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CURSO FIC POLÍTICAS E GESTÃO CULTURAIS Analista e Parecerista de Projetos Culturais MATERIAL DE ESTUDO POLÍTICAS E GESTÃO CULTURAIS Analista e Parecerista de Projetos Culturais MATERIAL DE ESTUDO CURSO FIC POLÍTICAS E GESTÃO CULTURAIS Analista e Parecerista de Projetos Culturais MATERIAL DE ESTUDO Curso FIC Analista e Parecerista de Projetos Culturais Equipe editorial Coordenação de Curso Nayara Joyse Silva Monteles Editoria Helen Betane Ferreira Pereira Rosselini Diniz Barbosa Ribeiro Organização Nayara Joyse Silva Monteles Gustavo Louis Henrique Pinto Revisão Aguimario Pimentel Silva Projeto Gráfico Pedro Henrique Pereira de Carvalho Diagramação e Capa Isabela Maia Marinho Rafael Oliveira de Souza Equipe elaboradora Aguimario Pimentel Silva Licenciado em Letras - Português (UFAL). Tecnólogo em Gestão Cultural (UFPR). Especialista em Educação Digital (SENAI-SC). Mestre em Comunicação (UFS). Doutor em Linguística (UFPE), com tese defendida sobre as relações entre comunicação e cultura, na interface da Análise do Discurso com os Estudos Cul- turais. Professor de Língua Portuguesa / Literatura no Instituto Federal de Alagoas, onde leciona na Educa- ção Profissional, no Programa de Pós-graduação em Linguagem e Práticas Sociais (PPGLPS) e no Programa de Pós-graduação em Educação Ambiental e Cultural (PPGEAC). Pesquisador nas áreas de Literatura, Audio- visual, Políticas Culturais e Educação. Tem experiência na gestão de projetos culturais e eventos, sobretudo em Literatura e Patrimônio. Foi bolsista da Fundação Biblioteca Nacional (Bolsa de Criação Literária - FBN/ Funarte). Autor dos livros “Nelson Rodrigues e a lite- ratura de massa” (IFAL, 2014) e “Imprensa, gênero e poder” (Edufs, 2019). Atua como analista e parecerista de projetos culturais desde 2014, especialmente nos seguintes segmentos: Livro, Leitura e Literatura, Pa- trimônio Imaterial, Audiovisual, Cultura LGBTQIAPN+, Pesquisa Cultural e Formação Cultural. Carolina Ficheira Doutora em Ciência da Literatura pelo Programa Avançado em Cultura Contemporânea (UFRJ), com o tema Captação de Recursos para a área de Humanida- des. Mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ). Gradu- ada em Produção Cultural (UFF). Criadora da Ficheira Cultural, em 2021. Atuou como gerente operacional do Cine Joia e coordenou projetos no Ponto Cine. Atua como parecerista na área de fomento direto e indire- to, especialmente em audiovisual, economia criativa, produção cultural e artes cênicas. Trabalhou como consultora da Unesco no Edital de Cidades Criativas 003/2018 – Setor Audiovisual e, recentemente, no PRODOC, vinculado a São Domingos – Niterói/RJ. Ain- da na OEI, Projeto (Re) Integro e Projeto Mostra de Ci- nema no Sistema Prisional. É professora universitária e educadora social. Pesquisadora nas áreas da Eco- nomia Criativa, Políticas Públicas, Marketing Cultural e Gestão Cultural. Trabalha com Produção Executiva desde 2001 e, em 2022, executou a coordenação pe- dagógica do Play Lab, pelo Play Festival. República Federativa do Brasil Ministério da Cultura Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Vice-Presidente da República Geraldo Alckmin Ministra de Estado da Cultura Margareth Menezes da Purificação Secretário-Executivo Márcio Tavares Secretário de Economia Criativa e Fomento Cultural - SEFIC Henilton Parente de Menezes Diretor de Políticas para os Trabalhadores da Cultura - DTRAC Deryk Vieira Santana Equipe DTRAC/MinC Rafael Oliveira Fontes Thais Fernandes Costa Luciana Requião Gabriel Chati Odair Firmino Instituto Federal de Goiás Reitora Oneida Cristina Gomes Barcelos Irigon Pró-Reitor de Extensão Willian Batista dos Santos Coordenação Nacional da Escult Programa Nacional de Formação e Qualificação para o Mundo do Trabalho em Cultura/IFG Coordenação Geral Mônica Mitchell Morais Braga Coordenação Administrativa Reginaldo Araújo Dorneles Coordenação de EaD Helen Betane Ferreira Pereira Coordenação Pedagógica Rosselini Diniz Barbosa Ribeiro Coordenação de Cursos Nayara Joyse Silva Monteles Murilo Gabriel Berardo Bueno Coordenação de Acessibilidade e Inclusão Gláucia Mendes da Silva Coordenação de Comunicação Pedro Henrique Pereira de Carvalho Coordenação de Tecnologia da Informação Cristiano Domingues da Silva © 2025 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás. Este material, no que diz respeito tanto à linguagem quanto ao conteúdo, não reflete necessariamente a opinião do Instituto Federal de Goiás. As opiniões são de responsabilidade exclusiva dos respectivos elaboradores. Licença Creative Commons Atribuição - Não Comercial - Compartilha Igual - CC BY-NC-SA Esta licença permite que outros remixem, adaptem e criem a partir do seu trabalho para fins não comerciais, desde que atribuam a você o devido crédito e que licenciem as novas criações sob termos idênticos. INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS Diretoria de Educação a Distância - Reitoria Avenida C-198, Qd. 500, Jardim América. Goiânia/GO | CEP 74270–040 (62) 3612-2278 coordenacao.minc@ifg.edu.br contato@escult.cultura.gov.br escult.cultura.gov.br mailto:coordenacao.minc@ifg.edu.br mailto:contato@escult.cultura.gov.br http://escult.cultura.gov.br Sumário Apresentação 5 1. O trabalho do/a analista/parecerista 9 1.1 Quem é o/a analista/parecerista de projetos culturais? 11 1.2 Qual é a importância do/a analista/parecerista nas políticas de fomento? 18 2. As políticas culturais e o trabalho do/a analista/ parecerista 26 2.1 A criação do Ministério da Cultura (MinC) 28 2.2 Da Lei Rouanet à Constituição da Agência Nacional do Cinema (Ancine) 30 2.3 A ampliação das políticas culturais de Estado no século XXI 38 3. Pleiteando uma vaga 49 ORGANIZAÇÃO DE PORTFÓLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 3.1 Organização do currículo e dos documentos comprobatórios 51 3.2 A busca por oportunidades e o processo de candidatura 58 4. Analisando o projeto 66 PONTOS DE ATENÇÃO 4.1 Critérios de análise de um projeto cultural 68 4.2 As especificações técnicas do produto cultural 77 5. Elaborando o parecer 81 A MÃO NA MASSA 5.1 A importância de uma avaliação fundamentada 83 5.2 A elaboração do parecer 88 5.3 A etapa de análise de recursos 99 6. Caminhos para o ofício de analista/parecerista 103 6.1 Desafios do ofício de analista/parecerista de projetos culturais 105 6.2 A relação com os órgãos contratantes: fluxos de trabalho 113 6.3 Proteção de dados dos/as analistas/pareceristas 117 Apresentação Olá, estudante! Bem-vindo/a ao curso de Analista e Parecerista de Pro- jetos Culturais! Aqui você aprenderá sobre o universo que cerca a vida dos/ as analistas/pareceristas culturais. Temos muitas informações para contri- buir com você que deseja atuar nessa área, apresentando desde os princí- pios norteadores das políticas culturais até a busca por uma vaga em pro- cessos seletivos públicos. Além disso, passaremos pelos principais pontos que norteiam a avaliação de um projeto cultural, a construção de pareceres e os elementos que apontam a fragilidade desse ofício. Neste curso, você terá acesso à formação de analista/parecerista na área cultural, profissional que se destaca pela análise de mérito e financeira de projetos no âmbito das políticas culturais existentes no país. Você enten- derá quais são os principais pontos levados em consideração em uma aná- lise e como produzir um parecer conclusivo. Ainda entenderá como buscar oportunidades para se candidatar a uma vaga e como estruturar seu port- fólio, destacando as principais ações na sua trajetória profissional. Por fim, refletirá sobre a função do/a parecerista no cenário nacional, contribuindo para a profissionalização desse ofício, que busca sua regulamentação e me- lhores condições de trabalho. No primeiro tópico do curso, serão abordadas as principais questões re- lacionadas ao trabalho do/a analista/parecerista, como uma introdução ao CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS APRESENTAÇÃOà troca de experiências, ao desenvolvimento de ações conjuntas com governos locais e à articulação entre os diferentes pontos de cultura que poderão se agrupar em nível estadual e/ou regional ou por áreas temáticas de interesse comum, visando à capacitação, ao mapeamento e a ações conjuntas” (Brasil, 2014). O Sistema Nacional de Cultura (SNC) possui como escopo o impulsionamento de uma articulação permanente entre as instâncias municipais, estaduais e federal. O SNC foi promulgado em 2012 a partir da Emenda Constitucional nº 71, gerando a solidificação de uma política pública e servindo para concretizar ações com estados e municípios. Esse sistema foi decisivo para as medidas implementadas no cenário pós-pandemia, por exemplo. Em 2023, o SNC contava com a adesão das 27 unidades federativas e de 3.532 municípios. É COM O AUMENTO DE RECURSOS FINANCEIROS DESTINADOS A ESTADOS, MUNICÍPIOS E DIS- TRITO FEDERAL QUE HÁ UMA CRESCENTE DEMANDA DE ANALISTAS/PARECERISTAS, TENDO EM VISTA A NECESSIDADE DE PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS/AS NA ELABORAÇÃO DE ANÁLISES E PARECERES NA ÁREA CULTURAL. A Lei Aldir Blanc (LAB) Em que pese os impactos sanitários, sociais, econômicos, culturais e políticos decorrentes da covid-19, o setor cultural teve avanços quanto à promulgação de alguns dispositivos legais necessários ao contexto pandêmico. O primeiro deles foi a Lei nº 14.017/2020, conhecida como Lei Aldir Blanc (LAB), que fundamentou ações emergenciais destinadas ao setor cultural durante o estado de calamidade pública. VOCÊ CONHECE ALDIR BLANC? ALDIR BLANC (1946-2020) FOI UM IMPORTANTE COMPOSITOR E INSTRUMENTISTA BRASILEIRO, VÍTIMA DA COVID-19. A LEI PROMULGADA EM 2020 RECEBEU ESSE NOME EM SUA HOMENAGEM. ! ! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 41 Com a promulgação da LAB, o Estado brasileiro direcionou o montante de R$ 3.000.000.000,00 (três bilhões de reais) para a área cultural, por meio dos poderes executivos locais, utilizando-se de alguns mecanismos legais, como a concessão de uma renda emergencial mensal no valor de R$ 600,00 para trabalhadores/as da cul- tura. Além disso, a lei versava sobre o repasse de recursos a estados e municípios, respeitando os critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FIPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), para que fossem criados “editais, chamadas públicas, prêmios, aquisição de bens e serviços vincula- dos ao setor cultural e outros instrumentos destinados à manutenção de agentes, de espaços, de iniciativas [...] a serem disponibilizados em redes sociais e outras plataformas digitais” (Brasil, 2020). A LAB teve seus prazos iniciais alterados pela Lei nº 14.150/2021 e vigorou por dois anos, sendo decisiva para estados e municípios brasileiros, especialmente para aqueles que não dispunham de infraestrutura e gestão técnico-financeira para execução dos recursos. A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI ALDIR BLANC, POR MEIO DO ACESSO A EDITAIS E CHAMADAS PÚ- BLICAS NOS ESTADOS E MUNICÍPIOS DO PAÍS, EXIGIU PROCESSOS AMPLOS E TRANSPAREN- TES POR PARTE DAS SECRETARIAS. POR CONSEGUINTE, ESTAS PASSARAM A DEMANDAR PA- RECERISTAS, POR VEZES ORIUNDOS DE OUTROS ESTADOS E MUNICÍPIOS, A PARTIR DE UMA AMPLA SELEÇÃO. ASSIM, DIFERENTES PROFISSIONAIS ATUARAM NA ANÁLISE DE PROJETOS CULTURAIS, CONTRIBUINDO (DE FORMA DECISIVA OU NÃO) PARA A SELEÇÃO DOS PROJETOS SUBMETIDOS. A Lei Paulo Gustavo (LPG) Findada a vigência da LAB, foi promulgada a Lei Complementar nº 195/2022, co- nhecida como Lei Paulo Gustavo. Por meio desse dispositivo legal, foram repassados “aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios R$ 3.862.000.000,00 (três bilhões, oitocentos e sessenta e dois milhões de reais) para aplicação em ações emergen- ciais que visem a combater e mitigar os efeitos da pandemia da covid-19 sobre o setor cultural”, devendo os entes federativos publicarem seu Plano de Ação pela plataforma Transferegov.br (Brasil, 2022a). A LPG representou uma contribuição sobretudo para a área do audiovisual, uma vez que o montante destinado aos entes federativos foi, em sua maior parte, fruto de superávits do Fundo Setorial do Audiovisual. Com isso, o texto da lei estabeleceu o valor que deveria ser destinado tanto a projetos do audiovisual como para as demais áreas da cultura. Na prática, a grande maioria dos órgãos estaduais e municipais ! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 42 precisou lançar seus chamamentos públicos, observando essa distinção entre o au- diovisual e as demais linguagens artístico-culturais. Foram várias as ações estabelecidas pela LPG. Na área do audiovisual, a lei previa: I. Apoio a produções audiovisuais, de forma exclusiva ou em complemento a outras for- mas de financiamento, inclusive aquelas com origem em recursos públicos ou finan- ciamento estrangeiro; II. Apoio a reformas, a restauros, a manutenção e a funcionamento de salas de cinema, incluída a adequação a protocolos sanitários relativos à pandemia da covid-19, sejam elas públicas ou privadas, bem como de cinemas de rua e de cinemas itinerantes; III. Capacitação, formação e qualificação no audiovisual, apoio a cineclubes e à realização de festivais e mostras de produções audiovisuais, preferencialmente por meio digital, bem como realização de rodadas de negócios para o setor audiovisual e para a memó- ria, a preservação e a digitalização de obras ou acervos audiovisuais, ou ainda apoio a observatórios, a publicações especializadas e a pesquisas sobre audiovisual e ao desenvolvimento de cidades de locação; IV. Apoio às microempresas e às pequenas empresas do setor audiovisual, aos serviços independentes de vídeo por demanda cujo catálogo de obras seja composto por pelo menos 70% (setenta por cento) de produções nacionais, ao licenciamento de produ- ções audiovisuais nacionais para exibição em redes de televisão públicas e à distribui- ção de produções audiovisuais nacionais (Brasil, 2022a). Nas demais áreas da cultura, a LPG previa: I. Apoio ao desenvolvimento de atividades de economia criativa e de economia solidária; II. Apoio, de forma exclusiva ou em complemento a outras formas de financiamento, a agentes, a iniciativas, a cursos ou produções ou a manifestações culturais, inclusive a realização de atividades artísticas e culturais que possam ser transmitidas pela in- ternet ou disponibilizadas por meio de redes sociais e outras plataformas digitais e a circulação de atividades artísticas e culturais já existentes; III. Desenvolvimento de espaços artísticos e culturais, de microempreendedores indi- viduais, de microempresas e de pequenas empresas culturais, de cooperativas, de instituições e de organizações culturais comunitárias que tiveram as suas atividades interrompidas por força das medidas de isolamento social determinadas para o en- frentamento da pandemia da covid-19 (Brasil, 2022a). Vale ressaltar que a participação de pareceristas da área audiovisual na Lei Paulo Gustavo foi bastante expressiva, já que havia mais recursos financeiros des- tinados a esse campo, demandando mais profissionais qualificados/as com conhe- cimento dessa cadeia produtiva. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 43 A Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) Após muita pressão e disputa política, foi promulgada a Lei nº 14.399/2022, co- nhecida como Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), baseada na parceria da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios com a socieda- de civil no setor da cultura. A PNAB trata do respeito à diversidade e da democratiza- ção e universalização do acesso à cultura no Brasil. Alterada pela Lei nº 15.132/2025, essa política adquiriu um caráter permanente e estruturante,diferentemente das anteriores, que se configuraram como ações pontuais de caráter emergencial (Brasil, 2022b, 2025a). Citamos abaixo os principais eixos de atuação desse dispositivo legal: • fomento, produção e difusão de ações, projetos e obras de cunho cultural e artístico; • projetos, festivais, exposições de arte, entre outros no país e no exterior, in- cluindo despesas de transporte e seguro das obras; • prêmios na área cultural e artística; • estudos, pesquisas e formações na área de gestão e/ou finalística; • aquisição, preservação, digitalização e manutenção de obras/equipamentos/ espaços de cultura e arte, entre outros. ATENÇÃO! COMO É POSSÍVEL OBSERVAR, CABERÁ AO/À PARECERISTA ANALISAR E EMITIR PARECERES EM VARIADOS SEGMENTOS DE ATUAÇÃO, OS QUAIS POSSUEM ESPECIFICIDADES DIVERSAS. Dadas as finalidades da lei, firma-se a necessidade de participação de analistas/ pareceristas de projetos culturais, visando uma maior transparência nos processos de seleção. Desse modo, o texto legal define um valor-limite para despesas adminis- trativas referentes à gestão dos chamamentos públicos, o que inclui a contratação de pareceristas: [...] limite de 5% (cinco por cento) do total do valor recebido pelo ente federativo, es- tritamente para a execução das ações finalísticas previstas neste artigo, entre as quais, atividades de consultoria, de emissão de pareceres e de participação em comissões julgadoras de projetos, de ações, de iniciativas e de candidatos a prêmios e a bolsas em editais e congêneres (Brasil, 2022b). ! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 44 Dessa forma, fica evidente a possibilidade orçamentária para o pagamento dos/ as profissionais da área. Destacamos a importância de que seja realizado, por parte dos órgãos interessados, o processo de aplicação do fomento direcionado a área cultural, o que inclui a contratação dos/as trabalhadores/as que atuam como ana- listas/pareceristas de projetos culturais. A forma como o recurso da PNAB chegará ao público final está planejada da se- guinte forma no art. 7º da lei: I. 80% (oitenta por cento) em ações de apoio ao setor cultural por meio de: a. Editais, chamadas públicas, prêmios, aquisição de bens e serviços vinculados ao setor cultural e outros instrumentos destinados à manutenção de agentes, de espaços, de iniciativas, de cursos, de produções, de desenvolvimento de atividades de economia criativa e de economia solidária, de produções audiovisuais, de manifestações cultu- rais, bem como à realização de atividades artísticas e culturais que possam ser trans- mitidas por meios telemáticos e digitais; b. Subsídio para manutenção de espaços artísticos e de ambientes culturais que desen- volvam atividades regulares de forma permanente em seus territórios e comunidades; II. 20% (vinte por cento) em ações de incentivo direto a programas, projetos e a ações de democratização do acesso à fruição e à produção artística e cultural em áreas periféricas, urbanas e rurais, bem como em áreas de povos e comunidades tradicionais (Brasil, 2022b). ATENÇÃO! Observe que, nessa estrutura da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, fica evidente a necessidade da contratação de profissionais que deverão analisar projetos, prêmios e outros formatos de propostas para o recebimento dos recursos públicos repassados. Em 2024, foi sancionada a Lei nº 14.835/2024, que institui o marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura, o qual deve ser organizado em regime de colaboração entre os entes federativos para a gestão conjunta das políticas públicas de cultura, condicionada, pelo menos, à: III. Formalização da adesão perante a União por meio de instrumento próprio; IV. Publicação de lei específica de criação dos sistemas estaduais, distrital ou municipais de cultura, conforme o ente federativo, nos termos do § 4º do art. 216-A da Constitui- ção Federal; CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 45 V. Criação, no âmbito de cada ente federativo ou sistema, de conselho de política cultu- ral, de plano de cultura e de fundo de cultura próprios; VI. Criação e implementação, no âmbito dos Estados, de comissão intergestores bipartite, para operacionalização do respectivo sistema estadual de cultura (Brasil, 2024b). Também no mesmo ano, foi instaurada a Lei nº 14.903/2024, que estabelece o “marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. Em conformidade com essa lei, no caso de editais que prevejam execução de ações culturais, subsídio a espaços e ambientes culturais e ações continuadas de pontos de cultura e pontões de cultura, o/a agente cultural deve prestar contas por meio da apresentação do Relatório de Objeto; em caso de premiações, o/a agente cultural precisa preencher o Termo de Premiação Cultural; em caso de bolsas, é exigido do/a agente que entre- gue o Relatório de Bolsista (Brasil, 2024c). Nesse pequeno resumo de viés cronológico, a partir da instauração do Mi- nistério da Cultura, em 1985, pudemos observar os ciclos das políticas públicas de cultura no Brasil, marcados por avanços e retrocessos, seja pela presença/ ausência do Ministério da Cultura, seja pela constituição e regulamentação (ou não) de políticas de fomento à cultura, as quais reverberam, em maior ou menor grau, no acesso aos recursos públicos. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 46 Referências BARBALHO, Alexandre. Política cultural em tempo de crise: o Ministério da Cultura no gover- no Temer. Revista de Política Pública, São Luis, v. 22, n. 1, p. 240-260, abr. 2018. BARBALHO, Alexandre. Políticas culturais no Brasil: identidade e diversidade sem diferença. In: RUBIM, Antonio Albino Canelas; BARBALHO, Alexandre (org.). Políticas culturais no brasil. Salvador: Edufba, 2007. BOTELHO, I. A política cultural e o plano das ideias. In: RUBIM, Antonio Albino Canelas; BAR- BALHO, Alexandre (org.). Políticas culturais no brasil. Salvador: Edufba, 2007. BOTELHO, I. Romance de formação: Funarte e política cultural, 1976-1990. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2000. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do brasil. Brasília: Su- premo Tribunal Federal; Secretaria de Altos Estudos, Pesquisas e Gestão da Informação, 2024a. BRASIL. Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022. Dispõe sobre apoio financeiro da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para garantir ações emergenciais direcionadas ao setor cultural; altera a Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal), para não contabilizar na meta de resultado primário as trans- ferências federais aos demais entes da Federação para enfrentamento das consequências sociais e econômicas no setor cultural decorrentes de calamidades públicas ou pandemias. Brasília, DF: Presidência da República, [2022a]. BRASIL. Lei nº 11.437, de 28 de dezembro de 2006. Altera a destinação de receitas decor- rentes da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional - CONDECINE, criada pela Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, visando ao financiamento de programas e projetos voltados para o desenvolvimento das atividades audiovisuais. Brasília, DF: Presidência da República, [2006]. BRASIL. Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014. Institui a Política Nacional de Cultura Viva e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [2014]. BRASIL. Lei nº 14.017, de 29 de junho de 2020. Dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020. Brasília, DF:Presidência da República, [2020]. BRASIL. Lei nº 14.150, de 12 de maio de 2021. Altera a Lei nº 14.017, de 29 de junho de 2020 (Lei Aldir Blanc), para estender a prorrogação do auxílio emergencial a trabalhadores e trabalhadoras da cultura e para prorrogar o prazo de utilização de recursos pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios. Brasília, DF: Presidência da República, [2021]. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 47 BRASIL. Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022. Institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fo- mento à Cultura. Brasília, DF: Presidência da República, [2022b]. BRASIL. Lei nº 14.835, de 4 de abril de 2024. Institui o marco regulatório do Sistema Nacio- nal de Cultura (SNC), para garantia dos direitos culturais, organizado em regime de cola- boração entre os entes federativos para gestão conjunta das políticas públicas de cultura. Brasília, DF: Presidência da República, [2024b]. BRASIL. Lei nº 14.903, de 27 de junho de 2024. Estabelece o marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Brasília, DF: Presidência da República, [2024c]. BRASIL. Lei nº 15.132, de 30 de abril de 2025. Altera a Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993 (Lei do Audiovisual), e a Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, para prorrogar benefícios fiscais nelas previstos, a Lei nº 13.594, de 5 de janeiro de 2018, para prorrogar o prazo para utilização do Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica (Recine), e a Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022 (Lei Aldir Blanc 2); e revoga a Medida Provisória nº 1.280, de 23 de dezembro de 2024. Brasília, DF: Presidên- cia da República, [2025a]. BRASIL. Lei nº 7.505, de 2 de julho de 1986. Dispõe sobre benefícios fiscais na área do im- posto de renda concedidos a operações de caráter cultural ou artístico. Brasília, DF: Presi- dência da República, [1986]. BRASIL. Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Restabelece princípios da Lei nº 7.505, de 2 de julho de 1986, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [1991]. BRASIL. Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993. Cria mecanismos de fomento à atividade au- diovisual e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [1993]. BRASIL. Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001. Estabelece princípios ge- rais da Política Nacional do Cinema, cria o Conselho Superior do Cinema e a Agência Na- cional do Cinema - ANCINE, institui o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Cinema Nacional - PRODECINE, autoriza a criação de Fundos de Financiamento da Indústria Cine- matográfica Nacional - FUNCINES, altera a legislação sobre a Contribuição para o Desen- volvimento da Indústria Cinematográfica Nacional e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [2001]. BRASIL. Ministério da Cultura. Implementação dos objetivos e investimentos da Política Nacional Aldir blanc de Fomento à Cultura – PNAb na Política Nacional Cultura Viva – PNCV: cartilha de orientações. Brasília, DF: MinC, 2024d. CALABRE, Lia (org.). Políticas culturais: diálogo indispensável. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2003. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 48 CVM. Fundos abertos x Fundos fechados. Portal do Investidor, 22 nov. 2022, 10h04min. Dis- ponível em: https://www.gov.br/investidor/pt-br/investir/tipos-de-investimentos/fun- dos-de-investimentos/fundos-abertos-x-fundos-fechados. Acesso em: 4 maio 2025. FERREIRA, Luisa Angelete; MACHADO NETO, Manuel Marcondes. Economia da cultura: con- tribuições para a construção do campo e histórico da gestão de organizações culturais no Brasil. 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Chegamos ao terceiro tópico do curso de Analista e Parecerista de Projetos Culturais. Agora que você já conhece a natureza desse trabalho e com- preende como ele pode ser impactado pelas diferentes políticas do campo da cultura, é hora de aprender como se dá o processo de candidatura para pleitear vagas de analista/parecerista junto aos entes federativos (estados e municípios). Trata-se de uma etapa que requer uma atenção especial e, sobretudo, uma lei- tura minuciosa dos instrumentos de chamamento (editais), uma vez que falhas ou deslizes no processo de inscrição podem invalidar a sua candidatura. Vamos aprofundar o conhecimento a respeito desse importante tema? Os objetivos deste tópico são: 1. Apresentar os critérios de avaliação mais comuns em editais para seleção de analistas/pareceristas. 2. Demonstrar as possibilidades de organização de currículo para a concorrência em editais de seleção. 3. Explicar o funcionamento dos processos de seleção e contratação de analistas/pareceristas. Unidades Temáticas do Tópico 3.1 Organização do currículo e dos documentos comprobatórios 3.2 A busca por oportunidades e o processo de candidatura CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 51 3.1 Organização do currículo e dos documentos comprobatórios Como você registra as atividades e os projetos que desenvolve profissionalmente? Como você organiza esses registros quando há a necessidade de expô-los ou encami- nhá-los para alguém? Assim como em vários outros ramos profissionais, a apresen- tação adequada e organizada de suas experiências e vivências é tarefa fundamental para a comprovação de que você atende aos requisitos necessários para ser habilita- do/a e/ou selecionado/a em um edital público de seleção de pareceristas. Evidentemente, a análise e emissão de parecer sobre projetos culturais é um trabalho que requer experiência no campo das artes e da cultura. Para atuar nessa esfera, conforme apontam Holanda,Oliveira e Martins (2021, p. 373-374), É preciso ser um conhecedor de determinada linguagem artística e, da mesma forma, ter a capacidade para analisar tecnicamente a viabilidade do projeto. Além disso, ser capaz de abordar estética e subjetivamente o produto que se pressupõe resultante da proposta. Acrescente-se a isso que é papel fundamental do parecerista exercer uma função peda- gógica ao explicitar ao proponente o que é preciso esclarecer e/ou aperfeiçoar no projeto proposto a fim de que seja salutar o seu desenvolvimento. A avaliação a respeito da qualidade, coerência e viabilidade de uma proposta cultural é tarefa complexa, demandando a mobilização de diferentes conhecimen- tos, tanto de ordem teórica (o domínio da legislação e dos saberes específicos de diferentes áreas) quanto de ordem prática (o saber técnico envolvido na execução de projetos e a atualização constante sobre o cenário cultural, o que inclui as ten- dências no campo da produção, as práticas de mercado etc.). Sendo assim, como CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 52 comprovar esses conhecimentos? A resposta é: através de um currículo objetivo e bem-organizado. De um modo geral, os editais de chamamento de pareceristas organizam a seleção por meio de um barema, isto é, um conjunto de critérios específicos de avaliação, a partir dos quais as candidaturas são pontuadas e classificadas. Uma mirada sobre os editais lançados em anos recentes, sobretudo os referentes a políticas de fomento como a Lei Aldir Blanc (LAB), a Lei Paulo Gustavo (LPG) e a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), permite a observação de alguns critérios que são bastante recorrentes em seleções desse tipo. A seguir, apresentamos uma lista com dez deles, para que você compreenda quais experiên- cias e comprovações serão mais relevantes no momento de organização do seu currículo/portfólio (quadro 1). Critério Descrição Formação acadêmica e titulação Esse critério diz respeito à titulação formal dos/as candidatos/as. Na maior parte dos editais, a pontuação máxima do critério de formação refere-se à conclusão de curso em nível de doutorado; outros editais, no entanto, pontuam também a realização comprovada de pós-doutorado. Alguns entes, ainda, não oferecem pontuação elevada nesse critério, uma vez que privilegiam a comprovação de conhecimentos práticos, ou seja, a atuação na área da cultura. Formação específica na área cultural Em alguns certames, não se pontua o nível de escolaridade de forma genérica, mas o fato de a formação ou qualificação ter sido realizada em áreas de conhecimento ligadas à cultura. Há, ainda, seleções em que se pontua a existência de notório saber, quando, apesar de não apresentar educação formal em nível superior, o/a candidato/a comprova larga atuação no setor cultural e, portanto, capacidade para realizar a avaliação de projetos. Formação em arte e cultura inclusiva O tema da acessibilidade é cada vez mais presente no âmbito das políticas culturais. O/a analista/parecerista precisa ter conhecimento e sensibilidade em relação a essa importante demanda. Nesse sentido, alguns certames pontuam candidatos/as com formação específica em temas ligados à inclusão, o que envolve não apenas as pessoas com deficiência, mas também outros grupos historicamente excluídos do universo da produção e da fruição cultural. Cursos livres realizados na área cultural A atualização constante sobre a legislação cultural e as tendências no âmbito da produção e da gestão cultural é elemento fundamental no currículo de um/a analista/parecerista. Por esse motivo, diversos editais pontuam a comprovação de cursos/capacitações nas áreas ligadas à cultura, geralmente em função da quantidade de declarações ou certificados apresentados, ou ainda em função da carga horária dessas formações. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 53 Critério Descrição Experiência profissional nas áreas da cultura Em geral, esse é o critério mais relevante em seleções de analistas/pareceristas, pois se refere à atuação prática no âmbito dos projetos culturais. Na maior parte dos casos, as pontuações mais elevadas são atribuídas a candidatos/ as que comprovam longa experiência nas áreas culturais: 10 anos, 15 anos ou mesmo 20 anos de atuação, a depender do edital. Quase sempre, há uma pontuação específica para cada ano de experiência devidamente comprovado. Experiência na produção/gestão de projetos culturais É comum que os editais pontuem candidatos/as com atuação comprovada na condição de produtores/as e/ou gestores/as de projetos na área cultural. Afinal, muitos/as pareceristas também concorrem como proponentes em editais de fomento. Muitas vezes, a pontuação desse critério é atribuída em função da esfera de atuação, considerando se o/a candidato/a desenvolveu projetos em âmbito municipal, estadual ou nacional. Experiência na elaboração e gestão de políticas culturais Muitos/as candidatos/as a parecerista também têm atuação comprovada na gestão de políticas culturais, seja na administração pública, em secretarias ou departamentos de cultura, seja em instâncias propositivas e/ou deliberativas, como os conselhos de cultura ou associações relacionadas ao setor. Em geral, essa pontuação é atribuída em função da esfera de atuação: municipal, estadual ou nacional. Experiência em avaliação/análise de projetos culturais Esse é um critério-chave em seleções desse tipo. A atuação prévia como parecerista possibilita atestar o conhecimento prático do/a candidato/a para a realização das tarefas de avaliação de projetos culturais. Nesse sentido, muitos editais estabelecem um parâmetro mínimo, exigindo a comprovação de uma determinada quantidade de atuações na análise de projetos como requisito para a própria inscrição no certame, sob pena de inabilitação. Experiência no trabalho com grupos em situação de vulnerabilidade social Em função da crescente demanda por inclusão, equidade e democratização que caracteriza as políticas culturais contemporâneas, alguns certames privilegiam profissionais com atuação comprovada junto a grupos em situação de vulnerabilidade social. Esse espectro abarca mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas idosas, grupos LGBTQIAPN+ e populações periféricas, por exemplo. Experiência profissional em projetos locais e/ou regionais A fim de valorizar a mão de obra local e garantir a avaliação por pessoas com maior conhecimento sobre o objeto das propostas, alguns municípios/estados incluem em suas seleções uma pontuação para profissionais que comprovam trabalhos realizados na própria região. Essa pontuação costuma ser baixa na comparação com outros critérios do barema, mas pode fazer a diferença em editais com uma concorrência maior, bem como no caso de possíveis empates. Quadro 1 – Critérios de avaliação recorrentes em seleções de pareceristas Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). A lista de critérios apresentada não pretende ser exaustiva, ou seja, não abarca todas as formas de avaliação que podem ser adotadas pelos entes federativos na seleção de pareceristas. No entanto, ela abrange os elementos mais relevantes para a composição do currículo de quem pretende se candidatar a uma vaga para atuar CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 54 na análise/avaliação de projetos culturais. O diagrama a seguir apresenta de forma resumida o conjunto dos critérios apresentados: Figura 7 – Critérios de seleção recorrentes em editais Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Mas como organizar essa documentação? Alguns editais lançados pelas secreta- rias e fundações de cultura contam com períodos de inscriçãobastante curtos, sobre- tudo quando esses órgãos precisam se adequar aos prazos estipulados em lei para a execução das políticas de fomento. Além disso, a depender dos critérios de avaliação e dos tipos de documentos solicitados em cada certame, os/as candidatos/as precisam lidar com uma quantidade enorme de declarações, certificados, peças de divulgação e outros materiais para comprovar as atividades apresentadas no currículo. A gestão de toda essa documentação comprobatória, quando realizada diante de um prazo exíguo, pode se tornar um trabalho extremamente cansativo, uma vez que demanda tempo e atenção consideráveis. Nesse sentido, se você pretende pleitear uma vaga no âmbito desses editais, é importante ter a sua documentação previamente catalogada. A forma mais adequada de realizar essa catalogação é criar um arquivo virtual para guardar os CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 55 documentos em pastas específicas. Assim, em caso de necessidade, a localização das comprovações será uma tarefa simples e rápida. Você pode adotar diferentes estratégias para a guarda de seus arquivos. Aqui, destacamos duas dessas possibilidades: a organização temática e a organização cronológica. No primeiro caso, os arquivos podem ser agrupados pelo tipo de ati- vidade a que se referem, pela área/linguagem cultural principal ou, ainda, pelos diferentes vínculos profissionais que você tem/teve ao longo de sua trajetória. Podemos pensar, por exemplo, em um arquivo virtual organizado em função dos critérios de avaliação que mencionamos anteriormente, dada a sua larga recorrên- cia nas chamadas públicas de seleção de pareceristas. Nesse caso, teríamos algo próximo da imagem a seguir (figura 8): Figura 8 – Catalogação temática de comprovações curriculares Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Outra forma de organizar os registros é a separação por ano ou período de atuação. Vale lembrar que, em muitos editais, o cômputo da pontuação para de- terminados critérios é realizado pela quantidade de anos de experiência que o/a candidato/a consegue comprovar. Assim, por exemplo, as atividades podem ser numeradas de acordo com a ordem em que foram executadas, dispostas numa lista única, ou inseridas em subpastas organizadas também por ordem de aconte- cimento, a depender da periodização adotada. Nesse caso, teríamos algo próximo do que se apresenta a seguir (figura 9): CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 56 Figura 9 – Catalogação cronológica de comprovações curriculares Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Apesar de apresentadas separadamente, essas duas formas de organização são complementares. Provavelmente, você precisará utilizar as duas ao gerenciar os seus arquivos, catalogando-os por tipo de trabalho e pelo período de realização. O que importa é que você tenha as suas atividades profissionais devidamente regis- tradas e comprovadas. Ao preparar a sua candidatura para algum edital, muito pro- vavelmente serão necessários ajustes, sobretudo no que se refere à disposição da documentação, caso haja um modelo solicitado pelo certame. Entretanto, esse será um trabalho muito mais simples se você tiver realizado a catalogação dos projetos executados e das demais experiências a serem comprovadas documentalmente. E o Currículo Lattes? Muitos/as pareceristas de cultura são também professores/as, pesquisadores/as ou profissionais com alguma vinculação ao campo acadêmico. Nesse âmbito, no Brasil, o Lattes é o modelo de currículo mais amplamente utilizado. No entanto, muito se tem questionado a validade do Currículo Lattes para o registro e a comprovação de atividades realizadas na área cultural. Apesar de seu direcionamento eminentemente acadêmico, o Lattes é aceito como registro curricular pela maior parte dos editais de seleção de pareceristas. Porém, recomenda-se a elaboração de um currículo específico para a participação nessas chamadas, uma vez que o Lattes, por sua extensão e especificidade, pode dificultar a localização de determinadas informações por parte das comissões de avaliação das inscrições, o que pode prejudicar o/a candidato/a ao longo do processo. Elabore seu currículo elencando as principais atividades desenvolvidas no âmbito da cultura. Considere organizar o documento tomando como referência os critérios de avaliação que apresentamos neste subtópico. Mantenha o seu arquivo em formato editável e em local seguro, a fim de que seja possível atualizá-lo sempre que um novo trabalho for realizado. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 57 É enorme a quantidade de padrões que o/a parecerista pode utilizar para ela- borar seu currículo. Nesse sentido, é importante notar que alguns editais já trazem como anexo um modelo para essa finalidade. Geralmente, esses modelos incluem espaço para os dados pessoais, a minibiografia do/a inscrito/a e as listas de ativida- des realizadas, a exemplo da gestão de projetos, de cursos na área cultural, de ex- periências anteriores como parecerista etc. Fique atento/a, pois a utilização desses modelos, quando existentes, costuma ser obrigatória, e o não atendimento a esse ponto pode levar à inabilitação da inscrição, sob a alegação de que as disposições do edital não foram seguidas. Em cada caso, vale a pena conferir se há um modelo específico de currículo sendo solicitado. A construção adequada de seu currículo possibilitará a participação em dife- rentes editais de seleção de pareceristas. A apresentação adequada de sua traje- tória não apenas facilita a identificação rápida e fácil das experiências por parte de quem avaliará o documento, mas também ajuda caso haja a necessidade de adaptações posteriores, sobretudo se for necessário transpor as informações para um novo modelo de currículo. Agora que você já conhece as experiências mais relevantes na composição do currículo de um/a analista/parecerista e já sabe como organizá-las de um modo cla- ro e objetivo, vamos compreender os elementos envolvidos na busca pelos editais de seleção, bem como os procedimentos comuns a serem realizados para a inscrição e acompanhamento desses processos. Pensando nisso, o próximo subtópico trata especificamente da fase de candidatura e das tarefas comumente envolvidas nessa importante etapa da rotina de um/a analista/parecerista. Vamos lá? CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 58 3.2 A busca por oportunidades e o processo de candidatura Você já sabe que, de um modo geral, as principais políticas públicas de fomento à cultura funcionam em um modelo de transferência de recursos, através de valores que são repassados pela União aos estados e municípios para a implementação e gestão de seus programas e projetos. É o que acontece, por exemplo, no caso da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), mecanismo que tem a finalidade de estruturar os entes federativos no que se refere à gestão pública da cultura. Nesse modelo, cada estado e cada município goza de relativa autonomia no que diz respeito à operacionalização dos seus recursos, e isso tem impacto direto nos processos de seleção e contratação de analistas/pareceristas. Ocorre que, em função dessa relativa autonomia, cada ente federativo adota procedimentos bastante diversos para selecionar aqueles/as que atuarão nas eta- pas de avaliação de propostas culturais. Essa variabilidade se reflete em elementos como os listados a seguir (quadro 2): Variável Descrição Meio de inscrição As inscrições nos editais de pareceristas podem ocorrer por diferentes meios. Os principais são: sistema próprio da secretaria ou fundação de cultura; formuláriopara preenchimento on-line, com link disponibilizado em edital; encaminhamento de documentação por e-mail; inscrição de forma presencial na sede do órgão (modalidade que, embora existente, é cada vez menos adotada). Público-alvo do certame Alguns órgãos demandantes lançam editais com inscrição restrita a um determinado perfil: alguns aceitam apenas inscrições de pessoas físicas; outros, apenas de pessoas jurídicas, incluindo microempreendedores individuais (MEIs). Entretanto, grande parte dos chamamentos não traz esse tipo de restrição, abrindo a oportunidade para inscrições por meio de CPF ou de CNPJ. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 59 Variável Descrição Apresentação do currículo Alguns editais aceitam modelos livres de currículo, enquanto outros apresentam um modelo específico a ser preenchido. Há, ainda, editais que limitam o número de páginas ou de comprovações curriculares a serem encaminhadas. Por fim, há aqueles que não permitem o encaminhamento das comprovações por meio de links, devendo o/a candidato/a encaminhar os documentos compilados. Documentação pessoal A documentação pessoal solicitada no ato da inscrição varia entre os editais, mas, no geral, os documentos mais comuns são a carteira de identidade (RG), o CPF e o comprovante de residência. Em algumas ocasiões são solicitados o comprovante dos dados bancários e o registro PIS/PASEP. Outros documentos específicos podem ser solicitados posteriormente, na fase de contratação. Documentação de regularidade Há certames em que a comprovação da regularidade da pessoa física ou jurídica é solicitada já na inscrição. Isso inclui documentos como as certidões negativas de débito, as certidões de dívida ativa, o certificado de regularidade do FGTS e a certidão de quitação eleitoral. Nesses casos, a apresentação das devidas comprovações é uma condição para a habilitação da candidatura. Etapas de seleção Em geral, as seleções seguem etapas bem definidas, envolvendo as fases de habilitação, homologação das inscrições e classificação (ranqueamento). Alguns certames ainda preveem a etapa de sorteio público para definição da ordem de convocação; nesses casos, a pontuação serve para identificar aqueles/as que atingem a nota de corte definida em edital e estão aptos/as para o sorteio. Quadro 2 – Variáveis presentes em seleções de pareceristas Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Fica a Dica! Certidões Negativas de Débito (CNDs) Por força de lei, a pessoa física ou jurídica que presta serviços à administração pública deve, no ato de sua convocação/contratação, comprovar que está em situação de regularidade fiscal junto ao seu município e estado de domicílio, bem como junto à União ou ao Ministério do Trabalho, sob pena de ter sua convocação anulada. No entanto, diversos entes solicitam essa comprovação no próprio ato da inscrição no certame. As certidões negativas de débito (CNDs) são os documentos que atestam essa situação de regularidade, indicando que a pessoa não apresenta impedimentos para ser contratada e não tem pendências vinculadas ao seu CPF ou CNPJ. Em geral, as certidões negativas são disponibilizadas na internet, e a emissão pode ser realizada de forma bastante rápida. São documentos com data de validade, geralmente de três ou seis meses. Se você deseja se candidatar para atuar como parecerista, uma dica importante é manter uma pasta com suas certidões sempre atualizadas. Dessa forma, não será necessário realizar uma nova emissão em cada novo processo de seleção. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 60 É importante pontuar que o ofício de analista/parecerista é afetado por diver- sos problemas existentes nas estruturas de gestão dos entes federativos, o que in- clui questões como a escassez de recursos humanos nas secretarias, o excesso de burocracia, a falta de transparência, a baixa informatização dos processos etc. Em termos práticos, isso significa que o/a profissional inscrito/a e/ou contratado/a po- derá lidar com imprevistos como atraso na publicação dos resultados da seleção, tempo curto para a execução dos trabalhos de avaliação e mesmo certa demora na tramitação dos processos de pagamento. Trata-se de problemas ligados à gestão cultural de um modo geral, campo que, apesar dos avanços obtidos com a forte re- tomada das políticas públicas de cultura em anos recentes, ainda está em vias de institucionalização e profissionalização. Um exemplo disso é o fato de que muitos estados e municípios não têm o setor cultural como uma pasta específica de gestão, contando com secretarias e departamentos em que a cultura divide espaço com outras políticas, a exemplo da educação, do turismo, do esporte e do lazer. O/a pro- fissional que deseja atuar como parecerista deve estar ciente desses entraves ao se inscrever em um edital. Mas como localizar os editais e saber o que é exigido para a inscrição em cada caso? Essa é uma ação que requer algumas estratégias importantes. Como há mui- tas secretarias e fundações estaduais e municipais que contratam pareceristas para seus processos, o lançamento dos chamamentos varia, evidentemente, em função dos cronogramas de trabalho de cada um desses órgãos. Assim, na práti- ca, o/a profissional que trabalha como analista/parecerista de projetos culturais precisa estar sempre atento/a às oportunidades de atuação que surgem ao longo do ano. Quase sempre, as secretarias estaduais realizam uma divulgação mais ostensi- va de seus chamamentos para a seleção de pareceristas, isso porque esses órgãos costumam contar com uma estrutura mais robusta no que se refere aos seus sis- temas de comunicação. Inclusive, é comum encontrar matérias sobre esses cha- mamentos em outros veículos de notícias da localidade. Infelizmente, isso nem sempre acontece no caso dos chamamentos municipais, que costumam circular em meios mais restritos, com menor visibilidade. Essa situação se torna mais eviden- te em municípios menores, com estruturas de gestão mais simplificadas, como já comentamos anteriormente. Uma orientação importante nesse sentido é tentar localizar os editais a partir de pesquisas em buscadores na internet, como o Google, o Bing ou o Yahoo, através da utilização de palavras-chave, como nos exemplos presentes na imagem a seguir: CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 61 Figura 10 – Busca por seleções de analista/parecerista Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). É importante que as palavras-chave utilizadas tenham um certo refinamento, direcionando a procura para o tema da cultura ou para uma política cultural em particular, uma vez que a simples busca a partir de termos genéricos, como “ava- liador” ou “parecerista”, pode direcionar a pesquisa para resultados não desejados, referentes ao cadastro de avaliadores em periódicos científicos, ou ainda matérias relacionadas ao trabalho de pareceristas no setor jurídico. Caso você esteja buscando ou aguardando seleções de um estado ou muni- cípio específico, essa pesquisa pode ser ainda mais direcionada. Nesse caso, vale a pena acessar o portal oficial da administração estadual/municipal e localizar a página da secretaria ou fundação de cultura, onde geralmente são publicados os documentos referentes às seleções, como os editais, as erratas, os anexos obri- gatórios e os comunicados relacionados ao processo: lista de inscritos/as, lis- ta de habilitados/as, orientações para recursos e resultado final. Se essas infor- mações não estiverem atualizadas nas respectivas páginas, vale a pena fazer uma busca no diário oficial do estado ou município, veículo em que, por determina- ção legal, os entes federativos devem publicar todos os atos oficiais, garantindo atransparência de seus trabalhos. Os diários oficiais geralmente possibilitam a busca de matérias específicas, com resultados que podem ser filtrados por tipo de docu- mento, palavra-chave e/ou período de publicação. Aliás, acompanhar o andamento das seleções é uma tarefa de extrema impor- tância. Muitos órgãos podem não notificar os/as inscritos/as sobre as atualizações dos processos. As etapas de habilitação e classificação preliminar incluem, via de regra, um prazo determinado para o encaminhamento de recursos por parte dos/as candidatos/as, caso algum documento não tenha sido considerado ou caso alguma CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 62 nota não tenha sido devidamente contabilizada, por exemplo. Assim, é fundamental estar atento/a para não perder esses prazos. Também vale a orientação para consul- tar periodicamente as páginas dos órgãos de cultura e os diários oficiais. Muitos editais trazem o modelo de recurso como um de seus anexos; nesses ca- sos, é obrigatório segui-lo. Mas isso nem sempre acontece: há processos em que o/a candidato/a pode utilizar o seu próprio modelo de documento, ou ainda encaminhar o texto do recurso no próprio corpo do e-mail. É importante consultar o edital, que quase sempre traz uma seção explicando a sistemática adotada para essas etapas. De qualquer forma, o recurso é um elemento importante para que sejam sanadas possíveis falhas do processo de avaliação das inscrições por parte das comissões de seleção, bem como para que a avaliação dos/as inscritos/as seja realizada de modo justo e isonômi- co. Abaixo apresentamos um exemplo de texto para um possível recurso. Ao utilizá-lo, você deve adaptar o conteúdo para contemplar as características do edital em questão e para considerar os critérios de avaliação que forem objeto de contestação (figura 11). Figura 11 – Exemplo de recurso Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 63 Finalizadas as etapas de habilitação e classificação, com os respectivos períodos de recurso, a seleção está finalizada. Com isso, o órgão demandante gera um banco de pareceristas, e esses/as profissionais aguardam a convocação para atuar, o que ocorre, muitas vezes, de forma imediata. Alguns certames trabalham com o sistema de rodízio, que funciona da seguinte forma: um/a parecerista, tendo sido contrata- do/a e tendo realizado seu trabalho, só pode ser novamente convocado/a depois de oportunizada a participação de todos/as os/as candidatos/as credenciados/as. A convocação para o trabalho consiste em uma comunicação formal do órgão demandante encaminhada diretamente para o endereço eletrônico do/a parecerista credenciado/a, ou ainda publicada em diário oficial. No ato da convocação, devem ser informados todos os elementos importantes para a realização das avaliações: linguagem/área/eixo cultural, quantidade de propostas a serem avaliadas, prazo para a realização do serviço e valor a ser recebido, bem como outras orientações pertinentes para a execução do trabalho. Quando convocados/as, os/as credencia- dos/as têm, geralmente, um prazo entre dois e cinco dias para manifestar o aceite e a concordância com as condições de trabalho colocadas. Por isso, é essencial que todos os detalhes para a realização da atividade sejam devidamente apresentados no ato da convocação, a fim de evitar futuras desistências ou contratempos cau- sados por uma comunicação pouco eficiente, o que pode ocasionar problemas de diversos tipos no andamento dos editais de fomento, sobretudo atrasos em relação aos cronogramas previamente divulgados. A assinatura do contrato de serviço ou do termo de execução, após o aceite por parte do/a candidato/a convocado/a, é uma etapa extremamente importante desse processo. O contrato/termo é um instrumento que confere segurança jurídica ao/à parecerista na execução de suas atribuições. Nele devem estar ratificadas todas as condições de trabalho que foram previamente apresentadas na convocação. Assim, é imprescindível que o ato de assinatura (pelo/a credenciado/a e pelo órgão, com a devida devolutiva da versão assinada) aconteça antes do início do período de ava- liações, não durante ou depois dele. ATENÇÃO! A assinatura do contrato de trabalho para a execução do serviço deve sempre acontecer antes do início das avaliações. Em alguns casos, devido ao curto tempo para a operacionalização dos editais (geralmente por conta dos prazos definidos para o uso dos recursos destinados às políticas de fomento), alguns órgãos demandantes tendem a adiantar o processo, solicitando que os/ as profissionais pareceristas iniciem seus trabalhos enquanto os contratos são elaborados pelas equipes administrativas. Muitas vezes, esses instrumentos não são elaborados pela própria secretaria ou fundação de cultura, mas por outros setores da prefeitura ou do governo estadual, como o setor de contratos e licitações. Em todo caso, é importante que o/a parecerista esteja atento/a a essa situação para cobrar que a assinatura do documento seja realizada com a maior brevidade possível. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 64 Observadas todas as etapas burocráticas do processo de contratação, a avalia- ção das propostas culturais pode ser iniciada. Essa etapa, comumente designada como “etapa de análise de mérito”, consiste no período estipulado para que os/ as analistas/pareceristas realizem a avaliação dos projetos encaminhados pelos/ as proponentes que realizaram a inscrição em um determinado edital. Em geral, os órgãos demandantes convocam os/as pareceristas contratados/as para a participa- ção em uma reunião de alinhamento, com o objetivo de apresentar a sistemática a ser adotada nas avaliações, bem como para dirimir possíveis dúvidas da equipe de avaliação acerca do andamento dos trabalhos. A etapa de análise de mérito é pautada na avaliação das propostas em função de diferentes critérios de avaliação já previstos no chamamento público. São crité- rios que dizem respeito, sobretudo, à qualidade e à viabilidade técnica dos projetos apresentados, a partir da verificação de elementos fundamentais desses projetos, como a planilha orçamentária, o cronograma e o plano de divulgação, por exemplo. No próximo tópico do curso, você compreenderá o significado e a importância des- ses critérios de avaliação, conhecendo aqueles que são mais comuns em chama- mentos públicos no âmbito da cultura, e aprenderá o que deve ser levado em conta na análise de cada um deles. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 3 PLEITEANDO UMA VAGA ORGANIZAÇÃO DE PORTFóLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS 65 Referências CEREZUELA, David Roselló. Planejamento e avaliação de projetos culturais. São Paulo: Edi- ções Sesc, 2015. HOLANDA, Claudia; OLIVEIRA, Cristiana Marques de; MARTINS, Ana Silveira. Um olhar de fora: a emergência do parecerista externo na análise de projetos em editais de fomento à cul- tura. In: KAUARK, Giuliana; NUSSBAUMER, Gisele (coord.). Diálogos sobre gestão cultural. Salvador: Pinaúna, 2021. p. 372-386. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS Analisando o projeto PONTOS DE ATENÇÃO TÓPICO 4 Olá, estudante! Seja bem-vindo/a ao quarto tópico do curso de Analista e Parece- rista de Projetos Culturais. A atuação como analista/parecerista exige que esse/a profissional compreenda/domine os principais pontos de um edital, o que cabe em sua avaliação e quais são as especificidades técnicas vinculadas ao produto cultural. É o que veremos nesta etapa do curso. Vamos lá? Os objetivos deste tópico são: 1. Apresentar os principais pontos de análise de um projeto, tendo os editais de fomento como ponto de partida.2. Discutir o processo de avaliação e as especificidades técnicas de um produto para a realização da análise e emissão de parecer. Unidades Temáticas do Tópico 4.1 Critérios de análise de um projeto cultural 4.2 As especificações técnicas do produto cultural CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 68 4.1 Critérios de análise de um projeto cultural Após ter sido apresentado/a às características e à relevância do trabalho do/a analista/parecerista, ao contexto das políticas culturais no país e ao processo de can- didatura para a função, é o momento de observar os principais critérios de uma análise qualitativa, levando em consideração os editais lançados pelo Ministério da Cultura. Lembramos que o fomento direto é entendido como o recurso disponibilizado diretamente pelo Estado, ou até por meio da iniciativa privada. Já o fomento indireto ocorre a partir da autorização do abatimento fiscal, em que o Estado se torna o cer- tificador do projeto cultural, permitindo que as empresas utilizem parte do imposto devido para investir na área da cultura. Logo, há pontos importantes que devem ser observados pelo analista/parece- rista durante a análise de um projeto. O primeiro deles refere-se ao local de resi- dência do/a proponente e da equipe técnica, como também ao tempo mínimo de permanência neste, conforme determina o edital ou a legislação em vigor. Existem editais que optam também por atribuir pontos extras para aqueles projetos cujos componentes moram na mesma localidade, colaborando para o incremento da eco- nomia criativa local. O segundo quesito a ser observado diz respeito à personalidade da inscrição: se pessoa física (pessoa natural) ou jurídica (empresa, associação sem fins lucrativos). Trata-se da pessoa que, ao se inscrever, se apresenta como proponente, para que possa agir na esfera jurídica como titular da relação do projeto com o município ou o estado. Ressaltamos que a pessoa jurídica deve possuir atividades econômicas de natureza cultural, o que pode ser observado no código da descrição da atividade na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 69 Fica a dica! É importante que você procure um/a contador/a para se informar a respeito dos diferentes perfis de pessoa jurídica, bem como as obrigações fiscais e necessidades mensais, pois é preciso estar apto/a a submeter (e a analisar) um projeto cultural subsidiado, seja por meio de fomento direto ou indireto. Acrescenta-se a essa relação o coletivo cultural (reunião de pessoas que traba- lham coletivamente em prol de uma mesma causa, sendo amplamente reconhecida pelos seus pares), representado por uma pessoa física no ato de submissão da pro- posta cultural, por meio de uma declaração assinada pelo coletivo. A verificação da modalidade da inscrição (pessoa física, pessoa jurídica ou cole- tivo cultural) é importante no processo de avaliação, sobretudo porque, em alguns chamamentos públicos, os órgãos de cultura estabelecem critérios diferenciados de análise em função da personalidade do/a proponente. Na avaliação de projetos culturais, as ações afirmativas também são observa- das, tendo em vista as cotas previstas em editais públicos, especialmente aqueles de fomento direto, como mecanismo de reserva de vagas para assegurar a inclusão e a participação dos diversos grupos sociais. Nesse sentido, podemos dar destaque às pessoas com deficiência, negros/as, indígenas, mulheres e idosos/as, conforme o que está previsto no § 4º do art. 4º da Lei Federal nº 14.903, de 27 de junho de 2024: As ações afirmativas e reparatórias de direitos poderão ser realizadas por meio do lan- çamento de editais específicos, de linhas exclusivas em editais, da previsão de cotas, da definição de bônus de pontuação, da adequação de procedimentos relativos à execução de instrumento ou prestação de contas, entre outros mecanismos similares direcionados a territórios, povos, comunidades, grupos ou populações específicos (Brasil, 2024c). Outro quesito que garante pontuação extra são os projetos inscritos por agentes culturais que representam determinados grupos sociais: mulheres, pessoas negras, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, ciganos/as, cam- poneses/as, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, pessoas idosas, pessoas em situação de rua e outros grupos minorizados socialmente. Essa possibilidade está em consonância com o previsto no artigo 12 da Instrução Normativa MinC nº 10, CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 70 de 28 de dezembro de 2023. Importante dizer que o/a proponente deverá comprovar as informações elencadas acima através de declarações demandadas no ato da ins- crição, sendo que estas deverão estar disponíveis para o/a analista/parecerista que fará a conferência dos dados. Saiba Mais Ações afirmativas e medidas de acessibilidade na PNAB A Instrução Normativa MinC nº 10, de 28 de dezembro de 2023, dispõe sobre as regras e os procedimentos para implementação das ações afirmativas e medidas de acessibilidade no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). Vale a pena conferir esse material, uma vez que a PNAB representa a principal política cultural de fomento direto atualmente em vigor no Brasil. SAIBA MAIS Há entendimentos divergentes sobre as temáticas apresentadas acima, pois algu- mas secretarias/fundações, através de leis de incentivo e editais públicos, delegam ao/à analista/parecerista a responsabilidade de conferir e analisar os documentos anexados no ato da inscrição e pontuar sobre os critérios informados, o que pode ocasionar inter- pretações diferentes. Nesses casos, as análises documentais são entendidas como parte da avaliação de mérito cultural. É necessária a definição de um regramento consensual pelo país sobre os limites da atuação do/a profissional analista/parecerista. ATENÇÃO! Em alguns processos de seleção, os órgãos demandantes solicitam dos/as pareceristas a análise das inscrições no que se refere ao enquadramento dos/as proponentes em determinados grupos, com a finalidade de organizar o preenchimento das vagas reservadas, conforme previsto nos editais, ou de atribuir pontuações extras aos/às candidatos/as, os chamados “indutores”. Essa tarefa pode envolver, da parte dos/as pareceristas, a análise de documentos de identificação, declarações étnico-raciais, documentação comprobatória do pertencimento a comunidades específicas, laudos médicos para pessoas com deficiência ou outras necessidades específicas etc. É importante ressaltar que essa verificação documental foge ao escopo da análise de mérito de um projeto cultural, não sendo, a priori, tarefa do corpo de pareceristas, que deve centrar suas avaliações naqueles aspectos que impactam mais diretamente a fase de execução do projeto. Em geral, a responsabilidade da avaliação documental recai sobre a secretaria ou fundação de cultura. Assim, é importante que haja um diálogo, ainda na fase inicial do processo de contratação, no sentido de definir quais tarefas cabem a cada uma das partes envolvidas. Além disso, os editais de seleção de pareceristas costumam apresentar uma cláusula na qual são colocadas as atribuições desses/as profissionais nos processos em questão, e é importante que essas disposições sejam rigidamente observadas. https://www.gov.br/cultura/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao-e-normativas/instrucao-normativa-minc-no-10-de-28-de-dezembro-de-2023 CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 71 Avançando um pouco mais, há a previsão da contrapartida social. Nesse aspec- to, alguns editais demandam do/a analista/parecerista observar se o projeto é de interesse público, a fim de proporcionardividendos culturais à comunidade. O/a parecerista necessita observar os benefícios a serem proporcionados por meio do financiamento recebido, possibilitando o acesso gratuito e irrestrito da população. Dentre esses benefícios, podemos citar cursos, bate-papos, debates, palestras, wor- kshops, mesas-redondas, bem como outras possibilidades detectadas pelo/a pro- ponente durante o processo de elaboração do projeto. Também em relação a esse elemento de análise, há entendimentos divergentes, pois nem todos os chamamen- tos exigem a previsão de uma ação de contrapartida por parte dos/as proponentes. De acordo com o Art. 49 da Instrução Normativa MinC nº 23, de 5 de fevereiro de 2025, por exemplo, a contrapartida social só será demandada caso o projeto preveja venda de ingressos (Brasil, 2025b). Outro dado relevante é a acessibilidade. Os projetos culturais devem prever ações dedicadas à promoção de acessibilidade arquitetônica, atitudinal e comuni- cacional, de acordo com o tipo de linguagem artística do projeto cultural (Lei Federal nº 13.146, de 6 de julho de 2015). Caberá ao/à analista/parecerista observar esses aspectos e pontuá-los, a partir das ações planejadas pelo/a proponente e da pre- visão orçamentária. Vejamos alguns dos aspectos a serem considerados no quesito acessibilidade (figura 12): Figura 12 – Quadro-resumo: acessibilidade Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 72 Outro quesito a ser analisado refere-se ao currículo e ao portfólio do/a pro- ponente/equipe (pessoa física, jurídica ou coletivo), ou seja, ao histórico com as informações do/a proponente que ratifiquem suas experiências na área finalísti- ca, através de clipping, fotos e materiais oficiais dos produtos. Além disso, alguns chamamentos preveem pontuação para os currículos em função do tempo de ex- periência comprovada na área, sobretudo em editais que se destinam à premiação de agentes culturais. Assim, é fundamental que as comprovações curriculares enca- minhadas pelos/as proponentes no ato da inscrição possibilitem a verificação, por parte da comissão de avaliação, de informações como data, ano e local de realização das atividades. Para a atuação como analista/parecerista de projetos culturais, é importante observar que os entes federativos podem operacionalizar suas políticas de cultura por meio do lançamento de editais para a seleção de projetos em diferentes mo- dalidades de fomento. Assim, o/a analista/parecerista deve se certificar de que o material submetido contempla as características da modalidade em questão, se está alocado na linguagem artística de inscrição e se os itens descritos apresentam coe- rência entre si. Vamos conhecer cinco dessas modalidades: fomento para concessão de bolsas culturais; fomento a projetos culturais; fomento para realização de ações continuadas; fomento para subsídio à manutenção de espaços, ambientes e inicia- tivas artístico-culturais; fomento para concessão de premiações a agentes culturais. • Fomento para concessão de bolsas culturais De acordo com a Lei nº 14.903/2024 (Marco Regulatório do Fomento à Cultura), a concessão de bolsas culturais visa promover ações culturais de estudos e pesquisas, podendo abranger atividades como: I - participação em eventos estratégicos no território nacional ou no exterior, tais como feiras, mercados, festivais e rodadas de negócios; II - intercâmbios e residências artísti- cas, técnicas ou em gestão cultural; III - projetos de pesquisa para a criação de obras e espetáculos artísticos; IV - cursos de capacitação profissional, extensão, graduação, es- pecialização, mestrado ou doutorado; V - ações de circulação estadual, regional, nacional ou internacional; VI - outras ações de promoção, memória, patrimônio cultural, difusão e capacitação na área da cultura (Brasil, 2024c). Na avaliação para a concessão de bolsas, é necessário observar os aspectos intrínsecos às ações de promoção, difusão, circulação, intercâmbio, residência cul- tural e similares. Nessa modalidade devem-se analisar de modo aprofundado os CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 73 seguintes pontos: a metodologia utilizada, os/as autores/as referenciados, o recorte estético, os objetivos da ação, os resultados esperados e os possíveis produtos a serem criados. O olhar do/a analista/parecerista de projetos culturais deve levar em consideração a coerência descritiva da proposta. Na etapa classificatória, alguns edi- tais ainda demandam o envio de um vídeo explicativo, em torno de três minutos, refe- rente à defesa oral do projeto, como apoio à análise textual. O material serve para o/a analista/parecerista perceber a perspectiva do/a proponente sobre o projeto escrito, além de possibilitar um maior entendimento dos elementos discutidos no material. • Fomento (direto e indireto) à execução de projetos culturais A modalidade de fomento à execução de projetos é o tipo mais comum de chamamento público no âmbito das políticas culturais. Os editais lançados pelas secretarias e fundações podem ser genéricos, prevendo a seleção de ações em diferentes áreas, ou temáticos, visando a seleção de propostas vol- tadas para uma linguagem artística ou campo específico da cultura. De acor- do com o Chamamento Público nº 6/2024 - Edital de Fomento à Execução de Ações Culturais (PNAB), da cidade de Novo Hamburgo/RS, pode-se caracteri- zar um projeto cultural como [...] um instrumento técnico, estratégico e de comunicação, que reúne um conjunto de ações e atividades temporárias e inter-relacionadas, possuindo como eixo central a cul- tura e as artes, quaisquer que sejam as linguagens artísticas. O projeto tem como obje- tivo produzir, como resultado, o desenvolvimento de um produto cultural, incluindo os serviços, as ações e os resultados culturais. O projeto cultural deve apresentar todas as informações e documentos necessários para a compreensão do que se pretende fazer, de como será feito, quanto custará, a quem se destinará, com quem será e quando acontece- rá, sendo escrito com textos articulados e coerentes (Novo Hamburgo, 2024). Portanto, o projeto é a entrega formalizada da proposta submetida no ato da inscrição, que será objeto de análise pela comissão de seleção. Nesse sentido, o projeto deve valorizar aspectos estéticos, bem como os referenciais que constituem o produto. Ainda se deve observar o recorte temático e a relação da proposta com o território/setor produtivo ao qual ela está vinculada. • Fomento para a realização de projetos continuados e pontos de cultura Essa modalidade destina-se a fomentar projetos que apresentam ações con- tinuadas, de modo que o recurso repassado objetiva o fortalecimento das ati- vidades do setor cultural. No tocante aos pontos de cultura, estes referem-se CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 74 a entidades culturais ou coletivos culturais certificados como tal pelo Minis- tério da Cultura, conforme a Instrução Normativa MinC nº 08, de 11 de maio de 2016. Ressalta-se que, atrelada aos pontos de cultura, temos a Rede Cultura Viva, definida no inciso X do art. 3º da referida Instrução Normativa como o [...] conjunto de todos os Pontos e Pontões de Cultura, órgãos públicos envolvidos na política, instâncias de participação, em âmbito federal, estadual, do Distrito Federal, e municipal, instituições parceiras, gestores públicos, lideranças, grupos, coletivos e redes, em âmbito nacional e internacional, com atuação solidária e de cooperação em rede de bens, serviços, tecnologias e conhecimentos, que atuam em prol da cidadania e da diver- sidade cultural e tenham sido contemplados por ações vinculadas à PNCV, ou que sejam parceiros na execução dessas ações. Também sobre os projetos dedicados à continuidade dos pontosde cultura, o/a parecerista deverá analisar: (1) contribuição para a formação e educação cultu- ral: aprofundamento metodológico a partir do programa criado e do envolvimento territorial; (2) contribuição para a fruição artístico-cultural: promoção de eventos/ festivais para compartilhamento das ações em desenvolvimento com o território e outras regiões; (3) registro e divulgação: publicização das ações construídas, consi- derando o público-alvo definido e sua relação com o território. • Fomento para subsídio à manutenção de espaços, ambientes e iniciativas ar- tístico-culturais Essa modalidade refere-se à concessão de fomento com a finalidade de sub- sidiar espaços “organizados e mantidos por pessoas, organizações da so- ciedade civil, microempresas culturais, organizações culturais comunitárias, cooperativas com finalidade cultural e instituições culturais sem fins lucra- tivos que tenham pelo menos 2 (dois) anos de funcionamento regular com- provado e que se dediquem a realizar atividades artísticas e culturais”, de acordo com a Lei nº 14.399/2022 (Brasil, 2022b). Nesse caso, são admitidos gastos com energia elétrica, água, segurança, limpeza, entre outros, os quais são considerados “atividades-meio”, pois garantem a manutenção das ativi- dades desenvolvidas. Já as “ações finalísticas” são aquelas que representam a finalidade da existência do espaço ou das ações, ou seja, as atividades que de fato compõem a programação do ambiente artístico-cultural. Consideram-se espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais, nos ter- mos da Lei nº 14.399/2022: CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 75 I - pontos e pontões de cultura; II - teatros independentes; III - escolas de música, de capoeira e de artes e estúdios, companhias e escolas de dança; IV - circos, inclusive iti- nerantes; V - cineclubes; VI - centros culturais, casas de cultura e centros de tradição regionais; VII - museus comunitários e centros de memória e patrimônio; VIII - bibliotecas comunitárias; IX - comunidades e povos indígenas e seus espaços, ambientes e iniciati- vas artístico-culturais; X - centros artísticos e culturais afro-brasileiros e cultura gospel; XI - comunidades quilombolas e seus espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais; XII - povos e comunidades tradicionais e seus espaços, ambientes e iniciativas artísti- co-culturais; XIII - teatro de rua e demais expressões artísticas e culturais realizadas em espaços públicos; XIV - livrarias, editoras e sebos; XV - empresas de diversão e produção de espetáculos; XVI - estúdios de fotografia; XVII - produtoras de cinema e audiovisual; XVIII - ateliês de pintura, de moda, de design e de artesanato; XIX - galerias de arte e de fo- tografias; XX - feiras permanentes de arte e de artesanato; XXI - espaços de apresentação musical; XXII - espaços de literatura, de poesia e de literatura de cordel; XXIII - espaços e centros de cultura alimentar de base comunitária e agroecológica e de culturas originá- rias, tradicionais e populares; XXIV - outros espaços, ambientes, iniciativas e atividades artístico-culturais [...] (Brasil, 2022b). Observa-se, portanto, que são diversos os espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais que podem receber subsídios no âmbito das políticas de fomento. Na avaliação de propostas em editais dessa modalidade, caberá ao/à parecerista analisar a pertinência das “atividades-meio” em função das “ações finalísticas” no espaço/ambiente, levando em consideração elementos como custos fixos, referên- cias de mercado etc., bem como a significação e a representatividade da iniciativa para o(s) território(s) ao(s) qual(is) essas ações serão destinadas. • Fomento para concessão de premiações a agentes culturais Essa modalidade de fomento, nos termos do artigo 22 da Lei nº 14.903/2024, “[...] visa a reconhecer relevante contribuição de agentes culturais para a cul- tura nos âmbitos nacional, estadual, distrital ou municipal”. Ainda de acordo com a mesma lei, que estabelece o Marco Regulatório do Fomento à Cultura, a premiação concedida tem “[...] natureza jurídica de doação sem encargo, sem estabelecimento de obrigações futuras”. Ou seja, ao receber um prêmio, o/a agente não assume a responsabilidade pelo desenvolvimento de ações culturais, uma vez que o recurso recebido refere-se ao reconhecimento das ações já desenvolvidas ao longo de sua trajetória. Em alguns casos, principal- mente em municípios pequenos, os editais de premiação têm caráter genérico, abrangendo agentes culturais atuantes em diferentes linguagens; em outros casos (municípios maiores ou estados), esses editais podem ser segmentados, CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 76 destinados a grupos de áreas específicas, como cultura negra, cultura indíge- na, povos tradicionais, mestres e mestras da cultura popular etc. Ao atuar na análise e na emissão de pareceres para um edital específico, o/a profissional analista/parecerista deve se guiar pelos aspectos que são de funda- mental importância em cada modalidade. Deve-se levar em conta, por exemplo, que, a depender da modalidade, os critérios de avaliação serão diferenciados, sobretudo quando se consideram os editais de premiação e de subsídio à manutenção de es- paços culturais. Tudo isso está atrelado às características das ações e produtos que o/a proponente planeja desenvolver, conforme cada caso. É o que veremos a seguir. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 77 4.2 As especificações técnicas do produto cultural Caberá ao/à parecerista, também, observar a coerência e a relevância da pro- posta apresentada, tendo em vista a avaliação do projeto construído em face dos produtos culturais que serão desenvolvidos. Assim, para melhor entendimento dos elementos que podem ser analisados em um projeto, é importante observar os que- sitos referentes às especificações técnicas desses produtos. Para a apresentação desses elementos, utilizaremos as definições propostas pelo Governo Federal nos documentos que norteiam a execução da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), sendo esse padrão largamente replicado nos editais de vários estados e municípios em todo o Brasil, conforme segue: • Coerência entre objeto, objetivos, justificativa e metas do projeto A análise deverá considerar, para fins de avaliação e valoração, se o conteú- do do projeto apresenta coerência, observando o objeto, a justificativa e as metas, diante dos resultados que serão obtidos. Nesse aspecto, caso infrinja o recorte do objeto do edital, a proposta poderá ser desclassificada, pois não atende os princípios norteadores, destacados no preâmbulo do edital e nas leis de incentivo à cultura. Observe que aqui é estruturante que o/a propo- nente aprofunde os fundamentos/referenciais estéticos e as necessidades técnicas da linguagem escolhida. Nesse sentido, o/a analista/parecerista de projetos culturais deve estar atento/a aos elementos supracitados e ao que prevê o edital. Já os objetivos necessitam ter afinidade com o objeto propos- to e com as políticas culturais em vigor. Lembramos que as metas do projeto necessitam ser exequíveis e que elas servirão como mecanismo de avaliação quanto ao cumprimento da proposição, cabendo ao/à parecerista observar a sua conexão direta com o objeto. Por fim, a justificativa necessita apresentar CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 78 o referencial temático, através do cruzamento entre os dados da proposta, quantitativos e qualitativos, e a política de fomento em questão. • Coerência do plano de divulgação com o cronograma, os objetivos e as metas do projeto proposto A análise deverá avaliar os aspectos técnicos do projeto, relacionando-os com6 tema. Você conhecerá a caracterização geral dessa função, compreendendo a impor- tância desse/a profissional no âmbito das políticas públicas de cultura. Além disso, o/a analista/parecerista é um/a profissional que, dada a natureza de sua função, atua como agente público/a, prestando um serviço ao Poder Público na execução das po- líticas culturais. Nesse sentido, discutiremos como esse importante trabalho se sub- mete aos princípios gerais que regem a atividade da administração pública no Brasil. No segundo tópico você encontrará uma retrospectiva das políticas culturais no Brasil, seguindo uma estrutura cronológica, a partir da criação do Ministério da Cultura, em 1985. É a partir desse momento que passamos a vislumbrar ações mais organizadas por parte do Estado. Apresentaremos a implementação da Lei Sarney (Lei nº 7.505/1986), que logo foi descontinuada com a entrada do governo Collor; a promulgação da Constituição Federal (1988) e a definição dos artigos 215 e 216, que orientam a estrutura da política cultural brasileira. Ainda veremos a implementa- ção de duas leis decisivas e existentes até os dias de hoje: a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) e a Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993). Além disso, entenderemos as diversas políticas culturais implementadas a par- tir do primeiro governo Lula, pautadas na mobilização de práticas encontradas nos diversos espaços de produção de cultura do país, bem como a implementação do Sistema Nacional de Cultura, que contribuiu para uma articulação com estados, mu- nicípios e Distrito Federal. Também abordaremos os esforços do Governo Federal para auxiliar o setor artístico-cultural a partir da pandemia de covid-19, com a im- plantação da Lei Aldir Blanc (Lei nº 14.017/2020), da Lei Paulo Gustavo (Lei Comple- mentar nº 195/2022) e, finalmente, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Lei nº 14.399/2022). No terceiro tópico, você adquirirá conhecimentos importantes sobre o funciona- mento dos processos de seleção de analistas/pareceristas. Para pleitear uma vaga, é fundamental saber como são gerenciadas e operacionalizadas as diferentes etapas dos editais. Assim, abordaremos todo o processo que vai desde a localização dos chamamentos públicos até o momento da convocação/contratação. Além disso, tendo em vista a caracterização geral desses editais de chamamen- to, o tópico traz informações sobre a organização da documentação por parte dos/ as candidatos/as (certificados, declarações, peças de divulgação, matérias diversas etc.) e a elaboração dos currículos/portfólios para comprovação da experiência pro- fissional. Um currículo bem construído aumenta as chances de a candidatura ser selecionada, daí a sua importância. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS APRESENTAÇÃO 7 No quarto tópico, você verá os principais pontos levados em consideração na análise de um projeto. Deve-se observar desde o recorte territorial até a persona- lidade (física ou jurídica) da inscrição. Faz parte dessa análise, também, observar as ações afirmativas, de acordo com o perfil do/a agente cultural inscrito/a. Outro ponto que abordaremos é a contrapartida social, que normalmente ocorre a partir da oferta de ações formativas gratuitas e com acesso irrestrito à população. Ainda há as ações de acessibilidade, que dizem respeito aos aspectos arquitetônico, comu- nicacional e atitudinal. Para entender a capacidade de execução do/a proponente e da equipe nas funções informadas, abordaremos a apresentação curricular e suas respectivas comprovações, que também são critérios de análise e pontuação. Além de todos esses pontos, o/a parecerista deverá observar e pontuar itens destinados à análise da proposta cultural, tais como a coerência entre objeto, ob- jetivos, justificativa e metas do projeto; a coerência do plano de divulgação com cronograma, objetivos e metas do projeto proposto; a coerência da planilha orça- mentária e do cronograma de execução com as metas, resultados e desdobramentos do projeto proposto; e, finalmente, a relevância da ação proposta para o cenário cul- tural local. Esses pontos são os mais recorrentes em análises de projetos culturais, podendo ocorrer uma ampliação para outros quesitos, a depender do edital e/ou da lei de incentivo em questão. O quinto tópico do curso está voltado para a tarefa de elaboração do parecer técnico após a análise de um projeto cultural. Tendo estudado os critérios de avalia- ção mais recorrentes em editais de fomento, bem como o que deve ser considerado em cada um deles, você terá acesso a explicações mais específicas sobre as possi- bilidades de redação de pareceres coerentes e fundamentados. Serão apresentados alguns princípios para a adequada elaboração do texto, bem como os diferentes conhecimentos que são mobilizados nessa tarefa. Além disso, o tópico também contempla uma discussão sobre a dinâmica e os procedimentos que envolvem a fase de recursos em editais de fomento, etapa na qual analistas/pareceristas também têm um papel fundamental. Serão abordadas algumas estratégias importantes para a análise de recursos, com a consequente re- dação do parecer a partir dessa leitura, que deve explicitar o porquê do deferimento ou indeferimento do pleito do/a proponente. Finalmente, no último tópico, abordaremos os principais desafios encontrados pelo/a profissional analista/parecerista, tais como a adimplência com os órgãos das diferentes esferas (municipal, estadual e federal), bem como a construção de um CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS APRESENTAÇÃO 8 portfólio que apresente e valorize suas comprovações curriculares. Também dare- mos destaque à ausência do ofício de analista/parecerista como profissão na Clas- sificação Brasileira de Ocupações (CBO), bem como a ausência de sua regulamen- tação, o que exige um olhar aprofundado para as condições de trabalho desses/as profissionais. Ao longo desse tópico, ainda, apresentaremos algumas informações sobre remuneração, bem como valores pagos por diferentes instâncias públicas. Por fim, daremos destaque aos procedimentos envolvidos nas etapas de contratação, a fim de ajudar você a se proteger nessa fase do trabalho. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS O trabalho do/a analista/ parecerista TÓPICO 1 Olá, estudante! Seja bem-vindo/a ao primeiro tópico do curso de Analista e Pa- recerista de Projetos Culturais. Estamos iniciando uma importante jornada de aprendizados sobre o universo da avaliação de projetos no âmbito das políticas estatais de fomento à cultura. Neste tópico, você obterá informações fundamen- tais para compreender o significado e a relevância do trabalho do/a analista/pa- recerista, profissional que representa uma peça-chave na execução das políticas culturais nas mais diferentes esferas. Vamos lá? Os objetivos deste tópico são: 1. Apresentar as principais atribuições do/a analista/parecerista de projetos culturais. 2. Discutir alguns aspectos da legislação relativos à função de analista/ parecerista. 3. Demonstrar a importância do/a parecerista nas políticas públicas de cultura. Unidades Temáticas do Tópico 1.1 Quem é o/a analista/parecerista de projetos culturais? 1.2 Qual é a importância do/a analista/ parecerista nas políticas de fomento? CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 11 1.1 Quem é o/a analista/ parecerista de projetos culturais? Após a recriação do Ministério da Cultura (MinC), no início de 2023, algumas políticas estatais de fomento foram regulamentadas e mobilizaram o cenário cul- tural nacional, alcançando a quase totalidade dos estados e municípios brasileiros. Destacam-se, nesse quadro, a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), de caráter emergencial (com a finalidade de mitigar os efeitos da pandemia de covid-19 no setor artístico-cultural do país) e a Política Nacional Aldir Blanc de Fo- mentoa capacidade de atingir a plateia definida e as ferramentas comunicacionais coerentes, além dos objetivos específicos do produto e metas quantificáveis, os quais deverão estar vinculados ao cronograma, dividido nas etapas de pré- -produção, produção e pós-produção. Nesse aspecto, o/a parecerista neces- sita observar o público-alvo definido, bem como se as estratégias de comuni- cação, as peças de divulgação e os veículos a serem utilizados condizem com esse público. Já o cronograma necessita evidenciar esse vínculo entre objeto, metas e orçamento, levando em consideração o tempo de execução para cada ação, o espaço de tempo entre as etapas e o detalhamento das ações, a fim de verificar se são coerentes e exequíveis dentro do período demandado. • Coerência da planilha orçamentária e do cronograma de execução com as metas, resultados e desdobramentos do projeto proposto A análise deverá observar o detalhamento orçamentário e sua coerência com o objeto definido e as metas especificadas, respeitando o valor de mercado praticado localmente, o tempo provisionado para as ações, a quantidade para cada elemento/rubrica, o valor unitário e o valor total por item orçamentário elencado. Todas as ações declaradas ao longo da proposta cultural deman- dam gastos financeiros, os quais devem ser detalhados no orçamento. Ainda que a proposta possua parceiros ou outras fontes de recurso, essas informa- ções precisam ser explicitadas no corpo do texto e no orçamento, para que se tenha um entendimento global da proposta. É necessário, também, que o/a proponente apresente uma declaração do/a parceiro/a que fará a ces- são de espaço/produto/serviço para a execução do item orçamentário não precificado, pois, em alguns casos, isso é determinante para a execução do projeto. É imprescindível que o/a analista/parecerista tenha domínio sobre a área cultural/artística, a fim de detectar possíveis problemas de exequi- bilidade. Os projetos deverão contemplar todos os custos de realização das ações culturais propostas, incluindo gastos administrativos, como assessoria jurídica e contábil; deslocamento terrestre/marítimo/aéreo; cachês; impos- tos, encargos trabalhistas, tributos; locação de equipamentos/artefatos ou aquisição (desde que permitida pelo edital e comprovada a economicidade); ações de divulgação; medidas de acessibilidade; alimentação; prestação de CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 79 serviço de pessoal; custos fixos do local; entre outros. Também é necessário observar quais desdobramentos a proposta prevê, assim como as possíveis articulações para a consolidação desse ensejo. Para isso, torna-se necessário apresentar parcerias locais, bem como uma distribuição dos produtos/servi- ços que possibilite a ampliação do acesso aos resultados da proposta. • Relevância da ação proposta para o cenário cultural local A análise deverá identificar possíveis melhorias que a ação/produto/serviço cultural gerará para a produção cultural local. Dessa forma, o/a parecerista precisa pontuar em que medida a proposta promove a integração da comuni- dade na ação planejada, especialmente o impacto social gerado para pessoas em vulnerabilidade social e grupos minoritários. O objetivo da proposta, em última instância, deve ser sempre o de promover a fruição artística e a demo- cratização do acesso aos bens culturais, contribuindo, assim, para o desen- volvimento do cenário cultural local. Reforçamos que é essencial que o/a analista/parecerista mantenha atenção aos quesitos supracitados, bem como aos critérios especificados. É essencial que esses pontos sejam norteadores, para que a análise técnica não seja subjetiva e que não haja prejuízos ao/à proponente do projeto. Na avaliação de projetos culturais, so- bretudo em editais com grande número de inscritos/as, os pormenores são impor- tantes, por isso deve-se manter atenção redobrada. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 4 ANALISANDO O PROJETO PONTOS DE ATENÇÃO 80 Referências BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, DF: Presidência da Repúbli- ca, [2015]. BRASIL. Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022. Institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fo- mento à Cultura. Brasília, DF: Presidência da República, [2022b]. BRASIL. Lei nº 14.903, de 27 de junho de 2024. Estabelece o marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Brasília, DF: Presidência da República, [2024c]. BRASIL. Ministério da Cultura. Instrução Normativa MinC nº 10, de 28 de dezembro de 2023. Dispõe sobre as regras e os procedimentos para implementação das ações afirmativas e medidas de acessibilidade de que trata o Decreto nº 11.740, de 18 de outubro de 2023, que regulamenta a Lei nº 14.399, de 08 de julho de 2022, a qual institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Brasília, DF: Ministério da Cultura, 2023. BRASIL. Ministério da Cultura. Instrução Normativa MinC nº 8, de 11 de maio de 2016. Altera a Instrução Normativa nº 1, de 7 de abril de 2015, para dispor sobre procedimentos relati- vos à Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014, que institui a Política Nacional de Cultura Viva – PNCV. Brasília, DF: Ministério da Cultura, 2016. BRASIL. Ministério da Cultura. Instrução Normativa MinC nº 23 , de 05 de fevereiro de 2025. Estabelece procedimentos relativos à apresentação, à recepção, à seleção, à análise, à aprovação, ao acompanhamento, ao monitoramento, à prestação de contas e à avaliação de resultados dos programas, dos projetos e das ações culturais do mecanismo Incentivo a Projetos Culturais do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Brasília, DF: Ministério da Cultura, 2025b. NOVO HAMBURGO. Secretaria de Cultura. Chamamento Público Cultural nº 06/2024 - Edital de fomento à execução de ações culturais (PNAb). Novo Hamburgo, RS: Secretaria de Cul- tura, 2024. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS Elaborando o parecer A MÃO NA MASSA TÓPICO 5 Olá, estudante! Chegamos ao penúltimo tópico do curso de Analista e Parecerista de Projetos Culturais. Até aqui, você já adquiriu importantes conhecimentos sobre o trabalho de um/a analista/parecerista e sobre o funcionamento dos processos de seleção. Também já conheceu os critérios de avaliação mais recorrentes em editais de fomento à cultura, assim como os aspectos que devem ser levados em consideração na análise de cada um deles. Agora, vamos discutir sobre aquela que é, talvez, a mais importante das tarefas de um/a analista/parecerista: a ela- boração do parecer propriamente dito. Neste tópico, você aprenderá sobre a im- portância de uma avaliação bem-elaborada e devidamente fundamentada, bem como obterá algumas orientações específicas para a redação de seus pareceres. Além disso, o tópico ainda contempla outra importante etapa dos processos de seleção de propostas culturais: a análise de recursos. Vamos lá? Os objetivos deste tópico são: 1. Apresentar os diferentes conhecimentos que são mobilizados na avaliação de propostas culturais. 2. Indicar alguns princípios e técnicas para a redação de pareceres adequados. 3. Mostrar como se dá a análise de recursos no âmbito de editais de fomento. Unidades Temáticas do Tópico 5.1 A importância de uma avaliação fundamentada 5.2 A elaboração do parecer 5.3 A etapa de análise de recursos CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 83 5.1 A importância de uma avaliação fundamentada Como você já percebeu ao longo deste curso, o trabalho realizado por analis- tas/pareceristas de projetos culturais cumpre não apenas uma função técnica, mas também, e sobretudo, uma função didática. Isso significa dizer que a avaliaçãode uma proposta cultural deve ser realizada de modo a evidenciar as potencialidades, mas também as fragilidades presentes no material submetido por um/a proponente. Em outras palavras, trata-se de um trabalho que busca observar se um projeto cultu- ral apresenta qualidade, o que envolve a análise sobre diversos aspectos. De acordo com Albuquerque e Silva (2010, p. 302), [...] se um projeto cultural não tiver relevância e efetividade, ele não exibe valor; se não ti- ver eficácia e eficiência, ele não exibe mérito; por conseguinte, se ele não tiver relevância, efetividade, eficácia e eficiência, ele não exibe qualidade. Avaliar a qualidade do projeto cultural é ajuizar o seu valor e mérito. A avaliação de um projeto se materializa em dois elementos complementares: as notas atribuídas aos diferentes critérios de avaliação especificados no edital e o parecer elaborado (para o órgão demandante, mas principalmente para o/a proponente), con- tendo as razões e as devidas justificativas sobre as notas registradas. Trata-se, então, de dois elementos complementares: enquanto as notas cumprem uma função prática no âmbito do edital, possibilitando a construção de um ranking para a classificação das propostas inscritas, o parecer cumpre uma função de orientação, traduzindo em pala- vras os pontos fortes e fracos da ideia apresentada pelo/a proponente. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 84 Curiosidade Algumas instituições solicitam dos/as pareceristas apenas a atribuição de notas aos critérios de seleção, sem a necessidade de emissão de parecer. No entanto, essa é uma prática que diminui a clareza e a transparência do processo de seleção das propostas culturais, o que pode levar, inclusive, a numerosos questionamentos e recursos por parte dos/as proponentes que concorrem no âmbito do edital, uma vez que essas pessoas podem não compreender os motivos que ocasionaram uma pontuação baixa em determinados critérios. No que se refere ao parecer, podemos dizer que ele tem dois destinatários principais: • O órgão demandante: na operacionalização de um edital de fomento, os pa- receres decorrentes das avaliações realizadas pela equipe de pareceristas re- presentam um material extremamente valioso para os órgãos demandantes, pois, a partir deles, a secretaria ou fundação de cultura tem a possibilidade de elaborar uma espécie de diagnóstico da situação dos agentes culturais locais. A partir das considerações encaminhadas sobre as propostas inscritas, as pessoas responsáveis pela gestão cultural no estado ou município têm a possibilidade de conhecer melhor aspectos como o nível de profissionaliza- ção dos/as fazedores/as de cultura, as lacunas mais recorrentes nos projetos, as necessidades de formação/atualização etc. Ou seja: a avaliação realizada por um/a analista/parecerista pode funcionar como um subsídio importante para a formulação de políticas culturais, contribuindo de forma positiva para o desenvolvimento do setor. • A pessoa proponente: ao submeter uma proposta cultural no âmbito de um edital de fomento, o/a artista ou o/a produtor/a cultural encaminha uma ideia para o desenvolvimento de uma ação. Algumas vezes essa ideia pode apresentar fragilidades significativas, o que pode estar associado a diferen- tes fatores: a pouca experiência do/a agente na área da cultura, o baixo ní- vel de escolarização ou até mesmo o tempo reduzido para a elaboração da proposta, dado o prazo curto colocado por alguns editais para a inscrição. Nesses casos, a avaliação realizada pelo/a analista/parecerista, sobretudo o parecer redigido, é fundamental para que o/a proponente compreenda as falhas de sua submissão. O parecer funciona, para o/a proponente, como um feedback, possibilitando a observação de pontos específicos que devem ser CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 85 observados em futuras submissões. Da mesma forma, os pontos positivos da proposta também devem ser ressaltados no parecer, para que o/a proponen- te saiba os aspectos que foram avaliados como positivos em seu material. Em outras palavras, os efeitos de uma avaliação detalhada e bem construída não se esgotam no âmbito de um único processo de seleção, mas podem reverbe- rar em outras ocasiões. Viu só? A adequada elaboração do parecer sobre um projeto cultural é uma tarefa de extrema importância. Com “adequada”, queremos apontar que essa elabo- ração deve ser atenta, cuidadosa e, sobretudo, humana, levando em consideração, sempre, o contexto que envolve a submissão de uma proposta. De um modo geral, podemos dizer que um parecer bem-elaborado deve estar fundamentado em pelo menos quatro elementos distintos e igualmente importantes, conforme apontado na imagem a seguir (figura 13): Figura 13 – Fundamentos para um parecer bem-elaborado Fonte: Equipe de elaboração do curso (2024). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 86 Vamos explorar um pouco cada um desses fundamentos: • Conhecimento da legislação pertinente É importante conhecer a legislação referente à área da cultura ou a ela aplica- da. É necessário, antes de tudo, estudar as leis de fomento, os decretos que as regulamentam, bem como as instruções normativas que são publicadas pelo Ministério da Cultura ou pelas entidades vinculadas. Esses materiais ofere- cem um subsídio importante para que a análise das propostas culturais seja realizada em consonância com os princípios que regem as políticas culturais. • Conhecimento do instrumento de seleção Os editais, chamamentos ou demais instrumentos de seleção também devem ser minuciosamente estudados. Como os entes federativos possuem relati- va autonomia no que se refere ao gerenciamento das seleções dos projetos, muitas vezes os editais específicos adaptam ou complementam o que está disposto na legislação principal. Além disso, esses instrumentos trazem de forma detalhada os critérios de avaliação que devem ser observados no tra- balho dos/as pareceristas, daí a sua relevância. • Conhecimento das especificidades da área Não é possível avaliar um projeto de uma área cultural ou linguagem da qual se tem pouco conhecimento. Em geral, analistas/pareceristas são convoca- dos/as para a avaliação de propostas em uma linguagem específica; em ou- tros casos, porém, a atuação se dá em editais do tipo multilinguagens, em que mais de uma área é contemplada. Seja como for, o/a profissional que avalia precisa conhecer o(s) campo(s) em questão, bem como as tendências e as práticas de mercado a ele(s) relacionadas, a fim de realizar uma análise eficiente. • Conhecimento do cenário cultural local Cada cidade, estado ou região tem suas especificidades quando se trata de cultura. Algumas práticas, manifestações e formas de expressão são típicas de uma localidade, e isso deve ser levado em conta no processo de avaliação. Antes de iniciar as análises para um edital de determinado estado ou municí- pio, é importante que o/a analista/parecerista pesquise e se informe acerca das práticas culturais que são significativas no lugar, pois a falta de conheci- mento pode, em alguns casos, levar à incompreensão de uma proposta e, por conseguinte, a uma avaliação errônea e/ou injusta. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 87 Saiba Mais A LEGISLAÇÃO PERTINENTE Conheça algumas das principais normas relativas ao setor cultural, pois elas são materiais imprescindíveis para a realização de uma análise eficiente de propostas culturais: Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípios da Lei n° 7.505, de 2 de julho de 1986, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e dá outras providências. Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993 Cria mecanismos de fomento à atividade audiovisual e dáoutras providências. Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014 Institui a Política Nacional de Cultura Viva e dá outras providências. Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022 Institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). Decreto nº 11.453, de 23 de março de 2023 Dispõe sobre os mecanismos de fomento do sistema de financiamento à cultura. Decreto nº 11.740, de 18 de outubro de 2023 Regulamenta a Lei n.º 14.399, de 8 de julho de 2022, que institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Instrução Normativa nº 10, de 28 de dezembro de 2023 Dispõe sobre as regras e os procedimentos para implementação das ações afirmativas e medidas de acessibilidade no âmbito da PNAB. Lei nº 14.835, de 4 de abril de 2024 Institui o marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura (SNC), para garantia dos direitos culturais, organizado em regime de colaboração entre os entes federativos para gestão conjunta das políticas públicas de cultura. Lei nº 14.903, de 27 de junho de 2024 Estabelece o marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Como você pode perceber, a tarefa de elaborar um parecer fundamentado envolve a percepção da ideia apresentada pelo/a proponente em diferentes dimen- sões, sempre em observância aos critérios de avaliação que estiverem previstos no edital de seleção. Mas como redigir o texto? O que deve constar nele? O que torna um parecer completo? O próximo subtópico traz algumas orientações nesse sentido. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 88 5.2 A elaboração do parecer Como já foi apontado anteriormente, um parecer bem-elaborado é aquele que oferece ao/à proponente e à instituição demandante uma compreensão acerca das potencialidades e fragilidades de uma proposta cultural. Além disso, quando bem construídas, as justificativas postas em um parecer podem reduzir a probabili- dade de interposição de recursos por parte dos/as proponentes, uma vez que estes/ as terão uma maior clareza sobre as razões que embasaram a sua avaliação, não restando pontos que necessitem de maiores esclarecimentos. Como o/a analista/parecerista, por força de seu trabalho, assume a função de agente público/a, os documentos que elabora inserem-se no universo geral das co- municações públicas. Vale recordar que o/a analista/parecerista é um/a profissional especializado/a contratado/a pela administração pública para uma finalidade es- pecífica. Assim, de modo geral, pode-se dizer que um parecer produzido por esse/a profissional deve se pautar nos seguintes atributos, que estamos adaptando a partir do Manual de Redação da Presidência da República (Brasil, 2018): • Clareza e precisão O parecer deve ser de fácil compreensão, apresentando linguagem simples. É importante evitar o uso de termos rebuscados, uma vez que isso pode dificul- tar o entendimento por parte de quem fará a leitura. Deve-se considerar que o/a proponente pode não ser uma pessoa com escolarização ou experiência suficientes para compreender um texto excessivamente formal ou técnico. Um texto claro faz toda a diferença, evitando equívocos e mal-entendidos que podem prejudicar o andamento do processo. • Objetividade O parecer deve ser escrito de modo direto, de forma a evidenciar os prin- cipais elementos que estão sendo avaliados. Trata-se, em outras palavras, CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 89 de “ir direto ao ponto”. Construir muitas voltas para apresentar uma ideia simples pode dificultar a compreensão. A redundância deve ser evitada em textos desse tipo, tendo em vista que o parecer não pode ser tão longo a ponto de se tornar cansativo. Também não é recomendável a construção de estruturas complexas: frases curtas, em ordem direta, são mais facilmente entendidas. • Concisão Frequentemente, o parecer elaborado precisa contemplar explicações e jus- tificativas sobre uma quantidade significativa de critérios. É recomendável, então, evitar detalhes irrelevantes, que não acrescentam novos elementos à ideia principal. A construção de um bom parecer envolve oferecer uma grande quantidade de informações sem que o texto se torne demasiadamente alon- gado. Nesse sentido, a capacidade de síntese é uma habilidade essencial. • Coesão e coerência Esses atributos dizem respeito ao sentido geral do texto, bem como à conexão entre suas partes. Apesar de o parecer sobre um projeto contemplar diferentes critérios de avaliação, importa observar que estes mantêm relação entre si. Trata-se de tomar a proposta cultural como um objeto único, com as suas dife- rentes partes constituindo um todo. Com isso, as diferentes questões tratadas no parecer também precisam estar em diálogo. • Impessoalidade Apesar de o parecer ser elaborado por um/a profissional específico/a, que lança um olhar sobre o projeto a partir de sua experiência profissional, é importante que o tratamento dado à proposta cultural seja o mais impessoal possível. Isso significa orientar a elaboração do texto em função dos critérios que estiverem em avaliação, evitando-se o registro de impressões pessoais que não colaboram para a análise do projeto no âmbito do edital. • Formalidade e padronização Em geral, as seleções de projetos partem de uma lógica de competição, to- mando-se o ranqueamento como base para a classificação. Nesse sentido, é importante que os pareceres sobre as diferentes propostas sigam um padrão de análise, observando-se, claro, as particularidades de cada uma delas. Se um elemento é observado e pontuado em um projeto específico, é importan- te que o mesmo procedimento seja adotado para as demais análises, a fim de que sejam evitados equívocos e injustiças. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 90 Fica a dica! PADRONIZAÇÃO A adoção de uma padronização na construção dos pareceres não deve ser confundida com a utilização de modelos prontos, de caráter genérico. Pareceres desse tipo costumam gerar incompreensões, o que leva a questionamentos por parte dos/as proponentes. Cada proposta cultural deve ser avaliada de acordo com as suas próprias características, e o parecer deve refletir tais especificidades. Em geral, as instituições demandantes emitem instruções expressas para que os/as analistas/pareceristas evitem textos genéricos, que não justificam adequadamente as análises realizadas sobre os projetos. Você já conhece os critérios mais recorrentes em avaliações de propostas culturais, bem como o que deve ser tomado em consideração na análise de cada um deles. Além disso, você já conhece os atributos que caracterizam um parecer adequadamente elaborado. Agora, para que você compreenda melhor a presença desses atributos em situações concretas, tomemos hipoteticamente uma proposta de ação cultural submetida por um/a proponente em um edital de fomento na área de Literatura. Considere que se trata de uma proposta simplificada. A seguir apre- sentamos o conteúdo dessa proposta, que servirá como base para nossa discussão em torno da construção de pareceres. PROPOSTA SIMPLIFICADA N° 01 DADOS GERAIS Nome do projeto: PALAVRAS EM MOVIMENTO Proponente: Maria da Silva Área de inscrição: Literatura Valor pleiteado: R$ 100.000,00 Duração: 10 (dez) meses DESCRIÇÃO O projeto “Palavras em Movimento” visa levar a literatura para comunidades carentes do município de Aurora do Norte, promovendo o acesso a obras literárias de qualidade e in- centivando a leitura e a escrita criativa entre jovens e adultos. Serão realizadas atividades como rodas de leitura, oficinas de escrita, encontros com escritores/as e exibições de documentários sobre literatura. Com uma programação diversificada e atrativa, espera-se criar um impacto positivo na vida dos/as participantes, contribuindopara o seu desenvol- vimento cultural e intelectual. O projeto terá duração de 10 (dez) meses e será realizado em diferentes bairros da cidade. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 91 JUSTIFICATIVA A leitura é uma ferramenta poderosa de transformação social, pois amplia os horizontes, desenvolve o pensamento crítico e fortalece a capacidade de expressão. No entanto, mui- tas comunidades não têm acesso adequado a livros e atividades literárias, o que limita o desenvolvimento cultural e educacional da população. O município de Aurora do Norte conta com uma única biblioteca, atualmente desativada, e não tem, em seu calendário cultural, nenhum evento voltado para a área da literatura. O projeto “Palavras em Movi- mento” busca preencher essa lacuna, oferecendo oportunidades de contato com a litera- tura e fomentando o gosto pela leitura e pela escrita. ETAPAS DE TRAbALhO O projeto será dividido em quatro etapas principais: (I) mapeamento e seleção das co- munidades que mais necessitam do projeto, considerando critérios como os índices de vulnerabilidade social e o acesso a atividades culturais; (II) formação de parcerias com es- colas, ONGs e coletivos culturais para viabilizar a realização das atividades; (III) execução das atividades (rodas de leitura, atividades de formação e bate-papo com escritores/as), com a participação ativa da comunidade; (IV) avaliação e documentação das ações, além da produção de um relatório final que será entregue à prefeitura, conforme prevê o edital. EQUIPE DE TRAbALhO O projeto contará com diferentes profissionais em seu quadro: (I) coordenadora-geral, responsável pela supervisão geral do projeto, garantindo que todas as atividades sejam realizadas conforme o plano de trabalho; (II) coordenador de oficinas, responsável por ge- renciar e acompanhar todas as atividades formativas ao longo do projeto; (III) coordena- dora de mídia, responsável pelas ações de divulgação do projeto junto à comunidade; (IV) coordenador financeiro, responsável pelo gerenciamento das despesas gerais do projeto ao longo de sua execução. CRONOGRAMA Após a assinatura do termo de execução cultural, o projeto será realizado ao longo de 10 (dez) meses. As ações estão dimensionadas da seguinte forma: mapeamento das co- munidades que receberão as atividades previstas (janeiro e fevereiro); estabelecimento de parcerias com as instituições e os espaços em que as ações serão realizadas (março); divulgação e realização das atividades principais do projeto, com a participação da co- munidade local (abril a setembro); avaliação das ações e produção do relatório final a ser entregue à secretaria (outubro). PLANO DE DIVULGAÇÃO O plano de divulgação compreende diversas atividades: criação da identidade visual do projeto; criação de materiais gráficos (cartazes, folhetos, banners); produção de conteúdo para as redes sociais; estabelecimento de parcerias com veículos de comunicação locais; envio de releases para a imprensa; divulgação dos eventos de lançamento e encerramento do projeto. Todas as peças produzidas farão referência à secretaria de cultura e à política de fomento que possibilitou o desenvolvimento do projeto. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 92 PLANO DE ACESSIbILIDADE Os locais onde serão realizadas as atividades contam com toda a estrutura necessária para o recebimento de pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida, a exemplo de rampas e corrimãos. Assim, não haverá necessidade de providenciar a acessibilidade arquitetônica. Quanto à acessibilidade comunicacional, o projeto contará com a presença de intérprete de Libras em todas as atividades programadas, possibilitando a participação de pessoas surdas nas ações previstas. CONTRAPARTIDA Como contrapartida, todas as atividades do projeto serão gratuitas para a comunidade. Além disso, a equipe de trabalho se compromete a realizar uma ação de formação com professores/as de Língua Portuguesa da rede municipal, buscando capacitar esses/as profissionais para o trabalho com a literatura nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. A atividade será gratuita e acontecerá em uma escola do município, que será definida em diálogo com a Secretaria Municipal de Educação. ORÇAMENTO O orçamento da proposta contempla as seguintes despesas: pagamento da coordena- dora-geral (R$ 20.000,00); pagamento do coordenador de oficinas (R$ 15.000,00); paga- mento da coordenadora de mídia (R$ 12.500,00); pagamento do coordenador financei- ro (R$ 12.500,00); material didático e livros (R$ 10.000,00); infraestrutura e logística (R$ 10.000,00); produção de peças para divulgação (R$ 10.000,00); produção de documentário com o registro das ações realizadas (R$ 10.000,00). Quadro 3 – Proposta Simplificada nº 1 Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Para as finalidades deste curso, centraremos a discussão da proposta nos seguin- tes critérios de avaliação: qualidade do projeto, relevância cultural, viabilidade técni- ca, planejamento financeiro, cronograma, plano de divulgação, plano de acessibilidade, equipe de trabalho e contrapartida. Nesse sentido, tendo em vista as informações dis- ponibilizadas na proposta simplificada, podemos esboçar algumas considerações que auxiliarão na redação do parecer, conforme o quadro a seguir (figura 14): CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 93 Figura 14 – Parecer técnico sobre proposta simplificada Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Registradas as impressões sobre os principais critérios de avaliação, estamos em condições de partir para a elaboração do parecer propriamente dito. Nesse sen- tido, as anotações acerca dos diferentes elementos da proposta serão condensados e sintetizados para a organização de um texto único, uma espécie de resenha geral do projeto avaliado. No caso em tela, poderíamos ter, então, um parecer com a se- guinte formulação (figura 15): CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 94 Figura 15 – Parecer técnico sobre proposta simplificada Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Evidentemente, projetos culturais de áreas/segmentos diferentes apresenta- rão características diferentes, o que deve ser levado em consideração no proces- so de avaliação. A análise anteriormente realizada tomou como base parâmetros próprios da área de Literatura, tendo em vista a especificidade do objeto cultural. Pensando nisso, vamos considerar mais uma proposta de ação cultural, desta vez no segmento do Audiovisual. A proposta simplificada a seguir diz respeito à produ- ção de um curta-metragem, objeto que envolve um planejamento e uma execução bastante particulares, considerando-se as especificidades da produção audiovisual. Conheça o conteúdo da proposta e siga exercitando a sua capacidade de analisar detalhadamente um projeto cultural. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 95 PROPOSTA SIMPLIFICADA N° 02 DADOS GERAIS Nome do projeto: LAÇOS DE FAMÍLIA Proponente: João da Silva Área de inscrição: Audiovisual Valor pleiteado: R$ 150.000,00 Duração: 12 (doze) meses DESCRIÇÃO O projeto “Laços de família” consiste na produção de um curta-metragem de 20 minutos sobre o tema das relações familiares na contemporaneidade. A trama segue a vida de três gera- ções de uma mesma família, abordando a complexidade das interações entre os diferentes personagens e trazendo à tona questões como amor, conflito, reconciliação e crescimento pessoal. O curta-metragem promete tocar os corações do público ao abordar temas universais e atemporais, como companheirismo e resiliência. Com uma equipe talentosa e uma história comovente, o filme é uma celebração doslaços que nos mantêm conectados/as. JUSTIFICATIVA As relações familiares são um tema universal. No contexto atual, marcado por mudanças sociais e comportamentais, é essencial abrir espaço para discussões que abordem essas transformações e suas implicações para as relações dentro da família. Este projeto visa contribuir para essa discussão, oferecendo um produto cultural que possa ser apreciado por diversos públicos. Além disso, o curta-metragem será gravado na própria cidade de Aurora do Norte, utilizando mão de obra local e oferecendo visibilidade para os cenários da região. O produto é relevante, assim, por seu caráter contemporâneo e por sua contri- buição para a cultura local. ETAPAS DE TRAbALhO O projeto terá duração de 12 meses, contemplando as seguintes etapas: (I) pré-produção (3 meses): desenvolvimento do roteiro, seleção de elenco, escolha de locações e prepa- ração da equipe técnica; (II) produção (4 meses): filmagem do curta-metragem, incluindo gravações em diferentes cenários e com diversos/as atores/atrizes; (III) pós-produção (3 meses): edição, mixagem de som, inclusão dos recursos de acessibilidade, adição de efei- tos visuais e finalização; (IV) divulgação e distribuição (2 meses): planejamento e execução de estratégias de divulgação e lançamento do curta-metragem em festivais, escolas e plataformas digitais. EQUIPE DE TRAbALhO A equipe técnica do projeto conta com pessoas qualificadas ocupando diferentes funções: direção (João da Silva, que já assinou outros projetos semelhantes, como o curta-metra- gem “Solidão XXI”); produção executiva (Ricardo Santos); direção de fotografia (Priscila Souza); edição (Alex Silva); design de som (Pedro Nunes); assistência de produção (Maria Pereira); figurino (Ana Costa). Os atores e as atrizes que comporão o elenco do curta-me- tragem ainda não estão definidos/as, mas a seleção desses/as profissionais será feita a partir de contato com os grupos de teatro da localidade, na etapa de pré-produção. Os currículos da equipe foram incluídos como anexos do projeto. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 96 CRONOGRAMA O cronograma contempla as seguintes tarefas: meses 1-3 (pré-produção): planejamento do roteiro e storyboard; seleção e contratação do elenco; escolha das locações; ensaios iniciais; meses 4-7 (produção): gravação de cenas externas e internas; registro de tomadas alterna- tivas para possíveis edições; meses 8-10 (pós-produção): edição do material; inserção de trilha sonora e efeitos sonoros; correção de cores e ajustes visuais; criação de legendas e outros elementos de acessibilidade; meses 11-12 (divulgação e distribuição): preparação de material promocional (trailers, pôsteres); campanha de marketing e engajamento nas redes sociais; distribuição para festivais de cinema e plataformas de streaming. PLANO DE DIVULGAÇÃO O plano de divulgação engloba a veiculação do projeto por diferentes meios: (I) redes sociais: criação de perfis no Instagram, Facebook e Twitter para compartilhar teasers, bastidores e entrevistas com o elenco; (II) cartazes e folhetos: distribuição de material informativo em escolas, centros comunitários, bibliotecas e outros pontos estratégicos da cidade; (III) evento de lançamento: realização de evento de lançamento com a presença dos realizadores e influenciadores locais; (V) parcerias: estabelecimento de parcerias com festivais de cinema, ONGs e instituições culturais para exibição do curta-metragem. PLANO DE ACESSIbILIDADE Acessibilidade arquitetônica: serão priorizados locais com elementos de acessibilidade, tais como rampas, corrimãos e banheiros adaptados, sobretudo os locais onde será rea- lizada a atividade de contrapartida. Acessibilidade comunicacional: o curta contará com janela de Libras, legendagem descritiva e audiodescrição, garantindo a fruição por parte de diferentes públicos, como pessoas com deficiência visual ou auditiva. Acessibilidade atitudinal: para sensibilização e orientação da equipe, será contratado um profissional experiente para realização de consultoria relacionada ao tema da acessibilidade. CONTRAPARTIDA Como parte fundamental do projeto, será realizada uma atividade de contrapartida (oficina de produção audiovisual) em uma escola pública, envolvendo estudantes do ensino médio. A atividade visa promover a compreensão e a reflexão sobre os temas abordados no filme, além de desenvolver habilidades criativas e críticas nos/as jovens. Ao final da oficina, os/ as estudantes serão divididos/as em grupos e terão a missão de produzir um vídeo curto abordando temas ligados às relações familiares. Esse exercício permitirá o desenvolvimento da criatividade e estimulará o trabalho colaborativo entre os/as participantes. ORÇAMENTO As despesas previstas ao longo da execução do projeto são as seguintes: pagamento da direção (R$50.000,00); pagamento da produção executiva (R$15.000,00); pagamento da direção de fotografia (R$15.000,00); pagamento da edição (R$10.000,00); pagamento do design de som (R$10.000,00); pagamento da assistência de produção (R$10.000,00); paga- mento do figurino (R$5.000,00); despesas gerais de pré-produção (R$7.500,00); despesas gerais de produção (R$10.000,00); despesas gerais de pós-produção (R$7.500,00); recursos de acessibilidade e consultoria de acessibilidade (R$10.000,00). Quadro 4 – Proposta Simplificada nº 2 Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 97 Mais uma vez, tomaremos os critérios de avaliação que foram objeto de aná- lise quando da consideração da primeira proposta simplificada: qualidade do projeto, relevância cultural, viabilidade técnica, planejamento financeiro, cro- nograma, plano de divulgação, plano de acessibilidade, equipe de trabalho e contrapartida. Da mesma forma, então, podemos registrar algumas impressões sobre a proposta de produção do curta-metragem. Observe tais impressões no quadro a seguir (figura 16): Figura 16 – Considerações a partir da análise de uma proposta simplificada Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 98 Mais uma vez, estamos em condições de elaborar o parecer definitivo sobre o projeto. Como as considerações registradas sobre a proposta de produção audio- visual podem ser sintetizadas? A imagem a seguir traz uma possível formulação, considerando elementos como clareza, objetividade e concisão. Vejamos (figura 17): Figura 17 – Parecer técnico sobre proposta simplificada Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Os exercícios de análise precedentes tiveram o objetivo de oferecer a você al- gumas ferramentas para a análise dos critérios mais recorrentes em editais de fomen- to. Logicamente, a escrita do parecer é uma tarefa que dependerá também de outros fatores, como o estilo textual do/a redator/a, a maior ou menor complexidade dos critérios em análise e até mesmo o volume de texto (extensão) solicitado pelo órgão demandante. Em todo caso, o importante é seguir de forma adequada os princípios apresentados ao longo deste subtópico, tendo em vista a necessidade de redigir pare- ceres objetivos, coerentes e compreensíveis. Passado esse exercício, o próximo subtó- pico aborda especificamente o trabalho do/a analista/parecerista na fase de recursos. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 99 5.3 A etapa de análise de recursos Por fim, há uma tarefa de grande importância no trabalho que é executado por analistas/pareceristas de projetos culturais: a análise/julgamento de recursos encaminhados pelos/as proponentes no âmbito dos editais. Trata-se de etapa fun- damental na condução de um edital de fomento por parte de uma instituição cultu- ral. Na maioria dos casos, essaé uma responsabilidade atribuída aos/às pareceris- tas. Vamos entender melhor como funciona essa importante etapa. De um modo geral, pode-se dizer que o recurso é uma solicitação e/ou con- testação encaminhada por um/a proponente ao órgão gerenciador do edital, tendo em vista a divulgação dos resultados nas diferentes etapas da seleção. Assim, não só a análise de mérito é acompanhada de uma fase de recursos, mas também outras etapas, como a homologação das inscrições e a habilitação documental. No entanto, como o/a parecerista trabalha de modo mais específico na fase de análise de mérito, é de sua responsabilidade a avaliação dos recursos referentes a essa fase. Na grande maioria dos casos, os proponentes encaminham os recursos para con- testar as notas atribuídas aos seus projetos na etapa de avaliação de mérito, e as razões apontadas são as mais diversas: erro de cálculo na somatória de pontos; documentação não considerada para fins de pontuação; ranqueamento fora do formato estipulado em edital (principalmente no que se refere às cotas e aos sistemas de reserva de vagas). Nesses casos específicos, um simples equívoco por parte da instituição pode deixar um/a proponente e seu projeto cultural fora da lista de classificados/as. O texto de um recurso caracteriza-se pelo seu caráter argumentativo. Nesse sentido, o/a proponente constrói sua solicitação desenvolvendo uma argumentação (que se espera consistente) em relação a um ou mais pontos da análise, geralmente apresentando elementos que comprovem a necessidade de reavaliação em um ou mais critérios de seleção. Assim, quanto mais clara e objetiva for essa argumenta- ção, maiores serão as chances de o pleito ser acatado. A partir da solicitação e das justificativas apontadas, o/a analista/parecerista emitirá o seu julgamento sobre a possibilidade ou não de acatar o pedido. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 100 Mas como analisar um recurso de forma adequada? Nessa tarefa, alguns fato- res importantes devem ser considerados: O QUE CONSIDERAR NA ANÁLISE DE UM RECURSO? 1 O/A PROPONENTE É CLARO/A E ObJETIVO/A EM SUA ARGUMENTAÇÃO? Ao ler o texto de um recurso, é importante observar se o/a proponente deixa clara a sua solicitação, ou seja, se consegue explicar de forma adequada quais são os pontos que deseja que sejam verificados/analisados. 2 A SOLICITAÇÃO ESTÁ DE ACORDO COM O EDITAL? Se um/a proponente solicita a reanálise do projeto ou a reconsideração de algum ma- terial, é importante observar se a solicitação está devidamente fundamentada nos do- cumentos que norteiam o processo de seleção. 3 A SOLICITAÇÃO DO/A PROPONENTE É RAZOÁVEL? É importante que o pleito do/a proponente seja razoável, dizendo respeito a situações que possam, de fato, ser objeto de verificação, assim como situações que estejam ao alcance do corpo de pareceristas. 4 O/A PROPONENTE TRAZ MATERIAIS NÃO APRESENTADOS ANTERIORMENTE? É importante verificar se a argumentação do/a proponente diz respeito apenas à docu- mentação apresentada na submissão inicial, pois não é possível, na fase de recursos, encaminhar novos materiais para a análise da proposta. 5 O/A PROPONENTE INDICA ELEMENTOS ESPECÍFICOS PARA ANÁLISE? É fundamental observar se o texto do recurso aponta, de forma explícita, os critérios para os quais se solicita reanálise ou revisão da pontuação, pois a análise de recurso não significa uma nova avaliação do projeto como um todo. 6 O/A PROPONENTE SE REFERE APENAS AO SEU PRÓPRIO PROJETO? É possível que um/a proponente conteste a avaliação recebida por outros projetos no âmbito do edital, apontando falhas de ranqueamento, por exemplo, mas essa é uma análise que foge à atribuição do/a analista/parecerista. Quadro 5 – Aspectos considerados na análise de um recurso Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Em geral, o julgamento de um recurso é expresso em um conceito, que pode ser DEFERIDO ou INDEFERIDO. A depender da seleção e do sistema utilizado, esses conceitos podem variar em “aceito/não aceito”, “acatado/não acatado” etc. Quando há o aceite ou deferimento, isso significa que a argumentação apresentada pelo/a proponente foi coerente e consistente, de modo que o/a parecerista concorda em realizar nova análise e, consequentemente, alterar a nota inicialmente atribuída em um ou mais critérios. Quando não há o aceite, ou seja, quando o recurso é indefe- rido, isso significa que o/a parecerista julgou a solicitação improcedente ou não plausível, portanto as notas inicialmente atribuídas serão mantidas. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 101 É relevante destacar que também aqui, na fase de recursos, a elaboração do parecer se faz necessária. A partir dos aspectos listados acima, o/a analista/parece- rista emitirá um juízo acerca da aceitabilidade (ou não) da solicitação encaminhada, justificando de forma adequada a sua interpretação. Foi verificada alguma falha na avaliação inicialmente realizada? O/a proponente teve algum documento desconsi- derado no processo de análise? O/a candidato/a foi prejudicado/a de alguma for- ma? Esses são pontos importantes que podem (e devem) ser registrados no parecer, pois, assim como ocorre na etapa inicial da análise de mérito, um parecer elaborado adequadamente contribui para a clareza e a transparência do processo de seleção, beneficiando o órgão gerenciador e a pessoa proponente. ATENÇÃO! A fase de recursos é uma das mais importantes na condução de um edital de incentivo, tanto para o órgão gerenciador como para a pessoa proponente. Nessa fase, a partir das solicitações encaminhadas pelos/as fazedores de cultura, é possível sanar possíveis falhas ou corrigir aspectos que não haviam sido observados na etapa inicial da avaliação de mérito, o que eleva a qualidade do processo de seleção. Além disso, a análise de recursos pode ser responsável por mudanças significativas no resultado preliminar de um edital, uma vez que, a depender do deferimento ou não dos recursos, as notas podem sofrer alterações, o que impacta diretamente a classificação final. Assim, a título de exemplo, um/a candidato/a que por algum motivo foi desclassificado/a na etapa inicial pode, a partir de reanálise, ter o seu projeto considerado, passando a figurar na lista de classificados/as e/ou selecionados/as. Quanta coisa você aprendeu neste tópico, não foi? Aprendeu que a adequada avaliação de uma proposta cultural mobiliza diferentes tipos de conhecimento, que vão desde o conhecimento do instrumento de seleção (o edital) até o conhecimento da realidade cultural específica na qual ele se insere, passando pela legislação perti- nente e pelos saberes próprios da área em questão. Aprendeu, também, que um pare- cer bem redigido é aquele que segue determinados princípios, sobretudo os relativos a uma escrita clara e coerente; afinal, trata-se de um exercício que envolve não apenas o desafio da avaliação em si, mas também o desafio de traduzir em palavras a leitura do projeto. Por fim, aprendeu que o trabalho do/a analista/parecerista não se esgota na fase inicial da avaliação de mérito, estendendo-se para a fase de recursos, quando pontos importantes do processo podem ser revisitados e mesmo alterados. Eis a complexidade da análise e da emissão de pareceres sobre projetos cul- turais. Trata-se de trabalho de extrema importância, colaborando de forma direta para o impulsionamento do setor cultural. Afinal, o corpo de analistas/pareceristas é elemento-chave nas políticas de incentivo à cultura, daí a necessidade de sua va- lorização. Pensando nisso, o próximo e último tópico do curso traz algumas reflexões que ajudarão a pensar sobre a complexidade que envolve a função do/a analista/ parecerista, sobretudo no que se refere à relação que se estabelece entre esse/a profissional e os órgãos que demandam os seus serviços. CURSO FIC ANALISTA EPARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 5 ELAbORANDO O PARECER A MÃO NA MASSA 102 Referências ALBUQUERQUE, Joelson Bernardes; SILVA, Ângela Carrancho da. Avaliação de projetos cultu- rais. Meta: Avaliação, Rio de Janeiro, v. 2, n. 6, p. 289-320, set./dez. 2010. BRASIL. Casa Civil. Manual de Redação da Presidência da República. 3. ed. rev. atual. e ampl. Brasília: Presidência da República, 2018. Disponível em: https://www4.planalto.gov.br/cen- trodeestudos/assuntos/manual-de-redacao-da-presidencia-da-republica/manual-de-re- dacao.pdf. Acesso em: 3 fev. 2025. CEREZUELA, David Roselló. Planejamento e avaliação de projetos culturais. São Paulo: Edi- ções Sesc, 2015. https://www4.planalto.gov.br/centrodeestudos/assuntos/manual-de-redacao-da-presidencia-da-republica/ https://www4.planalto.gov.br/centrodeestudos/assuntos/manual-de-redacao-da-presidencia-da-republica/ https://www4.planalto.gov.br/centrodeestudos/assuntos/manual-de-redacao-da-presidencia-da-republica/ CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS Caminhos para o ofício de analista/ parecerista TÓPICO 6 Os/as analistas/pareceristas de projetos culturais existem no Brasil desde os idos dos anos 2000, mas tiveram sua atuação ampliada a partir da lei emergen- cial Aldir Blanc (Lei nº 14.017/2020), conforme você estudou no segundo tópico do curso. No entanto, ainda não houve a inserção desse ofício na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), tampouco uma regulamentação específica, com a indicação de piso-base para a realização dos trabalhos ou a solidificação das etapas que compõem a contratação desses/as profissionais. Essas são algumas das questões que discutiremos neste tópico final. Vamos lá? Os objetivos deste tópico são: 1. Refletir sobre os desafios do ofício de analista/parecerista de projetos culturais. 2. Demonstrar a relação entre os órgãos executores das políticas culturais e o/a profissional analista/parecerista de projetos culturais. Unidades Temáticas do Tópico 6.1 Desafios do ofício de analista/ parecerista de projetos culturais 6.2 A relação com os órgãos contratantes: fluxos de trabalho 6.3 Proteção de dados dos/as analistas/pareceristas CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 105 6.1 Desafios do ofício de analista/ parecerista de projetos culturais Iniciamos nossas reflexões apontando os desafios enfrentados pelos/as profis- sionais que desempenham a função de analista/parecerista. Esses desafios consis- tem, por vezes, na adequação do profissional às exigências de cada edital público, na discrepância dos valores pagos pelos órgãos responsáveis pelas chamadas pú- blicas nas diferentes regiões, bem como na falta do reconhecimento da profissão no país, passando pela ausência de uma padronização nas práticas de estados e municípios no que se refere às demandas curriculares, aos diferentes formatos e aos dados documentais da pessoa física ou jurídica. A ampliação do número de editais públicos e privados para a seleção de proje- tos culturais demanda a constituição de comissões de avaliação por parte de secre- tarias e fundações de cultura. Por esse motivo, é importante que se tenha clareza a respeito dos mecanismos e procedimentos envolvidos na relação estabelecida entre os/as analistas/pareceristas e os órgãos gerenciadores das políticas culturais. Isso requer um olhar para todo o processo, que começa com a inscrição nos chamamen- tos públicos. Assim, é necessário conhecer as características gerais dos chamamentos públicos na área, pois eles representam o início da jornada a ser percorrida pelo/a analista/parecerista. Para a apresentação dessas características, vamos utilizar como referência o Edital SMCT nº 08/2024 – Seleção de Pareceristas para Avaliação de Pro- jetos Inscritos em Editais da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Uberlândia, que apresenta o seguinte conteúdo na descrição de seu objeto: 1.1. O presente edital tem por objetivo a seleção de pessoas físicas e microempreendedo- res individuais, com comprovado conhecimento e atuação em um dos segmentos artísti- cos e culturais para exercerem as atividades de avaliação técnica e de mérito cultural, com emissão de parecer dos projetos inscritos nos Editais e Chamamentos públicos CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 106 [...]. 1.1.1. Entende-se por avaliação técnica e de mérito cultural a identificação de aspectos relevantes do projeto cultural, realizada através da atribuição fundamentada de notas aos quesitos descritos nos respectivos processos seletivos, com o intuito de verificar o atendimento às diretrizes da política de fomento, bem como a análise técnica da planilha orçamentária, na qual caberá ao profissional emitir parecer sobre a compatibilidade dos preços apresentados na planilha orçamentária do projeto com os valores praticados pelo mercado (Uberlândia, 2024). O trecho retirado do edital é importante no sentido de apontar o que a ad- ministração pública espera de um/a analista/parecerista ao lançar o chamamento público. A finalidade apresentada dialoga diretamente com as atribuições que você conheceu ao longo do curso, sobretudo no tópico 4. Outra característica desses editais são as vedações colocadas quanto à possibi- lidade ou não de inscrição na seleção. Em geral, os chamamentos deixam explícito quem pode e quem não pode se candidatar às vagas. É importante que esses itens sejam verificados com atenção, a fim de que a inscrição não incorra em inabilitação em razão da não observância de algum impedimento. Há editais, por exemplo, que limitam a participação às pessoas residentes na cidade ou no estado onde a política será executada. Além disso, o/a candidato/a deve se certificar de que está adimplente com os diferentes órgãos de instância municipal, estadual e federal, podendo, assim, apresentar as certidões negativas (ou positivas com efeitos negativos) demandadas pelo certame. Por fim, a pessoa inscrita não pode estar litigando com a administração pública, e também não pode ter qualquer participação no processo de elaboração e/ ou gerenciamento do edital, sob pena de ferir a lisura e a imparcialidade do processo. Apresentamos outro trecho do referido edital para exemplificar essas exigências: 3.2. É vedada a participação no processo de seleção de pessoa física ou jurídica que: 3.2.1. esteja impedida de licitar ou contratar com a administração pública municipal; ou 3.2.2. mantenha vínculo de natureza técnica, comercial, econômica, financeira, trabalhista ou civil com dirigente da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, ou com agente público que desempenhe função no processo de contratação ou atue na fiscalização ou na gestão do contrato, ou que deles seja cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau (Uberlândia, 2024). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 107 Um espaço importante para a localização de oportunidades é a plataforma Mapa da Cultura, na qual é possível encontrar os editais do Ministério da Cultura, bem como o mapeamento de ações em desenvolvimento. De acordo com esse portal: O Mapa da Cultura é um software livre de gestão do fomento à cultura e mapeamento co- laborativo. Ele foi criado de forma colaborativa pela hacklab/, órgãos públicos de cultura, organizações não governamentais, empresas e coletivos que acreditam na plataforma [...] (Mapa da Cultura, 2024). Já há no país alguns casos de sucesso no uso da plataforma, que auxilia na equalização dos esforços nas diferentes etapas: gestão cultural, cadastro unificado, mapeamento colaborativo, editais e inscrições, avaliações, prestação de contas, re- latórios e indicadores, geolocalização, integrações e publicização de dados. Exem- plos de algunsestados devem/merecem ser seguidos, como Ceará, Espírito Santo, Pernambuco e Pará. Assim, nossa sugestão é que você acompanhe os editais para que consiga se inscrever nas diferentes seleções de analista/parecerista. Para tanto, é essencial que a organização de documentos seja realizada previamente ao lançamento de editais. ATENÇÃO! Caso haja dúvida de como organizar seu portfólio, sugerimos que retome, caso necessário, o Tópico 3, em que discutimos sobre a organização de portfólio e a inscrição em editais. No que concerne ao processo de regulamentação do ofício do/a analista/pa- recerista de projetos culturais, enfatizamos que é necessário que esse ofício seja apresentado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e que passe a integrar a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), garantindo, dessa forma, que profissio- nais da área tenham sua ocupação reconhecida junto aos registros administrativos. Todavia, não se trata de um processo simples, e há questões de interesse políti- co envolvidas. Ao mesmo tempo, há uma movimentação da classe trabalhadora para que haja uma discussão formal sobre a atuação desse/a profissional, com a definição de seus direitos e deveres. Segundo consta no site do Ministério do Trabalho e Em- prego, “a regulamentação da profissão, diferentemente da CBO, é realizada por meio de lei, cuja apreciação é feita pelo Congresso Nacional, por meio de seus Deputados e Senadores, e levada à sanção do Presidente da República” (Brasil, s. d.). https://mapa.cultura.gov.br/ https://mapa.cultura.gov.br/ CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 108 Não há, desde os primórdios da atuação de analistas/pareceristas de projetos culturais no Brasil, uma estrutura que regule a profissão de forma mais específica, e isso acarreta problemas diversos, levando à precarização do trabalho, que se deve, por exemplo, à indefinição sobre o piso remuneratório e a carga horária a ser cum- prida, entre outros elementos de extrema importância para a formalização do ofício. No que diz respeito às políticas de cultura em nível nacional, entre outubro e dezembro de 2024, a sociedade pôde contribuir na construção do Novo Plano Na- cional de Cultura Participativo. O processo de elaboração desse documento incluiu etapas como consultas públicas, escutas territoriais e uso de plataformas digitais para coleta de sugestões, o que fortaleceu o protagonismo social na formulação dessa política cultural. Esse processo foi uma das etapas na construção do novo Plano Nacional de Cultura (PNC), que tem como princípio orientar as políticas públicas na área da cultura por um período de dez anos (2025-2035). O plano está estruturado em oito eixos (figura 18): Figura 18 – Eixos do Novo Plano Nacional de Cultura Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 109 Diante desse cenário participativo, diversos/as agentes culturais registraram suas reivindicações para o setor. Houve, por exemplo, proposta elaborada pelo Fó- rum Nacional de Pareceristas Culturais em favor da regulamentação do serviço de parecerista, vinculada ao Eixo 6 (Economia Criativa, Proteção Social, Emprego, Tra- balho e Renda): Regulamentação do serviço de parecerista | Estabelecer normas para a contratação de serviço técnico especializado para a etapa de análise de propostas culturais, garantindo a execução transparente de contratos que definam condições mínimas de trabalho, tais como: a) documentação necessária à contratação do serviço para diferentes modalidades (PF/PJ), b) cumprimento de prazos para o pagamento, c) prazos de análise compatíveis à demanda, d) remuneração por reuniões e socializações, e) remuneração adaptável à com- plexidade do edital (Lourenço, 2024). Essa proposta obteve 526 votos, o que indica uma demanda significativa da parte de diversos/as profissionais que se inscrevem em chamadas públicas de analistas/ pareceristas para atuarem na função de avaliadores/as de projetos da área cultural. Isso coloca em questão, mais uma vez, a ausência de uniformidade nas práticas ado- tadas pelos entes federativos no que se refere à constituição e gestão das comissões de seleção de projetos. Analistas/pareceristas também se veem desprotegidos/as tanto na esfera ad- ministrativa quanto na jurídica. Para fazer um contraponto a essa situação, apre- sentamos alguns processos seletivos que qualificam positivamente esse ofício no país, como é possível notar, por exemplo, através das tabelas de remuneração do trabalho do/a parecerista. Como veremos a seguir, é importante que seja realizado o pagamento por proje- to avaliado (não por blocos), por reuniões coletivas (para alinhamento e/ou sociali- zação das avaliações, por exemplo) e pela análise de recursos, com a prévia defini- ção estabelecida em contrato. O exemplo a seguir pode ser visto como uma prática positiva na administração pública: 7. DO PAGAMENTO 7.1. O Município de Uberlândia efetuará o pagamento ao contratado, conforme apurado no Relatório de Medição, considerando os valores estabelecidos na tabela abaixo: CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 110 Tipo de serviço a ser prestado: Análise e avaliação de projetos culturais – valor unitário: R$130,00 (cento e trinta reais); Reunião de trabalho – valor unitário: R$50,00 (cinquenta reais). 7.2. Para efeitos de remuneração do contratado, considera-se plenária a reunião de traba- lho, convocada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, para exposições, esclare- cimentos ou deliberações sobre projetos (Uberlândia, 2024). A previsão dos valores para o pagamento de analistas/pareceristas varia a depen- der da secretaria, nos níveis municipal, estadual e federal. Os trâmites necessários ao processo de pagamento também podem variar em cada caso, por isso é importante ficar atento/a ao que está descrito no edital que rege o processo de contratação. A seguir, vemos outro exemplo, desta vez da Fundação Cultural de Balneário Camboriú, que lançou edital prevendo remuneração tanto para os serviços a distân- cia como para os serviços presenciais, assim como para as reuniões coletivas. O qua- dro 6 apresenta os valores previstos pela fundação para o pagamento dos serviços realizados a distância: SERVIÇOS A DISTÂNCIA ATIVIDADE ORÇAMENTO GERAL VALOR UNITÁRIO Análise de Projetos Nível baixíssima Complexidade Orçamento até R$ 15.000,00 Valor unitário: R$ 55,00 (por projeto analisado) Análise de Projetos Nível baixa Complexidade Orçamento de R$ 15.001,00 até R$ 20.000,00 Valor unitário: R$ 65,00 (por projeto analisado) Análise de Projetos Nível Média Complexidade Orçamento de R$ 20.001,00 até R$ 50.000,00 Valor unitário: R$ 85,00 (por projeto analisado) Análise de Projetos Nível Alta Complexidade Orçamento de R$ 50.001,00 até R$ 100.000,00 Valor unitário: R$ 120,00 (por projeto analisado) Análise de Projetos Nível Altíssima Complexidade Orçamento acima de R$ 100.001,00 Valor unitário: R$ 170,00 (por projeto analisado) Participação em Plenária R$ 600,00 (Valor Fixo) --- Ministração de Palestra, de Oficina, de Workshop R$ 250,00 (por hora de duração) --- Quadro 6 – Pagamento de serviços a distância Fonte: Reelaborado a partir de Balneário Camboriú (2023). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 111 O quadro 7, por sua vez, apresenta os valores previstos pela fundação para o pagamento dos serviços realizados de forma presencial: SERVIÇOS PRESENCIAIS ATIVIDADE ORÇAMENTO VALOR UNITÁRIO Análise de Projetos Nível baixíssima Complexidade Orçamento até R$ 15.000,00 R$ 530,00 Análise de Projetos Nível baixa Complexidade Orçamento de R$ 15.001,00 até R$ 20.000,00 R$ 630,00 Análise de ProjetosNível Média Complexidade Orçamento de R$ 20.001,00 até R$ 50.000,00 R$ 840,00 Análise de Projetos Nível Alta Complexidade Orçamento de R$ 50.001,00 até R$ 100.000,00 R$ 1.200,00 Análise de Projetos Nível Altíssima Complexidade Orçamento acima de R$ 100.001,00 R$ 2.100,00 Participação em Plenária R$ 1.100,00 --- Ministração de Minicurso, Palestra, Oficina, Workshop e afins Duração mínima de 2 horas R$ 2.100,00 --- Avaliação, julgamento para festivais, mostras e outras manifestações culturais --- Diária – Valor unitário R$ 2.100,00 Quadro 7 – Pagamento de serviços presenciais Fonte: Reelaborado a partir de Balneário Camboriú (2023). Outro certame que trazemos a título de exemplo é o Edital nº 02/2024 – Seleção de Pareceristas para Avaliação de Projetos Inscritos em Editais da Fundação Cultural de Ituiutaba, que prevê valores fixos por análise, bem como o pagamento pela par- ticipação em reuniões coletivas, como descrito a seguir: 7. DO PAGAMENTO 7.1. O Município de Ituiutaba efetuará o pagamento ao contratado, conforme apura- do no Relatório de Medição, considerando os valores estabelecidos na tabela abaixo: Tipo de serviço a ser prestado Valor Unit.: Análise e avaliação de projetos culturais R$ 130,00 (cento e trinta reais); Reunião de trabalho R$ 50,00 (cinquenta reais). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 112 7.2. Para efeitos de remuneração do contratado, considera- se plenária a reunião de traba- lho, convocada pela Fundação Cultural, para exposições, esclarecimentos ou deliberações sobre projetos (Ituiutaba, 2024). Uma prática comum em alguns órgãos demandantes tem sido a previsão de um valor fixo a ser pago aos/às pareceristas, independentemente da quantidade de projetos a serem avaliados. Essa é uma forma de trabalho bastante prejudicial, pois, na prática, o/a profissional que realiza a sua inscrição em um certame de seleção de pareceristas não tem clareza sobre o valor que receberá pela análise de cada pro- jeto, podendo esse número ficar muito abaixo dos valores praticados no mercado. Cabe salientar que esse tipo de situação torna os processos pouco transparentes, o que acaba, inclusive, afastando os/as profissionais da área, devido à pouca atrativi- dade desses certames. Destaca-se que, em alguns editais, a quantidade de projetos a serem encami- nhados para avaliação é bastante expressiva, sobretudo nas seleções lançadas pelos órgãos estaduais, que atraem, quase sempre, milhares de proponentes. Além disso, nem sempre as secretarias/fundações contam com um banco extenso de pareceris- tas para contratação. Muitas vezes os prazos para a execução dos editais são aper- tados, o que acaba se refletindo no curtíssimo tempo concedido aos/às pareceristas para a realização das análises. Isso pode comprometer a qualidade do processo de avaliação, dada a necessidade de o/a profissional avaliador/a realizar uma leitura atenta dos projetos, atribuir as devidas notas e redigir os pareceres técnicos. Dessa forma, é importante que os órgãos contratantes dimensionem os seus prazos em função do volume de trabalho existente, a fim de que haja tempo hábil para a reali- zação de análises consistentes e fundamentadas. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 113 6.2 A relação com os órgãos contratantes: fluxos de trabalho Finalizado o processo de seleção de pareceristas, com a consequente publicação das lis- tas de habilitados/as e selecionados/as, tem início a relação mais direta entre o órgão contra- tante e os/as profissionais que atuarão na seleção de projetos. A seguir, apresentamos o fluxo que comumente caracteriza esse vínculo entre analistas/pareceristas e os órgãos executores das políticas culturais, com a descrição das diferentes etapas que o compõem: O QUE ACONTECE APÓS A SELEÇÃO DE PARECERISTAS? 1 ETAPA ENVIO DA CONVOCAÇÃO FORMAL DO/A CANDIDATO/A RESPONSÁVEL Contratante O órgão contratante convoca o/a parecerista, informando as condições do serviço a ser prestado e solicitando a confirmação de interesse e disponibilidade para atuar no processo de avaliação. Também são solicitados os documentos complementares para a contratação. 2 ETAPA ACEITE DAS CONDIÇÕES E ENVIO DE DOCUMENTOS RESPONSÁVEL Parecerista O/a parecerista encaminha, dentro do prazo informado pelo órgão (geralmente 2 a 5 dias), a sua confirmação de disponibilidade e a documentação solicitada. Não havendo disponibilidade, o órgão reinicia o processo com a convocação do/a próximo/a candidato/a na lista. 3 ETAPA ENCAMINhAMENTO DO CONTRATO DE TRAbALhO RESPONSÁVEL Contratante A partir dos documentos fornecidos na convocação, o órgão confecciona o contrato de trabalho e encaminha para o/a parecerista, explicitando informações como o número de projetos, o valor a receber e os prazos para a análise inicial e os recursos, bem como os prazos para pagamento. 4 ETAPA RETORNO DO CONTRATO DEVIDAMENTE ASSINADO RESPONSÁVEL Parecerista O/a parecerista confere o contrato encaminhado e, se não houver incorreções nos dados, realiza a assinatura. Em geral, os órgãos contratantes aceitam assinaturas digitais, a exemplo do tipo Gov.br. Também é definido um prazo para essa assinatura. 5 ETAPA ENVIO DA RESPECTIVA NOTA DE EMPENhO RESPONSÁVEL Contratante O órgão solicita o empenho do valor para o pagamento do/a parecerista, o que representa uma garantia de que o pagamento será realizado. A nota de empenho deve ser encaminhada, mas, em geral, pode ser consultada nos portais da transparência de estados e municípios. 6 ETAPA REUNIÃO DE ALINhAMENTO COM PARECERISTAS RESPONSÁVEL Contratante Feita a contratação e empenhados os valores, é possível iniciar os trabalhos. Em muitos casos, as secretarias/fundações convocam uma reunião inicial para apresentação do edital e do processo de avaliação, bem como para alinhamento dos procedimentos que serão adotados. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 114 7 ETAPA ENVIO DAS PROPOSTAS CULTURAIS PARA ANÁLISE RESPONSÁVEL Contratante O órgão realiza a distribuição dos projetos para análise, seguindo o que foi pactuado em contrato. Quando a avaliação não é realizada através de sistemas informatizados, também é costume encaminhar as planilhas de análise e/ou os modelos para as fichas de avaliação dos projetos. 8 ETAPA ANÁLISE E EMISSÃO DE PARECER DAS PROPOSTAS RESPONSÁVEL Parecerista Essa é a principal etapa de atuação do/a parecerista, envolvendo a leitura dos projetos, a atribuição de notas e a redação dos pareceres. A avaliação pode ser realizada através de sistemas (no caso de órgãos com maior estrutura) ou de arquivos encaminhados diretamente pelas contratantes. 9 ETAPA ACOMPANhAMENTO DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO RESPONSÁVEL Contratante No decorrer do período de análise de mérito, as equipes das secretarias/fundações acompanham o trabalho realizado pelos/as pareceristas de diversas formas: comunicação por e-mail, grupos de WhatsApp etc. Além disso, podem ser feitas reuniões intermediárias para discussão. 10 ETAPA RESULTADO PRELIMINAR E FASE RECURSAL RESPONSÁVEL Contratante Com as notas e pareceres, a secretaria/fundação prepara a publicação do resultado preliminar da seleção, levando em consideração, inclusive, as cotas e as reservas de vagas conforme o edital. Além disso, essa etapa também representa a abertura da fase de recursos. 11 ETAPA ENVIO DE RECURSOS CONTRA O RESULTADO RESPONSÁVEL Proponente Na etapa de recursos, os/as proponentes podem contestar o resultado divulgado por diferentes razões: possíveis erros de cálculo na pontuação final, documentos não considerados na análise, falta de correlação entre o projeto submetido e o que foi apontado no parecer etc. 12 ETAPA ENVIO DOS RECURSOS PARA OS/AS PARECERISTAS RESPONSÁVEL Contratante Os recursos recebidos são organizadospela equipe do órgão e encaminhados aos/às pareceristas. Nessa etapa, algumas secretarias direcionam cada recurso ao/à parecerista que realizou a avaliação inicial; em outros casos, o recurso é avaliado por pessoa diferente. 13 ETAPA AVALIAÇÃO DOS RECURSOS ENCAMINhADOS RESPONSÁVEL Parecerista Nessa etapa, os/as pareceristas analisam as solicitações dos/as proponentes, verificando aspectos como a pertinência e a coerência do que é apontado. Assim como na etapa inicial, as análises podem ser realizadas em sistemas ou por meio de formulários específicos. 14 ETAPA PUbLICAÇÃO DO RESULTADO FINAL DA SELEÇÃO RESPONSÁVEL Contratante Realizados os devidos ajustes a partir do deferimento ou indeferimento dos recursos pela comissão avaliadora, a secretaria/fundação divulga o resultado final da seleção de projetos, no portal específico do órgão na internet ou no diário oficial do estado ou município. 15 ETAPA INSTRUÇÃO DO PROCESSO DE PAGAMENTO RESPONSÁVEL Contratante Com a publicação do resultado final da seleção, está concluído o trabalho dos/as pareceristas. Assim, a secretaria/fundação pode solicitar os documentos necessários para o processo de pagamento, envolvendo os documentos fiscais e outros definidos pelo órgão. 16 ETAPA EXECUÇÃO DO PAGAMENTO DOS/AS PARECERISTAS RESPONSÁVEL Contratante Após o ateste do serviço e a devida instrução do processo, o órgão pode efetuar o pagamento dos/as pareceristas. Em geral, o prazo para o pagamento costuma ser de 30 (trinta) dias após a finalização do trabalho, ou seja, após o término da fase de recursos. 17 ETAPA ENVIO DE COMPROVAÇÃO DO TRAbALhO REALIZADO RESPONSÁVEL Contratante A última etapa da relação entre o/a parecerista e o órgão contratante é o encaminhamento de documento que comprova a atuação do/a profissional (declaração, certificado, atestado), item que é importante, inclusive, para a candidatura em futuros certames. Quadro 8 – Etapas da relação entre parecerista e órgão contratante Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 115 Como se vê, o vínculo que se estabelece entre o/a profissional parecerista e o órgão demandante do serviço é caracterizado por uma série de fases e proce- dimentos. Evidentemente, cada secretaria/fundação adota práticas específicas em seus processos de gestão, dada a autonomia administrativa de que gozam os entes federativos, de modo que outras tarefas podem ser adicionadas a esse fluxograma. No que se refere especificamente à documentação necessária para o pagamento pelo serviço realizado, é importante destacar que diferentes documentos podem ser solicitados, a depender da modalidade de inscrição realizada (pessoa física, pessoa jurídica, microempreendedor/a individual etc.): • Nota Fiscal (NF) de pessoa física No caso de inscrito/a como pessoa física, é possível o pagamento por meio de nota fiscal. Sobre o valor bruto da remuneração incidirá a retenção de tribu- tos como o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), o desconto previdenciário (INSS) e, a depender da faixa de valor, o Imposto de Renda (IR); • Recibo de Pagamento a Autônomo (RPA) Alguns municípios não permitem a emissão de nota fiscal por parte de pes- soas físicas. Nesses casos, o pagamento pode ser realizado por meio do Re- cibo de Pagamento a Autônomo (RPA). Sobre o valor bruto da remuneração incidirá, assim como no caso anterior, a retenção de ISSQN, INSS e IR (a de- pender da faixa de valor); • Nota Fiscal (NF) de pessoa jurídica Se a inscrição no chamamento público tiver sido realizada na condição de pessoa jurídica, a nota fiscal deve ser emitida dessa forma. Nesse caso, pode haver ou não incidência de impostos, de acordo com o perfil de tributação do CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). Saiba Mais Impostos na emissão de nota fiscal É fundamental que o/a analista/parecerista esteja a par dos valores dos impostos pagos na emissão de uma nota fiscal, pois essa informação auxilia na compreensão e no acompanhamento do processo de pagamento. Saiba mais sobre o assunto acessando o link a seguir: SAIBA MAIS https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-quais-sao-os-impostos-pagos-na-emissao-de-nota-fiscal,3d809f266efd7710VgnVCM100000d701210aRCRD CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 116 É importante que o/a profissional esteja atento/a ao andamento do processo, para que nenhuma das etapas anteriormente apresentadas deixe de ser devidamen- te executada. As secretarias de cultura municipais e estaduais, bem como o próprio Ministério da Cultura, têm por obrigação garantir a eficiência e a transparência no uso adequado do recurso público. Além disso, para quem atua ou deseja atuar como analista/parecerista de projetos culturais, sugerimos a guarda da documentação re- ferente à contratação e, sempre que necessário, a solicitação ao órgão contratante de documento que evidencie a relação de trabalho. Caso, em qualquer momento, o/a profissional se sinta prejudicado/a, é necessário recorrer aos órgãos responsáveis para que se cumpra o que está previsto na lei e nos demais documentos relativos ao processo de contratação, como o edital de seleção e o contrato de trabalho. Saiba Mais Despesa pública Para ter mais segurança e propriedade ao lidar com as questões burocráticas envolvidas nos processos de pagamento, é de grande importância que o/a profissional que atua como prestador/a de serviços na Administração Pública tenha conhecimento sobre as fases de execução da despesa pública (empenho, liquidação e pagamento), compreendendo o que está envolvido em cada uma delas. Para aprender mais sobre esse tema, acesse o link a seguir: SAIBA MAIS https://portaldatransparencia.gov.br/entenda-a-gestao-publica/execucao-despesa-publica CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 117 6.3 Proteção de dados dos/ as analistas/pareceristas Para atender ao princípio constitucional da impessoalidade (Brasil, 2024a), as- sim como para garantir a lisura na condução dos chamamentos públicos para se- leção de projetos culturais, é fundamental que o/a analista/parecerista tenha sua identidade resguardada. Na prática, isso significa que o/a proponente não deve ter acesso à identificação das pessoas que realizaram a avaliação de seu projeto, pois isso pode prejudicar o andamento do processo e, inclusive, acarretar possíveis da- nos à imagem do/a profissional avaliador/a. A análise de um projeto implica, necessariamente, a emissão de um juízo de valor sobre o seu conteúdo, com a observação de aspectos importantes, como sua qualidade, viabilidade e exequibilidade, bem como a sua contribuição para o cená- rio cultural em questão. Em outras palavras, analisar um projeto significa construir um julgamento a seu respeito. As notas e os pareceres formulados por pareceristas têm implicações diretas sobre a destinação dos recursos públicos na área da cultura. Assim, esse/a profissional exerce uma função decisória no âmbito das políticas cul- turais, razão pela qual a sua exposição deve ser encarada de forma cautelosa. Ao receber as suas notas e o parecer elaborado, o/a proponente não pode ter acesso a informações que porventura identifiquem o/a profissional avaliador/a. Nesse sentido, as instituições devem atentar-se ao disposto na Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), que “dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural” (Brasil, 2018). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOSà Cultura, a PNAB (Lei nº 14.399/2022), esta última de caráter estruturante, com o objetivo de injetar na área da cultura o montante de R$ 15 bilhões. Além disso, diversos estados e municípios contam com mecanismos próprios de finan- ciamento à cultura, por meio de leis de incentivo e/ou de fundos específicos que destinam recursos ao setor. A operacionalização dessas políticas se dá, em grande parte dos casos, a par- tir do lançamento de editais de chamamento público para a seleção e o desen- volvimento de projetos nas mais variadas linguagens e expressões culturais (artes visuais, audiovisual, cultura popular, dança, literatura, música, patrimônio, teatro etc.). A partir disso, a classe artística e os/as fazedores de cultura mobilizam-se para acessar os recursos financeiros disponíveis, encaminhando suas ideias para a execução de ações culturais, seja no âmbito da criação, da circulação ou da forma- ção cultural, por exemplo. Mas quem realiza a seleção dessas propostas? A partir de quais critérios? Esse é o conteúdo que estudaremos a seguir. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 12 Saiba mais! Como se chama a pessoa que submete o projeto? No âmbito das ações de fomento à cultura, o/a artista, produtor/a ou grupo cultural que submete uma proposta para avaliação, de personalidade física ou jurídica, é comumente denominado/a PROPONENTE. Já sabemos que as políticas de fomento podem ser implementadas pe- las diferentes esferas de governo: federal, estadual/distrital e municipal. Assim, quando a secretaria ou fundação de cultura de um estado ou de um município, por exemplo, lança um edital para a seleção de projetos culturais, ela precisa se certificar de que terá os meios necessários para realizar uma avaliação coerente das propostas recebidas, respeitando a lisura do processo para que não haja prejuízos para as partes envolvidas. Em algumas situações, a apreciação e a escolha dessas propostas é realizada internamente, com o auxílio de agentes públicos/as lotados/as no órgão, muitas vezes sob a justificativa de que essas pessoas têm um maior conhecimento da reali- dade local. Embora essa dinâmica possa simplificar o trabalho, inclusive encurtando os prazos e acelerando os processos de seleção, ela pode ser bastante arriscada, levando a possíveis falhas e gerando prováveis questionamentos por parte das pes- soas envolvidas. Vamos imaginar um cenário, mais precisamente a situação de um/a agente público/a que recebe a responsabilidade de avaliar propostas de ações culturais submetidas pelos/as fazedores/as de cultura de seu município ou estado, pessoas com as quais ele/a pode ter relações de amizade, inclusive, ou até mesmo um his- tórico de trabalhos desenvolvidos conjuntamente em outras ocasiões. Trata-se de uma situação que compromete a transparência do processo de seleção. Em vista disso, emerge a necessidade de se trabalhar, nesses processos, com a figura do/a parecerista externo/a. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 13 Figura 1 – Avaliação Fonte: Portal ISO (s.d.) Em geral, a captação de profissionais externos/as para atuação na análise de projetos e emissão de pareceres se dá por meio de editais de chamamento público ou de credenciamento. A natureza e o formato desses instrumentos podem variar em função de diferentes critérios e requisitos estabelecidos pela instituição contra- tante. Por exemplo: alguns editais restringem as inscrições a profissionais residentes na própria localidade em que a política de fomento será executada, uma vez que essas pessoas terão, provavelmente, um conhecimento mais aprofundado do cená- rio artístico-cultural da região. Além disso, tal decisão pode significar uma forma de valorizar os/as trabalhadores/as locais, especialmente em regiões onde há poucas oportunidades nesse sentido. Por outro lado, há editais que privilegiam a partici- pação de profissionais residentes em outras regiões, a fim de que a avaliação seja imparcial, uma vez que, assim, é possível evitar que as análises sejam realizadas por pessoas que têm alguma proximidade com os grupos culturais, ou que têm interesse ou predileção pela (não) execução de determinados projetos. Em alguns chamamentos, também, coloca-se a exigência quanto à formação/ titulação mínima do/a parecerista, enquanto outros não priorizam esse tipo de com- provação, dando maior peso à experiência e ao tempo de atuação no setor cultu- ral. Há certames que aceitam inscrições de pessoas físicas, ao passo que outros restringem as inscrições a profissionais com personalidade jurídica (microempreen- dedores/as individuais, por exemplo). Há, ainda, outras exigências que podem ser colocadas pelos órgãos contratantes no sentido de reduzir ou ampliar a gama de profissionais concorrentes, e esses elementos refletem o perfil de analista/parece- rista que a instituição espera ter em seu quadro. https://satisfacao-do-cliente.portaliso.com/qual-a-finalidade-de-uma-pesquisa-de-satisfacao/ CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 14 Outro aspecto relevante das seleções de pareceristas diz respeito aos cri- térios que são utilizados na análise e classificação das candidaturas. Há variações significativas entre os editais, mas são bastante recorrentes os seguintes critérios: formação/titulação acadêmica em áreas culturais ou correlatas; cursos técnicos e/ ou livres concluídos no campo da cultura; experiência profissional na área cultural em geral; experiência na área/linguagem específica em que se deseja atuar como avaliador/a; experiência em produção e gestão de projetos de cultura; participação na elaboração e gestão de políticas culturais; e, por fim, atuação prévia como pare- cerista em editais e concursos culturais. O procedimento mais adotado nesse tipo de certame é a classificação por meio de rankings que são obtidos a partir da pon- tuação alcançada pelos/as candidatos/as, gerando-se uma lista que define a ordem das convocações e contratações futuras por parte do órgão. Curiosidade Procedimentos de classificação A classificação por meio de ranking não é o único modo de definir a ordem de contratação em editais de analistas/pareceristas. Um procedimento comum em anos recentes tem sido, por exemplo, a classificação a partir de sorteio público, considerando-se uma lista de candidatos/as inscritos/as e previamente habilitados/as. Algumas seleções, ainda, definem a ordem de contratação levando em conta a ordem de envio das inscrições. É importante, em cada caso, ler o edital com bastante atenção, a fim de evitar incompreensões e equívocos ao longo das etapas previstas. Mas o que exatamente faz um/a analista/parecerista de projetos culturais? Quais são suas atribuições? Holanda, Oliveira e Martins (2021, p. 373) definem essa importante função do seguinte modo: O parecerista é compreendido como aquele que exerce atividade de análise de projetos e emite, com base em sua expertise, parecer técnico sobre as propostas culturais apre- sentadas aos editais de fomento à cultura, seja na esfera federal, estadual ou municipal. É nomeado comumente como “analista”, “perito técnico”, entre outros termos genéricos, sendo este considerado um profissional Ad-hoc. É importante compreender que o termo “parecerista” circula não apenas no âmbi- to das políticas de cultura, mas também em outros. A rigor, essa figura emerge sempre CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 15 que se verifica a necessidade de se submeter um material qualquer à apreciação de um/a especialista, com o objetivo de se obter um juízo, um conselho ou uma opinião. É possível apontar dois campos em que isso se faz comum: o campo científico e o campo jurídico. No primeiro caso, o/a pareceristaPARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 118 A proteção dos dados pessoais de pareceristas estende-se a todo o processo que envolve a atuação desses/as profissionais, desde as etapas iniciais da seleção. Em algumas situações, as relações publicadas nas páginas das secretarias/funda- ções (listas de inscritos/as e listas de resultados, por exemplo) apresentam dados desnecessários, expondo de modo inadequado as informações pessoais dos/as can- didatos/as. Para que isso seja evitado, os órgãos devem tomar cuidado para que, ao longo de todo o processo, os/as profissionais não tenham seus dados indevidamen- te divulgados, sobretudo dados como CPF, endereço residencial, endereço eletrôni- co e contato telefônico. A título de exemplo, apresentamos o caso do Fundo de Apoio à Cultura do Distri- to Federal – Edital FAC I – 2024, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Distrito Federal, 2024), que informou o nome de todos/as os/as pareceristas/as envolvidos/ as na análise do referido edital. Os/as pareceristas selecionados/as analisaram e avaliaram os projetos da linha designada. Em seguida, as notas foram publicizadas para que os/as proponentes tivessem o direito de recorrer da decisão provisória. Após a divulgação do resultado preliminar do Edital FAC I – 2024, os/as proponen- tes puderam verificar o detalhamento do parecer em área logada (acesso restrito), sem identificação do/a parecerista responsável. Diante disso, o/a proponente pôde apresentar seus contra-argumentos da decisão provisória e enviar seu recurso. Cou- be à comissão de pareceristas fazer uma pré-análise para reavaliar os pontos apre- sentados no recurso e decidir pelo seu deferimento ou indeferimento. Passada essa tramitação, o Conselho de Administração do Fundo de Apoio à Cultura ratificou ou não a análise dos recursos. Após essa fase, foi publicada a decisão final. Nota-se que todo o processo do Edital FAC I ocorreu em área logada do/a pro- ponente/parecerista, a fim de proteger os dados de todos/as os/as envolvidos/as, desde a submissão da proposta até o envio e a análise dos recursos, passando pela avaliação e o detalhamento dos pareceres. Dessa forma, restaram publicizados ape- nas os atos administrativos do resultado preliminar e do resultado final, com a apre- sentação das informações relevantes: número do projeto, agente cultural, linha de apoio, modalidade de concorrência, módulo, nome do projeto, pontuação total do projeto, valor final aprovado e o resultado da avaliação. O método estabelecido pelo Distrito Federal apresenta vantagens, porque qualifica a relação da administração pública com o/a proponente, do/a proponente com outros/as proponentes concor- rentes e, por fim, do/a proponente com o/a parecerista. Como vimos neste tópico, a natureza do trabalho desempenhado por analistas/ pareceristas no âmbito das políticas de fomento é bastante delicada, pois a análise CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 119 de mérito cultural realizada por esses/as profissionais pode impactar diretamente o valor final repassado para um projeto (havendo, portanto, implicações econômi- cas), bem como a possibilidade (ou não) de a proposta ser selecionada no âmbito do edital. Dito isso, chegamos ao final da nossa jornada! Esperamos que os conhecimentos adquiridos ao longo deste curso tenham sido relevantes para compreender o ofício de um/a analista/parecerista de projetos culturais, bem como para atuar com segu- rança nessa área. Trata-se de uma função de enorme importância no desenvolvimen- to das políticas de fomento à cultura, contribuindo de forma direta para a democrati- zação do acesso à cultura e para a garantia dos direitos culturais da população. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 6 CAMINhOS PARA O OFÍCIO DE ANALISTA/PARECERISTA 120 Referências BALNEÁRIO CAMBORIÚ. Fundação Cultural de Balneário Camboriú. Edital 010/2023 - Cre- denciamento de Pareceristas. Balneário Camboriú, SC: FCBC, 2023. BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presi- dência da República, [1940]. BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Brasília, DF: Presidência da República, [2018]. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Classificação brasileira de Ocupações, [s. d.]. Disponível em: https://cbo.mte.gov.br/cbosite/pages/home.jsf. Acesso em: 4 maio 2025. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Edital de Chama- mento Público nº 14/2024 – FAC I 2024. Brasília, DF: SECEC, 2024. ITUIUTABA. Fundação Cultural de Ituiutaba. Edital n° 02/2024. Seleção de pareceristas para avaliação de projetos inscritos em editais da Fundação Cultural de Ituiutaba. Ituiutaba, MG: FCI, 2024. LOURENÇO, Allan. Regulamentação do serviço de parecerista. brasil Participativo, 2024. Dis- ponível em: https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/planocultura/f/287/ proposals/21390. Acesso em: 4 de maio de 2025. SEBRAE. Saiba quais são os impostos pagos na emissão de Nota Fiscal. Portal Sebrae, 26 fev. 2021. Disponível em: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba- -quais-sao-os-impostos-pagos-na-emissao-de-nota-fiscal,3d809f266efd7710VgnVCM- 100000d701210aRCRD. Acesso em: 4 maio 2025. UBERLÂNDIA. Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Edital SMCT nº 08/2024. Seleção de pareceristas para avaliação de projetos inscritos em editais da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Uberlândia. Uberlândia, MG: SMCT, 2024. https://cbo.mte.gov.br/cbosite/pages/home.jsf https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/planocultura/f/287/proposals/21390 https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/planocultura/f/287/proposals/21390 https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-quais-sao-os-impostos-pagos-na-emissao-de-nota-fiscal,3d809f266efd7710VgnVCM100000d701210aRCRD https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-quais-sao-os-impostos-pagos-na-emissao-de-nota-fiscal,3d809f266efd7710VgnVCM100000d701210aRCRD https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/saiba-quais-sao-os-impostos-pagos-na-emissao-de-nota-fiscal,3d809f266efd7710VgnVCM100000d701210aRCRD Escult Escola Solano Trindade de Formação e Qualificação Artística, Técnica e Cultural escult.cultura.gov.br Apresentação O trabalho do/a analista/parecerista Quem é o/a analista/parecerista de projetos culturais? Qual é a importância do/a analista/parecerista nas políticas de fomento? As políticas culturais e o trabalho do/a analista/ parecerista A criação do Ministério da Cultura (MinC) Da Lei Rouanet à Constituição da Agência Nacional do Cinema (Ancine) A ampliação das políticas culturais de Estado no século XXI Pleiteando uma vaga ORGANIZAÇÃO DE PORTFÓLIO E INSCRIÇÃO EM EDITAIS Organização do currículo e dos documentos comprobatórios A busca por oportunidades e o processo de candidatura Analisando o projeto pontos de atenção Critérios de análise de um projeto cultural As especificações técnicas do produto cultural Elaborando o parecer a mão na massa A importância de uma avaliação fundamentada A elaboração do parecer A etapa de análise de recursos Caminhos para o ofício de analista/parecerista Desafios do ofício de analista/parecerista de projetos culturais A relação com os órgãos contratantes: fluxos de trabalho Proteção de dados dos/as analistas/pareceristas Quem é o/a analista/parecerista de projetos culturais? Qual é a importância do/a analista/parecerista nas políticas de fomento? A criação do Ministério da Cultura (MinC) Da Lei Rouanet à Constituição da Agência Nacional do Cinema (Ancine) A ampliação das políticas culturais de Estado no século XXI Organização do currículo e dos documentos comprobatórios A busca por oportunidades e o processo de candidatura Critérios de análise de um projeto cultural As especificações técnicasdo produto cultural A importância de uma avaliação fundamentada A elaboração do parecer A etapa de análise de recursos Desafios do ofício de analista/parecerista de projetos culturais A relação com os órgãos contratantes: fluxos de trabalho Proteção de dados dos/as analistas/pareceristasé um/a profissional fundamental, por exemplo, na gestão de periódicos científicos, veículos que recebem textos encami- nhados por diferentes pesquisadores/as, em diferentes áreas do conhecimento, e que precisam contar com um corpo qualificado de sujeitos para avaliação desses textos, visando garantir a qualidade dos materiais que são publicados. Nesse âmbito, Gross (2020, p. 1) refere-se ao/à parecerista como “protagonista anônimo da qualidade”. No segundo caso, o/a parecerista entra em jogo sempre que, no decorrer de um determi- nado processo, há a necessidade de se submeter alguma matéria jurídica à apreciação de um/a especialista do ramo, a fim de que seja emitida uma análise detalhada do objeto em questão, sempre com fundamento nos princípios legais. Na área da cultura não é diferente. O/a analista/parecerista torna-se uma peça importante na engrenagem da política cultural; assim como em outras áreas, ele/a é a pessoa que emitirá uma avaliação justa e fundamentada sobre a qualidade e a relevância de diferentes propostas, tendo sempre em vista a necessidade de ga- rantia dos direitos culturais da população. Cabe salientar que a presença de um/a parecerista na execução das políticas públicas atende ao que está posto na recen- te Lei nº 14.835, de 4 de abril de 2024, que institui o marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura (SNC). Em seu art. 3º, inciso VIII, esse texto legal aponta que as políticas públicas de cultura, no Brasil, são regidas, dentre outros princípios, pela “democratização dos processos decisórios dos entes públicos da área cultural, com participação e controle social” (Brasil, 2024b). Essa mesma orientação está expressa no próprio texto da Constituição Federal, em seu art. 216-A, § 1°, inciso X. § 1° O Sistema Nacional de Cultura fundamenta-se na política nacional de cultura e nas suas diretrizes, estabelecidas no Plano Nacional de Cultura, e rege-se pelos seguintes princípios: [...] X – democratização dos processos decisórios com participação e controle social (Brasil, 2024a, p. 193). Podemos pensar a função do/a parecerista de projetos culturais a partir da pró- pria definição desse tipo de projeto. Em seu livro Planejamento e avaliação de projetos culturais, Cerezuela (2015, p. 23) apresenta a sua definição nos seguintes termos: “Um projeto cultural é uma sequência ordenada de decisões sobre tarefas e recursos, encaminhados para alcançar certos objetivos em determinadas condições”. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 16 A princípio, essa mesma explicação poderia ser dada em relação a projetos de outros tipos, como os projetos sociais, educativos ou empresariais, por exemplo. No entanto, vamos destrinchar a definição do autor tendo em vista o nosso campo específico de trabalho: a cultura. Tomemos as quatro palavras que estão destaca- das na citação: tarefas, recursos, objetivos e condições. A partir delas, é possível compreender em que consiste, em termos gerais, o trabalho de análise e emissão de parecer sobre uma proposta submetida a um edital de cultura. A esse respeito, vejamos a figura 2, a seguir: Figura 2 – Pontos relevantes na avaliação de um projeto cultural Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Quanta coisa, não é mesmo? A leitura de um projeto cultural por parte de um/a analista/parecerista exige que sejam levadas em conta diferentes questões. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 17 É importante reconhecer e ressaltar os pontos positivos da ideia que o/a proponen- te pretende pôr em prática, tendo em vista as suas contribuições para a comunidade que receberá a ação, por exemplo. Além disso, também é essencial saber localizar e indicar as fragilidades e as limitações da proposta, deixando claros, tanto para o/a proponente quanto para os/as gestores/as públicos/as, os aspectos que apresen- tam equívocos ou que precisam ser amadurecidos. Por fim, há um último ponto a se destacar quando se trata de caracterizar a função do/a analista/parecerista. A atuação desse/a profissional no âmbito de um determinado edital de fomento compreende, na maioria dos casos, duas etapas bem definidas: a primeira é a da avaliação inicial das propostas submetidas, processo que resultará na classificação dos/as proponentes concorrentes, bem como numa possível relação de propostas desclassificadas, em razão do não cumprimento de algum item obrigatório do edital; a segunda etapa é a do recebimento dos recursos encaminhados pelos/as proponentes contra a avaliação inicial, nos casos em que estes entendem que houve algum equívoco ou incompreensão por parte da comissão avaliadora. Em alguns processos de seleção, no entanto, não há interposição de recursos (embora a etapa esteja prevista no cronograma), o que pode indicar que a etapa de avaliação inicial foi realizada corretamente, contando com análises justas e detalhadas, sem margem para pedidos de esclarecimento ou contestações desnecessárias. Não se pode esquecer que o/a analista/parecerista, quando contratado/a para essa finalidade, presta um serviço à administração pública, assumindo respon- sabilidades significativas num processo que visa, em última instância, a destinação adequada de recursos públicos para as áreas da arte e da cultura. No próximo subtópico vamos discutir o lugar e a relevância desse/a profis- sional na execução das políticas públicas de fomento à cultura. Desse modo, nosso convite é para que você continue focado/a, a fim de aprender mais sobre a dinâmica de atuação do/a analista/parecerista de projetos culturais. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 18 1.2 Qual é a importância do/a analista/parecerista nas políticas de fomento? A execução adequada de políticas públicas, em qualquer âmbito social, re- quer a ação e o engajamento de diferentes instâncias, representadas por órgãos/ setores, por movimentos sociais e por categorias profissionais específicas, que pre- cisam atuar em conjunto para o alcance de determinados objetivos. Na área da cul- tura isso não é diferente, pois a implementação exitosa de uma política de fomento cultural, por exemplo, dependerá de um trabalho coordenado e eficiente por parte de gestores/as culturais, fazedores/as de cultura e, também, da figura que nos inte- ressa discutir neste curso: o/a analista/parecerista de projetos culturais. A existência das políticas de fomento cultural visa, em última instância, pos- sibilitar o desenvolvimento e a disponibilização para a população de ações culturais que sejam relevantes, com o intuito de promover e assegurar um dos direitos previs- tos em nossa Constituição: o direito à cultura. Saiba mais! Direito à cultura O artigo 215 da Constituição Federal de 1988 dispõe sobre o tema nos seguintes termos: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” (Brasil, 2024a, p. 191). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 19 De acordo com o Marco Regulatório do Fomento à Cultura (Lei nº 14.903, de 27 de junho de 2024), os chamamentos públicos para celebração dos instrumentos de execução cultural compreenderão três fases específicas: (I) planejamento, (II) pro- cessamento e (III) celebração. Dessas três, a fase de processamento é aquela em que de fato ocorrem os processos de seleção das propostas que serão executadas no estado ou no município, no âmbito de uma determinada política de fomento. O marco regulatório prevê, como uma etapa específica dessa fase, a “análise de pro- postas por comissão de seleção”. No que se refere aos/às responsáveis pela análise e seleção das propostas, o § 3° do art. 9º dispõe o seguinte: § 3° Aetapa de análise de propostas poderá contar com o apoio técnico de especialistas: I – convidados pela administração pública para atuar como membros de comissão de seleção, em caráter voluntário; II – contratados pela administração pública para atuar como membros da comissão de seleção, por inexigibilidade, por meio de edital de credenciamento ou de configuração como serviço técnico especializado; III – contratados pela administração pública para emitir pareceres técnicos que subsidiem as decisões da comissão de seleção, por inexigibilidade, por meio de edital de credencia- mento ou de configuração como serviço técnico especializado. Embora ainda seja comum, em algumas instituições, a existência de parece- ristas captados/as via convite, o procedimento mais adotado tem sido, de fato, a contratação via edital de credenciamento. Com a expansão das políticas culturais e o aprimoramento nas práticas de gestão cultural, secretarias de estados e municí- pios têm percebido a necessidade de haver um olhar externo na avaliação de pro- postas culturais, o que colabora para garantir a transparência dos processos e evitar que se incorra em irregularidades e ilegalidades na condução dos certames. O/a analista/parecerista de projetos é a pessoa que colabora diretamente na alocação de recursos públicos destinados à cultura, uma vez que ele/a é o/a profis- sional contratado/a pela instituição de fomento para auxiliar na seleção das propos- tas relevantes em um dado contexto. Além disso, as avaliações que esse/a profissio- nal realiza podem servir para traçar uma espécie de diagnóstico da realidade dos grupos culturais da localidade no que tange ao seu nível de especialização para o trabalho na cultura, bem como para evidenciar determinadas lacunas que porventura apareçam de forma recorrente nos projetos apresentados. Assim, a atividade do/a CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 20 analista/parecerista pode auxiliar, ainda que de forma indireta, na reformulação das políticas existentes ou na formulação de novas políticas por parte da gestão pública. Com isso, são pelo menos três as funções desempenhadas pelo/a parecerista: (I) qualificar as políticas públicas do setor cultural; (II) servir como um instrumento de controle, garantindo a lisura dos processos; (III) auxiliar os/as fazedores/as de cultura no desenvolvimento de suas habilidades para a elaboração de projetos (fi- gura 3). Em suma, tem-se o seguinte: Figura 3 – Funções do/a parecerista Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Uma vez que o/a analista/parecerista atua junto aos órgãos estatais, colaborando na execução das políticas públicas de cultura, ele/a se converte em um/a agente públi- co/a. Isso significa dizer que seus atos devem se pautar, sempre, no interesse público em detrimento dos interesses privados. Seu trabalho é realizado tendo em vista a ne- cessidade primária de garantir os direitos culturais à população, mobilizando diferentes recursos para que a seleção dos projetos culturais, em um dado espaço e tempo, seja a mais viável e a mais significativa. Em outras palavras: o/a analista/parecerista tem, em suas mãos, a responsabilidade de orientar o cenário cultural de uma região por um cer- to tempo, uma vez que seu trabalho ajudará a definir, por exemplo, os bens e produtos culturais aos quais a população terá acesso e dos quais poderá usufruir. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 21 Glossário Agente público A definição de “agente público” pode ser tomada da Lei nº 8.429/1992, alterada pela Lei nº 14.230/2021, que dispõe sobre a improbidade administrativa. De acordo com essa norma, “consideram-se agente público o agente político, o servidor público e todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função [...]” (Brasil, 1992). Nesse sentido, é válido ressaltar que a administração pública brasileira pauta-se pela adoção de cinco princípios básicos, todos eles previstos no art. 37 da Constituição Federal: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. De forma mais ou menos direta, a presença do/a analista/parecerista nas políticas de fomento à cultura colabora para o atendimento desses cinco princípios (figura 4). Vejamos: Figura 4 – O/a analista/parecerista e os princípios da administração pública Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 22 Além dos aspectos já mencionados, há outros procedimentos que as instituições podem adotar no sentido de garantir a segurança e a qualidade do trabalho realiza- do pelas comissões de avaliação. Um exemplo importante diz respeito à quantidade de pareceristas contratados/as pelas secretarias. Apesar de haver leis, decretos e instruções normativas que regulam e orientam a execução das políticas públicas, cada ente federativo possui relativa autonomia no que se refere à operacionaliza- ção das seleções, o que pode conduzir, em alguns casos, a práticas inadequadas. É inadequado, por exemplo, que a instituição de fomento encaminhe uma proposta para análise por um/a único/a parecerista, pois é interessante que haja outras vi- sões e opiniões nesse processo. Por outro lado, há instituições que trabalham com comissões mais numerosas, desconsiderando, inclusive, as notas mais altas e mais baixas, de modo a garantir que as propostas concorrentes não sejam prejudicadas pela existência de avaliações muito discrepantes. Em geral, no entanto, verifica-se que os órgãos contratantes costumam montar comissões avaliadoras que têm entre dois e quatro membros trabalhando na análise dos mesmos projetos, todavia esse quantitativo não configura uma regra. Saiba Mais O/a analista/parecerista de projetos culturais e o uso das tecnologias digitais Atualmente, dada a profusão de ferramentas tecnológicas existentes, as reuniões de orientação, acompanhamento e discussão são realizadas, em sua grande maioria, com o auxílio de recursos virtuais, a exemplo do Google Meet, do Zoom ou do Microsoft Teams. Além disso, uma prática corriqueira em processos recentes tem sido a criação de grupos ou comunidades em aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, o que, em muitos casos, facilita a interação e permite que questionamentos sejam respondidos rapidamente, minimizando os possíveis problemas ao longo do processo. Em todo caso, durante a fase de análises, as equipes de gestão costumam estar disponíveis para a comunicação via e-mail. Outra prática comum diz respeito à realização, durante o processo, de reu- niões entre a equipe gestora e os/as pareceristas contratados/as. Em geral, após os procedimentos de habilitação, seleção e convocação, os/as pareceristas são convidados/as a participar de um encontro inicial no qual a instituição busca for- necer as orientações a respeito da realização das análises e direcionar o entendi- mento sobre alguns critérios específicos, bem como alertar quanto aos prazos e às etapas que regem o edital em questão. Além disso, após o período definido para CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 23 as análises, algumas secretarias e fundações convocam reuniões para discussão e alinhamento das avaliações efetuadas pelo grupo, buscando dirimir possíveis pro- blemas e corrigir discrepâncias que forem identificadas. Em alguns casos, ainda, adota-se a realização de reuniões intermediárias, com o intuito de acompanhar o andamento das avaliações. Considerando o que foi discutido até aqui, vamos retomar dois pontos para uma compreensão geral da função do/a analista/parecerista de projetos cultu- rais. O primeiro deles tem a vercom a própria designação que utilizamos para fazer referência a esse/a profissional: analista e parecerista. A rigor, essa dupla denominação engloba duas tarefas distintas, mas complementares: (I) a análise do projeto cultural, que envolve a leitura atenta e cuidadosa da proposta, numa visão do todo, com o intuito de avaliar a coerência das ideias apresentadas e a concatenação entre os diferentes itens do plano de trabalho; (II) a emissão do parecer decorrente dessa leitura, o que requer do/a avaliador/a a capacidade não apenas de analisar a qualidade e a viabilidade do projeto, mas também de traduzir textualmente as suas impressões, explicando, detalhada e fundamentadamente, as potencialidades e fragilidades da proposta em questão. Nesse sentido, a desig- nação “parecerista” pressupõe, em si mesma, as duas tarefas referidas, pois não é possível construir um parecer sem que haja uma análise prévia do plano de traba- lho encaminhado pelo/a proponente. No entanto, é possível que a etapa de aná- lise não enseje necessariamente a redação de um parecer (um exemplo disso são as seleções em que a socialização das análises é realizada oralmente, em reuniões de alinhamento). Em todo caso, é altamente recomendável que o/a profissional, a partir da leitura do projeto, registre de alguma forma suas impressões e suas críti- cas, seja num bloco de notas, numa ficha de avaliação ou em outro documento de sua preferência, pois os comentários registrados podem ser úteis em momentos posteriores, sobretudo na fase recursal do processo de seleção. O segundo ponto a ser retomado diz respeito ao conhecimento que o/a pare- cerista deve ter sobre a legislação pertinente à área da cultura, bem como sobre as especificidades que envolvem algumas políticas do setor. Um exemplo importante é o da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), cujos recursos serão administrados pelos entes federativos de forma permanente (Brasil, 2022b, 2025a). A implementação exitosa dessa e de outras ações demandará profissionais especia- lizados/as, com capacidade para atuação nos processos de seleção. Nesse sentido, é essencial que um/a candidato/a a parecerista, seja no âmbito federal, estadual/ CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 24 distrital ou municipal, tenha o adequado conhecimento dos diferentes elementos envolvidos na execução dessas políticas. O conteúdo deste tópico teve a pretensão de preparar você para o aprofunda- mento dessas questões iniciais nos tópicos seguintes. Nas próximas etapas, será possível expandir seus conhecimentos a partir de temas mais específicos relacio- nados à avaliação dos projetos culturais, inclusive a partir de casos práticos. Afinal, você já compreendeu a complexidade e a responsabilidade envolvidas no trabalho desse/a profissional na etapa de avaliação em políticas públicas de fomento à cultu- ra. Aliás, o impacto das políticas do setor sobre a atuação do/a parecerista é o tema central do próximo tópico. Bom estudo! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 1 O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 25 Referências BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do brasil. Brasília: Supre- mo Tribunal Federal; Secretaria de Altos Estudos, Pesquisas e Gestão da Informação, 2024a. BRASIL. Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022. Dispõe sobre apoio financeiro da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para garantir ações emergenciais direcionadas ao setor cultural; altera a Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal), para não contabilizar na meta de resultado primário as trans- ferências federais aos demais entes da Federação para enfrentamento das consequências sociais e econômicas no setor cultural decorrentes de calamidades públicas ou pandemias. Brasília, DF: Presidência da República, [2022a]. BRASIL. Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022. Institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fo- mento à Cultura. Brasília, DF: Presidência da República, [2022b]. BRASIL. Lei nº 14.835, de 4 de abril de 2024. Institui o marco regulatório do Sistema Nacio- nal de Cultura (SNC), para garantia dos direitos culturais, organizado em regime de cola- boração entre os entes federativos para gestão conjunta das políticas públicas de cultura. Brasília, DF: Presidência da República, [2024b]. BRASIL. Lei nº 14.903, de 27 de junho de 2024. Estabelece o marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Brasília, DF: Presidência da República, [2024c]. BRASIL. Lei nº 15.132, de 30 de abril de 2025. Altera a Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993 (Lei do Audiovisual), e a Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, para prorrogar benefí- cios fiscais nelas previstos, a Lei nº 13.594, de 5 de janeiro de 2018, para prorrogar o prazo para utilização do Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cine- matográfica (Recine), e a Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022 (Lei Aldir Blanc 2); e revoga a Medida Provisória nº 1.280, de 23 de dezembro de 2024. Brasília, DF: Presidência da República, [2025a]. BRASIL. Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992. Dispõe sobre as sanções aplicáveis em virtude da prática de atos de improbidade administrativa, de que trata o § 4º do art. 37 da Consti- tuição Federal; e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [1992]. CEREZUELA, David Roselló. Planejamento e avaliação de projetos culturais. São Paulo: Edi- ções Sesc, 2015. GROSS, Clarissa P. O parecerista: protagonista anônimo da qualidade. Revista Direito GV, São Paulo, v. 16, n. 2, e1957, maio/ago. 2020. HOLANDA, Claudia; OLIVEIRA, Cristiana Marques de; MARTINS, Ana Silveira. Um olhar de fora: a emergência do parecerista externo na análise de projetos em editais de fomento à cul- tura. In: KAUARK, Giuliana; NUSSBAUMER, Gisele (coord.). Diálogos sobre gestão cultural. Salvador: Pinaúna, 2021. p. 372-386. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS As políticas culturais e o trabalho do/a analista/ parecerista TÓPICO 2 Olá, estudante! Seja bem-vindo/a ao segundo tópico do curso de Analista e Pa- recerista de Projetos Culturais. Para entendermos a função de um/a parecerista, é importante ressaltarmos que esse/a profissional está inserido/a no campo das políticas culturais. Nesse sentido, é necessário que compreendamos os princípios norteadores que contribuem para a construção de um parecer cultural de acordo com os instrumentos legais em vigor. Os objetivos deste tópico são: 1. Apresentar um breve retrato histórico das políticas culturais no país. 2. Explicar os marcos legais que colaboram para a constituição de um parecer. 3. Analisar os impactos do uso desses marcos legais na função de analista/ parecerista. Unidades Temáticas do Tópico 2.1 A criação do Ministério da Cultura (MinC) 2.2 Da Lei Rouanet à Constituição da Agência Nacional do Cinema (Ancine) 2.3 A ampliação das políticas culturais de Estado no século XXI CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 28 2.1 A criação do Ministério da Cultura (MinC) Nosso breve panorama histórico se inicia no ano de 1985, com a criação do Minis- tério da Cultura. Naquele momento, o Brasil vivia um processo de redemocratização, após um período de ditadura civil-militar. A partir desse marco temporal, analisa- remos as leis que contribuíram para a implementação de diversas ações, visando a formação e estruturação do campo artístico-cultural ao longo das últimas décadas. O recém-criado ministério carecia de profissionais, autonomia e transparência na condução das políticas públicas para o setor da cultura à época. Como forma de obter recursos, o então presidente José Sarney (cujomandato durou de 1985 a 1989) promulgou a Lei Sarney (Lei nº 7.505/1986) a partir da gestão do ministro Celso Fur- tado, que se valia do imposto de renda das empresas e pessoas físicas, repassando uma parte para projetos culturais. A lei foi alvo de diversas críticas, especialmente por conta de problemas advindos da prestação de contas, bem como da realização de projetos que não se dedicavam à democratização do acesso aos bens culturais. ATENÇÃO! O PROCESSO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS CONFIGURA-SE COMO UMA ETAPA CRUCIAL NA CON- DUÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS. A NECESSIDADE DE TRANSPARÊNCIA NO USO DO RECURSO PÚBLICO IMPLICA UMA PREOCUPAÇÃO COM A PRESTAÇÃO DE CONTAS, QUE DEVE TER SUA COM- PROVAÇÃO DETALHADA. DESSE MODO, A DIFUSÃO DOS PROJETOS CULTURAIS DERIVA DE UM SISTEMA COMPLEXO ESTRUTURADO A PARTIR DA POLÍTICA CULTURAL NO BRASIL. A aprovação dos artigos 215 e 216 da Constituição Federal, em 1988, estabeleceu princípios norteadores para as políticas públicas de cultura. Esses artigos são estru- turantes na constituição de leis, decretos e instrumentos normativos que guiam o trabalho de pareceristas, assim como o entendimento global do/a proponente dian- te de uma política pública que fomenta/financia ações e projetos culturais. ! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 29 De acordo com o artigo 215, o “Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” (Brasil, 2024a). Logo, o Estado precisa gerar oportunidades para que os modos de ser e fazer sejam compartilhados com a população. Também é nesse artigo que fica definida a necessidade de haver um Plano Nacional de Cultura como um instrumento de gestão para as políticas cul- turais do país. O artigo 216-A, que cria o Sistema Nacional de Cultura (SNC), colabora para que entes federados (municípios, estados e o distrito federal) possam agir de forma des- centralizada e participativa, o que faz com que os recursos federais possam chegar a todas as localidades. Esse artigo é fundamental para a estruturação das políticas culturais que observamos hoje no país. Mais adiante nos aprofundaremos nesse tema. ATENÇÃO! OS PRINCÍPIOS NORTEADORES DOS ARTIGOS 215 E 216-A SÃO ESTRUTURANTES PARA A CONS- TRUÇÃO DE UMA JUSTIFICATIVA EM UM PROJETO CULTURAL. É NECESSÁRIO OBSERVAR AS CORRESPONDÊNCIAS ENTRE PRINCÍPIOS LEGAIS E O CONTEÚDO DO PROJETO. DESSA FORMA, UM/A PARECERISTA É CAPAZ DE ENTENDER A RELAÇÃO ESTABELECIDA ENTRE O PROJETO E A POLÍTICA PÚBLICA CORRESPONDENTE. No final do governo Sarney, o MinC já estava bastante fragilizado com as su- cessivas trocas de ministros e as poucas condições financeiras disponíveis para a gestão da pasta. Antes mesmo de Fernando Collor de Mello assumir a presidência da República, já estava preparado um terreno favorável à extinção do ministério (Male- ronka, 2017; Ferreira; Machado Neto, 2011). Desde 1985, o uso do recurso oriundo do imposto de renda como modo de au- xílio na área cultural tornou-se possível por meio de diversos instrumentos legais. Salientamos que, a partir da política nacional brasileira voltada para o setor cultural, tem sido possível, ao longo do tempo, executar uma série de atividades, mais preci- samente projetos, com caráter artístico e cultural. ! CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 30 2.2 Da Lei Rouanet à Constituição da Agência Nacional do Cinema (Ancine) Neste subtópico apresentaremos importantes mecanismos de incentivo à cul- tura caracterizados pela dedicação aos fomentos direto e indireto, incluindo eixos estruturadores para o setor do audiovisual no país. Assim, compreenderemos as especificidades da Lei Rouanet, da Lei do Audiovisual e da Ancine. Vamos juntos/as entender o sentido dessa importante estrutura cultural? A Lei Rouanet No ano de 1990, o presidente Fernando Collor de Mello rapidamente extin- guiu o Ministério da Cultura, que se tornou uma Secretaria de Cultura vinculada à Presidência. A Lei Sarney também foi revogada, ocasionando uma confusão no setor, porque havia projetos culturais em execução. Foi nesse contexto que o Pro- grama Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), também conhecido como Lei Roua- net, foi instituído em 1991. É importante dizer que nessa lei há três mecanismos para o incentivo às políticas culturais: a. O Fundo Nacional da Cultura (responsável, principalmente, por editais públicos); b. O Fundo de Investimento Cultural e Artístico (não possui instrumento que o regu- lamente, logo não está em execução); c. O incentivo a projetos culturais (responsável pelo uso do imposto de renda devido). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 31 Curiosidade A Lei nº 8.313/1991 ficou popularmente conhecida como Lei Rouanet graças a seu idealizador, Sérgio Paulo Rouanet, que também era diplomata e professor. Em 30 de agosto de 1991 o programa Roda Viva recebeu Rouanet, que falou da postura do governo Collor em relação às políticas culturais. ASSISTA AO PROGRAMA Como a Constituição Federal, a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) também demarca seus objetivos e princípios norteadores, os quais devem ser observados pelo/a parecerista: I. Contribuir para facilitar, a todos, os meios para o livre acesso às fontes da cultura e o pleno exercício dos direitos culturais; II. Promover e estimular a regionalização da produção cultural e artística brasileira, com valorização de recursos humanos e conteúdos locais; III. Apoiar, valorizar e difundir o conjunto das manifestações culturais e seus respectivos criadores; IV. Proteger as expressões culturais dos grupos formadores da sociedade brasileira e res- ponsáveis pelo pluralismo da cultura nacional; V. Salvaguardar a sobrevivência e o florescimento dos modos de criar, fazer e viver da sociedade brasileira; VI. Preservar os bens materiais e imateriais do patrimônio cultural e histórico brasileiro; VII. Desenvolver a consciência internacional e o respeito aos valores culturais de outros povos ou nações; VIII. Estimular a produção e difusão de bens culturais de valor universal, formadores e informadores de conhecimento, cultura e memória; IX. Priorizar o produto cultural originário do País (Brasil, 1991). O/a parecerista, ao analisar um projeto cultural inscrito na Lei Rouanet, também precisa observar se o/a proponente do projeto respeita o artigo 3° dessa mesma lei: Art. 3° Para cumprimento das finalidades expressas no art. 1° desta lei, os projetos cul- turais em cujo favor serão captados e canalizados os recursos do Pronac atenderão, pelo menos, um dos seguintes objetivos: https://institutorouanet.org/videoteca/roda-viva-retro-sergio-paulo-rouanet-1991/ CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 32 I. Incentivo à formação artística e cultural [...]; II. Fomento à produção cultural e artística [...]; III. Preservação e difusão do patrimônio artístico, cultural e histórico [...]; IV. Estímulo ao conhecimento dos bens e valores culturais [...]; V. Apoio a outras atividades culturais e artísticas [...]; a. Realização de missões culturais no país e no exterior, inclusive através do forneci- mento de passagens; b. Contratação de serviços para elaboração de projetos culturais; c. Ações não previstas nos incisos anteriores e consideradas relevantes pelo Ministro de Estado da Cultura, consultada a Comissão Nacional de Apoio à Cultura (Brasil, 1991). A atenção às normativas que orientam a cultura permite ao/à parecerista cultu- ral ter uma dimensão de como funciona a política de incentivo às áreas específicas. O trabalho de analisar propostas elaboradas portrabalhadores/as da cultura, por vezes, exige um conhecimento acerca da política cultural, o que permite analisar os perfis de projetos que se encaixam no chamamento público, bem como se estão de acordo com a legislação em vigor. Saiba Mais Usos da Lei Rouanet A Lei Rouanet prevê duas possibilidades de uso do incentivo fiscal: até 4% do imposto de renda a pagar da pessoa jurídica (somente empresas tributadas com base no lucro real) e 6% do imposto de renda a pagar da pessoa física (somente pessoas físicas que entregam a declaração completa à Receita Federal). Na lei, encontramos os artigos 18 e 26, que evidenciam as possibilidades de aplicação desses recursos. De acordo com o artigo 18, o orçamento do projeto de- verá ser totalmente oriundo do imposto de renda que a pessoa física ou jurídica deve à Receita Federal. Por exemplo, caso o orçamento do projeto seja de 100 mil reais, esse valor virá do imposto de renda que a empresa deve à Receita Federal. Entender de onde deriva o recurso, assim como as possibilidades de aplicação, permite a você, trabalhador/a da cultura, uma percepção de como funciona a nos- sa política nacional de incentivo à cultura. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 33 Segundo o artigo 26, há quatro possibilidades de incentivo fiscal a partir do orçamento do projeto. Uma parte do orçamento do seu projeto é oriunda do valor a pagar à Receita Federal, e a outra parte é oriunda dos recursos próprios do/a pa- trocinador/a. É relevante ressaltar a importância dessa lei para a área da cultura no país. Desse modo, uma das funções de um/a parecerista é observar se o projeto sob análise está em concordância com os princípios norteadores da lei. Avançando na política dos anos 1990, Collor é deposto em 1992 e assume o vi- ce-presidente Itamar Franco, que governou de 1992 a 1994. Este promulga a Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993). Essa lei também prevê diversos mecanismos de in- centivo fiscal, tendo sido parte deles incorporada ao longo dos anos. São eles: artigo 1º e artigo 1º-A, com validade até 2029, e os artigos 3º e 3º-A. Apesar da importância, a revalidação desses artigos depende de mobilizações políticas para sua renovação a partir de sanção presidencial. Para ampliar nosso conhecimento sobre esses aspectos formais da política de incentivo à cultura no Brasil, apresentaremos a Lei do Audiovisual e suas implica- ções. Você conhece a Lei do Audiovisual e o seu funcionamento? Vamos juntos/as aprender um pouco mais! A Lei do Audiovisual e a Ancine A Lei do Audiovisual foi sancionada pelo então presidente Itamar Franco, em 1993. Em 2001, no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi criada a Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio da Medida Provisória nº 2228-1/2001. A partir de então, a Lei do Audiovisual passou a ser responsabilidade dessa agência. Na atual versão da lei temos quatro possibilidades de incentivo fiscal. • No artigo 1º, é prevista a aquisição de quotas representativas dos direitos de comercialização das obras audiovisuais brasileiras de produção inde- pendente, com a possibilidade do incentivo fiscal para 3% (três por cento) do imposto devido pelas pessoas físicas e 1% (um por cento) do imposto de- vido pelas pessoas jurídicas, apresentando características de investimento sobre o produto que captou os recursos. • Já o artigo 1°-A, adicionado através da Lei nº 11.437/2006, possui estrutura simi- lar à do artigo 18 da Lei Rouanet e prevê patrocínio à produção de obras audio- visuais brasileiras de produção independente, com destinação de 4% (quatro por cento) do imposto devido pelas pessoas jurídicas e 6% (seis por cento) do imposto devido pelas pessoas físicas. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 34 • O artigo 3º, que trata das empresas distribuidoras de obras audiovisuais, per- mite que essas empresas possam abater até 70% do imposto devido. Para isso, é necessário que elas invistam no desenvolvimento de projetos de produção de longas-metragens brasileiros independentes e de telefilmes e minisséries brasileiras independentes, conforme a Lei nº 8.685/1993 (Ikeda, 2013). Esse me- canismo contribui para uma aproximação entre os elos da cadeia produtiva e fortalece a política voltada para a produção fílmica e outras produções inde- pendentes referentes ao audiovisual. Observamos que a empresa aplica 70% do imposto devido em uma ou mais minisséries, por exemplo, e se torna copro- dutora desta(s), também contribuindo para a construção da obra audiovisual. • Acrescido a isso, com a Medida Provisória nº 2.228-1/2001, no parágrafo úni- co do artigo 32, foi adicionada a esse mecanismo fiscal, como prerrogativa vantajosa para a política cultural brasileira, a implementação do Condecine Remessa, uma contribuição obrigatória destinada ao setor audiovisual que possui como função a “sobretaxa de 11% sobre remessa para o exterior” (Ike- da, 2013, p. 69). Entretanto, pode-se obter a isenção dessa taxa, desde que se opte pelo uso do artigo 3° da Lei do Audiovisual. NOTA: Ainda que o texto enfatize a produção audiovisual, os artigos apresentados podem atuar em outros elos da cadeia audiovisual e em diferentes formatos. Ainda há o artigo 3°-A, adicionado através da Lei nº 11.437/2006, com foco nas programadoras de televisão, detentoras de canais televisivos, as quais necessitam remeter recursos ao exterior, fruto do direito adquirido “por meio de radiodifusão de sons e imagens e serviço de comunicação eletrônica de massa por assinatura, de quaisquer obras audiovisuais ou eventos, mesmo os de competições desportivas” (Lei nº 8.685/1993). Além disso, reforçamos que o imposto abatido, decorrente de imposto de renda, pode ser aplicado em obras cinematográficas, sejam elas longas, médias ou curtas-metragens, entre outras obras do audiovisual. CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 35 Saiba Mais Obra cinematográfica e videofonográfica de produção independente Aquela em que a empresa produtora, detentora majoritária dos direitos patrimoniais sobre a obra, não tem qualquer associação ou vínculo, direto ou indireto, com empresas de serviços de radiodifusão de sons e imagens ou operadoras de comunicação eletrônica de massa por assinatura (Brasil, 2001). Ou seja: uma produtora precisa ter o direito de “compra/venda” da obra audiovisual e não possuir vínculo com redes de televisão aberta e fechada. A Ancine tem a importante função de incentivar a indústria cinematográfica, na medida em que democratiza o acesso à cultura por meio do financiamento e a possibilidade de uso para os trabalhadores que atuam na produção de material audiovisual no Brasil. O artigo 39, inciso X, da base legal supracitada, ou seja, a Medida Provisória nº 2.228-1/2001, possibilita que programadoras estrangeiras de TV por assinatura (responsáveis pelo conteúdo de programação de canais de televisão) possam usufruir da isenção do Condecine Remessa, já que também necessitam remeter valores financeiros para fora do país. Nesse caso, essas empresas podem “esco- lher” pagar os 11% sobre os valores das remessas do Condecine Remessa ou apli- car 3% desses recursos em produção local (Ikeda, 2013, p. 89). Nesse mecanismo, vemos que há possibilidade de as produtoras audiovisuais terem seus produtos exibidos em canais de televisão por assinatura, bem como de esses canais exibi- rem tais produtos em sua grade de programação. Por último, mas não menos importante, observamos, em 2001, a criação dos Fundos de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional (Funcines), fundos de investimento constituídos sob forma de condomínio fechado: “após o período de captação de recursos pelo fundo, não são admitidos novos cotistas”(CVM, 2022). Sob a administração de uma instituição financeira, autorização do Banco Central e fisca- lização da Comissão de Valores Mobiliários, os fundos podem utilizar o abatimento de 3% (três por cento) do imposto de renda devido por pessoas jurídicas e 6% (seis por cento) por pessoas físicas. Também há possibilidade de eles atuarem com dife- rentes setores da cadeia produtiva do audiovisual. Para que se tenha uma maior percepção do que foi discutido até aqui, apresen- tamos a seguir um quadro-resumo das informações: CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 36 Figura 5 – Quadro-resumo sobre as formas de financiamento da indústria audiovisual Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). Como a Ancine possui uma estrutura à parte do MinC, dada a sua constituição ju- rídica, ela possui um mecanismo de fomento direto. O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), por exemplo, permite que o Estado possa repassar os tributos arrecadados – sobretudo a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), criada para fomentar as atividades relativas ao setor – para empresas audiovisuais, a partir de três principais programas: Figura 6 – Principais programas da Ancine Fonte: Equipe de elaboração do curso (2025). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 37 Curiosidade Condecine Condecine é uma taxa, não um imposto. Criada para alimentar a cadeia produtiva do audiovisual, denomina-se Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional. PORTAL DA ANCINE Nesse breve relato, pudemos observar que tanto o fomento direto (amplamente conhecido pelos chamamentos públicos) quanto o fomento indireto atuam como ferramentas de captação de recursos para pessoas físicas e jurídicas na área cultu- ral. Observa-se, portanto, que, seja por meio do uso de dinheiro oriundo do imposto devido, seja da isenção do Condecine Remessa, no setor audiovisual é possível obter financiamento para projetos culturais. Além disso, é Importante dizer que aquelas produtoras audiovisuais que possuem registro na Ancine possuem ainda mais op- ções para a utilização do incentivo fiscal. Diante disso, o entendimento aprofundado das leis de incentivo à cultura con- tribui para uma análise depurada dos projetos analisados, já que o/a parecerista precisa se munir desses mecanismos jurídicos, como de outros. Só após a aprovação do projeto cultural, o/a proponente estará apto/a a encontrar uma empresa que possa usar parte do seu imposto devido para se valer do incentivo fiscal. Junto a isso, o fomento direto, a partir de dispositivos legais, favorece aqueles/ as que estão iniciando sua trajetória no setor cultural, pois o Estado lança editais públicos que, por sua vez, passarão pelo crivo de pareceristas. Podemos citar, como exemplos, o Edital de Intercâmbio Cultural – Circulação e Participação Audiovisual no Exterior; Edital Escolas Livres de Formação em Arte e Cultura; Modernização de Museus; Feiras Literárias, entre outros. ATENÇÃO! 1. O/A PARECERISTA, AO ANALISAR UM PRODUTO AUDIOVISUAL, PRECISA OBSERVAR QUAL(IS) É (SÃO) A(S) JANELA(S) DE EXIBIÇÃO, OU MELHOR, OS ESPAÇOS DE EXIBIÇÃO PLANEJADOS, A PARTIR DO USO OU NÃO DE DIFERENTES INCENTIVOS FISCAIS, PARA ENTENDER O PERFIL DO PÚBLICO-ALVO, BEM COMO AS ESTRATÉGIAS DE DIVULGAÇÃO UTILIZADAS. 2. PARA CADA ARTIGO CRIADO NOS INSTRUMENTOS LEGAIS, HÁ DIVERSOS ELOS DA CADEIA PRODUTIVA DO AUDIOVISUAL QUE SÃO BENEFICIADOS POR ESSE ESTÍMULO À ÁREA. ! https://www.gov.br/ancine/pt-br CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 38 2.3 A ampliação das políticas culturais de Estado no século XXI Para tratar da ampliação das políticas de cultura nas últimas décadas, precisamos retornar ao início do século XXI e à sólida participação do ex-ministro da cultura Gil- berto Gil (2003-2008). Este contribuiu para a mobilização das práticas culturais comu- nitárias, movimentos sociais e empresas, bem como para a mobilização da sociedade civil através de encontros, fóruns e seminários com o fim de criar o Plano Nacional de Cultura, o qual foi elaborado de 2005 a 2011. A previsão era de que as metas do plano fossem cumpridas até o ano de 2020, mas sua vigência foi ampliada até 2024. Pouco mais de um ano e meio depois da chegada do então ministro, houve a implementação dos pontos de cultura, ação prioritária do Programa Cultura, Educa- ção e Cidadania – Cultura Viva, pautada na cultura do cotidiano, das demandas, das vontades e da diversidade (Yúdice, 2013, p. 367). Para tanto, o ministério formulou diversas ações consolidadas no campo do fomento público direto. Saiba Mais Editais públicos As políticas nacionais de incentivo à cultura funcionam por meio de editais que regem o funcionamento de cada etapa. Os fomentos direcionados à área da cultura são públicos, e é possível acessá-los por meio do site do MinC. Assim, sugerimos que você acompanhe a divulgação dos editais por meio do link abaixo. Há, ainda, a possibilidade de descentralização dos recursos públicos federais para estados e municípios. ACESSE https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/editais CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 39 Em 2014, foi instituída a Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), através da Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014, como uma ampliação do escopo do Programa Cul- tura Viva. O Ministério da Cultura lançou, recentemente, uma cartilha para orientar as diretrizes dessa política, que hoje tem parte de sua execução fortemente atrelada à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB): A Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), instituída pela Lei nº 13.018/2014, é a política de base comunitária do Sistema Nacional de Cultura (SNC). Criada em 2004, parte do re- conhecimento de que o acesso aos bens e serviços culturais é um direito social básico e, portanto, uma obrigação do Estado. Mas, diferente da ideia de que o Estado deve “levar” cultura, esta política está baseada no sentido de potencializar os grupos e agentes cultu- rais já existentes nos territórios e comunidades do país. Visa à construção da cidadania cultural, como consciência do direito a ter direitos (Brasil, 2024d, p. 4). A PNCV compreende os pontos e pontões de cultura como seus principais ins- trumentos, visando a valorização da cultura local, a diversidade cultural, a gestão compartilhada, a difusão das ações, a promoção de atividades para públicos em vul- nerabilidade social e o intercâmbio com diferentes segmentos culturais e artísticos, além da participação ativa e contínua da sociedade: As negociações desenvolvidas entre os Pontos de Cultura e as possibilidades financeiras decorrentes desta ação em rede puderam promover novas distribuições de recursos pelos próprios entes desta rede [...], gerando oportunidades para consumo cultural, promovendo assim a formação de plateia em territórios fora dos eixos privilegiados (Ficheira, 2020, p. 39). Glossário Pontos de cultura “Entidades jurídicas de direito privado sem fins lucrativos, grupos ou coletivos sem constituição jurídica, de natureza ou finalidade cultural, que desenvolvam e articulem atividades culturais em suas comunidades” (Brasil, 2014). CURSO FIC ANALISTA E PARECERISTA DE PROJETOS CULTURAIS TóPICO 2 AS POLÍTICAS CULTURAIS E O TRAbALhO DO/A ANALISTA/PARECERISTA 40 Glossário Pontões de cultura “Entidades com constituição jurídica, de natureza/finalidade cultural e/ou educativa, que desenvolvam, acompanhem e articulem atividades culturais, em parceria com as redes regionais, identitárias e temáticas de pontos de cultura e outras redes temáticas, que se destinam à mobilização,