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1 POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL: A CRIANÇA É CIDADÃ? Nancy Nonato de Lima Alves1 Ivone Garcia Barbosa2 Telma Aparecida Teles Martins3 RESUMO: O artigo analisa as políticas públicas para a Educação Infantil, destacando ações, concepções e significados atribuídos às crianças e sua educação, à instituição educativa e ao trabalho nela desenvolvido. Esse estudo compõe pesquisa de doutorado vinculada ao Projeto “Políticas Públicas e Educação da Infância em Goiás: história, concepções, projetos e práticas”, que se realizou no PPGE/FE/UFG. No Brasil, as políticas educacionais para a infância são recentes no âmbito federal, tendo se voltado inicialmente para a chamada educação pré-escolar na faixa etária de quatro a seis anos. A partir da década de 1980, no contexto de debate e mobilizações populares em torno da democratização da sociedade, a legislação incorpora concepções balizadas na idéia de cidadania e direitos, considerando a Educação Infantil como um dos direitos das crianças e dever do Estado. Nesse sentido, manifesta-se o reconhecimento formal da necessidade de promover a Educação Infantil tratando a criança como cidadã, sujeito de direitos, e a infância como categoria social específica, que apresenta peculiaridades e necessidades distintas das demais categorias geracionais. A análise indica, entretanto, a contradição constitutiva das políticas públicas nos marcos da concepção de cidadania burguesa, evidenciando conquistas, ambiguidades e conflitos, que configuram desafios para a educação da infância. PALAVRAS-CHAVE: Políticas públicas; Educação infantil; Cidadania. As políticas públicas se constituem quando o Estado é pressionado a reconhecer um determinado setor que demanda intervenção estatal. Tal reconhecimento constrói e expressa concepções e representações acerca dos usuários das políticas públicas, definindo também o lugar dos sujeitos que vão integrar as práticas sociais. O Estado adquire visibilidade nas políticas públicas, materializando “um modo específico de articulação e normatização das diversas demandas”, que visa assegurar a reprodução do setor alvo da política pública de forma harmonizada 1 Doutora em Educação, Professora da Faculdade de Educação/UFG, Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas da Infância e sua Educação em Diferentes Contextos [GEPIED/FE]. nnlalves@hotmail.com 2 Doutora em Educação, Professora da Faculdade de Educação/UFG, Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas da Infância e sua Educação em Diferentes Contextos [GEPIED/FE]. garciasoares@cultura.com.br 3 Mestre em Educação, Professora da Faculdade de Educação/UFG e da SME/Goiânia, Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas da Infância e sua Educação em Diferentes Contextos [GEPIED/FE]. telmateles@hotmail.com 2 com os interesses hegemônicos na sociedade (AZEVEDO, 2001, p. 60-61). Nas sociedades capitalistas, a intervenção do Estado promove o ordenamento hierárquico de opções entre interesses e necessidades, em um processo marcado por tensões, negociações, conflitos e coalizões (ROSEMBERG, 2001). Assim, na correlação de forças entre os segmentos sociais que lutam para garantir “seus” direitos, muitas vezes em detrimento de outros grupos, privatizam-se as políticas que deixam de atender a todos, mas respondem aos interesses particulares de alguns “vitoriosos” com maior capacidade de articulação política. As políticas educacionais, por sua vez, inseridas nas políticas sociais, como conjunto de medidas e de formulações do Estado referentes aos sistemas educativos, exercem diferentes funções na sociedade capitalista, além da regulação dos requisitos necessários ao funcionamento dos sistemas educacionais: reprodução da força de trabalho, mediante a escolarização e qualificação; formação de intelectuais; disseminação da concepção de mundo hegemônica, contribuindo para a legitimação da sociedade e do sistema político vigente; substituição de tarefas ligadas a outras atividades sociais, cujas funções são prejudicadas pelo desenvolvimento capitalista (GERMANO, 1993). Analisar políticas educacionais, portanto, exige considerar a complexa relação entre Estado, sociedade e educação no momento histórico de sua produção, compreendendo o significado do projeto social do Estado, bem como os antagonismos que se processam no movimento em que complexos processos sociais se confrontam com o capital. Educação Infantil como política pública no Brasil: avanços e ambiguidades O surgimento das instituições de Educação Infantil revela forte organicidade com as demandas de cada estágio de reprodução e acumulação do capital. A instalação de escolas e de outras instituições para cuidado e educação de crianças pequenas nos primórdios da sociedade capitalista guarda relação com a finalidade de adaptação das crianças-futuros-trabalhadores à rotina e ao ritmo do trabalho com disciplina e docilidade. Ao mesmo tempo, representa reconhecimento social e preocupação com as condições de vida e peculiaridades infantis, visando promover o desenvolvimento das crianças e atender a suas necessidades (BARBOSA, 1999; FARIA, 2005). Nesse sentido, configura-se o binômio atenção/controle, tratando as crianças de modo diferenciado no mesmo processo em que se estabelecem seus limites como sujeito social, conforme a sua origem de classe social. A proposição da Educação Infantil como dever do Estado e, consequentemente como política pública, é muito recente no Brasil. Nesse processo, predominou a versão filantrópico- assistencialista, configurando a idéia pejorativa de creche como “depósito de crianças”, que se 3 tornou marca histórica da instituição, criada como local de guarda e custódia infantil para liberação da mulher para o trabalho extradomiciliar. A infância é assistida e cuidada mediante o pressuposto de incapacidade familiar e das mães, e a instituição assume a função de substituta materna e moralizadora das famílias, devendo ensiná-las a cuidar e educar seus filhos, de acordo com a moral e os modelos ideológicos hegemônicos. Paradoxalmente, a instituição “que deveria auxiliar na liberação da mulher para o trabalho, condenou-a a sentir-se culpada” (BARBOSA,1999, p. 2-3). A descontinuidade e a ausência de uma concepção de direitos caracterizam a oferta desigual e a precariedade nas instituições de educação das crianças de até seis anos. O descaso e a desresponsabilização do Estado com a infância e sua educação expressam-se em diversas características do atendimento, tais como, pulverização em diferentes órgãos governamentais e na iniciativa privada; fragmentação em ações emergenciais e esporádicas; ínfimo – e infame – aporte de recursos para financiamento; falta de preocupação com a formação e qualificação dos profissionais; negligência com as condições materiais das instituições; configuração de duas redes paralelas, diferenciando o tipo e qualidade do atendimento conforme a classe social das crianças. Para as classes populares, oferta-se uma educação precária, em locais improvisados, com educadoras voluntárias e sem formação específica, sem recursos materiais e pedagógicos, priorizando a domesticação do corpo e das mentes, sob propostas compensatórias e custodiais; enfim uma educação pobre para pobres. As políticas públicas para a infância, contudo, não seguem uma direção linear, pois são construídas na correlação de forças sociais. A criação de creches para atender filhos/as de mulheres trabalhadoras, não se constituiu apenas em estratégia governamental, mas resultou da luta de movimentos sociais feministas e da produção científica que valoriza e reconhece cada vez mais a importância da educação das crianças em contextos coletivos diferenciados da família. Nesse sentido, a trajetória da Educação Infantil se imbrica com a história da mulher e da pesquisa. Ao analisarmos a historicidadedas políticas públicas brasileiras para a infância e a Educação Infantil explicita-se que a criança nem sempre teve direitos assegurados, mas recebeu atendimentos prestados como favor. A infância e sua educação constaram nas leis e nas ações do Estado sob a figura do Amparo e da Assistência, portanto, a criança não era vista como cidadã. Esse panorama começa a se alterar formalmente com a promulgação, em 1988, da chamada Constituição Cidadã. Passa-se a considerar formalmente o atendimento em creches e pré-escolas como dever do Estado e direito da criança à educação e a Educação Infantil é definida como primeira etapa da Educação Básica, expressando uma visão de criança cidadã, ser de direitos, dentre os quais, a educação em creches e pré-escolas. Essas instituições começam a receber uma conotação positiva, numa tentativa de superar as idéias de carência e de incompetência familiar. 4 A partir de então, o conjunto de prescrições legais acerca da Educação Infantil – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n. 9.394/96 (LDB/96), Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil (DCN-EI) de 1998; Parecer CNE/CEB n.04/2000 que estabelece Diretrizes Operacionais para a integração da Educação Infantil nos sistemas de ensino; Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001; Política Nacional de Educação Infantil: pelo direito das crianças de zero a seis anos à Educação/2005; Emenda Constitucional n. 53, de 2006, dentre outros – apresenta pontos comuns que introduzem inovações e desafios nas políticas públicas para a educação de crianças menores de seis anos. Ao reconhecer que a educação dessas crianças, em creches e pré-escolas, é a primeira etapa da Educação Básica, torna-se obrigatória a assunção da responsabilidade por parte dos sistemas de ensino, nas diferentes instâncias do poder público, com atuação prioritária dos Municípios, em regime de colaboração com os Estados e a União. A assunção da Educação Infantil como responsabilidade mútua do Estado e das famílias, indica a necessidade de políticas articuladas e integradas de atenção à infância. A adoção da faixa etária como critério de designação das instituições, independentemente da classe social, do período de funcionamento, da vinculação administrativa, atribui status idêntico às creches e pré-escolas enquanto instituições com objetivos comuns: cuidar e educar crianças pequenas, de maneira indissociável. A junção das crianças de 0-3 anos com as de 4-5 anos, numa mesma etapa educacional, provoca a necessidade de articulação entre formas de atendimento historicamente segmentadas. Indicam-se possibilidades de superação dos preconceitos históricos acerca da creche como instituição para pobres, bem como de sua segregação das políticas educacionais. Outra conquista é a definição da promoção do desenvolvimento integral da criança como finalidade da Educação Infantil, complementando a ação da família e da comunidade. Inauguram-se possibilidades de superar limitações das propostas espontaneístas e compensatórias que privilegiam aspectos do desenvolvimento infantil. O entendimento da Educação Infantil como complementar à atuação da família, entretanto, imprime-lhe caráter supletivo, o que pode acarretar sua secundarização nas políticas públicas (BARBOSA, 1999). Coloca-se o desafio de ir além da educação familiar e de promover a profissionalização do papel do educador, como mediador que favoreça, para as crianças, a compreensão de contradições e possibilidades de mudanças do seu cotidiano. A incorporação das creches e pré-escolas aos sistemas de ensino representa, ainda, importante conquista quanto à formação e valorização dos profissionais, ao se considerar que a ausência de projetos e ações destinados ao trabalho nas instituições de Educação Infantil, promoveu o voluntariado, com baixa escolaridade, sem qualificação específica, alta rotatividade no emprego, 5 ínfima remuneração, longa jornada e condições precárias na realização de um trabalho fragmentado e hierarquizado. Encontra-se, ainda hoje, entre professoras a influência dos significados atribuídos à docência como trabalho naturalmente feminino, dom e vocação, biologizando a maternidade e a própria docência (ALVES, 2002). A legislação atual estabelece que os professores da Educação Infantil tenham habilitação específica, em nível superior, estendendo-se a eles direitos profissionais que poderão resultar em políticas de valorização e reconhecimento dos educadores, e fomentar uma atuação docente ampliada, envolvendo também as dimensões de planejamento e avaliação do processo educativo. Ao admitir a formação mínima em nível médio, paradoxalmente a legislação favorece a não elevação do nível de formação dos profissionais da Educação Infantil. Essa formação insere-se na correlação de forças no âmbito das políticas de formação de professores, ligada também aos debates e embates em torno do curso de Pedagogia. Nesse contexto, manifesta-se a desresponsabilização do Estado em assegurar condições de profissionalização. Impera a lógica privatista e individualista que delega a cada profissional a responsabilidade por sua própria formação, desvinculando-a de um projeto mais amplo de construção da profissionalidade do magistério, tarefa eminentemente coletiva. A faixa etária a ser atendida nas instituições de Educação Infantil foi alterada pela Emenda Constitucional n. 53, de 2006, passando a ser crianças de zero a cinco anos, ao invés de seis anos como determinado anteriormente. Essa alteração visa dar sustentação legal à ampliação do Ensino Fundamental para nove anos de duração, abrangendo as crianças a partir de seis anos de idade. A justificativa para essa ampliação do Ensino Fundamental parece indicar razões econômicas e não uma real preocupação com as peculiaridades da infância (COSTA, 2009). Com essas medidas, abriu-se um campo fértil para iniciativas que desrespeitam os direitos das crianças, seja pelo atendimento em escolas que desconsideram as peculiaridades infantis, seja pela exclusão de crianças de cinco anos da Educação Infantil, inseridas no Ensino Fundamental. Além disso, as famílias e as crianças de seis anos perdem o direito ao atendimento em período integral, pois o Ensino Fundamental em sua maioria é ofertado em um turno diário de quatro horas (ALVES, 2007). A correlação de forças que determina a formulação de políticas públicas educacionais não é apenas local, mas apresenta componentes da organização mundial, no contexto crescente de globalização e mundialização do capital que impõe uma esfera de poder transnacional. Entram em cena as organizações internacionais nas políticas públicas, destacando-se atualmente no setor educacional brasileiro, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Banco Mundial (BM). A atuação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar (OMEP/Brasil), principalmente a partir da década de 1970, contribuiu para o estabelecimento de uma política de Educação Infantil no 6 Brasil, em um caráter assistencialista, dirigindo suas propostas ao combate da pobreza vista como uma ameaça ao desenvolvimento do país (SOUZA, 1996). A forte influência dos modelos ditos “não formais” expressam a presença da Unesco e Unicef a partir dos anos 1970, e do BM, na década de 1990 (ROSEMBERG, 2002b). Os programas “não-formais”, como creches domiciliares e mães-crecheiras, propugnados pelo BM, caracterizam-se como “programas incompletos implantados como soluções de emergência, porém extensivas, o que redunda geralmente, em atendimento de baixa qualidade e de grande instabilidade [...] além do desperdício, dificulta a construção de uma experiência nacional do que sejam programas de EI de qualidade abertos a qualquer criança” (ROSEMBERG, 2002b, p.57). Na concepção do Banco Mundial, o desempenho e o rendimento posteriores da criança são as medidas da qualidade e da eficácia da educação da primeira infância, “efetivando-se em termos de custos financeiros, com economia de recursos que seriam investidos em repetência, evasão e fracasso escolar” (MARQUEZ, 2006, p. 184). A partir da concepção de criança como capital humano do futuro, que vai tornar-se um adulto plenamente produtivo e da infância como tempo de mera passagem para outras fases da vida, a Educação Infantil é desvalorizada e se torna escolarizante, numa versão economicista de educação vinculada à melhoria da produtividade e do desenvolvimento social do país, na perspectiva da teoria do capital humano. Há que se considerar, ainda, a crescente privatização da Educação Infantil, sob distintas formas: transferência dos recursos públicos entidades privadas sob a forma de convênios; terceirização dos serviços por meio de instituições filantrópicas, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e, ainda, nos programas informais e alternativos em que o Estado se desobriga de prover o atendimento ou financia parte dele, impondo à população o financiamento do restante dos custos do serviço. De quem e com quem é o compromisso das políticas públicas de educação da infância? Ou seriam os descompromissos do Estado com a maioria da população? A nosso ver, essa perspectiva de atendimento à infância, expressa a continuidade de uma política bastante conhecida das classes populares brasileiras que convivem historicamente com o descaso governamental e a depauperação da escola pública: é o lema da educação pobre para pobres, largamente aplicado à Educação Infantil. Que cidadania é materializada? A cidadania da criança e políticas públicas de Educação Infantil O conceito de cidadania, como construção social, não é natural nem universal e seus significados são nitidamente marcados em cada etapa do desenvolvimento social em que é gestado. A trajetória social da infância constitui e expressa a ambigüidade entre a valorização e o não- 7 reconhecimento de suas especificidades enquanto sujeito social, desde a própria designação dessa fase da vida. A palavra infante traz, de suas origens grega e latina, o sentido de impossibilidade de manifestação, ausência da fala. O infante é, também, o príncipe herdeiro, assumindo imensa responsabilidade. Não nos esqueçamos da ambígua visão religiosa que considera a alma infantil marcada pelo pecado original, mas também se refere à criança angelical, atribuindo pureza, simplicidade e ingenuidade à infância. Socialmente a criança é tratada como sujeito menor, sem fala, sem voz, que deve sempre obedecer aos que possuem a razão e a capacidade de expressão, ao mesmo tempo em que nela são depositadas esperanças de um futuro melhor. O aparente paradoxo entre as formas de conceber e tratar as crianças, na verdade constitui dimensões de um processo único de representação da infância nos marcos do sistema capitalista. O cuidado e a atenção prescritos como específicos e necessários à criança parecem indicar que a infância se tornou uma categoria especial. Revela-se cruamente, porém, o significado da cidadania regida pela premissa de igualdade de oportunidades: todos são iguais – crianças com características e direitos semelhantes em qualquer parte do planeta – porém, suas condições de vida são profundamente desiguais. Ao fim e ao cabo, tornam-se peças do mesmo jogo, subordinadas à exploração seja como força de trabalho seja como consumidores. Em direção contrária, atribuindo à cidadania um significado intrinsecamente ligado à idéia de projeto, Barbosa, Alves e Martins (2006) consideram que o indivíduo é cidadão quando participa ativa e criativamente dos projetos individuais e coletivos nos diferentes contextos, articulando suas ações cotidianas e assumindo posições e responsabilidades quanto aos interesses e destinos tanto pessoais quanto dos grupos sociais. A cidadania infantil precisa ser entendida no reconhecimento das capacidades de a criança agir, interagir, criar significados e se construir nas relações com o mundo, sendo também, construtora de cultura com seus pares e com os adultos (BARBOSA, 1997). Interessante notar que as conquistas sociais das crianças resultam da articulação e atuação decidida de adultos sinceramente preocupados com a melhoria de vida na infância. Dessa forma, a cidadania não pode ser individual e não se realiza por meio da simples transposição dos direitos para o papel. É uma construção que somente se realizará por meio da ação coletiva, nos diferentes espaços e contextos sociais. A contradição e a ambiguidade constitutivas das políticas públicas localizam-se na materialidade do tecido social, nas relações de produção da vida material. Assim, nas sociedades contemporâneas regidas pelo sistema do capital, a infância é marcada pela exploração, marginalização e exclusão que assolam o mundo atual. Direitos infantis são proclamados, mas as crianças são jogadas na miséria, na doença, no mercado de trabalho, e no mercado consumidor. Compreender esses nexos entre economia e cultura, na correlação de forças vigente, é condição para avançar na busca de possibilidades de transformação. cidadania 8 A infância é tratada de forma ambígua, recebendo uma atenção que discrimina, humilha e, muitas vezes, exclui. No percurso das políticas públicas, vemos a infância marginal, o menor, o pobre, o necessitado, a família insuficiente e inadequada, a mãe culpabilizada, e o Estado omisso e inoperante, relegando o “futuro da nação”, como são chamadas as crianças, a um atendimento demarcado por medidas esporádicas, emergenciais e paliativas. A construção de uma política de educação infantil que assegure a cidadania da criança depara-se com uma imensa distância entre a situação real e as prescrições legais. O direito de as crianças receberem cuidados e educação integral com qualidade impõe a superação da precariedade no atendimento e das polarizações que marcam a área. É urgente, por isso, que assumamos a defesa da inserção da Educação Infantil no campo das políticas educacionais, na perspectiva de que seja resgatada e reconhecida sua importância real tanto para as crianças quanto para as famílias e para a sociedade em geral. Referências ALVES, Nancy Nonato de Lima. Elementos mediadores e significativos da docência em educação infantil da rede municipal de ensino de Goiânia. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2002. ALVES, Nancy Nonato de Lima. Coordenação pedagógica na Educação Infantil: trabalho e identidade profissional na Rede Municipal de Ensino de Goiânia. Tese (Doutorado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2007. AZEVEDO, Janete M. L. de. A educação como política pública. 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