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C. Especializada – Aula 3: Abdome Agudo 
Inflamatório (Apendicite e Colecistite) 
Introdução: O que é Abdome Agudo e Por Que Ele Dói? 
Imagina a sua barriga como uma caixa. Lá dentro, temos vários órgãos importantes, como o 
estômago, o intestino, o fígado, a vesícula e o apêndice. Normalmente, tudo funciona em harmonia e 
não dói. Mas, às vezes, alguma coisa que não deveria estar ali acontece, ou alguma parte 
inflama, perfura ou sangra, e aí a barriga começa a doer MUITO. Essa dor abdominal intensa e 
repentina, que muitas vezes exige uma avaliação médica urgente (e talvez uma cirurgia), é o que 
chamamos de Abdome Agudo. 
Importante: O abdome, por si só, não dói. A dor surge quando há uma inflamação, perfuração ou 
sangramento, afetando estruturas sensíveis como o peritônio (a "capa" que envolve os órgãos e a 
cavidade abdominal). 
Classificação do Abdome Agudo: Os "Grandes Grupos" de Problemas 
Para facilitar o entendimento e o tratamento, os médicos classificam o abdome agudo em cinco 
grandes tipos, dependendo do que está causando o problema: 
1. Inflamatório: Algum órgão na barriga está inflamado (ex: apêndice, vesícula, pâncreas). É o 
tipo mais comum e o foco da nossa aula. 
2. Perfurativo: Algum órgão "furou" (ex: úlcera no estômago). 
3. Obstrutivo: Algo está bloqueando o caminho (ex: hérnia que estrangula o intestino). 
4. Vascular (ou Isquêmico): Falta de sangue em alguma parte do intestino, que é um problema 
mais raro, mas muito grave. 
5. Hemorrágico: Sangramento dentro da barriga (ex: gravidez ectópica que rompeu, aneurisma 
que estourou). 
Hoje, vamos focar no abdome agudo inflamatório, especialmente na Apendicite Aguda e na 
Colecistite Aguda, que são as doenças que mais aparecem nos prontos-socorros e as cirurgias 
mais realizadas no mundo!. 
 
Apendicite Aguda: A Urgência Mais Comum 
1. O Que É o Apêndice e Por Que Ele Causa Problema? 
O apêndice é como uma minhoca fininha e de "fundo cego" que fica grudada no seu intestino 
grosso, mais especificamente no ceco (a primeira parte do intestino grosso, lá do lado direito da 
barriga). Antigamente, pensava-se que tinha alguma função imunológica, mas hoje em dia, ele não 
tem mais uma função importante no sistema imunológico para o corpo humano. Ele é 
considerado um "remanescente embriológico", ou seja, uma sobra do desenvolvimento. 
Variações Anatômicas do Apêndice: Um Desafio para o Cirurgião Apesar da localização 
"padrão" (retrocecal, atrás do ceco), o apêndice é muito "arteiro" e pode estar em várias posições. 
Pode estar na frente do ceco, perto do fígado ou até mesmo no lado esquerdo da barriga em casos de 
má rotação intestinal (principalmente em crianças). Isso significa que toda cirurgia de apendicite é 
um pouco diferente, porque o apêndice se apresenta de forma diferente em cada paciente. 
2. Como o Apêndice Inflama? (Fisiopatologia) 
A apendicite é, na maioria das vezes, uma doença de "obstrução". Pense no apêndice como um balão 
com uma única saída. Ele produz muco (um líquido), assim como o intestino. Normalmente, esse 
muco sai pelo orifício que o conecta ao intestino. Mas, se essa saída for bloqueada, o problema 
começa: 
1. Obstrução Luminal: A "saída" do apêndice é bloqueada. Isso acontece mais frequentemente 
por um fecalito (um pedacinho endurecido de fezes), mas também pode ser por aumento dos 
gânglios (hiperplasia linfoide), por corpos estranhos (como sementes, por exemplo) ou, mais 
raramente, por vermes (como áscaris). 
2. Aumento da Pressão: Com a saída bloqueada, o muco continua sendo produzido e se 
acumula dentro do apêndice. Isso aumenta a pressão lá dentro, como um balão sendo 
enchido. Essa pressão comprime os vasos sanguíneos do apêndice, dificultando a chegada de 
sangue e a drenagem de líquidos. 
3. Proliferação Bacteriana: O muco parado e a falta de oxigênio criam um ambiente perfeito 
para as bactérias que já vivem normalmente no intestino (como a famosa E. coli) se 
multiplicarem descontroladamente. Elas invadem a parede do apêndice, causando a 
inflamação. 
4. Isquemia e Complicações: Se a pressão continuar aumentando e o sangue não conseguir 
circular direito, o tecido do apêndice começa a "morrer" por falta de oxigênio (isquemia) e 
pode gangrenar. O resultado final é a perfuração do apêndice, liberando pus e bactérias para 
dentro da barriga e causando uma infecção generalizada chamada peritonite. É como um 
vulcão de pus que explode, uma situação muito grave. 
3. Como o Paciente se Apresenta? (Sinais e Sintomas) 
A apendicite nem sempre é fácil de diagnosticar de primeira, e muitas vezes o paciente pode ser 
mandado para casa com um diagnóstico errado, voltando depois em estado grave. Por isso, é 
crucial estar atento aos sintomas: 
• Anorexia (Falta de Apetite): É um dos sintomas mais referidos e importantes!. Sempre 
pergunte se o paciente está com fome. Se ele disser que está, os médicos já ficam um pouco 
mais tranquilos (mas não eliminam a apendicite de cara). 
• Dor Abdominal Migratória (Sinal de Kocher): A dor geralmente começa de forma vaga 
ao redor do umbigo (periumbilical) ou na parte superior da barriga (epigástrica). Essa é 
a dor "visceral" porque o apêndice inflamado estimula o peritônio visceral (a membrana 
interna). Com o tempo (12 a 24 horas), a dor "migra" e se localiza no lado inferior 
direito da barriga (fossa ilíaca direita), onde o apêndice geralmente fica. Essa é a dor 
"parietal" porque a inflamação atinge o peritônio parietal (a membrana externa, mais 
sensível). Essa migração da dor é altamente sugestiva de apendicite. 
• Náuseas e Vômitos: Podem ocorrer, geralmente depois que a dor começa. 
• Febre: É um sintoma sistêmico (do corpo todo) que aparece com a progressão da infecção. 
• Diarréia: Em alguns casos, o paciente pode apresentar diarreia, o que confunde o diagnóstico 
com uma gastroenterite. 
Sinais ao Exame Físico (Onde o Médico Toca): Ao examinar a barriga, o médico busca por: 
• Dor à palpação na fossa ilíaca direita: Especialmente no Ponto de McBurney (um ponto 
específico entre o umbigo e o osso do quadril direito). 
• Sinal de Blumberg Positivo (Descompressão Brusca Dolorosa): Você aperta a barriga do 
paciente devagar e depois solta rapidamente. Se doer mais na hora de soltar do que de 
apertar, é positivo. Isso indica inflamação do peritônio. 
• Outros Sinais: 
o Sinal de Rovsing: Dor na fossa ilíaca direita (FID) quando você aperta o lado 
esquerdo da barriga (FIE). 
o Sinal do Psoas: Dor na FID quando o paciente estende a perna direita para trás. 
o Sinal do Obturador: Dor na FID quando o médico gira a coxa direita do paciente 
para dentro. 
4. Como Confirmar o Diagnóstico? (Critérios e Exames) 
Escalas de Probabilidade (Alvarado e AAS): 
Existem escalas que ajudam o médico a estimar a chance de ser apendicite, como o Escore de 
Alvarado e o Adult Appendicitis Score (AAS). Elas somam pontos de sintomas, sinais e exames de 
laboratório. 
• Escore de Alvarado: 
o Sintomas: Dor migratória (1 ponto), anorexia (1 ponto), náuseas/vômitos (1 ponto). 
o Sinais: Dor na fossa ilíaca direita (2 pontos), rebote positivo (Blumberg) (1 ponto), 
febre (1 ponto). 
o Laboratório: Leucocitose (aumento dos glóbulos brancos, >10.000) (2 pontos), 
desvio à esquerda (aumento das formas jovens de glóbulos brancos) (1 ponto). 
o Interpretação: 
§ 0-3 pontos: Baixa probabilidade. É seguro liberar o paciente para casa, 
investigando outras causas. 
§ 4-6 pontos: Risco intermediário. Geralmente requer observação e talvez 
exames adicionais. 
§ 7-10 pontos: Alta probabilidade. A chance de ser apendicite é quase 100% 
(em homens, um pouco menos em mulheres). 
Importante: O Alvarado não "confirma" a apendicite sozinho, mas ajuda a decidir se o 
paciente pode ir para casa com segurança ou se precisa de mais investigação. Um Alvarado 
muito alto (tipo 10) não descarta outras inflamações na barriga. 
Exames de Laboratório: 
• Hemograma: Geralmente mostra aumento dos glóbulos brancos (leucocitose) e desvio à 
esquerda. No inícioda apendicite, esses valores podem estar normais, o que não descarta 
a doença!. 
• PCR (Proteína C Reativa): Também pode estar elevada, indicando inflamação. 
Exames de Imagem (A Chave para a Certeza): 
Antigamente, se um paciente tinha sinais claros de apendicite, era operado na hora. Hoje, com 
a medicina mais avançada, a gente tenta evitar cirurgias desnecessárias (as "laparotomias 
brancas"). Por isso, sempre que possível, o exame de imagem é fundamental para confirmar o 
diagnóstico. 
1. Ultrassonografia (US): 
o Quando usar: É o método inicial preferencial para crianças e gestantes. Também 
é ótimo para pacientes magros. 
o O que ver: O apêndice aparece espessado, não compressível, com diâmetro maior 
que 6mm, e pode haver líquido ao redor. 
o Vantagens: Não usa radiação, é barato e pode ser repetido várias vezes. 
o Desvantagens: É operador-dependente, ou seja, a qualidade do exame depende 
muito da experiência de quem o faz. Também é mais difícil de ver em pacientes 
obesos, pois a gordura atrapalha a visualização. 
o A "Extensão do Médico": O professor enfatiza que o ultrassom está se tornando 
uma extensão do exame físico, como o estetoscópio. Com aparelhos portáteis (de 
bolso), o médico pode fazer o ultrassom na hora, no próprio consultório ou leito 
do paciente, acelerando o diagnóstico e a conduta. 
2. Tomografia Computadorizada (TC): 
o Padrão Ouro: É considerada o exame de maior acurácia diagnóstica para 
apendicite, com alta sensibilidade e especificidade. 
o Quando usar: É a primeira escolha para a maioria dos adultos, especialmente 
pacientes obesos. 
o O que ver: Apêndice dilatado (>6mm), parede espessada, realce (brilho) após 
contraste, presença de fecalito (apendicolito) e borramento da gordura ao redor do 
apêndice (sinal de inflamação). 
o Importante: Sempre pedir TC de abdome com contraste! Uma tomografia sem 
contraste é como um "raio-X de luxo", não mostra quase nada, a menos que você 
queira ver apenas cálculos nos rins (nefrolitíase). O contraste ajuda a "colorir" e 
diferenciar as estruturas. 
3. Ressonância Magnética (RM): 
o Quando usar: É a opção preferencial para gestantes, pois não utiliza radiação, 
protegendo o bebê. 
5. Qual o Tratamento para Apendicite Aguda? 
O tratamento padrão ouro é a cirurgia para remover o apêndice inflamado (apendicectomia), 
feita por videolaparoscopia. 
• Videolaparoscopia: É uma técnica minimamente invasiva, onde são feitos pequenos cortes 
na barriga para introduzir uma câmera e instrumentos cirúrgicos. As vantagens são: menos 
dor pós-operatória, menor risco de infecção na ferida, e recuperação mais rápida. 
• Tratamento Conservador (com Antibióticos): Pode ser considerado em casos muito 
selecionados de apendicite não complicada e em estágios iniciais, onde o paciente não 
tem condições de operar (muito instável) ou não deseja a cirurgia. Funciona, mas há 
uma taxa de recorrência (o problema volta) de 30% a 40% nos próximos 5 anos. Por 
isso, a cirurgia ainda é o tratamento definitivo preferido. 
• Apendicite Complicada vs. Não Complicada (UM CONCEITO NOVO E MUITO 
IMPORTANTE!): 
o O professor destacou que as apendicites estão sendo classificadas entre complicadas 
e não complicadas. 
o Apendicite Não Complicada: Se o paciente apresenta esse quadro, ele não vai 
complicar subitamente. Você pode esperar até 24 horas para operar, inclusive 
iniciar antibióticos e programar a cirurgia para o dia seguinte, sem risco de o apêndice 
perfurar. 
o Apendicite Complicada: Já se o paciente abre o quadro de forma complicada (com 
abscesso ou perfuração), o tempo é mais curto: você tem até 12 horas para operar, 
porque a doença vai progredir rapidamente. 
o Essa diferenciação muda o "senso de urgência" e o planejamento cirúrgico. 
 
Colecistite Aguda: A Inflamação da Vesícula Biliar 
1. O Que É a Vesícula e Por Que Ela Inflama? 
A vesícula biliar é uma pequena "bolsa" ou reservatório que guarda a bile. A bile é como um 
"detergente" que o fígado produz. Sua função principal é emulsificar (quebrar) as gorduras dos 
alimentos para que o intestino consiga digeri-las. A bile sai do fígado, é armazenada na vesícula, e de 
lá é liberada no intestino delgado (duodeno) através de um canal chamado ducto cístico e depois pelo 
colédoco. 
2. Como a Vesícula Inflama? (Fisiopatologia) 
Assim como na apendicite, a colecistite aguda geralmente começa com uma obstrução. 
1. Obstrução do Ducto Cístico: Na maioria das vezes (90-95% dos casos), essa obstrução é 
causada por um cálculo biliar (pedra na vesícula), que fica preso na saída da vesícula (ducto 
cístico). Os cálculos se formam por excesso de colesterol (em pacientes obesos, por exemplo) 
e sais biliares. 
2. Acúmulo de Bile e Aumento da Pressão: Com a saída bloqueada, a bile não consegue sair e 
se acumula dentro da vesícula, que fica distendida e sob pressão. 
3. Inflamação Química: A bile estagnada libera substâncias inflamatórias, irritando a parede da 
vesícula. 
4. Infecção Bacteriana: Com a inflamação e a estase (parada) da bile, as bactérias do intestino 
(principalmente a E. coli, a famosa bactéria que infecta tudo na barriga!) invadem a 
parede da vesícula, causando infecção. 
5. Complicações: Se não tratada, a vesícula pode sofrer isquemia, gangrena, perfurar, formando 
um abscesso (empiema) ou peritonite. 
3. Tipos de Colecistite: Com ou Sem Pedras? 
• Colecistite Litiásica: É a mais comum, causada por cálculos biliares (pedras na vesícula). 
• Colecistite Alitiásica: Menos comum (5-10% dos casos), acontece sem a presença de 
cálculos. É um tipo mais raro e geralmente afeta pacientes muito graves, 
imunodeprimidos, ou que passaram por trauma/cirurgia complexa. 
o Causas: Pode ser causada por infecções sistêmicas (como Dengue, que pode 
inflamar a vesícula e causar uma serosite!), por doenças cardíacas graves ou outras 
condições que causam inflamação generalizada. 
o Importante: A colecistite alitiásica causada por infecções sistêmicas (como a 
dengue) geralmente NÃO é cirúrgica! Trata-se a doença de base, e a vesícula 
melhora sozinha. 
o Exceção: A ÚNICA colecistite alitiásica que a gente opera é a causada por 
isquemia. Isso acontece em pacientes graves (como os de UTI), que usam drogas para 
manter a pressão arterial (vasoativas) e acabam tendo falta de sangue na vesícula, que 
necrosa e pode perfurar. Lembre-se: paciente com colecistite alitiásica por 
isquemia está sempre MUITO mal!. 
4. Como o Paciente se Apresenta e Como Classificamos a Gravidade? (Critérios de 
Tóquio) 
Os Critérios de Tóquio são muito importantes para o diagnóstico e, principalmente, para classificar a 
gravidade da colecistite aguda, o que vai guiar o tratamento. 
Para o diagnóstico, são necessários: 
1. Sinais Locais de Inflamação: Dor e defesa na parte superior direita da barriga (quadrante 
superior direito - QSD) e Sinal de Murphy Positivo (dor quando o médico aperta o QSD e o 
paciente inspira profundamente). 
2. Sinais Sistêmicos: Febre, aumento dos glóbulos brancos (leucocitose) e PCR elevada. 
3. Achados de Imagem Característicos: Espessamento da parede da vesícula (>4mm), líquido 
ao redor da vesícula, e sinal de Murphy no ultrassom. 
Classificação de Gravidade (Tóquio I, II, III) - Fundamental para o Tratamento! 
• Grau I (Leve): Inflamação leve e localizada, sem disfunção de outros órgãos. Esses 
pacientes vão para cirurgia (colecistectomia) precocemente, geralmente em menos de 72 
horas. 
• Grau II (Moderado): Inflamação mais acentuada, com leucocitose maior que 18.000, massa 
palpável, ou duração dos sintomas por mais de 72 horas. Também vão para cirurgia 
precoce (em menos de 72 horas), geralmente com antibióticos antes. 
• Grau III (Grave): Este é o paciente "muito mal"! Apresenta disfunção de outros 
órgãos (coração, pulmão, rins, cérebro, fígado ou problemas de coagulação). 
o Nesse caso, a cirurgia imediata é de alto risco (o paciente pode não suportar a 
cirurgia e morrer por conta do trauma cirúrgico, e não da vesícula!). 
o Aqui,os médicos avaliam se o paciente é "fit" (suporta a cirurgia) ou "unfit" (não 
suporta). Os critérios de gravidade (ASA, APACHE, SAPS) ajudam nessa decisão. 
o Se for "unfit", o tratamento inicial é conservador, com antibióticos e, 
frequentemente, a drenagem da vesícula (colecistostomia percutânea) para aliviar a 
pressão e infecção, estabilizando o paciente antes de uma possível cirurgia posterior. 
5. Diagnóstico por Imagem da Colecistite 
1. Ultrassonografia Abdominal (US): 
o É o exame de primeira escolha e o MELHOR exame para colecistite!. 
o O que ver: Vesícula distendida, parede espessada (>4mm), líquido ao redor da 
vesícula, e o principal: os cálculos (pedras) na vesícula, que fazem uma "sombra 
acústica posterior" (o feixe do ultrassom "corta" a pedra e projeta uma sombra atrás 
dela). 
o Por que é melhor que a TC para cálculos? As pedras da vesícula são 
principalmente de colesterol, e colesterol é gordura, que aparece escura na tomografia. 
Por isso, a tomografia é ruim para ver cálculos pequenos de colesterol!. 
2. Tomografia Computadorizada (TC): 
o Quando usar: É útil para detectar complicações da colecistite (como perfuração, 
abscesso, fístulas), quando a ultrassom não é suficiente. 
o Lembre-se: sempre com contraste!. 
3. Colangioressonância (Colangio-RM) / Cintilografia: 
o São exames mais específicos para visualizar os ductos biliares e a função da vesícula, 
sendo o padrão ouro para isso. No entanto, a cintilografia é raramente feita na prática. 
6. Qual o Tratamento para Colecistite Aguda? 
O tratamento definitivo é a remoção da vesícula (colecistectomia), preferencialmente por 
videolaparoscopia. 
• Videolaparoscopia: É a técnica padrão-ouro, com as mesmas vantagens da apendicectomia 
laparoscópica: menos dor, recuperação mais rápida. É quase inadmissível fazer cirurgia 
aberta de vesícula hoje em dia, pois é mais dolorosa e com mais complicações. 
• Janela Terapêutica: Idealmente, a colecistectomia para colecistite Grau I e II deve ser 
feita dentro de 24 a 72 horas do início dos sintomas, pois isso leva a melhores resultados e 
menor tempo de internação. 
• Antibioticoterapia: É importante para controlar a infecção. Os antibióticos mais usados são 
Piperacilina-Tazobactam ou Ceftriaxona + Metronidazol. Em casos graves, podem ser usados 
antibióticos mais potentes como o Meropenem. 
Colecistite Complicada vs. Não Complicada (MUITO, MUITO IMPORTANTE!) 
Aqui, a distinção é crucial e muda a estratégia cirúrgica! 
• Colecistite Não Complicada: Se a vesícula está inflamada, mas sem sinais de gangrena, 
perfuração ou abscesso, o padrão ouro é a COLECCISTECTOMIA TOTAL (remover a 
vesícula inteira). 
• Colecistite Complicada: Como saber que é complicada? Nos exames de imagem, pode-se 
ver espessamento da parede da vesícula, gás ao redor, abcessos localizados, ou até mesmo a 
vesícula "desmanchando" ou necrose. Na cirurgia, o cirurgião encontra a vesícula muito dura, 
inflamada, com necrose e pus. 
o Nesses casos, o padrão ouro NÃO é a colecistectomia total, e sim a 
COLECCISTECTOMIA PARCIAL!. 
o Por quê? A área ao redor da vesícula (chamada Triângulo de Calot, onde ficam o 
ducto cístico, a artéria cística e partes do colédoco e da artéria hepática) fica tão 
inflamada e com aderências que é MUITO PERIGOSO tentar remover a 
vesícula inteira. 
o O Risco: Ao tentar remover toda a vesícula em uma inflamação grave, o cirurgião 
corre um risco altíssimo de LESIONAR a VIA BILIAR PRINCIPAL (o colédoco) 
ou a ARTÉRIA HEPÁTICA. 
§ Lesão de Via Biliar: É uma complicação gravíssima! Se o "canudo" 
(colédoco) que leva a bile para o intestino for cortado, a bile não chega mais 
lá. Isso requer outra cirurgia gigantesca (uma "hepatojejunoanastomose em Y 
de Roux" - basicamente, criar uma nova conexão entre o fígado e o intestino 
com uma alça do jejuno). Além disso, aumenta em 17% o risco de câncer de 
via biliar no futuro. 
§ Lesão de Artéria Hepática: Também é muito grave, pois a artéria hepática é 
a principal fonte de oxigênio para o fígado. Lesioná-la pode causar isquemia e 
até a morte do paciente. 
§ Lesão de Duodeno: Cortar o duodeno também é uma complicação com 
altíssima mortalidade. 
o A Decisão: Por isso, em colecistites complicadas, o cirurgião remove apenas a parte 
da vesícula que consegue ver e tirar com segurança, drena o líquido ou pus, e 
deixa o restante da vesícula. É melhor deixar um pedaço inflamado da vesícula 
do que causar uma complicação gigantesca para o paciente!. 
• Drenagem Percutânea (Colecistostomia): Para pacientes muito graves (Tóquio III "unfit") 
ou com colecistite complicada que não podem operar, pode-se fazer uma punção na vesícula 
(guiada por ultrassom, por exemplo) e colocar um dreno. Isso "esvazia" a vesícula, aliviando 
a pressão e a infecção, estabilizando o paciente. Depois, quando ele estiver melhor, pode-se 
programar a cirurgia. 
Classificação FIT (Functional Index of Treatment): A Dificuldade da Cirurgia 
Esta escala ajuda o cirurgião a avaliar a dificuldade técnica da colecistectomia durante a cirurgia: 
• Grade 1 (Fácil): Inflamação leve, anatomia clara. Colecistectomia total convencional. 
• Grade 2 (Difícil): Inflamação moderada, aderências. Requer cirurgião experiente. 
• Grade 3 (Perigosa): Anatomia irreconhecível devido à inflamação intensa. É aqui que se 
consideram alternativas à colecistectomia total, como a parcial ou apenas a drenagem, 
para evitar lesões graves. 
 
Conclusão e Pontos Essenciais para Sua Prova 
Para sua prova e para a vida, lembre-se desses pontos-chave que o professor destacou: 
• Abdome Agudo Inflamatório: É uma condição grave, mas o diagnóstico precoce e o 
tratamento adequado são fundamentais para salvar vidas e evitar complicações. 
• Apendicite: 
o Quadro Clínico: Anorexia e dor periumbilical que migra para a fossa ilíaca 
direita são MUITO importantes!. 
o Alvarado: Ajuda a classificar o risco e decidir quem pode ir para casa, mas não é 
diagnóstico definitivo. 
o Exames: Ultrassom em crianças/gestantes e pacientes magros; Tomografia com 
contraste em adultos (padrão ouro para apendicite). 
o Tratamento: Videolaparoscopia é o padrão ouro. O tratamento conservador tem 
alta recorrência. Apendicite não complicada pode esperar até 24h, complicada tem 
até 12h!. 
• Colecistite: 
o Quadro Clínico: Dor no quadrante superior direito, febre, leucocitose, história de 
pedras na vesícula. 
o Classificação de Tóquio: Essencial para guiar o tratamento!. Pacientes Tóquio III 
são graves e podem precisar de drenagem antes da cirurgia. 
o Exames: Ultrassom é o MELHOR exame para ver os cálculos e a vesícula. TC é 
para complicações. 
o Tratamento: Colecistectomia videolaparoscópica, idealmente em 24-72h (Tóquio 
I e II). 
o Colecistite Complicada: ATENÇÃO! A cirurgia é PARCIAL para evitar lesões 
graves na via biliar ou artérias, que podem ser fatais!. A drenagem percutânea é 
uma alternativa para estabilizar pacientes graves. 
o Colecistite Alitiásica: Geralmente não cirúrgica, exceto se for por isquemia (paciente 
muito grave).

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