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APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 2. Camadas da Parede Gástrica (Morfologia Microscópica) O estômago possui 4 camadas histológicas principais (de fora para dentro): 1. Serosa: Camada externa de tecido conjuntivo frouxo coberta por mesotélio (epitélio simples pavimentoso). Função: reveste o estômago e o protege contra atrito com outros órgãos. Composição: Fibras colágenas e elásticas. Vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Faz parte do peritônio visceral (membrana serosa), permitindo mobilidade e fixação ao peritônio parietal. 2. Muscular: Formada por três camadas de músculo liso, permitindo movimentos de mistura (triturar e agitar o alimento). (único órgão digestivo com três camadas): Camada longitudinal externa: fibras orientadas ao longo do eixo maior do estômago. Camada circular média: fibras dispostas em anel; espessada no piloro para formar o esfíncter pilórico. Camada oblíqua interna: exclusiva do estômago, auxilia nos movimentos intensos de mistura e trituração. Função: Promover peristaltismo gástrico (mistura e propulsão do conteúdo). Controlar o esvaziamento gástrico através do esfíncter pilórico. 3. Submucosa: Tecido conjuntivo denso não modelado, rico em fibras colágenas, que contém vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Função: serve de suporte para os vasos sanguíneos, linfáticos e nervos que irrigam e inervam a mucosa. Contém o plexo submucoso de Meissner, parte do sistema nervoso entérico, que regula secreção e fluxo sanguíneo. 4. Mucosa: Camada mais interna, com invaginações formando as glândulas gástricas. Altamente especializada, é onde ocorre a secreção de enzimas, ácido e muco. A mucosa apresenta três subcamadas: a) Epitélio de revestimento Epitélio colunar simples, composto por células mucosas superficiais. Forma invaginações chamadas fóveas gástricas (ou criptas). Responsável pela produção de muco protetor contra o HCl. MORFOFISIOLÓGIA DO ETÔMAGO 1. Anatomia Macroscópica (Morfologia Externa) Posição anatômica: Localiza-se na parte superior do abdome, principalmente no hipocôndrio esquerdo e epigástrio. Está situado anterior ao pâncreas, aos vasos esplênicos e ao rim esquerdo. A face anterior do estômago relaciona-se com a parede abdominal anterior e com o lobo inferior esquerdo do fígado. Partes do estômago: Cárdia: região de transição entre o esôfago e o estômago. Fundo: parte superior, em forma de cúpula, acima da junção cárdica. Corpo: porção central e maior, responsável por grande parte da digestão química e mecânica. Antro pilórico: porção final do estômago. Piloro: esfíncter que regula a passagem do conteúdo gástrico para o duodeno. Curvaturas: Curvatura menor: localizada no lado medial, que é o ponto de fixação do omento menor. Curvatura maior: localizada no lado lateral, que é o ponto de fixação do ligamento gastresplênico e do omento maior; Incisura cárdica: que é o ângulo superior criado quando o esôfago entra no estômago; Incisura angular: que é uma curva na pequena curvatura. S2P2: GATRITE E HELICOBACTER-PYLORI Objetivos Rever a morfofisiológia do estômago. Entender a epidemiologia, etiologia, fatores de risco, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento da gastrite aguda e crônica. Estudar a microbiologia da bactéria H.Pylori. Compreender contagio, diagnóstico e tratamento (esquema) da H.pylori. Entender a evolução da úlcera péptica. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 2. EPIDEMIOLOGIA Gastrite Aguda: Mais comum em adultos submetidos a fatores agudos (AINEs, álcool, estresse). Incidência significativa em pacientes hospitalizados com doenças graves (gastrite de estresse). Associada a internações por sangramento digestivo alto. Gastrite Crônica: Altamente prevalente mundialmente. Estima-se que 2/3 da população mundial seja colonizada por Helicobacter pylori (H. pylori). A prevalência varia conforme: Nível socioeconômico: maior em países em desenvolvimento. Idade: infecção mais comum em idosos. Etnias: maior em afro-americanos e hispânicos nos EUA. 2. ETIOLOGIA Gastrite Aguda Medicamentos: anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), corticosteroides. Substâncias irritantes: álcool, cafeína, alimentos condimentados. Estresse fisiológico intenso: queimaduras graves (úlcera de Curling), traumatismos, sepse, cirurgias. Infecções: principalmente H. pylori, mas também vírus, fungos ou bactérias em pacientes imunocomprometidos. Refluxo biliar. Gastrite Crônica Tipo A (autoimune): Anticorpos contra células parietais e fator intrínseco. Associada à anemia perniciosa e deficiência de vitamina B12. Tipo B (bacteriana): Infecção crônica por Helicobacter pylori, que leva à inflamação e eventual atrofia da mucosa. Tipo C (química): Causada por refluxo biliar, uso crônico de AINEs ou álcool. Outros: gastrite eosinofílica, linfocítica, granulomatosa, radiação. 3. FATORES DE RISCO 1. Uso de AINEs (Anti-inflamatórios não esteroides) Exemplos: ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, aspirina. Mecanismo: Inibem as enzimas ciclooxigenases (COX-1 e COX-2). A COX-1 é responsável pela produção de prostaglandinas protetoras da mucosa gástrica (aumentam secreção de muco, bicarbonato e fluxo sanguíneo mucoso). b) Lâmina própria Tecido conjuntivo frouxo localizado entre as glândulas gástricas. Contém: Glândulas gástricas: presentes em diferentes regiões (fundo, corpo, antro). Células imunológicas e capilares sanguíneos. Tipos celulares principais nas glândulas: Célula Localização Secreção/Função Células mucosas do pescoço fundo das fóveas Produzem muco menos viscoso Células principais base das glândulas Secretam pepsinogênio (precursor da pepsina) Células parietais (oxínticas) corpo/fundo das glândulas Produzem HCl e fator intrínseco Células enteroendócrinas (ex: G) principalmente no antro Secretam gastrina e outros hormônios gastrointestinais c) Muscular da mucosa Fina camada de músculo liso, separa a mucosa da submucosa. Permite movimento local da mucosa, facilitando a liberação do conteúdo glandular para a luz gástrica. 1. DEFINIÇÃO Gastrite é a inflamação da mucosa gástrica, podendo ser aguda (processo transitório e súbito) ou crônica (inflamação persistente, com alterações estruturais progressivas da mucosa). APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Exemplo clássico: úlcera de Curling (associada a queimaduras extensas). 6. Doenças autoimunes No caso da gastrite autoimune (tipo A): Há produção de autoanticorpos contra células parietais e fator intrínseco. Mecanismo: Destruição progressiva das células parietais → diminuição do HCl (hipocloridria) e da produção de fator intrínseco. Deficiência de absorção de vitamina B12, levando a anemia megaloblástica (anemia perniciosa). Risco aumentado de adenocarcinoma gástrico e tumores neuroendócrinos (carcinoides). 7. Refluxo biliar (bile gástrica retrógrada) Ocorre principalmente após cirurgias gástricas ou duodenais. Mecanismo: Os sais biliares e enzimas pancreáticas são irritantes químicos para o epitélio gástrico. Lesam diretamente a mucosa e reduzem a espessura da camada de muco. Associado à gastrite química (tipo C). Pode causar sintomas persistentes, semelhantes aos da dispepsia funcional. 8. Radioterapia abdominal Irradiação da região gástrica por câncer abdominal ou pélvico pode afetar o estômago. Mecanismo: Lesão direta das células da mucosa e dos vasos submucosos. Redução do fluxo sanguíneo e resposta inflamatória. Resulta em gastrite por radiação, geralmente crônica e de difícil manejo. 9. Alimentação inadequada Alimentos muitocondimentados, ácidos, cafeína em excesso e refrigerantes contribuem para irritação gástrica. Mecanismo: Estimulam a secreção ácida. Alteram o pH gástrico. Reduzem o tempo de esvaziamento gástrico. Não causam gastrite por si só, mas agravam quadros existentes. 10. Idade avançada Associada à maior prevalência de infecção por H. pylori, uso crônico de AINEs e alterações da motilidade gástrica. Mecanismo: Redução da regeneração celular da mucosa. Aumento da atrofia gástrica com a idade. Diminuição da secreção ácida e do fator intrínseco. Contribui para evolução silenciosa da gastrite crônica. A inibição da COX-1 prejudica essa proteção, tornando a mucosa mais vulnerável à ação do HCl e da pepsina. Resultado: erosão da mucosa, inflamação, possível sangramento. 2. Infecção por Helicobacter pylori Bactéria gram-negativa que coloniza a camada de muco do epitélio gástrico. Mecanismo: Produz urease, que converte ureia em amônia, neutralizando o ácido gástrico local e favorecendo sua sobrevivência. Estimula uma resposta inflamatória crônica, com infiltrado linfocitário e produção de citocinas. Com o tempo, promove atrofia da mucosa, metaplasia intestinal e risco aumentado de adenocarcinoma gástrico. Importante causa de gastrite crônica tipo B (bacteriana). 3. Consumo excessivo de álcool Efeito direto irritativo sobre a mucosa gástrica. Mecanismo: Diminui a produção de muco e bicarbonato. Altera a permeabilidade da mucosa, facilitando a penetração de H+ e de substâncias tóxicas. Em altas concentrações, provoca necrose das células epiteliais. Pode causar gastrite aguda hemorrágica ou erosiva. 4. Tabagismo Contribui tanto para a gastrite quanto para ulceração gástrica e duodenal. Mecanismo: Reduz o fluxo sanguíneo da mucosa gástrica. Estimula a secreção ácida. Inibe a cicatrização de lesões da mucosa. Aumenta a adesão e virulência do H. pylori. Associação com maior risco de complicações e câncer gástrico. 5. Estresse fisiológico intenso Relacionado a traumas graves, grandes queimaduras, sepse, insuficiência respiratória, cirurgias extensas. Mecanismo: Liberação de catecolaminas → vasoconstrição → hipoperfusão da mucosa gástrica. Redução da produção de muco e bicarbonato. Pode evoluir para gastrite erosiva aguda, com risco de sangramento. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Mecanismos principais (por tipo) Tipo A – Autoimune (fundo e corpo gástrico) 1. Resposta imune contra células parietais Produção de autoanticorpos contra: Células parietais → destruição das glândulas oxínticas (produtoras de HCl e fator intrínseco). Fator intrínseco → impede a absorção de vitamina B12 → anemia megaloblástica. 2. Hipocloridria ou acloridria Redução ou ausência de secreção de HCl → aumento do pH gástrico → estimula liberação de gastrina (hipergastrinemia). Estímulo proliferativo em células enterocromafins → risco de tumores neuroendócrinos gástricos (carcinoides). 3. Atrofia da mucosa gástrica Substituição do epitélio gástrico por tecido conjuntivo ou epitélio metaplásico (intestinal). Risco aumentado de adenocarcinoma gástrico. Tipo B – Helicobacter pylori (antro gástrico, podendo progredir para o corpo) 1. Colonização da camada de muco pelo H. pylori Sobrevive ao pH ácido por meio da enzima urease, que converte ureia em amônia (alcalinizante local). A amônia e outras toxinas bacterianas danificam o epitélio gástrico. 2. Resposta inflamatória crônica Infiltrado predominante de linfócitos e plasmócitos. Liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL- 1β, TNF-α, IL-8) → perpetuação da inflamação. 3. Progressão da doença Atrofia glandular → metaplasia intestinal → displasia → risco de câncer gástrico não cardial. 4. H. pylori como fator carcinogênico classe I (OMS) Associa-se a linfoma MALT (tecido linfoide associado à mucosa) e adenocarcinoma gástrico. Tipo C – Gastrite química (refluxo biliar, AINEs crônicos) 1. Refluxo duodenogástrico A bile e enzimas pancreáticas (ex.: tripsina) refluem do duodeno para o estômago. Lesão direta do epitélio → inflamação crônica com hiperplasia foveolar (aumento da profundidade das criptas gástricas). 2. Uso crônico de AINEs Bloqueio da COX-1 → redução da produção de prostaglandinas. Diminuição da secreção de muco e bicarbonato, além de isquemia mucosa. FISIOPATOLOGIA DA GASTRITE AG. E CR. Gastrite Aguda Há uma agressão direta à mucosa gástrica, com perda da barreira protetora (muco e bicarbonato), levando à inflamação aguda, erosões e, eventualmente, hemorragias. Infiltrado predominantemente neutrofílico na mucosa. Gastrite Crônica A inflamação persistente leva à destruição glandular e substituição por tecido fibroso ou metaplásico (epitélio intestinal). Infiltrado inflamatório predominantemente linfoplasmocitário. Pode evoluir para atrofia gástrica, metaplasia intestinal, displasia e carcinoma gástrico. 1. Gastrite Aguda – Fisiopatologia A gastrite aguda é uma inflamação súbita e transitória da mucosa gástrica, geralmente reversível se o agente agressor for removido. Mecanismos principais 1. Desequilíbrio entre fatores agressivos e protetores da mucosa A mucosa gástrica é protegida por um sistema de defesa que inclui: Secreção de muco e bicarbonato. Fluxo sanguíneo mucoso adequado. Renovação epitelial rápida. Prostaglandinas (PGs) com ação citoprotetora. Quando fatores agressivos (como álcool, AINEs, estresse) superam os protetores, ocorre lesão epitelial direta. 2. Dano à barreira mucosa A integridade do epitélio é comprometida. Aumento da permeabilidade ao H⁺ → entrada de íons hidrogênio no tecido → lesão celular. Liberação de enzimas lisossômicas, radicais livres e mediadores inflamatórios. 3. Infiltrado inflamatório agudo Neutrófilos migram para o local da lesão → produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) e enzimas proteolíticas. Pode haver formação de erosões superficiais (lesão da mucosa sem atingir a muscular da mucosa) e micro-hemorragias. Nos casos graves, pode haver ulceração ou sangramento maciço (ex.: gastrite hemorrágica aguda). 2. Gastrite Crônica – Fisiopatologia A gastrite crônica é uma inflamação persistente da mucosa gástrica que evolui de forma lenta e progressiva, podendo causar atrofia glandular, metaplasia intestinal e até câncer gástrico. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Dieta fracionada: Evitar alimentos gordurosos, frituras, cafeína, chocolate e bebidas gasosas. Redução do estresse (comorbidade comum em gastrite funcional). Manter peso adequado (importante no refluxo associado). B. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO (G. Aguda) A. Inibidores da bomba de prótons (IBPs) Ex: Omeprazol, Pantoprazol, Esomeprazol, Lansoprazol Mecanismo de ação: são pró-fármacos que, em meio ácido (pHsob demanda (sintomático). D. Protetores de mucosa gástrica 1. Sucralfato: Mecanismo de ação: forma um complexo viscoso que se adere às áreas ulceradas, promovendo barreira protetora contra o ácido. Esquema: 1 g, 4x/dia (antes das refeições e ao deitar). 2. Misoprostol: Análogo de prostaglandina E1, estimula secreção de muco e bicarbonato, além de inibir secreção ácida. Útil na gastrite induzida por AINEs. Esquema: 200 mcg 3–4x/dia. ⚠ Contraindicado na gravidez (risco de aborto espontâneo). 5. COMPLICAÇÕES FISIOPATOLÓGICAS Gastrite atrófica crônica: destruição das glândulas gástricas. Metaplasia intestinal: substituição do epitélio gástrico por epitélio semelhante ao intestinal. Displasia: alterações celulares pré- neoplásicas. Neoplasia gástrica: adenocarcinoma ou tumor neuroendócrino. Anemia megaloblástica: por deficiência de vitamina B12 na gastrite autoimune. Úlcera péptica: erosão mais profunda da mucosa, atingindo a muscular da mucosa e além. 6. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Gastrite Aguda: Pode ser assintomática. Quando sintomática: Pirose Náuseas Vômitos Dor epigástrica (intensa e súbita) Hematêmese ou melena (casos graves) Sintomas iniciam subitamente e são autolimitados (resolvem-se em poucos dias). Gastrite Crônica: Sintomas são leves e inespecíficos: Dispepsia (desconforto epigástrico) Plenitude pós-prandial Náuseas leves Em fases avançadas: anemia megaloblástica (gastrite atrófica autoimune com deficiência de B12) 7. DIAGNÓSTICO Endoscopia digestiva alta com biópsia: Avalia erosões, inflamação, atrofia, metaplasia intestinal. Teste rápido da urease (detecção de H. pylori na biópsia). Cultura de H. pylori (menos comum, mas específica). Teste respiratório com ureia ¹³C: alto valor preditivo. Pesquisa de antígeno fecal de H. pylori. Sorologia para H. pylori: útil para rastreamento, não diferencia infecção ativa. 8. TRATAMENTO A. TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Recomendado tanto para gastrite aguda quanto crônica como parte complementar da terapêutica medicamentosa. Medidas: Suspensão de fatores irritantes: Álcool, cigarro, AINEs (como ibuprofeno, diclofenaco), aspirina. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 3. FISIOLOGIA E CRESCIMENTO Colonização: Coloniza principalmente o antro gástrico, aderindo às células epiteliais secretoras de muco. Utiliza quimiotaxia para se deslocar em direção ao epitélio, atravessando a camada de muco gástrico. Cresce entre 35 a 42°C, com pH ótimo em torno de 6–7 Sobrevive no ambiente ácido do estômago graças à ação de enzimas específicas como: 4. FATORES DE VIRULÊNCIA Urease: Neutraliza o ácido gástrico, facilitando a colonização. que degrada ureia em amônia e dióxido de carbono. A amônia neutraliza o ácido gástrico ao redor da bactéria, formando uma zona de pH mais alto → permite a sobrevivência e colonização no Flagelos: conferem motilidade, facilitando a penetração na camda mucosa. Adesinas: Ex: BabA e SabA → proteínas de superfície que se ligam ao epitélio gástrico. Enzimas extracelulares: Mucinase, fosfolipase, protease → degradam muco e componentes da barreira mucosa. Toxinas: CagA (Cytotoxin-associated gene A): Proteína injetada na célula hospedeira via sistema de secreção tipo IV. Promove inflamação, alterações celulares e pode contribuir para carcinogênese. VacA (Vacuolating cytotoxin A): Causa vacuolização nas células epiteliais gástricas (disfunção celular) e modula a resposta imune. Lipopolissacarídeo (LPS) Promove inflamação e mimetismo molecular com antígenos do hospedeiro. Sistema de secreção tipo IV Mecanismo molecular que injeta proteínas bacterianas (como CagA) nas células do hospedeiro. 5. MECANISMO DE COLONIZAÇÃO 1. A bactéria sobrevive ao ácido gástrico pela ação da urease. 2. Migra pelo muco gástrico até se aproximar do epitélio. 3. Adere às células epiteliais gástricas via adesinas. 4. Secreta toxinas (CagA, VacA) → causa inflamação e dano tecidual. 5. Estimula uma resposta imune crônica, mas a bactéria persiste, contribuindo para gastrite crônica, úlcera péptica e adenocarcinoma gástrico. 3. ERRADICAÇÃO DO H. pylori (G. Crônica) Indicada em gastrites crônicas associadas à infecção. O tratamento visa eliminar a bactéria, reduzir inflamação e prevenir atrofia/metaplasia. Esquema clássico (Terapia quádrupla com IBP + 3 fármacos) Opção 1 – Terapia quádrupla com bismuto (1ª linha em muitos países): Omeprazol 20 mg 2x/dia Subcitrato de bismuto 120 mg 4x/dia Metronidazol 500 mg 3x/dia Tetraciclina 500 mg 4x/dia Duração: 10 a 14 dias Opção 2 – Terapia tripla padrão (menos utilizada por resistência a claritromicina): Omeprazol 20 mg 2x/dia Claritromicina 500 mg 2x/dia Amoxicilina 1 g 2x/dia Duração: 14 dias Alternativas: Substituir amoxicilina por metronidazol em pacientes alérgicos à penicilina 9. MICROBIOLOGIA DA H. PYLORI 1. CLASSIFICAÇÃO MICROBIOLÓGICA Domínio: Bacteria Filo: Proteobacteria Classe: Epsilonproteobacteria Ordem: Campylobacterales Família: Helicobacteraceae Gênero: Helicobacter Espécie: Helicobacter pylori 2. MORFOLOGIA E ESTRUTURA Bacilo gram-negativo Forma espiralada ou helicoidal, com curvatura em “S” ou “vírgula” Tamanho: aproximadamente 2,5–5,0 µm de comprimento Possui 4 a 6 flagelos em uma extremidade → importante para mobilidade no muco gástrico. Não esporulado Microaerófilo estrito: requer pouco oxigênio para sobreviver (cresce em ambientes com baixa concentração de O₂ — 5–10%) Possui bainha lipídica ao redor dos flagelos, o que lhe confere resistência e motilidade em meio mucoso. APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 11. Diagnóstico Métodos invasivos (via endoscopia): Teste da urease rápida: biópsia colocada em meio com ureia → cor muda se urease estiver presente. Histologia: colorações como Giemsa, Warthin-Starry ou imunohistoquímica. Cultura: usada em falhas terapêuticas, exige condições rigorosas. PCR: detecta DNA bacteriano e genes de virulência (CagA, VacA). Métodos não invasivos: Teste respiratório da ureia com ¹³C ou ¹⁴C: alta sensibilidade/especificidade. Antígeno fecal: útil para diagnóstico e controle pós-tratamento. Sorologia IgG: indica exposição prévia, mas não distingue infecção ativa. 3. Tratamento da H. pylori (Esquemas terapêuticos) Esquema padrão (tríplice terapia clássica – 14 dias) IBP (omeprazol ou equivalente) – 2x/dia Amoxicilina 1g – 2x/dia Claritromicina 500mg – 2x/dia Usada em locais com baixa resistência à claritromicina (TRANSMISSÃO a) Via oral-oral A saliva é uma importante fonte de transmissão. Possível contaminação por: Beijos na boca (em crianças pequenas ou entre parceiros). Uso compartilhado de utensílios, escovas de dente, mamadeiras ou chupetas. Crianças são frequentemente infectadas pelos pais, especialmente pela mãe (transmissão intrafamiliar). b) Via fecal-oral A bactéria pode ser eliminada nas fezes em casos de infecção ativa. Contaminação por: Água ou alimentos mal higienizados. Higiene pessoal precária após uso do banheiro. Mais comum em áreas com saneamento básico inadequado. c) Via gastro-oral Ocorre quando o conteúdo gástrico contaminado (vômitos ou refluxo) entra em contato com a cavidade oral de outra pessoa. Transmissão acidental em ambientes fechados (ex.: creches, lares) ou durante episódios de vômito. d) Autoinoculação Menos comum, mas possível, especialmente em crianças (ex.: contato mão-boca após coçar região perianal contaminada). APG 4º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 1 2 12. EVOLUÇÃO DA ÚLCERA PÉPTICA 1. Definição: A úlcera péptica é uma lesão da mucosa gástrica ou duodenal que penetra além da muscular da mucosa. 1. Fase Inicial: Agressão à Mucosa Gástrica ou Duodenal Infecção por Helicobacter pylori: Se fixa no muco gástrico, produz enzimas (urease, mucinase) e toxinas (como VacA, CagA). Rompe a barreira de muco e atrai células inflamatórias. Uso de AINEs/AAS: Inibem a enzima COX-1 → redução de prostaglandinas. Reduzem a produção de muco e bicarbonato → diminuição da proteção mucosa. Hipersecreção de ácido clorídrico (HCl): Ex. em síndrome de Zollinger-Ellison. Estresse fisiológico intenso: Como em pacientes de UTI (úlcera de estresse – Curling e Cushing). 2. Inflamação Crônica da Mucosa (Gastrite ou Duodenite) A exposição contínua ao ácido, pepsina e agentes inflamatórios leva à gastrite crônica ativa. Essa fase é assintomática ou pouco sintomática em muitos pacientes. Se não tratada, pode progredir para lesão erosiva e, posteriormente, para úlcera verdadeira 3. Formação da Úlcera Péptica (Lesão Ulcerada) Úlcera péptica = lesão da mucosa que ultrapassa a muscular da mucosa. Ocorre destruição localizada do epitélio e tecido subjacente, expondo terminações nervosas (dor). O fundo da úlcera pode conter detritos necróticos, infiltrado inflamatório e tecido de granulação. Localização típica: Úlcera gástrica: principalmente no antro. Úlcera duodenal: principalmente no bulbo duodenal.