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Tema 2 - Haletos de Alquila: Reações de Substituição e Eliminação 1. Itens iniciais Propósito Conhecer os compostos orgânicos classificados como haletos de alquila, suas propriedades físico-químicas, nomenclatura e reatividade para a compreensão das reações de substituição nucleofílica e eliminação, que são importantes tanto em síntese orgânica quanto em processos bioquímicos. Preparação Antes de iniciar o conteúdo, tenha à mão a bibliografia recomendada e uma tabela periódica para entender termos específicos da área. Objetivos · Identificar a estrutura, a nomenclatura, a classificação e as características dos haletos de alquila e seus mecanismos de reações iônicas. · Reconhecer a reatividade dos haletos de alquila e os tipos de reações de substituição nucleofílica. · Reconhecer os mecanismos que influenciam as reações SN1 e SN2. Identificar características e fatores que influenciam a ocorrência das reações de eliminação. Introdução A Química Orgânica estuda os compostos do carbono, um átomo que compõe milhares de substâncias importantes para a vida, como o DNA, as proteínas, os lipídeos e os carboidratos. O carbono também está nos produtos desenvolvidos em laboratório que facilitam o dia a dia das pessoas, como os diversos polímeros e medicamentos. Mas como é feito o desenvolvimento desses medicamentos? A maioria dos medicamentos são compostos orgânicos sintéticos, mas o que são as reações orgânicas? Como ocorrem? Será que a inserção de uma metila em um composto é um processo simples? Que fatores influenciam essas reações? O estudo da síntese orgânica é bastante vasto e complexo, precisamos começar pelo entendimento dos intermediários de reação e por reações altamente versáteis e funcionais como as substituições nucleofílicas e eliminações, sintetizando assim álcoois, éteres, ésteres, aminas, tioéter, nitrilas e alcenos nos processos de eliminação. 1. Aspectos e classificação dos haletos de alquila Estrutura e nomenclatura dos haletos de alquila Haletos orgânicos, ou haletos de alquila, são compostos por um átomo ou grupo de átomos eletronegativos um halogênio - ligado a um carbono com hibridização sp3. Esses compostos são importantes como intermediários de síntese orgânica e possuem diversas aplicações industriais e caseiras. Dependendo do halogênio que está ligado à cadeia de hidrocarboneto, usamos designações específicas. Haletos de alquila: R-X (X = F, Cl, Br, I) R-F Fluoreto de alquila R-Cl Cloreto de alquila R-Br Brometo de alquila R-I Iodeto de alquila Veja alguns exemplos de haletos orgânicos: Exemplo 1 Tetraclorometano, triclorometano e 1, 1, 1-tricloroetano. Eles são amplamente utilizados como solventes, na fabricação de plásticos, inseticidas e gás de refrigeração. Exemplo 2 O DDT (diclorodifeniltricloroetano) é um inseticida que deixou de ser utilizado por ser altamente tóxico. Exemplo 3 Durante a Primeira Guerra Mundial ( 1914 - 1918 ) , os haletos orgânicos começaram a ser utilizados como armas químicas, um exemplo é o fosgênio - COCl 2 . Exemplo 4 Os clorofluorcarbonetos - CFC ou Fréons® são formados por moléculas do tipo metano ( CH 4 ) e etano ( H 3 C - CH 3 ) . Seus átomos de hidrogênio são substituídos por átomos de cloro e flúor. Os principais CFC são CCl 3 F nome comercial CFC ( - 11 ) , CCl 2 F 2 ( CFC - 12 ) , CClF 2 CClF 2 ( CFC - 114 ) e CClF 2 CF 3 ( CFC - 115 ) . Os CFC já foram usados em compressores para refrigeração doméstica ( por exemplo, em geladeiras), para expansão de polímeros e em produtos do tipo spray . Porém, eles estão sendo gradativamente substituídos por outros compostos, como os HFC - hidrofluorocarbonetos -, pois os CFC lançados na atmosfera são os principais responsáveis pela destruição da camada de ozônio. Até agora, mencionamos os nomes de diferentes haletos de alquila. Mas como esses nomes são atribuídos a seus respectivos compostos? A nomenclatura dos compostos halogenados pode seguir dois sistemas: Nomenclatura substitutiva O nome do composto é formado citando-se o prefixo (fluoro, cloro, bromo e iodo) seguido do nome do composto principal. Caso o composto seja formado por mais de um halogênio, os mesmos devem ser citados em ordem alfabética e cada prefixo antecedido do número indicativo de sua posição. Radicofuncional O prefixo "per" é utilizado para compostos que possuem todos os átomos de hidrogênio substituídos por halogênios, como exemplo o composto percloroetano ( Cl 3 CCCl 3 ). Os prefixos fluoreto, cloreto, brometo e iodeto são utilizados na nomenclatura radicofuncional, e estes prefixos são seguidos da preposição "de" e do nome do grupo alquila, exemplo: CH 3 Br - brometo de metila e CH 3 CH 2 F - fluoreto de etila. Classificação dos haletos de alquila Os haletos de alquila podem ser classificados em primários, secundários ou terciários de acordo com a classificação do carbono em que estão ligados. Alguns exemplos favorecem o entendimento desta classificação: Exemplo 1 1 - clorobutano é um haleto primário , pois o átomo de cloro está ligado a um carbono primário quando o carbono é metílico, como no caso do cloreto de metila. Alguns autores classificam o haleto como metílico. Exemplo 2 Haletos orgânicos secundários têm o halogênio ligado a um carbono secundário , como o 2 - bromo - propano . Exemplo 3 Os haletos terciários possuem o halogênio ligado a um carbono terciário , como o 2 - iodo - 2 - metil - propano . Exemplo 4 Podemos encontrar os termos haletos benzílicos e alílicos , quando o halogênio estiver ligado a um carbono vizinho a um grupo arila ( aromático ) ou a uma dupla ligação , respectivamente. Características físico-químicas dos haletos de alquila Sobre as propriedades físico-químicas dos haletos de alquila, podemos destacar a polarizabilidade, que é a capacidade de uma nuvem eletrônica se distorcer. Quanto maior o átomo, maior a polarizabilidade, pois mais fracamente este segura os elétrons na camada de valência. Quanto mais polarizável o átomo, mais forte são as interações de Van der Waals, o que influencia a solubilidade e os pontos de fusão e ebulição dos compostos. Desta forma, fluoretos de alquila apresentam menores ponto de ebulição do que os cloretos de alquila considerando a mesma cadeia alquílica. Na figura e tabela a seguir, é possível verificar a força das ligações C-X e, a partir dos mapas eletrostáticos, visualizar que a polaridade (relacionada à diferença de eletronegatividade entre os átomos) é inversamente proporcional à polarizabilidade dos haletos de alquila. Interações de Van der Waals São interações intramoleculares do tipo dipolo-dipolo induzido. ↑ Polarização na ligação; halogênio com menor polarizabilidade.↓ Polarização na ligação; halogênio com maior polarizabilidade. Ligação Comprimento da ligação (Å) Força da ligação kcal/mol kJ/mol C-F 1,39 108 451 C-Cl 1,78 84 350 C-Br 1,93 70 294 C-I 2,14 57 239 Características das ligações carbono-halogênio. Os compostos orgânicos halogenados apresentam baixa solubilidade em água e são bastantes solúveis em solventes pouco polares. Na síntese de fármacos, a adição de halogênios aumenta a lipossolubilidade dos novos análogos, aumentando a penetração dos novos compostos nas membranas biológicas. Porém, devido ao aumento do coeficiente de partição, há maior tendência de acúmulo destes fármacos no tecido adiposo. A introdução de um halogênio ou um grupamento halogenado pode resultar na mudança de potência do composto, assim como sua posição na estrutura química. Exemplo A clonidina, com a sua substituição o,o-cloro ( ED50 = 0,01 mg/kg) é mais potente que o análogo p,m- dicloro ( ED50 = 3,00 mg/kg). Na clonidina, a imposição conformacional na estrutura feita pelos grupamentos volumosos o,o-cloro provavelmente é responsável pelo aumento de atividade observada. Agora que já conhecemos a estrutura e as características dos haletos de alquila, vamos entender os princípios de reações iônicas nas quais os haletos de alquilas participam como um dos principais reagentes.Mecanismos de reações iônicas As reações orgânicas são transformações que ocorrem nos compostos orgânicos. Os principais tipos são as reações de adição, de substituição, de oxidação e de eliminação. As reações ocorrem por meio da quebra de ligações dos compostos reagentes e a formação de outras novas ligações que darão origem aos produtos Em química orgânica, a maioria das ligações químicas são de natureza covalente. Podem ser: Ligações covalentes polares Quando um átomo atrai mais fortemente o par de elétrons em uma ligação do que outro, tem-se uma ligação covalente polar (ou dipolar: um polo positivo e um negativo). Moléculas em ligações polares existentes geram uma distribuição de densidades eletrônicas desiguais, são as denominadas moléculas polares. As ligações covalentes polares ocorrem, portanto, entre elementos com diferenças significativas de eletronegatividade. Por isso, os elétrons envolvidos na ligação são compartilhados de forma não igualitária: a densidade eletrônica é deslocada no sentido do elemento mais eletronegativo. Essas ligações produzem moléculas polares. Ligações covalentes apolares Se não houver nenhum deslocamento líquido do par de elétrons, a ligação é covalente apolar. Compostos em que predominam as ligações covalentes apolares são classificados como compostos apolares. As ligações covalentes apolares ocorrem, portanto, entre elementos com valores de eletronegatividades próximos. Por isso, os elétrons envolvidos na ligação são compartilhados de forma igualitária. Essas ligações produzem moléculas apolares. Vejamos outros exemplos! Alcanos, alcenos, alcinos e aromáticos que apenas possuem átomos de carbono e hidrogênio somente apresentam ligações apolares (a diferença de eletronegatividade entre o carbono e o hidrogênio é muito pequena, o que não gera um dipolo significativo). Já compostos orgânicos, como álcoois (R-OH), aminas (R-NH2), ácidos carboxílicos (R-COOH), possuem átomos de oxigênio e nitrogênio, que são mais eletronegativos que o carbono, gerando um dipolo e a polaridade da molécula. Mas existem compostos com estes elementos que não são significativamente polares, vejamos os éteres R-OR1. Apesar de apresentarem o oxigênio, os dipolos tendem a se anular levando à apolaridade do composto. Cisões de ligações químicas Veja agora os tipos de quebra, também chamadas de cisões, que as ligações químicas podem sofrer durante as reações químicas. Cisão homolítica A cisão homolítica ou homólise de uma ligação covalente é um processo que resulta na formação de radicais, espécies neutras e muito reativas que possuem um elétron desemparelhado. Representação estrutural do metil radical. A equação a seguir representa uma homólise da ligação C-X: Como o nome já deixa entender, homo = igual. Ou seja, a ligação é quebrada em "partes iguais" e cada átomo fica com 1 (um) elétron. Na cisão homolítica, temos a formação de radicais, também conhecidos como radicais livres, que são espécies instáveis e altamente reativas. A homólise ocorre frequentemente em substâncias que apresentam ligações covalente apolares, onde não identificamos diferença de dipolos na ligação. É favorecida por altas temperaturas ou na presença de radiação eletromagnética, em especial radiações no UV (ultravioleta). Radicais livres São agentes oxidantes constantemente produzidos pelo nosso organismo e, em quantidades adequadas, são primordiais para o funcionamento adequado do sistema imunológico e de outros processos fisiológicos. Entretanto, quando se encontram em quantidades exacerbadas, eles reagem com estruturas de células saudáveis, danificando-as e, em alguns casos, levando à morte celular. São uma das responsáveis pelo envelhecimento precoce. A fim de regular a ação dos radicais livres, o organismo possui sistemas de defesa antioxidantes. A alimentação rica em substâncias antioxidantes - tais como vitamina C (ácido ascórbico), flavonoides, vitamina A (retinol), vitamina E (tocoferóis), cobre, selênio e zinco - é uma excelente medida para combater o envelhecimento precoce e outros males causados pelo excesso de radicais livres no organismo. Cisão heterolítica A cisão heterolítica (heterólise de uma ligação covalente) é um processo que resulta na formação de compostos orgânicos iônicos a partir de espécies com dois elétrons emparelhados (ânions, carbânions, nucleófilos), que são negativamente carregadas, e espécies positivas com o orbital vazio (cátions, carbocátions, eletrófilos). Representação estrutural de carbocátion e carbânion. Em outras palavras, na cisão heterolítica, no caso de uma ligação se quebrar, um dos átomos recebe os dois elétrons da ligação, enquanto na reação homolítica após a quebra da ligação covalente cada átomo retém um elétron. O esquema da figura a seguir ilustra a ocorrência de uma cisão heterolítica. A cisão heterolítica ocorre principalmente em ligações polares. Comumente o átomo mais eletronegativo atrai os elétrons e recebe-os na quebra da ligação (conforme o exemplo da quebra da ligação H-F, como o flúor é mais eletronegativo que o hidrogênio, a quebra da ligação forma o ânion brometo e o cátion do hidrogênio próton). Observe na figura a seguir os símbolos que frequentemente utilizamos para representar o dipolo da ligação, demonstrando as cargas parciais positivas e negativas do hidrogênio e do flúor, respectivamente. Para identificarmos os tipos de quebra de ligação, utilizamos setas para representar o movimento dos elétrons, a quebra e a formação de novas ligações. São setas curvas que podem ter a ponta da seta completa ou a ponta da seta parcial. Vejamos: Tipos de reagentes Nas reações iônicas, existem dois tipos de reagentes: Reagentes eletrófilos (E+) Espécie química que aceita um par de elétrons para formar uma nova ligação por ter uma carga positiva ou parcialmente positiva (δ+). Mesmo que neutros, possuem orbitais vazios capazes de receber elétrons (ácidos de Lewis). Exemplos: íon hidrônio (H3O+, dos ácidos de Brønsted-Lowry), trifluoreto de boro (BF3), cloreto de alumínio (AlCl3) e as moléculas de halogênio flúor (F2), cloro (Cl2), bromo (Br2) e iodo (I2). Reagentes nucleófilos (Nu- ou Nu:) Espécie química que doa um par de elétrons para formar uma nova ligação por ter uma carga negativa efetiva (ânion) ou parcialmente negativa (δ-). De forma geral, os nucleófilos são ânions ou espécies que possuem um átomo com pares de elétrons isolados. Exemplos: ânions halogênio (I-, Cl-, Br-), íon hidróxido (OH-), íon cianeto (CN-), amônia (NH3), aminas (R-NH2) e água (H2O). 2. Reatividade e reações de substituição Reatividade dos compostos orgânicos Os compostos alifáticos podem conter apenas átomos de carbono e hidrogênio, sendo classificados como hidrocarbonetos não funcionais. Podem também apresentar pelo menos um outro elemento X, um heteroátomo, sendo classificados como compostos com grupos funcionais. A reatividade dos compostos orgânicos envolve, portanto, a quebra de ligações C-H, mais raramente C-C, e da ligação C-X, que pode ser atacada com maior facilidade do que uma ligação C-H, devido à sua polarização e à alta estabilidade termodinâmica da ligação C-H. Desta forma, em compostos alifáticos R-X, a substituição do grupo X geralmente ocorre mais facilmente e de forma mais controlada do que a substituição C-H, que requer condições mais enérgicas. Reatividade dos haletos de alquila Para os compostos alifáticos funcionais R-X, onde X é um elemento do grupo 17, sabemos que a eletronegatividade do elemento X e do carbono no qual está ligado são diferentes. O halogênio X terá maior eletronegatividade que o carbono, o que levará à polarização dessa ligação, gerando uma carga parcial positiva no carbono (representado por +). A presença deste local deficiente de elétrons na molécula favorece o ataque de espécies negativas ou parcialmente negativas (δ-), os Nucleófilos (Nu- ou Nu:). Em reações de substituição nucleofílica, o Nusubstitui o X, também conhecido como grupo abandonador ou grupo de saída. Além dos halogênios, outros substituintespodem ser grupos de saída ou abandonadores nas reações iônicas, como os grupos tosila e mesila. As características desses grupamentos serão exploradas ao longo deste conteúdo. Para entendermos melhor a substituição nucleofílica (SN), já citamos que o carbono fica positivado devido ao grupo puxador de elétrons X ligado a ele. Assim, um reagente Nu- negativo ou parcialmente negativo é capaz de atacar os orbitais eletrônicos do carbono positivado, ou seja, um carbono com déficit de elétrons. A letra N no símbolo SN para esta classe de reação é de "nucleofílica". Como já vimos anteriormente, a condição para ser um nucleófilo, em geral, é a disposição de pelo menos um par de elétrons não ligado que é utilizado para estabelecer a nova ligação ao carbono. Além disso, este par de elétrons deve alcançar o centro reativo C δ+ com certa facilidade, que é o caso em elétrons de orbitais exteriores de alta polarizabilidade. Uma dificuldade geral na execução da SN envolve a vizinhança do C funcionalizado (também chamada de posição ß). Por exemplo, se as cadeias ligadas diretamente ao centro eletrofílico próximas a ele forem muito volumosas, causam um impedimento espacial (ou impedimento estérico), o que dificulta o ataque do nucleófilo ao carbono C δ+. A tabela a seguir apresenta vários exemplos de nucleófilos que podem participar deste tipo de reação nucleofílica. Como pode ser visto, a reação é útil para conversão de haletos de alquila em uma grande variedade de compostos orgânicos: álcoois, éteres, ésteres, nitrilas, aminas, alquinos, tióis, tio éteres e até hidrocarbonetos. Reações entre haletos de alquila (RX) e nucleófilos. Avançando um pouco mais na compreensão de como ocorrem as reações dos haletos de alquila, veremos que estes compostos podem sofrer três tipos de reações: 1. substituição nucleofílica; 2. eliminação; 3. oxidorredução. Abordaremos as reações de substituição e eliminação, assim como seus mecanismos e os fatores que influenciam as reações. Observe a seguir um esquema geral que apresenta os produtos das reações de substituição - reação do haleto de alquila com nucleófilo (Nu:) - e de eliminação - quando um próton do haleto de alquila é subtraído por uma base (B-). Reações de substituição nucleofílica Está claro que a presença do halogênio mais eletronegativo que o carbono polariza esta ligação deixando o carbono parcialmente positivo, sendo reativo para o ataque de reagentes nucleofílicos. O halogênio é o grupo de saída (S), também conhecido como grupo abandonador (GA) ou grupo de saída (GS), neste tipo de reação chamada de substituição nucleófilica (SN). As reações de SN podem ser de dois tipos: SN2 - substituição nucleofílica bimolecular e SN1 - substituição nucleofílica unimolecular. O mecanismo da substituição nucleofílica predominante dependerá de fatores como: · a estrutura do haleto de alquila; · a reatividade do nucleófilo; · a concentração do nucleófilo e o solvente da reação. Iremos detalhar e analisar cada fator em nosso estudo. Reação do tipo SN2 - substituição nucleofílica bimolecular A reação do tipo SN2 ocorre por um mecanismo concertado, de forma que o nucleófilo é atraído pela carga parcial positiva do carbono ligado ao grupo de saída. Enquanto o nucleófilo se aproxima do carbono para formar uma nova ligação, a ligação carbono-halogênio se rompe de forma heterolítica, ou seja, uma nova ligação está se formando enquanto a ligação carbono-halogênio está se rompendo - tudo ao mesmo tempo, como podemos verificar pelas linhas pontilhadas no esquema a seguir. Importante entender que a linha cheia significa ligação existente enquanto a linha pontilhada, ligação sendo quebrada ou formada em uma representação do estado de transição na reação. A reação a seguir evidencia o ataque do íon hidroxila (nucleófilo) ao cloreto de metila, levando à substituição do átomo de cloro (grupo de saída) pela hidroxila, formando o álcool - metanol. Acompanhe o esquema para entender todo o processo. Vamos detalhar o mecanismo: devemos lembrar que no íon hidróxido que o átomo de oxigênio possui um elétron a mais na sua camada de valência, o que lhe confere carga negativa; a molécula do cloreto de metila possui o carbono parcialmente positivo, devido à ligação como o cloro, que atrai os elétrons do ânion hidroxila. Ao mesmo tempo, a hidroxila forma uma nova ligação com o carbono enquanto do lado oposto a ligação carbono-cloro se desfaz. Ao final da reação, verificamos que a hidroxila se ligou ao carbono, que teve sua configuração invertida, e o íon cloreto se formou. A observação do estado de transição deixa claro o termo: reação concertada. A reação do tipo SN2 é uma reação de cinética de 2ª Ordem, em que a velocidade da reação é diretamente proporcional à quantidade do substrato e do reagente, ou seja, a velocidade da reação depende tanto da concentração do haleto de alquila quanto do nucleófilo/reagente. Velocidade = k. [haleto de alquila]. [nucleófilo] Onde k é a constante de velocidade da reação Para a reação citada anteriormente, a Velocidade = k. [CH3Cl]. [-OH] e o estudo de sua velocidade estão citados na tabela a seguir. Estudo da reação do cloreto de metila com o íon hidróxido a 60°C. A análise dos dados da tabela anterior esclarece a cinética de 2ª ordem. A velocidade da reação aumenta quando a concentração do substrato e/ou do nucleófilo aumenta. Isto é observado nas reações 2 e 3. Na reação 4, podemos ver que o dobro da concentração do substrato [CH3Cl] e do Nu aumenta a velocidade da reação em quatro vezes. Reação do tipo SN1 - substituição nucleofílica unimolecular Considerando nossos estudos sobre a reação de substituição nucleófilica e o mecanismo SN2, se fôssemos questionados sobre a reação de um haleto terciário, como o cloreto de terc-butila, com um nucleófilo fraco como a água, rapidamente afirmaríamos que esta reação não ocorre. Para nossa surpresa, esta reação é extremamente rápida e favorecida, mas por outro mecanismo: o mecanismo SN1 - substituição nucleofílica unimolecular. Esse mecanismo apresenta cinética de 1ª Ordem, onde apenas uma espécie o haleto de alquila, está envolvida na etapa lenta (determinante) da reação. Velocidade = k. [haleto de alquila] A etapa lenta das reações do tipo SN1 envolve a formação de um intermediário carbocátion a partir da cisão heterolítica da ligação entre o halogênio e um carbono no qual estava ligado. Vamos observar no esquema a seguir a reação de substituição nucleofílica do SN1 que ocorre com o cloreto de terc-butila em água: Vamos conhecer as etapas da reação do tipo S N 1 . Etapa 1 - Formação do carbocátion Etapa 2 - Ataque do nucleófilo Etapa 3 - Retirada do próton No mecanismo SN1, a primeira etapa é a determinante da reação, ou seja, a velocidade da reação depende de a capacidade do grupo de saída quebrar a ligação com o carbono levando à formação de uma carbocátion. Quanto mais estabilizado o carbocátion mais favorecida será esta etapa. A presença de substituintes alquila neste carbono aumenta a sua estabilidade pelo efeito doador de elétrons fraco e pelo efeito de hiperconjugação dos grupos de alquila (forças de Van der Waals). Desta forma a reatividade dos haletos de alquila frente ao mecanismo SN1 é: (mais reativo) Haleto de alquila terciário > haleto de alquila secundário > haleto de alquila primário > haleto de alquila metílico (menos reativo) É importante destacar que, além do efeito doador dos grupos alquilas e o efeito de hiperconjugação, outros efeitos, como o de ressonância, são capazes de estabilizar carbocátions. É o caso dos carbocátions benzílicos e alílicos. 3. Mecanismos de substituição nucleofílica Reação de substituição nucleofílica bimolecular Vamos discutir os fatores que influenciam a velocidades de reação para o mecanismo de substituição nucleofílica do tipo SN2. Reação SN2 e basicidade relativa dos íons haletos Quando analisamos as características do substrato que influenciam as reações de substituição nucleofílica, precisamos avaliar a natureza do grupo de saídaou grupo abandonador e a estrutura desse substrato. Um bom grupo abandonador deve ser uma base fraca e relativamente estável - deve receber facilmente os elétrons da ligação rompida. A base fraca facilita o rompimento da ligação C-GS, pois esta ligação tende a ser mais fraca. Já vimos que os haletos se comportam como grupos de saída, mas possuem reatividades distintas devido à sua basicidade e polarizabilidade. A seguir, podemos observar a ordem de basicidade dos haletos e de que maneira estes funcionam como grupo de saída. (Base mais fraca e mais estável) I- Br- > Cl- > F- Efeito do solvente As reações orgânicas ocorrem em meios líquidos e para isso o substrato e o reagente estão dispersos em um solvente. Os solventes podem ser classificados como: Vamos entender melhor os solventes próticos e apróticos. Solventes próticos Solventes como a água solvatam fortemente os nucleófilos por ligações de hidrogênio, diminuindo a reatividade do nucleófilo para as reações de substituição. Em solventes polares próticos, a nucleofilicidade dos haletos é diretamente proporcional ao tamanho atômico: I- > Br- > Cl- > F- Isso se justifica pelo fato de íons com raios menores serem melhor solvatados neste tipo de solvente, como ilustra a figura a seguir: Quanto menor o volume do nucleófilo mais solvatado será pelo solvente, isto explica o ânion sulfeto - RS- ser mais nucleofílico que o RO- em solventes polares próticos, além da característica da polarizabilidade que já analisamos. Solventes apróticos Os solventes polares apróticos como o DMSO (dimetilsulfóxido) e a DMF (N,N-dimetilformamida) dissolvem compostos iônicos e solvatam muito bem cátions, mas não solvatam ânions, ou seja, não impedem ou interferem a reação dos nucleófilos. Dessa forma, os solventes polares apróticos são muito utilizados nas reações SN2, aumentando sua velocidade de reação. DMSO ( Dimetilsulfóxido) DMF ( N,N - Dimetilformamida) A ordem de nucleofilicidade e reatividade para SN2 dos íons halogênios é influenciada pelos solventes polares apróticos; é o inverso daquela observada para os solventes polares próticos: F- > Cl- > Br- > I- Observe que neste caso, a nucleofilicidade é diretamente proporcional à basicidade. Teoria do estado de transição Quando estudamos as reações químicas, temos dois tipos de reações: Um exemplo de reação exergônica é a do cloreto de metila com o íon hidróxido em solução aquosa que libera energia - ∆G° = -100 kJ/mol a 60° C. CH3Cl + HO- → CH3OH + Cl- Já vimos que esta reação é uma SN2 e altamente favorecida devido à sua alta constante de equilíbrio, ou seja, é uma reação que ocorre de forma completa, seu equilíbrio está voltado para a formação do produto. Tal fato também pode ser explicado analisando a basicidade e a capacidade do grupo de saída de deixar a molécula. No exemplo citado, o Cl- é uma base mais fraca que o HO-, sendo melhor grupo de saída e favorecendo a reação para a formação do álcool. Mas existem reações em que a diferença de basicidade entre o nucleófilo e o grupo de saída não é grande, desta forma a reação é reversível. Podemos citar como exemplo a reação do brometo de etila com o íon iodeto: a reação se torna reversível, pois a basicidade dos íons, medida pela força do seu ácido conjugado (pKa), são semelhantes (pKa do HI = -9 e pKa do HBr = -10). Segundo o princípio de Le Châtelier, que estudou a termodinâmica das reações, se um equilíbrio for perturbado, o sistema se ajusta para compensar o distúrbio, ou seja, podemos orientar a direção das reações reversíveis pela remoção do produto assim que o mesmo é formado. Grupo de saída Assim como vimos no mecanismo SN2, a basicidade e a polarizabilidade dos halogênios influenciam a reatividade dos haletos de alquila. Os átomos de halogênios mais facilmente polarizáveis e que formam ânion, que são bases fracas, são melhores grupos de saída, favorecendoo mecanismo SN1 pela rápida quebra da ligação C-X para formação do carbocátion. (Base mais fraca e haleto mais reativo) RItransição em conformação anti, na qual a base retira o hidrogênio posicionado do lado oposto ao grupo de saída. Além da reação que acontece via mecanismo E2 formar, preferencialmente, um alceno mais substituído (regiosseletiva), é também estereosseletiva, uma vez que o produto majoritário da reação é o diastereoisômero E da dupla ligação. Outro fator que favorece a formação deste produto, em vez do seu diasteoisômero Z, é que o isômero E e o seu estado de transição correspondente, formado durante a reação, são mais estáveis pois possuem grupos volumosos em lados opostos da ligação dupla. Quando retomamos o mecanismo E1, é de se esperar que ambos os estereoisômeros (isômeros E e Z) sejam formados. Porém, o produto majoritário será aquele mais estável, levando em consideração a regra de Zaitsev e a maior distância entre os grupos volumosos. Competitividade entre as reações de substituição nucleofílica e eliminação Os fatores que influenciam as reações de SN1 e SN2, são praticamente os mesmos: haletos de alquila primários reagem pelo mecanismo E2, enquanto haletos secundários e terciários podem realizar reações E2 e E1. Observe a tabela a seguir e veja um resumo das características das reações de eliminação. Após o conhecimento da reatividade dos haletos de alquila, verificamos que os mesmos podem reagir com nucleófilos para as substituições nucleofílicas e com bases para as reações de eliminação. Mas os nucleófilos são bases em potencial, e todas as bases são nucleofílicos em potencial. Existe uma competição entre as reações de substituição e eliminação. As reações de SN2 e E2 são favorecidas por haletos primários e secundários e alta concentração de nucleófilos ou bases fortes. Para haletos primários na presença de bases fortes, como etóxido de sódio, a reação SN2 é preferencial a E2. Haletos secundários e terciários favorecem as reações E2 na presença de base forte devido ao impedimento estérico. O aumento da temperatura favorece as reações de eliminação (E2 e E1), já que a temperatura intensifica o efeito da entropia. O aumento do volume da base forte favorece a reação de eliminação do tipo 2, o volume dos substituintes impede a reação de substituição. Para as reações SN1 e E1, a substituição nucleofílica é mais favorecida. Caso se deseje o alceno como produto majoritário, recomenda-se que as condições que favoreçam o mecanismo E2 sejam utilizadas. Explore + Conheça um pouco mais sobre nucleofilicidade versus basicidade através de recursos computacionais com o artigo Uso de modelagem molecular no estudo dos conceitos de nucleofilicidade e basicidade, de Celeste Ferreira, publicado na revista Química Nova. Verifique como as características e reatividade dos haletos de alquila são abordados por Ana Julia de Aquino Silveira, no livro Química orgânica teórica, publicado em 2014. image4.jpg image54.jpg image55.png image98.jpeg image99.jpeg image100.png image56.jpg image102.jpeg image57.png image58.jpg image105.jpeg image7.jpeg image59.jpg image107.jpeg image60.png image61.jpg image62.jpg image111.jpeg image112.jpeg image63.jpg image114.jpeg image64.jpg image8.jpeg image116.jpeg image65.jpg image118.jpeg image66.png image67.png image5.jpg image6.jpg image11.jpeg image12.jpeg image7.jpg image8.jpg image9.jpg image10.jpg image17.jpeg image18.jpeg image19.jpeg image20.jpeg image11.jpg image22.jpeg image12.png image24.png image13.jpg image26.jpeg image14.jpg image28.jpeg image15.jpg image30.jpeg image16.jpg image32.jpeg image17.jpg image34.jpeg image18.jpg image36.jpeg image19.png image20.jpg image39.jpeg image21.png image22.png image23.png image24.jpg image44.jpeg image25.jpg image1.jpg image46.jpeg image26.jpg image48.jpeg image27.jpg image50.jpeg image28.png image29.jpg image53.jpeg image30.jpg image31.jpg image2.png image32.jpg image57.jpeg image58.jpeg image59.jpeg image33.jpg image61.jpeg image34.jpg image63.jpeg image35.jpg image36.jpg image3.jpeg image37.png image67.jpeg image68.jpeg image69.png image38.jpg image71.jpeg image39.png image40.jpg image74.jpeg image41.png image4.png image42.png image43.png image44.jpg image79.jpeg image45.jpg image81.jpeg image46.jpg image47.jpg image84.jpeg image85.jpeg image3.jpg image48.jpg image87.jpeg image49.png image50.jpg image90.jpeg image51.jpg image92.jpeg image52.jpg image94.jpeg image53.jpg