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RW BA 13 56 _V 1. 0 PSICOSSEXUALIDADE 2 Allyne Evellyn Freitas Gomes São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2023 PSICOSSEXUALIDADE 1ª edição 3 2023 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Diretor Presidente Platos Soluções Educacionais S.A Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Turchetti Bacan Gabiatti Camila Braga de Oliveira Higa Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Camila Turchetti Bacan Gabiatti Revisor Cleber José Aló de Moraes Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________________ Gomes, Allyne Evellyn Freitas G633f Psicossexualidade/ Allyne Evellyn Freitas Gomes, – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A. 2021. 44 p. ISBN 978-65-89965-89-3 1. Castração 2. Complexo 3. Pensamento I. Título. CDD 150.195 ____________________________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB 010289/O © 2023 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. 4 SUMÁRIO A psicossexualidade na teoria freudiana _____________________ 05 Desenvolvimento psicossexual: do autoerotismo até a genitalidade __________________________________________________ 19 O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual ___ 35 Homossexualidades, masculinidades e feminilidades em Psicanálise ___________________________________________________ 49 PSICOSSEXUALIDADE 5 A psicossexualidade na teoria freudiana Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes Objetivos • Introduzir o estatuto conceitual da psicossexualidade humana na teoria psicanalítica freudiana. • Explanar a teoria das pulsões estabelecida por Freud e sua relação com as fases do desenvolvimento psicossexual do indivíduo. • Apresentar as fases do desenvolvimento psicossexual do indivíduo, a partir da teoria psicanalítica. 6 1. O psicossexual na psicanálise: a polêmica da sexualidade na obra freudiana A teoria psicanalítica freudiana, após se estabelecer em 1900 com o seu mais importante livro de impacto, a obra Interpretação dos Sonhos (FREUD,1900, 1996), despertou o interesse da sociedade de Viena, bem como entre os intelectuais de seu tempo, por se propor a discutir um dos temas mais intrigantes da humanidade: os sonhos. Os estudos oníricos se destacam como uma temática atravessada por diversas áreas; a visão psicanalítica, com sua interpretação sobre o humano e suas manifestações, encontrará no sonho um caminho para compreender a manifestação dos desejos inconscientes, desejos esses também percebidos por Freud como causa dos adoecimentos conversivos de suas pacientes histéricas. Os desejos inconscientes, uma vez recalcados, podem buscar retornar à consciência através das suas formas de manifestações: sonhos, atos falhos e chistes, ou sintomas físicos ou psíquicos. Freud percebeu isto em seus casos clínicos com as histéricas, publicados em Estudos Sobre Histeria, em parceria com seu amigo médico Breuer (BREUER; FREUD,1895 apud FREUD, 1990). Nas histerias de conversão se expressavam os desejos reprimidos das mulheres da pudica sociedade vienense, a qual guardava em seus bastidores desejos proibidos, ódio, desejos sexuais, luxúria, inveja, nojo e toda ordem de comportamentos imorais considerados proibidos pela sociedade. Assim, nos bastidores de nossa mente, no inconsciente, bem como nos bastidores de uma sociedade, encontramos o imoral, o pulsional, aquilo que se impõe sobre o sujeito levando-o a suas manifestações mais pulsionais possíveis. Através da análise do conteúdo revelado na hipnose e posteriormente na associação livre, o pai da psicanálise começou a compreender que 7 suas pacientes sofriam de reminiscências, estabelecendo assim a célebre frase: “os neuróticos sofrem principalmente de reminiscências” (BREUER; FREUD, 1895 apud FREUD, 1990, p. 43). As vivências traumáticas, os desejos proibidos e o corpo de tais mulheres produzem sintomas, pois a energia psíquica dos desejos e traumas recalcados está presa no inconsciente humano, buscando retornar à consciência. Na tentativa de vencer a barreira do recalque, os conteúdos recalcados conseguem passar parcialmente e realizar- se de forma incompleta por meio de mecanismos substitutivos. Afinal, alcançar o prazer total é da ordem do impossível. Mas por que impossível? Segundo Freud (1905, 1996), nossos atos, aqueles que nos escapam, dos quais não possuímos nenhum controle, têm origem em nosso inconsciente. Mas o que estimularia tais atos? Por que, em grande medida, eles estão relacionados às demandas sexuais? Para Sigmund Freud (1905, 1996), os nossos atos, além de serem determinados por processos inconscientes, têm um sentido, eles querem nos mostrar algo que não está evidente ao primeiro olhar. Por falar em significados ocultos e que não se fazem evidentes à significação através do olhar, Freud encontrou nos sonhos manifestações diversas. Através do conteúdo manifesto dos sonhos e dos seus elementos constitutivos, foi traçado um processo de interpretação, entendendo que o conteúdo manifesto é na verdade substitutivo do conteúdo latente (FREUD, 1900,1996). Logo, o sonho, como ato, é o substituto de outros atos que não apareceram no cenário onírico de forma explícita, mas como metáfora e metonímias; porém, é possível perceber que o conteúdo latente dos sonhos tem uma significação semelhante à das conversões histéricas: a significação sexual. Mas por que, para Sigmund Freud, a sexualidade e suas manifestações são um dos pontos centrais da teoria psicanalítica? Vamos discutir um pouco sobre isso ao longo deste módulo. 8 1.1 A sexualidade no centro da teoria psicanalítica Em grau de importância hierárquica, primeiramente temos o conceito de inconsciente como elemento central da teoria. A partir da hipótese do inconsciente, compreendemos que o eu não é senhor de sua própria casa (FREUD,1905), estando submetida sua consciência a uma outra parte, a saber, a parte inconsciente. Na sequência, entendendo que o homem e sua consciência estão no centro da constituição do sujeito, cabe perguntar: do que é composto nosso inconsciente? Por que ele existe? E qual a relação dele com a sexualidade humana? Considerando a sociedade moralista de Viena, bem como as diversas repressões à sexualidade humana, Freud percebeu que na origem dos sintomas e das manifestações patológicas estão os conteúdos inconscientes. Ao se aproximar desses conteúdos, o pai da psicanálise se deparou com desejos sexuais proibidos, desejos de matar pai e mãe ou de com eles manter uma vida afetivo-sexual, um intenso desejo de saber sobre o sexo e sobre a origem dos bebês e, acima de tudo, o desejo de prazer a qualquer custo. Encontramos ainda as chamadas por Freud (BREUER; FREUD, 1895 apud FREUD, 1990) de aberrações sexuais: as perversões, os desvios da sexualidade de seu objeto inicial e as vivências sexuais parciais, fetichistas em partes do corpo, em ver e em ser visto. Antes que o leitor possa presumir que o pai da psicanálise, por utilizar em seu texto o termo aberração sexual,era um moralista vienense, devemos esclarecer que, pelo contrário, temos em Freud um homem muito além de seu tempo, que escolheu afastar-se do saber exclusivo e hegemônico da medicina para abrir espaço à palavra e à escuta de suas pacientes histéricas, ouvindo assim corpos sintomáticos por desejar, corpos que falavam por mulheres que não podiam falar, não poderiam ter prazer e não eram consideradas importantes para a sociedade. Em Freud compreenderemos, por exemplo, que a homossexualidade não é doença nem desonra, e que notáveis homens da história 9 mantiveram práticas de desejo homossexuais. Encontraremos em um dos seus célebres textos, não publicado em suas obras completas, o psicanalista respondendo à mãe de um jovem homossexual. Confrontando-a, Freud afirmou que nas meias verdades da carta estava implícito que seu filho era gay e que ela desejava que ele o curasse, algo que de pronto o pai da psicanálise recusou, e ainda estabeleceu diálogo com a mãe, afirmando que: Minha Querida Senhora. Lendo sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto também não existe motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma. Não pode ser qualificada como uma doença, e nós a consideramos com uma variante de função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual [...] é uma grande injustiça e também uma crueldade perseguir a homossexuais como se estivessem cometidos um delito. (FREUD, 1935 apud IANINNI, 2019, p. 19) Aqui já percebemos claramente que, para a teoria psicanalítica, as orientações sexuais nada mais são do que formas variantes da função sexual, fruto das nossas resoluções do complexo de Édipo, e que tais práticas sexuais têm relação como a liberdade da pulsão sexual de se dirigir para qualquer objeto, seja ele do mesmo sexo ou do sexo oposto. Logo, para Freud, somos todos, em termos pulsionais, pessoas bissexuais, uma vez que as pulsões sexuais humanas não têm de forma definida um objeto de desejo específico e delimitado, podendo assim a sexualidade humana apresentar variações diversas ao longo da vida. Respondendo, ainda, sobre a possibilidade de atender o jovem homossexual, ele diz: A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho, se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos 10 e inibição em relação a sua vida social poderá lhe proporcionar tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição. (FREUD, 1935 apud IANINNI, 2019, p. 20 Desta forma, percebemos que a psicanálise não se propõe a julgar ou normatizar as práticas sexuais, os desejos e as manifestações que se apresentam ao longo do desenvolvimento psicossexual. A visão freudiana é de que a Psicanálise confere o termo “sexual” a tudo aquilo que se refere à condição de manutenção da vida e prazer, nas mais diversas interações humanas. Assim, Freud compreende a sexualidade como questão central da teoria e sua articulação com o conceito de inconsciente, além de suas manifestações pulsionais e a relação das pulsões humanas com as manifestações sexuais. Abordaremos ao longo desta disciplina os conceitos de instinto, pulsão e libido, articulados com as fases do desenvolvimento psicossexual e suas manifestações, bem como o posicionamento de investimento libidinal e possíveis fixações, exemplificando as implicações na vida adulta resultantes das fixações em determinadas etapas do desenvolvimento psicossexual. 1.2 Pulsões e psicossexualidade na teoria freudiana O sujeito freudiano é sustentado na concepção de sujeito do inconsciente. O inconsciente para Freud trata-se de uma instância psíquica, não localizável em nenhuma parte da anatomia corporal. A instância psíquica inconsciente apresenta-se, assim, como uma hipótese, já que não se trata de um objeto palpável e mensurável, como o objeto das ciências naturais. No inconsciente está a sede das pulsões humanas: a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos). Cabe à pulsão de vida a condição de promover a autoconservação do sujeito, de movê-lo para desejar e vivenciar o princípio do prazer. 11 Posteriormente, ao estudar o fenômeno do sadomasoquismo, quando pôde perceber que existe a presença do prazer sexual em práticas que envolvem dor e sofrimento, Freud estabeleceu na segunda teoria das pulsões a chamada pulsão de morte. Para ele, tudo que é vivo tende ao estado inativo. Toda tensão que move, que visa à unificação do investimento de energia libidinal do indivíduo (pulsão de vida), tende a ser expurgada, realizada e esgotada, ou seja, voltada à descatexização, visando assim ao estado de aniquilamento dessa tensão (pulsão de morte). Em nosso inconsciente encontramos a força motriz da vida, chamada por Freud de libido. Ela está relacionada com nossa pulsão de vida. Na primeira teoria pulsional, Freud estabeleceu a existência de dois tipos de pulsões: as pulsões de autoconservação, também chamadas de pulsões do ego, e a pulsão sexual, em que encontramos as catexias pulsionais, ou seja, parte do investimento das energias do psiquismo, que podem estar ligadas a um objeto, a uma ideia ou à própria pessoa. Tais energias têm relação com nossas pulsões, nossas necessidades e demandas. As pulsões humanas destinadas à sexualidade têm por objetivo a conservação da espécie. Contudo, para Freud, a sexualidade humana não tem como objetivo final apenas a reprodução da espécie, assim como acontece com os animais. Para a psicanálise, o homem apresenta enquanto ser a condição de não ter instintos que o impulsionariam a reproduzir, conforme acontece no mundo animal. O sujeito da psicanálise é um ser pulsional, capaz de desejar. Para Freud, a pulsão representa aquilo que está entre o psíquico e o somático, fazendo uma ligação entre ambos na constituição da noção de sujeito e nos diferenciando do comportamento animal que se dá por meio de instintos. Sabemos que o sujeito da psicanálise freudiana é composto por um inconsciente habitado por desejos e pulsões, visando à autopreservação 12 (pulsões do ego) e à realização do prazer (pulsão sexual). Porém, quais são as formas possíveis de prazer? 1.3 Fases do desenvolvimento psicossexual Observando o desenvolvimento humano, é possível perceber que o sujeito ao nascer apresenta um conjunto de necessidades, e para o suprimento delas ele precisará lançar mão de um outro, que cumprirá as chamadas funções maternas. São consideradas funções maternas aquelas que garantem a sobrevivência e conservação do bebê: alimentação, higiene, segurança e sono. Nessa relação inicial de satisfazer as necessidades de seu bebê, a mãe vai aos poucos revestindo essa relação de afeto, de desejo, atribuindo nome às interações com o bebê, às partes do corpo, conversando, tocando. Esses primeiros contatos afetivos fazem com que as regiões do corpo da criança ativadas durante o período dos cuidados de suas necessidades sejam reconhecidas também como regiões de prazer. Vejamos um exemplo: a criança, ao se alimentar, reconhece conforto no calor do seio de sua mãe. Na sensação de dormir sobre essa pele, de sugar a região do seio materno, a criança irá repetir o movimento de prazer inicial vivenciado durante seus primeiros momentos de amamentação/ alimentação. Seja uma mãe, um pai, um avô ou outra pessoa o responsável por manter a criança alimentada e construir nesse processo interações afetivas de investimento de desejo e cuidado com a criança, esse indivíduo está favorecendo o aparecimento de seu desejo inconsciente relacionado à fase oral, em que a zona erógena, ou seja, a região de prazer e exploração do meio, será a boca. Na fase oral, o ato de sugar passa a ser o foco de prazer, e nãoapenas de satisfação da necessidade de se alimentar. Esse prazer, contudo, não é da 13 ordem sexual, genital, implicando em desejo de vivências sexuais com a função materna. Antes, o movimento da fase oral consiste em reconhecer o próprio corpo em sua região de alimentação – a boca – como uma área favorável ao prazer. Portanto, o foco da pulsão nesse caso não seria o objeto de investimento de desejo – os seios da mãe –, mas sim a repetição da sensação de prazer, em que a criança reconhece o próprio corpo como passível de prazer. Desta forma, a criança não passará a ter desejos eróticos pela mãe já na amamentação, como comentam os críticos da psicanálise. O bebê irá reconhecer, através do autoerotismo presente em si, que seu corpo é capaz de lhe proporcionar prazer por meio das chamadas zonas erógenas. A exploração de cada uma dessas zonas como região primordial de prazer não implica na eliminação da anterior. Cada período, porém, irá priorizar determinada zona erógena, que surge relacionada às satisfações das necessidades da criança. Teremos, assim, algumas fases pelas quais a criança passa em seu desenvolvimento psicossexual: • Fase oral. • Fase anal. • Fase fálica (na qual ocorre o complexo de Édipo). • Período de latência. • Fase genital. Na sua primeira fase de vida, a criança vincula-se a sua mãe ou a seus cuidadores com a finalidade de conseguir alimentar-se e receber a sensação prazerosa obtida no primeiro contato, ampliando as pulsões de vida. Cabe relembrar que o primeiro momento da amamentação é o mais prazeroso em termos de fase oral da vida de um sujeito. Assim, a boca passa a fazer parte do repertório do corpo desse bebê, que irá utilizar esse corpo para além de se alimentar: ele será um meio de sentir prazer 14 autoerótico, ou seja, prazer consigo mesmo na descoberta do seu corpo. Aqui não há intencionalidade, pensamento ou desejo inconsciente por um outro. Trata-se apenas da criança reconhecendo quem ela é, quais partes compõem seu corpo, e realizando assim seu desenvolvimento psicossexual. Através de alguns movimentos típicos, como o ato de chupar a chupeta, uma criança sublima a ausência do seio materno, recriando na chupeta a necessidade de sugar para sentir o prazer. Nessa fase inicial, é comum episódios de gritos e mordidas, pois a criança entenderá que seu canal de prazer e controle do mundo é a oralidade. O envolvimento da mãe com o bebê, em frequência exacerbada, pode ser danoso para ambos, pois esse momento inicial da vida se torna uma experiência de fusão entre mãe e bebê. Não existe ainda em nível psíquico a representação de quem é o bebê. Assim, se faz necessária uma separação gradual dessa criança, para que ela possa construir seu ego, seu eu consciente e inconsciente. A criança não se reconhece. Ela acredita que é parte do corpo da mãe e que a mãe é parte de seu corpo, afinal, com ela o eu infantil tem sensações diferentes e vive suas primeiras experiências de prazer e segurança. No entanto, com o passar dos meses, essa criança precisa ampliar seu movimento de reconhecimento de mundo e, assim, ir aos poucos se separando dessa imago maternal. Portanto, mãe e filho serão barrados, interditados, passará a existir nessa relação uma terceira pessoa, que tradicionalmente é chamada de figura paterna ou, como nos apresenta Lacan, o Nome do Pai. Para que o filho bebê se perceba capaz de crescer sozinho aos poucos, sem a sua mãe, e lançar mão dela apenas se for extremamente necessário, a criança vai sendo direcionada para a escolinha e para a sociedade, graças à interdição estabelecida pela lei do nome do pai, ou seja, de um outro, que barra essa sensação de suposta unificação na relação mãe e filho. Em um primeiro momento, a criança irá desenvolver várias atitudes de fusão, idealização e simbiose com a figura materna, sendo necessária 15 essa separação inicial para que a criança possa emergir como um sujeito independente da função materna e vivenciar suas pulsões e desejos. Posteriormente, a descoberta da oralidade como região principal de prazer permite ao bebê humano começar a perceber que consegue controlar seu movimento de reter e soltar as fezes, e que esse controle também lhe proporciona sensações de prazer e poder. Assim, essa nova fase passa a se chamar fase anal. Na fase anal, a criança entende que suas fezes são uma espécie de presente, de que ela pode se utilizar para gratificar ou não os seus pais. Por que presente? Porque as fezes são a primeira produção humana do recém-nascido. Tal produção, paralelamente, será relacionada ao dinheiro no adulto, e as possíveis fixações e traumas estabelecidos na fase anal terão implicações na psicologia econômica do sujeito adulto. Nessa fase, existe por parte da criança um desejo de tocar em suas fezes. Para auxiliá-la a sublimar, desviar esse desejo, os pais e professores podem ofertar massa de modelar como elemento de sublimação. Após a fase anal, surge a terceira fase do desenvolvimento psicossexual, a fase fálica. Neste período, o que se estabelece é o reconhecimento na criança da existência da diferença sexual, ou seja, da presença ou não de pênis no corpo. Para Freud, o órgão masculino destaca-se então como o que definirá a diferença sexual. Aquele que o possui será o menino e aquele que não o possui será a menina. Marcada pela falta do pênis, Freud estabelece para a psique feminina o conceito de inveja do pênis, em que a menina não aceitaria não ter o órgão que é o representante simbólico do falo (poder), cabendo a ela resolver tal inveja na fase adulta, ao dar à luz a um filho, e este filho simbolicamente passa a ser o falo da mãe. Para o menino, a fase fálica é marcada por um sentimento chamado de angústia de castração. Ao descobrir a diferença entre os sexos e perceber que a menina não tem o pênis, o menino começa então a temer perder o seu, acreditando que a menina tinha um pênis, mas o perdeu. Desta forma, a angústia de castração se estabelece na criança do sexo masculino. 16 No período da fase fálica, encontramos um importante momento do desenvolvimento psicossexual, chamado por Freud de complexo de Édipo. Baseado na mitologia, Freud estabelece uma analogia para o comportamento da criança, que nesse período tende a tomar a figura parental do sexo oposto como objeto de desejo sexual, e assim rivalizar com a figura do mesmo sexo. Temendo, porém, nessa rivalidade, passar pela experiência da castração, o menino aceita a lei paterna que o interdita de sua mãe; entretanto, imita o pai, para quem sabe futuramente ele próprio ter uma mãe. Aqui foi apresentada, apenas de modo muito breve, a descrição do Édipo positivo. No módulo relacionado ao complexo de Édipo, iremos estudá- lo em sua forma invertida e compreender por que a saída do Édipo é considerada um momento de estabelecimento da sexualidade do sujeito, bem como da sua estruturação psíquica, a depender de como essa criança vivenciou a experiência da castração. Por hora, é preciso apenas entender a existência do complexo de Édipo como núcleo marcante da fase fálica e o quanto este período é importante para o desenvolvimento psicossexual humano, demandando assim um gasto de energia psíquica para: compreender a diferença entre os sexos, estabelecer relações de afetos ambivalentes de amor e ódio para com as figuras parentais, enfrentar a angústia de castração e construir assim uma estruturação psíquica saudável. Para dar conta desse gasto excessivo de energia psíquica ou pulsional, a fase seguinte é o chamado período de latência, um intervalo em que as conquistas dos prazeres das três fases anteriores seguem existindo; porém, no período de latência, toda vivência das pulsões e o investimento libidinal serão depositados na cultura, no processo educacional e na socialização da criança. Com o passar dos anos, a entrada na experiência da puberdade dá início à fase genital, em que a libido não é apenas direcionada para o sujeito, mas 17 simpara o outro. Os outros externos passam a ser objetos de investimento libidinal. Desta forma, o jovem rompe com os investimentos libidinais familiares excessivos e vai para o social. Dá-se início ao período chamado de adolescência. A fase genital segue pela vida adulta até a velhice, pois a pulsão e a libido não têm idade; então, os seres humanos são capazes de ter experiências de prazer, vivências libidinais e pulsionais ao longo de toda a sua vida. Por isso dizemos que o inconsciente é atemporal. Para a libido, o limite do corpo e do tempo não se impõe sobre a questão do desejo, sendo possível a sexualidade existir enquanto experiência também na pessoa idosa, a partir de movimentos de ressignificação da relação com o corpo e com o que os sujeitos entendem por prazer. Fechando este primeiro módulo, destacamos que cada período do desenvolvimento psicossexual não elimina o anterior. As experiências autoeróticas da fase oral, fase anal e fase fálica permanecem na fase genital. Fixar-se em cada uma dessas fases pode trazer implicações para o desenvolvimento dos sujeitos. São exemplos de fixação: fase oral – transtornos alimentares, obesidade, alcoolismo, fumo; fase anal – necessidade obsessiva de controle, relação difícil com a retenção de dinheiro. Estudando o desenvolvimento psicossexual, Freud diz que o psiquismo tem três dimensões: econômica, dinâmica e tópica. As pulsões dizem respeito à dimensão econômica; os desejos, à dimensão dinâmica; e o inconsciente, à dimensão tópica. A sexualidade permeia todas essas dimensões. Não necessariamente a sexualidade genital reprodutiva, mas a sexualidade enquanto experiências de prazer. Entendemos ainda que cada fase do desenvolvimento psicossexual surge amparada nas necessidades biológicas de alimentação (fase oral), de liberação das fezes (fase anal), de manipulação dos genitais (fase fálica) e da vivência da sexualidade genital na relação com os outros (fase genital). Compreendemos que nosso inconsciente tem como princípio fundamental a busca do prazer; logo, toda vida humana tem como referência o princípio do prazer. Este prazer pode ser alcançado através das satisfações das necessidades e da criação de 18 desejos e vivências de desejos, em que as energias psíquicas, ou catexias, são direcionadas para determinados objetos a fim de com eles vivenciar a realização do prazer, que nunca se dá por completo, mas sempre de forma parcial, para que o sujeito siga desejando. A pulsão de vida depende do desejo do sujeito de satisfazer as tensões que ele recebe do meio, e ao satisfazer parcialmente essas tensões surgirão novas. Sendo assim, cabe ao homem a exploração da vivência do princípio do prazer, seja consigo mesmo, com seu corpo autoerótico, seja com os outros, com as realizações de desejo externo com os outros e com os objetos do meio que o cerca, mantendo assim sua pulsão de vida ativa até que a pulsão de morte um dia se sobressaia, pois tudo que é vivo se finda, tudo que pulsa para, mas o inconsciente atemporal, bem... este não cansará de desejar. Referências BREUER, J.; FREUD, S. Estudos sobre a histeria. 1895. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. II. Rio de Janeiro: Imago, 1990. p. 15-297. FREUD, S. A interpretação dos sonhos. 1900. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. FREUD, S. Pulsões e seus destinos. 1915. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. IANINNI, G. Caro Dr. Freud: Resposta do século XXI a uma carta sobre homossexualidade. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019. 19 Desenvolvimento psicossexual: do autoerotismo até a genitalidade Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes Objetivos • Descrever o processo de desenvolvimento psicossexual ao longo do desenvolvimento do sujeito. • Apresentar o conceito de autoerotismo e como ele se constitui no desenvolvimento psicossexual. • Explicitar o surgimento da curiosidade sexual infantil, sua importância para a cultura, bem como suas repercussões no desenvolvimento psicossexual e na aprendizagem. 20 1. Uma introdução sobre os deslocamentos libidinais As obras Interpretação dos Sonhos (FREUD, 1900) e Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (FREUD, 1905, 1996) sem dúvida se destacam como as mais significativas e impactantes da teoria psicanalítica para a sociedade. Em Interpretação dos Sonhos, Freud nos apresenta a possibilidade de interpretação dos mistérios oníricos e como os sonhos representam a realização de desejos inconscientes ou a reelaboração de experiências traumáticas, através dos sonhos de angústia, mais conhecidos como pesadelos. Após a Interpretação dos Sonhos, Freud publica Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, desafiando a moral sexual de sua época. Ele apresenta e prova a existência da sexualidade infantil ao afirmar que a criança é um ser dotado de sexualidade. O pai da psicanálise problematiza o discurso moralista vigente em sua época, que trata a criança como um ser puro que não possui sexualidade. Ele compreendeu ainda que a nossa sociedade se estabelece à medida que, enquanto crianças, os sujeitos renunciam parcialmente à sua pulsão sexual, transformando-a em uma pulsão de saber, contribuindo assim para a cultura, para a produtividade social e para educação. As práticas pedagógicas e a educação buscam estabelecer a moral civilizatória, em que a renúncia ao sexual seja realizada, cada vez mais, em prol do desenvolvimento social e cultural. Nos tempos de Freud, a sexualidade era destinada primordialmente à reprodução, e não à busca do prazer. Contudo, Freud (1905, 1996) demonstra que as aberrações sexuais, por desviarem do objeto sexual e se satisfazerem de forma parcial, não consistem em anomalias ou perversões, como eram chamadas. Antes, elas são uma das diversas formas de manifestação sexual no humano, uma vez que a sexualidade humana assume, como veremos, diversas formas ao longo do desenvolvimento psicossexual. 21 Aqui, aprenderemos que o pai da psicanálise confronta a moral civilizada cristã, em que a dimensão do prazer deve ser renunciada. Percebemos no texto Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905, 1996) que a pulsão sexual se faz presente desde os primórdios da vida do sujeito, impulsionando-o para a repetição de experiências prazerosas. Experiências de prazer não estão inicialmente relacionadas ao ato sexual, mas sim à descoberta do prazer através do próprio corpo, e isto Freud chama de autoerotismo. Essa descoberta se dará por meio da exploração corporal, no movimento de satisfazer as necessidades do bebê e na relação de cuidados existente entre a pessoa que os exerce e a criança. Compreenderemos que o prazer, portanto, não está localizado apenas na sexualidade enquanto ato sexual, genital, coito entre duas pessoas. Aprenderemos ainda que, para a psicanálise, somos sujeitos dotados de sexualidade desde nossa mais tenra infância, e essa evolução psicossexual é gradual, desde o autoerotismo (período em que a criança começa a reconhecer os prazeres que seu corpo pode ofertar) até o prazer genital (quando o outro passa a ser o objeto de investimento de libido). 2. Fases do desenvolvimento psicossexual Para compreender o porquê de Freud (1905, 1996) atribuir centralidade à sexualidade para descrever o desenvolvimento humano, precisamos pensar que ele não resume esse desenvolvimento a aspectos e aptidões físicas, tampouco apenas ao psíquico de forma isolada. Freud, ao descrever a libido como a força motriz do humano, estabelece que os seres são movidos por pulsões. O pai da psicanálise,inicialmente, determina duas importantes pulsões: a pulsão de autoconservação e as pulsões sexuais. Considerando que a pulsão está entre o psíquico e o somático, o desenvolvimento psicossexual se dará entre a mente e o 22 corpo; ou seja, as vivências sexuais estarão apoiadas nas necessidades fundamentais do ser, e a esse aspecto damos o nome de teoria de apoio. Assim, entre o corpo e a mente, a libido vai se deslocando desde o autoerotismo até a genitalidade plena. Esse deslocamento acontece à medida que o sujeito vai vivenciando suas necessidades e sentindo prazer nessas primeiras vivências, estabelecendo assim as regiões do corpo que serão denominadas zonas erógenas. Para Freud (1905, 1996), qualquer parte da pele ou mucosa em certos tipos de estimulação provocará sensações de prazer, as quais o indivíduo buscará repetir, fixando assim aquela área do corpo como uma região de satisfação. As primeiras experiências de prazer são autoeróticas, uma vez que o indivíduo toma a si mesmo como objeto de prazer e de investimento de libido. Freud nos apresenta um exemplo clássico de autoerotismo, que seria a repetição da amamentação através do chuchar, que acontece na fase oral. Muitas mães se utilizam, em sua ausência, da famosa chupeta, para que os filhos não chorem. Por alguma razão, aquele objeto de plástico, que não tem função vital alguma, representa motivo de prazer para o bebê a ponto de ele parar de chorar. Inclusive, o apego a esse utensílio é tal que muitas crianças mantêm o uso da chupeta por vários anos de sua infância. Algumas substituem a utilização da chupeta pelo gesto de chupar o dedo, por ser mais cômodo, tornando-se independente, assim, do meio externo para obter prazer, e instaurando nesse dedo uma segunda zona erógena. Para Freud (1905, 1996), essa fixação da boca como zona erógena levará posteriormente, na fase genital, à busca, em outras pessoas, dessa parte correspondente, os lábios. Porém, nem todas as crianças vivenciam a experiência de chupar chupeta ou dedo; seria isso uma manifestação de ausência de autoerotismo? Não, pois o prazer se dará nas vivências posteriores envolvendo oralidade, como comer e morder. Freud destaca ainda que pessoas que apresentam fixação nessa zona erógena, a saber, a fase oral, posteriormente tenderão ao alcoolismo e tabagismo, e algumas sentirão nojo de comida e produzirão vez ou outra vômitos 23 histéricos. Ele afirma ainda que muitas de suas pacientes com distúrbios alimentares, problemas na garganta e vômitos foram, na infância, adeptas do chuchar (FREUD, 1905, 1996). Essas representações da chupeta e do dedo nada mais são que objetos substitutivos de uma experiência anterior de prazer para a criança – no caso, a amamentação. Vivenciando a fase oral por meio da amamentação, o indivíduo consegue aliviar as tensões internas provocadas em seu corpo pela fome. Eliminada a tensão, se instaurará uma vivência de prazer. Freud (1905, 1996) explicita que, desde o nascimento, o bebê vai se deparar com momentos de desprazer provocados externamente ou internamente. Fatores externos são mudanças de temperatura, barulho, desconforto pela forma como se está deitado ou apoiado, entre outros modos de contato com o meio externo, e o desprazer provocado internamente ocorre, por exemplo, nos casos de fome, sono, dor e sede; sensações essas que a criança não reconhece e que vão ganhando significado e interpretação na relação com a pessoa que lhe fornece os primeiros cuidados e que nomeia tais sensações para o bebê. Confrontos com os infortúnios dos meios externo e interno provocarão na criança aquilo que denominamos princípio de realidade. Ou seja, a vivência de buscar o prazer a qualquer custo e evitar o desprazer acabará por fazer necessário equilibrar as demandas do meio externo e as necessidades internas. Quando o princípio de realidade se impõe na relação do bebê com a mãe, nos momentos em que esta não pode estar presente para amamentá-lo na hora que ele precisa, ou para ofertar o seio e o corpo quentinho que lhe proporcionam, através da zona erógena pele, também uma experiência de prazer pelo contato, acolhimento vivenciado na amamentação (seja ela no seio ou por mamadeira), vão se criando experiências em que o bebê registra a ausência do cuidado externo, implementando ainda mais o princípio da realidade. É fato que essas primeiras experiências de alimentação 24 promovem no bebê um registro psíquico de satisfação. Após esse registro, a criança buscará repetir tais experiências. Freud destaca que “a necessidade de repetir a satisfação sexual dissocia- se então da necessidade de absorção de alimento” (FREUD, 1905, 1996, p. 171). Percebemos que as necessidades básicas de autoconservação da criança servem de apoio para as experiências de prazer, que gradualmente serão desvinculadas dessas necessidades e garantir sua independência. Além da fase oral, o desenvolvimento psicossexual está constituído em mais fases: fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. A classificação e nomeação de tais fases está relacionada à parte do corpo que primordialmente se estabelece como região de investimento libidinal no sujeito, consolidando-se como a zona erógena principal. Até aqui percebemos que a boca, apoiada na necessidade de alimentação, se constitui como a primeira fase do desenvolvimento psicossexual, a chamada fase oral, um período em que a criança vivencia o prazer através do sugar, que está relacionado à repetição do movimento da amamentação. Uma fixação nesse período costuma resultar em um sujeito adulto com patologias, tais como: obesidade, alcoolismo, tabagismo e transtornos alimentares. Essas patologias se estabelecerão, uma vez que o sujeito retorna à fase oral por ter sido um período de intensas gratificações e prazeres ou devido a experiências traumáticas que visam ser elaboradas. Por exemplo, um paciente pré-bariátrica informou em entrevista avaliativa que sempre foi obeso e expôs essa questão do peso, contando a história de quando era bebê e sua mãe não o amamentou; mas, para evitar que ele sentisse fome e ficasse chorando, ela lhe dava um litro de mamadeira em cada refeição, ou seja, esse um litro de mamadeira não visava apenas à nutrição do bebê, dada a quantidade excessiva. Visava também apaziguar a angústia da mãe por não ter leite materno 25 e revelava o desejo dela de que a criança não chorasse e não desse trabalho por um longo período. Assim, estando excessivamente alimentada, a criança dormia bastante e de estômago cheio, e isso trazia a tranquilidade que a mãe buscou, resultando, porém, em uma experiência de fixação da fase oral que prevalece até a atualidade na forma de obesidade mórbida, a ponto de o rapaz pesar mais de 140 kg. Em seguida, temos a fase anal, que, assim como a fase oral, está apoiada em outras funções corporais. Os distúrbios intestinais vivenciados na infância, bem como o controle dos excrementos, são a base para as sensações de prazer que a criança vivenciará e, assim, buscará repetir posteriormente. As crianças que retêm as fezes acabam passando por períodos de fortes contrações musculares, e eliminar a matéria fecal, na passagem pelo ânus, pode provocar uma sensação de estímulo intensa na mucosa, conforme nos explica Freud (1905, 1996). Destacamos que nessa fase serão produzidas as relações entre prazer e desprazer, entre reter e soltar, entre tentativas de controle e de gratificação. A fixação nessa etapa resultará posteriormente em implicações nas questões de controle e de gratificação, e em experiências de vivências patológicas relativas à fase anal (por exemplo, hemorroidas). Uma paciente, que foi acompanhada durante muito tempo, se queixava de que toda vez que tinha problemas, causados por estresse em geral, apresentava crises de hemorroidas. Era perceptível a fixação dela na fase anal. Na infância, a relação com as fezes envolve ainda a dinâmica entre mãe e filho, uma vez que obebê é referenciado por Freud (1905, 1996) como o primeiro “presente”, e ao se desfazer disso, demonstra afeição pelos cuidadores. Esse período ainda é caracterizado pela transição da fralda para o uso do “penico”, sendo, portanto, um período de adaptação da criança em relação a essa normativa social de um local específico para depositar as fezes. Já na fase fálica, a problemática se desloca das questões anais para ser concentrada na presença ou ausência do pênis e nas diferenças sexuais. Por não reconhecer ainda a diferença entre os sexos, a criança 26 tem na castração um saber ignorado ou negado. Nesse período, um único tipo de órgão é reconhecido: o pênis no menino. A menina toma conhecimento de que não tem pênis, e o menino, posteriormente, também toma conhecimento dessa ausência na menina. Logo, o menino imagina que a menina tinha pênis e o perdeu, estabelecendo-se assim no menino a noção de diferença sexual e a angústia de castração. Já a menina compreende a diferença sexual ao perceber que não tem o pênis, e nesse momento se estabelece a chamada inveja do pênis. Inicialmente, conforme nos apresenta Nasio (2007), a menina deseja que seu pai lhe dê um pênis, e depois esse órgão é transformado, em termos de significado, no desejo de ter um bebê. Tal desejo ocorre no complexo de Édipo feminino. Nessa fase ocorre o período denominado complexo de Édipo. Segundo Freud (1916, 1996), o Édipo se refere: A lenda grega do rei Édipo, que foi determinada pelo destino a matar seu pai e tomar sua mãe por sua esposa, que fez tudo para escapar da sentença do oráculo, e que depois se pune cegando-se após descobrir que cometeu esses dois crimes sem sabê-lo. (FREUD, 1916, 1996, p. 224) Tomando como referência a mitologia para descrever as relações entre pais e filhos, Freud (1916, 1996) diz que se trata de um período em que o menino quer ter a mãe só para ele e sente a presença paterna como incômoda, ficando indignado quando o pai faz carinho na mãe; ao mesmo tempo, demonstra verdadeira satisfação quando o pai viaja e ele pode ficar com a mãe só para si. É importante considerar, contudo, que Freud nos orienta ao afirmar que a mesma criança dá grandes mostras de ternura por esse mesmo pai, com o qual rivaliza pela mãe, assumindo assim posturas afetivas contraditórias ambivalentes. Na menina, o Édipo, segundo Freud (1916, 1996), ocorre da seguinte forma: uma ligação carinhosa com o pai, a necessidade de eliminar a mãe e assumir seu lugar, e recorrer às características de feminilidade para imitar a mãe e ter o pai só para si. 27 O menino entra no complexo de Édipo ao perceber que a menina foi castrada. Então, ele desenvolve a angústia de castração, medo de perder seu pênis, e o ódio que era dirigido à figura parental do mesmo sexo se transformará em identificação. Portanto, a angústia da castração propicia ao menino a saída do complexo de Édipo, período em que meninos e meninas vivenciam a experiência de investimentos libidinais e de amor e ódio dirigidos às suas figuras parentais. Posteriormente ao Édipo, a libido passará por um período que chamamos de latência. Ao sair do Édipo, a criança (independentemente do sexo) recalca seus desejos sexuais pelos progenitores, deslocando essa energia libidinal para o mundo externo, para a aprendizagem e para a socialização. As energias que prevalecem no período de latência serão aquelas que impulsionarão a aprendizagem de leitura e escrita, a descoberta sobre o mundo e o domínio do meio, proporcionando à criança o prazer por ler, escrever, pesquisar e viajar, descobrindo realidades, objetos e lugares novos e dominando o mundo à sua volta. Na fase genital, temos uma configuração libidinal inédita, em que os investimentos libidinais, impulsionados apoiados na necessidade, “buscavam um certo tipo de prazer com alvo exclusivo” (FREUD, 1905, p. 196). Agora na puberdade, “as zonas erógenas subordinam-se ao primado da zona genital” (FREUD, 1905, p. 196). O autoerotismo permanece nas experiências de masturbação, porém o foco está na zona genital, e o alvo sexual passa a ser um outro, externo ao indivíduo. 3. Do autoerotismo à genitalidade Freud (1905, 1996), em seu livro Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, nos apresenta o conceito de autoerotismo. Para ele, o 28 autoerotismo busca um prazer já vivenciado e agora relembrado. Para Roudinesco (1998), autoerotismo significa: Autoerotismo al. Autoerotismos; esp. Autoerotismo; fr. autoerotismo; ing. autoerotismo Termo proposto por Havelock Ellis* e retomado por Sigmund Freud* para designar um comportamento sexual de tipo infantil, em virtude do qual o sujeito encontra prazer unicamente com seu próprio corpo, sem recorrer a qualquer objeto externo. (ROUDINESCO, 1998, p. 46) Já para Laplanche e Pontalis (1991), autoerotismo é: A) Em sentido amplo, característica de um comportamento sexual em que o sujeito obtém a satisfação recorrendo unicamente ao seu próprio corpo, sem objeto exterior: neste sentido, a masturbação é considerada como comportamento autoerótico. B) De um modo mais específico, característico de um comportamento sexual infantil precoce pelo qual uma pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra a sua satisfação no local, isto é: 1. sem recorrer a um objeto exterior; 2. sem referência a uma imagem do corpo unificada, a um primeiro esboço do ego, tal como ele caracteriza o narcisismo. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 68) Faz-se necessário, antes de dialogarmos com tal conceito, referenciar o narcisismo, para assim explicitar a diferença entre ambos, pois se trata de movimentos em que o sujeito investe e vivencia prazer no seu próprio corpo, sem a necessidade de um objeto exterior. Os conceitos ora se confundem e podem promover dificuldades de compreensão do processo de investimento libidinal do sujeito em seu desenvolvimento psicossexual. Para Laplanche e Pontalis (1991), narcisismo é: Por referência ao mito de Narciso, é o amor pela imagem de si mesmo. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 308) Freud a propor — no Caso Schreber, 1911 — a existência de uma fase da evolução sexual intermediária entre o autoerotismo e o amor de objeto. 29 “Sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como objeto de amor”. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 308) Numa perspectiva genética, podemos conceber a constituição do ego como unidade psíquica, correlativamente à constituição do esquema corporal. Podemos ainda pensar que tal unidade é precipitada por uma determinada imagem que o sujeito adquire de si mesmo segundo o modelo do outro, e que é precisamente o ego. O narcisismo seria a captação amorosa do sujeito por essa imagem. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 309) Ambos os conceitos tratam de experiências, de vivências prazerosas, em que o indivíduo independe da presença de outros para sua satisfação. Contudo, no primeiro momento do desenvolvimento do indivíduo, prevalecerá o autoerotismo, uma vez que o ego da criança está em seu processo de construção na relação com esses outros da cultura, especialmente a mãe. As primeiras experiências de frustração e falta da mãe (cabe salientar que nos referimos à figura de referência de cuidado, e não à mãe necessariamente biológica) são essenciais para que a criança perceba que, nessa ausência, ela precisará lançar mão de outros recursos para que suas necessidades primitivas sejam atendidas. Desta forma, com a ausência materna, a criança vivencia experiências de confronto com a realidade. A criança, enquanto sujeito dotado de sexualidade e voltado para a satisfação do prazer, aos poucos vai, através do contato com a realidade e suas frustrações, começar a construir um ego primitivo, que se desenvolverá diferenciando-se da sua região destinada exclusivamente ao prazer, ao longo das etapas do desenvolvimento psíquico do sujeito. Então, somente após a existência de um ego com algum grau de estruturação é que onarcisismo, enquanto experiências de amor ao eu e prazer consigo mesmo, será possível. É importante perceber que o autoerotismo não deixa de existir, permanecendo relacionado às primeiras experiências de descoberta das zonas erógenas e de exploração do próprio corpo. 30 4. A curiosidade sexual infantil e sua importância Freud, em 1905, nos explica que dos três aos cinco anos se inicia na criança a chamada pulsão de saber, imersa nas investigações sexuais que a criança faz sobre a origem de sua vida e do mundo. Tais investigações representam um direcionamento da libido infantil para a compreensão do mundo à sua volta; porém, a pulsão de saber é intensamente atraída pelos problemas sexuais. As crianças buscam, assim, conhecimentos práticos, respostas diretas, especialmente para a pergunta: de onde vêm os bebês? Freud esclarece, ainda em 1905, que as crianças estabelecem as chamadas teorias do nascimento, que na idade adulta não são mais lembradas, uma vez que elas foram recalcadas. Posteriormente, em seu texto Sobre as Teorias Sexuais das Crianças (FREUD, 1907, 1996), o pai da psicanálise responde ao médico Moritz Furst sobre a importância do esclarecimento sexual das crianças. Assim, ele delimita três importantes perguntas para apresentar a discussão: 1. Devemos esclarecer às crianças os fatos da vida sexual? 2. Em que idade eles devem receber tais informações? 3. De que forma essas informações sobre o sexual devem ser transmitidas às crianças? Em sua resposta, Freud (1907, 1996) argumenta que as crianças já sabem, de alguma maneira, sobre a vida sexual e já produzem suas teorias acerca da sexualidade, conforme consta nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (FREUD, 1905, 1996). Desse modo, a justificativa de pais e professores quanto a não apresentar a temática da sexualidade na primeira infância por medo de despertar uma sexualidade precoce é, na verdade, uma teoria fadada ao erro, uma vez que as crianças, desde seu primeiro ano de vida, vivenciam experiências da ordem do sexual, 31 na medida em que estabelecem relações de prazer na satisfação de suas primeiras necessidades. Os pais e professores buscam de todas as maneiras manter as crianças longe dos esclarecimentos sexuais, o que, segundo Freud (1905, 1996), é uma tarefa impossível, uma vez que, através de livros, de outras crianças e de suas experiências pessoais, elas terão acesso a diversas informações. Contudo, esse encobrimento de informações pode levar as crianças, ao se tornarem futuros jovens, a julgar tudo o que é da ordem do sexual como inferior e abominável. Cabe salientar que, após a publicação dos Três Ensaios, no texto Sobre as Teorias Sexuais das Crianças (1907, 1996), Freud destaca que: De fato, pensa-se que falta às crianças a pulsão sexual e que ela só se instala na puberdade com a maturação dos órgãos sexuais. Isso é um erro grosseiro, que traz graves consequências tanto para o conhecimento como para a práxis [...] na verdade, ao vir ao mundo, o recém-nascido traz sexualidade consigo; certas sensações sexuais acompanham o seu desenvolvimento durante o aleitamento e a infância, e de apenas poucas crianças podem passar despercebidas certas atividades e sensações sexuais antes de sua puberdade. (FREUD, 1907, 1996, p. 83-84) Aqui temos Freud reafirmando seus argumentos apresentados em 1905 sobre a sexualidade infantil, declarando que as pulsões sexuais estão presentes desde o início do desenvolvimento, já que cada fase do desenvolvimento psicossexual é registrada no sujeito a partir de sua relação com seu investimento libidinal no próprio corpo, ou seja, com o autoerotismo, que, por sua vez, surge apoiado nas experiências de satisfação das necessidades, como amamentação, evacuação, entre outras. A libido, então, se relaciona com as satisfações e desliza entre as diversas zonas erógenas do sujeito. Inicialmente, temos a fase de um forte autoerotismo. Segundo Freud (1907, 1996), o autoerotismo consiste na satisfação do prazer através do próprio corpo, por meio da excitação de diversas zonas erógenas, de acordo com a ação de várias pulsões biológicas. Para Freud, então: 32 A criança, muito antes de alcançada a puberdade, já é capaz da maioria das operações psíquicas da vida amorosa (da ternura, da entrega e dos ciúmes), e, com bastante frequência, a irrupção desses estados anímicos também se estende às sensações corporais de excitação sexual. (FREUD, 1907, 1996, p. 84) Desta forma, as crianças, muito antes da puberdade, se apresentam aptas a amar. Com exceção da capacidade de reprodução, as demais capacidades psicossexuais, bem como o domínio intelectual das realizações, estão psiquicamente preparadas e somaticamente organizadas (FREUD, 1907, 1996). No mesmo período em que se descobrem como fonte de prazer, as crianças começam a se questionar sobre a origem dos bebês. Freud anunciava essa discussão em 1907, e na atualidade os pais e educadores ainda apresentam dificuldades para conversar de forma clara com seus filhos sobre sexualidade. É preciso respeitar o desejo de saber da criança, de modo que ela não seja submetida a uma vivência traumática. Para Freud (1907, 1996), as teorias sexuais infantis devem ser coletadas e examinadas, e pais e professores podem conversar com as crianças sobre a sexualidade. É necessário que o sexual seja tratado da mesma maneira que outros assuntos dignos de conhecimento. Uma importante via sugerida por Freud se dá a partir de estudos comparativos entre o homem como animal, espécie humana, e os demais animais, a fim de que, por meio dessa analogia, cada criança, pela via do seu aprendizado, encontre suas respostas. É importante que os pais saibam alimentar a justa medida dessa curiosidade, pois “a curiosidade da criança nunca chegará a um alto grau se ela encontrar a satisfação correspondente em cada etapa do aprendizado (FREUD, 1907, 1996, p. 89). Percebemos então que, para Freud (1905, 1996), as preocupações com a busca de saber sobre a origem dos bebês estão na gênese da construção do processo de inteligência e aprendizagem humana. Cabe lembrar que essa pulsão no período genital ainda permanece, embora 33 na fase genital o outro seja o objeto de direcionamento da libido. Mas, como uma fase não elimina a outra, elas se sobrepõem na vida adulta: a curiosidade e o desejo de estudar que existiam no período da curiosidade sexual infantil permanecem, mas agora impulsionados por outras questões. Pais e mães devem se apropriar desses conhecimentos e saber manejar, na relação com as crianças, essa curiosidade que se instaura, para que uma resposta inadequada ou uma postura mais agressiva por parte dos genitores não possa despertar uma fixação nesse período, comprometendo o processo posterior de aprendizagem. Entender a sexualidade implica ainda passear pelas fases psicossexuais do desenvolvimento e pelo complexo de Édipo, até a sua dissolução, compreendendo assim a estrutura psíquica que se estabelece após o Édipo e o quanto a conclusão desse período é estruturante para o entendimento da sexualidade do sujeito. Em cada etapa do processo de desenvolvimento psicossexual, o direcionamento libidinal tomará diversos caminhos, pois a pulsão é uma força constante, que não tem objeto definido e não cessa de se inscrever. Então, ela vai deslizando do indivíduo, em seu autoerotismo e nas suas figuras parentais, para a cultura, até finalmente encontrar no outro a experiência de investimento libidinal, no período genital, completando então o ciclo do desenvolvimento psicossexual. Referências FREUD, S. A vida sexual humana. 1916. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. Sobre as teorias sexuais das crianças. 1907. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard Brasileiradas Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 34 FREUD, S. Obras completas, volume 4: A interpretação dos sonhos (1900). São Paulo: Companhia das Letras, 2019. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. L. Vocabulário de Psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 1991. NASIO, J.-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998. 35 O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes Objetivos • Esclarecer a importância, o valor e a função do complexo de Édipo para o desenvolvimento psicossexual humano. • Delinear as diferenças entre o complexo de Édipo feminino e o complexo de Édipo masculino. • Descrever a importância do complexo de Édipo como vivência que orienta a constituição da estrutura da personalidade. • Elencar as principais manifestações sexuais da puberdade descritas na obra freudiana. 36 1. O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual O termo complexo de Édipo aparece pela primeira vez na obra freudiana em uma carta a Fliess, de 15 de outubro de 1897, chamada carta 71, na qual Freud formula a hipótese de que todos nós um dia vivenciamos um Édipo em potencial na fantasia: Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e ter ciúmes de papai, e agora o considero um acontecimento universal do início da infância [...]. Se assim for, podemos entender o poder de atração de Oedipus Rex, a despeito de todas as objeções que a razão levanta contra a suposição do destino [...] a lenda grega capta uma compulsão que todos reconhecem, pois cada um pressente sua existência em si mesmo. Cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual. (FREUD, 1897, 1996, p. 273) Baseado na análise dos seus próprios sonhos, bem como nos estudos da mitologia grega através do mito de Édipo Rei, criado por Sófocles, Freud relata aspectos do dualismo afetivo presente entre a criança e seus pais ou representantes das figuras paternas. Desta forma, as experiências de amor e ódio, a admiração e identificação com uma das figuras parentais e a disputa com a outra, bem como a interdição necessária, são localizadas nesse período, citado por Freud como o centro do desenvolvimento psicossexual infantil: “em extensão sempre crescente, o complexo de Édipo revela sua importância como fenômeno central do período sexual da primeira infância” (FREUD, 1924, 1996, p. 217). No período edípico, situado na fase fálica, temos o estabelecimento da base estrutural do psiquismo, bem como as bases identificatórias dos papéis de gênero e das questões relacionadas à orientação sexual. Cabe frisar, porém, que nesse período não falamos em determinação 37 da orientação sexual ou da identidade de gênero, mas localizamos aqui a importância da resolução edípica como um momento relevante no desenvolvimento psicossexual no que diz respeito à compreensão de tais aspectos. É preciso sempre ter em mente que a sexualidade humana é polimorfa, que a pulsão sexual não possui objeto pré-determinado e que qualquer parte do corpo humano pode se estabelecer como zona erógena. Assim, não podemos falar em determinantes quando nos referimos à sexualidade humana, e as perguntas que surgem sobre a origem da homo e da heterossexualidade não poderão ser respondidas de forma taxativa pela psicanálise. Antes, a psicanálise se propõe a compreender os processos de investimento libidinal e da constituição psíquica dos sujeitos, tomando como referência a dimensão do inconsciente e de seu processo de estruturação. Para Freud, a forma como cada pessoa resolve sua conflitiva edípica determinará sua personalidade e estabelecerá as bases da sexualidade adulta do sujeito, a partir das identificações sexuais e do objeto de investimento de libido escolhido. Ao longo desse tema, vamos compreender as origens do termo complexo de Édipo e descrever seu curso, desde o início até o seu declínio. Assim, compreenderemos que o período edípico não ocorre da mesma maneira para meninos e meninas. Nasio (2007), condizente com a tradição freudiana, afirma que o complexo de Édipo é uma experiência da qual “ninguém escapa”, uma vez que é nela que os sujeitos direcionarão sua libido para objetos externos e vivenciarão experiências afetivas de amor e ódio, saindo assim de uma vivência autoerótica para alcançar o ápice do desenvolvimento psicossexual com a experiência da genitalidade. Ao mencionarmos objeto de investimento de libido, devemos compreender que, em psicanálise, o termo objeto tem múltiplos significados. Segundo Laplanche e Pontalis (2001), em psicanálise, objeto pode designar qualquer coisa ou pessoa com características fixas, e que, portanto, são reconhecidas por todos, não dependendo das opiniões 38 singulares. Porém, objeto pode também ser o sujeito que será alvo de sentimentos de amor e ódio. O objeto de amor ou objeto de ódio é uma relação com a pessoa total, em que a pessoa ou entidade estaria relacionada com o adjetivo correspondente. O termo objetal pode ser utilizado como um adjetivo para caracterizar, por exemplo, um tipo de relação em que um outro ser ou o próprio sujeito é o alvo da libido. Na fase genital, o sujeito tomará outras pessoas para vivenciar o amor objetal. Temos ainda o termo objeto como aquilo que está relacionado à pulsão, sendo alvo desta, ou seja, as pulsões sexuais, de autoconservação, de vida e de morte se dirigem a um determinado objeto, que será, portanto, o alvo dessa energia pulsional. Mas você deve estar se perguntando: qual é a importância, na prática profissional, de conhecer detalhadamente cada fase do desenvolvimento psicossexual humano e, em especial, o período chamado de complexo de Édipo? Através de tal complexo e com o sentimento de incompletude que se instaura na sua dissolução, o sujeito precisará aprender a conviver com seus limites, suas dificuldades, suas perdas, com as interdições relativas ao que ele deseja e com os lutos de uma maneira geral. Viver o luto da interdição do incesto é aceitar a condição da castração, admitir que em alguma medida somos seres incompletos, faltosos, e que aquela experiência de unidade vivenciada com a mãe no início do desenvolvimento psicossexual, aquela sensação de fusão com esse outro no qual nada falta, será constantemente buscada em nível inconsciente, porém nunca encontrada, e assim instaura-se o ser para a falta. E como ser que tem faltas, ele é capaz de desejar, e ao desejar, existe uma tentativa inconsciente de que a relação com esse outro possa dar conta de fazer suplência à falta estruturante que carregamos em cada um de nós. É graças à existência dessa falta oriunda do complexo de Édipo que a pessoa se insere em um mundo de incompletude, e é apenas nessa incompletude que o amor pode verdadeiramente brotar. Para compreender e realizar intervenções profissionais a partir de temas como sexualidade e estruturas da personalidade humana, se 39 faz necessário que o profissional tenha conhecimento de como ocorre a entrada dos meninos e das meninas no complexo de Édipo, quais sentimentos são vivenciados nesse período e como se dá sua saída. Assim, ele compreenderá o processo de direcionamento da libido na puberdade e suas posteriores consequências na fase adulta. É necessário ainda que pais, professores e profissionais de saúde e educação como um todo possam entender as dinâmicas da sexualidade na infância, em suas diversas fases, de modo a proporcionar as melhores condições para o desenvolvimento e a proteção das crianças, compreendendo que sexualidade é sim tema para ser debatido na infância esabendo das possíveis implicações futuras desse processo de desenvolvimento psicossexual. Vamos juntos nesse desafio de conhecer o complexo de Édipo? 1.1 O complexo de Édipo e seu papel orientador na constituição do psiquismo Na contemporaneidade, diversos alunos questionam: qual é a pertinência de estudar o complexo de Édipo? Não seria esse conhecimento uma filosofia datada, de tempo e período específicos, já que na atualidade compreendemos as diversas modalidades de família? Não temos nos dias de hoje apenas a existência das famílias nucleares formadas por pai, mãe e filhos, assim como na sociedade vienense de Freud. Quando Freud estabeleceu o conceito de complexo de Édipo, tomando como base a análise dos seus sonhos e de sua relação com suas figuras parentais e analisando o texto do Édipo Rei (tragédia grega representada pela primeira vez possivelmente em 430 a.C.), obra produzida por Sófocles, ele trouxe para a psicanálise elementos da mitologia grega a fim de explicar as relações familiares de amor e ódio, as quais, segundo o psicanalista, são vivências universais. Como é possível a existência da vivência edípica em nosso tempo? Quais papéis esse período destaca em nossa formação psíquica? Mas, e depois do Édipo, o que acontece com a sexualidade? Essas e outras questões são extremamente necessárias e pertinentes. 40 Freud (1905) formalizou o complexo de Édipo como um período que ocorre na fase fálica do desenvolvimento psicossexual. Logo, tal complexo não constitui uma fase do desenvolvimento, mas um período durante uma das fases. A nomenclatura “complexo” era, segundo Roudinesco e Plon (1998), utilizada essencialmente por Carl Gustav Jung, para designar fragmentos de personalidade ou grupos de conteúdo psíquico separados do consciente e que têm um funcionamento autônomo no inconsciente, de onde podem exercer influência sobre o consciente. Conforme a psicanalista (ROUDINESCO; PLON, 1998), nas diversas escolas psicoterapêuticas existem mais de 50 tipos de complexos. Ela afirma que, na terminologia freudiana, essa palavra é associada apenas a dois conjuntos de representações inconscientes na vida psíquica do sujeito: o complexo de Édipo e o complexo de castração. O complexo de Édipo tem como implicações: as experiências de sentimentos ambivalentes vivenciadas pelas crianças; a castração oriunda de não poder conquistar seu objeto de amor, que lhe será interditado; e a transformação de ódio e interdição em identificação, uma vez que, através desse processo de identificação, o sujeito construirá referências para sua identidade de gênero e orientação sexual, compreendendo seus modos de amar e desejar. Em sua forma positiva, que é colocada em cena pela tragédia de Édipo Rei, o complexo de Édipo se estabelece como o desejo sexual pela mãe e o desejo assassino pelo pai, o rival. Anos depois, ao aprofundar a discussão sobre tal complexo, Freud (1923) estabeleceu a forma negativa, denominada Édipo invertido ou “Édipo feminino” do menino: o desejo erótico pelo pai e o ódio ciumento à mãe. Finalmente, sob sua forma completa, o complexo de Édipo designa o conjunto das relações que a criança estabelece com as figuras parentais e que constituem uma rede, em grande parte, inconsciente de representações e de afetos entre os dois polos de suas formas positiva e negativa. O Édipo invertido ou negativo (mais usado que Édipo feminino) surge apenas nos textos 41 de Freud na segunda tópica, O Ego e o Id (FREUD, 1923), indicando que ambas as formas são vividas por todas as crianças. O conceito de complexo de Édipo perpassa toda a obra freudiana. Freud afirma que a universalidade dos desejos edipianos ocorre na diversidade das culturas e dos tempos históricos. Para ele, todo ser humano se vê diante da tarefa de superar o complexo de Édipo (FREUD, 1897,1996). Porém, a elaboração deste conceito se deu na obra freudiana de forma gradual e cheia de contradições. Foram necessários muitos anos para que o complexo de Édipo se tornasse um conceito fundamental da psicanálise (1920-1925), não sendo apenas o “complexo nuclear das neuroses”, mas também o momento decisivo em que culmina a sexualidade infantil e no qual se decide o futuro da sexualidade e da personalidade adultas. Freud, em 1924, ao apresentar a dissolução do complexo de Édipo, tornou possível perceber a relação entre o complexo de Édipo e o complexo de castração. Ao interiorizar a castração dos dois desejos edipianos (o incesto materno e a morte do pai), o indivíduo abre, portanto, o acesso à cultura pela submissão e identificação com a figura paterna, aquele que regula, o portador da lei. Com esse destaque para a figura paterna, é possível perceber que é em torno do modelo masculino que Freud elabora sua teoria da sexualidade, através do processo de ausência ou presença do falo. Mas como Freud resolve a questão da sexualidade feminina? De início, afirma simplesmente uma equivalência em simetria inversa. Posteriormente, ele se aprofunda e apresenta detalhamentos sobre a construção da feminilidade (1976), reiterando assim a concepção de que a anatomia não é o destino. A partir disso, o conflito edipiano foi definitivamente situado entre três e cinco anos de idade, no momento da fase fálica, quando um só órgão sexual é reconhecido pelas crianças dos dois sexos: o pênis, que classifica seres humanos em fálicos e castrados. Então, instaura-se uma dissimetria entre o desenvolvimento psicossexual do menino e da menina: o menino sai do complexo de Édipo pela angústia da castração, e nele o supereu é o 42 herdeiro desse complexo por meio da interiorização da interdição paterna. A menina ingressa no Édipo pela descoberta de sua castração e inveja do pênis, e o supereu se constitui com dificuldade nela, que tem de se desfazer do pai como objeto de seu desejo, sendo o percurso de tornar-se mulher obscuro e complicado. Freud acaba por declarar que “é apenas o menino que se estabelece essa relação, que marca seu destino, entre o amor por um dos pais e, simultaneamente, o ódio ao outro como rival” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p. 81-82). Na obra Totem e Tabu, Freud (1913) estabelece um mito com explicação científica, o da horda primitiva. No mito em questão, existia um pai, senhor de todas as mulheres e todo poderoso, que barrava os filhos de se aproximarem dessas mulheres. Os filhos, insatisfeitos com o poder absoluto do pai, se juntaram e o mataram, e cada um comeu um pedaço dele, para que metaforicamente simbolizasse que o poder agora pertencia a todos, e não mais a apenas um. Porém, após matarem o pai, eles se sentiram culpados e com medo, e, ao mesmo tempo, incorporaram o poder que receberam do pai através da refeição que fizeram na partilha do corpo. Esse grande pai morto simboliza, assim, entre eles, que é necessário o estabelecimento de limites, que todos têm direito ao exercício da sexualidade, porém com respeito às regras. Ou seja, para viver em sociedade, se fazem necessárias as renúncias em prol de um pacto maior de não violência. A experiência edipiana está presente em Totem e Tabu, uma vez que ela se organiza em torno da relação com o pai e da relação entre proibição e desejo. O texto Totem e Tabu é citado ainda em referência à construção da cultura e à renúncia à condição de animalidade da humanidade, sendo preciso impor limites ao princípio do prazer para conseguir viver bem com os demais. A vivência do complexo de Édipo se manifestará em sua forma positiva ou negativa no período da fase fálica, em que ocorre a descoberta da diferença sexual. Além dessa descoberta, com o fim do Édipo e a posterior entrada na puberdade, fase em que o investimento libidinal se desloca do sujeito para outra pessoa, instaura-se a genitalizaçāo. 43 Existem várias formas de reagir à resolução do complexo de Édipo, constituindo assim as estruturas da personalidade que se articulam de acordo com os mecanismos de defesa. Na tirinha anterior, percebemosque o garoto aparenta ser um pouco mais velho, devido à sua altura. Ele possivelmente já está na fase genital, uma vez que dirige para Ana sua libido, desejando namorar com ela. Ana, porém, afirma que prefere namorar o pai. O humor da tirinha está justamente no fato de que o jovem garoto toma a fala de Ana como um exagero, quando ela diz que não quer namorar com ele; já Ana, ao afirmar que quer namorar o pai, está falando no sentido literal, uma vez que ela ainda está vivenciando o complexo de Édipo e sua libido está direcionada para a figura paterna. Nasio (2007) propõe um modelo explicativo para o complexo de Édipo feminino: Quadro 1 – Modelo do Édipo feminino "Tenho quatro anos. Sinto excitações clitoridianas → Tenho o Falo, tenho orgulho dele e julgo-me onipotente → Assim como um menino, desejo possuir minha mãe → Na frente de um garotinho nu, descubro que não tenho Falo → Sofro por ser privada dele → Constato que minha mãe também é desprovida dele → Critico-a por ter-me feito acreditar que ambas o tínhamos → Logo, ela me enganou → Despeitada, abandono minha mãe → Agora sinto-me sozinha e humilhada. Estou ferida em meu amor-próprio e invejo o menino → Volto-me agora para o meu pai, grande detentor do Falo → Sempre ciumenta e invejosa, peco-lhe que me dê o Falo → Ele me recusa o Falo → Constato que nunca o terei → Peço a meu pai para me consolar → Minha inveja transformou-se em desejo. Não quero mais ter o Falo do meu pai, quero sê-lo; quero ser a favorita do meu pai → Então identifico-me com minha mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade → Desejo ser possuída pelo meu pai → Meu pai se recusa → Dessexualizo meu pai, mas incorporo sua pessoa → Pouco a pouco torno-me mulher e me abro para o homem amado → Paro de medir meu sexo pela régua de um mítico Falo e descubro a vagina, o útero e o desejo de ter um filho do meu companheiro." Fonte: adaptado de Nasio (2007). 44 O modelo adaptado do complexo de Édipo feminino, apresentado na Figura 4 a partir de Nasio (2007), estabelece que, no início do complexo de Édipo, no período pré-edipiano, a menina não sabe da existência da vagina e acredita que possui o pênis: ela se percebe, então, como um menino. Posteriormente, ao ver o menino nu, ela descobre que é castrada. É importante observarmos que as constatações da castração e da diferença sexual acontecem simultaneamente. A castração coloca a menina no Édipo; já para o menino, a ameaça de castração demarca o fim do complexo de Édipo e o direcionamento pelo período de latência, no qual a libido será inibida em seus aspectos genitais e sublimada através dos investimentos socialmente valorizados, como educação, artes e cultura. 1.2 As vivências psicossexuais na puberdade O complexo de Édipo oferece à criança duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra passiva. Em sua manifestação ativa, a criança poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe, como tinha o pai; em sua forma passiva, o menino deve assumir o lugar da mãe e ser amado pelo pai, caso em que a mãe se tornaria supérflua. Segundo Freud (1924, 1996), a aceitação da possibilidade de castração e o reconhecimento de que as mulheres são castradas punham fim às duas maneiras possíveis de obter satisfação do complexo de Édipo, uma vez que ambas acarretavam a perda de seu pênis: a masculina como uma punição resultante e a feminina como precondição. Segundo Souza (2006): [Se a satisfação do amor no] complexo de Édipo deve custar à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nessa parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessas forças: o ego da criança 45 volta as costas ao complexo de Édipo, por meio do medo da castração. (FREUD apud SOUZA, 2006, p. 247) Portanto, as energias que eram direcionadas aos objetos parentais são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é inserida no ego e aí se forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto. Segundo Souza (2006) e conforme estabelece Freud (1905), todo o processo, por um lado, preservou o órgão genital, afastando o perigo de sua perda, porém removeu dele sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual da criança, e as energias libidinais serão destinadas para atividades socialmente valorizadas, como cultura, artes e aprendizagem. Percebemos então que a dissolução do complexo de Édipo é instaurada pela ameaça de castração no menino. Como herança do complexo de Édipo, tanto no menino como na menina, temos a instauração do superego, instância psíquica que compõe a segunda tópica juntamente com o id e o ego. Conforme destaca Freud em O Ego e o Id (1923), originalmente as crianças nascem puro id, instância psíquica que representa o prazer sem medidas, a vida pelo princípio do prazer. Ao ter confronto com as dificuldades que a realidade lhe impõe, o id da criança vai dando origem a mais uma instância, o ego, ou seja, a noção do eu que faz a mediação dos desejos do id com os imperativos da realidade. O superego, que se solidifica no final do complexo de Édipo, é o resultado da internalização das noções de limite impostas pelos pais, pela sociedade e pela escola, estabelecendo na criança a instância responsável pela lei e ordem. A dissolução do complexo de Édipo está relacionada aos acontecimentos de interdição e castração, os quais são penosos e desapontam a criança, que percebe não poder possuir seu genitor como objeto de 46 amor. Sendo assim, ela se identifica com o genitor do sexo oposto (no complexo de Édipo positivo), o que demarcará futuramente a orientação heterossexual em torno da construção dos investimentos libidinais. Freud (1924, 1996) nos apresenta o seguinte exemplo: a menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo, porém chega a ocasião em que ela tem de sofrer por parte dele uma dura punição e é atirada para fora de suas ilusões de possuir o pai. O menino encara a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu seu amor e sua solicitude para um recém-chegado, ou seja, um irmão, ou para o pai ou para qualquer atividade de forte investimento libidinal da mãe, como o trabalho (precisa ser algo que necessariamente separe essa criança de sua mãe). Desta forma, segundo Freud (1924, 1996, p. 247): O complexo de Édipo se encaminha assim para a destruição por sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade de seguir seus investimentos libidinais em suas figuras parentais para que essa libido seja direcionada para cultura no período de latência. Embora a maioria dos seres humanos passe pelo complexo de Édipo como uma experiência individual, ele constitui um fenômeno que é considerado universal, uma vez que ele preserva experiências de amor e ódio pelas figuras parentais. Portanto, compreendemos que o Édipo não se trata apenas de uma vivência imaginária da relação incestuosa da criança com a mãe e de rivalidade com o pai, mas sim, na sustentação à qual essa trama faz referência, é a estruturação simbólica que orienta o desejo dos indivíduos na dialética relação sobre o falo e o medo da castração. Assim, através da discussão proposta neste material, conseguimos compreender o que Freud afirmou: “em extensão sempre crescente, o complexo de Édipo revela sua importância como fenômeno central do período sexual da primeira infância” (FREUD, 1924, 1996, p. 217). No complexo de Édipo, temos a centralidade do período de desenvolvimento da infância, uma vez que, através da conclusão desse 47 período, teremos as orientações possíveis em torno da estrutura psíquica dos sujeitos e da relação de cada um deles com as interdições, os limites e as faltas impostas pela cultura, com a renúncia pulsional em prol da convivênciaem sociedade. Com Édipo, temos o confronto do indivíduo com o que se apresenta como um mundo incompleto, com seus limites e suas possibilidades, com a morte e a ausência, com a satisfação parcial dos desejos, com a angústia como mola impulsionadora do desejo, que nos faz crescer e continuar desejantes, objetivando sempre o crescimento e a vida e equilibrando, com nossas tendências, a morte e a finitude do que existe. Referências FREUD, S. A dissolução do complexo de Édipo. 1924. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 189-199. FREUD, S. Carta 71. 1897. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução de J. Salomão. v. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 356-359. FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, S. Totem e tabu. 1913. In: FREUD, S. Totem e Tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912-1914). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. FREUD, S. O Eu e o Id. 1923. In: Sigmund Freud – Obras Completas, Vol. XIV. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. LACAN, J. O Seminário, Livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. MASSON, J. M. (ed.). A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, 1986. NASIO, J. D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. ROUDINESCO, E., PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. 48 SOUZA, M. R. de. A psicanálise e o complexo de Édipo: (novas) observações a partir de Hamlet. Psicologia USP [online], São Paulo, v. 17, n. 2, p. 135-155, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/ abstract/?lang=pt. Acesso em: 23 jul. 2021. SÓFOCLES. Rei Édipo [recurso eletrônico]. 56 p. Disponível em: http://www. dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf. Acesso em: 27 out. 2021. https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/abstract/?lang=pt http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf 49 Homossexualidades, masculinidades e feminilidades em Psicanálise Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes Objetivos • Descrever os impactos da dissolução do complexo de Édipo na construção das performances de gênero e na orientação sexual. • Apresentar os modos de manifestação da masculinidade e feminilidade a partir da teoria psicanalítica, em diálogo com os diversos campos de saber contemporâneos. • Analisar as principais contribuições da psicanálise para a compreensão da homossexualidade enquanto modo de expressão da sexualidade humana. 50 1. Introdução Os posicionamentos diante dos papéis de gênero e da sexualidade humana em nossa cultura pós-moderna implicam a necessidade de ampliar os discursos sobre os modos de subjetivação das práticas e vivências sexuais, bem como da identidade de gênero. Podemos falar de escolhas sexuais? É sabido que muitas das escolhas de investimento afetivo são produzidas tomando inconscientemente por referência os modelos anteriormente estabelecidos em relações parentais e no processo de desenvolvimento psicossexual. Nas vivências de gênero da atualidade, os papéis predefinidos do que se espera do gênero masculino e feminino e os ideais de masculinidade e feminilidade estão sendo paulatinamente desconstruídos. Os “sujeitos contemporâneos desbussolados” (FORBES, 2004, [s.p.]) procuram na clínica psicanalítica novos modelos de enfrentamento psíquico das ansiedades diante dos papéis socialmente estabelecidos, das multiplicidades de escolhas contemporâneas e das angústias decisórias em face do real que se apresenta. Dessa forma, o tornar-se mulher, amplamente discutido pela filósofa existencialista Simone de Beauvoir e anteriormente citado por Freud no texto A Feminilidade (1933, 2019), dialoga com o que aqui apresentaremos como a construção da feminilidade e da masculinidade a partir da teoria psicanalítica e das modificações na contemporaneidade. A psicanálise em nossa cultura ocidental é cada vez mais convidada a uma produção de saberes sobre sexo, gênero, desejo, orientação sexual e identidade de gênero. Consiste em uma instância discursiva que responde por saberes diferenciados sobre os modos de ser, amar, se posicionar no mundo e experienciar a libido. Tais modos vêm sendo questionados, reiterados e ampliados. Segundo Jorge Forbes (2004), vivemos um movimento de feminização do masculino. Além disso, as teorias feministas e os estudos queer problematizam as 51 supostas identidades sexuais; os papéis de gênero e sexualidade foram compreendidos como performances. Pensar em identidades de gênero masculinas e femininas é articular também gênero com diversos outros fatores, como nos estudos interseccionais realizados pelas feministas negras decoloniais: gênero articulado aos conceitos de raça, classe, etnia, cor e aspectos socioeconômicos. Apenas confirmamos o que Freud, em seu tempo, nos afirmou: a anatomia não é o destino (FREUD, 1905, 1996). Existe um outro “saber” sobre o humano, e essa instância orienta e influencia o seu comportamento, suas manifestações identitárias e seus desejos sexuais. A existência do inconsciente funda um discurso que deslegitima o heteronormativo, pois o discurso da escolha ou de qualquer determinação biológica da sexualidade não é compatível com a ideia de uma orientação inconsciente da libido ao longo do desenvolvimento psicossexual. Uma ordem de diversos fatores compõe o que compreendemos por sexo, sexualidade humana, gênero e desejo sexual. Fatores anatômicos são apenas uma parcela: podemos contar ainda com aspectos psíquicos, sociais e culturais, além, obviamente, do processo de desenvolvimento psicossexual que será estudado aqui, a fim de estabelecer um entendimento de como esse desenvolvimento influencia a construção das identidades de gênero em torno da feminilidade e masculinidade, além de compreender as manifestações homossexuais e a relação da heteronormatividade com a teoria freudiana da sexualidade humana. Os temas das homossexualidades, masculinidades e feminilidades nos apresentam que existem várias maneiras de vivenciar a libido quando os sujeitos concluem seu desenvolvimento psicossexual, alcançando a fase genital. Tais modos de expressão do desejo libidinal se estabelecem primordialmente após a dissolução do complexo de Édipo e as identificações com as vivências de gênero, bem como o direcionamento da libido da criança, seja para a figura do mesmo sexo ou do sexo oposto. Assim, crianças que vivenciaram o complexo 52 de Édipo negativo ou invertido tomam a figura do mesmo sexo como objeto de seu investimento libidinal e, portanto, estabelecem as bases para as futuras vivências homoafetivas. Durante muito tempo, alguns psicanalistas acreditaram que tal resolução se tratava de uma problemática no desenvolvimento psicossexual, estabelecendo entre uma parcela de psicanalistas as bases para opiniões preconceituosas acerca da homossexualidade. Entretanto, perceberemos ao longo da obra freudiana vários textos e casos clínicos em que o próprio Freud afirma que a homossexualidade não é doença. 2. Estudos sobre sexualidade e gênero em psicanálise Em 1905, Freud, através do célebre texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905, 1996), iniciou a contestação do que em sua época era considerado como aberrações sexuais. Para o psicanalista, elas nada mais eram do que formas de investimento libidinal que não atendiamao objetivo do que o discurso moral, religioso, biológico e médico higienista estabelecia como normal em termos de sexualidade – a reprodução. Era considerada perversão toda e qualquer prática que não tivesse por objetivo a reprodução. Por sua vez, Freud defendeu que existem pulsões parciais, que obtêm prazer através de partes do corpo, as chamadas zonas erógenas. As pulsões parciais não visam à reprodução, e sim ao prazer. Segundo Ceccarelli (2017), Freud, enquanto psicanalista, defende a ideia de que a suposta “escolha sexual” é algo bastante complexo e que envolve a dinâmica psíquica do inconsciente, da relação triangular da situação edipiana, bem como a bissexualidade de cada indivíduo como algo constitucional, além das ambivalências de identificações. A psicanálise não tinha por objetivo explicar o surgimento das variantes da sexualidade humana. Por exemplo: o texto O Caso da Jovem Homossexual (FREUD, 1920, 1976) afirma claramente que não compete à psicanálise solucionar a homossexualidade. Antes, ela deve se ater aos mecanismos 53 psíquicos envolvidos na escolha de objeto e, por isso, não há um desejo ou orientação em psicanálise visando à cura da homossexualidade ou de qualquer tipo de prática tida como variação da norma, uma vez que a psicanálise não se orienta por uma moral sexual civilizatória, desde os tempos do pai da psicanálise até os dias atuais. Outrossim, a sexualidade não é mais domínio do discurso religioso, moral ou médico; ela também encontra na psicanálise um espaço de saber e poder que produz em determinados contextos um movimento inaugural de liberação da libido humana, instaurando a concepção defendida por Freud (1933, 2019) de que a libido não tem gênero. Infelizmente, em outros contextos psicanalíticos ainda existem grupos que sustentam práticas de exclusão em função da sexualidade humana. Segundo o pesquisador Bulamah (2014), existia uma regra proscrita de não aceitar homossexuais masculinos para formação de analistas na Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Percebe-se, portanto, que mesmo dentro da psicanálise, ainda que o próprio Sigmund Freud (1935), em resposta à carta da mãe de um jovem homossexual, afirme que a homossexualidade não é digna de vergonha e que grandes nomes da história eram homossexuais, a IPA recusava candidatos com esse tipo de orientação sexual. A discussão sobre os modos de constituição da feminilidade e da masculinidade, bem como a homossexualidade humana, perpassa diversos olhares. Freud, enquanto psicanalista, não se furtou de contribuir para a ampliação de tais debates. Contudo, como homem de formação inicialmente médica e europeu vienense, ainda percebemos em Freud marcas de sua cultura, tempo e sociedade ao descrever fenômenos tão multifatoriais como a homossexualidade e as performances de gênero. Desde 1895, com os estudos sobre histeria, até a atualidade, muito mudou nos debates de gênero e sexualidade humana. Contudo, não devemos esquecer que Freud inaugurou com os estudos sobre histeria um espaço no qual as mulheres de sua época poderiam fazer algo que era inadmissível na sociedade vienense do século XIX: falar sobre 54 seus desejos sexuais reprimidos. Não à toa, Freud posteriormente descobriu que na etiologia das neuroses está a sexualidade humana, uma vez que, ao possibilitar às inúmeras pacientes histéricas falar sobre seus sintomas, Freud percebeu a origem sexual nas entrelinhas da fala daquelas mulheres. O psicanalista, inicialmente, postulou a possibilidade de que as mulheres passavam em sua infância por uma espécie de sedução, fundando o que ele chamou de teoria da sedução. Posteriormente, ele percebeu que na verdade tais situações relativas à sexualidade se davam no plano da fantasia das crianças e, por isso, não eram, em sua maioria, ocorrências reais de abuso. Assim, ele desconstruiu a teoria da sedução e solidificou sua teoria sobre a sexualidade infantil. Chamar Sigmund Freud de militante talvez possa soar como exagero para o leitor. Não obstante, tratando-se da sociedade e do tempo nos quais o pai da psicanálise fundou sua teoria, ele pode ser no mínimo considerado progressista, na medida em que trouxe para o cenário de uma ciência predominantemente composta por homens a fala de mulheres sobre seus corpos e sua sexualidade. Passou a ser permitido às mulheres falar e dar vazão ao mal-estar que as afligia, de maneira que sua fala tinha poder de cura e de compreensão sobre elas próprias. Quando Ana O. pede a Breuer que não a hipnotize, mas a deixe falar, ela inaugura um novo espaço das mulheres na clínica, o espaço da cura pela fala e da importância da fala dessas mulheres e das informações por elas apresentadas para a superação do mal-estar feminino. Contudo, em diversos aspectos, Freud não conseguiu ampliar discussões importantes sobre a feminilidade e aspectos relativos à sexualidade humana. Hodiernamente, entretanto, temos um movimento de psicanalistas que se dedicam aos estudos sobre os modos de pensar gênero, sexualidade e orientação sexual, inclusive em interseccionalidades com questões como raça e aspectos socioeconômicos, étnicos e políticos. A psicanálise vem se ampliando cada vez mais para ir além de um discurso edipiano e pensar aspectos socioculturais na construção do laço social e dos modos de subjetivação. 55 3. Homossexualidades O que a psicanálise tem a dizer sobre a homossexualidade? O olhar sobre esta temática modificou-se, indo de um padrão estabelecido de normalidade existente na sociedade grega, que legitimava relações homoafetivas entre um jovem e seu preceptor, passando pelo discurso de pecado e degeneração no século XIX até chegar à sua retirada do campo das doenças mentais, no DSM-II (APA, 1968). Apesar dos avanços, porém, não é unanimidade um discurso favorável à homossexualidade. No laço social, homossexuais convivem com homofobia, discriminação e preconceito desde o âmbito familiar até os espaços públicos e institucionais. As lutas contemporâneas pela conquista de direitos seguem, e diariamente pessoas que contestam a heteronormatividade compulsória são agredidas e mortas em nossa cultura, em virtude do preconceito e da intolerância. O que podemos nomear como homossexualidade? Seriam as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo? Desejar uma pessoa do mesmo sexo já enquadra o sujeito na matriz homossexual? Ou apenas o posicionamento do sujeito diante das suas práticas sexuais é capaz de categorizá-lo como homossexual? Se um homem pratica ocasionalmente sexo com outros homens, porém se mantém na condição “ativa” e, por isso, não se reconhece enquanto homossexual, esse sujeito deve ser caracterizado pelo olhar psicanalítico como homossexual, considerando apenas as suas práticas? Ou será o desejo suficiente para enquadrá-lo como tal? Para pensar tais questionamentos, recorremos à importante psicanalista Roudinesco (1998), em Dicionário de Psicanálise, que nomeia a homossexualidade como um termo derivado do grego que quer dizer todas as formas de amor carnal de modo igual. Apenas por volta de 1910, o uso do termo homossexualidade passou a se fazer mais presente, uma vez que a homossexualidade foi excluída do DSM e perdeu seu estatuto de doença, não cabendo mais, portanto, o uso do termo homossexualismo, que remete à dimensão de patologia. 56 Freud, aliás, já havia apontado o caminho para a psicanálise, fazendo a homossexualidade derivar da bissexualidade e remetendo-a a uma escolha inconsciente, ligada à renegação, à castração e ao Édipo. Segundo Roudinesco (1998, p. 350): Freud introduziu a homossexualidade num universal da sexualidade humana e a humanizou, renunciando progressivamente a fazer dela uma disposição inata ou natural, isto é, biológica, ou então uma cultura, a fim de concebê-la como uma escolha psíquica inconsciente. Em 1905, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade*, Freud ainda falou de inversão, mas, em 1910, com “Leonardo da Vinci e umalembrança de sua infância*”, renunciou a esse termo em favor de homossexualidade. Cinco anos depois, numa nota acrescentada aos Três ensaios, expressou claramente sua hostilidade a qualquer forma de diferencialismo e discriminação: “A investigação psicanalítica”, escreveu, “opõe-se com extrema determinação à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos como um grupo particularizado”. (ROUDINESCO, 1998, p. 350) Um ano depois, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud (1921) deu uma definição mais clara da homossexualidade masculina: ela sobrevém depois da puberdade, nos casos em que se instaurou na infância um vínculo intenso entre o filho e a mãe. Em vez de renunciar a esta, o filho se identifica com ela, transforma-se nela e procura objetos capazes de substituir seu eu, os quais ele possa amar como foi amado pela mãe. Por fim, uma carta, datada de 9 de abril de 1935, foi dirigida a uma mãe norte-americana que escreveu a Freud acerca de seu filho, sem contudo afirmar de maneira clara que ele era homossexual. Freud responde à mãe do jovem, utilizando a seguinte explicação: Depreendi de sua carta que seu filho é homossexual. Fiquei mais impressionado pelo fato de que a senhora mesma não menciona esse termo em sua informação sobre ele. Posso perguntar por que o evita? A homossexualidade certamente não é uma vantagem, tampouco é algo de que se envergonhar, não é nenhum vício, nenhuma degradação, não pode ser classificada como doença; nós a consideramos uma variação da função 57 sexual produzida por uma detenção no desenvolvimento sexual. (FREUD, 1935, p. 349) Percebemos aqui, de forma clara, objetiva e direta, a opinião de Freud sobre a homossexualidade. Ele não a percebe como uma doença ou degeneração, conforme os sexólogos de seu tempo, nem como vergonha ou pecado, tal como preconiza o discurso religioso. Temos nessa carta a opinião de alguém que acredita na homossexualidade como uma forma de sexualidade resultante de uma fixação em determinado período do desenvolvimento psicossexual, ou seja, algo que não se trata de doença, mas de uma das mais diversas resoluções possíveis para o conflito existente no complexo de Édipo, influenciado ainda por um conjunto de outros fatores, tais como os que ele discutiu no caso da jovem homossexual (FREUD, 1920, 1976). Em relação à homossexualidade, quando se trata de uma das diversas formas de manifestação da sexualidade humana, a psicanálise produz um discurso não pela via da patologização dos sujeitos, mas sim como uma das diversas rotas possíveis para o desejo, uma vez que tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade devem ser pensadas tomando como referências os diversos moldes de expressão da libido. Dessa forma, na psicanálise, não se trabalha com a ideia de uma opção sexual, uma vez que a expressão “opção” é simplificadora, dado que a relação com a sexualidade no humano não se trata de processo de escolha. Tratando-se da etiologia da homossexualidade, os pesquisadores das mais diversas áreas não possuem um consenso sobre qual ou quais fatores determinam a orientação sexual humana. Porém, Zimerman (2004), enquanto médico, psiquiatra e psicanalista, desenvolveu um estudo no qual apresenta uma série de argumentos sobre os diversos fatores constitutivos da homossexualidade. Entre eles, podemos citar: 58 Tabela 1 – Alguns fatores etiológicos da homossexualidade Biológicos constitucionais Socioculturais familiares Fatores psicológicos Aspectos genéticos, orgânicos ou glandulares são alvo de análise. Efeitos condicionantes indiretos da cultura e dos códigos sociais e morais. Necessidades, desejos e fantasias inconscientes da criança vão determinar primitivos pontos de fixação conflitivos nos quais ela vai estacionar em seu desenvolvimento psicossexual, gerando pontos de fixação do desenvolvimento psicossexual. No entanto, compreende- se que tais fatores inatos têm uma participação mínima na determinação da homossexualidade Os padrões de sexualidade não são inatos (ZIMERMAN, 2004) Os padrões de sexualidade não são inatos, são criados e recebem forte influência da identificação dos filhos com os pais, bem como do discurso desses pais sobre a homossexualidade. Discurso da religião Papel da família e do contexto familiar Aspectos transgeracionais de conflitos edípicos não resolvidos dos pais serão necessariamente repetidos com os filhos As designações de papéis nas famílias O estabelecimento do gênero sexual, que difere da sexualidade, depende dos desejos inconscientes que os pais alimentam em relação aos seus filhos, quanto às suas expectativas e demandas em relação à conduta e ao comportamento do filho ou filha “Os pais não só determinam decisivamente o gênero sexual dos filhos como também pode acontecer que eles atuem a sua possível homossexualidade latente através de seu filho ou filha” (ZIMERMAN, 2004, p. 278) . Compreensão dos conflitos psíquicos resultantes das pulsões libidinais nas vivências e fantasias implícitas no conceito universal do complexo de Édipo Vertente edípica e narcísica dos fatores psicológicos da etiologia da homossexualidade. Fonte: adaptada de Zimerman (2004). 59 Tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade estão baseadas em um processo em que a identificação, a rota do desejo e as fantasias se articulam. O que conduz alguém a verificar a direção do seu desejo não se trata de uma opção ou de uma demarcação de escolha, seja ela genética, social ou psíquica. Logo, é impossível em psicanálise tratar a homossexualidade como patologia e propor a chamada “cura gay”. Conforme dito anteriormente, Freud, em 9 de abril de 1935 (FREUD, 1935), respondeu à carta da mãe de um jovem homossexual, que falou sobre seu filho sem explicitamente mencionar sua sexualidade. A resposta de Freud em formato de carta é um importante resumo da opinião do fundador da psicanálise sobre a homossexualidade humana. Freud inicia questionando essa mãe sobre o motivo de ela não ter declarado de forma explicita que o filho era homossexual. Temos, assim, uma provocativa de Freud em torno da moral sexual de seu tempo, quando ocultar a sexualidade não heteronormativa era o padrão. Entretanto, com seu posicionamento questionador e subversivo, ele abre o debate com a mãe do rapaz registrando que não há vergonha em afirmar a homossexualidade do filho e que inclusive grandes nomes da história foram homossexuais e não deixaram de ser importantes. Aqui, revela-se um importante aspecto da teoria freudiana em torno do seu posicionamento quanto à homossexualidade. Freud afirma que a homossexualidade não se trata de um vício ou degradação, opondo- se ao discurso religioso e médico higienista vigente em seu tempo. “É uma grande injustiça, e uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se ela fosse um crime” (FREUD, 1935). Mais uma vez, temos o pai da psicanálise reiterando seu posicionamento contra a criminalização da homossexualidade. É inconcebível criminalizar o desejo, pois, compreendendo a multideterminaçāo da homoafetividade, vários fatores interferem e corroboram a homossexualidade, tal como apresentado por Zimerman (2004). Com isso, não podemos generalizar ou atribuir respostas prontas para a sexualidade humana, uma vez que a manifestação do 60 sexual no humano é atravessada por nossos processos de subjetivação e de vivências libidinais. Portanto, não é coerente pensar em cura da homossexualidade, já que ela não constitui doença. Entretanto, Freud cita em seu texto o caso de uma jovem homossexual (FREUD, 1920, 1976) no qual é possível pensar em cura relacionada à homossexualidade, mas no contexto do homossexual egodistônico, ou seja, aquele que está em conflito com ele próprio, que não está bem com sua condição. Dessa forma, não estamos curando a homossexualidade em si, já que ela não constitui doença, como já afirmado, mas sim atuando com o sujeito e seu sofrimentopsíquico diante de sua sexualidade. Homoafetividade é, por conseguinte, uma posição como outra qualquer, diante de sua condição desejante. Freud utiliza os termos escolha objetal e escolha sexual. A escolha do objeto não é algo que os indivíduos podem controlar, pois tem a ver com a história do sujeito. Não há um critério moral, para Freud, em torno da sexualidade. No texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905, 1996), Freud estabelece uma discussão sobre o caráter polimorfo da sexualidade humana e afirma que ela não está apenas para a dimensão da reprodução, mas para toda e qualquer prática de prazer. Segundo Reitter (2021), uma intervenção psicanalítica não produz efeitos apenas no analisando, mas também e ao mesmo tempo na sua cultura. Para ele, “há uma violência teórica que contamina a atividade de escuta de todos os psicanalistas” (REITTER, 2021, p. 8). Dessa forma, é preciso estar alerta para que o discurso psicanalítico praticado não seja o repetidor de preconceitos ou de falas culturalmente e socialmente datadas. Antes, é necessário que o psicanalista esteja atento às questões de seu tempo e possa construir uma clínica que agregue “o respeito do Outro (A)alheio” (REITTER, 2021, p. 8). Ou seja, que agregue os outros que encontramos pelo caminho para além do modelo do grande Outro, que é o sujeito parental e que nos serve de molde para a vida. Reitter (2021), em sua obra Édipo Gay, expõe novamente as origens de uma 61 homofobia implícita na psicanálise. Compreender tal olhar homofóbico por parte do psicanalista é destacar que sua formação teórica se fundamenta de modo central no estudo do complexo Édipo e da castração, que se estabelece em bases naturalistas, binárias e fundadas, a princípio, em uma diferença sexual anatômica (presença e ausência do pênis na fase fálica). Reitter considera e problematiza, ainda, a influência de Lévi-Strauss e sua referência estruturalista para o pós-freudiano Lacan. Alerta a não subestimarem o papel que a normatividade social tem na subjetivação da sexualidade, desabonando de saída qualquer interpretação que tome as descobertas da psicanálise como se fossem impermeáveis a injunções sociais, culturais ou históricas. Ademais, pensar a homossexualidade feminina não se trata de compreender os caminhos pelos quais a menina mantém a mãe como seu objeto de investimento libidinal. Segundo Freud (1933), a alteração do objeto de desejo da mãe para o pai acontece ainda nas homossexuais femininas, muito embora possa parecer que as lésbicas seriam mulheres que se mantiveram fixadas à mãe desde a fase pré-edipiana. Isso não constitui verdade, de acordo com os achados clínicos de Freud (1933), pois essa transição da mãe como primeiro objeto de amor para o pai é o que insere a menina no complexo de Édipo. Em seguida, ela vivencia o processo edípico, e é lá que se estabelecerá sua orientação libidinal: se será o pai aquele que receberá seu amor, enquanto a mãe vai ser alvo do ódio nessa disputa; ou se ela, por algum motivo, investirá novamente na mãe com seu amor e afeto e sentirá ódio por seu pai. Não há uma resposta padrão para o que ocasiona essa virada de investimentos libidinais em que o pai deixaria de ser o objeto de amor da menina. Contudo, podem ocorrer complicações, que surgem quando a criança, em consequência da decepção com o pai, volta à ligação então abandonada com a mãe. Assim, a homossexualidade feminina para a psicanálise está no retorno à mãe como objeto de investimento libidinal. 62 4. Feminilidades e masculinidades Como distinguir homens e mulheres em suas experiências de masculinidade e feminilidade? No contexto por nós abordado, não se trata do binômio macho e fêmea, definido via cromossomos XX ou XY. Se aprendemos em psicanálise que a anatomia não é o destino, como podemos conceituar feminilidade ou masculinidade na área? Freud (1931, 2019) nos dá a dica de que não se trata de uma via biológica, pois, para a psicologia, é indiferente se no corpo há apenas uma substância que produz excitação ou se há duas, ou um número incontável delas. A psicanálise nos ensina a conceber uma única libido, que possui metas e modos de satisfação, sejam eles ativos ou passivos. Na menina, o estabelecimento da feminilidade trata-se de um processo mais complicado, que inclui uma mudança de objeto de investimento libidinal, bem como uma mudança de zona erógena. Em 1933, Freud publicou em novas conferências introdutórias o importante texto A Feminilidade. Para responder à pergunta “o que quer uma mulher?”, Freud pesquisou o tema da feminilidade por anos a fio. Porém, não alcançou a compreensão plena do continente negro que representa a sexualidade feminina. No final do importante texto, ele afirma que “se quiserem saber mais sobre a feminilidade, então perguntem às suas próprias experiências de vida, ou voltem-se para os poetas, ou esperem até que a ciência possa lhes dar informações mais profundas e mais bem articuladas” (FREUD, 1933, 2019, p. 341). Aqui cabe demarcarmos a diferença entre sexualidade feminina e feminilidade. Freud (1931, 2019) apresentou o desenvolvimento libidinal feminino através da descrição do seu complexo de Édipo e sua dissolução, bem como descreveu a relação da sexualidade feminina com a vivência da castração, argumentando que homens e mulheres apresentam formas diferentes de enfrentar a angústia de castração. 63 O primeiro objeto de amor do menino será também seu objeto de investimento libidinal no complexo de Édipo – a mãe. Em dado momento do complexo de Édipo, o menino sentirá medo de perder seu pênis para seu rival, o pai. Assim, visando preservar seu pênis, o menino cede à preservação de si através do narcisismo e renuncia a seu objeto de investimento libidinal, deixando de lado os sentimentos destrutivos dirigidos à figura paterna e, posteriormente, se identificando com seu pai, visando futuramente conquistar uma mulher semelhante à sua mãe. Na menina, contudo, o processo não acontece de forma tão simples, pois o seu primeiro objeto de investimento libidinal também é a mãe, uma vez que esta é a responsável pelas funções de apoio e amamentação e pelos cuidados com a higiene da criança. Dessa forma, a menina terá outro caminho para entrar no complexo de Édipo: através da descoberta da diferença sexual, ao perceber, quando vê um menino nu, que ela não possui o pênis e que o menino o possui. Assim, a garota irá desenvolver em relação a essa mãe sentimentos que outrora eram de amor, mas agora serão de ódio, por ela não tê-la feito com um pênis. Essa rivalidade fará com que a menina entre no complexo de Édipo através do movimento de buscar no pai o pênis que a mãe não lhe deu. O pai não dará o pênis para essa menina, e ela, então, mudará seu alvo, visando ter um bebê desse pai. Nesse período, ela descobre também que a mãe não possui o pênis, o que poderá resultar em uma depreciação do feminino e valorização do masculino. O pai será o responsável por frustrar as expectativas da menina e não lhe dará o bebê. Dessa forma, a menina, frustrada, aos poucos renunciará ao pai como objeto de investimento libidinal e buscará na fase genital superar a castração através da experiência da maternidade, na qual o bebê será, portanto, o símbolo fálico da mãe. Com o complexo de Édipo fica claro o processo complicado da menina, que deverá renunciar ao objeto de investimento de sua pré-história edípica. No texto A Feminilidade, aprendemos ainda com Sigmund Freud o papel primordial da libido: “só existe uma libido, que está a serviço tanto 64 da função sexual masculina como da feminina” (FREUD, 1933, 2019, p. 337). Assim, quando afirmamos a existência de uma feminilidade e masculinidade, é importante a compreensão de que nos referimos a um conjunto complexo de fatores que vão além das práticas sexuais dos sujeitos, uma vez que a libido se manifesta através de outros aspectos, para além da escolha do parceiro sexual. As performancesidentitárias de masculinidade e feminilidade não correspondem ao sexo biológico macho e fêmea. O pai da psicanálise destaca ainda o importante papel do fator social no processo de construção da feminilidade. Na base da experiência do feminino está o narcisismo, que faz com que a menina queira ser amada, considerando isso até mais importante do que amar, e para vencer a inveja do pênis, o feminino faria uso da vaidade como artifício de poder, uma vez que o pênis se configura como elemento para o símbolo do falo, que é representação de poder. 5. Considerações finais A prática clínica tem mostrado que todas as manifestações da sexualidade, mesmo as que possam parecer “desviantes”, traduzem a criação particular e única de cada sujeito, uma forma de “sobrevivência psíquica”, resultado da singularidade do trajeto psicossexual de cada um. Através da psicanálise freudiana, aprendemos que o estabelecimento da sexualidade heterossexual ou homossexual, da feminilidade ou da masculinidade, é um processo complexo e por vezes tortuoso, uma vez que envolve os modos de estabelecimento da libido ao longo do desenvolvimento psicossexual dos sujeitos. A psicanálise, quando trata da compreensão da feminilidade, determina, por exemplo, que não compete ao psicanalista compreender e explicar com exatidão o que a mulher é (FREUD, 1933, 2019): isso seria quase impossível. Cabe a ele, por conseguinte, pesquisar na teoria psicanalítica como ela se torna mulher, como se desenvolve a partir da criança dotada de disposição bissexual. Compreendendo os aspectos multifatoriais da sexualidade 65 humana e das identidades de gênero atuais, o discurso psicanalítico se firma como um dos múltiplos lugares de saber sobre a sexualidade e os modos de expressão dos sujeitos em termos de identidade sexual. Olhar para a construção de uma sexualidade humana para além da lógica fálica ou da inveja do pênis é um instrumento de transformação do lugar de homens e mulheres na sociedade, bem como flexibiliza o entendimento das diversas orientações sexuais, ao encontrar espaço para discursos científicos que contemplem processos de subjetivação humana agregadores da diversidade de forma integral, e não a partir da ideia da diferença ou do lugar do estranho. Não obstante, para isso, muitos passos ainda precisam ser dados. Jovens pesquisadores e psicanalistas contemporâneos têm contribuído fortemente para um saber local e situado, que possa incluir a dimensão do sujeito inconsciente e seu laço social em articulação com os modelos de gênero e sexualidade na contemporaneidade, mas que acrescente, porém, a ideia de um sujeito inconsciente que atravessa o individual e a cultura. Referências APA. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM. 2. ed. Washington, 1968. BULAMAH, L. C. História de uma regra não escrita: a proscrição da homossexualidade masculina no movimento psicanalítico. 2014. 166 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica)–Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/ tde-27052014-161424/publico/bulamah_me.pdf. Acesso em: 27 out. 2021. CECCARELLI, P. R. Psicanálise, sexo e gênero. Estud. Psicanal., Belo Horizonte, n. 48, p. 135-145, dez. 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372017000200014&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 3 ago. 2021. FORBES, J. Você quer o que deseja? 4. ed. São Paulo: Best Seller, 2004. FORBES, J. Psicanálise do Homem Desbussolado. Jorge Forbes, [s.l.], 26 de outubro de 2010. Disponível em: http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/psicanalise-do- homem-desbussolado-artigo-psique.html. 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VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. L. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1991. REITTER, J.N. Édipo Gay: Heteronormatividade e Psicanálise. São Paulo: Ed. Zagodoni, 2021, 160p. ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998. ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: Uma revisão. Porto Alegre: Artmed, 2004. 67 BONS ESTUDOS! A psicossexualidade na teoria freudiana Objetivos 1. O psicossexual na psicanálise: a polêmica da sexualidade na obra freudiana Referências Desenvolvimento psicossexual: do autoerotismo até a genitalidade Objetivos 1. Uma introdução sobre os deslocamentos libidinais 2. Fases do desenvolvimento psicossexual 3. Do autoerotismo à genitalidade 4. A curiosidade sexual infantil e sua importância Referências O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual Objetivos 1. O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual Referências Homossexualidades, masculinidades e feminilidades em Psicanálise Objetivos 1. Introdução 2. Estudos sobre sexualidade e gênero em psicanálise 3. Homossexualidades 4. Feminilidades e masculinidades 5. Considerações finais Referências