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Psicopatologia Geral Linha do tempo da psicopatologia O fenômeno da loucura • A loucura enquanto fenômeno psicossocial acompanha o homem em sua trajetória histórica. • Em quase todas as sociedades há indícios da existência de pessoas que perderam o controle de suas emoções e alteraram o seu comportamento a ponto de causar estranheza em seus semelhantes. • a loucura é um fenômeno tipicamente humano, pois é somente quando afetado em seu devir que o sujeito põe em questão seu ser, constituindo a psicopatologia. • Nos animais pode haver alteração de comportamento, de hábitos, mas não psicopatologia. • O animal não põe em questão seu ser, não havendo, portanto, aquilo que caracteriza as complicações psicológicas no homem: o arrependimento, a culpa, o inconformismo, o ódio, o vazio, enfim, o sofrimento psíquico Antiguidade (A.C) • Eixo central= pensamento mítico • Grécia pré-socrática: tinham causas e curas sobrenaturais (deuses). • Hipócrates, pai da Medicina: buscou uma causa física: trepanação. Cérebro, o lugar da loucura. • Teoria dos humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra) Idade média • Eixo central = Religião • Loucura como possessão demoníaca; • Loucura cuidada pela Igreja; • Tratados pela caridade; • Loucos errantes, nau dos loucos. • Perseguição e Punição • Asilos- exilados. • Limpeza social- infratores, adúlteros, bruxos, deficientes e etc Idade moderna • Eixo central = Racionalismo e Empirismo • Loucura como desrazão; • Cuidado passa a ser médico; • Início Séc XVII - Grande Internação – mendigos, pobres, bêbados, loucos, deficientes; • Final Séc XVII e início do XVIII – Rev. Indust. Internação somente dos improdutivos (loucos e deficientes) – início da era manicomial. • Era das grandes classificações psicopatológicas; Philippe Pinel (1745-1826) • Foi um médico francês que retirou grilhões e correntes dos pacientes dos hospícios, tornando a loucura uma doença mental e a psiquiatria uma especialidade médica. • O tratamento moral consistia em uma ampla pedagogia normalizadora com horários e rotina rigidamente estabelecidos • O médico deveria observar cuidadosamente o comportamento do paciente, entrevistá-lo, ouvir atentamente e tomar notas Método de Pinel • O tratamento moral consistia em uma ampla pedagogia normalizadora com horários e rotina rigidamente estabelecidos • O médico deveria observar cuidadosamente o comportamento do paciente, entrevistá-lo, ouvir atentamente e tomar notas • Classificação de Pinel • Pinel criou uma classificação que foi hegemônica durante a primeira metade do século XIX • As quatro grandes espécies de alienação mental seriam: a mania, a melancolia, a demência e o idiotismo Idade Contemporânea • A loucura deixou de ser vista como um crime e passou a ser vista como uma doença. • O louco passou a ser visto como um doente mental, e não mais como alguém destituído de razão. • As descobertas científicas começaram a ser aplicadas à compreensão das doenças mentais. Médicos e psicólogos começaram a buscar explicações biológicas, psicológicas e sociais para os transtornos mentais. • Emil Kraepelin: um psiquiatra alemão, desenvolveu um sistema de classificação dos transtornos mentais que ainda influencia a psiquiatria moderna. Ele distinguiu entre diferentes tipos de psicose, como a esquizofrenia e o transtorno bipolar. • O desenvolvimento de medicamentos psiquiátricos, como os antipsicóticos, antidepressivos e ansiolíticos, mudou significativamente o tratamento dos transtornos mentais • DSM: Nos Estados Unidos, a classificação dos transtornos mentais foi sistematizada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que começou a ser publicado em 1952. Ele serviu como uma ferramenta para o diagnóstico e categorização dos transtornos mentais. • O confinamento do louco passou a ser visto como uma violação de direitos (Reforma Psiquátrica) Normal e patológico Critérios de normalidade: A adoção de um ou outro depende, entre outras coisas, de opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional ou da instituição em que ocorre a atenção à saúde (Canguilhem, 1978) O que te faz ser normal? O que nos faz ser “normal”, é algo que construímos a partir das nossas experiencias e das nossas relações com os outros. Depende do contexto em que vivemos, aos hábitos que cultivamos e das expectativas das pessoas ao nosso redor. A normalidade tem a ver como a nos sentimos no mundo. Se estamos confortáveis e tudo faz sentido, nos sentimos normais. Mas se algo parece fora do lugar ou estranho, a sensação de normalidade some. Critérios de normalidade 1. Normalidade como ausência de doença. 2. Normalidade ideal 3. Normalidade estatística 4. Normalidade como bem-estar 5. Normalidade funcional. 6. Normalidade como processo. 7. Normalidade subjetiva. 8. Normalidade como liberdade. 9. Normalidade operacional O pensamento de Canguilhem Normalidade: Capacidade de adaptação e flexibilidade frente a mudanças e variações. Não é uma condição fixa, mas sim um processo dinâmico de interação com o meio Norma: Padrão ou regra que orienta o funcionamento ou comportamento. Pode ser tanto biológica quanto social, e está relacionada à expectativa de como algo deve funcionar Patológico: Estado em que a norma se torna inflexível e incapaz de adaptação, impedindo o organismo de lidar com as variações ou mudanças no ambiente. A pessoa doente, portanto, é aquela que não consegue criar ou seguir novas normas de vida. A principal ideia de Canguilhem é que a saúde e a doença estão mais relacionadas à capacidade de adaptação e de criação de novas normas, e não a um simples cumprimento de padrões fixos de "normalidade". O pensamento de Foucault Norma: É uma construção social e histórica, que emerge a partir das práticas de poder. A norma não é algo natural, mas um mecanismo de controle social e disciplinar que regula os corpos e comportamentos dentro da sociedade. Normal: Refere-se à categoria construída socialmente para descrever comportamentos ou condições que estão em conformidade com as normas estabelecidas. Ser normal é se ajustar ao que é considerado aceitável dentro de um determinado contexto social, e essa normalidade é uma forma de normalização que se dá por meio do controle. Patológico: Em Foucault, o patológico é algo que se desvia da norma, mas esse desvio é socialmente construído. O patológico não é simplesmente uma condição biológica, mas uma categoria imposta pelas instituições e pelo poder. O "patológico" muitas vezes é tratado como algo que precisa ser corrigido, reabilitado ou punido, o que reflete a lógica de controle social. Foucault entende as categorias de "normal" e "patológico" como construções sociais e históricas, profundamente influenciadas pelas relações de poder e pelas instituições de controle. Ele destaca como essas categorias são moldadas pelo discurso médico, jurídico e social, e como elas funcionam para disciplinar os indivíduos e garantir a conformidade com as normas estabelecidas Medicalização É “o processo pelo qual problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos, frequentemente em termos de doenças ou transtornos” Implica o processo ideológico e político de rotular comportamentos desviantes, moralmente repreensíveis ou mal adaptados e transgressivos como doença, como transtorno mental, e, assim, monitorar, regular e controlá-los melhor, ou desqualificar as pessoas que recebem tal rótulo. Na atualidade, a noção de medicalização se tornou mais problemática e complexa, sobretudo pela busca que pessoas não profissionais fazem por identidadesrelacionadas a certas condições médicas e pela apropriação de categorias médicas pela população em geral. Biopoder O biopoder é um conceito desenvolvido por Foucault para descrever um tipo de poder que não se exerce diretamente sobre as pessoas por meio da violência ou repressão, mas de uma forma mais sutil, regulando e controlando a vida dos indivíduos e das populações. Esse poder se manifesta na gestão da vida e saúde das pessoas, buscando otimizar a produtividade, controlar o comportamento e moldar as normas sociais. Foucault argumenta que, ao longo do tempo, o poder deixou de ser exercido apenas através da violência física e passou a se infiltrar nas esferas mais íntimas da vida dos indivíduos, regulando aspectos como a saúde, a reprodução, a sexualidade e até os comportamentos cotidianos. Biopoder e Medicalização A medicalização pode ser vista como uma das ferramentas através das quais o biopoder se exerce. Quando comportamentos e condições humanas são medicalizados, o biopoder se manifesta ao regular e controlar os corpos, emoções e comportamentos dos indivíduos sob o pretexto de "tratamento" ou "cura". A partir dessa perspectiva, a medicina e outras instituições de saúde se tornam instrumentos de controle social, moldando o que é considerado "normal" e "patológico" e regulando a vida das pessoas de maneira detalhada Reforma psiquiátrica • Linhas do tempo – Reforma Psiquiátrica 1978 • Início efetivo do movimento social pelos direitos dos pacientes psiquiátricos no Brasil. • Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) é protagonista nesse processo. 1987 • II Congresso Nacional do MTSM adota o lema "Por uma sociedade sem manicômios". • Realização da I Conferência Nacional de Saúde Mental no Rio de Janeiro. • Surgimento do primeiro CAPS no Brasil, em São Paulo. 1988 • Criação do SUS (Sistema Único de Saúde) pela Constituição de 1988, com a articulação federal, estadual e municipal. Esse sistema alicerça-se nos princípios de acesso universal, público e gratuito às ações e serviços de saúde. Princípios do SUS: integralidade, equidade, descentralização e controle social 1989 - Experiência de Santos-SP. • Marco na Reforma Psiquiátrica com a intervenção no hospital psiquiátrico Casa de Saúde Anchieta em Santos. • Criação de cooperativas e residências para egressos de hospitais psiquiátricos. Linhas do tempo – Reforma Psiquiátrica 1991 • Lei nº 10.216 de 06/04/2001 é sancionada, estabelecendo novos parâmetros para a reforma psiquiátrica. 1992-2000 • Implantação da rede extra-hospitalar, com substituição progressiva dos leitos psiquiátricos por uma rede integrada de atenção à saúde mental. • Expansão de CAPS, NAPS, RT e Hospitais-dia. 2001-2005 • Lei Paulo Delgado é sancionada, impulsionando a desinstitucionalização com a criação do Programa "De Volta para Casa". • 2004: 1º Congresso Brasileiro de Centros de Atenção Psicossocial, reunindo dois mil trabalhadores e usuários de CAPS. Linhas do tempo – Reforma Psiquiátrica 2004 • III Conferência Nacional de Saúde Mental consolida a Reforma Psiquiátrica como política de governo, destacando os CAPS como fundamentais para a mudança do modelo de assistência. 2013-2023 • Redução de 53,7% nos leitos psiquiátricos no SUS. • Aumento de 42,7% no número de CAPS. • Implementação da Política Antimanicomial do Poder Judiciário com a Resolução CNJ nº 487/2023, visando à desinstitucionalização e reabilitação. Linhas do tempo – Reforma Psiquiátrica 2024 • Resolução nº 572/2024 altera a resolução CNJ nº 487/2023 e permite a prorrogação da redução de leitos psiquiátricos. 2022 • O Programa "De Volta para Casa" completou 20 anos, com mais de 8 mil pessoas atendidas. Presente (2024) • Mais de 60 mil vagas de manicômios fechadas e mais de 3 mil CAPS abertos. • A Rede de Atenção à Saúde Mental, composta por CAPS, SRTs e outros serviços, continua sendo ampliada e aprimorada. Conselho Nacional de Saúde (CNS) • É composto por 48 conselheiros titulares e seus respectivos suplentes. Os membros são eleitos a cada três anos. A composição do CNS é a seguinte: • 50% de representantes de movimentos sociais de usuários do SUS • 25% de representantes de profissionais de saúde e comunidade científica • 25% de representantes de entidades nacionais de prestadores de serviços de saúde e entidades empresariais nacionais com atividades na área da saúde O CNS é um órgão do Ministério da Saúde e tem como missão fiscalizar, acompanhar e monitorar as políticas públicas de saúde. 8 As principais atribuições do CNS são: o Realizar conferências e fóruns de participação social o Aprovar o orçamento da saúde e acompanhar a sua execução o Avaliar o Plano Nacional de Saúde o Garantir que o direito à saúde integral, gratuita e de qualidade seja efetivado a toda a população no Brasil o O CNS é uma instância colegiada, deliberativa e permanente do Sistema Único de Saúde (SUS). Centros de atenção psicossocial - CAPS Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Núcleo de Atenção Psicossocial é um serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é um lugar de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida. Realiza acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos. CAPS I e CAPS II: são CAPS para atendimento diário de adultos, em sua população de abrangência, com transtornos mentais severos e persistentes. CAPS III: são CAPS para atendimento diário e noturno de adultos, durante sete dias da semana, atendendo à população de referência com transtornos mentais severos e persistentes. CAPSi: CAPS para infância e adolescência, para atendimento diário a crianças e adolescentes com transtornos mentais. CAPSad: CAPS para usuários de álcool e drogas, para atendimento diário à população com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas. Esse tipo de CAPS possui leitos de repouso com a finalidade exclusiva de tratamento de desintoxicação. Caps ad III (Álcool e Drogas): atende adultos crianças e adolescente com sofrimento psíquico intenso e necessidade de cuidados contínuos. Possui até 12 leitos para observação e monitoramento funcionando 24 horas. Declaração de caracas Signatário da Declaração de Caracas (OMS/OPS) – 1990: compromisso de reestruturar a assistência psiquiátrica no país; Lei Federal 10216/2001: dispõe sobre os direitos das pessoas com transtornos mentais e sobre a mudança do modelo de atenção Do cuidado centrado num único dispositivo (hospital psiquiátrico) para o cuidado nos diferentes dispositivos da rede aberta e comunitária. Contextualizando a Declaração de Caracas (OMS/OPS) – 1990 A Conferência Regional para a Reestruturação da Atenção Psiquiátrica na América Latina dentro dos sistemas locais de saúde (Silos). O evento resultou na Declaração de Caracas. • Momento em que o continente e o mundo estavam pensando na reestruturação do sistema de saúde como um todo, pensando nos sistemas locais de saúde, que se refere à descentralização dos modelos de saúde. • Uma organização regionalizada e baseada nos atendimentos local e rede de serviços locais, ou seja, organizada por territórios.• Assistência era centralizada no modelo hospitalar. E consequentemente a assistência psiquiátrica também. • Declaração de Caracas foi um pacto entre os organismos de cooperação internacional, como a OPAS. • Promovem arranjos institucionais pactuados democraticamente através das representações de cada país. • Declaração de Caracas constata que há a centralização de recursos financeiros, humanos e físicos no atendimento de saúde mental em hospitais psiquiátricos. • Produzia uma desassistência para a maior parte da população. • Dificultava o acesso aos serviços, além de ser um atendimento inadequado. (Institucionalização e tratamentos desumanos • Declaração de Caracas constata que há a centralização de recursos financeiros, humanos e físicos no atendimento de saúde mental em hospitais psiquiátricos. • Produzia uma desassistência para a maior parte da população. • Dificultava o acesso aos serviços, além de ser um atendimento inadequado. (Institucionalização e tratamentos desumanos, ineficazes para a recuperação) • A assistência em saúde mental ia de encontro ao que a OMS preconizava para os atendimentos em saúde (Silos baseado no território). Saúde mental comunitária. • Reestruturação democrática dos países da América Latina. O Brasil tinha 2 anos da promulgação da sua Constituição. • Carta de Brasília – 15 anos pós Declaração de Caracas. Lei N°10.216 Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. SÃO DIREITOS DA PESSOA PORTADORA DE TRANSTORNO MENTAL: I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades; II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária; VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento; VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis; IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental. Art. 6o A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos. Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica: I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça. Serviços substitutos do hospital psiquiátrico • Desenvolver projetos terapêuticos e comunitários, • Dispensação de medicamentos • encaminhando e acompanhando usuários que moram em residências terapêuticas; • assessorar e ser retaguarda para o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e Equipes de Saúde da Família no cuidado domiciliar Estamira Estamira é um documentário produzido e dirigido por Marcos Prado em 2006. Esse filme surge como um subproduto de um ensaio fotográfico denominado Jardim Gramacho. Durante a captura de imagens do aterro sanitário de Jardim Gramacho, conheceu Estamira que trabalhava há vinte anos neste local, Narrativa: A narrativa é contada por Estamira, sua família e amigos. O documentário permite que Estamira como protagonista seja agente de sua própria história. Uso enriquecido da linguagem: Trocadilhos: “esperto ao contrário” Grande capacidade narrativa Olhar crítico sobre o mundo Consciência do Transtorno Mental A doutora me perguntou se eu ainda tava escutando as vozes que eu escutava. E eu escuto os astros, as coisas, os pressentimentos das coisas. Tem hora que eu fico pensando como é que eu sou lúcida? (1h 01min) Minha mãe mais perturbada do que eu, eu sou perturbada, mais sei distinguir a perturbação (1h19 min) A minha depressão é imensa, a minha depressão não tem cura (1h 23min) Perturbação não é deficiência, deficiência é que é imprestável, a perturbação também, perturbação é perturbação, qualquer um pode ficar perturbado. (1h37min) Quadro psicótico de evolução crônica, exibindo alucinações auditivas, ideias de influência e discurso místico, portanto, deverá permanecer em tratamento psiquiátrico (1h36min) A medicalização Quadro psicótico de evolução crônica, exibindo alucinações auditivas, ideias de influência e discurso místico, portanto, deverá permanecer em tratamento psiquiátrico (1h36min) Agora tem um zumbido no meu ouvido, eu acho que é do remédio. Eu bebo muito remédio. Eu acho que é por isso que eu estou com a língua assim. (1h34mmin) Ela [a médica] é uma copiadora. Pensando em uma clínica ampliada como base no território e lógica antimanicomial, como poderia ser traçado um cuidado para Estamira? Estigma de loucura Erving Goffman Principal teórico do conceito de estigma; Autor do livro Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada (1963) O CONCEITO DE ESTIGMA • Goffman (1982), define estigma como uma discrepância entre a identidade social real de alguém, aquilo que ele é, e a identidade social virtual, o caráter imputado ao indivíduo pelos outros, ou seja, uma caracterização com base nas expectativas de como ele deve ser. • Torna-se uma linguagem de relações e não especificamente se refere a um atributo físico, psíquico, moral, de raça, nação ou religião. LINGUAGEM DE RELAÇÕES Refere-se à maneira como o estigma é construído socialmente através das interações entre indivíduos e grupos. Em vez de ser uma característica intrínseca ou fixa (como um atributo físico ou psíquico), o estigma é algo que surge a partir das expectativas sociais e das relações estabelecidas entre as pessoas. O estigma social ou público é uma crença errônea acerca da identidade de uma pessoa, em que ela é considerada como menor, menos igual e pertencente a um grupo inferior, o que produz uma incorporação no âmbito social e cria a inferioridade O estigma internalizado ocorre quando o indivíduo tem consciência do estigma a ele atribuído, concordando e aplicando a si próprio os estereótipos negativos sobre sua doença É a discriminação e exclusão social que resulta de leis, políticas e práticas institucionais. Essas práticas podem ser formais ou informais, e podem ocorrer em sistemas como o educacional, o de saúde ou o de emprego. Ex: leis de segregação racial nos EUA. Leis sobre casamento entre pessoas homoafetivas Estigma e saúde Mental O estigma internalizado agrava os sintomas do transtorno mental, levando ao isolamento na tentativa de evitar a rejeição e ao não investimento em capacidades compensatórias ao transtorno, o que produz ainda mais solidão Thornicroft (2006) relaciona o estigma à combinação de três elementos: Ignorância no sentido da falta de conhecimento e desinformação acerca da doença mental; Nunes e Torrenté (2009, p.104), “estigmas ancorados no imaginário social acerca da loucura manifestam se sob a forma de diversos tipos de violência, exercidos em várias esferas da vida das pessoas” Família “pode contribuir para a vulnerabilidade, para a internalização de atitudes estigmatizantes, além de fazer com que os indivíduos percebam mais fortemente a desvalorização ea discriminação” (Sibitz citado em Ferreira et al., 2014, p.78). Relação com a família como uma barreira para a recuperação e para o convívio social em comum, sugerindo que os familiares não estão preparados para lidar com a situação e acolher esse indivíduo 1.Percepção negativa do transtorno mental: E2: "Muito ruim... Péssimo, não gosto." E3: "Não é fácil, é muito complicado... Você enfrenta uma barreira muito grande, né?" E4: "É muito complicado, é uma situação difícil porque a gente vive numa sociedade muito rígida com as pessoas." 2.Percepção de si antes e depois do transtorno mental: A mudança na percepção de si mesmos é um tema recorrente nos depoimentos. Os participantes sentem que o transtorno mental altera não apenas sua saúde, mas também sua identidade pessoal e a autopercepção. Isso leva a sentimentos de tristeza, baixa autoestima e incapacidade 3. Sentimentos de incapacidade e autocensura: A pesquisa destaca a sensação de incapacidade para o trabalho e a autocensura, sentimentos que são internalizados devido ao estigma social. Esses sentimentos são indicativos de como os participantes veem a si mesmos de maneira negativa e acreditam que a sociedade também os vê dessa forma • Estigma • Diminuição da autoestima • Diminuição da atoeficacia • Culpa • Angustia • Raiva • Autorreprovação Como superar o estigma? A produção de práticas capazes de reduzir preconceitos e o estigma em torno da loucura ainda são desafios no contexto da atenção psicossocial. Nesse sentido, mudanças no imaginário social sobre a loucura podem ocorrer por meio da construção cotidiana de novas relações, sociais no território.