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 PSICOSSEXUALIDADE
2
Allyne Evellyn Freitas Gomes 
São Paulo 
Platos Soluções Educacionais S.A 
2023
 PSICOSSEXUALIDADE
1ª edição
3
2023
Platos Soluções Educacionais S.A
Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César
CEP: 01418-002— São Paulo — SP
Homepage: https://www.platosedu.com.br/
Diretor Presidente Platos Soluções Educacionais S.A 
Paulo de Tarso Pires de Moraes
Conselho Acadêmico
Carlos Roberto Pagani Junior
Camila Turchetti Bacan Gabiatti
Camila Braga de Oliveira Higa
Giani Vendramel de Oliveira
Gislaine Denisale Ferreira
Henrique Salustiano Silva
Mariana Gerardi Mello
Nirse Ruscheinsky Breternitz
Priscila Pereira Silva
Tayra Carolina Nascimento Aleixo
Coordenador
Camila Turchetti Bacan Gabiatti
Revisor
Cleber José Aló de Moraes
Editorial
Alessandra Cristina Fahl
Beatriz Meloni Montefusco
Carolina Yaly
Mariana de Campos Barroso
Paola Andressa Machado Leal
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________________ 
Gomes, Allyne Evellyn Freitas
G633f Psicossexualidade/ Allyne Evellyn Freitas Gomes, – São 
 Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A. 2021.
 44 p.
 
ISBN 978-65-89965-89-3
 1. Castração 2. Complexo 3. Pensamento I. Título. 
CDD 150.195
____________________________________________________________________________________________
Evelyn Moraes – CRB 010289/O
© 2023 por Platos Soluções Educacionais S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser 
reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, 
eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de 
sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, 
por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A.
4
SUMÁRIO
A psicossexualidade na teoria freudiana _____________________ 05
Desenvolvimento psicossexual: do autoerotismo até a 
genitalidade __________________________________________________ 19
O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual ___ 35
Homossexualidades, masculinidades e feminilidades em 
Psicanálise ___________________________________________________ 49
 PSICOSSEXUALIDADE
5
A psicossexualidade 
na teoria freudiana 
Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes 
Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes
Objetivos
• Introduzir o estatuto conceitual da psicossexualidade 
humana na teoria psicanalítica freudiana.
• Explanar a teoria das pulsões estabelecida por Freud 
e sua relação com as fases do desenvolvimento 
psicossexual do indivíduo.
• Apresentar as fases do desenvolvimento 
psicossexual do indivíduo, a partir da teoria 
psicanalítica. 
6
1. O psicossexual na psicanálise: a polêmica da 
sexualidade na obra freudiana
A teoria psicanalítica freudiana, após se estabelecer em 1900 com 
o seu mais importante livro de impacto, a obra Interpretação dos 
Sonhos (FREUD,1900, 1996), despertou o interesse da sociedade de 
Viena, bem como entre os intelectuais de seu tempo, por se propor 
a discutir um dos temas mais intrigantes da humanidade: os sonhos. 
Os estudos oníricos se destacam como uma temática atravessada 
por diversas áreas; a visão psicanalítica, com sua interpretação sobre 
o humano e suas manifestações, encontrará no sonho um caminho 
para compreender a manifestação dos desejos inconscientes, desejos 
esses também percebidos por Freud como causa dos adoecimentos 
conversivos de suas pacientes histéricas.
Os desejos inconscientes, uma vez recalcados, podem buscar retornar 
à consciência através das suas formas de manifestações: sonhos, atos 
falhos e chistes, ou sintomas físicos ou psíquicos. Freud percebeu 
isto em seus casos clínicos com as histéricas, publicados em Estudos 
Sobre Histeria, em parceria com seu amigo médico Breuer (BREUER; 
FREUD,1895 apud FREUD, 1990).
Nas histerias de conversão se expressavam os desejos reprimidos 
das mulheres da pudica sociedade vienense, a qual guardava em seus 
bastidores desejos proibidos, ódio, desejos sexuais, luxúria, inveja, nojo 
e toda ordem de comportamentos imorais considerados proibidos pela 
sociedade. Assim, nos bastidores de nossa mente, no inconsciente, 
bem como nos bastidores de uma sociedade, encontramos o imoral, 
o pulsional, aquilo que se impõe sobre o sujeito levando-o a suas 
manifestações mais pulsionais possíveis.
Através da análise do conteúdo revelado na hipnose e posteriormente 
na associação livre, o pai da psicanálise começou a compreender que 
7
suas pacientes sofriam de reminiscências, estabelecendo assim a célebre 
frase: “os neuróticos sofrem principalmente de reminiscências” (BREUER; 
FREUD, 1895 apud FREUD, 1990, p. 43).
As vivências traumáticas, os desejos proibidos e o corpo de tais 
mulheres produzem sintomas, pois a energia psíquica dos desejos e 
traumas recalcados está presa no inconsciente humano, buscando 
retornar à consciência. Na tentativa de vencer a barreira do recalque, 
os conteúdos recalcados conseguem passar parcialmente e realizar-
se de forma incompleta por meio de mecanismos substitutivos. 
Afinal, alcançar o prazer total é da ordem do impossível. Mas por que 
impossível?
Segundo Freud (1905, 1996), nossos atos, aqueles que nos escapam, 
dos quais não possuímos nenhum controle, têm origem em nosso 
inconsciente. Mas o que estimularia tais atos? Por que, em grande 
medida, eles estão relacionados às demandas sexuais? Para Sigmund 
Freud (1905, 1996), os nossos atos, além de serem determinados por 
processos inconscientes, têm um sentido, eles querem nos mostrar algo 
que não está evidente ao primeiro olhar.
Por falar em significados ocultos e que não se fazem evidentes 
à significação através do olhar, Freud encontrou nos sonhos 
manifestações diversas. Através do conteúdo manifesto dos sonhos 
e dos seus elementos constitutivos, foi traçado um processo de 
interpretação, entendendo que o conteúdo manifesto é na verdade 
substitutivo do conteúdo latente (FREUD, 1900,1996). Logo, o sonho, 
como ato, é o substituto de outros atos que não apareceram no cenário 
onírico de forma explícita, mas como metáfora e metonímias; porém, 
é possível perceber que o conteúdo latente dos sonhos tem uma 
significação semelhante à das conversões histéricas: a significação 
sexual. Mas por que, para Sigmund Freud, a sexualidade e suas 
manifestações são um dos pontos centrais da teoria psicanalítica? 
Vamos discutir um pouco sobre isso ao longo deste módulo.
8
1.1 A sexualidade no centro da teoria psicanalítica
Em grau de importância hierárquica, primeiramente temos o conceito 
de inconsciente como elemento central da teoria. A partir da hipótese 
do inconsciente, compreendemos que o eu não é senhor de sua própria 
casa (FREUD,1905), estando submetida sua consciência a uma outra 
parte, a saber, a parte inconsciente. Na sequência, entendendo que o 
homem e sua consciência estão no centro da constituição do sujeito, 
cabe perguntar: do que é composto nosso inconsciente? Por que ele 
existe? E qual a relação dele com a sexualidade humana?
Considerando a sociedade moralista de Viena, bem como as diversas 
repressões à sexualidade humana, Freud percebeu que na origem 
dos sintomas e das manifestações patológicas estão os conteúdos 
inconscientes. Ao se aproximar desses conteúdos, o pai da psicanálise 
se deparou com desejos sexuais proibidos, desejos de matar pai e mãe 
ou de com eles manter uma vida afetivo-sexual, um intenso desejo 
de saber sobre o sexo e sobre a origem dos bebês e, acima de tudo, o 
desejo de prazer a qualquer custo. Encontramos ainda as chamadas por 
Freud (BREUER; FREUD, 1895 apud FREUD, 1990) de aberrações sexuais: as 
perversões, os desvios da sexualidade de seu objeto inicial e as vivências 
sexuais parciais, fetichistas em partes do corpo, em ver e em ser visto.
Antes que o leitor possa presumir que o pai da psicanálise, por utilizar 
em seu texto o termo aberração sexual,era um moralista vienense, 
devemos esclarecer que, pelo contrário, temos em Freud um homem 
muito além de seu tempo, que escolheu afastar-se do saber exclusivo e 
hegemônico da medicina para abrir espaço à palavra e à escuta de suas 
pacientes histéricas, ouvindo assim corpos sintomáticos por desejar, 
corpos que falavam por mulheres que não podiam falar, não poderiam 
ter prazer e não eram consideradas importantes para a sociedade.
Em Freud compreenderemos, por exemplo, que a homossexualidade 
não é doença nem desonra, e que notáveis homens da história 
9
mantiveram práticas de desejo homossexuais. Encontraremos em um 
dos seus célebres textos, não publicado em suas obras completas, 
o psicanalista respondendo à mãe de um jovem homossexual. 
Confrontando-a, Freud afirmou que nas meias verdades da carta estava 
implícito que seu filho era gay e que ela desejava que ele o curasse, algo 
que de pronto o pai da psicanálise recusou, e ainda estabeleceu diálogo 
com a mãe, afirmando que:
Minha Querida Senhora. Lendo sua carta, deduzo que seu filho é 
homossexual. Chamou a minha atenção o fato de a senhora não 
mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. 
Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a 
homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto também 
não existe motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício 
nem degradação alguma. Não pode ser qualificada como uma doença, 
e nós a consideramos com uma variante de função sexual, produto de 
certa interrupção no desenvolvimento sexual [...] é uma grande injustiça 
e também uma crueldade perseguir a homossexuais como se estivessem 
cometidos um delito. (FREUD, 1935 apud IANINNI, 2019, p. 19)
Aqui já percebemos claramente que, para a teoria psicanalítica, as 
orientações sexuais nada mais são do que formas variantes da função 
sexual, fruto das nossas resoluções do complexo de Édipo, e que tais 
práticas sexuais têm relação como a liberdade da pulsão sexual de 
se dirigir para qualquer objeto, seja ele do mesmo sexo ou do sexo 
oposto. Logo, para Freud, somos todos, em termos pulsionais, pessoas 
bissexuais, uma vez que as pulsões sexuais humanas não têm de forma 
definida um objeto de desejo específico e delimitado, podendo assim a 
sexualidade humana apresentar variações diversas ao longo da vida.
Respondendo, ainda, sobre a possibilidade de atender o jovem 
homossexual, ele diz:
A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho, se ele estiver 
experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos 
10
e inibição em relação a sua vida social poderá lhe proporcionar 
tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de 
continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição. (FREUD, 1935 
apud IANINNI, 2019, p. 20
Desta forma, percebemos que a psicanálise não se propõe a julgar 
ou normatizar as práticas sexuais, os desejos e as manifestações que 
se apresentam ao longo do desenvolvimento psicossexual. A visão 
freudiana é de que a Psicanálise confere o termo “sexual” a tudo aquilo 
que se refere à condição de manutenção da vida e prazer, nas mais 
diversas interações humanas. Assim, Freud compreende a sexualidade 
como questão central da teoria e sua articulação com o conceito de 
inconsciente, além de suas manifestações pulsionais e a relação das 
pulsões humanas com as manifestações sexuais.
Abordaremos ao longo desta disciplina os conceitos de instinto, pulsão e 
libido, articulados com as fases do desenvolvimento psicossexual e suas 
manifestações, bem como o posicionamento de investimento libidinal 
e possíveis fixações, exemplificando as implicações na vida adulta 
resultantes das fixações em determinadas etapas do desenvolvimento 
psicossexual.
1.2 Pulsões e psicossexualidade na teoria freudiana
O sujeito freudiano é sustentado na concepção de sujeito do 
inconsciente. O inconsciente para Freud trata-se de uma instância 
psíquica, não localizável em nenhuma parte da anatomia corporal. A 
instância psíquica inconsciente apresenta-se, assim, como uma hipótese, 
já que não se trata de um objeto palpável e mensurável, como o objeto 
das ciências naturais. No inconsciente está a sede das pulsões humanas: 
a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Thanatos).
Cabe à pulsão de vida a condição de promover a autoconservação 
do sujeito, de movê-lo para desejar e vivenciar o princípio do prazer. 
11
Posteriormente, ao estudar o fenômeno do sadomasoquismo, quando 
pôde perceber que existe a presença do prazer sexual em práticas que 
envolvem dor e sofrimento, Freud estabeleceu na segunda teoria das 
pulsões a chamada pulsão de morte. Para ele, tudo que é vivo tende 
ao estado inativo. Toda tensão que move, que visa à unificação do 
investimento de energia libidinal do indivíduo (pulsão de vida), tende a 
ser expurgada, realizada e esgotada, ou seja, voltada à descatexização, 
visando assim ao estado de aniquilamento dessa tensão (pulsão de 
morte).
Em nosso inconsciente encontramos a força motriz da vida, chamada 
por Freud de libido. Ela está relacionada com nossa pulsão de vida. Na 
primeira teoria pulsional, Freud estabeleceu a existência de dois tipos de 
pulsões: as pulsões de autoconservação, também chamadas de pulsões 
do ego, e a pulsão sexual, em que encontramos as catexias pulsionais, 
ou seja, parte do investimento das energias do psiquismo, que podem 
estar ligadas a um objeto, a uma ideia ou à própria pessoa. Tais energias 
têm relação com nossas pulsões, nossas necessidades e demandas.
As pulsões humanas destinadas à sexualidade têm por objetivo a 
conservação da espécie. Contudo, para Freud, a sexualidade humana 
não tem como objetivo final apenas a reprodução da espécie, assim 
como acontece com os animais. Para a psicanálise, o homem apresenta 
enquanto ser a condição de não ter instintos que o impulsionariam 
a reproduzir, conforme acontece no mundo animal. O sujeito da 
psicanálise é um ser pulsional, capaz de desejar. Para Freud, a pulsão 
representa aquilo que está entre o psíquico e o somático, fazendo 
uma ligação entre ambos na constituição da noção de sujeito e nos 
diferenciando do comportamento animal que se dá por meio de 
instintos.
Sabemos que o sujeito da psicanálise freudiana é composto por um 
inconsciente habitado por desejos e pulsões, visando à autopreservação 
12
(pulsões do ego) e à realização do prazer (pulsão sexual). Porém, quais 
são as formas possíveis de prazer?
1.3 Fases do desenvolvimento psicossexual
Observando o desenvolvimento humano, é possível perceber que o 
sujeito ao nascer apresenta um conjunto de necessidades, e para o 
suprimento delas ele precisará lançar mão de um outro, que cumprirá as 
chamadas funções maternas.
São consideradas funções maternas aquelas que garantem a sobrevivência 
e conservação do bebê: alimentação, higiene, segurança e sono. Nessa 
relação inicial de satisfazer as necessidades de seu bebê, a mãe vai aos 
poucos revestindo essa relação de afeto, de desejo, atribuindo nome às 
interações com o bebê, às partes do corpo, conversando, tocando. Esses 
primeiros contatos afetivos fazem com que as regiões do corpo da criança 
ativadas durante o período dos cuidados de suas necessidades sejam 
reconhecidas também como regiões de prazer.
Vejamos um exemplo: a criança, ao se alimentar, reconhece conforto no 
calor do seio de sua mãe. Na sensação de dormir sobre essa pele, de sugar 
a região do seio materno, a criança irá repetir o movimento de prazer 
inicial vivenciado durante seus primeiros momentos de amamentação/
alimentação.
Seja uma mãe, um pai, um avô ou outra pessoa o responsável por manter 
a criança alimentada e construir nesse processo interações afetivas de 
investimento de desejo e cuidado com a criança, esse indivíduo está 
favorecendo o aparecimento de seu desejo inconsciente relacionado à fase 
oral, em que a zona erógena, ou seja, a região de prazer e exploração do 
meio, será a boca.
Na fase oral, o ato de sugar passa a ser o foco de prazer, e nãoapenas de 
satisfação da necessidade de se alimentar. Esse prazer, contudo, não é da 
13
ordem sexual, genital, implicando em desejo de vivências sexuais com a 
função materna. Antes, o movimento da fase oral consiste em reconhecer 
o próprio corpo em sua região de alimentação – a boca – como uma área 
favorável ao prazer. Portanto, o foco da pulsão nesse caso não seria o 
objeto de investimento de desejo – os seios da mãe –, mas sim a repetição 
da sensação de prazer, em que a criança reconhece o próprio corpo como 
passível de prazer.
Desta forma, a criança não passará a ter desejos eróticos pela mãe já na 
amamentação, como comentam os críticos da psicanálise. O bebê irá 
reconhecer, através do autoerotismo presente em si, que seu corpo é capaz 
de lhe proporcionar prazer por meio das chamadas zonas erógenas. A 
exploração de cada uma dessas zonas como região primordial de prazer 
não implica na eliminação da anterior. Cada período, porém, irá priorizar 
determinada zona erógena, que surge relacionada às satisfações das 
necessidades da criança. Teremos, assim, algumas fases pelas quais a 
criança passa em seu desenvolvimento psicossexual:
• Fase oral.
• Fase anal.
• Fase fálica (na qual ocorre o complexo de Édipo).
• Período de latência.
• Fase genital.
Na sua primeira fase de vida, a criança vincula-se a sua mãe ou a seus 
cuidadores com a finalidade de conseguir alimentar-se e receber a 
sensação prazerosa obtida no primeiro contato, ampliando as pulsões de 
vida. Cabe relembrar que o primeiro momento da amamentação é o mais 
prazeroso em termos de fase oral da vida de um sujeito. Assim, a boca 
passa a fazer parte do repertório do corpo desse bebê, que irá utilizar 
esse corpo para além de se alimentar: ele será um meio de sentir prazer 
14
autoerótico, ou seja, prazer consigo mesmo na descoberta do seu corpo. 
Aqui não há intencionalidade, pensamento ou desejo inconsciente por um 
outro. Trata-se apenas da criança reconhecendo quem ela é, quais partes 
compõem seu corpo, e realizando assim seu desenvolvimento psicossexual.
Através de alguns movimentos típicos, como o ato de chupar a chupeta, 
uma criança sublima a ausência do seio materno, recriando na chupeta 
a necessidade de sugar para sentir o prazer. Nessa fase inicial, é comum 
episódios de gritos e mordidas, pois a criança entenderá que seu canal de 
prazer e controle do mundo é a oralidade. O envolvimento da mãe com o 
bebê, em frequência exacerbada, pode ser danoso para ambos, pois esse 
momento inicial da vida se torna uma experiência de fusão entre mãe e 
bebê. Não existe ainda em nível psíquico a representação de quem é o 
bebê. Assim, se faz necessária uma separação gradual dessa criança, para 
que ela possa construir seu ego, seu eu consciente e inconsciente.
A criança não se reconhece. Ela acredita que é parte do corpo da mãe e 
que a mãe é parte de seu corpo, afinal, com ela o eu infantil tem sensações 
diferentes e vive suas primeiras experiências de prazer e segurança. 
No entanto, com o passar dos meses, essa criança precisa ampliar seu 
movimento de reconhecimento de mundo e, assim, ir aos poucos se 
separando dessa imago maternal. Portanto, mãe e filho serão barrados, 
interditados, passará a existir nessa relação uma terceira pessoa, que 
tradicionalmente é chamada de figura paterna ou, como nos apresenta 
Lacan, o Nome do Pai.
Para que o filho bebê se perceba capaz de crescer sozinho aos poucos, sem 
a sua mãe, e lançar mão dela apenas se for extremamente necessário, a 
criança vai sendo direcionada para a escolinha e para a sociedade, graças à 
interdição estabelecida pela lei do nome do pai, ou seja, de um outro, que 
barra essa sensação de suposta unificação na relação mãe e filho.
Em um primeiro momento, a criança irá desenvolver várias atitudes de 
fusão, idealização e simbiose com a figura materna, sendo necessária 
15
essa separação inicial para que a criança possa emergir como um sujeito 
independente da função materna e vivenciar suas pulsões e desejos.
Posteriormente, a descoberta da oralidade como região principal de prazer 
permite ao bebê humano começar a perceber que consegue controlar 
seu movimento de reter e soltar as fezes, e que esse controle também lhe 
proporciona sensações de prazer e poder. Assim, essa nova fase passa a 
se chamar fase anal. Na fase anal, a criança entende que suas fezes são 
uma espécie de presente, de que ela pode se utilizar para gratificar ou não 
os seus pais. Por que presente? Porque as fezes são a primeira produção 
humana do recém-nascido. Tal produção, paralelamente, será relacionada 
ao dinheiro no adulto, e as possíveis fixações e traumas estabelecidos na 
fase anal terão implicações na psicologia econômica do sujeito adulto. 
Nessa fase, existe por parte da criança um desejo de tocar em suas fezes. 
Para auxiliá-la a sublimar, desviar esse desejo, os pais e professores podem 
ofertar massa de modelar como elemento de sublimação.
Após a fase anal, surge a terceira fase do desenvolvimento psicossexual, 
a fase fálica. Neste período, o que se estabelece é o reconhecimento na 
criança da existência da diferença sexual, ou seja, da presença ou não de 
pênis no corpo. Para Freud, o órgão masculino destaca-se então como 
o que definirá a diferença sexual. Aquele que o possui será o menino e 
aquele que não o possui será a menina. Marcada pela falta do pênis, Freud 
estabelece para a psique feminina o conceito de inveja do pênis, em que a 
menina não aceitaria não ter o órgão que é o representante simbólico do 
falo (poder), cabendo a ela resolver tal inveja na fase adulta, ao dar à luz a 
um filho, e este filho simbolicamente passa a ser o falo da mãe.
Para o menino, a fase fálica é marcada por um sentimento chamado de 
angústia de castração. Ao descobrir a diferença entre os sexos e perceber 
que a menina não tem o pênis, o menino começa então a temer perder o 
seu, acreditando que a menina tinha um pênis, mas o perdeu. Desta forma, 
a angústia de castração se estabelece na criança do sexo masculino.
16
No período da fase fálica, encontramos um importante momento do 
desenvolvimento psicossexual, chamado por Freud de complexo de 
Édipo. Baseado na mitologia, Freud estabelece uma analogia para o 
comportamento da criança, que nesse período tende a tomar a figura 
parental do sexo oposto como objeto de desejo sexual, e assim rivalizar 
com a figura do mesmo sexo. Temendo, porém, nessa rivalidade, passar 
pela experiência da castração, o menino aceita a lei paterna que o interdita 
de sua mãe; entretanto, imita o pai, para quem sabe futuramente ele 
próprio ter uma mãe.
Aqui foi apresentada, apenas de modo muito breve, a descrição do Édipo 
positivo. No módulo relacionado ao complexo de Édipo, iremos estudá-
lo em sua forma invertida e compreender por que a saída do Édipo é 
considerada um momento de estabelecimento da sexualidade do sujeito, 
bem como da sua estruturação psíquica, a depender de como essa criança 
vivenciou a experiência da castração.
Por hora, é preciso apenas entender a existência do complexo de Édipo 
como núcleo marcante da fase fálica e o quanto este período é importante 
para o desenvolvimento psicossexual humano, demandando assim um 
gasto de energia psíquica para: compreender a diferença entre os sexos, 
estabelecer relações de afetos ambivalentes de amor e ódio para com as 
figuras parentais, enfrentar a angústia de castração e construir assim uma 
estruturação psíquica saudável.
Para dar conta desse gasto excessivo de energia psíquica ou pulsional, a 
fase seguinte é o chamado período de latência, um intervalo em que as 
conquistas dos prazeres das três fases anteriores seguem existindo; porém, 
no período de latência, toda vivência das pulsões e o investimento libidinal 
serão depositados na cultura, no processo educacional e na socialização da 
criança.
Com o passar dos anos, a entrada na experiência da puberdade dá início à 
fase genital, em que a libido não é apenas direcionada para o sujeito, mas 
17
simpara o outro. Os outros externos passam a ser objetos de investimento 
libidinal. Desta forma, o jovem rompe com os investimentos libidinais 
familiares excessivos e vai para o social. Dá-se início ao período chamado 
de adolescência. A fase genital segue pela vida adulta até a velhice, pois a 
pulsão e a libido não têm idade; então, os seres humanos são capazes de 
ter experiências de prazer, vivências libidinais e pulsionais ao longo de toda 
a sua vida. Por isso dizemos que o inconsciente é atemporal. Para a libido, o 
limite do corpo e do tempo não se impõe sobre a questão do desejo, sendo 
possível a sexualidade existir enquanto experiência também na pessoa 
idosa, a partir de movimentos de ressignificação da relação com o corpo e 
com o que os sujeitos entendem por prazer.
Fechando este primeiro módulo, destacamos que cada período do 
desenvolvimento psicossexual não elimina o anterior. As experiências 
autoeróticas da fase oral, fase anal e fase fálica permanecem na fase 
genital. Fixar-se em cada uma dessas fases pode trazer implicações 
para o desenvolvimento dos sujeitos. São exemplos de fixação: fase 
oral – transtornos alimentares, obesidade, alcoolismo, fumo; fase anal 
– necessidade obsessiva de controle, relação difícil com a retenção de 
dinheiro.
Estudando o desenvolvimento psicossexual, Freud diz que o psiquismo 
tem três dimensões: econômica, dinâmica e tópica. As pulsões dizem 
respeito à dimensão econômica; os desejos, à dimensão dinâmica; e 
o inconsciente, à dimensão tópica. A sexualidade permeia todas essas 
dimensões. Não necessariamente a sexualidade genital reprodutiva, mas a 
sexualidade enquanto experiências de prazer. Entendemos ainda que cada 
fase do desenvolvimento psicossexual surge amparada nas necessidades 
biológicas de alimentação (fase oral), de liberação das fezes (fase anal), de 
manipulação dos genitais (fase fálica) e da vivência da sexualidade genital 
na relação com os outros (fase genital). Compreendemos que nosso 
inconsciente tem como princípio fundamental a busca do prazer; logo, toda 
vida humana tem como referência o princípio do prazer. Este prazer pode 
ser alcançado através das satisfações das necessidades e da criação de 
18
desejos e vivências de desejos, em que as energias psíquicas, ou catexias, 
são direcionadas para determinados objetos a fim de com eles vivenciar a 
realização do prazer, que nunca se dá por completo, mas sempre de forma 
parcial, para que o sujeito siga desejando.
A pulsão de vida depende do desejo do sujeito de satisfazer as tensões que 
ele recebe do meio, e ao satisfazer parcialmente essas tensões surgirão 
novas. Sendo assim, cabe ao homem a exploração da vivência do princípio 
do prazer, seja consigo mesmo, com seu corpo autoerótico, seja com os 
outros, com as realizações de desejo externo com os outros e com os 
objetos do meio que o cerca, mantendo assim sua pulsão de vida ativa até 
que a pulsão de morte um dia se sobressaia, pois tudo que é vivo se finda, 
tudo que pulsa para, mas o inconsciente atemporal, bem... este não cansará 
de desejar.
Referências
BREUER, J.; FREUD, S. Estudos sobre a histeria. 1895. In: FREUD, S. Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. II. Rio de 
Janeiro: Imago, 1990. p. 15-297.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. 1900. In: Edição Standard Brasileira das 
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 
1996.
FREUD, S. Pulsões e seus destinos. 1915. In: Edição Standard Brasileira das Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora, 
1996.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: 
Imago Editora, 1996.
IANINNI, G. Caro Dr. Freud: Resposta do século XXI a uma carta sobre 
homossexualidade. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019.
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Desenvolvimento psicossexual: do 
autoerotismo até a genitalidade
Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes 
Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes
Objetivos
• Descrever o processo de desenvolvimento 
psicossexual ao longo do desenvolvimento do 
sujeito. 
• Apresentar o conceito de autoerotismo e como ele 
se constitui no desenvolvimento psicossexual.
• Explicitar o surgimento da curiosidade sexual 
infantil, sua importância para a cultura, bem como 
suas repercussões no desenvolvimento psicossexual 
e na aprendizagem.
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1. Uma introdução sobre os deslocamentos 
libidinais
As obras Interpretação dos Sonhos (FREUD, 1900) e Os Três Ensaios sobre 
a Teoria da Sexualidade (FREUD, 1905, 1996) sem dúvida se destacam 
como as mais significativas e impactantes da teoria psicanalítica para 
a sociedade. Em Interpretação dos Sonhos, Freud nos apresenta a 
possibilidade de interpretação dos mistérios oníricos e como os sonhos 
representam a realização de desejos inconscientes ou a reelaboração 
de experiências traumáticas, através dos sonhos de angústia, mais 
conhecidos como pesadelos. Após a Interpretação dos Sonhos, Freud 
publica Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, desafiando a moral 
sexual de sua época. Ele apresenta e prova a existência da sexualidade 
infantil ao afirmar que a criança é um ser dotado de sexualidade. O pai 
da psicanálise problematiza o discurso moralista vigente em sua época, 
que trata a criança como um ser puro que não possui sexualidade.
Ele compreendeu ainda que a nossa sociedade se estabelece à medida 
que, enquanto crianças, os sujeitos renunciam parcialmente à sua 
pulsão sexual, transformando-a em uma pulsão de saber, contribuindo 
assim para a cultura, para a produtividade social e para educação. 
As práticas pedagógicas e a educação buscam estabelecer a moral 
civilizatória, em que a renúncia ao sexual seja realizada, cada vez mais, 
em prol do desenvolvimento social e cultural.
Nos tempos de Freud, a sexualidade era destinada primordialmente 
à reprodução, e não à busca do prazer. Contudo, Freud (1905, 1996) 
demonstra que as aberrações sexuais, por desviarem do objeto sexual 
e se satisfazerem de forma parcial, não consistem em anomalias ou 
perversões, como eram chamadas. Antes, elas são uma das diversas 
formas de manifestação sexual no humano, uma vez que a sexualidade 
humana assume, como veremos, diversas formas ao longo do 
desenvolvimento psicossexual.
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Aqui, aprenderemos que o pai da psicanálise confronta a moral civilizada 
cristã, em que a dimensão do prazer deve ser renunciada. Percebemos 
no texto Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905, 1996) 
que a pulsão sexual se faz presente desde os primórdios da vida do 
sujeito, impulsionando-o para a repetição de experiências prazerosas. 
Experiências de prazer não estão inicialmente relacionadas ao ato 
sexual, mas sim à descoberta do prazer através do próprio corpo, e isto 
Freud chama de autoerotismo. Essa descoberta se dará por meio da 
exploração corporal, no movimento de satisfazer as necessidades do 
bebê e na relação de cuidados existente entre a pessoa que os exerce e 
a criança.
Compreenderemos que o prazer, portanto, não está localizado apenas 
na sexualidade enquanto ato sexual, genital, coito entre duas pessoas. 
Aprenderemos ainda que, para a psicanálise, somos sujeitos dotados 
de sexualidade desde nossa mais tenra infância, e essa evolução 
psicossexual é gradual, desde o autoerotismo (período em que a criança 
começa a reconhecer os prazeres que seu corpo pode ofertar) até o 
prazer genital (quando o outro passa a ser o objeto de investimento de 
libido).
2. Fases do desenvolvimento psicossexual
Para compreender o porquê de Freud (1905, 1996) atribuir centralidade 
à sexualidade para descrever o desenvolvimento humano, precisamos 
pensar que ele não resume esse desenvolvimento a aspectos e aptidões 
físicas, tampouco apenas ao psíquico de forma isolada. Freud, ao 
descrever a libido como a força motriz do humano, estabelece que 
os seres são movidos por pulsões. O pai da psicanálise,inicialmente, 
determina duas importantes pulsões: a pulsão de autoconservação e 
as pulsões sexuais. Considerando que a pulsão está entre o psíquico e 
o somático, o desenvolvimento psicossexual se dará entre a mente e o 
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corpo; ou seja, as vivências sexuais estarão apoiadas nas necessidades 
fundamentais do ser, e a esse aspecto damos o nome de teoria de 
apoio. Assim, entre o corpo e a mente, a libido vai se deslocando desde 
o autoerotismo até a genitalidade plena. Esse deslocamento acontece 
à medida que o sujeito vai vivenciando suas necessidades e sentindo 
prazer nessas primeiras vivências, estabelecendo assim as regiões do 
corpo que serão denominadas zonas erógenas. Para Freud (1905, 1996), 
qualquer parte da pele ou mucosa em certos tipos de estimulação 
provocará sensações de prazer, as quais o indivíduo buscará repetir, 
fixando assim aquela área do corpo como uma região de satisfação.
As primeiras experiências de prazer são autoeróticas, uma vez que o 
indivíduo toma a si mesmo como objeto de prazer e de investimento de 
libido. Freud nos apresenta um exemplo clássico de autoerotismo, que 
seria a repetição da amamentação através do chuchar, que acontece 
na fase oral. Muitas mães se utilizam, em sua ausência, da famosa 
chupeta, para que os filhos não chorem. Por alguma razão, aquele 
objeto de plástico, que não tem função vital alguma, representa motivo 
de prazer para o bebê a ponto de ele parar de chorar. Inclusive, o apego 
a esse utensílio é tal que muitas crianças mantêm o uso da chupeta 
por vários anos de sua infância. Algumas substituem a utilização da 
chupeta pelo gesto de chupar o dedo, por ser mais cômodo, tornando-se 
independente, assim, do meio externo para obter prazer, e instaurando 
nesse dedo uma segunda zona erógena. Para Freud (1905, 1996), 
essa fixação da boca como zona erógena levará posteriormente, na 
fase genital, à busca, em outras pessoas, dessa parte correspondente, 
os lábios. Porém, nem todas as crianças vivenciam a experiência de 
chupar chupeta ou dedo; seria isso uma manifestação de ausência de 
autoerotismo? Não, pois o prazer se dará nas vivências posteriores 
envolvendo oralidade, como comer e morder. Freud destaca ainda 
que pessoas que apresentam fixação nessa zona erógena, a saber, 
a fase oral, posteriormente tenderão ao alcoolismo e tabagismo, e 
algumas sentirão nojo de comida e produzirão vez ou outra vômitos 
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histéricos. Ele afirma ainda que muitas de suas pacientes com distúrbios 
alimentares, problemas na garganta e vômitos foram, na infância, 
adeptas do chuchar (FREUD, 1905, 1996).
Essas representações da chupeta e do dedo nada mais são que 
objetos substitutivos de uma experiência anterior de prazer para a 
criança – no caso, a amamentação. Vivenciando a fase oral por meio 
da amamentação, o indivíduo consegue aliviar as tensões internas 
provocadas em seu corpo pela fome. Eliminada a tensão, se instaurará 
uma vivência de prazer. Freud (1905, 1996) explicita que, desde o 
nascimento, o bebê vai se deparar com momentos de desprazer 
provocados externamente ou internamente. Fatores externos são 
mudanças de temperatura, barulho, desconforto pela forma como se 
está deitado ou apoiado, entre outros modos de contato com o meio 
externo, e o desprazer provocado internamente ocorre, por exemplo, 
nos casos de fome, sono, dor e sede; sensações essas que a criança não 
reconhece e que vão ganhando significado e interpretação na relação 
com a pessoa que lhe fornece os primeiros cuidados e que nomeia tais 
sensações para o bebê.
Confrontos com os infortúnios dos meios externo e interno provocarão 
na criança aquilo que denominamos princípio de realidade. Ou seja, 
a vivência de buscar o prazer a qualquer custo e evitar o desprazer 
acabará por fazer necessário equilibrar as demandas do meio externo 
e as necessidades internas. Quando o princípio de realidade se impõe 
na relação do bebê com a mãe, nos momentos em que esta não pode 
estar presente para amamentá-lo na hora que ele precisa, ou para 
ofertar o seio e o corpo quentinho que lhe proporcionam, através da 
zona erógena pele, também uma experiência de prazer pelo contato, 
acolhimento vivenciado na amamentação (seja ela no seio ou por 
mamadeira), vão se criando experiências em que o bebê registra a 
ausência do cuidado externo, implementando ainda mais o princípio 
da realidade. É fato que essas primeiras experiências de alimentação 
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promovem no bebê um registro psíquico de satisfação. Após esse 
registro, a criança buscará repetir tais experiências.
Freud destaca que “a necessidade de repetir a satisfação sexual dissocia-
se então da necessidade de absorção de alimento” (FREUD, 1905, 1996, 
p. 171). Percebemos que as necessidades básicas de autoconservação 
da criança servem de apoio para as experiências de prazer, que 
gradualmente serão desvinculadas dessas necessidades e garantir sua 
independência.
Além da fase oral, o desenvolvimento psicossexual está constituído 
em mais fases: fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. 
A classificação e nomeação de tais fases está relacionada à parte do 
corpo que primordialmente se estabelece como região de investimento 
libidinal no sujeito, consolidando-se como a zona erógena principal.
Até aqui percebemos que a boca, apoiada na necessidade de 
alimentação, se constitui como a primeira fase do desenvolvimento 
psicossexual, a chamada fase oral, um período em que a criança 
vivencia o prazer através do sugar, que está relacionado à repetição 
do movimento da amamentação. Uma fixação nesse período costuma 
resultar em um sujeito adulto com patologias, tais como: obesidade, 
alcoolismo, tabagismo e transtornos alimentares.
Essas patologias se estabelecerão, uma vez que o sujeito retorna à 
fase oral por ter sido um período de intensas gratificações e prazeres 
ou devido a experiências traumáticas que visam ser elaboradas. Por 
exemplo, um paciente pré-bariátrica informou em entrevista avaliativa 
que sempre foi obeso e expôs essa questão do peso, contando a 
história de quando era bebê e sua mãe não o amamentou; mas, para 
evitar que ele sentisse fome e ficasse chorando, ela lhe dava um litro 
de mamadeira em cada refeição, ou seja, esse um litro de mamadeira 
não visava apenas à nutrição do bebê, dada a quantidade excessiva. 
Visava também apaziguar a angústia da mãe por não ter leite materno 
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e revelava o desejo dela de que a criança não chorasse e não desse 
trabalho por um longo período. Assim, estando excessivamente 
alimentada, a criança dormia bastante e de estômago cheio, e isso 
trazia a tranquilidade que a mãe buscou, resultando, porém, em uma 
experiência de fixação da fase oral que prevalece até a atualidade na 
forma de obesidade mórbida, a ponto de o rapaz pesar mais de 140 kg.
Em seguida, temos a fase anal, que, assim como a fase oral, está 
apoiada em outras funções corporais. Os distúrbios intestinais 
vivenciados na infância, bem como o controle dos excrementos, são 
a base para as sensações de prazer que a criança vivenciará e, assim, 
buscará repetir posteriormente. As crianças que retêm as fezes acabam 
passando por períodos de fortes contrações musculares, e eliminar a 
matéria fecal, na passagem pelo ânus, pode provocar uma sensação 
de estímulo intensa na mucosa, conforme nos explica Freud (1905, 
1996). Destacamos que nessa fase serão produzidas as relações entre 
prazer e desprazer, entre reter e soltar, entre tentativas de controle 
e de gratificação. A fixação nessa etapa resultará posteriormente 
em implicações nas questões de controle e de gratificação, e em 
experiências de vivências patológicas relativas à fase anal (por exemplo, 
hemorroidas). Uma paciente, que foi acompanhada durante muito 
tempo, se queixava de que toda vez que tinha problemas, causados por 
estresse em geral, apresentava crises de hemorroidas. Era perceptível 
a fixação dela na fase anal. Na infância, a relação com as fezes envolve 
ainda a dinâmica entre mãe e filho, uma vez que obebê é referenciado 
por Freud (1905, 1996) como o primeiro “presente”, e ao se desfazer 
disso, demonstra afeição pelos cuidadores. Esse período ainda é 
caracterizado pela transição da fralda para o uso do “penico”, sendo, 
portanto, um período de adaptação da criança em relação a essa 
normativa social de um local específico para depositar as fezes.
Já na fase fálica, a problemática se desloca das questões anais para 
ser concentrada na presença ou ausência do pênis e nas diferenças 
sexuais. Por não reconhecer ainda a diferença entre os sexos, a criança 
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tem na castração um saber ignorado ou negado. Nesse período, um 
único tipo de órgão é reconhecido: o pênis no menino. A menina toma 
conhecimento de que não tem pênis, e o menino, posteriormente, 
também toma conhecimento dessa ausência na menina. Logo, o menino 
imagina que a menina tinha pênis e o perdeu, estabelecendo-se assim 
no menino a noção de diferença sexual e a angústia de castração. Já 
a menina compreende a diferença sexual ao perceber que não tem 
o pênis, e nesse momento se estabelece a chamada inveja do pênis. 
Inicialmente, conforme nos apresenta Nasio (2007), a menina deseja que 
seu pai lhe dê um pênis, e depois esse órgão é transformado, em termos 
de significado, no desejo de ter um bebê. Tal desejo ocorre no complexo 
de Édipo feminino.
Nessa fase ocorre o período denominado complexo de Édipo. Segundo 
Freud (1916, 1996), o Édipo se refere:
A lenda grega do rei Édipo, que foi determinada pelo destino a matar 
seu pai e tomar sua mãe por sua esposa, que fez tudo para escapar da 
sentença do oráculo, e que depois se pune cegando-se após descobrir que 
cometeu esses dois crimes sem sabê-lo. (FREUD, 1916, 1996, p. 224)
Tomando como referência a mitologia para descrever as relações entre 
pais e filhos, Freud (1916, 1996) diz que se trata de um período em que 
o menino quer ter a mãe só para ele e sente a presença paterna como 
incômoda, ficando indignado quando o pai faz carinho na mãe; ao 
mesmo tempo, demonstra verdadeira satisfação quando o pai viaja e ele 
pode ficar com a mãe só para si. É importante considerar, contudo, que 
Freud nos orienta ao afirmar que a mesma criança dá grandes mostras 
de ternura por esse mesmo pai, com o qual rivaliza pela mãe, assumindo 
assim posturas afetivas contraditórias ambivalentes. Na menina, o 
Édipo, segundo Freud (1916, 1996), ocorre da seguinte forma: uma 
ligação carinhosa com o pai, a necessidade de eliminar a mãe e assumir 
seu lugar, e recorrer às características de feminilidade para imitar a mãe 
e ter o pai só para si.
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O menino entra no complexo de Édipo ao perceber que a menina foi 
castrada. Então, ele desenvolve a angústia de castração, medo de perder 
seu pênis, e o ódio que era dirigido à figura parental do mesmo sexo 
se transformará em identificação. Portanto, a angústia da castração 
propicia ao menino a saída do complexo de Édipo, período em que 
meninos e meninas vivenciam a experiência de investimentos libidinais e 
de amor e ódio dirigidos às suas figuras parentais.
Posteriormente ao Édipo, a libido passará por um período que 
chamamos de latência. Ao sair do Édipo, a criança (independentemente 
do sexo) recalca seus desejos sexuais pelos progenitores, deslocando 
essa energia libidinal para o mundo externo, para a aprendizagem e 
para a socialização.
As energias que prevalecem no período de latência serão aquelas que 
impulsionarão a aprendizagem de leitura e escrita, a descoberta sobre o 
mundo e o domínio do meio, proporcionando à criança o prazer por ler, 
escrever, pesquisar e viajar, descobrindo realidades, objetos e lugares 
novos e dominando o mundo à sua volta.
Na fase genital, temos uma configuração libidinal inédita, em que 
os investimentos libidinais, impulsionados apoiados na necessidade, 
“buscavam um certo tipo de prazer com alvo exclusivo” (FREUD, 1905, 
p. 196). Agora na puberdade, “as zonas erógenas subordinam-se 
ao primado da zona genital” (FREUD, 1905, p. 196). O autoerotismo 
permanece nas experiências de masturbação, porém o foco está na 
zona genital, e o alvo sexual passa a ser um outro, externo ao indivíduo.
3. Do autoerotismo à genitalidade
Freud (1905, 1996), em seu livro Os Três Ensaios sobre a Teoria da 
Sexualidade, nos apresenta o conceito de autoerotismo. Para ele, o 
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autoerotismo busca um prazer já vivenciado e agora relembrado. Para 
Roudinesco (1998), autoerotismo significa:
Autoerotismo al. Autoerotismos; esp. Autoerotismo; fr. autoerotismo; 
ing. autoerotismo Termo proposto por Havelock Ellis* e retomado por 
Sigmund Freud* para designar um comportamento sexual de tipo infantil, 
em virtude do qual o sujeito encontra prazer unicamente com seu próprio 
corpo, sem recorrer a qualquer objeto externo. (ROUDINESCO, 1998, p. 46)
Já para Laplanche e Pontalis (1991), autoerotismo é:
A) Em sentido amplo, característica de um comportamento sexual em 
que o sujeito obtém a satisfação recorrendo unicamente ao seu próprio 
corpo, sem objeto exterior: neste sentido, a masturbação é considerada 
como comportamento autoerótico. B) De um modo mais específico, 
característico de um comportamento sexual infantil precoce pelo qual 
uma pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação 
de uma zona erógena, encontra a sua satisfação no local, isto é: 1. sem 
recorrer a um objeto exterior; 2. sem referência a uma imagem do 
corpo unificada, a um primeiro esboço do ego, tal como ele caracteriza o 
narcisismo. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 68)
Faz-se necessário, antes de dialogarmos com tal conceito, referenciar 
o narcisismo, para assim explicitar a diferença entre ambos, pois se 
trata de movimentos em que o sujeito investe e vivencia prazer no seu 
próprio corpo, sem a necessidade de um objeto exterior. Os conceitos 
ora se confundem e podem promover dificuldades de compreensão do 
processo de investimento libidinal do sujeito em seu desenvolvimento 
psicossexual. Para Laplanche e Pontalis (1991), narcisismo é:
Por referência ao mito de Narciso, é o amor pela imagem de si mesmo. 
(LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 308)
Freud a propor — no Caso Schreber, 1911 — a existência de uma fase da 
evolução sexual intermediária entre o autoerotismo e o amor de objeto. 
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“Sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como objeto 
de amor”. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1991, p. 308)
Numa perspectiva genética, podemos conceber a constituição do ego 
como unidade psíquica, correlativamente à constituição do esquema 
corporal. Podemos ainda pensar que tal unidade é precipitada por 
uma determinada imagem que o sujeito adquire de si mesmo segundo 
o modelo do outro, e que é precisamente o ego. O narcisismo seria a 
captação amorosa do sujeito por essa imagem. (LAPLANCHE; PONTALIS, 
1991, p. 309)
Ambos os conceitos tratam de experiências, de vivências prazerosas, em 
que o indivíduo independe da presença de outros para sua satisfação. 
Contudo, no primeiro momento do desenvolvimento do indivíduo, 
prevalecerá o autoerotismo, uma vez que o ego da criança está em 
seu processo de construção na relação com esses outros da cultura, 
especialmente a mãe. As primeiras experiências de frustração e falta 
da mãe (cabe salientar que nos referimos à figura de referência de 
cuidado, e não à mãe necessariamente biológica) são essenciais para 
que a criança perceba que, nessa ausência, ela precisará lançar mão de 
outros recursos para que suas necessidades primitivas sejam atendidas. 
Desta forma, com a ausência materna, a criança vivencia experiências de 
confronto com a realidade.
A criança, enquanto sujeito dotado de sexualidade e voltado para a 
satisfação do prazer, aos poucos vai, através do contato com a realidade 
e suas frustrações, começar a construir um ego primitivo, que se 
desenvolverá diferenciando-se da sua região destinada exclusivamente 
ao prazer, ao longo das etapas do desenvolvimento psíquico do 
sujeito. Então, somente após a existência de um ego com algum grau 
de estruturação é que onarcisismo, enquanto experiências de amor 
ao eu e prazer consigo mesmo, será possível. É importante perceber 
que o autoerotismo não deixa de existir, permanecendo relacionado 
às primeiras experiências de descoberta das zonas erógenas e de 
exploração do próprio corpo.
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4. A curiosidade sexual infantil e sua 
importância
Freud, em 1905, nos explica que dos três aos cinco anos se inicia 
na criança a chamada pulsão de saber, imersa nas investigações 
sexuais que a criança faz sobre a origem de sua vida e do mundo. Tais 
investigações representam um direcionamento da libido infantil para 
a compreensão do mundo à sua volta; porém, a pulsão de saber é 
intensamente atraída pelos problemas sexuais. As crianças buscam, 
assim, conhecimentos práticos, respostas diretas, especialmente para 
a pergunta: de onde vêm os bebês? Freud esclarece, ainda em 1905, 
que as crianças estabelecem as chamadas teorias do nascimento, 
que na idade adulta não são mais lembradas, uma vez que elas foram 
recalcadas.
Posteriormente, em seu texto Sobre as Teorias Sexuais das Crianças 
(FREUD, 1907, 1996), o pai da psicanálise responde ao médico Moritz 
Furst sobre a importância do esclarecimento sexual das crianças. Assim, 
ele delimita três importantes perguntas para apresentar a discussão:
1. Devemos esclarecer às crianças os fatos da vida sexual?
2. Em que idade eles devem receber tais informações?
3. De que forma essas informações sobre o sexual devem ser 
transmitidas às crianças?
Em sua resposta, Freud (1907, 1996) argumenta que as crianças já 
sabem, de alguma maneira, sobre a vida sexual e já produzem suas 
teorias acerca da sexualidade, conforme consta nos Três Ensaios sobre a 
Teoria da Sexualidade (FREUD, 1905, 1996). Desse modo, a justificativa de 
pais e professores quanto a não apresentar a temática da sexualidade 
na primeira infância por medo de despertar uma sexualidade precoce é, 
na verdade, uma teoria fadada ao erro, uma vez que as crianças, desde 
seu primeiro ano de vida, vivenciam experiências da ordem do sexual, 
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na medida em que estabelecem relações de prazer na satisfação de suas 
primeiras necessidades.
Os pais e professores buscam de todas as maneiras manter as crianças 
longe dos esclarecimentos sexuais, o que, segundo Freud (1905, 1996), 
é uma tarefa impossível, uma vez que, através de livros, de outras 
crianças e de suas experiências pessoais, elas terão acesso a diversas 
informações. Contudo, esse encobrimento de informações pode levar 
as crianças, ao se tornarem futuros jovens, a julgar tudo o que é da 
ordem do sexual como inferior e abominável. Cabe salientar que, após a 
publicação dos Três Ensaios, no texto Sobre as Teorias Sexuais das Crianças 
(1907, 1996), Freud destaca que:
De fato, pensa-se que falta às crianças a pulsão sexual e que ela só se 
instala na puberdade com a maturação dos órgãos sexuais. Isso é um 
erro grosseiro, que traz graves consequências tanto para o conhecimento 
como para a práxis [...] na verdade, ao vir ao mundo, o recém-nascido 
traz sexualidade consigo; certas sensações sexuais acompanham o seu 
desenvolvimento durante o aleitamento e a infância, e de apenas poucas 
crianças podem passar despercebidas certas atividades e sensações 
sexuais antes de sua puberdade. (FREUD, 1907, 1996, p. 83-84)
Aqui temos Freud reafirmando seus argumentos apresentados em 
1905 sobre a sexualidade infantil, declarando que as pulsões sexuais 
estão presentes desde o início do desenvolvimento, já que cada fase 
do desenvolvimento psicossexual é registrada no sujeito a partir de 
sua relação com seu investimento libidinal no próprio corpo, ou seja, 
com o autoerotismo, que, por sua vez, surge apoiado nas experiências 
de satisfação das necessidades, como amamentação, evacuação, entre 
outras. A libido, então, se relaciona com as satisfações e desliza entre 
as diversas zonas erógenas do sujeito. Inicialmente, temos a fase de 
um forte autoerotismo. Segundo Freud (1907, 1996), o autoerotismo 
consiste na satisfação do prazer através do próprio corpo, por meio da 
excitação de diversas zonas erógenas, de acordo com a ação de várias 
pulsões biológicas. Para Freud, então:
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A criança, muito antes de alcançada a puberdade, já é capaz da maioria 
das operações psíquicas da vida amorosa (da ternura, da entrega e dos 
ciúmes), e, com bastante frequência, a irrupção desses estados anímicos 
também se estende às sensações corporais de excitação sexual. (FREUD, 
1907, 1996, p. 84)
Desta forma, as crianças, muito antes da puberdade, se apresentam 
aptas a amar. Com exceção da capacidade de reprodução, as demais 
capacidades psicossexuais, bem como o domínio intelectual das 
realizações, estão psiquicamente preparadas e somaticamente 
organizadas (FREUD, 1907, 1996). No mesmo período em que se 
descobrem como fonte de prazer, as crianças começam a se questionar 
sobre a origem dos bebês. Freud anunciava essa discussão em 1907, 
e na atualidade os pais e educadores ainda apresentam dificuldades 
para conversar de forma clara com seus filhos sobre sexualidade. É 
preciso respeitar o desejo de saber da criança, de modo que ela não seja 
submetida a uma vivência traumática.
Para Freud (1907, 1996), as teorias sexuais infantis devem ser coletadas 
e examinadas, e pais e professores podem conversar com as crianças 
sobre a sexualidade. É necessário que o sexual seja tratado da mesma 
maneira que outros assuntos dignos de conhecimento. Uma importante 
via sugerida por Freud se dá a partir de estudos comparativos entre o 
homem como animal, espécie humana, e os demais animais, a fim de 
que, por meio dessa analogia, cada criança, pela via do seu aprendizado, 
encontre suas respostas. É importante que os pais saibam alimentar a 
justa medida dessa curiosidade, pois “a curiosidade da criança nunca 
chegará a um alto grau se ela encontrar a satisfação correspondente em 
cada etapa do aprendizado (FREUD, 1907, 1996, p. 89).
Percebemos então que, para Freud (1905, 1996), as preocupações 
com a busca de saber sobre a origem dos bebês estão na gênese da 
construção do processo de inteligência e aprendizagem humana. Cabe 
lembrar que essa pulsão no período genital ainda permanece, embora 
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na fase genital o outro seja o objeto de direcionamento da libido. 
Mas, como uma fase não elimina a outra, elas se sobrepõem na vida 
adulta: a curiosidade e o desejo de estudar que existiam no período da 
curiosidade sexual infantil permanecem, mas agora impulsionados por 
outras questões. Pais e mães devem se apropriar desses conhecimentos 
e saber manejar, na relação com as crianças, essa curiosidade que se 
instaura, para que uma resposta inadequada ou uma postura mais 
agressiva por parte dos genitores não possa despertar uma fixação 
nesse período, comprometendo o processo posterior de aprendizagem.
Entender a sexualidade implica ainda passear pelas fases psicossexuais 
do desenvolvimento e pelo complexo de Édipo, até a sua dissolução, 
compreendendo assim a estrutura psíquica que se estabelece após 
o Édipo e o quanto a conclusão desse período é estruturante para o 
entendimento da sexualidade do sujeito. Em cada etapa do processo 
de desenvolvimento psicossexual, o direcionamento libidinal tomará 
diversos caminhos, pois a pulsão é uma força constante, que não tem 
objeto definido e não cessa de se inscrever. Então, ela vai deslizando 
do indivíduo, em seu autoerotismo e nas suas figuras parentais, 
para a cultura, até finalmente encontrar no outro a experiência de 
investimento libidinal, no período genital, completando então o ciclo do 
desenvolvimento psicossexual.
Referências
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Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Sobre as teorias sexuais das crianças. 1907. In: Edição Standard 
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 
1996.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard 
Brasileiradas Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 
1996.
34
FREUD, S. Obras completas, volume 4: A interpretação dos sonhos (1900). São 
Paulo: Companhia das Letras, 2019.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. L. Vocabulário de Psicanálise. Tradução de Pedro 
Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
NASIO, J.-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2007. 
ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 
1998.
35
O complexo de Édipo e o 
desenvolvimento psicossexual 
Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes 
Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes
Objetivos
• Esclarecer a importância, o valor e a função do 
complexo de Édipo para o desenvolvimento 
psicossexual humano.
• Delinear as diferenças entre o complexo de Édipo 
feminino e o complexo de Édipo masculino. 
• Descrever a importância do complexo de Édipo 
como vivência que orienta a constituição da 
estrutura da personalidade.
• Elencar as principais manifestações sexuais da 
puberdade descritas na obra freudiana. 
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1. O complexo de Édipo e o desenvolvimento 
psicossexual
O termo complexo de Édipo aparece pela primeira vez na obra freudiana 
em uma carta a Fliess, de 15 de outubro de 1897, chamada carta 71, na 
qual Freud formula a hipótese de que todos nós um dia vivenciamos um 
Édipo em potencial na fantasia:
Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar 
por mamãe e ter ciúmes de papai, e agora o considero um acontecimento 
universal do início da infância [...]. Se assim for, podemos entender o 
poder de atração de Oedipus Rex, a despeito de todas as objeções que a 
razão levanta contra a suposição do destino [...] a lenda grega capta uma 
compulsão que todos reconhecem, pois cada um pressente sua existência 
em si mesmo. Cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial 
na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho 
ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que 
separa seu estado infantil do estado atual. (FREUD, 1897, 1996, p. 273)
Baseado na análise dos seus próprios sonhos, bem como nos estudos da 
mitologia grega através do mito de Édipo Rei, criado por Sófocles, Freud 
relata aspectos do dualismo afetivo presente entre a criança e seus pais 
ou representantes das figuras paternas. Desta forma, as experiências 
de amor e ódio, a admiração e identificação com uma das figuras 
parentais e a disputa com a outra, bem como a interdição necessária, 
são localizadas nesse período, citado por Freud como o centro do 
desenvolvimento psicossexual infantil: “em extensão sempre crescente, 
o complexo de Édipo revela sua importância como fenômeno central do 
período sexual da primeira infância” (FREUD, 1924, 1996, p. 217).
No período edípico, situado na fase fálica, temos o estabelecimento 
da base estrutural do psiquismo, bem como as bases identificatórias 
dos papéis de gênero e das questões relacionadas à orientação sexual. 
Cabe frisar, porém, que nesse período não falamos em determinação 
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da orientação sexual ou da identidade de gênero, mas localizamos aqui 
a importância da resolução edípica como um momento relevante no 
desenvolvimento psicossexual no que diz respeito à compreensão de 
tais aspectos. É preciso sempre ter em mente que a sexualidade humana 
é polimorfa, que a pulsão sexual não possui objeto pré-determinado e 
que qualquer parte do corpo humano pode se estabelecer como zona 
erógena. Assim, não podemos falar em determinantes quando nos 
referimos à sexualidade humana, e as perguntas que surgem sobre a 
origem da homo e da heterossexualidade não poderão ser respondidas 
de forma taxativa pela psicanálise. Antes, a psicanálise se propõe a 
compreender os processos de investimento libidinal e da constituição 
psíquica dos sujeitos, tomando como referência a dimensão do 
inconsciente e de seu processo de estruturação.
Para Freud, a forma como cada pessoa resolve sua conflitiva edípica 
determinará sua personalidade e estabelecerá as bases da sexualidade 
adulta do sujeito, a partir das identificações sexuais e do objeto 
de investimento de libido escolhido. Ao longo desse tema, vamos 
compreender as origens do termo complexo de Édipo e descrever seu 
curso, desde o início até o seu declínio. Assim, compreenderemos que o 
período edípico não ocorre da mesma maneira para meninos e meninas.
Nasio (2007), condizente com a tradição freudiana, afirma que o 
complexo de Édipo é uma experiência da qual “ninguém escapa”, 
uma vez que é nela que os sujeitos direcionarão sua libido para 
objetos externos e vivenciarão experiências afetivas de amor e ódio, 
saindo assim de uma vivência autoerótica para alcançar o ápice do 
desenvolvimento psicossexual com a experiência da genitalidade. Ao 
mencionarmos objeto de investimento de libido, devemos compreender 
que, em psicanálise, o termo objeto tem múltiplos significados.
Segundo Laplanche e Pontalis (2001), em psicanálise, objeto pode 
designar qualquer coisa ou pessoa com características fixas, e que, 
portanto, são reconhecidas por todos, não dependendo das opiniões 
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singulares. Porém, objeto pode também ser o sujeito que será alvo de 
sentimentos de amor e ódio. O objeto de amor ou objeto de ódio é 
uma relação com a pessoa total, em que a pessoa ou entidade estaria 
relacionada com o adjetivo correspondente. O termo objetal pode 
ser utilizado como um adjetivo para caracterizar, por exemplo, um 
tipo de relação em que um outro ser ou o próprio sujeito é o alvo da 
libido. Na fase genital, o sujeito tomará outras pessoas para vivenciar 
o amor objetal. Temos ainda o termo objeto como aquilo que está 
relacionado à pulsão, sendo alvo desta, ou seja, as pulsões sexuais, de 
autoconservação, de vida e de morte se dirigem a um determinado 
objeto, que será, portanto, o alvo dessa energia pulsional.
Mas você deve estar se perguntando: qual é a importância, na prática 
profissional, de conhecer detalhadamente cada fase do desenvolvimento 
psicossexual humano e, em especial, o período chamado de complexo 
de Édipo? Através de tal complexo e com o sentimento de incompletude 
que se instaura na sua dissolução, o sujeito precisará aprender a 
conviver com seus limites, suas dificuldades, suas perdas, com as 
interdições relativas ao que ele deseja e com os lutos de uma maneira 
geral. Viver o luto da interdição do incesto é aceitar a condição da 
castração, admitir que em alguma medida somos seres incompletos, 
faltosos, e que aquela experiência de unidade vivenciada com a mãe no 
início do desenvolvimento psicossexual, aquela sensação de fusão com 
esse outro no qual nada falta, será constantemente buscada em nível 
inconsciente, porém nunca encontrada, e assim instaura-se o ser para 
a falta. E como ser que tem faltas, ele é capaz de desejar, e ao desejar, 
existe uma tentativa inconsciente de que a relação com esse outro possa 
dar conta de fazer suplência à falta estruturante que carregamos em 
cada um de nós. É graças à existência dessa falta oriunda do complexo 
de Édipo que a pessoa se insere em um mundo de incompletude, e é 
apenas nessa incompletude que o amor pode verdadeiramente brotar.
Para compreender e realizar intervenções profissionais a partir de 
temas como sexualidade e estruturas da personalidade humana, se 
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faz necessário que o profissional tenha conhecimento de como ocorre 
a entrada dos meninos e das meninas no complexo de Édipo, quais 
sentimentos são vivenciados nesse período e como se dá sua saída. Assim, 
ele compreenderá o processo de direcionamento da libido na puberdade e 
suas posteriores consequências na fase adulta. É necessário ainda que pais, 
professores e profissionais de saúde e educação como um todo possam 
entender as dinâmicas da sexualidade na infância, em suas diversas fases, 
de modo a proporcionar as melhores condições para o desenvolvimento e 
a proteção das crianças, compreendendo que sexualidade é sim tema para 
ser debatido na infância esabendo das possíveis implicações futuras desse 
processo de desenvolvimento psicossexual. Vamos juntos nesse desafio de 
conhecer o complexo de Édipo?
1.1 O complexo de Édipo e seu papel orientador na 
constituição do psiquismo
Na contemporaneidade, diversos alunos questionam: qual é 
a pertinência de estudar o complexo de Édipo? Não seria esse 
conhecimento uma filosofia datada, de tempo e período específicos, já 
que na atualidade compreendemos as diversas modalidades de família? 
Não temos nos dias de hoje apenas a existência das famílias nucleares 
formadas por pai, mãe e filhos, assim como na sociedade vienense de 
Freud. Quando Freud estabeleceu o conceito de complexo de Édipo, 
tomando como base a análise dos seus sonhos e de sua relação com 
suas figuras parentais e analisando o texto do Édipo Rei (tragédia 
grega representada pela primeira vez possivelmente em 430 a.C.), 
obra produzida por Sófocles, ele trouxe para a psicanálise elementos 
da mitologia grega a fim de explicar as relações familiares de amor e 
ódio, as quais, segundo o psicanalista, são vivências universais. Como é 
possível a existência da vivência edípica em nosso tempo? Quais papéis 
esse período destaca em nossa formação psíquica? Mas, e depois do 
Édipo, o que acontece com a sexualidade? Essas e outras questões são 
extremamente necessárias e pertinentes.
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Freud (1905) formalizou o complexo de Édipo como um período 
que ocorre na fase fálica do desenvolvimento psicossexual. Logo, tal 
complexo não constitui uma fase do desenvolvimento, mas um período 
durante uma das fases. A nomenclatura “complexo” era, segundo 
Roudinesco e Plon (1998), utilizada essencialmente por Carl Gustav Jung, 
para designar fragmentos de personalidade ou grupos de conteúdo 
psíquico separados do consciente e que têm um funcionamento 
autônomo no inconsciente, de onde podem exercer influência sobre 
o consciente. Conforme a psicanalista (ROUDINESCO; PLON, 1998), 
nas diversas escolas psicoterapêuticas existem mais de 50 tipos de 
complexos. Ela afirma que, na terminologia freudiana, essa palavra é 
associada apenas a dois conjuntos de representações inconscientes 
na vida psíquica do sujeito: o complexo de Édipo e o complexo de 
castração. O complexo de Édipo tem como implicações: as experiências 
de sentimentos ambivalentes vivenciadas pelas crianças; a castração 
oriunda de não poder conquistar seu objeto de amor, que lhe será 
interditado; e a transformação de ódio e interdição em identificação, 
uma vez que, através desse processo de identificação, o sujeito 
construirá referências para sua identidade de gênero e orientação 
sexual, compreendendo seus modos de amar e desejar.
Em sua forma positiva, que é colocada em cena pela tragédia de Édipo 
Rei, o complexo de Édipo se estabelece como o desejo sexual pela 
mãe e o desejo assassino pelo pai, o rival. Anos depois, ao aprofundar 
a discussão sobre tal complexo, Freud (1923) estabeleceu a forma 
negativa, denominada Édipo invertido ou “Édipo feminino” do menino: 
o desejo erótico pelo pai e o ódio ciumento à mãe. Finalmente, sob sua 
forma completa, o complexo de Édipo designa o conjunto das relações 
que a criança estabelece com as figuras parentais e que constituem 
uma rede, em grande parte, inconsciente de representações e de afetos 
entre os dois polos de suas formas positiva e negativa. O Édipo invertido 
ou negativo (mais usado que Édipo feminino) surge apenas nos textos 
41
de Freud na segunda tópica, O Ego e o Id (FREUD, 1923), indicando que 
ambas as formas são vividas por todas as crianças.
O conceito de complexo de Édipo perpassa toda a obra freudiana. Freud 
afirma que a universalidade dos desejos edipianos ocorre na diversidade 
das culturas e dos tempos históricos. Para ele, todo ser humano se vê 
diante da tarefa de superar o complexo de Édipo (FREUD, 1897,1996). 
Porém, a elaboração deste conceito se deu na obra freudiana de forma 
gradual e cheia de contradições. Foram necessários muitos anos para que 
o complexo de Édipo se tornasse um conceito fundamental da psicanálise 
(1920-1925), não sendo apenas o “complexo nuclear das neuroses”, mas 
também o momento decisivo em que culmina a sexualidade infantil e no 
qual se decide o futuro da sexualidade e da personalidade adultas.
Freud, em 1924, ao apresentar a dissolução do complexo de Édipo, tornou 
possível perceber a relação entre o complexo de Édipo e o complexo de 
castração. Ao interiorizar a castração dos dois desejos edipianos (o incesto 
materno e a morte do pai), o indivíduo abre, portanto, o acesso à cultura 
pela submissão e identificação com a figura paterna, aquele que regula, 
o portador da lei. Com esse destaque para a figura paterna, é possível 
perceber que é em torno do modelo masculino que Freud elabora sua 
teoria da sexualidade, através do processo de ausência ou presença 
do falo. Mas como Freud resolve a questão da sexualidade feminina? 
De início, afirma simplesmente uma equivalência em simetria inversa. 
Posteriormente, ele se aprofunda e apresenta detalhamentos sobre a 
construção da feminilidade (1976), reiterando assim a concepção de que a 
anatomia não é o destino.
A partir disso, o conflito edipiano foi definitivamente situado entre três 
e cinco anos de idade, no momento da fase fálica, quando um só órgão 
sexual é reconhecido pelas crianças dos dois sexos: o pênis, que classifica 
seres humanos em fálicos e castrados. Então, instaura-se uma dissimetria 
entre o desenvolvimento psicossexual do menino e da menina: o menino 
sai do complexo de Édipo pela angústia da castração, e nele o supereu é o 
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herdeiro desse complexo por meio da interiorização da interdição paterna. 
A menina ingressa no Édipo pela descoberta de sua castração e inveja do 
pênis, e o supereu se constitui com dificuldade nela, que tem de se desfazer 
do pai como objeto de seu desejo, sendo o percurso de tornar-se mulher 
obscuro e complicado. Freud acaba por declarar que “é apenas o menino 
que se estabelece essa relação, que marca seu destino, entre o amor por 
um dos pais e, simultaneamente, o ódio ao outro como rival” (LAPLANCHE e 
PONTALIS, 2001, p. 81-82).
Na obra Totem e Tabu, Freud (1913) estabelece um mito com explicação 
científica, o da horda primitiva. No mito em questão, existia um pai, 
senhor de todas as mulheres e todo poderoso, que barrava os filhos 
de se aproximarem dessas mulheres. Os filhos, insatisfeitos com o 
poder absoluto do pai, se juntaram e o mataram, e cada um comeu 
um pedaço dele, para que metaforicamente simbolizasse que o poder 
agora pertencia a todos, e não mais a apenas um. Porém, após matarem 
o pai, eles se sentiram culpados e com medo, e, ao mesmo tempo, 
incorporaram o poder que receberam do pai através da refeição que 
fizeram na partilha do corpo. Esse grande pai morto simboliza, assim, 
entre eles, que é necessário o estabelecimento de limites, que todos 
têm direito ao exercício da sexualidade, porém com respeito às regras. 
Ou seja, para viver em sociedade, se fazem necessárias as renúncias em 
prol de um pacto maior de não violência. A experiência edipiana está 
presente em Totem e Tabu, uma vez que ela se organiza em torno da 
relação com o pai e da relação entre proibição e desejo. O texto Totem e 
Tabu é citado ainda em referência à construção da cultura e à renúncia 
à condição de animalidade da humanidade, sendo preciso impor limites 
ao princípio do prazer para conseguir viver bem com os demais.
A vivência do complexo de Édipo se manifestará em sua forma positiva 
ou negativa no período da fase fálica, em que ocorre a descoberta 
da diferença sexual. Além dessa descoberta, com o fim do Édipo e a 
posterior entrada na puberdade, fase em que o investimento libidinal 
se desloca do sujeito para outra pessoa, instaura-se a genitalizaçāo. 
43
Existem várias formas de reagir à resolução do complexo de Édipo, 
constituindo assim as estruturas da personalidade que se articulam de 
acordo com os mecanismos de defesa.
Na tirinha anterior, percebemosque o garoto aparenta ser um pouco mais 
velho, devido à sua altura. Ele possivelmente já está na fase genital, uma vez 
que dirige para Ana sua libido, desejando namorar com ela. Ana, porém, 
afirma que prefere namorar o pai. O humor da tirinha está justamente no 
fato de que o jovem garoto toma a fala de Ana como um exagero, quando 
ela diz que não quer namorar com ele; já Ana, ao afirmar que quer namorar 
o pai, está falando no sentido literal, uma vez que ela ainda está vivenciando 
o complexo de Édipo e sua libido está direcionada para a figura paterna.
Nasio (2007) propõe um modelo explicativo para o complexo de Édipo 
feminino:
Quadro 1 – Modelo do Édipo feminino
 
"Tenho quatro anos. Sinto excitações clitoridianas → Tenho o Falo, tenho 
orgulho dele e julgo-me onipotente → Assim como um menino, desejo 
possuir minha mãe → Na frente de um garotinho nu, descubro que não 
tenho Falo → Sofro por ser privada dele → Constato que minha mãe também 
é desprovida dele → Critico-a por ter-me feito acreditar que ambas o 
tínhamos → Logo, ela me enganou → Despeitada, abandono minha mãe → 
Agora sinto-me sozinha e humilhada. Estou ferida em meu amor-próprio e 
invejo o menino → Volto-me agora para o meu pai, grande detentor do Falo 
→ Sempre ciumenta e invejosa, peco-lhe que me dê o Falo → Ele me recusa 
o Falo → Constato que nunca o terei → Peço a meu pai para me consolar → 
Minha inveja transformou-se em desejo. Não quero mais ter o Falo do meu 
pai, quero sê-lo; quero ser a favorita do meu pai → Então identifico-me com 
minha mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade → Desejo 
ser possuída pelo meu pai → Meu pai se recusa → Dessexualizo meu pai, 
mas incorporo sua pessoa → Pouco a pouco torno-me mulher e me abro para 
o homem amado → Paro de medir meu sexo pela régua de um mítico Falo e 
descubro a vagina, o útero e o desejo de ter um filho do meu companheiro." 
 
Fonte: adaptado de Nasio (2007).
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O modelo adaptado do complexo de Édipo feminino, apresentado na 
Figura 4 a partir de Nasio (2007), estabelece que, no início do complexo 
de Édipo, no período pré-edipiano, a menina não sabe da existência 
da vagina e acredita que possui o pênis: ela se percebe, então, como 
um menino. Posteriormente, ao ver o menino nu, ela descobre que é 
castrada. É importante observarmos que as constatações da castração e 
da diferença sexual acontecem simultaneamente.
A castração coloca a menina no Édipo; já para o menino, a ameaça de 
castração demarca o fim do complexo de Édipo e o direcionamento 
pelo período de latência, no qual a libido será inibida em seus aspectos 
genitais e sublimada através dos investimentos socialmente valorizados, 
como educação, artes e cultura.
1.2 As vivências psicossexuais na puberdade
O complexo de Édipo oferece à criança duas possibilidades de 
satisfação, uma ativa e outra passiva. Em sua manifestação ativa, a 
criança poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, 
e ter relações com a mãe, como tinha o pai; em sua forma passiva, o 
menino deve assumir o lugar da mãe e ser amado pelo pai, caso em que 
a mãe se tornaria supérflua. Segundo Freud (1924, 1996), a aceitação da 
possibilidade de castração e o reconhecimento de que as mulheres são 
castradas punham fim às duas maneiras possíveis de obter satisfação 
do complexo de Édipo, uma vez que ambas acarretavam a perda de seu 
pênis: a masculina como uma punição resultante e a feminina como 
precondição.
Segundo Souza (2006):
[Se a satisfação do amor no] complexo de Édipo deve custar à criança o 
pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nessa 
parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. Nesse 
conflito, triunfa normalmente a primeira dessas forças: o ego da criança 
45
volta as costas ao complexo de Édipo, por meio do medo da castração. 
(FREUD apud SOUZA, 2006, p. 247)
Portanto, as energias que eram direcionadas aos objetos parentais 
são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do 
pai ou dos pais é inserida no ego e aí se forma o núcleo do superego, 
que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o 
incesto.
Segundo Souza (2006) e conforme estabelece Freud (1905), todo o 
processo, por um lado, preservou o órgão genital, afastando o perigo 
de sua perda, porém removeu dele sua função. Esse processo introduz 
o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual 
da criança, e as energias libidinais serão destinadas para atividades 
socialmente valorizadas, como cultura, artes e aprendizagem. 
Percebemos então que a dissolução do complexo de Édipo é instaurada 
pela ameaça de castração no menino. Como herança do complexo 
de Édipo, tanto no menino como na menina, temos a instauração do 
superego, instância psíquica que compõe a segunda tópica juntamente 
com o id e o ego.
Conforme destaca Freud em O Ego e o Id (1923), originalmente as 
crianças nascem puro id, instância psíquica que representa o prazer 
sem medidas, a vida pelo princípio do prazer. Ao ter confronto com as 
dificuldades que a realidade lhe impõe, o id da criança vai dando origem 
a mais uma instância, o ego, ou seja, a noção do eu que faz a mediação 
dos desejos do id com os imperativos da realidade. O superego, que se 
solidifica no final do complexo de Édipo, é o resultado da internalização 
das noções de limite impostas pelos pais, pela sociedade e pela escola, 
estabelecendo na criança a instância responsável pela lei e ordem.
A dissolução do complexo de Édipo está relacionada aos acontecimentos 
de interdição e castração, os quais são penosos e desapontam a 
criança, que percebe não poder possuir seu genitor como objeto de 
46
amor. Sendo assim, ela se identifica com o genitor do sexo oposto (no 
complexo de Édipo positivo), o que demarcará futuramente a orientação 
heterossexual em torno da construção dos investimentos libidinais.
Freud (1924, 1996) nos apresenta o seguinte exemplo: a menina gosta de 
considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo, porém chega 
a ocasião em que ela tem de sofrer por parte dele uma dura punição e 
é atirada para fora de suas ilusões de possuir o pai. O menino encara 
a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu 
seu amor e sua solicitude para um recém-chegado, ou seja, um irmão, 
ou para o pai ou para qualquer atividade de forte investimento libidinal 
da mãe, como o trabalho (precisa ser algo que necessariamente separe 
essa criança de sua mãe). Desta forma, segundo Freud (1924, 1996, p. 
247):
O complexo de Édipo se encaminha assim para a destruição por sua 
falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade de seguir seus 
investimentos libidinais em suas figuras parentais para que essa libido 
seja direcionada para cultura no período de latência. Embora a maioria 
dos seres humanos passe pelo complexo de Édipo como uma experiência 
individual, ele constitui um fenômeno que é considerado universal, uma 
vez que ele preserva experiências de amor e ódio pelas figuras parentais.
Portanto, compreendemos que o Édipo não se trata apenas de uma 
vivência imaginária da relação incestuosa da criança com a mãe e 
de rivalidade com o pai, mas sim, na sustentação à qual essa trama 
faz referência, é a estruturação simbólica que orienta o desejo dos 
indivíduos na dialética relação sobre o falo e o medo da castração.
Assim, através da discussão proposta neste material, conseguimos 
compreender o que Freud afirmou: “em extensão sempre crescente, 
o complexo de Édipo revela sua importância como fenômeno central 
do período sexual da primeira infância” (FREUD, 1924, 1996, p. 
217). No complexo de Édipo, temos a centralidade do período de 
desenvolvimento da infância, uma vez que, através da conclusão desse 
47
período, teremos as orientações possíveis em torno da estrutura 
psíquica dos sujeitos e da relação de cada um deles com as interdições, 
os limites e as faltas impostas pela cultura, com a renúncia pulsional 
em prol da convivênciaem sociedade. Com Édipo, temos o confronto 
do indivíduo com o que se apresenta como um mundo incompleto, 
com seus limites e suas possibilidades, com a morte e a ausência, 
com a satisfação parcial dos desejos, com a angústia como mola 
impulsionadora do desejo, que nos faz crescer e continuar desejantes, 
objetivando sempre o crescimento e a vida e equilibrando, com nossas 
tendências, a morte e a finitude do que existe.
Referências
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das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XIX. Rio de Janeiro: 
Imago, 1996. p. 189-199.
FREUD, S. Carta 71. 1897. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud. Tradução de J. Salomão. v. I. Rio de Janeiro: Imago, 
1996. p. 356-359.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard 
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 
1996.
FREUD, S. Totem e tabu. 1913. In: FREUD, S. Totem e Tabu, Contribuição à 
história do movimento psicanalítico e outros textos (1912-1914). São Paulo: 
Companhia das Letras, 2012.
FREUD, S. O Eu e o Id. 1923. In: Sigmund Freud – Obras Completas, Vol. XIV. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2011.
LACAN, J. O Seminário, Livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Texto estabelecido 
por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins 
Fontes, 2001.
MASSON, J. M. (ed.). A Correspondência Completa de Sigmund Freud para 
Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, 1986.
NASIO, J. D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2007.
ROUDINESCO, E., PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
48
SOUZA, M. R. de. A psicanálise e o complexo de Édipo: (novas) observações a 
partir de Hamlet. Psicologia USP [online], São Paulo, v. 17, n. 2, p. 135-155, 2006. 
Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/
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SÓFOCLES. Rei Édipo [recurso eletrônico]. 56 p. Disponível em: http://www.
dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf. Acesso em: 27 out. 2021.
https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/abstract/?lang=pt
https://www.scielo.br/j/pusp/a/4dLx5XrQMGDbym364byQs8j/abstract/?lang=pt
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf
49
Homossexualidades, 
masculinidades e feminilidades 
em Psicanálise
Autoria: Allyne Evellyn Freitas Gomes 
Leitura crítica: Cleber José Aló de Moraes
Objetivos
• Descrever os impactos da dissolução do complexo 
de Édipo na construção das performances de 
gênero e na orientação sexual.
• Apresentar os modos de manifestação da 
masculinidade e feminilidade a partir da teoria 
psicanalítica, em diálogo com os diversos campos 
de saber contemporâneos.
• Analisar as principais contribuições da psicanálise 
para a compreensão da homossexualidade 
enquanto modo de expressão da sexualidade 
humana.
50
1. Introdução
Os posicionamentos diante dos papéis de gênero e da sexualidade 
humana em nossa cultura pós-moderna implicam a necessidade de 
ampliar os discursos sobre os modos de subjetivação das práticas e 
vivências sexuais, bem como da identidade de gênero. Podemos falar 
de escolhas sexuais? É sabido que muitas das escolhas de investimento 
afetivo são produzidas tomando inconscientemente por referência 
os modelos anteriormente estabelecidos em relações parentais e no 
processo de desenvolvimento psicossexual.
Nas vivências de gênero da atualidade, os papéis predefinidos do que se 
espera do gênero masculino e feminino e os ideais de masculinidade e 
feminilidade estão sendo paulatinamente desconstruídos. Os “sujeitos 
contemporâneos desbussolados” (FORBES, 2004, [s.p.]) procuram 
na clínica psicanalítica novos modelos de enfrentamento psíquico 
das ansiedades diante dos papéis socialmente estabelecidos, das 
multiplicidades de escolhas contemporâneas e das angústias decisórias 
em face do real que se apresenta. Dessa forma, o tornar-se mulher, 
amplamente discutido pela filósofa existencialista Simone de Beauvoir 
e anteriormente citado por Freud no texto A Feminilidade (1933, 
2019), dialoga com o que aqui apresentaremos como a construção da 
feminilidade e da masculinidade a partir da teoria psicanalítica e das 
modificações na contemporaneidade.
A psicanálise em nossa cultura ocidental é cada vez mais convidada 
a uma produção de saberes sobre sexo, gênero, desejo, orientação 
sexual e identidade de gênero. Consiste em uma instância discursiva 
que responde por saberes diferenciados sobre os modos de ser, 
amar, se posicionar no mundo e experienciar a libido. Tais modos vêm 
sendo questionados, reiterados e ampliados. Segundo Jorge Forbes 
(2004), vivemos um movimento de feminização do masculino. Além 
disso, as teorias feministas e os estudos queer problematizam as 
51
supostas identidades sexuais; os papéis de gênero e sexualidade foram 
compreendidos como performances. Pensar em identidades de gênero 
masculinas e femininas é articular também gênero com diversos outros 
fatores, como nos estudos interseccionais realizados pelas feministas 
negras decoloniais: gênero articulado aos conceitos de raça, classe, 
etnia, cor e aspectos socioeconômicos.
Apenas confirmamos o que Freud, em seu tempo, nos afirmou: 
a anatomia não é o destino (FREUD, 1905, 1996). Existe um outro 
“saber” sobre o humano, e essa instância orienta e influencia o seu 
comportamento, suas manifestações identitárias e seus desejos 
sexuais. A existência do inconsciente funda um discurso que deslegitima 
o heteronormativo, pois o discurso da escolha ou de qualquer 
determinação biológica da sexualidade não é compatível com a ideia 
de uma orientação inconsciente da libido ao longo do desenvolvimento 
psicossexual. Uma ordem de diversos fatores compõe o que 
compreendemos por sexo, sexualidade humana, gênero e desejo sexual. 
Fatores anatômicos são apenas uma parcela: podemos contar ainda com 
aspectos psíquicos, sociais e culturais, além, obviamente, do processo 
de desenvolvimento psicossexual que será estudado aqui, a fim de 
estabelecer um entendimento de como esse desenvolvimento influencia 
a construção das identidades de gênero em torno da feminilidade e 
masculinidade, além de compreender as manifestações homossexuais e 
a relação da heteronormatividade com a teoria freudiana da sexualidade 
humana.
Os temas das homossexualidades, masculinidades e feminilidades 
nos apresentam que existem várias maneiras de vivenciar a libido 
quando os sujeitos concluem seu desenvolvimento psicossexual, 
alcançando a fase genital. Tais modos de expressão do desejo libidinal 
se estabelecem primordialmente após a dissolução do complexo de 
Édipo e as identificações com as vivências de gênero, bem como o 
direcionamento da libido da criança, seja para a figura do mesmo 
sexo ou do sexo oposto. Assim, crianças que vivenciaram o complexo 
52
de Édipo negativo ou invertido tomam a figura do mesmo sexo como 
objeto de seu investimento libidinal e, portanto, estabelecem as 
bases para as futuras vivências homoafetivas. Durante muito tempo, 
alguns psicanalistas acreditaram que tal resolução se tratava de uma 
problemática no desenvolvimento psicossexual, estabelecendo entre 
uma parcela de psicanalistas as bases para opiniões preconceituosas 
acerca da homossexualidade. Entretanto, perceberemos ao longo da 
obra freudiana vários textos e casos clínicos em que o próprio Freud 
afirma que a homossexualidade não é doença.
2. Estudos sobre sexualidade e gênero em 
psicanálise
Em 1905, Freud, através do célebre texto Três Ensaios sobre a Teoria da 
Sexualidade (1905, 1996), iniciou a contestação do que em sua época era 
considerado como aberrações sexuais. Para o psicanalista, elas nada 
mais eram do que formas de investimento libidinal que não atendiamao 
objetivo do que o discurso moral, religioso, biológico e médico higienista 
estabelecia como normal em termos de sexualidade – a reprodução. 
Era considerada perversão toda e qualquer prática que não tivesse por 
objetivo a reprodução. Por sua vez, Freud defendeu que existem pulsões 
parciais, que obtêm prazer através de partes do corpo, as chamadas 
zonas erógenas. As pulsões parciais não visam à reprodução, e sim ao 
prazer. Segundo Ceccarelli (2017), Freud, enquanto psicanalista, defende 
a ideia de que a suposta “escolha sexual” é algo bastante complexo e 
que envolve a dinâmica psíquica do inconsciente, da relação triangular 
da situação edipiana, bem como a bissexualidade de cada indivíduo 
como algo constitucional, além das ambivalências de identificações. A 
psicanálise não tinha por objetivo explicar o surgimento das variantes da 
sexualidade humana. Por exemplo: o texto O Caso da Jovem Homossexual 
(FREUD, 1920, 1976) afirma claramente que não compete à psicanálise 
solucionar a homossexualidade. Antes, ela deve se ater aos mecanismos 
53
psíquicos envolvidos na escolha de objeto e, por isso, não há um desejo 
ou orientação em psicanálise visando à cura da homossexualidade ou 
de qualquer tipo de prática tida como variação da norma, uma vez que 
a psicanálise não se orienta por uma moral sexual civilizatória, desde os 
tempos do pai da psicanálise até os dias atuais.
Outrossim, a sexualidade não é mais domínio do discurso religioso, 
moral ou médico; ela também encontra na psicanálise um espaço de 
saber e poder que produz em determinados contextos um movimento 
inaugural de liberação da libido humana, instaurando a concepção 
defendida por Freud (1933, 2019) de que a libido não tem gênero. 
Infelizmente, em outros contextos psicanalíticos ainda existem grupos 
que sustentam práticas de exclusão em função da sexualidade humana. 
Segundo o pesquisador Bulamah (2014), existia uma regra proscrita 
de não aceitar homossexuais masculinos para formação de analistas 
na Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Percebe-se, portanto, 
que mesmo dentro da psicanálise, ainda que o próprio Sigmund Freud 
(1935), em resposta à carta da mãe de um jovem homossexual, afirme 
que a homossexualidade não é digna de vergonha e que grandes nomes 
da história eram homossexuais, a IPA recusava candidatos com esse 
tipo de orientação sexual. A discussão sobre os modos de constituição 
da feminilidade e da masculinidade, bem como a homossexualidade 
humana, perpassa diversos olhares. Freud, enquanto psicanalista, não 
se furtou de contribuir para a ampliação de tais debates. Contudo, como 
homem de formação inicialmente médica e europeu vienense, ainda 
percebemos em Freud marcas de sua cultura, tempo e sociedade ao 
descrever fenômenos tão multifatoriais como a homossexualidade e as 
performances de gênero.
Desde 1895, com os estudos sobre histeria, até a atualidade, muito 
mudou nos debates de gênero e sexualidade humana. Contudo, não 
devemos esquecer que Freud inaugurou com os estudos sobre histeria 
um espaço no qual as mulheres de sua época poderiam fazer algo 
que era inadmissível na sociedade vienense do século XIX: falar sobre 
54
seus desejos sexuais reprimidos. Não à toa, Freud posteriormente 
descobriu que na etiologia das neuroses está a sexualidade humana, 
uma vez que, ao possibilitar às inúmeras pacientes histéricas falar 
sobre seus sintomas, Freud percebeu a origem sexual nas entrelinhas 
da fala daquelas mulheres. O psicanalista, inicialmente, postulou 
a possibilidade de que as mulheres passavam em sua infância por 
uma espécie de sedução, fundando o que ele chamou de teoria da 
sedução. Posteriormente, ele percebeu que na verdade tais situações 
relativas à sexualidade se davam no plano da fantasia das crianças e, 
por isso, não eram, em sua maioria, ocorrências reais de abuso. Assim, 
ele desconstruiu a teoria da sedução e solidificou sua teoria sobre a 
sexualidade infantil.
Chamar Sigmund Freud de militante talvez possa soar como exagero para 
o leitor. Não obstante, tratando-se da sociedade e do tempo nos quais o 
pai da psicanálise fundou sua teoria, ele pode ser no mínimo considerado 
progressista, na medida em que trouxe para o cenário de uma ciência 
predominantemente composta por homens a fala de mulheres sobre seus 
corpos e sua sexualidade. Passou a ser permitido às mulheres falar e dar 
vazão ao mal-estar que as afligia, de maneira que sua fala tinha poder de 
cura e de compreensão sobre elas próprias. Quando Ana O. pede a Breuer 
que não a hipnotize, mas a deixe falar, ela inaugura um novo espaço 
das mulheres na clínica, o espaço da cura pela fala e da importância da 
fala dessas mulheres e das informações por elas apresentadas para a 
superação do mal-estar feminino. Contudo, em diversos aspectos, Freud 
não conseguiu ampliar discussões importantes sobre a feminilidade e 
aspectos relativos à sexualidade humana. Hodiernamente, entretanto, 
temos um movimento de psicanalistas que se dedicam aos estudos sobre 
os modos de pensar gênero, sexualidade e orientação sexual, inclusive em 
interseccionalidades com questões como raça e aspectos socioeconômicos, 
étnicos e políticos. A psicanálise vem se ampliando cada vez mais para 
ir além de um discurso edipiano e pensar aspectos socioculturais na 
construção do laço social e dos modos de subjetivação.
55
3. Homossexualidades
O que a psicanálise tem a dizer sobre a homossexualidade? O olhar 
sobre esta temática modificou-se, indo de um padrão estabelecido de 
normalidade existente na sociedade grega, que legitimava relações 
homoafetivas entre um jovem e seu preceptor, passando pelo discurso 
de pecado e degeneração no século XIX até chegar à sua retirada do 
campo das doenças mentais, no DSM-II (APA, 1968). Apesar dos avanços, 
porém, não é unanimidade um discurso favorável à homossexualidade. 
No laço social, homossexuais convivem com homofobia, discriminação 
e preconceito desde o âmbito familiar até os espaços públicos e 
institucionais. As lutas contemporâneas pela conquista de direitos 
seguem, e diariamente pessoas que contestam a heteronormatividade 
compulsória são agredidas e mortas em nossa cultura, em virtude do 
preconceito e da intolerância.
O que podemos nomear como homossexualidade? Seriam as práticas 
sexuais entre pessoas do mesmo sexo? Desejar uma pessoa do mesmo 
sexo já enquadra o sujeito na matriz homossexual? Ou apenas o 
posicionamento do sujeito diante das suas práticas sexuais é capaz de 
categorizá-lo como homossexual? Se um homem pratica ocasionalmente 
sexo com outros homens, porém se mantém na condição “ativa” e, por 
isso, não se reconhece enquanto homossexual, esse sujeito deve ser 
caracterizado pelo olhar psicanalítico como homossexual, considerando 
apenas as suas práticas? Ou será o desejo suficiente para enquadrá-lo 
como tal? Para pensar tais questionamentos, recorremos à importante 
psicanalista Roudinesco (1998), em Dicionário de Psicanálise, que nomeia 
a homossexualidade como um termo derivado do grego que quer 
dizer todas as formas de amor carnal de modo igual. Apenas por volta 
de 1910, o uso do termo homossexualidade passou a se fazer mais 
presente, uma vez que a homossexualidade foi excluída do DSM e 
perdeu seu estatuto de doença, não cabendo mais, portanto, o uso do 
termo homossexualismo, que remete à dimensão de patologia.
56
Freud, aliás, já havia apontado o caminho para a psicanálise, fazendo 
a homossexualidade derivar da bissexualidade e remetendo-a a uma 
escolha inconsciente, ligada à renegação, à castração e ao Édipo. 
Segundo Roudinesco (1998, p. 350):
Freud introduziu a homossexualidade num universal da sexualidade 
humana e a humanizou, renunciando progressivamente a fazer dela 
uma disposição inata ou natural, isto é, biológica, ou então uma cultura, 
a fim de concebê-la como uma escolha psíquica inconsciente. Em 1905, 
nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade*, Freud ainda falou de 
inversão, mas, em 1910, com “Leonardo da Vinci e umalembrança de 
sua infância*”, renunciou a esse termo em favor de homossexualidade. 
Cinco anos depois, numa nota acrescentada aos Três ensaios, expressou 
claramente sua hostilidade a qualquer forma de diferencialismo e 
discriminação: “A investigação psicanalítica”, escreveu, “opõe-se com 
extrema determinação à tentativa de separar os homossexuais dos 
outros seres humanos como um grupo particularizado”. (ROUDINESCO, 
1998, p. 350)
Um ano depois, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud (1921) 
deu uma definição mais clara da homossexualidade masculina: ela 
sobrevém depois da puberdade, nos casos em que se instaurou na 
infância um vínculo intenso entre o filho e a mãe. Em vez de renunciar a 
esta, o filho se identifica com ela, transforma-se nela e procura objetos 
capazes de substituir seu eu, os quais ele possa amar como foi amado 
pela mãe. Por fim, uma carta, datada de 9 de abril de 1935, foi dirigida 
a uma mãe norte-americana que escreveu a Freud acerca de seu filho, 
sem contudo afirmar de maneira clara que ele era homossexual. Freud 
responde à mãe do jovem, utilizando a seguinte explicação:
Depreendi de sua carta que seu filho é homossexual. Fiquei mais 
impressionado pelo fato de que a senhora mesma não menciona esse 
termo em sua informação sobre ele. Posso perguntar por que o evita? A 
homossexualidade certamente não é uma vantagem, tampouco é algo de 
que se envergonhar, não é nenhum vício, nenhuma degradação, não pode 
ser classificada como doença; nós a consideramos uma variação da função 
57
sexual produzida por uma detenção no desenvolvimento sexual. (FREUD, 
1935, p. 349)
Percebemos aqui, de forma clara, objetiva e direta, a opinião de Freud 
sobre a homossexualidade. Ele não a percebe como uma doença 
ou degeneração, conforme os sexólogos de seu tempo, nem como 
vergonha ou pecado, tal como preconiza o discurso religioso. Temos 
nessa carta a opinião de alguém que acredita na homossexualidade 
como uma forma de sexualidade resultante de uma fixação em 
determinado período do desenvolvimento psicossexual, ou seja, algo 
que não se trata de doença, mas de uma das mais diversas resoluções 
possíveis para o conflito existente no complexo de Édipo, influenciado 
ainda por um conjunto de outros fatores, tais como os que ele discutiu 
no caso da jovem homossexual (FREUD, 1920, 1976).
Em relação à homossexualidade, quando se trata de uma das diversas 
formas de manifestação da sexualidade humana, a psicanálise produz 
um discurso não pela via da patologização dos sujeitos, mas sim como 
uma das diversas rotas possíveis para o desejo, uma vez que tanto a 
heterossexualidade quanto a homossexualidade devem ser pensadas 
tomando como referências os diversos moldes de expressão da libido. 
Dessa forma, na psicanálise, não se trabalha com a ideia de uma opção 
sexual, uma vez que a expressão “opção” é simplificadora, dado que a 
relação com a sexualidade no humano não se trata de processo de escolha.
Tratando-se da etiologia da homossexualidade, os pesquisadores das 
mais diversas áreas não possuem um consenso sobre qual ou quais 
fatores determinam a orientação sexual humana. Porém, Zimerman 
(2004), enquanto médico, psiquiatra e psicanalista, desenvolveu um 
estudo no qual apresenta uma série de argumentos sobre os diversos 
fatores constitutivos da homossexualidade. Entre eles, podemos citar:
58
Tabela 1 – Alguns fatores etiológicos da homossexualidade
Biológicos 
constitucionais
Socioculturais familiares Fatores psicológicos 
Aspectos genéticos, 
orgânicos ou glandulares 
são alvo de análise.
Efeitos condicionantes 
indiretos da cultura e dos 
códigos sociais e morais.
Necessidades, desejos e 
fantasias inconscientes 
da criança vão 
determinar primitivos 
pontos de fixação 
conflitivos nos quais 
ela vai estacionar em 
seu desenvolvimento 
psicossexual, gerando 
pontos de fixação 
do desenvolvimento 
psicossexual.
No entanto, compreende-
se que tais fatores inatos 
têm uma participação 
mínima na determinação 
da homossexualidade
Os padrões de 
sexualidade não são 
inatos (ZIMERMAN, 2004)
Os padrões de sexualidade 
não são inatos, são criados 
e recebem forte influência 
da identificação dos filhos 
com os pais, bem como do 
discurso desses pais sobre 
a homossexualidade.
Discurso da religião
Papel da família e do 
contexto familiar
Aspectos transgeracionais 
de conflitos edípicos 
não resolvidos dos pais 
serão necessariamente 
repetidos com os filhos
As designações de 
papéis nas famílias
O estabelecimento do 
gênero sexual, que difere 
da sexualidade, depende 
dos desejos inconscientes 
que os pais alimentam em 
relação aos seus filhos, 
quanto às suas expectativas 
e demandas em relação à 
conduta e ao comportamento 
do filho ou filha
“Os pais não só determinam 
decisivamente o gênero 
sexual dos filhos como 
também pode acontecer que 
eles atuem a sua possível 
homossexualidade latente 
através de seu filho ou filha” 
(ZIMERMAN, 2004, p. 278) .
Compreensão dos 
conflitos psíquicos 
resultantes das pulsões 
libidinais nas vivências 
e fantasias implícitas 
no conceito universal 
do complexo de Édipo
Vertente edípica e 
narcísica dos fatores 
psicológicos da etiologia 
da homossexualidade.
Fonte: adaptada de Zimerman (2004).
59
Tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade estão baseadas 
em um processo em que a identificação, a rota do desejo e as fantasias 
se articulam. O que conduz alguém a verificar a direção do seu desejo 
não se trata de uma opção ou de uma demarcação de escolha, seja ela 
genética, social ou psíquica. Logo, é impossível em psicanálise tratar a 
homossexualidade como patologia e propor a chamada “cura gay”.
Conforme dito anteriormente, Freud, em 9 de abril de 1935 (FREUD, 
1935), respondeu à carta da mãe de um jovem homossexual, que 
falou sobre seu filho sem explicitamente mencionar sua sexualidade. 
A resposta de Freud em formato de carta é um importante resumo da 
opinião do fundador da psicanálise sobre a homossexualidade humana. 
Freud inicia questionando essa mãe sobre o motivo de ela não ter 
declarado de forma explicita que o filho era homossexual. Temos, assim, 
uma provocativa de Freud em torno da moral sexual de seu tempo, 
quando ocultar a sexualidade não heteronormativa era o padrão. 
Entretanto, com seu posicionamento questionador e subversivo, ele 
abre o debate com a mãe do rapaz registrando que não há vergonha 
em afirmar a homossexualidade do filho e que inclusive grandes nomes 
da história foram homossexuais e não deixaram de ser importantes. 
Aqui, revela-se um importante aspecto da teoria freudiana em torno 
do seu posicionamento quanto à homossexualidade. Freud afirma que 
a homossexualidade não se trata de um vício ou degradação, opondo-
se ao discurso religioso e médico higienista vigente em seu tempo. “É 
uma grande injustiça, e uma crueldade, perseguir a homossexualidade 
como se ela fosse um crime” (FREUD, 1935). Mais uma vez, temos o pai 
da psicanálise reiterando seu posicionamento contra a criminalização da 
homossexualidade.
É inconcebível criminalizar o desejo, pois, compreendendo a 
multideterminaçāo da homoafetividade, vários fatores interferem e 
corroboram a homossexualidade, tal como apresentado por Zimerman 
(2004). Com isso, não podemos generalizar ou atribuir respostas 
prontas para a sexualidade humana, uma vez que a manifestação do 
60
sexual no humano é atravessada por nossos processos de subjetivação 
e de vivências libidinais. Portanto, não é coerente pensar em cura 
da homossexualidade, já que ela não constitui doença. Entretanto, 
Freud cita em seu texto o caso de uma jovem homossexual (FREUD, 
1920, 1976) no qual é possível pensar em cura relacionada à 
homossexualidade, mas no contexto do homossexual egodistônico, 
ou seja, aquele que está em conflito com ele próprio, que não 
está bem com sua condição. Dessa forma, não estamos curando a 
homossexualidade em si, já que ela não constitui doença, como já 
afirmado, mas sim atuando com o sujeito e seu sofrimentopsíquico 
diante de sua sexualidade.
Homoafetividade é, por conseguinte, uma posição como outra qualquer, 
diante de sua condição desejante. Freud utiliza os termos escolha objetal 
e escolha sexual. A escolha do objeto não é algo que os indivíduos 
podem controlar, pois tem a ver com a história do sujeito. Não há um 
critério moral, para Freud, em torno da sexualidade. No texto Três 
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905, 1996), Freud estabelece 
uma discussão sobre o caráter polimorfo da sexualidade humana e 
afirma que ela não está apenas para a dimensão da reprodução, mas 
para toda e qualquer prática de prazer.
Segundo Reitter (2021), uma intervenção psicanalítica não produz 
efeitos apenas no analisando, mas também e ao mesmo tempo na sua 
cultura. Para ele, “há uma violência teórica que contamina a atividade 
de escuta de todos os psicanalistas” (REITTER, 2021, p. 8). Dessa forma, 
é preciso estar alerta para que o discurso psicanalítico praticado não 
seja o repetidor de preconceitos ou de falas culturalmente e socialmente 
datadas. Antes, é necessário que o psicanalista esteja atento às questões 
de seu tempo e possa construir uma clínica que agregue “o respeito do 
Outro (A)alheio” (REITTER, 2021, p. 8). Ou seja, que agregue os outros 
que encontramos pelo caminho para além do modelo do grande Outro, 
que é o sujeito parental e que nos serve de molde para a vida. Reitter 
(2021), em sua obra Édipo Gay, expõe novamente as origens de uma 
61
homofobia implícita na psicanálise. Compreender tal olhar homofóbico 
por parte do psicanalista é destacar que sua formação teórica se 
fundamenta de modo central no estudo do complexo Édipo e da 
castração, que se estabelece em bases naturalistas, binárias e fundadas, 
a princípio, em uma diferença sexual anatômica (presença e ausência do 
pênis na fase fálica). Reitter considera e problematiza, ainda, a influência 
de Lévi-Strauss e sua referência estruturalista para o pós-freudiano 
Lacan. Alerta a não subestimarem o papel que a normatividade social 
tem na subjetivação da sexualidade, desabonando de saída qualquer 
interpretação que tome as descobertas da psicanálise como se fossem 
impermeáveis a injunções sociais, culturais ou históricas.
Ademais, pensar a homossexualidade feminina não se trata de 
compreender os caminhos pelos quais a menina mantém a mãe 
como seu objeto de investimento libidinal. Segundo Freud (1933), 
a alteração do objeto de desejo da mãe para o pai acontece ainda 
nas homossexuais femininas, muito embora possa parecer que as 
lésbicas seriam mulheres que se mantiveram fixadas à mãe desde 
a fase pré-edipiana. Isso não constitui verdade, de acordo com os 
achados clínicos de Freud (1933), pois essa transição da mãe como 
primeiro objeto de amor para o pai é o que insere a menina no 
complexo de Édipo. Em seguida, ela vivencia o processo edípico, 
e é lá que se estabelecerá sua orientação libidinal: se será o pai 
aquele que receberá seu amor, enquanto a mãe vai ser alvo do ódio 
nessa disputa; ou se ela, por algum motivo, investirá novamente na 
mãe com seu amor e afeto e sentirá ódio por seu pai. Não há uma 
resposta padrão para o que ocasiona essa virada de investimentos 
libidinais em que o pai deixaria de ser o objeto de amor da menina. 
Contudo, podem ocorrer complicações, que surgem quando a criança, 
em consequência da decepção com o pai, volta à ligação então 
abandonada com a mãe. Assim, a homossexualidade feminina para 
a psicanálise está no retorno à mãe como objeto de investimento 
libidinal.
62
4. Feminilidades e masculinidades
Como distinguir homens e mulheres em suas experiências de 
masculinidade e feminilidade? No contexto por nós abordado, não se 
trata do binômio macho e fêmea, definido via cromossomos XX ou XY. 
Se aprendemos em psicanálise que a anatomia não é o destino, como 
podemos conceituar feminilidade ou masculinidade na área? Freud 
(1931, 2019) nos dá a dica de que não se trata de uma via biológica, pois, 
para a psicologia, é indiferente se no corpo há apenas uma substância 
que produz excitação ou se há duas, ou um número incontável delas. A 
psicanálise nos ensina a conceber uma única libido, que possui metas 
e modos de satisfação, sejam eles ativos ou passivos. Na menina, 
o estabelecimento da feminilidade trata-se de um processo mais 
complicado, que inclui uma mudança de objeto de investimento libidinal, 
bem como uma mudança de zona erógena.
Em 1933, Freud publicou em novas conferências introdutórias o 
importante texto A Feminilidade. Para responder à pergunta “o que 
quer uma mulher?”, Freud pesquisou o tema da feminilidade por anos 
a fio. Porém, não alcançou a compreensão plena do continente negro 
que representa a sexualidade feminina. No final do importante texto, 
ele afirma que “se quiserem saber mais sobre a feminilidade, então 
perguntem às suas próprias experiências de vida, ou voltem-se para os 
poetas, ou esperem até que a ciência possa lhes dar informações mais 
profundas e mais bem articuladas” (FREUD, 1933, 2019, p. 341).
Aqui cabe demarcarmos a diferença entre sexualidade feminina 
e feminilidade. Freud (1931, 2019) apresentou o desenvolvimento 
libidinal feminino através da descrição do seu complexo de Édipo 
e sua dissolução, bem como descreveu a relação da sexualidade 
feminina com a vivência da castração, argumentando que homens e 
mulheres apresentam formas diferentes de enfrentar a angústia de 
castração.
63
O primeiro objeto de amor do menino será também seu objeto de 
investimento libidinal no complexo de Édipo – a mãe. Em dado momento 
do complexo de Édipo, o menino sentirá medo de perder seu pênis 
para seu rival, o pai. Assim, visando preservar seu pênis, o menino cede 
à preservação de si através do narcisismo e renuncia a seu objeto de 
investimento libidinal, deixando de lado os sentimentos destrutivos 
dirigidos à figura paterna e, posteriormente, se identificando com seu 
pai, visando futuramente conquistar uma mulher semelhante à sua mãe.
Na menina, contudo, o processo não acontece de forma tão simples, 
pois o seu primeiro objeto de investimento libidinal também é a 
mãe, uma vez que esta é a responsável pelas funções de apoio e 
amamentação e pelos cuidados com a higiene da criança. Dessa forma, 
a menina terá outro caminho para entrar no complexo de Édipo: através 
da descoberta da diferença sexual, ao perceber, quando vê um menino 
nu, que ela não possui o pênis e que o menino o possui. Assim, a garota 
irá desenvolver em relação a essa mãe sentimentos que outrora eram 
de amor, mas agora serão de ódio, por ela não tê-la feito com um 
pênis. Essa rivalidade fará com que a menina entre no complexo de 
Édipo através do movimento de buscar no pai o pênis que a mãe não 
lhe deu. O pai não dará o pênis para essa menina, e ela, então, mudará 
seu alvo, visando ter um bebê desse pai. Nesse período, ela descobre 
também que a mãe não possui o pênis, o que poderá resultar em 
uma depreciação do feminino e valorização do masculino. O pai será 
o responsável por frustrar as expectativas da menina e não lhe dará o 
bebê. Dessa forma, a menina, frustrada, aos poucos renunciará ao pai 
como objeto de investimento libidinal e buscará na fase genital superar 
a castração através da experiência da maternidade, na qual o bebê será, 
portanto, o símbolo fálico da mãe. Com o complexo de Édipo fica claro 
o processo complicado da menina, que deverá renunciar ao objeto de 
investimento de sua pré-história edípica.
No texto A Feminilidade, aprendemos ainda com Sigmund Freud o papel 
primordial da libido: “só existe uma libido, que está a serviço tanto 
64
da função sexual masculina como da feminina” (FREUD, 1933, 2019, 
p. 337). Assim, quando afirmamos a existência de uma feminilidade e 
masculinidade, é importante a compreensão de que nos referimos a um 
conjunto complexo de fatores que vão além das práticas sexuais dos 
sujeitos, uma vez que a libido se manifesta através de outros aspectos, 
para além da escolha do parceiro sexual. As performancesidentitárias 
de masculinidade e feminilidade não correspondem ao sexo biológico 
macho e fêmea. O pai da psicanálise destaca ainda o importante papel 
do fator social no processo de construção da feminilidade. Na base da 
experiência do feminino está o narcisismo, que faz com que a menina 
queira ser amada, considerando isso até mais importante do que amar, 
e para vencer a inveja do pênis, o feminino faria uso da vaidade como 
artifício de poder, uma vez que o pênis se configura como elemento para 
o símbolo do falo, que é representação de poder.
5. Considerações finais
A prática clínica tem mostrado que todas as manifestações da 
sexualidade, mesmo as que possam parecer “desviantes”, traduzem a 
criação particular e única de cada sujeito, uma forma de “sobrevivência 
psíquica”, resultado da singularidade do trajeto psicossexual de 
cada um. Através da psicanálise freudiana, aprendemos que o 
estabelecimento da sexualidade heterossexual ou homossexual, da 
feminilidade ou da masculinidade, é um processo complexo e por vezes 
tortuoso, uma vez que envolve os modos de estabelecimento da libido 
ao longo do desenvolvimento psicossexual dos sujeitos. A psicanálise, 
quando trata da compreensão da feminilidade, determina, por exemplo, 
que não compete ao psicanalista compreender e explicar com exatidão o 
que a mulher é (FREUD, 1933, 2019): isso seria quase impossível. Cabe a 
ele, por conseguinte, pesquisar na teoria psicanalítica como ela se torna 
mulher, como se desenvolve a partir da criança dotada de disposição 
bissexual. Compreendendo os aspectos multifatoriais da sexualidade 
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humana e das identidades de gênero atuais, o discurso psicanalítico se 
firma como um dos múltiplos lugares de saber sobre a sexualidade e os 
modos de expressão dos sujeitos em termos de identidade sexual.
Olhar para a construção de uma sexualidade humana para além da 
lógica fálica ou da inveja do pênis é um instrumento de transformação 
do lugar de homens e mulheres na sociedade, bem como flexibiliza o 
entendimento das diversas orientações sexuais, ao encontrar espaço 
para discursos científicos que contemplem processos de subjetivação 
humana agregadores da diversidade de forma integral, e não a partir 
da ideia da diferença ou do lugar do estranho. Não obstante, para 
isso, muitos passos ainda precisam ser dados. Jovens pesquisadores 
e psicanalistas contemporâneos têm contribuído fortemente para 
um saber local e situado, que possa incluir a dimensão do sujeito 
inconsciente e seu laço social em articulação com os modelos de gênero 
e sexualidade na contemporaneidade, mas que acrescente, porém, a 
ideia de um sujeito inconsciente que atravessa o individual e a cultura.
Referências
APA. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of 
Mental Disorders – DSM. 2. ed. Washington, 1968.
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(Mestrado em Psicologia Clínica)–Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 
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FREUD, S. Além do princípio de prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos 
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Sigmund Freud. v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 185-216.
FREUD, S. A vida sexual humana. 1916. In: Edição Standard Brasileira das Obras 
Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Lettre de Freud à Mrs N. N...: Correspondance de Freud 1873-1939 
(1935). Paris: Gallimard, 1967.
FREUD, S. Sobre a sexualidade feminina. 1931. In: FREUD, S. Amor, sexualidade, 
feminilidade. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica 
Editora, 2019.
FREUD, S. Sobre as teorias sexuais das crianças. 1907. In: Edição Standard 
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. IX. Rio de Janeiro: Imago, 
1996.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905. In: Edição Standard 
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 
1996.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. L. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins 
Fontes, 1991.
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Zagodoni, 2021, 160p.
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1998.
ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: Uma revisão. Porto Alegre: 
Artmed, 2004.
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BONS ESTUDOS!
	A psicossexualidade na teoria freudiana 
	Objetivos
	1. O psicossexual na psicanálise: a polêmica da sexualidade na obra freudiana
	Referências
	Desenvolvimento psicossexual: do autoerotismo até a genitalidade
	Objetivos
	1. Uma introdução sobre os deslocamentos libidinais
	2. Fases do desenvolvimento psicossexual
	3. Do autoerotismo à genitalidade
	4. A curiosidade sexual infantil e sua importância
	Referências
	O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual 
	Objetivos
	1. O complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual
	Referências
	Homossexualidades, masculinidades e feminilidades em Psicanálise
	Objetivos
	1. Introdução
	2. Estudos sobre sexualidade e gênero em psicanálise
	3. Homossexualidades
	4. Feminilidades e masculinidades
	5. Considerações finais
	Referências

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