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N E F R O L O G I A DOENÇAS DO GLOMÉRULO JANEIRO/2022 P R O F . R I C A R D O L E A L Doenças do Glomérulo PROF. RICARDO LEAL INTRODUÇÃO /estrategiamedt.me/estrategiamed Estratégia MED @ricardolealsb @estrategiamed Olá, Revalidando! Eu sou o professor Ricardo Leal, do time da Nefrologia, e vou trazer para você, neste livro, um tema importantíssimo para a sua prova: as doenças glomerulares. Vinte por cento das questões de nefrologia envolvem o tema, que fica atrás apenas das infecções do trato urinário. https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://www.instagram.com/estrategiamed/ Doenças do Glomérulo Distúrbio ácido-básico Distúrbio sódio ITU Glomeropatias Lesão renal aguda Nefrolitíase Doença renal crônica Dist potássio Distribuição das questões de nefrologia no exame do Revalida. A banca do Revalida já cobrou três doenças glomerulares em específico: - Glomerulonefrite pós-estreptocócica - Doença de lesões mínimas - Síndrome de Goodpasture Aqui você vai encontrar o que precisa saber sobre essas condições e outras informações importantes sobre as demais glomerulopatias que podem ser abordadas na sua prova. Espero que faça bom proveito do material! Caso precise, estou à disposição. Um abraço! 4 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 SUMÁRIO 1.0 INTRODUÇÃO ÀS DOENÇAS GLOMERULARES 5 2.0 SÍNDROME NEFRÍTICA 7 2.1 GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA 9 2.1.1 INTRODUÇÃO E PATOGÊNESE 9 2.1.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICO-LABORATORIAIS E DIAGNÓSTICO 10 2.1.3 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL E TRATAMENTO 11 2.2 NEFROPATIA POR IGA 15 2.2.1 INTRODUÇÃO E PATOGÊNESE 15 2.2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E DIAGNÓSTICO 15 2.2.3 TRATAMENTO E PROGNÓSTICO 16 2.3 NEFRITE LÚPICA 17 2.3.1 INTRODUÇÃO 18 2.3.2 CLASSIFICAÇÃO HISTOLÓGICA 18 2.4 VASCULITES ASSOCIADAS AO ANCA 20 2.5 CRIOGLOBULINEMIA 21 3.0 SÍNDROME NEFRÓTICA 23 3.1 MORBIDADES RELACIONADAS À SÍNDROME NEFRÓTICA 23 3.1.1 DISLIPIDEMIA, TROMBOFILIA E INFECÇÕES 23 3.1.2 PROTEINÚRIA 25 3.2 DOENÇA DE LESÕES MÍNIMAS 25 3.2.1 INTRODUÇÃO 26 3.2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E DIAGNÓSTICO 26 3.2.3 TRATAMENTO E RECIDIVAS 27 5 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 3.3 GLOMERULOESCLEROSE SEGMENTAR E FOCAL 29 3.3.1 INTRODUÇÃO 29 3.3.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 29 3.3.3 CAUSAS SECUNDÁRIAS 30 3.3.4 TRATAMENTO 30 3.3.5 NEFROPATIA DO HIV 31 3.4 GLOMERULOPATIA MEMBRANOSA 31 4.0 GLOMERULONEFRITE RAPIDAMENTE PROGRESSIVA 32 4.1 PAPEL DA IMUNOFLUORESCÊNCIA 33 4.2 DOENÇA DE GOODPASTURE 34 5.0 LISTA DE QUESTÕES 38 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 39 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 40 6Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo CAPÍTULO 1.0 INTRODUÇÃO ÀS DOENÇAS GLOMERULARES O glomérulo é um tufo especializado de capilares cuja função principal é a filtração do conteúdo sanguíneo, cujo resultado (filtrado) passa para o espaço urinário. Nos túbulos renais, o filtrado é processado, resultando na urina como produto final. Esses capilares ficam unidos por uma cola, denominada mesângio, produzida pelas células mesangiais. 7 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Compondo a estrutura glomerular, a barreira de filtração glomerular (figura a seguir) é a grande peneira que define o que passa do sangue para o espaço urinário, sendo composta de três estruturas principais: as fenestras do endotélio, a membrana basal glomerular e os pedicelos (ou pés dos podócitos, que são projeções lançadas pelos podócitos, células que também compõem a arquitetura do glomérulo). As doenças glomerulares levam ao surgimento de duas alterações na urina: a hematúria e a proteinúria. A hematúria é definida pela presença de mais de 5 a 10 hemácias por campo no exame simples de urina. Pode ser oriunda de todo o sistema urinário, desde o glomérulo até a saída da uretra. Para ser considerada sinal de doença glomerular, a hematúria deve ser acompanhada de cilindros hemáticos ou dismorfismo eritrocitário (figura a seguir). 8Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo A proteinúria é definida pela presença de proteínas na urina > 150 mg/24 h. Pode ter várias origens (glomerular, tubular ou urológica). Proteinúria acima de 3,5 g/dia no adulto ou 50 mg/kg/dia na criança ou mais de 3+ na fita do exame de urina é chamada de nefrótica e é sinônimo de lesão glomerular. Abaixo desses valores, é chamada de subnefrótica e, em especial quando acompanhada de hematúria, tem alta predição para origem glomerular. Hematúria glomerular = hematúria com proteinúria acima de 1 g, dismorfismo eritrocitário e/ou cilindros hemáticos. Proteinúria glomerular = proteinúria > 1 g acompanhada de hematúria ou proteinúria nefrótica. Neste material, vamos estudar três síndromes glomerulares. São elas: Síndrome nefrítica Síndrome nefrótica Glomerulonefrite rapidamente progressiva Edema Hipertensão arterial Hematúria glomerular 2.0 SÍNDROME NEFRÍTICA A síndrome nefrítica é o resultado de doenças que causam inflamação no glomérulo e manifesta-se clínico- laboratorialmente como: Também podem estar presentes: leucocitúria (reflete a inflamação glomerular), proteinúria subnefrótica, piora da creatinina e redução do débito urinário. Veja como a síndrome nefrítica já foi cobrada. CAPÍTULO ESCLARECENDO! ATENÇÃO DECORE! ESTA CAI NA PROVA! 9 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 CAI NA PROVA! (Revalida INEP 2012) Um homem de 22 anos de idade desenvolveu escoriações de pele que se infectaram, melhorando com o uso de pomada de antibiótico (sic). Cerca de uma semana após o aparecimento das lesões de pele, passou a apresentar cefaleia, edema periorbitário matinal e urina escura, "cor de Coca-Cola" (sic). O volume urinário diminuiu para menos de 1 000 mL/dia. Em consulta médica, foi verificada pressão arterial = 150 x 110 mmHg, bem como edema de membros inferiores (++/4). O achado no exame do sedimento urinário característico do processo que acomete o paciente é a presença de A) pigmentos hemáticos. B) cilindros hemáticos. C) proteinúria (++++/4+). D) células epiteliais com lesões de bordos. E) hemácias bem conservadas em número superior a 10/campo. COMENTÁRIO: Antes de entrarmos nas etiologias, veja essa questão. Temos um paciente de 22 anos que evolui com hipertensão, edema e urina "cor de Coca-Cola" (que deve ser interpretada sempre que possível como hematúria!). É a tríade que define a síndrome nefrítica. Mas a hematúria da síndrome nefrítica é dismórfica. Que alternativa atesta isso? Vamos analisar uma a uma. Incorreta a alternativa A. Pigmentos hemáticos não são elementos descritos no sumário de urina. Correta a alternativa B. Os cilindros hemáticos são altamente característicos da hematúria glomerular e esperados no exame de urina do paciente em questão. Incorreta a alternativa C. A presença de proteinúria exuberante (aqui, no caso, 4+/4+) é característica de síndrome nefrótica. Na síndrome nefrítica pode ocorrer proteinúria, porém em níveis menores e não é necessariamente característica da síndrome nefrítica, como é pedido no enunciado. Incorreta a alternativa D. Células epiteliais sugerem lesão tubular, e não glomerular. Incorreta a alternativa E. Pode haver hemácias, mas na síndrome nefrítica não são conservadas, e sim dismórficas, características de uma glomerulonefrite. Agora sim, vamos às principais etiologias! Gabarito: alternativa B. 10Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo 2.1 GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA Entre as glomerulopatias, a glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE) é o tópico mais cobrado nas provas do Revalida! 2.1.1 INTRODUÇÃO E PATOGÊNESE A GNPE é a causa mais comum de síndrome nefrítica na infância. Tem predomínio nos países subdesenvolvidos, onde as infecçõesestreptocócicas são mais comuns. É uma consequência imunológica de uma infecção bacteriana (faringoamigdalite ou infecção cutânea) causada por cepas ditas “nefritogênicas” do estreptococo beta-hemolítico do grupo A de Lancefield. Semanas após a infecção, o sistema imunológico “confunde” antígenos do estreptococo com antígenos do próprio glomérulo, levando a um intenso processo inflamatório que culmina na síndrome nefrítica. Há, nesse processo, ativação sistêmica da via alternativa do complemento, o que acarreta queda dos níveis séricos de C3. CAI NA PROVA! (Revalida INEP 2011) Criança do sexo feminino, com sete anos de idade, é trazida pela mãe à Unidade Básica de Saúde, porque há três dias apresenta-se com adinamia, urina escura (cor de “Coca-Cola”) e inchaço nos olhos pela manhã. A mãe informa que há 15 dias a criança apresentou febre elevada e “dor de garganta” que regrediram com o uso de antitérmico e de anti-inflamatório não hormonal (ibuprofeno). Na consulta, o médico observa que a criança se encontra em regular estado geral, afebril, eupneica, hipocorada (+/4), com frequência cardíaca de 116 bpm, pressão arterial = 118x82 mmHg, edema de face (+/4) e de membros inferiores (++/4). Os demais aspectos do exame físico são normais. Na síndrome que a criança apresenta, a resposta inflamatória responsável pela instalação da lesão nefrítica A) É consequência da ativação do complemento, da liberação de fatores quimiotáticos e do recrutamento de neutrófilos. B) Decorre da fixação de estreptococos beta-hemolíticos nas alças capilares glomerulares e da consequente infiltração celular. C) Deve-se a modificações de uma IgM que, no contexto de uma infecção, torna-se imunogênica e desenvolve afinidade pelo glomérulo renal. D) Depende da deposição mesangial de C3, fibrina e IgA, e da proliferação de células mesangiais com expansão da matriz. E) Manifesta-se por hipercelularidade glomerular, expansão da matriz mesangial e duplicação da membrana basal glomerular. 11 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 COMENTÁRIO: A GNPE é tão querida pela banca do Revalida que nem mesmo a fisiopatologia escapa! Nada mais é que uma reação imune a um antígeno estreptocócico que leva à deposição de imunocomplexos (união entre antígeno e anticorpo) no glomérulo e tem a ativação do complemento como mecanismo formador de lesão. Vamos às alternativas. Correta a alternativa A. O sistema complemento é fundamental na patogênese da GNPE e o consumo de C3 é a alteração laboratorial mais importante associada à doença. Incorreta a alternativa B. A GNPE ocorre semanas depois da infecção estreptocócica e não são os antígenos que se depositam no glomérulo, e sim os imunocomplexos. Incorreta a alternativa C. A imunofluorescência de uma biópsia renal em um paciente com GNPE revela depósitos de IgG, e não de IgM. Incorreta a alternativa D. Essa alternativa descreve o mecanismo patogênico da nefropatia por IgA, outra causa de hematúria glomerular que estudaremos adiante. Incorreta a alternativa E. A duplicação da membrana basal glomerular reflete dano endotelial crônico e é mais encontrada em outros padrões histológicos de glomerulopatias que cursam com síndrome nefrítica, como a glomerulonefrite membranoproliferativa. 2.1.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICO-LABORATORIAIS E DIAGNÓSTICO A suspeita de GNPE deve ser levantada quando estivermos diante de uma síndrome nefrítica, principalmente em uma criança, e de uma história recente de infecção bacteriana de pele ou vias aéreas superiores. O quadro renal desenvolve-se entre 1 e 3 semanas (tipicamente 2) após faringoamigdalites e entre 3 a 6 semanas (tipicamente 3) após infecções de pele. O diagnóstico pode ser feito sem a realização de biópsia renal, fundamentado em um tripé: quadro clínico-laboratorial compatível, timing correto da infecção estreptocócica e comprovação do contato recente com o patógeno. Gabarito: alternativa A. 12Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo Essa comprovação ocorre pela dosagem de anticorpos contra antígenos estreptocócicos, sendo os principais: antiestreptolisina O (ASLO), anti-DNAse B e anti-hialuronidase. Todos apresentam níveis séricos aumentados após quadros de faringoamigdalite; dos três, apenas o ASLO não se eleva após quadros cutâneos. Existe um dado laboratorial fundamental na GNPE que aumenta a suspeição diagnóstica e serve de marcador de prognóstico: há redução dos níveis séricos da fração C3 do complemento! Tríade diagnóstica da GNPE. A apresentação clássica da GNPE é uma criança com síndrome nefrítica, história de infecção estreptocócica nas últimas semanas, consumo de C3 e algum anticorpo antiestreptocócico positivo. Apresentações clínicas graves são raras e decorrem principalmente da hipervolemia levando a emergências hipertensivas: edema agudo de pulmão 2.1.3 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL E TRATAMENTO e encefalopatia hipertensiva. Quanto à função renal, apresentações mais graves (embora também incomuns) incluem lesão renal aguda com necessidade de diálise. A GNPE é uma glomerulopatia de curso clínico previsível. Quando o comportamento da doença muda ou algum dado laboratorial não condiz com a evolução esperada, a biópsia renal deve ser realizada para avaliar alguma outra glomerulopatia como diagnóstico diferencial. A seguir, veja uma tabela com as principais indicações de biópsia renal em casos suspeitos de GNPE! GNPE: DIAGNÓSTICO CLÍNICA COMPATÍVEL TEMPO DA INFECÇÃO ESTREPTOCÓCICA CONTATO COM O ESTREPTOCOCO • Síndrome nefrítica • Consumo de C3 • Faringoamigdalite: 2 semanas • Pele: 3 semanas • ASLO • Anti-DNAse B FIQUE ATENTO! 13 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Indicações para considerar biópsia em caso suspeito de GNPE Anúria ou alteração grave da função renal nas primeiras 48 a 72 horas Consumo de C3 por mais de 8 semanas Ausência de melhora da função renal por 2 semanas Persistência de hipertensão arterial por mais de 2 a 4 semanas Presença de sinais de doença sistêmica que sugiram de outra etiologia (por exemplo: anemia hemolítica, artralgia, leucopenia e rash malar, sugestivos de lúpus) Não existe tratamento específico para a GNPE. A meta é trazer o paciente de um estado hipervolêmico para euvolêmico. Para isso, restrições hídrica e de sal e uso de diuréticos de alça (furosemida) são essenciais. Em casos mais graves (emergências hipertensivas), anti- hipertensivos são necessários. Caso haja suspeita de infecção bacteriana vigente por ocasião do desenvolvimento da nefrite, o que é incomum, a penicilina benzatina (eritromicina aos alérgicos) deve ser prescrita, o que alguns serviços fazem de rotina, mesmo sem evidência de infecção, para reduzir a circulação de alguma cepa nefritogênica do estreptococo. Convém ressaltar, contudo, que o tratamento do quadro bacteriano não influencia no desenvolvimento ou na gravidade da GNPE. Por fim, a GNPE é considerada uma doença de excelente prognóstico, com baixíssimas mortalidade e evolução para doença renal crônica. CAI NA PROVA! (Revalida INEP 2012) Um pai vai à consulta na Unidade Básica Saúde (UBS) queixando-se de que, há uma semana, seu filho de 4 anos de idade iniciou quadro súbito de edema periorbitário bilateral e matutino. Refere ter procurado outra unidade de saúde duas semanas antes, quando foi feito o diagnóstico de faringoamigdalite e prescrita penicilina G benzatina. O pai relata que, nos últimos três dias, houve aumento do edema periorbitário e início de quadro de distensão abdominal, associado a dois episódios de vômitos, além de oligúria com escurecimento da urina. O pediatra aferiu e encontrou PA = 110 x 80 mmHg. No caso clínico descrito, o dado laboratorial que, isoladamente, é considerado o mais fidedigno para confirmar o diagnóstico é A) elevação de ureia e creatinina séricas. B) titulação da antiestreptolisina O elevada.C) dosagem do complemento sérico C3 baixo. D) proteinúria de 24 horas acima de 50 mg/kg/dia. E) urinálise evidenciando hematúria, leucocitúria e proteinúria. 14Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo COMENTÁRIO: Revalidando, temos uma questão importantíssima sobre GNPE. O enunciado traz uma criança que, semanas após um quadro de amigdalite bacteriana, desenvolve hipertensão, edema e hematúria (que pode ser inferida pelo escurecimento da urina). Temos de pensar em uma síndrome nefrítica! E qual é o dado laboratorial mais importante para o diagnóstico? Vamos descobrir nas alternativas. Incorreta a alternativa A. A elevação das escórias nitrogenadas não é específica de nenhuma condição na nefrologia. É apenas um marcador de lesão renal aguda que apresenta diversas causas, comumente divididas em pré-renais, renais e pós-renais. Incorreta a alternativa B. O ASLO elevado reflete apenas o contato prévio com o estreptococo. Nem todo paciente que tem faringite estreptocócica desenvolve GNPE. Correta a alternativa C. A queda nos níveis do complemento C3 em uma criança com síndrome nefrítica e exposição prévia a uma infecção estreptocócica é suficiente para o diagnóstico da condição, sem que haja necessidade de realização de biópsia renal. Incorreta a alternativa D. Níveis elevados de proteinúria são encontrados em casos de síndrome nefrótica, e não nefrítica. Incorreta a alternativa E. Essas alterações podem apontar para uma etiologia glomerular, mas não são suficientes para nos fazer suspeitar do diagnóstico etiológico de GNPE. (Revalida INEP 2020) Uma criança em idade escolar com 8 anos de idade é atendida no ambulatório de Pediatria com edema, diminuição da diurese, urina escura, às vezes, rosada, desânimo e inapetência há uma semana. A mãe nega a presença de febre, vômitos, diarreia, disúria ou polaciúria em sua filha. A criança estava previamente hígida, mas, há 3 semanas, apresentou lesões nas pernas, inicialmente pruriginosas, que evoluíram para crostas e cicatrizaram espontaneamente. O exame físico revelou os seguintes resultados: peso = 30 kg (ganho de 3,5 kg em 1 mês); estatura = 1,26 m; FR = 35 irpm; FC = 110 bpm; temperatura axilar = 36,2 °C; PA = 125 x 80 mmHg (confirmada em dois momentos da consulta). A criança está em regular estado geral, acianótica, anictérica, com mucosas úmidas e hipocoradas (1+/4+), pele com turgor e elasticidade preservados, enchimento capilar de 2 segundos, pulsos periféricos bem palpáveis e simétricos, presença de edema (2+/4+) e lesões cicatriciais em membros inferiores. Sua ausculta cardíaca está normal. A ausculta respiratória apresenta estertores crepitantes em bases pulmonares. Abdome globoso, discretamente distendido, com edema leve na parede abdominal, indolor à palpação, fígado palpável a 4 cm do rebordo costal direito. O quadro a seguir apresenta os percentis de pressão arterial sistêmica para meninas por idade e os percentis de estatura. Gabarito: alternativa C. 15 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Com base no caso e no quadro apresentados, responda às questões a seguir. A) Qual é a principal hipótese diagnóstica? B) Cite três exames complementares recomendados e os respectivos resultados que confirmam essa hipótese diagnóstica. C) Cite cinco condutas médicas iniciais recomendadas para esse caso. D) Na evolução desse caso, cite quatro situações, entre achados clínicos e resultados de exames complementares, que indicam a necessidade de estudo anatomopatológico do órgão afetado. COMENTÁRIO: Atenção, Revalidando: temos uma questão para consolidar de vez o que você estudou até aqui sobre GNPE. Vamos juntos! O enunciado traz uma criança levada ao pronto atendimento por edema e urina escura (que podemos interpretar como hematúria macroscópica). A história clínica traz um achado crucial: uma infecção de pele três semanas antes. Ao exame físico, você aplica a pressão arterial na tabela fornecida e encontra um valor acima do percentil 95, compatível com hipertensão arterial. Perceba também sinais de hipervolemia (estertores pulmonares, edema, hepatomegalia). Com base nesses principais dados do extenso enunciado, vamos às respostas. 16Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo A) A criança em questão apresenta a tríade clássica da síndrome nefrítica (edema, hipertensão arterial e hematúria). Sabemos que a principal causa em crianças (e nossa hipótese diagnóstica) é a glomerulonefrite pós-estreptocócica! B) A GNPE é uma sequela imunológica de uma doença estreptocócica que cursa com consumo do complemento. Exames laboratoriais que auxiliariam no diagnóstico são: hematúria com cilindros hemáticos ou dismorfismo eritrocitário (para atestar a origem glomerular); consumo de C3; e positividade do anti-DNAse B (que remete ao contato com o estreptococo. Lembre-se de que o ASLO não se eleva rotineiramente após quadros cutâneos). C) O paciente precisa de avaliação laboratorial mais precisa e do manejo inicial da hipervolemia, uma vez que a GNPE não tem tratamento específico. Algumas condutas preconizadas são: internação hospitalar, avaliação da função renal, restrição de sal, restrição hídrica e uso de diuréticos de alça. D) Como a GNPE é uma condição de bom prognóstico, com um diagnóstico não invasivo confiável e sem tratamento específico, não é necessária a realização de biópsia renal em um primeiro momento. A biópsia é indicada quando o curso clínico afasta-se do habitual para a GNPE. Visite novamente a tabela de indicações de biópsia renal para não esquecer as situações preconizadas. 2.2 NEFROPATIA POR IGA 2.2.1 INTRODUÇÃO E PATOGÊNESE A NIgA é a glomerulopatia primária mais comum no mundo. Predomina no sexo masculino e atinge principalmente a faixa etária entre 10 e 40 anos. Indivíduos geneticamente predispostos, quando expostos a determinados estímulos ambientais (o consumo de glúten hoje em dia é estudado como gatilho), produzem uma IgA anômala que se deposita no glomérulo, levando ao surgimento da glomerulopatia. 2.2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E DIAGNÓSTICO Apesar de poder se apresentar como qualquer uma das cinco síndromes glomerulares, a NIgA tem duas formas de apresentação que predominam: - Hematúria glomerular macroscópica recorrente, que ocorre principalmente durante ou poucos dias após infecções virais da via aérea superior ou após realização de exercícios físicos. - Hematúria glomerular microscópica persistente, isolada ou em conjunto com proteinúria subnefrótica. 17 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Nas formas mais frequentes de apresentação, a NIgA não vem acompanhada de hipertensão, edema ou alteração da função renal. De modo menos frequente, a NIgA pode manifestar-se como síndrome nefrítica, síndrome nefrótica ou glomerulonefrite rapidamente progressiva. A NIgA não cursa com consumo de complemento! Apesar da alta suspeita clínica nas situações relatadas há pouco, o diagnóstico definitivo da doença é feito pela biópsia renal. O achado que sela a condição é a imunofluorescência: presença de depósitos em mesângio de IgA (dominantes ou codominantes). Imunofluorescência mostrando depósito de IgA. 2.2.3 TRATAMENTO E PROGNÓSTICO O tratamento depende da forma de apresentação. Quando o quadro clínico tem apenas hematúria, não é necessária imunossupressão, apenas acompanhamento regular com nefrologista. A NIgA tem pior prognóstico renal que a GNPE, principalmente quando acompanhada de hipertensão, proteinúria e alteração da função renal no momento do diagnóstico, situações em que a imunossupressão com curso de corticoide é necessária. TOME NOTA! 18Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo Saber diferenciar NIgA de GNPE é cobrado frequentemente em provas! Preste atenção na tabela a seguir antes de continuar sua leitura! GNPE Nefropatia por IgA Latênciadas infecções Semanas (tipicamente 2 ou 3) antes Dias (2 ou 3) antes ou concomitante Natureza das infecções Bacteriana Viral Consumo de complemento Sim (C3 e CH50) Não Faixa etária típica Crianças Adultos jovens Evolução para doença renal crônica Rara Até 25% dos pacientes Apresentação clínica mais comum Edema, hipertensão e hematúria Hematúria macroscópica isolada Hematúria microscópica persistente 2.3 NEFRITE LÚPICA A nefrite lúpica pode manifestar-se como qualquer uma das síndromes glomerulares. Como a forma mais frequente é de síndrome nefrítica, alocamos o tema neste tópico. As características clínicas e a classificação histológica são os tópicos mais cobrados. Vamos juntos! 19 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 2.3.1 INTRODUÇÃO O acometimento renal no lúpus eritematoso sistêmico está presente em até 60% dos pacientes durante a evolução da doença e tem o compartimento glomerular como o mais afetado. Pode englobar todas as síndromes glomerulares e apresentar graus diferentes de gravidade e prognóstico. Pense em nefrite lúpica quando se deparar com quadro de nefrite em uma mulher em idade fértil apresentando sinais e sintomas de lúpus (figura a seguir). 2.3.2 CLASSIFICAÇÃO HISTOLÓGICA Revalidando, agora peço a você tranquilidade. Adiante, você vai se deparar com um esquema que, a princípio, pode assustar. Não é essa a intenção. A classificação histológica da nefrite lúpica é importante e eu tentei passar a informação de um jeito menos doloroso. Veja com calma! 20Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo As classes I e II (mesangial mínima e proliferativa mesangial) são as de melhor prognóstico e levam a poucas alterações laboratoriais. A classe III é a glomerulonefrite proliferativa focal e assemelha-se à classe IV, glomerulonefrite proliferativa difusa, que é a principal forma de acometimento glomerular. Caracterizam-se clinicamente por uma síndrome nefrítica, sendo frequente a presença de disfunção renal. Outra apresentação comum é uma síndrome nefrótica pura, cuja correlação é a nefrite lúpica classe V (membranosa). A classe VI é a glomerulopatia esclerosante do lúpus e já representa uma fibrose avançada do tecido renal. As classes I e II não precisam de imunossupressão adicional. As classes III, IV e V são tratadas com imunossupressão. Já a classe VI é tratada de modo conservador, com preparo para transplante renal ou início de diálise. A biópsia renal de um paciente lúpico em atividade apresenta um achado característico: imunofluorescência com depósito full house no glomérulo, ou seja, de todas as imunoglobulinas e frações do complemento testadas (IgA, IgM, IgG, C3 e C1q)! 21 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 2.4 VASCULITES ASSOCIADAS AO ANCA As vasculites associadas ao ANCA são inflamações de pequenos vasos cuja patogênese envolve a presença do anticorpo anticitoplasma de neutrófilos (ANCA). Esse anticorpo se desenvolve contra proteínas expressas nos neutrófilos e estimula uma intensa reação inflamatória e destrutiva nos vasos afetados. Pode apresentar-se de duas maneiras: perinuclear (p-ANCA, cujo antígeno correspondente é a proteína mieloperoxidase) e citoplasmático (c-ANCA, cuja representação antigênica se faz pela proteinase 3). A apresentação clínica no rim é de glomerulonefrite. As manifestações extrarrenais são importantes e direcionam-nos para três principais vasculites associadas ao ANCA. Confira a tabela a seguir: Vasculites ANCA-associadas - Granulomatose com poliangeíte (Wegener) Granulomatose eosinofílica com poliangeíte (Churg – Strauss) Poliangeíte microscópica ANCA c – ANCA. p – ANCA. p – ANCA. Antígeno Proteinase-3 (PR3). Mieloperoxidase (MPO). Mieloperoxidase (MPO). Apresentação clínica Sinusite destrutiva; Nódulos pulmonares cavitados; Glomerulonefrite; e Síndrome pulmão- rim. Asma; Infiltrado pulmonar migratório; Dermatite atópica; e Glomerulonefrite. Sintomas constitucionais; Síndrome pulmão-rim; e Glomerulonefrite. Principais características das vasculites associadas ao ANCA. 22Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo Um dado laboratorial comum às vasculites ANCA-associadas é que elas não consomem complemento! A biópsia renal tem um aspecto marcante que sugere fortemente a presença de uma vasculite ANCA-relacionada: imunofluorescência negativa – o que faz essas vasculites serem denominadas pauci-imunes! 2.5 CRIOGLOBULINEMIA A crioglobulinemia é uma vasculite sistêmica de pequenos vasos causada pela deposição de crioglobulinas (imunoglobulinas que se precipitam em temperaturas frias) nos tecidos. A produção de crioglobulinas está relacionada a algumas causas secundárias; entre elas, a mais cobrada em suas provas é a infecção pelo vírus da hepatite C! No rim, manifesta-se principalmente como síndrome nefrítica (de modo menos comum pode vir como glomerulonefrite rapidamente progressiva) e é acompanhada de achados de vasculites sistêmicas, como febre, perda ponderal, artralgia e púrpura palpável. ESTA CAI NA PROVA! 23 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Um dado laboratorial importante: a crioglobulinemia manifesta-se com consumo das frações C3 e C4 do complemento! Na sua principal forma de apresentação, associada ao HCV, não há tratamento específico, sendo recomendada a erradicação da hepatite viral na tentativa de melhora do quadro clínico. Antes de irmos para a síndrome nefrótica, vamos fazer um resumo com as principais glomerulopatias que podem manifestar-se como síndrome nefrítica. Pare um segundo, respire, beba uma água e leia com atenção a tabela a seguir! Glomerulopatia Características mais relevantes Consumo de complemento Glomerulonefrite pós- estreptocócica Ocorre após infecção estreptocócica; ASLO e/ou Anti-DNAse B positivos; e Síndrome nefrítica com boa evolução. C3 Nefropatia por IgA Hematúria macroscópica após infecções de vias aéreas superiores ou hematúria microscópica persistente como um achado laboratorial; e Imunofluorescência com predomínio de IgA. Não há consumo Nefrite lúpica Mulher jovem, artralgia, rash malar, anemia hemolítica, FAN e anti-DNA positivos; e Imunofluorescência “full house”. C3 e C4 Glomerulonefrite membranoproliferativa Presença de causa secundária, como doenças infecciosas, neoplasias sólidas ou hematológicas e doenças autoimunes. C3 e C4 Vasculites ANCA- associadas Idade mais avançada, acometimento de via aérea superior ou pulmonar, positividade do ANCA; e Imunofluorescência negativa. Não há consumo Crioglobulinemia Associação com HCV, sinais de vasculites de pequenos vasos. C3 e C4 Glomerulopatias que causam síndrome nefrítica: apanhado geral. FIQUE ATENTO! 24Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo 3.0 SÍNDROME NEFRÓTICA CAPÍTULO A síndrome nefrótica é definida pela presença da tríade: Proteinúria nefrótica Hipoalbuminemia Edema Apesar de não estarem na definição, a dislipidemia e a lipidúria são bastante frequentes em pacientes com síndrome nefrótica e podem auxiliar na suspeita diagnóstica. Memorize estes valores: Proteinúria nefrótica: > 3,5 g/dia em adultos ou > 50 mg/kg/dia em crianças. Hipoalbuminemia:sistemas e provocam algumas complicações, sendo as principais a dislipidemia, o aumento do risco de trombose e a predisposição a infecções. Confira o esquema a seguir com os principais mecanismos envolvidos. TOME NOTA! FIQUE ATENTO! 25 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 SÍNDROME NEFRÓTICA: COMPLICAÇÕES DISLIPIDEMIA TROMBOFILIA INFECÇÕES • Aumento da síntese de lipoproteínas • Excreção urinária de HDL • Redução da atividade da lipase lipoproteica Dislipidimia mista (LDL elevado, HDL baixo e triglicéris elevado) • Perda urinária de antitrombina 3 • Aumento da agregação plaquetária • Aumento da síntese de pró-coagulantes (como o fator V) Infecção por germes encapsulados • Perda urinária de imunoglobulinas e fatores de opsonização de patógenos Eventos venosos e arteriais Complicações da síndrome nefrótica. A dislipidemia é de padrão misto, ou seja, aumento de LDL, redução de HDL e aumento de triglicerídeos. Um achado característico na urina desses pacientes é a presença de cilindros graxos ou gordurosos (lipidúria). FIQUE ATENTO! 26Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo A peritonite bacteriana espontânea (PBE) é a infecção mais cobrada nas provas e, nos pacientes nefróticos, é causada principalmente pelo Streptococcus pneumoniae, o pneumococo, seguida por germes Gram-negativos. A suspeita clínica é feita na presença de dor abdominal, febre e irritação peritoneal em crianças nefróticas com ascite. O tratamento preconizado é com ceftriaxona, uma cefalosporina de terceira geração. A trombose de veia renal é uma consequência da trombofilia adquirida na síndrome nefrótica que merece destaque! É mais frequente nos portadores de glomerulopatia membranosa. A tríade dor no flanco, hematúria e piora da função renal é a forma mais clássica de apresentação. O tratamento é feito com anticoagulação sistêmica. 3.1.2 PROTEINÚRIA A proteinúria não é apenas critério diagnóstico na síndrome nefrótica. Em geral, quanto maior seu nível, pior o prognóstico da doença glomerular a longo prazo. Para reduzir a proteinúria, é necessário tratar a doença de base e lançar mão de medidas nefroprotetoras, sendo a principal delas o bloqueio farmacológico do sistema renina-angiotensina- aldosterona (SRAA). A prescrição de iECA ou BRA para pacientes portadores de síndrome nefrótica visando reduzir a proteinúria é a principal medida farmacológica de nefroproteção! Agora vamos juntos às principais doenças que causam síndrome nefrótica, com destaque para a doença de lesões mínimas, já cobrada nas questões do Revalida! 3.2 DOENÇA DE LESÕES MÍNIMAS TOME NOTA! 27 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 3.2.1 INTRODUÇÃO A doença de lesões mínimas (DLM) é a principal causa de síndrome nefrótica primária na infância (correspondendo a até 85% dos casos), com pico de incidência entre os 2 e 3 anos de idade. Nos adultos, é a terceira causa de síndrome nefrótica primária, atrás da GESF e da glomerulopatia membranosa. É uma doença do grupo das podocitopatias, isto é, sua grande característica é a marcada lesão podocitária, que reflete no surgimento de proteinúria em níveis nefróticos. Sua denominação vem do fato de que, na microscopia óptica, os glomérulos apresentam-se inalterados ou com mínimas alterações. 3.2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E DIAGNÓSTICO A DLM manifesta-se como uma síndrome nefrótica pura. O edema é tipicamente de início insidioso (dias a semanas), ascendente e vem acompanhado de derrames cavitários, como ascite ou derrame pleural. A pressão arterial e a função renal são, via de regra, normais. Sinais de gravidade incluem hipotensão, edema escrotal e restrição ventilatória por quadros de ascite volumosa. Na infância, por ser uma causa prevalente de síndrome nefrótica, o diagnóstico é feito sem a necessidade da biópsia renal. A biópsia renal deve ser solicitada apenas em casos suspeitos de síndrome nefrítica associada, na presença de alguma doença sistêmica ou fora da faixa etária habitual, pois outra glomerulopatia de pior prognóstico pode ser a causa da síndrome em questão. As indicações de biópsia renal na síndrome nefrótica da infância caem muito nos concursos. Não deixe de conferir a tabela a seguir com as principais! 28Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo Indicações de biópsia renal na síndrome nefrótica da infância. Critérios para indicar biópsia renal em uma síndrome nefrótica na infância Idade 10 anos Presença de hematúria macroscópica ou persistente Consumo das frações do complemento Piora importante da função renal Hipertensão não relacionada ao uso do corticoide Ausência de resposta à corticoterapia Sinais de doença sistêmica (como artralgia, rash malar, fotossensibilidade – manifestações do lúpus, por exemplo) Apesar de a biópsia renal não ser necessária para o diagnóstico presuntivo na infância, ela é essencial no adulto. O conhecimento das características histológicas é necessário, pois questões de prova cobram o tema. Vamos aprender? A DLM cursa com glomérulos normais ou minimamente alterados na microscopia óptica e fusão ou apagamento dos processos podocitários na microscopia eletrônica. 3.2.3 TRATAMENTO E RECIDIVAS A DLM é reconhecidamente uma glomerulopatia de bom prognóstico renal, principalmente pela excelente resposta ao uso de corticoides sistêmicos (até 90% das crianças e 80% dos adultos atingem algum grau de remissão). A droga de escolha é a prednisona ou prednisolona. 29 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Além de ser altamente prevalente na infância e ter excelente resposta ao tratamento específico, existe outra característica importantíssima da DLM: episódios de recidiva. Tais episódios podem acontecer principalmente por dois gatilhos: infecções virais de vias aéreas superiores e vacinação. O tratamento das recidivas é feito de modo semelhante ao da manifestação inicial. Não esqueça: criança com síndrome nefrótica tem DLM até que se prove o contrário! CAI NA PROVA! (Revalida INEP 2013) Menino com 8 anos de idade é trazido ao ambulatório de pediatria com queixa de oligúria e urina espumosa, bem como quadro de edema, iniciado há 7 dias. A mãe nega outras alterações ou patologias prévias. Ao exame físico: PA = 99 x 56 mmHg; edema palpebral e de membros inferiores; sem ascite. Exame de urina: densidade urinária: 1.015; hemácias: 2/campo; leucócitos: 3/campo; proteinúria +++/++++. Considerando a principal hipótese diagnóstica, é indicado para tratamento da doença de base: A) Diurético. B) Antibiótico. C) Anti-hipertensivo. D) Corticosteroide. E) Anti-inflamatório não hormonal. COMENTÁRIOS: O enunciado traz uma criança que apresenta edema e proteinúria importante (3+ em 4+ no exame de urina). Veja que não há hematúria ou hipertensão arterial. A principal hipótese é de uma síndrome nefrótica, certo? Como estamos falando de crianças, a doença de lesões mínimas é a principal causa de síndrome nefrótica e tem como característica marcante a excelente resposta aos corticoides. Correta a alternativa D. TOME NOTA! 30Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo 3.3 GLOMERULOESCLEROSE SEGMENTAR E FOCAL 3.3.1 INTRODUÇÃO A glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF) é um padrão histológico de lesão glomerular que pode ser causado por diversas condições. Quando não há causa identificada, é denominada GESF primária. A GESF primária é a principal causa de síndrome nefrótica em adultos jovens, com predominância em indivíduos de raça negra. A principal causa mundial de doença renal em estágio terminal, o diabetes mellitus, também se manifesta no rim como GESF. Por ser um padrão histológico, a biópsia renal é fundamental para o diagnóstico. Na microscopia óptica, temosregrediu após tratamento com amoxicilina durante sete dias. Por ocasião dessa primeira consulta a paciente apresenta hipertensão arterial (pressão arterial = 150x110 mmHg), o fundo de olho é normal e não há outras alterações do exame físico. A paciente é hospitalizada pois os primeiros exames laboratoriais já mostram creatinina sérica elevada (8,4 mg/ dL) e ela evolui rapidamente com oligoanúria, edema e agravamento da função renal. A hematúria macroscópica regride, mas persiste hematúria microscópica, com presença de cilindros hemáticos e a paciente passa a apresentar também proteinúria (3 g/24 h). A investigação clínico-laboratorial não evidencia presença de vasculite ou doença sistêmica. A dosagem de complemento sérico (C3, CH50) é normal; anticorpos antinucleares ausentes, pesquisa de fator antinuclear negativa. A paciente foi submetida à biópsia renal – fragmento com 30 glomérulos, com proliferação das células epiteliais da cápsula de Bowman e infiltração por macrófagos e linfócitos, configurando a presença de crescentes epiteliais em 70% dos glomérulos, alguns com aspecto fibrocelular. A imunofluorescência da biópsia renal, reproduzida abaixo, evidencia deposição linear de IgG – não há depósitos mesangiais; imunofluorescência negativa para IgM, IgA e C3. Com base na história clínica, evolução e na biópsia renal e imunofluorescência, pergunta-se qual o mecanismo responsável pelo dano glomerular? 37 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 A) Reação antígeno-anticorpo in situ ao longo da membrana basal glomerular. B) Deposição de complexos imunes circulantes ao longo da membrana basal glomerular. C) Alterações da imunidade celular, notadamente de macrófagos e linfócitos T auxiliares. D) Deposição de anticorpo antiantígeno citoplasmático de neutrófilos. E) Deposição de anticorpos antiantígenos estreptocócicos ao longo da membrana basal glomerular. COMENTÁRIO: Revalidando, temos uma questão atemporal e complexa sobre doenças glomerulares. Vamos entender o caso clínico. Temos uma paciente de 14 anos que procura o pronto-socorro por apresentar sintomas sistêmicos (febre, adinamia) e hematúria macroscópica. Na entrada, são flagradas hipertensão arterial e piora importante da função renal (Cr 8,4 mg/dL), que evoluiu progressivamente com oligúria e edema. Com os dados fornecidos até aqui, já conseguimos classificar a paciente de maneira sindrômica: estamos diante de uma GNRP! A investigação laboratorial revelou complemento normal. A biópsia renal foi realizada e foi evidenciada uma glomerulonefrite crescêntica (com > 50% de crescentes na amostra) e um padrão linear de depósito na imunofluorescência. Uma GNRP de padrão linear só pode ser a doença de Goodpasture! Correta a alternativa A. Na doença de Goodpasture, há depósito de IgG contra antígenos do colágeno tipo IV presente na membrana basal glomerular. Incorreta a alternativa B. Doenças por imunocomplexos causam um padrão granular e não linear na imunofluorescência. Incorreta a alternativa C. O mecanismo de lesão envolve a imunidade humoral. Incorreta a alternativa D. Doenças associadas ao ANCA (vasculites) causam um padrão pauci-imune na imunofluorescência. Incorreta a alternativa E. Essa descrição é da GNPE! Lembre-se de que, apesar de haver história de infecção estreptocócica prévia, o complemento é normal e a imunofluorescência é linear, o que afasta a hipótese de GNPE. Gabarito: alternativa A. 38Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo Revalidando, estamos chegando ao fim do nosso material sobre doenças glomerulares. A seguir, deixo um esquema que preparamos com muito carinho para nortear seu raciocínio quando estiver diante de um caso suspeito de glomerulopatias. Observe atentamente! 39 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app 5.0 LISTA DE QUESTÕES https://estr.at/Xg2C https://estr.at/Xg2C 40Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 Doenças do Glomérulo CAPÍTULO 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases. Kidney International, 2021. 2. Parikh, Samir V., et al. “Update on lupus nephritis: core curriculum 2020.” American Journal of Kidney Diseases 76.2 (2020): 265-281. 3. Geetha, Duvuru, and J. Ashley Jefferson. “ANCA-associated vasculitis: core curriculum 2020.” American Journal of Kidney Diseases 75.1 (2020): 124-137. 4. Luciano, Randy L., and Gilbert W. Moeckel. “Update on the native kidney biopsy: core curriculum 2019.” American Journal of Kidney Diseases 73.3 (2019): 404-415. 5. Cavanaugh, Corey, and Mark A. Perazella. “Urine sediment examination in the diagnosis and management of kidney disease: core curriculum 2019.” American Journal of Kidney Diseases 73.2 (2019): 258-272. 6. Riella, Miguel Carlos. “Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos.” Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos. 2018. 7. Howard Trachtman, Leal C. Herlitz, Edgar V. Lerma, Jonathan J. Hogan - Glomerulonephritis - Springer International Publishing (2019) 8. Alsharhan, Loulwa, and Laurence H. Beck Jr. “Membranous Nephropathy: Core Curriculum 2021.” American Journal of Kidney Diseases (2021). 9. Feehally, J., Floege, J., Tonelli, M. and Johnson, R., 2019. Comprehensive Clinical Nephrology. 10. Moura, L. R. R.; Alves, M. A. R.; Santos, D. R.; Pecoits Filho, R. Tratado de Nefrologia - 2018 11. Radhakrishnan, J., 2021. UpToDate. [online] Uptodate.com. Available at: [Accessed 2 February 2021]. 12. Niaudet, P., 2021. UpToDate. [online] Uptodate.com. Available at: [Accessed 16 January 2021]. 13. Ahn, Wooin, and Andrew S. Bomback. “Approach to diagnosis and management of primary glomerular diseases due to podocytopathies in adults: core curriculum 2020.” American Journal of Kidney Diseases (2020). 14. Floege J, Barbour SJ, Cattran DC, et al. Management and treatment of glomerular diseases (part 1): conclusions from a Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Controversies Conference. Kidney Int 2019; 95: 268- 280. 15. Rovin BH, Caster DJ, Cattran DC, et al. Management and treatment of glomerular diseases (part 2): conclusions from a Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Controversies Conference. Kidney Int 2019; 95: 281- 295. 16. Hahn D, Hodson EM, Willis NS, et al. Corticosteroid therapy for nephrotic syndrome in children. Cochrane Database Syst Rev 2015: CD001533. 41 Doenças do Glomérulo Prof. Ricardo Leal | Nefrologia | Janeiro 2022 CAPÍTULO 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Antes de tudo, gostaria de parabenizá-lo(a) por terminar este material. As doenças glomerulares não são fáceis de reconhecer na prática clínica ou nas provas, mas quero que você se apegue aos padrões! Tente, ao máximo, levar em consideração todos os fatores: idade, polo nefrítico ou nefrótico, consumo ou não de complemento e presença de possível causa secundária. Esse é o caminho para aumentar a taxa de acerto nas questões. No mais, conte sempre com o time de Nefrologia do Estratégia MED. Lembre-se de que sua caminhada também é nossa. Até o próximo livro! 1.0 INTRODUÇÃO ÀS DOENÇAS GLOMERULARES 2.0SÍNDROME NEFRÍTICA 2.1 Glomerulonefrite pós-estreptocócica 2.1.1 Introdução e patogênese 2.1.2 Manifestações clínico-laboratoriais e diagnóstico 2.1.3 Diagnóstico diferencial e tratamento 2.2 Nefropatia por IgA 2.2.1 Introdução e patogênese 2.2.2 Manifestações clínicas e diagnóstico 2.2.3 Tratamento e prognóstico 2.3 Nefrite lúpica 2.3.1 Introdução 2.3.2 Classificação histológica 2.4 Vasculites associadas ao ANCA 2.5 Crioglobulinemia 3.0 SÍNDROME NEFRÓTICA 3.1 Morbidades relacionadas à síndrome nefrótica 3.1.1 Dislipidemia, trombofilia e infecções 3.1.2 Proteinúria 3.2 Doença de lesões mínimas 3.2.1 Introdução 3.2.2 Manifestações clínicas e diagnóstico 3.2.3 Tratamento e recidivas 3.3 Glomeruloesclerose segmentar e focal 3.3.1 Introdução 3.3.2 Manifestações clínicas 3.3.3 Causas secundárias 3.3.4 Tratamento 3.3.5 Nefropatia do HIV 3.4 Glomerulopatia membranosa 4.0 GLOMERULONEFRITE RAPIDAMENTE PROGRESSIVA 4.1 PAPEL DA IMUNOFLUORESCÊNCIA 4.2 DOENÇA DE GOODPASTURE 5.0 Lista de questões 6.0 referências bibliográficas 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAISSÍNDROME NEFRÍTICA 2.1 Glomerulonefrite pós-estreptocócica 2.1.1 Introdução e patogênese 2.1.2 Manifestações clínico-laboratoriais e diagnóstico 2.1.3 Diagnóstico diferencial e tratamento 2.2 Nefropatia por IgA 2.2.1 Introdução e patogênese 2.2.2 Manifestações clínicas e diagnóstico 2.2.3 Tratamento e prognóstico 2.3 Nefrite lúpica 2.3.1 Introdução 2.3.2 Classificação histológica 2.4 Vasculites associadas ao ANCA 2.5 Crioglobulinemia 3.0 SÍNDROME NEFRÓTICA 3.1 Morbidades relacionadas à síndrome nefrótica 3.1.1 Dislipidemia, trombofilia e infecções 3.1.2 Proteinúria 3.2 Doença de lesões mínimas 3.2.1 Introdução 3.2.2 Manifestações clínicas e diagnóstico 3.2.3 Tratamento e recidivas 3.3 Glomeruloesclerose segmentar e focal 3.3.1 Introdução 3.3.2 Manifestações clínicas 3.3.3 Causas secundárias 3.3.4 Tratamento 3.3.5 Nefropatia do HIV 3.4 Glomerulopatia membranosa 4.0 GLOMERULONEFRITE RAPIDAMENTE PROGRESSIVA 4.1 PAPEL DA IMUNOFLUORESCÊNCIA 4.2 DOENÇA DE GOODPASTURE 5.0 Lista de questões 6.0 referências bibliográficas 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS