Prévia do material em texto
DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO 761 me político ou de uma particular ideologia ou de um grupo detentor do poder. 2. Defesa das instituições democráticas Título VI Diego Valadés observa, com David Easton, que "o equilíbrio é o Da Defesa do Estado e elemento que caracteriza a ordem Acrescenta que "o equilíbrio constitucional consiste na existência de uma distribui- das Instituições Democráticas ção relativamente igual do poder, de tal maneira que nenhum grupo, ou combinação de grupos, possa dominar sobre os para concluir, agora com Catlin, que "a democracia é o equilíbrio mais Capítulo I estável entre os grupos de poder".³ Daí decorre, conforme os mes- mos autores, que "a competição entre os distintos grupos sociais só é DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO tolerável na medida em que esses mesmos grupos estejam subordi- nados aos procedimentos Isso quer dizer que, fora desses parâmetros, as competições pelo poder geram uma situação de I. SISTEMA CONSTITUCIONAL DAS CRISES: 1. Defesa do Estado e com- crise, que poderá assumir as características de crise constitucional, e promissos democráticos. 2. Defesa das instituições democráticas. 3. Tipos de esta, se não for convenientemente administrada, governada, poderá estados de exceção vigentes. II. ESTADO DE DEFESA: 4. Defesa do Estado e provocar o rompimento do equilíbrio constitucional e, por conseguin- estado de defesa. 5. Pressupostos e objetivo. 6. Efeitos e execução do estado de defesa. 7. Controles. III. ESTADO DE SÍTIO: 8. Pressupostos, objetivos e con- te, pôr em grave risco as instituições democráticas. ceito. 9. Efeitos do estado de sítio. 10. Controles do estado de sítio. Quando uma situação dessas se instaura é que se manifesta a fun- ção do chamado sistema constitucional das crises, considerado por Aricê I. SISTEMA CONSTITUCIONAL DAS CRISES Moacyr Amaral Santos "como o conjunto ordenado de normas consti- tucionais, que, informadas pelos princípios da necessidade e da 1. Defesa do Estado e compromissos democráticos temporariedade, tem por objeto as situações de crises e por finalidade a mantença ou o restabelecimento da normalidade constitucional". título em exame tem por rubrica "Da Defesa do Estado e das São normas que visam a estabilização e a defesa da Constituição con- Instituições Nessa dimensão, inclui também um ca- tra processos violentos de mudança ou perturbação da ordem consti- pítulo sobre as Forças Armadas e outro sobre a segurança pública. mas também a defesa do Estado quando a situação crítica Correlacionando a defesa das instituições democráticas e Forças Ar- derive de guerra externa. Então, a legalidade normal é substituída por madas é forçoso convir que estas ficaram, na perspectiva constitucio- uma legalidade extraordinária,⁷ que define e rege o estado de exceção. nal, como instituições comprometidas com o regime democrático ins- crito na Constituição de 1988, em termos que já estudamos antes, o Os princípios informadores do sistema constitucional das crises que torna mais grave qualquer desvio, ainda que circunstancial, que e, pois, dos estados de exceção foram bem lembrados por Aricê envolva desrespeito aos direitos fundamentais do homem, incluindo Moacyr Amaral Santos, e são o princípio fundante da necessidade e o os individuais, os sociais (aí o direito de sindicalização e o de greve), princípio da temporariedade, cuja incidência "nos sistemas de legalida- os políticos e de nacionalidade. Nesse mesmo compromisso ficam de especial determina: a) a declaração é condicionada à ocorrência envolvidos os órgãos da segurança pública. 1. Cf. La dictadura constitucional en América Latina, p. 31, citando David Easton, A defesa do Estado aparece expurgada da conotação geopolítica Política moderna, pp. 177-278. ou da doutrina da segurança nacional que informaram o regime re- 2. Idem, p. 32; idem, p. 306. vogado. 3. Idem, pp. 32 e 33. 4. Idem, ibidem. Aí defesa do Estado é defesa do território contra invasão estran- 5. Cf. O estado de emergência, p. 32. geira (arts. 34, II, e 137, II), é defesa da soberania nacional (art. 91), é 6. Cf. nosso Aplicabilidade das normas constitucionais, p. 184. defesa da Pátria (art. 142), não mais a defesa deste ou daquele regi- 7. Cf. Aricê Moacyr Amaral Santos, ob. cit., p. 33.762 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO 763 de pressuposto fático; b) os meios de resposta têm sua executoriedade aposentar e punir magistrados, militares etc. Mas, o que era ainda pior, restrita e vinculada a cada anormalidade em particular e, ainda, ao é que não havia nada que impedisse a expedição de outros Atos Insti- lugar e tempo; c) o poder de fiscalização política dos atos de exceção tucionais com qualquer conteúdo. Foi o estado de exceção (pura dita- é de competência do Legislativo; d) o controle judicial a tempore e a dura) que perdurou naquele período, mas suas conseqüências ainda posteriori é do Judiciário". permaneceram na Carta Constitucional de 1969, outorgada com base Sem que se verifique a necessidade, o estado de exceção configura- naquela mesma normatividade excepcionalíssima e em novos estados rá puro golpe de estado, simples arbítrio; sem atenção ao princípio da de exceção que a EC 11/78 incorporou a ela, como mecanismos de po- temporariedade, sem que se fixe tempo limitado para vigência da legali- der substitutivos dos Atos Institucionais, que não deixaram de exercer dade extraordinária, o estado de exceção não passará de ditadura. certa influência no Constituinte de 1987-1988, que não se contentara com o tradicional estado de sítio ao acolher também o estado de defe- Então, sempre se põe a grave questão: quem guardará a ordem consti- tucional contra as investidas dos próprios detentores do poder? Pois, sa idêntico ao estado de emergência daquele regime. "a dizer a verdade [lembra Diego Valadés] maior é a crise enquanto signifique o perigo do desmoronamento constitucional quando quem 3. Tipos de estados de exceção vigentes rompe o equilíbrio constitucional é um órgão próprio da Constitui- ção",⁹ especialmente quando esse órgão é o Executivo, que, na Améri- O estado de sítio fora, realmente, o tipo de estado de exceção ca Latina, detém amplos poderes, sem freios que o retenham nos limi- que tradicionalmente vigorou no Brasil. O sistema da EC 11/78 confi- tes da ordem constitucional; daí por que é dele que provém, quase gurava três instituições emergenciais: medidas de emergência, estado de sempre, o maior perigo, ao lado das graves insurreições de militares sítio e estado de emergência.¹¹ A Constituição reformulou a questão, golpistas. Nesses casos, os estados de exceção visam especialmente mas não retrocedeu ao sistema puro da Constituição de 1946, que só criar condições para a implantação de ditaduras, antes que para de- previa o estado de sítio, pois manteve também o estado de emergência fender a Constituição. Quase sempre o estado de exceção funciona com o nome de estado de defesa. como instrumento de preservação do domínio de uma classe domi- nante, como lembrou Diego Valadés com inteira razão.¹⁰ II. ESTADO DE DEFESA No Brasil, isso aconteceu várias vezes no passado, com decreta- 4. Defesa do Estado e estado de defesa ção de estado de sítio mais com o intuito de reprimir simples diver- gências político-partidárias que de defesa constitucional. A Constitui- Percebe-se que a palavra estado tem sentidos diferentes nas ex- ção de 1937, implantando o regime ditatorial de Vargas, fê-lo decla- pressões "Defesa do Estado" e "estado de defesa". Na primeira, sig- rando "em todo o país o estado de emergência" (art. 186). O Brasil nifica, como vimos noutro lugar, "uma ordenação que tem por fim es- viveu, de 1964 a 1978, num permanente regime de exceção, sob a nor- pecífico e essencial a regulamentação global das relações sociais en- matividade excepcional instrumentada por Atos Institucionais. O AI tre os membros de uma dada população sobre um dado território". É 5, de 13.12.68, que vigorou até 13.10.78, foi certamente o instrumento escrita com inicial maiúscula precisamente para distinguir de outros mais arbitrário, mais ditatorial, que o País jamais conheceu. Com base sentidos comuns do termo, como o de "situação", "circunstância", nessa chamada legalidade extraordinária, formada sem necessidade, por- "conjuntura", entre tantos, cuja precisão depende de qualificações. que voltada apenas para coibir adversários políticos e sustentar os Assim, estado de defesa é uma situação em que se organizam medi- detentores do poder e os interesses das classes dominantes aliadas às das destinadas a debelar ameaças à ordem pública ou à paz social. oligarquias nacionais, e destinada a viger enquanto esses detentores Em outras palavras, em função do disposto no art. 136, o estado de quisessem e pudessem (portanto, sem atender o princípio da tempora- defesa consiste na instauração de uma legalidade extraordinária, por certo riedade), tudo se podia fazer: fechar Casas Legislativas, cassar man- tempo, em locais restritos e determinados, mediante decreto do Presidente datos populares, demitir funcionários, suspender direitos políticos, da República, ouvidos Conselho da República e o Conselho de Defesa Na- cional, para preservar a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave 8. Idem, p. 33. 9. Ob. cit., p. 34. 11. Sobre eles, cf. Oscar Dias Corrêa, A defesa do Estado de Direito e emergência 10. Idem, p. 157. constitucional, pp. 59 e SS.DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO 765 764 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de gran- 6. Efeitos e execução do estado de defesa des proporções na natureza. A decretação do estado de defesa importa, como primeira con- seqüência, na adoção de legalidade especial para a área em questão, 5. Pressupostos e objetivo cujo conteúdo depende do decreto que o instaurar, respeitados os Os fundamentos para a instauração do estado de defesa acham-se termos e limites da lei, donde se vê que a Constituição, ao mencionar estabelecidos no art. 136, e são de fundo e de forma. esse aspecto (art. 136, está a requerer a elaboração de uma lei Constituem pressupostos de fundo do estado de defesa: (a) a exis- que discipline a utilização desse estado de exceção. É que se prevê, tência de grave e iminente instabilidade institucional que ameace a aí, que o decreto indicará, nos termos e limites da lei, as medidas ordem pública ou a paz social ou (b) a manifestação de calamidade coercitivas a vigorarem durante o estado de defesa, dentre as relacio- de grandes proporções na natureza que atinja a mesma ordem públi- nadas naquele dispositivo, a saber: (1) restrições aos direitos de: (a) ca ou a paz social. Naturalmente que não se há de tomar, por exem- reunião, ainda que exercida no seio das associações; (b) sigilo de cor- plo, a existência de greve, por mais prolongada e intensa que seja, respondência; (c) sigilo de comunicação telegráfica e telefônica; (2) осира- como uma ameaça à ordem ou à paz social que justifique a decreta- ção e uso temporário de bens e serviços públicos, na hipótese de calami- ção da medida. Se a Constituição reconhece o direito de greve sem dade pública, respondendo a União pelos danos e custos decorrentes; limitações, é evidente que ela não pode ser tomada como algo fora (3) prisão: (a) por crime contra o Estado, pelo executor da medida, da normalidade, para justificar a implantação de uma legalidade ex- que deverá comunicá-la, com declaração do estado físico ou mental traordinária. A calamidade é sempre um fato de desajuste no âmbito do detido, ao juiz competente; (b) por outros motivos, nunca superior de sua verificação, mas, nos termos do texto constitucional, ela terá a dez dias, salvo autorização do Poder Judiciário. que ser de grandes proporções e ainda gerar situação de séria per- turbação à ordem pública ou à paz social para servir de base à decre- 7. Controles tação do estado de defesa. Os pressupostos formais do estado de defesa são: (a) prévia mani- O juízo de conveniência da decretação do estado de defesa cabe festação dos Conselhos da República e de Defesa Nacional; (b) de- ao Presidente da República, quando ocorra pressuposto de fundo para tanto. Ele tem a faculdade de decretá-lo, ou não, mas se decidir fazê-lo cretação pelo Presidente da República, após a audiência desses dois Conselhos (arts. 90, I, 91, II, e 136); (c) determinação, no decreto, terá que obedecer às normas constitucionais que o regem e à lei previs- do tempo de sua duração, que não poderá ser superior a trinta dias, ta no art. 136, já referida. Vale dizer: o estado de defesa não é, e podendo ser prorrogado apenas uma vez, por igual período (ou por não pode ser, situação de arbítrio, mas situação constitucionalmente período menor, evidentemente), se persistirem as razões que justifi- regrada. Por isso, fica sujeito a controles político e jurisdicional. caram sua decretação; (d) especificação das áreas por ele abrangidas; O controle político realiza-se em dois momentos pelo Congresso (e) indicação de medidas coercitivas, dentre as discriminadas no art. Nacional. O primeiro consiste na apreciação do decreto de instaura- 136, § A audiência dos Conselhos da República e de Defesa Nacio- ção e de prorrogação do estado de defesa, que o Presidente da Repú- nal é obrigatória, sob pena de inconstitucionalidade da medida. Con- blica terá que submeter a ele, dentro de vinte e quatro horas de sua tudo, tais Conselhos são apenas consultivos, o que vale dizer que sua edição, acompanhado da respectiva justificação. Se o Congresso esti- opinião é sempre de ser levada em consideração, mas não será ver em recesso, será convocado, extraordinariamente, no prazo de vinculativa. Portanto, se opinarem contra a decretação da medida, o cinco dias. Em qualquer caso, deverá apreciar o decreto dentro de Presidente da República ficará com a grave responsabilidade de, desa- dez dias contados de seu recebimento, continuando em funciona- tendendo-os, assim mesmo decretá-la, se assim entender indispen- mento enquanto o estado de defesa vigorar. A apreciação da medida sável. Se o fizer e o Congresso a aprovar nos termos dos arts. 49, IV, e concluirá por sua aprovação ou por sua rejeição (arts. 49, IV, e 136, § 136, §§ e tudo fica conforme com a Constituição. Se o Congresso Se aprovado, segue sua execução com os efeitos que já aponta- rejeitar a medida, poderá surgir hipótese de crime de responsabili- mos. Se rejeitado, cessarão imediatamente seus efeitos, sem prejuízo dade do Presidente da República. da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executores (arts. O estado de defesa tem por objetivo preservar ou restabelecer a 136, e 141). O controle do Congresso Nacional, no segundo mo- ordem pública ou a paz social ameaçadas por aqueles fatores de crise. mento, é sucessivo (a posteriori), porque atuará após o término do es-766 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO 767 tado de defesa e a cessação de seus efeitos, conforme dispõe o pará- (extraordinária) para fazer frente à anormalidade manifestada. São grafo único do art. 141, segundo o qual logo que cesse o estado de as condições de fato, sem as quais o estado de sítio constituirá um abu- defesa, as medidas aplicadas em sua vigência serão relatadas pelo so injustificado.¹² São pressupostos de fundo cuja ocorrência confere Presidente da República, em mensagem ao Congresso Nacional, com legitimidade às providências constitucionalmente estabelecidas. especificação e justificação das providências adotadas, com relação Essas causas estão previstas no art. 137, consubstanciadas em nominal dos atingidos e indicação das restrições aplicadas. dois casos: (1) comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de E se o Congresso não aceitar a justificação dada pelo Presidente fatos que comprovem a ineficácia de medidas tomadas durante o estado de da República, se ele chegar à conclusão de que houve arbítrio, exces- defesa; (2) declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada so? Parece-nos que, em tal caso, ficará caracterizado algum crime de estrangeira. Há, portanto: (a) estado de sítio em caso de comoção grave de responsabilidade do Presidente, especialmente o atentado a direitos repercussão nacional, portanto um estado de crise que seja de efetiva individuais, pelo que pode ser ele submetido ao respectivo processo, rebelião ou de revolução que ponha em perigo as instituições demo- previsto no art. 86 e regulado na Lei 1.079/50. cráticas e a existência do governo fundado no consentimento popu- Prevê-se, ainda, um controle político concomitante, nos termos do lar; (b) estado de sítio em caso de ocorrência de fatos que comprovem a art. 140, segundo o qual a Mesa do Congresso Nacional (art. 57, § ineficácia de medidas tomadas durante o estado de defesa, que correspon- designará Comissão composta de cinco de seus membros para acom- de, praticamente, na conversão deste em estado de sítio; (c) estado de panhar e fiscalizar a execução das medidas referentes ao estado de sítio em caso de declaração de guerra; (d) estado de sítio em caso de agressão defesa. Membros da Mesa ou do Congresso? Parece-nos que mem- armada que exija pronta resposta, desembaraçada de situação inter- bros da Mesa do Congresso que é composta dos membros da Mesa na que porventura a dificulte. Os dois últimos casos são de situação do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. de guerra. No primeiro, trata-se de estado de guerra, juridicamente O controle jurisdicional consta, por exemplo, do art. 136, onde estabelecido, ou seja, guerra declarada nos termos dos arts. 49, II, e se prevê que a prisão por crime contra o Estado, determinada pelo 84, XIX. No segundo, eventualmente em situação de guerra depen- executor da medida, será por ele comunicada imediatamente ao juiz dente de referendo do Congresso Nacional na conformidade dos competente, que a relaxará, se não for legal, facultado ao preso reque- mesmos artigos citados. Guerra, aí, pois, é sempre guerra externa, ou rer exame de corpo de delito à autoridade policial; essa comunicação seja: só o estado de beligerância com Estado estrangeiro é que funda- será acompanhada de declaração do estado físico e mental do detido menta o estado de sítio na hipótese. no momento de sua autuação. Também a prisão ou detenção de qual- A instauração do estado de sítio depende ainda de preenchimen- quer pessoa não poderá ser superior a dez dias, salvo autorização do to de requisitos (pressupostos) formais, quais sejam: (a) audiência do Con- Poder Judiciário; não havendo tal autorização, o constrangimento, além selho da República e do Conselho de Defesa Nacional; (b) autorização, daquele período, é ilegal e passível de controle jurisdicional por via de por voto da maioria absoluta do Congresso Nacional, para sua decre- habeas corpus. Demais, é vedada a incomunicabilidade do preso, o que tação em atendimento a solicitação fundamentada do Presidente da vale dizer que a prisão fica sempre sujeita ao controle jurisdicional, República; (c) decreto do Presidente da República. Quer dizer, o esta- para o cumprimento dessa vedação. Finalmente, cessado o estado de do de sítio é decretado pelo Presidente da República, ouvidos aqueles defesa, cessarão seus efeitos, mas sem prejuízo da responsabilidade dois Conselhos e autorizado pelo Congresso Nacional, que, se estiver pelos ilícitos cometidos por seus executores ou agentes. Isso quer di- em recesso, será imediatamente convocado pelo Presidente do Senado zer que existirá a possibilidade de controle jurisdicional sucessivo so- Federal para reunir-se dentro de cinco dias, a fim de apreciar a solici- bre a conduta dos executores ou agentes da medida. tação, e, concedendo-a, permanecerá em funcionamento até o término das medidas coercitivas (arts. 137 e 138, e É o decreto do Presi- III. ESTADO DE SÍTIO dente da República que instaura a normatividade extraordinária do estado de sítio pela indicação de: (a) sua duração, que não poderá ser 8. Pressupostos, objetivos e conceito superior a trinta dias, nem prorrogada, de cada vez (o que permite Causas do estado de sítio são as situações críticas que indicam a 12. Cf. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, O estado de sítio, p. 121; Aricê Moacyr necessidade da instauração de correspondente legalidade de exceção Amaral Santos, ob. cit., p. 98.DO ESTADO DE DEFESA E DO ESTADO DE SÍTIO 769 768 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO mais de uma prorrogação), por prazo superior, quando se tratar de necessidade de elaboração de uma lei que preveja a possibilidade e estado de sítio com base no inc. I do art. 137; e por todo o tempo que limites dessas restrições, que, como se nota, importam em intercepta- perdurar a guerra ou a agressão armada estrangeira na hipótese do ção e censura aos meios de comunicação em geral; mas não se inclui, inc. II; (b) as normas necessárias à sua execução, ou seja, as instruções que nessas restrições, a difusão de pronunciamentos de parlamentares devem reger a conduta dos executores da medida; (c) as garantias cons- efetuados em suas Casas Legislativas, desde que liberada pela res- titucionais que ficarão suspensas, dentre as autorizadas no art. 139. Publi- pectiva Mesa; cado o decreto, o Presidente da República designará o executor das (4) suspensão da liberdade de reunião; medidas específicas e as áreas abrangidas. Esses condicionamentos (5) busca e apreensão em domicílio, o que é uma derrogação da visam situar o estado de sítio em limites estritamente necessários ao inviolabilidade do domicílio; restabelecimento da normalidade, para que não se sirva dele como (6) intervenção nas empresas de serviços públicos (empresas de instrumento para obter resultado diametralmente contrário a seus ob- telecomunicações, de transportes, de fornecimento de água etc.); jetivos, que são, pelo visto: (a) preservar, manter e defender o Estado Democrático de Direito e, por conseguinte, as instituições democráti- (7) requisição de bens. cas; (b) dar condições de livre mobilização de todos os meios necessá- Cessado o estado de sítio, cessarão os seus efeitos sem prejuízo rios à defesa do Estado no caso de guerra. da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executores ou O estado de sítio consiste, pois, na instauração de uma legalidade agentes, que são, como foi dito, a legalidade extraordinária implan- extraordinária, por determinado tempo e em certa área (que poderá ser o tada com sua decretação e as providências de sua execução. Esta rea- território nacional inteiro), objetivando preservar ou restaurar a normali- liza-se por meio de delegado do Presidente da República, como exe- dade constitucional, perturbada por motivo de comoção grave de repercus- cutor das medidas específicas consubstanciadas no decreto, nomea- são nacional ou por situação de beligerância com Estado estrangeiro. A apli- do depois de sua publicação, mas nada impede seja nomeado no pró- cação de medidas coercitivas e a suspensão de direitos e garantias prio decreto de instauração do estado de sítio. Em regra, são nomea- constitucionais são apenas meios para a consecução de seus objeti- das autoridades militares que se incumbem de tomar as medidas coer- vos. São efeitos de sua decretação, a que dedicaremos as considera- citivas autorizadas no decreto. ções que seguem. 10. Controles do estado de sítio 9. Efeitos do estado de sítio Tal como no estado de defesa, o juízo de conveniência da instau- A decretação do estado de sítio importa, como primeira conseqüên- ração do estado de sítio cabe ao Presidente da República quando ocor- cia, na substituição da legalidade constitucional comum por umalega- ra um dos pressupostos de fundo que o justificam. Ele tem a faculda- lidade constitucional extraordinária. O conteúdo desta depende do de- de de decretar, ou não, a medida, mas se o fizer, terá que observar as creto que instaura a medida, respeitados limites indicados na Cons- normas constitucionais que a regem. Vale dizer, o estado de sítio, tituição. Tais limites, contudo, só são estabelecidos relativamente ao tanto quanto o estado de defesa, não é, nem pode ser, uma situação estado de sítio decretado por motivo de comoção grave ou ocorrência de arbítrio, porque é uma situação constitucionalmente regrada. Por de fatos que comprovem a ineficácia do estado de defesa, conforme o isso, fica sujeito a controles político e jurisdicional. disposto no art. 137, I. Na vigência deste estado de sítio, só poderão O controle político realiza-se pelo Congresso Nacional em três ser tomadas contra as pessoas as seguintes medidas coercitivas momentos: (a) um controle prévio, porque a decretação do estado de (1) obrigação de permanência em localidade determinada; sítio depende de sua prévia autorização (art. 137); (b) um controle (2) detenção em edifício não destinado a acusados ou condena- concomitante, porque, nos termos do art. 140, a Mesa do Congresso dos por crimes comuns, o que acaba por deter as pessoas em prisão Nacional, ouvidos os líderes partidários, deverá designar Comissão dos quartéis da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica; composta de cinco de seus membros (seus da Mesa, ao que nos pare- (3) restrições relativas à inviolabilidade da correspondência, ao ce) para acompanhar e fiscalizar a execução das medidas referentes sigilo das comunicações, à prestação de informações e à liberdade de ao estado de sítio, tal como em relação ao estado de defesa, consoan- imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei, o que significa a te vimos; (c) sucessivo, ou seja, após cessado o estado de sítio, as me-770 CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL POSITIVO didas aplicadas em sua vigência serão relatadas pelo Presidente da República, em mensagem ao Congresso Nacional, com especificação e justificação das providências adotadas, com relação nominal dos atingidos e indicação das restrições aplicadas. Capítulo II O controle jurisdicional é amplo em relação aos limites de aplica- ção das restrições autorizadas. Se os executores ou agentes do estado de sítio cometerem abuso ou excesso de poder durante sua execu- DAS FORÇAS ARMADAS ção, é lógico que seus atos ficam sujeitos a correção por via jurisdi- cional, quer por via de mandado de segurança, quer por habeas corpus, quer por outro meio judicial hábil. Mesmo depois de cessados o esta- 1. Destinação constitucional. 2. Instituições nacionais permanentes. 3. Hierar- do de sítio e seus efeitos, poderá ocorrer hipótese de responsabiliza- quia e disciplina. 4. Componentes das Forças Armadas. 5. Fixação e modifica- ção jurisdicional de seus executores ou agentes por atos ou condutas ção dos efetivos das Forças Armadas. 6. A obrigação militar. 7. Organização militar e seus servidores. ilícitos cometidos durante a execução da medida, conforme estatui o art. 141. 1. Destinação constitucional Mais uma vez se vê que o estado de sítio, como o estado de defe- sa, está subordinado a normas legais. Ele gera uma legalidade extraor- A Constituição estabelece que as Forças Armadas são instituições dinária, mas não pode ser arbitrariedade. Por isso, qualquer pessoa nacionais permanentes e regulares que se destinam à defesa da Pátria, à prejudicada por medidas ou providências do Presidente da República garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da ou de seus delegados, executores ou agentes, com inobservância das lei e da ordem (art. 142). prescrições constitucionais não excepcionadas e das constantes do art. 139, tem o direito de recorrer ao Poder Judiciário para responsabilizá- Constituem, assim, elemento fundamental da organização coer- los e pedir a reparação do dano que lhe tenha sido causado. citiva a serviço do Direito e da paz social. Esta nelas repousa pela afirmação da ordem na órbita interna e do prestígio estatal na socie- dade das nações. São, portanto, os garantes materiais da subsistên- cia do Estado e da perfeita realização de seus fins. Em função da consciência que tenham da sua missão está a tranqüilidade interna pela estabilidade das instituições. É em função de seu poderio que se afirmam, nos momentos críticos da vida internacional, o prestígio do Estado e a sua própria soberania.¹ Dado o relevo de sua missão, nossas constituições sempre reser- varam a elas posição especial. A do Império destacou-lhes um capítu- lo com seis artigos, em que se lhes traçam as linhas mestras (arts. 145 a 150). A primeira Constituição republicana não lhes abriu capítulo es- pecial, mas delas cuida em vários dispositivos esparsos, reconhecen- do-lhes a mesma destinação e relevo (arts. 14, 34, ns. 17 e 18, 48, ns. 3, 4 e 5, e arts. 73, 74, 76, 77 e 78). A Constituição de 1934 volta a destinar- lhes título específico denominado Da Segurança Nacional (Tít. VI) e a de 1937 desdobra a matéria em dois capítulos: um sobre os Militares da Terra e Mar (art. 160) e outro sobre a segurança nacional, técnica que tornou a ser adotada pelo constituinte de 1967 e 1969, que, em seções diferentes, cuidaram da segurança nacional e das Forças Armadas (res- 1. Cf. Seabra Fagundes, As Forças Armadas na Constituição, p. 11.