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Analgésicos Opioides Aula 12: Analgésicos Opioides - Vias Nociceptivas (Parte 1) Esta aula inicia a discussão sobre os analgésicos opioides, abordando sua definição, histórico, indicações, mecanismos da dor e dos receptores, e como os opioides agem. ● Definição e Origem dos Opioides ○ Os analgésicos opioides são fármacos utilizados para dores intensas. ○ Eles são derivados do ópio, um látex extraído de cápsulas imaturas da planta Papaver somniferum (papoula). ○ O ópio contém moléculas com ações analgésicas, como a morfina, codeína e papaverina, que em conjunto são chamadas de opiáceos. Opiáceos são analgésicos estruturalmente relacionados à morfina e de origem natural. ○ Opioides é uma classe mais abrangente, incluindo compostos sintéticos, semissintéticos, naturais (opiáceos) e os analgésicos opioides endógenos que interagem com receptores no sistema nervoso central. ● História dos Opioides ○ O uso de opioides remonta ao século XV/XVI com Paracelso, que produziu o Laudánum, um preparado hidroalcoólico de ópio em pó com propriedades analgésicas. ○ Em 1803, Friedrich Sertürner isolou a morfina do ópio e a nomeou em homenagem a Morfeu, o deus grego dos sonhos, devido aos efeitos de euforia e alucinações. ○ Em 1833, a morfina foi isolada e purificada em escala comercial na Escócia. ○ Em 1853, seu uso injetável se popularizou, coincidindo com a produção da seringa dérmica. ○ A estrutura química da morfina foi proposta em 1925 por Robert Robinson e sintetizada em 1952. ○ Em 1970, foram descobertos os receptores de membrana nas células nervosas que interagiam com os opioides, levando à dedução de que a morfina e seus derivados não eram os ligantes naturais desses receptores. ○ Somente em 1975 foram isolados os primeiros compostos opioides endógenos, como as encefalinas (leu-encefalina e met-encefalina), que são tetrapeptídeos. Posteriormente, foram identificados outros opioides endógenos, como a Beta-endorfina, dinorfina e endomorfinas, todos com uma estrutura básica de polipeptídeos. ○ Opioides como morfina, meperidina e metadona, bem como as encefalinas, apresentam semelhanças estruturais, incluindo um anel benzênico ligado a um grupamento amina. ● Indicações dos Analgésicos Opioides ○ A principal indicação é a resolução da dor. ○ Utilizados para dores agudas e severas de origem traumática (principalmente morfina e fentanil). ○ Para dores leves e moderadas de origem inflamatória (opioides mais fracos como codeína e propoxifeno). ○ Para dores severas crônicas (morfina e oxicodona são os melhores). ○ Não são eficazes para dor neuropática, onde há lesão ou ruptura do nervo. ○ A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a dor e indica o uso de opioides: ■ Dor leve: analgésicos e anti-inflamatórios. ■ Dor moderada: opioides fracos + analgésicos + anti-inflamatórios. ■ Dor intensa: opioides fortes + analgésicos + anti-inflamatórios. ■ Dor refratária: opioides fortes + analgésicos + anti-inflamatórios + procedimentos intervencionistas/cirúrgicos e drogas adjuvantes. ● Vias Transmissoras da Dor (Nocicepção) ○ A dor começa com estímulos periféricos (químicos, mecânicos ou térmicos) que ativam receptores específicos. ○ A ativação desses receptores leva a um influxo de sódio e cálcio, gerando uma despolarização de membrana e um potencial de ação. ○ Este impulso nervoso é conduzido pelas vias ascendentes (sensitivas) até a medula espinhal (corno anterior) e depois ao córtex cerebral, onde o indivíduo toma consciência da dor. ○ O córtex cerebral, por sua vez, envia um impulso descendente (motor e inibitório) para que o tecido seja retirado da área que está sofrendo o estímulo nocivo. ● Tipos de Fibras Nervosas Condutoras da Dor ○ As terminações nervosas periféricas nociceptoras são sensíveis a diversos estímulos. ○ Fibras A-Beta: ■ Fibras de condução rápida. ■ Respondem a baixo limiar de estímulo mecânico (ex: toque leve, movimento de pelos). ○ Fibras A-Delta: ■ Fibras mielínicas, encontradas na pele e músculo. ■ Transmitem sinais de dor de forma rápida, aguda e bem localizada. ■ Respondem a estímulos de frio, calor e mecânicos de alta intensidade. ■ Principais neurotransmissores: glutamato e aspartato. ○ Fibras C: ■ Fibras amielínicas, encontradas no músculo, mesentério e vísceras. ■ Conduzem o sinal da dor lentamente. ■ Geram uma má localização da dor, que é geralmente difusa e com sensação de queimação. ■ Respondem a estímulos mecânicos intensos ou irritantes químicos. ■ Principais neurotransmissores: somatostatina, substância P, peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). ● Vias Nociceptivas e Modulação Endógena da Dor ○ Via Ascendente (Estimulatória): ■ Neurônios pré-sinápticos liberam neurotransmissores como glutamato (agindo em receptores AMPA, NMDA e metabotrópicos) e neuropeptídeos (CGRP, substância P agindo no receptor NK1) na fenda sináptica. ■ Esses neurotransmissores promovem despolarização pós-sináptica e conduzem o potencial de ação até o córtex cerebral. ○ Inibição Endógena da Dor: ■ A dor é inibida por norepinefrina, GABA e opioides endógenos (endorfinas e encefalinas). ■ Mecanismos pré-sinápticos: Norepinefrina (receptores alfa-2), GABA (receptores GABA-B) e opioides endógenos (receptores opioides) inibem a entrada de cálcio, reduzindo a liberação de neurotransmissores que propagam o impulso nervoso. ■ Mecanismos pós-sinápticos: Norepinefrina (receptores alfa-2), GABA (receptores GABA-B e GABA-A) e opioides endógenos (receptores mi) promovem a abertura de canais de potássio (potássio sai da célula) e GABA-A abre canais de cloreto, resultando em hiperpolarização da membrana pós-sináptica e redução da geração do potencial de ação. Isso impede a propagação do impulso nervoso de volta ao córtex. ○ Mecanismos de Ação dos Opioides (geral): ■ Inibem a transmissão ascendente nociceptiva. ■ Ativam a transmissão descendente inibitória (do mesencéfalo para a medula espinhal). ■ Inibem discretamente os nociceptores periféricos. ● Receptores Opioides e Seus Efeitos ○ Existem três principais tipos de receptores opioides: Mu (μ), Delta (δ) e Kappa (κ). Eles estão envolvidos tanto na analgesia quanto nos efeitos adversos. ○ Receptores Mu (μ): ■ Analgesia supraespinhal. ■ Depressão respiratória. ■ Euforia. ■ Dependência física. ■ Miose (constrição pupilar). ■ Redução da motilidade gastrointestinal. ■ Sedação. ■ Principais agonistas: morfina, fentanil, buprenorfina. ○ Receptores Kappa (κ): ■ Analgesia medular. ■ Miose. ■ Sedação. ■ Disforia. ■ Redução da motilidade gastrointestinal. ■ Dependência física (menor ação). ■ Principal agonista: etorfina. ○ Receptores Delta (δ): ■ Analgesia espinhal. ■ Alterações do comportamento afetivo. ■ Redução da motilidade gastrointestinal. ■ Principais agonistas: pentazocina, nalorfina. ○ Receptores Sigma (σ): ■ Provocam disforia, alucinações, estimulação motora e estimulação respiratória. ■ Principal agonista: etorfina. ○ Distribuição dos Receptores Opioides: Encontrados em áreas relacionadas à dor no córtex cerebral, amígdala (influenciam comportamento emocional), septo, tálamo (mediadores da dor profunda e emocional), hipotálamo (afetam secreção neuroendócrina), mesencéfalo e medula (recepção e integração de informações sensoriais). Aula 12: Analgésicos Opioides - Classificação (Parte 2) Esta aula aprofunda a classificação dos opioides e seus mecanismos moleculares, detalhando suas ações farmacológicas, efeitos adversos, tolerância, dependência e síndrome de abstinência. ● Classificação dos Opioides ○ Agonistas Puros: Têm preferência de ligação sobre receptores Mu, com ação analgésica principal (ex: morfina, fentanil, buprenorfina). A seletividade aos receptores não indica a potência. ○ Agonistas Mistos: Atuam em mais de um receptor opioide (Mu, Kappa, Delta). ○ Agonistas Parciais: Ligam-se aos receptoresMu, mas produzem um nível de efeito inferior ao da morfina (ex: nalbufina). ○ Antagonistas: Ligam-se aos receptores opioides, mas não produzem efeito opioide, bloqueando os efeitos dos agonistas (ex: naloxona). ○ Classificação por Estrutura Química / Derivação: ■ Análogos da Morfina: heroína, codeína. ■ Derivados Sintéticos: ■ Fenilpiperidina: meperidina, fentanil. ■ Metadona: metadona, propoxifeno. ■ Bomorfana: pentazocina. ■ Tebaína: etorfina. ○ Classificação por Potência (em comparação com a morfina): ■ Opioides Fracos: tramadol, codeína, propoxifeno. ■ Opioides Fortes: ■ Sufentanil: 1000 vezes a potência da morfina. ■ Fentanil: 100 vezes a potência da morfina. ■ Meperidina, oxicodona, metadona: potências semelhantes à morfina. ● Mecanismos Moleculares dos Opioides ○ Os opioides ativam as vias inibitórias e bloqueiam as vias excitatórias. ○ Eles se ligam a receptores opioides acoplados à proteína G do tipo Gi (inibitória). ○ Isso resulta em: ■ Inibição da Adenilil Ciclase, reduzindo os níveis de AMP cíclico. ■ Abertura de canais de potássio, promovendo hiperpolarização da membrana. ■ Inibição dos canais de cálcio, impedindo a entrada de cálcio e, consequentemente, diminuindo a liberação de neurotransmissores na fenda sináptica. ● Principais Ações Farmacológicas (Tomando a Morfina como Referência) ○ Analgesia: Principal indicação. Usada para dores agudas e crônicas, exceto dores neuropáticas (ex: neuralgia do trigêmeo). ○ Euforia: Ação no sistema límbico, causando uma poderosa sensação de bem-estar e contentamento. Mediada por receptores Mu. Ocorre pelo bloqueio de neurônios GABAérgicos no núcleo accumbens e neurônios dopaminérgicos na área tegmentar ventral, inibindo a via inibitória do pálido ventral, que é responsável pela gratificação. A nalorfina pode causar euforia em altas doses. ○ Disforia: Sensação de mal-estar, relacionada à ação em receptores Kappa (ex: nalorfina, pentazocina). A codeína não causa euforia nem disforia. ○ Depressão Respiratória: Efeito adverso importante, relacionado aos receptores Mu. Doses terapêuticas diminuem a sensibilidade do centro respiratório ao CO2. Não ocorre concomitantemente com a depressão cardiovascular. ○ Depressão do Reflexo da Tosse: Principalmente com a codeína, em doses subterapêuticas para dor. Aparentemente sem correlação com o efeito analgésico ou depressor respiratório. ○ Náusea e Vômito: Ocorrem em cerca de 40% dos pacientes. Estimulam a zona quimiorreceptora do gatilho emético na área postrema do bulbo, aparentemente por estimulação de receptores dopaminérgicos. Antagonistas dopaminérgicos podem ser usados para tratar a êmese. ○ Constrição Pupilar (Miose): Por ação em receptores Mu e Kappa, estimulando o núcleo oculomotor. Não apresenta tolerância, sendo um importante sinal diagnóstico de uso ou uso excessivo de opioides. ○ Efeitos Gastrointestinais: Aumentam o tônus e diminuem a motilidade do trato gastrointestinal (causando constipação), diminuem ações colinérgicas. Também aumentam a pressão sobre o trato biliar, provocando desconforto epigástrico e cólica biliar (paradoxal para analgésicos). Podem ser reduzidos com atropina e estão relacionados a receptores Mu e Kappa. ○ Liberação de Histamina: Ação direta sobre os mastócitos, causando coceira (prurido) local e, sistemicamente, broncoespasmo e hipotensão (cuidado com asmáticos). ○ Outras Ações: Hipotensão em altas doses (efeito medular), espasmos musculares generalizados, e imunossupressão com uso crônico. ● Tolerância ○ Definição: Redução dos efeitos farmacológicos, mesmo mantendo a mesma dosagem. ○ Desenvolvimento: Ocorre rapidamente, entre 12 e 24 horas. ○ Tolerância Diferencial: ■ Euforia: A tolerância ocorre muito rapidamente. ■ Analgesia e Depressão Respiratória: Tolerância moderada, leva mais tempo. ■ Miose e Constipação: Quase nenhuma tolerância observada. ○ Mecanismos: ■ Uso Agudo: A adenilil ciclase é menos inibida pela mesma dosagem de opioide, levando a uma redução dos efeitos farmacológicos. ■ Uso Crônico: Ocorre dessensibilização (resposta menor do receptor) e internalização dos receptores (menor quantidade de receptores na membrana plasmática), resultando em redução dos efeitos farmacológicos. ● Dependência e Síndrome de Abstinência ○ Dependência: Necessidade de aumentar a dose para atingir o mesmo efeito farmacológico, decorrente da tolerância. Principalmente relacionada aos receptores Mu e aos sistemas mesolímbico e dopaminérgico, mas também influenciada por fatores psicológicos e socioeconômicos. ○ Síndrome de Abstinência (SA): ■ Causa: Reversão da inibição da adenilil ciclase com a retirada do opioide, levando a um aumento da atividade da adenilil ciclase. ■ Sintomas: Irritabilidade, perda de peso, febre, midríase, náuseas, diarreia, insônia, convulsões. ■ Duração: Desaparece em no máximo 3 dias. ■ Estágios da SA: ■ Estágio 1 (primeiras 8 horas): Ansiedade e súplica pela droga. ■ Estágio 2 (8 a 24 horas): Além da ansiedade, insônia, distúrbios gastrointestinais, rinorreia, midríase e diaforese (sudorese excessiva). ■ Estágio 3 (após 24 horas até 3 dias): Taquicardia, náusea, vômito, hipertensão, diarreia, febre, calafrios, tremores, convulsões e espasmos musculares. ● Principais Agonistas e Antagonistas de Receptores Opioides ○ Agonistas (detalhes): ■ Diacetilmorfina (Heroína): Obtida da morfina, mais lipossolúvel, menor duração e maior dependência que a morfina. ■ Codeína: Obtida da morfina, bem absorvida por via oral, principalmente antitussígeno (em doses subterapêuticas para dor), baixa potência analgésica (dores leves), não induz euforia, mas causa constipação intensa. ■ Dextropropoxifeno: Similar à codeína, duração mais longa, dependência discutível. ■ Meperidina: Similar à morfina, causa agitação (não sedação), atividade antimuscarínica, euforia, dependência, menor duração de efeito. Útil em anestesia de parto. Cuidado ao associar com inibidores da MAO (pode causar hipertermia e convulsões). ■ Fentanil: Derivado da fenilpiperidina, ação similar à morfina, mas de curta duração, usado em anestesias. ■ Etorfina: Análogo de grande potência (1000 vezes maior na analgesia que a morfina), usada para imobilizar grandes animais. ■ Metadona: Semelhante à morfina, menor efeito sedativo, longa duração (meia-vida >24h), menor dependência e síndrome de abstinência menos severa que a morfina. Autoinduz seu próprio metabolismo, o que reduz seu tempo de eliminação em uso crônico. ■ Pentazocina: Misto agonista-antagonista, em baixas doses tem potência similar à morfina, sem produzir depressão respiratória e sem disforia. ■ Tramadol: Metabólito da trazodona, agonista fraco de receptores Mu, inibe a recaptação de norepinefrina. ■ Drogas Adjuvantes: Antidepressivos tricíclicos (imipramina, amitriptilina - inibem recaptação de noradrenalina), carbamazepina e gabapentina. ○ Antagonistas Opioides: Ligam-se aos receptores opioides e impedem que os analgésicos os ocupem. ■ Nalorfina: Estrutura semelhante à morfina, antagonismo Mu, mas agonismo parcial Delta e Kappa (pode causar disforia). Antagoniza analgesia e depressão respiratória. Em altas doses, mimetiza morfina e produz dependência; em baixas doses, causa síndrome de abstinência em dependentes. Usada como antídoto para overdose de morfina. ■ Naloxona: Ocupa o receptor opioide, impedindo que o agonista se ligue e provoque seus efeitos (analgesia, euforia/estimulação do SNC). É utilizada para impedir os efeitos adversos dos opioides, como a depressão respiratória, e como antídoto para superdosagem. ■ Naltrexona: Similar à naloxona, mas com duração mais longa (meia-vida em torno de 10 horas). Uso experimental, não clínico. ● Farmacocinética dos Opioides ○ Opioides Fortes (Morfina, Metadona, Oxicodona, Fentanil): ■ Todos apresentam metabolismo hepático, mas com enzimas diferentes, o que pode levar a interações farmacocinéticas. ■ Metadona:Maior tempo de eliminação (54,8 horas em dose única, reduz para 22,2 horas em uso crônico devido a autoindução do metabolismo). ■ Morfina: Menor tempo de eliminação (3 a 4 horas). ■ Metabólitos Ativos: Metadona e fentanil não têm metabólitos ativos. Morfina (morfina-3-glicuronídeo) e oxicodona (oximorfona) apresentam metabólitos ainda ativos. ○ Opioides Fracos (Propoxifeno, Codeína, Tramadol): ■ Todos apresentam metabolismo hepático com enzimas microssomais diferentes. ■ Propoxifeno: Maior tempo de eliminação (6 a 12 horas). ■ Codeína: Menor tempo de eliminação (2,9 horas). ■ Metabólitos Ativos: Todos têm metabólitos ativos. Propoxifeno produz norpropoxifeno. Codeína se transforma em morfina. Tramadol produz o M1 (O-desmetiltramadol), que tem tempo de eliminação maior que o próprio tramadol, estendendo o efeito. Analgésicos Opioides Aula 12: Analgésicos Opioides - Vias Nociceptivas (Parte 1) Aula 12: Analgésicos Opioides - Classificação (Parte 2)