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Aula 11 Perspectiva interacionista pessoa situação sobre a personalidade

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FRIEDMAN, H. S.; SCHUSTACK, M. W. Teorias da personalidade: da teoria clássica à 
pesquisa moderna. São Paulo. Pearson. 2003. 
Capítulo 8 – Perspectivas interacionista pessoa-situação sobre a personalidade (pág. 336) 
Resumo do Prof. Rafael José Backes 
 
Pesquisas sobre esse estudo, com alunos "trapaceiros", realizado em 1927, que observam o 
comportamento com o objetivo de avaliar a personalidade, têm a vantagem de poder contar com 
dados tangíveis e significativos. Entretanto, existe o problema de as pessoas serem 
inconsistentes. Talvez devêssemos concordar com o personagem de William Shakespeare em 
The Winter‘s Tale [História de Inverno], que assim apregoou: "Embora eu não seja 
naturalmente honesto, às vezes o sou por acaso' (frase dita por Autolycus, Ato 4, Cena 4). 
Essas inconsistências levaram os pesquisadores, na década de 30, a refletir sobre a importância 
geral da personalidade, e essas reflexões, por sua vez, foram retomadas pelos pesquisadores na 
década de 60 (Mischel, 1968). Como podemos falar de personalidade se as pessoas mudam de 
comportamento de uma situação para outra? Ao atacar essas questões de frente, os psicólogos 
conseguiram alcançar uma compreensão bem mais criteriosa de como a personalidade interage 
com a situação social. 
A ideia de que a personalidade e a situação interagem para influir no comportamento já é antiga. 
As pessoas expressam sua personalidade de diferentes maneiras em diferentes situações. O que 
é novo a respeito das abordagens interacionistas pessoa-situação sobre a personalidade é que 
tentam explicitamente levar em conta a circunstância ou situação social. 
Harry Stack Sullivan: psiquiatria interpessoal 
A principal contribuição de Sullivan para a teoria da personalidade seja examinar seu conceito 
sobre "amizade íntima". Os pré-adolescentes até certo ponto estão se distanciando dos pais, mas 
estão buscando sinceramente a aceitação de seus colegas. Solidão, isolamento e rejeição são 
ameaças psicossociais significativas ao bem-estar. Observe que todas essas ameaças são 
inerentemente sociais: não faz sentido falar de rejeição, a menos que ela parta de algum grupo. 
Para Sullivan, é extremamente importante compreender os sentimentos de ansiedade que 
surgem quando alguém é vítima de rejeição em uma relação interpessoal. Sullivan, portanto, 
situa o desenvolvimento psicológico saudável ou doentio nas reações dos pares de uma pessoa. 
Para Sullivan, a personalidade está inextricavelmente lidada a situações sociais; a personalidade 
é o “padrão relativamente constante de situações interpessoais recorrentes” que caracteriza a 
vida de uma pessoa (Sullivan, 1953, p. III). Portanto, a abordagem de Sullivan é conhecida por 
teoria interpessoal da psiquiatria. Essa teoria focaliza as situações sociais que os seres humanos 
enfrentam e constitui a principal ruptura com a tradição psicanalítica e do ego. Observe que ela 
está no meio do caminho entre o enfoque interno dos psicanalistas e o enfoque externo dos 
behavioristas. 
A personalidade como padrão de interações interpessoais 
Mead é mais conhecido por seus fascinantes trabalhos sobre self social. Segundo o conceito de 
self social, a ideia de quem somos e do que pensamos sobre nós mesmos nasce de nossas 
interações com as pessoas ã nossa volta. 
Ao estudar diferentes sociedades, Sapir (1956), observou que o comportamento era em grande 
parte influenciado pela cultura. 
Sullivan integrou o trabalho de Mead e Sapir, concluindo que padrões de relacionamentos 
humanos duradouros — modelados pela família e pela sociedade — formam a essência da 
personalidade. Nesse sentido, o trabalho de Sullivan é semelhante ao de Erik Erikson. Sullivan, 
assim como Erikson, acreditava que, para compreendermos a personalidade, devemos confiar 
em padrões recorrentes de relações sociais cm um contexto social real. Um garoto de 10 anos 
que mora na zona rural e é impossibilitado de desenvolver padrões de interação de mutualidade 
e reciprocidade com um companheiro pode estar seriamente ameaçado em decorrência de sua 
solidão, e possivelmente de sua desesperança. 
A personalidade muda constantemente em função de nossas relações com outras pessoas. 
Para um psicólogo da personalidade como Sullivan, que acredita na ideia de self social, nós de 
fato nos tornamos pessoas “diferentes” em situações sociais diferentes. Ou seja, em cada 
situação social, imaginamos o que outras pessoas pensam a nosso respeito e reagimos de acordo. 
Às vezes, as pessoas mudam para uma nova cidade para "começar de novo" — elas tentam 
apresentar nova imagem a novos amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Elas podem se dar 
bem se tiverem cuidado em não recorrer a velhos padrões. Ou, então, um estudante universitário 
pode comportar-se de maneira extremamente diferente quando, ao passar as férias em casa, tem 
a oportunidade de interagir com velhos amigos do colégio; as expectativas dos amigos do 
colégio são diferentes das dos amigos da faculdade; portanto, ele reage de acordo. A situação 
exerce influência sobre a personalidade. Essa ideia é extensível a todas as situações sociais. A 
personalidade resulta da combinação entre as inclinações individuais e a situação social. Na 
realidade, Sullivan denominou ilusão de individualidade a ideia de que uma pessoa tem uma 
personalidade única e imutável. De certo modo, podemos ter tantas personalidades quanto as 
situações interpessoais nas quais vivenciamos. 
Para Sullivan, o estudo da personalidade deveria focalizar a situação interpessoal, não a pessoa. 
Por meio desse enfoque sobre a situação social, Sullivan e outras pessoas bem versadas em 
psicologia social ajudaram a estabelecer a base para as modernas abordagens interacionistas. 
Contudo, talvez tenha sido Henry A. Murray o precursor mais influente desse movimento 
moderno. 
Motivação e metas: Henry Murray 
Henry Murray definiu a personalidade como o “ramo da psicologia que se interessa 
principalmente pelo estudo da vida humana e dos fatores que influenciam seu curso (aquele) 
que investiga as diferenças individuais” (1938. p. 4). Visto que para Murray a personalidade 
compreendia o estudo da vida humana, ele necessariamente observou e analisou as interações 
dos indivíduos e as situações com as quais eles se defrontavam ao longo da vida. Murray usou 
as motivações inconscientes propostas por Freud, Jung e Adler, as pressões ambientais 
sugeridas por Lewin e o intricado conceito de Allport sobre traço e os sintetizou em uma 
abrangente abordagem sobre a personalidade. Por esse motivo, Murray pode ser considerado o 
principal fundador da abordagem interacionista da personalidade. 
O sistema personológico 
Pelo fato de ter enfatizado o estudo das características significativas da vida de cada um de nós. 
Murray preferiu o termo “personologia” ao termo “personalidade”; mesmo hoje, os psicólogos 
que estão se aprofundando nos princípios preconizados por Murray na maioria das vezes se 
autodenominam "personologistas". 
Murray enfatizou a natureza dinâmica c integrada do indivíduo como um organismo complexo 
que reage a ambiente específico. Portanto, por um lado, Murray ressaltou a importância das 
necessidades e motivações, um enfoque que se provou extremamente influente. Ver tabela 
abaixo. Por outro lado, ele também enfatizou a pressão do ambiente — outras pessoas ou 
acontecimentos no ambiente. 
 
Tema 
Murray, que chamava as combinações de características entre necessidades e pressões de tema, 
usou o teste de apercepção temática (TAT) de sua autoria para avaliá-las. Lembre-se de que o 
TAT é um teste projetivo em que uma série de figuras ambíguas é apresentada (por exemplo, 
duas mulheres que poderiam ser mãe e filha) a uma pessoa, solicitando-lhe, em seguida, que 
componha uma história. É um teste de "apercepção" porque a pessoa relata não o que ela vê 
(apercepção), mas uma interpretação narrativa ou imaginária. As necessidades particularesde 
uma pessoa são identificadas (projetadas) no estímulo ambíguo, exatamente como os amigos 
da filha de Murray projetaram seus próprios medos sobre imagens de homens 'ameaçadores'. 
Portanto, daí são derivados temas sobre identidade. 
A abordagem da narrativa: influência de Murray 
Um exemplo atual da importância que Murray deu à reflexão sobre a personalidade é a obra do 
psicólogo Dan P. McAdams, que se dedica ao estudo de todo o contexto de vida de uma 'pessoa 
considerada como um todo'. Ele faz isso (de acordo com o que Murray recomendou) estudando 
as motivações das pessoas por meio de sua biografia, isto é. sua história de vida. Por trás disso 
encontra-se a ideia de que a história sobre a vida de uma pessoa torna-se a sua identidade. Esse 
método de estudo da personalidade é chamado de abordagem da narrativa. Por exemplo, 
McAdams (1991) estuda o motivo da intimidade — a necessidade de participar da vida de 
outras pessoas profundamente. 
Em resumo, da década de 30 à de 50, inúmeros e distintos teoristas estiveram às voltas com 
modos de transpor os conceitos de personalidade voltados para o interior e para o indivíduo, 
lutando para integrar a influência da situação e a interação entre pessoa e situação. Harry Stack 
Sullivan voltou-se totalmente para as situações sociais recorrentes; para ele, a personalidade 
não existe à parte das relações sociais. Para Henry Murray, o indivíduo transporta necessidades 
e motivações para situações sociais recorrentes. Juntas, as ideias desses teóricos criteriosos e as 
de seus colegas fundamentaram as modernas abordagens interacionistas sobre o que significa 
ser uma pessoa. 
Princípio das abordagens interacionistas modernas 
Em 1968, reproduzindo os avanços da década de 30, o psicólogo Walter Mischel incitou ainda 
mais o interesse pelas abordagens interacionistas afirmando que o comportamento de uma 
pessoa varia tanto de uma situação para outra que simplesmente não faz sentido pensar cm 
traços gerais da personalidade. 
Embora naquela altura a ideia de que as situações influenciam o comportamento fosse bem 
aceita, Mischel (1968) levou em conta a magnitude ou a extensão das relações entre o 
comportamento de uma pessoa de uma situação para outra, incluindo sua variabilidade. Ele 
afirmou que, independentemente do traço ou do assunto, não seria possível predizer 
convincentemente o que um indivíduo faria com base em uma avaliação anterior de seus traços. 
O primeiro trabalho de Mischel abordou principalmente os fatores cognitivos e situacionais 
(isto é, a aprendizagem social), que influenciam comportamentos como o adiamento ou negação 
da satisfação nas crianças. O adiamento da gratificação é um aspecto específico do autocontrole, 
que se apresenta quando um indivíduo opta por se abster de um reforçador imediato, para 
esperar por um reforçador posterior considerado melhor. Mischel examinou as variáveis que 
influenciam a capacidade do indivíduo de adiar a sua gratificação: modelação (isto é, ver outra 
pessoa adiar), a visibilidade do objeto desejado (não vê-lo ajuda a afastá-lo da mente) e 
estratégias cognitivas como pensar cm outras coisas (distração). 
Mais recentemente, Mischel procedeu a uma investigação sobre diferenças individuais nos 
significados que as pessoas atribuem a estímulos e reforçadores — ele denomina esses 
significados particulares de estratégias ou estilos. Mischel propõe que essas 'características 
cognitivas da personalidade' são aprendidas quando experimentamos situações e as 
recompensas que elas proporcionam. 
Mischel examinou particularmente quatro variáveis da personalidade: competências — as 
capacidades e o conhecimento de uma pessoa; estratégias de codificação — esquemas e 
mecanismos usados por uma pessoa para processar e codificar informações; expectativas, 
dentre as quais se incluem as expectativas de eficácia em relação ao nosso próprio 
comportamento e as expectativas de auto eficácia; e planos. Os estudos de Mischel demonstram 
que a personalidade não é apenas um estado de ser interno que impele o indivíduo a agir de 
determinada forma não obstante a situação e que o indivíduo tampouco está à mercê de 
acontecimentos ambientais. Na realidade, os atos de um indivíduo, como o adiamento da 
gratificação, são consequência tanto de restrições do ambiente (como a visibilidade e a 
experiência com o objeto desejado) quanto de características internas e cognitivas do indivíduo 
(por exemplo, estratégias de auto regulação). Se levarmos em conta tudo isso, esse trabalho 
apoia o princípio básico de que a pessoa, seu comportamento e o ambiente estão constantemente 
interagindo e influenciando um ao outro. Nós temos personalidade, mas ela está em constante 
mudança. 
Em resumo, na maioria das pesquisas que usam essa abordagem sociocognitiva da 
personalidade, Mischel e seus colegas (p. ex., Mischel fr Shoda. 1995) revelam que parte da 
'consistência' da personalidade parece atribuível à similaridade das características percebidas 
das situações, isto é, as pessoas identificam relações entre situação-comportamento que se 
tornam marcas comportamentais de sua personalidade (Shoda. Mischel & Wright, 1994). Essas 
marcas são idiográficas (individuais) (Lord, 1982). De certo modo, pode-se dizer que a 
personalidade é, na verdade, a interação ou interseção das características cognitivas da “pessoa” 
com o ambiente (Krahe, 1990). Analogamente, a personalidade às vezes é considerada uma 
“transação” que ocorre quando as estratégias ou estilos pessoais e exclusivos de uma pessoa 
interagem com os estilos particulares de outras pessoas (Thornc. 1987). Esses conceitos sobre 
a natureza social da personalidade que Harry Stack Sullivan defendeu tão talentosamente são 
mais modernos. Hoje, eles são comuns nas abordagens modernas da personalidade (Ozer, 
1986). 
Teoria da personalidade implícita 
Atribuições 
As teorias da atribuição no campo da psicologia social investigaram as maneiras pelas quais 
tiramos conclusões sobre o comportamento de outras pessoas. Na maioria das vezes, essas 
teorias comprovam que somos tendenciosos e erramos quando julgamos outras pessoas (Jones 
& Nisbett, 1987). 
A essa análise está associada a ideia de que as pessoas tendem a superestimar o quanto seus 
comportamentos são consistentes. Quando nos consideramos honestos, tendemos a ignorar, 
esquecer ou racionalizar qualquer comportamento que possa ser visto como desonesto. Na 
maioria das vezes queremos que nossa autoimagem seja consistente. Portanto, podemos 
convencer outras pessoas de que temos esse traço estável. 
O poder das situações 
Um dos motivos por que a personalidade não é considerada um bom previsor do comportamento 
é o de que a influência da situação às vezes é tão grande que sobrepuja nossas aptidões ou 
inclinações. Usando um exemplo categórico, se houvesse um incêndio em um teatro, a multidão 
entrasse em pânico e corresse impetuosamente cm direção às saídas, não seria surpreendente se 
uma pessoa calma e racional, presa em meio à multidão, ficasse nervosa e agisse 
irracionalmente. 
Relevância do traço 
Estudos modernos sobre a personalidade de vez em quando tentam defender de modo incisivo 
a importância do traço. Tal como Allport afirmou, parece provável que nem todos os traços 
sejam igualmente relevantes para todas as pessoas. Além disso, determinadas situações 
possibilitam a manifestação de determinados traços (Britt & Shepperd, 1999; Tett & Guttcnnan, 
2000). Por exemplo, se você fosse uma pessoa bastante propensa a aventuras e esse traço fosse 
central em sua personalidade, isso poderia ser relevante cm situações em que envolvessem 
viagens para lugares exóticos ou mudança para um novo emprego, mas poderia não ser tão 
relevante em situações como deixar de fazer algo para si mesmo a fim de ajudar um amigo ou 
trocar um pneu. Para outras pessoas, a exposição ao perigo não seria um traço muito útil para 
predizer seucomportamento, fosse qual fosse a situação. 
A "personalidade" situacional 
Como podemos classificar sistematicamente as situações? Uma maneira é reunir pessoas em 
uma situação cuidadosamente controlada e observar quem se comporta do modo esperado. Por 
exemplo, poderíamos criar uma situação que provoca agressão ou outra que recompensa o 
adiamento da gratificação c. em seguida, anotar quem se comporta “apropriadamente' (Bem & 
Funder, 1978|. Depois que identificássemos as características das pessoas que agridem em uma 
situação considerada 'agressiva', poderíamos observar se essas mesmas pessoas também se 
comportam de modo agressivo em outra situação considerada igualmente 'agressiva'. Se a 
segunda situação de fato eliciasse um comportamento agressivo nos mesmos indivíduos, 
poderíamos deduzir que ela é semelhante à primeira situação agressiva. Porém, se as pessoas 
que agrediram na segunda situação apresentassem características diferentes, poderíamos 
concluir que ambas as situações são dessemelhantes. 
Embora essa ideia seja engenhosa, imagine como seria difícil avaliar tinias as situações com as 
quais nos confrontamos. Isso poderia durar uma eternidade. Um método mais simples seria 
solicitar aos psicólogos que apreciassem ou avaliassem várias situações, classificassem-nas e. 
cm seguida, observassem se elas eliciam comportamentos semelhantes nas pessoas cuja 
pontuação é similar, nos testes de personalidade relevantes. Esse enfoque parece promissor, 
mas ainda não foi suficientemente estudado. 
Alguns psicólogos tentam focalizar diretamente o modo como os indivíduos avaliam, 
interpretam c reagem às diferentes situações com as quais eles se defrontam (Magnusson & 
Endler. 1977; Magnusson. 1990; Torestad. Magnusson & Olah, 1990). Por exemplo, 
poderíamos medir as pessoas pelo auto relato de ansiedade ou pela avaliação fisiológica e, 
depois, colocá-las em diferentes situações. Nesse sentido, poderíamos tentar separar o que 
contribui para o comportamento de ansiedade estável (personalidade), a situação (a que se 
acredita que provoca a ansiedade) e a interação (somente algumas pessoas ficam ansiosas, em 
situações que provocam ansiedade). 
Um outro problema é o fato de duas situações nunca serem exatamente semelhantes: o mundo 
muda com o passar do tempo (Elder & Caspi, 1988). Imagine, por exemplo, uma família 
americana constituída de pai, mãe e dois filhos que mora em bairro residencial afastado, em 
1955 e em 1999. Com certeza, vários fatores importantes tendem a ser distintos — dentre eles, 
a formação educacional e o emprego da mãe, as opções de diversão, a proximidade com os 
parentes e as relações da família com outros grupos étnicos. Isso nos impede de fazer 
generalizações sobre personalidade e situações? Ambas as famílias indubitavelmente 
compartilham de muitos elementos em comum — rivalidade entre os filhos, amor e apego aos 
pais, aliados à luta por independência, a necessidade de cooperação para o sustento, limpeza, 
meio de transporte c assim por diante. As abordagens bem-sucedidas da personalidade podem 
depreender padrões identificáveis e regularidades e, ao mesmo tempo, levar em conta as 
mudanças que ocorrem com o passar do tempo. Esse é o motivo por que as histórias antigas 
sobre pessoas da mitologia grega ou da Bíblia ainda hoje podem ser por nós compreendidas e 
apreciadas. 
Situações pessoais versus sociais 
Como vimos, uma das primeiras coisas que uma criança aprende é diferenciar-se de outras 
pessoas. Ou seja, uma das incumbências do bebê é aprender que a boca é sua, mas o peito 
pertence a outra pessoa (a mãe). Por volta dos 2 ou 3 anos, a criança aprende também o que é 
inaceitável ou indesejável em relação a comportamentos cm público — a princípio, isso vai 
desde a masturbação até a enfiar o dedo no nariz — e a aprender a ser delicada em suas 
interações sociais — dizer por favor e obrigado, aguardar a sua vez, ajudar os outros. Algumas 
crianças também aprendem a ser agradáveis ou manipuladoras ou, ainda, carismáticas. 
Em outras palavras, embora desenvolvamos um self social, esse self é mais proeminente em 
determinadas pessoas ou cm determinadas situações. Uma das primeiras teorias sobre essa 
diferenciação psicossocial abrangia o que é chamado de "dependência de campo versus 
independência de campo” (Wilkin ír Goodcnough. 1977). Como foi observado no capítulo 
sobre os aspectos cognitivos da personalidade, as pessoas dependentes de campo levam mais 
tempo para distinguir uma figura de fundo numa tarefa perceptual. Por exemplo, uma pessoa 
poderia julgar corretamente a posição de uma vareta, desconsiderando a posição da moldura 
em que a vareta aparece? As pessoas independentes de campo podem avaliar um objeto, 
desconsiderando as influências do segunde» plano que atraem sua atenção. Portanto, no 
domínio social, elas tendem a agir de modo mais independente. As pessoas dependentes de 
campo presumivelmente dependem mais de outras pessoas e, por esse motivo, é provável que 
reajam de acordo com as exigências da situação social. 
Como veremos no capítulo sobre diferenças culturais e étnicas, as culturas, tomadas em sua 
totalidade, também se diferenciam no que se refere ao grau de individualismo ou coletivismo 
(Triandis, 1989). As culturas individualistas (como a americana) privilegiam direitos 
individuais, necessidades e responsabilidades. O indivíduo é a principal figura sobre a estrutura 
social. As culturas coletivistas enfatizam as necessidades e o sucesso do grupo; o foco recai 
sobre o grupo, e a pessoa que mais se sobressai é reprimida. 
Essas mesmas questões podem ser abordadas com a perspectiva neo-analítica de representação 
do self. Algumas pessoas são particularmente motivadas e capacitadas a interpretar as 
necessidades ou pretensões das outras pessoas. Elas observam o modo como representam a si 
mesmas, visando a dar boa impressão e reagir às expectativas alheias. Para o psicólogo Mark 
Snydcr, esses indivíduos têm elevada auto monitoração (1974, 1987). Aqueles que têm baixa 
auto monitoração, por sua vez, são menos sensíveis e preocupam- se menos com as expectativas 
alheias. A personalidade desses indivíduos, portanto, pode mudar menos dependendo da 
situação. Adotando um ponto de vista ligeiramente diferente, o psicólogo da personalidade 
Jonathan Chcek (p. ex.. Cheek b Melchior, 1990) distingue as pessoas cuja identidade social 
não é muito desenvolvida (e, desse modo, agem independentemente objetivando prosperar) das 
pessoas cuja identidade pessoal não é muito desenvolvida (e, por esse motivo, são sociáveis e 
envolvem-se com outras pessoas). 
Problemas como timidez, constrangimento, ansiedade de realização e assim por diante também 
podem ser relevantes nessa diferenciação (Scheier b Carver, 1988; Snyder, 1987). Algumas 
pessoas estão muito ligadas aos papéis sociais que exigem postura específica — exigências — 
em dada situação social, como se fosse um camaleão. Por exemplo, aparentemente, alguns 
atores parecem não ter quase nenhuma identidade pessoal — eles vestem o personagem que 
estão representando. Entretanto, outras pessoas são tão incapazes de desempenhar papéis 
sociais que acham as situações sociais extremamente desagradáveis. Poderíamos chamá-las de 
nerds.1 Isso poderia até dar origem a uma personalidade consistente; por exemplo, essas 
pessoas agem conscientemente em particular, e continuam a agir desse modo mesmo quando 
estão cm uma festa animada. Porém, se as pressões sociais passarem a ser muito arbitrárias, 
elas podem começar a agir atipicamente; por exemplo, uma pessoa muito tímida e conscienciosa 
iria se sentir tão constrangida em uma festa regada a bebidas que poderia agir de maneira 
totalmente incomum e ficar bêbada. 
Todos nós provavelmente já tivemos um colega de escola que parecia não compreender ser feio 
enfiar o dedo no nariz e, pelo fato de não compreender. Parecia não se importar com o que os 
outrospensavam dele. A personalidade das pessoas que não são muito influenciadas j>elas 
situações sociais parece mais consistente. Talvez essas pessoas percebam as coisas de maneira 
mais livre; talvez não tenham tanta aptidão para interpretar estímulos sociais nem motivação 
para conformar-se com as exigências sociais e até mesmo prefiram ser diferentes e desinibidas. 
A personalidade de pessoas desse tipo é mais “social” do que “pessoal”. Um estudo abrangente 
e criterioso sobre a personalidade deveria levar essas questões em consideração. Essa visão 
abrangente é um dos pontos positivos da perspectiva interacionista. 
Tempo: a importância do estudo longitudinal 
Para realmente estudarmos as pessoas à medida que elas reagem, desenvolvem-se e passam por 
mudanças no mundo real, precisamos utilizar-nos dos estudos longitudinais. Para o psicólogo 
Jack Block, o estudo longitudinal é 'o estudo rigoroso, abrangente, sistemático, objetivo e 
comprovado sobre indivíduos ao longo de períodos significativos de sua existência’ (1995, p. 
7). Grosso modo, isso significa observar as pessoas no decorrer do tempo. 
A abordagem do decurso da vida 
Essa abordagem é às vezes chamada de estudo da personalidade ao longo da vida ou da 
trajetória de vida. O psicólogo Avshalom Caspi, da Universidade de Wisconsin, prefere o termo 
sociológico, isto é, abordagem do decurso da vida. Esses termos enfatizam que os padrões de 
comportamento mudam dependendo da idade, da cultura, dos grupos sociais, dos 
acontecimentos e assim por diante, como também em decorrência de impulsos internos, 
motivações, capacidades e traços. Na realidade, esses aspectos internos desdobram-se ou 
desenvolvem-se de determinadas maneiras em determinados contextos. Portanto, eles são 
extremamente interacionistas. Uma menina cujo ego é fraco, que não tem muito autocontrole, 
sente muita atração por relacionamentos íntimos e sexualidade assim como gosta de se 
expressar, poderia desenvolver-se e comportar-se de maneira bem diferente se vivesse em uma 
família muçulmana na Arábia Saudita e fosse estudar na escola feminina local do que se vivesse 
em uma família agnóstica na Califórnia e fosse para a escola Beverly Mills High. 
Caspi e seus colegas, dentre outros, estendem ainda mais a ideia de decurso da vida, defendendo 
que os indivíduos de certo modo criam suas próprias interações com a situação mudando o 
modo como as interpretam, eliciando reações nas outras pessoas e buscando determinadas 
situações (p. ex., Caspi tr Bem, 1990).

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