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Roberta Ribeiro Biblioteca Woody Allen © 2005 by Circe Maria Fernandes Bittencourt © Direitos de publicação CORTEZ EDITORA CIRCE MARIA FERNANDES BITTENCOURT Rua Monte Alegre, 1074 Perdizes 05014-001 São Paulo SP Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 cortez@cortezeditora.com.br www.cortezeditora.com.br Direção José Xavier Cortez Editor Amir Piedade Preparação Ensino de Alexandre Soares Santana Revisão Auricélia Lima Souza Alexandre Ricardo da Cunha História: Rodrigo da Silva Lima Edição de Arte Mauricio Rindeika Seolin fundamentos Ilustração de capa Antônio Carlos de Pádua e métodos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bittencourt, Circe Maria Fernandes Ensino de história: fundamentos e métodos / Circe Maria Fernandes Bittencourt 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011 (Coleção docência em formação. Série ensino fundamental / coordenação Antônio Joaquim Severino, Selma Garrido Pimenta) ISBN 978-85-249-1069-2 Bibliografia 1. História Estudo e ensino I. Severino, Antônio edição Joaquim. II. Pimenta, Selma III. Título. IV. reimpressão 04-5240 CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História: Estudo e ensino 907 Impresso no Brasil junho de 2012 CORTEZ EDITORAPARTE HISTÓRIA ESCOLAR: PERFIL DE UMA DISCIPLINA MOREIRA, Antonio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu 2a da (Org.). Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 1994. POPKEWITZ, Thomas S. História do currículo, regu- Parte lação social e poder. In: SILVA, T. Tadeu da (Org.). sujeito da educação: estudos foucaltianos. Petrópolis: Vozes, 1994. RIO DE JANEIRO (Estado). Secretaria de Estado de Educação. Plano básico de estudos: anos iniciais da escola básica. Rio de Janeiro: COGP/Coeb, 1994. ROCHA, Ubiratan. História, currículo e cotidiano es- colar. São Paulo: Cortez, 2002. SACRISTÁN, J. Gimeno. currículo: uma reflexão so- Métodos e conteúdos bre a prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. SILLER, Javier Perez et al. Identidad en el imaginario escolares: uma relação nacional: reescritura y enseñanza de la historia. Puebla (México): Instituto de Ciencias Sociales y Humanida- necessária des; Braunschweig (Alemanha): Institut Georg-Eckert, 1997.Capítulo CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR?Conteúdos históricos: como selecionar? Atualmente, uma das maiores dificuldades dos profes- Conteúdos significativos vinculam-se a um sores de História é selecionar os conteúdos históricos critério de seleção apropriados para as diferentes situações escolares. baseado, direta ou indiretamente, nos A autonomia do trabalho docente inclui, entre outros problemas do aluno e aspectos, a escolha dos conteúdos históricos para as da sua vida, em sua condição social e diferentes salas de aula. Trata-se de optar por manter cultural. denominados conteúdos tradicionais ou selecionar conteúdos significativos para um público escolar proveniente de diferentes condições sociais e culturais e de adequá-los a situações de trabalho com métodos e recursos didáticos diversos. As atuais propostas curriculares, como foram apre- sentadas, não são idênticas umas às outras: têm certa se- melhança em relação aos fundamentos pedagógicos, mas são diversas em conteúdos e nos critérios para definir os prioritários. Há propostas que oferecem uma seleção considerada de "conteúdo tradicional", basea- da nos círculos concêntricos, que ordenam os estudos do mais próximo ao mais distante e se traduzem como o estudo de História do Brasil para posteriormente organizar os estudos da História Antiga à Contem- porânea. Outras propostas curriculares apresentam conteúdos organizados por eixos temáticos ou temas geradores, conforme o demonstrado anteriormente, e exigem que se estabeleçam critérios de seleção mais complexos.A seleção de escolares um problema publicações, verificar a presença dessa produ que reflexão. pois constitui ção nas propostas curriculares quanto em obras do domínio do disciplinan dos professo- didáticas. res. A escolha de conteúdos apresenta-se como tarefa Estabelecer relações entre produção historiográfica complexa, permeada de contradições tanto por parto e ensino de História é fundamental, mas exige um dos elaboradores das propostas curriculares quanto mesmo que parcial, dessa produção, pela dos professores, desejosos de mudanças decorrendo dessa necessidade a formação contínua ao mesmo tempo resistentes a esse processo. A dos professores, a qual, entre outras modalidades, de- opção da seleção pelos conteúdos significativos decorre ve manter cursos de atualização a fim de atender a esses de certo consenso sobre a impossibilidade de ensinar objetivos. "toda a história da humanidade" e a necessidade de A crescente e diversificada produção historiográfi- atender OS interesses das novas gerações, além de estar Cil, de materiais paradidáticos manuais escolares, no atento às condições de ensino. Estas condições são não impede a permanência de questões que múltiplas e interferem nos critérios de seleção dos surgem no momento de planejar as aulas de História. conteúdos, sendo preciso considerar desde a precarie- Quais conteúdos devem ser mantidos e quais devem ser dade da rede pública escolar até excesso de materiais introduzidos ou abolidos? De que modo introduzir didáticos de informações por intermédio ou ensinar a história contemporânca recente, como dos diversos meios de comunicação, além de organizar conflitos envolvendo Estados Unidos no Oriente conteúdos dentro dos limites do "tempo pedagó- Médio ou conflitos entre palestinos e judeus? gico" destinado à disciplina pela grade curricular. Para além das condições do sistema escolar, um as pecto fundamental que preside a seleção dos conteúdos 1. Conteúdos escolares é domínio da produção historiográfica e do processo de reelaboração e apropriação desse conhecimento e tendências historiográficas em uma situação escolar que, invariavelmente, tem de estar relacionada aos objetivos pedagógicos e às espe- Ponto básico para estabelecimento de um critério cificidades das condições de aprendizagem. para a seleção de conteúdos é a concepção de história. A produção historiográfica tem aumentado conside- Dela depende a produção dos historiadores, e conhe- ravelmente nos últimos anos, ampliando renovando cimento histórico é produzido de maneira que torne temas. Existem também novas interpretações de anti- acontecimentos inteligíveis de acordo com deter- gos temas, além da introdução de novos objetos de minados princípios e conceitos. Situar os referenciais estudo sobre a história da mulher, da criança, das reli- teóricos no processo de seleção dos conteúdos esco- giões religiosidades, das relações homem natureza, lares não tem como objetivo a participação em debates entre outros. A história do cotidiano, a história regio- acadêmicos, mas é uma necessidade para trabalho nal ou histórias locais têm sido apresentadas várias docente que permanentemente se realiza na escola. 138 139PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS COMO SELECIONAR? Conhecer e acompanhar as principais tendências Essa tendência passou a ser denominada de histo- da produção historiográfica não é apenas uma questão ricismo, cuja metodologia foi conhecida como positivis- de caráter teórico, mas trata-se também de uma neces- ta, por basear-se nos princípios da objetividade e da sidade prática, porque é com base em uma concepção neutralidade no trabalho do historiador. Os seguidores de história que podemos assegurar um critério para dessa corrente teórica dedicaram-se ao estudo da indi- uma aprendizagem efetiva e coerente. vidualidade irreproduzível e única dos atos humanos, Assim, a parte inicial deste capítulo, sem ter como destacando figuras das elites e suas biografias, sejam objetivo apresentar ampla reflexão teórica, refere-se a personalidades, sejam Estados reis, militares, Atenas, algumas das tendências historiográficas e suas relações França, Portugal, Brasil, imperadores, governadores, com a produção escolar. presidentes. O Estado ou os chefes políticos e mili- tares, cabe lembrar, eram o motor das transformações 1.1. HISTÓRIA COMO NARRATIVA e do progresso da história, considerando que o sécu- A história pode ser concebida como uma narrativa lo XIX foi o momento da criação e consolidação dos de fatos passados. Conhecer o passado dos homens é, Estados nacionais e da elaboração das nacio- por princípio, uma definição de história, e aos historia- nais", de caráter político e militar. dores cabe recolher, por intermédio de uma variedade O passado pode, nesta perspectiva, ser recons- de documentos, os fatos mais importantes, ordená- tituído e de alguma forma revivido tal qual ocorreu. -los cronologicamente e narrá-los. Os personagens são apresentados, e as cenas em que Essa tendência historiográfica constituiu-se no sécu- se movimentam são descritas com detalhes que possi- lo XIX e está relacionada ao historiador prussiano bilitam desenvolver imaginário da forma mais fide- Leopold von Ranke (1795-1886), que exerceu um pa- digna possível. pel importante na configuração dos aportes teóricos A reconstituição do passado da nação por inter- que possibilitaram fornecer um caráter científico à médio de grandes personagens serviu como fundamen- história. Os fundamentos de Ranke baseavam-se no to para a História escolar, privilegiando-se estudos das pressuposto da singularidade dos acontecimentos his- ações políticas, militares e das guerras, e a forma natu- tóricos. Cada fato histórico é único e sem possibilidade ral de apresentar a história da nação era por intermé- de repetição, devendo a reconstrução de um passado ter dio de uma narrativa. como base a objetividade, para ser "história verdadei- Muitas dúvidas e críticas coexistiram na produção ra". Os historiadores, impedidos de emitir qualquer dessa historiografia, desde o século XIX e no decorrer juízo de valor, mantendo-se sempre em uma atitude do XX. Suas premissas teóricas foram sempre questio- "imparcial" e neutra diante dos fatos, têm como objeti- nadas, notadamente no que concerne à objetividade "mostrar o que realmente aconteceu" e como méto- total do historiador e à sua neutralidade, embora se tenha do a busca e a verificação de documentos fidedignos tornado a corrente predominante na História escolar. em arquivos, cujas análises devem eliminar uma apre- A narrativa, apesar de duramente criticada, sobre- ciação subjetiva. tudo na perspectiva do historicismo, não deixou deUMA ser problema constantemente debatido pelos historia- É certo que as narrativas criam identidades, dores, e na atualidade há defensores da importância e que os personagens são apreendidos de forma mais da necessidade do à Walter Benja- "humana", com sofrimentos, alegrias e dúvidas tais min (1892-1940), em seus escritos sobre narradores como ocorrem com todos seres humanos. As expe- e a história, não descarta a importância da narrativa, riências passadas podem ser compartilhadas com quem da apresentação dos acontecimentos, para que, com vive no presente, despertam maior empatia com base no relato, se possa refletir sobre seu significado e fatos e criam afinidades. Contar ou falar sobre interpretá-lo. É famoso o exemplo desse autor relativo passado é uma forma de criar identidades, afirma 0 ao episódio narrado pelo historiador grego Heródoto: filósofo francês Paul Ricoeur. Este autor nos indica as diferenças e as semelhanças entre a narrativa como Quando 0 rei egípcio Psammenit foi derrotado e reduzido ao cativeiro pelo rei persa Cambises, este resolveu humi- ficção e a narrativa histórica. A narrativa histórica seu cativo. Deu ordens para que Psammenit fosse pos- possui inteligibilidade por se caracterizar por uma to na rua em que passaria cortejo triunfal dos persas. operação que corresponde a uma totalidade orgânica, Organizou este cortejo de modo que prisioneiro pudesse temporal, com um título no início, um meio, um fim, ver sua filha degradada à condição de criada, indo ao poço um conjunto com tempo bem determinado dentro de com um jarro, para buscar água. Enquanto todos os egíp- uma ordenação linear. cios se lamentavam com esse espetáculo, Psammenit ficou silencioso e imóvel, com os olhos no chão; e, quando logo Os debates entre historiadores para evitar confu- em seguida viu seu filho, caminhando no cortejo para ser sões entre a história de caráter científico e a ficcional executado, continuou imóvel. Mas quando viu um dos seus têm sido uma das tônicas sobre o papel da narrativa serviçais, um velho miserável, na fila dos cativos golpeou na escrita da história. A história narra acontecimentos a cabeça com os punhos e mostrou os sinais do mais pro- que necessitam ser explicados e situados em determi- fundo desespero (Benjamin, 1986, 203-204). nadas problemáticas que levam a uma compreensão Houve muitas interpretações para a atitude do im- temporal. perador. A narrativa oferece tais possibilidades porque Os traços da narrativa histórica distinguem-se pela não traz a interpretação, mas apresenta o episódio intenção de aprofundar a realidade, pela busca docu- com detalhes e particularidades dos personagens e de mental e cuidado metodológico, pela extensão de seu suas ações, de modo que, com base nesses elementos, projeto e de suas problemáticas (provenientes da his- se possa refletir sobre o ocorrido e sentir emoções tória-problema), que evidenciam personagens repre- diante do relato. Walter Benjamin insistiu na força da sentativos de sociais, e pelas temporalidades narrativa e criticava a forma pela qual, na época con- mais complexas. Existe uma responsabilidade da nar- temporânea, as notícias sobre mundo chegam até rativa histórica que é diversa daquela de caráter fic- nós por informações sucintas que não dão margem cional e não pode ser abolida. E tal responsabilidade para a interpretação da história. episódio existe também no ensino. diz-nos Benjamin, "atinge uma amplitude que não existe A utilização de uma história narrativa no ensino na informação." decorre de determinada concepção histórica e não 142 143PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? pode se limitar a despertar interesse pelo passado nos A Escola dos Annales, inaugurada por Marc Bloch alunos. A narrativa histórica é ponto inicial, e a partir e Lucien Febvre, centrou-se na produção da história- dela existe a possibilidade da compreensão dos acon- -problema para fornecer respostas às demandas sur- tecimentos por meio das ações dos sujeitos. Algumas gidas no tempo presente. Esse grupo de historiadores coleções didáticas produzem uma história ficcional insurgiu-se contra a história política, centrada em ações criada para despertar em jovens alunos o interesse pelo individuais e no poder bélico como motor da histó- passado, construindo enredos com personagens prin- ria. As produções dessa corrente giravam, sobretudo, cipais e coadjuvantes, de maneira semelhante ao que é em torno de uma história das mentalidades coletivas, realizado nas tramas de novelas de televisão. As críticas como o pensamento da burguesia relacionado à Refor- a essa forma de narrativa recaem sobre um entendi- ma Protestante, na perspectiva de entender as ações mento de história ou sobre a permanência de um histo- individuais em contextos mais amplos. Também surgi- ricismo que pretensamente reconstitui o passado, mas ram as temáticas econômicas sobre aspectos mais gerais não confere formas de reflexão sobre os acontecimentos da sociedade, destacando as formas de ocupação social nem fornece condições de interpretação deles. Os acon- em grandes espaços, em torno de mares e oceanos. tecimentos são apresentados de forma mais amena e Fernand Braudel ocupou-se do Mar Mediterrâneo, emotiva, com personagens divididos entre bons e Pierre Chaunu e Frédéric Mauro do Oceano Atlântico. maus, heróis, vítimas e carrascos, que se movimentam Historiadores franceses, na trilha de uma macro-histó- em uma história maniqueísta, com linguagem criada ria, passaram a trabalhar com grandes estatísticas, para facilitar a memorização do conteúdo, mas não registrando a produção econômica de ou de para se tornar objeto de interpretação, de questio- períodos históricos em cifras e tabelas, comparando e namentos e indagações sobre os sujeitos e suas ações. destacando as diferenças e semelhanças tanto das con- dições de infraestrutura quanto da própria população. 1.2. DE UMA HISTÓRIA ECONÔMICA A UMA HISTÓRIA SOCIAL O paradigma marxista desenvolvido paralelamen- te ao do grupo dos Annales tem como princípio o No decorrer do século XX, a produção historiográ- caráter científico do conhecimento histórico, e o fica passou a disputar espaço com as novas ciências enfoque de sua análise é a estrutura e a dinâmica das sociais que se constituíam na busca da compreensão sociedades humanas. A análise marxista parte das estru- da sociedade, especialmente a Sociologia, a Antropo- turas presentes com a finalidade de orientar a práxis logia e a Economia. Como consequência dessa disputa, social, e tais estruturas conduzem à percepção de fatores houve uma renovação na produção historiográfica com formados no passado cujo conhecimento é útil para a paradigmas que visavam ultrapassar o historicismo. atuação na realidade hodierna. Existe assim uma vincu- historiador Ciro Flamarion, ao sintetizar as tendências lação epistemológica dialética entre presente e passado. desse percurso historiográfico, identifica duas filia- Para o estudo das sociedades humanas, o marxismo ções básicas entre os anos de 1950 e 1968: à Escola utiliza como conceitos fundamentais modo de produ- dos Annales e ao marxismo. ção, formação econômico-social e classes sociais. AsCONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO PARTI MÉTODOS E CONTEUDOS UMA RELACAO NECESSÁRIA mudanças sociais ocorrem não por indivíduos iso- modos de produção e pela luta de classes. Os conteú- ladamente, mas pelas lutas sociais. As liberdades e op- dos escolares foram organizados pela formação econô- ções das pessoas são limitadas pela forças produtivas, mica das sociedades, situando os indivíduos de acordo existindo uma delimitação estrutural herdada da histó- com o lugar ocupado por eles no processo produtivo. ria anterior. As análises preponderantes dos historiado- Burguesia, proletariado, aristocracia são os sujeitos so- res marxistas dos anos 70 recaíram sobre as temáticas ciais que fornecem visibilidade às ações da sociedade, econômicas e a sociedade por elas determinadas. e os confrontos entre os diversos grupos sociais expli- Apesar das diferenças entre os marxistas e os adeptos cam as mudanças e permanências históricas. dos Annales, Ciro Flamarion identifica as aproxima- As críticas a certas produções marxistas, especial- ções entre os dois grupos. Dentre os pontos básicos mente as da linha estruturalista, não tardaram. O apontados destacam-se o abandono da história cen- sugestivo título Miséria da teoria ou um planetário de trada em fatos isolados e a tendência para a análise de erros uma crítica ao pensamento de Althusser, do fatos coletivos e sociais, a ambição em formular uma historiador inglês E. P. Thompson, marcou uma série síntese histórica global do social, a história entendida de críticas veementes a uma vertente estruturalista que como do passado" e do presente" produziu conceitos estáticos por intermédio de mode- simultaneamente, a consciência da pluralidade da tem- los explicativos pretensamente válidos para qualquer poralidade tempo do acontecimento, da conjun- sociedade em diferentes tempos e espaços. A partir de tura e da longa duração ou da estrutura. Thompson começou a aparecer uma produção his- O impacto do marxismo entre os historiadores foi toriográfica marxista com ênfase em conteúdos sociais, articulando o conceito de classe social ao de cultura. bastante intenso, variando entre tendências mais vol- Thompson estava "convencido de que não podemos en- tadas para a história econômica e as ligadas a uma tender classe social a menos que a vejamos como uma história social neste caso, sobretudo dos historia- formação social e cultural, surgindo de processos que só dores ingleses como Eric Hobsbawm, Perry Anderson e podem ser estudados quando eles mesmos são Cristhopher Hill. dos durante um considerável período concluin- Cf. acerca deste No ensino de História, a tendência marxista foi problema o artigo do assim que "classe é uma formação tanto cultural como "Capitalismo e marcante a partir do fim da década de 70 e ainda per- econômica" e é "definida pelos homens enquanto vivem cidadania nas atuais manece como base da organização de conteúdos de propostas curriculares sua própria (1987, 12-13). de História", em Saber várias propostas curriculares e de obras didáticas. Os Em decorrência dos debates suscitados, houve, entre histórico na sala de aula períodos históricos delimitados pelos modos de pro- os marxistas, renovação importante sobre a concep- (São Paulo: Contexto, dução têm servido como referência, e, notadamente, ção de poder. Este era entendido sempre em suas rela- 1997), de Circe M. Fernandes Bittencourt, estuda-se o tempo do capitalismo. ções com o Estado, e os novos estudos passaram a organizadora da obra e O denominado histórico" serviu de preocupar-se com outras esferas de lutas e de domi- autora do artigo. base para a elaboração de muitas obras didáticas, nação. A produção da história social incorporou as condição que consolidou a organização de conteúdos lutas e os movimentos sociais provenientes de dife- da história das sociedades do mundo ocidental pelos rentes setores da sociedade. 147 146PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? Os movimentos sociais, tais como os feministas, os XX, muitos historiadores aproximaram-se dos sujei- ambientalistas, os étnicos e os religiosos, seus confron- tos e objetos de investigação da Antropologia. O en- tos e lutas com as discriminações e preconceitos, além contro da História com a Antropologia foi significativo da continuidade das lutas por direitos trabalhistas, para a compreensão da própria noção de história, cuja situaram a história social no centro das problemáticas existência se iniciava, segundo a maioria das obras didá- das pesquisas históricas. No Brasil, particularmente, ticas, apenas após a invenção da escrita. Os povos sem os temas sociais propiciaram a incorporação de novos escrita, esquecidos ou anulados pela "história da sujeitos, provenientes dos setores populares, sendo esta como é o caso das populações africanas e produção conhecida como "história dos vencidos". indígenas, foram incorporados à historiografia, o que Parte dessa historiografia foi introduzida pelas pro- obrigou os historiadores a recorrer a novos métodos postas curriculares e pela produção didática, mas tem de investigação histórica, introduzindo novas fontes sido questionada por possibilitar interpretações de de importância fundamental em suas pesquisas, como caráter maniqueísta os bons e os maus sendo a memória oral, as lendas e mitos, os objetos mate- os vencidos geralmente apresentados como grupos do- riais, as construções, entre outras. minados totalmente e transformados em não sujeitos Como fruto dessa aproximação com a Antropologia, históricos, como é o caso das populações indígenas sedimentou-se uma história cultural que atualmente da América. procura vincular a micro-história com a macro-história Na França, seguidores dos Annales multiplicaram e tem sido conhecida como nova história cultural, seus objetos de investigação, surgindo uma variedade com propagação em escala mundial. Essa tendência de temas próximos da Sociologia. Essa produção, de- renovou a história das mentalidades e, sobretudo, a nominada de nova história, acabou, por sua vez, sendo "velha história das ideias", inserindo-as em uma pers- alvo de uma série de críticas pelo caráter fragmentário pectiva sociocultural preocupada não apenas com o de seus objetos de estudo, não havendo preocupação pensamento das elites, mas também com as ideias e com uma história de caráter mais global, e pela ausên- confrontos de ideias de todos os grupos sociais. cia de fundamentação teórica ou solidez nas catego- A essa nova história cultural juntou-se outra corrente rias de análise (atores sociais, cultura popular, etc.). Foi atribuída a essa produção o título de "história em que tem procurado renovar a história política. A in- migalhas", em razão do predomínio da micro-história e vestigação da história atual procura renovar os temas da ausência de preocupações políticas ou de articu- políticos, introduzindo a história das culturas políti- lação mais estrutural da sociedade. cas, dos regimes e sistemas de governo e das repre- sentações de poder. A renovação da história política 1.3. ENTRA EM CENA A HISTÓRIA CULTURAL também faz-se com embates entre posições distintas. Há uma perspectiva de análise globalizante, preocu- Paralelamente a essas duas correntes, a marxista e pada com o papel do Estado e suas instituições, e há a nova história, no decorrer dos anos 80 do século outra forma de análise, sob a influência do filósofoPARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? francês Michel Foucault, que se interessa mais pelas 1.4. HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE OU diversas esferas de poder do que propriamente pelos pro- o PRESENTE COMO HISTÓRIA blemas políticos. Os estudos baseados em Foucault preocupam-se com os micropoderes e as diversas es- Vários historiadores têm-se dedicado à história mais tratégias de dominação, desde a organização familiar recente, denominada de história contemporânea ou aos presídios, escolas, hospitais, etc. história do tempo presente. Na França foi criado Para o historiador Ronaldo Vainfas em seu artigo Instituto de História do Presente, que se dedica à pes- "Caminhos e descaminhos da História", no qual faz quisa de temas atuais e tem aprofundado os debates um inventário da produção histórica recente, o pro- teóricos e metodológicos sobre um passado muito blema que ora se apresenta refere-se à possibilidade próximo que inclui a apreensão do presente como his- de "alguma compatibilização entre abordagens globali- tória, também conhecido como história imediata. São intensos os debates acerca dos pressupostos de zantes e análises microscópicas na investigação histórica, ancorando-se na proposta de articulação entre macro e uma apreensão objetiva dos acontecimentos vividos no calor do momento, de um presente que envolve micro-história" (Cardoso e Vainfas, 1997, 445). As emocionalmente quem o analisa e que constitui, por abordagens macro e micro-histórica não são necessaria- essa razão, uma história descartada por muitos histo- mente excludentes, sustenta o autor, que dá exemplos riadores. Para os defensores dessa abordagem, um de produções historiográficas bem-sucedidas ao estabe- ponto fundamental é a sua importância política, ou lecerem essa articulação. João dos Reis, um dos autores seja, a necessidade de refazer uma história política citados, analisou a revolta dos malês na Bahia, em 1835, diferente da realizada por correntes historiográficas e pela trama do movimento encontrou caminhos para anteriores, que situavam a análise política apenas nas articular a realidade dos escravos em seu cotidiano à ações institucionais centradas no Estado-nação. A história das lutas escravas no Brasil, em uma perspec- história política parece ter sido abolida pela história tiva de macro-história. Podem-se encontrar vários nova francesa, conforme assinalamos, e os defensores outros historiadores que realizam abordagens seme- de uma história imediata pretendem retomar essa fina- lhantes, tanto brasileiros quanto estrangeiros, e disso lidade da pesquisa historiográfica com a qual devem se conclui que essa concepção de produção historio- estar comprometidos profissionais de história, tanto gráfica é um dos grandes desafios para os historiadores os pesquisadores como os professores das academias e e representa uma tendência promissora. demais níveis de ensino. Essa concepção de história que visa articular a Para alguns pesquisadores da área de ensino de micro e a macro-história é também um desafio para História, torna-se fundamental o domínio conceitual o ensino de História. As relações entre micro e da história do tempo presente, a fim de que o ensino da macro-história fundamentam algumas das propostas disciplina possa cumprir uma de suas finalidades: "li- curriculares, e delas depende a seleção de conteúdos bertar aluno do tempo presente" algo paradoxal históricos escolares. à primeira vista. Essa aparente contradição ocorre 150 151PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? porque o domínio de uma história do presente forne- Assim, a relação presente-passado restringe-se a ce conteúdos e métodos de análise do que "está acon- alguns comentários pontuais e a definição inicial esva- tecendo" e as ferramentas intelectuais que possibilitam zia-se, situação que conduz a perguntas inquietantes e aos alunos a compreensão dos fatos cotidianos des- reiteradas de alunos sobre o porquê do ensino de providos de mitos ou fatalismos desmobilizadores, além História. A história imediata é também comentada nas de situar os acontecimentos em um tempo histórico aulas de História quando acontecimentos mais trágicos mais amplo, em uma duração que contribui para a são divulgados pela mídia, como uma espécie de compreensão de uma situação imediata repleta de exigência por parte dos alunos e pelo próprio com- emoções. O estudo do contemporâneo no dizer do promisso do professor com a formação política deles. historiador Michel Trebisch, uma das "virtudes Entretanto, a história do tempo presente possui exi- gências metodológicas e conceituais, para que não se pedagógicas" sempre foi favorecido pelos planos transforme em repetições de ensaios jornalísticos pouco escolares, embora tenha sido apresentado como uma profundos nas análises. Um ponto crucial é situar essa história apenas factual e, na maioria das vezes, para história dentro do conceito de contemporâneo e situar cumprir desígnios ideológicos de determinados grupos sua periodização. Com base no conceito de longa dura- do poder governamental. ção, pode-se perceber que a história do presente tem É muito usual, nas introduções das obras escolares outras escalas de tempo e espaço. No que se refere ao e nos planos dos professores, notadamente para as tempo, a concepção de contemporâneo está associa- quintas séries, quando se inicia o estudo por intermé- da a uma temporalidade de mudanças aceleradas, e, dio de especialistas, ocupar-se em fazer o aluno apren- no que se refere ao espaço, trata-se de pensar em uma der "o que é São propostas definições, tais história mundial. como "História é a ciência que estuda o passado dos As mudanças aceleradas marcam as concepções de homens para entender o presente e criar projetos para contemporâneo, e, para apreender o significado de tais o futuro". Essas definições são repetidas por muitos ritmos de transformações, é importante entender a alunos quando indagados, tanto nas provas quanto categoria de modernidade. A modernidade significa o em entrevistas concedidas a pesquisadores. São frases rompimento com outro tempo o tempo antigo repetitivas que aparentemente têm pouco significado e traz no seu âmago mudanças provocadas por revolu- para eles e tornam-se incoerentes diante dos conteú- ções a Revolução Industrial, por exemplo, funda- dos apresentados. Os cursos, em geral organizados mental nas mudanças no processo produtivo e nas pela ordenação cronológica, centrados na ideologia relações sociais na vida contemporânea. Por intermédio do "mito de não chegam ao "presente": mui- da modernidade podem-se pensar as relações presente- to dificilmente os alunos conhecem mais do que o passado sob outra ótica, inicialmente identificando o período do presidente Getúlio Vargas na história bra- passado no presente (segundo pensamento do histo- sileira e as aulas atingem, com bastante esforço do riador Fernand Braudel, o tempo presente é feito de professor e isto já no fim do ensino médio a 90% do passado) e ainda entendendo e abordando o Guerra Mundial. presente como passado.PARTE CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? O historiador brasileiro Marcos Napolitano apon- historiador francês René Rémond, em A intro- ta outros requisitos para o estudo da história do tem- dução da história do nosso tempo, escreveu uma frase po presente. Tendo como pressuposto que esse tempo que pode sintetizar a importância e os problemas da histórico favorece a redefinição de uma história políti- história do tempo presente para historiadores e professo- ca, como foi anteriormente assinalado, o estudo do con- res: impossível compreender seu tempo para quem igno- temporâneo exige a utilização de novos documentos ra todo 0 passado; ser uma pessoa contemporânea é também entre outros, os produzidos pela mídia. Favorece, ter consciência das heranças, consentidas ou contestadas" pela abordagem do fenômeno político, estudos "das (1988, p. 30). paixões políticas (a paixão revolucionária, a paixão tota- litária) e seu contrário, a 'apatia a análise do capitalismo administrado e seu corolário, a 'indústria 2. História nacional ou mundial? cultural' ". Para efetivar tais estudos, é preciso recorrer a fontes audiovisuais (cinema, fotografia), sonoras e Entre os problemas para a seleção de conteúdos, orais, assim como ao uso "do vasto material produzido existe a dúvida sobre privilegiar uma história nacio- pela imprensa diária" (Napolitano, 2003, p. 170). nal ou uma história geral ou mundial. Ao longo do A história entendida ao mesmo tempo como ensino de História no Brasil, a História Geral ou "das do passado" e do presente" gera cuidados civilizações" tem sido privilegiada e, na atualidade, para o pesquisador e para o professor. Este, ao propor a história brasileira tem sido novamente posta em temas para os alunos estudarem, os quais são sele- posição secundária, conforme pode ser verificado nas cionados com base nos problemas do presente, pre- tendências da produção didática, voltada para a com- cisa estar atento para não incorrer em equívocos tidos preensão do mundo globalizado. como "pecados capitais". A história ensinada por temas cuja problematização se baseie na história do tempo 2.1. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO presente pode cometer o pecado de ser anacrônica, ao DE HISTÓRIA DO BRASIL apresentar uma trajetória que se inicia no presente e depois retoma o tema em outras sociedades do pas- Na era da mundialização, parece ultrapassado o sado de forma superficial, cobrando dos agentes de ensino da História nacional, muitas vezes entendido outrora valores que são contemporâneos nossos. como responsável pela constituição de uma identidade O outro "pecado capital" é desconsiderar, tanto no nacional ideologicamente comprometida com inte- presente como no passado, o contexto que funda- resses de determinadas elites dominantes. Se a cons- menta as diferenças e semelhanças, contando com tituição de um nacionalismo "de direita" fez parte dos informações insuficientes para que se entendam as objetivos da disciplina, não significa que se possam permanências e as mudanças das sociedades estuda- ignorar os estudos da História do Brasil e deixá-los das e correndo o risco de reforçar a ideia do presente em posição subalterna. Com a difusão do culto à como um momento histórico "evoluído" e a de outros globalização, a história nacional pode ser considerada tempos como "atrasados". como um conteúdo desnecessário, por ser de cunho 154 155PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? conservador e limitador da modernização. O atual está- à concepção de história integrada que merece atenção. gio do capitalismo associa a modernização e a tecnolo- A história integrada conta com uma abordagem que gia ao mundo da globalização, e tudo o que se refere apresenta inovações, entre as quais a introdução do a nacionalismo corresponde a uma representação de tempo sincrônico, que permite estabelecer novas pos- "atraso". A política da desnacionalização da economia turas nas relações entre tempo e espaço e entre a his- em seus diversos setores, incluindo os considerados tória nacional e a mundial. Entretanto, constata-se como "base da riqueza nacional" política essa que que os conteúdos de História do Brasil são apresen- envolveu, ou ainda envolve, por exemplo, os con- tados, na maior parte dessas obras, escassamente: frontos em torno da Companhia Vale do Rio Doce Uma análise de algumas obras didáticas recentes e com ou da Petrobrás evidencia que o ideário nacionalista grande vendagem, para 0 ensino fundamental e para o pode ser entendido como retrógrado e ultrapassado ensino médio, permite, por exemplo, identificar rápida e ante os projetos do moderno capitalismo globalizado. facilmente a diluição de conteúdos da história do Brasil. A História do Brasil, tal como se apresentou na Apenas para exemplificar, em um rápido levantamento Parte, Capítulo II, nunca foi conteúdo conside- quantitativo, em um livro didático para o ensino médio, rado essencial para a formação da identidade nacio- confeccionado segundo atual modelo de volume único nal, o que vale também para os tempos atuais. A para as três séries, verifica-se que dos 42 capítulos apre- sentados, apenas 12 são efetivamente de conteúdos de his- História do Brasil tende a continuar como parte tória do Brasil. 0 mesmo pode ser observado em coleção menos substantiva dos conteúdos históricos escolares, para 0 ensino fundamental, qual em um total de 168 enquanto se preconiza o ideário de uma identidade capítulos organizados para 4 séries, existem apenas 30 supranacional, para que todos possam se sentir "cida- relativos à história brasileira (Bittencourt, 2003, p. 188). dãos do mundo". As novas necessidades de análise aprofundada de A diminuição dos conteúdos referentes ao Brasil uma história mundial, no entanto, não podem relegar explica-se não pela sua inserção em uma história inte- o conhecimento sobre "as coisas e as gentes brasi- grada, mas pela opção teórica que continua priorizan- leiras" a segundo plano. O desprezo pelo aprofunda- do apenas as explicações estruturais para as situações mento da história nacional pode estar relacionado a nacionais ou regionais. A história do Brasil aparece uma abordagem contraditória que vincula os nossos como apêndice da história global, e sua existência problemas todos às explicações exógenas, as quais os deve-se ao desenvolvimento do capitalismo comercial, veem determinados por situações supranacionais. Nes- a partir da expansão marítima europeia. A macro-his- sa mesma linha de raciocínio, o modelo interpretativo tória é a lógica e a chave para a compreensão da nossa da realidade brasileira é igualmente supranacional. condição de país permanentemente periférico do sis- A produção didática mais recente, com exceção da tema econômico capitalista. correspondente às séries iniciais do nível fundamen- As problemáticas nacionais deixam de constituir o tal, apresenta uma diminuição acentuada de conteúdos eixo norteador dos conteúdos, e as explicações histó- da história nacional. Trata-se de tendência associada ricas são fornecidas externamente. Essa postura já foiPARTE MÉTODOS CONTEÚDOS UMA NECESSÁRIA CONTEUDOS predominante nos anos 60 e 70 do século passado, mo- A produção historiográfica sobre o Brasil teve sig- mento em que se difundiam no ensino de História as nificativo crescimento, a partir dos anos 70, com histo- explicações fundadas na teoria da dependência, sob o riadores de várias tendências, como foi assinalado, os impacto do imperialismo norte-americano na América quais notadamente têm privilegiado a história social Latina. Como afirmam historiadores dedicados a esse e a cultural e renovado a história política. Essa produ- período e espaço histórico, o peso do imperialismo ção pode ser acompanhada nas variadas publicações impedia que se situasse a dinâmica interna de cada país, de livros e de artigos de revistas, como a Revista Bra- as relações entre Estado e sociedade, e valorizava-se sileira de História da Anpuh. Essa recente produção exclusivamente a intervenção das potências hegemô- historiográfica sobre o Brasil favorece, sem dúvida, a nicas na história da sociedade brasileira. As análises renovação dos conteúdos históricos escolares. Favore- centravam-se em uma visão dualista, baseada nas cate- ce a revisão de muitos dos da história", como a gorias de "desenvolvimento" e "subdesenvolvimento", Independência do Brasil e a abolição dos escravos, as quais não expunham os problemas internos criados além de possibilitar uma ruptura com a lógica da his- pelo poder institucional e a série de manobras e confli- tória eurocêntrica. tos internos para a manutenção dos privilégios das eli- O já bastante criticado pressuposto eurocêntrico, tes nacionais responsáveis pelas desigualdades sociais, que tem presidido a seleção dos conteúdos escolares, econômicas e culturais. pode ser substituído por intermédio de uma reflexão Essa perspectiva acarretava formas identitárias con- mais aprofundada acerca do próprio conceito de his- traditórias, mas prevalecia o fortalecimento da ideolo- tória mundial ou da chamada história da civilização. gia do modelo anglo-saxão de dominação, responsável A história do Brasil precisa necessariamente ser e estar pelo desenvolvimento norte-americano. Em uma pos- integrada à história mundial para que seja entendida tura mais crítica, chegava-se a certa identidade com em suas articulações com a história em escala mais os demais países latino-americanos, mas limitada a ampla e em sua participação nela. A História mun- uma visão derrotista diante do imperialismo norte- dial não pode estar limitada ao conhecimento sobre -americano, uma vez que "somos todos atrasados". a história do mundo, que na realidade é a história da Na atualidade, corre-se o risco de difusão dessa Europa. Não se trata de negar a importância e o lega- visão, se não houver um esforço na redefinição e no do da Europa para a nossa história; trata-se, antes, de aprofundamento do conhecimento histórico do Brasil não omitir outras histórias de nossas heranças ameri- sem dogmas e maniqueísmos. Ao enfatizar-se a inte- canas e africanas. Torna-se fundamental, como tem gração constante do Brasil a uma história mundial, sido pleiteado pelo movimento das comunidades sem situar devidamente os problemas nacionais e negras, o conhecimento da história da África em seus ampliar o conhecimento sobre a realidade brasileira, componentes mais complexos, que envolvem as nos- pode-se reforçar a ideia de que os conflitos internos e sas heranças, sempre mal compreendidas, das seus agentes sociais desempenham papel secundário populações negras. Um dos trabalhos recentes que na construção de uma nação. esclarecem com profundidade as relações intrínsecas 158 159PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? entre a história da nossa sociedade e a história das Em República em migalhas: história regional e local, sociedades africanas escravizadas é o livro Trato dos uma publicação da Anpuh de 1990, vários especia- viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz listas indicam que a pesquisa de história regional a Felipe de Alencastro: Brasil colonial tem sido estu- partir de 1970 cresceu bastante em razão do esgota- dado da mesma maneira que a Lua era observada antes mento das macroabordagens, que enfatizavam as análi- dos voos espaciais: do lado que reflete Sol, do lado de ses mais gerais e não se detinham nos estudos mais Portugal, da Europa. Incorporar os eventos transcorridos particulares que melhor indicavam as diferenças da em Angola à narrativa dos eventos brasileiros é como história recente do País, tais como o incessante pro- descobrir o lado escondido da Lua, a metade oculta da cesso migratório, as disparidades socioeconômicas, a história do Brasil" (2000, quarta capa). concentração de renda e o crescimento urbano, entre Tal como está explicitado na apresentação da obra, outras realidades que modificavam profundamente a abrem-se novos paradigmas para um conhecimento organização espacial brasileira. que estabeleça relações entre a nossa sociedade e as A história regional passou a ser valorizada em vir- demais, ultrapassando o modelo histórico eurocêntrico. tude da possibilidade de fornecimento de explicações É importante incluir o estudo de outras sociedades para na configuração, transformação e representação social a compreensão da sociedade brasileira, sendo possível do espaço nacional, uma vez que a historiografia criar outros conhecimentos históricos sobre outros nacional ressalta as semelhanças, enquanto a regional espaços e populações negligenciados ou ideologicamen- trata das diferenças e da multiplicidade. A história te omitidos. Pode-se assim, entre outros tópicos, incor- regional proporciona, na dimensão do estudo do sin- porar em uma concepção de história mundial a África gular, um aprofundamento do conhecimento sobre a e o Oriente Médio, de maneira que se apresente a his- história nacional, ao estabelecer relações entre as situa- tória dos povos islâmicos, a qual chega a nós sempre ções históricas diversas que constituem a nação. revestida de preconceitos, quase que exclusivamente fil- Assim, a revisão da história nacional tem igualmen- trada pelos meios de comunicação provenientes da te proporcionado a revalorização da história regional. mídia norte-americana. A constituição da história nacional tem sido realizada de acordo com parâmetros regionais para a compreen- 2.2. HISTÓRIA REGIONAL E NACIONAL: são do País como um todo. A historiadora Maria de CONCEPÇÕES E PROPOSTAS Lourdes Janotti afirmou, no artigo "Historiografia: uma questão regional?", que a história nacional tem As histórias regionais têm caracterizado parte da sido apreendida pelo olhar da região mais hegemô- produção historiográfica de vários países, especial- nica. Dessa forma, a história da economia agroexpor- mente aqueles de maiores dimensões, como o Brasil. tadora cafeeira e da industrialização passou a constituir A história regional tem sido, entretanto, objeto de temática privilegiada para explicar a história do Brasil debates constantes entre historiadores e apresenta-se a partir de 1850, mas o que acabou sendo entendido como um desafio do ponto de vista teórico. como história nacional é efetivamente a história dePARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA CONTEUDOS HISTORICOS: COMO São Paulo e do domínio econômico de sua burguesia. As propostas de um ensino de história regional estão Mercado Comum do Sul Mercosul criado Se a compreensão da história do capitalismo no Brasil relacionadas às políticas econômicas que objetivam fa- pelo Tratado de Assunção, zer frente à hegemonia do imperialismo americano ou assinado pelos governos da não pode prescindir da compreensão da história de Argentina, Brasil, Paraguai São Paulo, não é cabível, por outro lado, entender as constituir uma forma de resistência à globalização. Uma e Uruguai em 26 de março de 1991, constitui um conceito de região demais como parte menor da configuração dessas formas de resistência tem sido o desenvolvimen- espaço regional em que se tem sido revisto pelos histórica nacional. to de organizações regionais no âmbito econômico- desenvolve um processo de geógrafos, que integração econômica, ultrapassaram o No caso do ensino, sua característica básica tem -político. A União Europeia e o Mercosul são exemplos cultural e política. Aos entendimento de sido a de produzir uma história de caráter nacional, dessa ação que visa ampliar os mercados nacionais por quatro países signatários do natural", composta de tratado original, mais dois um conjunto de embora, em seu percurso nas escolas, não tenha deixa- meio de um processo de integração regional. países se juntaram na elementos naturais do de lado o estudo do local, das histórias das cida- Em decorrência dessa estratégia, surgiram propos- categoria de países "associados": Chile e homogêneos na des, dos Estados e regionais. O estudo da história da tas de políticas educacionais para facilitar intercâm- Bolívia. hidrografia, vegetação, clima, relevo, para província (depois Estado da Federação) do aluno, como bios e desenvolver formas de integração mais sólidas chegar a uma concepção História do Paraná, do Rio Grande do Norte ou do entre os países participantes. No caso do Mercosul, os mais voltada para a Rio Grande do Sul, faz parte de uma tradição escolar forma pelas quais os programas educacionais têm procurado desenvolver homens organizam o brasileira, tendo integrado programas escolares antes uma cooperação científico-tecnológica, favorecendo o espaço, tornando-o do surgimento dos fundamentos piagetianos. A iden- intercâmbio de estudantes e profissionais. Os projetos particular dentro de uma tidade resultante desse sentimento de pertença à terra organização econômica e educacionais visam ampliar o conhecimento mútuo e social mais ampla. Esse natal, à província (depois Estado) ou região antecipou incentivar a aprendizagem de idiomas dos países inte- conceito de região a constituição de uma identidade nacional e justificava permite trabalho do grantes. Nesse contexto, é considerado como de impor- historiador, ao dedicar-se (ou justifica) plenamente a inserção das histórias dos tância estratégica o ensino de História e Geografia. A à constituição histórica Estados ou regionais como conteúdo histórico escolar. regional em um processo expectativa de uma integração regional está explícita Em propostas curriculares atuais para as séries ini- de mudança e em documentos oficiais dos países pela criação do transformação. É ciais do ensino fundamental e em produções didáticas, Setor Educacional do Mercosul: possível entender a as histórias dos Estados são mantidas, mas não exata- região como construção mente uma história da região. À ideia de mercado comum, que deu início ao Mercosul, histórica, e não apenas Na produção historiográfica, é possível identificar nos moldes da União Europeia, agrega-se a necessidade da como divisões regionais administrativas. estudos regionais sobre a Amazônia, a região platina ou construção de um espaço físico, social e culturalmente PRADO, Iara. Abertura a nordestina. Essa produção, majoritariamente, origina- integrado. do Seminário Regional -se de uma concepção de região econômica, e isso E nesse sentido papel da escola é fundamental. E, dentro sobre ensino de História da escola, é especialmente por meio do ensino da História e Geografia no contexto explica o porquê de encontrarmos estudos sobre a eco- do Mercosul. In: e da Geografia que podemos introduzir a formação, tão nomia açucareira do Nordeste colonial brasileiro ou BRASIL. MEC. 0 ensino importante, da consciência cidadã e da consciência de tem- de História e Geografia sobre as regiões cafeeiras do Vale do Paraíba no século po, espaço e fato histórico. contexto do Mercosul. XIX. Na atualidade, em uma dimensão que ultrapassa Espaço que transcende a esfera do mercado e dos interesses Brasília: SEF, 1998. a história das dentro de uma nação, existem econômicos e que, contexto do Mercosul, deve ser lugar propostas de estudos de regiões internacionais. em que a sociedade pode interagir em busca de sua identidade. 162 163PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? Explicita-se assim, no discurso oficial, a relação como foi apresentado no histórico da disciplina. A entre ensino de História e a constituição de iden- associação entre cotidiano e história de vida dos alu- tidade; no caso, o estabelecimento de uma relação de nos possibilita contextualizar essa vivência em uma vida identidade nacional com a regional. em sociedade e articular a história individual a uma De acordo com tais expectativas, as propostas para história coletiva. Uma articulação dessa natureza o ensino de História incidem em estudos de temas requer concepção de cotidiano que não se apresente comuns da região do Cone Sul ou que possibilitem como mera motivação para o estudo do passado, sele- comparações. Em debates sobre as propostas, o histo- cionando as experiências amorosas de reis e rainhas riador argentino Alejandro Eujanian ressaltou: ou o dia a dia de pessoas comuns ou famosas pau- [0] Mercosul deve ser apresentado nos currículos como um tados por meras descrições curiosas e desligadas do BRASIL. MEC. processo em construção histórica que está em seus passos contexto social da existência desses indivíduos. ensino de História e Geografia no contexto do iniciais. Neste contexto recomenda-se, portanto, evitar A opção pela história do cotidiano e pela história Mercosul. Brasília: SEF, cair na elaboração de um relato histórico que, substituin- 1998, p. 42. local merece uma reflexão a respeito de seus pres- do 0 espaço que tiveram as histórias nacionais, permita 0 supostos, para uma seleção de conteúdos coerente mesmo tipo de equívocos de uma história enclausurada, centralista e elitista. com os objetivos centrais da disciplina. As propostas de temas de estudos históricos regio- 3.1. CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA DO COTIDIANO nais para os países do Mercosul são: A história do cotidiano tem se convertido em uma Estudo histórico das diversas etnias. das correntes assumidas por gerações de historiadores Fronteiras como espaços de intercâmbio e isolamento. preocupados com uma história social capaz de redi- Passado colonial na perspectiva de estudos comparados. mensionar a visão política. Historiadores inspirados nos pressupostos marxistas, como Agnes Heller e E. Estudo dos conflitos entre Estados nacionais numa Thompson, em suas reflexões reconheceram a necessi- perspectiva regional. dade dos estudos do cotidiano a fim de fazer emergirem BRASIL. MEC. ensino de História As ditaduras militares recentes na América Latina e as tensões sociais do dia a dia, as formas improvisadas Geografia os circuitos do exílio. de lutas, de resistência e de organizações diferentes contexto do Mercosul. das estabelecidas pelo poder institucional. Maria Odila Brasília: SEF, 1998. A produção cultural numa perspectiva histórica. L. da Silva Dias, após pesquisar o cotidiano de mulhe- res em São Paulo no século XIX, deu a conhecer uma 3. Cotidiano e história local história da condição feminina que possibilita recupe- rar os preconceitos, as formas de trabalho escravo diverso Tem sido comum em propostas curriculares e em al- do realizado nas grandes propriedades rurais, as dificul- gumas produções didáticas introduzir a história do coti- dades e a marginalização de mães solteiras, trabalha- diano e a história local, opção esta que não é recente, doras urbanas que desempenharam papel históricoPARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEUDOS COMO semelhante ao de muitas mulheres atuais, criando os religiosidade, costumes, trabalho e formas de sobre- Dentre as várias obras filhos e participando de uma economia informal que vivência, enquanto outro medievalista, George Duby, sobre essa temática, até os dias atuais desafia os especialistas em história apresenta em Guilherme, 0 marechal a mentalidade econômica e os economistas. dos cavaleiros feudais, com seus torneios, valores, dis- festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil Os estudos da história do cotidiano conduziram putas por terras e poder. Autores brasileiros, em do século XIX, de João historiadores franceses, brasileiros e argentinos, entre abordagens semelhantes, dedicaram-se aos estudos da José dos Reis Paulo: religiosidade e suas manifestações diversas, como fes- Cia. das Letras, 1991) e 0 outros, à elaboração de coletâneas sobre a história da diabo e a Terra de Santa vida privada, tendo, entretanto, o cuidado de não situar tas e rituais de enterro, as quais foram reconstituídas Cruz, 0 inferno Atlântico: os temas da vida cotidiana de forma isolada dos con- para demonstrar as articulações entre a cultura euro- demonologia e colonização séculos XVI-XVII, de textos históricos e dos temas tradicionais. Por exemplo, peia e a africana, a constituição de um catolicismo Laura de Mello e Souza os autores da obra História da vida privada no Brasil popular e a constante presença do candomblé. (São Paulo: Cia. das Letras, advertem que a reconstituição de aspectos cotidianos Os autores que se ocupam da história do cotidia- 1986). e da vida privada fez-se no processo histórico da for- no, mesmo com posturas diversas em seus funda- mação brasileira. Não se pretendeu a reconstituição mentos teóricos, buscam recuperar as relações mais de hábitos, gestos e amores como se estes nada tivessem complexas entre os diversos grupos sociais, estabele- que ver com a organização mais ampla da sociedade, cendo conexões entre conflitos diários que se inserem da economia, do Estado. em uma forma de política contestatória, e identificar A história do cotidiano, além da história social, está as lutas de resistências a mudanças, o apego a tradi- intimamente ligada à história cultural. Um autor im- ções. A importância da história do cotidiano pode ser portante que trabalha o cotidiano na circularidade expressa pela afirmação de Agnes Heller em seu livro entre cultura popular e cultura erudita é o italiano 0 cotidiano e a história: Carlo Ginzburg, que em seu instigante livro quei- jo e os vermes recupera a vida de um moleiro italiano A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, perseguido e morto pela Inquisição. Para narrar os homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos episódios da vida do moleiro Menocchio, Ginzburg de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colo- localiza e apresenta a conjuntura da época da Reforma, cam-se "em funcionamento" todos os seus sentidos, todas do poder da Igreja Católica, e situa as transformações as suas capacidades intelectuais, suas habilidades mani- ocasionadas pela invenção da imprensa em parte sig- pulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. (...) Repetimos: a vida cotidiana não é alienada necessaria- nificativa da sociedade europeia do século XVI. mente, em consequência de sua estrutura, mas apenas em A história do cotidiano também é objeto de estu- determinadas circunstâncias sociais. Em todas as épocas, dos dos que pesquisam a denominada história das existiram personalidades representativas que viveram mentalidades, notadamente os seguidores da história uma cotidianidade não alienada; e, dado que a estrutura- nova francesa. Le Roy Ladurie, em seu livro Mon- ção científica da sociedade possibilita final da alienação, taillou: cátaros e católicos numa aldeia francesa (1294- essa possibilidade encontra-se aberta a qualquer ser 1324), recupera a mentalidade dos camponeses, sua humano (1985, p. 17). 166 167PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? A introdução da história do cotidiano como obje- considerar ao proporem-se estudos da história local. to de estudo escolar requer que se explorem as pos- Muitas vezes esta tem sido objeto de estudo escolar, sibilidades inerentes do cotidiano, sem se limitar a preservando, no entanto, mesmos pressupostos nor- constatar o "real" ou as motivações possíveis para alu- teadores da história nacional. A história local pode nos pouco sensibilizados com a História escolar mais simplesmente reproduzir a história do poder local e tradicional. O cotidiano deve ser utilizado como obje- das classes dominantes, caso se limite a fazer os alunos to de estudo escolar pelas possibilidades que oferece conhecerem nomes de personagens políticos de outras de visualizar as transformações possíveis realizadas épocas, destacando a vida e obra de antigos prefeitos por homens comuns, ultrapassando a ideia de que a e demais autoridades. Para evitar tais riscos, é preciso vida cotidiana é repleta e permeada de alienação. identificar o enfoque e a abordagem de uma história local que crie vínculos com a memória familiar, do 3.2. MEMÓRIA E HISTÓRIA LOCAL trabalho, da migração, das festas... A história local tem sido indicada como necessária A questão da memória impõe-se por ser a base da para o ensino por possibilitar a compreensão do en- identidade, e é pela memória que se chega à história torno do aluno, identificando o passado sempre pre- local. Além da memória das pessoas, escrita ou recupe- sente nos vários espaços de convivência escola, rada pela oralidade, existem os "lugares da casa, comunidade, trabalho e lazer e igualmente expressos por monumentos, praças, edifícios públicos por situar os problemas significativos da história do ou privados, mas preservados como patrimônio histó- presente. rico. Os vestígios do passado de todo e qualquer lugar, A história local geralmente se liga à história do de pessoas e de coisas, de paisagens naturais ou cons- cotidiano ao fazer das pessoas comuns participantes truídas tornam-se objeto de estudo. de uma história aparentemente desprovida de impor- A relação entre história local e memória foi obser- tância e estabelecer relações entre os grupos sociais de vada com propriedade por Maria Cândida Proença, ao condições diversas que participaram de entrecruzamen- propor essa abordagem para professores portugueses: tos de histórias, tanto no presente como no passado. A história local, por outro lado, tem sido elabora- Se conhecimento histórico é indispensável na construção da por historiadores de diferentes tipos. Políticos ou de identidade, sob 0 ponto de vista pedagógico-didático é intelectuais de diversas proveniências têm-se dedica- importante ter em conta tratamento da memória longa do a escrever histórias locais com objetivos distintos, das populações, que nos permite explicar diferentes ritmos e tais autores geralmente são criadores de memórias de evolução, 0 estudo da memória coletiva de diferentes grupos de pertença, a pesquisa das memórias locais nos mais do que efetivamente de história. A memória é, sem diferentes âmbitos de durações, a reabilitação da memó- dúvida, aspecto relevante na configuração de uma his- ria do trabalho, numa sociedade ocidental que sempre tória local tanto para historiadores como para o ensino. ignorou ou desprezou 0 trabalho manual, e a memória do O papel do ensino de História na configuração iden- tempo curto do acontecimento, que caracteriza estudo titária dos alunos é um dos aspectos relevantes para da história do século XX (1990, p. 24).PARTE E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEUDOS HISTORICOS A memória, entretanto, não pode ser confundida situa os testemunhos orais no tempo e no espaço e com a história, como advertem vários historiadores. o "lugar" de onde "falam". As memórias precisam ser evocadas e recuperadas e merecem ser confrontadas. As dos velhos e de pessoas 3.3. HISTÓRIA LOCAL OU HISTÓRIA DO "LUGAR" que ainda-estão no setor produtivo ou as de homens e de mulheres nem sempre coincidem, mesmo quan- Um cuidado que se deve ter com o estudo da his- do se referem ao mesmo acontecimento. Mas nenhuma tória local é a identificação do conceito de espaço. É comum falar em história local como a história do memória, individual ou coletiva, constitui a história. A história "consiste na escolha e construção de um objeto, entorno, do mais próximo, do bairro ou cidade. Quem operação que pode dar-se a partir de evocações de lem- mais se dedica aos estudos dessa natureza são os geó- branças" (Le Goff, 1988, p. 109), e exige, na análise grafos, e estes fazem algumas advertências aos histo- das memórias, um rigor metodológico na crítica e na riadores que não se preocupam com o espaço e os confrontação com outros registros e testemunhos. conceitos dele decorrentes. A reflexão sobre o espaço é De forma resumida, é possível estabelecer as se- imprescindível para os estudos da história da região guintes distinções entre memória e história: ou da história local, insistem os geógrafos. E um dos conceitos fundamentais atualmente trabalhados por 1) Memória social eles é o de lugar. relação coletiva que uma comunidade estabelece com O geógrafo Milton Santos apresentou em várias de seu passado; suas obras importante reflexão sobre espaço geográ- funciona pela seleção e eliminação; fico, com uma contribuição preciosa sobre o concei- to de lugar. realiza omissões; Cada lugar tem suas especificidades e precisa ser corpo vivo do processo de se relacionar com o passado; entendido por meio da série de elementos que o com- relações com o passado e variações de acordo com e de suas funções. Milton Santos sustenta, no idade, sexo, ocupação, origem, etc. entanto, que o lugar só pode ser compreendido diale- ticamente levando-se em conta as relações de produ- 2) História ção nele estabelecidas e sendo concebido como uma produção histórica. A história, afirma, trabalha com a acumulação dessa memória; atribui funções diferentes ao mesmo lugar. 0 lugar é um reordena o tempo passado, medindo-o, periodizando- conjunto de objetos que têm autonomia de existência pelas e estabelecendo uma crítica sobre a duração; coisas que formam ruas, edifícios, canalizações, usa um método para recompor os dados da memória; indústrias, empresas, restaurantes, eletrificação, calçamen- tos mas que não têm autonomia de significação, pois confronta as memórias individuais e sociais com todos os dias novas funções substituem as antigas, novas outros documentos; funções se interpõem e se exercem (1991, p. 52). 171 170PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA CONTEÚDOS HISTÓRICOS: COMO SELECIONAR? Esse autor ressalta que cada lugar é diferente de Sugestões de atividades outro, tem sua singularidade, mas é fração de uma totalidade. Ao analisar o atual processo de globali- 1) Análise de textos zação, pressupõe as relações de cada lugar com a expansão das multinacionais, com a nova forma de Texto 1: Identidade coletiva e história atuação do Estado e com a organização social. Afirma "Esta questão da relação entre busca de identidades assim que as relações de produção atuam na trans- e crise do Estado-nação e a queda dos Estados comunis- formação dos lugares, embora seja preciso averiguar a tas remete a um debate estritamente contemporâneo... dinâmica dos usos de cada espaço, como ocorre a ação Essa extensa proximidade dos objetos, mais do que concreta do capitalismo globalizado nessa fração do de métodos, obriga-nos, a meu ver, a posicionarmo- -nos sobre o sentido que damos aos conceitos que espaço total. empregamos. Assim, não há internacionalização em A história do "lugar" como objeto de estudo ganha, certos setores da economia, enquanto o peso dos necessariamente, contornos temporais e espaciais. Não Estados permanece considerável apenas nas ofertas e se trata, portanto, ao se proporem conteúdos escola- garantias que dão às indústrias mundializadas que res da história local, de entendê-los apenas na histó- procuram implantar-se em seus territórios. Por outro ria do presente ou de determinado passado, mas de lado, os modos regionais de organização da produção procurar identificar a dinâmica do lugar, as transfor- constituem diques de resistência à mundialização. mações do espaço, e articular esse processo às relações Há, em contrapartida, mais que uma tendência, externas, a outros "lugares". uma vitória, não da internacionalização nem da mun- dialização, mas da globalização do sistema financeiro: Apresentaremos, em capítulo posterior, algumas o que resta das 'identidades' com o poder do FMI e práticas escolares sobre estudo do meio, quando se per- do Banco Mundial de impor, em todos os países em ceberá então a necessidade de tais conceitos para a efeti- busca de desenvolvimento, os mesmos sistemas de pro- vação de um conhecimento escolar articulado entre dução, a mesma 'dívida' e os mesmos modos de ges- tempo e espaço. tão e de reembolso da dívida? Os conteúdos históricos escolares podem ser varia- Voltemos ao passado próximo. A questão colocada dos e não necessitam de uma programação estabe- diz que novas coletivas' estão emergindo. lecida externamente, mas é preciso ter critérios que Ela é verdadeira desde que não negue nem a busca de fundamentem sua escolha. A coerência de uma opção identidades nacionais que se desenvolveu no século XIX nem a aspiração a uma identidade proletária de conteúdos ocorre pela concepção de história que, transnacional. Os trabalhos recentes sobre a cultura por sua vez, fundamenta os conceitos. Estes, junta- operária, as pesquisas um pouco mais antigas sobre as mente com as informações e as narrativas, constituem instituições como as Internacionais operárias (socia- o conteúdo histórico escolar. listas ou comunistas) trazem a pista. Identidades deCONTEUDOS PARTE MÉTODOS E CONTEÚDOS ESCOLARES: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA ofício, identidades de classe, identidades nacionais: assim à consciência pesada da opressão de classe. Dessa os historiadores, no mundo inteiro, têm trabalhado maneira foi superada, pelo menos verbalmente, não sobre estes temas sem opô-los necessariamente uns só a concepção antiquada de folclore como mera cole- aos outros. (...) ção de curiosidades, mas também a posição de quem Ocorre que a crise das esperanças internacionais, distinguia nas ideias, crenças, visões de mundo das quer se trate do socialismo ou de instituições como a classes subalternas nada mais do que um acúmulo ONU, está hoje patente, e a democracia foi impo- desorgânico de fragmentos de ideias, crenças, visões tente para inserir-se no espaço aberto pela 'queda do de mundo elaborados pelas classes dominantes pro- mundo de Berlim', razão a mais para não desvincular vavelmente vários séculos antes. A essa altura começa as realidades sociais das práticas políticas de liberda- a discussão sobre a relação entre as classes subalternas de restituídas pelo fim dos Estados-partidos ligados e as classes dominantes. Até que ponto a primeira ao sistema que se denominava comunista." está subordinada à segunda? Em que medida, ao con- trário, exprime conteúdos ao menos em parte alterna- Madeleine Réberioux, 1998. p. 121. tivos? É possível falar em circularidade entre os dois Para debater em grupo: níveis de cultura?" a) Os problemas de constituição de identidade apre- GINZBURG, Carlo. 0 queijo e os vermes, 1987, p. 17. sentados pela autora, no atual estágio do capitalismo. b) As temáticas fundamentais para o historiador Discuta em grupo: diante da atual configuração política e econômica. a) Para o autor, há oposição entre civilização e cultura? Texto 2: Circularidade cultural b) O conceito de circularidade cultural. c) Situe a posição do autor, em relação a outros his- "A existência de desníveis culturais no interior das toriadores apresentados no item 1.3 deste capítulo, assim chamadas sociedades civilizadas é o pressupos- sobre a história cultural. to da disciplina que foi aos poucos se autodefinindo como folclore, antropologia social, história das tradi- Texto 3: A memória como intermediário cultural ções populares, etnologia europeia. Todavia, o emprego do termo cultura para definir o conjunto de atitudes, "As lembranças se apoiam nas pedras da cidade. Se crenças, códigos de comportamentos próprios das o espaço, para Merleau-Ponty, é capaz de exprimir a classes subalternas num certo período histórico é condição do ser no mundo, a memória escolhe luga- relativamente tardio e foi emprestado da antropologia res privilegiados de onde tira sua seiva. cultural. Só através do conceito de 'cultura primitiva' Em primeiro lugar, a casa materna; tal como apa- é que se chegou de fato a reconhecer que aqueles rece nas biografias, é o centro geométrico do mundo indivíduos outrora definidos de forma paternalista co- e a cidade cresce a partir dela em todas as direções. mo 'camadas inferiores dos povos civilizados' possuíam Dela partem as ruas, as calçadas onde se desenrolou cultura. A consciência pesada do colonialismo uniu-se nossa vida, o bairro. E os sons que vêm da rua desde 175 174

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