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UNIVERSIDADE DO SUL RESPONSABILIDADE CIV RECUPERAÇÃO JUDICIAL UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ISABELA TEIXEIRA MACHADO RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA DE EMP Tubarão 2019 DE SANTA CATARINA JUDICIAL NA E NA FALÊNCIA DE EMPRESA ISABELA TEIXEIRA MACHADO RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA DE EMPRESA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direitoda Universidade do Sul de Santa Catarinacomo requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientadora: Profª. Terezinha Damian Antônio, Msc. Tubarão 2019 Dedico esta pesquisa aos professores do curso de direito da Unisul de Tubarão, que foram essenciais na minha trajetória acadêmica. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, minha fortaleza em todos os momentos. Aos meus pais, Jane e Ramon, por tudo que abdicaram para que eu pudesse concluir a minha trajetória acadêmica. Também, pelo apoio e pela confiança que depositam em mim. À minha avó paterna, Neide, in memoriam, e à minha tia Fernanda, por todas as vezes que me incentivaram nas horas difíceis. Sou eternamente grata por me fazerem acreditar que sou capaz. Ao meu namorado Henrique, meu melhor amigo, pela paciência nas horas de desânimo e cansaço e por entender que era preciso abdicar de alguns momentos de lazer para que eu conseguisse chegar até aqui. À professora e orientadora Terezinha Damian Antônio, por compartilhar comigo sua sabedoria, sua experiência e o seu tempo. Obrigada pela paciência e atenção. Aos demais professores do curso de Direito, que foram de extrema importância na minha vida acadêmica. Aos meus colegas e amigos, em especial, a Ariele, Gracieli, Gizela, Jhenifer e Marília, amigas que me auxiliaram em muitos momentos. Meninas, vocês foram fundamentais nessa trajetória. E, por fim, sou muito grata a todos que direta ou indiretamente contribuíram de alguma maneira para a minha formação. Seja quem você for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá (AYRTON SENNA, 2013). RESUMO O presente trabalho monográfico tem como objetivo analisar a responsabilidade civil do administrador judicial no processo de recuperação judicial e falência de empresa. Para tal a pesquisa foi produzida sob a perspectiva do método dedutivo, com o objetivo de exploratória, sendo o procedimento utilizado para coleta de dados, os tipos bibliográfico e documental. Foram analisados neste trabalho, as noções gerais acerca da responsabilidade civil, os principais aspectos do direito falimentar brasileiro, e, a possibilidade de responsabilização do administrador judicial diante do processo de recuperação judicial e falência de empresa. O resultado indica que existe a possibilidade do administrador judicial ser responsabilizado civilmente no processo de recuperação judicial e de falência de empresa quando cometer ato ilícito, em razão de dolo ou culpa. Também, fica evidenciado que, é requisito para propor ação de indenização em face do administrador judicial, o pedido de sua destituição no decorrer do processo de recuperação judicial ou de falência. Palavras-chave: Recuperação judicial. Falência. Lei n. 11.101/2005. ABSTRACT This particular monographic article brings to the fore the civil liability of the judicial administrator in the processes of judicial recovery and bankruptcy. For this the research was produced in the eyes of the deductive method with the exploratory goal, being the procedure used for data collection, the bibliographic and documentary type. The general notions of civil liability, the main aspects of brazilian bankruptcy law, and the possibility of responsability of the bankruptcy administrator in the judicial recovery process and bankruptcy were analyzed in this article. The result indicates that there is a possibility that the administrator is civilly liable in the process of judicial recovery and bankruptcy when committing an ilegal act, due to fraud or own will. Know also that it is a requirement to file suit for compensation in the face of the judicial administrator, requesting his dismissal in the course of the judicial reorganization or bankruptcy proceedings. Keywords: Judicial recovery. Bankruptcy. Law no. 11.101 / 2005. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Art. – artigo LRF – Lei de Recuperações e Falências ME – Microempresa MEI – Microempresário individual EPP – Empresa de pequeno porte SELIC – Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................................. 11 1.1 DESCRIÇÃO DO TEMA ................................................................................................ 11 1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA ................................................................................ 12 1.3 HIPÓTESE ....................................................................................................................... 12 1.4 DEFINIÇÃO DO CONCEITO OPERACIONAL ........................................................... 12 1.5 JUSTIFICATIVA ............................................................................................................ 13 1.6 OBJETIVOS .................................................................................................................... 14 1.6.1 Objetivo geral .............................................................................................................. 14 1.6.2 Objetivos específicos ................................................................................................... 14 1.7 DELINEAMENTO DA PESQUISA ............................................................................... 14 1.8 ESTRUTURA DO RELATÓRIO FINAL ....................................................................... 15 2 NOÇÕES GERAIS ACERCA DA RESPONSABILIDADE CIVIL............................ 17 2.1 CONCEITO DE RESPONSABILIDADE CIVIL ........................................................... 17 2.2 ELEMENTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL ....................................................... 18 2.2.1 Ação ou omissão .......................................................................................................... 18 2.2.2 Culpa ou dolo do agente.............................................................................................. 19 2.2.3 Nexo de causalidade .................................................................................................... 20 2.2.4 Dano .............................................................................................................................. 21 2.3 CAUSAS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL ................................. 22 2.3.1 Culpa da vítima: exclusiva ou concorrente ............................................................... 23 2.3.2 Fato de terceiro ............................................................................................................ 23 2.3.3 Caso fortuito ou força maior ...................................................................................... 24 2.3.4 Cláusula de não indenizar .......................................................................................... 25 2.3.5 Excludente de ilicitude ................................................................................................Desse modo, preserva-se a atividade empresarial e os postos de trabalho; mantém-se a fonte geradora de emprego, renda e tributos; e, atende-se aos direitos e interesses da empresa e dos credores. Assim, dispõe o artigo 47 da Lei n. 11.101/2005, sobre o objetivo da recuperação judicial: Art. 47. A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica (BRASIL, 2005). Nas palavras de Pacheco (2013, p. 143): Quando o devedor, atende aos requisitos do art. 48, requer ao juízo do local do seu principal estabelecimento o deferimento do processo de sua recuperação judicial por um dos meios apontados no art. 50, deve demonstrar as causas da sua situação patrimonial, as razões da crise econômico-financeira que o envolve, a sua viabilidade econômica, e apresentar plano para restabelecer a normalidade de sua empresa. Tem-se, aí, a recuperação judicial, como processo perante o juiz competente, do local do principal estabelecimento do devedor. Lobo (2007, p. 120) reforça o conceito de recuperação judicial dizendo: A recuperação judicial é um favor legal porque garante ao devedor, atendidos determinados pressupostos e requisitos, formais e materiais, o direito de sanear o estado de crise econômico-financeira em que se encontra com a finalidade de salvar o negócio, manter o emprego dos trabalhadores, respeitar os interesses dos credores (art.47) e reabilitar-se (art. 63), benefício legal que produz efeitos desde o deferimento da petição inicial da ação de recuperação com a suspensão “de todas as ações e execuções” pelo prazo de cento e oitenta dias (art. 6º, caput e § 4º). Também, acrescenta Lobo (2007) que o estado de crise da empresa, pressuposto para que seja pedida a sua recuperação judicial é caracterizado, primeiro, pelo inadimplemento; segundo, pela liquidez; e, por último, pela insolvência da empresa, podendo, a partir daí, os legitimados (o próprio empresário ou sociedade empresária, ou, na sua falta, o cônjuge sobrevivente, os herdeiros, o inventariante ou sócio remanescente do devedor) proporem ação de recuperação judicial no juízo competente. Para tanto, devem-se cumprir osseguintes requisitos estabelecidos no art. 48 da LRF: exercer a atividade empresarial regularmente por, pelo menos, dois anos; se já teve falência decretada, possuir a declaração de 38 extinção das obrigações; não ter solicitado o instituto da recuperação judicial nos últimos cinco anos; e, não ter sido o empresário individual, o sócio ou o administrador, condenado por crime falimentar (BRASIL, 2005). Destaca-se que não podem requerer o instituto da recuperação judicial: as sociedades irregulares (empresário irregular, sociedade comum e sociedade em conta de participação); as empresas públicas e sociedades de economia mista; as instituições financeiras, tantos as públicas quanto as privadas; as cooperativas de crédito; as entidades de previdência complementar; as sociedades operadoras de planos de assistência à saúde e, por fim, as sociedades de capitalização (BRASIL, 2005). Ainda, “[...] o empresário em recuperação judicial não perde a livre administração e disposição de seus bens, como ocorre com o falido” (PERIN, 2011, p. 364), mas os seus bens ficam sob a fiscalização do Comitê de Credores, do Administrador Judicial e do Ministério Público, e sob a superintendência e direção do Juiz, conforme leciona Lobo (2007). Perin Junior (2011, p. 369) descreve que “[...] a Lei de Falências e Recuperação Judicial de Empresas, em seu art. 50, traz inovação relevante ao propor de forma não exaustiva [...] hipóteses de reestruturação da empresa a fim de superar a crise econômico- financeira”. São dezesseis meios legais de recuperação judicial que podem ser utilizados conjuntamente com outras modalidades alternativas, mesmo sem expressa previsão na Lei Falimentar, sendo suficiente a aprovação do plano de recuperação pelos seus credores, como dispõe o art. 50 da LRF: Art. 50. Constituem meios de recuperação judicial, observada a legislação pertinente a cada caso, dentre outros: I – concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações vencidas ou vincendas; II – cisão, incorporação, fusão ou transformação de sociedade, constituição de subsidiária integral, ou cessão de cotas ou ações, respeitados os direitos dos sócios, nos termos da legislação vigente; III – alteração do controle societário; IV – substituição total ou parcial dos administradores do devedor ou modificação de seus órgãos administrativos; V – concessão aos credores de direito de eleição em separado de administradores e de poder de veto em relação às matérias que o plano especificar; VI – aumento de capital social; VII – trespasse ou arrendamento de estabelecimento, inclusive à sociedade constituída pelos próprios empregados; VIII – redução salarial, compensação de horários e redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva; IX – dação em pagamento ou novação de dívidas do passivo, com ou sem constituição de garantia própria ou de terceiro; X – constituição de sociedade de credores; XI – venda parcial dos bens; XII – equalização de encargos financeiros relativos a débitos de qualquer natureza, tendo como termo inicial a data da distribuição do pedido de recuperação judicial, 39 aplicando-se inclusive aos contratos de crédito rural, sem prejuízo do disposto em legislação específica; XIII – usufruto da empresa; XIV – administração compartilhada; XV – emissão de valores mobiliários; XVI – constituição de sociedade de propósito específico para adjudicar, em pagamento dos créditos, os ativos do devedor (BRASIL, 2005). O processo de recuperação judicial, tem início com a fase postulatória, quando, por iniciativa da parte devedora, por meio de um advogado, é feito o pedido de recuperação, perante o juízo competente, observado que a petição inicial deverá estar de acordo com os requisitos do art. 319 do Código de Processo Civil e do art. 51 da Lei n. 11.101/2005 (BRASIL, 2005; 2015). Ademais, atendendo os requisitos estabelecidos na legislação falimentar, a petição inicial será recebida pelo juiz que proferirá despacho favorável ao processamento da recuperação judicial, determinando as medidas do artigo 52 da LRF (BRASIL, 2005). Pacheco (2013, p. 185) entende que o referido despacho dá início à segunda fase que é “[...] instrutória e decisória, que vai até quando o juiz verificar que foram cumpridas as exigências da lei e, desse modo, conceder a recuperação judicial do devedor (art.58, LF), cuja decisão constitui título executivo judicial (art. 59, §1, LF)”. Após a referida decisão, o devedor tem 60 (sessenta) dias para apresentar o plano de recuperação judicial que será submetido à aprovação da Assembleia Geral de Credores. Essa aprovação enseja a concessão do instituto da Recuperação Judicial, iniciando-se a terceira fase, que é a de execução do plano de recuperação. O devedor continuará em recuperação judicial, conforme o artigo 53 da LRF, pelo prazo de até dois anos após a sentença judicial que deferiu o pedido (BRASIL, 2005). Conforme Lobo (2007, p. 159) explana: A finalidade da norma do art. 53 é provar, aos credores e ao juízo, que o valor da empresa em funcionamento não só é superior ao que seria obtido caso se decidisse liquidá-la, como por igual, que a sua continuidade melhor atende aos múltiplos interesses envolvidos [...]. Por sua vez, o plano de recuperação judicial deve atender os requisitos estabelecidos no art. 53 da LRF, como segue: Art. 53. O plano de recuperação será apresentado pelo devedor em juízo no prazo improrrogável de 60 (sessenta) dias da publicação da decisãoque deferir o processamento da recuperação judicial, sob pena de convolação em falência, e deverá conter: 40 I – discriminação pormenorizada dos meios de recuperação a ser empregados, conforme o art. 50 desta Lei, e seu resumo; II – demonstração de sua viabilidade econômica; e III – laudo econômico-financeiro e de avaliação dos bens e ativos do devedor, subscrito por profissional legalmente habilitado ou empresa especializada. Parágrafo único. O juiz ordenará a publicação de edital contendo aviso aos credores sobre o recebimento do plano de recuperação e fixando o prazo para a manifestação de eventuais objeções, observado o art. 55 desta Lei (BRASIL, 2005). Em relação aos créditos trabalhistas, a legislação falimentar (art. 54 caput e parágrafo único da LRF) estabelece duas condições ao plano de recuperação judicial: que o pagamento dos créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidente de trabalho com vencimento até a data do pedido de recuperação sejam pagos até o prazo de um ano; e que o pagamento dos créditos de natureza estritamente salarial, até o limite de cinco salários mínimos por trabalhador, vencidos há três meses antes ao pedido de recuperação judicial, sejam pagos em até 30 (trinta) dias (BRASIL, 2005). Os credores podem apresentar objeções em relação ao plano de recuperação, conforme o que determina a legislação falimentar em seu art. 53 parágrafo único, no prazo máximo de 30 (trinta) dias, contados da publicação do edital com a relação de credores; ou, caso tenha ocorrido aviso por edital, da data de sua publicação. Havendo objeções, o juiz chamará a Assembleia de Credores (artigos 36 e 37 da LRF), no prazo máximo de 150 (cento e cinquenta) dias após o deferimento da recuperação judicial, para decidir a respeito do plano apresentado. Poderá, também, o plano de recuperação ser alterado pela citada Assembleia, desde que o devedor concorde e que a alteração não implique em direitos exclusivos de credores que não puderam comparecer ao ato (BRASIL, 2005). Após a aprovação do novo plano, o devedor deverá apresentará as certidões negativas de débitos tributários, conforme Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966). Caso o plano seja rejeitado, não seja apresentado, ou o devedor deixe de cumprir qualquer obrigação ali imposta, o juiz decretará a falência do empresário ou da sociedade empresária. Mas,se não houver objeções ao plano, o juiz irá proferir a sentença autorizando a recuperação judicial, podendo ser interposto, pelo credor ou pelo Ministério Público, agravo dessa decisão (BRASIL, 2005). Cumpridas as obrigações vencidas no prazo de dois anos após a decisão concessiva de referido benefício, o juiz decretará, por sentença, o encerramento da recuperação judicial, conforme artigos 61 e 63 da LRF (BRASIL, 2005). Destaca-se que não é permitido que o devedor desista do pedido de recuperação judicial após o seu deferimento e 41 processamento, salvo se aprovada a desistência na Assembleia Geral de Credores (MAMEDE, 2008). Ademais, a legislação falimentar também prevê o instituto da recuperação judicial especial – para as MEs e EPPs – e a recuperação extrajudicial (BRASIL, 2005). A recuperação especial é mais um dos benefícios em consonância com princípio constitucional da ordem econômica e financeira do país, pelo qual é possível oferecer tratamento diferenciado às microempresas e às empresas de pequeno porte. Desse modo, a legislação falimentar estabelece o plano especial para essas empresas, abrangendo todos os créditos, vencidos e a vencer, com exceção daqueles que decorrem de repasse de recursos oficiais, fiscais, de credor titular de propriedade fiduciária de bens imóveis e móveis, de contrato de leasing, de promitente ou proprietário que esteja vendendo imóvel com contratos que constem cláusulas de irrevogabilidade ou irretratabilidade, mesmo de proprietário com reserva de domínio em contrato de compra e venda ou de incorporações imobiliárias (§3º do art. 49 da LRF), e os valores decorrentes de contrato de câmbio (inciso I, §4º do art. 49 da LRF) (BRASIL, 2005). Os referidos créditos poderão ser parcelados em 36 parcelas mensais, acrescidos de juros conforme a taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (SELIC). Também, podemser feitas propostas para que a dívida seja abatida, com até 180 (cento e oitenta) diasde prazo para o pagamento da primeira parcela, contados da distribuição do pedido de recuperação. Ademais, para contratar empregados ou aumentar despesas, o devedor depende de autorização do juiz que realizará, previamente, oitiva do Comitê de Credores e do administrador judicial. Ademais, o plano especial de recuperação judicial não implica suspensão do curso da prescrição, muito menos das ações e execuções de créditos não abrangidos no plano. Destaca-se que a Assembleia Geral de Credores não é convocada para deliberar sobre o plano, pois o juiz équem analisa suas as condições, podendo decretar a falência se houver objeções de mais da metade dos credores, conforme o art. 72 da LRF (BRASIL, 2005; DAMIAN, 2015). Por sua vez, a recuperação extrajudicial, prevista pela legislação falimentar, é um processo no qual “[...] a proposta do devedor e a concordância dos credores ocorrem fora do judiciário” (VIDO, 2015, p. 438). Perin Junior (2011, p. 383) entende que o instituto da recuperação extrajudicial se trata de uma importante inovação da legislação falimentar que consiste num “[...] mecanismo que propicia, ou melhor, busca a harmonização dos interesses opostos e comuns entre devedor e credores, nos termos e condições previamente acordados 42 pelas partes, por livre disposição de vontade, desde que atendidos os requisitos legais”.Nesse sentido, também os artigos 161 a 167 da LRF (BRASIL, 2005). A recuperação extrajudicial se destina aos mesmos legitimados e requer os mesmos requisitos para a recuperação judicial, proibindo-se, ainda, o pedido à empresa que possuir pedido de recuperação judicial pendente ou que tenha obtido a recuperação extrajudicial há menos de dois anos. Estão sujeitos todos os créditos vencidos e a vencer, excetuando-se (art. 161, § 1º, LRF):os créditos trabalhistas (art. 83, inciso I, LRF); os créditos tributários (art. 83, inciso III, LRF); os créditos que advêm do direito de propriedade (art. 49, §3º, LRF); e, os créditos de contrato de câmbio para exportação (art. 86, inciso II, LRF), conforme previsão do artigo 161, §1º da Lei de Falências e Recuperação Judicial (BRASIL, 2005). O procedimento da recuperação extrajudicial é mais ágil e menos burocrático.Não contém o Comitê de Credores nem a Assembleia Geral de Credores. Também, os direitos, as ações e execuções contra o devedor não são suspensas, sendo possível o pedido de falência pelos credores que não são sujeitos ou que não quiseram aderir ao plano de recuperação extrajudicial. Feito o pedido de homologação do plano de recuperação extrajudicial, o juiz estabelecerá a publicação do edital em jornais de grande circulação, a fim de convocar os credores para que apresentem, no prazo de trinta dias da publicação do edital, as objeções em relação ao plano apresentado. Essas objeções àhomologação do plano podem se referir ao não preenchimento do percentual mínimo, ou seja, assinatura de credores que representem mais de 3/5 (três quintos) de todos os créditos de cada espécie por ele abrangidos (art. 164, § 3º, inciso I,combinado com art. 163, LRF); prática de atos de falência conforme determina a legislação falimentar (art. 164, § 3º, combinado com art. 94, inciso III, LF); ou descumprimento de qualquer outra exigência legal (art. 164, § 3º, inciso III, LF) (BRASIL, 2005; DAMIAN, 2015). Após a manifestação dos credores, o devedor terá o direito de se manifestar em até cinco dias, sendo o plano levado para apreciação do juiz, que decidirá também no prazo de cinco dias a respeitoda homologação. Caso fique evidenciado vício, o plano de recuperação não será homologado, podendo o devedor apresentar novo pedido. Da sentença que homologa o plano de recuperação extrajudicial, cabe o recurso de apelação, sem efeito suspensivo, conforme art. 164, §7º, LRF (BRASIL, 2005). Entretanto, após a distribuição do pedido de recuperação extrajudicial, não poderá o credor desistir de aderir ao plano, exceto se os outros credores autorizarem. O plano só produzirá efeitos após a sua homologação judicial (DAMIAN, 2015). 43 Destaca-se que a homologação do plano de recuperação extrajudicial pode ser facultativa ou obrigatória, conforme explicações de Damian (2015). A homologação facultativa (art. 162, LRF) ocorre quando o plano de recuperação é individualizado, mais restrito em relação aos credores, pois as negociações são reduzidas a certos credores em particular, podendo o devedor requerer a homologação em juízo do plano de recuperação extrajudicial, juntando sua justificativa e o documento que contenha os termos e as condições, com as assinaturas dos credores que a ele aderiram. Já a homologação obrigatória (art. 163, LRF) ocorre quando o plano de recuperação extrajudicial foi elaborado considerando determinada classe de credores, devendo, nesse caso, apresentar assinatura de credores que representam mais de 3/5 (três quintos) de todos os créditos de cada espécie por ele abrangida. Salienta-se que a homologação estende os efeitos do plano aos credores que não o tinham aceitado (BRASIL, 2005; DAMIAN, 2015). 3.6 NOÇÕES GERAIS SOBRE O INSTITUTO DA FALÊNCIA O instituto da falência é o procedimento que visa a retirar do mercado o empresário ou a sociedade empresária que não apresenta condições de superar a crise econômico-financeira. Gomes (2007, p. 261) define o instituto como: [...] um processo de execução coletiva movido contra o devedor empresário ou sociedade empresária, no qual todos os seus bens são arrecadados para uma venda forçada por determinação judicial, com a distribuição proporcional de seu ativo entre todos os seus credores, nos termos da lei. Por sua vez, Mamede (2008, p. 286) afirma que: A insolvência empresária pode apresentar-se como crise econômico-financeira a partir da qual não se afirme alternativa de superação que seja viável. Resta, portanto, instaurar um procedimento de liquidação do patrimônio do empresário ou sociedade empresaria insolvente, ou seja, realizar o seu patrimônio ativo e, com os valoresapurados, saldar o patrimônio passivo, no que for possível. Trata-se de instituto de aplicação exclusiva ao empresário e à sociedade empresária, sendo as demais atividades consideradas não empresariais sujeitas à insolvência civil ou aos procedimentos específicos de liquidação extrajudicial, no caso das empresas excluídas da Lei de Falência, conforme corrobora Mamede (2008). Ademais, a legislação falimentar (art. 75 da LRF) dispõe que: “A falência, ao promover o afastamento do devedor de suas atividades, visa a preservar e otimizar a utilização 44 produtiva dos bens, ativos e recursos produtivos, inclusive os intangíveis, da empresa” (BRASIL, 2005). Havendo responsabilidade pessoal dos sócios, dos administradores ou dos controladores, será apurada no próprio juízo em que tramita o processo de falência. No caso de sociedades em que os sócios possuem responsabilidade ilimitada pelas obrigações da empresa, a falência decretada em face da sociedade atinge, também, o patrimônio de referidos sócios, “[...] que ficam sujeitos aos mesmos efeitos jurídicos produzidos em relação à sociedade falida e, por isso, deverão ser citados para apresentar contestação, se assim o desejarem”, como determina o art. 81, caput, da LRF (BRASIL, 2005; DAMIAN, 2015). A ação de responsabilização dos sócios, prescreve em dois anos, contados a partir do trânsito em julgado da sentença que declara o encerramento da falência. Em relação aos bens particulares, a legislação falimentar (artigos 82 e 82-A) assim dispõe: Art. 82. [...] § 2oO juiz poderá, de ofício ou mediante requerimento das partes interessadas, ordenar a indisponibilidade de bens particulares dos réus, em quantidade compatível com o dano provocado, até o julgamento da ação de responsabilização. Art. 82-A. A extensão dos efeitos da falência somente será admitida quando estiverem presentes os requisitos da desconsideração da personalidade jurídica de que trata o art. 50 do Código Civil (BRASIL, 2005). O devedor pode pedir a autofalência (art. 105 da LRF); na sua falta, pode requerer o benefício o cônjuge sobrevivente, o herdeiro, o inventariante, o cotista ou o acionista do devedor. Já o credor pode pedir a falência do devedor, entretanto, “[...] quem por dolo requerer a falência de outrem será condenado, na sentença que julgar improcedente o pedido, a indenizar o devedor, apurando-se as perdas e danos em liquidação de sentença” (BRASIL, 2005; DAMIAN, 2015). Desse modo, o credor pode pedir a falência do devedor com base nos seguintes pressupostos definidos pela legislação falimentar (art. 94, incisos I a III, da LRF), como segue: Art. 94. Será decretada a falência do devedor que: I – sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida materializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 (quarenta) salários-mínimos na data do pedido de falência; II – executado por qualquer quantia líquida, não paga, não deposita e não nomeia à penhora bens suficientes dentro do prazo legal; III – pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperação judicial: a) procede à liquidação precipitada de seus ativos ou lança mão de meio ruinoso ou fraudulento para realizar pagamentos; b) realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o objetivo de retardar pagamentos ou fraudar credores, negócio simulado ou alienação de parte ou da totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou não; 45 c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo; d) simula a transferência de seu principal estabelecimento com o objetivo de burlar a legislação ou a fiscalização ou para prejudicar credor; e) dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente sem ficar com bens livres e desembaraçados suficientes para saldar seu passivo; f) ausenta-se sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes para pagar os credores, abandona estabelecimento ou tenta ocultar-se de seu domicílio, do local de sua sede ou de seu principal estabelecimento; g) deixa de cumprir, no prazo estabelecido, obrigação assumida no plano de recuperação judicial (BRASIL, 2005). Dessa forma, o primeiro pressuposto (art. 94, inciso I, LRF) se refere à impontualidade injustificada por parte do devedor (BRASIL, 2005). A impontualidade se configura quando o devedor “[...] sem relevante razão de direito, não paga no vencimento uma obrigação líquida e já vencida, representada por título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a quarenta salários mínimos na data do pedido de falência” (GOMES, 2007, p. 267). Nesse caso, o pedido deve ser acompanhado do título executivo respectivo e do instrumento de protesto com a identificação da pessoa que recebeu a notificação. O devedor pode, na contestação, justificar sua impontualidade no pagamento do título utilizando-se das seguintes matérias de defesa: a falsidade de título, a prescrição, a nulidade de obrigação ou de título, o pagamento da dívida, qualquer outro fato que exima a obrigação ou não legitime a cobrança do título, vício em protesto ou instrumento; como também: apresentar o pedido de recuperação judicial no prazo da contestação; informar que já cessou a atividade empresarial há mais de dois anos; que se tratade sociedade anônima com liquidação e partilha do ativo; ou que se trata de espólio de devedor falecido há mais de um ano; hipóteses em que a falência não será decretada (art. 96, incisos I a IV e § 1º, LRF) (DAMIAN, 2015). O segundo pressuposto trata da execução frustrada (art. 94, inciso II, LRF) representada pela situação em queo executado por qualquer quantia líquida não paga, não deposita e não nomeia à penhora bens suficientes dentro do prazo legal, caracterizando-se a tríplice omissão (BRASIL, 2005). Nesse caso, não é promovida a falência nos autos da execução individual, que deverá ser suspensa ou extinta, porque o pedido de falência será feito não no juízo dessa ação, mas no juízo competente para a falência, com base na certidão do juízo da execução individual que declara que o executado não fez o pagamento, o depósito ou a nomeação de bens à penhora; não havendo limite de valor para pedir falência, como no caso da impontualidade injustificada (art. 94, inciso I, LRF) (BRASIL, 2005). 46 O terceiro pressuposto trata de atos de falência enumerados na legislação falimentar (art. 94, inciso III, alíneas “a” a “g”, LRF) (BRASIL, 2005). Nesse caso, o pedido de falência deve acompanhar prova do ato fraudulento que está sendo alegado pelo credor (DAMIAN, 2015). A legislação falimentar possibilita ao devedor, no prazo da contestação, efetuar o depósito elisivo, nos casos em que a falência estiver sendo pleiteada pelo credor com base na impontualidade injustificada ou na execução frustrada (art. 94, incisos I e II, LRF) (BRASIL, 2005). Esse depósito refere-se ao valor correspondente ao total do crédito, acrescido de correção monetária, juros e honorários advocatícios, hipótese em que a falência não será decretada, conforme a disposição legal seguinte: Art. 98 [...] Parágrafo único. Nos pedidos baseados nos incisos I e II do caput do art. 94 desta Lei, o devedor poderá, no prazo da contestação, depositar o valor correspondente ao total do crédito, acrescido de correção monetária, juros e honorários advocatícios, hipótese em que a falência não será decretada e, caso julgado procedente o pedido de falência, o juiz ordenará o levantamento do valor pelo autor (BRASIL, 2005). Será proferida a sentença denegatória de falência, se for declarada a improcedência do pedido de falência, podendo a parte interessada interpor recurso de apelação. Já, sendo declarado procedente o pedido, será proferida a sentença declaratória de falência, da qual caberá agravo de instrumento. A sentença declaratória de falência tem natureza constitutiva e declaratória, produzindo efeitos em relação ao falido, aos seus bens, aos contratos e aos credores. Destaca-se que o falido fica inabilitado para exercer qualquer atividade empresarial até que sejam extintas as suas obrigações, além de outros deveres estabelecidos na legislação falimentar (art. 104, incisos I a XII, LRF) (BRASIL, 2005). Em relação aos contratos unilaterais ou bilaterais, o administrador judicial, mediante autorização do Comitê de Credores, poderá lhes dar cumprimento se o pagamentonão aumentar ou reduzir o passivo da massa falida ou for necessário à preservação do seu ativo.Caso contrário, o contratante terá direito à indenização, constituindo os valores crédito quirografário. Ademais, após a publicação do edital de decretação de falência, contendo a relação nominal dos credores apresentada pelo devedor, os credores têm 15 (quinze) dias para apresentar habilitação ou divergência ao juízo da falência, caso não se encontrem em referida relação ou haja alguma inconsistência em relação ao seu crédito. Também, após referida sentença, os bens do falido são arrecadados, apurando-se o ativo para que depois de efetuada a venda desses, possa ser feito o pagamento dos credores (DAMIAN, 47 2015). “A realização do ativo compreende a efetiva alienação (transferência da propriedade a terceiro) dos bens do ativo da massa falida” (GOMES, 2007, p. 304). É possível a venda antecipada dos bens do falido em alguns casos, desde que os credores que representam dois terços do crédito, concordem. A venda dos bens do falido, respeita a ordem estabelecida na legislação falimentar (art. 140, LRF), podendo ser, inclusive, adotada mais de uma forma de alienação, como segue: Art. 140. A alienação dos bens será realizada de uma das seguintes formas, observada a seguinte ordem de preferência: I – alienação da empresa, com a venda de seus estabelecimentos em bloco; [...] III – alienação em bloco dos bens que integram cada um dos estabelecimentos do devedor; IV – alienação dos bens individualmente considerados (BRASIL, 2005). Além disso, o art. 141, inciso II, §1º, da LRF determina “[...] que o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor [...]”, inclusive os créditos de natureza tributária, os derivados da legislação do trabalho e os que decorrem de acidentes de trabalho, exceto se houver o objetivo de fraudar a sucessão (BRASIL, 2005). É o administrador judicial, com o consentimento do Comitê, que decidirá a forma da liquidação do ativo. A venda, conforme descreve Perin Junior (2011), poderá se da por meio de leilão, propostas fechadas ou pregão. O leilão consiste na venda dos bens móveis, devendo o edital ser publicado com antecedência de 15 (quinze) dias; e de imóveis, com 30(trinta) dias de antecedência da publicação do edital. A liquidação dos bens se dará pelo maior valor oferecido, mesmo que o valor do bem seja superior. Já enviadas em envelopes lacrados, as propostas fechadas serão abertas pelo juiz, juntamente com o administrador judicial e os interessados; no ato será lavrada certidão a ser assinada por todos para ser juntada no processo de falência; cabe ao administrador judicial escolher a melhor proposta; após a escolha, será ouvido o devedor e o representante do Ministério Público, se concordarem, será expedido alvará autorizando a venda do bem. Por sua vez, o pregão, segundo alguns doutrinadores, é uma forma híbrida que agiliza o processo da venda dos bens do falido; abertos os envelopes, o juiz determinará uma data para o acontecimento do leilão, intimando a participar do ato somente aqueles cuja proposta não seja menor que noventa por cento da maior proposta feita (GOMES, 2007; PERIN JUNIOR, 2011). Desse modo, o leilão será aberto com o lance inicial do valor da maior proposta recebida, ficando o proponente vinculado à oferta. Ocorre que, caso o 48 ofertante não compareça ao leilão e as propostas dos presentes não sejam iguais ou superiores, ele ficará obrigado a pagar ao falido a diferença dos valores da arrematação em relação ao valor oferecido por ele. Destaca-se que, apesar da previsão dessas três modalidades de liquidação, poderá também, em algumas situações, o administrador ou o Comitê, requerer outras formas da realização do ativo, desde que aprovadas pela Assembleia Geral de Credores. Conforme Perin Junior (2011, p. 198), “Com o produto da realização do ativo, deve ser satisfeito o passivo, recebendo os credores o pagamento pelos créditos que tem direito”, observando a ordem de classificação dos créditos determinada pela legislação falimentar no art. 83 incisos I a VIII. Se após pago todos os credores houver algum saldo, este será devolvido ao falido (BRASIL, 2005). Efetuado o pagamento dos credores,cabe ao administrador judicial, apresentar suas contas no prazo de trinta dias, sendo que após o julgamento dessas, deverá apresentar relatório final, para que o juiz encerre o processo por meio de sentença. Dessa sentença cabe recurso de apelação. Encerrada a falência, pode o falido requerer a extinção de suas obrigações, conforme estabelece a legislação falimentar (art. 158, LRF), como segue: Art. 158. Extingue as obrigações do falido: I – o pagamento de todos os créditos; II – o pagamento,depois de realizado todo o ativo, de mais de 50% (cinqüenta por cento) dos créditos quirografários, sendo facultado ao falido o depósito da quantia necessária para atingir essa porcentagem se para tanto não bastou a integral liquidação do ativo; III – o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado do encerramento da falência, se o falido não tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei; IV – o decurso do prazo de 10 (dez) anos, contado do encerramento da falência, se o falido tiver sido condenado por prática de crime previsto nesta Lei. O requerimento de reabilitação civil e penal deve ser efetuado pelo falido, caso se apresente uma das hipóteses citadas em referido artigo, podendo, dessa forma, voltar a exercer a atividade empresarial. Feitas essas considerações, passa-se ao capítulo 4. 49 4 POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NO INSTITUTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E DA FALÊNCIA Este capítulo trata da possibilidade de responsabilização civil do administrador judicial, órgão auxiliador do juiz no processo de falência e recuperação judicial de empresas, nos casos em que praticar atos em desacordo com a legislação falimentar em relação aos credores e a terceiros, ocasionando-lhes prejuízos, como se passa a expor. 4.1 ATRIBUIÇÕES DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA Órgão auxiliador do juízo, o administrador judicial é importante para a condução do processo de falência e de recuperação judicial. Perin Junior (2011, p. 234) descreve que a figura do “[...] administrador judicial possui enorme relevância para os interesses coletivos e difusos, uma vez que a sua atuação está vestida de aspectos fundamentais quanto ao procedimento adjetivo, porque, muito mais que interesses privados, sobressai o legítimo interesse público”. O administrador judicial para Gonçalves e Gonçalves (2008, p. 30) “[...] é o profissional, eleito pela lei falimentar, para administrar a massa falida e auxiliar o juiz na condução do procedimento falimentar ou de recuperação judicial”. Desse modo, a legislação falimentar (art. 22, incisos I, II e III, LRF) dispõe sobre as funções conferidas ao administrador judicial, especificando, as atribuições comuns aos dois processos (art. 22, inciso I, LRF); as exclusivas ao processo de recuperação judicial (art. 22, inciso II, LRF); e aquelas somente para serem desenvolvidas na falência (art. 22, inciso III, LRF), como seguem: Art. 22. Ao administrador judicial compete, sob a fiscalização do juiz e do Comitê, além de outros deveres que esta Lei lhe impõe: I – na recuperação judicial e na falência: a) enviar correspondência aos credores constantes na relação de que trata o inciso III do caput do art. 51, o inciso III do caput do art. 99 ou o inciso II do caput do art. 105 desta Lei, comunicando a data do pedido de recuperação judicial ou da decretação da falência, a natureza, o valor e a classificação dada ao crédito; b) fornecer, com presteza, todas as informações pedidas pelos credores interessados; c) dar extratos dos livros do devedor, que merecerão fé de ofício, a fim de servirem de fundamento nas habilitações e impugnações de créditos; d) exigir dos credores, do devedor ou seus administradores quaisquer informações; e) elaborar a relação de credores de que trata o § 2o do art. 7o desta Lei; f) consolidar o quadro-geral de credores nos termos do art. 18 desta Lei; g) requerer ao juiz convocação da assembléia-geral de credores nos casos previstos nesta Lei ou quando entender necessária sua ouvida para a tomada de decisões; 50 h) contratar, mediante autorização judicial, profissionais ou empresas especializadas para, quando necessário, auxiliá-lo no exercício de suas funções; i) manifestar-se nos casos previstos nesta Lei; II – na recuperação judicial: a) fiscalizar as atividades do devedor e o cumprimento do plano de recuperação judicial; b) requerer a falência no caso de descumprimento de obrigação assumida no plano de recuperação; c) apresentar ao juiz, para juntada aos autos, relatório mensal das atividades do devedor; d) apresentar o relatório sobre a execução do plano de recuperação, de que trata o inciso III do caput do art. 63 desta Lei; III – na falência: a) avisar, pelo órgão oficial, o lugar e hora em que, diariamente, os credores terão à sua disposição os livros e documentos do falido; b) examinar a escrituração do devedor; c) relacionar os processos e assumir a representação judicial da massa falida; d) receber e abrir a correspondência dirigida ao devedor, entregando a ele o que não for assunto de interesse da massa; e) apresentar, no prazo de 40 (quarenta) dias, contado da assinatura do termo de compromisso, prorrogável por igual período, relatório sobre as causas e circunstâncias que conduziram à situação de falência, no qual apontará a responsabilidade civil e penal dos envolvidos, observado o disposto no art. 186 desta Lei; f) arrecadar os bens e documentos do devedor e elaborar o auto de arrecadação, nos termos dos arts. 108 e 110 desta Lei; g) avaliar os bens arrecadados; h) contratar avaliadores, de preferência oficiais, mediante autorização judicial, para a avaliação dos bens caso entenda não ter condições técnicas para a tarefa; i) praticar os atos necessários à realização do ativo e ao pagamento dos credores; j) requerer ao juiz a venda antecipada de bens perecíveis, deterioráveis ou sujeitos a considerável desvalorização ou de conservação arriscada ou dispendiosa, nos termos do art. 113 desta Lei; l) praticar todos os atos conservatórios de direitos e ações, diligenciar a cobrança de dívidas e dar a respectiva quitação; m) remir, em benefício da massa e mediante autorização judicial, bens apenhados, penhorados ou legalmente retidos; n) representar a massa falida em juízo, contratando, se necessário, advogado, cujos honorários serão previamente ajustados e aprovados pelo Comitê de Credores; o) requerer todas as medidas e diligências que forem necessárias para o cumprimento desta Lei, a proteção da massa ou a eficiência da administração; p) apresentar ao juiz para juntada aos autos, até o 10o (décimo) dia do mês seguinte ao vencido, conta demonstrativa da administração, que especifique com clareza a receita e a despesa; q) entregar ao seu substituto todos os bens e documentos da massa em seu poder, sob pena de responsabilidade; r) prestar contas ao final do processo, quando for substituído, destituído ou renunciar ao cargo (BRASIL, 2005). Além dessas atividades, o administrador deverá desempenhar as atribuições do Comitê de Credores, se este não for constituído; como também, cabe a ele fazer o pedido para que o juiz intime o credor, devedor ou seus administradores, para tomar seus depoimentos por escrito na sua presença, em razão da recusa a informações solicitadas por ele e na tomada de decisões, salvo se houver incompatibilidade em relação à atribuição que lhe cabe, devendo o juiz exercer tal função (PERIN JUNIOR, 2011). 51 Nomeado pelo juiz, não é necessário que o administrador judicial tenha uma profissão ou formação específica, basta que seja competente e um profissional idôneo,capaz de desempenhar bem e fielmente a sua função, assumindo todas as responsabilidades do cargo para que foi nomeado (art. 33, LRF), cumprindo as regras estabelecidas, observando sempre os princípios éticos e legais (BRASIL, 2005). Toledo (2007, p. 51), esclarece que tal idoneidade “[...] ainda que a norma não o diga expressamente, deve ser moral e financeira. Trata-se de função de confiança, em que se administram valores e bens muitas vezes de grande vulto, e são múltiplos os interesses envolvidos”.Entretanto, a legislação falimentar recomenda que esse profissional seja advogado, economista, administrador de empresas, contador ou pessoa jurídica especializada (art. 21, LRF), caso em que deverá ser definido o nome da pessoa responsável paraadministrar o processo que constará no termo de compromisso,não podendo esse profissional ser substituído sem a autorização do juiz (art. 33, LRF) (BRASIL, 2005). Nesse sentido, Roque (2005, p. 135), argumenta que, na sua visão, o profissional mais capacitado para a função de administrador judicial, seria o advogado, pois “É imperioso o conhecimento de normas processuais e das práticas judiciárias, que só atraem advogados. Além do mais, só o advogado tem capacidade postulatória; quem não tiver terá que contratar advogado para tanto”. O juiz fixará aforma e o valor da remuneração pelo trabalho do administrador judicial e de seus auxiliares, a ser pago pelo devedor ou pela massa falida, levando em conta, a complexidade do trabalho desempenhado e os valores praticados no mercado, considerando que, somente na remuneração do administrador observará a capacidade de pagamento do devedor, que não pode ser superior a 5% (cinco por cento) do total do ativo do devedor/falido devido na recuperação judicial ou dos bens vendidos na falência; ou de 2% (dois por cento) no caso de microempresa ou empresa de pequeno porte(art. 22 §1º e art. 24, LRF). Essa remuneração será paga em duas parcelas – 60% e 40% (sessenta por cento e quarenta por cento) – sendo reservado 40% (quarenta por cento) do valor total para o pagamento após apresentação e julgamento das contas, bem como o relatório final da falência (art. 24, §2º, LRF); não sendo aprovadas as contas apresentadas, esse valor não será pago (BRASIL, 2005). Não poderão exercer a função de administrador judicial, os profissionais que possuam impedimentos e os que apresentem incompatibilidade para exercer tal função. Desse modo, estão impedidos de exercer a função de administrador judicial:aqueles que nos últimos cinco anos, como membro do Comitê de Credores ou como administrador judicial em outro processo falimentar, tenham sido destituídos; os que tenham deixado de prestar contas no prazo estabelecido pela lei; os que suas contas tenham sido desaprovadas;os que possuam 52 relação de parentesco ou afinidade em até terceiro grau com o empresário ou sociedade empresária devedora, seus administradores, controladores, representantes legais; ou os amigos, inimigos ou dependentes, serão impedidos de exercer as atribuições de administrador judicial (art. 30, §1º, LRF). Ademais, apresentamincompatibilidade com a função, aqueles que não podem tomar decisões contrárias ao que prevê o direito falimentar; ou que tenham interesses privados em relação ao credor ou ao devedor, no processo de falência ou de recuperação judicial (BRASIL, 2005). Constatadas irregularidades nas atividades do administrador judicial, como desobediência ao que dispõe a lei, poderá o credor, devedor ou o Ministério Público requerer a substituição do administrador, devendo o juiz decidir sobre o pedido no prazo de 24 (vinte e quatro) horas. Além disso, poderá, também, o juiz, de ofício ou a pedido fundamentado das partes, destituir o administrador judicial das suas funções, quando verificado, além de desobediência, descumprimento ao que prevê a lei, omissão, negligência ou prática de ato lesivo, ficando impedido de exercer a função pelos próximos cinco anos. Sendo destituído do cargo, o juiz nomeará novo administrador. Com a substituição, a remuneração do administrador será proporcional ao trabalho realizado por ele, não recebendo os valores quando houver a renúncia por sua parte, assim como no caso de destituição em razão de culpa, dolo, desídia ou descumprimento da lei (BRASIL, 2005). Além da demonstração de contas no processo de recuperação judicial, que deverá ser apresentadapelo administrador judicial mensalmente aos interessados, a todo momento que houver movimentações financeiras, também, deverá esse prestar contas da sua administração quando for substituído, destituído, ou quando renunciar.Do mesmo modo, deverá o administrador judicial prestar contas no processo de falência (art. 154, LRF): “Concluída a realização de todo o ativo, e distribuído o produto entre os credores, o administrador judicial apresentará suas contas ao juiz no prazo de 30 (trinta) dias” (BRASIL, 2005). Os documentos comprovando as contas de sua gestão, serão apresentados separadamente ao processo de falência, sendo apensados a este ao final. Ao apresentar as contas, será dada a oportunidade de manifestação dos interessados no prazo de 10 (dez) dias. Após, deverá o Ministério Público apresentar a sua manifestação, no prazo de cinco dias. Havendo impugnação, o administrador judicial deverá ser ouvido. Findado o prazo para os trâmites necessários, o juiz julgará as contas apresentadas, proferindo sentença. Posteriormente ao julgamento das contas, deverá o administrador judicial, no prazo de 10 (dez) dias, apresentar o relatório final do processo de falência, conforme a legislação falimentar (art. 155, LRF), quando o juiz encerrará o processo por meio de sentença.No 53 entanto, sendo reprovadas as contas, a sentença que as julgou poderá estabelecer a indisponibilidade ou o sequestro de bens, transformando-as, para a indenização da massa falida, em título executivo (BRASIL, 2005). Ante o exposto, é possível aferir que os atos do administrador judicial, tanto no processo de recuperação judicial, quanto no processo de falência, são muitos, implicando enorme responsabilidade. Por isso, o administrador, ao assumir a função, assina o termo de compromisso, podendo, além de ser substituído ou destituído, responder civilmente pelos atos praticados com dolo ou culpa, se esses atos prejudicarem as partes, quais sejam, o devedor, o credor ou a massa falida (art. 32, LRF) (BRASIL, 2005). Segundo Toledo (2007, p. 86), “[...] o legislador, nesse ponto, poderia ter ido mais longe, e estabelecido igualmente a responsabilidade das pessoas indicadas por atos praticados com violação da lei”, pois seriam os interesses compreendidos no processo melhor protegidos. Também, poderá o administrador responder na esfera penal em casos de desobediência à lei ou por crime falimentar, como explica Bezerra Filho (2005, p. 108), como segue: A esse grande poder de direção e impulso corresponde a obrigação de responder pelos prejuízos causados à massa, até com seus bens pessoais (art. 154, § 5º), e, em vários casos, podendo ser incurso em crime dedesobediência ou ser réu de processo por crimes falimentares passiveis dereclusão (art. 177). É correto que assim seja. O administrador é aquele quesai a campo, para administrar a empresa e salvaguardar os interesses dos credores [...]. Por essa razão, é importante que o administrador efetue um bom trabalho, parapreservar as atividades do empresário ou da sociedade empresária, atendendo, assim, aos interesses coletivos, evitando ser responsabilizado civilmente. 4.2 POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA Nos termos da legislação falimentar, o administrador judicial poderá ser substituído, destituído ou responsabilizado civil e penalmente se, no desempenho de suas funções, praticar atos prejudiciais aos envolvidos nos processos de recuperação judicial e de falência, tais como o devedor, o credor ou a massa falida. Nesses casos, a responsabilidade do administrador judicial, pessoa física, será subjetiva, uma vez que existe a necessidade de comprovar o ato ilícito praticado com negligência, imprudência ou imperícia ou, ainda, voluntário e intencional. Entretanto, apesar da legislação falimentar ser omissa quanto a isso, tratando-se o administrador judicial de 54 pessoa jurídica, a sua responsabilidade será objetiva, quando o ato lesivo for praticado por seus empregados, aplicando-se ao caso as regras previstas nos artigos 932, inciso III e 933 do Código Civil (BRASIL, 2002). Bezerra Filho (2005, p. 90) expõe que “Do administrador depende, em grande parte, o bomou o mau resultado da falência ou da recuperação. Um administrador diligente irá trazer para a massa bens e recursos que um negligente sequer pensará que possam existir”. Nessa linha, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina também reconheceu que a função do administrador judicial, sob a imediata direção e superintendência do juiz, é ímpar e relevante, o sucesso ou insucesso do processo falimentar depende dele, como segue: COMERCIAL - FALÊNCIA - DESTITUIÇÃO DO SÍNDICO - CELEBRAÇÃO DE CONTRATO QUE COLIDE COM OS INTERESSES DA MASSA FALIDA - PRESERVAÇÃO DO ATO JUDICIAL ATACADO POR AGRAVO DE INSTRUMENTO. 1. "A função do síndico, como Administrador da Massa Falida, sob a imediata direção e superintendência do juiz, é ímpar e relevante, dele dependendo o sucesso ou insucesso do processo falimentar." (In parecer de fls. 28/31). 2. A contratação de Assessoria por quantia excessivamente elevada, demonstra o conflito existente entre as funções do síndico e os interesses da Massa Falida, impondo-se sua imediata destituição. 3. Quando o juiz decide destituir o síndico, para impedir a proliferação de atos que possam comprometer a moralidade do procedimento falimentar, está no exercício da imediata direção da administração da falência (SANTA CATARINA, 1997). É, então, de extrema importância que o administrador tenha muita cautela para agir corretamente, sem prejudicar as partes interessadas. Nesse sentido, pode-se dizer que a sobrevivência da empresa em recuperação judicial e a liquidação do patrimônio do devedor insolvente está nas mãos do administrador judicial, pois compete a ele auxiliar as partes no processo, para garantir que os interesses sejam atendidos. Apesar de tamanha responsabilidade, a obrigação do administrador judicial na recuperação e falência de empresa é uma obrigação de meio e não de resultado, ou seja, ele não poderá garantir que a empresa saia da crise econômico-financeira em que se encontra. Também, não poderá garantir que a liquidação do patrimônio do devedor seja o suficiente para satisfazer todos os débitos, mas, dentro das suas atribuições, deverá fazer o possível para que o resultado satisfatório seja alcançado. A respeito da necessidade de comprovação de desobediência, omissão, negligência ou pratica de ato lesivo, para a destituição do administrador judicial, a jurisprudência, apesar de escassa, parece ter firmado o seu entendimento. Nesse sentido, é a decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina reconhecendo que a destituição do administrador judicial somente pode ocorrer por comprovada desobediência aos preceitos da 55 lei, descumprimento de deveres, flagrante omissão ou negligência ou, ainda, prática de ato lesivo às atividades do devedor ou de terceiros. Se não for comprovada uma de tais incúrias graves, não há que falar em destituição, como no caso de não retornar a correspondência enviada pelo administrador judicial para o credor, como segue: RECUPERAÇÃO JUDICIAL DESTITUIÇÃO DE ADMINISTRADOR JUDICIAL REJEITADA. AGRAVO DO CREDOR INSURGENTE. AUSÊNCIA DE RECEBIMENTO DA NOTIFICAÇÃO INFORMATIVA DA DEFLAGRAÇÃO DO PROCEDIMENTO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL. FATO NÃO IMPUTÁVEL AO ADMINISTRADOR, TODAVIA. COMPROVAÇÃO DO ENVIO DA CORRESPONDÊNCIA NO ENDEREÇO DO INTERESSADO. ENTREGA NÃO REALIZADA PELOS CORREIOS POR MOTIVO DIVERSO - RUA NÃO LOCALIZADA. OUTROSSIM, CRÉDITO INICIALMENTE ARROLADO PELA RECUPERANDA A MENOR DO QUE O SUPOSTAMENTE DEVIDO. FATO IGUALMENTE NÃO ATRIBUÍVEL AO ADMINISTRADOR JUDICIAL, QUE DESCONHECIA TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL EM FAVOR DO INTERESSADO. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO, HAJA VISTA QUE A INSURGÊNCIA FOI RECEBIDA COMO IMPUGNAÇÃO AO QUADRO GERAL DE CREDORES. EXPEDIENTE AINDA NÃO JULGADO, PORÉM, COM MANIFESTAÇÃO FAVORÁVEL PELO ADMINISTRADOR JUDICIAL. A penalidade de destituição do Administrador Judicial, nos termos dos arts. 30 e 31 da Lei nº 11.101/05, somente pode ocorrer por comprovada desobediência aos preceitos da lei, descumprimento de deveres, flagrante omissão ou negligência ou, ainda, prática de ato lesivo às atividades do devedor ou de terceiros. Não comprovada uma de tais incúrias graves, não há falar em destituição.O não retorno de correspondência enviada pelo Administrador Judicial para o credor em razão de não localização da rua pelos Correios não é falta que pode lhe ser atribuída. Não há falar em prejuízo se, malgrado o credor não tenha recebido notificação informativa do início do processo de recuperação judicial, por ato não atribuível ao administrador judicial, tempestivamente opõe impugnação ao valor constante no quadro geral de credores. AGRAVO NÃO PROVIDO (SANTA CATARINA, 2019). Em outra decisão, ainda, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina entendeu queo afastamento do administrador judicial do processo de falência depende da comprovação de evidências de omissões cuja gravidade e inidoneidade demonstrem injustificável negligência capaz de comprometer e inviabilizar o processo coletivo, desviando- o de seu bom curso, como segue: AGRAVO DE INSTRUMENTO - FALÊNCIA - PEDIDO DE DESTITUIÇÃO DO SÍNDICO FORMULADO POR CREDORES - ALEGAÇÃO DE NEGLIGÊNCIA E DESÍDIA NA ATUAÇÃO DO SÍNDICO, NÃO COMPROVADAS - DESCUMPRIMENTO DOS PRAZOS LEGAIS - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO -REQUISITOS NÃO AUTORIZADORES - RECURSO DESPROVIDO. Para que se concretize o afastamento do síndico no processo falencial, imprescindíveis são as evidências de omissões cuja gravidade e inidoneidade demonstrem injustificável negligência capaz de comprometer e inviabilizar o processo coletivo, desviando-o de seu bom curso. A existência de certas imprecisões não reiteradas do síndico, ainda que relevantes, devem ser contemporizadas por força da notória complexidade de funções e do notável desenvolvimento de atos e providências a serem constantemente tomadas no processo falêncial (SANTA CATARINA, 2007). 56 Em mais uma decisão, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina manifestou-se contrário à destituição do administrador judicial por entender que não se configurou conduta em desobediência aos preceitos da legislação falimentar ou descumprimento de seus deveres funcionais, omissão, negligência ou conduta lesiva, como segue: AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. DECISÃO QUE INDEFERE O PEDIDO DE DESTITUIÇÃO DO ADMINISTRADOR JUDICIAL, REJEITA OS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO OPOSTOS CONTRA A DECISÃO QUE AUTORIZOU A CONTRATAÇÃO DE ADVOGADOS E APLICA MULTA PELO CARÁTER PROTELATÓRIO DO RECURSO. IRRESIGNAÇÃO DAS DEVEDORAS. POSTERIOR CONVOLAÇÃO DA RECUPERAÇÃO EM FALÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE PERDA DO OBJETO DO RECURSO. ATOS PRATICADOS NO PERÍODO DO PROCESSAMENTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL QUE CONTINUAM SUSCETÍVEIS DE ANÁLISE PELO JUÍZO E EVENTUAL DESTITUIÇÃO QUE PERMANECE APTA A PRODUZIR SEUS EFEITOS. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA DOS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. PARCIAL ACOLHIMENTO. RECURSO QUE NÃO ATACOU AS RAZÕES DISPOSTAS NO DECISUM QUANTO À AUTORIZAÇÃO PARA A CONTRATAÇÃO DE NOVO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PARA ASSESSORIA JURÍDICA DAS SOCIEDADES EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE (ART. 524, INC. II, DO CPC/1973). DESTITUIÇÃO DO ADMINISTRADOR JUDICIAL. AUSÊNCIA DE DESOBEDIÊNCIA AOS PRECEITOS DA LEI DE FALÊNCIAS E DE RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS, DESCUMPRIMENTO DE SEUS DEVERES FUNCIONAIS, OMISSÃO, NEGLIGÊNCIA OU CONDUTA LESIVA. ATO PRATICADO NA ASSEMBLEIA GERAL DE CREDORES QUE, EMBORA POSTERIORMENTE INVALIDADO POR ESTA CORTE, FOI REALIZADO POR ORIENTAÇÃO DE ASSESSORIA JURÍDICA RECONHECIDAMENTE QUALIFICADA E, INCLUSIVE, REFERENDADO PELO JUÍZO DE ORIGEM NA OPORTUNIDADE. POSIÇÃO JURÍDICA OBJETO DE CONTROVÉRSIA QUE NÃO CONSTITUIU MOTIVO IDÔNEO A ENSEJAR A ADOÇÃO DA MEDIDA EXTREMA DA DESTITUIÇÃO DO ADMINISTRADOR JUDICIAL. DEMAIS ATOS ALEGADOS PARA JUSTIFICAR A DESTITUIÇÃO, COMO IMPARCIALIDADE, DEMISSÃO INDEVIDA DE FUNCIONÁRIOS,RESCISÃO IMOTIVADA DE CONTRATOS E DESÍDIA NO ACOMPANHAMENTO DE PROCESSOS, QUE NÃO FORAM EVIDENCIADOS. DECISÃO QUE INDEFERIU O PEDIDO DE DESTITUIÇÃO MANTIDA. MULTA APLICADA PELA OPOSIÇÃO DE EMBARGOS DE DECLARAÇÃO PROTELATÓRIOS. MANUTENÇÃO DA PENALIDADE. RECURSO INTERPOSTO APENAS COM O INTUITO DE REDISCUTIR A DECISÃO EMBARGADA E PROTELAR O ANDAMENTO DO PROCESSO. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E DESPROVIDO (SANTA CATARINA, 2018). Nesse sentido, é notório que a jurisprudência pacificou o seu entendimento acerca do pedido de destituição do administrador judicial. Esse deverá ser fundamentado, trazendo evidências que comprovem a prática, pelo administrador judicial, dos atos que prejudiquem as partes. 57 Em relação à responsabilidade civil do administrador judicial, dentre as doutrinas estudadas, poucas falam a respeito do assunto. Gomes (2007, p. 298-299) cita que, em casos de prejuízos causados pelo administrador judicial, caberá à massa falida propor “[...]ação de responsabilidade e indenizatória contra o administrador judicial [...]” durante o processo de falência. Já Coelho (2011, p. 371) esclarece que: O administrador judicial responde civilmente por má administração ou por infração à lei. Até o encerramento do processo falimentar, somente a massa tem legitimidade ativa para responsabilizá-lo, após, evidentemente, a sua substituição ou destituição. Durante o prazo, o credor não pode, individualmente, acionar o administrador judicial, cabendo-lhe, apenas, requerer sua destituição. Mas, uma vez encerrado o processo falencial, qualquer credor prejudicado por má administração ou infração à lei poderá promover a responsabilização do antigo administrador judicial, desde que tenha, contudo, requerido, no momento oportuno, a sua destituição, condição inafastável para a sua legitimação ao pedido indenizatório. A doutrina entende que, até o encerramento do processo falimentar, a massa falida ou os credores, podem propor a ação de indenização, em processo autônomo. Após o encerramento do processo de falência ou de recuperação judicial, poderão os credores prejudicados pleitear, também, em processo autônomo, a indenização (COELHO, 2011; GOMES, 2007). Já a jurisprudência, principalmente, no que tange ao Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, também é escassa,mas o seu entendimento aoencontro do que a doutrina prevê. A ação de responsabilidade pelo ato ilícito cometido pelo administrador judicial deverá ser proposta em juízo diferente ao da falência, ou seja, é necessária uma ação autônoma. Ademais, para a propositura de ação de responsabilização, é necessário que haja, anteriormente, o pedido de destituição do administrador, em razão da prática do ato prejudicial às partes, sem o qual, não será possível ingressar com ação autônoma, pois constitui requisito para tal. Nesse caso, até o fim do processo de falência, a legitimidade para figurar no polo passivo da ação indenizatória é da massa falida, no caso da falência; ou dos credores, no caso da recuperação judicial. Nesse sentido, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina entendeu que eventual indenização, em decorrência de ingerências por parte do administrador judicial no processo de recuperação judicial, deve ser requerida em ação própria, como segue: AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÃO QUE CONVOLOU RECUPERAÇÃO JUDICIAL EM FALÊNCIA, EM RAZÃO DO NÃO CUMPRIMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO.RECURSO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS FALIDAS E DE SEUS SÓCIOS ASSISTENTES LITISCONSORCIAIS. PRETENDIDA REFORMA DO DECISUM, A FIM DE QUE SEJA RETOMADA 58 A RECUPERAÇÃO JUDICIAL, COM A REALIZAÇÃO DE NOVA ASSEMBLEIA GERAL DE CREDORES. IMPOSSIBILIDADE. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ELEMENTARES DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. CIRCUNSTÂNCIA QUE DÁ ENSEJO À DECRETAÇÃO IMEDIATA DA QUEBRA, A TEOR DO DISPOSTO NOS ARTIGOS 61, § 1º, 73, INCISO IV, E 94, INCISO III, "G", TODOS DA LEI N. 11.101/2005. PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS. ALEGAÇÃO DE QUE O ADMINISTRADOR JUDICIAL ENTÃO ATUANTE TERIA AGIDO DE MANEIRA NEGLIGENTE NA CONDUÇÃO DE SEU ENCARGO. IRRELEVÂNCIA. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS ADMINISTRADORES, ORA AGRAVANTES, PELO ADIMPLEMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. SUPOSTAS INGERÊNCIAS POR PARTE DO ADMINISTRADOR JUDICIAL INCAPAZES DE INFLUIR NO RESULTADO DO JULGAMENTO. EVENTUAIS INDENIZAÇÕES QUE DEVEM SER RECLAMADAS EM AÇÃO PRÓPRIA. AGRAVANTES QUE NÃO LOGRARAM DEMONSTRAR O CUMPRIMENTO DOS DEVERES ASSUMIDOS NO PLANO DE RECUPERAÇÃO. PEDIDO DE ANULAÇÃO DA ASSEMBLEIA GERAL DE CREDORES, EM RAZÃO DA QUAL TERIA SIDO DECRETADA A QUEBRA. ALEGADO VÍCIO NA INTIMAÇÃO DOS CREDORES. IRRELEVÂNCIA. FALÊNCIA DECRETADA EM VIRTUDE DO NÃO CUMPRIMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO APRESENTADO. HIPÓTESE EM QUE O MAGISTRADO PODE CONVOLAR A RECUPERAÇÃO JUDICIAL EM FALÊNCIA, A DESPEITO DE MANIFESTAÇÃO DOS CREDORES. EXEGESE DOS JÁ MENCIONADOS ARTIGOS 61, § 1º, 73, INCISO IV, E 94, INCISO III, "G", TODOS DA LEI N. 11.101/2005. ENTENDIMENTO CONSOLIDADO NA JURISPRUDÊNCIA PÁTRIA. AGRAVO NÃO CONHECIDO NO PONTO, POR AUSÊNCIA DE INTERESSE RECURSAL. DOCUMENTOS NOVOS, JUNTADOS APÓS A INTERPOSIÇÃO DO RECURSO, COM O INTUITO DE DESCREDIBILIZAR AS PALAVRAS DO ANTIGO ADMINISTRADOR JUDICIAL, DEMONSTRAR A VIABILIDADE DA RECUPERAÇÃO DAS EMPRESAS AGRAVANTES, BEM COMO COMPROVAR A EXISTÊNCIA DE EQUÍVOCOS NO TOCANTE À ASSEMBLEIA GERAL REALIZADA. DESCABIMENTO. DOCUMENTAÇÃO INCAPAZ DE ENSEJAR A REFORMA DO DECISUM, DADO QUE NÃO COMPROVA O ADIMPLEMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. ADEMAIS, DOCUMENTOS APRESENTADOS PELA ATUAL ADMINISTRADORA JUDICIAL QUE RECHAÇAM A POSSIBILIDADE DE RECUPERAÇÃO DAS FALIDAS. DECISÃO DE QUEBRA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO, EM PARTE, E, NESTA PORÇÃO, NÃO PROVIDO (SANTA CATARINA, 2016). Em outra decisão, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina reconheceu que, enquanto corre o processo de falência, o credor não pode individualmente acionar o administrador judicial, podendo, tão somente, nesse período pedir a sua destituição, até o fim do processo. Ademais, deve aguardar o fim do processo para promover individualmente a responsabilização de referido administrador judicial. Entretanto, para se legitimar à ação de indenização, nesse caso, considera-se requisito inafastável requerer, nos autos da falência, enquanto tramitar, a destituição do demandado, caso contrário, não terá legitimidade para tanto, como segue: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS - DEMANDA MOVIDA POR CREDOR PREFERENCIAL EM FACE DE MASSA FALIDA, 59 SUSTENTANDO ATRASO NO PAGAMENTO DAS VERBAS DE SUA TITULARIDADE - SENTENÇA EXTINGUINDO O PROCESSO, SEM JULGAMENTO DO MÉRITO, POR INADEQUAÇÃO DO RITO PROCEDIMENTAL ELEITO. INSURGÊNCIA DO DEMANDANTE - REJEIÇÃO - PROCESSO DE FALÊNCIA REGIDO PELO DL. N. 7.661/45 - AUSÊNCIA DAS CAUSAS CONFIGURADORAS DO DEVER DO SÍNDICO EM PRESTAR CONTAS - OBRIGAÇÃO QUE SOMENTE SE CARACTERIZA NOS CASOS DE RENÚNCIA DO ENCARGO, SUBSTITUIÇÃO, DESTITUIÇÃO, TÉRMINO DA LIQUIDAÇÃO OU CONCESSÃO DE CONCORDATA AO DEVEDOR (ART. 69 DA ANTIGA LEI DE QUEBRAS) - SITUAÇÃO DESCRITA NOS AUTOS NÃO CONTEMPLADA DENTRE AS HIPÓTESES LEGAIS, SENDO INVIÁVEL O MANEJO DA AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS DURANTE O CURSO DA ATIVIDADE DESEMPENHADA PELO ADMINISTRADOR DA MASSA - POSSIBILIDADE DE O ACIONANTE RECLAMAR EVENTUAL PREJUÍZO NOS AUTOS DA FALÊNCIA, MEDIANTE A INSTAURAÇÃO DO INCIDENTE ADEQUADO, COM O AJUIZAMENTO DE POSTERIOR AÇÃO DE RESPONSABILIZAÇÃO EM FACE DO SÍNDICO - RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. Enquanto corre o processo de falência, o credor não pode individualmente acionar o síndico, porque não é possível isolar o seu interesse da comunidade de credores. Pode ser que certo credor (quirografário) não fosse receber pagamento, mesmo que a irregularidade perpetrada pelo síndico não tivesse se verificado. Falece-lhe, pois, interesse jurídico para a ação de responsabilização. Desse modo, até o fim do processo de falência, o credor pode apenasrequerer a destituição do síndico (art. 66). Se a obtiver, a massa falida, representada pelo novo síndico, demandará o substituído. Se não, restar-lhe-á unicamente aguardar o fim do concurso de credores, momento em que qualquer credor admitido que tenha sido prejudicado por má administração ou infração à lei poderá promover individualmente a responsabilização da pessoa que houvera atuado como síndico. Para se legitimar à ação de indenização, nesse caso, considera-se requisito inafastável ter o credor requerido, nos autos da falência, enquanto esta tramitava, a destituição do demandado. Se não fez o requerimento de destituição, deixando de levar ao conhecimento judicial a notícia das irregularidades administrativas, cuja coibição beneficiaria toda a comunidade de credores, reputa-se o credor individualista não legitimado para a ação de indenização (Fábio Ulhoa Coelho, Curso de Direito Comercial, vol. 3, p. 263/264, Saraiva: 2005) (SANTA CATARINA, 2009). Nesse sentido, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, também, reconheceu a possibilidade de responsabilização civil do administrador judicial, por ato doloso ou culposo, perante os credores, como segue: Ação de indenização foi movida por PROCID INVEST Participações e Negócios S/A, quando ainda não falida, por seu controlador pessoa física (Edemar Cid Ferreira) e uma de suas subsidiárias (E - Financial Tecnologia e Serviços Ltda.) em desfavor do Banco Central do Brasil e de Vânio César Pickler Aguiar, então interventor do Banco Santos S/A. Falência decretada posteriormente e desistência da ação por parte da massa falida. Agravo de instrumento interposto pela falida. Decisão que não é nula, pois com motivação e fundamentação suficientes. Possibilidade de a ação continuar, com os autores originários. Ademais, se a desistência vier a ser demonstrada como sendo ato doloso ou culposo do Administrador Judicial, responderá ele perante os credores (art. 32 da LFR). Recurso não provido (SÃO PAULO, 2011). Cumpre salientar que o fato da legislação falimentar prever que o juiz e o Comitê de Credores fiscalizam os atos do administrador judicial não o exime da responsabilidade 60 pelos prejuízos causados, pois a sua conduta precede, além da culpa, de dolo, ou seja, quando, voluntariamente, o administrador judicial cometer o ato de prejudicar as partes. Assim, encerra-se este capítulo e passa-se à conclusão desta monografia. 61 5 CONCLUSÃO O objetivo geral desta monografia é analisar as hipóteses de responsabilização civil do administrador judicial no exercício de suas atribuições durante o processo de recuperação judicial e de falência da empresa. Para tanto, foram destacados alguns objetivos específicos, sobre os quais passam- se a expor algumas considerações. Na primeira parte do trabalho, trata-se da responsabilidade civil, que nada mais é do que a obrigação de indenizar, imputada a alguém que causa dano a outrem. Acontece que, para configurar essa responsabilidade é necessário que os elementos: ação ou omissão, culpa ou dolo, nexo de causalidade e dano, estejam presentes. Ainda, para ter o autor do dano o dever de indenizar a vítima, não poderá apresentar excludentes que o isentem da responsabilidade Na segunda parte do trabalho, mostrou-se que a Lei n. 11.101/2005 regula a falência, a recuperação judicial e extrajudicial da empresa ou da sociedade empresária que se encontra em crise econômico-financeira. Essa lei trouxe inovações em relação ao normativo anterior, pois, ao extinguir a concordata, estabeleceu a recuperação de empresa que representa uma possibilidade de superação da crise.Trata-se de processo mais flexível e inovador, que define meios de satisfação dos créditos, por meio da elaboração do plano de recuperação que será negociado entre o devedor e o credor, no sentido de viabilizar a atividade empresarial, visando a preservar a empresa e a cumprir a sua função social. Na terceira parte do trabalho, pode-se destacar que o pedido de recuperação judicial de uma empresa deverá ser feito quando essa se encontrar em estado de crise, que é caracterizado pelo inadimplemento, pela iliquidez e pela insolvência. Já o instituto da falência pode ser requerido pelo credor e pelo devedor, quando não há mais condições de recuperar a empresa. Com a decretação da falência, inicia-se o processo de execução concursal, pelo qual são arrecadados todos os bens do falido e é feito o levantamento de todos os credores, de modo que, com a venda do ativo do falido, seja possível efetuar o pagamento dos credores seguindo-se uma ordem de preferência de credores estabelecida na Lei de Falência. Tanto o processo de recuperação judicial quanto o de falência devem tramitar no local onde se encontra o principal estabelecimento do devedor; tendo a empresa mais de um estabelecimento, o processo deve tramitar naquele local onde o estabelecimento é considerado o mais importante. 62 A última parte da monografia tratou sobre a questão principal deste estudo, na qual se demonstrou que o administrador judicial é a pessoa de confiança do juiz nomeada para efetuar as diligências necessárias ao processo de execução concursal, podendo ele ser pessoa física ou jurídica, que auxilia o juiz no bom andamento do feito, contribuindo para que a finalidade da falência seja alcançada e sejam atendidos os interesses dos credores, jamais se deixando levar pela vontade própria. Por essa razão, deverá o administrador judicial desempenhar a sua atividade com responsabilidade, cumprindo as determinações da lei quanto à recuperação judicial e à falência, sob pena de ser responsabilizado pelos atos que praticar, com dolo ou culpa, que prejudiquem as partes interessadas no processo de recuperação judicial ou de falência. Nesse caso, mesmo que o administrador judicial execute as suas tarefas com a fiscalização do juiz e do Comitê de Credores, também, dos órgãos de administração do processo de recuperação judicial e de falência, não será isento de responsabilidade, uma vez que a lei dispõe que o administrador será responsabilizado quando proceder com culpa ou dolo. Entretanto, para que esse responda pelos danos causados, a jurisprudência sustenta que o administrador judicial deverá, primeiramente, ser destituído da sua função. Ainda, o processo de indenização que deverá ser ajuizado em vara diferente do processo de recuperação ou falência da empresa, poderá ser movido pela massa falida, em caso de processo de falência ou, se tratando de recuperação judicial, pelos credores, durante e até o fim do processo de falência, enquanto o credor, individualmente, só poderá ajuizar a ação de indenização no fim do processo de falência. Assim, ao praticar as suas atividades, deverá o administrador judicial ser idôneo, objetivando o resultado satisfatório da recuperação judicial e da falência, afastando a possibilidade de ser responsabilizado por algum ato ilícito cometido. Ao fim, confirma-se a hipótese apresentada neste trabalho, que é a seguinte: O administrador judicial poderá ser responsabilizado civilmente por prejuízo causado à massa falida, ao devedor, aos credores ou a terceiros, além ser substituído ou destituído da sua função nos casos de desobediência, descumprimento da lei, omissão e negligência, desde que tenha sido destituído da função durante o processo falimentar. 63 REFERÊNCIAS AYRTON SENNA. [S. l.: s. n.], 2013. 1 vídeo (1 min). Publicado pelo canal Marcel Campos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gDODTa1izH0. Acesso em: 10 jun. 2019. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 20 jan. 2019. BRASIL. Lei complementar n. 123, de 14 de dezembro de 2006. Institui o Estatuto Nacional da Microempresa e daEmpresa de Pequeno Porte; altera dispositivos das Leis n. 8.212 e 8.213, ambas de 24 de julho de 1991, da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943, da Lei n. 10.189, de 14 de fevereiro de 2001, da Lei Complementar n. 63, de 11 de janeiro de 1990; e revoga as Leis n. 9.317, de 5 de dezembro de 1996, e 9.841, de 5 de outubro de 1999. Brasília, DF: Presidência da República, [2019]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LCP/Lcp123.htm. Acesso em: 10 maio 2019. BRASIL. Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966.Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172.htm. Acesso em: 18 maio 2019. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002.Institui o Código Civil. 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Agravada: Massa Falida da Malharia Nerisi Ltda. Relator: Desemb. Orli Rodrigues, 29 de outubro de 1997. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AAAbmQAA BAAE5r0AAB&categoria=acordao. Acesso em: 30 maio 2019. SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (1. Câmara de Direito Comercial). Agravo de Instrumento 2004.020515-5. AGRAVO DE INSTRUMENTO - FALÊNCIA - PEDIDO DE DESTITUIÇÃO DO SÍNDICO FORMULADO POR CREDORES - ALEGAÇÃO DE NEGLIGÊNCIA E DESÍDIA NA ATUAÇÃO DO SÍNDICO, NÃO COMPROVADAS - DESCUMPRIMENTO DOS PRAZOS LEGAIS [...]. Agravante: Gaboardi Empreendimentos Imobiliários Ltda e Olga Ordini Gaboardi. Agravada: Massa Falida de Binder Projetos e Construções Ltda. Relator: Desemb. Anselmo Cerello, 26 de abril de 2007. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AAAbmQAA AAAOFkvAAE&categoria=acordao. Acesso em: 30 maio 2019. SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (3. Câmara de Direito Comercial). Agravo de Instrumento 2009.001245-9. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÃO QUE CONVOLOU RECUPERAÇÃO JUDICIAL EM FALÊNCIA, EM RAZÃO DO NÃO CUMPRIMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO [...]. Agravantes: A. Benthien e Cia Ltda. e outros. Agravados: Massa Falida de A. Benthien Cia. Ltda., e outro. Relator: Desemb. Tulio Pinheiro, 9 de junho de 2016. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AAAbmQAA CAANq0PAAb&categoria=acordao. Acesso em: 30 maio 2019. 66 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (3. Câmara de Direito Comercial). Agravo de Instrumento 4021428-34.2017.8.24.0000. RECUPERAÇÃO JUDICIAL DESTITUIÇÃO DE ADMINISTRADOR JUDICIAL REJEITADA. AGRAVO DO CREDOR INSURGENTE [...]. Agravante: Equipos Celulose Comércio e Indústria Ltda. Agravada: Indusflora Produtos Florestais Ltda. Relator: Desemb. Gilberto Gomes de Oliveira, 21 de março de 2019. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AABAg7AAF AAJKT3AAH&categoria=acordao_5.25 2.4 RESPONSABILIDADE CIVIL SUJBETIVA E OBJETIVA ......................................... 25 2.5 RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL ......................... 26 3 ASPECTOS DESTACADOS SOBRE O DIREITO FALIMENTAR DO BRASIL ... 28 3.1 CONCEITO E PRINCÍPIOS DA ATIVIDADE EMPRESARIAL ................................. 28 3.2 APLICABILIDADE DA LEI N. 11.101/2005 E COMPETÊNCIA DO JUÍZO ............ 31 3.3 VERIFICAÇÃO E HABILITAÇÃO DE CRÉDITOS .................................................... 33 3.4 ÓRGÃOS DE ADMINISTRAÇÃO DA FALÊNCIA E DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL.................................................................................................................................35 3.5 NOÇÕES GERAIS SOBRE O INSTITUTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL .......... 37 3.6 NOÇÕES GERAIS SOBRE O INSTITUTO DA FALÊNCIA ....................................... 43 4 POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NO INSTITUTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E DA FALÊNCIA ..... 49 4.1 ATRIBUIÇÕES DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA ................................................................................................. 49 4.2 POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO CIVIL DO ADMINISTRADOR JUDICIAL NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL E NA FALÊNCIA ......................................... 53 5 CONCLUSÃO ................................................................................................................... 61 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 63 11 1 INTRODUÇÃO Esta monografia trata do estudo sobre a responsabilidade civil do administrador judicialna recuperação judicial e na falência de empresa, como se passa a expor. 1.1 DESCRIÇÃO DO TEMA O administrador judicial faz parte do órgão da recuperação judicial e da falência de empresa e sua função é, basicamente, arrecadar todos os bens do devedor, onde quer que estejam, requerendo, para esse fim, as medidas judiciais necessárias. Além disso, caso o juiz determine no processo de recuperação judicial ou de falência o afastamento dos administradores da empresa, caberá ao administrador judicial coordenar a empresa até que seja escolhido um novo gestor judicial. As funções do administrador judicial são de caráter personalíssimo e não podem ser delegadas. “O administrador judicial, em auxílio ao juiz na ordenação dos processos de recuperação judicial, terá que realizar uma pluralidade de atos, de natureza judicial ou administrativa, para que o escopo seja logrado” (CAMPINHO, 2009, p. 62). Ainda, do mesmo modo, “[...] o administrador judicial é o responsável direto pela administração do ativo e do passivo do devedor falido, reunidos na massa falida, que será por ele representada durante o processo falimentar” (GOMES, 2007, p. 295). O administrador judicial é intimado pessoalmente, após sua nomeação, para em 48 horas, assinar termo de compromisso, assumindo, dessa forma, responsabilidades civis e penais que lhe são pertencentes.Suas funções, assim, variam entre funções judiciais e administrativas. Dentre elas, destacam-se, principalmente, enviar correspondências aos credores comunicando o pedido de recuperação judicial ou a decretação da falência; fornecer aos credores todas as informações solicitadas; consolidar o quadro geral de credores; contratar profissional ou empresa para auxiliá-lo em suas atribuições, caso seja necessário; fiscalizar as atividades do devedor e o cumprimento do plano de recuperação judicial; e, apresentar ao juiz relatórios estabelecidos na legislação falimentar. É importante conhecer essas atribuições e responsabilidades do administrador judicial, pois é ele que estará agindo no processo de recuperação judicial e falência de uma empresa, fiscalizando o devedor. “A recuperação judicial é uma tentativa de solução para a crise econômica de um agente econômico, enquanto uma atividade empresarial. Isso ocorre porque a recuperação tem por objetivo principal proteger a atividade empresarial” 12 (TEIXEIRA, 2011, p. 183). Já o instituto da “[...]falência é uma forma de execução coletiva, promovida contra o devedor comerciante (sujeito passivo) responsável por obrigação mercantil (base do processo inicial)” (FERREIRA, 1996 apud PERIN JUNIOR, 2011, p. 53). A figura do administrador judicial, com o advento da LRF, a passou a ser revestida de credibilidade necessária ao regular processamento do feito, confortando os credores, principais interessados na celeridade processual e o juízo falimentar, com a certeza de atuação profissional, fiscalizada e imparcial na busca da satisfação dos interesses creditórios perante a sociedade falida ou submetida à recuperação judicial. Dentre as principais questões que emergem da atuação do administrador judicial, reside na necessária exegese interpretativa do artigo 21 da LRF em vista a qualificar técnica e academicamente o profissional a ser nomeado pelo juízo falimentar para auxílio jurisdicional em vista a gestão da massa falida e fiscalização do plano de recuperação (MENDES, 2010). Como se observa, a função do administrador judicial é tanto fundamental no processo de recuperação de empresa, quanto no processo de falência, uma vez que auxilia o juiz no bom andamento do feito, a fim de que os interesses das partes sejam atingidos. Em razão de sua importante função, caso viole alguma regra e cause prejuízos à massa falida, o administrador judicial poderá ser responsabilizado civilmente, além de ser substituído ou destituído do cargo. 1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA De que forma o administrador judicial pode ser responsabilizado civilmente pelos atos praticados no exercício de suas atribuições durante o processo de recuperação judicial e de falência de empresa? 1.3 HIPÓTESE O administrador judicial poderá ser responsabilizado civilmente por prejuízo causado à massa falida, ao devedor, ou aos credores, além ser substituído ou destituído da sua função,nos casos de desobediência, descumprimento da lei, omissão e negligência. 1.4 DEFINIÇÃO DO CONCEITO OPERACIONAL Para um entendimento mais apropriado do tema em questão, indica-se o seguinte conceito operacional: Responsabilidade civil do administrador judicial na recuperação judicial e na falência de empresa: Trata-se da obrigação que pode incumbir uma pessoa 13 nomeada pelo juízo falimentar a reparar o prejuízo causado ao devedor, aos credores ou a terceiros, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam no processo que visa a dar à empresa a possibilidade de superação da crise econômico-financeira. 1.5 JUSTIFICATIVA O presente tema se justifica pela importância que representa ao campo do Direito Empresarial, principalmente, no que se refere ao processo de falência e recuperação judicial de empresa, instituto que vem sendo cada vez mais requisitado no judiciário, em função da crise econômica por que passa o país, atualmente. Ainda, este estudo tem relevância para o meio empresarial, porque a figura do administrador judicial é importante frente ao processo de recuperação de empresa, na medida em que desempenha atribuições que consistem no esclarecimento de dúvidas do Ministério Público, dos credores, do juiz e de outros interessados, facilitando o entendimento dos envolvidos, no sentido de viabilizar a superação da crise econômico-financeira da empresa, de modo a evitar, na recuperação judicial, a decretação da falência e a atender o princípio da preservação da empresa. Embora a falência e a recuperação judicial sejam um assunto bem comentado no âmbito acadêmico, jurídico e social, a presente pesquisa, ao limitar a extensão de estudo especificando as atribuições do administrador judicial, sua importância e responsabilidade frente à falência e à recuperação de empresas, trouxe uma peculiaridade diferenteAcesso em: 30 maio 2019. SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (3. Câmara de Direito Comercial). Apelação Cível 2005.006582-9. APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS - DEMANDA MOVIDA POR CREDOR PREFERENCIAL EM FACE DE MASSA FALIDA, SUSTENTANDO ATRASO NO PAGAMENTO DAS VERBAS DE SUA TITULARIDADE [...]. Apelante: Osni Paul. Apelado:Massa Falida de Vijon Confecções. Relator: Desemb. Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, 18 de junho de 2009. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AAAbmQAA BAAHg7MAAA&categoria=acordao. Acesso em: 30 maio 2019. SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (4. Câmara de Direito Comercial). Agravo de Instrumento 0138023-92.2014.8.24.0000. GRAVO DE INSTRUMENTO. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. DECISÃO QUE INDEFERE O PEDIDO DE DESTITUIÇÃO DO ADMINISTRADOR JUDICIAL, REJEITA OS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO OPOSTOS CONTRA A DECISÃO QUE AUTORIZOU A CONTRATAÇÃO DE ADVOGADOS E APLICA MULTA PELO CARÁTER PROTELATÓRIO DO RECURSO [...]. Agravantes: Busscar Comércio Exterior S/A, Busscar Investimento e Empreendimentos Ltda., Busscar Ônibus SA, Climabus Ltda., Niempal Empreendimentos e Participações Ltda., TecnofibrasHvr Automotiva S.A e TSA Tecnologia S.A. Agravado: Instituto Professor Rainoldo Uessler. Relator: Desemb. Altamiro de Oliveira, 30 de janeiro de 2018. Disponível em: http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&id=AABAg7AAE AAHU4PAAO&categoria=acordao_5. Acesso em: 30 maio 2019. SÃO PAULO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Câmara Reservada à Falência e Recuperação). Agravo de Instrumento 5262861220108260000. Ação de indenização foi movida por PROCID INVEST Participações e Negócios S/A, quando ainda não falida [...]. Agravante:Procid Invest Participações e Negócios S/A (Falida). Agravada: Procid Invest Participações e Negócios S/A (Massa Falida). Relator: Desemb. Romeu Ricupero, 23 de agosto de 2011. Disponível em: https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/resultadoSimples.do;jsessionid=B9A97EA4785F0A14517FDE765 0E3105A.cjsg1?conversationId=&nuProcOrigem=5262861220108260000&nuRegistro=. Acesso em: 30 maio 2019. ROQUE, Sebastião José. Direito de recuperação de empresas: elaborado nos termos da lei n. 11.101 de 09.02.2005, substitui a antiga lei alimentar (decreto-lei 7661/45). São Paulo: Ícone, 2005. STOCO, Rui. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 7. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. 67 STOCO, Rui. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 10. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. TEIXEIRA, Tarcisio. A Recuperação judicial de empresas. [S. l.: s. n.], 2011. Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/a_recuperacao_judicial_de_empresas.pdf. Acesso em: 20 maio 2019. TOLEDO, Paulo Fernando Campos Salles de. Disposições preliminares. In:TOLEDO, P. F. C. S. de; ABRÃO, C. 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Desse modo, todos os envolvidos no processo têm, por fim, a superação da crise econômico-financeira do devedor, para manter a fonte produtora, assegurar os postos de trabalho e emprego e garantir os interesses dos credores frente à insolvência da empresa. Por fim, este estudo é interessante ainda para a sociedade porque, em se tratando de Universidade Comunitária, a pesquisa não só será fonte de pesquisa para os acadêmicos, como também para os leitores externos, advindos da comunidade, que poderão ter maiorentendimento a respeito do processo de falência e de recuperação judicial e, ainda, do papel do administrador judicial. 14 1.6 OBJETIVOS Os objetivos gerais e específicos seguem abaixo descritos. 1.6.1 Objetivo geral Analisar as hipóteses de responsabilização civil do administrador judicial no exercício de suas atribuições durante o processo derecuperação judicial e de falência de empresa. 1.6.2 Objetivos específicos Apresentar noções gerais acerca do instituto da responsabilidade civil no ordenamento jurídico brasileiro; Identificar os princípios gerais constitucionais da atividade econômica; Descrever sobre os princípios da função social e da preservação da empresa; Destacar os principais aspectos sobre o direito falimentar no Brasil; Descrever a respeito da figura do administrador judicial na falência e na recuperação judicial e suas atribuições; Demonstrar como o administrador judicial pode ser responsabilizado no exercício de sua função no processo de recuperação judicial e de falência; Destacar os entendimentos doutrinários e jurisprudências acerca do tema. 1.7 DELINEAMENTO DA PESQUISA Delineamento da pesquisa “[...] refere-se ao planejamento da mesma em sua dimensão mais ampla envolvendo tanto a sua diagramação quanto a previsão de análise e interpretação de dados” (GIL, 2002, p. 70). Assim, esta seção consiste na especificação dos tipos de método e pesquisa cabíveis ao objeto em estudo, no caso, “Responsabilidade civil do administrador judicial na recuperação de empresa”. Método é o meio do qual o pesquisador se utiliza para buscar respostas e obter resultados confiáveis. “O método é um recurso que requer detalhamento de cada técnica aplicada na pesquisa. É o caminho sistematizado, formado por etapas, que o pesquisador percorre para chegar à solução” (MOTTA, 2012, p. 83). O método de procedimento utilizado na pesquisa consiste no monográfico, que se deve à preocupação com o aprofundamento do 15 tema em estudo, a partir de leis, normas e doutrinas. Para Motta (2012, p. 98), “[...] o método monográfico é aquele que analisa, de maneira ampla, profunda e exaustiva, determinado tema-questão-problema”. O método de abordagem na pesquisa é o do tipo dedutivo, uma vez que foram analisados documentos, inerentes às normas e leis, e doutrinas vinculadas ao tema; decorre da abordagem do âmbito geral para o específico. Assim, trata-se de um método “[...] que parte sempre de enunciados gerais (premissas) para chegar a uma conclusão particular” (HENRIQUES; MEDEIROS, 2003 apud MOTTA, 2012, p. 86). A pesquisa proposta para o trabalho monográfico, quanto ao seu objetivo, é a do tipo exploratória, pois proporciona “[...] maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses” (GIL, 2002, p. 41). Envolve levantamento bibliográfico, sem desenvolver análises mais detidas. Quanto aos procedimentos na coleta de dados, foram aplicadas as pesquisas dos tipos bibliográfica e documental. A primeira decorre da necessidade de se fazer leituras, análises e interpretações de fontes secundárias (livros, revistas, jornais, monografias, teses, dissertações, relatórios de pesquisa, doutrinas, etc.). A sua finalidade consiste em colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que já foi escrito ou dito sobre o tema em estudo. É uma pesquisa que explica o tema em questão à luz dos modelos teóricos pertinentes. Já a segunda, a pesquisa documental, baseia-se em fontes primárias ou documentais, uma vez que serve de base material ao entendimento da tese em questão. Pertence ao campo da hermenêutica, pois o documento deve ser analisado como se apresenta, e não como quer que se apresente (MOTTA, 2012). Por sua vez, com base no objeto de estudo, a pesquisa é a do tipo instrumental, pois diz respeito à preocupação prática, que busca “[...] trazer uma contribuição teórica à resolução de problemas técnicos (transformando o saber em saber-fazer)” (SILVA, 2004 apud MOTTA, 2012, p. 48). As pesquisas bibliográfica e documental definem-se como instrumentais, podendo ser divididas em doutrinária, legal ou jurisprudencial. 1.8 ESTRUTURA DO RELATÓRIO FINAL O desenvolvimento deste trabalho se deu em cinco capítulos. O primeiro capítulo trata da introdução ao tema. No segundo capítulo, são estudadas as noções gerais acerca da responsabilidade civil, quais sejam, seu conceito, seus elementos, suas excludentes e seus diferentes tipos. 16 O terceiro capítulo aborda os aspectos sobre o direito falimentar no Brasil, trazendo o conceito de atividade empresarial, a aplicabilidade da Lei n. 11.101/2005 e a competência do juízo para as ações de falência e de recuperação judicial, bem como a habilitação dos créditos e os órgãos de administração dos dois procedimentos. Esse capítulo também aborda os fundamentos do instituto da recuperação judicial e da falência. Logo, o quarto capítulo discorre acerca da possibilidade de o administrador judicial ser responsabilizado por suas ações ou omissões na esfera cível. Por fim, é apresentado no quinto e último capítulo a conclusão do trabalho. 17 2 NOÇÕES GERAIS ACERCA DA RESPONSABILIDADE CIVIL Este capítulo apresenta as noções gerais sobre a responsabilidade civil, com o objetivo de fundamentar o tema, tratando-se, desse modo, de conceito, elementos, excludenteseespécies de responsabilidade civil, como segue. 2.1 CONCEITO DE RESPONSABILIDADE CIVIL A ideia de responsabilidade civil conforme Stoco (2007, p. 114), pode ser exaurida da própria origem da palavra respondere, responder alguma coisa, responder pelos seus atos que causam danos a outrem. Na mesma ideia segue Rodrigues (2003, p. 6) “A responsabilidade civil é a obrigação que pode incumbir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam”. Em relação à teoria que deu origem à responsabilidade civil, para Pereira (2016, p. 3), não foi o Direito Romano que a construiu, e sim um desenrolar de casos de espécie, decisões de juízes, respostas dos jurisconsultos e das constituições imperiais.Ainda, sobre o assunto, Pereira (2016, p. 11), discorre: Os grandes mestres da responsabilidade civil, em suas obras sistemáticas, procuram sintetizar o conceito, deslocando a noção abstrata da responsabilidade civil para a configuração concreta de quem seja responsável, dizendo que uma pessoa é civilmente responsável quando está sujeita a reparar um dano sofrido por outrem. Vale ressaltar também, “[...] que o instituto da responsabilidade civil é parte integrante do direito obrigacional, posto que consiste na obrigação que tem o autor de um ato ilícito de indenizar a vítima pelos prejuízos a ele causados” (SAMPAIO, 2003, p. 17). A indenização que responde o autor do ato ilícito recai sobre o seu patrimônio, e é a partir daí que surge a ideia de que se aplica o princípio obrigacional à responsabilidade civil.Quanto a isso, deixou claro o legislador, no art. 942, caput, do Código Civil que os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos a reparação do dano causado, e, se tiver mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação [...] (SAMPAIO, 2003, p. 17). Por fim, Kriger Filho (2000, p. 33) indica o propósito da responsabilidade civil: É precisamente para compelir os homens a observarem e respeitarem as regras de convivência, que lhes são impostas pelo Direito, que o instituto da responsabilidade tem a sua razão de ser e o seu fundamento, sendo que a sua finalidade é a de impedir 18 a perpetração de danos à sociedade e aos indivíduos, isoladamente considerados, impondo as respectivas sanções pela inobservância dessas regras. Feitas essas considerações acerca do conceito da responsabilidade civil, passa-se a expor sobre seus elementos de configuração. 2.2 ELEMENTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL Para que um dano causado a outrem configure a responsabilidade civil e seja reparado, é necessária a presença dos elementos: ação ou omissão, culpa ou dolo do agente, nexo de causalidade e dano. 2.2.1 Ação ou omissão Tanto a ação quanto a omissão são atos capazes de gerar o dano a terceiro, ou seja, são fatos geradores da responsabilidade civil. Para Pereira (2016, p. 40), “Os fatos humanos compreendem especificamente o conceito genérico de ‘ato jurídico’, que abrange todo comportamento apto a gerar efeitos jurídicos”. Assim, de um lado se localiza a conduta humana de acordo com o que é ditado pela ordem jurídica, “compondo a tipologia dos atos jurídicos lícitos, ou simplesmente atos lícitos” (PEREIRA, 2016, p. 40). E, de outro lado, se localizam os atos que vão de encontro ao ordenamento legal, também chamados de atos jurídicos ilícitos. “Percebe-se, portanto, que a obrigação de reparar o dano vincula-se etiologicamente a um comportamento humano, positivo (ação), ou negativo (omissão)” (SAMPAIO, 2003, p. 31). A ação é o modo mais frequente de manifestar a vontade humana e por isso é de fácil percepção a obrigação de reparar quando se viola um dever. Em relação à omissão, de acordo com Sampaio (2003, p. 31): [...] embora de difícil visualização, o comportamento omissivo pode gerar a obrigação de reparar o dano. Para que o comportamento omissivo ganhe essa relevância, faz-se necessário que se tenha presente o dever jurídico de praticar determinado fato (de não se omitir) e que do descumprimento desse dever de agir advenha o dano (nexo de causalidade). Esse dever de agir pode decorrer de lei [...] ou da própria criação de alguma situação de perigo [...]. Em relação ao ato humano de ação ou omissão, o artigo 186 do Código Civil dispõe que “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” (BRASIL, 19 2002). Portanto, se o ato do agente causar resultado danoso, quer por ação ou omissão, esse comete ato ilícito e tem o dever de reparar a vítima. 2.2.2 Culpa ou dolo do agente A culpa ou o dolo são imputações feitas a alguém em virtude de um ato ou fato ocorrido. Na responsabilidade civil, a culpa ou o dolo evidenciam o agente causador do dano, ou seja, mostram quem deverá ser responsabilizado pelo fato, devendo reparar o dano causado. “Em síntese, para o surgimento do dever de indenizar, é preciso que o agente tenha causado o dano porque, deliberadamente, quis o resultado (dolo), ou porque não se ateve ao dever de cuidado que se poderia exigir de um homem médio (culpa stricto sensu)” (SAMPAIO, 2003, p. 77). Para Alvim (1972 apud STOCO, 2014, p. 204), “[...] dolo é a vontade consciente de violar direito”, ou seja, quando o agente comete ato ilícito, tendo a plena consciência do que se está fazendo, esse age com dolo e deve ser responsabilizado. Já a “[...] culpa em sentido estrito, entretanto, traduz o comportamento equivocado da pessoa, despida da intenção de lesar ou de violar direito, mas da qual se poderia exigir comportamento diverso [...]” (STOCO 2014, p. 204). A culpa pode empenhar ação ou omissão e revela-se através: da imprudência (comportamento açoado, precipitado, apressado, exagerado ou excessivo); da negligência (quando o agente se omite deixa de agir quando deveria fazê-lo e deixa de observar regras subministradas pelo bom senso, que recomendam cuidado, atenção e zelo); e da imperícia (a atuação profissional sem o necessário conhecimento técnico ou científico que desqualifica o resultado e conduz ao dano) (STOCO, 2014, p. 204). Assim, se entende que a culpa ocorre quando o agente não tinha a intenção de cometer o ato ilícito. Ademais, é importante citar que, para Gagliano e Pamplona Filho (2003 apud Stoco, 2014, p. 205), a culpa é definida como um elemento acidental da responsabilidade civil, como segue: A culpa não é, em nosso entendimento, pressuposto geral da responsabilidade civil, sobretudo no novo Código Civil [...] A culpa, portanto, não é elemento essencial, mas sim acidental, pelo que reiteramos nosso entendimento de que os elementos básicos ou pressupostos gerais da responsabilidade civil são apenas três: a conduta humana (positiva ou negativa), o dano ou prejuízo e o nexo de causalidade. 20 Contudo, Stoco (2014, p. 206) sustenta que, nos termos do artigo 927 do Código Civil, só nascerá a obrigação de reparar se for praticado algum ato ilícito e desse ato houver dano. Portanto, a culpa ainda é pressuposto fundamental da obrigação de reparar. Stoco (2014) faz a seguinte subdivisão da culpa:grave, quando o agente, ainda que sem querer, agiu como se quisesse causar o dano; leve, considerada como a falta de cuidado, ou de atenção, que o agente causador do dano deveria ter em sua conduta; levíssima, caracterizada como a falta de atenção extraordinária ou a carência de habilidade ou de conhecimento especial; in elegendo, constituída pela má escolha do representante ou do preposto; in vigilando, caracterizada pela falta de fiscalização do empregado ou da própria coisa, por parte do empregador; in committendo, constitui a imprudência no ato do agente, que acaba causando o dano; in omittendo, decorre da negligência, ou seja, seria o ato negligente cometido pelo agente causador do dano; in custodiendo, considerada como modalidade da culpa in vigilando que ocorre quando o agente tem a guarda de alguma coisa e acaba se descuidando; in contrahendo, ocorre essa modalidade de culpa quando, na celebração de um contrato, uma das partes, sonega a informação de perecimento da coisa, a outra parte; in concreto, dá-se quando o agente falta com zelo para atender a certas necessidades; por fim, a culpa in abstracto acontece quando o agente falta com a devida atenção que deve ser empregada na administração de negócios, fazendo uso da inteligência com que foi dotado pela natureza humana. 2.2.3 Nexo de causalidade Na responsabilidade civil, objetiva ou subjetiva, para que haja o dever de indenizar a vítima que sofreu o dano, é necessário que exista uma relação entre a ação do agente causador e o dano, ou seja, o dano sofrido pela vítima tem que ter relação com o fato que o provocou. Nas palavras de Pereira (2016, p. 105): Não basta que o agente haja procedido contra direito, isto é, não se define a responsabilidade pelo fato de cometer um “erro de conduta”; não basta que a vítima sofra um dano”; que é o elemento objetivo do dever de indenizar, pois se não houver um prejuízo a conduta antijurídica não gera obrigação ressarcitória. É necessário que se estabeleça uma relação de causalidade entre a injuridicidade da ação e o mal causado [...]. O nexo de causalidade para Venosa (2003, p. 39), “[...] é o liame que une a conduta do agente ao dano. É por meio do exame da relação causal que se conclui quem foi o causador do dano”. Ainda,para Pereira (2016), o nexo de causalidade é um dos principais 21 pressupostos da responsabilidade civil; é dever da vítima, no curso da ação de indenização, comprovar o elemento causal entre a ação e o dano. Entretanto, Sampaio (2003, p. 87), manifesta o seu pensamento acerca da dificuldade de comprovar o nexo de causalidade: Na prática, contudo, esbarra-se na dificuldade de se identificar o necessário liame de causalidade que permita atribuir determinado resultado ao comportamento de uma pessoa, principalmente diante da presença de vários comportamentos, que, de alguma forma, contribuíram para o resultado. São as chamadas concausas, que podem ser sucessivas ou simultâneas. Nas concausas simultâneas, a responsabilidade é solidária, ou seja, todos aqueles que causaram o dano terão a responsabilidade de reparar a vítima, conforme previsto no artigo 942 do Código Civil: “Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação” (BRASIL, 2002). Já, as causas sucessivas, são comportamentos que se fundam no correr do tempo. Considerando que um desses comportamentos é a causa que provocou o dano, o agente terá que indenizar a vítima. Em relação às concausas, Sampaio (2003) aponta três teorias acerca do assunto: da equivalência dos antecedentes ou das condições, que se baseia no fato de que qualquer circunstância que haja ocorrido para produzir o dano é considerada como causa; da causalidade adequada, cuja causa do dano é apenas aquele fato antecedente ao evento que causou prejuízo à vítima; e, dos danos diretos e imediatos, pela qual se estabelece uma relação direta e imediata entre a causa e o efeito. Esta última teoria foi adotada pelo Código Civil de 2002 e o seu fundamento legal encontra-se no artigo 403: “Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual” (BRASIL, 2002). 2.2.4 Dano O dano é o último e talvez o principal pressuposto da responsabilidade civil. É esse pressuposto que gera a obrigação de indenizar, ou seja, se alguém causar dano a outrem terá a obrigação de reparar, conforme prevê o artigo 186 do Código Civil (BRASIL, 2002). Pereira (2016, p. 52) descreve o dano como “[...] circunstância elementar da responsabilidade civil”. Apoiado neste preceito, o autor explana que a conduta antijurídica, imputável a uma pessoa, terá como consequência a sujeição do ofensor ao reparo do mal causado. Por sua vez, Sampaio (2003, p. 98) afirma que “[...] sem dano, não há porque impor 22 a alguém, ainda que diante de um comportamento ilícito, uma obrigação, em qualquer de suas modalidades”. Já, Cavalieri Filho (2005, p. 95-96) conceitua o dano como: [...] a subtração ou diminuição de um bem jurídico, qualquer que seja a sua natureza, quer se trate de um bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria personalidade da vítima, como a sua honra, a imagem, a liberdade etc. Em suma, dano é lesão de um bem jurídico, tanto patrimonial como moral, vindo daí a conhecida divisão do dano em patrimonial e moral. Em relação ao dano moral, associado à Constituição Federal de 1988, o Código Civil de 2002 trouxe, em seu texto, a possibilidade de indenização como forma de neutralizar os efeitos negativos do dano suportados pela vítima, provenientes de dano em relação à honra, à imagem, à integridade física ou a qualquer outra modalidade de dano moral existente (BRASIL, 1988; 2002). Destaca-se que o dano material já estava expresso na legislação anterior. Portanto, quer no dano moral, quer no dano patrimonial, há obrigação de reparação. Para Pereira (2016, p. 55), no conceito de reparação “[...] não se insere o elemento quantitativo. Está sujeito a indenizar aquele que causa prejuízo em termos matematicamente reduzidos, da mesma forma aquele outro que cause dano de elevadas proporções”. Nesse contexto, a doutrina entende que o dano precisa ser atual e certo para que seja passível de reparação. “Diz-se atual o dano que já existe ou já existiu no momento da ação de responsabilidade; certo, isto é, fundado sobre um fato preciso e não sobre hipótese” (LALOU, 1962 apud PEREIRA, 2016, p. 56). O dano poderá ser indenizável, também, quando se tratar de dano reflexo ou dano em ricochete. O dano em ricochete seria aquele quando a ofensa, lesão, é dirigida a uma pessoa, mas acaba atingindo um terceiro. Sobre a indenização da vítima, ainda, a jurisprudência passou a aceitar a reparação do dano moral e do dano material cumuladas, ou seja, se do mesmo fato decorrer dano moral e dano material, é possível pedir a cumulação da indenização. 2.3 CAUSAS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL As causas excludentes da responsabilidade seriam isenções do dever do agente causador do dano de reparar a vítima, ou seja, são causas que isentam a responsabilidade do autor. Rodrigues (1995 apud Sampaio 2003) cita as excludentes de responsabilidade civil, que seriam as seguintes: culpa exclusiva da vítima; fato de terceiro; caso fortuito ou de força 23 maior; cláusula de não indenizar, atuando essa apenas na esfera da responsabilidade civil contratual; e, a excludente de ilicitude. 2.3.1 Culpa da vítima: exclusiva ou concorrente A culpa exclusiva da vítima acontece quando a conduta do autor, seja ela ação ou omissão, não é a causa para o dano. Portanto, nessa hipótese, é a conduta da vítima que motiva o dano causado por ela. “Acrescente-se, também, que a ação ou omissão do agente não configura qualquer violação de dever de cuidado, embora tenha servido, objetivamente para o evento danoso. Diz-se, nesse caso, que há a quebra total do nexo de causalidade” (SAMPAIO, 2003, p. 89-90). Portanto, tratando-se de culpa exclusiva da vítima, o autor é isento da obrigação de indenizá-la. Já na segunda hipótese, tanto a conduta do agente quanto a da vítima são causas que geram o dano, o que não leva à quebra do nexo de causalidade, mas, sim, à sua atenuação, reduzindo a obrigação de reparar a vítima. Em relação à culpa concorrente, Sampaio (2003, p. 90) esclarece que, sendo autor e vítima culpados do evento danoso, “deve [...] ser aferido o grau de culpabilidade de cada uma das partes e, em função disso, estabelecer-se o justo valor indenizatório”. O fundamento legal dessa excludente de responsabilidade, se encontra no artigo 954 do Código Civil, conforme segue: “Art. 954. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano” (BRASIL, 2002). 2.3.2 Fato de terceiro A excludente por fato de terceiro advém do direito regressivo que possui o autor em face de uma terceira pessoa que com ele contribua para o resultado danoso. Essa excludente é disciplinada pelos artigos 929 e 930 do Código Civil, como seguem: Art. 929. Se a pessoa lesada, ou dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 188, inciso I) (BRASIL, 2002). 24 Segundo preleciona Sampaio (2003, p. 91): Há hipóteses, [...] em que o ato de terceiro surge como causa exclusiva do dano suportado pela vítima, de sorte que o agente cuja conduta materialmente tenha proporcionado o resultado apenas figura como mero instrumento. Nesses casos, o ato de terceiro fica equiparado ao caso fortuito oude força maior e quebra o nexo de causalidade. Ressalta-se que Sampaio (2003) destaca a possibilidade de intervenção de terceiros nas ações indenizatórias (artigo 125, inciso II, do Código de Processo Civil de 2015) em casos que a responsabilidade do causador do dano não seja excluída por fato de terceiro (BRASIL, 2015). Ocorre que a jurisprudência interpreta esse dispositivo de forma restritiva, admitindo somente “[...] tal intervenção quando o direito regressivo automaticamente decorre de lei ou de contrato e não implique a intromissão de fato novo, que, ampliando o objeto da lide principal, acabaria por protelar a indenização a que faz jus a vítima” (SAMPAIO 2003, p. 92). 2.3.3 Caso fortuito ou força maior O parágrafo único do artigo 393 do Código Civil descreve caso fortuito ou força maior, como “[...] fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir” (BRASIL 2002). Distingue-se o caso fortuito da força maior: enquanto o caso fortuito decorre de um ato humano imprevisível, a força maior decorre de fatos da natureza, também imprevisíveis, como, chuva, tempestade, enchente. Para Fonseca (1958 apud STOCO, 2014, p. 273), existem duas correntes capazes de explicar o conceito de caso fortuito e força maior, sendo elas, a corrente objetiva, adotada pelo Código Civil e a subjetiva: “[...] a noção de caso fortuito ou de força maior decorre de dois elementos: um interno, de caráter objetivo, ou seja, a inevitabilidade do evento, e outro, externo, ou ‘subjetivo’, a ausência de culpa”. Por fim, caso fortuito ou força maior são considerados excludentes da responsabilidade civil, pois caso haja a comprovação desses elementos, fica o autor do dano, isento de reparar a vítima, já que houve quebra do nexo de causalidade entre conduta e dano. 25 2.3.4 Cláusula de não indenizar Trata de cláusula ligada à responsabilidade civil contratual, que exclui a responsabilidade de obrigações assumidas, transferindo os riscos do contrato para a vítima. Stoco (2014) lembra que a cláusula de não indenizar é repudiada pelo nosso ordenamento jurídico, principalmente no que se refere aos contratos de transportes e no Código de Defesa do Consumidor, haja vista ir de encontro aos princípios ali contidos. 2.3.5 Excludente de ilicitude São atos humanos voluntários capazes de eximir o autor do dano do dever de indenizar a vítima. O artigo 188 do Código Civil elenca as hipóteses de danos que não constituem atos ilícitos: legítima defesa, exercício regular de um direito e estado de necessidade (BRASIL, 2002). Pereira (2016, p. 385) entende por legítima defesa as “[...] situações em que pode repelir, pela força, a agressão ou a ameaça de agressão”. Para o autor, da mesma maneira que a legítima defesa da pessoa não constitui ato ilícito, essa regra se aplica também aos bens da pessoa lesada (PEREIRA, 2016). Ademais, para que seja configurada a legítima defesa, Stoco (2014, p. 298) elenca três pressupostos necessários: primeiro, que haja a iniciativa da agressão por parte de outrem, sem que do agente tenha partido qualquer agressão ou provocação; segundo, que a ameaça de dano seja atual ou iminente; e, terceiro, que a reação seja proporcional à agressão. Por exercício regular de um direito, entende-se que não há ato ilícito se a conduta for autorizada pelo sistema normativo jurídico. Pereira (2016, p. 358) chama a atenção em relação ao abuso de direito, expondo que “[...] o indivíduo, no exercício de seu direito, deve conter-se no âmbito da razoabilidade”. E, por fim, o estado de necessidade é caracterizado quando o ofendido age com a intenção de afastar perigo iminente de sua coisa ou de seu objeto para que não sofra um dano. 2.4 RESPONSABILIDADE CIVIL SUJBETIVA E OBJETIVA A responsabilidade civil subjetiva, também conhecida como clássica, de acordo com os ensinamentos de Sampaio (2003, p. 26), está estruturada no Código Civil de 1916 e tem o seu fundamento na teoria da culpa, ou seja, caso falte este elemento, não tem como se 26 falar em responsabilidade e em dever de indenizar. Portanto, nas palavras desse autor, para que se reconheça o dever de indenizar é necessário que o comportamento do autor do dano tenha sido motivado por dolo, ou seja, com a intenção de causar prejuízo ou com culpa, caso não tenha agido com zelo (SAMPAIO, 2003). Stoco (2014, p. 236) ressalta que “[...] a jurisprudência e a doutrina convenceram- se de que a responsabilidade civil fundada na culpa tradicional não satisfaz e nem sempre dá respostas seguras à solução de numerosos casos”. Por isso, surgiu a culpa presumida, ou seja, a responsabilidade civil objetiva. A responsabilidade objetiva, fundada na teoria do risco, teve sua origem no Direito Romano e é caracterizada por não considerar a culpa como elemento essencial do dever de indenizar. Prevalecendo a ideia de que todo dano, na medida do possível, deve ser indenizado, ganhou espaço no mundo jurídico a tese de que a obrigação de reparar o dano nem sempre está vinculada a um comportamento culposo do agente. E, como fator justificador do surgimento da obrigação de indenizar, socorre-se, nesse caso, da denominada teoria do risco (SAMPAIO, 2003, p. 27). Para Gonçalves (2007, v. 6, p. 30), “[...] nos casos de responsabilidade objetiva, não se exige prova de culpa do agente para que seja obrigado a reparar o dano. Em alguns, ela é presumida pela lei. Em outros, é de todo prescindível”. “Frisa-se que a ideia surgiu, justamente, para facilitar a posição da vítima. Uma vez presumida a culpa do agente, fica a vítima isenta de prová-la em juízo, cabendo àquele, por sua vez, o ônus de provar que não agiu com culpa [...]” (SAMPAIO, 2003, p. 28). Sampaio (2003) esclarece, ainda, que o Código Civil de 2002 manteve a responsabilidade civil subjetiva como regra, aplicando a objetiva em situações especiais. 2.5 RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL A responsabilidade civil compreende a obrigação de indenizar, reparar, prejuízos causados a terceiros, em virtude de uma conduta humana positiva ou negativa. Dentro do conceito de responsabilidade civil, surge a necessidade de distinguir algumas modalidades de responsabilidade. Entretanto, há doutrinadores que criticam a distinção feita entre responsabilidade contratual e extracontratual, pois para eles “[...] tal distinção não se justifica à medida que, qualquer que seja a espécie de responsabilidade civil, são sempre os mesmos pressupostos 27 ensejadores do dever de indenização: o dano, o ato ilícito [...] e o nexo de causalidade” (RODRIGUES, 1995, apud SAMPAIO, 2003, p. 23). Para Gagliano e Pamplona Filho (2003, p. 19-20): [...] para caracterizar a responsabilidade civil contratual, faz-se mister que a vítima e o autor do dano já tenham se aproximado anteriormente e se vinculado para o cumprimento de uma ou mais prestações, sendo a culpa contratual a violação de um dever de adimplir, que constitui justamente o objeto do negócio jurídico [...]. Portanto, a responsabilidade contratual advém da obrigação de reparar os prejuízos causados a outrem, decorrentes da violação de uma obrigação existente em um contrato. Pereira (2016, p. 325) expõe que “[...] quando há contrato, existe um dever positivo do contratante, dever específico relativamente à prestação, o que só por si lhe impõe a responsabilidade”. Já a responsabilidade extracontratual ou aquiliana, como também é conhecida, não é decorrente do descumprimento de uma obrigação prevista em contrato, mas, sim, da obrigação do dever de indenizar os danos causados, isto é, surge em razão da prática de um ato ilícito. “Em outras palavras, a obrigação de reparar o dano não está relacionada à existência anterior de um contrato [...] Origina-se, outrossim, de um comportamento [...] socialmente reprovável” (SAMPAIO, 2003, p. 24). Feitas essas considerações acerca da responsabilidadecivil, passa-se ao capítulo seguinte, no qual se destacam os principais aspectos sobre o direito falimentar brasileiro. 28 3 ASPECTOS DESTACADOS SOBRE O DIREITO FALIMENTAR DO BRASIL Com o objetivo de, em seguida, analisar o instituto da recuperação judicial e a responsabilidade civil do administrador judicial, nesta fase, é importante que sejam estudadas algumas das peculiaridades do direito falimentar do Brasil. 3.1 CONCEITO E PRINCÍPIOS DA ATIVIDADE EMPRESARIAL A atividade empresarial, conforme dispõe o artigo 966 do Código Civil, se caracteriza por meio do empresário que exerce como profissão “[...] atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou serviços” (BRASIL, 2002). Vido (2015) traz o significado das palavras dispostas no Código Civil que caracterizam a atividade empresarial. Como atividade econômica, expõe que o seu objetivo é lucrativo, e que “[...] o legislador, no art. 966 do CC, pretendeu acobertar o maior número possível de atividades, deixando de fora da definição, algumas poucas atividades que não são econômicas, como é o caso das atividades exercidas pelas associações e fundações” (VIDO, 2015, p. 37). O profissionalismo se evidencia “[...] pelo fato de o empresário atuar com habitualidade” (VIDO, 2015, p. 37). E, por fim, “[...] a organização significa a preocupação do empresário em gerir os elementos da atividade empresarial como capital, matéria-prima, mão de obra, tecnologia empregada, o melhor local e horário de funcionamento, entre outros” (VIDO, 2015, p. 37). Damian (2015, p. 18) discorre, ainda, que “[...] a atividade empresarial pode ser exercida pelo empresário individual ou pela sociedade empresária. Assim sendo, se não existir a empresa, tem-se a figura do profissional autônomo ou da sociedade simples [...]”. Por sua vez, a atividade econômica é norteada por princípios que estão estabelecidos na Constituição Federal, no art. 170, dispositivo que se preocupou em ordenar a economia do País constituindo um conjunto de normas, assim definidos: Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I - soberania nacional; II - propriedade privada; III - função social da propriedade; IV - livre concorrência; V - defesa do consumidor; VI - defesa do meio ambiente; VII - redução das desigualdades regionais e sociais; VIII - busca do pleno emprego; 29 IX - tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei (BRASIL, 1988). Desse modo, passa-se a descrever sobre os princípios que norteiam a atividade econômica, e, especialmente, a atividade empresarial. O princípio da soberania nacional, disposto no artigo 170, inciso I, da Constituição Federal, é um dos princípios fundamentais da República, pois caracteriza a autonomia e a independência que o Estado possui de dirigir a ordem econômica conforme a sua relevância (BRASIL, 1988). Esse princípio auxilia as políticas econômicas do país, buscando colocá-lo em situação de paridade em relação às demais constituições existentes no mundo que tratam da ordem econômica. Nesse sentido, segundo Bastos (2003 apud FINKELSTEIN, 2012), o Estado moderno coincide com o momento em que foi permitido haver em um território, um único poder com autoridade originária, denominado soberania. O princípio da propriedade privada, previsto no artigo 170, inciso II, da Constituição Federal, dispõe de uma condição fundamental ao exercício da livre iniciativa, pois restringe a ação do Estado em relação à propriedade alheia (BRASIL, 1988). Finkelstein (2012, p. 15) esclarece: “A essência da proteção constitucional da propriedade é impedir que, sem ter sua ação embasada na proteção do interesse público, o Estado aproprie-se dos bens econômicos pertencentes aos particulares ou sujeite-os a um processo de confisco”. O princípio da função social da propriedade, posto no artigo 170, inciso III, da Constituição Federal, está correlacionado ao princípio anterior, pois trata também de uma restrição à propriedade privada, uma vez que esta deve atingir a fins sociais, gerando desenvolvimento econômico, para que o Estado não intervenha (BRASIL, 1988). O princípio da livre concorrênciade que trata o artigo 170, inciso IV, da Constituição Federal, consiste na liberdade econômica que o Estado dá a fim de garantir a livre concorrência no mercado (BRASIL, 1988). “Os efeitos da livre concorrência podem ser verificados tanto no preço das mercadorias ou serviços, como na quantidade e qualidade dos mesmos”. Para o autor, alcança-se preços justos e otimização de recursos econômicos, justamente, por meio da livre concorrência (FINKELSTEIN, 2012, p. 15). O princípio da defesa do consumidor, disposto no artigo 170, inciso V, da Constituição Federal consagra a proteção do consumidor nas relações de consumo, cabendo ao Estado constituir encargos iguais ao fornecedor e ao consumidor, haja vista à 30 vulnerabilidade e à importância deste último ao desenvolvimento econômico (BRASIL, 1988). O princípio da defesa do meio ambiente, preceituado no artigo 170, inciso VI, da Constituição Federal, é fundado “[...] no fato de que apenas com a utilização responsável dos recursos naturais poderão ser resguardadas a integridade para o futuro e a continuidade do desenvolvimento nas próximas gerações" (FINKELSTEIN, 2012, p. 16). O princípio da redução das desigualdades regionais e sociais,conforme leciona Finkelstein (2012), disposto no artigo 170, inciso VII, da Constituição Federal, tem por objetivo incentivar um desenvolvimento mais equilibrado, gerando um bem-estar social em geral e não um fim, pois o desenvolvimento econômico, por meio do Estado, deve ser operado para que sejam reduzidas as desigualdades regionais e sociais. O princípio da busca do pleno emprego, previsto no artigo 170, inciso VIII, da Constituição Federal,busca garantir o pleno emprego, definindo que os agentes capazes de desenvolver a atividade econômica, devem se utilizar de políticas voltadas a gerar empregos, sendo, assim, uma forma de atingir a função social da propriedade (BRASIL, 1988). O princípio do tratamento favorecido para empresas de pequeno porte, disposto no artigo 170, inciso IX, da Constituição Federal, reflete a preocupação da Carta Magna em proteger as empresas de pequeno porte, adotando medidas mais simples de obrigações, para que elas possam se desenvolver e competir no mercado, em razão de sua enorme relevância, haja vista proporcionarem grande número de empregos em nosso país (BRASIL, 1988). O princípio da função social da empresa está ligado ao fato de que a empresa é fonte produtora de empregos, movimenta riquezas e gera tributos a serem pagos ao Estado. Em relação à empresa e à sua função social, Mamede (2008, p. 54) ensina que: No âmbito específico do princípio da função social da empresa, parte-se da percepção de que a atividade econômica organizada para a produção de riqueza, pela produção e circulação de bens e/ou pela prestação de serviços, embora tenha finalidade imediata de remunerar o capital nela investidos, beneficiando os seus sócios quotistas ou acionistas, beneficia igualmente ao restante da sociedade – ou seja, tem e cumpre sua função social [...]. Oprincípio da preservação da empresa tem por objetivo “[...] viabilizar a continuidade dos negócios da empresa enquanto unidade produtiva [...]” (PAIVA, 2005, p. 42). A esse respeito, Coelho (2010, p. 13) expõe que: No princípio da preservação da empresa, construído pelo moderno Direito Comercial, o valor básico prestigiado é o da conservaçãoda atividade (e não do 31 empresário, do estabelecimento ou de uma sociedade), em virtude da imensa gama de interesses que transcendem os dos donos do negócio e gravitam em torno da continuidade deste; assim os interesses de empregados quanto aos seus postos de trabalho, de consumidores em relação aos bens ou serviços de que necessitam, do Fisco voltado à arrecadação e outros. Destaca-se que a recuperação judicial, prevista no art. 47, da Lei n. 11.101/2005, tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica (BRASIL, 2005). Esse princípio visa a beneficiar todas as pessoas que dependem da capacidade econômica que uma empresa é capaz de gerar. Também é importante frisar que “O princípio da preservação da empresa [...] não é absoluto, ou seja, não se traduz por um impedimento de que as atividades empresariais sejam encerradas; pelo contrário, [...] corresponde ao trato comum das relações jurídicas [...]” (MAMEDE, 2008, p. 57). 3.2 APLICABILIDADE DA LEI N. 11.101/2005 E COMPETÊNCIA DO JUÍZO A Lei n. 11.101, de 09 de fevereiro de 2005 – Lei de Recuperação Judicial e Extrajudicial e de Falência (LRF) –, conforme seu art. 1º, é aplicada ao empresário e à sociedade empresária, define as regras da falência e da recuperação judicial, extinguindo a concordata (BRASIL, 2005). Entretanto, determinadas empresas estão excluídas da sua aplicação, conforme seu art. 2º, incisos I e II, dispõe: Art. 2º. Esta Lei não se aplica a: I – empresa pública e sociedade de economia mista; II – instituição financeira pública ou privada, cooperativa de crédito, consórcio, entidade de previdência complementar, sociedade operadora de plano de assistência à saúde, sociedade seguradora, sociedade de capitalização e outras entidades legalmente equiparadas às anteriores (BRASIL, 2005). Paiva (2005, p. 42) leciona que “[...] o espírito geral que norteou a elaboração da nova lei foi justamente a adequação do sistema falimentar ao atual estágio de desenvolvimento da economia brasileira em geral, e das relações comerciais em particular”. Para o autor, o maior objetivo da Lei Falimentar é “[...] proporcionar uma convivência saudável entre os agentes econômicos, assegurando o crédito, o que é essencial para a preservação das relações empresariais e o desenvolvimento da economia”(PAIVA, 2011, p. 56). 32 A LRF dispõe sobre o juízo competente para propor ações que versam sobre o direito falimentar, como segue: “Art. 3º. É competente para homologar o plano de recuperação extrajudicial, deferir a recuperação judicial ou decretar a falência o juízo do local do principal estabelecimento do devedor ou da filial de empresa que tenha sede fora do Brasil” (BRASIL, 2005). Conforme exposto, é o local onde se encontra o principal estabelecimento do requerido que é competente para a propositura de ação com pedido de falência ou recuperação judicial. Ocorre que a referida Lei é omissa quanto ao que é o principal estabelecimento do devedor, quando este exerce sua atividade em mais de um estabelecimento, trazendo discussões a respeito do assunto. Inicialmente, alguns doutrinadores, como Paiva (2005), acreditavam que a tese que deveria prosperar seria a que considerava como principal estabelecimento aquele determinado por estatuto ou contrato social. Todavia, conforme Requião (1998, apud PERIN JUNIOR, 2011, p. 124),o principal estabelecimento do devedor se define: [...] tendo em vista o local onde se fixa a chefia da empresa, onde efetivamente atua o empresário no governo ou no comando de seus negócios, de onde emanam as ordens e instruções, em que se procedem as operações comerciais e financeiras de maior vulto e em massa, onde se encontra a contabilidade geral. Dessa forma, tanto Perin Junior (2011) quanto Requião (1998 apud PERIN JUNIOR, 2011) entendem que o principal estabelecimento do devedor seria aquele considerado administrativamente o mais importante e não aquele determinado por estatutos e contrato social. Na mesma linha de raciocínio, segue o entendimento do Superior Tribunal de Justiça: Esta Corte, interpretando o conceito de "principal estabelecimento do devedor" referido no artigo 3º da Lei nº 11.101/2005, firmouo entendimento de que o Juízo competente paraprocessamentode pedido de recuperação judicial deve ser o do localem que se centralizam as atividades mais importantes da empresa (BRASIL, 2018). Portanto, entende-se que o conceito de principal estabelecimento da empresa, deve ser aquele onde se encontram as principais atividades, negócios, do devedor, e será nesse local o foro competente para o ajuizamento das ações que tratarem sobre direito falimentar, ressaltando que “[...] a incompetência do foro na falência é absoluta, podendo ser declarada pelo juiz de ofício” (FÜHRER, 1997 apud PERIN JUNIOR, 2011, p. 126). 33 Ademais, o juízo da falência é universal, pois atrai as ações que tratam dos interesses da massa falida. Conforme Perin Junior (2011, p. 128), tal força de atração denomina-se vis atractiva e é indivisível, com algumas exceções, conforme prevê o artigo 76 da LRF: Art. 76. O juízo da falência é indivisível e competente para conhecer todas as ações sobre bens, interesses e negócios do falido, ressalvadas as causas trabalhistas, fiscais e aquelas não reguladas nesta Lei em que o falido figurar como autor ou litisconsorte ativo” (BRASIL, 2005). Além disso, excetuam-se do juízo falimentar, as ações em que a União for parte (art. 109, inciso I, da Constituição Federal) e as ações que demandam quantia ilíquida (art. 6º, §1º, da LRF) (BRASIL, 1988; 2005). Por fim, Oliveira (2005) dispõe que o juízo da falência é indivisível em razão da necessidade de economia processual, visando a solucionar os conflitos que envolvem a empresa falida de maneira igualitária e eficaz. 3.3 VERIFICAÇÃO E HABILITAÇÃO DE CRÉDITOS A verificação dos créditos impera tanto na recuperação judicial quanto na falência. Na recuperação judicial, é um procedimento que ocorre na fase deliberativa, antes da decisão da concessão do pedido. Já na falência, como determina o art. 99 da LFR, a verificação e a habilitação realizam-se depois de proferida a sentença que a declarar (BRASIL, 2005). “O deferimento da recuperação judicial e a decretação da falência instauram verdadeiros concursos de credores. Contudo, somente com a conclusão da fase de verificação dos créditos, é que os credores têm seus créditos admitidos para recebimento” (PAIVA, 2005, p. 139-140). É o administrador judicial, com base nos livros contábeis e em outros documentos que necessários forem, a pessoa responsável pela verificação dos créditos. É ele quem toma conhecimento de quem são os credores, do valor do crédito e de sua natureza, publicando edital com tais informações, conforme segue o artigo 7º da Lei n. 11.101/2005: Art. 7º A verificação dos créditos será realizada pelo administrador judicial, com base nos livros contábeis e documentos comerciais e fiscais do devedor e nos documentos que lhe forem apresentados pelos credores, podendo contar com o auxílio de profissionais ou empresas especializadas (BRASIL, 2005). 34 Publicado o Edital (art. 7º, § 1º, LRF), os credores terão o prazo de quinze dias para se habilitarem (art. 9º, LRF) ou apresentarem divergências em relação aos créditos, em documento dirigido para o administrador judicial (BRASIL, 2005). De acordo com Paiva (2005), é necessário que o credor comprove a origem de seus créditos apresentando os documentos que os legitimam. Caso o credor não observe o prazo estipulado, existe a possibilidade de habilitação retardatária, quando pedirá a reserva de valor(art. 10, LRF), mas o processo de verificação dos créditos ocorrerá de forma distinta dos que cumprirem o prazo de quinze dias (BRASIL, 2005). Ademais, esses credores não terão direito a voto nas deliberações da Assembleia Geral de Credores, com exceção dos créditos que derivem da relação de trabalho. Passado o prazo de 15 (quinze) dias para apresentação de habilitação ou divergências pelos credores, abre-se o prazo de 45 (quarenta e cinco) dias para o administrador judicial apresentar a segunda lista de credores. Depois da publicação de referida lista, o credor, o Comitê de Credores, o devedor, ou seus sócios, e o Ministério Público poderão apresentar impugnação à relação de credores, observando o prazo de 10(dez) dias, como determina o art. 8º, LRF (BRASIL, 2005). Feita a impugnação do crédito, é dado o prazo de cinco dias ao credor para que apresente sua contestação, após, será aberto prazo igual ao devedor e ao Comitê de Credores para que se manifestem; findo o prazo, é a vez do administrador judicial se manifestar a respeito dos créditos, também, no prazo de cinco dias. Julgadas as impugnações, o administrador consolida o quadro geral de credores que é homologado pelo juiz que o assina junto com o administrador judicial (BRASIL, 2005). Segundo Perin Junior (2011), a LRF criou duas hipóteses de habilitação para os credores retardatários: uma para caso de não ter ocorrido a homologação do quadro geral de credores e a outra para caso de já ter ocorrido a sua homologação. No primeiro caso, a habilitação será atuada em separado, recebida como impugnação (artigos 13 a 15 da LRF); no segundo caso, a habilitação poderá ser promovida por meio de ação ordinária de inclusão ou retificação de crédito, por dependência (BRASIL, 2005). É importante ressaltar que os créditos reclamados no processo de habilitação precisam decorrer de dívida líquida. Sendo de dívida ilíquida, “[...] é assegurado o direito da apuração da sua liquidez em juízo, ressalvada a possibilidade do pedido de reserva de quantia suficiente para o seu pagamento, enquanto perdura a liquidação” (PERIN JUNIOR, 2011, p. 170). Os créditos são divididos em concursais, existentes até a data do pedido de falência ou 35 de recuperação judicial (art. 83, incisos I a VIII, da LRF) e extraconcursais (art. 84, incisos I a V, da LRF), aqueles com origem após a decretação da falência (BRASIL, 2005). Conforme leciona Vido (2015), os créditos concursais serão pagos após os créditos extraconcursais, ou seja, somente ao fim da decretação da falência. Os créditos concursais estão divididos em oito classes, que são: créditos trabalhistas, considerados os valores decorrentes de verbas trabalhistas até o limite de até 150 (cento e cinquenta) salários mínimos por credor mais os créditos decorrentes de acidente de trabalho; crédito com garantia real, considerado até o limite do valor do bem gravado, em penhor, hipoteca ou anticrese; créditos tributários,compreendem os tributos federais, estaduais e municipais, lançados em dívida ativa; créditos com privilégio especial, são aqueles que a lei confere o direito de retenção sobre a coisa dada em garantia, estão previstos no art. 964 do Código Civil, na Lei Complementar n. 123/2006 – que trata dos créditos em favor de microempresário individual (MEI), microempresa (ME) e empresa de pequeno porte (EPP) –, e em outras leis civis e comerciais; créditos com privilégio geral, são os previstos no Código Civil (art. 965), na LRF (art. 67 parágrafo único) e os definidos em outras leis civis e comerciais; créditos quirografários, incluindo-se os créditos cambiais, saldo de salário, saldo de crédito com garantia real, os créditos tributários não lançados em dívida ativa e os créditos trabalhistas cedidos a terceiros (art. 83, §4º, LRF); créditos subquirografários, ou, também, denominados como as multas, contratuais, pecuniárias e tributárias; e, créditos subordinados que são os previstos em leis ou contratos, como as debêntures e créditos de direito dos sócios e acionistas (BRASIL, 2002; 2006; 2005). Para concluir, de acordo com o artigo 19 da Lei n. 11.101/2005, pode o administrador judicial, o Comitê de Credores, qualquer credor ou o Ministério Público, até o encerramento da falência, ingressar com ação rescisória, pedindo exclusão, retificação ou alteração da classificação dos créditos, caso se evidencie falsidade, dolo, simulação, erro essencial ou de documentos (BRASIL, 2005). 3.4 ÓRGÃOS DE ADMINISTRAÇÃO DA FALÊNCIA E DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL Os órgãos de administração da falência e da recuperação judicial têm a função de auxiliar o juízo, a fim de que o principal objetivo da Lei, preservar a função social da empresa, seja atingido. Nesse sentido, os órgãos previstos pela legislação falimentar (artigos 36 21 a 41, LRF) são os seguintes: o Juiz, o Ministério Público, o Administrador Judicial, o Comitê de Credores e a Assembleia Geral de Credores (BRASIL, 2005). O juiz tem ampla atuação no processo de recuperação e falência de empresas. É ele o responsável por presidir a administração desses processos, julgando e processando os pedidos de recuperação e de falência. É dele, também, a função de supervisionar a atuação do administrador judicial e de determinar práticas de atos que sejam necessários ao bom desempenho do feito (BRASIL, 2005). “O representante do Ministério Público funciona no processo falimentar, basicamente, como fiscal da lei (custos legis) intervindo quando da prática de vários atos” (PERIN JUNIOR, 2011, p. 229). Desse modo, o parquet pode intervir no processo de recuperação e de falência, impugnando a relação de credores; substituindo o administrador judicial ou membros do Comitê de Credores; propondo ação revocatória; alienando o ativo e impugnando a sua venda; e, movendo ação penal, por crime falimentar, apontando a responsabilidade dos envolvidos. O administrador judicial é nomeado pelo juiz quando deferido o pedido de recuperação judicial ou decretada a falência, podendo ser: profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada, conforme art. 21, LRF (BRASIL, 2005). Sua função é bastante extensa e se diferencia nas etapas do processo, mas se resume, basicamente, em auxiliar o Juiz. Como leciona Vido (2015, p. 399), “[...] o comitê de credores (art. 27, LF) é um órgão facultativo [...]”, formado por quatro representantes: um representante da classe de trabalhadores, com dois suplentes; um da classe dos credores de direitos reais e de privilégios especiais, com dois suplentes; um dos credores quirografários e de privilégios gerais, com dois suplentes e, por fim, um representante a ser indicado pela classe de credores que representam as microempresas e asempresas de pequeno porte, com dois suplentes. Ainda, para Perin Junior (2011, p. 246), “[...] os credores [...] poderão ter uma participação muito mais ativa no processo por meio do comitê de credores, com prerrogativas de acompanhamento, manifestação e também de aprovação do plano de recuperação”. A Assembleia Geral de Credores (art. 35, LRF) é um órgão convocado pelo juiz (BRASIL, 2005). Conforme Perin Junior (2011, p. 252), este órgão “[...] tem características derivadas do direito societário, cuja função na recuperação judicial e na falência é promover a manifestação democrática (pelo voto) da vontade e comunhão dos credores”. Em razão do exposto, cada órgão, portanto, tem a sua peculiaridade e a função de auxiliar o juízo no processo de falência e recuperação judicial de empresas. 37 3.5 NOÇÕES GERAIS SOBRE O INSTITUTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL A recuperação judicial é um procedimento que visa a ajudar o empresário e a sociedade empresária que, passando por crise econômico-financeira, apresente condições de se recuperar, superar referida crise e se manter no mercado.