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C. Especializada – Aula 3: Abdome Agudo Inflamatório (Apendicite e Colecistite) Introdução: O que é Abdome Agudo e Por Que Ele Dói? Imagina a sua barriga como uma caixa. Lá dentro, temos vários órgãos importantes, como o estômago, o intestino, o fígado, a vesícula e o apêndice. Normalmente, tudo funciona em harmonia e não dói. Mas, às vezes, alguma coisa que não deveria estar ali acontece, ou alguma parte inflama, perfura ou sangra, e aí a barriga começa a doer MUITO. Essa dor abdominal intensa e repentina, que muitas vezes exige uma avaliação médica urgente (e talvez uma cirurgia), é o que chamamos de Abdome Agudo. Importante: O abdome, por si só, não dói. A dor surge quando há uma inflamação, perfuração ou sangramento, afetando estruturas sensíveis como o peritônio (a "capa" que envolve os órgãos e a cavidade abdominal). Classificação do Abdome Agudo: Os "Grandes Grupos" de Problemas Para facilitar o entendimento e o tratamento, os médicos classificam o abdome agudo em cinco grandes tipos, dependendo do que está causando o problema: 1. Inflamatório: Algum órgão na barriga está inflamado (ex: apêndice, vesícula, pâncreas). É o tipo mais comum e o foco da nossa aula. 2. Perfurativo: Algum órgão "furou" (ex: úlcera no estômago). 3. Obstrutivo: Algo está bloqueando o caminho (ex: hérnia que estrangula o intestino). 4. Vascular (ou Isquêmico): Falta de sangue em alguma parte do intestino, que é um problema mais raro, mas muito grave. 5. Hemorrágico: Sangramento dentro da barriga (ex: gravidez ectópica que rompeu, aneurisma que estourou). Hoje, vamos focar no abdome agudo inflamatório, especialmente na Apendicite Aguda e na Colecistite Aguda, que são as doenças que mais aparecem nos prontos-socorros e as cirurgias mais realizadas no mundo!. Apendicite Aguda: A Urgência Mais Comum 1. O Que É o Apêndice e Por Que Ele Causa Problema? O apêndice é como uma minhoca fininha e de "fundo cego" que fica grudada no seu intestino grosso, mais especificamente no ceco (a primeira parte do intestino grosso, lá do lado direito da barriga). Antigamente, pensava-se que tinha alguma função imunológica, mas hoje em dia, ele não tem mais uma função importante no sistema imunológico para o corpo humano. Ele é considerado um "remanescente embriológico", ou seja, uma sobra do desenvolvimento. Variações Anatômicas do Apêndice: Um Desafio para o Cirurgião Apesar da localização "padrão" (retrocecal, atrás do ceco), o apêndice é muito "arteiro" e pode estar em várias posições. Pode estar na frente do ceco, perto do fígado ou até mesmo no lado esquerdo da barriga em casos de má rotação intestinal (principalmente em crianças). Isso significa que toda cirurgia de apendicite é um pouco diferente, porque o apêndice se apresenta de forma diferente em cada paciente. 2. Como o Apêndice Inflama? (Fisiopatologia) A apendicite é, na maioria das vezes, uma doença de "obstrução". Pense no apêndice como um balão com uma única saída. Ele produz muco (um líquido), assim como o intestino. Normalmente, esse muco sai pelo orifício que o conecta ao intestino. Mas, se essa saída for bloqueada, o problema começa: 1. Obstrução Luminal: A "saída" do apêndice é bloqueada. Isso acontece mais frequentemente por um fecalito (um pedacinho endurecido de fezes), mas também pode ser por aumento dos gânglios (hiperplasia linfoide), por corpos estranhos (como sementes, por exemplo) ou, mais raramente, por vermes (como áscaris). 2. Aumento da Pressão: Com a saída bloqueada, o muco continua sendo produzido e se acumula dentro do apêndice. Isso aumenta a pressão lá dentro, como um balão sendo enchido. Essa pressão comprime os vasos sanguíneos do apêndice, dificultando a chegada de sangue e a drenagem de líquidos. 3. Proliferação Bacteriana: O muco parado e a falta de oxigênio criam um ambiente perfeito para as bactérias que já vivem normalmente no intestino (como a famosa E. coli) se multiplicarem descontroladamente. Elas invadem a parede do apêndice, causando a inflamação. 4. Isquemia e Complicações: Se a pressão continuar aumentando e o sangue não conseguir circular direito, o tecido do apêndice começa a "morrer" por falta de oxigênio (isquemia) e pode gangrenar. O resultado final é a perfuração do apêndice, liberando pus e bactérias para dentro da barriga e causando uma infecção generalizada chamada peritonite. É como um vulcão de pus que explode, uma situação muito grave. 3. Como o Paciente se Apresenta? (Sinais e Sintomas) A apendicite nem sempre é fácil de diagnosticar de primeira, e muitas vezes o paciente pode ser mandado para casa com um diagnóstico errado, voltando depois em estado grave. Por isso, é crucial estar atento aos sintomas: • Anorexia (Falta de Apetite): É um dos sintomas mais referidos e importantes!. Sempre pergunte se o paciente está com fome. Se ele disser que está, os médicos já ficam um pouco mais tranquilos (mas não eliminam a apendicite de cara). • Dor Abdominal Migratória (Sinal de Kocher): A dor geralmente começa de forma vaga ao redor do umbigo (periumbilical) ou na parte superior da barriga (epigástrica). Essa é a dor "visceral" porque o apêndice inflamado estimula o peritônio visceral (a membrana interna). Com o tempo (12 a 24 horas), a dor "migra" e se localiza no lado inferior direito da barriga (fossa ilíaca direita), onde o apêndice geralmente fica. Essa é a dor "parietal" porque a inflamação atinge o peritônio parietal (a membrana externa, mais sensível). Essa migração da dor é altamente sugestiva de apendicite. • Náuseas e Vômitos: Podem ocorrer, geralmente depois que a dor começa. • Febre: É um sintoma sistêmico (do corpo todo) que aparece com a progressão da infecção. • Diarréia: Em alguns casos, o paciente pode apresentar diarreia, o que confunde o diagnóstico com uma gastroenterite. Sinais ao Exame Físico (Onde o Médico Toca): Ao examinar a barriga, o médico busca por: • Dor à palpação na fossa ilíaca direita: Especialmente no Ponto de McBurney (um ponto específico entre o umbigo e o osso do quadril direito). • Sinal de Blumberg Positivo (Descompressão Brusca Dolorosa): Você aperta a barriga do paciente devagar e depois solta rapidamente. Se doer mais na hora de soltar do que de apertar, é positivo. Isso indica inflamação do peritônio. • Outros Sinais: o Sinal de Rovsing: Dor na fossa ilíaca direita (FID) quando você aperta o lado esquerdo da barriga (FIE). o Sinal do Psoas: Dor na FID quando o paciente estende a perna direita para trás. o Sinal do Obturador: Dor na FID quando o médico gira a coxa direita do paciente para dentro. 4. Como Confirmar o Diagnóstico? (Critérios e Exames) Escalas de Probabilidade (Alvarado e AAS): Existem escalas que ajudam o médico a estimar a chance de ser apendicite, como o Escore de Alvarado e o Adult Appendicitis Score (AAS). Elas somam pontos de sintomas, sinais e exames de laboratório. • Escore de Alvarado: o Sintomas: Dor migratória (1 ponto), anorexia (1 ponto), náuseas/vômitos (1 ponto). o Sinais: Dor na fossa ilíaca direita (2 pontos), rebote positivo (Blumberg) (1 ponto), febre (1 ponto). o Laboratório: Leucocitose (aumento dos glóbulos brancos, >10.000) (2 pontos), desvio à esquerda (aumento das formas jovens de glóbulos brancos) (1 ponto). o Interpretação: § 0-3 pontos: Baixa probabilidade. É seguro liberar o paciente para casa, investigando outras causas. § 4-6 pontos: Risco intermediário. Geralmente requer observação e talvez exames adicionais. § 7-10 pontos: Alta probabilidade. A chance de ser apendicite é quase 100% (em homens, um pouco menos em mulheres). Importante: O Alvarado não "confirma" a apendicite sozinho, mas ajuda a decidir se o paciente pode ir para casa com segurança ou se precisa de mais investigação. Um Alvarado muito alto (tipo 10) não descarta outras inflamações na barriga. Exames de Laboratório: • Hemograma: Geralmente mostra aumento dos glóbulos brancos (leucocitose) e desvio à esquerda. No inícioda apendicite, esses valores podem estar normais, o que não descarta a doença!. • PCR (Proteína C Reativa): Também pode estar elevada, indicando inflamação. Exames de Imagem (A Chave para a Certeza): Antigamente, se um paciente tinha sinais claros de apendicite, era operado na hora. Hoje, com a medicina mais avançada, a gente tenta evitar cirurgias desnecessárias (as "laparotomias brancas"). Por isso, sempre que possível, o exame de imagem é fundamental para confirmar o diagnóstico. 1. Ultrassonografia (US): o Quando usar: É o método inicial preferencial para crianças e gestantes. Também é ótimo para pacientes magros. o O que ver: O apêndice aparece espessado, não compressível, com diâmetro maior que 6mm, e pode haver líquido ao redor. o Vantagens: Não usa radiação, é barato e pode ser repetido várias vezes. o Desvantagens: É operador-dependente, ou seja, a qualidade do exame depende muito da experiência de quem o faz. Também é mais difícil de ver em pacientes obesos, pois a gordura atrapalha a visualização. o A "Extensão do Médico": O professor enfatiza que o ultrassom está se tornando uma extensão do exame físico, como o estetoscópio. Com aparelhos portáteis (de bolso), o médico pode fazer o ultrassom na hora, no próprio consultório ou leito do paciente, acelerando o diagnóstico e a conduta. 2. Tomografia Computadorizada (TC): o Padrão Ouro: É considerada o exame de maior acurácia diagnóstica para apendicite, com alta sensibilidade e especificidade. o Quando usar: É a primeira escolha para a maioria dos adultos, especialmente pacientes obesos. o O que ver: Apêndice dilatado (>6mm), parede espessada, realce (brilho) após contraste, presença de fecalito (apendicolito) e borramento da gordura ao redor do apêndice (sinal de inflamação). o Importante: Sempre pedir TC de abdome com contraste! Uma tomografia sem contraste é como um "raio-X de luxo", não mostra quase nada, a menos que você queira ver apenas cálculos nos rins (nefrolitíase). O contraste ajuda a "colorir" e diferenciar as estruturas. 3. Ressonância Magnética (RM): o Quando usar: É a opção preferencial para gestantes, pois não utiliza radiação, protegendo o bebê. 5. Qual o Tratamento para Apendicite Aguda? O tratamento padrão ouro é a cirurgia para remover o apêndice inflamado (apendicectomia), feita por videolaparoscopia. • Videolaparoscopia: É uma técnica minimamente invasiva, onde são feitos pequenos cortes na barriga para introduzir uma câmera e instrumentos cirúrgicos. As vantagens são: menos dor pós-operatória, menor risco de infecção na ferida, e recuperação mais rápida. • Tratamento Conservador (com Antibióticos): Pode ser considerado em casos muito selecionados de apendicite não complicada e em estágios iniciais, onde o paciente não tem condições de operar (muito instável) ou não deseja a cirurgia. Funciona, mas há uma taxa de recorrência (o problema volta) de 30% a 40% nos próximos 5 anos. Por isso, a cirurgia ainda é o tratamento definitivo preferido. • Apendicite Complicada vs. Não Complicada (UM CONCEITO NOVO E MUITO IMPORTANTE!): o O professor destacou que as apendicites estão sendo classificadas entre complicadas e não complicadas. o Apendicite Não Complicada: Se o paciente apresenta esse quadro, ele não vai complicar subitamente. Você pode esperar até 24 horas para operar, inclusive iniciar antibióticos e programar a cirurgia para o dia seguinte, sem risco de o apêndice perfurar. o Apendicite Complicada: Já se o paciente abre o quadro de forma complicada (com abscesso ou perfuração), o tempo é mais curto: você tem até 12 horas para operar, porque a doença vai progredir rapidamente. o Essa diferenciação muda o "senso de urgência" e o planejamento cirúrgico. Colecistite Aguda: A Inflamação da Vesícula Biliar 1. O Que É a Vesícula e Por Que Ela Inflama? A vesícula biliar é uma pequena "bolsa" ou reservatório que guarda a bile. A bile é como um "detergente" que o fígado produz. Sua função principal é emulsificar (quebrar) as gorduras dos alimentos para que o intestino consiga digeri-las. A bile sai do fígado, é armazenada na vesícula, e de lá é liberada no intestino delgado (duodeno) através de um canal chamado ducto cístico e depois pelo colédoco. 2. Como a Vesícula Inflama? (Fisiopatologia) Assim como na apendicite, a colecistite aguda geralmente começa com uma obstrução. 1. Obstrução do Ducto Cístico: Na maioria das vezes (90-95% dos casos), essa obstrução é causada por um cálculo biliar (pedra na vesícula), que fica preso na saída da vesícula (ducto cístico). Os cálculos se formam por excesso de colesterol (em pacientes obesos, por exemplo) e sais biliares. 2. Acúmulo de Bile e Aumento da Pressão: Com a saída bloqueada, a bile não consegue sair e se acumula dentro da vesícula, que fica distendida e sob pressão. 3. Inflamação Química: A bile estagnada libera substâncias inflamatórias, irritando a parede da vesícula. 4. Infecção Bacteriana: Com a inflamação e a estase (parada) da bile, as bactérias do intestino (principalmente a E. coli, a famosa bactéria que infecta tudo na barriga!) invadem a parede da vesícula, causando infecção. 5. Complicações: Se não tratada, a vesícula pode sofrer isquemia, gangrena, perfurar, formando um abscesso (empiema) ou peritonite. 3. Tipos de Colecistite: Com ou Sem Pedras? • Colecistite Litiásica: É a mais comum, causada por cálculos biliares (pedras na vesícula). • Colecistite Alitiásica: Menos comum (5-10% dos casos), acontece sem a presença de cálculos. É um tipo mais raro e geralmente afeta pacientes muito graves, imunodeprimidos, ou que passaram por trauma/cirurgia complexa. o Causas: Pode ser causada por infecções sistêmicas (como Dengue, que pode inflamar a vesícula e causar uma serosite!), por doenças cardíacas graves ou outras condições que causam inflamação generalizada. o Importante: A colecistite alitiásica causada por infecções sistêmicas (como a dengue) geralmente NÃO é cirúrgica! Trata-se a doença de base, e a vesícula melhora sozinha. o Exceção: A ÚNICA colecistite alitiásica que a gente opera é a causada por isquemia. Isso acontece em pacientes graves (como os de UTI), que usam drogas para manter a pressão arterial (vasoativas) e acabam tendo falta de sangue na vesícula, que necrosa e pode perfurar. Lembre-se: paciente com colecistite alitiásica por isquemia está sempre MUITO mal!. 4. Como o Paciente se Apresenta e Como Classificamos a Gravidade? (Critérios de Tóquio) Os Critérios de Tóquio são muito importantes para o diagnóstico e, principalmente, para classificar a gravidade da colecistite aguda, o que vai guiar o tratamento. Para o diagnóstico, são necessários: 1. Sinais Locais de Inflamação: Dor e defesa na parte superior direita da barriga (quadrante superior direito - QSD) e Sinal de Murphy Positivo (dor quando o médico aperta o QSD e o paciente inspira profundamente). 2. Sinais Sistêmicos: Febre, aumento dos glóbulos brancos (leucocitose) e PCR elevada. 3. Achados de Imagem Característicos: Espessamento da parede da vesícula (>4mm), líquido ao redor da vesícula, e sinal de Murphy no ultrassom. Classificação de Gravidade (Tóquio I, II, III) - Fundamental para o Tratamento! • Grau I (Leve): Inflamação leve e localizada, sem disfunção de outros órgãos. Esses pacientes vão para cirurgia (colecistectomia) precocemente, geralmente em menos de 72 horas. • Grau II (Moderado): Inflamação mais acentuada, com leucocitose maior que 18.000, massa palpável, ou duração dos sintomas por mais de 72 horas. Também vão para cirurgia precoce (em menos de 72 horas), geralmente com antibióticos antes. • Grau III (Grave): Este é o paciente "muito mal"! Apresenta disfunção de outros órgãos (coração, pulmão, rins, cérebro, fígado ou problemas de coagulação). o Nesse caso, a cirurgia imediata é de alto risco (o paciente pode não suportar a cirurgia e morrer por conta do trauma cirúrgico, e não da vesícula!). o Aqui,os médicos avaliam se o paciente é "fit" (suporta a cirurgia) ou "unfit" (não suporta). Os critérios de gravidade (ASA, APACHE, SAPS) ajudam nessa decisão. o Se for "unfit", o tratamento inicial é conservador, com antibióticos e, frequentemente, a drenagem da vesícula (colecistostomia percutânea) para aliviar a pressão e infecção, estabilizando o paciente antes de uma possível cirurgia posterior. 5. Diagnóstico por Imagem da Colecistite 1. Ultrassonografia Abdominal (US): o É o exame de primeira escolha e o MELHOR exame para colecistite!. o O que ver: Vesícula distendida, parede espessada (>4mm), líquido ao redor da vesícula, e o principal: os cálculos (pedras) na vesícula, que fazem uma "sombra acústica posterior" (o feixe do ultrassom "corta" a pedra e projeta uma sombra atrás dela). o Por que é melhor que a TC para cálculos? As pedras da vesícula são principalmente de colesterol, e colesterol é gordura, que aparece escura na tomografia. Por isso, a tomografia é ruim para ver cálculos pequenos de colesterol!. 2. Tomografia Computadorizada (TC): o Quando usar: É útil para detectar complicações da colecistite (como perfuração, abscesso, fístulas), quando a ultrassom não é suficiente. o Lembre-se: sempre com contraste!. 3. Colangioressonância (Colangio-RM) / Cintilografia: o São exames mais específicos para visualizar os ductos biliares e a função da vesícula, sendo o padrão ouro para isso. No entanto, a cintilografia é raramente feita na prática. 6. Qual o Tratamento para Colecistite Aguda? O tratamento definitivo é a remoção da vesícula (colecistectomia), preferencialmente por videolaparoscopia. • Videolaparoscopia: É a técnica padrão-ouro, com as mesmas vantagens da apendicectomia laparoscópica: menos dor, recuperação mais rápida. É quase inadmissível fazer cirurgia aberta de vesícula hoje em dia, pois é mais dolorosa e com mais complicações. • Janela Terapêutica: Idealmente, a colecistectomia para colecistite Grau I e II deve ser feita dentro de 24 a 72 horas do início dos sintomas, pois isso leva a melhores resultados e menor tempo de internação. • Antibioticoterapia: É importante para controlar a infecção. Os antibióticos mais usados são Piperacilina-Tazobactam ou Ceftriaxona + Metronidazol. Em casos graves, podem ser usados antibióticos mais potentes como o Meropenem. Colecistite Complicada vs. Não Complicada (MUITO, MUITO IMPORTANTE!) Aqui, a distinção é crucial e muda a estratégia cirúrgica! • Colecistite Não Complicada: Se a vesícula está inflamada, mas sem sinais de gangrena, perfuração ou abscesso, o padrão ouro é a COLECCISTECTOMIA TOTAL (remover a vesícula inteira). • Colecistite Complicada: Como saber que é complicada? Nos exames de imagem, pode-se ver espessamento da parede da vesícula, gás ao redor, abcessos localizados, ou até mesmo a vesícula "desmanchando" ou necrose. Na cirurgia, o cirurgião encontra a vesícula muito dura, inflamada, com necrose e pus. o Nesses casos, o padrão ouro NÃO é a colecistectomia total, e sim a COLECCISTECTOMIA PARCIAL!. o Por quê? A área ao redor da vesícula (chamada Triângulo de Calot, onde ficam o ducto cístico, a artéria cística e partes do colédoco e da artéria hepática) fica tão inflamada e com aderências que é MUITO PERIGOSO tentar remover a vesícula inteira. o O Risco: Ao tentar remover toda a vesícula em uma inflamação grave, o cirurgião corre um risco altíssimo de LESIONAR a VIA BILIAR PRINCIPAL (o colédoco) ou a ARTÉRIA HEPÁTICA. § Lesão de Via Biliar: É uma complicação gravíssima! Se o "canudo" (colédoco) que leva a bile para o intestino for cortado, a bile não chega mais lá. Isso requer outra cirurgia gigantesca (uma "hepatojejunoanastomose em Y de Roux" - basicamente, criar uma nova conexão entre o fígado e o intestino com uma alça do jejuno). Além disso, aumenta em 17% o risco de câncer de via biliar no futuro. § Lesão de Artéria Hepática: Também é muito grave, pois a artéria hepática é a principal fonte de oxigênio para o fígado. Lesioná-la pode causar isquemia e até a morte do paciente. § Lesão de Duodeno: Cortar o duodeno também é uma complicação com altíssima mortalidade. o A Decisão: Por isso, em colecistites complicadas, o cirurgião remove apenas a parte da vesícula que consegue ver e tirar com segurança, drena o líquido ou pus, e deixa o restante da vesícula. É melhor deixar um pedaço inflamado da vesícula do que causar uma complicação gigantesca para o paciente!. • Drenagem Percutânea (Colecistostomia): Para pacientes muito graves (Tóquio III "unfit") ou com colecistite complicada que não podem operar, pode-se fazer uma punção na vesícula (guiada por ultrassom, por exemplo) e colocar um dreno. Isso "esvazia" a vesícula, aliviando a pressão e a infecção, estabilizando o paciente. Depois, quando ele estiver melhor, pode-se programar a cirurgia. Classificação FIT (Functional Index of Treatment): A Dificuldade da Cirurgia Esta escala ajuda o cirurgião a avaliar a dificuldade técnica da colecistectomia durante a cirurgia: • Grade 1 (Fácil): Inflamação leve, anatomia clara. Colecistectomia total convencional. • Grade 2 (Difícil): Inflamação moderada, aderências. Requer cirurgião experiente. • Grade 3 (Perigosa): Anatomia irreconhecível devido à inflamação intensa. É aqui que se consideram alternativas à colecistectomia total, como a parcial ou apenas a drenagem, para evitar lesões graves. Conclusão e Pontos Essenciais para Sua Prova Para sua prova e para a vida, lembre-se desses pontos-chave que o professor destacou: • Abdome Agudo Inflamatório: É uma condição grave, mas o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para salvar vidas e evitar complicações. • Apendicite: o Quadro Clínico: Anorexia e dor periumbilical que migra para a fossa ilíaca direita são MUITO importantes!. o Alvarado: Ajuda a classificar o risco e decidir quem pode ir para casa, mas não é diagnóstico definitivo. o Exames: Ultrassom em crianças/gestantes e pacientes magros; Tomografia com contraste em adultos (padrão ouro para apendicite). o Tratamento: Videolaparoscopia é o padrão ouro. O tratamento conservador tem alta recorrência. Apendicite não complicada pode esperar até 24h, complicada tem até 12h!. • Colecistite: o Quadro Clínico: Dor no quadrante superior direito, febre, leucocitose, história de pedras na vesícula. o Classificação de Tóquio: Essencial para guiar o tratamento!. Pacientes Tóquio III são graves e podem precisar de drenagem antes da cirurgia. o Exames: Ultrassom é o MELHOR exame para ver os cálculos e a vesícula. TC é para complicações. o Tratamento: Colecistectomia videolaparoscópica, idealmente em 24-72h (Tóquio I e II). o Colecistite Complicada: ATENÇÃO! A cirurgia é PARCIAL para evitar lesões graves na via biliar ou artérias, que podem ser fatais!. A drenagem percutânea é uma alternativa para estabilizar pacientes graves. o Colecistite Alitiásica: Geralmente não cirúrgica, exceto se for por isquemia (paciente muito grave).