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LIVRO DE OBSTETRÍCIA doi 10.59290/978-65-6029-120-1.2 FISIOLOGIA DA GESTAÇÃO CUTRIM, Letícia Moucherek do Nascimento¹; ALBINO, Ana Luiza da Veiga¹; VERVALLEN, Victória Martins Vasquez¹; LIMA, Camila Mesquita¹; COSTA, Maria do Perpétuo Socorro Raposo Martins¹; FERREIRA, Ingridy Maria Oliveira²; CAMPELO, Gabriela Queiroz². Orientadora: Dra. Wanara Pithon da Silva Pereira. Filiações: 1- UNICEUMA Universidade Ceuma. 2- UniCEUB Centro Universitário de Brasília. Liga: Liga Acadêmica de Ginecologia e Obstetrícia da UNICEUMA. Palavras-chave: Ginecologia; Fisiologia; Gravidez. MODIFICAÇÕES CUTÂNEAS uma desestabilização do equilíbrio materno. Dessa forma, para corrigir o eixo corporal a Durante a gestação, ocorrem grandes trans- gestante adota uma postura involuntária de lor- formações no corpo, sendo a pele, em muitos dose lombar. Essa postura fica mais nítida casos, uma das áreas afetadas, requerendo cui- quando a gestante fica de pé, além disso, para dados devidos nesse período. Aproximadamen- garantir o equilíbrio a gestante amplia sua base te metade das gestantes apresentam marcas de de sustentação, de forma que os pés se afastam estrias no abdômen e seios durante o último e as espáduas se projetam para trás. Essa ampli- trimestre da gestação. Observa-se também uma ação da base de sustentação provoca uma modi- hiperpigmentação da linha branca inferior do ficação na marcha, que passa a ser denominada abdômen, região genital externa, aréolas mamá- marcha anserina, sendo caracterizada por passos rias e rosto. O surgimento de telangiectasias é curtos e lentos, andar oscilante, base de susten- comum, refletindo os elevados níveis de estro- tação alargada e aumento do ângulo dos pés gênio. A hipertricose, que é o aumento de pelos com a linha média (ZUGAIB, 2016). faciais e em outras regiões durante a gravidez, No período gestacional as articulações apre- juntamente com o crescimento mais intenso dos sentam maior mobilidade, principalmente as as- cabelos, unhas quebradiças, eritema palmar e o croilíacas e sínfise pubiana. Esse relaxamento aumento das glândulas sudoríparas e sebáceas, são fenômenos fisiológicos comuns nesse pe- ocorre devido à liberação de relaxina pela pla- ríodo (REZENDE FILHO & MONTENEGRO, centa, ocorrendo então uma frouxidão na arti- 2014). culação da sínfise púbica, favorecendo a sua abertura em até 12mm, que retorna ao normal MODIFICAÇÕES após o parto (MANN et al., 2010). Outros meca- OSTEOARTICULARES nismos importantes que ocorrem durante a ges- A gravidez cursa com o aumento do peso tação são as adaptações devido à ação hormo- corporal da mulher, como consequência ocorre nal, onde o estrogênio promove o aumento da vascularização do tecido conectivo dos liga- 6|PáginaLIVRO DE OBSTETRÍCIA mentos articulares e em contrapartida a proges- o volume corrente (VC) em torno de 40%, o terona e a relaxina atuam na diminuição do tô- volume minuto respiratório (VMR) em até nus muscular responsável pela estabilização 50% e a frequência respiratória em 15%, ele- dessas articulações (REZENDE FILHO & vando o pH plasmático. Além disso, o apor- MONTENEGRO, 2014). te de oxigênio é ampliado em cerca de 20% Além disso, na gestação, alguns grupos visando suprir o aumento metabólico neces- musculares que normalmente não tem uma fun- sário ao feto, à placenta e a vários órgãos ma- ção bem estabelecida passam a atuar, estirando ternos. Contudo, a capacidade pulmonar total e contraindo, promovendo espasmos dos mús- se apresenta ligeiramente diminuída, contra- culos intervertebrais e diminuindo o espaço en- pondo a capacidade vital que não se altera tre as vértebras, dessa forma contribuindo para (REZENDE FILHO & MONTENEGRO, o surgimento de dores cervicais e lombares. 2014; REIS, 2020). Nesse contexto, ao final do período gestacional MODIFICAÇÕES HEMODINÂMICAS as dores se acentuam. Eventualmente podem ocorrer pequenas trações nos nervos ulnar e me- Durante o processo da gestação o corpo diano devido a um deslocamento posterior da da mulher sofre inúmeras adaptações fisioló- cintura escapular, essa tração então pode gerar gicas para manter um ambiente materno-fetal desconforto e a sensação de dormência nos adequado e com vitalidade. Dentre essas mu- membros superiores (REZENDE FILHO & danças estão as modificações hemodinâmicas MONTENEGRO, 2014). que tem como papel principal o aumento da MODIFICAÇÕES RESPIRATÓRIAS volemia dessa gestante em cerca de 30 a 50% do valor pré-gestacional. O aumento da vole- Na gestação, a função respiratória sofre mia tem como objetivo alavancar o supri- algumas alterações fisiológicas derivadas da mento sanguíneo nos órgãos maternos, espe- ação hormonal, principalmente a progestero- cialmente na região uterina (REZENDE FI- na, e do aumento do volume uterino. Nas LHO & MONTENEGRO, 2014; REIS, vias aéreas superiores, constantemente ocor- 2020). re um ingurgitamento capilar venoso que Com isso, temos o aumento da frequên- causa edema de mucosas, modificações na cia cardíaca desde as primeiras semanas, au- voz e pode dificultar a respiração, principal- mentando cerca de 10 a 15 batimentos por mente durante o esforço. O aumento do vo- minuto e atingindo seu pico máximo entre a lume uterino afeta a expansão pulmonar, im- e semana. O coração materno sofre pactando diretamente na elevação do dia- uma discreta cardiomegalia fisiológica, devi- fragma e da caixa torácica, na qual, no úl- do à hipertrofia do músculo cardíaco, ao au- timo trimestre, pode aumentar em até 5 a 7 mento do volume das câmaras e a elevação cm na circunferência torácica (REIS, 2020; do diafragma, que desloca o coração para ci- REZENDE FILHO & MONTENEGRO, ma. O débito cardíaco tem uma considerável 2014). elevação a partir da a semana, evolu- A ação hormonal da progesterona atua no indo de 30 a 40% e chegando ao seu pico sistema nervoso central, reduzindo os níveis máximo entre a e 24ª semana de gestação, de Para haver um ambiente materno-fe- quando se estabiliza até o parto. A elevação tal favorável, o sistema respiratório aumenta do débito cardíaco deve-se a um aumento 7|PáginaLIVRO DE OBSTETRÍCIA conjunto da frequência cardíaca e do volume MODIFICAÇÕES METABÓLICAS sistólico (REZENDE FILHO & MONTE- Entre as alterações metabólicas está o au- NEGRO, 2014; REIS, 2020). mento do consumo de glicose e aminoácidos A pressão venosa tende a se elevar no devido sua transferência para o feto. Na gravi- segundo trimestre da gravidez pela ação do dez há um aumento da resistência à insulina, volume uterino sobre as veias pélvicas e ca- além de níveis elevados de hormônio do cresci- va inferior. Ocorre também a diminuição da mento placentário humano (hPGH), leptina, resistência vascular periférica total em até adiponectina, TNF-α, IL-6 e hormônio lactogê- 30% entre a e semanas. A pressão ar- nio placentário humano (hPL). Durante a gesta- terial em pacientes sem histórico de hiper- ção avançada há preservação da glicose graças tensão prévia se altera de forma fisiológica e a utilização dos lipídeos e a excessiva libera- branda, com a pressão sistólica usualmente ção de ácidos graxos. Faz parte das alterações diminuída até a metade da gravidez e depois metabólicas, o acúmulo de lipídeos nos teci- eleva-se novamente atingindo níveis pré-ges- dos, hiperlipidemia gestacional e diminuição tacionais (REZENDE FILHO & MONTE- considerável da concentração de proteínas to- NEGRO, 2014; REIS, 2020). tais. Outra mudança visível na gestante é o ede- MODIFICAÇÕES HEMATOLÓGICAS ma devido a retenção de sódio, novo nível de O volume de sangue aumenta de forma pro- osmolaridade, diminuição da sede e redução da porcional ao débito cardíaco e o volume plas- pressão oncótica. Além disso, há grande absor- mático excede o valor da massa eritrocítica. ção de Cálcio no intestino da mãe para boa Isso explica o fato de a hemoglobina estar fisio- composição do esqueleto fetal e após nasci- logicamente diminuída durante a gestação, cau- mento pode ser adquirido através do leite ma- sando uma anemia dilucional ou "anemia fisio- terno (REZENDE FILHO & MONTENEGRO, lógica da gravidez", em que a viscosidade 2014). sanguínea diminui. Dessa forma, faz-se neces- MODIFICAÇÕES sário, portanto, a reposição de ferro, principal- GASTROINTESTINAIS mente na metade da gestação para evitar anemia grave. Evita-se também a anemia mega- No primeiro trimestre da gravidez é comum loblástica com reposição de Ácido Fólico, além que ocorram náuseas e vômitos. A base fisio- de má formação do tubo neural. Ademais, há lógica das náuseas, geralmente matinais, ocorre leucocitose progressiva, onde o leucograma va- devido aos elevados níveis de gonadotrofina ria entre 9.000 a 20.000/mcL, do período ges- coriônica (hCG) e estrogênios. Durante o se- tacional até os primeiros dias do puerpério. A gundo trimestre, há presença de gengivite plaquetopenia também está presente, principal- gravídica, caracterizada por sangramento e ede- mente no 3° trimestre, podendo causar trombo- ma gengival (RAMOS et al., 2023). Devido à citopenia gestacional com níveis de 80 a 150 influência da progesterona e ao aumento do mil/mm3 de plaquetas. O risco de trombose na útero, que desloca o piloro para cima e para gravidez é explicado pela hipercoagulabilidade trás, o processo de esvaziamento gástrico torna- fisiológica devido à alta concentração de fibri- se mais lento. Com a diminuição da pressão no nogênio (REZENDE FILHO & MONTENE- esofágico inferior e o aumento da GRO, 2014). pressão intragástrica a probabilidade de regur- 8|PáginaLIVRO DE OBSTETRÍCIA gitação aumenta consideravelmente (REIS, Outro hormônio que tem sua secreção au- 2020). A falta de tonicidade do cólon é res- mentada é a relaxina, que é produzida pelo cor- ponsável pela ocorrência frequente de consti- po lúteo e pelos tecidos placentários (ZUGAIB, pação. A vesícula biliar torna-se hipotônica, 2016; GUYTON & HALL, 2017). dilatada, com bile espessa e propensa à for- mação de cálculos (REZENDE FILHO & MODIFICAÇÕES URINÁRIAS MONTENEGRO, 2014). Durante a gestação ocorrem alterações ana- MODIFICAÇÕES ENDÓCRINAS tômicas e funcionais do organismo, com desta- que para o sistema urinário. Nesse período A hipófise anterior materna aumenta em ocorre um aumento do volume renal devido ao 50% durante a gravidez e aumenta sua pro- aumento do fluxo plasmático renal. Além disso, dução de corticotropina, tireotropina e prolacti- há um aumento da vascularização associado a na, em consequência a isso, a secreção do hor- uma diminuição da resistência vascular, resul- mônio folículo estimulante e do luteinizante é tando em uma elevação de 50% na taxa de fil- suprimida devido aos efeitos inibitórios do es- tração glomerular após a semana de gestação trogênio e da progesterona. A secreção adreno- (REZENDE FILHO & MONTENEGRO, cortical de glicocorticoides fica elevada e a ges- 2014). Dessa forma, como consequência dessas tante tem um aumento na secreção de aldoste- alterações ocorre uma redução na concentração rona, atingindo o pico no final da gravidez. Isso de ureia e creatinina. Outro achado comum du- em conjunto com as ações do estrogênio causa rante a gestação é a glicosúria que está associa- a reabsorção do excesso de sódio de seus tú- da à diminuição na capacidade de reabsorção bulos renais e, portanto, retém líquido, levando tubular (ZUGAIB, 2016). a hipertensão induzida pela gravidez (GUY- A bexiga sofre alteração de sua posição TON & HALL, 2017;). anatômica, adotando uma posição mais anterior A glândula tireoide aumenta e eleva a pro- e superior, ou seja, ocorre uma elevação do trí- dução de tiroxina, devido ao efeito tireotrópico gono vesical e uma diminuição do tônus vesi- da gonadotropina coriônica humana, secretada cal, que resulta em aumento da frequência uri- pela placenta e pelo hormônio estimulante da nária da gestante. Em relação aos ureteres, eles tireoide, também secretado pela placenta. As sofrem uma compressão e até mesmo obstru- glândulas paratireoides aumentam e por conta ção pelo desenvolvimento uterino, assim como disso causa absorção de cálcio dos ma- congestão do plexo venoso ovariano. Além dis- ternos, mantendo a concentração normal de so, pela ação da progesterona ocorre o relaxa- íons no líquido extracelular materno, mesmo mento da musculatura lisa associada a diminui- quando o feto remove cálcio para sua ossifica- ção da peristalse ureteral, ocasionando inconti- ção. nência urinária e dilatação do sistema coletor (ZUGAIB, 2016). 9 |PáginaLIVRO DE OBSTETRÍCIA REFERÊNCIAS GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de fisiologia médica. ed., Editora Elsevier. 2017. MANN, Luana et al. Alterações biomecânicas durante o período gestacional: uma revisão. Motriz: Revista de Educação Física, V. 16, p. 730-741, 2010. Disponível em: . Acesso em 06 de março 2024. PEREIRA-DE-SOUZA, Ana Patrícia et al. Prevalência de incontinência urinária durante a gestação. Revista Baiana de Saúde Pública, V. 40, n. 1, 2016. Disponível em: Acessado em 06 de março 2024. REZENDE FILHO, Jorge de; MONTENEGRO, Carlos Antônio Barbosa. Rezende Obstetrícia Fundamental. Edição, Rio de Janeiro Editora. 2014. ZUGAIB, Marcelo. Zugaib Obstetrícia. ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2016. 10 Página