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URSO DE
PSICANÁLISE
INTEGRADA
CONTRUIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA E DA PSIQUIATRIA
EMILIO VARELA
02/01/2016
C
PRIMEIRA PARTE: DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL HUMANO
1. SIGMUND FREUD
1.1 MITOLOGIA: A SAGA DE ÉDIPO
1.2 COMPLEXO DE ÉDIPO COMO INTERPRETAÇÃO DO MITO
2. A GESTAÇÃO DA PSICANÁLISE
2.1 AS TRÊS TÉCNICAS FREUDIANAS E TIPOS DE INTERVENÇÃO VERBAL DO TERAPEUTA
2.2 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE
2.3 A ASSOCIAÇÃO LIVRE DE IDEIAS
3. INCONSCIENTE E LINGUAGEM – O SIMBÓLICO
3.1 O INCONSCIENTE É UM SABER
3.2 O SINTOMA É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM
3.3 O ENCONTRO ENTRE LACAN E SAUSSURE
3.4 O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE EM LACAN
4. A PRIMEIRA TEORIA DA ESTRUTURA DO APARELHO PSÍQUICO
4.1 A SEXUALIDADE PARA A SEXOLOGIA E PARA PSICANÁLISE
4.2 A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE INFANTIL
4.3 A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO
4.4 CONSEQUÊNCIAS DA DIFERENÇA ANATÔMICA ENTRE OS SEXOS
4.5 PERÍODO DE LATÊNCIA SEXUAL DA CRIANÇA E SUAS RUPTURAS
4.6 NARCISISMO PRIMÁRIO E NARCISISMO SECUNDÁRIO
4.7 AS FASES DE DESENVOLVIMENO DA ORGANIZAÇÃO SEXUAL
4.8 AS FONTES DA SEXUALIDADE INFANTIL
4.9 PERVERSÃO E SEXUALIDADE INFANTIL
4.10 A SEXUALIDADE NA CONSTITUIÇÃO DO PSIQUISMO
5. A INSTITUIÇÃO FAMILIAR
5.1 A ESTRTURA CULTURAL DA FAMÍLIA HUMANA
5.2 O COMPLEXO, FATOR CONCRETO DA PSICOLOGIA FAMILIAR
5.3 O COMPLEXO DO DESMAME
5.4 O COMPLEXO DA INTRUSÃO
5.5 O COMPLEXO DE ÉDIPO
6. A APRENDIZAGEM SEGUNDO FREUD
6.1 O DESEJO DE SABER: TEORIA FREUDIANA DA APRENDIZAGEM
6.2 PODER E DESEJO: A TRANSFERÊNCIA NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO
6.3 PSICANÁLISE DA CRIANÇA
6.4 CONTOS DE FADAS E DESENVOLVIMENTO INFANTIL
7. RELAÇÃO E DESENVOLVIMENTO AMOROSO HUMANO
7.1 AMOR EM PSICANÁLISE
7.2 IDENTIFICAÇÃO COM OS PAIS NA BUSCA DO PARCEIRO AMOROSO
7.3 DESENVOLVENDO O PROCESSO DE ESCOLHA DO PARCEIRO AMOROSO
7.4 A IDENTIFICAÇÃO
7.5 COMPLEXO DE ÉDIPO
7.6 IDENTIFICAÇÃO NO COMPLEXO DE ÉDIPO
7.7 CATEGORIA RELAÇÃO COM O PAI
7.8 CATEGORIA RELAÇÃO COM A MÃE
7.9 CATEGORIA RELAÇAO DO CASAL
7.10 CATEGORIA SEMELHANÇA PAIS E CÔNJUGE
SEGUNDA PARTE: FORMAÇÃO E DISTÚRBIOS DA PERSONALIDADE
8. A SEGUNDA TEORIA DA ESTRUTURA DO APARELHO PSÍQUICO
8.2 O ID, O EGO E O SUPEREGO
8.3 MECANISMOS DE DEFESA OU A REALIDADE COMO ELA NÃO É
8.4 A FANTASIA
8.5 A IDENTIFICAÇÃO
8.6 A DIFERENÇA ENTRE NEUROSE E PSICOSE
8.7 AS NEUROSES
8.8 ENTENDENDO MAIS AS NEUROSES
8.9 ANSIEDADE, ESTRESSE E ESGOTAMENTO
8.10 AS PSICOSES
8.11 ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS
8.12 TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE
8.13 ALGUNS TRANSTORNOS
9. OS COMPLEXOS FAMILIARES EM PATOLOGIA
9.1 AS PSICOSES DE TEMA FAMILIAR
9.2 FUNÇÃO DOS COMPLEXOS NOS DELÍRIOS
9.3 AS NEUROSES FAMILIARES
9.4 NEUROSES DE TRANSFERT
9.5 NEUROSES DE CARÁTER
TERCEIRA PARTE: FORMAÇÕES SINDRÔMICAS, PSICOSSOMÁTICAS E PSICOPÁTICAS
10. PSICANÁLISE E SÍNDROMES PSIQUIÁTRICAS:
10.1 PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA
10.2 O QUE SÃO SÍNDROMES PSIQUIÁTRICAS?
11. SÍNDROMES DEPRESSIVAS:
11.1 PREVENÇÃO DA DEPRESSÃO NA VISÃO PSICANALÍTICA
11.2 SÍNDROMES RELACIONADAS À DEPRESSÃO
12. SÍNDROMES MANÍACAS:
12.1 SINTOMAS DA SÍNDROME MANÍACA
12.2 SUBTIPOS DE SÍNDROMES MANÍACAS
13. SÍNDROMES RELACIONADAS AO CONSUMO DE ALIMENTOS:
13.1 COMPORTAMENTO ALIMENTAR
13.2 TRANSTORNOS ALIMENTARES (ANOREXIA, BULIMIA, COMPULSÃO E OBESIDADE)
14. SÍNDROMES RELACIONADAS A SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS:
14.1 SUBSTÂNCIA PSICOATIVA, INTOXICAÇÃO, ABSTINÊNCIA, DEPENDÊNCIA E TOXICOMANIA
14.2 ALCOOLISMO OU SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DE ÁLCOOL
15. PROCESSOS PSICOSSOMÁTICOS
15.1 ANSIEDADE, TRISTEZA E RAIVA – COMPLICAÇÕES NA SAÚDE
15.2 DISSIMULAR EMOÇÕES NEGATIVAS
15.3 DA EMOÇÃO À LESÃO
15.4 FATORES PREDISPOTENTES
15.5 A OPÇÃO SOMÁTICA DAS EMOÇÕES
15.6 SOMATIZAÇÃO DESDE CRIANÇA E COMPLEXO DE CULPA
15.7 ESTRESSE, SISTEMA IMUNOLÓGICO E INFECÇÃO
15.8 DOENÇAS AUTOIMUNES
15.9 SOMATIZAÇOES E QUADROS DOLOROSOS
15.10 TRANSTORNO DE SOMATIZAÇÃO
15.11 TRANSTORNO DE CONVERSÃO
15.12 RANSTORNO DOLOROSO, HIPOCONDRÍACO E PSICOSSOMÁTICO
16. A PERSONALIDADE PSICOPÁTICA
16.1 O PSICOPATA À LUZ DA PSICANÁLISE
16.2 CÉREBRO E PERSONALIDADE
16.3 NARCISMO MALÍGNO
16.4 O GRAU DOS SOCIOPATAS
QUARTA PARTE: EXPLICAÇÃO DOS SONHOS E AVALIAÇÃO CLÍNICA DO PACIENTE
17. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
17.1 OS PROCESSOS DO SONO
17.2 O SONHO À LUZ DA PSICANÁLISE
17.3 O SONHO E SEUS CONTEÚDOS
17.3 A DISTORÇÃO E A ELABORAÇÃO ONÍRICA
17.4 CONDENSAÇÃO, DESLOCAMENTO E SIMBOLISMO
17.5 DRAMATIZAÇÃO E ELABORAÇÃO SECUNDÁRIA
18. OS SONHOS COMO REVELAÇÃO DA PERSONALIDADE
18.1 POR QUE E PARA QUE ANALISAR E INTERPRETAR SONHOS?
18.2 COMO INTERPRETAR BASICAMENTE UM SONHO?
18.3 O QUE OS SONHOS DIZEM SOBRE NÓS?
18.4 AS POSIÇÕES CORPORAIS QUANDO ESTAMOS DORMINDO
18.5 A RELAÇÃO ENTRE AS DOENÇAS E OS SONHOS
19. A AVALIAÇÃO DO PACIENTE
19.1 A AVALIAÇÃO PSICOPATOLÓGICA E VERBAL
19.2 MÉTODO DA ASSOCIAÇÃO LIVRE APLICADO COMO TESTE CIENTÍFICO
19.3 A ENTREVISTA COM O PACIENTE
19.4 A APRESENTAÇÃO
19.5 TRANSFERÊNCIA E CONTRATRANSFERÊNCIA
19.6 ÉTICA NA PSICANÁLISE
PRIMEIRA PARTE: DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL HUMANO
1. SIGMUND FREUD
Freud, o neurologista e fundador da psicanálise (Freiberg in Mähren, 6 de maio de 1856 —
Londres, 23 de setembro de 1939), inicia seu pensamento teórico assumindo que não há nenhuma
descontinuidade na vida mental. Ele afirmou que nada ocorre ao acaso e muito menos os processos mentais. Há
uma causa para cada pensamento, para cada memória revivida, sentimento ou ação.
Cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos
fatos que o precederam. Uma vez que alguns eventos mentais "parecem" ocorrer espontaneamente, Freud
começou a procurar e descrever os elos ocultos que ligavam um evento consciente a outro: o ponto de partida
dessa investigação é o fato da consciência.
Em Freud, estuda-se a Teoria Psicossexual, tendo como base o Determinismo Psíquico, a
Influência da Infância, as Partes do Corpo Eróticas, o Desenvolvimento da Infância até a Adolescência e As
Experiências Infantis como Raízes dos Conflitos Atuais (costumes, linguagem, traumas, personalidade, transtornos
- neuroses, simbologia, processos psicopatológicos – psicoses - ou doenças mentais, sonhos etc.). Ele inicia
interpretando uma das histórias da mitologia grega, de Sófocles: o mito do Édipo Rei (do grego oidípous – aquele
que explica um enigma, que esclarece um ponto escuro, ou ainda, aquele de pés inchados: referente aos pés de
Édipo, que foi furado pelo pai).
Um dos homens que mais estudou a teoria de Freud foi Jacques Lacan, ampliando a visão
psicanalítica, portanto, ele será estudado aqui também.
1.1 MITOLOGIA: A SAGA DO REI ÉDIPO:
Segundo o mito, Laio, o rei de Tebas havia sido alertado pelo Oráculo de Delfos que uma maldição
iria se concretizar: seu próprio filho o mataria e que este filho se casaria com a própria mãe.
Por tal motivo, ao nascer Édipo, Laio abandonou-o no monte Citerão pregando um prego em cada
pé para tentar matá-lo. O meninofoi recolhido mais tarde por um pastor e batizado como "Edipodos", o de "pés-
furados", que foi adotado depois pelo rei de Corinto e voltou a Delfos.
Édipo consulta o Oráculo que lhe dá a mesma previsão dada a Laio, que mataria seu pai e
desposaria sua mãe. Achando se tratar de seus pais adotivos, foge de Corinto.
No caminho, Édipo encontrou um homem e sem saber que era seu pai o matou, pois Laio o
mandou sair de sua frente.
Depois de derrotar um homem casa-se com a sua mãe, não sabendo que era também a sua mãe
biológica.
Após derrotar a Esfinge que aterrorizava Tebas, que lançara um desafio ("Qual é o animal que tem
quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?"), Édipo conseguiu desvendar, dizendo que era ele
mesmo. "O amanhecer é a criança engatinhando, o entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o
anoitecer é a velhice que usa a bengala (base da teoria da personalidade)”.
Conseguindo derrotar o monstro, ele seguiu a sua cidade natal e casou-se, "por acaso", (já que ele
pensava que aqueles que o haviam criado eram seus pais biológicos) com sua mãe, com quem teve quatro filhos.
Quando da consulta do oráculo, por ocasião de uma peste, Jocasta e Édipo descobrem que são mãe e filho, ela
comete suicídio e ele fura os próprios olhos por ter estado cego e não ter reconhecido a própria mãe.
1.2 COMPLEXO DE ÉDIPO COMO INTERPRETAÇÃO DO MITO:
Freud baseou-se na tragédia de Sófocles (496–406 a.C.), Édipo Rei, uma trilogia que trata, em
partes, da vida de Édipo.
Na teoria clássica da psicanálise, o complexo de Édipo ocorre durante o estágio
fálico do desenvolvimento psicossexual (a idade de 2 até 5 anos), quando ocorre também a formação da libido
(desejo ou energia sexual) e do ego (o Eu de qualquer indivíduo); no entanto, pode se manifestar em idade mais
precoce.
O infantilismo psicossexual - Apesar da mãe ser o parente que gratifica principalmente os desejos
da criança, a criança começa a formar uma identidade discreta sexual - "menino", "menina" - que altera a
dinâmica do relacionamento entre pais e filhos; os pais tornam-se objetos de energia libidinal infantil. O menino
dirige sua libido para a sua mãe, e direciona o ciúme e a rivalidade emocional contra seu pai - porque é o que
dorme com a mãe. Além disso, para facilitar a união com a mãe, o Id (onde ocorre instintos ou impulsos orgânicos
e desejos inconscientes) do menino quer matar o pai (como fez Édipo), mas o ego pragmático, baseado
no princípio da realidade, sabe que o pai é o mais forte entre os dois homens que competem à posse da mulher.
No entanto, o menino permanece ambivalente sobre o lugar do pai na família, o que se manifesta como o medo
da castração pelo pai fisicamente maior; o medo é uma manifestação irracional e inconsciente do ID infantil.
A criança cresce numa relação triangular (filho, pai e mãe), crescendo com a ideia que os pais,
fazem parte de si (devido à extrema dependência). Vendo-os como um mecanismo “seu” para satisfazer as suas
necessidades. O Complexo de Édipo vem então, “frustrar” a criança, marcando a separação entre ela e os pais,
neste momento a criança começa a perceber que não é o centro do mundo, que o amor não é unicamente para si
e que os pais não a podem proteger completamente do mundo.
Percebendo que o pai e a mãe possuem uma relação, e não partilham consigo, pelo contrário,
diminuem o amor e proteção face ao início (o que é normal). A criança responsabiliza internamente o progenitor
do mesmo sexo pela separação, ambicionando o amor e proteção total como tinha no início pelo progenitor do
sexo oposto.
Assim, nesta fase, a criança dirige sentimentos hostis em relação ao progenitor do mesmo sexo ou
a qualquer outra coisa que desvie o amor e atenção do progenitor do sexo oposto. Porém, ao mesmo tempo que o
menino é hostil para o pai porque lhe tira o amor da mãe, o menino ambiciona ser como o pai, identificando-se
com o mesmo, visto que este conseguiu ter o amor da mãe.
Porém, atualmente verificam-se muitos casos que “dificultam” o Complexo de Édipo, isto é, no
caso na inexistência física (divorciado, separado, viúvo, etc.) ou psicológica (negligente, submisso, etc.) do
progenitor e no caso de não se impor limites/ barreiras entre mãe e filho, por diversas razões.
Freud afirma que quando o Complexo de Édipo fica “mal resolvido” podem existir várias
consequências, tais como: a identificação com o progenitor do sexo oposto (homossexualidade, comportamento
submisso, dependência excessiva ao sexo feminino, etc.), já que o menino sem pai, vai querer ser como a mãe. No
extremo oposto, temos o menino que teve uma mãe (embora possa o pai estar presente) incapaz de se “separar”
e de se impor limites a si e seu filho, passa a opressora e controladora, massacrando-o psicologicamente. O
menino vai então replicar e generalizar a todas as mulheres o que vivenciou com a mãe. Assim, não vai conseguir
amar as mulheres, curiosamente Freud afirma que pode tornar-se também homossexual, não por querer ser como
uma mulher, mas por não conseguir ama-la, mostrando pouco interesse e desprezando o sexo oposto.
2. A GESTAÇÃO DA PSICANÁLISE
Freud em sua Autobiografia, afirma que desde o início de sua prática médica usava a hipnose, não
só com objetivos de sugestão, mas também para obter a história da origem dos sintomas. Posteriormente, passou
a utilizar o método catártico (técnica que visa a eliminar perturbações psíquicas, excitações nervosas, tensões,
angústias, através da provocação de uma explosão emocional ou de outras formas, baseando-se na
rememorização da cena e fatos do passado (traumas) que estejam ligados àquelas perturbações) e aos poucos foi
modificando-o.
Ele abandonou a hipnose, porque nem todos os pacientes se prestavam a ser hipnotizados;
desenvolveu uma técnica de concentração, na qual a rememoração sistemática era feita por meio da conversação
normal; e por fim, acatando a sugestão (de uma jovem) anônima, abandonou as perguntas – e com elas a direção
da sessão – para se confiar por completo à fala desordenada do paciente – a associação livre de ideias.
A nova técnica mudou de tal forma o quadro do tratamento, levou o médico a uma relação tão
nova com o paciente e gerou tantos resultados surpreendentes, que foi justificado recorrer a um novo nome para
distinguir esse procedimento do método catártico. O presente autor escolheu a denominação de psicanálise para
esse modo de tratamento que podia se estender a muitas outras formas de distúrbio neurótico e psicótico.
1. Psicanálise é um campo clínico investigatório da psique humana, seu método terapêutico é empregado em
casos de neurose e psicose, que consiste fundamentalmente na interpretação, por um psicanalista, dos
conteúdos inconscientes de palavras, ações e produções imaginárias de um indivíduo, com base nas
associações livres e transferência (relação positiva ou negativa entre dois indivíduos);
2. De uma série de conhecimentos psicológicos adquiridos dessa forma, que gradualmente passam a
constituir uma nova disciplina científica.
2.1 TRÊS TÉCNICAS FREUDIANAS E TIPOS DE INTERVENÇÃO VERBAL DO TERAPEUTA:
Filosófica: técnica de associação livre (aforístico, metafórico e metonímico) e
hermenêutica (interpretação do discurso);
Psicológica: análise dos processos psíquicos, dos sonhos (processos oníricos – fantasiaou
essência dos sonhos) e do desenvolvimento psicossexual humano;
Psiquiátrica: análise dos processos neuróticos (tensões excessivas e prolongadas; reações
vivenciais), psicóticos/psicopatológicos (doenças mentais, distúrbios), psicossomáticos
(manifestação de sentimentos, necessidades e neuroses ou conflitos como ansiedade,
síndromes, compulsividade de forma fisiológica) e dos transtornos de personalidade.
Uma teoria das técnicas psicanalíticas requer uma conceituação de seus instrumentos,
intimamente ligada a uma concepção do processo terapêutico. Um inventário de intervenções verbais do
terapeuta que são ferramentas também nas psicoterapias e inclui necessariamente as seguintes:
1. Inicialmente Interrogar o paciente, pedindo dados precisos, ampliações e esclarecimentos do relato.
Explorar em detalhes suas respostas;
2. Deixar o paciente falar livremente (livre associação de ideias);
3. Proporcionar informações sobre os sintomas do paciente;
4. Contratransferência: o conjunto de reações afetivas conscientes ou inconscientes do analista para com
seu paciente, e mais particularmente à transferência deste;
5. Confirmar ou retificar os conceitos do paciente sobre sua situação;
6. Elucidar, reformular o relato do paciente do modo tal que certos conteúdos e relações deste assumam
maior importância;
7. Recapitular, resumir pontos essenciais surgidos no processo exploratório de cada sessão e do conjunto
do tratamento;
8. Interpretar o significado dos comportamentos, das motivações, dos sonhos (processos oníricos) e das
finalidades latentes, em particular os conflituosos;
9. Assinalar especificamente a realização de certos comportamentos com caráter de prescrição
(intervenções diretivas);
10. Metas-intervenções: comentar ou esclarecer o significado de ter recorrido a qualquer das intervenções
anteriores e de coisas inconscientes do paciente.
2.2 A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE:
Perguntava-se Freud: qual poderia ser a causa de os pacientes esquecerem tantos fatos de sua
vida interior e exterior?
O esquecido era sempre algo penoso para o indivíduo, e era exatamente por isso que havia sido
esquecido. Quando Freud abandona as perguntas no trabalho terapêutico com os pacientes e os deixa dar livre
curso às suas ideias, observa que, muitas vezes, os pacientes ficavam embaraçados, envergonhados com algumas
ideias ou imagens que lhes ocorriam.
A esta força psíquica que se opunha a tornar consciente, a revelar um pensamento, Freud denominou
resistência;
E chamou de repressão o processo psíquico que visa encobrir, fazer desaparecer da consciência, uma ideia
ou representação insuportável e dolorosa que está na origem do sintoma;
Estes conteúdos psíquicos localizam-se no inconsciente (parte mais profunda da estrutura mental humana,
em que se dão processos psíquicos, impulsos e desejos, que escapam a consciência, porque estão
censurados ou reprimidos).
Tais descobertas constituíram a base principal da compreensão das neuroses (existência de
tensão excessiva e prolongada, de conflito persistente ou de uma necessidade longamente frustrada, um sinal de
que na pessoa se instalou um estado neurótico) e impuseram uma modificação do trabalho terapêutico. Seu
objetivo era descobrir as repressões e suprimi-las através de um juízo que aceitasse ou condenasse
definitivamente o excluído pela repressão. Considerando este novo estado de coisas, Freud deu ao método de
investigação e cura resultante o nome de psicanálise em substituição ao de catártico.
Os esquecimento também estão ligados ao inconsciente e foi o que Freud detectou como um ato
falho, ou seja, a crença de que o inconsciente aparece em erros e falhas cotidianas. Em português utilizamos o
termo ato falho para designar erros na linguagem (escrita, fala, leitura), erros de memória (esquecimentos) e erros
de comportamento (tropeçar, cair, quebrar - referente ao Édipo, os pés furados etc.) que são formações de
compromisso entre o inconsciente e o consciente. Em inglês, estes erros ficaram conhecidos como Freudian Slips.
Em alemão, a língua de certa forma traz uma unidade entre esses erros através do prefixo ver –
Erros na fala (versprechen), erros na escrita (verschreiben), erros de leitura (verlesen), erros de memória ou
esquecimentos (vergessen), erros de comportamento ou ações desastradas (vergreifen).
Tais erros não são apenas erros, falhas sem significado. Se investigarmos o porquê de
acontecerem, veremos que – por um outro ponto de vista – o erro é um acerto. A famosa frase do pequeno
Shakespeare (Chespirito), criador do personagem Chaves, expressa muito bem: “foi sem querer, querendo”.
Um ato falho foi sem querer (conscientemente falando), mas também foi querendo
(inconscientemente) – três tipos de atos falhos:
No livro A Psicopatologia da Vida Cotidiana, estudamos 3 tipos de atos falho, portanto:
1. Ato falhos na linguagem (fala, escrita, leitura);
2. Atos falhos de esquecimento (falha na memória);
3. Atos falhos no comportamento (cair, quebrar, derrubar, tropeçar, etc.), enfim, perturbações do controle
motor.
Para ficar claro, vamos exemplificar os três:
1. ATOS FALHOS NA LINGUAGEM: são os mais conhecidos. Na faculdade de psicologia, um professor contou
que estava indo de ônibus até a faculdade, e ouviu de uma passageira que estava sentada atrás dele: “isso
foi um ato fálico...”; Nesta frase, vemos que a pessoa trocou a palavra falho por fálico. Um erro na fala que
se, fomos investigar, encontraremos um significado inconsciente para ela; Em uma apresentação na
faculdade, no primeiro período, uma aluna estava falando sobre Freud (lê-se Froide); Ela disse: “foi assim
que o Fraud...”; Também teríamos que investigar porque a aluna considera Freud uma fraude, mas é
obviamente um exemplo de um ato falho;
2. ATOS FALHOS DE ESQUECIMENTO: no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud dá diversos exemplo
dos três tipos de atos falhos. Logo no início, ele menciona e analisa um ato falho de esquecimento que
aconteceu com ele mesmo. Visitando a catedral de Orvieto, ele se esquece do nome de o pintor do
afrescos. Ele procura buscar em sua memória, os nomes que aparecem são Botticelli e Boltraffio, mas ele
reconhece que ambos não são o nome correto. Analisando o porquê do esquecimento, ele vê que na
conversa anterior falavam dos costumes na Bósnia e Herzegovina. O tema relacionado era da morte e da
sexualidade. As palavras Herzegovina e Herr (senhor, Signor em italiano, Signorelli), que estavam na
conversa anterior interferiam na cadeia associativa e afetaram sua memória. Um exemplo mais simples
consiste quando esquecemos de ligar para alguém. O esquecimento é um erro, mas se formos investigar a
cauda do esquecimento veremos que seria como se uma parte de nós não quisesse realmente ligar. Por
isso, o ato falho é um erro, mas também um acerto (do ponto de vista do desejo inconsciente);
3. ATOS FALHOS NO COMPORTAMENTO: o último tipo de ato falho (vergreifen) é traduzido para o português
como equívocos na ação. Como mencionamos acima, são perturbações do controle motor que, se
analisados, nos conduzem também a uma formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.
No capítulo VIII do livro Psicopatologia, Freud nos dá o seguinte exemplo: “em anos anteriores, quando eu
visitava o paciente a domicílio com maior frequência que hoje, ocorria-me muitas vezes, ante a porta em
que eu deveria bater ou tocar a campainha, tirar do boldo aschaves da minha própria casa e, logo em
seguida, tornar a guarda-las, quase envergonhado. Quando considero os paciente em cujas casas isso
acontecia, sou forçado a supor que esse ato falho – apanhar minha chave em vez de tocar a campainha –
tinha o sentido de uma homenagem à casa onde eu cometia esse erro. Era equivalente ao pensamento:
aqui me sinto em casa, pois só ocorria em lugares onde eu me havia afeiçoado ao doente (é obvio que não
toco a campainha da minha própria casa). O exemplo do Chaves do sem querer, querendo quando ele bate
no Senhor Barriga também pode ser considerado um equívoco na ação que possui um significado. Por um
lado, ele realmente não deseja ser tão desastrado, por outro, talvez queira bater de verdade no dono da
vila.
É importante notar que, apesar das diferenças entre os três tipos de atos falhos, eles possuem
uma unidade na linguagem, pois não só os atos falhos linguísticos (fala, escrita, leitura) são erros deste tipo.
Quando nos esquecemos de um nome ao ter que apresentar uma pessoa ou não lembramos de enviar um e-mail,
estamos vivenciando um conflitos entre um traço mnêmico (um representante da pulsão ou significante) e,
igualmente, os atos falhos comportamentais são ocasionados por uma formação de compromisso entre dois
significantes, um do lado do desejo e o outro do lado da repressão.
2.3 A ASSOCIAÇÃO LIVRE DE IDEIAS:
O método que Freud usava para os pacientes lembrarem de algo como traumas, pessoas, lugares,
sonhos que estava no inconsciente do indivíduo era a associação livre, assim descobria os sintomas. Ela é um
método terapêutico de excelência da psicanálise, Freud o inventou em substituição ao hipnotismo no tratamento
das neuroses. Começou a utilizá-la no tratamento de Elizabeth Von R. que solicitou que Freud a deixasse associar
livremente, sem pressionar a busca de uma lembrança específica.
A associação livre e os sonhos formam o que Freud chama de via régia para o inconsciente.
Na associação livre o paciente é orientado a dizer o que lhe vier à cabeça, deixando de dar qualquer orientação
consciente a seus pensamentos. É essencial que ele se obrigue a informar literalmente tudo que ocorrer à sua
auto percepção, não dando margem a objeções críticas que procurem pôr certas associações de lado, com base no
fundamento de que sejam irrelevantes ou inteiramente destituídas de sentido.
Em seu Estudo Autobiográfico Freud (1925) lembra-nos que devemos ter em mente que a associação livre
não é realmente livre. O paciente permanece sob a influência da situação analítica, muito embora não
esteja dirigindo suas atividades mentais para um assunto específico: nada lhe ocorrerá que não tenha
alguma referência com essa situação. Sua resistência contra a reprodução do material reprimido será
agora expressa de duas maneiras;
Em primeiro lugar, será revelada por objeções críticas; e foi para lidar com tais objeções que a regra
fundamental da psicanálise foi inventada. Mas se o paciente observar essa regra e assim superar suas
reservas, a resistência encontrará outro meio de expressão. Tal regra a disporá de tal forma que o próprio
material reprimido jamais ocorrerá ao paciente, mas somente algo que se aproxima dele de maneira
alusiva; e quanto maior a resistência, mais remota da ideia real, da qual o analista se acha à procura.
O analista, que escuta serenamente, mas sem qualquer esforço constrangido, à torrente de associações e
que, pela sua experiência, possui uma ideia geral do que esperar, pode fazer uso do material trazido à luz
pelo paciente de acordo com duas possibilidades. Se a resistência for leve, ele será capaz, pelas alusões do
paciente, de inferir o próprio material inconsciente; se a resistência for mais forte, ele será capaz de
reconhecer seu caráter a partir das associações, quando parecerem tornar-se mais remotas do tópico em
mão, e o explicará ao paciente. A descoberta da resistência, contudo constitui o primeiro passo no sentido
de superá-la.
A associação livre oferece inúmeras vantagens: expõe o paciente à menor dose possível de
compulsão, jamais permitindo que se perca contato com a situação corrente real; e garante em grande medida
que nenhum fator da estrutura da neurose seja desprezado e que nada seja introduzido nela pelas expectativas do
analista. Deixa-se ao paciente, em todos os pontos essenciais, que determine o curso da análise e o arranjo do
material; qualquer manuseio sistemático de sintomas ou complexos específicos torna-se desse modo impossível.
Em completo contraste com o que aconteceu com o hipnotismo e com o método de inicitação, o material inter-
relacionado aparece em diferentes tempos e em pontos diferentes no tratamento. Deve, teoricamente, sempre
ser possível ter uma associação, contanto que não se estabeleçam quaisquer condições quanto ao seu caráter.
Com a ajuda do método de associação livre e da arte correlata de interpretação, tornou-se
possível provar que os sonhos têm um significado, e que é possível descobri-lo. A estrutura dos sonhos não pode
ser vista como absurda ou confusa; é um produto psíquico inteiramente válido; e o sonho manifesto não passa de
uma tradução distorcida, abreviada e mal compreendida, e na sua maior parte uma tradução em imagens. Esses
pensamentos oníricos latentes encerravam o significado do sonho, enquanto seu conteúdo manifesto era
simplesmente um simulacro, uma fachada, que poderia servir como ponto de partida para as associações, mas
não para a interpretação.
A associação livre é uma maneira de fazer surgir o desejo nas representações. Essa operação é
uma tarefa do analisante. A associação livre foi o dispositivo descoberto por Freud que consiste no desenrolar das
cadeias significantes do sujeito, sustentado pelo amor de saber dirigido ao analista: a transferência. Desenrolar
este que permite desatar os nós do recalque do sintoma, cabendo, por sua vez, ao analista a direção da análise
apontada para a construção da fantasia fundamental no intuito de fazer o sujeito atravessá-la, ou seja, ir para
além desta. Se a fantasia é uma resposta do sujeito ao enigma do sexo que representa o desejo do Outro,
atravessá-la é experimentar o estado de desolação absoluta ou de desamparo, ou seja, a mais completa solidão e
a inexistência do Outro.
A associação livre como regra fundamental da psicanálise, constitui um convite a que o sujeito da
experiência tome distância da coerência, como condição de poder bem dizer da verdade do sintoma que o invade.
Assim a psicanálise valoriza mais o incoerente que o coerente do sintoma e o consultório do analista é o lugar de
se desfazer desses laços da coerência do sintoma para na linha de um novo laço – transferencial, o sujeito,
enlaçado não ao analista, mas a esse lugar do desenlaçamento, buscar dar conta de seu sintoma e elabora-lo.
Ou seja, a regra técnica fundamental, esse procedimento da associação livre, foi desde então
mantida no trabalho psicanalítico. O tratamento tem início convidando-se o paciente a se pôr no lugar de um
auto-observador atento e desapaixonado, a ler apenas a superfície de sua consciência, obrigando-se por um lado,
à completa sinceridade e, por outro lado, não omitindo nenhum pensamento que lhe ocorra, mesmo quando:
1) Sinta-o como algo muito desagradável;
2) Ou quando, tenha de julgá-lo absurdo;
3) Muito insignificante;
4) Sem relação com o que se busca. Geralmente se verifica que precisamente as ideias que provocam as
objeções mencionadas por último têm valor especial para se descobrir o que foi esquecido.
3. INCONSCIENTE E LINGUAGEM – O SIMBÓLICO
3.1 O INCONSCIENTE É UMSABER:
Deve-se a Lacan o fato de ter ressaltado um segmento nuclear da obra de Freud, indicado já no
título do escrito que, segundo ele próprio afirma, inaugura seu ensino, “Função e campo da fala e da linguagem
em psicanálise” (1953). De fato, tal segmento encontra sua formulação princeps no aforismo lacaniano segundo o
qual o inconsciente é estruturado como uma linguagem, por meio do qual Lacan trouxe a psicanálise de volta a
seu campo específico — o da linguagem —, do qual precisamente os analistas pós-freudianos haviam se afastado.
Lacan afirma aí que “a descoberta de Freud é a do campo das incidências, na natureza do homem, de suas
relações com a ordem simbólica, e do remontar de seu sentido às instâncias mais radicais da simbolização no ser.
Desconhecer isso é condenar a descoberta ao esquecimento, a experiência à ruína”.
Este segmento da obra de Freud, passível de ser isolado em seus extensos desenvolvimentos
sobre a linguagem, foi chamado por Lacan de simbólico. Inconsciente e Linguagem: o Simbólico Partindo da
evidência, embora pouco focalizada até então, de que a psicanálise opera através de um único meio, a palavra do
analisando, Lacan estabelece na obra de Freud a relação ineludível entre as diversas formações do inconsciente e
a linguagem, através da qual elas necessariamente se manifestam. A esse respeito, Lacan acentua a importância
de três textos freudianos iniciais — A interpretação dos sonhos (1900), A psicopatologia da vida cotidiana (1901) e
Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905) —, considerando-os como canônicos em matéria de
inconsciente.
Esses três textos podem ser considerados como três batidas de tambor que, tal como as três
sinetas do teatro, ou os três toc-toc-toc do sujeito à porta, anunciam a descoberta do inconsciente. Neles, o que
Lacan destaca é o modo pelo qual o inconsciente opera, como Freud já pudera salientar, seja produzindo
condensações e deslocamentos ao longo das palavras sem levar em conta o significado ou os limites acústicos das
sílabas. Seja manifestando “realmente uma preferência por palavras cujo som exprima diferentes significados”.
É digno de nota o fato de que a pesquisa freudiana sobre o inconsciente o leva a abordar uma
série de fenômenos limítrofes: ora aqueles que até então haviam sido relegados às abordagens obscurantistas,
como os sonhos; ora aqueles desprovidos de Fundamentos da Psicanálise, interesse para o discurso da ciência,
como os chistes, atos falhos, lapsos de linguagem e esquecimento de nomes; ora ainda aqueles fenômenos
incompreendidos pelo discurso médico, como os sintomas neuróticos (tensões excessivas e prolongadas, reação
vivencial), as alucinações (paranoias) e delírios psicóticos (processos de enlouquecimentos, doenças mentais) e as
chamadas perversões sexuais. Nas diversas formações do inconsciente, Lacan isola um mesmo denominador
comum, sua estruturação como uma linguagem, e como ele mesmo afirmou: Basta abrir Freud em qualquer
página para ser surpreendido pelo fato de que não se trata senão de linguagem no que ele nos descobre do
inconsciente.
Em todas essas formações, trata-se da ação do recalcamento do desejo inconsciente, inaceitável
de algum modo pela instância do eu, desejo recalcado que retorna, ainda que deformado sob a ação da censura.
Por isso, Lacan chegou a dizer que o recalcado e o retorno do recalcado ou reprimido constituem uma única e
mesma coisa, pois só se tem acesso ao recalcado por intermédio do seu retorno. Para Lacan, o discurso
psicanalítico renovou a questão do saber colocada pelo filósofo Descartes, pois a análise veio nos anunciar que há
saber que não se sabe, um saber que se baseia no significante como tal.
Considerando o inconsciente como um saber, Lacan afirma que o chiste ou ato falho é, com
efeito, um ato bem-sucedido, posto que através dele a verdade do sujeito se desvela ainda que à revelia do eu: O
que Freud suporta como o inconsciente supõe sempre um saber, e um saber falado. O mínimo que supõe o fato de
que o inconsciente possa ser interpretado, é que ele seja redutível a um saber.
Um saber muito particular, acrescentaria Lacan posteriormente, pois trata-se de um saber que
funciona sem mestre e se dá enquanto um saber verdadeiro. É o que se pode ler na fórmula do discurso
psicanalítico, único discurso no qual o saber, S ocupa o lugar da verdade.
Nesse sentido, Jean-Jacques Moscovitz chama atenção para o fato de o termo alemão que
designa o inconsciente, Unbewusste, significar literalmente incabível acrescentando que o consciente seria um
saber que se sabe e o inconsciente um saber que não se sabe. São muitas as passagens em que Lacan desenvolve
esta que é uma de suas ideias mais fundamentais, a de que o inconsciente é um saber. No seminário Mais, ainda,
por exemplo, afirma que “o inconsciente é o testemunho de um saber, no que em grande parte ele escapa ao ser
falante”. E, nesse sentido, “se o inconsciente nos ensinou alguma coisa, foi primeiro o seguinte: que em alguma
parte, no Outro, isso sabe”.
Em uma de suas Conferências norte-americanas, Lacan afirma igualmente que a descoberta do
inconsciente “é a descoberta de um tipo muito especializado de saber, intimamente nodulado com o material da
linguagem”. Repare-se que a mesma concepção do inconsciente como um saber Outro surge na definição
lacaniana de determinados mecanismos fundamentais: o desconhecimento ativo próprio ao recalcamento
designa, para Lacan, um “não querer saber de nada disso”.
Além disso, e mais essencialmente, é preciso acrescentar que se Lacan ressalta que o inconsciente
é um saber, trata-se de um saber que vem preencher a falta de saber instintual — pois o instinto animal é uma
forma de saber inscrito no organismo vivo —, falta essa inerente ao sujeito humano desde seu nascimento: “O ser
humano manifestamente não tem nenhum saber instintual” e, nesse sentido, pode-se afirmar que “só há o
inconsciente para dar corpo ao instinto”. Ainda em outra passagem de suas Conferências norte-americanas, Lacan
esclarece a questão da relação entre o inconsciente e o instinto faltoso para o sujeito humano nos seguintes
termos: “... o saber constitui a substância fundamental daquilo de que se trata no inconsciente. O inconsciente,
nós imaginamos que é alguma coisa como um instinto, mas isto não é verdade. O instinto nos falta inteiramente,
e a maneira pela qual reagimos está ligada não a um instinto, mas a um certo saber veiculado não tanto por
palavras quanto pelo que eu chamo de significantes.”. Contudo, o saber inconsciente — o simbólico — apresenta
um ponto de não-saber — real — em torno do qual toda a estrutura orbita: trata-se da diferença sexual que se
recusa ao saber. O que significa que o inconsciente é um saber que vem tentar preencher a falha instintual, mas
não a preenche completamente: em termos freudianos, resta sempre a não-inscrição da diferença sexual, o que
Lacan traduziu como a falta do significante do Outro sexo e escreveu com o matema S, considerado como uma
verdadeira matriz da estrutura:
Inconsciente estruturado como uma linguagem → Saber → Simbólico → Núcleo do inconsciente → Não-
saber instintual → Real → S
É nesse sentido que Freud menciona, desde seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, as
teorias sexuais infantis, que são tentativas da criança de produzir um saber sobre o enigma da diferença sexual,
aquilo que precisamente não possui saber inscrito e escapa à possibilidade de inscrição. Lembremos, com o que já
vimos anteriormente, que o inconsciente representaria, assim, um saber que veiopreencher a falha deixada na
espécie pela adoção da postura ereta e a consequente perda do vínculo instintual preponderante nos mamíferos,
o olfato. É bastante surpreendente averiguar que a novidade da ideia lacaniana do inconsciente como um saber já
se encontra, contudo, enunciada de modo embrionário na obra de Freud, que utiliza esta expressão numa
passagem do primoroso livro sobre Os chistes ou atos falhos e sua relação com o inconsciente:
Sabemos de um sonho aquilo que, via de regra, se parece a uma lembrança fragmentária que nos
ocorre depois de despertar. Tal lembrança aparece como uma miscelânea de impressões sensoriais,
principalmente visuais mas também de outros tipos, que simula uma experiência e à qual podem ser misturados
processos de pensamento (o “saber” no sonho) e expressões de afeto.
Ainda em outra passagem de uma das conferências introdutórias sobre os sonhos, Freud apoia
sua argumentação sobre a técnica de interpretação dos sonhos baseada nas associações do sonhador na ideia de
que o sonhador sabe o que seu sonho significa, “apenas não sabe que sabe, e, por esse motivo, pensa que não
sabe”. O sujeito sabe sem saber que sabe — e isso constitui o saber do psicanalista mais essencial, o saber de que
há sujeito do inconsciente, saber ao qual ele só pode ter tido acesso através de uma experiência de análise
pessoal.
3.2 O SINTOMA É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM:
Tomando a tese freudiana do determinismo psíquico amplamente exposta no capítulo final de A
psicopatologia da vida cotidiana — segundo a qual todos os atos, vontades, ditos, tendências etc. dos sujeitos, são
determinados inconscientemente de modo universal —, Lacan pondera que, a rigor, a chamada regra da
associação livre (regra fundamental da prática analítica, segundo a qual o analisando é instado a dizer tudo o que
lhe ocorrer, abstendo-se de qualquer espécie de seleção, de crítica ou juízo prévio) esteia-se precisamente no fato
de que a associação produzida pelo sujeito em análise não é nada livre, mas ao contrário, sobejamente
determinada. Nesse sentido, a categoria freudiana da sobredeterminação (que significa uma superdeterminação)
inconsciente põe em evidência a primazia do simbólico na constituição do sujeito, na medida em que se mostra
uma característica geral das formações do inconsciente. Lacan acentua que, para admitir um sintoma na
psicopatologia psicanalítica, seja ele neurótico ou não, Freud exige o mínimo de sobredeterminação constituído
por um duplo sentido, símbolo de um conflito defunto, para-além de sua função, num conflito presente não
menos simbólico, e se ele nos ensinou a acompanhar, no texto das associações livres, a ramificação ascendente
dessa linhagem simbólica, para nela detectar, nos pontos em que as formas verbais se cruzam novamente, os nós
de sua estrutura, já está perfeitamente claro que o sintoma se resolve por inteiro numa análise linguajeira, por ser
ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem cuja fala deve ser libertada.
Lacan se empenha em demonstrar que, para Freud, o “sintoma é estruturado como uma
linguagem”. Determinado simbolicamente, o sintoma, no sentido lato do termo, é a resultante que expressa um
conflito psíquico ao modo de uma formação de compromisso entre o desejo e as defesas. Lacan assinala nesse
ponto que Freud veio mostrar basicamente o fato de que os sintomas apresentam um sentido que insiste em
presentificar sua verdade à revelia do eu:
Freud assumiu a responsabilidade, ao contrário de Hesíodo, para quem as doenças enviadas por Zeus
avançavam para os homens em silêncio;
Ele nos mostrou que existem doenças que falam (são somatizadoras), e de nos fazer ouvir a verdade do
que elas dizem...
Lembre-se, a esse respeito, que uma das Conferências introdutórias sobre psicanálise (1917) de
Freud intitula-se, justamente, “O sentido dos sintomas”. A formulação de Lacan segundo a qual “o inconsciente é
estruturado como uma linguagem” é homóloga ao destacamento do registro do simbólico e desemboca em sua
concepção da lógica do significante. Desde os Estudos sobre a histeria (1893-95), Freud faz referência ao processo,
que já denominava então de simbolização, inerente às experiências de análise que começava a empreender, mas
apenas com os desenvolvimentos feitos por Lacan pôde ser evidenciado o que esta simbolização designava
efetivamente. Absolutamente distinta da simbólica de Jung, na qual está implicado o discernimento de
significados últimos para o sujeito e para a coletividade (noção de inconsciente coletivo), o simbólico de Lacan
revela a estrutura mesma do significante tal como dissecada por Freud ao longo de sua obra. Em seu Ensaio sobre
o homem, Ernst Cassirer situa o simbólico no cerne da problemática humana e afirma que “não estando mais num
universo meramente físico, o homem vive em um universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião são
partes desse universo”. Mas qual é essa estrutura do simbólico? Foi esta a questão que Lacan colocou para si
mesmo diante da obra de Freud. Sua resposta surgiu a partir de seu encontro com o ensino de Ferdinand de
Saussure e desembocou na teoria do significante.
3.3 O ENCONTRO ENTRE LACAN E SAUSSURE:
Muitos trabalhos foram feitos por psicanalistas no sentido de expor as teses lacanianas sobre “o
inconsciente estruturado como uma linguagem”. Mas é da parte de um linguista, Michel Arrivé, que se teve,
recentemente, um aporte fecundo no sentido de esclarecer tanto as convergências como as divergências entre
Saussure e Lacan: “Acontece que, cada um do seu lado, Saussure e Lacan nos fornecem uma especulação que
mostra, mais além das diferenças que subsistem necessariamente, o profundo parentesco — no sentido forte da
palavra — das suas reflexões.”. Para Arrivé, “o enraizamento saussuriano da reflexão lacaniana é autêntico e
profundo”, e ele se pergunta ainda se não podemos ver na definição lacaniana do Outro como “tesouro do
significante” um eco intencional da noção de “tesouro da língua” mencionada por Saussure no Curso de linguística
geral (CLG). O encontro de Lacan com Saussure (1857-1913, Genebra, na Suiça) deve ser compreendido no quadro
da busca de cientificidade para a psicanálise, almejada por Lacan de modo muito particular, ou seja, ao situar de
maneira nova a questão do sujeito do inconsciente. Lacan pretendeu dar um contorno sólido à crítica freudiana do
sujeito racional da filosofia clássica e é por isso que seu procedimento visa “demonstrar o caráter ilusório da
consistência do sujeito cartesiano”.
Veremos, adiante, que aquilo que caracteriza a definição lacaniana do significante em relação à
definição saussuriana do signo é a inclusão do sujeito no primeiro e sua exclusão no segundo. Ocorre que
“instaurando no cerne de sua teoria linguística a dicotomia conceitual língua/fala, [Saussure] evacua, com a
exclusão do sujeito falante, o subjetivismo psicológico para fora do campo da linguística científica”. Mas, na época
em que Saussure elabora seu projeto de linguística teórica, as comunicações eruditas dos linguistas (Bally, Meillet
etc.) apareciam frequentemente no boletim da Sociedade de Psicologia e, na falta de ter meios conceituais para
uma teorização eficaz da noção de sujeito, a operação de Saussure teve como efeito possibilitar que essa
teorização viesse a se produzir posteriormente. Ao introduzir o problema da produção do sentido no quadro de
uma teoria do valor, Saussure permitiu eliminar a aporia filosófica do referente enquanto garante externo e foi
isto que interessou Lacan enormemente, na medida em que, na experiência psicanalítica, a produção do sentidose dá de modo absolutamente independente do referente. Lacan introduz a categoria de falta na cadeia
significante e, a partir do conceito saussuriano da língua como sistema de valores diferenciais, reelabora a noção
de sujeito fora da conotação ontológica que implica na alternativa: sujeito pleno do humanismo filosófico ou
morte do sujeito. M. Arrivé enuncia três assertivas, nas quais as convergências e divergências entre Lacan e
Saussure podem ser reunidas e elaboradas:
1. O significante lacaniano tem por epônimo e por étimo epistemológico o significante saussuriano;
2. O significante lacaniano não se confunde com o significante saussuriano;
3. Apesar das diferenças que os separam, os dois significantes são unidos por relações tais que sua
denominação pelo mesmo significante — o significante significante — é legítima”.
Costuma-se afirmar que Freud não teve notícia da existência do livro de Saussure. Mas, como
salienta Arrivé, o filho do linguista, Raymond de Saussure, que se tornou psicanalista, não só conhecia bem o
trabalho de seu pai desde 1916, como teve sua obra O método psicanalítico prefaciada por Freud, que a leu e
corrigiu. Nessa obra, o CLG é citado numa nota a propósito do lapso, o que constitui sem dúvida uma “prova
irrefutável de que Freud conhecia a existência do Curso”. Em “Função e campo”, embora os termos significante e
significado sejam mencionados com frequência, Lacan não se refere a Saussure, nem tampouco fala do
deslizamento do significado sob o significante do qual tratará posteriormente. No escrito intitulado “A coisa
freudiana”, que retoma a conferência de 7.11.1955, surge pela primeira vez em Lacan o nome de F. de Saussure,
do qual ele afirma ser “o fundador da linguística moderna”. Se a língua é um instrumento de comunicação, pois,
antes dela, conforme coloca Saussure, o pensamento não passa de uma “massa amorfa”, uma “nebulosa”, para
Lacan a função de comunicação pode ser considerada secundária diante da outra função da língua considerada
primordial para a psicanálise — a evocação. Contudo, comunicação e evocação não se opõem, mas se relacionam
ambas com formas particulares de mensagem, pois o princípio que rege a comunicação é a intersubjetividade, ao
passo que na evocação trata-se de uma intra-subjetividade. E. Cassirer observou a um só tempo não apenas a
perda de importância do referente para o campo do simbólico humano, como também a hipertrofia desse
componente intra-subjetivo: “A realidade física parece recuar em proporção ao avanço da atividade simbólica do
homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o homem está, de certo modo, conversando constantemente
consigo mesmo.”. A diferença conceitual estabelecida por Lacan entre código e mensagem esclarece essa
dualidade entre inter e intrasubjetivo.
3.4 O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE EM LACAN:
A teoria psicanalítica vai esbarrar de cara não só com a personalidade humana considerada
normal, mas nos transtornos ou distúrbios. Isso é importante, pois podemos enxergar até a autoestima do
indivíduo, percebendo como ele próprio se vê ou se percebe. Um dos que mais falou sobre isso foi Jacques Lacan,
após criar a teoria do Estágio do Espelho, inspirado em Freud. Ele tornou-se conhecido por formular uma teoria
profunda e complexa sobre o homem, estudando processos psicológicos, linguísticos e socioculturais (morais,
éticos, políticos etc.), sob a égide do retorno a Freud. Redefiniu as categorias psicanalíticas conhecidas e criou
novas sob a perspectiva do estruturalismo e da linguística.
O pensamento lacaniano destaca que o homem está inserido em um universo de linguagem, o
que o diferencia das demais espécies do mundo animal. A linguagem no homem não tem apenas a função de
comunicar, mas também de criar sentidos a sua existência, fazendo dele um ser especial. A moral é fruto de uma
relação social e é construída através da linguagem (processo simbólico), estruturando-se como critério de
existência, dando sentido à vida.
Lacan, inspirando-se em Saussure, cria uma Lógica do Sujeito, em que o indivíduo usa a linguagem
para dar sentido a sua existência. O estruturalismo lacaniano referencia-se a partir da estrutura de linguagem, é
através da linguagem que o indivíduo se insere na cultura e se constitui como sujeito. A língua é um complexo
sistema de relações entre signos linguísticos (imutáveis e mutáveis ao mesmo tempo). A unidade fundamental da
linguagem é o signo: composto de uma imagem acústica (significante - S) e um conceito (significado - s); O
significado é aquilo a que o significante se refere, um não existe sem o outro: o significante não existe sem o
significado, é apenas um objeto, o significado por sua vez, sem o auxílio do significante é impensável, indizível, é o
inexistente:
Cadeira (S) significante, objeto que serve para sentar, acomodar a pessoa (s) significado;
Lápis (S) significante, objeto que serve para desenhar ou escrever (s) significado.
No processo linguístico, a associação entre um (S) e um (s) é arbitrária, podendo se relacionar de
diversas maneiras em uma determinada comunidade linguística:
Eu aprendo;
Eu a prendo.
Para Saussure, o ordenamento dos significantes (S) e dos significados (s) pode se relacionar de
duas maneiras:
Por semelhança (metáfora);
Por contiguidade (metonímia).
O Processo metafórico: metáfora consiste em designar alguma coisa por meio do nome de outra
coisa:
O que eu sinto por ela é um fogo (paixão);
Atirou-se sobre o inimigo como um lobo (ferozmente, brutalmente).
A metáfora se situa no ponto preciso onde o sentido se produz no sem sentido. É necessária uma
operação mental para encontrar a metáfora.
O Processo metonímico: significa mudança de nome, porém, essa alteração de denominação
(significantes) só é possível por que existem certas condições de ligação entre os dois termos (contiguidade):
Matéria-objeto; continente conteúdo “beber um copo”;
Parte-todo “uma vela no horizonte” “andar em um oito cilindros”;
Hoje eu estava na rede (deitado; descansando).
Para Lacan, não só o sujeito se insere e é inserido através da linguagem, como o inconsciente se
estrutura como linguagem. Os processos de condensação e deslocamento dos sonhos são respectivamente
processos metafóricos e metonímicos; o desejo funciona através de um processo metonímico (metonímia do
desejo); o sintoma é um processo metafórico.
Compreendendo isso, Lacan propõe sua teoria do Estágio do Espelho, explicando a constituição
do sujeito. Ele pensa que o ser humano tem uma representação fantasmática do corpo, na qual este aparece
fragmentado (corpo como quebrado, em pedaços: processo inconsciente, dos recortes mentais), essa imagem do
corpo continua a se expressar durante toda a vida adulta, nos sonhos, delírios e processos alucinatórios.
A imagem do bebê (por volta dos 6 meses) de seu próprio corpo refletida no espelho o
surpreende, pois ele se vê esculpido em uma gestalt (forma) que nada mais é do que uma imagem antecipatória
da coordenação e integridade que ainda não possui nesse momento. Torna-se consciente dos detalhes do cuidado
materno e pode crescentemente relacioná-los ao impulso pessoal uma identificação com algo que não é, mas que
virá a ser (uma falácia): identifica-se com um imaginário (fantasma).
Para Lacan, esse processo se repete na relação do bebê com a mãe, ou melhor, com o olhar dessa.
É o ESTÁDIO DO ESPELHO(contendo três estágios, chamados de Édipo): identifica-se ou tenta ser, buscando
sempre se “moldar”, vir a ser o que o olhar da mãe lhe reflete. Para o auto, esse momento (estágio do espelho) o
bebê busca no registro do imaginário, vir a ser a imago (estágio maduro) refletida no olhar da mãe (vir a ser o
desejo da mãe):
Desde o início, o homem fica preso a essa ilusão, da qual procurará se aproximar pelo resto de sua vida;
O sujeito se constitui através das identificações com os outros seres humanos, fenômeno pelo qual Freud
chama também de projeção.
O eu constituído nesta etapa, no registro imaginário é o ego ideal, uma imagem antecipatória
prévia, o que não somos, mas queremos ser, imagem narcísica cujo alcance persegue o homem incessantemente.
No estágio do espelho, a criança se identifica com uma imago (representação de uma pessoa) antecipatória de si
mesma e em seguida com o desejo da mãe (primeiro momento do Édipo): o olhar do outro produz em mim, minha
identidade, por reflexo. Através dele, sei quem sou e nesse jogo narcisista, me constituo a partir de fora.
Para Lacan, a agressividade surge do encontro entre a identificação narcisista, da qual é portador
e as fraturas/rupturas às quais esta imago (estágio) está submetida. Nessa etapa, o sujeito busca se identificar
com o desejo do outro, ser o objeto de desejo do outro, ou seja, ser o que o outro não possui, mas deseja possuir.
Baseado nas ideias de Freud, Lacan define que o objeto faltante é o “falo”:
O falo é, portanto, algo subjetivo, pertencente ao registro imaginário;
O objeto fálico é algo que o sujeito busca incessantemente e não cessa de justificar que o possui,
questionando quem tem e quem não o tem, quando na verdade ninguém o tem.
Num primeiro momento (estágio do espelho) a criança está alienada em um imaginário da mãe,
anseia ser o desejo da mãe (o que ela não possui e deseja ter): o falo.
O filho seria o falo da mãe (buscará ser esse objeto fálico);
O desejo é ser o objeto faltante (seu desejo é o desejo do outro).
Num segundo momento, o pai (terceiro) passa a participar do processo (segundo momento do
Édipo), privando a mãe do bebê. O olhar da mãe se volta para o pai, o que leva a criança a pôr em dúvida a sua
identificação fálica.
Dilema: ser ou não ser o falo?
Em seu ponto de vista, o pai parece ser o objeto fálico possível;
O objeto de desejo da mãe tem agora um nome (significante) que embora nunca seja dito, será enunciado
por intermédio de infinitas verbalizações – nome do pai.
Para Lacan, é a mãe que apresenta, permite ao pai (terceiro) entrar no processo, ao privar a
criança de ser o falo, o pai (terceiro) assume a função castradora (mediando-o), intercede na relação entre mãe e
filho. A criança descobre que o desejo de cada um deve se submeter à lei do desejo do outro (Lei do Pai): inicia-se
o ingresso no registro simbólico, passa-se da ilusão de “ser” o falo para a de “ter” o falo – supondo que o pai tem
o objeto o qual a mãe deseja (ter aquilo que preenche o desejo da mãe).
O ingresso no registro simbólico se dá quando a criança renuncia a sua condição de ser (relação
diádica) e entra num triângulo de negociação que lhe permita ―ter o falo (terceiro estágio ou momento do
Édipo). A aceitação da lei do pai produz uma primeira substituição metafórica (substitui-se o significante falo pelo
significante nome do pai). Metáfora originária (metáfora do nome-do-pai).
Na teoria lacaniana este processo é estruturante (é o primeiro processo de simbolização, é o
ingresso no mundo dos significantes). O significante falo se torna inconsciente, porém altamente investido,
atraindo outros significantes associados metonimicamente com a metáfora nome-do-pai. A partir da
simbolização, todos os objetos de desejo que o sujeito enuncia não são mais do que deslocamentos metonímicos
do significante primordial:
O falo (inconsciente);
Lacan define esse processo como a metonímia do desejo;
O sujeito psicológico nasce ao ser incluído na ordem do significante e na lei do pai, reconhecendo a
castração e se tornando um perpetuador da cultura;
Com esse ato o seu psiquismo é clivado, ou seja, uma parte dele ser-lhe-á inteiramente desconhecida: seu
inconsciente.
O sujeito inicia a sua constituição alienado no desejo do outro e quando ingressa no registro
simbólico é alienado de si mesmo. No Édipo, a criança deve abandonar a posição de objeto do desejo, ocupando,
portanto, uma posição na qual passa a ser sujeito do desejo de objetos substitutivos.
Quando o ser humano se transforma em ser social (indivíduo), é a parte em que ele se define: o
Édipo é o processo pelo qual a menina se define como mulher e o menino se define como homem, ou vice-versa,
em casos de homossexualismo. Definir a si mesmo como alguma coisa é um ideal (existe o ideal de homem e de
mulher, assim como existe o ideal de cachorro, de gato, de casa – a linguagem vai classificando a realidade).
Ego ideal (o que não somos, mas queremos ser);
Ideal do Ego (ser parte da estrutura perpetuadora da Lei, o que se espera que seja).
Todos esses estilos de identificação ou projeção (do primeiro ao terceiro momento do Édipo),
entrando no registro simbólico, coexistem misturando-se durante toda a vida. Nesta simbolização entra o ser
moral (individual e intrapessoal) e ético (social e interpessoal), com uma identidade formada, principalmente na
família.
Com uma determinada identidade moral formada, o indivíduo se depara com uma mentalidade
ou representação mental de si mesmo: a estrutura do ego. Essa estrutura está conectada a uma autoestima, que é
definida pela mentalidade de “quem sou eu” (a identidade do “eu sou”). É um determinismo psíquico (aquilo que
foi construído no passado aparecerá de forma inconsciente na vida do indivíduo). Ela é influenciada pelas crenças:
Lócus externo: “as pessoas são” e “o mundo é”;
Princípios e Valores: certo e errado (fase da moralidade);
Traumas: experiências negativas guardadas nas lembranças e são inconscientes.
Existem processos morais deformados que construímos na nossa vida ao longo do tempo, são
critérios de existência que estão nos conduzindo para um abismo por causa de uma baixa autoestima: as morais
deformadas estão completamente ligadas aos nossos pensamentos negativos que temos sobre nós mesmos.
Os pensamentos negativos estão construindo sentimentos destrutivos, é resultado de processos
simbólicos. A linguagem verbal que temos tem poder sobre os nossos gestos e comportamentos, a maneira como
falamos de nós mesmos definirá quem seremos de forma positiva ou negativa. Somos espelhos que refletem
aquilo que está olhando (focando, percebendo, lendo), ouvindo (palavras, músicas, TV, vozes de pessoas) e
sentindo (alegria, tristeza, raiva, medo, angústia etc.): é o terceiro estágio do espelho cutucando o nosso (ego) eu,
sendo moldado a todo o momento e influenciando a nossa autoestima.
Podemos ter uma estrutura moral e emocional mais adequada se nos influenciarmos de forma
positiva, construindo uma autoestima alta.
Definição completa de autoestima:
É a vivência de sermos apropriados à vida e ás exigências que ela faz, confiando em nossa capacidade para
enfrentar os desafios diários;
É ter a crença de autorresponsabilidade e sentir o direito de ser feliz; É a sensação de sermos merecedores e qualificados para expressar nossas necessidades e desejos;
É a capacidade de doar ou comunicar afeto, carinho, amor;
É como nos vemos (autoimagem, significante, processo simbólico);
A autoestima é construída através da linguagem verbal e não-verbal.
Como está a nossa autoimagem? Como nós nos vemos? Pessoas com baixa autoestima se
sabotam constantemente. As autosabotagens são:
Mecanismos de defesa (estrutura formada pelo ego para se proteger dos perigos internos e externos):
usamos eles para negarmos os problemas e não enfrentarmos as dificuldades;
Pensamentos que tentam justificar e defender determinados sentimentos e comportamentos negativos;
Culpa, vitimizações, medo ou insegurança e desejo de desistir dos sonhos ou das metas.
Compreendendo tudo isso, deduzimos que a autoestima pode determinar como trataremos nossa
família, amigos e outras pessoas (incluindo animais de estimação) e, finalmente, que nível de felicidade nós
atingiremos. Será determinado como atuaremos no local escolar ou no local de trabalho, se seremos éticos diante
dos outros e o que somos capazes de realizar etc. Isso faz parte do determinismo psíquico freudiano, afinal, o
passado do sujeito influenciará seu futuro. Aqui são formadas as morais defeituosas (certo e errado):
1. Exemplo: eu acho que um ladrão deveria ser espancado e amarrado nu em um poste, no meio da rua
(representação imoral e antiética);
2. Exemplo: se eu não respeito nem meus pais, imagine meus professores (imoral e antiético);
3. Exemplo: eu nunca precisarei de ninguém, sou autônomo (imoral e antiético).
No primeiro exemplo, o indivíduo manifesta uma indiferença em relação ao outro; no segundo, a
própria pessoa não respeita a autoridade familiar e a autoridade escolar, simbolizando que não respeita nem a si
mesmo e que possui uma inimizade com seus pais; no terceiro, a pessoa não compreende que sempre precisará
de alguém ou, até dependerá (a autonomia não é absoluta, é relativa). Os três exemplos são resultados de morais
defeituosas (coisas imorais e inconscientes) causadas por uma baixa autoestima em que hoje determina como
esses indivíduos pensam e agem (manifestação sempre negativa). Todos eles demonstram sintomas emocionais,
psicológicos e físicos em relação isso:
Sintomas EMOCIONAIS da baixa autoestima: agressivos, tímidos, arrogantes (se acha melhor do que os
outros, dono da verdade, narcisista), impacientes, riso falso, competitivos, não aceita ser mandado,
prepotentes, perfeccionistas, pornográficos, imorais, fofoqueiros, indiferentes, ciumentos excessivos,
baixa afetividade;
Sintomas PSICOLÓGICOS da baixa autoestima: ansiosos, vacilantes, não gosta de si mesmo, inseguros,
perdedores, envergonhados crônicos, cumpridores de expectativas alheias, necessita de aceitação e
aprovação, comparativo excessivo;
Sintomas FÍSICOS da baixa autoestima: voz frágil, relaxado na aparência, tensos, obesos, anorexos,
postura corporal sem expressão, corpo arqueado, não olha nos olhos dos outros, nervosos, olhos sem
brilho.
Tudo isso determinará se seremos ou não éticos, amorosos e competentes na vida. Se
conseguirmos detectar tais sintomas em nós, já saberemos o que fazer para sermos melhor. Lacan percebeu que a
alta ou a baixa autoestima é formada através da comunicação verbal e não-verbal, ou seja, somos seres
fundamentalmente linguísticos ou comunicativos, por isso, até as condutas morais são construídas
linguisticamente. Ela é formada de 0 a 12 anos, começando pelos nossos pais. A quantidade e qualidade do amor
comunicado pelos pais (ou pais substitutos) determinam a nossa autoestima.
A baixa autoestima é causada pelo que os nossos pais receberam ou pelo que possuem, a
comunicação deles está nas palavras, afetos e afirmações. Quando a comunicação é realizada com culpa, crítica
excessiva e medo, se desenvolve a baixa autoestima (o determinismo psíquico gera crenças, princípios ou valores
e traumas).
A linguagem é importante, pode gerar crenças construtivas ou destrutivas. Aqueles que
receberam amor e limites (responsabilidade) no passado, podem ser alegres, amorosos. Já aqueles que foram
educados com pouco amor, medo, críticas excessivas, zombarias etc., hoje podem ser pessoas que olham para
baixo, manifestam insegurança, tem muito medo de se apresentar em público (medo de errar, de ser zombado e
criticado) e, às vezes, são excessivamente racionais, perfeccionistas ou obsessivos compulsivos.
Crença de valor (eu não tenho muito valor? Será que sou importante?);
Crença de capacidade (só vai ter se fizer isso ou aquilo): Fazer;
Crença de merecimento (criança burra, faz tudo errado, não presta pra nada!): Ter;
Crença de pertencimento (crianças abandonadas pelos pais, ou quando os pais não dão limites): Ser.
O comportamento dos pais é uma linguagem de repetição de padrão, ou seja, os filhos também
poderão repetir de forma inconsciente futuramente. Repetições de padrões negativos:
Padrão de pobreza; padrão de adultério; padrão de violência; padrão de rancor; padrão de criminalidade;
Padrão de divórcio; padrão de pornografia; padrão de ciúmes excessivos (sufocador); padrão de
alcoolismo; padrão de ansioso ou medroso;
Padrão de drogado; padrão de autoritarista compulsivo; padrão de narcisista (beleza excessiva);
Padrão de consumista compulsivo; padrão de fofoqueiro; padrão de impaciência etc.
Todos esses padrões são resultados de construções simbólicas no indivíduo, ou como diz Lacan, é
o imaginário vivido, o Eu ideal, o Outro internalizado, a fantasia (processo psicológico) que está na identidade do
ser humano.
4. A PRIMEIRA TEORIA DA ESTRUTURA DO APARELHO PSÍQUICO
Em 1900, no livro A Interpretação dos Sonhos, Freud apresenta a primeira concepção sobre a
estrutura e funcionamento da personalidade. Essa teoria refere-se à existência de três sistemas ou instâncias
psíquicas: inconsciente, pré-consciente e consciente (resultado da primeira topografia de Freud):
O inconsciente exprime o conjunto de conteúdos não presentes no campo atual da consciência. É
constituído por conteúdos reprimidos, que não tem acesso aos sistemas pré-consciente/consciente, pela
ação de censuras internas. Estes conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e ter sido
reprimidos, isto é, foram para o inconsciente, ou podem ser genuinamente inconscientes. O inconsciente é
um sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento (por exemplo: não existem as
noções de passado e presente);
O pré-consciente refere-se ao sistema onde permanecem aqueles conteúdos acessíveis à consciência. É
aquilo que não está na consciência, neste momento, mas que no momento seguinte pode estar;
O consciente é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo
exterior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção e, principalmente, a percepção do mundo
externo.
4.1 A SEXUALIDADE PARA A SEXOLOGIA E PARA A PSICANÁLISE:
O que é sexualidade para a Psicanálise? O que ela tem a ver com a mente humana e,
principalmente, com o inconsciente?
Sexologia e Psicanálise falam de sexualidade, mas as duas têm a concepção totalmente diferente
da outra, mesmo que tenha algo semelhante. Para a sexologia, a sexualidade parte de processos apenas
biológicos e físicos, no sentido de que a única definição acertada fosse tudo o quese relaciona com distinção entre
os dois sexos. Se tomarem o fato do ato sexual como ponto central, talvez definissem como sexual tudo aquilo
que, com vistas a obter prazer, diz respeito ao corpo e, em especial, aos órgãos sexuais de uma pessoa do sexo
oposto, e que, em última instância, visa à união dos genitais e à realização do ato sexual. Se, por outro lado,
tomarem a função de reprodução como núcleo da sexualidade, correm o risco de excluir toda uma série de coisas
que não visam à reprodução, mas certamente são sexuais, como a masturbação, e até mesmo o beijo.
É importante compreender a diferença entre sexo e sexualidade:
O sexo é entendido a partir do biológico, submetido a uma função ou finalidade, em última instância a
procriação, portanto, a reprodução. Nesse sentido, o sexo é anatômico, ou seja, associado aos genitais,
dessa forma, remete-se a ideia de gênero, feminino e masculino. A sexualidade vai além das partes do
corpo, ela constitui-se como uma característica que está estabelecida e está presente na cultura e na
história do homem: a sexualidade transcende à consideração meramente biológica e centrada na
reprodução e nas capacidades instintivas.
Dessa forma, para a Sexologia, tudo que fugisse da junção entre macho e fêmea, e que não
estivesse, portanto, submetido ao ato reprodutivo ou um fim biológico, era tido como uma espécie de desvio
(sendo pequeno ou grande desvio).
Sexo – É o caráter que distingue os gêneros masculino e feminino. Refere-se basicamente às
características biológicas e fisiológicas dos aparelhos reprodutores do homem e da mulher, ao seu
funcionamento e também aos caracteres sexuais secundários decorrentes da ação hormonal. Pelo sexo se
sabe se um indivíduo é macho ou fêmea. Mas também se diz se ele é masculino ou feminino, daí a grande
confusão entre os termos sexo e gênero. Então, é bom explicar o que é gênero;
Gênero – É um termo usado para fazer a distinção entre os homens e as mulheres quando no desempenho
de suas relações sociais. É comum se ouvir as expressões sexo masculino e sexo feminino, mas é incomum
se ouvir gênero macho e gênero fêmea;
Sexualidade – É a atividade, a expressão, a disposição ou o potencial dos impulsos sexuais do indivíduo.
Simples e ao mesmo tempo complexa, a sexualidade envolve tudo o que cerca o indivíduo. Ela acompanha
o indivíduo por toda a sua vida e não se restringe apenas aos órgãos genitais. É possível encontrar
sexualidade até mesmo em um simples olhar.
Para entender a sexualidade dentro da Psicanálise é necessário especificar o conceito que Freud
tinha sobre a libido (desejo ou energia sexual). De fato, o termo já era utilizado por sexólogos do final do século
XIX, no entanto para designar uma energia própria do instinto sexual. Freud retomou para designar, dessa vez, a
manifestação da pulsão sexual, e por extensão, a sexualidade humana em geral. A teoria da libido apresentada
por Freud no livro, três ensaios sobre a teoria da sexualidade, resume-se nesta apertada síntese:
o Combinam bem com essas hipóteses sobre a base química da excitação sexual a noção de que nos valemos
para procurar a dominar as manifestações psíquicas da vida sexual. Estabelecemos o conceito da libido
como uma força quantitativamente variável que poderia medir os processos e transformações ocorrentes
no âmbito da excitação sexual. Diferenciamos essa libido, no tocante a sua origem particular, da energia
que se supõe subjacentes aos processos anímicos em geral, e assim lhe conferimos também um caráter
qualitativo. Ao separar a energia libidinosa de outras formas de energia psíquica, damos expressão à
premissa de que os processos sexuais do organismo diferenciam-se dos processos de nutrição por uma
química especial. A análise das perversões (fenômenos sexuais que se manifesta no mundo conjugal,
familiar, social, político, profissional etc.) e das psiconeuroses (conjunto de problemas de origem psíquica)
levou-nos à compreensão de que essa excitação sexual é fornecida não só pelas partes sexuais, mas por
todos os órgãos do corpo.
Freud toma a teoria das pulsões e a teoria da libido como teorias quase sinônimas. Dessa forma,
conceito de libido corre paralelo ao conceito de pulsão. Jacques Lacan vai dizer que a pulsão não tem dia nem
noite, não tem primavera nem outono, ela não tem subida nem decida, ou seja, diferentemente do instinto, que
têm piscos e declínio, a pulsão é uma força ou impacto constante. A pressão é o fator motor da pulsão, a
quantidade de força ou exigência do trabalho que ela representa. Se considerarmos que a pulsão sexual exerce
uma força constante ou uma pressão permanente, a libido seria, portanto, a energia que sustentaria essa pressão
da pulsão. Ou seja, a libido seria a energia das pulsões sexuais.
A libido está vinculada aos tipos de investimentos que o indivíduo realiza com seu mundo, seja ele
interno ou externo: esta distinção entre a sexualidade, como um fato, e a libido como uma suposta energia,
também caracteriza dois modos de teorização feitos por Freud na construção da teoria psicanalítica.
4.2 A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE INFANTIL:
Freud vem nos mostrar que a pulsão, a sexualidade pulsional, está também presente nas crianças.
Sexualidade está, que não necessariamente baseada na genitalidade ou órgãos genitais, na biologia do corpo, mas
uma sexualidade pulsional que pode ser observada, por exemplo, no olhar da criança, nos seus gestos e até pela
boca. É aquilo que entra e sai da boca, o que ela deseja ouvir ou ver, é a sexualidade que diz respeito às trocas que
esse corpo, que penetra por todos os furos e buracos, num processo sensorial. Neste sentido, a criança vai ser o
tempo todo impactada e habitada pela sexualidade. Freud irá dizer que para entender a sexualidade dos adultos
basta olhar a sexualidade das crianças. Essa sexualidade que composta por inúmeros ingredientes, e não
necessariamente só os órgãos genitais e muito menos só a junção do macho com a fêmea.
A criança vive sua sexualidade desde que nasce, no contato sexual com a mãe, com o mundo
exterior e estabelecendo sua percepção corporal em diferentes fases da sua vida. Ou seja, o corpo da criança é seu
universo sexual, assim, a noção de corpo é essencial para a sexualidade.
A criança nasce em um corpo despedaçado e desprovido, ainda de uma vida mental,
consequentemente de um psiquismo. Ela não passa de um corpo manipulável, onde a mãe se torna a dona deste
corpo. Há de fato uma fusão entre o corpo da criança com o corpo da mãe, e essa fusão nada mais é do que
sexual. Esse sexual traduz-se na relação entre a mãe e a criança, nos cuidados que ela tem com o menino (a), na
ternura. Freud vai muito mais longe, pois não diz que o sexual jaz na ternura, por exemplo, mas que a própria
ternura é em si uma excitação sexual.
As relações do filho com sua mãe são para ele uma fonte contínua de excitação e satisfação
sexual, a qual se intensifica quanto mais ela lhe der provas de sentimentos que derivem de sua própria vida
sexual, beijá-lo, niná-lo, considerá-lo substituto de um objeto sexual completo. Seria provável que uma mãe
ficasse bastante surpresa se lhe dissessem que assim ela desperta, com suas ternuras, a pulsão sexual do filho. Ela
acha que seus gestos demonstram um amor assexual e puro, em que a sexualidade não desempenha papel algum,
uma vez que ela evita excitar os órgãos sexuais do filho mais que o exigido pelos cuidados corporais. Mas, como
sabemos, a pulsão sexual não é despertada apenas pela excitação da zona genital; a ternura também pode ser
excitante.Freud, em suas investigações na prática clínica sobre as causas e funcionamento das neuroses
(não é sinônimo de loucura, mas sim uma reação exagerada do sistema nervoso em relação a uma experiência
vivida – reação vivencial -, maneira de ser e de reagir à vida), descobriu que a grande maioria de pensamentos e
desejos reprimidos referia-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos,
isto é, que na vida infantil estavam as experiências de caráter traumático, reprimidas, que se configuravam como
origem dos sintomas atuais, e confirmava-se, desta forma, que as ocorrências deste período da vida deixam
marcas profundas na estruturação da personalidade. As descobertas colocam a sexualidade no centro da vida
psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Essas afirmações tiveram profundas repercussões na
sociedade puritana da época, pela concepção vigente da infância como inocente.
Os principais aspectos destas descobertas são:
A função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e não só a partir da puberdade
como afirmavam as ideias dominantes;
O período do desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta, onde
as funções de reprodução e de obtenção de prazer podem estar associadas, tanto no homem como na
mulher. Esta afirmação contrariava as ideias predominantes de que o sexo estava associado,
exclusivamente, à reprodução;
A libido, nas palavras de Freud, é a energia dos instintos sexuais e só deles.
No processo de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo tem, nos primeiros anos de vida, a
função sexual ligada à sobrevivência e, portanto o prazer é encontrado no próprio corpo. Esse prazer ou desejo é
chamado de narcisismo primário ou processo narcísico (referente também a mitologia grega de narciso – a paixão
ou desejo é movido apenas para si mesmo), onde a erotização é aplicada somente em si mesmo num processo de
egocentrismo. O corpo é erotizado, isto é, as excitações sexuais estão localizadas em partes do corpo, e há um
desenvolvimento progressivo que levou Freud a postular as fases do desenvolvimento sexual. Esse
desenvolvimento é saudável, mas se ocorrer problemas como a fixação (conflitos ou preocupações que persistem
além do período desenvolvimental em que ocorrem inicialmente), a criança pode não se desenvolver
adequadamente. Para sabermos melhor, devemos analisar as fases psicossexuais:
1. Fase oral (a zona de erotização é na boca – exemplo: mamar no seio da mãe ou colocar objetos na
boca, morder, cuspir, mastigar, descobrindo também algo que pode lhe dar prazer ou desprazer e
aprendendo a educar o que colocar ou não colocar na boca. Começa no nascimento até 12-18 meses.
A fixação – problema no desenvolvimento – no estágio oral pode produzir um adulto que é
incomumente interessado em atividades orais – comer, falar, fumar, chupar o dedo – ou que
demonstra tipos simbólicos de interesses orais, como ser “picantemente” sarcástico, falar vários
palavrões ou muito crédulo, ou seja, alguém que engole tudo o que falam);
2. Fase anal (a zona de erotização é no ânus – exemplo: controle da tensão intestinal, ou seja, a criança
aprende a controlar sua defecação e, dessa forma, deve aprender a lidar com a frustração do desejo
de satisfazer suas necessidades fisiológicas imediatamente. Ocorre de 12-18 meses até três anos. Se o
treinamento esfincteriano – controle da defecação, liderar fisiologicamente as puxadas e saídas de
feses – for exigente, pode ocorrer fixação. A fixação durante o estágio anal pode resultar em rigidez
incomum, organização e pontualidade – ou desorganização excessiva ou desleixo – na idade adulta);
3. Fase fálica (a zona de erotização é o órgão genital – pênis ou vagina. Nessa fase prazer e desprazer
estão, assim, centrados na região genital. As dificuldades dessa fase estão ligadas ao direcionamento
da pulsão sexual ou libidinosa ao genitor do sexo oposto e aos problemas resultantes. A resolução
desse conflito está relacionada ao complexo de Édipo e à identificação – processo de desejar ser mais
parecido com outra pessoa, imitando-a em comportamento, crenças e valores semelhantes - com o
genitor de mesmo sexo – pode ser pai, tio, avô ou outro cuidador masculino. Ocorre dos 3 a 5-6 anos.
A fixação ocorre, por exemplo, quando filho procura obter – inconscientemente - uma mulher
parecida a mãe – ou, na forma contrária, quando tenta obter um relacionamento com uma pessoa do
mesmo sexo – em fase mais adulta);
4. Em seguida vem um período de latência, que se prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma
diminuição das atividades sexuais, isto é, há um intervalo na evolução da sexualidade. E, finalmente,
na adolescência é atingida a última fase, a genital;
5. Fase genital (fase do desenvolvimento psicossocial, o objeto de erotização ou de desejo não está mais
no próprio corpo, mas em um objeto externo ao indivíduo. As pulsões sexuais, depois da longa fase de
latência e acompanhando as mudanças corporais, despertam-se novamente, mas desta vez se dirigem
a uma pessoa do sexo oposto – relação interpessoal; família, amizades e escola – relação social e
cultural etc.). Essa última fase é chamada de narcisismo secundário, quando o prazer não é mais
egocêntrico, mas se conecta com os outros, com o mundo social e simbólico. Se todas essas fases
fazem parte do desenvolvimento humano e são sexuais, também são inconscientes, mesmo que faça
parte da consciência humana. As fases acontecem primeiramente de forma libidinal e pulsional, e toda
libido e pulsão está no inconsciente do indivíduo.
No decorrer dessas fases, vários processos e ocorrência sucedem-se. Desses eventos, destaca-se o
Complexo de Édipo, pois é em torno dele que ocorre a estruturação da personalidade do indivíduo. Acontece
entre 2 e 5 anos. No Complexo de Édipo, a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede seu
acesso ao objeto desejado. Ele procura então assemelhar-se ao pai para ter a mãe, escolhendo-o como modelo de
comportamento, passando a internalizar as regras e as normas sociais representadas e impostas pela autoridade
paterna. Posteriormente, por medo da perda do amor do pai, desiste da mãe, isto é, a mãe é trocada pela riqueza
do mundo social e cultural, e o garoto pode, então, participar do mundo social, pois tem suas regras básicas
internalizadas através da identificação com o pai. Este processo também ocorre nas meninas, sendo invertidas as
figuras de desejo e de identificação: Freud fala de Édipo Feminino.
Explicando alguns conceitos:
1. No processo terapêutico e de postulação teórica, Freud inicialmente, entendia que todas as cenas
relatadas pelos pacientes tinham de fato ocorrido. Posteriormente, descobriu que poderiam ter
sido imaginadas, mas com a mesma força e consequências de uma situação real (como por
exemplo, a síndrome do pânico – medo excessivo – que cria uma realidade mental). Aquilo que,
para o indivíduo assume valor de realidade é a realidade psíquica;
2. O funcionamento psíquico é concebido a partir de três pontos de vista: econômico (existe uma
quantidade de energia que alimenta os processos psíquicos), o tópico (o aparelho psíquico é
constituído de um número de sistemas que são diferenciados quanto à natureza e modo de
funcionamento, o que permite considerá-lo como lugar psíquico) e o dinâmico (no interior do
psiquismo existem forças que entram em conflito e estão, permanentemente, ativas. A origem
dessas forças é a pulsão). Compreender os processos e fenômenos psíquicos é considerar os três
pontos de vista simultaneamente;
3. A pulsão refere-se a um estado de tensão que busca, através deum objeto, a supressão deste
estado. Eros é a pulsão de vida e abrange as pulsões sexuais e as de autoconservação. Tanatos é a
pulsão de morte, pode ser autodestrutiva ou estar dirigida para fora e se manifestar como pulsão
agressiva ou destrutiva.
4.3 A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO:
Cada vez mais se revela a importância do complexo de Édipo como o fenômeno central do
período sexual da primeira infância. Depois ele desaparece, sucumbe à repressão e vem o período de latência
(que se caracteriza por uma diminuição das atividades sexuais, isto é, há um intervalo na evolução da
sexualidade). Mas ainda não é claro o que leva ao seu fim; as análises parecem mostrar que são dolorosas
decepções experimentadas.
1. A menina pequena, que pretende ser amada pelo pai acima de tudo, algum dia sofre uma dura punição
por parte dele e se vê expulsa do paraíso (processo psicológico);
2. O garoto, que vê a mãe como sua propriedade, nota que ela passa a dirigir seu amor e seu cuidado a um
recém-chegado.
A reflexão aprofunda o valor dessas influências, ao enfatizar que são inevitáveis tais experiências
aflitivas, que se opõem ao conteúdo do complexo. Mesmo quando não sucedem eventos especiais, como os
mencionados a título de exemplos, a ausência da satisfação esperada, a contínua ausência do filho desejado,
levam a que o pequeno enamorado abandone sua desesperançada afeição. Assim, o complexo de Édipo
desapareceria devido ao seu fracasso, em consequência de sua impossibilidade interna. Uma outra concepção
diria que o complexo de Édipo tem de acabar porque chegou o momento de sua desintegração, assim como caem
os dentes de leite quando surgem os permanentes. Embora o complexo de Édipo seja vivido pela maioria das
pessoas individualmente, ele é um fenômeno determinado pela hereditariedade, por ela estabelecido, que
programadamente deve passar, quando começa a fase seguinte e predeterminada do desenvolvimento. De modo
que é indiferente quais as ocasiões que levam isso a acontecer, ou que não seja possível descobri-las.
Não podemos contestar que as duas concepções se justificam. Mas também são compatíveis
entre si. No nascimento o indivíduo inteiro é destinado a morrer, e talvez os seus órgãos já contenham a indicação
daquilo de que morrerá. Mas sempre interessa acompanhar como esse programa inato é executado, de que
maneira danos ocasionais tiram proveito da predisposição. Podemos perceber melhor que o desenvolvimento
sexual da criança chega até uma fase em que o genital já assumiu o papel condutor. Mas esse genital é apenas o
masculino, mais precisamente o pênis; o feminino não foi ainda descoberto. Essa fase fálica, simultânea à do
complexo de Édipo, não continua a se desenvolver até a organização genital definitiva, mas submerge e é
substituída pelo período de latência. Mas o seu desfecho ocorre de maneira típica, e se apoiando em
acontecimentos que voltam regularmente. Quando a criança (o garoto) dirige seu interesse para o genital, revela
isso pela frequente manipulação do mesmo, e então descobre que os adultos não aprovam seu comportamento.
De modo mais ou menos claro, com maior ou menor rudeza, surge a ameaça de que lhe roubarão
essa parte do corpo que ele tanto estima. Geralmente a ameaça de castração vem de mulheres; com frequência
elas buscam reforçar sua autoridade invocando o pai ou o médico, que, segundo afirmam, executará o castigo. Em
certo número de casos as próprias mulheres fazem uma atenuação simbólica da ameaça, ao dizer que o genital,
propriamente passivo, não será eliminado, mas sim a mão, que pecou ativamente. Com muita frequência o
menino não é ameaçado de castração por brincar manualmente com o pênis, mas por molhar a cama todas as
noites e não poder ser conservado limpo. As pessoas que dele cuidam agem como se a incontinência noturna
fosse consequência e prova de uma excessiva ocupação com o pênis, e provavelmente estão certas. Em todo caso,
a persistência em molhar a cama deve ser equiparada à polução do adulto, exprimindo a mesma excitação genital
que impeliu o garoto a se masturbar nessa época.
O que podemos afirmar agora é que a organização genital fálica da criança sucumbe devido a
essa ameaça de castração. Não de imediato, certamente, e não sem que outras influências contribuam para isso.
Pois inicialmente o garoto não acredita nem obedece à ameaça. A psicanálise atribuiu valor a duas experiências
que nenhuma criança deixa de ter e que deveriam prepará-la para a perda de valiosas partes de seu corpo:
1. A retirada do peito materno, de início temporária, depois definitiva, e a segregação do conteúdo do
intestino, diariamente exigida. Mas não há evidência de que por ocasião da ameaça de castração essas
experiências teriam efeito;
2. Apenas depois de uma outra experiência o menino começa a contar com a possibilidade da castração, e
mesmo então hesitantemente, a contragosto e não sem buscar diminuir o alcance daquilo que observou.
A observação que finalmente desfaz a incredulidade do garoto é a do genital feminino;
3. Em algum momento, o menino orgulhoso de possuir um pênis vê a região genital de uma menina e tem de
se convencer da falta do pênis, num ser tão semelhante a ele. Com isso também a perda do próprio pênis
se torna concebível, a ameaça de castração tem efeito a posteriori (posterior).
Não podemos ser míopes como a pessoa que cuida da criança e a ameaça de castração, não
devemos ignorar que a vida sexual do garoto não se esgota na masturbação nessa época. Pode-se demonstrar que
ele se acha na atitude edípica ante seus pais, a masturbação é apenas a descarga genital da excitação sexual
própria do complexo, e em todas as épocas posteriores deverá sua importância a tal relação. O complexo de Édipo
ofereceu ao menino duas possibilidades de satisfação, uma ativa e uma passiva. Ele pôde, masculinamente,
colocar-se no lugar do pai e tal como este relacionar-se com a mãe, caso em que o pai logo foi visto como
empecilho, ou quis substituir a mãe e se fazer amar pelo pai, caso em que a mãe se tornou supérflua. O menino
pode ter tido somente ideias vagas do que constitui a relação sexual satisfatória; mas sem dúvida o pênis tinha
participação nela, pois as sensações do seu próprio órgão atestavam isso. Ainda não havia por que duvidar da
existência de pênis na mulher. Admitir a possibilidade da castração, perceber que a mulher é castrada punha fim
às duas possibilidades de obter satisfação do complexo de Édipo. Pois ambas acarretavam a perda do pênis:
1. Uma, a masculina, como castigo;
2. A outra, feminina, como pressuposto.
Se a satisfação amorosa no terreno do complexo de Édipo deve custar o pênis, tem de haver um
conflito entre o interesse narcísico nessa parte do corpo e o investimento libidinal dos objetos parentais. Nesse
conflito vence normalmente a primeira dessas forças; o Eu da criança se afasta do complexo de Édipo. Os
investimentos objetais são abandonados e substituídos pela identificação. A autoridade do pai ou dos pais,
introjetada no Eu, forma ali o âmago do Super-eu (Superego, fase de desenvolvimento moral) que toma ao pai a
severidade, perpetua a sua proibição do incesto (relação sexual com a mãe) e assim garante o Eu contra o retorno
do investimento libidinal de objeto. As tendências libidinais próprias do complexo de Édipo são dessexualizadas e
sublimadas em parte, o que provavelmente ocorre em toda transformação em identificação, e em parte inibidas
na meta e mudadas em impulsos ternos. Todo o processo, por um lado, salvou o genital, afastou dele o perigo da
perda, e, por outro lado, paralisou-o, suspendeu sua função. Comele tem início o período de latência, que
interrompe o desenvolvimento sexual da criança. Não há porque recusar o nome de “repressão” ao afastamento
do Eu do complexo de Édipo, embora as repressões posteriores se originem mais frequentemente com a
participação do Super-eu (superego), que aqui ainda está sendo formado. Mas o processo descrito é mais que uma
repressão, ele equivale, quando realizado de maneira ideal, a uma destruição e abolição do complexo. Cabe supor
que deparamos, aqui, com a linha divisória entre o normal e o patológico (anormal), que jamais é inteiramente
nítida. Se o Eu realmente não alcançou muito mais que uma repressão do complexo, este persiste de modo
inconsciente no Id, e manifestará depois a sua ação patogênica. A observação analítica permite reconhecer ou
adivinhar esses nexos entre organização fálica (sexual), complexo de Édipo, ameaça de castração, formação do
Superego e período de latência. Eles justificam a afirmação de que o complexo de Édipo sucumbe à ameaça de
castração. Mas com isso não liquidamos o problema; continua a haver espaço para uma especulação teórica capaz
de subverter ou de pôr em nova luz o resultado alcançado. Mas antes de encetar esse caminho temos de abordar
uma questão que surgiu durante esta nossa discussão e que até o momento foi posta de lado. O processo descrito
se refere, como foi explicitado, à criança do sexo masculino. Como o desenvolvimento correspondente se realiza
na garota pequena?
Neste ponto o nosso material se torna — incompreensivelmente — muito mais obscuro e
insuficiente. Também o sexo feminino desenvolve um complexo de Édipo, um Super-eu e um período de latência.
Pode-se atribuir a ele igualmente uma organização fálica e um complexo de castração? A resposta é afirmativa,
mas as coisas não se passam como no garoto. Aqui a exigência feminista de igualdade de direito entre os sexos
não vai longe, a diferença morfológica tem de manifestar-se em diferenças no desenvolvimento psíquico.
Anatomia é destino, podemos dizer, parodiando uma frase de Napoleão:
1. O clitóris da menina se comporta primeiramente como um pênis, mas, na comparação com um camarada
de brinquedo do sexo masculino, ela nota que “saiu perdendo”, e sente esse fato como desvantagem e
razão para inferioridade. Durante algum tempo ela se consola com a expectativa de mais tarde, quando
crescer, vir a ter um apêndice grande como o de um menino. Aqui se separa o complexo de masculinidade
da mulher;
2. A menina não entende sua falta de pênis como uma característica sexual, explica-a pela hipótese de que já
possuiu um membro (de forma inconsciente) do mesmo tamanho e depois o perdeu com a castração. Não
parece estender essa conclusão a outras, a mulheres adultas, mas atribuir-lhes um genital grande e
completo, masculino, exatamente no sentido da fase fálica;
3. Disso resulta a diferença essencial de que a menina aceita a castração como fato consumado, enquanto o
menino teme a possibilidade da consumação. Excluído o medo da castração, também deixa de haver um
forte motivo para a construção do Super-eu e a demolição da organização genital infantil.
Bem mais que no menino, essas mudanças parecem consequência da educação, da intimidação
externa, que ameaça com a ausência de amor. O complexo de Édipo da menina é muito mais inequívoco do que o
do pequeno portador de pênis; raramente vai além da substituição da mãe e da postura feminina diante do pai. A
renúncia ao pênis não é tolerada sem uma tentativa de compensação. A garota passa — ao longo de uma equação
simbólica, poderíamos dizer — do pênis ao bebê, seu complexo de Édipo culmina no desejo, longamente mantido,
de receber do pai um filho como presente, de lhe gerar um filho. Temos a impressão de que o complexo de Édipo
vai sendo aos poucos abandonado porque tal desejo não se realiza. Os dois desejos, de ter um pênis e um filho,
permanecem fortemente investidos no inconsciente, e ajudam a preparar o ser feminino para o seu futuro papel
sexual. A intensidade menor da contribuição sádica ao instinto sexual, que bem podemos relacionar ao
definhamento do pênis, facilita a transformação das tendências diretamente sexuais em afetuosas, inibidas na
meta. Mas no conjunto é preciso admitir que nossa compreensão desses processos de desenvolvimento da
menina é insatisfatória, plena de lacunas e pontos obscuros. Não devemos duvidar que sejam típicas as relações
temporais e causais entre complexo de Édipo, intimidação sexual (ameaça de castração), formação do Superego e
começo do período de latência, que aqui foram descritas. Mas precisamos desejar afirmar que esse tipo seja o
único possível. Variações na sequência temporal e no encadeamento dos processos terão de ser muito
significativas para o desenvolvimento do indivíduo.
4.4 CONSEQUÊNCIAS DA DIFERENÇA ANATÔMICA ENTRE OS SEXOS:
Defende-se cada vez mais firmemente a necessidade de que a análise dos neuróticos penetre o
mais distante período da infância, a época do primeiro florescimento da vida sexual. Apenas ao pesquisar as
primeiras manifestações da constituição instintual inata e os efeitos das mais distantes experiências de vida pode-
se conhecer corretamente as forças instintuais da neurose posterior e estar precavido contra os erros a que nos
induziriam as transformações e sobreposições da idade adulta. Esta necessidade não é apenas teoricamente
significativa, mas também de importância prática, pois distingue os nossos esforços do trabalho daqueles médicos
que, tendo orientação apenas terapêutica, utilizam métodos analíticos até certo ponto. Tal análise da primeira
infância é demorada, laboriosa, e faz, tanto ao médico como ao paciente, exigências que a prática nem sempre
satisfaz. Além disso, conduz a áreas obscuras, em que nos faltam sinais indicadores.
Ao examinar as primeiras configurações psíquicas da vida sexual na criança, nosso objeto foi
normalmente a criança do sexo masculino, o garoto pequeno. Achamos que na garota pequena as coisas deviam
se passar de modo semelhante, mas com alguma diferença. Em que ponto do desenvolvimento estaria essa
diferença é algo que não se deixava esclarecer.
1. A situação do complexo de Édipo é a primeira etapa que reconhecemos com segurança no menino;
2. Ela é facilmente compreensível para nós, pois a criança se atém ao mesmo objeto que, no precedente
período de amamentação, já tinha investido com sua libido ainda não genital;
3. Também o fato de perceber o pai como um rival importuno, do qual gostaria de se livrar e assumir o lugar,
é claramente deduzido das circunstâncias objetivas.
A postura edipiana do menino pertence à fase fálica e sucumbe ao medo de castração, isto é, ao
interesse narcísico pelo genital. O entendimento é dificultado pela complicação de que mesmo no garoto o
complexo de Édipo tem duplo sentido, ativo e passivo, correspondendo à disposição bissexual. O garoto quer
também assumir o lugar da mãe como objeto amoroso do pai, o que designamos como postura feminina. Quanto
à pré-história do complexo de Édipo no menino, estamos longe de alcançar plena clareza. Sabemos que ali há uma
identificação de natureza terna com o pai, a qual ainda está livre do senso de rivalidade em torno da mãe. Um
outro elemento desse período, elemento que me parece nunca faltar, é a atividade masturbatória com o genital, o
onanismo da primeira infância, cuja supressão mais ou menos violenta, por parte dos que cuidam da criança, ativa
o complexo de castração. Supomos que esse onanismo está ligado ao complexo de Édipo e constitui a descarga de
sua excitação sexual. Não sabemos se ele tem esta ligação desde o princípio ou se aparece espontaneamentecomo atividade com um órgão, só depois vinculando-se ao complexo de Édipo; esta última possibilidade é a mais
provável. Também discutível é o papel do hábito de urinar na cama e do combate a ele mediante a educação.
Nós nos inclinamos à síntese singela de que urinar continuamente na cama é consequência da
masturbação (processo de prazer fisiológico quando se está dormindo), a sua supressão é vista pelo garoto como
uma inibição da atividade genital, ou seja, significando uma ameaça de castração, mas permanece em aberto se
temos razão em cada um desses pontos. Por fim, a análise nos permite reconhecer vagamente que presenciar o
coito dos pais, numa época muito tenra da infância, pode trazer a primeira excitação sexual e tornar-se, devido a
seus efeitos posteriores, o ponto de partida para todo o desenvolvimento sexual. A masturbação, assim como as
duas posturas do complexo de Édipo, liga-se mais tarde a esta impressão, subsequentemente interpretada. Mas
não podemos supor que tais observações do coito sucedam regularmente, e deparamos com o problema das
“fantasias primordiais”. Portanto, na pré-história do complexo de Édipo do garoto há tudo isso também a ser
esclarecido, a aguardar exame para decidirmos se há que supor sempre o mesmo desenrolar ou se estágios
preliminares bem diferentes convergem para a mesma situação final.
O complexo de Édipo da garota pequena traz em si um problema a mais que o do garoto.
Inicialmente a mãe foi para ambos o primeiro objeto, não nos surpreendemos se o garoto o mantém no complexo
de Édipo. Mas como chega a menina a abandoná-lo e tomar o pai como objeto? Perseguindo essa questão,
podemos fazer certas constatações que podem lançar alguma luz precisamente sobre a pré-história da relação
edípica na menina.
Todo psicanalista já encontrou mulheres que se atêm com particular intensidade e persistência à
ligação com o pai e ao desejo de ter um filho dele, coroamento de tal ligação. Temos bom motivo para supor que
essa fantasia envolvendo um desejo era também a força motriz de sua masturbação (prazer ou motivação)
infantil, e facilmente nos vem a impressão de estar ante um fato elementar, não mais suscetível de decomposição,
da vida sexual infantil. Uma análise mais aprofundada desses casos, no entanto, mostra algo distinto, ou seja, que
o complexo de Édipo tem aí uma longa pré-história e é, em certa medida, uma formação secundária.
A criança descobre a zona genital como fonte de prazer — o pênis ou o clitóris — ao mamar
prazerosamente (sugar). Podemos deixar em aberto a questão de saber se de fato a criança toma essa nova fonte
de prazer em substituição à teta perdida da mãe, como talvez indiquem fantasias futuras (felação). Em suma, a
zona genital é descoberta de alguma maneira, e não parece justificado atribuir um conteúdo psíquico às primeiras
atividades que a ela se relacionam. O passo seguinte na fase fálica que assim começa, porém, não é o nexo dessa
masturbação com os investimentos objetais do complexo de Édipo, mas uma descoberta rica de consequências,
que cabe à menina fazer.
1. Ela nota o pênis de um irmão ou companheiro de jogos, flagrantemente visível e de tamanho notável,
reconhece-o de imediato como a superior contrapartida de seu próprio órgão pequeno e oculto, e passa a
ter inveja (processo inconsciente) do pênis;
2. Eis um interessante contraste no comportamento dos dois sexos: na situação análoga, quando o garoto
avista pela primeira vez a região genital da menina, ele se mostra inicialmente indeciso, pouco
interessado; ele nada vê, ou recusa sua percepção, enfraquece-a, busca expedientes para harmonizá-la
com sua expectativa;
3. Somente depois, quando uma ameaça de castração teve influência sobre ele, tal observação lhe será
significativa; sua recordação ou renovação suscita nele uma terrível tempestade de afetos e o força a crer
na realidade da ameaça até então desdenhada. Essa conjunção leva a duas reações, que podem se tornar
fixas e então, separadamente ou juntas, ou em conjunção com outros fatores, determinarão
permanentemente sua relação com as mulheres: aversão à criatura mutilada ou triunfante menosprezo
dela. Mas esses desenvolvimentos pertencem ao futuro, se bem que a um futuro pouco distante.
Com a menina é diferente. Num instante ela faz seu julgamento e toma sua decisão. Ela viu, sabe
que não tem e quer ter. Neste ponto se separa o chamado complexo de masculinidade da mulher, que
eventualmente reservará grandes dificuldades ao desenvolvimento prescrito rumo à feminilidade, caso não seja
logo superado. A esperança de ainda ter um pênis, tornando-se igual ao homem, pode se manter por um período
improvavelmente longo e se tornar motivo de atos peculiares, de outra forma incompreensíveis. Ou surge o
processo designado como “recusa”, que na vida psíquica da criança parece não ser raro nem muito perigoso, mas
que no adulto daria início a uma psicose (doença mental, anormalidade). A menina se recusa a admitir o fato de
sua castração, aferra-se à convicção de que possui um pênis, e se vê compelida, subsequentemente, a agir como
se fosse um homem.
As consequências psíquicas da inveja do pênis, na medida em que não é assimilada na formação
reativa do complexo de masculinidade, são diversas e de largo alcance. Com o reconhecimento da ferida narcísica,
produz-se na mulher — como uma cicatriz, por assim dizer — um sentimento de inferioridade. Depois de haver
superado a primeira tentativa de explicar sua falta de pênis como castigo pessoal e haver apreendido a
universalidade dessa característica sexual, ela começa a partilhar o menosprezo do homem por um sexo reduzido
num ponto decisivo, e ao menos nesse juízo permanece equiparada ao homem. Mesmo tendo renunciado a seu
verdadeiro objeto, a inveja do pênis não deixa de existir, persiste no traço de caráter do ciúme com ligeiro
deslocamento. Claro que o ciúme não é próprio de um sexo apenas, e se fundamenta numa base mais ampla, mas
isso desempenha um papel muito maior na vida psíquica da mulher, porque obtém um enorme reforço da fonte
que é a inveja do pênis desviada.
Para a fantasia masturbatória “Uma criança é espancada”, tão frequente em meninas, uma
primeira fase, em que o seu significado é que uma outra criança, uma rival da qual se tem ciúme, seria espancada.
Essa fantasia parece ser uma relíquia do período fálico da garota; a singular rigidez que chama a atenção na
monótona fórmula “Uma criança é espancada” permite provavelmente uma interpretação especial.
A criança que aí é espancada — acariciada — pode não ser outra coisa, no fundo, do que o clitóris mesmo,
de modo que a declaração contém, no nível mais profundo, a confissão da masturbação, que desde o
início, na fase fálica, até uma época tardia, está ligada ao conteúdo da fórmula. Uma consequência da
inveja do pênis parece ser o afrouxamento da relação terna com o objeto materno. O conjunto não é
muito claro, mas estamos convencidos de que quase sempre, afinal, a menina vê a mãe como responsável
pela falta de pênis, por tê-la posto no mundo tão insuficientemente aparelhada.
A história é, frequentemente, que após descobrir a desvantagem no genital a menina tem ciúme
de outra criança, supostamente mais amada pela mãe, o que lhe fornece motivação para desprender-se do
vínculo materno. Está de acordo com isso que esta criança privilegiada pela mãe venha a ser o primeiro objeto da
fantasia de espancamento que termina em masturbação. Um outro efeito surpreendente da inveja do pênis — ou
da descoberta da inferioridade do clitóris — é sem dúvida o mais importante. Frequentemente podemos ter a
impressãode que em geral a mulher tolera menos que o homem a masturbação, opõe-se a ela com mais
frequência e não é capaz de servir-se dela em circunstâncias em que o homem recorreria a tal expediente sem
hesitação. É compreensível que a experiência ofereça inúmeras exceções a esta afirmação, se tentarmos
estabelecê-la como regra.
As reações dos indivíduos de ambos os sexos são mesclas de traços masculinos e femininos. Mas
continua a parecer que a natureza da mulher se acha mais distante da masturbação, e para resolver o problema
colocado podemos aduzir a reflexão de que pelo menos a masturbação do clitóris seria uma prática masculina, e
que uma condição para o desenvolvimento da feminilidade seria a eliminação da sexualidade clitoridiana. As
análises do período fálico remoto nos ensina que na garota, após os primeiros indícios de inveja do pênis, surge
uma intensa corrente contrária à masturbação, que não pode ser ligada apenas à influência da pessoa que a cria.
Esse impulso é claramente um prenúncio da onda repressiva que vai remover boa parte da sexualidade masculina
na época da puberdade, para abrir espaço ao desenvolvimento da feminilidade. Pode suceder que esta primeira
oposição à atividade autoerótica não atinja sua meta.
O conflito prosseguiu então, e a garota fez tudo, na época e depois, a fim de livrar-se da
compulsão de masturbar-se. Muitas manifestações ulteriores da vida psíquica da mulher permanecem
incompreensíveis, caso não se reconheça este poderoso motivo. Não podemos explicar essa revolta da menina
contra a masturbação fálica senão pela hipótese de que essa atividade prazerosa é estragada por um fator
paralelo. Esse fator não precisa ser buscado longe; teria de ser a humilhação narcísica relacionada à inveja do
pênis, a lembrança de que neste ponto não é possível ficar à altura dos garotos, sendo melhor deixar de lado a
concorrência com eles.
Dessa maneira, o reconhecimento da diferença sexual anatômica impele a menina a afastar-se da
masculinidade e da masturbação masculina, em direção a novas trilhas que levam ao desenvolvimento da
feminilidade. Até o momento não se falou do complexo de Édipo, que não desempenhou nenhum papel até aqui.
1. Mas agora a libido da garota passa — ao longo da equação simbólica pênis = criança, é tudo o que
podemos dizer — para uma nova posição;
2. Ela abandona o desejo de possuir um pênis, para substituí-lo pelo desejo de ter uma criança, e com esta
intenção toma o pai por objeto amoroso;
3. A mãe se torna objeto de ciúme (complexo de Édipo) e a menina se tornou uma pequena mulher.
Se nos é permitido crer numa observação psicanalítica isolada, nessa nova situação pode haver
sensações físicas que devem ser consideradas um despertar prematuro do aparelho genital feminino. Se depois
essa ligação ao pai fracassar e tiver de ser abandonada, pode ceder lugar a uma identificação com o pai, pela qual
a menina retorna ao complexo de masculinidade e eventualmente se fixa nele.
Já vimos agora o essencial do que tinha que ver, temos uma visão geral do resultado. Obtivemos
algum conhecimento da pré-história do complexo de Édipo na menina. O período correspondente no garoto é um
tanto desconhecido. Na menina o complexo de Édipo é uma formação secundária. Os efeitos do complexo de
castração o precedem e o preparam. No que toca à relação entre complexo de Édipo e complexo de castração,
surge um contraste fundamental entre os dois sexos. Enquanto o complexo de Édipo do menino sucumbe ao
complexo de castração, o da menina é possibilitado e introduzido pelo complexo de castração.
Essa contradição é esclarecida se ponderarmos que o complexo de castração sempre age no
sentido de seu conteúdo, inibindo e limitando a masculinidade e promovendo a feminilidade. A diferença, neste
trecho do desenvolvimento sexual do homem e da mulher, é uma consequência compreensível da diversidade
anatômica dos genitais e da situação psíquica a ela relacionada; corresponde à diferença entre a castração
realizada e aquela apenas ameaçada.
Portanto, no fundo o nosso resultado é evidente e poderia ser previsto. No entanto, o complexo
de Édipo é algo tão significativo que não pode deixar de ter consequências a forma como nele se entrou e dele se
saiu. No menino — como vimos na publicação mencionada, à qual se ligam as observações feitas aqui — o
complexo de Édipo não é simplesmente reprimido, ele realmente se despedaça com o choque da ameaça de
castração. Seus investimentos libidinais são abandonados, dessexualizados e parcialmente sublimados, seus
objetos são incorporados ao Eu, onde formam o âmago do Superego (Super-eu) e emprestam a essa nova
formação traços característicos. No caso normal — melhor dizendo: ideal — não subsiste mais um complexo de
Édipo no inconsciente, o Superego é o seu herdeiro. Como o pênis deve seu investimento narcísico
excepcionalmente elevado à sua importância para a propagação da espécie, a catástrofe do complexo de Édipo —
o abandono do incesto, a instauração de consciência e moralidade — pode ser vista como um triunfo da geração
sobre o indivíduo. Uma perspectiva interessante, quando se considera que a neurose se baseia numa revolta do
Eu contra as exigências da função sexual. Mas deixar o ponto de vista da psicologia individual não ajuda, no
momento, a esclarecer essas emaranhadas relações.
Na garota falta o motivo para a destruição do complexo de Édipo. A castração já produziu antes o
seu efeito, que consistiu em impelir a criança para a situação do complexo de Édipo. Por isso este escapa ao
destino que o aguarda no menino, pode ser lentamente abandonado, liquidado mediante repressão ou seus
efeitos podem prosseguir até bem longe na vida psíquica normal da mulher. Hesitamos em expressar isto, mas
não podemos nos esquivar da noção de que o nível do que é eticamente normal vem a ser outro para a mulher. O
Super-eu jamais se torna tão inexorável, tão impessoal, tão independente de suas origens afetivas como se requer
que seja no homem. Traços de caráter que sempre foram criticados na mulher — que ela mostra menos senso de
justiça que o homem, menor inclinação a submeter-se às grandes exigências da vida, que é mais frequentemente
guiada por sentimentos afetuosos e hostis ao tomar decisões — encontrariam fundamento suficiente na distinta
formação do Super-eu que acabamos de inferir.
Em tais juízos não nos deixaremos influenciar pela contestação dos partidários do feminismo, que
desejam nos impor uma total equiparação e equivalência dos sexos, mas admitiremos de bom grado que também
a maioria dos homens fica muito atrás do ideal masculino e que todos os indivíduos, graças à disposição bissexual
e à herança genética cruzada, reúnem em si caracteres masculinos e femininos, de modo que a masculinidade e a
feminilidade puras permanecem construções teóricas de conteúdo incerto.
Inclinamo-nos a dar valor às considerações aqui apresentadas sobre as consequências psíquicas
da diferença anatômica entre os sexos, mas sabemos que esta apreciação poderá ser mantida apenas se as
descobertas feitas num punhado de casos tiverem confirmação geral e mostrarem ser típicas. De outro modo,
apenas contribuiriam para um conhecimento dos múltiplos caminhos que há no desenvolvimento da vida sexual.
4.5 PERÍODO DE LATÊNCIA SEXUAL DA CRIANÇA E SUAS RUPTURAS:
As constatações extraordinariamente amiudadas de moções sexuais pretensamente excepcionais
e anormativas na infância, bem como a revelação das lembranças infantis do neurótico, até então inconscientes,
talvez permitamtraçar o seguinte quadro das condutas sexuais da infância: Parece certo que o recém-nascido traz
consigo germes de moções sexuais que continuam a se desenvolver por algum tempo, mas depois sofrem uma
supressão progressiva, a qual, por sua vez, pode ser rompida por avanços regulares do desenvolvimento sexual ou
suspensa pelas peculiaridades individuais. Nada se sabe ao certo sobre a regularidade e a periodicidade desse
curso oscilante de desenvolvimento. Parece, no entanto, que a vida sexual da criança costuma expressar-se numa
forma acessível à observação por volta dos 3 ou 4 anos de idade.
a) As inibições sexuais:
Durante esse período de latência total ou apenas parcial erigem-se as forças anímicas que, mais tarde,
surgirão como entraves no caminho da pulsão sexual e estreitarão seu curso à maneira de diques (asco,
sentimento de vergonha, as exigências dos ideais estéticos e morais). Nas crianças civilizadas, tem-se a
impressão de que a construção desses diques é obra da educação, e certamente a educação tem muito a
ver com isso. Na realidade, porém, esse desenvolvimento é organicamente condicionado e fixado pela
hereditariedade, podendo produzir-se, no momento oportuno, sem nenhuma ajuda da educação. Esta fica
inteiramente dentro do âmbito que lhe compete ao limitar-se a seguir o que foi organicamente prefixado
e imprimi-lo de maneira um pouco mais polida e profunda;
b) FORMAÇÃO REATIVA (mecanismo que substitui comportamentos e sentimentos que são diametralmente
opostos ao desejo real. Trata-se de uma inversão clara e, em geral, inconsciente do verdadeiro desejo) e
SUBLIMAÇÃO (energia associada a impulsos e instintos socialmente e pessoalmente constrangedores é, na
impossibilidade de realização destes, canalizada para atividades socialmente meritórias e reconhecidas):
Com que meios se erigem essas construções tão importantes para a cultura e normalidade posteriores da
pessoa? Provavelmente, às expensas das próprias moções sexuais infantis, cujo afluxo não cessa nem
mesmo durante esse período de latência, mas cuja energia – na totalidade ou em sua maior parte – é
desviada do uso sexual e voltada para outros fins. Os historiadores da cultura parecem unânimes em
supor que, mediante esse desvio das forças pulsionais sexuais, das metas sexuais e por sua orientação
para novas metas, num processo que merece o nome de sublimação, adquirem-se poderosos
componentes para todas as realizações culturais. Acrescentaríamos, portanto, que o mesmo processo
entra em jogo no desenvolvi- mento de cada indivíduo, e situaríamos seu início no período de latência
sexual da infância. Também sobre o mecanismo desse processo de sublimação pode-se arriscar uma
conjectura. As moções sexuais desses anos da infância seriam, por um lado, inutilizáveis, já que estão
diferidas as funções reprodutoras – o que constitui o traço principal do período de latência – e, por outro,
seriam perversas em si, ou seja, partiriam de zonas erógenas e se sustentariam em pulsões que, dada a
direção do desenvolvimento do indivíduo, só poderiam provocar sensações desprazerosas. Por
conseguinte, elas despertam forças anímicas contrárias (moções reativas) que, para uma supressão eficaz
desse desprazer, erigem os diques psíquicos já mencionados: asco, vergonha e moral;
c) Rupturas do período de latência:
Sem nos iludirmos quanto à natureza hipotética e quanto à clareza insuficiente de nossos conhecimentos
acerca dos processos do período infantil de latência ou adiamento, voltemos à realidade para indicar que
esse emprego da sexualidade infantil representa um ideal educativo do qual o desenvolvimento de cada
um quase sempre se afasta em algum ponto, amiúde em grau considerável. Vez por outra irrompe um
fragmento de manifestação sexual que se furtou à sublimação, ou preserva-se alguma atividade sexual ao
longo de todo o período de latência, até a irrupção acentuada da pulsão sexual na puberdade. Na medida
em que prestam alguma atenção à sexualidade infantil, os educadores portam-se como se
compartilhassem nossas opiniões sobre a construção das forças defensivas morais à custa da sexualidade,
e como se soubessem que a atividade sexual torna a criança ineducável, pois perseguem como “vícios”
todas as suas manifestações sexuais, mesmo que não possam fazer muita coisa contra elas. Nós, porém,
temos todos os motivos para voltar nosso interesse para esses fenômenos temidos pela educação, pois
deles esperamos o esclarecimento da configuração originária da pulsão sexual.
4.6 NARCISISMO PRIMÁRIO E NARCISISMO SECUNDÁRIO:
Embora Freud já viesse lançando algumas ideias daquilo que ele viria a conceituar como
“narcisismo”. Foi em seu importantíssimo trabalho Sobre o narcisismo, que ele estabeleceu de forma consistente
e categórica os fundamentos metapsicológicos dessa, então revolucionária, concepção de narcisismo. O
interessante disso, vale lembrar, é que esse clássico trabalho foi elaborado por Freud como uma réplica a Jung,
que acabara de assumir uma total dissidência do círculo freudiano e que contestava a teoria da sexualidade com o
argumento de que essa teoria de Freud não poderia explicar as psicoses (doenças mentais, psicopatologias,
loucuras, paranoias etc.), tendo em vista que tais pacientes não demonstravam interagir libidinalmente (com
desejo, energia sexual, o Eros). Para contestar esse desafio do desafeto Jung, Freud teve a genial centelha de
conceber que o sujeito tomava o seu próprio corpo como sendo ao mesmo tempo uma fonte e um objeto da
libido sexual.
Essa última concepção caracteriza o que Freud veio a conceituar como narcisismo primário, que
inicialmente ele postulou como sendo uma etapa evolutiva sucedendo uma anterior que ele denominara como a
do autoerotismo. Posteriormente, no entanto, ambas as denominações e conceitualizações ficaram superpostas e
igualadas entre si. A maioria dos autores considera que o protótipo mais fiel da “narcisismo primário” é o da vida
intrauterina.
Assim, Freud concebia que nesse tipo de narcisismo haveria uma total indiferenciação entre o ego
– submetido e confundido com o id – com a realidade exterior. A primeira estranheza que essa postulação sempre
provocava nos estudiosos refere-se ao fato óbvio de que o bebê não poderia ignorar a mãe, porquanto ele
depende vitalmente da relação real com ela. Freud, antecipando-se a essa questão, formulou a sua famosa
metáfora de que o corpo humano seria como uma ameba que se liga aos objetos pelos seus pseudópodos. Desta
maneira, do ponto de vista da observação objetiva, o bebê está em interação com a mãe, enquanto que do ponto
de vista desse bebê, a mãe não é mais do que um prolongamento dele, e basta emitir um “pseudópodo mental”
que ele conseguirá fagocitar tudo o que necessita, porque “nessas condições tudo é uma posse exclusiva dele
mesmo”.
O narcisismo secundário, por sua vez, como o seu nome indica, alude a uma espécie de refluxo da
energia pulsional, a qual, depois de ter investido e “ocupado” os objetos externos, sofre um desenvestimento
libidinal, quase sempre devido a fortes decepções com os objetos externos provedores, e retornam ao seu lugar
original, o próprio ego. O narcisismo secundário acontece por causa da internalização do complexo de Édipo
(intervenção da educação), fazendo com que o indivíduo comece ter a plena consciência de prazer e desprazer, de
se reconhecer moralmente e ter um determinado ideal ou crença de si mesmo (identidade, autoestima).
A maioria dos autores posteriores a Freud não encontra vantagem alguma em manter-se a divisão
entre narcisismo primário e secundário, pois, na prática analítica, ambos são indissociáveis e confundem-se entre
si. Aquilo que, sim, pode serdito com absoluta convicção é que o “narcisismo” ocupa um espaço crescentemente
importante na psicanálise, abrindo novos vértices de compreensão, notadamente em dois aspectos:
a) Um é que ele deve ser compreendido no contexto de um eixo evolutivo entre os estados psíquicos pré-
edípicos com os edípicos, com as respectivas características específicas de cada um, e com as delimitações
e interações entre narcisismo e sexualidade edípica;
b) O segundo aspecto a ressaltar é que o cada vez maior entendimento do narcisismo alargou as portas para
a análise de pacientes intensamente fixados ou regredidos às primitivas etapas do narcisismo original.
4.7 AS FASES DE DESENVOLVIMENTO DA ORGANIZAÇÃO SEXUAL:
Até agora, destacamos como características da vida sexual infantil o fato de ela ser
essencialmente autoerótica (seu objeto encontra-se no próprio corpo) e de suas pulsões parciais serem
inteiramente desvinculadas e independentes entre si em seus esforços pela obtenção de prazer. O desfecho do
desenvolvimento constitui a chamada vida sexual normal do adulto, na qual a obtenção de prazer fica a serviço da
função reprodutora, e as pulsões parciais, sob o primado de uma única zona erógena, formam uma organização
sólida para a consecução do alvo sexual num objeto sexual alheio.
a) Organizações pré-genitais:
O estudo das inibições e perturbações desse processo de desenvolvimento, com a ajuda da psicanálise,
permite-nos identificar os rudimentos e etapas preliminares de tal organização das pulsões parciais, que
ao mesmo tempo resultam numa espécie de regime sexual. Essas fases da organização sexual são
normalmente atravessadas sem dificuldade, revelando-se apenas por alguns indícios. Somente nos casos
patológicos é que são ativadas e se tornam passíveis de conhecimento pela observação grosseira.
Chamaremos pré-genitais às organizações da vida sexual em que as zonas genitais ainda não assumiram
seu papel preponderante. Até aqui tomamos conhecimento de duas delas, que dão a impressão de
constituir recaídas em estados anteriores da vida animal. A primeira dessas organizações sexuais pré-
genitais é a oral, ou, se preferirmos, canibalesca. Nela, a atividade sexual ainda não se separou da
nutrição, nem tampouco se diferenciaram correntes opostas em seu interior. O objeto de uma atividade é
também o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá
desempenhar, sob a forma da identificação, um papel psíquico tão importante. Como resíduo dessa
hipotética fase de organização que nos foi imposta pela patologia, podemos ver o chuchar, no qual a
atividade sexual, desligada da atividade de alimentação, renunciou ao objeto alheio em troca de um
objeto situado no próprio corpo. Uma segunda fase pré-genital é a da organização sádico-anal. Nela, a
divisão em opostos que perpassa a vida sexual já se constituiu, mas eles ainda não podem ser chamados
de masculino e feminino, e sim ativo e passivo. A atividade é produzida pela pulsão de dominação através
da musculatura do corpo, e como órgão do alvo sexual passivo o que se faz valer é, antes de mais nada, a
mucosa erógena do intestino; mas há para essas duas aspirações opostas objetos que não coincidem. Ao
lado disso, outras pulsões parciais atuam de maneira autoerótica. Nessa fase, portanto, já é possível
demonstrar a polaridade sexual e o objeto alheio, faltando ainda a organização e a subordinação à função
reprodutora;
b) Ambivalência:
Essa forma da organização sexual pode conservar-se por toda a vida e atrair permanentemente para si boa
parcela da atividade sexual. O predomínio do sadismo e o papel de cloaca desempenhado pela zona anal
conferem-lhe um cunho singularmente arcaico. Como característica adicional, é próprio dela que os pares
opostos de pulsões estejam desenvolvidos de maneira aproximadamente igual, num estado de coisas
descrito pela oportuna designação de “ambivalência”, introduzida por Bleuler. A hipótese das
organizações pré-genitais da vida sexual repousa na análise das neuroses e é difícil apreciá-la
independentemente do conhecimento destas. Podemos esperar que a continuidade dos esforços
analíticos venha a fornecer-nos muito mais informações sobre a estrutura e o desenvolvimento da função
sexual normal. Para completar o quadro da vida sexual infantil, é preciso acrescentar que, com frequência
ou regularmente, já na infância se efetua uma escolha objetal como a que mostramos ser característica da
fase de desenvolvimento da puberdade, ou seja, o conjunto das aspirações sexuais orienta-se para uma
única pessoa, na qual elas pretendem alcançar seus objetivos. Na infância, portanto, essa é a maior
aproximação possível da forma definitiva assumida pela vida sexual depois da puberdade. A diferença
dessa última reside apenas em que a concentração das pulsões parciais e sua subordinação ao primado da
genitália não são conseguidas na infância, ou só o são de maneira muito incompleta. Assim, o
estabelecimento desse primado a serviço da reprodução é a última fase por que passa a organização
sexual;
c) Os dois tempos da escolha objetal:
Pode-se considerar como ocorrência típica que a escolha de objeto se efetue em dois tempos, em duas
ondas. A primeira delas começa entre os 2 e os 5 anos e retrocede ou é detida pelo período de latência;
caracteriza-se pela natureza infantil de seus alvos sexuais. A segunda sobrevém com a puberdade e
determina a configuração definitiva da vida sexual. Mas a existência da bitemporalidade da escolha
objetal, que se reduz essencialmente ao efeito do período de latência, é de suma importância para o
desarranjo desse estado final. Os resultados da escolha objetal infantil prolongam-se pelas épocas
posteriores; ou se conservam como tal ou passam por uma renovação na época da puberdade. Contudo,
revelam-se inutilizáveis, em consequência do recalcamento que se desenvolve entre as duas fases. Seus
alvos sexuais foram amenizados e agora representam o que se pode descrever como a corrente de ternura
da vida sexual. Somente a investigação psicanalítica pode demonstrar que, por trás dessa ternura, dessa
veneração e respeito, ocultam-se as antigas aspirações sexuais, agora imprestáveis, das pulsões parciais
infantis. A escolha de objeto da época da puberdade tem de renunciar aos objetos infantis e recomeçar
como uma corrente sensual. A não confluência dessas duas correntes tem como consequência, muitas
vezes, a impossibilidade de se alcançar um dos ideais da vida sexual – a conjugação de todos os desejos
num único objeto.
4.8 AS FONTES DA SEXUALIDADE INFANTIL:
No esforço de rastrear as origens da pulsão sexual, descobrimos até agora que a excitação sexual
nasce:
a) Como a reprodução de uma satisfação vivenciada em relação a outros processos orgânicos;
b) Pela estimulação periférica apropriada das zonas erógenas;
c) Como expressão de algumas “pulsões” que ainda não nos são inteiramente compreensíveis em sua
origem, como a pulsão de ver e a pulsão para a crueldade. A investigação psicanalítica, que retrocede de
uma época posterior para a infância, e a observação contemporânea da criança conjugam-se para nos
apontar outras fontes que fluem regularmente para a excitação sexual. A observação de crianças tem a
desvantagem de trabalhar com dados facilmente passíveis de mal-entendidos, e a psicanálise é dificultada
pelo fato de só poder chegar a seus dados e conclusões depois de longos rodeios; em cooperação,
entretanto, os dois métodos obtêm um grau satisfatório de certeza de conhecimentos.
Pela investigação das zonas erógenas, já descobrimos que essas regiões da pele meramente
mostram uma intensificação especial de um tipo de estimulabilidade que, em certograu, é próprio de toda a
superfície cutânea. Portanto, não nos surpreenderá constatar que é possível atribuir efeitos erógenos muito claros
a certos tipos de estimulação geral da pele. Entre esses, destacamos acima de tudo os estímulos térmicos, o que
talvez facilite nossa compreensão do efeito terapêutico dos banhos quentes.
a) Excitações mecânicas:
Devemos ainda arrolar aqui a produção de excitação sexual pela agitação mecânica e ritmada do corpo, na
qual devemos distinguir três formas de atuação estimulatória: no aparato sensorial dos nervos
vestibulares, na pele e nas áreas profundas (músculos, aparelho articular). A existência das sensações
prazerosas assim geradas – vale enfatizar que é lícito empregarmos indistintamente, numa vasta medida,
“excitação sexual” e “satisfação”, cabendo-nos o dever de buscar mais adiante uma explicação para isso –,
a existência dessas sensações prazerosas, produzidas por certos tipos de agitação mecânica do corpo, é
confirmada pelo fato de as crianças gostarem tanto das brincadeiras de movimento passivo, como serem
balançadas e jogadas para o alto, e de pedirem incessantemente que sejam repetidas. Sabe-se que é
costumeiro usar o recurso de embalar as crianças inquietas para fazê-las adormecer. O balanço das
carruagens e, mais tarde, das viagens de trem ou exerce um efeito tão fascinante nas crianças mais velhas
que pelo menos todos os meninos, em algum momento da vida, quiseram ser condutores de trem ou
cocheiros quando crescessem. Eles dedicam intrigante interesse de extraordinária intensidade a tudo o
que se relaciona com as ferrovias e, na idade em que se ativa a fantasia (pouco antes da puberdade),
fazem disso o núcleo de um simbolismo singularmente sexual. É evidente que a compulsão a estabelecer
tal vínculo entre as viagens ferroviárias e a sexualidade provém do caráter prazeroso das sensações de
movimento. Sobrevindo então o recalcamento, que converte tantas das predileções infantis em seu
oposto, essas mesmas pessoas, quando adolescentes ou adultas, reagirão com náuseas aos balanços e
sacolejos, ficarão terrivelmente esgotadas pelas viagens de trem, ou tenderão a sofrer ataques de
angústia nas viagens, protegendo-se da repetição dessa experiência dolorosa através de pavor às
ferrovias. Alinha-se aqui o fato, ainda não compreendido, de que a conjugação do susto com a agitação
mecânica produz a grave neurose traumática histeriforme. Podemos ao menos supor que essas
influências, que numa intensidade ínfima se transformam em fontes de excitação sexual, provoquem, em
medida excessiva, profunda desordem no mecanismo ou na química sexual;
b) Atividade muscular:
É sabido que a atividade muscular intensa é, para a criança, uma necessidade de cuja satisfação ela extrai
um prazer extraordinário. Se esse prazer tem algo a ver com a sexualidade, se encerra em si mesmo uma
satisfação sexual, ou se pode converter-se no desejo de uma excitação sexual, tudo isso é passível de
considerações críticas que, de fato, podem também apontar contra a colocação contida nos parágrafos
precedentes, a saber, que o prazer extraído das sensações de movimento passivo é de natureza sexual ou
produz excitação sexual. Mas o fato é que uma série de pessoas informa ter vivenciado os primeiros sinais
de excitação em sua genitália no curso de brigas ou lutas com seus companheiros de brincadeiras, situação
na qual, além do esforço muscular generalizado, há ainda estreito contato com a pele do oponente. A
tendência a travar lutas musculares com deter- minada pessoa, bem como, em épocas posteriores, a
inclinação às disputas verbais [“provoca-se o que se ama”] são bom sinal de que a escolha de objeto
recaiu sobre essa pessoa. Na promoção da excitação sexual através da atividade muscular caberia
reconhecer uma das raízes da pulsão sádica. Em muitos indivíduos, a vinculação infantil entre as lutas
corporais e a excitação sexual é codeterminante da orientação privilegiada que assumirá, mais tarde, sua
pulsão sexual;
c) Processos afetivos:
Menores são as dúvidas a que ficam sujeitas as outras fontes de excitação sexual na criança. É fácil
demonstrar, tanto pela observação contemporânea quanto pela investigação posterior, que todos os
processos afetivos mais intensos, até mesmo as excitações assustadoras, propagam-se para a sexualidade,
o que, aliás, pode contribuir para a compreensão do efeito patogênico de tais abalos anímicos. Nos
escolares, o pavor de fazer uma prova ou a tensão diante de uma tarefa difícil de solucionar podem ser
importantes não só para seu relacionamento com a escola, mas também para a irrupção de manifestações
sexuais, na medida em que, nessas circunstâncias, é muito frequente surgir uma sensação estimuladora
que incita ao contato com a genitália, ou ainda um processo da natureza de uma polução, como todas as
suas consequências desconcertantes. O comportamento das crianças na escola, que propõe aos
professores um número bastante grande de enigmas, merece, em geral, ser relacionado com o
desabrochar de sua sexualidade. O efeito sexualmente excitante de muitos afetos que em si são
desprazerosos, tais como a angústia, o medo ou o horror, conserva-se num grande número de seres
humanos por toda a vida e, sem dúvida, explica por que tantas pessoas correm atrás da oportunidade de
vivenciar tais sensações, desde que haja apenas certas circunstâncias secundárias (a pertença a um mundo
imaginário, à leitura ou ao teatro) para atenuar a gravidade da sensação desprazerosa. Presumindo-se que
também as sensações de dor intensa provoquem o mesmo efeito erógeno, sobretudo quando a dor é
abrandada ou mantida à distância por alguma condição concomitante, estaria nessa vinculação uma das
principais raízes da pulsão sadomasoquista, de cujas múltiplas complexidades vamos assim ganhando aos
poucos algum discernimento;
d) Trabalho intelectual:
Por fim, é inequívoco que a concentração da atenção numa tarefa intelectual, bem como o esforço
intelectual em geral, têm por consequência produzir em muitas pessoas, tanto jovens quanto adultas, uma
excitação sexual concomitante, o que por certo constitui a única base justificável para a tão duvidosa
prática de derivar as perturbações nervosas do “excesso de trabalho” intelectual.
Correndo agora os olhos por essas provas e esses indícios fornecidos sobre as fontes da excitação
sexual infantil, e que não foram completos nem exaustivos, podemos vislumbrar ou reconhecer os seguintes
traços universais: parece que as mais abundantes providências são tomadas para que o processo da excitação
sexual – cuja natureza de certo se tornou bastante enigmática para nós – seja posto em andamento. Cuidam disso,
antes de mais nada, e de maneira mais ou menos direta, as excitações das superfícies sensíveis – a pele e os
órgãos sensoriais – e, da maneira mais imediata, a influência dos estímulos sobre certas áreas designadas como
zonas erógenas. O elemento decisivo nessas fontes de excitação sexual é, sem dúvida, a qualidade do estímulo,
embora o fator da intensidade (no caso da dor) não seja de todo indiferente. Além disso, porém, existem no
organismo dispositivos cuja consequência é fazer com que a excitação sexual surja como um efeito concomitante
num grande número de processos internos, tão logo a intensidade desses processos ultrapasse certos limites
quantitativos. O que chamamos de pulsões parciais da sexualidade deriva diretamente dessas fontes internas da
excitação sexual, ou então se compõe de contribuições vindas dessas fontes e das zonas erógenas. É possível que
nada de maior importância ocorra no organismo sem fornecer seus componentes para a excitação da pulsão
sexual. Não me parece possível, no momento, trazer maior clareza e segurança a essas proposições gerais, e
responsabilizaremos dois fatores por isso: primeiro,a novidade de todo o método de abordagem, e segundo, a
circunstância de a natureza da excitação sexual ser-nos inteiramente desconhecida.
4.9 PERVERSÃO E SEXUALIDADE INFANTIL:
O tema Perversão teve diversas interpretações ao longo da sua construção, deixando margem
para conceituações claras, objetivas e até mesmo denotações pejorativas. A psicanálise, em especial, construiu
todo um aporte teórico sobre a Perversão, levando em conta a visão predominante da medicina da época, a
estruturação da perversão durante a infância, a diferenciação para com as neuroses e psicoses, além do seu
mecanismo de recusa.
De forma geral, esse artigo veio caracterizar a perversão em suas diferentes épocas,
concomitante às orientações psicanalíticas, e de forma específica, verificar a evolução do conceito da Perversão
buscando fazer analogias entre suas diversas interpretações.
Ao se analisar a trajetória da perversão enquanto definição detém-se inicialmente à Medicina,
que trazia uma visão patológica que a caracterizava como um “desvio”. Freud (1905), em “Três ensaios sobre a
teoria da sexualidade", remete à criança enquanto ser sexual e à sua característica perverso-polimorfa, que pode
permanecer no adulto, trazendo também as neuroses como o “negativo” da perversão. A partir de 1919, Freud
começou a relacionar perversão e o complexo de Édipo, o que trouxe contribuições para os estudos lacanianos da
perversão enquanto estrutura psíquica. E em 1927, Freud inaugura “O Fetichismo”, que culmina na recusa da
castração e nas divisões do ego (Eu, nossa identidade, relação consigo mesmo e com o mundo social).
A perversão esboçada em seu percurso teórico é um construto complexo, que passa por várias
etapas para a construção de um conceito estruturado, passando por “pré-conceitos”; por juízos de valor, éticos e
morais; pela construção dessa estrutura na infância, dentre outros. Através disso, chega-se a esse conjunto de
comportamentos psicossexuais que buscam seu prazer de forma contínua, considerando a realidade e ao mesmo
tempo a negando, substituindo-a pelo seu próprio desejo.
PERVERSÃO – UM ESBOLÇO CONCEITUAL:
É frequente no discurso de pessoas leigas uma associação entre perversão e perversidade. Não
obstante, a origem do termo deixa margens para essa associação, pois deriva do verbo latino pervertere, que
remete à noção de "pôr de lado", ou "pôr-se à parte", que para Aurélio (2001) é "ato ou efeito de perverter (-se);
corrupção, depravação, desvio da normalidade de instinto ou de julgamento, e devido a distúrbio psíquico". Esse
conceito traz a perversão num sentido moral e ético, o que nem sempre faz jus à seriedade e à profundidade com
que o assunto merece ser compreendido e analisado. Dessa forma, a escolha da palavra perversão para nomear
um desvio sexual denota um sentido pejorativo, impregnado de “pré-conceitos”.
É válido lembrar que, antes da psicanálise, a sexualidade referia-se somente ao conjunto dos atos
ligados à relação sexual, e em especial à reprodução. Freud, de maneira geral, trouxe uma nova concepção a esse
termo, ao dizer que todos os movimentos vitais tanto tendem à conservação do indivíduo, como comportam um
quantum de satisfação erótica ou de negação dessa forma de prazer. Há libido investida em todos os atos
psíquicos, de uma forma ou de outra.
Dependendo da forma que essa libido é investida, pode haver prejuízos ao indivíduo, quando
este passa a não mais ter o devido cuidado com a sua integridade física e mental, por exemplo. Ele, por sua vez,
pode até causar prejuízos à sociedade se, além de si próprio, prejudicar terceiros, ferindo a ordem vigente. O que
era considerado normal para a sociedade, dentro desse contexto, trouxe também à tona aquilo que é anormal, o
que perverte a ordem vigente.
Vê-se que, desde o século XIX, a medicina, representada na época por grandes psicopatólogos
como Krafft-Ebing e Havelock Ellis, aborda esse termo como classificação de uma enfermidade, ou descrição de
algum tipo de degeneração. Em seus estudos, eles caracterizaram as práticas sexuais que se desviavam dos
padrões éticos e morais para a sociedade através de ligações entre as perversões e as desordens neurofisiológicas.
Subsidiado por essa corrente clássica, Freud resolve estudar esses “desvios sexuais” então
descritos somente na ótica médica. Só que de início ele lança sobre as perversões um julgamento mais moral do
que o olhar de um homem de ciência, correndo então o risco de sujeitar-se às críticas da época, como de fato
ocorreu.
Dessa forma, os estudos sobre a perversão surgem recheados de conflitos e divergências, e esta
aparece como um construto dinâmico, complexo e de difícil convergência entre as diversas orientações teóricas
que compõem a psicanálise.
Em 1905 esse termo foi retomado por Freud, que o trouxe para a psicanálise fazendo uma
relação à sexualidade, sem qualquer aporte teórico em conotação pejorativa ou valorizadora, ou seja, sem emitir
juízos de valor, numa linguagem objetiva e não tendenciosa.
As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o
desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e
cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados — sua “sublimação” —
destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais (FREUD,1905, p.55-
56).
Na sua obra "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" Freud (1905) apresenta pela primeira
vez o conceito de perversão. Trata como a permanência na vida adulta de características perverso-polimorfas,
típicas da sexualidade pré-genital infantil, em detrimento da sexualidade genital por ele considerada normal.
Em sua obra Freud (1905) nos traz que é na infância que ocorre a estimulação das zonas erógenas
espalhadas pelo corpo todo, e todas essas práticas constituem a sexualidade normal de cada indivíduo. Sendo
assim a criança é um sujeito sexual que procura se experimentar e então se descobrir. Para a época,
principalmente, e até mesmo nos dias atuais essas conclusões causam certo impacto. Mas, centrado no que
formulou, Freud pôde então demonstrar que apesar de poucas vezes uma criança vivenciar experiências sexuais
que os adultos chamam de normais, ela tem inúmeras práticas que estavam listadas na classificação de perversão.
Seja na masturbação “normal”, nos jogos sexuais ou em seu relacionamento com animais, a criança é um perverso
polimorfo, no sentido de ser capaz de assumir diferentes formas dentro desse contexto.
NEUROSE, PSICOSE E PERVERSÃO:
Esse polimorfismo das manifestações da sexualidade infantil e o fato de que seus desvios
intrínsecos se encontram em todos os seres humanos, acaba gerando problemas para Freud, ao definir perversão.
Freud formula, então, que para além de certas manifestações incontestavelmente patológicas (coprofagia,
necrofilia), só pode distinguir a perversão da normalidade porque perversão se caracteriza por uma fixação
prevalente, até mesmo total, do desvio quanto ao objeto, e pela exclusividade da prática quanto ao desvio com
relação ao objeto. Esse comportamento também entra nessa categoria quando causa sofrimento clinicamente
significativo ou prejuízo na vida do indivíduo e/ou conflitos com terceiros.
Freud (1905) então observou que há adultos que se mantêm na prática de um ou outro
comportamento sexualde forma exclusiva, muito mais como defesa do que como grande capacidade de sustentar
a liberdade sexual, pois em sua infância as diversas correntes da sexualidade coexistiam sem um eixo organizador
que as aglutinasse e subordinasse em torno de si. Desse modo, a continuidade de uma sexualidade infantil
perverso polimorfa contextualizaria o perverso.
O que diferencia a sexualidade infantil daquela do perverso é o fato de que, na criança, tudo ainda é
apenas potencialidade. Nenhum eixo organizador, tirânico, dominou a cena sexual. No adulto perverso, ao
contrário, a sexualidade está definida e cristalizada: um eixo pré-genital preside a vida sexual, tão
despoticamente quanto a genitalidade o faz na vida sexual "normal".
Por diversos motivos, sejam eles constitucionais ou exteriores, a pulsão sexual pode conduzir a
desvios, como neuroses, psicoses ou perversões. A neurose (existência de tensão excessiva e prolongada, de
conflito persistente ou de uma necessidade longamente frustrada, é sinal de que na pessoa se instalou um estado
neurótico – neurose será explicada na segunda parte desta apostila) se apresenta como “um recalcamento sexual
que ultrapassava a medida do normal”. Freud (1905), no caso Dora, definiu as neuroses como o “negativo” da
perversão, pois nas neuroses os impulsos pervertidos, após terem sido reprimidos, manifestam-se a partir da
parte inconsciente da mente, uma vez que, em ambas as estruturas psíquicas existem determinações e
formulações bem distintas uma da outra, no que se referem a mecanismos de defesa, modos de manifestações,
entre outras. Porém, ambas são iguais em um aspecto: têm sua origem na sexualidade infantil.
Tudo começa a se definir, diante da comparação entre a neurose e a perversão, já que Freud
(1905) assume as divergências entre as duas estruturas como processos distintos de construção psíquica. O que
realmente começa a ser identificado é que, enquanto os neuróticos funcionam psiquicamente adequando o ego às
exigências do ambiente, recalcando conteúdos conflitantes e angustiantes, no psicótico (pessoa com transtornos
ou distúrbios mentais; processo anormal; caracterizado pela perda de contato do indivíduo com a realidade), o
ego (Eu) fica à mercê do id (processos inconscientes, pulsões sexuais etc.), sujeitando-se a ele, rejeitando a
realidade, apropriando-se de uma realidade substituta, onde ocorreriam as alucinações e os delírios. Na
perversão, o desejo aparece como vontade de gozo, e o ato é praticado geralmente como vitorioso, isento de
culpa. O perverso sabe o que quer, enquanto o neurótico reprime esse desejo.
No que tange ao aparelho psíquico do perverso, surge uma nova formatação, diferente dos
neuróticos e psicóticos. Agora o ego (Eu) negocia suas exigências com os desejos do id (processo pulsional) e com
a realidade (processos naturais e sociais). Os perversos colocam em prática aquilo que os neuróticos não têm
coragem de manifestar. Inclusive, estes reprimem, recalcam muitos dos atos característicos dos perversos, isto é,
na perversão é possível considerar, ao mesmo tempo, as exigências do id e as da realidade, sem que uma anule ou
interfira na outra. Não há nem o recalcamento dos desejos, como ocorre na neurose, nem rejeição à realidade,
como ocorre na psicose.
Logo, pode-se entender que a neurose esconde um desejo perverso, encoberto pelo sintoma, e a
partir deste ponto de vista, com o auxílio da psicanálise, podemos reconhecer que todos nós temos um conjunto
de neuroses, e da mesma forma, passamos assim a perceber a perversão como característica que pode ser
descoberta, até mesmo no sujeito dito normal ou saudável. Também no adulto que já “conquistou” a maturidade
podem conservar-se em sua personalidade (em um lugar secreto) partes infantilizadas que se revelam em
situações de hiperexcitação, ou mesmo no prognóstico da perda do objeto amado.
PERVERSÃO E ESTRUTURA:
A partir de 1919, Freud começou a relacionar perversão e Édipo nos textos "Uma criança é
espancada: Contribuição ao estudo da origem das perversões”, "A dissolução do complexo de Édipo”, e "A
organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade". Nesses textos, ele procura responder a
questão da perversão a partir da articulação entre o complexo de Édipo e o complexo de castração, o que
proporciona um avanço considerável na solidificação dos seus estudos.
No entanto, é Lacan quem inaugura uma psicanálise na qual a perversão se coloca como um
paradigma estrutural, mesmo que essa noção não admita uma só interpretação, trazendo o conceito de estrutura
como um “conjunto de elementos que se constituem na relação, que são exclusivamente interdependentes e que
se regem por determinadas leis que fazem parte de uma constituição interna”.
Lacan remonta o complexo de Édipo como uma estrutura intersubjetiva que produz efeitos de
representação nos personagens que a integram, evidenciados pela localização que cada um norteia em função do
falo (processo e objeto de identificação edipiana; complexo de Édipo).
A dinâmica edipiana se desenvolve movida pela dialética do ser e do ter, segundo a qual o sujeito
parte de uma posição onde ele é identificado ao falo da mãe para uma outra posição, onde ele, tendo renunciado
a esta identificação pela aceitação da castração simbólica, tende a identificar-se seja àquele que é suposto ter o
falo (pai), seja àquela que é suposta não o ter (mãe). Esta operação se atualiza graças a um processo de
simbolização inaugural: a metáfora do Nome-do-Pai.
Essa metáfora lacaniana contextualizada em um foco cristão mostra que o Nome-do-Pai é o
significante que substitui a simbolização do sujeito na presença ou ausência da mãe. Concomitante, ao analisar a
obra de Freud, podemos destrinchar a participação do pai numa constituição da realidade psíquica, o que é uma
encruzilhada estrutural do sujeito. Lacan então tomou como base esse legado freudiano e acrescentou o Nome-
do-Pai como um elemento significante, além de agora apresentar o Falo na constituição edipiana, já que é
impossível tratar-se de estrutura psíquica sem agregar a questão fálica.
Uma criança, especialmente na primeira infância, se apresenta em sua coleção de reflexos como
sendo o único objeto de desejo da mãe. Logo essa criança exerce uma reciprocidade muito grande para com seus
cuidados maternos. A mãe é a detentora do poder, ela é capaz de suprir todas as carências do infanto. Nesse
cenário, o gozo, na maioria das vezes, é propiciado de forma natural e intensa. Ele mescla além de necessidades
orgânicas, um prazer determinante em suas relações de afeto.
Por se apresentar de forma tão sobressalente, a mãe vem a ocupar o lugar do Outro simbólico na
estrutura psíquica da criança, que já reconhece o poder de gozo e a onipotência da mãe. Dessa forma, o desejo da
criança será então o desejo do Outro.
O Outro, aqui representado pela mãe, é o ditador desse desejo infantil, e quando a criança se
percebe desse fato, além de visualizar que a mãe possui outro desejo que não mais a sua vontade, acaba entrando
em grande conflito de identidade, visto que agora a figura paterna é o alvo da mãe.
É nesse tocante que se avaliam as frustrações e angústias da criança, que pode então procurar
novas formas de desejo do Outro, vivenciando então a castração. O pai simbólico é um rival, e isso pode
representar uma intensa perturbação no filho que precisa da mãe para resignificar seus objetos de desejo. Se por
algum contratempo esse estado de perturbaçãoe angústia é anulado ou danificado, a dinâmica edipiana tente a
se cristalizar numa forma peculiar de economia de desejo, formando assim uma estrutura perversa.
O indivíduo na perversão se fecha numa representação que não pôde atribuir um significado ao que não estava
presente, ao que não identificou, e assim se impossibilita de entender a castração. E essa ineficácia traz confusão
na descoberta do desejo no infanto.
Em suma, o perverso despeja na castração a resposta para a falta do pênis da mãe, e esse
processo de castrar na visão da criança foi realizado pelo pai, que forçou essa união com a sua mulher (mãe) e
demonstrou assim todo o seu poderio.
FETICHE E RECUSA DA PERVERSÃO:
No trabalho “O Fetichismo”, Freud (1927) coloca o fetiche como substituto para o pênis da
mulher (mãe), sendo a recusa dessa percepção traumática o mecanismo psíquico de defesa utilizado na perversão.
A mesma está presente na constituição de qualquer psiquismo, como uma forma inicial na elaboração de
mecanismos de defesa do psiquismo.
De forma enfática, é durante as faltas da mãe que o falo assume a função de satisfação de desejo
e o fetiche é então um substituto do pênis, um substituto fálico atribuído como símbolo pela criança à mãe. Freud
apresenta o fetichismo como sendo uma espécie de modelo geral por seus elementos invariantes, sustentando-se,
portanto, como uma estrutura psíquica.
Freud indica que o fetiche não tem a menor necessidade de parecer com os órgãos genitais, nem
com outros objetos que reproduzam a forma do pênis, representando-o. Para que a representação no objeto do
fetiche seja satisfatória, é preciso que esse objeto seja próximo ou estabeleça alguma relação de proximidade com
o objeto real de desejo. Como demonstra também o seu modo de surgimento, convém precisar que o fetiche não
é o falo, mas o véu por trás do qual se deixa esboçar a possibilidade de sua presença oculta. É daí que se origina,
além disso, o valor erótico do véu, sempre presente não apenas no exercício do fetiche, mas de todas as
perversões.
Seguindo essa linha de pensamento pôde-se perceber que o fetiche não se atém ao falo
propriamente dito, mas sim às angústias e frustrações vivenciadas na castração. Seria como um “véu”
metaforizado, o qual remonta por trás de uma estrutura edipiana um valor de cunho erótico. Assim, o “véu”
funcionaria como uma barreira, algo entre o que está aparente e o que representaria através da realidade
inconsciente.
Buscando facilitar a análise teórico-clínica da perversão, Freud procurou entender mais sobre os
“véus” que se ocultavam na formatação psíquica do perverso. Assim, a recusa se apresentaria de forma mais
detalhada como um processo de defesa e de construção do fetiche, sendo este um substituto do pênis materno,
isto é, o sujeito enxerga e nega ao mesmo tempo a constatação da ausência de pênis na mãe. É a partir daí que
passamos a entender a especificidade do modo de relação do perverso com a realidade. A recusa da realidade
consiste na recusa em aceitar a ausência do pênis na mulher (mãe) emparelhada às frustrações e angústias do
infanto ainda na ameaça dessa perda.
Na sua obra “Clivagem do ego no processo de defesa”, Freud (1940) reforça esse raciocínio
trazendo de forma detalhada a concepção de que há uma clivagem intrapsíquica que permite a coexistência de
duas realidades inconciliáveis que jamais se influenciam. Enquanto uma considera a realidade, a outra a nega,
substituindo-a pelo seu próprio desejo. Assim, o perverso conseguiria viver uma vida aparentemente normal
segundo os parâmetros da sociedade e ao mesmo tempo manter comportamentos considerados inaceitáveis
segundo a norma social.
O incomum, o inesperado e o que costuma estar fora de um padrão ou de regras pré-
estabelecidos pela sociedade geralmente chamam a atenção, podendo causar espanto, medo, curiosidade. A
ciência, por assim dizer, tem em suas linhas de ação as tentativas de explicar esse incomum. Porém, o que é
“normal” geralmente não fornece problemas à sociedade, estando integrado às leis, normas e regras, explícitas ou
não. Dessa forma, o que é considerado normal dependerá da cultura e da sociedade em que se está inserido, bem
como as reações e consequências acerca daquilo que for considerado fora desse padrão, estando aí conectada a
questão da escolha sobre enfrentar ou não essas consequências.
Isso faz jus à classificação que Freud traz da perversão, em seu livro "Três ensaios sobre a teoria
da sexualidade", em que:
As perversões são ou transgressões anatômicas quanto às regiões do corpo destinadas à união sexual, ou
demoras nas relações intermediárias com o objeto sexual, que normalmente seriam atravessadas com
rapidez a caminho do alvo sexual final. Cabe considerar a perversão como um conjunto de
comportamentos psicossexuais que buscam um prazer de forma contínua. Essa estrutura da personalidade
inicia-se a partir da infância, pois a criança é um sujeito sexual que constantemente se experimenta e
então se descobre. A perversão se caracteriza por uma fixação do desvio quanto ao objeto de desejo, e
pela exclusividade de sua prática;
Somos necessariamente seres sexuais, transferindo, recalcando, liberando nossa libido, e variando
inclusive nosso objeto de interesse ao longo da vida, estando ele dentro da perversão, ou não.
Porém, esses conceitos trazem à tona duas questões que se interligam necessariamente: por um
lado, a aprendizagem, os significados atribuídos ao conceito de normalidade subordinam-se àquilo que foi
recebido da sociedade, da cultura, das instituições em que o indivíduo está inserido. Por outro lado, os
significados se processam e se transformam a partir das ações e pensamentos do próprio indivíduo, fazendo com
que este se torne aquilo que ele é, nesse caso, perverso ou não.
Em outras palavras, somos produto de nossas experiências, vivências, adquirindo um “sentido
pessoal” acerca de tudo isso. Caberia a nós, portanto, a atribuição de significado daquilo que chega a nós, sendo
necessário discernir e escolher as normas e o perverso para nossas vidas.
4.10 A SEXUALIDADE NA CONSTITUIÇÃO DO PSIQUISMO:
Como foi dito bem antes, a sexualidade está presente desde o momento do nascimento e nos
acompanha até a morte. Para a Psicologia, a infância é o momento crucial que definirá a personalidade,
identidade, comportamentos típicos e a estrutura psíquica do indivíduo.
Em Psicanálise, o período da infância se torna ainda mais crucial, já que é neste período em que o
indivíduo – neste caso a criança, que ainda é uma coisa – entra em contato com o mundo, experimenta, saboreia,
toca, sente. O ser humano nasce sexuado, e desde bebê tem início ao seu autoconhecimento, de forma natural e
espontaneamente. Nota-se que esse contato com o mundo se dá de forma sensorial. Dito isso, todas essas
experiências sensoriais serão tomadas como prazerosas ou desprazerosas, portanto, é aí que entra a sexualidade.
A primeira experiência prazerosa que a criança tem com o mundo é na amamentação (narcisismo
primário). Os lábios e a língua do bebê tornam-se uma zona erógena pela qual, ao surgir o leite, a criança sente
prazer em se alimentar e desta forma, a sensação prazerosa fica associada à necessidade de alimento. Freud
descreve a presença desse prazer: quem já viu uma criança saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces
coradas e um sorriso beatifico, há de dizera si mesmo que essa imagem persiste também como norma da
expressão da satisfação sexual em épocas posteriores da vida. Neste sentido, a sexualidade torna-se uma
ferramenta de contato e de experiências com o mundo. Ora, mas por enquanto estamos falando em experiências
sensoriais, e o que isto tem a ver com a constituição de um psiquismo?
De início, essas experiências são de fato sensoriais, e são primordiais para o bebê, ainda coisa,
experimentar o mundo num processo de narcisismo primário e, posteriormente, secundário. No entanto, a criança
vai assimilando e internalizando essas experiências como prazerosas ou desprazerosas, criando assim significados
para elas (processo psíquico, realidade mental). A partir daí, em uma ligação estritamente relacional, entre o
indivíduo e o mundo (narcisismo secundário, formação do ego), a sexualidade torna-se uma ponta de entrada
para os significantes produzidos nesta relação.
5. A INSTITUIÇÃO FAMILIAR
5.1 A ESTRTURA CULTURAL DA FAMÍLIA HUMANA:
Se até agora falamos na constituição do psiquismo e do desenvolvimento psicossexual humano,
como seria a instituição familiar para a teoria psicanalítica? O que Freud e outros teóricos (seguidores da
psicanálise, em particular, Lacan) tem a dizer sobre isso? Vamos nos aprofundar na instituição familiar,
observando seu sistema e complexidade à luz da Psicanálise (Freud e Lacan), da Sociologia (Émile Durkheim e
Bergson) e contribuições da Psicologia Analítica (Carl Jung, ex-discípulo de Freud).
A família surge-nos como um grupo natural de indivíduos unidos por uma dupla relação biológica:
por um lado a geração, que dá as componentes do grupo; por outro as condições de meio que postula o
desenvolvimento dos jovens e que mantêm o grupo, enquanto os adultos geradores asseguram essa função. Nas
espécies animais, esta função dá lugar a comportamentos instintivos, muitas vezes bastante complexos. Foi
preciso renunciar a fazer derivar das relações familiares assim definidas os outros fenómenos sociais observados
nos animais. Estes últimos aparecem pelo contrário tão distintos dos instintos familiares que os investigadores
mais recentes relacionam-nos com um instinto original, dito de inter-atração.
A espécie humana caracteriza-se por um desenvolvimento singular das relações sociais, que
sustêm capacidades excepcionais de comunicação mental, e correlativamente por uma economia paradoxal dos
instintos que aí se mostram essencialmente susceptíveis de conversão e de inversão não tendo efeito isolável
senão de modo esporádico. São assim permitidos comportamentos adaptativos duma variedade infinita. A sua
conservação e o seu progresso, por dependerem da sua comunicação, são antes de tudo obra coletiva e
constituem a cultura; ela introduz uma nova dimensão na realidade social e na vida psíquica. Esta dimensão
especifica a família humana tal como todos os fenómenos sociais no homem.
Se, com efeito, a família humana permite observar, nas primeiras fases das funções maternais,
por exemplo, alguns traços de comportamento instintivo, identificáveis aos da família biológica, basta refletir no
que o sentimento da paternidade deve aos postulados espirituais que marcaram o seu desenvolvimento, para
compreender que neste domínio as instâncias culturais dominam as naturais, ao ponto de não se poder ter como
paradoxais os casos em que, como na adopção, elas as substituem.
Será esta estrutura cultural da família humana inteiramente acessível aos métodos da psicologia
concreta: observação e análise? Sem dúvida estes métodos bastam para pôr em evidência alguns traços
essenciais, tal como a estrutura hierárquica da família, e bastam para reconhecer nela o órgão privilegiado desta
coação do adulto sobre a criança, coação à qual o homem deve uma etapa original e as bases arcaicas da sua
formação moral.
Mas outros traços objetivos: os modos de organização desta autoridade familiar, as leis da sua
transmissão, os conceitos da descendência e do parentesco que lhe são ajuntados, as leis da herança e da
sucessão, que aí se combinam, enfim as suas relações íntimas com as leis do casamento — obscurecem as relações
psicológicas, emaranhando-as. A sua interpretação deve então esclarecer-se a partir dos dados comparados da
etnografia, da história, do direito e da estatística social. Coordenados pelo método sociológico, estes dados
estabelecem que a família humana é uma instituição. A análise psicológica deve adaptar-se a esta estrutura
complexa e não lhe resta senão fazer tentativas filosóficas que têm por objetivo reduzir a família humana seja a
um fato biológico, seja a um elemento teórico da sociedade.
Estas tentativas têm no entanto o seu princípio em certas aparências do fenómeno familiar; por
muito ilusórias que sejam estas aparências, elas merecem que nos detenhamos nelas, porque se fundam sobre
convergências reais entre causas heterogéneas. Descreveremos o seu mecanismo sobre dois pontos ainda em
litígio para o psicólogo.
HEREDITARIEDADE PSICOLÓGICA:
Entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da
cultura. Se as tradições espirituais, a preservação dos ritos, e dos costumes, a conservação das técnicas e do
património lhe são disputadas por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação, na repressão
dos instintos, na aquisição da língua justamente chamada materna. Por isso ela preside aos processos
fundamentais do desenvolvimento psíquico, a esta organização das emoções segundo tipos condicionados pelo
ambiente, que é a base dos sentimentos; duma maneira mais lata, ela transmite estruturas de comportamento e
de representação cujo jogo ultrapassa os limites da consciência.
Ela estabelece assim entre as gerações uma continuidade psíquica cuja causalidade é de ordem
mental. Esta continuidade, se revela o artifício dos seus fundamentos nos próprios conceitos que definem a
unidade de linhagem, a partir do totem até ao nome patronímico, também se manifesta pela transmissão à
descendência de disposições psíquicas que confinam no inato; existe o termo hereditariedade social para estes
efeitos. Este termo, impróprio por ser ambíguo, tem pelo menos o mérito de assinalar quão difícil é ao psicanalista
ou ao psicólogo não exagerar a importância do biológico nos fatos ditos de hereditariedade psicológica.
PARENTESCO BIOLÓGICO:
Uma outra semelhança, contingente, vê-se no facto de os componentes normais da família tal
qual a observamos atualmente no Ocidente: o pai, a mãe e os filhos, são os mesmos que os da família biológica.
Esta identidade não é nada mais que uma igualdade numérica. Mas o espírito é tentado a reconhecer aí uma
comunidade de estrutura diretamente fundada sobre a constância dos instintos, constância essa que lhe é preciso
reencontrar então nas formas primitivas da família. As teorias puramente hipotéticas da família primitiva foram
fundadas sobre estas premissas, umas vezes à semelhança da promiscuidade observável nos animais, por críticas
subversivas da ordem familiar existente; outras vezes sobre o modelo do par estável, não menos observável, na
animalidade, por defensores da instituição considerada como célula social.
A FAMÍLIA PRIMITIVA – UMA INSTITUIÇÃO:
As teorias das quais acabámos de falar não são apoiadas em nenhum fato conhecido. A
promiscuidade presumida não pode ser animada em parte alguma, nem sequer nos casos ditos de casamento de
grupo: desde a origem existem interdições e leis. As formas primitivasda família têm os traços essenciais das suas
formas acabadas: autoridade senão concentrada no tipo patriarcal, pelo menos representada por um conselho,
por um matriarcado ou seus delegados machos; modo de parentesco, herança, sucessão transmitidos por vezes
distintamente (RIVERS), segundo uma linhagem paternal ou maternal. Trata-se aí precisamente de famílias
humanas devidamente constituídas. Mas longe de nos mostrarem a pretendida célula social, vemos nessas
famílias, à medida que as encontramos mais primitivas, não somente um agregado mais vasto de pares biológicos,
mas sobretudo um parentesco menos conforme aos laços naturais de consanguinidade.
O primeiro ponto é demonstrado pelo sociólogo Émile Durkheim, sobre o exemplo histórico da
família romana; ao examinar os nomes de família e o direito de sucessões, descobre-se que três grupos aparecem
sucessivamente do mais amplo ao mais restrito: a gens, agregado muito amplo de descendências patronais; a
família agnática, mais restrita mas indivisa; enfim a família que submete à patria potestas do avô os pares
conjugais de todos os seus filhos e netos.
Para o segundo ponto a família primitiva desconhece os laços biológicos do parentesco:
desconhecimento somente jurídico na parcialidade uni-linear da filiação; mas também ignorância positiva ou
talvez desconhecimento sistemático (no sentido de paradoxo da crença que a psiquiatria dá a este termo),
exclusão total destes laços que, por não se poderem exercer senão em relação com a paternidade, observar-se-
iam em certas culturas matriarcais. E além disso, o parentesco não é reconhecido senão por meio de ritos que
legitimam os laços do sangue e até mesmo por vezes criam laços fictícios: fatos do totemismo, adopção,
constituição artificial dum agrupamento agnático como a Zadruga eslava. Da mesma maneira, segundo o nosso
código, a filiação é demonstrada pelo casamento.
À medida que são descobertas formas mais primitivas da família humana, elas expandem-se em
agrupamentos que, como o clã, podem ser também considerados como políticos. Que se é transferida para o
desconhecido da pré- história a forma derivada da família biológica para daí fazer nascer por associação natural
ou artificial estes agrupamentos, é uma hipótese contra a qual falha a prova, mas que é tanto menos provável
quanto os zoologistas recusam — vimo-lo — aceitar uma tal génese para as sociedades animais.
Por outro lado, se a extensão e a estrutura idos agrupamentos familiares primitivos não excluem
a existência no seu seio de famílias limitadas aos seus membros biológicos — o fato é tão incontestável como o da
reprodução bissexuada —, a forma assim arbitrariamente isolada não pode ensinar-nos nada acerca da sua
psicologia e não pode ser assimilada à forma atualmente existente.
O grupo reduzido que compõe a família moderna não surge, com efeito, ao ser examinado, como
uma simplificação mas antes como uma contração da instituição familiar. Ele mostra uma estrutura
profundamente complexa, da qual mais do que um ponto se esclarece melhor pelas instituições positivamente
conhecidas da família antiga do que pela hipótese duma família elementar a qual não se encontra em parte
alguma. Isto não é dizer que seja demasiado ambicioso procurar nesta forma complexa um sentido que a unifica e
talvez dirija a sua evolução. Este sentido aparece precisamente quando, à luz deste exame comparativo, se
apreende a modificação profunda que conduziu a instituição familiar à sua forma atual; reconhece-se ao mesmo
tempo que é preciso atribuí-la à influência prevalente que tem aqui o casamento, instituição que se deve
distinguir da família. Daí a excelência do termo «família conjugal», pelo qual DURKHEIM a designa.
5.2 O COMPLEXO, FATOR CONCRETO DA PSICOLOGIA FAMILIAR:
É na ordem original de realidade que constituem as relações sociais que é preciso compreender a
família humana. Se, para fundar este princípio, nós recorremos às conclusões da sociologia, embora a soma dos
factos em que ela o ilustra ultrapasse o nosso assunto, é porque a ordem de realidade em questão é o próprio
objeto desta ciência. O princípio é assim posto num plano onde ele tem a sua plenitude objetiva. Como tal, ele
permitirá, julgar segundo o seu verdadeiro alcance, os resultados atuais da pesquisa psicológica. Tendo em
consideração que ela, com efeito, rompe com as abstrações académicas e visa, quer na observação do behaviour
quer pela experiência da psicanálise, dar conta do concreto, esta pesquisa especialmente quando se exerce sobre
os fatos da «família como objeto e circunstância psíquica», nunca objetiva instintos, mas sempre complexos.
Este resultado não é o fato contingente de uma etapa redutível da teoria; é preciso reconhecer aí,
traduzido em termos psicológicos mas conforme ao princípio preliminarmente posto, este carácter essencial do
objeto estudado: o seu condicionamento por fatores culturais, à custa dos fatores naturais.
DEFINIÇÃO GERAL DO COMPLEXO:
O complexo, com efeito, liga sob uma forma fixada um conjunto de reações que pode interessar
todas as funções orgânicas desde a emoção até à conduta adaptada ao objeto. O que define o complexo, é que ele
reproduz uma certa realidade da ambiência, e duplamente:
1. A sua forma representa esta realidade no que ela tem de objetivamente distinto numa dada etapa do
desenvolvimento psíquico; esta etapa especifica a sua génese;
2. A sua atividade repete no vivido a realidade assim fixada, sempre que se produzem certas experiências
que exigiriam uma objetivação superior desta realidade; estas experiências especificam o
condicionamento do complexo.
Por si só esta definição implica que o complexo é dominado por fatores culturais: no seu
conteúdo, representativo dum objeto; na sua forma, ligada a uma etapa vivida da objetivação; enfim na sua
manifestação de carência objetiva, em relação a uma situação atual, isto é sob o seu triplo aspecto de relação de
conhecimento, de forma de organização afetiva e de provação ao choque do real, o complexo compreende-se pela
sua referência ao objeto. Ora, toda a identificação objetiva exige ser comunicável, quer dizer repousa sobre um
critério cultural; é também através de vias culturais que ela é a maior parte das vezes comunicada. Quanto à
integração individual das formas de objetivação, ela é a obra de um processo dialético que faz surgir cada forma
nova a partir dos conflitos da precedente com o real. Neste processo é preciso reconhecer o carácter que
especifica a ordem humana, quer dizer esta subversão de toda e qualquer fixidez instintiva, donde surgem as
formas fundamentais, prenhes de variações infinitas, da cultura.
O COMPLEXO E O INSTINTO:
Se o complexo no seu pleno exercício está dependente da cultura, e se encontramos nisso uma
consideração essencial para quem quer dar conta dos fatos psíquicos da família humana, isso não quer dizer que
não haja relação entre o complexo e o instinto. Mas, fato curioso, frente às obscuridades que opõe à crítica da
biologia contemporânea o conceito de instinto, o conceito do complexo, embora recentemente introduzido,
aparece mais bem adaptado a objetos mais ricos; repudiando assim o apoio que o inventor do complexo pensava
ter de procurar no conceito clássico de instinto, pensamos que por uma inversão teórica, é o instinto que se
poderia esclarecer atualmente pela sua referência ao complexo.
Assim poder-se-ia confrontar ponto por ponto:
1. A reação do conhecimento que implica o complexo, a esta co-naturalidadedo organismo ao ambiente
onde estão suspensos os enigmas do instinto;
2. A tipicidade geral do complexo em relação com as leis dum grupo social ao carácter genérico do instinto
em relação com a fixidez da espécie;
3. A multiformidade das manifestações do complexo, que sob formas equivalentes de inibição, de
compensação, de desconhecimento, de racionalização, exprime a estagnação frente a um mesmo objeto,
confrontada à esteriotipia dos fenómenos do instinto, cuja ativação submetida à lei do «tudo ou nada»,
fica rígida às variações da situação vital. Esta estagnação no complexo tal como esta rigidez no instinto —
enquanto os referimos aos únicos postulados da adaptação vital; disfarce mecanicista do finalismo,
condenamo-nos a fazer disso enigmas; o seu problema exige o emprego dos conceitos mais ricos que o
estudo da vida psíquica impõe.
O COMPLEXO FREUDIANO E A IMAGO (REPRESENTAÇÃO DE UMA PESSOA):
Definimos o complexo num sentido muito lato que não exclui que o sujeito tenha consciência
daquilo que representa. Mas é como fator essencialmente inconsciente que ele foi primeiramente definido por
FREUD. A sua unidade está com efeito manifesta sob esta forma, onde ela se revela como a causa de efeitos
psíquicos não dirigidos pela consciência, atos falhados, sonhos, sintomas. Estes efeitos têm caracteres de tal modo
distintos e contingentes que obrigam a admitir como elemento fundamental do complexo esta entidade
paradoxal: uma representação inconsciente, designada sob o nome de imago. Complexos e imago revolucionaram
a psicologia e especialmente a da família que se revelou como o lugar de eleição dos complexos mais estáveis e
mais típicos: de simples sujeito de paráfrases moralizantes, a família tornou-se o objeto duma análise concreta.
No entanto os complexos demonstraram-se desempenhando um papel de «organizadores»
(«organiseurs») no desenvolvimento psíquico; assim eles dominam os fenómenos que, na consciência, parecem
estar mais bem integrados na personalidade; assim são motivados no inconsciente não somente justificações
passionais, mas racionalizações objetiváveis. O alcance da família como objeto e circunstância psíquica foi assim
acentuado. Este progresso teórico incitou-nos a dar uma fórmula generalizada do complexo, que permite incluir
nele os fenómenos conscientes de estrutura semelhante. Assim são os sentimentos onde é preciso ver complexos
emocionais conscientes, em particular os sentimentos familiares que são muitas vezes a imagem invertida de
complexos inconscientes. Assim são também as crenças delirantes, onde o sujeito afirma um complexo como uma
realidade objetiva. Complexos, imagos, sentimentos e crenças vão ser estudados na sua relação com a família e
em função do desenvolvimento psíquico que eles organizam desde a criança criada na família até ao adulto que a
reproduz.
5.3 O COMPLEXO DO DESMAME:
O complexo do desmame fixa no psiquismo a relação da amamentação («nourrissage») sob a
forma parasitária que as necessidades da primeira idade do homem exigem; representa a forma primordial da
imago materna (representação materna). Logo funda os sentimentos mais arcaicos e mais estáveis que unem o
indivíduo à família. Tocamos aqui no complexo mais primitivo do desenvolvimento psíquico, aquele com o qual
todos os complexos ulteriores se compõem; ainda é mais impressionante vê-lo inteiramente dominado por
fatores culturais e assim, desde este estádio primitivo, radicalmente diferente do instinto.
O DESMAME ENQUANTO ABLACTAÇÃO:
No entanto aproxima-se dele por dois caracteres:
1. Por um lado, o complexo de desmame produz-se com traços tão gerais em toda a extensão da espécie que
o podemos ter por genérico;
2. Por outro lado, representa no psiquismo uma função biológica, exercida por um aparelho
anatomicamente diferenciado: a lactação. Assim se compreende que se tenha querido referir a um
instinto, até mesmo no homem, os comportamentos fundamentais que ligam a mãe à criança. Mas é
negligenciar um caráter essencial do instinto: a sua regulação fisiológica manifesta no fato de o instinto
materno deixar de agir no animal quando chega o fim da amamentação.
No homem, pelo contrário, é uma regulação cultural que condiciona o desmame. Ela aparece aí
como dominante, mesmo se o limitarmos ao ciclo da ablactação propriamente dita, ao qual corresponde portanto
o período fisiológico da glândula comum à classe dos Mamíferos. Se a regulação que na realidade se observa não
aparece nitidamente contra a ordem natural senão em práticas atrasadas — que não estão todas em via de
desaparecimento seria ceder a uma ilusão grosseira de procurar na fisiologia destas regras, mais conformes à
natureza, que impõe ao desmame assim como ao conjunto dos costumes o ideal das culturas mais avançadas. De
fato, o desmame, por qualquer uma das contingências operatórias que ele comporte, é frequentemente um
traumatismo psíquico cujos efeitos individuais, anorexias ditas mentais, toxicomanias pela boca, neuroses
(tensões excessivas e prolongadas; reações vivenciais) gástricas, revelam as suas causas à psicanálise.
Traumatizante ou não, o desmame deixa no psiquismo humano o rasto permanente da relação
biológica que interrompe. Esta crise vital duplica-se com efeito numa crise do psiquismo, a primeira sem dúvida
cuja solução tem uma estrutura dialética. Pela primeira vez ao que parece, uma tensão vital se resolve em
intenção mental. Por esta intenção, o desmame é aceito ou recusado; na verdade a intenção é muito elementar,
na medida em que ela nem sequer pode ser atribuída a um eu ainda num estado rudimentar; a aceitação ou a
recusa não podem ser concebidas como uma escolha pois que na ausência dum eu que afirma ou nega, elas não
são contraditórias; mas pólos coexistentes e contrários, eles determinam uma atitude ambivalente por essência
embora um deles aí prevaleça. Esta ambivalência primordial, a quando das crises que asseguram a continuação do
desenvolvimento, resolver-se-á em diferenciações psíquicas de um nível dialético cada vez mais elevado e de uma
irreversibilidade crescente. A prevalência originária mudará aí de sentido várias vezes e poderá assim sofrer
destinos muito diferentes; ela reencontrar-se-á aí portanto tanto no tempo como no tom a ela próprios, que
imporá tanto a estas crises como às categorias novas de que cada uma dotará o vivido.
A IMAGO DO SEIO MATERNO:
É a recusa do desmame que funda a dimensão positiva do complexo, a saber a imago da relação
de amamentação que tende a restabelecer. Esta imago é dada no seu conteúdo pelas sensações próprias da
primeira idade mas não tem forma senão na medida em que elas se organizam mentalmente. Ora, sendo este
estado anterior ao aparecimento da forma do objeto, não parece que estes conteúdos se possam representar na
consciência. Reproduzem-se aí no entanto em estruturas mentais que modelam, como dissemos, as experiências
psíquicas ulteriores. Serão reevocados por associação aquando destas, mas inseparáveis dos conteúdos objetivos
que terão informado. Analisemos estes conteúdos e estas formas.
O estudo do comportamento da primeira infância permite afirmar que as sensações extero —
próprio — e interoceptivas não são ainda, após o décimo segundo mês, suficientemente coordenadas para que
esteja acabado o reconhecimento do corpo próprio, nem correlativamente a noção do que lhe é exterior.
Forma exteroceptiva: a presença humana. — Bastante cedo no entanto, certas sensações
exteroceptivas isolam-se esporadicamente em unidades de percepção. Como é de prever,estes elementos de
objetos respondem aos primeiros interesses afetivos. São testemunhas disso a precocidade e a eletividade das
reações da criança à aproximação e ao afastamento das pessoas que cuidam dela. É preciso mencionar à parte,
como um facto de estrutura, a reação de interesse que a criança manifesta em frente do rosto humano: ela é
extremamente precoce, observando-se desde os primeiros dias, e mesmo antes que as coordenações motoras dos
olhos estejam acabadas. Este facto não pode ser separado do progresso pelo qual o rosto humano tomará todo o
seu valor de expressão psíquica. Este valor, por ser social, não pode ser tido por convencional. A força reativada,
muitas vezes sob um modo inefável, que toma a máscara humana nos conteúdos mentais das psicoses (doenças
ou transtornos mentais), parece testemunhar o arcaísmo da sua significação.
Como quer que seja, estas reações eletivas permitem conceber na criança um certo conhecimento
muito precoce da presença que preenche a função maternal, e o papel do traumatismo causal, que em certas
neuroses e em certas perturbações de caráter, pode desempenhar uma substituição desta presença. Este
conhecimento, muito arcaico para o qual parece ter sido feito o trocadilho de Claudel de «conaissance»,
distingue-se apenas da adaptação afetiva. Ele permanece totalmente comprometido na satisfação das
necessidades próprias à primeira idade e na ambivalência típica das relações mentais que aí despontam. Esta
satisfação surge com os sinais da maior plenitude que o desejo humano possa encontrar, por pouco que se
considere a criança ligada à mama.
Satisfação proprioceptiva: a fusão oral. — As sensações proprioceptivas da sucção e da apreensão
estabelecem evidentemente a base desta ambivalência do vivido, que sobressai dessa mesma situação: o ser que
absorve é todo absorvido e o complexo arcaico responde-lhe no amplexo maternal. Não falaremos aqui com
Freud de autoerotismo porque o eu não está constituído, nem de narcisismo (representação sexual do Ego ou Eu),
pois que não existe imagem do eu; e muito menos ainda de erotismo oral, pois que a nostalgia do seio que
amamenta, sobre a interpretação da qual hesitou a escola psicanalítica, não releva do complexo de desmame a
não ser através da sua reestruturação pelo complexo de Édipo. «Canibalismo», mas canibalismo fusional, inefável,
ao mesmo tempo ativo e passivo, sempre sobrevivente nos jogos e palavras simbólicas, que no amor mais
evoluído, fazem lembrar o desejo da larva, — reconheceremos nestes termos a relação com a realidade sobre a
qual repousa a imago materna.
Mal-estar interoceptivo: a imago pré-natal. — Esta base ela própria não pode ser desligada do
caos das sensações interoceptivas das quais emerge. A angústia, cujo protótipo aparece na asfixia do nascimento,
o frio, ligado à nudez do tegumento *, e o mal-estar labiríntico ao qual responde a satisfação do embalar,
organizam pela sua tríade o tom penoso da vida orgânica que, para os melhores observadores, domina os seis
primeiros meses da vida do homem. Estes incómodos primordiais têm todos a mesma causa: uma adaptação
insuficiente à ruptura das condições de ambiente e de nutrição que fazem o equilíbrio parasitário da vida intra-
uterina.
Esta concepção concorda com aquilo que, na experiência, a psicanálise encontra como fundo
último da imago do seio materno: sob os fantasmas do sonho como sob as obsessões da vigília desenham-se com
uma impressionante precisão as imagens do habitat intra-uterino e do limiar anatómico da vida extra-uterina. Em
presença dos dados da fisiologia e do fato anatómico da não-mielinização dos centros nervosos superiores no
recém-nascido, é no entanto impossível fazer do nascimento, como certos psicanalistas, um traumatismo
psíquico. Desde logo esta forma da imago permaneceria um enigma se o estado post-natal do homem não
manifestasse, pelo seu próprio mal-estar, que a organização postural, tónica, equilibradora, própria da vida intra-
uterina, lhe sobrevive.
O DESMAME: PREMATURACÃO ESPECÍFICA DO NASCIMENTO:
É de assinalar que o atraso da dentição e do andar, correlativo a um atraso da maior parte dos
aparelhos e funções, determinam na criança uma total impotência vital que dura para além dos dois primeiros
anos. Deverá este facto ser tido por solidário com os que dão ao desenvolvimento somático posterior do homem
o seu carácter de excepção em relação aos animais da sua classe: a duração do período de infância e o atraso da
puberdade? Seja como for, não se deve hesitar em reconhecer na primeira idade uma deficiência biológica
positiva, e em considerar o homem como um animal de nascimento prematuro. Esta concepção explica a
generalidade do complexo e que ele seja independente dos acidentes da ablactação. Esta — desmame no sentido
estreito — dá a sua expressão psíquica, a primeira e também a mais adequada, à imago (representação) mais
obscura dum desmame mais antigo, mais penoso e duma maior amplitude vital: aquele que à nascença separa a
criança da matriz, separação prematura donde provém um mal-estar que nenhum cuidado materno pode
compensar. Lembremos aqui um fato pediátrico conhecido, o atraso afetivo muito especial que se observa nas
crianças nascidas antes do tempo. O tegumento é parte exterior do corpo de um animal, podendo ser constituído
de pele, penas etc.
O SENTIMENTO DA MATERNIDADE:
Assim constituída, a imago do seio materno domina toda a vida do homem. Pela sua ambivalência
no entanto, ela pode-se saturar na inversão da situação que representa, o que não é estritamente realizado senão
na ocasião da maternidade. Na aleitação, no amplexo e na contemplação da criança, a mãe recebe e satisfaz, ao
mesmo tempo, o mais primitivo de todos os desejos. Até a própria tolerância da dor do parto só pode ser
compreendida como a consequência duma compensação representativa do primeiro dos fenómenos afetivos
aparecidos: a angústia, nascida com a vida. Somente a imago que imprime no mais profundo do psiquismo o
desmame congénito do homem, pode explicar o poder, riqueza e duração do sentimento maternal. A realização
desta imago na consciência assegura à mulher uma satisfação psíquica privilegiada, ao mesmo tempo que os seus
efeitos na conduta da mãe preservam a criança do abandono que lhe seria fatal.
Ao opor o complexo ao instinto, não desnegamos ao complexo todo o fundamento biológico, e ao
defini-lo por certas relações ideais, ligámo-lo portanto à sua base material. Esta base, é a função que ele assegura
no grupo social; e este fundamento biológico, vêmo-lo na dependência vital do indivíduo em relação ao grupo.
Ainda que o instinto tenha um suporte orgânico, e não é mais do que a regulação deste numa função vital, o
complexo não tem senão ocasionalmente uma relação orgânica quando ele substitui uma insuficiência vital pela
regulação duma função social. Tal é o caso do complexo do desmame. Esta relação orgânica explica que a imago
da mãe esteja ligada às profundezas do psiquismo e que a sua sublimação seja particularmente difícil como é
manifesto no caso da criança «agarrada às saias da mãe» e por vezes na duração anacrónica deste vínculo.
A imago portanto deve ser sublimada para que novas relações se introduzam com o grupo social,
para que novos complexos as integrem no psiquismo. Na medida em que ela resiste a estas exigências, que são as
do progresso da personalidade, a imago, a princípio salutar, transforma-se num fator de morte.
O APETITE DA MORTE:
Que a tendência para a morte seja vivida pelo homem como objeto dum apetite, é uma realidade
que a análise faz aparecera todos os níveis do psiquismo; cabia ao inventor da psicanálise reconhecer o carácter
irredutível desta realidade, mas a explicação que dela nos deu por um instinto de morte, por mais deslumbrante
que seja, não é menos contraditório nos seus termos; de tal modo é verdade que o génio, mesmo no caso de
Freud, cede ao preconceito do biologista que exige que toda a tendência se refira a um instinto. Ora, a tendência
para a morte, que especifica o psiquismo do homem explica-se duma maneira satisfatória pela concepção que
desenvolvemos aqui, a saber que o complexo, unidade deste psiquismo não responde a funções vitais mas à,
insuficiência congénita destas funções.
Esta tendência psíquica para a morte, sob a forma original que lhe dá o desmame, revela-se em
suicídios muito especiais que se caracterizam como «não violentos», ao mesmo tempo que neles aparece a forma
oral do complexo: greve da fome da anorexia mental, envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca,
regime de fome das neuroses gástricas. A análise destes casos mostra que, no seu abandono à morte, o sujeito
procura reencontrar a imago da mãe. Esta associação mental não é somente mórbida. Ela é genérica, como se vê
na prática da sepultura, de que certos modos manifestam claramente o sentido psicológico de regresso ao seio da
mãe; como o revelam ainda as conexões estabelecidas entre a mãe e a morte, tanto pelas técnicas mágicas como
pelas concepções das teologias antigas; como é observado enfim em toda a experiência psicanalitica
suficientemente aprofundada.
O LAÇO DOMÉSTICO:
Mesmo sublimada, a imago do seio materno continua a desempenhar um papel psíquico
importante para o nosso assunto. A sua forma mais subtraída à consciência, a do habitat, encontra na habitação e
no seu limiar, sobretudo nas suas formas primitivas, a caverna, a cabana, um símbolo adequado.
Por isso, tudo o que constitui a unidade doméstica do grupo familiar torna-se para o indivíduo, à
medida que ele se torna mais capaz de o abstrair, o objeto duma afeição distinta daquelas que o unem a cada
membro deste grupo. Por isso ainda, o abandono das seguranças que comporta a economia familiar ao alcance
duma repetição do desmame e não é, a maior parte das vezes, senão nesta ocasião que o complexo é
suficientemente liquidado. Todo o regresso, fosse ele parcial, a estas seguranças, pode fazer iniciar no psiquismo
ruínas sem proporção com o benefício prático deste regresso.
Todo o acabamento da personalidade exige este novo desmame. O filósofo Hegel formula que o
indivíduo que não luta para ser reconhecido fora do grupo familiar não chega jamais à personalidade antes da
morte. O sentido psicológico desta tese aparecerá na continuação do nosso estudo. No que diz respeito à
dignidade pessoal, não é senão a das entidades nominais que a família promove o indivíduo e não o pode fazer
senão à hora da sepultura.
A NOSTALGIA DO TODO:
A saturação do complexo funda o sentimento maternal. A sua sublimação contribui para o
sentimento familiar; a sua liquidação deixa traços onde ela pode ser reconhecida: é esta estrutura da imago que
fica na base do progresso mental que reformularam. Se fosse preciso definir a forma mais abstrata onde ela é
encontrada, nós caracterizá-la-íamos assim: uma assimilação perfeita da totalidade ao ser. Sob esta fórmula de
aspecto um pouco filosófico, reconheceremos certas nostalgias da humanidade: miragem metafísica da harmonia
universal, abismo místico da fusão afetiva, utopia social duma tutela totalitária, todas as espécies de procura do
paraíso perdido, anterior ao nascimento e da mais obscura aspiração da morte.
5.4 O COMPLEXO DA INTRUSÃO:
O ciúme: arquétipo dos sentimentos sociais - O complexo da intrusão representa a experiência
que realiza o sujeito primitivo, a maior parte das vezes quando ele vê um ou vários dos seus semelhantes
participar com ele na relação doméstica, por outras palavras, logo que ele se descobre com irmãos. As condições
disso serão portanto muito variáveis, por um lado segundo as culturas e a extensão que elas dão ao grupo
doméstico, por outro lado, segundo as condições individuais, e primeiro conforme o lugar que o acaso dá ao
sujeito na ordem dos nascimentos, segundo a posição dinástica, digamos, que ele ocupa assim antes de todo o
conflito: a do possuidor ou a do usurpador.
O ciúme infantil impressionou, desde há muito tempo, os observadores: «Eu vi com os meus
olhos, diz o filósofo Agostinho de Hipona, e observei bem um pequeno tomado de ciúmes: ainda não falava e não
podia sem empalidecer, lançar o seu olhar para o espetáculo amargo do seu irmão de leite» (Livro Confissões, I,
VII). O fato aqui revelado à admiração do moralista ficou muito tempo reduzido ao valor dum tema de retórica,
utilizável para todos os fins apologéticos.
A observação experimental da criança e as investigações psicanalíticas, demonstrando a estrutura
do ciúme infantil, trouxeram à luz do dia o seu papel na génese da sociabilidade e, simultaneamente, do próprio
conhecimento enquanto humano. Digamos que o ponto crítico revelado por estas pesquisas é que o ciúme, no seu
fundo, representa não uma rivalidade vital mas uma identificação mental.
Nas crianças entre 6 meses e 2 anos sendo confrontadas por par e sem terceiro e deixadas à sua
espontaneidade lúdica, podemos constatar o facto seguinte: entre as crianças assim postas em presença surgem
reações diversas onde parece ser manifesta uma comunicação. Entre estas reações um tipo se distingue, pelo
facto de podermos aí reconhecer uma rivalidade objetivamente definível, esse tipo comporta com efeito entre os
sujeitos uma certa adaptação das posturas e dos gestos, a saber uma conformidade na sua alternação, uma
convergência na sua série, que os ordenam em provocações e réplicas e permitem afirmar, sem pré-julgar a
consciência dos sujeitos, que realizam a situação como tendo uma dupla saída, como uma alternativa. Na medida
desta adaptação, podemos admitir que a partir deste estádio se esboça o reconhecimento dum rival, quer dizer
dum «outro» como objeto. Ora, se uma tal reação pode ser muito precoce, ela mostra-se determinada por uma
condição tão dominante que aparece por isso como unívoca: a saber um limite que não pode ser ultrapassado no
intervalo de idade entre os sujeitos. Este limite restringe-se a dois meses e meio no primeiro ano do período
considerado e permanece assim estrito ao estender-se.
Se esta condição não é observada, as reações que observamos nas crianças confrontadas têm um
valor bastante diferente. Examinemos as mais frequentes: as da parada, da sedução, do despotismo. Embora dois
parceiros figurem aí, a relação que caracteriza cada um deles revela-se à observação, não como um conflito entre
dois indivíduos mas um em cada sujeito, como um conflito entre duas atitudes opostas e complementares, e esta
participação bipolar é constitutiva da situação em si. Para compreender esta estrutura, paremos um instante na
criança que se dá em espetáculo e naquele que o segue com o olhar: qual é o mais espectador? Ou melhor,
observemos a criança que prodigaliza para um outro as suas tentativas de sedução: onde está o sedutor? Enfim,
da criança que goza das provas da dominação que exerce e da que se compraz em se submeter a isso,
perguntemos qual é o mais submetido? Aqui realiza-se este paradoxo: que cada parceiro confunde a parte do
outro com a sua própria e identifica-se com ele (processo de projeção); mas que ele pode sustentar esta relação
numa participação propriamente insignificante deste outro e viverentão toda a situação sozinho, manifesta a
discordância por vezes total entre as suas condutas. O mesmo é dizer que a identificação, específica das condutas
sociais, neste estádio, se funda sobre um sentimento do outro, que não se pode senão desconhecer sem uma
concepção corrente do seu valor completamente imaginário.
A IMAGO DO SEMELHANTE:
Qual é então a estrutura desta imago? Uma primeira indicação é nos dada pela condição,
reconhecida anteriormente como necessária a uma adaptação real entre parceiros, a saber um intervalo de idade
estreitamente limitado. Se nos referimos ao facto que este estádio é caracterizado por transformações da
estrutura nervosa bastante rápidas e profundas para dominar as diferenciações individuais, compreenderemos
que esta condição equivale à exigência de uma semelhança entre os sujeitos. Parece que a imago do outro é
ligada à estrutura do corpo próprio e mais especialmente das suas funções de relação, por uma certa semelhança
objetiva.
A doutrina da psicanálise permite penetrar melhor no problema. Mostra-nos no irmão, no sentido
neutro, o objeto eletivo das exigências da libido que, no estádio que estudamos, são homossexuais. Mas também
insiste na confusão neste objeto de duas relações afetivas, amor e identificação, cuja oposição será fundamental
nos estádios posteriores.
Esta ambiguidade originária reencontra-se no adulto, na paixão do ciúme amoroso e é aí que
melhor se pode observá-la. Ela deve ser reconhecida, com efeito, no poderoso interesse que o sujeito tem na
imagem do rival: interesse que, embora se afirme como ódio, quer dizer como negativo, e ainda que seja
motivado pelo pretenso objeto de amor, nem por isso deixa de aparecer cultivado pelo sujeito da maneira mais
gratuita e mais custosa e muitas vezes domina a tal ponto o sentimento amoroso ele-próprio, que deve ser
interpretado como interesse essencial e positivo da paixão. Este interesse confunde em si a identificação e o amor
e, por só aparecer mascarado no registo do pensamento do adulto, nem por isso deixa de conferir à paixão que
ele sustém esta irrefutabilidade que a aparenta à obsessão. A agressividade máxima que nós reencontramos nas
formas psicóticas (doentias) da paixão é constituída bem mais pela negação deste interesse singular que pela
rivalidade que a parece justificar.
Mas é muito especialmente na situação fraternal primitiva que a agressividade se demonstra
como secundária à identificação. A doutrina freudiana permanece incerta neste ponto; a ideia darwiniana de que
a luta está nas próprias origens da vida guarda com efeito um grande crédito junto do biologista; mas sem dúvida
é preciso reconhecer aqui o prestígio menos criticado duma ênfase moralizante, que se transmite em lugares
comuns, tais como: homo homini lupus. É evidente, pelo contrário, que a amamentação constitui precisamente
para os jovens uma neutralização temporária das condições da luta pela nutrição.
Este significado é ainda mais evidente no homem. O aparecimento do ciúme relacionado com a
amamentação segundo o tema clássico ilustrado anteriormente por uma citação de Santo Agostinho, deve pois
ser interpretado prudentemente. Com efeito, o ciúme pode manifestar-se nos casos em que o sujeito, depois de
há muito tempo desmamado, não está em situação de concorrência vital em relação ao seu irmão. O fenómeno
parece pois exigir como prévia uma certa identificação ao estádio do irmão. De resto, a doutrina analítica,
caracterizando como sado- masoquista a tendência típica da libido (energia sexual) neste mesmo estádio, sublinha
certamente que a agressividade domina então a economia afetiva, mas também que ela é sempre conjuntamente
sofrida e agida, quer dizer sustentada por uma identificação ao outro, objeto da violência.
Lembremos que este papel de íntima dobragem que joga o masoquismo no sadismo, foi posto em
relevo pela psicanálise e que é o enigma que constitui o masoquismo na economia dos instintos vitais que
conduziu Freud a afirmar um instinto de morte.
Se alguém quiser seguir a ideia que indicamos anteriormente, e designar conosco no mal-estar do
desmame humano a origem do desejo de morte, reconhecer-se-á no masoquismo primário o momento dialético
onde o sujeito assume pelos seus primeiros atos de jogo a reprodução deste próprio mal-estar e através dele, o
sublima e o transpõe. Foi bem assim, que os jogos primitivos da criança apareceram ao olhar conhecedor de
Freud: esta alegria da primeira infância de rejeitar um objeto do campo do seu olhar, e depois, uma vez
reencontrado este, de renovar inesgotavelmente a sua exclusão, significa bem que é o patético do desmame que
o sujeito se inflige de novo, tal como o sofreu, mas do qual triunfa agora que é ativo na sua reprodução.
O desdobramento assim esboçado no sujeito, é a identificação ao irmão que lhe permite de o
acabar: fornece a imagem que fixa um dos pólos do masoquismo primário. Assim a não-violência do suicídio
primordial engendra a violência do assassínio imaginário do limão. Mas esta violência não tem relação com a luta
pela vida. O objeto que escolha a agressividade nos primitivos jogos da morte é, com efeito, gnizo ou resíduo,
biologicamente indiferente: o sujeito abole-o gratuitamente, de algum modo por prazer, e não faz mais que
consumar assim a perda do objeto maternal. A imagem do irmão não desmamado não dá origem a uma agressão
especial senão porque ela repete no sujeito a imago da situação maternal e com ela o desejo da morte. Este
fenómeno é secundário à identificação.
O ESTÁDIO DO ESPELHO:
A identificação afetiva é uma função psíquica de que a psicanálise estabeleceu a originalidade,
especialmente, como veremos, no complexo de Édipo. Mas o emprego deste termo no estádio que estudamos fica
mal definido na doutrina; é o que tentamos substituir por uma teoria desta identificação, da qual designamos o
momento genético sob o termo de estádio do espelho.
O estádio assim considerado corresponde ao declínio do desmame, quer dizer ao fim destes 6
meses em que a dominante psíquica do mal-estar correspondente ao atraso do crescimento físico, traduz esta
prematuridade do nascimento que é, como dissemos, o fundo específico do desmame no homem. Ora, o
reconhecimento pelo sujeito da sua imagem no espelho é um fenómeno que, pela análise deste estádio, é
duplamente significativo: o fenómeno aparece depois dos seis meses e o seu estudo neste momento revela de
maneira demonstrativa as tendências que constituem então a realidade do sujeito; a imagem especular,
precisamente por causa destas afinidades, dá um bom símbolo desta realidade: do seu valor afetivo, ilusório como
a imagem, e da sua estrutura, como ela reflexo da forma humana.
A percepção da forma do semelhante como unidade mental está ligada no ser vivo a um nível
correlativo de inteligência e de sociabilidade. A imitação de um sinal mostra-a, reduzida, no animal de rebanho; as
estruturas ecomímicas, eco- praxísticas, manifestam a infinita riqueza desta no macaco e no homem. É o sentido
primário do interesse que um e outro manifestam na sua imagem especular. Mas se os seus comportamentos à
vista desta imagem, sob a forma de tentativas de apreensão manual, parecem assemelhar-se, estes jogos não
dominam no homem senão um momento, no fim do primeiro ano, «idade do Chimpanzé» porque o homem passa
aí por um semelhante nível de inteligência instrumental.
POTÊNCIA SEGUNDA DA IMAGEM ESPECULAR:
Ora o fenómeno de percepção que se produz no homem desde o sextomês, apareceu desde este
momento sob uma forma totalmente diferente, característica duma intuição iluminativa, a saber, sobre o fundo
duma inibição atenta, súbita revelação do comportamento adaptado (aqui gesto de referência a alguma parte do
corpo próprio); depois este desperdício jubiloso de energia que assinala objetivamente o triunfo; esta dupla
reação deixando entrever o sentimento de compreensão sob a sua forma inefável. Estes caracteres traduzem na
nossa opinião o sentido secundário que o fenómeno recebe das condições libidinais que acompanham o seu
aparecimento. Estas condições não são tensões provenientes dos meses de pre-maturação e que parecem traduzir
uma dupla ruptura vital: ruptura desta imediata adaptação ao meio que define o mundo do animal pela sua
conaturalidade; ruptura desta unidade do funcionamento do ser vivo que subordina no animal a percepção à
pulsão.
Neste estádio a discordância no homem quer das pulsões quer das funções não é senão a
continuação da incoordenação prolongada dos aparelhos. Daí resulta um estádio afetivamente e mentalmente
constituído na base duma proprioceptividade que dá o corpo como fragmentado: por um lado, o interesse
psíquico encontra-se deslocado sobre as tendências visando a um certo recolar do corpo próprio; por outro, a
realidade, submetida primeiro a uma fragmentação (morcellement) perceptiva cujo caos atinge mesmo as suas
categorias, «espaços», por exemplo tão disparatados como as estáticas sucessivas da criança, ordena-se refletindo
as formas do corpo, que dão de qualquer maneira o modelo de todos os objetos.
Trata-se aqui de uma estrutura arcaica do mundo humano de cujo inconsciente a análise mostrou
os profundos vestígios: fantasmas de desmembramento, de deslocação do corpo, entre os quais os da castração
não são mais do que uma imagem valorizada por um complexo particular; a imago do duplo cujas objetivações
fantásticas, tais como diversas causas as realizam nas diversas idades da vida, revelam ao psiquiatra que ela evolui
com o crescimento do sujeito; enfim, este simbolismo antropomórfico e orgânico dos objetos de que a psicanálise
fez a prodigiosa descoberta, nos sonhos e nos sintomas.
A tendência pela qual o sujeito restaura a unidade perdida de si mesmo, toma lugar, desde a
origem, no centro da consciência. Ela é fonte de energia do seu progresso mental, progresso cuja estrutura é
determinada pela predominância das funções visuais. Se a procura da sua unidade afetiva promove no sujeito as
formas em que se representa a sua identidade, a forma mais intuitiva é dada nesta fase, pela imagem especular. O
que o sujeito saúda nela, é a unidade mental que lhe é inerente. O que nela reconhece, é o ideal da imago do
duplo. O que nela aclama é o triunfo da tendência salutar.
ESTRTURA NARCÍSICA DO EU:
O mundo próprio desta fase é portanto um mundo narcísico. Designando-o assim não evocamos
somente a sua estrutura libidinal pelo mesmo termo no qual Freud e Abraham, desde 1908, assinaram o sentido
puramente energético de investimento da libido sobre o corpo próprio; queremos também penetrar na sua
estrutura mental com o sentido pleno do mito de Narciso; que este sentido indica a morte: a insuficiência vital a
partir da qual este mundo procedeu; ou a reflexão especular; a imago do duplo que lhe é central; ou a ilusão da
imagem: este mundo, iremos vê-lo, não contém outrem.
A percepção da atividade do outro não chega com efeito, a romper o isolamento afetivo do
sujeito. Enquanto que a imagem do semelhante não desempenha senão o seu papel primário, limitado à função
de expressividade, ele desencadeia no sujeito emoções e posturas similares, pelo menos na medida em que o
permite a estrutura atual dos seus aparelhos. Mas enquanto suporta esta sugestão emocional ou motriz, o sujeito
não se distingue da imagem.
Para mais, na discordância característica desta fase, a imagem não faz mais do que juntar a
intrusão temporária duma tendência narcísica: a unidade que ela introduz nas tendências contribuirá no entanto à
formação do eu. Mas antes que o eu afirme a sua identidade confunde-se com esta imagem que o aliena
primordialmente.
Diremos que o eu conservará desta origem a estrutura ambígua do espetáculo que, manifesta nas
situações acima descritas do despotismo, da sedução, da parada, dá a sua forma a pulsões, sado-masoquista e
escoptofílica (desejo de ver e de ser visto), destruidoras do outrem na sua essência. Notemos também que esta
intrusão primordial faz compreender toda a projeção do eu constituído, quer ela se manifeste como mitomaníaca
na criança cuja identificação pessoal ainda vacila, como transitivista no paranoico (estado anormal do indivíduo)
cujo eu regressa a um estádio arcaico, quer ela se manifeste como compreensiva, quando é integrada num eu
normal.
O DRAMA DO CIÚME: O EU E O OUTREM:
O eu constitui-se ao mesmo tempo que o outrem no drama do ciúme. Para o sujeito, é uma
discordância que intervém na satisfação espetacular devido à tendência que esta sugere. Ela implica a introdução
dum terceiro objeto, que, na confusão afetiva, como na ambiguidade espetacular substitui a concorrência duma
situação triangular. Assim o sujeito, comprometido no ciúme por identificação, desemboca sobre uma alternativa
nova onde se joga o destino da realidade: ou ele reencontra o objeto maternal agarrando-se à recusa do real e à
destruição do outro; ou então levado a outro objeto qualquer, ele recebe-o sob a forma característica do
conhecimento humano, como objeto comunicável, pois que concorrência implica por vezes rivalidade e acordo;
mas ao mesmo tempo ele reconhece o outro com o qual se empenha na luta ou no contrato, numa palavra ele
encontra por vezes o outrem e o objeto socializado. Aqui ainda o ciúme humano se distingue da rivalidade vital
imediata, pois que ela forma o seu objeto mais que o determina; ele revela-se como o arquétipo de sentimentos
sociais.
O eu assim concebido não encontra antes da idade dos 3 anos a sua constituição essencial: é a
mesma constituição da objetividade fundamental do conhecimento humano. Ponto notável, esta tira a sua
riqueza e o seu poder da insuficiência vital do homem nas suas origens. O simbolismo primordial do objeto
favorece tanto a sua extensão fora dos limites dos instintos vitais quanto a sua percepção como instrumento. A
sua socialização pela simpatia ciumenta funda a sua permanência e a sua substancialidade.
Tais são os traços essenciais do papel psíquico do complexo fraternal. Eis algumas aplicações. O
papel traumatizante do irmão no sentido neutro é pois constituído pela sua intrusão. O fato e a época da sua
aparição determinam o seu significado para o sujeito. A intrusão parte da vinda do novo para infestar o ocupante;
na família, é em regra geral o fato de um nascimento e é o mais velho que em princípio faz o papel do paciente.
A reação do paciente ao traumatismo depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido
pelo intruso na confusão do desmame, reativa-o sem cessar ao seu espetáculo: faz assim uma regressão que se
revelará, segundo os destinos do eu, como psicose esquizofrénica (rejeição da realidade e transtorno mental) ou
como neurose hipocondríaca (pensamento excessivo de estar doente ou que vai estar, de que acontecerá algo
ruim consigo mesmo); ou então ele reage pela destruição imaginária do monstro, o que de igual modo virá dar
impulsos perversos (sociopáticos) ou uma culpabilidade obsessiva (autoflagelar-se mentalmente).
Pelo contrário, se o intruso nãosurge senão depois do complexo de Édipo, é adoptado mais vezes
no plano das identificações parentais, mais densas afetivamente e mais ricas de estrutura, como se irá ver. Ele já
não é para o sujeito o obstáculo ou reflexo, mas uma pessoa digna de amor ou de ódio. As pulsões agressivas
sublimam-se em ternura ou em severidade.
Mas o irmão dá também o modelo arcaico do eu. Aqui o papel de agente volta ao mais velho
como o mais acabado. Quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a
síntese do eu e mais reais as formas de objetividade. Será esta fórmula confirmada pelo estudo dos gémeos?
Sabe-se que numerosos mitos lhes imputam o poder do herói, pelo qual é restaurada na realidade a harmonia do
seio materno, mas é pelo preço dum fratricídio. Seja ele qual for, é pelo semelhante que o objeto, assim como o
eu se realiza: quanto mais ele pode assimilar do seu parceiro, mais o sujeito conforta ao mesmo tempo a sua
personalidade e a sua objetividade, garantes da sua futura eficácia.
Mas o grupo familiar dos irmãos, diversos em idade e sexo, é favorável às identificações mais
discordantes do eu. A imago primordial do duplo sobre o qual o eu se modela parece a princípio dominada pelas
fantasias da forma, como aparece no fantasma comum aos dois sexos, da mãe fálica ou no duplo fálico da mulher
neurótica. Tanto mais facilmente se fixará ela em formas atípicas, onde pertenças acessórias poderão
desempenhar um papel tão grande como as diferenças orgânicas; e ver-se-á, conforme ao impulso, suficiente ou
não, do instinto sexual, esta identificação da fase narcísica, seja engendrar as exigências formais duma
homossexualidade ou de qualquer fetichismo sexual, seja, no sistema dum eu paranoico, objetivar-se num tipo de
perseguidor exterior ou íntimo.
As conexões da paranoia com o complexo fraternal manifestam-se pela frequência dos temas de
filiação, de usurpação, de expoliação, assim como a sua estrutura narcísica se revela nos termos mais paranoides
da intrusão, da influência, do desdobramento, do duplo e de todas as transmutações delirantes do corpo.
Estas conexões explicam-se pelo fato de que o grupo familiar, reduzido à mãe e à fratria, desenha
um complexo psíquico onde a realidade tende a ficar imaginária ou mais ou menos abstrata. A clínica mostra que
efetivamente o grupo assim não completo é muito favorável à eclosão de psicoses e que aí se encontram a maior
parte dos casos de delírios (estados anormais) a dois
5.5 O COMPLEXO DE ÉDIPO:
É ao descobrir na análise das neuroses os fatos edipianos que Freud trouxe a luz do dia o conceito
do complexo. Tendo em vista o número das relações psíquicas a que interessa, o complexo de Édipo, exposto em
mais de um ponto desta obra, impõe-se aqui — e ao nosso estudo, pois que ele define mais particularmente as
relações psíquicas na família humana — e à nossa crítica tanto mais que Freud dá este elemento psicológico como
a forma específica da família humana e lhe subordina todas as variações sociais da família. A ordem metódica aqui
proposta, tanto na consideração das estruturas mentais como dos fatos sociais conduzirá a uma revisão do
complexo que permitirá situar na história a família paternalista.
A psicanálise revelou na criança pulsões genitais cujo apogeu se situa aos quatro anos. Sem nos
estendermos aqui sobre a sua estrutura, digamos que elas constituem uma espécie de puberdade psicológica,
muito prematura, como se vê, em relação à puberdade fisiológica. Fixando a criança por um desejo sexual ao
objeto mais próximo que lhe oferecem normalmente a presença e o interesse, a saber o progenitor de sexo
oposto, estas pulsões dão a sua base ao complexo; a sua frustração forma o seu nó. Ainda que inerente à
prematuracão essencial destas pulsões, esta frustração está relacionada pela criança ao terceiro objeto que as
mesmas condições de presença e de interesse lhe designam normalmente como o obstáculo à sua satisfação: a
saber o progenitor do mesmo sexo.
A frustração que ele experimenta acompanha-se, com efeito, comumente de uma repressão
educativa que tem por fim impedir todo o fim destas pulsões e especialmente a sua realização masturbatória. Por
outro lado, a criança adquire uma certa intuição da situação que lhe é interdita tanto pelos sinais discretos e
difusos que atraiçoam à sua sensibilidade as relações parentais como pelos acasos intempestivos que se lhe
desvelam. Por este duplo processo, o progenitor do mesmo sexo aparece à criança ao mesmo tempo como o
agente da interdição sexual e o exemplo da sua transgressão.
A tensão assim constituída resolve-se, por um lado, por um recalcamento ou repressão da
tendência sexual que, a partir desta altura, ficará latente — dando lugar a interesses neutros, eminentemente
favoráveis às aquisições educativas — até à puberdade; por outro lado, pela sublimação da imagem parental que
perpetuará na consciência o ideal representativo (o imago), garantia da coincidência futura das atitudes psíquicas
e das atitudes fisiológicas na altura da puberdade. Este duplo processo tem uma importância genética
fundamental porque ele inscreve-se no psiquismo em duas instâncias permanentes: aquela que recalca chama-se
o Supereu ou Superego, e a que sublima, o ideal do eu. Elas representam o fim da crise edipiana.
Valor objetivo do complexo — Este esquema essencial do complexo responde a um grande
número de dados da experiência. A existência da sexualidade infantil é doravante incontestada; de resto, ao ter-
se revelado historicamente por essas sequelas da sua evolução que constituem as neuroses (existência de tensão
excessiva e prolongada, de conflito persistente ou de uma necessidade longamente frustrada), ela é acessível à
observação mais imediata e o seu desconhecimento secular é uma prova gritante da relatividade social do saber
humano. As instâncias psíquicas que sob o nome do super-eu e do ideal do eu foram isoladas numa análise
concreta dos sintomas das neuroses, manifestaram o seu valor científico na definição e na explicação dos
fenômenos da personalidade; há aí uma ordem de determinação positiva que dá conta de uma multidão de
anomalias do comportamento humano e ao mesmo tempo torna caducas para estas perturbações as referências à
ordem orgânica que ainda que de puro princípio ou simplesmente míticas, tomam o lugar de método
experimental em toda uma tradição médica.
A bem dizer, este preconceito que atribui à ordem psíquica um caráter epifenomenal, quer dizer
inoperante, era favorecido por uma análise insuficiente dos fatores desta ordem e é precisamente à luz da
situação definida como edipiana que tais acidentes da história do sujeito tomam a significação e a importância
que permitem relacionar-lhes tal traço individual da sua personalidade; pode-se mesmo precisar que logo que
estes acidentes afetem a situação edipiana como traumatismos na sua evolução, repetem-se antes nos efeitos do
super-eu; se eles o afetam como atipias na sua constituição, é mais nas formas do ideal do eu que se refletem.
Assim, como inibições da atividade criadora ou como inversões da imaginação sexual, um grande número de
perturbações, das quais muitas aparecem ao nível das funções somáticas (orgânicas) elementares, encontraram a
sua redução teórica e terapêutica.
A FAMÍLIA SEGUNDO FREUD:
Descobrir que desenvolvimentos tão importantes para o homem como os da repressão sexual e
do sexo psíquico estavam submetidos à regulação e aos acidentes de um drama psíquico da família, era fornecer a
mais preciosacontribuição à antropologia do grupo familiar, e especialmente ao estudo das interdições que este
agrupamento formula universalmente e que tem por objeto o comércio sexual entre certos dos seus membros.
Assim Freud chegou rapidamente a formular uma teoria da família. Ela era fundada sobre uma dissimetria,
aparecida desde as primeiras investigações na situação dos dois sexos em relação ao Édipo. O processo que vai do
desejo edipiano à sua repressão não aparece tão simples como primeiro o expusemos, senão na criança do sexo
masculino. É por isso que este último é tornado constantemente como sujeito nas exposições didáticas do
complexo.
O desejo edipiano aparece, com efeito, muito mais intenso no rapaz e portanto pela mãe. Por
outro lado, a repressão revela, no seu mecanismo, traços que não parecem de início justificáveis a não ser que, na
sua forma típica, ela se exerça do pai ao filho. Isso é realizado pelo complexo de castração. Esta repressão opera-
se por um duplo movimento afetivo do sujeito: agressividade contra o pai face ao qual o seu desejo sexual o
coloca em posição de rival; temor secundário, experimentado em resposta a uma tal agressão. Ora um fantasma
sustém estes dois movimentos, tão importantes que ele foi individualizado com eles num complexo dito de
castração. Se este termo se justifica pelos fins agressivos e repressivos que aparecem neste momento do édipo,
ele é no entanto pouco conforme ao fantasma que constitui o seu fato original.
Este fantasma consiste essencialmente na mutilação de um membro, quer dizer, numa sevícia que
não pode servir senão para castrar o macho. Mas a realidade aparente deste perigo, junto ao facto da ameaça ser
realmente formulada por uma tradição educativa, devia levar Freud a concebê-lo como sentido primeiro pelo seu
valor real e a reconhecer num temor inspirado de macho a macho, de fato pelo pai, o protótipo da repressão
edipiana. Nesta via, Freud recebia um apoio de um dado sociológico: não somente a interdição do incesto com a
mãe tem um carácter universal, através das relações de parentesco infinitamente diversas e muitas vezes
paradoxais que as culturas primitivas marcam pelo tabu do incesto, mas ainda, qualquer que seja numa cultura o
nível da consciência moral, esta interdição é sempre expressamente formulada e a sua transgressão é marcada
por uma reprovação constante.
É assim que Freud dá o salto teórico cujo caráter abusivo marcamos na nossa introdução: da
família conjugal que ele observava nos seus sujeitos, a uma hipotética família primitiva concebida como uma
horda que um macho domina pela sua superioridade biológica açambarcando as fêmeas nubentes. Freud baseia-
se na ligação que se constata entre os tabus e as observâncias face ao totem, umas vezes objeto de inviolabilidade
e outras de orgia sacrificial. Ele imagina um drama de assassínio do pai pelos filhas, seguido de uma consagração
póstuma do seu poder sobre as mulheres pelos, assassínios prisioneiros de uma insolúvel rivalidade:
acontecimento primordial, donde, com o tabu da mãe teria saído toda a tradição Moral e cultural.
Mesmo se esta construção não fosse arruinada pelas únicas petições de princípio que ela
comporta — atribuir a um grupo biológico a possibilidade, que se trata justamente de fundar, do reconhecimento
duma lei — mesmo as suas premissas pretensamente biológicas, a saber a tirania permanente exercida pelo chefe
da horda, reduzir-se-iam a um fantasma cada vez mais incerto à medida que avança o nosso conhecimento dos
Antropoides. Mas sobretudo os vestígios universalmente presentes e a larga sobrevivência de uma estrutura
matriarca) da família, a existência na sua área de todas as formas fundamentais da cultura, e especialmente de
uma repressão frequentemente muito rigorosa da sexualidade manifestam que a ordem da família humana tem
fundamentos subtraídos à força do macho.
Parece-nos portanto que a imensa colheita de fatos que o complexo de Édipo permitiu objetivar
desde há alguns cinquenta anos, pode esclarecer a estrutura psicológica da família, muito mais que as intuições
apressadas que expusemos.
AS FUNÇÕES DO COMPLEXO: REVISÃO PSICOLÓGICA:
O complexo de Édipo marca todos os níveis do psiquismo; mas os teóricos da psicanálise não
definiram sem ambiguidade as funções que ele aí preenche; falta-lhes ter distinguido suficientemente os planos
de desenvolvimento sobre os quais eles o explicam. Se o complexo lhes aparece com efeito como o eixo segundo
o qual a evolução da sexualidade se projeta na constituição da realidade, estes dois planos divergem no homem
por uma incidência especifica, que é na verdade reconhecida por eles como repressão da sexualidade e
sublimação da realidade, mas deve ser integrada numa concepção mais rigorosa destas relações de estrutura o
papel de maturação que desempenha o complexo num e noutro destes planos não podendo ser tido por paralelo
senão aproximadamente.
MATURAÇÃO DA SEXUALIDADE:
O aparelho psíquico da sexualidade revela-se primeiro na criança sob as formas mais aberrantes
em relação aos seus fins biológicos, e a sucessão destas formas testemunha que é por uma maturação progressiva
que ele se conforma à organização genital. Esta maturação da sexualidade condiciona o complexo de Édipo,
formando as suas tendências fundamentais, mas, inversamente, o complexo favorece-a dirigindo-a para os seus
objetos.
O movimento de Édipo opera-se, com efeito, por um conflito triangular no sujeito; já vimos o jogo
das tendências saídas do desmame produzir uma formação desta espécie; é também a mãe, objeto primeiro
destas tendências, como sustento a absorver e mesmo como seio onde se reabsorver que se propões em primeiro
lugar ao desejo edipiano. Compreende-se assim que este desejo se caracteriza melhor no macho, mas também
que ele aí presta uma ocasião singular à reativação das tendências do desmame, quer dizer a uma regressão
sexual. Estas tendências não constituem somente, com efeito, um impasse psicológico; elas opõem-se
particularmente à atitude de exteriorização, conforme à atividade do macho. Pelo contrário, no outro sexo, onde
estas tendências têm uma saída possível no destino biológico do sujeito, o objeto materno, desviando uma parte
do desejo edipiano, tende muitas vezes a neutralizar o potencial do complexo e, por aí, os seus efeitos de
sexualização, mas, impondo uma mudança de objeto, a tendência genital destaca-se melhor das tendências
primitivas e é tanto mais fácil quanto ela não tem que derrubar a atitude de interiorização herdada destas
tendências, que são narcísicas.
Assim chegamos a esta conclusão ambígua que, de um sexo a outro, quanto mais a formação do
complexo está marcada, mais aleatório parece ser o seu papel na adaptação sexual.
CONSTITUIÇÃO DA REALIDADE:
Vê-se aqui a influência do complexo psicológico sobre uma relação vital e é deste modo que ele
contribui para a constituição da realidade. O que ele aí traz furta-se aos termos de uma psicogénese
intelectualista: é uma certa profundidade afetiva do objeto. Dimensão que, pelo facto de ser a base de toda a
compreensão subjetiva, não se distinguiria dela como fenómeno, se a clínica das doenças mentais não nula fizesse
ver como tal propondo toda uma série das suas degradações aos limites da compreensão.
Para constituir com efeito uma norma do vivido, esta dimensão só pode ser reconstruída por
intuições metafóricas: densidade que confere a existência ao objeto, perspetiva que nos dá o sentimento da sua
distância e nos inspira o respeito do objeto. Mas elademonstra-se nestes vacilamentos da realidade que fecunda
o delírio: quando o objeto tende a confundir-se com o eu ao mesmo tempo que a reabsorver-se em fantasma,
quando aparece decomposto segundo um destes sentimentos que formam o espectro da irrealidade, desde os
sentimentos de estranheza, do já visto, do nunca visto, passando pelos falsos reconhecimentos, as ilusões de
sósia, os sentimentos de adivinhação, de participação, de influência, as intuições de significação, para acabar no
crepúsculo do mundo e a esta abolição afetiva designada formalmente em alemão como perda do objeto.
Estas qualidades tão diversas do vivido, a psicanálise explica-as por variações da quantidade de
energia vital que o desejo investe no objeto. A fórmula, por muito verbal que possa parecer, responde, para os
psicanalistas, a um dado da sua prática; eles contam com este investimento nas transferências operatórias das
suas curas; é sobre os recursos que ele oferece que os psicanalistas devem fundar a indicação do tratamento.
Assim eles reconheceram nos sintomas acima citados os índices de um investimento demasiado narcísico da
libido, enquanto que a formação do édipo aparecia como o momento e a prova de um investimento suficiente
para a transferência.
Este papel do édipo seria correlativo da maturação da sexualidade. A atitude instaurada pela
tendência genital cristalizaria segundo o seu tipo normal a relação vital com a realidade. Caracteriza-se esta
atitude pelos termos de doação e de sacrifício, termos grandiosos, mas cujo sentido permanece ambíguo e hesita
entre a defesa e a renúncia. Através deles uma concepção audaciosa reencontra o conforto secreto de um tema
moralizante: na passagem da captatividade, confunde-se muitas vezes a prova vital e a prova moral.
Esta concepção pode ser definida como uma psicogénese analógica; ela é conforme ao defeito
mais marcante da doutrina analítica: negligenciar a estrutura em proveito do dinamismo. Portanto a própria
experiência analítica traz uma contribuição ao estudo das formas mentais demonstrando a sua relação — seja de
condições, seja de soluções — com as crises afetivas. É diferenciando o jogo formal do complexo que se pode
estabelecer, entre a sua função e a estrutura do drama que lhe é essencial, uma relação mais fixa.
REPRESSÃO DA SEXUALIDADE:
O complexo de Édipo, se marca o cume da sexualidade infantil, é também a mola da repressão
que reduz as suas imagens ao estado de latência até à puberdade; se ele determina uma condensação da
realidade no sentido da vida, ele é também o momento da sublimação que no homem abre a esta realidade a sua
extensão desinteressada.
As formas sobre as quais se perpetuam estes efeitos são designados como superego ou ideal do
eu, conforme elas forem para o sujeito inconscientes ou conscientes. Reproduzem, diz-se, a imago do progenitor
do mesmo sexo, o ideal do eu contribuindo assim ao conformismo sexual do psiquismo. Mas a imago do pai teria,
segundo a doutrina, nestas duas funções, um papel prototípico em razão da dominação do macho.
Para a repressão da sexualidade, esta concepção repousa, já o indicamos, sobre o fantasma da
castração. Se a doutrina o relaciona a uma ameaça real, é que antes de mais, genialmente dinamista para
reconhecer as tendências, Freud permanece fechado pelo atomismo tradicional à noção de autonomia das
formas; é assim que ao observar a existência do mesmo fantasma na menina ou de uma imagem fálica da mãe nos
dois sexos, ele é forçado a explicar estes fatos por precoces revelações da dominação do macho, revelações que
conduziriam a menina à nostalgia da virilidade, a criança a conceber a sua mãe como viril. Génese que, por
encontrar um fundamento na identificação, requer a uso uma tal sobrecarga de mecanismos que parece errónea.
Ora, o material da experiência analítica sugere uma interpretação diferente; o fantasma de
castração é com efeito precedido por toda uma série de fantasmas de desmembramento do corpo que vão em
regressão da deslocação e do desmembramento, pela castração, e desventramento, até à devoração e
enterramento.
O exame destes fantasmas revela que a sua série se inscreve numa forma de penetração com
sentido destruidor e investigador simultaneamente, que visa o segredo do seio materno, enquanto que esta
relação é vivida pelo sujeito sob um modo mais ambivalente em proporção do seu arcaísmo. Mas os
investigadores que melhor compreenderam a origem materna destes fantasmas, não se agarram senão à simetria
e à extensão que eles trazem à formação do Édipo, revelando por exemplo a nostalgia da maternidade no rapaz. O
seu interesse está aos nossos olhos na irrealidade evidente da sua estrutura: o exame destes fantasmas que se
encontram nos sonhos e em certas impulsões permite afirmar que eles não se relacionam a nenhum corpo real,
mas a um manequim heteróclito, a uma boneca barroca, a um troféu de membros onde é preciso reconhecer o
objeto narcísico do qual já indicamos acima a génese: condicionado pela precessão, no homem, de formas
imaginárias do corpo sobre o domínio do próprio corpo, pelo valor de defesa que o sujeito dá a estas formas,
contra a angústia da dilaceração vital, fato da prematuração.
O fantasma de castração relaciona- se a este mesmo objeto: a sua forma, nascida antes do corpo
próprio, antes de qualquer distinção de uma ameaça do adulto, não depende do sexo do sujeito e determina
antes que ela sofra as fórmulas da tradição educativa. Ele representa a defesa que o eu narcísico, identificado ao
seu duplo especular, opõe ao regresso de angústia que, no primeiro momento do Édipo, tende a abalá-lo: crise
que não causa tanto a irrupção do desejo genital no sujeito quanto o objeto que ele reatualiza, a saber a mãe. À
angústia reacordada por este objeto, o sujeito responde reproduzindo a rejeição masoquista pela qual ele superou
a sua perda primordial, mas ele opera-o segundo a estrutura que adquiriu quer dizer numa localização imaginária
da tendência.
Uma tal génese da repressão sexual não existe sem referência sociológica; ela exprime-se nos
ritos pelos quais os primitivos manifestam que esta repressão está ligada às raízes do laço social: ritos de festa
que, para libertar a sexualidade, aí designam pela sua forma orgíaca o momento da reintegração afetiva no Todo;
ritos de circuncisão que, por sancionar a maturidade sexual, manifestam que a pessoa não ascende aí senão pelo
preço de uma mutilação corporal.
Para definir no plano psicológico esta génese da repressão, deve reconhecer-se no fantasma de
castração o jogo imaginário que a condiciona, na mãe o objeto que a determina. É a forma radical das
contrapulsões que se revelam à experiência analítica para constituir o nó mais arcaico do super-eu e para
representar a repressão mais maciça. Esta força reparte-se com a diferenciação desta forma, quer dizer com o
progresso por onde o sujeito realiza a instância repressiva na autoridade do adulto; não se poderia compreender
doutra maneira este fato, aparentemente contrário à teoria, que o rigor com o qual o super-eu inibe as funções do
sujeito tende a estabelecer-se em razão inversa das severidades reais da educação. Ainda que o super-eu já
receba da única repressão maternal (disciplinas do desmame e dos esfíncteres) traços da realidade, é no complexo
de Édipo que ele ultrapassa a sua forma narcísica.
SUBLIMAÇÃO DA REALIDADE:
Aqui introduz-se o papel deste complexo na sublimação da realidade. Devemos partir, para o
compreender, do momento em que a doutrinamostra a solução do drama, a saber da forma que ela descobriu, da
identificação. É, com efeito, em razão de uma identificação do sujeito à imago do pai ido mesmo sexo que o super-
eu e o ideal ido eu podem revelar à experiência traços conformes às particularidades desta imago.
A doutrina vê aí o índice de um narcisismo secundário; ela não distingue esta identificação da
identificação narcísica: há aí igualmente assimilação do sujeito ao objeto, ela não vê aí outra diferença senão a
constituição, com o desejo edipiano, de um objeto de mais realidade, opondo-se a um eu melhor formado; da
frustração deste desejo resultaria, segundo as constantes do hedonismo, o regresso do sujeito à sua primordial
voracidade de assimilação e da formação do eu, uma imperfeita introjeção do objeto: a imago, por se impor ao
sujeito, justapõe-se somente ao eu nas duas exclusões do inconsciente e do ideal.
ORIGINALIDADE DA IDENTIFICAÇÃO EDIPIANA:
Uma análise mais estrutural ida identificação edipiana permite portanto reconhecer-lhe uma
forma mais distintiva. O que aparece em primeiro lugar, é a antinomia das funções que desempenha no sujeito a
imago parental: por um lado, ela inibe a função sexual, mas sob uma forma inconsciente, porque a experiência
mostra que a ação do super-eu contra as repetições da tendência permanece tão inconsciente quanto a tendência
permanece recalcada. Por outro lado, a imago preserva esta função, mas ao abrigo do seu desconhecimento,
porque é bem a preparação das vias do seu regresso futuro que representa na consciência o ideal do eu. Assim, se
a tendência se resolve sob as duas maiores formas, inconsciência, desconhecimento, onde a análise ensinou a
reconhecê-la, a imago aparece ela-mesma sob duas estruturas cuja distinção define a primeira sublimação da
realidade.
Não é no entanto suficientemente sublinhado que o objeto ide identificação não é aqui o objeto
do desejo, mas aquele que a ele se opõe no triângulo edipiano. A identificação de mimético tornou-se
propiciatória; o objeto da participação sado-masoquista destaca-se do sujeito, distancia-se dele na nova
ambiguidade do temor e ido amor. Mas, neste passo para a realidade, o objeto primitivo do desejo aparece
escamoteado.
Este facto define para nós a originalidade da identificação edipiana: ele parece indicar-nos que, no
complexo de Édipo, não é o momento do desejo que constrói o objeto da sua realidade nova, mas o ida defesa
narcísica do sujeito.
Este momento, fazendo surgir o objeto que a sua posição situa como obstáculo ao desejo, mostra-
o aureolado pela transgressão sentida como perigosa; ele aparece ao eu por sua vez como o apoio da sua defesa e
o exemplo do seu triunfo. Eis porque este objeto vem normalmente substituir o quadro do duplo onde o eu se
identificou primeiro e pelo qual ele pode ainda confundir-se com o outro; ele traz ao eu uma segurança,
reforçando este quadro, mas ao mesmo tempo ele opõe-lhe como um ideal que, alternativamente, o exalta e o
deprime.
Este momento do Édipo dá o protótipo da sublimação tanto pelo papel de presença mascarado
que aí desempenha a tendência, como pela forma como ele reveste o objeto. A mesma forma é sensível com
efeito a cada crise onde se produz, para a realidade humana, esta condensação da qual nós pusemos mais acima o
enigma: é esta luz da admiração que transfigura um objeto dissolvendo as suas equivalências no sujeito e o
propõe não mais como meio de satisfação do desejo, mas como pólo às criações da paixão. É reduzindo de novo
um tal objeto que a experiência realiza todo o aprofundamento.
Uma série de funções antinómicas constitui-se assim no sujeito pelas crises maiores da realidade
humana, para conter as virtualidades indefinidas do seu progresso; se a função da consciência parece exprimir a
angústia primordial e a da equivalência refletir o conflito narcísico, a do exemplo parece a contribuição original do
complexo de Édipo.
Ora, a estrutura do drama edipiano designa o pai para dar à função de sublimação a sua forma
mais eminente, porque a mais pura. A imago da mãe na identificação edipiana trai, com efeito, a interferência das
identificações primordiais; ela marca das suas formas e da sua ambivalência tanto o ideal do eu como o super-eu;
na menina, do mesmo modo que a repressão da sexualidade impõe mais às funções corporais este
desmembramento mental onde se pode definir a histeria, assim a sublimação ida imago maternal tende a
transformar-se em sentimento de repulsão pela sua degradação e em preocupação sistemática da imagem
especular.
A imago do pai, à medida que domina, polariza nos dois sexos as formas mais perfeitas do ideal
do eu, das quais é suficiente indicar que realizam o ideal viril no rapaz, e na rapariga, o ideal virginal Pelo
contrário, nas formas diminuídas desta imago nós podemos sublinhar as lesões físicas, especialmente aquelas que
a apresentam como estropiada ou cega, para desviar a energia da sublimação da sua direção criadora e favorecer
a sua reclusão em algum ideal de integridade narcísica. A morte do pai, em qualquer etapa do desenvolvimento
que ela se produza e segundo o grau de acabamento do Édipo, tende, da mesma maneira, a esgotar coagulando-
lhe o progresso da realidade. A experiência, relacionando a tais causas um grande número de neuroses e a sua
gravidade, contradiz portanto a orientação teórica que designa o agente maior na ameaça da força paterna.
O COMPLEXO E A RELATIVIDADE SOCIOLÓGICA:
Se pareceu com a análise psicológica do Édipo que deve ser compreendido em função dos seus
antecedentes narcísicos, não é dizer que ele se funda fora da relatividade sociológica. O motivo mais decisivo dos
seus efeitos psíquicos está ligado, com efeito, ao fato de que a imago do pai concentra nela a função de repressão
com a da sublimação; mas está aí o índice de uma determinação social, a da família paternalista.
MATRIARCADO E PATRIARCADO:
A autoridade familiar não é, nas culturas matriarcais, representada pelo pai, mas ordinariamente
pelo tio materno. Um etnólogo que foi dirigido pelo seu conhecimento da psicanálise, Malinowski, soube penetrar
as incidências psíquicas deste fato: se o tio materno exerce este apadrinhamento social de guardião dos tabus
familiares e de iniciador aos ritos tribais, o pai, livre de toda a função repressiva, desempenha um papel de
padroado mais familiar, de senhor em técnicas e de tutor da audácia nos empreendimentos.
Esta separação de funções traz um equilíbrio diferente do psiquismo, que o autor atesta pela
ausência de nevrose nos grupos que observou nas ilhas do Noroeste da Melanésia. Este equilíbrio demonstra
felizmente que o complexo de Édipo é relativo a uma estrutura social, mas não autoriza em nada a miragem
paradisíaca, contra a qual o sociólogo se deve sempre defender: à harmonia que ela comporta opõe-se com efeito
a estereotipia que marca as criações da personalidade, da arte à moral, em semelhantes culturas, e deve-se
reconhecer neste reverso, conformemente à presente teoria do Édipo, quanto o ímpeto da sublimação é
dominado pela repressão social, quando estas duas funções estão separadas.
É, pelo contrário, porque é investida da repressão que a imago paterna projeta a força original
nas sublimações que a devem superar; é ligando numa tal antinomia o progresso destas funções, que o complexo
de Édipo obtém a sua fecundidade. Esta antinomia desempenha um papel no drama individual, nós vê-la-emos aí
confirmada por efeitos dedecomposição; mas os seus efeitos de progresso ultrapassam muito este drama,
integrados como estão num imenso património cultural: ideais normais, estatutos jurídicos, inspirações criadoras.
O psicólogo não pode negligenciar estas formas que, concentrando na família conjugal as condições do conflito
funcional do Édipo, reintegram no progresso psicológico a dialética social engendrada por este conflito.
Que o estudo destas formas se refira à história, é já um dado para a nossa análise; é com efeito a
um problema de estrutura que se deve relacionar o fato de a luz da tradição histórica apenas iluminar os anais dos
patriarcas, enquanto que ela não esclarece senão em franja, os matriarcados, por toda a parte subjacentes à
cultura antiga.
Abertura do vínculo social. — Aproximaremos deste fato o momento crítico que Bergson definiu
nos fundamentos da moral; sabe-se que ele reconduz à sua função de defesa vital este «tudo de obrigação» pelo
qual designa o vínculo que encerra o grupo familiar sobre a sua coerência e que reconhece opondo-lhe um ímpeto
transcendente da vida em todo o movimento que abre este grupo universalizando este laço; dupla fonte que
descobre uma análise abstrata sem dúvida voltada contra estas ilusões formalistas, mas que fica limitada ao
alcance da abstração. Ora, se pela experiência, tanto o psicanalista como o sociólogo podem reconhecer na
interdição da mãe, a forma concreta da obrigação primordial, do mesmo modo podem demonstrar um processo
real de «abertura» do vínculo social na autoridade paternalista e dizer que pelo conflito funcional do Édipo, ela
introduz na repressão um ideal de promessa.
Se se referem aos ritos de sacrifício através dos quais as culturas primitivas, mesmo chegadas a
unia concentração social elevada, realizam com o rigor mais cruel — vítimas humanas desmembradas ou
sepultadas vivas — os fantasmas da relação primordial à mãe, poderão ler em mais de um mito que ao
ressurgimento da autoridade paterna responde uma moderação da primitiva repressão social. Legível na
ambiguidade mítica do sacrifício de Abraão, que aliás o liga formalmente à expressão duma promessa, este
sentido não aparece menos no mito de Édipo por pouco que se não negligencie o episódio da Esfinge,
representação não menos ambígua da emancipação das tiranias matriarcais e do declínio do rito do assassínio
real. Qualquer que seja a sua forma, todos estes mitos se situam na orla da história, bem longe do nascimento da
humanidade das quais as separam a duração imemorial das culturas matriarcais e a estagnação dos grupos
primitivos.
Segundo esta referência sociológica, o fato do profetismo pelo qual Bergson recorre à história tal
como se produziu eminentemente no povo judeu, compreende- se pela situação eleita que foi criada a este povo,
de ser o defensor do patriarca entre os grupos dados aos cultos maternos pela sua luta convulsiva para manter o
ideal patriarcal contra a sedução irrepressível destas culturas. Através da história dos povos patriarcais vê-se
assim afirmar dialeticamente na sociedade as exigências da pessoa e a universalização dos ideais: testemunha
este progresso das formas jurídicas que eterniza a missão que Roma antiga viveu tanto em potência como em
consciência, e que se realizou pela extensão já revolucionária dos privilégios morais de um patriarcado a uma
glebe imensa e a todos os povos.
O HOMEM MODERNO E A FAMÍLIA CONJUGAL:
Duas funções neste processo, refletem-se sobre a estrutura da família: a tradição, nos ideais
patrícios, de formas privilegiadas do casamento; a exaltação apoteótica que o cristianismo traz às exigências da
pessoa. A igreja integrou esta tradição na moral do cristianismo, pondo em primeiro plano no laço do casamento a
livre escolha da pessoa, fazendo assim passar à instituição familiar o passo decisivo para a sua estrutura moderna,
a saber a secreta inversão da sua preponderância social em proveito do casamento. Inversão que se realiza no
Século XV com a revolução econômica donde saíram a sociedade burguesa e a psicologia do homem moderno.
São, com efeito, as relações da psicologia do homem moderno com a família conjugal que se
propõem ao estudo do psicanalista; este homem é o único objeto que ele submeteu verdadeiramente à sua
experiência, e se o psicanalista reencontra nele o reflexo psíquico das condições mais originárias do homem,
poderá ele pretender curá-lo das suas deficiências psíquicas sem o ¡compreender na cultura que lhe impõe as mais
altas exigências sem compreender mesmo a sua própria posição em face deste homem no ponto extremo da
atitude científica?
Ora, no nosso tempo, menos do que nunca, o homem da cultura ocidental não saberá
compreender-se fora das antinomias que constituem as suas relações com a natureza e com a sociedade: como,
fora delas, compreender a angústia que ele exprime no sentimento duma transgressão prometaica em relação às
condições da sua vida e às concepções mais elevadas em que ultrapassa esta angústia, reconhecendo que é por
crises dialéticas que se criou em si próprio e aos seus objetos.
PAPEL DA FORMAÇÃO FAMILIAR:
Este movimento subversivo e crítico onde se realiza o homem encontra o seu germen mais ativo
em três condições da família conjugal. Para incarnar a autoridade na geração mais próxima e sob uma figura
familiar, a família conjugal põe esta autoridade ao alcance imediato da subversão criadora.
É o que traduzem já para a observação mais comum as investigações que a criança imagina na
ordem das gerações onde ele próprio se substitui ao pai ou ao avô.
Por outro lado o psiquismo não é menos formado pela imagem do adulto ido que contra a coação
que esta imagem sobre ele exerce; este efeito opera-se pela transmissão do ideal do eu, e mais propriamente,
dissemo-lo, do pai ao filho; ele comporta uma seleção positiva das tendências e de dons, uma progressiva
realização do ideal no caráter. É a este processo psicológico que é devido o fato das famílias dos homens
eminentes, e não à pretendida hereditariedade que seria preciso reconhecer às capacidades essencialmente
relacionais.
Enfim e sobretudo, a evidência da vida sexual nos representantes das coações morais, o exemplo
singularmente transgressivo da imago do pai quanto à interdição primordial exalta ao mais alto grau a tensão da
libido e o alcance da sublimação.
É para realizar o mais humanamente possível o conflito do homem com a sua angústia mais
arcaica, é para lhe oferecer o campo fechado mais leal onde possa medir-se com as figuras mais profundas do seu
destino, é para pôr ao alcance da sua existência individual o triunfo mais completo contra a servidão originária,
que o complexo da família conjugal cria os êxitos superiores do carácter, da felicidade e da criação.
Dando a maior diferenciação à personalidade antes do período de latência, o complexo traz às
confrontações sociais deste período a sua máxima eficácia para a formação racional do indivíduo. Podemos com
efeito considerar que a ação educativa neste período reproduz numa realidade mais lastrada e sob as sublimações
superiores da lógica e da justiça, o jogo das equivalências narcísicas onde teve origem o mundo dos objetos.
Quanto mais diversas e mais ricas forem as realidades inconscientemente integradas na experiência familiar, mais
formador será para a razão o trabalho da sua redução.
Assim pois, se a psicanálise manifesta nas condições morais da criação um fez mento
revolucionário que não se podeapreender senão numa análise concreta, ela reconhece, ao produzi-lo, à estrutura
familiar um poder que ultrapassa toda a racionalização educativa. Este facto merece ser proposto aos teóricos —
seja qual for o lado a que pertençam — duma educação social com pretensões totalitárias, a fim de que cada um
conclua daí segundo os seus desejos.
O papel da imago do pai deixa-se aperceber de modo impressionante na formação da maior parte
dos grandes homens. A sua influência literária e moral na era clássica do progresso, de CORNEILLE a PROUDHON,
vale a pena ser notada; e os ideólogos que, no século XIX, lançaram contra a família paternalista as críticas mais
subversivas não são os que dela menos levam a marca.
Não somos daqueles que se afligem com um pretenso relaxamento do laço familiar. Não será
significativo que a família se tenha reduzido ao seu agrupamento biológico à medida que integrava os mais altos
progressos culturais? Mas um grande número de efeitos psicológicos parecem-nos relevar dum declínio social da
imago paterna. Declínio condicionado pelo retorno sobre o indivíduo de efeitos extremos do progresso social,
declínio que se manifesta sobretudo nos nossos dias nas coletividades mais atingidas por estes efeitos:
concentração económica, catástrofes políticas. O fato não terá sido formulado pelo chefe dum estado totalitário
como argumento contra a educação tradicional? Declínio esse mais intimamente ligado à dialética da família
conjugal pois que se opera pelo crescimento relativo, muito sensível por exemplo na vida americana das
exigências matrimoniais.
Seja qual for o futuro, este declínio constitui uma crise psicológica. Talvez seja a esta crise que se
torna necessário relacionar a aparição da própria psicanálise. O sublime acaso do génio não explica talvez sozinho
que isto aconteça em Viena — nessa altura centro de um Estado que era o melting-pot das formas familiares mais
diversas, das mais arcaicas às mais evoluídas, dos últimos agrupamentos agnáticos dos camponeses eslavos às
formas mais reduzidas do lar pequeno-burguês e às formas mais decadentes da instabilidade da vida comum,
passando pelos paternalismos feudais e mercantis — que um filho do patriarcado judeu tenha imaginado o
complexo de Édipo. Seja como for, são as formas de neuroses dominantes no fim do século passado que
revelaram ser intimamente dependentes das condições da família.
Estas neuroses, desde o tempo das primeiras adivinhações freudianas, parecem ter evoluído no
sentido dum complexo caracterial onde, tanto pela especificidade da sua fauna como pela sua generalização — ele
é o nó da maior parte das neuroses — se pode reconhecer a grande nevrose contemporânea. A nossa experiência
leva-nos a designar aí a determinação principal na personalidade do pai, sempre faltando de certo modo ausente,
humilhada, dividida ou artificial. É esta carência que em conformidade com a nossa concepção do Édipo, vem a
esgotar o ímpeto instintivo como a perturbar a dialética das sublimações. Madrinhas sinistras instaladas no berço
do neurótico, a impotência e a utopia encerram a sua ambição, quer ele abafe em si as criações que esperam o
mundo onde aparece, quer ele, no objeto que propõe à sua revolta, desconheça o seu próprio movimento.
O complexo de Édipo faz parte da educação moral. Será que Educação (Pedagogia) e Psicanálise
se conciliariam? Existe sempre uma imago (representação) da educação e isso pode ser defendido pelas teorias
psicanalíticas atualmente. Uma teoria da aprendizagem pode corresponder a isso, fazendo parte de um corpo
teórico da pedagogia e construindo uma nova mentalidade na cabeça tanto quanto dos educadores como dos
psicanalistas, psicólogos e filósofos. E, se aprendizagem faz parte da Educação (fato social, moral, cultural), como
seria ela explicada por Freud?
6 A APRENDIZAGEM SEGUNDO FREUD
6.1 O DESEJO DE SABER: TEORIA FREUDIANA DA APRENDIZAGEM:
Anna Freud (filho de Freud) buscou transmitir aos educadores uma noção daquilo que seria, para
Freud, o desenvolvimento da criança. Pode-se, atualmente, fazer o mesmo, tendo-se em mente todas as ressalvas
feitas e centralizando a discussão em aspectos menos considerados até agora.
Ao invés de abordar, como foi feito até hoje, o desenvolvimento da criança em termos de fases
psicossexuais (oral, anal, fálica e genital), pode-se um outro caminho. O que poderia ser, para Freud, o fenômeno
da aprendizagem? Em outras palavras, o que, no entender dele, habilita uma criança para o mundo do
conhecimento? E, finalmente, em que circunstâncias essa busca do conhecimento se torna possível?
Sobre o tema da aprendizagem (onde está na mente da pedagogia e da psicologia do
desenvolvimento), especificamente, não vamos encontrar nenhum texto escrito por Freud. Suas preocupações
eram predominantemente as de um clínico interessado em livrar as pessoas do peso das neuroses (embora ele
tenha descoberto depois que se pode, no máximo, livrar alguém de seus sintomas e que, no caso das neuroses,
pode-se apenas atenuá-las).
No entanto, Freud, por sua própria posição frente ao conhecimento, gostava de pensar nos
determinantes psíquicos que levam alguém a ser um desejador de saber. Nessa categoria incluem-se os cientistas,
que devotam a vida a perguntar por que, e as crianças, que, a partir de um determinando momento,
bombardeiam os pais com por quês.
Abordar esse tema a partir de uma perspectiva freudiana e, antes de mais nada, buscar resposta
para a seguinte pergunta: o que se busca quando se quer aprender algo? Só a partir dela pode-se refletir sobre o
que é o processo de aprendizagem, pois o processo depende da razão que motiva a busca de conhecimento.
Por que a criança pergunta tanto? A pergunta por que chove, porque existem noite e dia, por
que... e todo resto, responde Freud, está na verdade interessada em dois porquês fundamentais; por que
nascemos e por que morremos, ou, dito do modo clássico, de onde viemos e para onde vamos (processo
existencial).
Vamos acompanhar a gênese dessas preocupações em uma criança. Há, para Freud, um momento
capital e decisivo na vida de todo ser humano: o momento da descoberta daquilo que ele chama de diferença
sexual anatômica. Se, até então, os meninos e as meninas acreditavam que todos os seres humanos eram ou
deviam ser providos de pênis, a partir desse momento descobrem que o mundo se divide em homens e mulheres
(seres com órgão sexual masculino e feminino).
Sejamos mais precisos. Essa descoberta não é propriamente uma descoberta, já que meninos e
meninas terão tido oportunidade, antes dela, de observar que são diferentes. A diferença está na interpretação
dada a esse fato. Meninos poderiam pensar, por exemplo, que se as meninas não são iguais a eles, podem vir a sê-
lo, quando crescerem. Mas a descoberta implica entender que, de fato, alguma coisa falta (processo de frustração,
angústia).
No entanto, o que angustia não é a constatação de que algo falta às mulheres, e pode vir a faltar
aos homens. A angústia provém de uma nova compreensão de antigas perdas à luz nesse novo sentimento de
ausência: aqui perdi, e sei agora que também perdi o seio, as feses... Poderia ser o pensamento inconsciente de
uma criança que está fazendo a descoberta da diferença sexual anatômica. A essa angústia de perdas Freud
chamou de angústia de castração.
Freud achava de início, que a pergunta pelas origens era detonada depois que um irmãonascia, e
isso quando a criança já tinha mais ou menos dois anos (antes, tal conhecimento não tinha esse poder detonador).
É claro que as coisas não são assim tão simples; se assim fosse, os filhos únicos jamais atravessariam a angústia de
castração. Freud mesmo percebeu isso e buscou determinantes mais estruturais para isso que, a princípio, ele
apenas observou.
Essa busca de determinantes mais estruturais levou-o justamente a desenvolver melhor um dos aspectos
mais importantes de sua teoria: o Complexo de Édipo;
Pode-se dizer que a descoberta da diferença sexual anatômica da criança não depende de sua observação,
mas da passagem pelo Complexo de Édipo;
O Édipo é o processo através do qual uma menina se define sexualmente como mulher e o menino
sexualmente como homem (ou vice-versa), depois de terem extraído das relações com o pai e a da mãe as
referências necessárias a essa definição.
A criança descobre diferenças que a angustiam. É essa angústia que a faz querer saber. Só que a
abordagem direta é difícil, justamente porque envolve angústia. Os instrumentos de que a criança pode dispor é o
que Freud chamou de investigações sexuais infantis (essas investigações são sexuais, mas não são claramente
sexuais).
Um menino de mais ou menos cinco anos pergunta à mãe se Deus existe, ao que ela, depois de
algumas evasivas, responde não. Pergunta depois ao pai, que afirma acreditar em Deus. Mais tarde, andando na
rua com a irmã, ela lhe diz que precisa perguntar as horas a um passante. Então, o menino lhe diz: vai perguntar a
um homem ou a uma mulher? Ora, replica a irmã, tanto faz. E ele: se perguntar a um homem, terá uma resposta,
se for para uma mulher, terá outra!
Mais do que a existência de Deus, esse menino extraiu informações sobre aquilo que ele supõe
ser representativo das posições feminina e masculina, e saiu pela rua (literalmente) aplicando esse novo
conhecimento: homens pensam diferente de mulheres (provavelmente, pensará inconscientemente ele, porque
têm pênis! – valor de realidade, representação do mundo).
Para Freud, as primeiras investigações são sempre sexuais e não podem deixar de sê-lo: o que
está em jogo é a necessidade que tem uma criança de definir seu lugar no mundo. E esse seu lugar é, a princípio,
um lugar sexual (ou seja, eu sou homem ou, eu sou mulher/devo andar com homens por eu ser um deles; devo
andar com mulheres porque sou uma delas – representação de valor). E o que tem isso a ver com a pergunta de
onde viemos e para onde vamos?
Acontece que, no início, esse lugar sexual é situado em relação aos pais. Mais do que isso, em
relação àquilo que os pais esperam que ele seja. Em relação ao desejo dos pais. O de onde viemos equivale a qual
é minha origem em relação ao desejo de vocês?; por que me puseram no mundo, para atender a quais
expectativas e esperando que eu me torne o quê? (para onde vamos?). De onde, o Édipo está presente.
Assim, as perguntas sobre a origem das coisas estariam na base das investigações sexuais infantis.
Mas a criança que vai à escola para aprender a ler e a escrever não parece denunciar nenhuma dessas
preocupações. Até esse momento – a entrada na escola -, mais ou menos aos sete anos, algumas coisas poderão
ter acontecido com as investigações sexuais infantis.
O que se espera é que, ao final da época do conflito edipiano, a investigação sexual caia sob o
domínio da repressão. Toda? Não. Parte dela sublima-se em pulsão de saber, associada a pulsões de domínio e a
pulsões de ver. Sem cair em discussões acadêmicas a respeito da validade conceitual de termos como pulsão de
domínio, por exemplo, pode-se, contudo, extrair daí o mais importante: o desejo de saber associa-se com o
dominar, o ver e o sublimar.
Vamos por partes: sublimar. Para Freud, as investigações sexuais são reprimidas. E não é a
Educação a maior responsável disso. As crianças deixam de lado a questão sexual por uma necessidade própria e
inerente à sua constituição. Não porque lhes dizem que é feio, mas por que precisam renunciar a um saber sobre a
sexualidade. Precisam nada saber sobre isso. E porque não podem mais saber sobre a sexualidade, procedem (não
de modo consciente, é claro) a um deslocamento dos interesses sexuais para os não-sexuais. Desviam, por assim
dizer, a energia aí concentrada para objetos não sexuais. Mas não podem deixar de perguntar, pois a força de
pulsão continua estimulando essas crianças. Perguntam então sobre outras coisas para poder continuar pensando
sobre as questões fundamentais.
Freud diz ainda que essa investigação sexual sublimada se associa com algo que ele chamou,
inicialmente, de pulsão de domínio. A princípio, pensava existir em todo ser humano essa pulsão, que, submetida
às leis da constituição do ser humano, se transmudaria em sadismo e agressividade. Retenha-se o essencial. O
saber associa-se com o dominar. Encontra-se um bom exemplo no poema A Mosca Azul, de Machado de Assis:
Um homem fica alucinado com o que vê nas asas de uma mosca. Para saber o que há lá dentro, disseca-a e
a destroi.
Do mesmo modo, uma criança que passa seu tempo caçando bichinhos, cortando-os em pedaços,
pode correr o risco de ser classificada como uma sádica e agressiva, quando, na verdade, não está senão
exercendo sua pulsão de domínio. Tudo isso se associa com a ideia de curiosidade. E é importante que o educador
esteja ciente dessa dimensão, presente em todo ato de conhecimento: a dimensão da curiosidade sádica
propiciada pela pulsão de domínio. Não se quer dizer com isso que se deva aplaudir toda tentativa infantil de sair
por aí decepando bichos. O que se pretende destacar é que o modo de lidar com isso depende da compreensão
que se tenha desses atos.
Para satisfazer aos educadores animados com uma pulsão de saber mais intensa, pode-se ir um
pouquinho mais longe do desenvolvimento teórico da pulsão de domínio. Veja-se novamente A Mosca Azul. Na
ânsia de saber, a personagem destroi, mata a mosca.
Freud não ficou indiferente a essa dimensão da pulsão de domínio e localizou aí a ação da pulsão
de morte. Para nós, há um susto considerável quando se percebe a presença da morte em algo sempre tão
identificado com a vida, como a noção de saber, de conhecimento.
É claro que, diante dessa manifestação dessa face mortal do saber na conduta investigadora de
uma criança, a tendência é negá-la e reprimi-la. Naturalmente, se é só essa face mortal que uma determinada
criança revela, significa que algo certamente não vai bem. Mas, em geral, a pulsão de morte não se encontra
nunca em estado puro, apresentando-se antes em combinações com outras.
Ao descrever o processo de emergência do desejo de saber, foi dito também que a investigação
sexual, agora sublimada, relaciona-se, igualmente, com o ver. O visual não é um elemento acessório ou
secundário nas esferas das pulsões sexuais. Ao contrário, é um aspecto constante e constitutivo delas. Muito tem
sido dito sobre as pulsões oral, anal, fálica, mas, embora menos comentada, a pulsão visual tem em relação a elas
o mesmo estatuto. Na constituição da sexualidade, um elemento central estudado por Freud é a fantasia da cena
primária, ou cena de relação sexual entre os pais, na qual essa relação sexual é objeto de uma visão pela qual o
sujeito imagina (põe em imagens) a sua origem. É através da fantasia, uma das três universais, que o sujeito
representa não somente sua origem, mas também se imagina personagem,através da identificação com uma das
personagens em cena. O objeto dessa pulsão é, então, essa cena primária imaginada. Mas já se disse que essa
pulsão, sublimada, transforma-se, após a associação com a pulsão de domínio, em pulsão de saber. Transforma-se
em curiosidade agora dirigida, porque sublimada, a objetos de modo geral. São seus derivados o prazer de
pesquisar, o interesse pela observação da natureza, o gosto pela leitura, o prazer de viajar (ver as coisas distantes
e novas) etc.
O importante a ser ressaltado é a filiação da curiosidade intelectual à curiosidade sexual, à
imagem fantasiada da cena primária. Não é preciso ir mais longe para estabelecer essa filiação, basta lembrar o
termo bíblico para designar que houve uma relação sexual: Adão conheceu Eva...
Para Freud, pode-se dizer que a mola propulsora desenvolvimento intelectual e sexual. Melhor
dizendo, a matéria de que se alimenta a inteligência em seu trabalho investigativo é sexual, são restos da
sexualidade, na medida em que se trata da sublimação de parte da pulsão sexual visual. A inteligência emerge a
partir de um apoio sobre restos sexuais.
Até aqui, vimos alguns determinantes que levam uma criança a querer aprender. Contudo, ela
não aprende sozinha. É preciso que haja um professor para que esse aprendizado se realize. Ora, nem sempre
esse encontro é feliz. Então, a pergunta “o que é aprender?” supõe, para a Psicanálise, a presença de um
professor, colocado numa determinada posição, que pode ou não propiciar aprendizagem.
O ato de aprender sempre pressupõe uma relação com outra pessoa, a que ensina. Não há ensino
sem professor. Até mesmo o autodidatismo (vista pela Psicanálise como um sintoma) supõe a figura de alguém
que está transmitindo, através de um livro, por exemplo, aquele saber. E no caso de que não haver seque um livro
ensinando, o aprender como descoberta aparentemente espontânea supõe um diálogo interior entre o aprendiz e
alguma figura qualquer, imaginada por ele, que possa servir de suporte para esse diálogo.
Por isso, a pergunta “o que é aprender?” envolve uma relação professor aluno;
Aprender é aprender com alguém.
Vamos nos concentrar agora nesse com, nesse espaço entre professor e aluno, deixando
completamente de lado os conteúdos que transitam do professor para o aluno e, eventualmente, do aluno para o
professor. Pouco importaria agora que esse professor esteja ensinando, por exemplo, o Descobrimento do Brasil,
mesmo porque esses conteúdos não têm nenhum valor de verdade. As gerações de brasileiros hoje com 40 anos
ou mais aprenderam que o Brasil foi descoberto por acaso, em razão de uma calmaria que teria desviado a frota
de Cabral de seu destino. Para as gerações mais novas, isso parece ser um absurdo inimaginável. Não há dúvida de
que o Brasil não foi descoberto, mas tomado intencionalmente pelos portugueses.
Será que, por isso, devemos jogar fora todo o velho curso primário? O que restou daqueles
tempos em que todo dia se ia para a escola escutar daquela primeira professora ensinamentos nos quais não se
acredita mais? Por acaso os alunos de ontem denigrem hoje a imagem dessa primeira professora, ou ela se
conserva como algo precioso, uma marca presente na busca de conhecimento? Não é preciso dizer qual é a
resposta dos adultos de hoje. O discurso dos primeiros professores calou fundo em todos os que o autorizaram e
nele acreditaram. Mas, como se vê agora, naquele discurso não se impôs por ele mesmo, pela dose de verdade
que o acompanhou (muito ao contrário, o descobrimento casual do Brasil era uma deslavada mentira!).
Evidentemente, os critérios para a avaliação do que era verdadeiro eram assentados pelo próprio professor, e nós,
mais uma vez, acreditávamos neles. Então por quê? Se não é a verdade por elas anunciada, então qual é a fonte
da qual extrai seu poder de convencimento, sua credibilidade?
Freud nos mostra que o professor pode ser ouvido quando está revestido por seu aluno de uma
importância especial. Graças a essa importância, o mestre passa a ter em mãos um poder de influência sobre o
aluno. Essa é, naturalmente, uma ideia bastante conhecida, assim como também é conhecida a fonte atribuída
por Freud a esse poder de influência. No decorrer do período de latência, são os professores e geralmente as
pessoas que têm a tarefa de educar que tomarão para a criança o lugar dos pais, do pai em particular, e que
herdarão os sentimentos que a criança dirija a esse último na ocasião da resolução do Complexo de Édipo. Os
educadores, investidos da relação afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da influência que esse
último exercia sobre a criança.
Até aqui se pode perceber que a Ênfase dada por Freud ao estudo da relação entre um professor e
um aluno não estava no valor dos conteúdos cognitivos que transitam entre essas duas pessoas – vale dizer, na
informação que é transmitida de um para o outro. Sim, a ênfase freudiana está concentrada, sobretudo nas
relações afetivas entre professores e alunos. A citação acima menciona justamente uma relação afetiva
primitivamente dirigida (projetada) ao pai. Isso está correto, mas até certo ponto. Os esquemas desenvolvidos
posteriormente pelo próprio Freud apontam numa direção um pouco diferente, nos quais a palavra afeto deixa de
ter tanta importância.
Por isso, pode-se dizer que, na perspectiva psicanalítica, não se localizam os conteúdos, mas o
campo que se estabelece entre o professor e o aluno, que estabelece as condições para o aprender, sejam quais
forem os conteúdos.
Em Psicanálise, dá-se a esse campo o nome de TRANSFERÊNCIA.
6.2 PODER E DESEJO: A TRANSFERÊNCIA NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO
Freud mencionou a palavra transferência, pela primeira vez, em A Interpretação dos Sonhos, livro
de 1900. Ali, ele escreveu que alguns acontecimentos do dia, resto diurnos, eram transferidos para o sonho e
modificados pelo trabalho do próprio sonho. Via-se o rosto de uma pessoa durante o dia e, à noite, no sonho,
aquele rosto aparecia modificado; por exemplo, de barba, ou envelhecido, ou com outro nome. O sonho
trabalhava aquele resto diurno para ele transferido.
Mais tarde, Freud começou a notar que a figura do analista também funcionava como um resto
diurno, sobre o qual o paciente trabalhava, transferindo para ele imagens que se relacionavam com antigas
vivências do paciente com outas pessoas. Assim, por exemplo, um determinado paciente, a partir de um dado
momento da análise, relacionava-se com Freud como se ele fosse seu pai: com medo de sua autoridade. Embora o
próprio Freud não se conduzisse de modo autoritário com aquele paciente, podia acontecer de ele, em
determinado momento, mencionar o temor, injustificado, de que Freud batesse nele. Se não era Freud o
responsável por tal temor, então quem era? Freud respondeu: talvez o pai, um pai transferido para Freud.
Em momento algum, porém, a transferência era percebida por aqueles pacientes. Freud estava
diante de uma manifestação inconsciente. É por isso que se pode dizer, hoje, que a transferência é uma
manifestação inconsciente (um bom instrumento da análise desse inconsciente).
Se ainda for necessária mais uma prova para a tese de que as forças motrizes da formação do sintoma
neurótico são de natureza sexual, ela estará no fato de que durante o tratamento analítico produz-se
normalmente uma relação afetiva especial do paciente com o médico, relação que ultrapassa a medida
racional, que varia entre a maisterna devoção e a mais dura hostilidade e que retira suas peculiaridades
de atitudes amorosas antigas do paciente, que se tornaram inconscientes. Essa transferência, que tanto
em sua forma positiva como na negativa põe-se a serviço da resistência, torna-se o mais poderoso auxiliar
do tratamento nas mãos do médico, e desempenha, na dinâmica do processo de cura, um papel que
dificilmente se pode exagerar.
Revelada no campo específico da relação médico-paciente, Freud se deu conta da constância com
que a transferência também ocorria nas diferentes relações estabelecidas pelas pessoas no decorrer de suas vidas.
Entendia como a repetição de protótipos infantis vividos com uma sensação de atualidade acentuada, nada
impede que a transferência se dirija ao analista ou a qualquer outra pessoas.
Freud chega a afirmar que ela está presente também na relação professor-aluno. Para ele, trata-se de um
fenômeno que permeia qualquer relação humana;
É isso que nos autoriza a substituir a expressão relação analista-paciente pela expressão professor-aluno.
Perguntava-se Freud: “o que são transferências?” (No Epílogo de Análise Fragmentária de uma
Histeria, escrito em 1901):
E ele próprio respondia: são reedições dos impulsos e fantasias (processos inconscientes) despertadas e
tornadas conscientes durante o desenvolvimento da análise e que trazem como singularidade
característica a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico;
Ou, para dizê-lo de outro modo: toda uma série de acontecimentos psíquicos ganha vida novamente,
agora não mais como passado, mas como relação atual com a pessoa do médico.
Assim, um professor pode tornar-se uma figura a quem serão endereçados os interesses de seu
aluno porque é objeto de uma transferência. E o que se transfere são as experiências vividas primitivamente com
os pais.
Esta poderia ser a visão de Freud sobre a transferência na relação analítica e, por extensão, na
relação pedagógica. Mas hoje, usando o próprio material de Freud, pode-se avançar um pouco a mais nessa
análise. Na verdade, a ideia de que o aprendizado tem como fundamento a transferência está cada vez mais
presente entre os analistas engajados na formação psicanalítica de outros analistas, é comum ouvi-los dizer que
determinado aluno está estabelecendo uma transferência com seu professor-analista. Nesse contexto, o termo
parece distanciar-se do sentido em que pode ser encontrado nas primeiras formulações de Freud.
Freud explica como o sonho se apodera do que chama de restos diurnos, recordações do que
ocorreu no dia anterior: o sonho se apodera destes elementos para montá-los com um valor ou significação
diferente daquela que tinha no momento de sua primeira emergência. São, portanto, formas esvaziadas de seu
sentido. O desejo opera um deslocamento: utiliza formas estranhas a ele, apodera-se delas e as infiltra (com seu
próprio sentido) dotando-as de uma nova significação.
No plano do sonho, fala-se na transferência de sentido que o desejo do sonho realiza. A palavra
transferência está sendo usada, note-se, em sua acepção precisa: transfere-se, desloca-se algo (sentido) de um
lugar para outro. Aqui estão resolvidos alguns conceitos psicanalíticos, que têm desenvolvimentos extensos e os
quais serão abordados apenas no capítulo 5. Entre eles, esse desejo do sonho.
Talvez um exemplo ajude a entender melhor do que fala Freud em A Interpretação dos Sonhos.
Tome-se, entre o número vastíssimo de sonhos analisados por Freud, um exemplo ao acaso, muito simples:
Um homem sonha que vê, num determinado lugar, uma mulher, envolvida por um raio de luz branca, que
veste uma blusa branca. A explicação do sonho é a de que esse homem tivera, nesse mesmo lugar, sua
primeira cena de amor com uma mulher chamada Branca. Portanto, a cor branca é tomada de empréstimo
apenas para que o desejo signifique o que lhe interessa: o nome da amada;
Um outro exemplo, que pode interessar mais de perto os educadores, foi extraído da obra No Olhar do
Outro, de Oscar Cesarotto. Nesse livro estão reproduzidos dois contos de um escritor do começo do século
XIX, chamado E.T.A. Horffman. No primeiro conto, em Homem de Areia, o personagem Natanael relata
uma recordação da infância. Sempre que chegava a hora de dormir, sua mãe lhe dizia: “Crianças! Para
cama, para cama! O homem de areia vem vindo, já posso percebê-lo”. Natanael fez desse personagem
uma imagem terrível, assustadora. Associava-o aos passos que por vezes escutava subindo as escadas
(medo, como processo inconsciente). Um dia, perguntando à sua mãe sobre esse homem terrível, ouviu
dela a seguinte resposta: “Quando eu digo que o homem de areia vem vindo, quero apenas dizer que
vocês estão sonolentos e não conseguem manter os olhos totalmente abertos, como se alguém tivesse
jogado areia neles”.
Natanael, contudo, não se convenceu com essa explicação. Ao contrário, ele renunciou ao sentido
que seu desejo já havia conferido a essa forma vazia, chamada Homem de Areia. Por que seu desejo? Porque essa
figura tinha assumido um lugar nas relações imaginárias de Natanael com seu pai: era ele, o homem de areia,
quem sempre o afastava do pai (hora de dormir!), e será ele o responsável, no entender (inconscientemente) de
Natanael, pela morte (acidental) que seu pai terá mais tarde. Para essa figura, ele transferiu um sentido que se
relacionava com um desejo – provavelmente agressivo – dirigido ao pai.
Toda análise feita por Freud em A Interpretação dos Sonhos não vem à toa. Tomando como
manifestação do inconsciente, pois segue seus princípios gerais. Por isso, os mecanismos do sonho estão
presentes na análise, já que seu terreno de ação e também o inconsciente.
Assim, a transferência do sentido que ocorre entre os restos diurnos e os elementos do sonho
ocorre igualmente em relação ao analista e, de modo análogo, em relação ao professor. A transferência, no
sentido psicanalítico, se produz quando o desejo se aferra a um elemento muito particular, que é a pessoa do
analista. Ou seja, podemos dizer que na relação professor-aluno, a transferência se produz quando o desejo de
saber do aluno se aferra a um elemento particular, que é a pessoa do professor.
Essa concepção de transferência, tomada no texto do próprio Freud, amplia a noção de que um
clichê (estereótipo calcado na figura dos pais) é transferido para a figura do analista e do mestre. O importante é
fixar a ideia de que o desejo inconsciente busca aferrar-se a formas (o resto diurno, o analista, o professor) para
esvaziá-las e colocar aí o sentido que lhe interessa.
Transferir é então atribuir um sentido especial àquela figura determinada pelo desejo.
Essa formulação tem implicações tanto para o analista como para o professor. Instalada a
transferência, tanto o analista como o professor tornam-se depositários de algo que pertence ao analisando ou ao
aluno. Em decorrência dessa posse, tais figuras ficam inevitavelmente carregadas de uma importância especial. E é
dessa importância que emana o poder que inegavelmente têm sobre o indivíduo. Assim, em razão dessa
transferência de sentido operada pelo desejo, ocorre também uma transferência de poder.
Uma outra consequência: se o analisando ou o aluno dirigem-se ao analista ou o professor,
colhido pela transferência, não são exteriores ao inconsciente do sujeito, mas o que quer que digam será escutado
a partir desse lugar onde estão colocados. Sua fala deixa deser inteiramente objetiva, mas é escutada através
dessa especial posição que ocupa no inconsciente do sujeito.
Isso explica, em parte, o fato de haver professores que nada parecem ter de especial, mas que, na
realidade, marcam um percurso intelectual de alguns alunos. Uma pessoa optou por ser um filósofo ou
matemático porque determinado professor, no ensino médio, despertou seu gosto por tais matérias. Não era um
grande teórico do assunto, tanto que só aqueles aluno se interessou pela matemática ou pela filosofia. A ideia de
transferência mostra que aquele professor em especial foi investido pelo desejo daquele aluno. E foi a partir desse
investimento que a palavra do professor ganhou poder, passando a ser escutada.
O desejo transfere sentido e poder à figura do professor, que funciona como um mero suporte
esvaziado de seu sentido próprio enquanto pessoa. Mas, que sentido esse desejo transfere? Como é que, em
última análise, este professor está sendo visto, já que é essa visão especial a mola propulsora do aprender?
Esse desejo e seu sentido singular escaparão sempre ao professor. Dele o professor poderá ter
por vezes alguns fleches, se estiver especialmente atento à sua emergência. Poderá saber como esse desejo se
construiu da maneira descrita anteriormente. Mas conhecer o modo singular como se realiza esse desejo naqueles
aluno em especial é, na verdade, tarefa do analista. Nem o aluno quer, no fundo, que seu professor saiba do
desejo que o move (nem mesmo, por sinal, pode sabe ele, já que se está falando sempre, não se pode esquecer,
do desejo inconsciente, por exemplo, de se tornar filósofo ou matemático, pois esse é consciente). Tudo o que
esse aluno quer é que seu professor suporte esse lugar em que ele o colocou. Basta isso.
De fato, não é nada fácil, embora essa ação seja simplesmente permanecer ali onde o colocam.
Ocupar o lugar designado ao professor pela transferência: eis uma tarefa que não deixa de ser incômoda, visto
que ali seu sentido enquanto pessoa é esvaziado para dar lugar a um outro que ele desconhece.
No campo da Educação podemos compreender a criança como um processo do brincar, esse
brincar também é transferido quando crianças estão em grupo ou sozinhas se relacionando com determinados
objetos. A transferência que acontece através desse brincar imaginário e emocional é o que leva a criança a se
desenvolver, nas trocas emocionais e jogos que trazem significados: o processo transferencial acontece também
no brincar.
6.3 PSICANÁLISE DA CRIANÇA:
A infância é a fase onde o individuo acumula vivências e experiências que lhe servirão de base na
construção da sua subjetividade, desse modo, também é neste período que o individuo começa a estruturar a sua
personalidade. Sabe-se que alguns transtornos podem prejudicar esse processo, entre os transtornos mais
comuns na infância estão os de ansiedade, de humor, de déficit de atenção e hiperatividade e os globais do
desenvolvimento, como o autismo.
Quando o psicanalista propõe uma sessão analítica aproximada do brincar, feita em um ambiente
de confiança e relaxamento e que visa à descoberta e construção do eu, ele faz isto de um modo que sustenta
certa posição sobre a psicopatologia (estudo dos sinais e dos sintomas dos transtornos mentais). Estamos diante
de uma visão radical que entende que todos nós estamos imersos na psicopatologia e na saúde ao mesmo tempo,
onde é esclarecido que “é importante para nós não encontrarmos clinicamente qualquer linha nítida entre a
saúde e o estado esquizoide ou mesmo entre a saúde e a esquizofrenia (patologia, mente dividida) plenamente
desenvolvida”.
É importante ressaltar que fazendo uma revisão da literatura acerca do tema, percebemos que as
teorias sobre o complexo de Édipo, tanto em Freud, Klein, Winnicott e Lacan, apresentam a concepção de um
sujeito marcado pelo universo da castração. É a partir da castração que a sexualidade infantil encontra um ponto
de ordenação, e é essa ordenação que oferece condições de construção da identidade sexual.
Segundo Freud, 1905, p.161 "(...) apenas impulsos sexuais impregnados de desejo oriundos da
infância, que experimentaram repressão (...) durante o período de desenvolvimento infantil, são capazes de ser
revividos durante períodos de desenvolvimento posteriores (...) e acham-se assim aptos a fornecer a força
motivadora para a formação de sintomas (...).” O infantil é o que fica sob a barra da censura, e esse infantil não é
senão o sexual, para Freud sempre traumático. O sintoma aparece no lugar do trauma sexual, e nisso as
articulações iniciais de Lacan não fazem senão retomar Freud.
A partir do Complexo de Édipo, e da forma como o sujeito lida com a castração é que vai
constituir as estruturas, a saber, neurótica, psicótica ou perversa e a partir delas é que podem surgir
psicopatologias ou não, as mais diversas.
PSICANÁLISE DE CRIANÇAS:
Ao pesquisarmos sobre psicanálise de crianças sempre encontramos o nome de Hermine Von
Hug-Hellmuth, pois lhe é atribuído o mérito de ser a primeira psicanalista de crianças. Hellmuth, 1921, apud,
Avellar, pag. 28, “reconhece a importância da comunicação da criança na primeira sessão, considerando que esta
comunicação contém o complexo nuclear da neurose infantil. Valoriza a utilização do brincar e da ação simbólica
como forma de permitir o desvelamento dos sintomas e da problemática da criança”.
Logo após Hug-Hellmuth, Melanie klein e Anna Freud também passaram a estudar o tema e a
utilizar em sua prática clínica. Melanie Klein, por exemplo, analisava seus filhos observando-os brincar. Para
Klein, apud, Roza, 1993, a problemática da criança não é algo que depende das suas relações com o ambiente,
mas é o produto da sua própria constituição interna. Anna Freud, apud, Roza, 1993 fez várias críticas ao método
utilizado por Klein, discordando disso e pontuando que na clínica psicanalítica, o brincar não poderia ser usado
como método de associação livre, pois o psiquismo das crianças é diferente dos adultos. Também questionou o
papel do analista, dizendo que se este parasse para observar as crianças brincando, fugiria às regras técnicas da
psicanálise deixadas por seu pai, Sigmund Freud. Para Anna Freud, o papel do analista seria confundido com o de
pedagogo ou professor, confundiria ainda o papel da escuta com o da disciplina.
Para Winnicott, o brincar é universal, uma forma básica de viver, e é somente no brincar que o
indivíduo pode ser criativo. O referido autor nos diz que “viver criativamente constitui um estado saudável, e a
submissão é uma base doentia para a vida”.
A forma como Winnicott concebe o brincar tem a ver com dois tempos. No primeiro tempo, o
bebê e o objeto estão juntos. A visão do objeto que o bebê tem é subjetiva. A mãe suficientemente boa se orienta
para concretizar aquilo que o bebê busca, a isto, Winnicott chama de criatividade primária, que só é possível
mediante uma ação de muito amor da mãe na direção de seu bebê, uma ação que só aos poucos se desfaz.
No segundo tempo, o objeto é ignorado como não-eu, aceito de novo e objetivamente percebido.
Neste tempo, a mãe devolve ao bebê o objeto que ele ignorou. A mãe oscila entre ser o que o bebê busca e ser ela
própria, aguardando ser encontrada. Se a mãe tem sucesso no exercício destes papéis, então o bebê vive a
experiência da onipotência, o que o prepara para a futura desilusão necessária. Quando a mãe tem uma relação
de sintoniainicial com o bebê, estabelece-se um ambiente de confiança e o bebê brinca com a realidade.
Segundo Lacan, o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Partindo desse ponto de vista,
surge uma dúvida: como é possível fazer análise de criança se estas não conseguem verbalizar e fazer associações
livres? Mas esta não é questão de embaraço para os analistas de criança como Françoise Dolto e Maud Mannoni,
que continuaram fazendo seus trabalhos com criança e obtendo resultados, F. Dolto, por exemplo vai nos
comunicar que no universo humano tudo é linguagem (mental – formação de ideias; verbal – formação e jogo de
palavras; gestual – formação de gestos emocionais; comportamental – formação dos comportamentos sociais e
também de distúrbios comportamentais).
Eliza Santa Roza, médica pediatra e psicanalista, pesquisou sobre o tema, e para melhor entender
essa questão coloca que as crianças não falam como os adultos, tem no jogo a sua forma preferencial de
interpretação do mundo e do outro, sendo que a prova disso é a constituição da neurose infantil, sendo este o
signo e a forma de constituição do sujeito do inconsciente.
É característico do comportamento infantil o brincar, por isso a psicanálise infantil tem a proposta
de deixar a criança livre para se expressar da maneira que lhe convém, e provavelmente a criança irá brincar.
Mesmo que o consultório não tenha brinquedos, ela faz de tudo um brinquedo, dessa forma, começa a se
expressar brincando, através do brincar a criança irá expressar suas fantasias reprimidas, seu inconsciente. E,
quando o brincar se dá de forma bizarra ou ele não aparece é sinal de que há alguma psicopatologia (transtorno)
grave.
A ESTRUTURA INCONSCIENTE DA CRIANÇA:
Sendo a infância uma fase de descobertas e aprendizados, a criança desde que nasce está em
constante aprendizado e a principal referência são os cuidadores, em especial a mãe, no qual para o bebê nos
primeiros meses de vida tem a mesma como parte de si. Ao longo do seu desenvolvimento e ao passar por alguns
estágios, é que o bebê vai percebendo o mundo externo e aprendendo por meio de outras fontes, exploração de
objetos e outras pessoas que agora são referências. Ao passar por essas etapas seu psiquismo vai sendo formado,
e a maneira como ele apreende o que lhe é marcado é estruturante para a formação da sua personalidade.
A perspectiva psicanalítica de Freud surgiu no início do século XX, dando especial importância às
forças inconscientes que motivam o comportamento humano. Freud, baseado na sua experiência clínica,
acreditava que a fonte das perturbações emocionais residia nas experiências traumáticas reprimidas nos
primeiros anos de vida. Acreditava também que a personalidade forma-se nos primeiros anos de vida, quando as
crianças lidam com os conflitos entre os impulsos biológicos inatos, ligados às pulsões e às exigências da
sociedade. Considerou que estes conflitos ocorrem em fases baseadas na maturação do desenvolvimento
psicossexual. Acreditava que o fato das crianças receberem muita ou pouca gratificação em qualquer uma das
fases do desenvolvimento psicossexual, pode levar ao risco de fixação, uma parada no desenvolvimento, e podem
precisar de ajuda para ir além do tempo dessa fase.
A infância é a época da vida em que há a maior capacidade de recepção e reprodução, na qual é
muito comum a presença da amnésia que, segundo a Psicanálise é um recalcamento, ou seja, envio de conteúdos
conscientes, os quais nos trazem sofrimento para o inconsciente, a fim de proteger o nosso psiquismo. A amnésia,
na maioria das pessoas, encobre os conteúdos sexuais até os seis ou oito anos de idade.
Antes de falar sobre o desenvolvimento psicossexual infantil, nos Três Ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905, 2006), Freud nos aponta três conceitos básicos que serão discutidos na sequência deste
trabalho: zonas erógenas, pulsões e libido.
Freud considerava as zonas erógenas como fontes das diversas pulsões parciais, órgãos
produtores da libido como a boca, pele, movimento muscular, mucosa anal, pênis, clitóris, sendo que em cada
idade predomina uma zona erógena específica. As pulsões são inatas (instinto) e consiste na estimulação e
satisfação da zona erógena específica de cada fase.
A libido é segundo Freud, a energia dos instintos sexuais enquanto a fase libidinal é a organização
do desejo sexual em uma zona erógena específica. De acordo com Freud, o desenvolvimento psicossexual infantil
organiza-se da seguinte forma: Autoerotismo, anterior ao narcisismo, caracteriza-se por ser o “instinto sexual
mais primitivo”, ou seja, a ausência de objeto sexual exterior.
Sobre as fases do desenvolvimento psicossexual temos a fase oral. Nesse período, a zona de
erotização é a boca e o prazer está ligado à ingestão de alimentos, estimulação e excitação da mucosa dos lábios e
da cavidade bucal e tem como objetivo a incorporação do objeto;
A fase anal inicia-se por volta dos 18 meses, estando situada entre os dois e quatro anos. Como o
próprio nome diz, a zona de erotização é o ânus. Nesta fase será desenvolvido o modo de relação do objeto:
“ativo” e “passivo”, o que está intimamente ligado ao controle dos esfíncteres (anal e uretral). Para Freud a
defecação oferece prazer erótico à criança.
A fase fálica surge por volta do quarto ou quinto ano de vida, quando o foco do prazer muda do
ânus para os genitais. Há o surgimento de perguntas como “Por que eu tenho pênis e as meninas não?”. Freud se
ocupou desde 1909 da cura de uma criança de cinco anos, o pequeno Hans, atingida por uma neurose fóbica,
medo de cavalos. Desde lá, o tratamento analítico com crianças vem sofrendo mudanças. Infelizmente, porém,
muitos se afastaram do sentido dado ao sintoma, preocupando-se apenas com o real dele, não observando os
conteúdos emocionais da criança que estão presentes.
O período de latência não é uma fase psicossexual de desenvolvimento, o instinto sexual está
adormecido, temporariamente sublimado em atividades escolares, hobbies e esportes e no desenvolvimento de
amizades com pessoas do mesmo sexo. Então, ao realizar a avaliação e acompanhamento psicológico de uma
criança é necessário mergulhar no universo do desenvolvimento infantil e do brincar, pois se tratam de dois
processos indissociáveis para um desenvolvimento saudável.
Segundo Lacan, 1998, p. 100 a função do estádio do espelho é estabelecer uma relação do
organismo com a realidade. O estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência
para a antecipação e que fabrica as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma
forma de sua totalidade. O eu constrói-se à imagem do semelhante e primeiramente da imagem que lhe é
devolvida pelo espelho. O bebê olha para a mãe buscando a aprovação do Outro simbólico. Lacan também
enfatizou que o investimento da mãe, o olhar relacionado à imagem do filho que gostaria de ter, antecipa um
sujeito que está por se constituir.
Por meio desse investimento externo sobre o psiquismo vai ocorrer um estado em que a criança
investe toda sua libido em si mesma. A criança vai poder reconhecer-se. Lacan, 1976, diz que quando se constrói
essa imagem de si mesmo, vai ser defendida como uma necessidade de satisfação narcísica, que se transformará
na demanda de ser objeto do amor de um outro. O bebê antes do estádio do espelho se sente como um corpo
fragmentado. Sua mãe faz parte dele e ela sente comose ele fosse parte dela. O bebê busca o prazer através do
seio materno, porém só quando o bebê perde o objeto do seu desejo é que ele percebe que sua mãe não faz parte
do seu corpo e não é completa. Esta perda vem através do significante do pai que são as leis e limitações naturais
da vida.
A mãe primeiro satisfaz a criança com a amamentação e também pelos seus afetos, seus desejos,
seus sintomas, que se estendem ao filho para serem simbolizados. Tudo isso que a mãe está propiciando ao bebê
vai permitir sua sobrevivência psíquica. A mãe passa a lhe oferecer um olhar, palavras, toques carinhosos e isso
vai construindo no bebê uma vida mental: ele vai estar vivendo experiências que tem significação, a partir do que
o outro materno vai passando para ele como experiências boas ou ruins.
O pai, enquanto função deve sustentar os atributos a ele conferidos pela mãe e se presentificar
perante o filho para garantir a este à saída da totalidade materna. A função paterna possibilita a inserção do
sujeito na cultura. Na ligação primeira com a mãe, o sujeito não se move para além daquele mundo mãe-bebê,
onde o acolhimento e o vínculo instauram esta posição de um ser do outro, ou seja, um como extensão do outro:
“O pai priva alguém daquilo que, afinal de contas, ele não tem, isto é, de algo que só tem existência na
medida em que se faz com que surja na existência como símbolo. O pai não castra a mãe de uma coisa
que ela não tem. Para que fique postulado que ela não o tem, é preciso que isso de que se trata já esteja
projetado no plano simbólico como símbolo. Mas há de fato uma privação, uma vez que toda privação real
exige simbolização. Assim é o plano da privação da mãe que, num dado momento da evolução do Édipo,
coloca-se para o sujeito a questão de aceitar, de registrar, de simbolizar, ele mesmo, de dar valor
designificação a essa privação da qual a mãe-se objeto. ‘Essa privação, o sujeito infantil a assume ou não,
aceita ou recusa’”. (Lacan, 1999, p 191, in Bernardino, 2008, pág. X).
É a partir dessa castração do pai, onde ele coloca a mãe no lugar de mulher e faz o filho perceber
que ele não tem o falo (a mãe), é que a criança aceitando ou não essa condição, vai começar a se perceber como
sujeito desejante e se estruturar enquanto sujeito. Portanto uma das principais contribuições da psicanálise é
reconhecer a criança, desde a mais tenra idade, como um sujeito de si mesma, considerando aquele que se atende
e/ou trata como sujeito de seus desejos inconscientes.
O BRINCAR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA:
A criança, ao nascer, vem como um ser frágil, como um ser familiar, inédito. Dessa forma, há a
necessidade da reorganização do tempo, do espaço, dos sentimentos e das expectativas. Então, de acordo com a
hospitalidade recebida e com a relação desenvolvida entre o novo sujeito, a mãe e o pai (ou quem assuma a
função dos cuidadores) estruturarão o psiquismo do sujeito.
Nos primeiros meses após o nascimento, a mãe (ou quem exerça a função materna), possui a
função de ego auxiliar da criança. Dessa forma, o narcisismo deve ser alimentado pela mãe em relação ao bebê,
pois tal investimento é fundamental para a construção de uma autoimagem positiva. Além disso, é fundamental
que a mãe e os demais cuidadores alimentem a questão narcísica não só através do amor, carinho e atenção
destinadas à criança, mas também através da estimulação adequada e necessária para o desenvolvimento físico e
psicossocial desse sujeito. Entretanto, para a estruturação do psiquismo neurótico, é imprescindível a frustração
da questão narcísica no sentido de mostrar para a criança limites e o entendimento de que no mundo não deve
imperar somente o seu desejo. Portanto, é através das frustrações que o sujeito irá aprender a canalizar os seus
desejos, e assim, poderá desenvolver e vivenciar a ética em relação aos seus desejos e ao outro.
As brincadeiras oferecem uma maneira de entrar no universo infantil. Através do brincar, a
criança acelera seu desenvolvimento. Através dessa atividade, ela aprende a fazer, a conviver e, sobretudo,
aprende a ser. Além de instigar curiosidade, a autoconfiança e a autonomia, proporciona o desenvolvimento da
linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção.
É importante esclarecer que brinquedo, brincadeira e jogo são termos que podem se confundir de
acordo com o idioma utilizado. Em Português, brincar refere-se a uma atividade lúdica não estruturada. Segundo o
filósofo e psicólogo Lev Vigotski, a brincadeira é uma situação imaginária criada pela criança e onde ela pode, no
mundo da fantasia, satisfazer desejos até então impossíveis para a sua realidade. A brincadeira é simbólica, livre,
não estruturada e tem um fim em si mesma, pois trata-se da brincadeira pelo prazer de brincar. Entretanto, todo
tipo de brincadeira pode estar embutido de regras, pois a criança experimenta e assume as regras pré-
estabelecidas e comportamentos baseados nas suas vivências. Dessa forma, o brincar favorece o desenvolvimento
cognitivo, pois os processos de simbolização e representação levam ao pensamento abstrato.
O ato de brincar, além de proporcionar um melhor desenvolvimento, pode também incorporar
valores morais e culturais, e assim, a criança será preparada para enfrentar o meio social.
É através das brincadeiras espontâneas que o ocorre o desenvolvimento da inteligência e das
emoções, e assim, as crianças desenvolvem a sua individualidade, sociabilidade e vontades. A brincadeira é
importante para incentivar não só imaginação e afeto nas crianças durante o seu desenvolvimento, mas também
para auxiliar no desenvolvimento de competências cognitivas e sociais.
A participação nas brincadeiras em grupo também representa uma conquista cognitiva,
emocional, moral e social para a criança e um estímulo para o desenvolvimento de seu raciocínio lógico. “A
criança que brinca investiga e precisa ter uma experiência total que deve ser respeitada. Seu mundo é rico e está
em contínua mudança, incluindo-se nele um intercâmbio permanente entre fantasia e realidade”.
Através das brincadeiras em grupo, a criança aprende a conviver em grupo, desenvolve
sentimentos de afetos, respeito. Segundo Melanie Klein (1997), ao brincar, a criança pode representar
simbolicamente suas ansiedades e fantasias e expressar seus conflitos inconscientes procurando superar
experiências desagradáveis.
Os pais ou as pessoas que cuidam da criança têm fundamental influência no desenvolvimento
dela, pois é durante muito tempo, o espelho da criança para que ela construa os seus recursos psíquicos para o
enfrentamento da vida. Além disso, os cuidadores são os responsáveis por proporcionar a criança meios que
estimulem o desenvolvimento da criança como um todo. Através do equilíbrio entre as relações de apego
desenvolvidas com os pais e a resolução do Édipo a criança começa a construir a sua personalidade, que também
sofre influência da cultura, da forma como a família e a sociedade tratam de forma diferenciada os sexos, os
papéis sociais atribuídos.
Além dos fatores influenciadores já apresentados, é interessante explicitar que os irmãos e a
convivência com outras crianças também influenciam no desenvolvimento psicossocial. A convivência com os
irmãos pode influenciar de maneia positiva ou negativa, dependendo da postura dos pais diante dessa situação,
principalmente no que diz respeito a “dividir o que têm” e ao ciúme. A convivência com outras crianças também
se desenvolve nesse mesmo viés e também faz partedo mundo social da criança, até porque as crianças
demonstram, principalmente após um ano de vida, interesse por pessoas que não são de dentro de casa,
especialmente as do mesmo tamanho que elas.
O paciente traz para a sessão elementos de experiências oriundas da realidade socialmente
sustentada e os usa como elementos de enriquecimento e transformação no campo transicional, com efeitos no
mundo interno. A sessão sem que haja alucinação vira um espaço de passagem entre o mundo interno e o mundo
externo, com duplo sentido, com potencial de criar ou recriar a transicionalidade infantil. Há interpretação dos
fatos externos e internos e até uma manipulação deles a partir da experiência criada na sessão.
Em O brincar e a realidade, Winnicott fala de um paradoxo quanto trata de fenômenos
transicionais e espaços potenciais. Ele apela contra o intelectualismo: “Minha contribuição é solicitar que o
paradoxo seja aceito, tolerado e respeitado, e não que seja resolvido. Pela fuga para o funcionamento em nível
puramente intelectual, é possível solucioná-lo, mas o preço disso é a perda do valor do próprio paradoxo. Temos,
portanto que “o brincar é essencial porque é através dele que se manifesta a criatividade”.
Em Lacan, o brincar é entendido como um ato, surgido como efeito da estruturação significante
do Sujeito. O que importa é o brincar e não propriamente o brinquedo, pois o brincar faz a criança querer
conhecer o outro.
PSICOPATOLOGIAS NA INFÂNCIA:
Ao falar sobre psicopatologias é importante lembrar um pouco sobre os conceitos de normal e
patológico. Essa é uma questão que preocupa mais aos filósofos do que os médicos, pois este último se preocupa
mais em saber o que vai fazer por seu paciente sem saber se é normal ou patológico. No caso dos psiquiatras
infantis, estes levam em consideração não só as queixas trazidas, mas, observam alguns aspectos na criança, antes
de enquadrá-la em uma psicopatologia. Normal e patológico são termos indissociáveis, pois um não se define sem
o outro. E, antes de dizer se algo é normal ou patológico é preciso observar vários aspectos da vida do sujeito,
portanto não nos ateremos à questão do normal e do patológico.
A psicopatologia fundamental, conforme Fédida (1988) tem a ver com a descoberta de que nossa
experiência psíquica é sempre sofrida. Tem a ver com a construção de uma visão singular desta dor de cada um,
uma singularidade ligada à história do desejo e da frustração do desejo de cada um. Tem a ver com a aceitação
criativa, não resignada, não submissa desta experiência de sofrimento e dor; está ligada à história de cada um que
permite a fundação de si. A análise poderá ser um espaço de experiência e de criação de si, onde se aprende com
a própria dor e se aprende a desistir de não sofrer.
Freud, desde cedo focou sua atenção no passado infantil de pacientes adultos neuróticos, pois a
neurose de transferência está diretamente ligada à revivescência da neurose infantil e seu desenvolvimento
caracteriza o desenrolar do tratamento. Na psicanálise a criança é o centro, mas é uma criança particular, pelo
menos nos primeiros textos psicanalíticos, a criança pela qual a psicanálise se interessa é, em primeiro lugar, uma
criança reconstruída, uma criança-modelo.
As principais psicopatologias da infância, como mencionadas no início do trabalho, são os
transtornos de ansiedade, de humor, de déficit de atenção e hiperatividade e os globais do desenvolvimento,
como o autismo e, alguns casos de psicoses graves.
A ansiedade constitui tanto em crianças como em adultos a porta de entrada para a maioria das
condutas psicopatológicas. Na criança surgem as complexas relações entre ansiedade de separação, dita
desenvolvimental e angústia de separação, dita patológica. As crianças ansiosas vivem permanentemente com um
sentimento de apreensão, como se algo ruim fosse acontecer. Nas crianças pequenas até a puberdade a angústia
de separação é a manifestação mais frequente. Um exemplo de ansiedade fóbica é o Pequeno Hans. Essa angústia
pode estagnar de acordo com o desenvolvimento da criança ou pode evoluir para fobias ou até mesmo para uma
psicose.
A origem dos quadros de psicose infantil estaria na ocorrência de distorções no relacionamento
mãe-bebê. Segundo Margareth Mahler (1983) parece haver crianças que devido a uma inerente fragilidade do ego
desde o estágio de indiferenciação, tornam-se alienadas do meio ambiente. Essas seriam as crianças com “psicose
autística infantil”, em que a mãe parece nunca ter sido percebida pela criança, nem como entidade
emocionalmente significativa, nem como representante do não-eu.
A mãe deve funcionar como “ego-auxiliar” da criança. Quando a sustentação, conforme
Winnicott, exercida pela mãe for bem sucedida, a criança a vive como uma “continuidade existencial”, no entanto,
quando falha, o bebê terá uma experiência subjetiva de ameaça, que obstaculiza o desenvolvimento normal. A
falta de holding adequado provoca uma alteração no desenvolvimento, cria-se uma casca (o falso self) em
extensão da qual o indivíduo cresce, enquanto o núcleo (o verdadeiro self) permanece oculto e sem poder se
desenvolver. O falso self (Eu, si mesmo) surge pela incapacidade materna de interpretar as necessidades da
criança. O desenvolvimento do falso self as custas do verdadeiro self, se relaciona a uma amplitude na escala de
psicopatologia que irá desde sensações subjetivas de vazio, futilidade e irrealidade até tendências antissociais
(indivíduo que despreza as relações sociais), psicopatia (indivíduo que cresce com a ausência de sentimentos e de
culpa, com mais tendência racional) e psicoses (indivíduo com sinais e sintomas de distúrbios ou transtornos
mentais).
Segundo Spackman (1998), as crianças com transtornos psiquiátricos apresentam vulnerabilidade
no comportamento, afetividade e relacionamento interpessoal, estes aspectos devem ser vistos em primeiro
lugar. O autismo é uma das formas mais comuns de psicose infantil e, traduz a incapacidade da criança em
estabelecer um sistema adequado de comunicação com seu ambiente. Estas são descritas como calmas e felizes
quando estão sós, não se manifestam, o olhar é vazio, ausente e é difícil fixar. Elas usam objetos como as pessoas,
de maneira parcial, bizarra e não simbólica, em manifestações repetitivas. Ao longo de seu desenvolvimento
muitas características vão surgindo, mas é necessário um acompanhamento terapêutico.
Contudo, analisando as patologias infantis e articulando à prática clínica de vários psicanalistas
infantis percebemos que a psicanálise é uma teoria bem fundamentada para a análise de crianças, pois
acompanha o desenvolvimento desta, chegando ao seu inconsciente através do brincar, pois brincando a criança
projeta suas angústias e seu mundo psíquico na brincadeira, sendo possível o analista chegar ao inconsciente da
criança.
6.4 CONTOS DE FADAS E DESENVOLVIMENTO INFANTIL:
Quando ouvimos uma história, lemos um livro, uma história em quadrinhos, ou mesmo quando
assistimos a um filme ou a uma novela de televisão, nos identificamos com heróis. Isso porque eles nos trazem
admirações e sonhos com aventuras e não apenas por acomodar valores.
A capacidade de simbolizar é fundamental pra a nossa natureza psíquica e emocional, e é um
atributo desejável para um desenvolvimento intelectual pleno, saudável e criativo. A criatividade, a fantasia e a
imaginação tornam o ser humano mais autônomo e independente.Através da fantasia, as crianças têm maior facilidade de compreensão, pois ela “se aproxima mais
da maneira como veem o mundo, já que ainda são incapazes de compreender respostas realistas”. As crianças dão
vida a tudo: ao sol, à lua e todos os elementos do mundo, da natureza e da vida. Nas histórias, elas se identificam
facilmente com os problemas dos personagens, sendo isso fundamental para seu desenvolvimento emocional.
A fantasia dos contos de fadas é fundamental para o desenvolvimento da criança. Há significados mais
profundos nos contos de fadas que se contam na infância do que na verdade que a vida adulta ensina. É
por meio dos contos infantis que a criança desenvolve seus sentimentos, emoções e aprende a lidar com
essas sensações.
O conto é um instrumento de trabalho muito importante que auxilia a criança a lidar com a
ansiedade que está vivenciando e superar obstáculos, favorecendo para o desenvolvimento da personalidade. A
criança concentra-se mais e aprende a respeitar o outro através dos contos e histórias infantis (técnicas em que
pode ser usado da psicanálise de criança e pedagogia).
Segundo o dicionário universal da língua portuguesa (2007), “imaginação” significa “faculdade de
conhecer e criar; faculdade de representar no espírito objetos ausentes; pensamento imaginário; fantasia”.
Nas palavras de Postic (1993, p.13):
“Imaginar é evocar seres, colocá-los em determinada situação, fazê-los viver como se quer. É criar um
mundo a seu bel-prazer, libertando-se. Tudo é possível. Tudo acontece. (...) Na vida cotidiana, imaginar é
uma atividade paralela à ação que exercemos ligadas à realidade. A imaginação é um processo. O
imaginário é seu produto”.
Para o filósofo Sartre, a imaginação é um ato mágico. É uma encantação determinada a fazer
aparecer o objeto pensado, desejado. Imaginar é reconstruir e transformar a realidade por meio dos significados
dados aos acontecimentos ou repercussões interiores que eles têm em nós.
A criança expressa seu imaginário primeiro pelo jogo, pelo gesto, pelo corpo. É só depois que ela
vai utilizar do desenho, da pintura, e por fim, da narração. O brincar de faz-de-conta, não é uma atividade banal
ou vazia. É do faz-de-conta que depende grande parte do desenvolvimento cognitivo da criança. O jogo do faz-de-
conta começa mais ou menos a partir do segundo ano de vida, onde os brinquedos são utilizados para seus
propósitos reais: a criança utiliza de objetos como uma colher para “comer”, ou um pente de brinquedo para
pentear o cabelo.
Aproximadamente com um ano e meio, ocorre uma mudança: “o receptor da ação de faz-de-
conta agora passa a ser uma outra pessoa ou um brinquedo, em especial uma boneca”. A criança passa a encenar
com este objeto simbólico (a boneca), se envolvendo na situação e sobrepondo seus estados afetivos: a criança
pode fazer carinho na boneca, assim como pode a repreender. A criança adota papéis sociais, pontos de sua
referência, como os próprios pais, professores, etc. Mesmo sabendo que “não é pra valer”, a criança representa
como se fosse verdade, entusiasmando-se e deixando-se levar pela brincadeira.
Entre dois e três anos de idade, ocorre outra mudança, na qual as crianças começam a utilizar
objetos para representar algo totalmente diferente dos seus propósitos típicos: uma vassoura passa a ser um
cavalo, um fuzil, uma lança. Tudo é possível.
“Cavalga-se uma baleia e enfrenta-se um tubarão. Nasce assim espontaneamente, uma visão que se apoia
no real e dele se liberta assim se desperta a exaltação de viver. A criança apropria-se do real sem que este
se volte contra ela”.
Com aproximadamente quatro ou cinco anos, as crianças passam 20% de seu tempo lúdico
brincando de faz-de-conta.
HISTÓRIA DOS CONTOS:
Em muitas sociedades, os contos eram envoltos em significados sagrados. Foram protegidos e
transmitidos, perpetuando-se através das gerações até a atualidade. E mesmo nessa atualidade, o que vemos é
que os contos trazem uma proteção às crianças, no momento em que pedem aos pais que lhe contem uma
história para que adormeçam.
Mulheres de diferentes classes sociais foram responsáveis pela criação de muitos contos
conhecidos atualmente. Inicialmente, os contos não eram feitos para crianças, uma vez que estas não eram
reconhecidas por suas características próprias de infância. A literatura dirigida à criança foi produzida a partir do
século XVII, após a queda do sistema feudal, com a qual a família torna-se unicelular, e a criança é tida
biologicamente como frágil e afastada dos meios produtivos. Consequentemente, a infância começa a ser pensada
como uma fase de dependência do adulto. “A criança passou a ser valorizada, e juntamente com as ideias para
seu desenvolvimento intelectual, surge à necessidade de manipulação de suas emoções”.
A ESTRUTURA DOS CONTOS DE FADAS:
“Os contos de fadas são narrativas, com ou sem a presença de fadas, que se desenvolve dentro de uma
magia feérica. O eixo central dessa narrativa refere-se a uma problemática existencial em que o herói
busca a realização que está relacionada à união homem-mulher”.
Os contos de fadas tendem muito para o lado do encantamento, do fantástico. Um mundo
habitado por seres maravilhosos, todos convivendo naturalmente. Nada é considerado estranho. Tudo é
maravilhoso no mundo da magia, do sonho e da fantasia. Não há limitações da vida humana e os conflitos são
resolvidos por meios sobrenaturais.
A estrutura dos contos corresponde às necessidades infantis. Os contos de fadas falam de heróis
comuns. Seus nomes são genéricos e descritivos, ou comuns, como João e Maria. Os pais dos heróis também
podem ser qualquer um de nós. Dessa forma, “torna-se mais fácil uma identificação com esses personagens
genéricos, que vivem situações cotidianas e que têm uma família comum, e não sobre-humana ou sobrenatural”.
Os contos de fadas começam de uma maneira simples e partem de um problema ligado à
realidade. A criança se depara com situações equivalentes à sua realidade interna. Buscando solucionar esses
conflitos, aparecem as figuras mágicas. “E a narrativa termina com a volta à realidade, em que os heróis se casam
ou retornam ao lar”. Não há a localização temporal, pois este pouco importa para os contos de fadas. Assim
sendo, as crianças e adultos dos contos de fadas não envelhecem, já que o tempo não existe: “a velhice e a
juventude faz parte do caráter do personagem”.
“Todo conto se inicia em um outro tempo e em um outro lugar, e a criança sabe disso. Ao iniciar um ‘era
uma vez’, a criança sabe que partirá em uma viagem fantástica e que dela retornará com um ‘e viveram
felizes para sempre’ (...). Esses rituais mostram que vamos tratar de fantasia, de uma Terra do Nunca.
Quando nós, adultos, entramos em um cinema, ao se apagarem as luzes, não questionamos se o filme é
real ou não. Embarcamos nessa viagem e identificamo-nos com os personagens, chorando e dando
risadas. Quando as luzes se acendem, às vezes saímos um pouco tontos da sala de projeção, mas
retornamos ao nosso mundo real”.
Os contos de fada se estruturam de forma com que a criança consiga também estruturar seus
devaneios e assim direcionar melhor a sua vida. Eles não iludem, e sim, expõem as crianças às dificuldades
fundamentais do homem. Além disso, aguçam a imaginação. Os contos de fadas, em sua maioria, nos trazem, a
princípio, a angústia de ruptura com o meio familiar no momentode passagem para o mundo adulto. O que salva
o herói é o seu grau de amadurecimento. “A mensagem oculta é a de que precisamos de nossos pais, mas para
crescer, temos de nos libertar da dependência deles”. Em um segundo momento, ocorre à necessidade do herói de
ser reconhecido além de seu âmbito familiar, como filho por uma “família fantasmática mais ampla”.
CONTRIBUIÇÕES DOS CONTOS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL:
“O bebê necessita de um acalanto para dormir, a criança precisa de uma história e o adulto, muitas vezes,
vê-se rodeado de um livro, ou mesmo de um filme, sem o qual não consegue embalar no sono noturno”.
Mesmo parecendo terríveis, figuras como bruxas e ogros, por exemplo, podem acalmar a criança
no acalanto, pois desvenda questões humanas que todos precisamos elaborar como a separação, a morte, o
desamparo (temas muito apresentado em contos e cantigas de ninar).
“O acalanto seria uma forma de exorcizar os maus-espíritos que tentam separar mãe e filho, ajudando
ambos a aceitar a inexorável solidão humana. O pedido do acalanto ou do conto antes de adormecer
mostra justamente que o sono representa uma separação, em que se libera a mãe para outras
atividades”.
As crianças muito pequenas ainda não têm condições de abstrair. Muitas vezes, as explicações
dadas pelos adultos são incompreensíveis e elas só acharão consolo nos contos de fadas.
Nos contos de fadas e nos mitos são ilustrados, simbolicamente, nossa história interna e nossos
conflitos internos (como a rivalidade entre irmãos, por exemplo), sendo que o personagem principal somos nós
mesmos. Através de uma linguagem fantástica, os contos procuram explicar a existência humana. A criança se
identifica com o herói da história e capta significados a partir de seus interesses e necessidades momentâneas. Os
contos mostram à criança muitas questões humanas que ela vivencia, mas não consegue verbalizar. Eles dão
forma a desejos da própria criança, aguçando a imaginação e favorecendo para o seu processo de simbolização
que, é de grande importância para a sua inserção no mundo civilizado e cultural. “(...) [A criança] troca de
identidade de acordo com os problemas que tem que enfrentar”. Os contos de fadas sugerem, de forma simbólica,
como convém resolver os conflitos internos.
Os contos de fadas, bem como os mitos, usam a mesma linguagem que o inconsciente. Os contos
falam diretamente com a criança, sem conselhos, explicações ou sermões.
“Eles falam ao inconsciente através de imagens, que vão conversar com as bruxas, os monstros, os medos
que a estão assustando. Com o auxílio das fadas ou da espada mágica, a criança adquire forças para
vencer o que a assusta ou preocupa. Enquanto ela não soluciona seu problema inconsciente, ouve ou lê a
história até que o resolve. É esse um dos motivos que leva as crianças a pedirem que lhe contem várias
vezes a mesma história”.
O pedido de contar mais uma vez a história, é uma “forma de a criança apropriar-se de suas
emoções e elabora-las” (p.143). Para tanto, a criança reconta várias vezes a mesma história, brinca e a dramatiza.
Utilizando o simbolismo das histórias, ela consegue expressar as suas angústias. A criança também sempre terá
uma história preferida que remete diretamente a algum conflito importante que esteja passando. Em momentos
diferentes, a criança se identifica com determinado personagem, logo que despertada a sua angústia.
Segundo Freud, as crianças identificam-se com os contos de fadas, pois estes desencadeiam temas
universais dos seres humanos. Eles transmitem a garantia de sucesso na resolução de problemas das crianças. Os
contos de fadas são apresentados de forma simbólica, dando base para a assimilação de conflitos internos de
acordo com o estágio de desenvolvimento (tanto psicológico, como intelectual) que a criança está passando.
Eis o final feliz, como uma realidade interior, pela qual “(...) a criança conseguirá superar seus
conflitos e se tornar independente”.
Quando a criança sente medo da bruxa, ou do monstro, ela passa a sentir menos medo de seus
pais.
“A mãe má, personificada na figura da bruxa, ajuda a preservar a mãe boa dos ataques sádicos da
criança. Quanto mais intensa a fantasia sádica dirigida aos pais, maior a necessidade de a criança manter
as figuras dos pais bons, protegidas e separadas. Ao internalizar essas figuras más, a criança intensifica
seu contato libidinal com seus objetos externos. Procura segurança na pessoa real da mãe, distanciando-a
de sua figura interna, terrorífica (...). É mais fácil e menos angustiante para uma criança temer uma bruxa
do que sua própria mãe, que também é objeto de amor. A figura da bruxa, ou da madrasta má, simboliza
justamente as dificuldades entre mãe e filho, no processo pré-edípico. A figura da mãe, projetada na
madrasta ou bruxa, alivia o ódio entre mãe e filho”.
Pelos contos, a criança aprende “(...) a dominar seus medos reais e, dessa forma, suas relações
cotidianas melhoram. O medo de um pai ou de uma mãe pode tornar-se um objeto mental dominado pela
criança”.
CONTOS INFANTIS NO CONTEXTO ESCOLAR:
Para uma história prender a atenção de uma criança, esta deve fazer uma relação com “todos os
aspectos da personalidade da criança”. Isso deve ser feito sem menosprezá-la. Os conflitos são sempre por
intenção maldosa contra uma pessoa de bem e só é resolvido pelo encantamento. A bruxa (ou o mal) persegue o
herói, aumentando o conflito até o final, onde o bem triunfa e o mal é castigado. A morte da bruxa (do mal) tem
que ser total e absoluta. A criança tem que interpretar a morte como algo definitivo (ou senão a bruxa pode
reaparecer). Então, a história termina com um final feliz.
O que muitos autores criticam é o fato de ainda hoje, pais e educadores (guiados pelo pensar),
exigirem da criança explicações racionais para tudo que elas fazem. Acreditam que a atividade artística, quando
desprovida da intelectual, forma pessoas incapazes de lidar com a vida cotidiana.
Muitos adultos acreditam que os contos de fadas seja prejudicial à criança, justamente por seu
caráter irreal, e tentam de alguma maneira censurá-los ou torná-los mais realistas. A fantasia acaba sendo
considerada como um elemento “que dificulta o acesso à realidade e [é] taxada de mentira”.
Ao fazer isso, esses pais e/ou professores estarão impedindo a criança de lidar com seu próprio
medo e agressividade. “O que traumatiza as crianças não é o contato com os elementos escabrosos, mas o
significado e a relevância que os adultos lhe dão”. As crianças só temerão imagens assustadoras, quando os
adultos insistirem no seu caráter assustador.
“(...) ao censurar os contos de fadas, muitos pais e professores não estarão protegendo a criança de
vivenciar situações que estes apresentam como o medo, a sexualidade, a inveja, o ódio, entre outros. Esses
sentimentos já estão presentes na criança, de forma fantasiada, desde muito cedo. A ideia de que o
contato com tanta fantasia desorganiza, ao contrário do que se imagina, pode servir como fonte de
elementos simbólicos para a própria organização mental”.
E não devemos esquecer-nos da importância de a criança se projetar na história e no personagem,
de imaginar os personagens, a paisagem. “Quanto mais elementos realísticos a história tiver, menos a
possibilidade da criança se projetar nela”.
7. RELAÇÃO E DESENVOLVIMENTO AMOROSO HUMANO
7.1 AMOR EM PSICANÁLISE:Ao investigar os fundamentos do amor, a psicanálise apresenta, de forma sistematizada, o que os
poetas já sabiam: o encontro da verdade com o saber não decifra toda a verdade.
Sigmund Freud, já na Idade Contemporânea (séc.XIX em diante), através da observação de que
uma paciente histérica queria dizer algo que, não conseguindo expressar com palavras, o fazia por meio do seu
corpo, descreveu a energia de Eros (libido), chamando-o de instinto amoroso, o qual engloba tudo aquilo que
pode ser sintetizado como amor, incluindo: O “si mesmo”, “pais”, “filhos”, “humanidade”, “saber” e “objetos
abstratos”. Em Eros convergiam pulsões parciais de ternura, ciúme, inveja e desejos sexuais dirigidos para os
mesmos objetos.
Freud definiu amor como um conjunto de processos mentais internos que dirigem a libido do indivíduo
para um objeto (parceiro), com objetivo de alcançar satisfação. Para ele, a sexualidade seria a base de
todas as manifestações do amor.
De tal modo, a pulsão instintiva dirige o indivíduo para o amor, uma maneira de concretização
natural do ser ao encontrar compatibilidade no outro. A partir da expressão, amar o outro, concluímos ver no
outro a imagem do nosso amor fazendo jus a ele, por ser ele igual ou melhor do que nosso amor, um estilo de
amar mais perfeito que o nosso, nosso ideal, nosso próprio eu. Como amar o outro, se este não tem nada a ver
com o nosso eu? Não existindo compatibilidade ao nosso valor seus valores não nos atraem, assim, fica claro o
paradoxo do amar ao outro:
Na verdade, se aquele impotente mandamento dissesse: ‘Ama a teu próximo como este te ama’, eu não
lhe faria objeções. E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que
desperta em mim uma oposição mais forte ainda. Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’(Freud).
Os fenômenos da vida podem ser explicados, pelo movimento de forças opostas dos instintos de
vida e de morte. Porém, como a atividade do instinto de morte, age como um meio de destruição que, em parte
se mantém latente, e em outra, se manifesta no sentido de agressividade. Assim, o instinto de morte, é compelido
para o serviço do amor. Ao invés de destruir o eu consciente, destrói parte do organismo. Se tal agressividade
mantivesse contida a autodestruição ganharia força. Os dois tipos de instintos estão mutuamente mesclados em
oposição.
Neste sentido, o instinto da sensualidade, mantém em si uma tendência para o amor e
autodestruição. Freud relaciona a libido, enquanto força variável, no campo da excitação sexual, com tudo que se
pode entender como amor e denota as manifestações do amor a fim de distingui-las da energia do instinto da
morte. A morte, por se ocultar no instinto de amor é mais difícil apreende-la, sua inclinação para a agressão,
constitui uma disposição instintiva original que atravanca a civilização. O instinto de agressão é o representante
da morte, e, ao mesmo tempo, o mais próximo do amor e com este, divide o domínio da existência. Significando
que as evoluções da civilização já não são mais obscuras, pois a luta dos opostos, amor e morte, definem o curso e
o fundamento da vida, a saber; a luta da espécie humana pela vida.
Jacques Lacan baseia-se no amor grego para articular o par amante-amado com a estrutura do
amor. Aquele que experimenta a sensação de que alguma coisa lhe falta, mesmo não sabendo o que é, ocupa o
lugar de sujeito do desejo (amante); aquele que sente que tem alguma coisa, mesmo não sabendo o que é, ocupa
o lugar de objeto (amado). O paradoxo do amor reside justamente no fato de que o que falta ao amante é
precisamente o que o amado não tem. Se Eros nasce de uma aspiração impossível, que é de dois fazer um, o ser
humano inventa o mito do amor, sustentado na promessa de felicidade. E, enquanto isso não vem, o bem se
transforma em mal, inaugurando uma escola de amor infeliz.
Aldo Carotenuto (1994), inserido na corrente junguiana da psicologia analítica, descreve a
fenomenologia da experiência amorosa, procurando suas causas inconscientes e seus fundamentos mais arcaicos.
Atento às dimensões da individualidade, da interioridade e do imaginário dessa experiência, ele atenta,
principalmente suas ambivalências e contradições. A experiência do amor deve afeiçoar-se ao imaginário dos
nossos desejos com a realidade e com o imaginário da pessoa amada. Desta forma, resultam as sensações de vida
e morte, de presença e ausência, de síntese e solidão, de atração e angústia, de libertação e culpa, de respeito e
desmoralização, de força e vulnerabilidade, de fantasia e realidade, de luz e sombra, de ternura e violência, de
diálogo e incomunicabilidade, de confiança e ciúme, de fidelidade e traição, de êxtase e abismo, enfim, de Eros e
Pathos, amor e sofrimento.
Segundo Jung, fundador e principal autor da corrente analítica o amor é entendido da seguinte
forma:
O amor representa uma grande problemática para a evolução do homem, onde este, para dar-se conta
desse processo necessita da relação com o outro, com o coletivo, mesmo sentindo que esse processo é
algo do individual, quando não consegue perceber que ‘é muito da incapacidade de amar que roubam das
pessoas as oportunidades;
Jung completa: “Onde temos Amor, não temos Poder, e, onde temos Poder, não temos Amor”.
ATÉ ONDE O AMOR PODE CHEGAR?
Até onde o amor pode chegar? Como explicar que tal sentimento é capaz de levar à destruição de
si próprio e de quem se ama? Quando o amor ultrapassa a linha da normalidade para adentrar o universo das
patologias - doenças, dependências? Enfim, como esse sentimento se transforma em obsessão abrindo caminho
para o amor patológico?
ELE É MARAVILHA OU SOFRIMENTO?
A sociedade, impregnada do capitalismo de consumo, instiga a liberação e a incitação do desejo,
apresentando-se narcísica em sua forma, ou seja, na maneira como produz e opera com a imagem, a qual é
transmitida para oferecer um hipotético prazer imediato.
O mesmo movimento ocorreu na instituição família que, de repressora e formadora de indivíduos
com superego forte, capazes de bastar a si mesmos, tornou-se muito permissiva para com os desejos dos filhos, os
quais, sem laços afetivos que os orientassem, tornaram-se inseguros, com superegos fracos e inclinados à
dependência do julgamento e da aceitação do outro.
Do ponto de vista psicológico, a procura narcisista por aceitação e atenção do parceiro em um
relacionamento amoroso pode ser comparada à procura da segurança e afeto onipresente da própria relação
simbiótica com a mãe, ou seja, na relação mãe-bebê, época da onipotência, quando o outro e o mundo faziam
parte indiferenciada do Eu, ou seja, o bebê recebia afeto e todas as suas necessidades eram prontamente
atendidas: não havia a sensação de falta.
E O VERBO É SOFRER:
Assim como ocorre com outros comportamentos impulsivos, é difícil, no relacionamento
amoroso, estabelecer o limiar entre o que é normal e o que é patológico. A atitude de prestar atenção e cuidados
ao companheiro é esperada em qualquer relacionamento amoroso saudável. O grande diferencial entre o normal
e o patológico ocorre quando existe falta de controle sobre essa conduta.
Quando amar é sofrer, então você provavelmente está amando a pessoa errada, da maneira
errada, alguém emocionalmente fechado, viciado em trabalho, bebida ou em outras mulheres, alguém que não
pode retribuir seu amor. Mesmo assim, você insiste, sacrifica-se, anula sua personalidade, continua tentando.Segundo a psicóloga Beatriz Helena Paranhos Cardella, autora do livro Laços e Nós - Amor e Intimidade nas
Relações Humanas, o amor pode ser uma experiência positiva de mudança, na qual a pessoa se torna mais
criativa, mais aberta, mais corajosa, permitindo aos amantes viver o sublime. No entanto, o problema surge
quando se fica preso a este, uma vez que, deixa de ter vida própria e passa-se a viver em função do outro, a fim de
preencher uma lacuna emocional. "Não é porque alguém faz uma loucura ou extravagância que vai ser,
obrigatoriamente, um companheiro melhor, nem significa que tenha mais valor", lembra Beatriz.
Segundo Eglacy C. Sophia, psicoterapeuta e pesquisadora do Ambulatório do Amor em Excesso
(Amore) da USP, em sua pesquisa denominada, Amor patológico – Um novo transtorno psiquiátrico, no amor
saudável é comum e esperado um comportamento recíproco de prestar atenção e cuidar do parceiro. Porém,
quando esse comportamento se torna excessivo e o indivíduo passa a fixar atenção no amado mais do que
gostaria, abandonando outras atividades e pessoas anteriormente valorizadas, quando o amor deixa de ser
prazeroso e passa a restringir a possibilidade de viver sem amarras, está caracterizado o amor patológico.
A psicóloga Judith Vero, co-autora do livro Falando de Amor - Uma Escuta Musical dos Vínculos
Afetivos, conta que esse sentimento avassalador pode se manifestar em diferentes níveis. "Entre casais, amigos,
irmãos ou na relação de uma mãe com o filho, esse é um amor que faz mal e vem de quem não quer permitir que
o ser amado viva sua própria vida".
DA ALEGRIA AO AMOR:
O amor que acalenta amantes apaixonados, certamente não é o mesmo mal entendido amor que
é caracterizado como amor patológico, pois, neste, várias emoções são experimentadas, tais como a ansiedade,
depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de
vingança. O portador de amor patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo
distorcido de vivenciar este.
O amor patológico se caracteriza pelo comportamento de prestar cuidados e atenção ao parceiro,
de maneira repetitiva e desprovida de controle, com o intuito de obter afeto, sem respeitar as necessidades e
interesses do outro, muitas vezes com atitude crítica quando não recebe o esperado, contrariamente ao conceito
de cooperatividade, que inclui ajuda desinteressada, tolerância e empatia social, em um relacionamento amoroso
que se diferencia da erotomania ou amor delirante, diz Sophi. Essas pessoas também têm dificuldade de estipular
metas e de se manter focado nelas: "isso ocorre porque o foco principal de sua vida é manter o parceiro sob
controle, pois necessita da sua atenção". As principais táticas empregadas para controle são ligações telefônicas,
seguir o parceiro, inquirir sobre as atividades dele, ser extremamente atencioso para com as necessidades dele e
provocar ciúme.
É importante deixar claro que para que se caracterize amor patológico, que a atitude repetitiva
seja mantida pelo portador, mesmo após concretas e reiteradas evidências de que está sendo prejudicial para a
sua vida e para a vida de seus familiares.
O amor patológico é uma doença que causa dependência como se fosse uma droga, só que nesse
caso, a droga não é um produto químico ou álcool, é o parceiro ou parceira.
O medo da perda é um indício acentuado no amor patológico. A perda do objeto (ser amado) não
diz respeito à perda pela morte, como ocorre num relacionamento normal, mas o temor maior e o sofrimento
mais assustador é a perda do controle sobre o ser amado. Por isso, há quem diga que a essência desse amor é o
medo. A pessoa foge da sensação de isolamento tornando-se parte de outra.
Esse quadro pode ainda, estar presente em outros transtornos psiquiátricos, associado a sintomas
depressivos e ansiosos primários ou pode ocorrer isoladamente em personalidade vulnerável com baixa
autoestima, sentimentos de rejeição, de abandono e de raiva.
O AMOR É FERIDA QUE DOI E NÃO SE SENTE?
Do ponto de vista fisiológico, esse quadro pode ser explicado por dois sistemas neuronais
responsáveis pela seleção e preferência por um parceiro específico: o sistema dopaminérgico-córtico-estrial, que
também é responsável por comportamentos relacionados à volição e pela capacidade de vinculação social, o
sistema de neuropeptídios transmissores formado pela ocitosina, pela vasopressina e pelos opióides endógenos.
A vasopressina e a ocitosina atuariam como moduladores na preferência por determinado parceiro, enquanto os
opióides endógenos, como a betaendorfina (processo hormonal), seriam responsáveis pela sensação prazerosa na
consumação do ato sexual e, possivelmente, de outros comportamentos instintivos.
Segundo ela, ocorreriam sensações universalmente inatas em nossa espécie, as quais ativariam
todos os estímulos sensoriais (olfato, audição, tato, gosto e visão) e que se cruzariam na amígdala, a estrutura do
sistema límbico responsável pelas emoções e pelas respostas correspondentes. A amígdala informaria ao córtex o
que está acontecendo, que nos tornaria conscientes desse sentimento e nos propiciaria a experimentação da
sensação de prazer despertada pelo indivíduo (objeto) da paixão. Assim a atividade da amígdala seria mediada,
sobretudo pela serotonina (processo hormonal, ligado ao prazer e satisfação). O mau funcionamento do controle
serotoninérgico, portanto, poderia ser a causa do comportamento prejudicial e desprovido de controle em uma
relação amorosa.
Segundo Eglacy C. Sophia, o estado de consagração desse amor acenderia fortes descargas de
adrenalina, o que pode esclarecer o estado de constante euforia. As sensações experimentadas por quem vive
esse tipo de amor são análogas à provocada por altas doses de anfetamina no organismo humano. Isso acontece
porque o amor produz uma substância conhecida como feniltilamina, que também está presente no chocolate, o
que explica por que algumas pessoas que vivem uma perda gostam de se empanturrar de chocolate.
Um estudo verificou que, independente da cultura, a reação cerebral dos apaixonados é a mesma:
ao ver fotos do ser amado, se "acendem" algumas partes do núcleo caudado do cérebro, estrutura que regula a
sensação de recompensa. São zonas ricas em dopamina, neurotransmissor que age no cérebro promovendo
sensação de motivação e prazer, e endorfina, que desperta sensação de bem-estar e euforia. "O fenômeno é
semelhante ao que ocorre com dependentes químicos e jogadores patológicos diante da droga de escolha".
E O AMOR VAI AO DIVÃ:
A maioria das pessoas que experimentam o amor patológico, na maioria das vezes, procura ajuda
quando não suportam mais a amargura, a aflição e frustração devido ao relacionamento. Segundo Eglacy C.
Sophia, o primeiro passo é o paciente ter consciência do problema. O tratamento inclui psicoterapia
psicodinâmica, que se fixa aos aspectos conscientes e inconscientes do funcionamento da mente. Esse recurso
pode aliviar sintomas que, possivelmente, estão presentes desde a infância. O diagnóstico de um psiquiatra
também é considerado importante, pois este pode indicar se a pessoa sofre de algum outro distúrbio, associado
ao amor patológico, que poderá ser tratado a partir de medicamentos.
7.2 IDENTIFICAÇÃO COM OS PAIS NA BUSCA DO PARCEIRO AMOROSO:
Este trabalho tem o propósito de investigar como ocorre o processo de escolha dos parceirosna
vida adulta, como nos identificamos com alguém, o porquê nos identificamos com esse indivíduo que pouco
conhecemos, e o que está atrás desta escolha que inconsciente fazemos.
A dúvida intrigante é porque escolhemos alguém que, muitas vezes, se assemelha aos nossos
cuidadores ou a nós mesmos e como ocorre esta identificação com algo que não podemos ver e nem sequer
pensar sobre o que está acontecendo.
Muitas pessoas que passam ao longo de nossas vidas se assemelham as que foram ou ainda são
importantes para nós. A pessoa que escolhemos para namorar ou casar, em muitos casos, pode ser semelhante ou
com nosso pai, ou com nossa mãe, ou com quem os substituiu em nossa vida. A identificação é exposta por Freud
como sendo a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa.
Freud diz que podemos nos identificar com coisas boas do indivíduo, mas podemos, também,
outras vezes, nos identificarmos com os sintomas das pessoas, problemas que se apresentam no outro, mas que
reconhecemos como nosso, pois, para o autor, em algum momento da nossa vida, já passamos por aquilo que o
outro está passando e tendemos a nos colocar no lugar dele. Neste caso Freud observa a escolha que o indivíduo
faz, onde este anula o objeto, ou seja, a pessoa com quem iria se identificar e dá uma total importância ao
sintoma do mesmo, se identificando com o sintoma e não com o objeto. A Psicologia chama este fato de empatia,
mas, como Freud em seu texto, nós a colocamos como identificação, o que não deixa de ser uma nem outra.
A pessoa pode identificar-se com o outro de duas maneiras:
1. Primeira é através da vontade consciente, é o caso de você admirar uma pessoa, vestir-se como ela, falar
com o modo da outra pessoa, enfim, traços que são visíveis e que você adota como seus;
2. Segunda forma de identificação é inconsciente, pois ocorre um movimento ativo de ir em busca da pessoa
que elegemos a fim de assimilar seus traços, se possível incorporá-la, mas, segundo esclarecimento do
autor, não temos consciência porque fazemos ou porque escolhemos certa pessoa para adorá-la, amá-la
ou odiá-la.
A intenção neste trabalho é justamente investigar como acontece o processo de escolha do
parceiro amoroso, como a nossa ligação com os pais traz, no decorrer de nossa vida, a determinação de escolher
tal indivíduo para se unir e formar uma família.
Como consequências, exemplificamos a enorme procura por psicólogos ou por terapeutas de
família para resolver conflitos dentro da relação e até mesmo para dar um entendimento para a vida e para a
escolha daquele amor.
7.3 DESENVOLVENDO O PROCESSO DE ESCOLHA DO PARCEIRO AMOROSO:
Geralmente é por volta dos 20 a 40 anos que começamos a fazer nossas escolhas de vida, escolher
com quem iremos nos casar, se teremos filhos ou não. Tais decisões devem ser muito bem pensadas, pois podem
se estender pela maior parte de nossas vidas.
Nesta fase que ocorre a ideia de pertencer a alguém, é quando os relacionamentos se tornam
fortes, íntimos e com amor, pois a maturidade individual já aconteceu, podendo assim formarmos uma relação,
em que a troca será mútua, e cada um poderá dar ao outro o que ele necessita.
Desenvolver relacionamentos íntimos é tarefa crucial do adulto jovem. O adulto jovem que,
durante a adolescência, desenvolveu um forte senso de identidade, já está pronto para a fase que é chamada
intimidade versus isolamento, é aqui que os indivíduos estabelecem um senso de comprometimento um com o
outro, tendo assim sua estrutura principal formada para ir em busca de uma companhia e formar sua relação. O
jovem adulto que resolveu a crise de intimidade versus isolamento estará agora disposto a viver um
relacionamento a dois, com quem escolheu partilhar sua vida, ter filhos e formar uma união saudável e
duradoura.
O sentimento adquirido de ser “eu”, estabelecido na etapa da identidade, possibilitará ao adulto
unir sua identidade a outra, podendo ser este um amor, ou uma relação mais concreta, sem que se sinta
ameaçado ou controlado pelo outro.
As pessoas tendem a buscar, para se unirem, parceiros semelhantes, na aparência física,
inteligência ou, até mesmo, com preferências iguais, enfim, procuram uma semelhança para decidirem qual será a
pessoa ideal para compartilhar suas vidas, além disso tentam buscar, na repetição, a semelhança da relação dos
seus próprios pais, ou seja, a aproximação com a mesma felicidade e união se assim o tiveram.
Nós praticamos um processo de escolha antes de nos unirmos a alguém. Este processo é por ela
descrito como sendo composto de três etapas. A primeira a ser observada são as características externas da
pessoa. Neste primeiro momento, será observado se esta pessoa combina fisicamente, a idade e também se a
classe social são compatíveis. No segundo momento, observamos as atitudes e crenças em relação ao sexo,
religião, se as escolhas são semelhantes as suas ou não. Já, no terceiro e último momento, a compatibilidade
relaciona-se aos ideais sobre sexo, relacionamento, família e filhos, aspectos que são fortes influenciadores para o
escolhido. Portanto, somos atraídos por quem é parecido conosco. Também não podemos esquecer que a atração
sexual exerce um poderoso papel na hora de atrair ou ser atraído por alguém.
Freud coloca um ponto obscuro e ao mesmo tempo intrigante na forma de ver como é feita a
escolha do objeto amado pelo homem. Evidenciando que o que tem por trás do objeto que escolhemos para amar
na vida adulta, nada mais é que uma representação do amor e cuidado que recebemos na nossa infância, Freud
apresenta quatro características que seriam fundamentais para a escolha do objeto que vai ser amado.
Para iniciar a escolha, o homem irá desejar, como objeto de seu amor, uma mulher que seja
também cobiçada por outros, ou seja, que algum homem reivindique direitos ou posse sobre ela. Tendo isso como
base, estes sentimentos que incidem ao homem procurar desta forma seu objeto de escolha, remonta do seu
complexo de Édipo, em que a mulher cobiçada e desejada por outro é sua própria mãe e quem reivindica direitos
sobre ela é seu próprio rival, o pai.
O segundo passo é que a mulher pura, ingênua e que expressa extrema fidelidade, na teoria de
Freud, não é a mulher que vai ser a primeira escolhida por esses homens. Podemos achar um pouco complexa esta
forma de escolha, mas, para o autor, o amor que dedicará a esta mulher deverá ter um certo dispêndio de
energia, fantasiando seu bem-amado ao ser possuída por outro homem. Não que esta mulher vá traí-lo, mas a
questão é que cause um certo ponto de incerteza e ciúme, provocando sua masculinidade de proprietário de um
bem que, na verdade, não lhe pertence. Na verdade, na fantasia da criança, a mãe sempre será inocente e pura,
ela sempre vai precisar do homenzinho para defendê-la, o que fica um tanto que contraditório na vida adulta.
Assim o homem, com sua mentalidade machista, deseja ter uma mulher que poderá algum dia traí-lo. Para
explicar essa possível escolha, retornaremos a fase edípica, pois, quando o menino começa a ter noções do que é
o ato sexual, e que sua mãe também o pratica, mas ela o faz com o seu rival - o pai, gera no menino o sentimento
de infidelidade. Podemos pensar que vem desta fase edípica o desejo deste homem possuir uma mulher que
poderá traí-lo.
Chegamos a terceira condição, em que Freud explica que a mulher é consideradado mais alto
valor pelos seus dotes sexuais, sendo estes permitidos apenas a um único homem. Essas mulheres são
consideradas como as únicas a serem amadas e serão descartadas com toda ira se este objeto de prazer for
oferecido a outros. Na última condição para escolha, a mulher é vista como um objeto frágil e que necessita do
homem para salvá-la, fechando, assim, a parte total e integrante de um objeto de escolha por parte de um
homem.
Nas duas últimas condições para a escolha de objeto, retornando a fase edípica, a identificação de
ver sua mãe como única e de apenas um único homem é transferida para sua vida futura, quando os outros
podem desejar tê-la como mulher, mas apenas ele pode usufruir o amor desta. Quanto à ideia de que as mulheres
devem ser salvas pelo homem, Freud diz que esta forma de salvamento é dar uma recompensa para esta mulher
que lhe deu a vida, portanto, na vida adulta, este homem dará a sua mulher um filho que será igual a ele.
É possível identificar o que ocorre com o indivíduo para que ele estabeleça estas condições na
busca do seu objeto de amor. No amor normal, algumas características da mãe permanecem na escolha do objeto,
visto que o homem manifestará isso mais tarde na sua escolha, o que é bem visível quando um rapaz se apaixona
por uma mulher com idade um pouco mais avançada que a dele, demonstrando para Freud, que:
A libido permaneceu ligada á mãe por tanto tempo, mesmo depois do início da puberdade, que as
características maternas permanecem impressas nos objetos amorosos que são escolhidos mais tarde, e
todas elas se transformam em substitutos facilmente reconhecíveis da mãe.
Portanto, na teoria de Freud, a nossa energia libidinal ou também chamada pelo autor de
investimento é liberada para o amor maternal na infância quando cria um elo, entre mãe e filho, e é esta energia
que fará parte da nossa busca pelo parceiro da vida adulta, quando retornaremos a esta fase inconsciente para
viver aquele amor e cuidado que ganhamos na nossa infância.
Podemos, neste momento, explicar o que Freud coloca como sendo um objeto em suas obras, e
que neste trabalho aparecerá em grande número. Neste caso recorremos ao Vocabulário de Psicanálise, em que
Laplanche e Pontalis (2001, p. 326) explicam de forma pontual este termo utilizado como sendo um:
[…] correlativo da pulsão, é aquilo em que e por que esta procura atingir a sua meta, isto é, um certo tipo
de satisfação. Pode tratar-se de uma pessoa ou de um objeto parcial, de um objeto real ou de um objeto
fantasístico. Enquanto correlativo do amor (ou ódio), trata-se então da relação da pessoa total, ou da
instância do ego, com um objeto visado também como totalidade (pessoa, entidade, ideal, etc.) (o adjetivo
correspondente seria “objetal”).
Desta forma, compreendemos o significado da palavra “objeto” utilizado nas obras de Freud.
7.4 A IDENTIFICAÇÃO:
Imitar o comportamento de uma pessoa e adotar crenças e valores semelhantes faz parte do
conceito de identificação de Freud. Como esse conceito pode ser aplicado à definição dos papéis de gênero? A
identificação é similar em todas as culturas? No livro de Êxodo, da Bíblia, o profeta Moisés lidera o seu povo pelo
qual libertou do cativeiro egípcio. Quando esse povo o segue, ocorre o processo de identificação entre líder-
dicípulos. A massa de pessoas o segue por se identificarem com seus valores e crenças hebraicas, do mesmo jeito
em que pessoas seguiam a Jesus (simbolizando pais na forma inconsciente), assim acontecem com outros grupos,
como os nazistas, partidos políticos, bandas musicais etc. Com a identificação, o grupo social se forma e cresce,
dando origem a cultura e a papéis de gênero – crença edipiana de que o menino é macho e a menina é fêmea no
mundo natural e o menino deve ser homem e a menina ser mulher no mundo social.
A identificação, segundo Freud, pode ter um caráter de dois valores desde o início, pois a criança
pode ter um sentimento enorme de ternura, identificando-se com seu objeto amado; ou o contrário,
identificando-se com quem ela não ama. Ocorre, nesses casos, que o ego copia parte desta pessoa que não é
amada. Vale lembrar que nos dois casos a criança não se identifica por completo com o outro e sim só com um
traço deste, ou seja, uma identificação parcial, o que ocorre de maneira diferente e patológica quando um
indivíduo se identifica com o todo de outra pessoa, não formando desta forma um eu pessoal.
Referente a esse aspecto, existe a identificação parcial, em que o indivíduo se identifica com
traços visíveis do outro, incorporando a maneira de andar, passa a se comunicar através de gestos como a pessoa
idealizada, ou até na vida adulta exerce, por exemplo, a profissão de seu pai, logo, há uma identificação
inconsciente.
A identificação é o “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma
propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro”. Um
sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa.
Essa identificação de querer ser o outro, de assimilar o outro, é um desejo inconsciente, podemos
demonstrar em pequenos atos esta intenção, mas nem sempre nos damos conta disso, geralmente são as pessoas
a nossa volta que têm esta observação. Desta forma, podemos citar o menino que, quando pequeno quer ser
como o pai, a menina usa as roupas da mãe, o menino pega a mala de trabalho do pai, ou seja, eles querem
incorporar traços visíveis da figura paterna, materna ou seus substitutos.
O sujeito pode identificar-se não só com a parte integrante do outro que seja visível, mas também
“com as emoções, sentimentos, afetos, desejos e até fantasias, ocultas na vida interior desse outro”.
Para que a identificação seja parte integrante e normal do desenvolvimento da criança, tanto o
ambiente, quanto os cuidados passados para esta, sejam pertinentes a cada fase, e que satisfaçam às suas
necessidades primordiais relevantes ao período em que está vivendo, mas estes cuidados não podem ser
exagerados e nem diminutos. A criança necessita de um pai presente para que se identifique com este e de uma
mãe que a proteja e que ao mesmo tempo não seja tão sedutora com a criança, ou seja, a mãe não deve
disponibilizar um cuidado extremo para a criança, impondo, também, quando necessário, limites para sua
formação.
Se este ambiente inicial for alterado, não haverá um processo nas condições normais para o
desenvolvimento sadio da criança, o que fará com que a estrutura do indivíduo cresça com resíduos de problemas
não resolvidos e necessidades que não foram totalmente satisfeitas.
Para explicar a importância dos sentimentos e comportamentos repassados para a criança no
início de sua vida, podemos citar:
Diante de sentimentos de inadequação, o sujeito internaliza características de alguém valorizado,
passando a sentir-se como ele. A identificação é um processo necessário no início da vida, quando a
criança está assimilando o mundo. Mas permanecer em identificações impede a aquisição de uma
identidade própria.
A identificação é um ato de amor, em que só vai ocorrer a identificação quando tiver um
envolvimento entre as pessoas, uma ligação de amor. O autor cita uma história de intensa identificação entre pai
e filho, que, após muitos anos, o filho deixa a agricultura para ser definitivamente um marinheiro, esubitamente
seu pai o lembra de que, quando jovem, este era seu sonho e, sem saber disso, o filho, quando adulto, vai realizar
inconscientemente um sonho que era da infância de seu pai.
A identificação pode ser evolutiva, pois a criança vai adquirir em seu comportamento um valor de
reforço secundário, sendo este a capacidade da criança auto-reforçar a repetir o comportamento do pai ou da
mãe. Pode ocorrer também a identificação defensiva, quando a criança está sendo ensinada a viver em sociedade,
e as exigências pessoais internas dos pais são passadas para o filho, a criança então forma sentimentos de
punição, agressão, raiva, gerando um conflito interno e interiorizando estes padrões, formando, assim, um traço
de caráter rígido.
O vínculo inicial com a mãe começa no processo de amamentação, com o seio e na incorporação
do alimento na primeira mamada que é repassado pela mãe. É neste momento da incorporação, em que as
simbolizações ainda não existem, que a criança sente ter a mãe dentro de si. Como há uma falta de simbolização,
a criança precisa de algo que seja concreto para que ocorra a incorporação e assim sucessivamente ocorra à
identificação que, neste caso, será o leite e o seio da mãe.
Para Freud, os primeiros objetos sexuais da criança são as pessoas que as alimentam e que as
cuidam, logo será sua mãe ou quem a substitua. Este tipo de relação é chamado de analítico ou de ligação, ocorre
no primeiro momento em que a criança investe sua energia libidinal no objeto e não no ego.
A identificação é a expressão de um laço emocional com o objeto identificado. A pessoa se
identifica com características que se tornaram importantes para ela. Estas identificações podem ser projetivas,
quando nos identificamos ou projetamos algo no outro que são questões nossas; e podem ser introjetivas,
quando adquirimos algo do outro que valorizamos muito, sendo assim duas formas de usar o objeto que amamos.
A identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito, isto é, o desejo inconsciente de um
sujeito apropriar-se dos sentimentos e fantasias inconscientes do outro. Essa definição, traduz bem, as
turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam
sem que eles saibam.
Em sua definição acerca da identificação, esta age no inconsciente do indivíduo sem que ele
mesmo perceba que está acontecendo quando se identifica com alguém, o que mostra a força que este
mecanismo tem, fazendo ligações na vida do indivíduo sem o seu conhecimento consciente dos fatos.
Segundo Freud, ocorrem processos diferentes em relação ao homem e à mulher no processo de
escolha do objeto. Para o autor, o amor objetal é propriamente masculino, pois a libido é sempre masculina e
sempre ativa. O primeiro objeto de amor será a mãe a quem ele irá investir sua libido.
Para o gênero feminino, Freud diz que, na puberdade, o desenvolvimento dos órgãos genitais
intensifica o próprio narcisismo da criança, quando ocorre um super investimento de energia libidinal, que é até
prejudicial depois para um desenvolvimento normal e uma escolha de objeto sadio na vida adulta da menina,
visto que, na maioria das vezes, essas mulheres futuramente vão amar com muita intensidade a si mesmas e,
quando houver escolha de parceiro, seu interesse maior será no amor que estes dedicarão a elas. Assim estas não
darão ao homem a mesma intensidade de amor, mais tarde a escolha de objeto desta mulher poderá ser uma
escolha narcísica ou de ligação.
Esta escolha de amar o outro seguindo o tipo narcísico é encontrar no outro ela mesma, ou o que
ela foi um dia ou o que ela gostaria de ser, buscando um ideal de ego idealizado no outro, o que pode acarretar
em uma identificação patológica. No tipo de escolha de objeto de ligação, o indivíduo poderá procurar por alguém
que o alimentou ou protegeu na sua infância, sua mãe, seu pai, ou os seus respectivos substitutos.
7.5 COMPLEXO DE ÉDIPO:
O complexo de Édipo é denominado como sendo:
Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob forma dita
positiva, o complexo apresenta-se como […] o desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo
sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a forma negativa, apresenta-se de modo
inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto.
Para Freud, a criança, neste caso do gênero masculino, começa a ter interesse por seus órgãos
genitais, sendo logo repreendida por este fato. Na manipulação do seu órgão sexual, a criança sente muito prazer
e demonstra explicitamente tal comportamento. Assim, ela internaliza a repressão que é imposta pelos outros
como uma ameaça, entendendo que, se continuar com tal atitude, pode perder seu órgão sexual. Esta repressão
ganha mais força quando o menino visualiza a falta do objeto amado na menina, seu órgão sexual, sendo que se
continuar com tais atitudes um dia também poderá perder o seu.
Surge então o conflito em investir sua energia nesta parte genital ou investir libidinalmente no
objeto parental, geralmente aqui o menino dá as costas ao Édipo para iniciar a fase de identificação, pois sabe que
não poderá investir sua energia para conquistar a mãe, podendo ser repreendido. Passa agora a introjetar a
autoridade dos pais, dando início assim a formação do superego, que impossibilitará a criança de regredir e tentar
novamente aplicar sua energia no objeto parental, provocando o incesto .
Por volta dos 4 a 5 anos, a libido está investida nos genitais, começando o processo do complexo
de Édipo. Neste momento, o menino começa a ver o pai como um rival possuidor da mulher dos seus desejos, a
mãe, portanto, tenta assemelhar-se a ele para conquistar o amor desta mulher.
Na teoria de Freud sobre o complexo de Édipo, a criança tem duas possibilidades de satisfazer seu
desejo. Uma será ativa, em que ela vai utilizar sua fantasia para se colocar no lugar do outro e obter por completo
o que tanto almeja, ter relação com sua mãe ou com o pai, o menino vai colocar-se no lugar do pai e ter relação
com a mãe, e a menina colocar-se no lugar da mãe para ter a relação com o pai. Outra será forma passiva,
assumindo o lugar da mãe ou do pai e, assim, sendo amada pelo sexo oposto a quem ela considera como um rival.
A organização do complexo de Édipo feminino acontece de maneira um pouco diferente que o
masculino. A primeira diferença é que a menina não identifica a falta do pênis como um órgão sexual, ela entende
como se o tivesse como parte integrante de seu corpo e que lhe foi tirado. No entanto, não aceita essa perda e,
com o tempo, vê que não terá seu falo de volta. Então, a menina guarda inconscientemente este sentimento,
ajudando a lhe estruturar, para mais tarde, construir uma relação e ter o filho deste homem que dará o presente
que ela perdeu, o falo.
7.6 IDENTIFICAÇÃO NO COMPLEXO DE ÉDIPO:
Freud inicia com as observações sobre a busca da pessoa que fazemos na vida adulta para nos
casarmos ou nos identificarmos. Segundo o autor, buscamos “fenômenos acessórios ou atos introdutórios” para
iniciar uma relação, sendo estes, outro corpo para desejá-lo ou tocá-lo. Todos esses pequenos estados dão seu
aparecimento na fase em que começa a evolução corporal, e no aumento do desejo sexual, a puberdade, mas a
forma para que aconteça a busca está sendo impressa muito antes noinconsciente de cada indivíduo.
A identificação do menino no primeiro momento inicia com a sua mãe, afinal é ela que mostra
para ele o primeiro modelo de papéis, mas essa identificação deve mudar da mãe para o pai. A desidentificação é
muito importante para o menino, pois, ocorrendo este processo, ele se identifica com o pai, sendo para ele como
um ideal adorado, esta identificação inicial começa a se manifestar como uma forma de proteção contra seus
desejos incestuosos em relação à mãe e também contra desejos hostis projetados em relação a seu rival, o pai.
Freud apresenta, em sua teoria, que o menino deve escolher o caminho para aplicar seu amor,
este poderá ser sua mãe ou o seu falo. Ocorrendo um conflito na criança, então esta começa primeiro a fazer
identificações, isso para a sua própria sobrevivência, pois observa que seu pai é maior que ele e que, neste
momento, não poderá conquistar o amor de sua mãe, abandonando aquela energia que empregaria a ela e
introjetando a autoridade do pai para formar seu superego.
Freud diz que a idealização e identificação do menino com seu pai, é a preparação do caminho
para a chegada do complexo de Édipo.
Agora, já no complexo de Édipo, a ligação do menino com sua mãe é diferente, ele quer ser mais
masculino com relação à mãe, quer sair da ligação de mãe e filho para ter uma relação exclusiva com ela.
O movimento para a fase edípica não implica em mudança exterior do objeto amado, mas uma mudança
nas fantasias sobre o objeto e uma mudança de papel em relação ao objeto amado. Os impulsos sexuais
em direção à mãe são elevados e é, neste momento, que o menino quer ter um pênis igual o do pai e
substituí-lo, para ficar com ela.
Conforme Freud, os meninos começam a manipular o pênis já com intenções de usar seu órgão
em alguma atividade que envolva sua mãe, ao passo que percebem a ameaça de perder seu pênis e ter a visão de
que a menina já perdeu o seu falo eleva sua angústia a níveis tão altos que ocorre um rompimento com o Édipo,
investindo agora sua energia para os estudos, iniciando o período de latência.
O desenvolvimento da fase edípica da menina acontece no estado de reconhecimento da
castração. Com isto, volta-se com raiva para a mãe e a vê como uma rival, isto pelo fato de sua mãe não ter lhe
dado um pênis como deu para o menino. Em seu pensamento, ela entende isso como uma rejeição, ela não foi à
escolhida de sua mãe. Ocorre aqui a importância da ligação e do sentimento que a menina formou com sua mãe
na fase pré-edípica, se ela resolveu sua fase diádica com sua mãe e formou um sentido valorizado de ser feminina,
ao invés de se sentir inferior em relação àquela mulher, sua mãe.
Vale ressaltar que esta fase é muito importante para que a menina consiga passar para o
complexo de Édipo mais bem resolvida com seus sentimentos em relação à mãe, pois agora ela vai voltar toda sua
energia para conquistar o pai. Desta forma terá fantasias em relação ao pai, quer ser desejada e conquistar seu
amor, logo, nesta fase, não tem medo de perder o amor de sua mãe, pois resolveu bem a fase diádica que
antecedeu seu complexo de Édipo. Para que o complexo de Édipo feminino ocorra normalmente, a menina deverá
mais tarde voltar-se a identificar com sua mãe, temendo perder seu amor.
O progresso do complexo de Édipo feminino implica a consideração que a menina vai fazer de seu
pai vendo este como objeto de amor puro e incondicional, construindo, assim, fantasias em torno da figura do pai
fálico.
As turbulências que transformam o comportamento da menina, em relação aos seus desejos para
com o pai, formam sentimentos de hostilidade para com sua mãe, interferindo na visão de identificação com a
mãe ideal e no prazer de identificar-se com esta pessoa do mesmo sexo. Contanto que estas manifestações contra
a mãe não sejam tão violentas, a menina conseguirá de forma normal separar-se da mãe e ao mesmo tempo
identificar-se com ela, formando assim sua individualidade e um prazer em ser feminina.
Para Freud, a menina tenta fazer tudo o que o menino faz, começa a manipular seu órgão sexual e
fazer investidas sexuais para o pai. O próprio autor expõe que, no momento em que a menina percebe não
possuir um falo como o menino, ela se reconhece numa posição inferior com seu clitóris, ou seu pequeno pênis, e
começa a ver que não tem um falo e não terá um pênis igual ao do menino, surgindo então o desapontamento.
Esta angústia de não ter um falo como o menino marca o início do complexo de Édipo para a menina.
7.7 CATEGORIA RELAÇÃO COM O PAI:
Estão agrupadas, nesta categoria, as unidades de análise que constam a relação de pai e filha, seu
relacionamento, afetividade na relação do pai com a filha e como o complexo de Édipo se mostra evidente em
todas as entrevistas. Elas colocam os pais numa posição de superioridade, não vendo defeitos em seus
comportamentos, propriamente sendo ídolos de suas vidas, pois o consideram como sendo seu ideal de homem,
seu ideal de amor.
A relação de pai e filha é sempre intensa, principalmente nos anos em que inicia, como já citamos
anteriormente, o complexo de Édipo, mas o amor que é desejado pela menina não poderá ser realizado com este
homem, deixando-a com raiva, ou seja, ódio deste indivíduo que foi seu objeto de amor, fantasiado até o
momento. Com esta revolta e hostilidade, torna a matar internamente aquele a quem ela tanto amou,
possibilitando assim tornar-se uma mulher e ser livre internamente para encontrar um amor que seja verdadeiro
e não apenas uma fantasia.
No complexo de Édipo feminino, a menina vai ver seu pai como objeto de amor, construindo, ao
longo desse processo, fantasias em torno da figura fálica que seu pai representa em seu inconsciente. Segue um
trecho da entrevistada C.
“Ele sempre foi meu ídolo, admiro ele, respeito ele… o pai, ele tem defeitos, ele tem muitas falhas, mas eu
não consigo enxergar essas falhas nele sabe, para mim parece a perfeição de pai, eu respeito muito o que
ele fala e ele influencia muito minhas decisões… eu confio muito na posição dele.” Mulher C- 33 anos.
Podemos observar no relato da entrevistada C, onde ela expõe o que admira em seu pai, a
“posição dele”, sendo isto a lei, a superioridade dele. Observamos que isto pode de alguma maneira ter
influenciado algumas escolhas em sua vida. Quando adulta, se tornou uma policial, incorporando ela mesma a
ordem e a lei, neste passo, não foi preciso ela encontrar um homem que fizesse a lei, mas sim ela mesma
internalizou aquela posição em que o seu pai detinha, ou seja, não precisou mais que ele ditasse as leis, as regras,
e sim ela mesma pode agora, enquanto mulher adulta, fazer isso. Em seu relacionamento, o marido também é
policial, mas mesmo assim, como ela mesma coloca em sua fala, foi ela que assumiu a relação, a posição de
homem dentro da casa, ou seja, podemos chamá-la de mulher fálica, assumiu a posição do homem, o que
podemos observar, também, na fala abaixo.
“O (esposo)… assim tem uma aura feminina sabe, ele gosta de discutir a relação, gosta de fazer comida,
ele gosta de cuidar, e eu já, sabe quando as coisas são ao contrário, eu assumir o papel de homem e ele
assumir o papel de mulher.” Mulher C- 33 anos.
Já a entrevistada A conta um pouco de como era sua relação com o pai, como ela sentia a falta do
“colo do pai”, do amor perdido daquele que ela tanto amou, tanto que sua voz modificou-se no momentoda
entrevista, remetendo a uma época distante em que ela ainda era uma menininha e fantasiava sua relação com
este que era simplesmente seu pai. Mas, para ela, em sua imaginação, ela detinha uma mulher num corpo de
menina, querendo conquistar o amor incondicional deste homem fálico.
“[...] quando era criança, era aquela coisa da colo né, sabe até os dez anos tive o colo do meu pai, aí
depois que termino o colo [fala tipo criança] não tinha aquela coisa de abraço, beijo, era tudo mais
distante assim né.” Mulher A- 28 anos.
Foi possível, através dessa entrevistada, observar como era sua relação com o pai e, após um
tempo em que não ganhou mais o carinho deste, o vê de uma maneira como se estivesse distante de si, sem
abraços ou beijos. O pai desta entrevistada ainda estava presente, ainda lhe dava carinho, mas não da forma que
ela queria, desta maneira cessou todo aquele amor que ela achava que ele lhe dava.
7.8 CATEGORIA RELAÇÃO COM A MÃE:
Nesta categoria estão agrupadas as unidades de análise onde consta a relação de mãe e filho. A
criança necessita de uma mãe presente, que sirva de referência, desta forma ela não deve desenvolver um
cuidado extremo, exagerado para este indivíduo, que vê nesta pessoa sua própria imagem e necessita dela para
crescer e formar seu ego, portanto não pode ser muito sedutora, assim impondo limites no momento certo para a
sua formação.
Na entrevista feita com o homem C, perguntei como foi à relação com a mãe na infância, e por um
momento ele deixou escapar em sua fala algo que me chamou a atenção, quando ele estava falando de como foi
exemplar o cuidado de sua mãe para ele, um ato falho irrompeu, e sua fala retornou para o fato dos cuidados dele
com sua mãe e não como deveria ser a resposta de sua mãe para ele.
“[…] olha acho que o normal de mãe para filho, sem muito exagero, ah dentro do que é, do que se
procura, do que se espera de um filho, acho que é um, que ela tenta me transpassar né, olha bem, bem
próximo do excelente, entre minha mãe e eu.” Homem C- 40 anos.
Analisando o dado apresentado na fala do entrevistado acima, podemos perceber que esta foi
uma parapraxia ou ato falho, sendo uma manifestação do id, conforme cita Freud, “elas podem ocorrer em
qualquer altura quando, em certas circunstâncias especiais, a vigilância do ego é afrouxada ou desviada e um
impulso inconsciente (devido também a circunstâncias especiais) é subitamente reforçado.”
Neste caso, o fato do entrevistado lembrar de momentos tão especiais vividos em sua infância
com relação a sua mãe, o ato falho se mostrou presente no momento em que ele fala de como eram os cuidados
da mãe com ele. Podemos verificar, neste lapso de memória, que ele, como filho, sempre deu para sua mãe muito
prazer, e fez esta se sentir uma mãe realizada por ter um filho exemplar, logo, sendo isso que sua mãe esperava
dele como filho e também o que ele esperava em troca de sua mãe.
A ligação da mãe com o filho é sempre forte, principalmente, no início onde está o começo da
ligação mãe-filho, os cuidados, carinhos, e ainda, o momento certo de chegar ao filho são passos muito
importantes para a criança formar um senso de união com esta mulher e com todas as futuras ligações que ele
terá pela vida.
O entrevistado A também mostra uma ligação forte com a mãe, o que podemos observar na fala
abaixo, pois como ele mesmo diz, “eu até tinha duas mães”, pois na sua infância ele convivia também com sua tia
desde pequeno morando em sua casa. Podemos levantar a hipótese de que isto possa tornar sua ligação com a
esposa mais forte ainda.
“Éh eu até tinha duas mães, uma é uma tia minha que não casou e ela ficou morando sempre junto com
meus pais… eu não passo um dia que eu não ligo, falo um pouco com a mãe, com minha tia, final de
semana deu uma folga eu to lá.” Homem A- 36 anos.
Até mesmo hoje, depois de casado, sua ligação com a família, às mães, é muito forte, como ele
diz, “minha mulher já é mais desmamada”, se tiver que sair, viajar ou morar em outro lugar ela vai, mas ele fica
doente se tiver que fazer isso e ficar longe da família.
“[…] ela é menos ligada né a família do que eu, por exemplo se tem que mora em Florianópolis e ficar três
meses sem ver a família dela ela vai, é tranquilo, eu fico doente no terceiro dia… ela é mais desmamada
risos…, ela é mais tranquila nesse sentido, eu não sei o que é melhor e o que é pior, porque eu sofro
quando eu vou, quando saio de casa assim e tenho que ficar alguns dias, três, quatro dias longe, acabo
sofrendo né.” Homem A- 36 anos.
Já em relação ao seu casamento, a sua ligação com a esposa não poderia ser diferente, como
citado acima, seguindo os passos ao longo de sua construção na infância, os cuidados que ganhou de duas
mulheres, logo a ligação que ele tem com sua esposa é bem forte, como ele mesmo admite que “geralmente é
mais a mulher.” Neste caso ele quis se referir ao fato de que a mulher tem mais apego ao homem, essa ligação
mais forte com o homem, mas no caso dele é o inverso.
“Eu [tose] eu sou bem mais, é eu talvez sou muito sei lá sabe, junto a ela, ali grudado esse tipo de coisa,
geralmente é mais a mulher [e ela com vc], ela é mais na dela, mais na dela…” Homem A- 36 anos.
A tosse apresentada pelo entrevistado A nos leva a pensar como se isto fosse uma resistência que
ele demonstra ao falar sobre o assunto, a “tosse” pode denotar uma dificuldade que ele tem em admitir que é
apegado à mulher. Isso ainda parece ser difícil para o homem, assumir que é ligado ou dependente afetivamente
da mulher, mais difícil ainda se o homem for dependente financeiramente, principalmente ocorre isto com
aqueles homens que receberam uma educação rígida e machista na infância, quando foram ensinados com
barreiras para não demonstrar essa igualdade de sentimento, gostos e de seres humanos iguais.
No que se refere a admitir a relação íntima da sua mãe com o pai, foi mais complicado para este
entrevistado, pois, conforme segue abaixo, ele começou a falar o que lembrava da infância e começou a tossir,
não conseguia dar continuação a sua fala. Podemos analisar esta reação como uma resistência, pois na infância
seu objeto de desejo é a mãe, e quem a possui é o pai, esta resistência demonstra uma forma de defesa para o
ego, pois em sua fantasia ele não aceita que o pai possua sua amada, assim cria inconscientemente este
mecanismo para defendê-lo desta realidade, ele não conseguirá ter a mãe e a relação da mãe com o pai vai ser
inevitável.
[e na intimidade] - “Pouco, eu via muito pouco, até porque eu acho o pai de ser mais tradicional, eu acho
que ele tá (tosse, tosse), ele tal, às vezes, talvez na nossa frente (tosse, tosse, tosse), me desculpe, eu to
saindo de uma gripe, então eu vejo mais assim, mas assim de, de, de preminho na nossa frente é o beijo, o
abraço coisa assim, muito pouco, e confesso que eu não tenho lembrança.” Homem A- 36 anos.
Nesse trecho da entrevista, a forma do entrevistado em falar que seria um “preminho” para ele
ver os beijos e abraços que o pai dava em sua mãe, nos impressiona visto identificarmos aí como a fantasia
infantil é repleta de momentos marcantes para a criança. Neste caso, as cenas do cotidiano dos pais servia como
prêmio para ele (a criança), dando suporte para ele se imaginar como se estivesse dando um beijo em sua amada,
a mãe.
Freud, em seu texto sobre A dissolução do complexo de Édipo, diz que a criança utiliza