESPECIAIS TESTE DE DISTRAÇÃO: Realizado com o paciente sentado. É necessário se posicionar atrás do paciente, colocando as mãos perto do ângulo da mandíbula e os polegares o mais próximo possível ao mento, e realizar tração na cabeça. • Positividade: Quando o paciente manifestar alívio ou aumento da dor em caso de compressão, dependendo de sua localização e a sua manifestação. Condizente com: Insuficiência de artérias vertebrais, seja por placas ateromatosas, angiopatia ou compressão discal. ATENÇÃO: A aplicação dessa manobra é desaconselhada principalmente em idosos, pois pode causar desmaio, uma vez que, ao realizar a distração, pode-se estreitar o calibre das artérias vertebrais ou causar deslocamento de placas ateromatosas, que, dessa forma, culminam em falta do aporte sanguíneo ao polígono de Willis, levando a desfechos não desejados. TESTE DE COMPRESSÃO: Teste de Compressão de Apley ou simplesmente teste de Apley serve paraevidenciar a presença de uma possível compressão radicular por hérnia discal, geralmente afetando as raízes de C5-C6-C7. O profissional deverá estar atrás do paciente com os dedos da mão entrelaçados e exercer uma força contínua para baixo e perguntar ao paciente se ele está sentindo algum desconforto. MANOBRA DE SPURLING: Para pesquisar compressão da raiz nervosa cervical, peça que o paciente olhe sobre o ombro e depois para o teto. Em seguida, posicione-se atrás do paciente e, com cuidado, aplique uma pressão para baixo na cabeça do paciente e verifique se a manobra reproduz a dor cervical com irradiação para o 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck mesmo lado da cabeça virada. Em seguida, use uma tração delicada após esse teste para liberar a pressão. O teste de Spurling é positivo se o paciente sentir dor que desce pelo braço do mesmo lado para o qual a cabeça está virada e indica envolvimento da raiz nervosa cervical. Sua sensibilidade varia de moderada a alta (38 a 97%), mas a especificidade é alta (89 a 100%). TORACOLOMBAR INSPEÇÃO ESTÁTICA • Avaliar a presença de desvios, deformidades, coloração da pele, cicatrizes. • Altura das cristas ilíacas (intervalo entre L4 e L5). • Na região de tórax anterior, a inspeção deve buscar alterações de gradil costal ou esterno − este último mais frequentemente com deformidades como pectus excavatum (peito de sapateiro) ou pectus carinatum (peito de pombo). TORÁCICA: O exame do segmento deve ser realizado nos planos posterior, anterior e perfil, e devem ser descartados os seguintes sinais clínicos de escoliose (principalmente em crianças): • assimetria de ombros; • assimetria do triângulo de talhe; • assimetria mamilar; • desnível das escápulas (visível no teste de Adams); • assimetria de rebordo costal em nível axilar. INSPEÇÃO DINÂMICA ↠ Avaliando a amplitude de cada um dos movimentos. 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck PALPAÇÃO • Palpar as regiões musculares paravertebral de forma simétrica (avaliar pontos dolorosos). • Palpar os processos espinhosos. EXAME NEUROLÓGICO L4 Com o paciente sentado e com os pés pendentes, solicita-se que dirija o seu olhar para o horizonte. O examinador, então, palpa o polo inferior da patela e a tuberosidade da tíbia, e percute entre eles sobre o tendão patelar, sempre repetindo o teste contralateral em busca de alterações assimétricas. • Positividade: Quando houver hiporreflexia ou hiper-reflexia em relação ao lado oposto. • Condizente com: A ausência de resposta indica alteração do nervo femoral. A hiporreflexia indica paralisia flácida (poliomielite) ou compressão radicular independente da causa (hérnia discal, tumores), enquanto a hiper-reflexia sugere lesão do feixe piramidal. L5 9 Júlia Morbeck – @med.morbeck S1 Com o paciente sentado, deve-se percutir o tendão de Aquiles. Usa-se o mesmo raciocínio anterior, lembrando que processos traumáticos como rupturas antigas podem causar assimetria. • Positividade: Quando houver hiporreflexia ou hiper-reflexia em relação ao lado oposto. • Condizente com: A ausência de resposta sugere lesão do nervo ciático por compressão ou paralisia flácida. TESTES ESPECIAIS TESTE DE SCHOBER MODIFICADO: Com o paciente em ortostatismo, traça-se uma linha horizontal entre as espinhas ilíacas para servir como parâmetro e encontra- se o centro (palpando o processo espinhoso). Então, traça-se uma linha perpendicular à primeira e mede-se 10 cm, demarcando-a. Depois, solicita-se que o paciente realize flexão do tronco. A medida na pele deve aumentar cerca de 5 cm. • Positividade: Mobilidade menor que 5 cm, causada por dor ou restrição do movimento. • Condizente com: Anquilose do segmento lombar, em patologias como a espondilite anquilosante. TESTE DE LASÉGUE: Com o paciente em decúbito dorsal, deve-se colocar a mão posteriormente ao tornozelo, realizando elevação do membro até 60 graus (acima disso, a manobra perde especificidade). É importante iniciar sempre pelo lado sem dor. Positividade: O paciente manifesta dor na face posterior do membro, em dermátomos do nervo ciático. Condizente com: Patologias compressivas de raiz nervosa, como hérnias ou espondilolistese. ATENÇÃO: É importante ter um limite de elevação, pois pacientes com encurtamento na musculatura posterior da coxa e da perna podem manifestar desconforto. TESTE DE FABERE: Em decúbito dorsal, solicita-se que o paciente realize a posição em formato de número quatro, colocando o tornozelo direito no joelho esquerdo ou vice- versa; deve-se empurrar o joelho para baixo, estabilizando a crista ilíaca do lado contrário, buscando desconforto ou dor nas articulações sacroilíaca e coxofemoral. 10 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Positividade: Dor ou desconforto nas articulações sacroilíaca ou coxofemoral. • Condizente com: Osteoartrite de articulações sacroilíaca ou coxofemoral. LOMBALGIA Em razão da grande variedade de estruturas presentes na coluna – ossos, músculos, ligamentos, tendões, discos intervertebrais, muitas podem ser as causas das lombalgias: desde infecções sistêmicas que cursam com dor lombar, passando por esforços repetitivos e excesso de peso, até se chegar em traumas e neoplasias envolvendo essa região da coluna. Devido à alta prevalência e ao alto custo para se lidar com o problema, seja com sua investigação ou com o tratamento, o American College of Physicians e a American Pain Society estabeleceram diretrizes que enfatizam um tratamento conservador para as lombalgias inespecíficas. Tal tratamento é baseado no exame físico do paciente e consiste em medicamentos para controle da dor inicial, caso seja necessário, e em fisioterapia, sem a necessidade de realização de exames de imagem. Red flags Realizar exames de imagem em pacientes com dor lombar sem indicações específicas normalmente não leva à melhora dos resultados clínicos. Dessa forma, a recomendação é no sentido de que os exames sejam considerados apenas para os pacientes que não apresentaram sinais de melhora após seis semanas do tratamento conservador e para aqueles pacientes com as chamadas “red flags” (sinais de alerta). Assim, é de fundamental importância que o médico consiga identificar o paciente que precisa ser examinado com mais detalhamento por indicar se tratar de um status mais complicado de lombalgia ou radiculopatia. Os mencionados sinais de alerta são: • síndrome da cauda equina; • história de câncer; • fraturas e traumas cumulativos; • déficit(s) neurológico(s) progressivo(s) ou grave(s); • espondilite anquilosante; • estenose espinhal sintomática; • infecção; • perda de peso inexplicada; • imunossupressão; • diabetes mellitus; • uso de drogas intravenosas; • uso prolongado de corticoesteróides; • idade maior do que 70 anos; • cirurgia prévia. RESSONÂNCIA MAGNÉTICA: Trata-se de um excelente exame que permite avaliar com um grande detalhamento a medula espinhal, os tecidos moles vizinhos e a presença de possíveis abscessos. Referências BICKLEY, Lynn S.; SZILAGYI, Peter G.; HOFFMAN, Richard M. Bates - Propedêutica Médica. Grupo GEN, 2022. PORTO, Celmo C.; PORTO, Arnaldo L. Exame Clínico, 8ª edição. Grupo GEN, 2017. PORTO, Celmo C. Semiologia Médica, 8ª edição. Grupo GEN, 2019. RAYMUNDO, José Luiz P.; MIRANDA, Isabel H. Ortopedia para clínicos: exame e diagnóstico. Editora Manole, 2021. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck • SUICIDALIDADE: são os pensamentos (ideação, planejamento e tentativa). • IDEAÇÃO SUICIDA: é quando o indivíduo tem a ideia de que o suicídio é uma solução para se livrar deuma situação desconfortável. • SUICÍDIO: ato em si. ↠ Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é um grave problema de saúde pública e uma das principais causas de morte no mundo (BALDAÇARA et al., 2020). ↠ O comportamento suicida é uma emergência médica e uma das mais frequentes no sistema de saúde. Por isso, todo profissional deve estar habilitado de forma técnica e científica a lidar com tais situações (BALDAÇARA et al., 2020). Definições ↠ As definições de comportamento suicida são altamente variáveis, imprecisas e costumam mudar, especialmente em relação ao comportamento suicida não fatal e ideação suicida. Tais termos abrangem a ideação suicida (pensamentos sérios sobre tirar a própria vida), planos de suicídio e tentativas de suicídio. No entanto, Meyer et al. propôs simplificar tal terminologia. Este autor sugere o uso de ideação suicida, comportamento suicida e suicídio como os termos preferidos. Portanto, para estas orientações ficam padronizados os termos: (BALDAÇARA et al., 2020). • Suicídio completo: Um comportamento autolesivo que resultou em fatalidade e foi associado a pelo menos alguma intenção de morrer como resultado do ato. • Atos preparatórios ou plano de suicídio: O indivíduo toma medidas para ferir a si mesmo, mas é impedido por ele mesmo ou outros de iniciar o ato autolesivo antes que o potencial de dano tenha começado. • Tentativa de suicídio: Um comportamento potencialmente autolesivo, associado a pelo menos alguma intenção de morrer, por causa do ato. A evidência de que o indivíduo pretendia se matar, pelo menos até certo ponto, pode ser explícita ou inferida do comportamento ou circunstância. Uma tentativa de suicídio pode ou não resultar em lesão real. • Ideação suicida: Pensamentos passivos sobre querer estar morto ou pensamentos ativos sobre se matar, não acompanhados de comportamento preparatório. A intenção suicida inicia, em geral, com a contemplação da idéia suicida. Posteriormente, há a criação de ensaios mentais, que envolvem o planejamento do ato, até, finalmente, culminar numa tentativa destrutiva concreta. Existem três características fundamentais, que se encontram na maioria das pessoas sob risco de suicídio: (UFOP) • Ambivalência: um conflito permanente do desejo de viver com o desejo de morte. Muitas dessas pessoas estão com problemas em suas vidas e lutam internamente com sentimentos confusos de escapar do sofrimento que sentem através da morte e ao mesmo tempo de viver. O amparo emocional adequado pode fortalecer o desejo de vida, diminuindo o risco de suicídio. • Impulsividade: muitas vezes o suicídio é um ato de impulso, um desejo intenso que pode ser transitório, durando de minutos a horas. Passado o momento de impulsividade, normalmente desencadeado por eventos estressores, o risco de suicidio diminui. Dificultar o acesso aos meios para a concretização do suicídio configura um papel importante na prevenção do ato, já que a dificuldade em cometé-lo pode dar o tempo necessário para que o impulso em sua fase mais intensa passe, e o desejo de vida se fortaleça. • Rigidez: para quem apresenta comportamento suicida é frequente um estado de constrição cognitiva, uma rigidez mental que o faz pensar em termos extremos, pensando fixamente no suicídio como a única solução, não sendo capaz de perceber outras maneiras para lidar com os problemas atuais de sua vida. Este estreitamento da compreensão da vida muitas vezes é percebido em pensamentos como: “Nada pode ser feito”; “A única alternativa possível é a morte”; “Ninguém pode me ajudar” . ATENÇÃO: Ao contrário da crença popular de que as pessoas com intenção suicida não comentam a respeito, a maioria das pessoas com idéias de morte comunicam seus pensamentos e desejos. É frequente comentários sobre o estado de desesperança que vivem, o desejo de por um fim nos problemas e de querer morrer. Estas são frases de alerta, pedidos de ajuda que devem ser ouvidos e que permitem o reconhecimento do problema. São sentimentos frequentes de pessoas que podem estar pensando em suicídio os quatro “Ds”: depressão, desesperança, desamparo e desespero. Ao notar que alguém está passando por esses sentimentos é necessário investigar com atenção o risco de suicídio (UFOP). Manejo do comportamento suicida 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Fatores de risco • Doenças mentais; • Aspectos psicológicos (perdas recentes, ter sofrido abuso físico); • Condição de saúde limitante. A presença de transtornos mentais é um importante fator de risco, havendo uma associação na maioria dos casos de suicídio com uma doença psiquiátrica. Os principais transtornos mentais associados são: transtornos do humor (ex.: depressão e transtorno do humor bipolar), transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas (ex.: alcoolismo), transtornos de personalidade, esquizofrenia e transtornos de ansiedade (BALDAÇARA et al., 2020). Fatores de proteção • Estrutura familiar --> bom relacionamento interpessoal. • Fatores socioculturais --> grupos sociais (colegas, amigos, vizinhos), envolvimento em atividades sociais. • Outros: gravidez, puerpério, boa regularidade do sono. Autolesão não suicida (ALNS) • Envolve principalmente lesões cutâneas. Ingestão de objetos afiados ou não, comestíveis e intoxicação exógena não suicida. ↠ A autolesão não suicida (ALNS) pode ser entendida como a destruição intencional do próprio tecido corporal sem intenção suicida (FABBRINI; FORTIM, 2022). ↠ Métodos mais comuns incluem cortes na pele, arranhões, mordidas e queimaduras, além de eventos como bater partes do corpo contra paredes e enfiar objetos pontiagudos em si mesmo (FABBRINI; FORTIM, 2022). Embora o fenômeno da autolesão seja tipicamente associado ao sexo feminino. Estudos que apontam taxas equivalentes entre homens e mulheres. Tal atribuição da autolesão ao feminino pode se dever à ausência nas pesquisas de critérios de diferenciação entre a ALNS e a autolesão praticada com intento suicida, uma vez que as mulheres apresentam maiores taxas de tentativas de suicídio que os homens. Outra possível explicação é a equiparação do fenômeno ao cutting - método de autolesão que consiste em infligir danos teciduais através de cortes na pele - visto que as mulheres se cortam com mais frequência enquanto os homens são mais propensos a se baterem ou se queimarem (FABBRINI; FORTIM, 2022). Como abordar a pessoa com risco de suicídio ANAMNESE: deve perguntar se a pessoa já quis tirar a sua própria vida no decorrer da entrevista. Anteriormente, pode perguntar sobre a relação familiar, atividades que o paciente faz, sobre a escola, relacionamentos. Apresentação atual e passada de comportamento suicida: Especificamente, os profissionais de saúde devem perguntar sobre pensamentos, planos e comportamento suicida; métodos específicos considerados para suicídio, incluindo sua letalidade e a expectativa do paciente sobre letalidade, bem como se as armas de fogo estão acessíveis; evidência de desesperança, impulsividade, anedonia, ataques de pânico ou ansiedade; motivos de vida e planos para o futuro; álcool ou outra substância associada à apresentação atual; e pensamentos, planos ou intenções de violência contra os outros. Para cada tentativa, detalhes precisam ser obtidos (BALDAÇARA et al., 2020). Doença mental: Determinar a presença ou ausência de sinais e sintomas associados a diagnósticos psiquiátricos específicos e identificar sintomas psiquiátricos específicos que podem influenciar o risco de suicídio. O diagnóstico da doença mental e seu diagnóstico diferencial requer sempre a avaliação do médico psiquiatra (BALDAÇARA et al., 2020). História pregressa: Avaliar a história psiquiátrica (por exemplo, diagnósticos anteriores e comórbidos, hospitalizações anteriores e outrotratamento, ideação suicida anterior); revisar o histórico de tratamento médico (por exemplo, identificar tentativas de suicídio clinicamente graves e diagnósticos médicos anteriores ou atuais); e 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck avaliar a força e estabilidade das relações terapêuticas atuais e passadas (BALDAÇARA et al., 2020). História familiar: Avaliar a história familiar de suicídio e tentativas de suicídio e hospitalizações psiquiátricas ou doença mental, incluindo transtornos por uso de substâncias; determinar as circunstâncias de suicídios em parentes de primeiro grau, incluindo o envolvimento do paciente e as idades do paciente e dos parentes no momento; determinar a infância e o ambiente familiar atual, incluindo histórico de conflito familiar ou separação, problemas legais dos pais, uso de substâncias na família, violência doméstica e abuso físico e / ou sexual (BALDAÇARA et al., 2020). Situação psicossocial: Avaliar reações emocionais severas ou estressores psicossociais crônicos que podem aumentar o risco de suicídio (por exemplo, dificuldades financeiras ou legais; conflitos ou perdas interpessoais; estressores em jovens gays, lésbicas ou bissexuais; problemas de habitação; perda de emprego; fracasso educacional) (BALDAÇARA et al., 2020). Pontos fortes e vulnerabilidades individuais: Avaliar as habilidades de enfrentamento, traços de personalidade, estilo de pensamento e necessidades de desenvolvimento e psicológicas podem afetar o risco de suicídio do paciente e a formulação do plano de tratamento (BALDAÇARA et al., 2020). SIGILO MÉDICO É IMPPORTANTE (exceções). CLASSIFICAÇÃO DO RISCO DE SUICÍDIO ↠ De acordo com Botega (2015), a formulação de risco não é uma predição sobre quem poderá ou não consumar o suicídio, mas sim, um julgamento clínico que permite priorizar ações de prevenção dirigidas ao perfil de cada paciente (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). RISCO BAIXO: A pessoa teve alguns pensamentos suicidas, mas não fez nenhum plano. Nunca tentou o ato. RISCO MÉDIO: A pessoa tem pensamentos e planos, mas não pretende cometer suicídio imediatamente. RISCO ALTO: A pessoa tem um plano definido, tem meio para fazê-los e planeja fazê-lo prontamente. Tentou o suicídio recentemente e apresenta rigidez quanto à uma nova tentativa. Tentou várias vezes em um curto espaço de tempo. ESCALA PARA ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO • A de suicídio mais conhecida é a de BECK. ↠ Consiste em um questionário de auto-relato com 21 itens de múltipla escolha. É um dos instrumentos mais utilizados para medir a severidade de episódios depressivos. ESTRATIFICADO O RISCO • Acompanhamento ou vigilância ativa; • Psicoterapia; • Orientação; • Medicação (risco moderado, mas sempre associado a psicoterapia). • Orientar a família sobre a medicação e a eliminação de objetos de risco - lâmina de barbear, facas, isqueiros, vidros. • Ambulatorial ou internação. MANEJO https://pt.wikipedia.org/wiki/Question%C3%A1rio_de_auto-relato https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAltipla_escolha https://pt.wikipedia.org/wiki/Depress%C3%A3o_nervosa https://pt.wikipedia.org/wiki/Depress%C3%A3o_nervosa 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck • RISCO GRAVE --> HOSPITAL. • Contenção física - mecânica (se não tiver outra alternativa - mínimo de 5 pessoas, caso precise usar faixas, utilizar nos pulsos, quadril, tornozelo - retira logo após "tranquilização" do paciente). • Contenção química: benzodiazepínicos (CLONAZEPAN - VO; MIDAZOLAN - IM), antipsicóticos (HALOPERIDOL - IM; RISPERIDONA - VO) hipnóticos e antidepressivos --> não está grave. Em casos sem agitação psicomotora pode usar VO. RISCO ALTO: É necessário que a pessoa não fique sozinha. Deve-se afastá-la de medicamentos, armas, produtos de limpeza ou outros meios que possam ser empregados para cometer o suicídio. Se possível encaminhe-a para avaliação imediata de um psiquiatra. Se no local não há psiquiatra acessível deve-se entrar em contato com um serviço de emergência e solicitar o transporte adequado. Assegure o paciente que você está do lado dele, e que essas medidas são para protegê-lo de um perigo imediato. Se possível contate o serviço para onde está sendo feito o encaminhamento explicando sua percepção do caso. Mesmo num ambiente hospitalar é importante manter a vigilância, já que a pessoa poderá usar os meios disponíveis para uma tentativa de suicídio. Após a resolução do quadro imediato, mantenha o contato com o paciente, e fortaleça o vínculo existente. Nos casos onde não há colaboração do paciente ou onde não é possível convencê-lo da necessidade dessas medidas peça ajuda de familiares e amigos, mesmo que a permissão não seja dada, pois uma internação involuntária poderá ser necessária. Procure, dentro do possível, preservar o sigilo do paciente, respeitando sempre sua dignidade. Fique atento também as necessidades dos que se propuseram a ajudar (UFOP). ↠ A comunicação terapêutica continua sendo parte da estratégia de abordagem, com acolhimento, empatia, escuta ativa e ausência de julgamento em relação ao paciente (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). 1. Fazer algum tipo de rapport/bom vínculo – assim ficará mais fácil o indivíduo ouvir suas orientações e confiar (demonstrando empatia e preocupação) 2. Mobilizar o suporte social: contactar pessoas de confiança elencadas pelo próprio sujeito ou identificadas junto a seus amigos, familiares ou conhecidos. 3. Orientar quanto a necessidade de vigilância: não deixar a pessoa sozinha, não trancar portas, retirar do ambiente qualquer método potencialmente perigoso, supervisão da medicação, quando for o caso 4. Identificar fatores de risco e de proteção e sinais de risco iminente (afetos intoleráveis, eventos desencadeantes, capacidade de cuidar de si, acesso a métodos potencialmente, perigosos e a presença do suporte social) 5. Elaborar encaminhamento por escrito/ contrato terapêutico 6. Notificação compulsória em caso de tentativa de suicídio ATENÇÃO: O paciente deve sempre ser levado ao serviço de emergência ou hospital de ambulância e abordado por uma equipe treinada, como o Serviço de Atendimento Móvel de Emergência (BALDAÇARA et al., 2020). O QUE NÃO FAZER? Ignorar a situação... SEGUIMENTO CLÍNICO • Modificação no ambiente; • Psicoterapia; • Orientação parenteral; • Psiquiatria - medicamento; 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Técnicas como atenção plena, relaxamento - esportes. LIGUE GRATUITO --> 188. MITOS E VERDADES ↠ Importante destacar que o comportamento suicida é apenas a “ponta do iceberg”. Ou seja, há vários fatores que influenciaram na história de vida daquele indivíduo para o desenvolvimento de vulnerabilidades que culminam no aparecimento de um comportamento suicida (OLIVEIRA; SANTOS, 2021). Caso clínico QUAL A HIPÓTESE DIAGNÓSTICA? Transtorno depressivo maior, com ideação suicida. QUAIS OS DADOS DA HISTÓRIA CLÍNICA E OS SINTOMAS QUE COMPÕEM FATORES DE RISCO PARA O TDM? Sem filhos, abandono paterno, adolescência frustrada, decepção do primeiro relacionamento, aborto, abandono da medicação. Sentia triste, cansada, sem interesse, isolamento social, perda de peso, capacidade diminuída para pensar, pensamentos negativos recorrentes, pensamentos suicidas. COMO VOCÊ CONDUZIRIA? Não deixar voltar para casa, conduzir para o hospital. RITA COMETEU UMA NOVA TENTATIVA. E COMPARECEU AO PRONTO SOCORRO COM AGITAÇÃO PSICOMOTORA. NESSE CASO QUAL SERIA A CONDUTA? Prioridade no atendimento, manejo comportamental, contenção física e química SN. TERAPIA COGNITIVO COMPORTAMENTAL. 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck Referências OLIVEIRA, G. C.; SANTOS, S. B. V. Atendimento pré- hospitalar em saúde mental: noções gerais das emergências em saúde mental – perspectiva do núcleo de saúde mental do SAMU/DF, 2021. UFOP. Saúde Mental.Suicídio – Abordagem e Manejo. Disponível em: https://saudemental.ufop.br/suicidio- abordagem-e-manejo Acessado em 01 de novembro de 2023. BALDAÇARA et al. Orientações para abordagem do comportamento suicida, 2020. FABBRINI, F. M. B. N.; FORTIM, I. #automutilação: a expressão simbólica da autolesão suicida. Junguiana, v. 40, n. 3, 2022. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Ocorrência relativamente frequente nos atendimentos de urgência e emergência. • Hipoglicemia hospitalar aumenta a morbidade, tempo de internação e mortalidade. OBS.: As emergências glicêmicas mais frequentes são a hiperglicemia, decorrente da Cetoacidose Diabética (CAD) ou do Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH), e a hipoglicemia. Estas complicações metabólicas agudas são mais prevalentes em pacientes com Diabetes Mellitus (DM), mas também afetam pacientes hígidos ou sem diagnóstico prévio de DM (CUNHA et al., 2018). • Paciente DM2 não faz cetoacidose diabética, faz estado hiperglicêmico hiperosmolar. ↠ Em pacientes com DM, a hipoglicemia é definida como todo episódio de concentração de glicose plasmática anormalmente baixa, com ou sem sintomas, que exponha o indivíduo a dano (CUNHA et al., 2018). ↠ Definida como qualquer glicemia menor que 70mg/dL. Enquanto valores menores que 54mg/dL caracterizam uma condição grave e clinicamente importante. ↠ Em pacientes não-diabéticos, o diagnóstico de hipoglicemia é baseado na existência da tríade de Whipple, que consiste na presença de sintomas consistentes com hipoglicemia, associada à baixa concentração de glicose plasmática ( causas raras. • Hipoglicemia autoimune; distúrbios funcionais das células beta; esses pacientes precisam de uma investigação clínica exaustiva. • Previamente doentes: idosos, sedentários, obesos, hipertensos, DM1 ou DM2 (tempo de doença e tempo de diagnóstico), desnutridos, hepatopatas, etilistas crônicos. • Uso de medicamentos e interação medicamentosa. Dentre as substâncias com maior nível de evidência desta associação, destacam-se gatifloxacino, pentamidina, indometacina. • Se em uso de insulina ou hipoglicemiante oral e se houve ajuste recente da dose. • Tempo de última refeição (padrão alimentar do paciente). • Uso de substâncias hipoglicemiantes (acidental, sub-reptício ou mesmo malicioso). • Condições clínicas frequentes: infecções (ITU ou ITR) e sepse. • Paciente pós cirurgia bariátrica --> perda ponderal rápida, síndrome diasbssortiva. Insuficiência hepática: O fígado é o órgão responsável pelo fornecimento da maior parte da glicose para a circulação por meio da glicogenólise e da gliconeogênese. As doenças hepáticas mais comumente associadas à hipoglicemia são o carcinoma hepatocelular e a falência hepática fulminante (viral ou tóxica). Pode relacionar-se à hipoglicemia também devido ao comprometimento na metabolização de medicamentos (SILVEIRO; SATLER, 2015). Insuficiência cardíaca: A patogênese da hipoglicemia em pacientes com insuficiência cardíaca grave é desconhecida. Possibilidades incluem congestão hepática e hipoxemia, inanição e insuficiência de precursores gliconeogênicos (SILVEIRO; SATLER, 2015). Insuficiência renal: A patogênese da hipoglicemia na insuficiência renal também é pouco clara, mas provavelmente envolve depuração mais lenta da insulina, produção renal de glicose e gliconeogênese diminuídas. Fatores predisponentes incluem vômitos, restrição proteica, inanição, hemodiálise e diminuição da depuração de medicamentos (SILVEIRO; SATLER, 2015). Sepse: A hipoglicemia ocorre por aumento da utilização periférica de glicose e redução da produção hepática de glicose. Tal fenômeno é resultado da menor resposta a estímulos glicorregulatórios, ou seja, baixos níveis de insulina e altos níveis de glucagon e epinefrina, 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck provavelmente decorrente da ação de citocinas inflamatórias (SILVEIRO; SATLER, 2015). Inanição: Nesses pacientes com depleção total de gordura, a glicose se torna o único combustível oxidativo e que a elevada demanda de glicose supera a capacidade de produção em virtude da limitação do aporte de substratos (p. ex., aminoácidos) (SILVEIRO; SATLER, 2015). Insulinoma: Os sintomas ocorrem em jejum, mas podem também ocorrer no período pós-prandial. Raramente, os pacientes podem apresentar sintomas exclusivamente node Miller-Fisher: é uma variante de SGB, caracterizada pela tríade ataxia, arreflexia a oftalmoplegia. Paresia de outros nervos cranianos, especialmente do sétimo, pode ocorrer. Fraqueza apendicular proximal pode ser demonstrada ao longo do curso da doença em aproximadamente 1/3 dos casos, podendo haver progressão para fraqueza generalizada mais grave de forma semelhante à SGB. DIAGNÓSTICO ↠ O diagnóstico da SGB é primariamente clínico. No entanto, exames complementares são necessários para confirmar a hipótese diagnóstica e excluir outras causas de paresia flácida. Diagnóstico clínico • Fraqueza bilateral simétrica ou parcialmente simétrica, ascendente de caráter progressivo, dificuldade para respirar. ↠ Os pacientes com SGB geralmente apresentam fraqueza muscular em mais de um segmento apendicular de forma simétrica, incluindo musculatura craniana. Os reflexos miotáticos distais usualmente estão reduzidos ou ausentes. ↠ A progressão dos sinais e sintomas é de suma importância, não podendo ultrapassar 8 semanas e com recuperação iniciando 2-4 semanas após fase de platô. ↠ Febre e disfunção sensitiva são achados pouco frequentes, devendo levantar suspeita de uma etiologia alternativa, de causa provavelmente infecciosa. Diagnóstico laboratorial ↠ Análise do líquido cefalorraquiano (LCR): elevação da proteína no líquor acompanhada por poucas células mononucleares é o achado laboratorial característico, evidente em até 80% dos pacientes após a segunda semana. Entretanto, na primeira semana, a proteína no LCR pode ser normal em até 1/3 dos pacientes. Caso o número de linfócitos no líquor exceda 10 células/mm3, deve-se suspeitar de outras causas de polineuropatia, tais como sarcoidose, doença de Lyme ou infecção pelo HIV. ↠ Diagnóstico eletroneuromiográfico (ENMG): a análise das neuroconduções nervosas e a eletromiografia por agulha são as ferramentas da ENMG utilizadas para confirmar o diagnóstico de SGB e fornecer algumas informações sobre o prognóstico. A ENMG permite classificar as principais formas de apresentação da SGB diferenciando as formas de acometimento desmielinizante das formas axonais do nervo periférico. ↠ É importante salientar que a presença de achados na ENMG de normalidade no início do curso da doença não exclui a hipótese de SGB, visto que as alterações na ENMG são tipicamente mais pronunciadas aproximadamente 2 semanas após a instalação da fraqueza. No entanto, a exploração eletrofisiológica faz-se necessária para a exclusão de outras doenças neuromusculares causadoras de paralisia flácida aguda. As formas desmielinizantes da SGB são acompanhadas de achados pela ENMG como: velocidades de condução motora reduzidas, prolongamento das latências motoras distais das neuroconduções, sinais de bloqueio da condução nervosa motora com dispersão temporal da onda em análise e também latências de ondas F prolongadas. As formas de apresentação axonal, muitas vezes, são evidenciadas pela diminuição das amplitudes sensitivas e motoras. 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck Critérios diagnósticos ↠ Existem vários critérios propostos para a definição clara do diagnóstico de SGB, sendo exigidos todos os especificados abaixo: • Presença de dois critérios essenciais (conforme a seguir); • Presença de pelo menos três critérios clínicos sugestivos (conforme a seguir); • Ausência de mais de uma situação que reduza a possibilidade de SGB; • Ausência de situação que exclua o diagnóstico de SGB; • Análise do LCR; • ENMG compatível com a doença e investigação adicional criteriosa com intuito de afastar outras etiologias. Nessas situações, deve ser avaliado por consultor médico especialista em doenças neuromusculares. TRATAMENTO ↠ Existem dois tipos de tratamento na SGB: • a antecipação e o controle das comorbidades associadas; • tratamento modificador da doença, visando a um menor tempo de recuperação e minimização de déficits motores. ↠ Para a correta indicação do tratamento, faz-se necessária a determinação da gravidade clínica proposta por Hughes et al., sendo considerada doença leve de 0 a 2 e moderada-grave de 3 a 6. ↠ Os tratamentos modificadores de doença preconizados na SGB incluem um tratamento não medicamentoso (plasmaférese) e um medicamentoso (imunoglobulina humana endovenosa). • Suporte e monitorização. • Imunoglobulina IV - 2g por kg dividida em até 5 dias. • Plasmaférese - 2 a 4 sessões. Formas leves indica-se 2 sessões com intervalo de 24 horas. • Os corticoides não tem benefício nessa doença. Plasmaférese: A plasmaférese consiste na separação do plasma e células sanguíneas, sendo que essas últimas são reinfundidas após diluição em albumina diluída com gelatina ou plasma fresco. Seu uso na SGB se baseia na remoção de anticorpos, complemento e outros fatores responsáveis por lesão nervosa. Cada sessão de plasmaférese remove de uma a uma e meia volemia de plasma, com intervalo de 48 horas entre sessões. Pacientes incapazes de ficarem em pé sem auxílio (escala de gravidade de Hughes >3) devem receber quatro sessões enquanto pacientes com acometimento leve (escala de gravidade de Hughes menor ou igual a 3) podem se beneficiar de duas sessões. A Imunoglobulina humana (IgIV), pela facilidade de uso, tornou-se o tratamento de escolha na maioria dos países, apesar de seu mecanismo de ação pouco compreendido. Sua eficácia na recuperação motora, risco de morte e efeitos adversos comparada a tratamento com plasmaférese mostrou que os resultados dentro de duas semanas são semelhantes. A dose preconizada de IgIV na SGB é de 2g/ Kg dividida em 2 a 5 dias. A maior dose diária pode aumentar o risco de complicações renais ou vasculares, especialmente em pacientes idosos. Glicocorticoides estão contraindicados no tratamento da SGB. 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2021. BERTOLUCCI, Paulo H F.; FERRAZ, Henrique B.; BARSOTINI, Orlando Graziani P.; et al. Neurologia: diagnóstico e tratamento. Editora Manole, 2021. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ A síndrome de Cushing (SC) é um estado clínico decorrente do excesso de glicocorticoides circulantes e foi descrita inicialmente em 1912 por Harvey Cushing. Ela pode ser ocasionada pelo uso de glicocorticoide exógeno ou pela produção endógena excessiva de esteroides suprarrenais, especialmente cortisol (SILVEIRO; SATLER, 2015). A Doença de Cushing (DC) é diagnosticada quando o excesso de cortisol decorre de causa hipofisária (SILVEIRO; SATLER, 2015). ↠ Esse distúrbio é causado por condições que produzem níveis elevados de glicocorticoides. A síndrome de Cushing pode ser amplamente dividida em causas exógenas e endógenas. A grande maioria dos casos de síndrome de Cushing resulta da administração de glicocorticoides exógenos (síndrome de Cushing iatrogênica). Por sua vez, as causas endógenas podem ser divididas naquelas que são dependentes de ACTH e naquelas que são independentes de ACTH (KUMAR et al., 2023). • A liberação de cortisol está relacionada ao ciclo circadiano. OBS.: O cortisol é secretado de maneira pulsátil e possui ritmo circadiano, isto é, suas concentrações não são iguais ao longo dia. Encontraremos os maiores valores às 8 horas da manhã e os menores níveis próximo à meia-noite. Guardeperíodo pós-prandial (menos de 5% dos casos) (SILVEIRO; SATLER, 2015). Hipoglicemia pós bypass gástrico: Ocorre quando ocorre a passagem rápida do bolo alimentar ao intestino delgado, levando à hiperinsulinemia e hipoglicemia. Em geral ocorre entre 1,5 e 3 horas após a refeição. Tem sido mais comumente descrita em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica (bypass gástrico com derivação em Y de Roux), sendo que alguns desses pacientes apresentam hiperplasia de células β-pancreáticas semelhantes à nesidioblastose. Deve ser diferenciada dos sintomas da síndrome de Dumping que ocorrem na primeira hora pós-prandial, em geral nos primeiros 15 minutos, e não há hipoglicemia documentada nesses casos (SILVEIRO; SATLER, 2015). Autoimune: Autoanticorpos devem ser dosados em pacientes com hiperinsulinemia endógena confirmada. Os anticorpos antirreceptores de insulina são uma causa rara na qual o anticorpo se liga ao receptor de insulina e mimetiza sua ação. Os anticorpos anti-insulina ligam-se à insulina circulante e liberam insulina de maneira desordenada, levando à hiperinsulinemia inapropriada e hipoglicemia (SILVEIRO; SATLER, 2015). CONSEQUÊNCIAS DA HIPOGLICEMIA • Maior risco de queda; • Dano cerebral irreversível, morte. MEDIDAS PREVENTIVAS Ambulatorial: treinamento do paciente, familiares e ou cuidadores a reconhecerem os sinais e sintomas da hipoglicemia. ter à disposição fonte de carboidrato simples de rápida absorção. Hospitalar: glicemia capilar de horário; acompanhamento multidisciplinar e treinamento da equipe para reconhecer os pacientes com maior risco de HG; manter SG a todos os pacientes que já apresentaram hipoglicemia prévia ou os pacientes de maior risco de HG quando em jejum; suspender hipoglicemiantes orais antes da cirurgia. TRATAMENTO Se basear na correção da glicemia, evitar o uso desnecessário de soro hipertônico contendo glicose, avaliar suas causas e manter o aporte calórico para prevenção de novos casos. • Deve-se reservar o uso de solução hipertônica de glicose para pacientes em HG que estejam inconscientes e apresentem acesso venoso pérvio. • Em casos de necessidade de glicose hipertônica endovenosa, a quantidade a ser administrada pode ser calculada usando a fórmula (100 – glicemia) x 0,4 = ml de glicose a 50% a ser utilizada na solução. • A administração de glucagon por via subcutânea ou intramuscular pode ser feita em pacientes inconscientes e sem acesso endovenoso. A solução hipertônica de glicose (soro glicosado a 25% ou 50%) ainda é muito utilizada de forma indiscriminada na correção da HG hospitalar. Este procedimento não é isento de riscos, mas pode causar trombose e flebite. O extravasamento da solução de glicose hipertônica também é problemático, porque pode causar lesões cutâneas e/ou de partes moles, flebite, isquemia ou até síndrome do compartimento. Deve-se reservar o uso de solução hipertônica de glicose para pacientes em HG que estejam inconscientes e apresentem acesso venoso pérvio. A maioria dos pacientes com HG está consciente e a correção com glicose por via oral é uma intervenção mais sensata e muito eficaz. É fundamental que o protocolo para HG hospitalar envolva uma equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros, nutricionistas, farmacêuticos). Cabe ao profissional de nutrição padronizar o equivalente a 15 g de carboidrato de rápida absorção para ser fornecido aos pacientes com HG apresentando nível de consciência preservado. ↠ Em qualquer situação de suspeita de hipoglicemia, é importante avaliar a glicemia capilar. No entanto, se não for possível a avaliação da glicemia capilar e a pessoa apresentar sintomas, o tratamento deve ser iniciado. A hipoglicemia deve ser tratada sempre que a glicemia seja ≤ 70 mg/dl, com ou sem sintomas. No geral, o tratamento requer a ingestão de hidratos de carbono de absorção rápida até glicemia > 70 mg/dl e ausência de sintomas. Dependendo das circunstâncias (valor da glicemia, estado de consciência e capacidade de deglutição) apresentam- se de seguida os procedimentos necessários (PAIVA et al., 2021). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck HC: hidrato de carbono. PONTOS ESSENCIAIS • Sempre aferir a glicemia capilar de pacientes gravemente enfermos: RNC, taquicardíacos, sudoreicos... • Ter em mente os diagnósticos diferenciais. • Pacientes com glicemia grave tem prioridade no atendimento. • Disfunção cognitiva e idade avançada, que são marcadores de fragilidade, aumentam o risco de HG. • A prevenção da HG hospitalar é de extrema importância, impactando na morbidade- mortalidade hospitalar. • O tratamento da HG hospitalar deve se basear na correção da HG, evitar o uso endovenoso desnecessário de soro hipertônico contendo glicose, avaliar as causas da HG, e manter o aporte calórico para prevenção de novos episódios. Aferição da glicemia O teste da glicemia capilar é feito com objetivo de verificar os níveis de açúcar no sangue em determinado momento do dia e para isso deve ser utilizado um aparelho de glicemia que realiza a análise de uma pequena gota de sangue que é retirada da ponta do dedo. • Lavar as mãos e secar corretamente; calçar luvas de procedimento. • Inserir uma fita de teste no aparelho de glicemia; • Espetar o dedo com a agulha do aparelho; • Encostar a fita de teste à gota de sangue até preencher o depósito da fita de teste; • Esperar alguns segundos até que o valor de glicemia apareça no monitor do aparelho. Referências CUNHA et al. Emergências Glicêmicas, 2018. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/04/882997/05- emergencias-glicemicas.pdf Acessado em: 02 de novembro de 2023. PAIVA et al. Orientações para o tratamento da hipoglicemia em adultos com diabetes. Revista Portuguesa de Diabetes, v. 16, n. 4, 2021. SILVEIRO, Sandra P.; SATLER, Fabíola. Rotinas em endocrinologia. Grupo A, 2015. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Gota ↠ A gota, ou artropatia por deposição de cristais de monourato de sódio, é uma doença metabólica e inflamatória, caracterizada por crises recorrentes de mono ou oligoartrite, geralmente autolimitadas, que podem evoluir para artrite persistente. O aumento do ácido úrico sérico > 7 mg/dL pode levar à sua supersaturação e consequente deposição tecidual em cristais de monourato de sódio. Esses cristais podem desencadear respostas inflamatórias, geralmente monoarticulares e de rápida instalação, e, ao longo dos anos, o surgimento de tofos e nódulos, em geral subcutâneos, mas que podem ocorrer em qualquer órgão ou tecido. A gota tofácea crônica é a apresentação tardia da doença na forma de artropatia crônica, por vezes poliarticular e simétrica, com predomínio em membros superiores, à semelhança da artrite reumatoide. A hiperuricemia crônica também pode causar nefropatia por urato e urolitíase. • Mais comum em homens; • Entre 40 e 60 anos; • Em mulheres geralmente aparece após a menopausa já que o estrogênio tem efeito uricosúrico. Aumento da produção e/ou redução da excreção do ácido úrico. FATORES DE RISCO ETIOPATOGENIA ↠ Os níveis elevados de ácido úrico podem resultar da produção excessiva, da redução da excreção ou de ambas. Os níveis de ácido úrico são determinados por vários fatores: (KUMAR et al., 2023). • Produção de ácido úrico. A síntese de urato representa o produto do catabolismo das purinas. As próprias purinas são o produto de duas vias interligadas: a via de novo, em que ocorre síntese de nucleotídios de purina a partir de precursores não purínicos, e as vias de recuperação, em que os nucleotídios são sintetizados a partir de bases de purina livres na dieta e naquelas geradas pelo catabolismo de nucleotídios de purina. • Excreção de ácido úrico. No rim, o ácido úricoé filtrado pelos glomérulos, porém é quase totalmente reabsorvido pelo túbulo proximal. A pequena fração de ácido úrico total presente na urina é o resultado da secreção no néfron distal. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS o Hiperuricemia assintomática: aumento de ácido úrico sem artrite, tofos ou cálculos. o Artrite: dor intensa de início súbito. 80% dos casos são monoartrite. É recorrente, tendo intervalos assintomáticos. Melhora em 3 a 10 dias. 50% dos casos – primeiro metatarso. ARTRITE: Há fagocitose dos cristais por neutrófilos no espaço sinovial. Os cristais de urato ativam leucócitos após serem fagocitados, liberando substâncias inflamatórias. o Período intercrítico: paciente não tem sintomas. Com o tempo as resoluções passam a não ser completas. o Gota tofosa crônica: deposição de cristais de urato nas cartilagens, tendões e partes moles. Os tofos podem sofrer ulceração, com drenagem da substância. Doenças inflamatórias articulares 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck As outras regiões acometidas são, em ordem de frequência, tornozelo ou joelho (37%), cotovelos, punhos ou mãos (15%) e apresentação poliarticular (9%). Crises simultâneas em mais de uma região são mais frequentes em pacientes idosos. Tofos surgem após vários anos de doença, nas orelhas e próximo às articulações das mãos, dos pés e dos cotovelos. DIAGNÓSTICO ↠ Uma anamnese abrangente deve permitir estabelecer o perfil do paciente, a partir de idade, sexo e outros fatores de risco antes descritos, como comorbidades, padrões alimentares e de consumo de álcool, medicamentos em uso e história ocupacional. A identificação de episódios prévios semelhantes, a evolução de crises agudas e o acometimento de outros sistemas são muito importantes no diagnóstico diferencial. Um estudo para estabelecimento de regra diagnóstica de gota a partir de população de serviços de APS, posteriormente validada em coorte na atenção secundária, propôs escores com base essencialmente em 6 critérios clínicos e na dosagem de ácido úrico: (DUCAN et al., 2022). o sexo masculino (2 pontos); o episódio prévio de crise de artrite relatado pelo paciente (2 pontos); o desenvolvimento do quadro dentro de 1 dia (0,5 ponto); o articulação hiperemiada (1 ponto); o envolvimento da primeira articulação metatarsofalângica (2,5 pontos); o hipertensão ou pelo menos uma doença cardiovascular (1,5 ponto) – inclui cardiopatia isquêmica, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório, doença arterial periférica; o ácido úrico sérico > 5,88 (3,5 pontos). Pacientes com escore ≤ 4 têm baixa probabilidade de terem gota (valor preditivo negativo de 95%). Pacientes com escore > 4 econdutas de atenção primária baseadas em evidências. Grupo A, 2022. KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran Patologia: Bases Patológicas das Doenças. Grupo GEN, 2023. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ A doença de Parkinson (DP) é a segunda doença neurodegenerativa mais comum depois da doença de Alzheimer (DUCAN et al., 2022). ↠ A doença é universal, acometendo todos os grupos étnicos e classes socioeconômicas, com uma leve predominância no sexo masculino. Sua incidência e prevalência aumentam exponencialmente com a idade, acometendo 1 a 3% da população com idade > 65 anos (DUCAN et al., 2022). Idade 50 a 80 anos (pico na sétima década de vida – 60 e 70 anos). ↠ Apresenta padrão complexo, e fatores genéticos, epigenéticos e ambientais contribuem para seu surgimento. Cerca de 20% dos casos têm história familiar (PORTO, 2022). Etiopatogenia ↠ A mudança neuropatológica mais marcante na DP é a perda dos neurônios dopaminérgicos da via nigroestriatal, gerando depleção da dopamina cerebral e, consequentemente, emergência dos sintomas motores. Estima-se que, quando os pacientes se tornam sintomáticos, 60 a 80% dessa população neuronal tenha sido danificada de modo irreversível (DUCAN et al., 2022). ↠ Outra característica da doença é a presença de inclusões eosinofílicas, conhecidas como corpúsculos de Lewy, nos neurônios em processo de degeneração. Esses corpúsculos contêm proteínas neurofilamentares hiperfosforiladas, lipídeos, ferro, ubiquitina e α-sinucleína e também podem ser encontrados na medula espinal e no sistema nervoso periférico, incluindo o nervo vago, o plexo cardíaco, o sistema nervoso entérico, etc (DUCAN et al., 2022). A primeira hipótese sugere que a disfunção mitocondrial e o estresse oxidativo sejam fundamentais à patogenia, enquanto também existe evidência de que a conformação e a agregação anormais das proteínas sejam essenciais ao processo neurodegenerativo da DP. Essas duas hipóteses não se excluem mutuamente e as interações desses fatores patogênicos provavelmente são importantes ao entendimento dos mecanismos da neurodegeneração associada à DP (LOUIS et al., 2018). As síndromes parkinsonianas podem ser divididas em quatro grupos: idiopática, secundária, parkinsonismo atípico (plus) e genéticas (ESTRATÉGIAMED). Doença de Parkinson 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Quadro clínico ↠ As manifestações clínicas da doença de Parkinson dividem-se em motoras e não motoras, e cada uma delas em precoces e tardias (ESTRATÉGIAMED). ↠ As alterações motoras ocorrem por perda de neurônios dopaminérgicos da substância negra do mesencéfalo, enquanto os sintomas não motores serão decorrentes de disfunção em outros neurotransmissores (ESTRATÉGIAMED). ALTERAÇÕES MOTORAS PRECOCES ↠ O sintoma mais prevalente é a bradicinesia, que deve ser sempre assimétrica. É a diminuição progressiva da velocidade e amplitude dos movimentos alternados e repetitivos. IMPORTANTE: A bradicinesia ou oligocinesia é caracterizada pela lentificação dos movimentos voluntários, tanto no seu início quanto na sua execução e na sua mudança de padrão. É o sinal obrigatório na síndrome parkinsoniana (ESTRATÉGIAMED). A bradicinesia não se restringe apenas à lentificação de movimentos voluntários. Ela está presente na diminuição do balanço passivo dos membros ao caminhar, na redução da expressão facial, gerando uma fácies típica (hipomímica), na diminuição do volume da emissão da voz (hipofonia), do piscamento e do tamanho da caligrafia (micrografia) (ESTRATÉGIAMED). ↠ Podemos testá-la pedindo ao paciente que bata o seu indicador no polegar da mesma mão repetidas vezes, o mais rápido possível. Na síndrome parkinsoniana, esse movimento vai ficando cada vez mais lento (ESTRATÉGIAMED). ↠ O tremor de repouso e reemergente característico é também assimétrico. O tremor pode aparecer ao realizar movimentos ou ao sustentar o membro em algumas posturas, mas sem dúvida é mais intenso ao repouso. Para avaliar com mais facilidade o tremor, podemos observar o paciente enquanto caminha e pedir que ele faça alguma tarefa mental que o distraia (ESTRATÉGIAMED). • Movimento involuntário, rítmico, oscilatório. Na síndrome parkinsoniana, o tremor é de alta amplitude e baixa frequência. Quando o polegar e o indicador se aproximam, ocorre um movimento de flexão e extensão do indicador, produzindo um movimento que se assemelha ao ato de “contar moedas” ou “enrolar pílulas”, na frequência de 4-7 Hz (vezes por segundo). Ele pode surgir alguns segundos após o paciente assumir determinadas posturas (tremor reemergente). Esse movimento involuntário tende a desaparecer completamente durante o sono (ESTRATÉGIAMED). ↠ A rigidez, do tipo plástica ou cérea, é observada quando se deixa o membro do paciente em determinadas posições e assim ele poderá ficar por um tempo. Durante a manobra de movimentação passiva, o examinador pode perceber que não importa com que velocidade ele teste o paciente, a resistência será sempre igual ao longo do movimento, mas de caráter assimétrico. Além disso, as interrupções periódicas e transitórias caracterizarão o sinal da roda denteada (ESTRATÉGIAMED). • Aumento do tônus muscular, com resistência na movimentação passiva de um segmento ao longo de todo o movimento (“cano de chumbo”). Rigidez em roda denteada – sobreposição do tremor e da rigidez. Sinal da roda denteada: durante essa movimentação passiva, ocorre uma perda periódica rápida da resistência, criando uma sensação de que o examinador está movimentando uma engrenagem (ESTRATÉGIAMED). 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck ALTERAÇÕES MOTORAS TARDIAS ↠ Após pelo menos três anos do início dos sintomas motores, podemos encontrar certas alterações do equilíbrio e da marcha (ESTRATÉGIAMED). ↠ O mais comum é a tendência à queda para trás durante o pull test. Dizemos que ele é positivo quando o paciente cai ou precisa dar dois ou mais passos para trás para se equilibrar. Seu significado é de perda dos reflexos posturais (ESTRATÉGIAMED). ↠ A postura fletida do tronco para frente, que, quando exagerada, chama-se camptocormia, e a inclinação para um dos lados (sinal de Pisa) são exemplos clássicos de alterações de equilíbrio vistos em pacientes com doença de Parkinson (ESTRATÉGIAMED). ↠ Os distúrbios da marcha são bastante típicos. Um deles é conhecido como festinação. O paciente com festinação dá passos curtos e rápidos, com os pés próximos (base estreita) e de forma que parece estar tentando correr em busca do seu centro de gravidade (ESTRATÉGIAMED). Sinais acessórios: derivam principalmente da bradicinesia e da rigidez. Caracterizam-se por postura flexora, marcha em pequenos passos (petit pass), freezing de marcha (condição em que o paciente fica preso ao chão como que congelado sem conseguir sair do lugar), fácies em máscara ou cérea, fala monótona e hipofônica, disfagia, passos rápidos com tendência à inclinação do corpo para a frente (festinação), micrografia (PORTO, 2022). • Tremor + bradicinesia = freenzen. • Freenzen + rigidez postural = virada em bloco. reflexo orbicular dos olhos ou glabelar é inesgotável. ALTERAÇÕES NÃO MOTORAS Diagnóstico ↠ O diagnóstico da DP é baseado na história e no exame físico do paciente. Os critérios do Brain Bank da Parkinson’s Disease Society do Reino Unido ainda são os mais utilizados na prática clínica e incluem três etapas para o processo diagnóstico: o diagnóstico da síndrome parkinsoniana, a exclusão de achados que sugiram causa alternativa de parkinsonismo e a presença de critérios prospectivos de suporte para DP (DUCAN et al., 2022). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck SINAIS DE ALERTA (AFASTA PARKINSON):sinais simétricos, praxia, demência precoce (suspeitar de demência de Lewy), disautonomia. À suspeição diagnóstica, o paciente deve ser encaminhado ao neurologista para avaliação complementar. A diretriz do National Institute for Health and Care Excellence (Nice) propõe que o tempo de encaminhamento deve ser inferior a 6 semanas, não devendo exceder mais de 2 semanas caso a condição seja grave ou complexa (DUCAN et al., 2022). A levodopa é uma medicação usada no tratamento da doença de Parkinson. Ela pode ser usada quase como um teste terapêutico. A ausência de resposta à levodopa em doses elevadas obriga-nos a considerar diagnósticos alternativos. A resposta ao tratamento não é específica da doença de Parkinson, podendo ocorrer em outras síndromes parkinsonianas (ESTRATÉGIAMED). DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ↠ A DP é a forma mais comum de parkinsonismo, representando 80% dos casos. Os diagnósticos diferenciais principais são as outras formas de parkinsonismo, como parkinsonismo secundário, síndromes parkinsonianas-plus e outras doenças heredodegenerativas com manifestações similares (DUCAN et al., 2022). • Infeccioso e pós-infeccioso: encefalites, pós- encefalites, doenças priônicas, complexo AIDS- demência • Uso de medicamentos: neurolépticos, cinarizina, flunarizina, reserpina, tetrabenazina, alfametildopa, lítio, antidepressivos, anticolinesterásicos, antieméticos, anticonvulsivantes, antiarrítmicos. • Distúrbios vasculares: AVC, multi-infarto, encefalopatia de Binswanger • TCE: agudo, encefalopatia pungilística, hematoma subdural crônico • Hidrocefalia de pressão normal • Deficiência vitamínica. EXAMES COMPLEMENTARES ↠ O diagnóstico da DP é clínico, sendo os exames úteis apenas para excluir outras causas de parkinsonismo (PORTO, 2022). ↠ Assim, recomenda-se solicitar hemograma, Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) e teste de imunofluorescência indireta (anticorpo treponêmico fluorescente absorvido [FTA-ABS]), vitamina B12, hormônio estimulante da tireoide (TSH [do inglês, thyroid- stimulating hormone]), eletrólitos, e provas de função hepática e renal (DUCAN et al., 2022). ↠ Estudos de neuroimagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética de crânio, podem ser úteis ao sugerir diagnósticos diferenciais, como hidrocefalia de pressão normal, parkinsonismo vascular, paralisia supranuclear progressiva e atrofia de múltiplos sistemas. Estudos com tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT [do inglês, single-photon emission computed tomography]) utilizando traçadores para transportador de dopamina (TRODAT]) também podem ser vantajosos em casos de suspeita de tremor essencial ou de parkinsonismo psicogênico (DUCAN et al., 2022). O ideal é chamar TC de crânio e RM de encéfalo. Tratamento ↠ A abordagem para o tratamento da doença de Parkinson deve ser altamente individualizada. É importante compreender que não existe um tratamento que possa impedir totalmente a progressão da doença. O tratamento meramente controla os sintomas (NORRIS, 2021). Programas de reabilitação: valorizar o tratamento multiprofissional, incluindo fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicoterapia, musicoterapia. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck Inibidores da MAO ↠ Existem dois tipos de monoaminoxidase (MAO) no sistema nervoso: a MAO-A, que metaboliza a norepinefrina, a serotonina e a dopamina, e a MAO-B, que metaboliza seletivamente a dopamina (KATZUNG; VANDERAH, 2023). A administração combinada de levodopa e de um inibidor de ambas as formas de MAO (i.e., um inibidor não seletivo) deve ser evitada, visto que pode levar a crises hipertensivas, provavelmente em virtude do acúmulo periférico de norepinefrina (KATZUNG; VANDERAH, 2023). Agonistas dopaminérgicos ↠ Agonistas dopaminérgicos atuam diretamente sobre o receptor dopaminérgico, estimulando-o. Essas medicações podem causar sonolência, edema e, em pacientes com mais de 65 anos, comprometimento cognitivo. O principal representante é o pramipexol, cuja dose inicial é de 0,125 mg, duas vezes ao dia (ESTRATÉGIAMED). Levodopa ↠ A dopamina não atravessa a barreira hematencefálica e, quando administrada na circulação periférica, não exerce nenhum efeito terapêutico no parkinsonismo. Entretanto, a (–)-3-(3,4-di-hidroxifenil)-L-alanina (levodopa), o precursor metabólico imediato da dopamina, entra efetivamente no cérebro (por meio de um transportador de L-aminoácidos, LAT [do inglês L-amino acid transporter]), onde é descarboxilada a dopamina (KATZUNG; VANDERAH, 2023). Quando utilizada, a levodopa é geralmente administrada em associação com a carbidopa, um inibidor periférico da dopa-descarboxilase, que diminui a conversão periférica em dopamina (KATZUNG; VANDERAH, 2023). EFEITOS COLATERAIS: Ocorrem discinesias em até 80% dos pacientes que recebem terapia com levodopa por mais de 10 anos. A natureza das discinesias causadas pela levodopa varia entre pacientes, mas tende a permanecer constante em cada um deles. A coreoatetose da face e da parte distal dos membros constitui a apresentação mais comum. O desenvolvimento de discinesias está relacionado com a dose, porém existe uma considerável variação individual na dose necessária para produzi-las. Sua patogênese é desconhecida, mas pode estar relacionada à distribuição desigual de dopamina no estriado (KATZUNG; VANDERAH, 2023). ↠ O uso prolongado da levodopa e a progressão da perda neuronal em pacientes com doença de Parkinson podem levar a complicações crônicas, sendo as mais importantes as discinesias, o fenômeno wearing off e o fenômeno on-off (ESTRATÉGIAMED). O fenômeno wearing off refere-se ao encurtamento do tempo de ação da levodopa, causando a necessidade de antecipar-se a próxima dose para que o efeito seja mais satisfatório. O on-off é a perda abrupta da ação da levodopa, podendo causar, por exemplo, o congelamento da marcha (freezing) (ESTRATÉGIAMED). TRATAMENTO CIRÚRGICO ↠ O tratamento cirúrgico para a DP é indicado para os pacientes com controle insatisfatório dos sintomas motores – flutuações (deterioração de final de dose, efeito on-off), discinesias, tremor – apesar do tratamento clínico otimizado. Entre as alternativas disponíveis, a estimulação profunda do globo pálido ou do núcleo subtalâmico continua sendo a mais utilizada (DUCAN et al., 2022). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck Referências DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria I.; GIUGLIANI, Elsa R J.; et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. Minha biblioteca, 5ª edição. Grupo A, 2022. PORTO, Celmo C.; PORTO, Arnaldo L. Clínica Médica na Prática Diária. Grupo GEN, 2022. LOUIS, Elan D.; MAYER, Stephan A.; ROWLAND, Lewis P. Merritt - Tratado de Neurologia, 13ª edição. Grupo GEN, 2018. NORRIS, Tommie L. Porth - Fisiopatologia. Grupo GEN, 2021. KATZUNG, Bertram G.; VANDERAH, Todd W. Farmacologia básica e clínica. Grupo A, 2023. . 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Na realidade, a terminologia DDQ descreve o amplo espectro de alterações que atingem o quadril em crescimento, desde a displasia até à luxação da articulação, passando pelos diferentes graus de subluxação da coxofemoral. Espectro de anormalidades anatômicas do quadril: quadril displásico (com deformidade no acetábulo) até um quadril totalmente luxado. Maior estabilidade: flexão, abdução e rotação externa. cabeça do fêmur + encaixado no acetábulo. Maior instabilidade: flexão, adução e rotação interna. o Sexo feminino; o 60% acomete apenas o quadril esquerdo; FATORES DE RISCO • Apresentação pélvica (principalmente, incompleta de nádegas); • Sexo feminino; • História familiar; • Técnica de swaddling – charutinho;• Abdução limitada do quadril; • Oligodrâmnio. CONDIÇÕES ASSOCIADAS • Torcicolo congênito e metatarso aduzido. ANAMNESE • História gestacional/ nascimento/ desenvolvimento; • A termo? Pré-termo? Pélvico? Cefálico? Alto peso? Casos na família? Condições associadas? Sentou, engatinhou no período certo? EXAME FÍSICO O exame do quadril do recém-nascido deverá, portanto, ser rotineiro e enfatizado ainda no berçário e, também, no seguimento ambulatorial da criança, nas primeiras semanas e meses de vida. é uma manobra provocativa da luxação de um quadril instável. O teste de Barlow determinará o potencial para a luxação do quadril examinado. Com as articulações coxofemorais e o joelho fletido, empurrar posteriormente o fêmur com o quadril fletido e a coxa em adução. Positivo se o quadril for deslocável. Colocar o polegar na parte interna da coxa do recém-nascido e posicionar os outros dedos sobre o grande trocanter. Com as articulações coxofemorais e o joelho fletido, realiza-se o movimento de abdução e elevação. O sinal de Ortolani é um teste de redução do quadril, ou seja, quando um recém-nascido com a articulação coxofemoral luxada é examinado, a cabeça femoral é reduzida no acetábulo com a manobra, assim sendo demonstrada a luxação. Displasia do Desenvolvimento do Quadril 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck IMPORTANTE: Com o crescimento da criança e o quadril luxado, os sinais clínicos tornam-se mais óbvios. Com o passar do tempo, torna-se mais difícil e impossível a redução da luxação pela manobra de Ortolani, passando, então, este sinal a ser negativo. A limitação da abdução tornase maior. Entre os três e os seis meses de idade, a redução do quadril de uma criança acordada poderá ser difícil; por isto, nesta faixa etária não é comum encontrarmos crianças com o sinal de Ortolani positivo. Portanto, neste grupo, a manobra de Ortolani perde o seu valor diagnóstico. limitação de abdução com tensão dos adutores na raiz da coxa. A criança é posicionada como mostrado. O joelho é mais baixo do lado afetado em razão do deslocamento posterior no quadril displásico (seta). consiste em colocar o dedo indicador na espinha ilíaca ântero-superior e o dedo médio sobre o grande trocânter. Numa criança sem DDA, uma linha imaginária entre estes pontos passa através ou por cima do umbigo. Quando essa linha imaginária passa abaixo do umbigo, o sinal é positivo e sugestivo de DDA. Este sinal pode ser particularmente útil na presença de luxação bilateral quando a abdução é simétrica e o sinal de Galeazzi negativo. Como a coxa está encurtada, haverá mais dobras no lado afetado do que no lado normal. Embora esse sinal esteja sempre presente com uma luxação unilateral, dobras extras da coxa são uma variante normal comum e não indicam necessariamente a luxação do quadril. é dito positivo se, quando o quadril de um paciente que está de pé sustentado por somente uma perna, cai para o lado da perna levantada. A fraqueza é presente no lado da perna em contato com o chão. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ De qualquer forma, acreditamos que o médico berçarista, ou o neonatologista, deverá enviar a criança para consulta especializada com o ortopedista nas seguintes eventualidades: • achados clínicos de instabilidade ou de luxação do quadril; • nos casos de dúvida; • os pacientes de “alto risco” – parto pélvico, primeira gestação, mãe jovem, antecedentes familiares – independentemente do resultado do exame físico efetuado. TESTES PRIORITÁRIOS DE ACORDO COM CADA PERÍODO 0-3 meses 3 meses - marcha Após a marcha Ortolani Klisic Klisic Barlow Hart Hart Klisic Galeazzi Galeazzi Trendelenburg Hiperlordose lombar EXAMES COMPLEMENTARES • US do quadril • Radiografia do quadril ↠ A radiografia convencional tem um valor limitado na confirmação diagnóstica da DDQ nos recém-nascidos, pois as epífises femorais proximais (cabeças dos fêmures) não estão ossificadas até os quatro a seis meses de vida. Por outro lado, a ultrassonografia do quadril do neonato tem um potencial óbvio nas crianças desta faixa etária, pois evidenciará claramente as estruturas cartilaginosas que são precariamente delineadas pela radiografia simples. A radiografia da bacia começará a ser útil para a confirmação da DDQ mais tarde, após os quatro meses de idade da criança. Ressaltamos que o núcleo de ossificação da cabeça femoral será radiograficamente visível a partir do quarto ou sexto mês de vida. Na avaliação radiográfica para o diagnóstico da DDQ, nos primeiros meses de vida, temos que lançar mão de medidas e sinais indiretos, tais como: linhas dos quadrantes, linha horizontal de Hilgenreiner e linha vertical de Perkins, linha de Shenton e o índice acetabular. TRATAMENTO ↠ Classicamente, dividimos as possibilidades do tratamento de acordo com as diferentes faixas etárias, por ocasião do diagnóstico. • Tratamento do recém-nascido até aos três meses de vida: O tratamento é indicado tão cedo o diagnóstico tenha sido realizado. Atualmente, a órtese mais comumente usada é o suspensório de Pavlik. Esta órtese proporciona a simultânea flexão e abdução da articulação coxofemoral graças às tiras que se unem com relativa facilidade. • Tratamento dos três meses de vida até a idade da marcha: Nesta faixa etária a maioria dos pacientes com DDQ poderá ser tratada com a redução incruenta (fechada) e a imobilização em aparelho gessado pelvipodálico. • Tratamento após a idade da marcha: Esta necessidade não deveria existir, pois o ideal é que o diagnóstico seja efetuado bem antes desta faixa etária; entretanto, em algumas crianças, pode ocorrer a falha tanto do diagnóstico como do consequente tratamento precoce. Pode ser indicada a tentativa de redução fechada (incruenta) ou, então, a redução aberta (cruenta) será praticamente obrigatória. Referência GUARNIERO, R. Displasia do desenvolvimento do quadril: atualização. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 45, n. 2, 2010. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Demências ↠ A demência consiste em qualquer processo neuropatológico que cause significativo declínio das funções cognitivas, levando um indivíduo à perda de sua independência funcional. Esse declínio cognitivo-funcional deve ser necessariamente de natureza cerebral “orgânica”. Ou seja, na demência – apesar de exames de neuroimagem não serem necessários (seu diagnóstico sindrômico é clínico) nem suficientes (muitos pacientes com lesão cerebral identificável não possuem demência) –, a maioria dos pacientes que atinge esse estágio de declínio cognitivo já possui alguma lesão cerebral identificável (DUCAN et al., 2022). ↠ Demência pode ser definida como uma síndrome caracterizada pelo declínio progressivo e global de memória, associado ao déficit de uma ou mais funções cognitivas (linguagem, agnosia, apraxias, funções executivas), com uma intensidade que possa interferir no desempenho social diário ou ocupacional do indivíduo (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ As síndromes demenciais podem ser classificadas em duas categorias: degenerativas e não degenerativas. As demências não degenerativas são decorrentes de acidentes vasculares, processos infecciosos, traumatismos, deficiências nutricionais, tumores, dentre outras patologias. Já as demências degenerativas têm sua origem predominantemente cortical, como a Doença de Alzheimer (DA); e subcortical, como a doença de Huntington. Esta divisão entre demência cortical e subcortical é baseada na localização da lesão da enfermidade (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ O diagnóstico etiológico se baseia em exames laboratoriais, de neuroimagem, sendo importante contar com a constatação do perfilneuropsicológico característico. Esses aspectos são importantes para o diagnóstico diferencial das demências, do qual fazem parte a Demência do Corpo de Lewy (DCL), Demência Frontotemporal (DFT), Demência Vascular (DV) e Doença de Alzheimer (DA) (ARAÚJO; NICOLI, 2010). DOENÇA DE ALZHEIMER ↠ Quanto ao curso clínico, a DA tem um início insidioso e de deterioração progressiva. O prejuízo de memória é o evento clínico de maior magnitude inicialmente (ARAÚJO; NICOLI, 2010). • Comprometimento de memória episódica (memória recente/repetição de perguntas). ↠ Pode ser dividida em três estágios: (ARAÚJO; NICOLI, 2010). • inicial, com duração de dois a três anos, com sintomas vagos e difusos, em que há perda de memória episódica e grande dificuldade de aprendizagem de novos eventos. Evoluindo gradualmente, levando a prejuízos mais sérios em outras funções cognitivas: como o julgamento, raciocínio, habilidades visuo-espaciais. • Nos estágios intermediários, com duração de dois a dez anos, ocorrerá progressivamente uma afasia fluente (alteração ou perda da capacidade de falar ou de compreender a linguagem falada e/ou escrita), agnosia (dificuldade na nomeação de objetos e na forma de expressar ideias e palavras), e apraxia (incapacidade de executar movimentos voluntários coordenados, embora as funções musculares e sensoriais estejam conservadas). Sintomas extrapiramidais podem ocorrer como: alterações na postura, aumento no tônus muscular, comprometimento da marcha e desequilíbrio. • Nos estágios terminais, de oito a doze anos, todas as funções cerebrais estão amplamente afetadas, verificando-se alterações marcantes no ciclo sono-vigília, alterações comportamentais, irritabilidade, agressividade, sintomas psicóticos, incapacidade para deambular, falar e realizar cuidados pessoais, ou seja, com progressiva deterioração da memória e da execução das atividades de vida diária (AVD), o que insere a DA entre os quadros progressivos irreversíveis. É importante ressaltar que o tempo de progressão da demência é variável de acordo com cada indivíduo, podendo muitas vezes não preencher as medianas temporárias acima citadas nos estágios iniciais, intermediários e terminais (ARAÚJO; NICOLI, 2010). atrofia cortical macroscópica – áreas hipocampais. Demência e Delirium 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck RM de encéfalo: atrofia cortical difusa. Ventriculomegalia – compensatória. Tratamento farmacológico: inibidores de colinesterase; antagonistas dos receptores do glutamato. DEMÊNCIA VASCULAR ↠ O termo Demência Vascular tem ampla conotação, referindo-se a quadros demenciais causados pelas Doenças Cerebrovasculares, que podem ser aceitos como fatores desencadeantes para a evolução das demências (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ A DV pode ser classificada como a segunda maior causa de quadros demenciais. Tipicamente, a doença apresenta um início mais agudo que a DA, com curso de deterioração em degraus, com períodos abruptos seguidos de períodos de estabilidade (ARAÚJO; NICOLI, 2010). • Sintomas neurológicos focais (hemiparesia, ataxia, hemianopsia, e/ou alterações como afasia e heminegligência). • Fatores de risco: HAS, DM e tabagismo. • Reforçam o diagnóstico: relato de desequilíbrio; urgência miccional; • O tratamento visa combater ou evitar os fatores de risco. DEMÊNCIA FRONTOTEMPROAL ↠ É caracterizada por uma síndrome neuropsicológica marcada pela disfunção dos lobos frontais e temporais, associada geralmente à atrofia destas estruturas e com uma parcial preservação das regiões cerebral posterior (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ A DFT tem início insidioso e caráter progressivo, com um discreto comprometimento da memória episódica, mas com importantes alterações comportamentais, de personalidade e alterações na linguagem. As alterações comportamentais podem ser: isolamento social, apatia, perda de crítica, desinibição, impulsividade, irritabilidade, inflexibilidade mental, sinais de hiperoralidade (ARAÚJO; NICOLI, 2010). • Variante comportamental; • Diminuição da empatia; • Afeto inapropriado; • Perda da autocrítica; • Apatia; • Hipersesualixade (acometimento orbitofrontal); • RM: atrofia assimétrica dos lobos frontais e temporais. • Laboratorial: proteínas anômalas. • O tratamento não é específico. DEMÊNCIA POR CORPOS DE LEWY ↠ Está associada à terceira causa mais frequente de demência. É caracterizada por quadros em que ocorrem flutuações dos déficits cognitivos em questão de minutos ou horas, alucinações visuais bem detalhadas ou claras, vividas e recorrentes; com sintomas parkinsonianos leves, sintomas esses que não respondem bem à medicação antiparkinsoniana, já que os pacientes normalmente não apresentam tremor, mas apresentam rigidez e distúrbio na marcha (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ Os eventos patológicos que acontecem nesse tipo de demência são os corpúsculos de Lewy, sendo inclusões intracitoplasmáticas eosinofílicas hialinas, encontradas no córtex cerebral, no tronco encefálico, espaços neocorticais (ARAÚJO; NICOLI, 2010). A Demência por Corpos de Lewy pode ser confundida e/ou associada à Parkinson. O que deve ser de extrema importância é a diferenciação no diagnóstico do paciente (ARAÚJO; NICOLI, 2010). • Regiões parietais posteriores e occipitais. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck Diagnóstico das demências ↠ O diagnóstico diferencial das demências se baseia na história clínica, nos exames laboratoriais e de imagem, no exame neurológico, na diferenciação do perfil característico à avaliação neuropsicológica (ARAÚJO; NICOLI, 2010). ↠ O exame clínico do paciente com suspeita de demência envolve quatro etapas: anamnese, exame físico (exame neurológico dirigido), testagem neuropsicológica e exames complementares (DUCAN et al., 2022). ANAMNESE • Perguntar aos familiares quando perceberam as primeiras alterações cognitivas. • Indagar sobre qual foi a primeira alteração notada e qual foi a sequência das perdas cognitivas e motoras, incluindo alteração de marcha, continência urinária e deglutição. Frequentemente, a família associa esse momento de piora das funções cognitivas a um evento na vida familiar, como perda do cônjuge, ou, então, a uma intercorrência médica, como um episódio de delirium seguido de recuperação incompleta da capacidade cognitivo-funcional prévia. É importante que o clínico, ao mesmo tempo que saiba valorizar essas informações, tente encaixá-las em um contexto de “agudização” de um quadro lento, mas perceptível, de declínio cognitivo-funcional prévio, o qual a família pode não ter valorizado o suficiente, confundindo-o com o envelhecimento “normal” (DUCAN et al., 2022). EXAME FÍSICO ↠ O exame neurológico sumário, dirigido para alguns sinais frequentemente encontrados em quadros demenciais, é sempre muito útil no diagnóstico diferencial das demências (DUCAN et al., 2022). A presença precoce de apraxia da marcha em um quadro demencial praticamente exclui a possibilidade de tratar-se de doença de Alzheimer, ao menos em sua forma pura, não associada à demência vascular. A grande maioria dos pacientes que se apresentam com disfunção cognitiva e apraxia de marcha precoce tem demência vascular, especialmente se houver história de hipertensão, diabetes ou tabagismo (DUCAN et al., 2022). É importante avaliar também se há rigidez de membros, e se essa rigidez é ou não simétrica. Rigidez assimétrica associada à bradicinesia sugere doença de Parkinson, na qual também pode estar presente tremor de repouso. Instabilidade postural e quedas precoces sugerem outra síndrome parkinsoniana associada ao quadrodemencial, como parkinsonismo vascular, demência com corpúsculos de Lewy e causas de parkinsonismo atípico com demência (DUCAN et al., 2022). TESTAGEM NEUROPSICOLÓGICA ↠ A testagem neuropsicológica visa complementar aspectos que dificilmente são fornecidos de maneira adequada por familiares. Uma avaliação neuropsicológica breve, realizada por um clínico treinado, pode ser realizada em cerca de 15 minutos. Podem ser utilizados dois instrumentos práticos: o miniexame do estado mental (MEEM) e o teste do desenho do relógio (DUCAN et al., 2022). ↠ O MEEM consiste em um teste com escore entre 0 e 30 pontos, e avalia: orientação no tempo e no espaço, registro imediato e evocação de 3 palavras, atenção e cálculo, linguagem, execução de comandos e cópia de desenho. O registro imediato, a atenção e o cálculo avaliam, inclusive, memória de trabalho. A cópia do 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck desenho é o único teste de função visuoespacial. É um bom método de rastreamento para demências em geral, no entanto, como a maioria dos testes cognitivos, seus pontos de corte são altamente sujeitos à influência da escolaridade (DUCAN et al., 2022). ↠ A maior crítica ao MEEM é o fato de não avaliar suficientemente as funções executivas e visuoespaciais, motivo pelo qual recomendamos que seja sempre complementado pelo simples e eficiente teste do desenho do relógio (DUCAN et al., 2022). No MEEM a avaliação da memória de curto prazo – principal implicada na doença de Alzheimer – se dá apenas com o uso de 3 palavras. Por esse motivo, a lista de palavras do Consortium to Establish a Registry for Alzheimer’s Disease (CERAD) é um excelente complemento para a avaliação da memória de curto prazo na suspeita de Alzheimer em fase inicial. São apresentadas, uma a uma, 10 palavras não relacionadas para serem lidas em voz alta pelo examinando (ou examinador, caso a leitura esteja prejudicada) a um ritmo de uma palavra a cada 2 segundos. Terminada a leitura, é feita a evocação, por um período máximo de 90 segundos, não importando a ordem. O procedimento é repetido, com as palavras em outra ordem, mais 2 vezes. A pontuação máxima é de 30 pontos, sendo que o ponto de corte ≤ 13 pontos apresenta sensibilidade de 83% e especificidade de 77% para demência. Ademais, diferentemente do que ocorre na pseudodemência depressiva, no Alzheimer não costuma haver melhora progressiva no número de acerto nas três colunas (DUCAN et al., 2022). EXAMES COMPLEMENTARES ↠ Todo paciente com diagnóstico sindrômico de demência deve ser investigado para causas potencialmente reversíveis com os seguintes exames laboratoriais: (DUCAN et al., 2022). • tiroxina (T4) livre, hormônio estimulante da tireoide (TSH, do inglês thyroid-stimulating hormone); • glicemia de jejum; • vitamina B12, ácido fólico; • VDRL ou anticorpo treponêmico fluorescente absorvido; • creatinina (insuficiência renal crônica pode ser causa de demência reversível ou estar associada à demência vascular); • tempo de protrombina (insuficiência hepática pode contribuir para a disfunção cognitiva); • sódio para pacientes em uso de diuréticos ou carbamazepina (hiponatremia); • anti-HIV para todos os indivíduos com idadecomo idiopática (supostamente de origem genética) ou criptogênica (secundária a uma lesão pregressa indefinida) (LOUIS et al., 2018). DIAGNÓSTICO: O diagnóstico de epilepsia é estabelecido se um dos três critérios a seguir for cumprido: ocorrência de duas ou mais crises epilépticas não provocadas ou reflexas com intervalo de mais de 24 horas; uma única crise epiléptica não provocada ou reflexa em uma pessoa cujo risco de recorrência seja de pelo menos 60% nos próximos 10 anos (p. ex., tumor cerebral, hemorragia ou infecção); ou uma síndrome epiléptica conhecida (p. ex., epilepsia benigna com ondas agudas centrotemporais, epilepsia reflexa) (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). ATENÇÃO: O termo convulsão refere-se a uma manifestação motora, que pode ou não ser decorrente de uma crise epiléptica. Um paciente pode apresentar convulsão, por exemplo, durante um episódio de síncope, cuja causa é diferente de uma crise epiléptica (ESTRATÉGIAMED). Existe muita diferença entre convulsão febril e convulsão em vigência de febre. Na convulsão febril, a febre é considerada a causa da convulsão. Só acontece em crianças menores de 5 anos. Isso porque nesta idade o sistema nervoso ainda é considerado imaturo. Nestas crianças realizamos o EEG para confirmar nossa hipótese, e o EEG é normal. Confirmando que a febre causou a crise convulsiva. Tipicamente as crises convulsivas são generalizadas e rápidas, além de não se repetirem no mesmo dia. Quando demoradas ou focais são monitoradas com mais cuidado pelo neurologista por estar fugindo ao padrão típico da crise febril. Já qualquer criança ou adulto que possua epilepsia em seus diversos tipos pode ter crise no momento da febre, ou seja, crise em vigência de febre. A febre aqui não causou a crise convulsiva, apenas desencadeou o que já existia. Descompensou o quadro da epilepsia. E isso é muito comum, durante quadro febril nosso organismo sofre mudança no seu metabolismo. Perdemos a fome, aumentamos a sensação de sede, existe um aumento de diversas substâncias, além de anticorpos e imunoglobulinas. Uma verdadeira revolução que pode mudar o metabolismo das drogas usadas para o controle de crises. Neste caso a crise terá as características da epilepsia que a criança já possui, o EEG apresenta as alterações da epilepsia em questão. Classificação dos distúrbios epilépticos ↠ Em 2017, a Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) publicou uma nova classificação das crises epilépticas. De acordo com essa classificação, as crises epilépticas podem ser de quatro tipos (ESTRATÉGIAMED). o crises de início focal; o crises de início generalizado; o crises de início desconhecido; o crises não classificáveis. CRISES DE INÍCIO FOCAL ↠ As crises focais têm origem em uma área específica do córtex cerebral. Na nova classificação, o termo “crise parcial simples” foi substituído por “crise focal perceptiva (com percepção preservada)”, e as “crises parciais complexas” passaram a ser denominadas “crises focais disperceptivas (com comprometimento da percepção)” (DUCAN et al., 2022). Convulsão e Epilepsia 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ As crises focais perceptivas motoras (lobo frontal) podem ter início na mão, no pé ou na face. Quando propagadas de uma região corporal a outra em sequência, são denominadas jacksonianas. As crises focais somatossensoriais se caracterizam, em geral, por sintomas de dormência, pressão ou formigamento (córtex parietal), ou sintomas visuais (córtex occipital). As crises focais com sintomas psíquicos têm como manifestação inicial sensações afetivas (medo) ou transtorno transitório da compreensão da realidade, sensações de sonho (oníricas), estranheza e déjà-vu (sensação vívida de familiaridade com a cena visualizada no momento). Costumam ter início em estruturas do lobo temporal e, menos frequentemente, do lobo frontal (DUCAN et al., 2022). ↠ As crises focais disperceptivas envolvem perturbações de consciência, que podem ser incompletas, permitindo que o paciente prossiga sua atividade e dificultando a identificação da crise pelas pessoas que o cercam. Essas perturbações de consciência são distúrbios de contato do paciente com o ambiente, período durante o qual ele não tem perda total de consciência, embora geralmente tenha perda do registro da memória (DUCAN et al., 2022). Nas formas mais pronunciadas, vários tipos de movimentos automáticos (automatismos) acompanham a perturbação, como salivar, mastigar, despir-se, levantar-se e repetir palavras. Pode ocorrer amnésia de todo o período de duração da crise. As crises focais disperceptivas de lobo frontal são as de diagnóstico mais difícil. Trata- se de crises de agitação motora, muitas vezes bizarras, frenéticas, com movimentos de bater, pedalar, correr ou atirar-se no chão, ou vocalização bizarra, que muitas vezes podem sugerir crises não epilépticas psicogênicas (DUCAN et al., 2022). CRISES DE INÍCIO GENERALIZADO ↠ As crises generalizadas começam de modo simultâneo nos dois hemisférios cerebrais. No eletrencefalograma (EEG), desde o início da crise, ocorre atividade anormal sincrônica nos dois hemisférios (DUCAN et al., 2022). ↠ As crises generalizadas tônico-clônicas (antes denominadas “grande mal”) caracterizam-se por perda súbita de consciência, associada a uma contração tônica simultânea das quatro extremidades e da musculatura torácica, resultando em um grito. Seguem-se apneia, cianose, cerramento da mandíbula, mordedura da língua e fenômenos autonômicos, como perda de urina, evacuação, sialorreia e taquicardia. A fase tônica dura cerca de 20 segundos e é seguida por uma fase de contrações clônicas, às quais se segue um período de coma. A desorientação ou confusão que se segue ao coma é chamada de período pós-ictal e pode durar de poucos minutos a várias horas (DUCAN et al., 2022). ↠ As ausências típicas (antes chamadas de “pequeno mal”) constituem a forma mais comum de crises epilépticas generalizadas não motoras. Caracterizam-se por perdas súbitas de consciência, que duram de 2 a 20 segundos, em geral. Durante as crises, o paciente apenas parece desligar-se do ambiente, mantendo o olhar vago e não respondendo a estímulos. Podem ocorrer fenômenos motores breves, como piscamento das pálpebras, mastigação, deglutição e abalos clônicos da cabeça e, mais raramente, das extremidades. A perda de consciência não é sempre completa: alguns pacientes podem seguir, embora confusos, a atividade que estavam executando (DUCAN et al., 2022). Outros tipos de crises generalizadas, menos comuns, são as ausências atípicas, nas quais o comprometimento da consciência é, em geral, incompleto, e as crises podem ser mioclônicas, tônicas, clônicas e atônicas (DUCAN et al., 2022). As crises mioclônicas são abalos breves e repentinos, podendo ser isolados em um segmento (p. ex., na face) ou generalizados. Nas crises tônicas, ocorre contração tônica, em geral simultânea, da cabeça e das extremidades, em flexão ou extensão. Nas crises clônicas, ocorrem abalos repetidos. Nas crises atônicas, ocorre perda súbita de tônus, com queda ao solo (DUCAN et al., 2022). ESPASMOS EPILÉPTICOS ↠ Os espasmos epilépticos (anteriormente chamados de espasmos infantis) consistem em uma contração repentina, normalmente bilateral e simétrica, dos músculos do pescoço, tronco e membros. A contração inicial dura 2 segundos, seguida de uma contração tônica mais sustentada; os espasmos podem ser em flexão, extensão, ou mistos, e em geral são simétricos. Costumam ocorrer em séries de até várias dezenas, separadas por períodos 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck de 5 a 30 segundos. Têm seu pico de início entre os 6 e 8 meses de idade e são a manifestação mais importante da síndrome de West (DUCAN et al., 2022). A síndrome de West é uma encefalopatia epiléptica caracterizada pelatríade clínica de espasmos infantis (EI) - contrações musculares em flexão, extensão ou mista, retardo no desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) e eletroencefalograma (EEG) com padrão de hipsarritmia (TRENTO, 2019). A síndrome de West é definida como uma síndrome neurológica, e é um tipo raro de epilepsia que causa convulsões, chamadas de mioclonias, podendo ser de flexão ou de extensão, mais comumente encontrada de flexão. Os espamos na síndrome de West podem envolver vários músculos, dependendo de serem em flexão ou extensão dos braços ou pernas, em abdução e adução, simétricos, assimétricos, unilaterais, comumente mistos. Aparecem também na forma de queda de cabeça ou, ainda, com abertura dos olhos e alheamento do meio, com ou sem piscamentos. São diferentes em cada criança, caracterizados frequentemente por movimentos abruptos (2-10s), repetidos em salvas que aparecem mais ou despertar e ao iniciar o sono. Podem ser interpretados como cólicas abdominais. Há repetição em sequência ou série de contrações descontroladas, podendo variar de três e cinquenta vezes. A criança pode mostrar reações como riso ou choro durante as crises (TRENTO, 2019). Apresenta prognóstico geralmente desfavorável, com frequente estagnação ou regressão do desenvolvimento neuropsicomotor e desenvolvimento cognitivo deficitário, mesmo após controladas as crises (TRENTO, 2019). A faixa etária de maior incidência é o primeiro ano de vida (principalmente entre 3 e 7 meses), sendo rara acima de 2 anos de idade (TRENTO, 2019). Etiologia CRISES EPILÉPTICAS SINTOMÁTICAS AGUDAS: As crises epilépticas podem ocorrer como consequência de insultos cerebrais metabólicos, traumáticos, tóxicos, infecciosos ou vasculares. Quando esses fatores ocorrem aguda e transitoriamente por causas reversíveis, as crises são consideradas provocadas (sintomáticas agudas) e não são necessariamente indicativas de uma condição epiléptica persistente. A história, o exame físico e a avaliação laboratorial permitem o diagnóstico (DUCAN et al., 2022). ↠ Em 99% das vezes, a duração de uma crise é inferior a 2 minutos. Entre as crises epilépticas, o paciente volta ao seu estado normal. Podemos usar o termo ictal para referirmo-nos ao que ocorre durante a crise. O período pós-ictal é aquele que vem imediatamente após a crise. O espaço de tempo entre duas crises epilépticas sucessivas é chamado de período interictal (ESTRATÉGIAMED). Diagnóstico ANAMNESE ↠ O diagnóstico de crises epilépticas, na grande maioria dos casos, é estabelecido somente com base na descrição clínica do evento pelo paciente, em casos em que não há comprometimento da consciência, ou por testemunhas nem sempre presentes ao atendimento. Os dados que devem ser avaliados incluem: (MATTOS et al., 2017). • Idade do paciente; • Detalhes de todos os eventos observados, com especial atenção à sequência de manifestações, desde seu início (consciência, liberação esfincteriana). • As circunstâncias em que ocorreu. • Duração do evento: considera-se a duração das manifestações da crise epiléptica. • Distribuição circadiana: momento do dia (ao despertar, em vigília, durante o sono). • Posição (sentada, deitada, em pé). • Fatores desencadeantes e facilitadores: hiperventilação, luzes piscando, uso de álcool e/ou drogas, abstinência de sono, estresse psicológico e físico, leitura. • Sintomas e condições concomitantes (como febre, infecções sistêmicas ou do SNC, traumatismos, desidratação, hipertensão arterial). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck • História médica pessoal, incluindo antecedente de AVE, traumatismo craniano, doença de Alzheimer etc. • História familiar de epilepsia. Ao se avaliar um paciente com queixas de eventos paroxísticos, deve- se, basicamente, responder três perguntas fundamentais: (MATTOS et al., 2017). 1. Trata-se realmente de uma crise epiléptica? 2. Qual o(s) tipo(s) de crise(s) epiléptica(s)? 3. Qual a etiologia da crise epiléptica, epilepsia ou síndrome epiléptica? EXAME FÍSICO ↠ O exame deve incluir avaliação clínica completa, avaliação cardiovascular, seguido do exame neurológico completo. O retardo mental é um dos achados mais frequentes (MARTINS et al., 2016). ↠ Pacientes com epilepsia apresentam frequentemente queixas na esfera cognitiva (especialmente memória, linguagem, atenção e concentração). Comorbidades psiquiátricas (depressão, distúrbios ansiosos, transtornos psicóticos etc.) são mais frequentes em epilépticos que na população geral (MARTINS et al., 2016). ↠ Pesquisar marcas de trauma podem ajudar na ausência de um acompanhante ou testemunha. Alguns achados indicam que o paciente teve uma convulsão e devem ser pesquisados nas pessoas que apresentaram perda a consciência, como por exemplo, marcas de mordida na língua, presença de urina ou fezes na roupa e confusão prolongada após a perda de consciência (SANAR). ↠ O exame neurológico é muito relevante e deve ser detalhado com foco em alguns pontos como, nível de consciência, linguagem (dificuldade de fala, competência de nomear objetos, conservar discurso, compreensão e execução de comandos e perguntas), déficit motor ou sensitivo de alguma região, sinais de doenças/alterações neurológicas agudas ou mesmo a sequelas prévias (SANAR). DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ↠ Crises epilépticas devem ser diferenciadas de outros eventos paroxísticos, com ou sem perda de consciência, de etiologia não epiléptica. Eventos não epilépticos dividem-se em psicogênicos e fisiológicos (MARTINS et al., 2016). • Cólicas do lactente; • Síncope; • Terror noturno; • Distúrbios do movimento (coreia); • Crises não epilépticas psicogênicas; • Pesadelos. EXAMES COMPLEMENTARES ↠ Todo paciente com manifestações iniciais de epilepsia deve ser avaliado por neurologista, de forma presencial ou por meio de teleconsultoria/telemedicina, e ser submetido a um EEG (eletroencefalograma – analisa a atividade elétrica cerebral).. Este é o exame mais esclarecedor no diagnóstico de epilepsia, pois, em muitos pacientes, indica o tipo de epilepsia e a localização do foco e, às vezes, sugere a etiologia, além de aspectos da função cerebral global (DUCAN et al., 2022). ↠ A investigação geralmente envolve exames de imagem (tomografia computadorizada [TC] de crânio ou ressonância magnética) para identificação de causas estruturais relacionadas e perfil metabólico, podendo incluir até rastreamento extensivo de condições genéticas, quando indicado (DUCAN et al., 2022). Na faixa etária pediátrica, os exames de RM realizados em idades precoces (enquanto o processo de mielinização ainda não se tenha completado) podem não demonstrar lesões que se tornarão evidentes posteriormente (MARTINS et al., 2016). ↠ Os exames laboratoriais são importantes na busca de distúrbios metabólicos e/ou hidroeletrolíticos e também de alterações indicativas de processos infecciosos ou inflamatórios, precisando estar presente na rotina de avaliação principalmente nos casos de primeira crise (SANAR). Os principais exames a serem solicitados são: glicemia, eletrólitos (sódio, magnésio, cálcio e fósforo), hemograma, VHS e PCR, ureia, creatinina, TGO, TGP, amônia, gasometria, CPK, HIV e outras sorologias virais, pesquisas de doenças autoimunes (FAN, anticardiolipina, anticoagulante lúpico, etc.), toxicologia e nível sérico de fármacos antiepilépticos (quando apropriado) (SANAR). Tratamento O ponto mais importante do tratamento é eliminar as causas que levaram a crise, sempre que possível. Se o fator desencadeante não puder ser corrigido ou mesmo identificado, normalmente é necessária a administração de medicamentos anticonvulsivantes, em especial depois de uma 2ª crise epiléptica já que no pronto socorro, é comum que o paciente chegue após o término da crise, podendo estar ainda confuso ou totalmenterecuperado (SANAR). CONDUTA INICIAL NA CRISE EPILÉPTICA ÚNICA ↠ A conduta farmacológica com medicação antiepiléptica é reservada para casos selecionados, uma vez que a maioria das crises são autolimitadas (MARTINS et al., 2016). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ A conduta inicial para pacientes epilépticos é resumida a seguir: (MARTINS et al., 2016). • Estabilização clínica conforme preconizado pelos protocolos de suporte básico e avançado de vida. No momento de uma crise epiléptica, as medidas imediatas são proteger o paciente de ferimentos no crânio ou no corpo, colocando- o em decúbito lateral para facilitar a expulsão da salivação excessiva, com alguma estrutura macia sob seu corpo e sua cabeça e, nas crianças pequenas, garantir a permeabilidade das vias aéreas. Não se deve tentar restringir as contrações clônicas, nem utilizar objetos para tentar manter a boca do paciente aberta (DUCAN et al., 2022). ↠ Não se deve administrar benzodiazepínicos se a crise já tiver cessado e o paciente estiver no período pós-ictal. Neste contexto, o emprego de benzodiazepínicos não tem indicação e pode acentuar a depressão do SNC, prolongando o período de recuperação do nível de consciência ou acentuando o quadro confusional. Além disso, os benzodiazepínicos têm duração de efeito curto (não mais que 30 minutos para o diazepam), não sendo drogas eficazes para a prevenção de recorrência de crises. Essas drogas devem ser reservadas para casos em que se caracterize estado de mal epiléptico, em crises com duração superior a 5 minutos (MARTINS et al., 2016). O tratamento do estado de mal epiléptico deve ser instituído por via parenteral, com fármacos de rápido início de ação. Lorazepam, diazepam (5-10 mg e/ou 0,25 mg/kg) seguido de fenitoína (15-20 mg/kg, taxa de 50 mg/min) e fenobarbital (20 mg/kg) demonstraram eficácia comparável (50-60%) no controle do estado de mal epiléptico (DUCAN et al., 2022). ↠ No caso de crises agudas sintomáticas secundárias a lesões neurológicas agudas, habitualmente se empregam drogas antiepilépticas na prevenção de recorrência. A droga mais empregada é a fenitoína, por não ser sedativa e ser passível de administração endovenosa em dose de ataque, permitindo rápido início de ação (MARTINS et al., 2016). ↠ Após a segunda crise, o consenso é iniciar o uso de anticonvulsivantes, em especial se as crises apresentam sintomas significativos e ocorreram a intervalos curtos (6- 12 meses) (DUCAN et al., 2022). • Benzodiazepínicos: Todos produzem seus efeitos funcionais pela modulação alostérica positiva dos receptores GABAA (KATZUNG; VANDERAH, 2023). ATENÇÃO: No entanto, dois aspectos proeminentes dos benzodiazepínicos limitam sua utilidade na terapia crônica da epilepsia O primeiro aspecto são seus pronunciados efeitos sedativos; todavia, em crianças, pode haver uma hiperatividade paradoxal, como é o caso de outros agentes sedativos, como os barbitúricos. O segundo aspecto é a tolerância, na qual as crises podem responder inicialmente, mas recorrem em alguns meses. Como resultado dessas limitações, os benzodiazepínicos são raramente usados no tratamento crônico da epilepsia (KATZUNG; VANDERAH, 2023). O Brasil, as recomendações para o uso de benzodiazepínicos são: (SANAR) ❖ Diazepam intravenoso (IV): dose inicial de 10 mg para adultos; 0,15 a 0,2 mg/kg/dose para crianças ou pacientes com menor peso, se necessário, pode ser repetida dose adicional (até duas vezes). • Fenitoína: A fenitoína é um anticonvulsivante que atua bloqueando os canais de sódio dependentes de voltagem, de forma semelhante à carbamazepina e demais fármacos dessa classe (KATZUNG; VANDERAH, 2023). A dose indicada de ataque é 15-20 mg/kg de peso, diluídos em soro fisiológico 0,9% e administrada em bomba de infusão a uma velocidade de 50 mg/min, com uso de filtro de linha. Nos pacientes idosos, cardiopatas ou com antecedente de arritmia, a velocidade pode ser de 20-25 mg/min (SANAR). A administração desse fármaco deve ser sempre feita com o paciente em decúbito e com monitorização de frequência cardíaca e pressão arterial (SANAR). Os principais efeitos colaterais observados são: ardência e desconforto no local da aplicação, tontura, náuseas, bradiarritmias, hipotensão, bloqueio atrioventricular, ataxia e nistagmo (SANAR). • Fenobarbital: Os barbitúricos, como o fenobarbital, agem como moduladores alostéricos positivos dos receptores GABAA em baixas concentrações; enquanto, em concentrações mais altas, os fármacos ativam diretamente os receptores GABAA (KATZUNG; VANDERAH, 2023). ATENÇÃO: O fenobarbital é uma medicação muito antiga, cada vez menos usada devido aos seus efeitos negativos sobre a vigília e a cognição. No entanto, ele é a droga de escolha no período neonatal, 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck principalmente no tratamento das convulsões febris. Seus principais efeitos colaterais incluem tontura, sedação, prejuízo cognitivo e de concentração (ESTRATÉGIAMED). PRÁTICA NA AULA DE HAM V ❖ Tirar roupas que estão atrapalhando; ❖ Inicialmente realizar o ABC; ❖ Diazepam IV (caso a crise não cesse em 5 minutos) – pode fazer até 5 doses, caso não passe em 5 minutos após a medicação; ❖ No período pós-ictal afere-se os Sinais Vitais (SSVV); ❖ No estado de mal epiléptico pode utilizar fenobarbital ou fenitoína (não pode utilizar SG, pois cristaliza a medicação) caso não cesse após utilizar a droga de escolha. Referências DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria I.; GIUGLIANI, Elsa R J.; et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. Minha biblioteca, 5ª edição. Grupo A, 2022. LOUIS, Elan D.; MAYER, Stephan A.; ROWLAND, Lewis P. Merritt - Tratado de Neurologia, 13ª edição. Grupo GEN, 2018. GOLDMAN, Lee; SCHAFER, Andrew I. Goldman-Cecil Medicina. Grupo GEN, 2022. MATTOS, Waldo; HILBIG, Arlete; TOVO, Cristiane V. Semiologia do Adulto - Diagnóstico Clínico Baseado em Evidências. MedBook Editora, 2017. MARTINS, Mílton de A.; CARRILHO, Flair J.; ALVES, Venâncio Avancini F.; CASTILHO, Euclid. Clínica Médica, Volume 6: Doenças dos Olhos, Doenças dos Ouvidos, Nariz e Garganta, Neurologia, Transtornos Mentais. Editora Manole, 2016. KATZUNG, Bertram G.; VANDERAH, Todd W. Farmacologia básica e clínica. Grupo A, 2023. TRENTO, S. S. M. Síndrome de West: um estudo bibliográfico. Revista Científica Intelletto, v. 4, n. especial, 2019. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck A doença cerebrovascular – lesão do cérebro como uma consequência do fluxo sanguíneo alterado – pode ser agrupada em etiologias isquêmicas e hemorrágicas, sendo o infarto tecidual a consequência final de ambos (KUMAR et al., 2023). IRRIGAÇÃO DOS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS AVC ISQUÊMICO X AVC HEMORRÁGICO Um déficit isquêmico que melhora rapidamente sem evidência radiológica de um infarto é chamado de ataque isquêmico transitório (AIT); 24 horas é um limite comumente usado para diferenciar entre AIT e AVC, embora a maioria dos AITs dure entre 5 e 15 minutos (JAMESON et al.., 2021). ↠ Existem dois tipos principais de AVE: isquêmico e hemorrágico (NORRIS, 2021). ▪ O AVE isquêmico é causado por uma interrupção do fluxo sanguíneo em um vaso cerebral e constitui o tipo mais comum, representando 87% de todos os casos de acidente vascular encefálico. ▪ O AVE hemorrágico é responsável por 13% dos casos de acidente vascular encefálico, 10% das hemorragias intracerebrais e 3% das hemorragias subaracnoides. O AVE hemorrágico geralmente se desenvolve a partir de uma ruptura dos vasos sanguíneos causada por hipertensão, aneurisma ou malformação arteriovenosa e tem uma taxa de mortalidade muito mais alta do que o acidente vascular encefálico isquêmico. ↠ Os fatores de risco paraessa informação, pois é por esse motivo que coletamos o cortisol sérico logo pela manhã (para diagnóstico de insuficiência adrenal) e o cortisol salivar entre 23 e 24 horas (para verificar se há quebra do ritmo circadiano, como ocorre na síndrome de Cushing) (ESTRATÉGIAMED). ZONAS DA ADRENAL EFEITOS FISIOLÓGICOS DOS GLICOCORTICOIDES • Sistema metabólico (degrada proteína muscular e aumenta excreção de nitrogênio...); • Sistema hemodinâmico (mantem integridade vascular e a reatividade; mantem o volume hídrico); • Função imune (aumenta a produção de citocinas anti-inflamatórias); • Sistema nervoso central (modula percepção e emoção). ETIOLOGIA • Dependentes de ACTH: DOENÇA DE CUSHING (Adenoma hipofisário). • Independentes de ACTH: Síndrome de CUSHINH (Adenoma adrenal que produz glicocorticoide). ↠ O hipercortisolismo endógeno pode ser resultante de produção autônoma de cortisol pela(s) adrenal(is) − síndrome de Cushing ACTH independente − ou devido à hiperestimulação das adrenais pelo excesso de ACTH − síndrome de Cushing ACTH dependente (ESTRATÉGIAMED). OBS.: Acredita-se que a etiologia mais comum da SC seja o uso prolongado de glicocorticoides, também chamado de síndrome de Cushing iatrogênica ou factícia, uma vez que milhões de pessoas são submetidas a tratamento com tais medicações; entretanto, a real prevalência dessa condição é desconhecida (ESTRATÉGIAMED). Síndrome de Cushing 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck A principal causa de SC ACTH dependente é o adenoma hipofisário produtor de ACTH, condição denominada doença de Cushing (ESTRATÉGIAMED). • Mais comum em mulheres. SINAIS E SINTOMAS • Depressão, fadiga, ganho de peso; • Equimoses espontâneas ou aos mínimos traumatismos; • Estrias violáceas com mais de 1 cm de largura (flancos, quadril, mama, coxas e braços), fácies arredondada, pletora facial, obesidade central, face em forma de lua. • O acúmulo de gordura na região dorsal cervical e o preenchimento da fossa clavicular com gordura. • Atrofia e adelgaçamento da pele, telangectasias. Ação catabólica: o cortisol estimula a proteólise, a fim de liberar aminoácidos para a gliconeogênese. Assim, na SC, há perda muscular levando à fraqueza muscular proximal (dificuldade de levantar-se da cadeira, por exemplo). Ganho ponderal e hiperlipidemia: o cortisol também estimula a lipólise, liberando ácidos graxos em circulação, que são depositados principalmente na região abdominal, ocasionando obesidade centrípeta. Ação no tônus vascular: o cortisol aumenta a responsividade dos vasos à adrenalina, estimula a produção hepática de angiotensinogênio e pode atuar nos receptores mineralocorticoides nos rins (receptores de aldosterona), ocasionando maior reabsorção de sódio, o que pode levar ao aumento da sede. Na presença de hipercortisolismo, tais ações resultam em hipertensão arterial sistêmica e maior risco de doenças cardiovasculares. Alterações hematológicas: nos estados de hipercortisolismo, ocorre mobilização de granulócitos da medula óssea para o sangue periférico, levando à neutrofilia. Entretanto, também encontramos linfopenia e eosinopenia, uma vez que há retorno dos linfócitos e dos eosinófilos aos órgãos linfáticos, nos quais ocorre apoptose dessas células. Tais modificações hematológicas aumentam a susceptibilidade a infecções (que correspondem a cerca de 20% da mortalidade na síndrome de Cushing); Alterações dermatológicas: o ganho ponderal excessivo leva à distensão da pele, com o aparecimento de estrias violáceas (lesões > 1cm de largura e de cor púrpura, principalmente em abdome e tronco). Além disso, o hipercortisolismo causa atrofia cutânea (por redução dos queratinócitos e fibroblastos), levando a maior friabilidade, dificuldade de cicatrização e ao desenvolvimento de equimoses. O adelgaçamento da pele também permite maior visualização dos vasos, o que leva ao aparecimento de pletora. Alterações ósseas: o hipercortisolismo leva à diminuição da absorção intestinal de cálcio, à redução da formação óssea e ao aumento da reabsorção óssea de cálcio, resultando em perda de massa óssea, com consequente osteopenia/osteoporose e maior risco de fraturas. Predisposição à nefrolitíase: o excesso de cortisol ocasiona hipercalciúria, hiperuricosúria e hiperoxalúria, aumentando a formação de cálculos renais. CONDIÇÕES CLÍNICAS ASSOCIADAS • HAS, DM, osteoporose vertebral, hipocalcemia, cálculo renal, incidentaloma adrenal (não foi o motivo pelo que fez o exame), suscetibilidade a infecções, SOP. • HAS é um achado comum e ocorre em cerca de 75% dos pacientes. DIAGNÓSTICO • Descartar causas exógenas, comprovar hipercortisolismo, progredir investigação etiológica. Quando você se deparar com um paciente que tenha um quadro clínico sugestivo de síndrome de Cushing, você deve seguir os seguintes passos na investigação diagnóstica: (ESTRATÉGIAMED). Sempre exclua o uso de glicocorticoides, a fim de identificar possível SC iatrogênica. As manifestações clínicas são relacionadas à exposição prolongada e podem ocorrer independentemente da via de administração! Excluído o uso de corticosteroides, o próximo passo é confirmar o hipercortisolismo. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck Feita a confirmação do hipercortisolismo, o passo seguinte é verificar se o excesso de cortisol é dependente do estímulo de ACTH (SC ACTH dependente) ou se a produção de cortisol ocorre de forma independente do estímulo de ACTH (SC ACTH independente). (ESTRATÉGIAMED). Conforme a sugestão de SC dependente ou independente de ACTH, deve-se realizar exame de imagem correspondente, respectivamente ressonância magnética de hipófise ou tomografia computadorizada (TC) de abdome superior com ênfase em suprarrenal. Caso haja suspeita de síndrome de produção ectópica de ACTH, deve-se realizar TC de tórax e abdome e/ou fibrobroncoscopia e/ ou esofagogastroduodenoscopia. RASTREAMENTO DO HIPERCOTISOLISMO: escolha uma das opções - indivíduo com sinais e sintomas que sugere a suspeita de SC. • Cortisol livre urinário (2 medicações). • Cortsol salivar no fim da noite (2 medicações). • Supressão noturna com 1 mg de dexametasona. • Supressão com dexametasona (0,5mg 5 em 5 horas por 2 dias). OBS.: Se o teste vim alterado deve-se utilizar outro teste. Resultados e como interpretar: • Cortisol livre urinário abaixo do limite superior de referência. • Cortisol salivar noturno menor que 145 nn/dL. • Cortisol sérico após supressão menor que 1,8. SÍNDROME DE PSEUDOCUSHING ↠ Algumas condições estão relacionadas à hiperativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com aumento de CRH, levando ao hipercortisolismo fisiológico (isto é, não há produção autônoma de cortisol nem de ACTH), com ou sem manifestações clínicas da síndrome de Cushing. Entretanto, diferentemente da SC, os indivíduos com pseudoCushing não apresentam fraqueza muscular nem friabilidade cutânea. (ESTRATÉGIAMED). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ É necessário cessar o estímulo para a resolução do quadro de hipercortisolismo. No caso do alcoolismo, é preciso que ocorra abstinência por várias semanas, sendo que alguns casos apenas foram resolvidos após 4 meses sem ingesta de álcool (ESTRATÉGIAMED). • Não ocorre evolução do caso clínico. TRATAMENTO • Cirurgia hipofisária transesfenoidal. • Cetoconazol. O tratamento de escolha para a doença de Cushing é a ressecção transesfenoidal do adenoma hipofisário. Entretanto, há casos em que o adenoma não é visualizado pelos métodos de imagem ou o paciente apresenta contraindicações cirúrgicas. Desse modo, o tratamento de segunda linha para pacientes é a radioterapia ou a radiocirurgia de hipófise ou medicações que inibam a esteroidogênese (como o cetoconazol) (ESTRATÉGIAMED).o AVE são idade, sexo, raça, AVE prévio, histórico familiar, hipertensão, tabagismo, diabetes melito, doença cardíaca, hipercolesterolemia e hipercoagulopatia (NORRIS, 2021). ↠ O AVE isquêmico pode ser classificado conforme cinco principais mecanismos de subtipos de acidente vascular encefálico e sua frequência: (NORRIS, 2021). ▪ 20% por trombose de uma grande artéria (doença aterosclerótica); ▪ 25% por trombose de pequenas artérias penetrantes (AVE lacunar); ▪ 20% por embolia cardiogênica; ▪ 30% por AVE criptogênico (causa indeterminada); ▪ 5% por causas diversas. ↠ As hemorragias podem ocorrer em qualquer local do crânio – fora do cérebro ou dentro dele (hemorragia intraparenquimatosa). As hemorragias no espaço epidural ou subdural estão tipicamente associadas a trauma. Em contraste, as hemorragias do parênquima cerebral e no espaço subaracnoide são mais frequentemente uma manifestação de doença cerebrovascular (KUMAR et al., 2023). A angiopatia amiloide cerebral (AAC) é o fator de risco mais comumente associado a hemorragias lobares. Na AAC, peptídeos amiloidogênicos, geralmente os mesmos encontrados na doença de Alzheimer (Aβ), depositam-se nas paredes dos vasos meníngeos, corticais e cerebelares de médio e pequeno calibre; os vasos envolvidos tornam-se rígidos e, como resultado, falham em colapsar durante o processamento e secção do tecido (KUMAR et al., 2023). A causa mais frequente de hemorragia subaracnoide espontânea é a ruptura de um aneurisma sacular (“moriforme”) em uma artéria cerebral (KUMAR et al., 2023). QUADRO CLÍNICO ↠ As manifestações específicas de um AVE ou AIT são determinadas pela artéria cerebral que é afetada, pela área de tecido encefálico que recebe o suprimento sanguíneo desse vaso e pela adequação da circulação colateral (NORRIS, 2021). AVC isquêmico X AVC hemorrágico 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Os sintomas de AVE/AIT têm sempre manifestação súbita e focal e geralmente são unilaterais. Os sintomas mais comuns são paralisação da face e fraqueza no braço, unilaterais, assim como fala arrastada. Outros sintomas frequentes de AVE são dormência unilateral, perda de visão em um dos olhos (amaurose fugaz) ou de um dos lados (hemianopsia), perturbação da fala (afasia) e perda de equilíbrio súbita e inexplicável ou ataxia (NORRIS, 2021). A artéria mais afetada é a artéria cerebral média. AVE ISQUÊMICO Sistema carotídeo Artéria oftálmica: alterações visuais monoculares. Artéria cerebral anterior: sinais de frontalização, déficit motor e sensitivo na região proximal do membro superior contralateral. Artéria cerebral média: déficit motor; perda sensorial em face ou membro superior; afasia de Wernick (área da compreensão da fala) e Broca (área motora da fala) no hemisfério dominante; Neglingência no hemisfério não dominante; hemiplegia fascio-braquio-crural (por atingir cápsula interna); síndrome piramidal contralateral (por interrupção da via corticoespinhal). Sistema vertebrobasilar Artéria cerebral posterior: cefaléia ipsilateral, alterações de memória, hemibalismo, alterações do campo visual, rebaixamento do nível de consciência, déficit sensitivo, alterações de funções nervosas superiores. Artéria vertebral ou cerebelar póstero-inferior: síndrome bulbar (vertigem central, disfagia, náuseas, vômitos, nistagmo e ataxia ipsilateral) e síndrome de Horner ipsilateral (ptose palpebral, anisocoria, perda da sensibilidade térmica e dolorosa em face ipsilateral, disartria e nistagmo para o lado infartado). AVE HEMORRÁGICO Os locais mais acometidos na Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP) são: Putâmen, Tálamo, Cerebelo e Ponte. Hemorragia no putâmen: Costuma atingir a cápsula interna, cursando com quadro súbito de hemiplegia fasciobraquiaquicrural contralateral. Desvio do olhar conjugado contrário à hemiplegia também pode ocorrer. Aqui, a hemorragia pode se estender e causar hemoventrículo. Hemorragia talâmica: Também atinge a cápsula interna, gerando os mesmos sintomas da hemorragia no putâmen, associada a hemianestesia para todas as sensibilidades. Pela extensão da hemorragia ao hipotálamo e teto do mesencéfalo, são comuns: desvio dos olhos em direção ao nariz, ou para o lado da hemiplegia; pupilas mióticas; anisocoria com pupila menor ao lado da hemorragia (síndrome de Horner) e afasia talâmica. É comum a hemorragia se estender ao terceiro ventrículo. Hemorragia de cerebelo: gera quadro idêntico ao AVE isquêmico cerebelar (náuseas, vertigem central, vômitos e ataxia cerebelar aguda). Têm grande efeito expansivo, podendo comprimir o IV ventrículo e levar à hidrocefalia obstrutiva, piora da HIC e coma. A complicação mais temível é a herniação através do forame mag no e consequente compressão de estruturas como amígdalas cerebelares e bulbo, levando à apnéia súbita e morte. Hemorragia de ponte: Tem um quadro muito característico: quadriplegia súbita, coma e pupilas mióticas e fototorregentes, além de perda dos reflexos oculocefálicos. Decerebração, hiperpneia e hiperidrose são achados comuns, e a letalidade é alta: quase 90% dos casos. Já na Hemorragia Subaracnóidea (HSA), o quadro clínico é caracterizado por uma súbita cefaléia holocraniana de forte intensidade (a “pior da vida”), do tipo “tunderclap” ou em “trovoadas”, podendo evoluir com síncope, vômitos, rigidez de nuca e sinais de meningismo e associada ou não a déficit neurológico focal – o principal é a paralisia do nervo oculomotor, gerando anisocoria, diplopia e estrabismo divergente. Crises convulsivas são uma complicação frequente nestes casos. A escala de Hunt-Hess é a principal utilizada para determinação clínica do prognóstico, e também como definidor de condutas. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck DIAGNÓSTICO Escala FAST É usada na triagem para reconhecimento rápido de sinais clínicos de AVE, baseada na escala de suspeita pré-hospitalar de Cincinnati, que se baseia em Face (paralisia facial), Arms (fraqueza nos MMSS), Speech (alterações de fala) e Time (tempo dos sintomas). Déficit neurológico focal súbito > 15 minutos = internação e exame de imagem (SANARFLIX). O diagnóstico de AVC depende fundamentalmente de uma anamnese acurada, obtida do próprio paciente ou de seus familiares e acompanhantes (MARTINS et al., 2016). Déficit neurológico focal, central, de instalação aguda é apanágio de praticamente todo AVC, motivando, na maioria dos casos, a procura por serviço médico de emergência (MARTINS et al., 2016). ↠ O diagnóstico é baseado no exame físico, história clínica direcionada e exame de imagem, sendo a tomografia de crânio o mais utilizado. FLUXOGRAMA DO DR. FERNANDO: Paciente consciente/colaborativo? • SIM: exame físico direciona o que vai procurar no exame de imagem. • NÃO: história clínica direciona o que vai procurar no exame de imagem. Anamnese ↠ Durante a anamnese, o médico irá perguntar sobre os: • Sintomas do paciente, incluindo a duração, a intensidade e a evolução dos sintomas • Informações sobre o histórico médico • Doenças preexistentes • Medicações em uso • Histórico familiar de doenças cerebrovasculares. Exame Físico ↠ O exame físico é realizado para avaliar a função neurológica do paciente, incluindo o nível de consciência, a força muscular, a sensibilidade e a fala. O médico também pode realizar testes para avaliar a coordenação e o equilíbrio do paciente. ↠ Alguns dos testes que podem ser realizados durante o exame físico incluem: • Teste de força muscular: o médico pede ao paciente para mover os membros superiores e inferiores para avaliar a força muscular. • Teste de sensibilidade: verifica-se a capacidade do paciente de sentir estímulos como toque, pressão e temperatura. • Reflexos: utiliza-se um martelo de reflexos para avaliar os reflexos do paciente. • Teste de equilíbrio ↠O exame neurológico deve ser breve e objetivo, em razão da estreita janela terapêutica, porém detalhado o suficiente para excluir alguns diagnósticos diferenciais. A Tabela mostra a escala do National Institutes of Health (National Institute of Health Stroke Scale – NIHSS), que pode ser usada para quantificar o déficit neurológico, avaliar o prognóstico e a localização topográfica e facilitar a comunicação entre os profissionais de saúde (BERTOLUCCI et al., 2021). A Escala de Coma de Glasgow fornece um método organizado para verificar o nível de consciência. Fácil de usar no dia a dia, avalia a consciência prejudicada em pessoas com lesão cerebral. São conferidos pontos às respostas de abertura dos olhos e respostas motoras e verbais. A pontuação total é a soma da melhor resposta de cada categoria. 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck Exame de imagem Artefatos podem atrapalhar a qualidade do exame. Frequentemente a TC do AVCI não manifesta alterações na fase aguda e o diagnóstico é feito pela exclusão de AVCH. Em alguns casos, a ACM hiperdensa pode ser um sinal precoce do AVCI. Isquêmico Fase Hiperaguda ( 50.000 TRATAMENTO Isquêmico • ABCDE – estabilização. • Monitorização cardíaca, controle pressórico (somente deve ser iniciado se pressão acima de 220/120mmHg – objetivo de redução pressórica de 15 a 25% em 24h), controle glicêmico (140- 180mg/dL), controle de temperatura (próxima aos 36,5ºC). TROMBÓLISE VENOSA: Ateplase endovenosa. Até hoje a medicação continua sendo a única droga endovenosa aprovada para terapia trombolítica visando à restauração do fluxo sanguíneo cerebral no AVCi (BERTOLUCCI et al., 2021). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck TROMBECTOMIA MECÂNICA: Em pacientes com oclusões de grandes vasos proximais intracranianos, o trombolítico endovenoso muitas vezes não é suficiente para atingir a reperfusão. Recanalização só é documentada em cerca de 11 a 20% dos pacientes que receberam alteplase nessas circunstâncias (BERTOLUCCI et al., 2021). Hemorrágico • Unidades de terapia intensiva; • Controle da PA: manter PASNARDI, Antonio E.; SILVA, Antônio G.; QUEVEDO, João. Tratado de psiquiatria da associação brasileira de psiquiatria. Grupo A, 2021. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ O vestíbulocerebelo recebe aferências da parte vestibular sobre a posição da cabeça. Esses circuitos neurais são essenciais para a manutenção da postura e do equilíbrio. O espinocerebelo fornece os circuitos para coordenação do movimento das extremidades apendiculares, principalmente para movimentos de mãos e dedos. O cerebrocerebelo planeja, sequencia e temporiza nossos movimentos complexos (SANARMED). Sinais de lesões cerebelares ↠ Os distúrbios cerebelares podem ocorrer associados às malformações congênitas, às doenças infecciosas e às neopasias vasculares (MACHADO, 2014). A seguir, veja quais são as principais disfunções e manifestações clínicas das lesões cerebelares que você precisa reconhecer na sua prática profissional médica: (SANARMED). Ataxia ↠ São movimentos sem coordenação. A marcha atáxica é vacilante e o paciente abre as pernas para aumentar sua base de equilíbrio. Esse é um dos principais sintomas de doença cerebelar (SANARMED). Dismetria ↠ É a falta do controle da amplitude do movimento, ou seja, ocorre a ausência de previsão para até onde o movimento irá. Também é conhecida como “passar do ponto”. A dismetria e a ataxia podem indicar lesões espinocerebelares (SANARMED). Disartria ↠ Caracteriza-se pela incapacidade de articular palavras corretamente. O paciente fala palavras erradas e forma frases inapropriadas, demonstrando falha na progressão ao falar. Com isso, a vocalização torna-se confusa e por vezes ininteligível (SANARMED). Disdiadococinesia ↠ É a incapacidade da realização de movimentos rápidos e alternados. Quando solicitado ao paciente que vire a mão para cima e para baixo rapidamente, ele realiza movimentos atrapalhados e desarmônicos em vez de pronar e supinar a mão (SANARMED). Tremor intencional ↠ É o movimento rítmico, oscilatório, alternado de um membro ao se aproximar de um alvo. Ele é resultante da falha do sistema cerbelar em suavizar os movimentos. Também é conhecido como tremor de ação (SANARMED). Síndromes Cerebelares 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Nistagmo cerebelar ↠ É o tremor do globo ocular. Ocorre de modo involuntário quando o paciente tenta fixar o olhar em um dos lados do campo visual. Como resultado, os olhos executam movimentos rápidos e trêmulos e sem fixação duradoura (SANARMED). Hipotonia ↠ Corresponde a diminuição do tônus muscular esquelético. É um dos achados mais frequentes em lesões espinocerebelares (SANARMED). Síndromes cerebelares SÍNDROME DO ARQUICEREBELO OU VESTIBULOCEREBELO • Ocorre por lesão flóculo-nodular; • É mais frequente em crianças com menos de 10 anos devido a tumores do teto do IV ventrículo que comprimem o nódulo e o pedúnculo do flóculo (em criança é comum tumor em fossa posterior). • Etiologia: meduloblastoma, acidente vascular cerebral. • Apresentação clínica: perda de equilíbrio e não há alteração do tônus muscular; coordenação dos movimentos praticamente é normal; distúrbios oculomotores - nistagmo, desequilíbrio (astasia, abasia e ataxia troncular), limitação da capacidade de supressão do reflexo vestíbulo- ocular. O nistagmo na criança pode estar relacionado a ocorrência de kernicterus. ↠ A característica mais marcante em pacientes com disfunção vestíbulocerebelar é a pertubação do equilíbrio corporal principalmente durante movimentos rápidos, sobretudo quando há mudança na direção do movimento. Essas alterações são captadas pelo três canais semicirculares da orelha interna (SANARMED). SÍNDROME DO PALEOCEREBELO OU ESPINOCEREBELO OU VÉRMIS • Ocorre por lesão do vermis e no lobo anterior do cerebelo. • Degeneração cerebelar alcoólica. • Lesões do lobo anterior e parte superior do vermis na linha média de suas proximidades: ataxia de postura (astasia) e de marcha (abasia). • Lesões da parte inferior do vermis: ataxia de postura mais grave que ataxia de marcha. ↠ Lesões no espinocerebelo são caracterizadas pela ataxia nos membros, pelo nistagmo cerebelar e pela fala arrastada. Adicionalmente, há a dismetria devido a redução na cronologia do movimento. Por conseguinte, ocorre o “passar do ponto”, resultando em movimentos que vão além do desejado pelo paciente, o que corresponde à falha do sistema de amortecimento cerebelar (SANARMED). SÍNDROME DO NEOCEREBELO: HEMISFÉRIOS CEREBELARES • Neocerebelo: controlam os movimentos rápidos e finamente coordenados dos membros, predominantemente dos membros superiores e mãos. • Incoordenação motora (ataxia): dismetria, disdiadococinesia, rechaço, tremor, nistagmo (mais comum é o horizontal). • NISTAGMO. ↠ Quanto à falha na função temporizadora, o paciente apresenta a incapacidade de coordenar quando deverá iniciar e interromper um movimento complexo. Como resultado, ações como escrever, correr e conversar ficam prejudicadas. Em suma, a síndrome do cerebrocerebelo manifesta-se por meio do atraso no 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck início dos movimentos, por uma decomposição de movimentos multiarticulares em diversas etapas desorganizadas, pelo tremor, pela disartria (vocalização confusa) e pela dismetria (SANARMED). Referências MACHADO, A. B. M.; HAERTEL, L. M. Neuroanatomia Funcional, 3ª edição. São Paulo: Atheneu, 2014.REVISÃO CASOS CLÍNICOS • O uso do corticoide exógeno (acth vai ficar suprimido, por isso deve-se retirar gradualmente o corticoide, já que anteriormente não ocorria a produção). Paciente que para de tomar abruptamente pode evoluir com complicações 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Até mesmo corticoide tópico e inalatório pode desenvolver a síndrome de cushing, caso use em um tempo prolongado. • Paciente de frente, normalmente, não consegue visualizar o pavilhão auditivo. • MACROADENOMA, normalmente vem acompanhado de perda visual (alteração no campo visual periférico uni ou bilateral - quando bilateral pode ocorrer próximo ao quiasma óptico. • SOLICITAR UMA RM DE BASE DE CRÂNIO. Referências SILVEIRO, Sandra P.; SATLER, Fabíola. Rotinas em endocrinologia. Grupo A, 2015. KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran Patologia: Bases Patológicas das Doenças. Grupo GEN, 2023. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Contatos anteriores à consulta médica ↠ O início do atendimento psiquiátrico, na verdade, ocorre antes mesmo do atendimento médico propriamente dito, havendo alguns aspectos que precisam ser planejados previamente para otimização da consulta. O PRIMEIRO CONTATO PARA AGENDAR UMA CONSULTA: Em certas ocasiões, todavia, o atendente pode identificar alguém agudamente perturbado, confuso ou exprimindo ideação suicida, sendo, então, necessária a orientação pelo médico ou outro profissional da saúde mental a respeito de qual o melhor encaminhamento para resolução de curto prazo. Nessas situações emergenciais, o médico atenderá a ligação, pedirá para falar com alguém que esteja junto ao paciente e indicará pronto- socorro psiquiátrico ou oferecerá outra orientação emergencial conforme necessário. SALA DE RECEPÇÃO SÓBRIA E CONFORTÁVEL: significa um ambiente tranquilo e pouco poluído no sentido de sobriedade, com poucos fatores de distratibilidade, com temperatura agradável, sem aglomeração de pessoas e com mobiliário cômodo para uma espera sentado. CUMPRIMENTO DE HORÁRIO: A falta de pontualidade denotará um profissional pouco atento ou respeitoso, além disso, esperas prolongadas provocam irritação e dificuldades no relacionamento interpessoal, tão necessárias para uma boa entrevista clínica. SALA DE ATENDIMENTO MÉDICO ACOLHEDORA, SILENCIOSA E COM PRIVACIDADE: Será absolutamente necessária a atenção ao paciente e seu discurso, sem interrupções por telefonemas, entrada de pessoas na sala ou outros fatores de dispersão. Embora a privacidade seja essencial, há ocasiões nas quais é necessária a presença de outra(s) pessoa(s). Um exemplo é o local de atendimento de serviços de emergência psiquiátrica ou de intercorrências psiquiátricas em hospital geral, quando a entrevista pode ocorrer com a presença de atendentes/auxiliares e, ainda, com porta entreaberta ou com uma segunda porta existente, por questão de segurança em situação de agitação psicomotora e/ou agressividade. TEMPO DE DURAÇÃO DA CONSULTA: O paciente deverá ter conhecimento prévio sobre o tempo disponível para a consulta. Esse tempo terá certo nível de variação, a depender das características do serviço e possibilidades do médico, bem como das necessidades do paciente. Em geral, compreendem em torno de 45 minutos a uma hora (para uma entrevista inicial, esse tempo poderá ser de 45 a 90 minutos). Em caso de pacientes confusos ou com quadros psicóticos agudos e com dificuldade de concentração, tempos menores podem ser indicados. A entrevista psiquiátrica ↠ Seja qual for sua natureza, uma entrevista representa um diálogo verbal e não verbal entre dois participantes, que interagem entre si. Um deles (entrevistador) elabora perguntas para alcançar um objetivo específico, enquanto o outro (entrevistado) assume o papel precípuo de responder aos questionamentos, embora também usufrua de objetivos próprios e ampla possibilidade de se expressar. Uma entrevista traduz um processo de investigação colaborativa. ↠ Além da observação e da descrição fenomenológica, de maneira muito ampla, a entrevista psiquiátrica tem finalidades para além das diagnósticas. Desde seu início, abriga uma atitude terapêutica, estabelecendo-se, logo ao primeiro encontro, as bases nas quais será edificado o vínculo entre profissional e paciente. ENTREVISTA INICIAL ↠ Habitualmente, a primeira consulta é extensa e requer que o profissional esteja atento aos mínimos detalhes. Todas as informações disponibilizadas podem conter valor diagnóstico e, portanto, devem ser levadas em consideração. O contato inicial do paciente com seu médico costuma ter significativo efeito em seus pensamentos, sentimentos e comportamentos durante o exame. Se o médico aparenta afabilidade, acolhimento e atitudes confiáveis, as tensões iniciais serão minimizadas. Em contrapartida, se o entrevistador demonstra postura mais rígida, muito séria/sisuda, pouco acolhedora, o entrevistado pode assumir atitude mais defensiva e sentir dificuldade para expressar sua condição mental. ↠ Uma entrevista psiquiátrica costuma assemelhar-se mais a uma “conversa” do que a um interrogatório médico stricto sensu. Entrevistadores mais experientes podem desenvolver a capacidade de conduzir uma avaliação de forma leve e natural, obtendo informações relevantes e confiáveis ao utilizar suas técnicas de forma sutil e discreta, embora seguindo os princípios básicos para a identificação da psicopatologia. ↠ Apesar de não ficar evidente para o paciente, o psiquiatra deve ter em mente um roteiro para a condução da entrevista. Se não o fizer, correrá o risco de não investigar questões relevantes e não conseguir obter as informações necessárias no tempo disponível. Semiologia Psiquiátrica 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Esse roteiro semiestruturado divide a entrevista psiquiátrica, didaticamente, em três fases principais: a) fase de abertura; b) corpo da entrevista; c) fase de fechamento. Fase de abertura ↠ Os primeiros minutos da entrevista (5 a 10 minutos) têm significativa influência sobre todo o seu andamento. Recomenda-se iniciar com o cumprimento habitual, seguindo-se de uma breve apresentação do médico. ↠ É adequado que a primeira pergunta seja abrangente, permitindo ao paciente falar livremente sobre seus problemas por alguns minutos. Nesse momento, as primeiras hipóteses diagnósticas já poderão surgir para o médico, o que implica certo direcionamento de seu raciocínio clínico. Corpo da entrevista ↠ O corpo da entrevista, em geral, tem duração média de 30-40 minutos. Nessa fase, são coletados os dados necessários para compor a história clínica, podendo ser direcionada de acordo com o contexto da avaliação (emergência psiquiátrica, interconsulta, consulta ambulatorial, evolução em serviço de internamento, perícia judicial). ↠ Ao mesmo tempo em que “conversa” com seu paciente, o entrevistador observa seus comportamentos e reações emocionais, estando atento ao que é dito, como é dito e o que parece estar sendo evitado de ser dito. Nessa fase, o profissional manterá sua atenção muito mais focada no paciente do que no registro/anotação de dados – poderá escrevê-los ou digitá-los, porém, a sugestão é que o faça de maneira resumida, como tópicos para anotações mais detalhadas a posteriori. Fase de fechamento ↠ Nos 5 a 10 minutos finais da entrevista, é importante que o médico assuma uma postura mais didática, oferecendo feedback de suas impressões sobre os sintomas descritos, as hipóteses diagnósticas e as opções terapêuticas para o paciente. Quando indicado o uso de algum medicamento, torna-se imprescindível esclarecer os efeitos esperados, o tempo para resposta, possíveis efeitos colaterais e como proceder, caso eles se manifestem. Diantede indivíduos com significativo comprometimento cognitivo ou do juízo crítico, é adequado transmitir as informações para um terceiro (familiar, responsável legal, equipe de enfermagem em serviços hospitalares ou de casas de moradia coletiva do tipo “pensão protegida”). ENTREVISTAS POSTERIORES ↠ Os encontros subsequentes seguem moldes semelhantes aos da entrevista inicial, objetivando o aprofundamento da investigação diagnóstica, a verificação dos resultados de exames complementares, o acompanhamento da evolução das manifestações psicopatológicas, assim como o monitoramento da adesão e a resposta às estratégias terapêuticas implementadas. ↠ A depender do contexto e da necessidade, o intervalo entre as consultas pode variar de uma vez por mês, em casos leves ou moderados de seguimento ambulatorial, até duas ou três vezes por semana, quando existem sintomas graves (ideação suicida, agressividade, psicose) ou durante internamento. TÉCNICAS DE ENTREVISTA PSIQUIÁTRICA Técnicas de vínculo ↠ O vínculo é um dos fatores de maior influência na relação médico-paciente. Por isso, deve ser ativamente construído, solidificado e aprofundado ao longo da entrevista. Em algumas ocasiões, porém, essa tarefa não é tão fácil, como ocorre no caso de pacientes encaminhados para atendimento contra sua vontade ou aqueles que não percebem a necessidade de ajuda quanto ao seu estado mental. ↠ São chamadas técnicas de vínculo, que podem ser descritas como: • vínculo de autenticidade: Apresentar-se de forma simples e empática, como “pessoa comum”. A mensagem transmitida é justamente “eu sou como você”. Uma estratégia interessante para isso seria iniciar a entrevista falando sobre algo casual, sem aparente relação com o motivo do encontro. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck • vínculo de empatia: O médico expressa empatia de maneira implícita por meio do olhar, da expressão facial e da postura corporal, mas, em algumas situações, afirmações empáticas também podem ser úteis. Apesar de, em parte, assentar-se em uma característica inata do indivíduo, a empatia pode ser aprimorada por meio de estudo e treinamento das habilidades sociais do entrevistador. A mensagem aqui é “eu compreendo o que você está sentindo”. • vínculo de conhecimento: O entrevistador fortalece esse tipo de vínculo quando valida os sintomas trazidos pelo paciente e elabora perguntas pertinentes ao seu quadro, passando a mensagem de que “eu conheço seu problema”. Outro momento de reforço do vínculo de conhecimento dá-se no fechamento da entrevista, quando o médico discorre sobre o provável diagnóstico e o tratamento indicado. Deve-se evitar, entretanto, explicações excessivamente prolixas e com muitos termos técnicos, adaptando-se a linguagem à capacidade de entendimento do entrevistado. • aliança terapêutica: é o sentimento de confiança criado ao longo da entrevista e que constitui elemento fundamental para sua eficiência. Cortesia, sensibilidade e acolhimento são características importantes para formar uma aliança sólida. A mensagem percebida é “estou com você e quero lhe ajudar”. Como resposta, o paciente deverá ter uma mensagem complementar e em sintonia, do tipo “estou pronto a ajudá-lo a me ajudar”. Técnicas para perguntas • Perguntas abertas: o uso de perguntas abertas para estimular o paciente a se expressar, contar sua história, sem direcionamento a um tema específico. • Perguntas focadas: são usadas para exploração de alguns tópicos específicos, embora ainda sem grandes restrições às possibilidades de resposta do paciente. • Perguntas fechadas: Apesar de poderem suscitar respostas tendenciosas, as perguntas fechadas são importantes para explorar sintomas ainda não discutidos ao longo da entrevista (p. ex., na revisão dos tratamentos já realizados pelo paciente). Técnicas para transição • Transição suave: Para mudar de tópico de forma discreta e elegante, o entrevistador pode “aproveitar” algo que o paciente acaba de mencionar, e que tenha alguma relação com o assunto a ser investigado. • Transição referida: Nessa estratégia, o médico faz referência a alguma citação feita anteriormente pelo paciente para retomar a exploração de outras questões relevantes. • Transição anunciada: Para abordar um novo tópico sem causar uma quebra abrupta no andamento da entrevista, o profissional pode utilizar uma sentença como a que segue. Técnicas facilitadoras • Incentivos não verbais: Por meio da linguagem corporal, é possível estimular o paciente a continuar falando, sem interromper seu relato. Certas “pistas” não verbais sinalizam que o entrevistador está atento e interessado naquilo que está sendo dito, como manter o contato visual, sorrir discretamente, assentir com a cabeça ou um leve movimento de inclinação do corpo. • Incentivos verbais: Algumas intervenções verbais, aparentemente simples, demostram que o entrevistador está acompanhando e registrando o que está sendo relatado pelo paciente. Existem diversas formas de incentivo 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck verbal, sendo as mais usuais: expressões reforçadoras (“entendo”, “continue”, “compreendo”, “prossiga”, “hã-hã!”); escuta reflexiva, quando se repete as últimas palavras do paciente, como uma interjeição ou interrogação, transformando-as em um questionamento; solicitação de mais informações (“Conte-me mais sobre isso”); elaboração de um breve resumo. Técnicas para temas sensíveis • Normalização: Esta é uma estratégia comumente empregada por psiquiatras para investigar a presença de sintomas potencialmente constrangedores. Uma possibilidade é introduzir a pergunta com afirmação “normalizadora”, sugerindo que o comportamento é compreensível – ou até esperado – no contexto vivenciado. De modo alternativo, o entrevistador pode citar outros pacientes com problemas semelhantes. • Expectativa de sintomas: Se a ocorrência de um comportamento é suposta como muito provável, o profissional pode questionar o paciente, dando a entender que já espera uma resposta afirmativa. • Exagero de sintomas: Quando o paciente acredita que determinado comportamento poderá ser “mal visto” por seu médico, tende a minimizá-lo, por receio de julgamento negativo. • Redução da culpa: Para identificar comportamentos que possam gerar vergonha e culpa, pode-se elaborar a pergunta de modo a expressar que não será feito juízo de valor sobre as ações do paciente. CONFIABILIDADE DOS DADOS DA ENTREVISTA: As informações obtidas na entrevista podem ser pouco verossímeis devido a uma atitude deliberada do entrevistado. A simulação é caracterizada pela criação voluntária e consciente de sintomas, sinais ou vivências inverídicas, com finalidade de obter algum benefício, como aposentadoria, dispensa do trabalho ou esquiva de alguma obrigação legal. Em psiquiatria, as simulações costumam ser esdrúxulas e inconsistentes, com exagero de manifestação que o indivíduo julga serem “típicas” de adoecimento mental. Na dissimulação, o indivíduo tenta esconder ou negar suas alterações psicopatológicas, com receio de ser medicado, internado ou taxado como “louco”. HISTÓRIA CLÍNICA (ANAMNESE) • Dados de identificação: como nome, sexo biológico, cor da pele, data de nascimento/idade atual, grau de escolaridade, estado civil, profissão, credo/prática religiosa, endereço e forma de contato (telefone, e-mail, etc.). Com esses elementos errôneos colhidos nos dados de identificação, já está iniciado o exame e, mesmo, pressuposição diagnóstica – o profissional identificaria comprometimento da cognição, área de memória e orientação auto e alopsíquica, intuindo sobre possível processo demencial. • Queixa principal e duração: Na psiquiatria, pela complexidade das queixas e por se tratargeralmente de síndromes mais complexas e com tempo de duração menos bem determinado, nem sempre é possível um sumário muito preciso nesse item. Em certas ocasiões, é possível descrever a QPD de forma clara e concisa (p. ex., “humor deprimido há cerca de seis meses”), porém, em diversos casos, quando há um conjunto mais amplo de sintomas e comportamentos e imprecisão no tempo de início, o registro psiquiátrico pode ser iniciado pela história da doença atual (HDA), na qual a QPD estará inserida. • História da doença atual: Para elaboração da HDA, habitualmente queixas, sintomas, sinais, comportamentos são coletados diretamente com o paciente. Entretanto, o psiquiatra pode necessitar do auxílio de acompanhantes, sobretudo quando se tratar de pacientes 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck confusos, com processos demenciais, deficiência intelectual ou quadros psicóticos em que a patologia lhes comprometa a capacidade de perceber os próprios sintomas ou lhes faça interpretar a consulta de forma delirante e prejudicial para si. Também é impossível obter a HDA com o indivíduo em casos de grande lentificação ou agitação psicomotora. Em toda a HDA, é importante seguir a ordem cronológica de aparecimento dos sinais e sintomas, partindo- se do mais antigo até o mais recente. • História patológica pregressa: A investigação sobre doenças clínicas pregressas faz-se importante tanto no raciocínio diagnóstico quanto para decisões terapêuticas. Traumatismos craniencefálicos, convulsões, disfunções tireoidianas, infecções do sistema nervoso central (SNC), por exemplo, estão particularmente relacionados a diversas síndromes psiquiátricas. O uso de medicações “não psiquiátricas” deve ser averiguado pormenorizadamente, sobretudo quando em uso contínuo, por possibilidade de participação etiopatogênica nas alterações mentais ou por seu potencial de interação farmacológica. Também é importante indagar sobre alergias, cirurgias e internações anteriores. • História familiar: A probabilidade de um indivíduo ser acometido por transtorno mental aumenta substancialmente quando há outros casos em familiares, sobretudo em parentes de primeiro grau. Outro aspecto relevante a ser explorado diz respeito ao relacionamento do paciente com seus parentes mais próximos (filhos, pais e cônjuge) e a influência que exerceram em sua formação psicossocial. • Curva de vida e personalidade pré-mórbida: Para ampliar o entendimento sobre seu paciente, o médico precisa conhecer ao máximo sua história de vida clínica e psicossocial (biografia). A história pré-natal pode revelar aspectos psicológicos (p. ex., gravidez planejada, desejada) e obstétricos (infecções, uso materno de medicamentos, doenças gestacionais). Condições de nascimento devem ser esclarecidas (via de parto, índice de Apgar, intercorrências) e neonatais (hipóxia, icterícia, infecções). Desenvolvimento neuropsicomotor e idade aproximada de início da fala e da marcha; efetivação de calendário vacinal; informes sobre socialização e aprendizagem; comportamento ante frustrações emocionais e “limites”; relacionamento com os pais e figuras de autoridade; todos constituem dados importantes da história pessoal. Deve haver atenção às vivências de perdas e separações precoces, bem como para indícios de abuso físico ou sexual. A personalidade pré-mórbida diz respeito a como o paciente era antes do adoecimento (temperamento; padrões habituais de comportamento; funcionamento laboral/acadêmico; relacionamentos interpessoais, etc.) e qual é o impacto do transtorno mental em sua trajetória de vida. Exame do Estado Mental (Súmula Psicopatológica) ↠ O exame do estado mental, exame do estado psíquico ou simplesmente exame mental segue-se à entrevista psiquiátrica, com a qual guarda íntima relação e de onde serão extraídos seus elementos constituintes. ↠ Deve ser realizado com atenção e minúcia desde o início da entrevista até a sua fase final, com o objetivo de identificar os elementos que permitirão o diagnóstico clínico psiquiátrico. ↠ A estratégia de seccionar as funções mentais será sempre artificial, e sua utilidade direciona-se para descrição clínica sintomatológica ou sindrômica, estando implícito que não existem funções psíquicas isoladas e alterações psicopatológicas compartimentalizadas em uma ou outra função mental. Aspecto geral e comunicação não verbal ↠ Aspectos gerais, como aparência, atitude e postura do sujeito constituem comunicações significativas que o médico deve observar e descrever. Inicialmente, é reportada a aparência, por meio da higiene e cuidados pessoais (cabelo, barba, cuidados com as unhas, odores), das vestimentas (roupas, sapatos, etc.) e dos acessórios (maquiagem, colares, brincos, piercing, tatuagens, queimaduras, etc.). É indispensável destacar que tais observações levarão em conta os níveis socioeconômico e cultural do indivíduo. O enfoque clínico repousará na adequação dos cuidados. ↠ Devem ser avaliados gestos, expressões, mímica facial e direcionamento do olhar. De modo geral, o movimento dos olhos, das sobrancelhas e da região da boca (sorrisos, lábios cerrados, curvatura dos lábios e boca, etc.) podem revelar afetos básicos, como tristeza, raiva, alegria, 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck surpresa, medo ou nojo, indicando o estado afetivo de uma pessoa. A atitude – postura em relação ao entrevistador – é de grande valor no exame. Observação sobre cooperação, oposição, hostilidade, suspicácia, querelância, reivindicação, arrogância, estar evasivo ou invasivo. Consciência ↠ Nesse item, deve ser registrado o nível de consciência do paciente, que segue um continuum entre o estado de consciência plena, o chamado estado vígil, até o coma. Na súmula psicopatológica do exame mental, devem ser registradas, assim, alterações quantitativas, ou seja, o nível de vigilância (vígil, obnubilado, torporoso, soporoso ou comatoso), porém, também as possíveis perturbações qualitativas (do campo da consciência): estados crepusculares, estado segundo, dissociação da consciência, transe, estado hipnótico. Orientação ↠ O estado de orientação do paciente, definido como a capacidade de situar-se em relação a si mesmo (orientação autopsíquica) e quanto ao ambiente (orientação alopsíquica) já será percebido quando da coleta dos dados de identificação (nome, data de nascimento, escolaridade, estado civil, profissão, etc.). Atenção ↠ A atenção pode ser definida como a “direção da consciência”, como o estado de concentração e seletividade da atividade mental para determinado objeto. A atenção deve ser examinada a partir da observação da capacidade do paciente estar “focado” no exame, nas perguntas que lhe são dirigidas e a quanto os estímulos do ambiente lhe “desviam o interesse”. O paciente pode estar com abolição total da capacidade de atenção (aprosexia), ou sua redução (hipoprosexia). Pode, também, ser observada atenção exacerbada, com tendência a desviar a atenção para diversos objetos com surpreendente infatigabilidade (hiperprosexia). Memória ↠ Na avaliação da memória observam-se suas capacidades de retenção imediata (de curtíssimo prazo), recente (ou de curto prazo) e remota (ou de longo prazo). Será realizada por meio de perguntas direcionadas ao paciente e da aplicação de testes simples. Algumas perguntas que ajudam a avaliar a memória podem ser: “A que horas levantou da cama? O que comeu ontem? E hoje? Trabalhou ontem? E hoje? Assistiu à TV ontem? Por fim, o psiquiatra pode solicitar ao paciente que responda a alguns testes ou realize algumas tarefas durante a consulta, como pedir que memorize os nomes de três objetos não relacionados e, após aproximadamente 5 minutos, solicitar que os repita. A aplicação de testes simples, como o Miniexame do Estado Mental (MEEM),pode ser bastante útil para avaliar não só a memória como também a orientação e a atenção. Sensopercepção ↠ A sensopercepção abrange as experiências sensoriais e perceptivas pelas quais o indivíduo leva à consciência a compreensão sobre o mundo externo. No exame mental, a sensopercepção pode ser avaliada a partir dos relatos espontâneos de percepções alteradas, da observação de comportamentos sugestivos de percepções (p. ex., quando o paciente conversa consigo mesmo, ri sem motivo, olha repentinamente em determinada direção na ausência de estímulo aparente, etc.) ou da formulação de perguntas diretas sobre tais alterações. ↠ Entre as alterações qualitativas, destacam-se as alucinações e as ilusões. As alucinações são as principais alterações da sensopercepção. Pensamento e juízo de realidade ↠ Um ponto inicial na avaliação do pensamento é por meio do processo de pensar, cujos componentes são: o curso (ou fluxo), a forma (ou estrutura) e o conteúdo (ou temática). Linguagem ↠ A avaliação da linguagem deve ser realizada por meio da observação do discurso espontâneo do paciente e complementada por perguntas a ele direcionadas. ↠ É importante descrever as características da fala: espontânea ou não; se falou o mínimo necessário com respostas monossilábicas ou muito sucintas; o volume da fala; e se ocorreu algum defeito na verbalização, como disartria, gagueira ou rouquidão. Pacientes psicóticos podem apresentar eventualmente alterações de linguagem, como: • mussitação (produção repetitiva de uma voz muito baixa, murmurada); • neologismos (criação de alguma palavra inteiramente nova, com sentido próprio); • perseveração verbal (repetição automática de palavras ou trechos de frases, de modo estereotipado e sem sentido); • ecolalia (repetição da última ou das últimas palavras que o entrevistador ou alguém no ambiente pronunciou); • palilalia (repetição automática e estereotipada pelo paciente de suas próprias palavras ou frases); • logoclonia (repetição automática e involuntária das últimas sílabas pronunciadas). 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck Inteligência ↠ A inteligência pode ser definida como o conjunto das habilidades cognitivas que permitem ao indivíduo compreender o mundo ao seu redor e lidar com suas demandas. Depende do neurodesenvolvimento, que, se incompleto ou atrasado, poderá levar aos chamados transtornos do desenvolvimento intelectual ou às deficiências intelectuais. A avaliação da inteligência terá início quando da coleta de dados de identificação. No item de escolaridade, o médico estará diante do critério psicopedagógico de avaliação da inteligência: havia dificuldade na aprendizagem, já foi reprovado na escola? Chegou a concluir os estudos? Da investigação de desenvolvimento psicomotor virão informes sobre idade em que começou a andar, a falar, etc. Afetividade ↠ No exame da afetividade, o psiquiatra observará as seguintes vivências afetivas: humor, emoções, sentimentos e afetos. A avaliação deve incluir a expressividade, o controle e a adequação das manifestações dos sentimentos, bem como a intensidade, a duração, as flutuações do humor e os seus componentes somáticos. • O humor (ou estado de ânimo) consiste no tônus afetivo do indivíduo na maior parte do tempo, ou seja, seu estado emocional basal, encontrando-se alterado, especialmente, nos transtornos do humor, como depressão e transtorno bipolar. Comumente, o humor é identificado pela forma como o paciente diz se sentir e pode ser descrito como deprimido, irritável, disfórico, eufórico e em elação. • As emoções consistem em reações afetivas momentâneas e intensas, desencadeadas por estímulos significativos, internos ou externos, conscientes ou não e, quase sempre, acompanhadas de sensações somáticas (alegria, tristeza, medo, raiva, nojo). Por sua vez, os sentimentos são estados mais estáveis, de menor intensidade e reatividade, pouco associados a respostas fisiológicas (amizade, amor). • Por afetos, entendem-se as qualidades emocionais que acompanham determinado estímulo, ideia ou representação mental. Volição ou vontade ↠ A vontade, ou volição, é uma dimensão complexa da vida mental relacionada às esferas instintiva, afetiva e intelectiva em conjunto com os valores, princípios, hábitos e normas éticas e socioculturais do indivíduo. Encontra-se intimamente associada à psicomotricidade e, quase sempre, a avaliação de ambas ocorrerá em conjunto. Um exemplo de alteração frequente da volição ocorre nos quadros depressivos, onde há diminuição (hipobulia) ou abolição da vontade (abulia), e que se encontram bastante associados à apatia, à fadiga fácil e à dificuldade de decisão. O psiquiatra pode identificar esses sinais quando o paciente relatar perda de iniciativa, muita indecisão, dificuldade de transformar as decisões em ações, de “não ter vontade para nada”, ou que “se sente muito desanimado, sem forças, sem energia”. Psicomotricidade ↠ O ato motor é o componente final do ato volitivo, portanto, as alterações da psicomotricidade, frequentemente, constituem uma expressão dos distúrbios da volição. O comportamento e a atividade motora devem ser avaliados desde a marcha do paciente ao adentrar o local da consulta, até mesmo quando sentado ou gesticulando. Inicialmente, o examinador deve observar, de forma global, se o paciente está inquieto, agitado, trêmulo, rígido, se mexe muito com as mãos, se faz algum ato ou gesto repetitivo (p. ex., mexer constantemente na camisa, na chave do carro ou no celular, etc.). Agitação (associada ou não à agressividade) ou lentificação psicomotora, tremores, apraxias, estereotipias, automatismos, maneirismos ou tiques são alguns dos achados que podem estar presentes. Críticas em relação aos sintomas (insight) ↠ Não é uma condição “estática”, podendo haver modificação nas consultas subsequentes. ↠ A avaliação deve ser feita a partir de três aspectos: • consciência do problema: consciência de que algo não vai bem, ou seja, a compreensão de poder estar doente, o que pode ser subdivido em duas condições: consciência apenas de que tem um problema; e consciência de que tal problema pode ser um transtorno mental; • capacidade de nomear ou renomear os sintomas: são atribuídos significados às suas experiências (p. ex., “o que tenho não é doença, é influência do demônio”); • adesão aos tratamentos propostos: de modo geral, mas não sempre, pessoas que têm insight sobre sua condição psicopatológica aceitam seguir os tratamentos recomendados. Como resultado, o insight pode ser descrito como total (ou preservado), parcial ou nulo. Insight parcial pode ocorrer, por exemplo, na mania, em que o paciente pode reconhecer que existe algo errado, mas atribui a culpa aos outros. Exame Clínico ↠ Embora no atendimento psiquiátrico seja reservada maior quantidade de tempo à entrevista e ao exame do estado mental, delimitar alguns minutos para a realização do exame clínico é indispensável a um adequado atendimento, por razões que vão desde a necessidade 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck do diagnóstico diferencial até a averiguação de condições clínicas existentes relevantes para o diagnóstico e indicação terapêutica. • Medidas antropométricas e sinais vitais; • Revisão dos sistemas orgânicos. Referências NARDI, Antonio E.; SILVA, Antônio G.; QUEVEDO, João. Tratado de psiquiatria da associação brasileira de psiquiatria. Grupo A, 2021. . 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Oftalmoscopia ↠ Fundoscopia, também chamada de oftalmoscopia, é o exame em que se visualizam as estruturas do fundo de olho, dando atenção ao nervo óptico, aos vasos retinianos e a retina propriamente dita, especialmente sua região central denominada mácula (DIAS, 2020). ↠ O princípio óptico consiste na projeção de luz, provenientedo oftalmoscópio, no interior do olho e mediante a reflexão dessa luz na retina é possível observar essas estruturas (DIAS, 2020). OFTALMOSCÓPIO DIRETO ↠ Teremos por referência o oftalmoscópio direto portátil elétrico à pilha (DIAS, 2020). O oftalmoscópio direito possui duas estruturas principais: uma abertura, através da qual podemos enxergar o que há do outro lado e uma fonte de luz, em um mesmo ponto da abertura, possibilitando a iluminação e, portanto, a visualização do fundo de olho. A abertura é dotada de um conjunto de lentes que permitem, quando necessário, correção refrativa. Na fonte luminosa, há diafragmas e filtros que regulam quantidade e cor de luz emitida pelo oftalmoscópio (DIAS, 2020). TÉCNICA FUNDOSCÓPICA DIRETA ↠ A fundoscopia direta é mais bem realizada no paciente em midríase. Havendo a possibilidade, utilizam-se colírios midriáticos de curta duração, de preferência a tropicamida a 1 %, uma vez que a Fenilefrina 10% deve ser evitada em pacientes com doenças vasculares isquêmicas (DIAS, 2020). Nem sempre é possível a dilatação farmacológica. É importante, portanto, realizar o exame em ambientes escuros com o olhar fixado em um ponto distante, tendo em vista que favorece a midríase (DIAS, 2020). ↠ Em princípio, devemos examinar o olho do paciente com o olho equivalente do examinador, isto é, o esquerdo examina o esquerdo e o direito examina o direito. Sabendo disso, citamos um passo-a-passo para melhor fixar a técnica (DIAS, 2020). • Papila: Aproxima-se o máximo possível, sempre buscando a visualização do reflexo vermelho até que apareça alguma estrutura do fundo de olho. Focaliza-se a imagem, utilizando o conjunto de lentes do oftalmoscópio. A seguir, deve-se localizar a papila óptica, procurando-a cerca de 20-30° em relação à linha média da face. A trajetória dos vasos, também, serve de guia, uma vez que saem juntamente com as fibras do nervo óptico. Analisa-se a papila quanto à cor, forma, limite e escavação. Ao localizar a escavação, é importante relacioná-la com o tamanho total da papila, geralmente 30- 40%. • Vasos: De dentro do olho, emergem da papila artéria e veia central da retina, dividindo-se nos ramos temporal superior, nasal superior, temporal inferior e nasal inferior. Analisa-se a trajetória (retilínea), o reflexo arteriolar normal (até 1/3 do diâmetro), e a relação do diâmetro arteriovenoso (2:3). Oftalmoscopia e Retinopatia Diabética 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Retina: Após a análise dos vasos, passamos a estudar a retina como um todo, caracterizando coloração e uniformidade. É importante notar que algumas variações de coloração são fisiológicas e dependem da pigmentação de cada indivíduo. • Mácula: A visualização da mácula é feita por último, uma vez que essa região é mais sensível à luminosidade, provocando desconforto e escotomas. Para visualizá-la, pede-se ao paciente olhar diretamente para a luz. Em indivíduos jovens, percebe-se um reflexo na região mais central (reflexo foveolar). A mácula é uma zona da retina de forma mais ou menos ovalada (maior diâmetro horizontal), de cor mais escura que o resto dos fundos, limitada por um reflexo anelar, possuindo uma depressão punctiforme central, correspondente à fóvea centralis (SBRISSA, 2019). • Sempre começar pelo olho D. • Regular o diâmetro do feixe de luz que mais se adapte a pupila do paciente. SEGMENTO ANTERIOR: lâmpada de fenda. 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck SEGMENTO POSTERIOR: Oftalmoscopia direta; oftalmoscopia indireta; biomicroscopia de fundo. Retinopatia diabética O DM engloba um grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos caracterizados por hiperglicemia crônica, causada por defeitos na ação, na secreção da insulina ou em ambos (AMARAL; VILELA, 2021). ↠ A retinopatia é a 3ª causa de cegueira em adultos no Brasil, sendo a principal em pessoas em idade produtiva (16 a 64 anos). É uma das complicações mais comuns da diabetes mellitus, encontrada, após 20 anos, em mais de 90% no tipo 1 e em 50%-80% no tipo 2, tendo aumentado bastante a incidência com o crescimento da expectativa de vida dos pacientes (ARAGÃO et al., 2013). ↠ Pode ser caracterizada como a disfunção progressiva da retina em decorrência da hiperglicemia crônica característica do DM (AMARAL; VILELA, 2021). ↠ Entre as complicações microvasculares do DM, a retinopatia diabética (RD) é a mais comum, sendo a principal causa de cegueira entre adultos no ocidente. Embora nenhum fator seja melhor em predizer a possibilidade de desenvolvimento de RD que a duração da doença, existe relação direta entre o bom controle glicêmico e a prevenção do desenvolvimento de RD (AMARAL; VILELA, 2021). ↠ A retinopatia diabética é caracterizada pela oclusão microvascular na retina, resultante da perda de pericitos, do espessamento da membrana basal e da proliferação endotelial exagerada, provocados pela DM. Alterações hematológicas favorecendo a má perfusão também ocorrem. Em conjunto, esses fenômenos causam isquemia da retina, o que leva o tecido em hipóxia a liberar fatores de crescimento vascular (VEGF) que estimulam a neovascularização (grande problema, pois geralmente eles sangram) (AMARAL; VILELA, 2021). CLASSIFICAÇÃO ↠ A RD pode ser classificada em duas categorias: não proliferativa (RDNP) e proliferativa (RDP). As duas categorias são subdivididas em estágios, de acordo com seus sinais clínicos característicos (AMARAL; VILELA, 2021). RD NÃO PROLIFERATIVA: • LEVE: microaeurismas menor que 4 quadrantes. Controlar a glicemia e prepara-lo para as complicações caso ele não mantenha níveis adequados da glicemia. • MODERADA: microaneurismas nos 4 quadrantes ou IRMA leve ou ingurgitamento em 1 quadrante. • GRAVE: microaneurismas em mais de 4 quadrantes ou 2 quadrantes com BEADING VENOSO ou 1 quadrante com IRMA (1 CRITÉRIO). • MUITO GRAVE: possui 2 ou mais dos critérios acima. SÓ TRATA COM LASER NESSA FASE. RD POLIFERATIVA: neovasos, hemorragia vítrea, descolamento de retina tradicional e glaucoma neovascular (prognóstico muito ruim). OBS.: A principal diferença entre as duas categorias está na severidade da isquemia e na presença de neovasos (AMARAL; VILELA, 2021). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck ATENÇÃO: O edema macular pode ocorrer tanto na RDNP como na RDP, e esse é o principal fator causal da perda de visão central em diabéticos (AMARAL; VILELA, 2021). ACHADOS CLÍNICOS Microaneurismas ↠ Os microaneurismas constituem os primeiros sinais clínicos da retinopatia diabética visível à oftalmoscopia (AMARAL; VILELA, 2021). • Bolsas saculares na parede capilar por perda de periócitos. Pontos vermelhos (exame do olho diretamente) ou hiperfluorescentes (com realce dos contrastes - angiofluorosceina). Hemorragias intrarretinianas ↠ A ruptura dos microaneurismas é responsável pelas hemorragias intrarretinianas. Pode ser difícil distinguir um microaneurisma de uma hemorragia de mesmas dimensões utilizando somente o oftalmoscópio, situação em que a angiografia pode auxiliar (AMARAL; VILELA, 2021). • Redonda ou chama de vela. As hemorragias em camadas profundas da retina têm, usualmente, um aspecto arredondado; já as hemorragias em camadas superficiais têm, geralmente, um aspecto de chama de vela, tal como as hemorragias características da retinopatia hipertensiva (AMARAL; VILELA, 2021). Exsudatos duros ↠ A permeabilidade capilar aumentada resulta em perda de líquidos e formação de edema. Parte desse líquido é reabsorvida, enquanto lipídeos e proteínas que não o são depositam-se no espaço intracelular formando os chamados exsudatos duros. Eles se apresentam como pontos amarelados de borda bastante nítida. Visto que aincompetência capilar é maior na região acometida pelos microaneurismas, os exsudatos duros por vezes acumulam-se ao redor desses, formando um padrão anelar ou circinado. O edema gerado pelo acúmulo de líquidos nas camadas da retina provoca uma dispersão anormal da luz entre as camadas e pode ser detectado pelo aumento da opacidade retiniana (AMARAL; VILELA, 2021). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Estravassamento de lipoproteínas na camada plexiforme externa. Manchas algodonosas ↠ Assim como as hemorragias intrarretinianas e os exsudatos duros, as manchas (exsudatos) algodonosas também são características da RDNP moderada. Permanecem tempo menor do que os exsudatos duros. Representam áreas de isquemia das fibras das células ganglionares com edema axonal por oclusão dos vasa nervorum (AMARAL; VILELA, 2021). • Infartos na camada de fibra nervosa. Anormalidades microvasculares intrarretinianas (IRMA) / Anormalidades da parede venosa ↠ As anomalias venosas de morfologia e trajeto são exemplificadas nas veias que se tornam enoveladas ou contas de rosário (AMARAL; VILELA, 2021). ↠ As IRMAs são dilatações capilares que funcionam como shunts. Assemelham-se a microfocos de neovascularização, mas não ultrapassam os limites da membrana limitante interna e quase que rotineiramente há ausência de extravasamento (AMARAL; VILELA, 2021). • Sinal de gravidade. Anormalidades vasculares intra-retinianas. Derivam da proliferação de células endoteliais. Tentativa de bypass da região isquêmica. Não ultrapassam a membrana limitante interna (MLI). • Beading venoso ou ensalsichamento venoso ou veias de rosário: fica mais calibrosos. Neovasos ↠ A progressão da RDNP leva a maioria dos pacientes ao estado de RDP. A perfusão sanguínea insuficiente na retina desencadeia uma série de mecanismos bioquímicos que, entre outras coisas, vão estimular a proliferação de vasos (AMARAL; VILELA, 2021). ↠ Os neovasos podem ser entendidos como uma tentativa desorganizada e falha do organismo em suprir a isquemia. Eles se formam na interface entre retina e 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck vítreo e são fonte de complicações, como a hemorragia vítrea. A neovascularização surge no disco óptico, ou na retina, podendo ter extensões variáveis. Adjacente aos neovasos, um tecido conectivo de aporte se prolifera causando fibrose, que pode levar ao descolamento de retina (AMARAL; VILELA, 2021). • Neovasos de disco ou de retina: ultrapassam a MLI. Hemorragia vítrea ↠ A hemorragia vítrea é uma das possíveis complicações da neovascularização, pois os vasos que se formam na interface entre retina e vítreo podem sangrar. Essa hemorragia é uma urgência médica e é caracterizada por baixa instantânea da visão (AMARAL; VILELA, 2021). Descolamento de retina ↠ A fibrose, que ocorre em direção ao vítreo em conjunto com a neovascularização, se contrai, podendo levar ao descolamento de retina, outra urgência médica. Esse descolamento, causado por tração da retina, é classificado como descolamento tradicional ou não regmatogênico (AMARAL; VILELA, 2021). • Descolamento de retina tradicional: membranas fibrovasculares se contraem e tracionam a retina. Edema macular ↠ É a mais comum causa de perda visual entre os pacientes portadores de RD. Ocorre quando há acúmulo de líquidos na área macular ou em suas adjacências. No caso específico dos portadores de DM, a causa é, em geral, o vazamento de plasma decorrente de incompetência capilar. A presença de hipertensão sistêmica contribui para esse quadro (AMARAL; VILELA, 2021). 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Ocorre devido quebra hematorretiniana interna. • Focal (pior, ele está na fóvea) ou difuso. • Com acometimento central ou sem acometimento central. • Terapia com anti-VEGF - padrão ouro. TRATAMENTO • Controle glicêmico (HBA1C menor que 6-7%). • A glicemia em jejum deve estar menor que 140mg/dL para efetuar o exame de óculos. • Fotocoagulação a laser - não proliferativa muito grave (não realizar em mácula) - laser de argônio, bloqueia a área isquêmica, impedindo a podução de VEGF). • Terapia anti fatores de crescimento (anti- VEGFs) - padrão ouro para o edema de mácula. • Micropulso (alternativa complementar). • Tratamento cirúrgico - vitrectomia posterior --> hemorragia vítrea que não melhora espontaneamente, descolamento de retina. SCREENING - TRIAGEM • DM1: 5 anos após diagnóstico da DM (anual). • DM2: no diagnóstico (anual). • Gestante que possui dabetes: primeiro trimestre. AO COLEGA OFTALMOLOGISTA: Paciente com queixa de turvação visual, DM tipo 2 diagnosticado há 10 anos com tratamento irregular, apresenta hemoglobina glicada 9,8% a três semanas. Solicito Avaliação de Fundo de Olho. ANUALMENTE. 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck Referências DIAS, A. F. Como realizar uma fundoscopia: passo a passo. Manual de Habilidades Clínicas em Oftalmologia. Centro Universitário do Pará, 2020. SBRISSA, Renato A. Atlas do Fundo de Olho.Thieme Brazil, 2019. AMARAL, C. E. V.; VILELA, M. A. P. Doenças sistêmicas e oftalmologia. Editora da UFCSPA, 2021. ARAGÃO et al. Manifestações oculares de doenças sistêmicas RETINOPATIA DIABÉTICA. Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, 2013. 1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ O termo meningite expressa a ocorrência de um processo inflamatório das meninges, membranas que envolvem o cérebro (BRASIL, 2012). Meningite asséptica, um termo mais antigo, às vezes é usada como sinônimo de meningite viral; entretanto, ela costuma se referir a meningites agudas causadas por outra coisa além das bactérias que normalmente causam meningite bacteriana aguda. Portanto, meningite asséptica pode ser causada por: • Vírus • Quadros não infecciosos (p. ex., fármacos, doenças) • Ocasionalmente, outros organismos (p. ex., Borrelia burgdorferi na doença de Lyme, Treponema pallidum na sífilis) ↠ A meningite pode ser causada por diversos agentes infecciosos, como bactérias, vírus e fungos, dentre outros, e agentes não infecciosos (ex.: traumatismo). As meningites de origem infecciosa, principalmente as causadas por bactérias e vírus, são as mais importantes do ponto de vista da saúde pública, pela magnitude de sua ocorrência e potencial de produzir surtos (BRASIL, 2012). Meningite bacteriana ↠ Os principais agentes bacterianos causadores de meningite são: (BRASIL, 2012). Neisseria meningitidis (Meningococo) • Bactéria gram-negativa em forma de coco. • Possui diversos sorogrupos, de acordo com o antígeno polissacarídeo da cápsula. • Os mais frequentes são os sorogrupos A, B, C, W135 e Y. • Podem também ser classificados em sorotipos e subtipos, de acordo com os antígenos protéicos da parede externa do meningococo. • Período de incubação 2-10 dias. • Transmissão: contato com secreção da nasofaringe. ↠ A atualidade, o sorogrupo B é o sorotipo relatado mais comumente (50%). As crianças e os adultos jovens são predominantemente acometidos. O hábitat normal do meningococo é a nasofaringe, e a doença é disseminada por indivíduos colonizados (LOUIS et al., 2018). ↠ As bactérias são habitualmente isoladas do sangue antes do início da meningite, indicando que a colonização da nasofaringe com bacteriemia e disseminação subsequente para o SNC é mais comum (LOUIS et al., 2018). ↠ O início da meningite meningocócica assemelha-se àquele de outras formas de meningite e é acompanhado de calafrios e febre, cefaleia, náuseas e vômitos, dor nas costas, rigidez de nuca e prostração. A ocorrência de erupção cutânea petequial ou hemorrágica constitui manifestação da meningococcemia. No início