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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA ENGENHARIA DE PRODUÇÃO TRABALHO DA DISCIPLINA – AVA 2 CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO Tainá Carvalho Manhães Borges Niterói, 2025. A GENEALOGIA DA MORAL EM NIETZSCHE: O RASTREAMENTO DO BEM E DO MAL NA HISTÓRIA HUMANA. A reflexão filosófica de Friedrich Nietzsche, especialmente em Genealogia da Moral, representa uma ruptura com a tradição metafísica que sustentou a moralidade ocidental. Ao investigar historicamente as categorias de “bem” e “mal”, o pensador rejeita a ideia de que tais princípios tenham origem transcendental ou validade eterna. Para Nietzsche, esses conceitos surgem de processos históricos atravessados por disputas de poder e interesses específicos, revelando que a ética não reflete verdades absolutas, mas resulta de circunstâncias culturais. Como observa o filósofo: “Os conceitos de ‘bem’ e ‘mal’ não são dados de uma verdade eterna, mas produtos de relações de poder entre os homens” (NIETZSCHE, Genealogia da Moral, p. 23). O núcleo da crítica concentra-se na denúncia da metafísica platônica e de sua continuidade no cristianismo. Ao estabelecer o mundo inteligível como referência de valor, Platão desvalorizou a realidade sensível, inaugurando uma tradição que privilegia a negação da vida em favor de ideais transcendentais. O cristianismo radicalizou esse movimento, transformando submissão, modéstia e renúncia em virtudes supremas, legitimadas pela promessa de uma existência ultraterrena. Para Nietzsche, “A moral dos escravos surgiu do ressentimento dos fracos, invertendo os valores: o que antes era nobre, torna-se ‘mal’; o que antes era desprezado, torna-se ‘bom’” (NIETZSCHE, Genealogia da Moral, p. 37). Nietzsche distingue a moral dos senhores da moral dos escravos. A primeira valorizava a coragem, a vitalidade e a afirmação da vida; a segunda, fruto do ressentimento dos mais fracos, promoveu a inversão desses valores, qualificando a força e a grandeza como “mal” e elevando a submissão e a humildade como “bem”. Essa transformação, cristalizada pelo cristianismo, resultou na repressão dos instintos e na domesticação do ser humano, produzindo uma ética que prioriza a passividade em detrimento da vida ativa. Para Nietzsche, essa inversão desemboca no niilismo, compreendido como o esvaziamento dos antigos referenciais que conferiam sentido à existência. A célebre expressão “Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos. Como nos consolaremos nós, os assassinos de todos os assassinos?” (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, p. 180) simboliza a falência da tradição metafísica e religiosa que sustentava a moralidade ocidental. Diante desse vazio, surge a necessidade da transvaloração, ou seja, a criação de novos valores: “É necessário criar novos valores, como os homens criam música e obras de arte” (NIETZSCHE, Além do Bem e do Mal, p. 102). A genealogia da moral não se limita a um estudo histórico ou crítico: trata-se de um convite à reflexão sobre a origem dos valores e à responsabilidade ética de recriá-los. Ao mostrar que conceitos de “bem” e “mal” são construções humanas, Nietzsche desafia a ideia de valores universais, propondo uma ética afirmativa que celebre a vida e a potência criativa do indivíduo. A atualidade da crítica nietzschiana se evidencia diante da crise das instituições, da instabilidade dos referenciais éticos e das intensas disputas simbólicas, mostrando a urgência de repensar a origem dos valores. Ao revelar a artificialidade das categorias herdadas, a genealogia da moral promove a autonomia intelectual e incentiva a criação de novos horizontes éticos. O desafio lançado por Nietzsche é abandonar a passividade diante da tradição e assumir a tarefa criadora do além-do-homem, capaz de instaurar sentidos afirmativos em meio ao niilismo. Dessa forma, a genealogia da moral transcende a análise histórica e configura-se como um projeto filosófico de emancipação. Ao demonstrar que os conceitos de “bem” e “mal” são construções humanas, Nietzsche rompe com a ilusão de valores universais e oferece à modernidade a possibilidade de reinventar sua própria normatividade. Essa proposta permanece atual, constituindo um convite à reflexão crítica sobre a filosofia, a política e a cultura, estimulando o questionamento das condições que possibilitam uma existência autêntica, criativa e plenamente afirmativa. Referências e indicações bibliográficas: - Roteiro de estudos, Universidade Veiga de Almeida: Texto 1: Temáticas dos temas 1 e 2 da Unidade 3. - KAUFMANN, Walter. Nietzsche: filosofia e psicologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. - LOPES, Edson Bini. Nietzsche: Filosofia e Genealogia da Moral. São Paulo: Loyola, 2001. - LOPEZ, Guilherme. “A moral dos senhores e a moral dos escravos: interpretações contemporâneas de Nietzsche”. Revista de Filosofia Moderna, vol. 12, n. 3, 2018, p. 45-62. - NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma polêmica. Tradução de Jorge Soler. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. - NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Tradução de Luiz Costa Lima. São Paulo: Abril Cultural, 1974. - NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução de Luiz Costa Lima. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. image1.png