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PÉ DIABÉTICO Introdução ● O pé diabético é uma complicação crônica do diabetes mellitus caracterizada por alterações neurológicas, vasculares e infecciosas que acometem os pés, levando a úlceras, infecções e, em casos graves, gangrena e amputação. ● Toda pessoa com diabetes deve examinar os pés diariamente e realizar avaliação clínica anual para prevenção de neuropatia e lesões — a prevenção é a principal forma de evitar amputações. ● A perda progressiva da sensibilidade protetora, associada à disfunção autonômica periférica e à insuficiência vascular, predispõe à formação de úlceras nos pés. ● A perda axonal motora distal resulta em atrofia da musculatura intrínseca do pé e um desequilíbrio entre as forças extensoras e flexoras dos pododáctilos. ● Esse desequilíbrio de tensões leva à flexão metatarsofalangeana crônica (dedos em garra), o que gera transferência de peso para a parte mais distal do metatarso Fisiopatologia O pé diabético é uma das complicações crônicas mais graves do diabetes mellitus, caracterizado por alterações neurológicas, vasculares e infecciosas que comprometem a integridade dos pés, podendo evoluir para úlceras, infecções profundas e amputações. Sua fisiopatologia é multifatorial, resultando da interação entre neuropatia periférica, doença arterial periférica e susceptibilidade aumentada a infecções, todas associadas à hiperglicemia crônica. A hiperglicemia persistente é o fator central que desencadeia uma série de processos metabólicos deletérios. A glicose em excesso é desviada para vias metabólicas anormais, como a via dos polióis, levando ao acúmulo de sorbitol e à redução do mioinositol nas células nervosas. Esses desequilíbrios causam dano axonal, desmielinização e degeneração progressiva das fibras nervosas periféricas, originando a neuropatia diabética, um dos principais componentes fisiopatológicos do pé diabético. A neuropatia periférica se manifesta em três formas inter-relacionadas: neuropatia sensitiva, motora e autonômica. ● A neuropatia sensitiva provoca perda da sensibilidade protetora, especialmente nos pés, impedindo o paciente de perceber traumas, queimaduras, calosidades ou pequenos ferimentos. Essa perda sensorial é o primeiro passo para o desenvolvimento das úlceras neuropáticas. ● A neuropatia motora leva à atrofia e desequilíbrio dos músculos intrínsecos do pé, causando deformidades ósseas (como dedos em garra e proeminências ósseas) e alterações na distribuição da pressão plantar. Essas áreas de pressão aumentada favorecem o aparecimento de calosidades e ulcerações. ● Já a neuropatia autonômica reduz a sudorese e a lubrificação cutânea, resultando em pele seca, fissurada e mais vulnerável à penetração de microrganismos, facilitando infecções. Além das alterações neurológicas, a angiopatia diabética exerce papel determinante na fisiopatologia do pé diabético. A microangiopatia é caracterizada pelo espessamento da membrana basal capilar e disfunção endotelial, o que reduz a perfusão tecidual e prejudica a oxigenação. Já a macroangiopatia, associada à aterosclerose acelerada, causa doença arterial periférica (DAP), com obstrução progressiva das artérias dos membros inferiores. Essa redução do fluxo sanguíneo provoca isquemia crônica, dificultando a cicatrização das feridas e aumentando o risco de necrose e gangrena. A infecção é outro componente fundamental da fisiopatologia. A hiperglicemia afeta o sistema imunológico ao reduzir a quimiotaxia, fagocitose e atividade bactericida dos neutrófilos, o que facilita a colonização bacteriana e agrava as lesões existentes. As úlceras diabéticas frequentemente tornam-se porta de entrada para infecções polimicrobianas, que podem evoluir para celulite, abscessos profundos, osteomielite e septicemia. O trauma repetitivo sobre áreas de pressão aumentada e sem sensibilidade, aliado à isquemia e à infecção, culmina na formação de úlceras crônicas — principal expressão clínica do pé diabético. Essas úlceras tendem a ter bordas espessadas, base necrótica e pouca dor, devido à neuropatia sensitiva. Quando associadas à DAP grave, podem evoluir para ulcerações isquêmicas dolorosas e necrose tecidual, com risco elevado de amputação. Em síntese, a fisiopatologia do pé diabético envolve um círculo vicioso entre neuropatia, isquemia e infecção, agravado pela hiperglicemia e pelo controle metabólico inadequado. A neuropatia leva à perda da sensibilidade e à deformidade estrutural do pé; a doença vascular reduz a perfusão e dificulta a cicatrização; e a infecção agrava o dano tecidual e acelera a destruição local. O controle rigoroso da glicemia, a avaliação periódica dos pés, o uso de calçados adequados, e o tratamento precoce de pequenas lesões são as medidas mais eficazes para prevenir a formação de úlceras e reduzir o risco de amputações, que representam uma das consequências mais devastadoras do diabetes mellitus. Avaliação do pé diabético A avaliação do pé diabético deve seguir três fases: Inspeção A inspeção deve pesquisar aspectos dermatológicos e musculoesqueléticos, tais como: ● Cor e espessura da pele ● Pele seca ● Rachaduras ● Sudorese diminuída ou ausente ● Micose interdigital ● Ulcerações ● Calos e bolhas ● Deformidades ● Perda da musculatura interóssea. Avaliação neurológica ● Visa analisar a preservação ou não da sensibilidade protetora. ● Para analisar faz-se a realização do teste do monofilamento de 10 g associado a um dos seguintes testes: ➔ Teste da percepção vibratória (realizado com diapasão de 128 Hz ou com bioestesiômetro); ➔ Teste de sensibilidade dolorosa (Pinprick test ou teste do toque pontiagudo); ➔ Reflexo do tendão aquileu. Teste do monofilamento de 10g: ● O exame deve ser realizado em um ambiente calmo e silencioso. ● Inicialmente, deve-se aplicar o monofilamento na mão, no cotovelo, ou na fronte do paciente, para que ele saiba qual é a sensação causada pelo toque do monofilamento. ● Quando o teste começar efetivamente, o paciente não pode ver em que momento e em que ponto o examinador aproximará o monofilamento do seu pé. ● O icônico artigo publicado por Andrew Boulton em 2008, na Revista Diabetes Care, sugere que a pesquisa seja realizada em quatro pontos (pontos marcados em vermelho): ➔ Hálux (região plantar da falange distal). ➔ Primeira, terceira e quinta cabeças de metatarsos. ● O UpToDate também recomenda a pesquisa em calcâneo e quinto pododáctilo (região plantar da falange distal) e outras referências sugerem que a região dorsal, entre o hálux e o 2º artelho, também seja pesquisada. Esses pontos extras estão marcados em verde na IMAGEM 05. ● Aplique o monofilamento de maneira perpendicular à superfície da pele, com uma força suficiente para encurvar a haste. ● A duração total do procedimento (do contato da haste com a pele à sua retirada) não deve exceder dois segundos. ● Se houver lesões (úlcera, calo, cicatriz ou necrose), pode-se aplicar o monofilamento ao redor, nunca sobre elas. ● Evite deslizar o monofilamento sobre a pele e não faça toques repetitivos sobre a área de teste. ● Ao pressionar o monofilamento sobre a pele, pergunte ao paciente SE ele sente a pressão aplicada (sim/não) e ONDE a pressão está sendo aplicada (pé direito/pé esquerdo). ● Repita a aplicação duas vezes no mesmo local e alterne com, pelo menos, uma aplicação simulada, na qual o monofilamento não será aplicado. Ou seja, cada área será submetida a três aplicações (duas reais e uma simulada). ● A sensação protetora está preservada se o paciente responder corretamente a, pelo menos, duas de três aplicações. ● A sensação protetora é considerada ausente diante de duas de três respostas incorretas,o que coloca o paciente na categoria de elevado risco de ulceração. Teste do diapasão de 128 Hz: ● Antes do teste em si, o diapasão deve ser aplicado, em vibração, sobre alguma proeminência óssea (por exemplo, cotovelo, clavícula, esterno ou mento) para que o paciente perceba qual é a sensação esperada durante o teste. ● O paciente pode utilizar a palavra que preferir para referir a sensação de vibração. Essa palavra será utilizada como parâmetro ao longo de todo o teste. Por exemplo, a palavra escolhida pode ser: “sinto”, “sim”, “positivo”. ● Aplica-se o diapasão com pressão constante na face dorsal da falange distal do hálux, ou de outro dedo, caso o paciente não possua o hálux. Sempre com o paciente de olhos fechados. ● A aplicação deve ser repetida duas vezes, com, pelo menos, uma aplicação simulada (sem que o diapasão esteja em vibração). ● O teste é considerado positivo (alterado) se o paciente responder incorretamente a duas de três aplicações. ● O teste é considerado negativo (normal) se o paciente responder corretamente a duas de três aplicações. Reflexo do tendão aquileu: ● O paciente deve estar sentado, com o pé pendente, ou ajoelhado sobre uma cadeira. ● O pé deve ser mantido relaxado e em discreta dorsoflexão. ● Aplica-se um golpe suave com martelo de reflexos sobre o tendão aquileu. ● A resposta esperada (normal) é a flexão plantar reflexa do pé. ● O teste é considerado alterado quando o reflexo está ausente ou diminuído. Teste de Pinprick teste ● Uma agulha descartável deve ser aplicada próximo ao leito ungueal do hálux, com pressão suficiente para deformar a pele. ● A incapacidade de perceber a picada por qualquer hálux é considerada como resultado anormal do teste. ● A propriocepção pode ser pesquisada ao se realizar flexão e extensão do hálux, questionando se o sentido do movimento está sendo percebido de forma correta pelo paciente. Já a discriminação térmica, pode ser pesquisada com o proprio diapasão ou com outros objetos comtemperatura quente ou fria. Artropatia de chacort ● A neuroartropatia de Charcot (NC) é uma síndrome caracterizada por processo inflamatório descontrolado e persistente que afeta ossos, articulações e partes moles do pé, predispondo a ocorrência de osteólise e colapso da articulação do médio pé, chamado de “pé em mata-borrão”. ● Calor local ➔ sintoma mais precoce ● Raio X ou ressonância magnética ➔ são os exames confirmatórios ● O tratamento principal consiste em repouso, imobilização e retirada de carga. Avaliação vascular Deve-se interrogar o paciente ativamente em relação às queixas de claudicação intermitente e dor isquêmica em repouso. No exame físico, devemos ter especial atenção aos seguintes aspectos: ● Pulso da artéria dorsal do pé (pediosa); ● Pulso da artéria tibial posterior; ● Temperatura; ● Presença de rubor postural e palidez à elevação do membro Se os pulsos dos pés estiverem ausentes, devemos avaliar os pulsos poplíteo e femoral. Caso o exame clínico apresente alguma alteração (na anamnese ou no exame físico), devemos realizar o cálculo do índice tornozelo-braquial (ITB). Manifestações clínicas Os sinais e sintomas variam conforme o estágio da lesão: 1. Neuropatia sensitiva: ● Diminuição da sensibilidade à dor, calor e pressão; ● Queimação, formigamento ou dormência; ● Paciente pode não perceber ferimentos. 2. Alterações tróficas: ● Pele seca e rachada, calosidades; ● Deformidades ósseas (dedos em garra, “pé de Charcot”); ● Unhas espessadas. 3. Úlceras e infecções: ● Úlceras indolores em áreas de pressão (cabeça dos metatarsos, calcâneo); ● Exsudato, mau cheiro, celulite; ● Em casos graves: osteomielite e gangrena. 4. Comprometimento vascular: ● Pulsos diminuídos ou ausentes; ● Extremidades frias e pálidas; ● Claudicação intermitente (dor ao caminhar) Diagnóstico O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação dos pés e na presença de fatores de risco. 1. Exame físico dos pés: ● Inspeção da pele, unhas, deformidades e presença de feridas; ● Teste de sensibilidade com monofilamento de 10 g e diapasão de 128 Hz; ● Avaliação de pulsos periféricos (pedioso e tibial posterior). 2. Exames complementares: ● Índice tornozelo-braquial (ITB): avalia doença arterial periférica; ● Ultrassonografia doppler para fluxo sanguíneo; ● Radiografia ou ressonância se houver suspeita de osteomielite. OBS.: O diagnóstico de infecção é CLÍNICO e os principais sinais que indicam INFECÇÃO DE ÚLCERA DIABÉTICA são: ● secreção purulenta. ● celulite adjacente Tratamento O tratamento depende da gravidade, mas sempre envolve abordagem multidisciplinar (endocrinologista, cirurgião vascular, infectologista e podólogo). 1. Controle metabólico: ● Manter glicemia, pressão e colesterol dentro das metas. 2. Cuidados locais e prevenção: ● Higiene diária dos pés e inspeção visual; ● Hidratação da pele (evitar entre os dedos); ● Corte correto das unhas; ● Uso de calçados adequados (sem costuras internas, folgados); ● Evitar andar descalço. 3. Tratamento de úlceras: ● Limpeza e curativos estéreis; ● Retirada de tecidos necrosados (desbridamento); ● Descarga de pressão (uso de palmilhas especiais ou imobilização). 4. Tratamento de infecções: ● Antibióticos conforme cultura e gravidade; ● Internação hospitalar se infecção profunda ou com risco de sepse. 5. Revascularização: ● Indicado em casos com isquemia crítica (angioplastia ou cirurgia de bypass). 6. Amputação: ● Último recurso, quando há gangrena extensa ou infecção incontrolável. 7. Alívio da carga e da pressão: ● A principal causa de não fechamento das úlceras em pés diabéticos é a não remoção da carga; para isso, usamos gesso de contato total. ● Esse tratamento é contraindicado na presença de infecção ou isquemia, e uma alternativa é o uso de botas imobilizadoras, como robofoot. Tratamento da infecção ● Em infecções leves, as bactérias ➔ Gram-positivas (estreptococo e estafilococo) costumam ser os únicos agentes. ● Casos graves estão associados à infecção por: ➔ Gram-negativos (E. coli, Klebsiella, Enterobacter) e aos anaeróbios, sendo, portanto, POLIMICROBIANAS. ● A base do tratamento é a antibioticoterapia de amplo espectro e o desbridamento cirúrgico. O ATB é iniciado de forma empírica. ● A escolha do ATB e a forma de administração dependem da gravidade do quadro e da flora esperada. ● Em quadros brandos, o antibiótico pode ser feito por via oral, enquanto nos graves deve ser feito, obrigatoriamente, por via endovenosa. ● Os antibióticos tópicos não possuem comprovação de eficácia e são contraindicados. Classificação Neuropáticas ● Mais frequente – 60% dos casos; ● São indolores e associadas a calosidades, pele seca com fissuras e rachaduras, veias dorsais dilatadas, hiperemia e deformidades locais. ● A base da úlcera contém tecido granuloso, e clinicamente o paciente apresenta pulsos palpáveis, com ausência ou redução dos reflexos tendinosos profundos. ● Quando associada à infecção, é chamada de gangrena úmida (Figura 8) Isquêmicas ● 10% dos casos; ● Localizam-se geralmente nas extremidades dos dedos, costumam ser dolorosas e associadas à pele cianótica, unhas atrofiadase micóticas, pulsos diminuídos e palidez do membro. ● As úlceras têm margens irregulares, não têm exsudato (por isso, quando infectadas, chamamos de gangrena seca) e podem apresentar tecido necrótico (Figura 9). ● Em geral, calos e deformidades estão ausentes (diferentemente das neuropáticas). Neuro Isquêmicas ● 30% dos casos; ● São úlceras com características mistas, neuropáticas e isquêmicas. ● A clínica depende de qual é o mecanismo fisiopatológico predominante. Avaliação Para classificar a lesão, devemos levar em consideração profundidade, presença de isquemia ou de infecção, entre outros fatores associados à úlcera.