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Didática Geral 1 UNIVERSIDADE PAULISTA Didática Geral LIVRO TEXTO Prof. Ms. Mario Destro Monteiro 29/3/2011 Livro texto elaborado para a Disciplina de Didática Geral Didática Geral 2 SUMÁRIO SOBRE OS AUTORES ............................................................................................................................... 4 APRESENTAÇÃO............................................................................................................................... 6 OBJETIVOS DA DISCIPLINA ............................................................................................................ 6 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 8 1. A DIDÁTICA E SEU CONTEXTO ............................................................................................ 10 1.1. EDUCAÇÃO ........................................................................................................................... 10 1.2. PEDAGOGIA .......................................................................................................................... 14 1.3. DIDÁTICA ............................................................................................................................... 14 1.4. A INSTRUÇÃO E O ENSINO ............................................................................................... 15 1.5. APRENDIZAGEM .................................................................................................................. 17 1.6. CURRÍCULO ESCOLAR ...................................................................................................... 18 2. A FILOSOFIA, A SOCIOLOGIA E A PSICOLOGIA NA EDUCAÇÃO ..................................................... 22 2.1. A FILOSOFIA NA EDUCAÇÃO ........................................................................................... 23 2.2. A SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO ....................................................................................... 25 2.3. A PSICOLOGIA NA EDUCAÇÃO ....................................................................................... 31 3. A DIDÁTICA COMO TEORIA E TÉCNICA DA INSTRUÇÃO E DO ENSINO: COMO A HISTÓRIA AJUDA NA COMPREENSÃO DO HOJE .................................................................... 36 4. AS TENDÊNCIAS DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS .................................................................... 42 PEDAGOGIA LIBERAL ...................................................................................................................... 44 4.1. PEDAGOGIA LIBERAL TRADICIONAL ............................................................................ 45 4.2. PEDAGOGIA LIBERAL RENOVADA PROGRESSIVISTA ............................................ 46 4.3. PEDAGOGIA LIBERAL RENOVADA NÃO-DIRETIVA ................................................... 48 4.4. PEDAGOGIA LIBERAL TECNICISTA ............................................................................... 49 PEDAGOGIA PROGRESSISTA ....................................................................................................... 52 4.5. PEDAGOGIA PROGRESSISTA LIBERTADORA ............................................................ 52 4.6. PEDAGOGIA PROGRESSISTA LIBERTÁRIA ................................................................. 55 4.7. PEDAGOGIA PROGRESSISTA CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS .................... 57 RESUMO ............................................................................................................................................ 61 5. OS OBJETIVOS, CONTEÚDOS E PROCEDIMENTOS DE ENSINO ................................. 66 5.1. OS OBJETIVOS ..................................................................................................................... 66 5.2. OS CONTEÚDOS .................................................................................................................. 70 5.3. OS MÉTODOS DE ENSINO ................................................................................................. 73 6. OS RECURSOS E A AVALIAÇÃO DO ENSINO ................................................................... 85 6.1. OS DIFERENTES RECURSOS ........................................................................................... 85 6.2. A QUESTÃO DA AVALIAÇÃO ............................................................................................ 89 7. O PLANEJAMENTO ESCOLAR ............................................................................................. 99 7.1. O PLANEJAMENTO EM SEUS VÁRIOS NÍVEIS ........................................................... 100 7.2. PLANEJAMENTO ESCOLAR ........................................................................................... 100 Didática Geral 3 7.3. PLANEJAMENTO CURRICULAR .................................................................................... 101 7.4. PLANEJAMENTO DIDÁTICO OU DE ENSINO .............................................................. 101 7.5. PLANEJAMENTO DE CURSO .......................................................................................... 102 7.6. PLANEJAMENTO DE UNIDADE DIDÁTICA .................................................................. 103 7.7. O PLANO DE AULA ............................................................................................................ 103 8. O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM: UMA DISCUSSÃO GERAL .............. 109 8.1. A RELAÇÃO PROFESSOR – ALUNO E O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM ............................................................................................................................. 109 8.2. A QUESTÃO DO DIÁLOGO ............................................................................................... 111 8.3. A DISCIPLINA E A INDISCIPLINA ................................................................................... 112 8.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 115 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 121 Didática Geral 4 Sobre os Autores Professor Mário Destro Monteiro nasceu em São Paulo, onde vive e trabalha atualmente. Possui graduação em Educação Física e Técnicas Desportivas - Faculdades Integradas de Guarulhos e mestrado em Educação: Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Paulista e Coordenador de Estágios em Educação nesta Instituição. Tem experiência na área Educacional, com ênfase em Didática e Psicologia Escolar, atuando principalmente nos seguintes temas: Didática Geral e Específica, Psicologia Educacional, Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, Educação Física Escolar, Prática de Ensino, Recreação e Estrutura e Funcionamento do Ensino. Desde 2005 trabalha na Universidade Paulista lecionando as disciplinas ligadas à educação e à psicologia educacional, seu campo de interesse. Está ligado aos estudos da Didática, da Psicologia e da Educação, lecionando, produzindo materiais e pesquisas a mais de 10 anos, principalmente às questões envolvendo a aplicação desses tópicos na relação professor-aluno nas escolas, a forma como trabalhar com os alunos produtivamente e respeitosamente, a compreensão sobre as necessidades de cada fase cujas quais os alunos possam estar inseridos, a resolução de problemas de relacionamento em sala de aula, indisciplina, motivação, etc.Professor Wanderlei Sergio da Silva, formado em Geografia pela Universidade de São Paulo – USP, Mestre em Ciências (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo – USP e Doutor em Geociências e Meio Ambiente pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Trabalhou durante 15 (quinze) anos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT, em pesquisas relacionadas com as geociências e o meio ambiente. Após seu desligamento do IPT, atuou como consultor em trabalhos relacionados com meio ambiente durante 6 anos. No total, atuou em cerca de 100 projetos de pesquisa, muitos deles como coordenador de equipe. A partir de 2001 ingressou na Universidade Paulista – UNIP, onde lecionou disciplinas relacionadas com geografia, meio ambiente e planejamento no curso de Turismo, bem como as disciplinas didático- pedagógicas no curso de Psicologia (Licenciatura), sendo ambos os cursos presenciais. Atualmente é Professor Titular da UNIP, atuando como membro da Coordenadoria de Estágios em Educação, órgão da universidade responsável pela orientação das disciplinas didático-pedagógicas de todos os cursos de licenciatura, e como professor na UNIP Interativa, nos cursos de Letras e Matemática, responsável pelas disciplinas relacionadas com a Prática de Ensino, Didática Geral, Estrutura e Funcionamento da Educação Básica e Planejamento e Políticas Públicas da Educação. É autor de 5 (cinco) livros e 13 Didática Geral 5 (treze) trabalhos de congresso, e foi entrevistado em programas de rádio e TV sobre a temática ambiental. Professora Ana Paula Mendietta José, formada em Turismo pela Universidade Ibero Americana de São Paulo – UNIBERO, Mestranda em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo – UNICID. Em 2001 ingressou na UNIBERO e na Universidade Paulista – UNIP, onde lecionou disciplinas relacionadas com o turismo, responsável pela implantação da Agência Experimental na UNIBERO, lecionava disciplinas como Técnicas em Agências de Viagens, Planejamento Turístico. Durante 05 anos foi responsável pelo projeto de Recreação, um evento social comunitário que acontece semestralmente na Universidade Paulista, com crianças de creches, orfanatos e até asilos. Didática Geral 6 APRESENTAÇÃO Esta disciplina pretende proporcionar a capacidade de análise da relação entre o homem e a sociedade dentro de um contexto cultural, social e econômico, buscando por meio desses conhecimentos uma concepção de Educação. Ao estudar a trajetória histórica e cultural de formação da Didática como ciência da Educação, teremos como pano de fundo as diferentes concepções de educação e ensino. Pretende-se que a análise das diferentes perspectivas do processo de ensino e aprendizagem seja passível de ser compreendida, enfocando: concepções de homem, de mundo, de conhecimento, de professor-aluno, de ensino-aprendizagem, análise do contexto da instituição escolar, seu espaço político, sua estrutura e sua dinâmica de funcionamento. Este texto foi elaborado em uma perspectiva crítica, tentando deixar claro o posicionamento social que deve ser adotado para a formação de uma sociedade mais democrática e, por isso, mais justa e igualitária. Para isso, não podemos deixar de dizer que a consulta de outros materiais, principalmente os citados na bibliografia, se fazem extremamente necessário, como forma de criar um pensamento mais pluralizado e esclarecido sobre tudo que envolve a tarefa de ser professor. OBJETIVOS DA DISCIPLINA Os principais objetivos, em termos mais gerais desta disciplina são: formar educadores que posam atuar em qualquer das especialidades em que venham a licenciar; oferecer condições para a conscientização, por parte dos futuros educadores, da realidade educacional brasileira; proporcionar aos futuros educadores fundamentação teórica que os auxilie no seu preparo para uma ação educadora coerente com as necessidades da realidade em que atuarão; oferecer aos futuros educadores uma instrumentalização teórica que lhes possibilite uma ação educadora eficaz. Para isso, primeiramente será preciso: A. Compreender o objeto de estudo da Didática para possibilitar o embasamento teórico-prático das ações em sala de aula. B. Entender o contexto do processo ensino-aprendizagem para a construção de sua prática pedagógica. C. Analisar contexto da instituição escolar e o papel do professor. Dessa forma, a análise crítica da teoria deverá proporcionar condições de elevar a curiosidade e o interesse pela busca de aprofundamento teórico, capaz de formar um professor crítico, sensível às necessidades reais e nas Didática Geral 7 condições oferecidas, engajado em um projeto de educação mais consistente, eficiente e eficaz e capaz de trabalhar de maneira didaticamente organizada. Didática Geral 8 INTRODUÇÃO Este texto foi elaborado com a intenção de tratar de maneira geral, porém sucinta, os assuntos que envolvem a Didática como ciência (teoria) e a prática do professor, buscando de maneira ‘didática’ a construção de um arcabouço teórico básico, que instigasse a curiosidade para uma busca mais aprofundada sobre tudo o que envolve a formação de um professor. Longe de esgotar o tema, que foi construído por um longo percurso histórico, pretendemos contribuir para uma visão geral sobre o tema, de maneira a situar o futuro educador sobre toda a complexidade das tarefas docentes e, encorajá-lo para continuar suas pesquisas nesta temática, de forma a não se limitar a uma única visão, mas construí-la por várias fontes disponíveis que, com certeza, darão mais maturidade na construção teórico- prática da visão de professor. Para o inicio do texto (capítulo 2), foi necessário definir tudo o que envolve a didática, explicando os principais conceitos de palavras que são essenciais para compreendê-la, como uma sub-área da Educação. É trabalhado os conceitos de educação, pedagogia, didática, instrução, ensino, aprendizagem e currículo escolar. No capítulo seguinte (capítulo 3) desenvolvemos uma visão da relação entre a didática e as outras ciências, que por sua vez, são essenciais para a formação do educador, como formadoras da consciência crítica, sensível e pautada na realidade que a espécie nos coloca. Para isso, veremos como a filosofia, a sociologia e a psicologia se interrelacionam com a educação e a didática e como elas nos auxiliam na formação profissional como professores. No próximo capítulo (capítulo 4) vemos um pouco da história da didática e na formação das tendências educacionais, para que o futuro professor possa formar sua própria visão pautado no que já existe em termos de métodos de ensino. Após esta visão (no capítulo 5), veremos alguns componentes do planejamento, os objetivos, conteúdos e métodos de ensino. Veremos o que são, como devem ser trabalhados e sua estruturação, para que o professor possa organizar suas atividades de maneira séria e profissional. No capítulo posterior (capítulo 6), veremos o restante dos componentes do planejamento, os recursos e a avaliação, fechando com aquilo que faltava para a visualização detalhada do que se utiliza para o aprimoramento das aulas e o que se faz para a verificação dos resultados obtidos. No item seguinte (capítulo 7), veremos o planejamentode maneira mais aprofundada, após ter conhecido seus principais componentes – objetivos, conteúdos, métodos, recursos e avaliação – visualizando também seus diversos níveis, desde o sistema educacional até o plano de aula, de maneira a compreender como todos essas modalidades de planejamento se articulam e fazem parte da realidade educacional. Didática Geral 9 Por último (capítulo 8), poderemos ver mais sobre tópicos essenciais do cotidiano docente, com a relação professor-aluno, o processo de ensino e aprendizagem, a questão do diálogo e sua importância na relação didático- pedagógica e a disciplina na sala de aula. Esperamos ter contribuído com a sua aprendizagem, assim como esperamos que você tenha um grande sucesso na área educacional. Bons estudos! Didática Geral 10 1. A DIDÁTICA E SEU CONTEXTO Para que se possa discutir a Didática, antes de tudo, se faz necessário explicitar outros termos e conceitos que são inerentes a ela, pois estão totalmente interligados e fazem parte da realidade de todo professor. Tratam-se dos conceitos de Educação, de Pedagogia como ciência, da própria Didática e suas relações, do que significa o termo Ensino, o significado de Instrução, explicar sobre a Aprendizagem e outros fatores que a mesma depende e um pouco sobre o Currículo Escolar. Todos esses conceitos fazem parte de uma realidade maior para aqueles que trabalham na área da Educação. Além disso, existe uma influência de um para com os outros, determinando a forma de se compreender o trabalho de professor e de instrumentalizar o posicionamento deste. O trabalho nas escolas requer o domínio dessa gama de conceitos que possibilitam adotar uma postura educacional, escolher um jeito de pensar a educação dos alunos para que estes possam chegar a dominar tudo o que a sociedade exige que dominemos. Entretanto, somente compreendendo esse mecanismo teórico é possível traçar uma Didática coerente com os nossos princípios e tornar concreto um trabalho organizado, eficiente e eficaz. Para começarmos, vamos compreender melhor o conceito e discutirmos mais sobre o que significa Educação. 1.1. EDUCAÇÃO EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO CARLOS RODRIGUES BRANDÃO (1989) Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é a coragem minha. Buriti quer todo o azul, e não se aparta de sua água - carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. João Guimarães Rosa / Grande Sertão: Veredas Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação? Educações. E já que pelo menos por isso sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre a educação que nos invade a vida, por que não começar a pensar sobre ela com o que uns índios uma vez escreveram? Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um Didática Geral 11 tratado de paz com os índios das Seis Nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando. A carta acabou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-la aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa: "... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá- la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens." De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões entre as mais importantes estão escritas nesta carta de índios. Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante. Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas. Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo; ela existe em cada povo, ou entre povos que se encontram. Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade, a educação existe difusa em todos os mundos sociais, entre as incontáveis práticas dos mistérios do aprender; primeiro sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos. A educação pode existir livre e, entre todos, pode ser uma das maneiras que as pessoas criam para tornar comum, como saber, como idéia, como crença, Didática Geral 12 aquilo que é comunitário como bem, como trabalho ou como vida. Ela pode existir imposta por um sistema centralizado de poder, que usa o saber e o controle sobre o saber como armas que reforçam a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do trabalho, dos direitos e dos símbolos. A educação é, como outras, uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação que produzem e praticam, para que elas reproduzam, entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras do trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos, através de trocas sem fim com a natureza e entre os homens, trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita, e desde onde ajuda a explicar - às vezes a ocultar, às vezes a inculcar - de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem. Por isso mesmo - e os índios sabiam - a educação do colonizador, que contém o saber de seu modo de vida e ajuda a confirmar a aparente legalidade de seus atos de domínio, na verdadenão serve para ser a educação do colonizado. Não serve e existe contra uma educação que ele, não obstante dominado, também possui como um dos seus recursos, em seu mundo, dentro de sua cultura. Assim, quando são necessários guerreiros ou burocratas, a educação é um dos meios de que os homens lançam mão para criar guerreiros ou burocratas. Ela ajuda a pensar tipos de homens. Mais do que isso, ela ajuda a criá-los, através de passar de uns para os outros o saber que os constitui e legitima. Mais ainda, a educação participa do processo de produção de crenças e idéias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes que, em conjunto, constroem tipos de sociedades. E esta é a sua força. No entanto, pensando às vezes que age por si próprio, livre e em nome de todos, o educador imagina que serve ao saber e a quem ensina, mas, na verdade, ele pode estar servindo a quem o constituiu professor, a fim de usá- lo, e ao seu trabalho, para os usos escusos que ocultam também na educação - nas suas agências, suas práticas e nas idéias que ela professa - interesses políticos impostos sobre ela e, através de seu exercício, à sociedade que habita. E esta é a sua fraqueza. Aqui e ali será preciso voltar a estas idéias, e elas podem ser como que um roteiro daqui para frente. A Educação existe no imaginário das pessoas e na ideologia dos grupos sociais e, ali, sempre se espera, de dentro, ou sempre se diz para fora, que a sua missão é transformar sujeitos e mundos em alguma coisa melhor, de acordo com as imagens que se tem de uns e outros: "... e deles faremos homens". Mas, na prática, a mesma educação que ensina pode deseducar, e pode correr o risco de fazer o contrário do que pensa que faz, ou Didática Geral 13 do que inventa que pode fazer: "... eles eram, portanto, totalmente inúteis" Não há como falar sobre Educação sem citar esse texto do professor Brandão, que de uma maneira expressiva e bem humorada discute o que significa a Educação. Como vimos nesse trecho, a Educação confunde-se com a cultura e a ela serve, pois tem sua formação com base em pessoas que se revestem de costumes, de uma moral e uma ética, de comportamentos estabelecidos, etc. onde são úteis em cada região particular. Segundo Libâneo (1990), em sentido amplo, a Educação se dá simplesmente pelo sujeito existir socialmente, uma vez que ao conviver com a sociedade o indivíduo aprende e ensina, formando-a junto a outros membros dessa mesma sociedade. Esta ocorre em todos os campos, como na organização econômica, política, religiosa, dos costumes, etc. Já em sentido estrito, ocorre em instituições específicas, escolares ou não, com a finalidade clara de instrução e ensino, de maneira organizada, planejada, o que não ocorre em sentido amplo. Portanto, a Educação está em tudo e presente em todos os momentos de cada um de nós e forma a personalidade do sujeito socialmente falando, uma vez que envolve o desenvolvimento do mesmo na sociedade em que vive. Ocorre de maneira intencional e sistemática nas escolas e organizações, como uma Educação Formal, que tem por fim explícito o ensino e a instrução (sentido estrito); e de maneira não intencional em todos os lugares, como uma Educação Informal (sentido amplo). Desta forma dizemos que a Educação é, portanto, um fenômeno social, pois está em tudo que a sociedade abrange. É um processo social também, uma vez que é determinada por sua época, seu contexto histórico e social que a modela e a dirige por fazerem parte do contexto que rege a vida dos atores participantes da vida em sociedade. Educação Formal = Intencional e sistemática. Ocorre nas escolas. Educação Informal = ocorre de maneira não intencional e assistemática em todos os lugares. A Educação atua na formação da personalidade socialmente construída. “O trabalho docente é parte integrante do processo educativo mais global pelo qual os membros da sociedade são preparados para a participação na vida social. A educação – ou seja, a prática educativa – é um fenômeno social e universal, sendo uma atividade humana necessária à existência e funcionamento de todas as sociedades. Cada sociedade precisa cuidar da formação dos indivíduos, auxiliar no desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, Didática Geral 14 prepará-los para a participação ativa e transformadora nas várias instâncias da vida social. Não há sociedade sem prática educativa nem prática educativa sem sociedade. A prática educativa não é apenas uma exigência da vida em sociedade, mas também o processo de prover os indivíduos dos conhecimentos e experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social e a transformá-lo em função de necessidades econômicas, sociais e políticas da coletividade.” (Libâneo, 1990) 1.2. PEDAGOGIA A Pedagogia é a ciência que estuda a Educação. (Piletti, 2010) Se como ciência ela estuda a Educação, podemos dizer que tudo que envolve a Educação como um fenômeno e um processo social deve ser estudado e compreendido pela Pedagogia, ou seja, o que se deve fazer para Educar as pessoas, o que pode ser ensinado, como deve ser ensinado, a quem deve ser ensinado, por quem será ensinado, etc. Tudo o que envolve a transformação da cultura social em forma de Educação é parte da Pedagogia, como por exemplo, a influência dos processos produtivos pertencentes à economia pode influenciar a vida social e a Educação como fenômeno da sociedade, como o desenvolvimento do sujeito pode interferir na maneira como o professor ensina e o aluno aprende, quais os conjuntos de conhecimentos devem ser passados e captados pelas pessoas, etc. Como a Educação depende de muitas coisas, tudo isso de alguma forma, deve ser investigado pelas ciências pedagógicas. Uma coisa que deve ser destacada é o termo utilizado costumeiramente pelos professores: processo pedagógico. Mas o que significa isso? Significa que ao atuarmos como professores, estaremos elaborando um processo que leva o sujeito a uma determinada Educação, de maneira processual. Portanto, ao educar estamos atuando pedagogicamente e tomando um determinado posicionamento educacional para determinados conhecimentos, capacidades, habilidades e outras importantes coisas que devem ser incorporadas pelos alunos. Se falarmos em atuar pedagogicamente estamos dizendo que estaremos incumbidos de uma Educação para com nossos alunos. 1.3. DIDÁTICA Segundo Libâneo (1990), a Didática é o principal ramo de estudo da Pedagogia. Aquele que investiga os fundamentos, as condições e as maneiras mais apropriadas de realizar a instrução e o ensino. Didática Geral 15 Quando estamos pensando em como devemos fazer para ensinar algo a uma pessoa nossa preocupação é com a Didática que deve ser utilizada. Entretanto, no que se refere aos professores, toda forma de ensinar reflete uma busca educativa, pedagógica e, desta maneira, pressupõe uma relação entre aquele que ensina, os conhecimentos em si, o sujeito que aprende e a sociedade que irá acolhê-lo. A profissão professor é tão complexa justamente por isso, pois não basta ensinar uma simples habilidade, como a de escrever, por exemplo, para dizer que estamos educando. Se relacionarmos o ato de escrever com outras importantes habilidades, como ler, construir textos, organizar os pensamentos, etc., estaremos didaticamente estruturando um ensino de maneira mais condizente com as necessidades que a vida social solicita. A maneira como deve ser ensinado algo reflete se irá facilitar ou não a aquisição do conhecimentodo aluno. Como por exemplo, imagine você lecionando e explicando algo como a crise econômica a crianças da 5ª série e utilizando termos sofisticados e palavras que, talvez, grande parte da sala não compreenda. Acresça a isso o fato de não colocar nenhuma figura, não dar chance de uma interlocução por parte dos seus alunos (eles só escutam sua aula expositiva) e não trazê-los para mais próximos da realidade de acordo com os conhecimentos que eles já possuem. Didaticamente, poderíamos dizer que a aula seria, provavelmente, um verdadeiro fracasso, uma vez que os métodos de ensino não dariam conta de serem aprendidos adequadamente. Por esta razão a Didática deve ser muito bem estruturada antes de se iniciar um trabalho que se julga educativo. A Didática é o principal ramo da Pedagogia, preocupada em estudar os métodos e as formas mais apropriadas de se praticar a instrução e o ensino. 1.4. A INSTRUÇÃO E O ENSINO Segundo Libâneo (1990), a instrução é ligada à formação intelectual e o desenvolvimento da capacidade de conhecer, de acordo com o domínio de certo nível de conhecimentos sistematizados pelo professor. O ensino, por sua vez, corresponde às ações, meios e condições para que se possa instruir e, desta forma, está ligado à instrução. A instrução não está livre, mas ligada de maneira subordinada à Educação, uma vez que se volta ao desenvolvimento da personalidade do sujeito durante sua atuação nas escolas. Ao instruir, o professor desenvolve conhecimentos, habilidades e capacidades que se tornam reguladores da ação do sujeito no mundo, por isso acontece um processo pedagógico. Entretanto, apesar de interdependentes, podemos dizer que é possível educar sem instruir e instruir sem educar. Por exemplo, podemos dizer aos Didática Geral 16 nossos alunos que não se deve jogar lixo nas ruas (como forma de instrução) e, no entanto, isso não ser praticado da maneira como foi instruída – instrução sem levar a educação – e ao contrário, podemos sair pegando lixo do chão junto com os alunos sem nada dizermos - educação sem instrução – podendo dar melhores resultados em termos educativos. Assim, ao planejar as ações de ensino e instrução, devemos ter em mente objetivos propriamente educativos, pois o ensino é o principal meio que leva a uma educação (ainda que não seja a única via educativa por existir o sentido amplo desta). “A instrução se refere ao processo e ao resultado da assimilação sólida de conhecimentos sistematizados e ao desenvolvimento de capacidades cognitivas. O núcleo da instrução são os conteúdos das matérias. O ensino consiste no planejamento, organização, direção e avaliação da atividade didática, concretizando as tarefas da instrução; o ensino inclui tanto o trabalho do professor (magistério) como a direção da atividade de estudo dos alunos. Tanto a instrução como o ensino se modificam em decorrência da sua necessária ligação com o desenvolvimento da sociedade e com as condições reais em que ocorre o trabalho docente. Nessa ligação é que a Didática se fundamenta para formular diretrizes orientadoras do processo de ensino.” (Libâneo, 1990) É, portanto, pela instrução que o desenvolvimento dos alunos acontece, mas, tudo isso só é possível graças à estruturação Didática que o professor elege para cumprir com seu trabalho educativo. Tudo isso é guiado pela dinâmica da sociedade, uma vez que a necessidade da Educação é a adaptação social do sujeito e, as condições da sociedade mudam, de tempos em tempos, de acordo com todos os fatores que a influenciam. Para instruir e ensinar o professor necessita de preparação, não apenas a que recebe em sua formação como Professor Licenciado, mas também aquela que é garantida pela busca constante do conhecimento que deve se submeter o professor. A leitura e o estudo são as principais armas de um bom educador, pois para se instruir é necessário possuir um bom nível de conhecimentos. Só assim será possível escolher qual a forma Didática de ensino que será adotada para se cumprir essa função e saber de que maneira isso será requisitado no contexto em que o aluno habita, com intenção pedagógica. Dizemos que o sujeito é bem instruído quando o mesmo é capaz de demonstrar conhecimentos e habilidades suficientemente capazes de resolver os problemas que a vida social demanda. Mas, para isso, o processo de ensino deve possibilitar esse processo de abastecimento para acompanhar as condições de aprendizagem da pessoa do aluno. Didática Geral 17 A instrução é ligada à formação intelectual e o desenvolvimento da capacidade de conhecer. O ensino corresponde às ações, meios e condições para que se possa instruir e, desta forma, está ligado à instrução. 1.5. APRENDIZAGEM Ouvi uma vez um professor1 dizer em seu intervalo de aula: “Nossa, hoje eu dei uma excelente aula!” Em contra partida perguntei desta maneira a ele: “ Que bom! Mas, o que foi que os alunos aprenderam?” Para minha surpresa, a resposta do professor foi a seguinte: “Não estou falando dos alunos! Estou falando sobre a minha aula, foi muito boa!” Com uma pitada de bom humor, essa história ilustra muito bem o posicionamento que possamos encontrar no professorado atualmente, que esquece, da mesma maneira que esse professor, o mais importante para um professor. Fazer com que o aluno APRENDA! Segundo Schimitz citado por Piletti (2010), a aprendizagem é “um processo de aquisição e assimilação, mais ou menos consciente, de novos padrões e novas formas de perceber, ser, pensar e agir.” Ao professor compete atuar diretamente no comportamento dos alunos, garantindo sua aprendizagem de maneira suportada, eficiente e eficaz. De nada adiantaria um sujeito passar tantos anos freqüentando uma escola não fosse o fato de seu comportamento, nos âmbitos da percepção, da sua essência, de seu pensamento e de seu agir, se modificarem para algo qualitativamente melhor de quando ingressou naquela escola. Como vimos, a Educação atua na personalidade socialmente necessária aos indivíduos de cada cultura. Assim, o professor deve proporcionar um processo pedagógico planejado, de forma a colocar-se a instruir e ensinar de acordo com o estabelecido, modificando, assim, a aprendizagem e a capacidade de aprender de seus alunos. Um professor que se colocasse a falar, explanar, explicar e conduzir suas palavras, desvinculado com as capacidades dos alunos, não estaria garantindo a aprendizagem deles. Seria como jogar seu tempo pela janela da sala de aula. Deve haver uma sintonia entre aquele que ensina e o sujeito que aprende, pois o mais importante de tudo no processo escolar são as aprendizagens feitas pelos alunos que investiram seu tempo e dedicação em todo aquele processo de estudos. 1 Não será identificado o tal professor por uma questão de respeito a sua pessoa e ao profissional que o mesmo o é. Didática Geral 18 O próprio professor aprende muito ao ouvir seus alunos, prestar atenção neles, se aproximar deles, se colocar a disposição e permitir a discussão, a discordância e o debate em sala de aula. Ser sensível a realidade dos alunos é de fundamental importância para que se garanta um ambiente favorável à aprendizagem e o desenvolvimento de todos os envolvidos no processo educativo. A principal função do professor é promover a aprendizagem do aluno. Não se pode dizer que ensinou se o aluno não aprender! 1.6. CURRÍCULO ESCOLAR Segundo Piletti (2010), o currículo tem significado as matérias ensinadasna escola ou a programação de estudos. Atualmente, o termo tem sido utilizado em sentido mais amplo, para se referir à vida e a todo o programa da escola, inclusive as atividades extra-classe. Assim, pensando sobre isso, podemos imaginar como todas as atividades que ocorrem na escola possuem uma função Didática e Pedagógica. Didática, pois se estruturam estrategicamente para dar condições de acontecerem de acordo com a melhor forma, para permitir melhor aproveitamento por parte dos alunos. Pedagógica, pois pretendem ser formativas da personalidade do aluno, preparando-o para sua vida social. As características aprendidas via currículo escolar serão úteis para a vida social e profissional do sujeito. Geralmente, se recebemos um palestrante, costumamos perguntar qual o currículo dele, em sentido semelhante ao que acabamos de explicar, pois trata-se do conjunto de qualidades adquiridas por seu percurso de estudos, trabalho e qualificações. Na escola é muito próximo disso, uma vez que se trata de todas as atividades formativas as quais se submetem os alunos. Cada experiência vivenciada no período escolar é extremamente importante para formar esse repertório de qualificações. Por isso, cabe aos professores uma preocupação Didática e Pedagógica que possibilite um aproveitamento satisfatório por parte dos alunos, promovendo aprendizagem e desenvolvimento, sempre respeitando as limitações e potencialidades destes, sem que se limite a participação imediata, mas a experiências que possam ser estendidas para fora da escola, uma vez que o trabalho lá dentro serve para a vida social do indivíduo fora das escolas. É de extrema importância mencionar um conceito de currículo oculto e o que ele expressa na vida dos professores. Segundo Piletti (2010) trata-se da transmissão de valores, normas e comportamentos que são passados simplesmente pela interação professor-alunos. É oculto, pois ao contrário do anterior perpassa muitas vezes a uma falta de compreensão do que o professor está ensinando ao conviver com os Didática Geral 19 alunos. Sem que se possa perceber o professor mostra aos alunos suas valorizações, as normas que ele julga importante, os comportamentos que ele possui, etc. Não é raro vermos os alunos imitando comportamentos do professor ou reproduzindo frases que fazem menção a algum tipo de valorização que o mesmo possui, desta forma, oculto. Por isso, todo o cuidado é pouco para os professores que são grandes exemplos para os alunos. Eles, os alunos, copiam boa parte do que o professor fala, faz e manifesta. Todas as atividades da escola fazem parte do currículo oferecido. Por isso, ele deve ser estruturado didaticamente com todo o cuidado! A proposta de organização do conhecimento, nos Parâmetros Curriculares Nacionais, está em consonância com o disposto no Artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases, que assim se pronuncia: “Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela.” Os diferentes parágrafos desse artigo apresentam as diretrizes gerais para a organização dos currículos do ensino fundamental e médio: devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil; o ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos; a educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos; o ensino da história do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e européia; na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição. Didática Geral 20 RESUMO Não existe apenas uma educação, pois ela está ligada a uma cultura, a uma sociedade. A educação em sentido amplo abrange a vida social, onde se aprende e ensina o tempo todo. No sentido estrito acontece nas escolas, de maneira intencional e sistemática, auxiliando na formação da personalidade do sujeito. A Pedagogia é a ciência que estuda a educação em toda a sua complexidade, tendo como suporte as outras ciências, que ajudam a entender o ser humano e a sociedade. Se a Pedagogia estuda a formação da sociedade, podemos dizer que utilizar o termo ação pedagógica é o mesmo que dizer que se está agindo para a educação social. A Didática, por sua vez, é um sub-ramo da Pedagogia, que se ocupa dos fundamentos, as condições e as maneiras mais apropriadas de se realizar a instrução e o ensino. A instrução é a formação social, intelectual do sujeito e acontece por meio do ensino, que cuida da forma de se aplicar a instrução. Costumamos utilizar o termo ensino-aprendizagem. Entretanto, deve-se ter o cuidado de observar se o ensino está resultando em aprendizagem, verificando se está acontecendo um processo de aquisição e assimilação de novos padrões e novas formas de perceber, ser, pensar e agir. A principal missão do professor é fazer com que o aluno aprenda. Currículo escolar é todo o programa da escola, ligado a todas as atividades que os alunos vivenciam dentro dela. Currículo oculto, por outro lado, está ligado a aprendizagem dos alunos via relação comportamental com o professor. Exercícios 1) O que é Educação em sentido amplo? (a) É a vontade do indivíduo, a criação proporcionada. (b) Semelhante a moral e bons costumes. (c) Os bons modos, adquiridos no contato com a família. (d) É muito semelhante à cultura, pois é um fenômeno e um processo social. (e) Surge do amor dos pais, pela dedicação em cuidar de seus filhos. 2) O que é Didática? (a) É a incorporação dos dados da realidade nos esquemas disponíveis no sujeito, é o processo pelo qual as idéias, pessoas, costumes são incorporadas à atividade do sujeito. (b) é o principal ramo de estudo da Pedagogia, preocupado em investigar os fundamentos, as condições e as maneiras mais apropriadas de realizar a instrução e o ensino. Didática Geral 21 (c) É a assimilação, nada mais é do que a motivação. (d) É o conhecimento adquirido nas escolas. (e) É aquilo que faz com que elas se alternem mutuamente no processo de conhecimento e faz isso muito lentamente. 3) Qual a diferença entre instrução e ensino? (a) A instrução está ligada aos papéis que vem junto com alguns produtos que compramos, já o ensino é quando temos um professor para ensinar, para não termos de aprender sozinhos. (b) A instrução é ligada à formação intelectual e o desenvolvimento da capacidade de conhecer. O ensino corresponde às ações, meios e condições para que se possa instruir. (c) A instrução é ligada a todas as situações que precisamos pedir maiores informações, pois somente com elas estaremos instruídos. O ensino é aquilo que fazem os pais, nos primeiros anos de vida de seus filhos. (d) A instrução é um manual inventando por algum sujeito que o elabora, na perspectiva de favorecero uso de determinados aparelhos eletrônicos. O ensino é semelhante à educação, pois ensinar é o mesmo que educar. (e) Instrução é o mesmo que comando, pois quando se instrui alguém você o comanda. O ensino é ação de proporcionar a alguém uma capacidade elementar de pensamento e linguagem. Resolução dos Exercícios 1) A Educação confunde-se com a cultura e a ela serve, pois tem sua formação com base em pessoas que se revestem de costumes, de uma moral e uma ética, de comportamentos estabelecidos, etc. onde são úteis em cada região particular. Resposta correta: (d) É muito semelhante à cultura, pois é um fenômeno e um processo social. 2) Segundo Libâneo (1990), a Didática é o principal ramo de estudo da Pedagogia. Aquele que investiga os fundamentos, as condições e as maneiras mais apropriadas de realizar a instrução e o ensino. Resposta correta: Didática Geral 22 (b) é o principal ramo de estudo da Pedagogia, preocupado em investigar os fundamentos, as condições e as maneiras mais apropriadas de realizar a instrução e o ensino. 3) Segundo Libâneo (1990), a instrução é ligada à formação intelectual e o desenvolvimento da capacidade de conhecer, de acordo com o domínio de certo nível de conhecimentos sistematizados pelo professor. O ensino, por sua vez, corresponde às ações, meios e condições para que se possa instruir e, desta forma, está ligado à instrução. Resposta correta: (b) A instrução é ligada à formação intelectual e o desenvolvimento da capacidade de conhecer. O ensino corresponde às ações, meios e condições para que se possa instruir. 2. A FILOSOFIA, A SOCIOLOGIA E A PSICOLOGIA NA EDUCAÇÃO “Ao estudar a educação nos seus aspectos sociais, políticos, econômicos, psicológicos, para descrever e explicar o fenômeno educativo, a Pedagogia recorre à contribuição de outras ciências como a Filosofia, a História, a Sociologia, a Psicologia, a Economia. Esses estudos acabam por convergir na Didática, uma vez que esta reúne em seu campo de conhecimentos objetivos e modos de ação pedagógica na escola. Além disso, sendo a educação uma prática social que acontece numa grande variedade de instituições e atividades humanas (na família, na escola, no trabalho, nas igrejas, nas organizações políticas e sindicais, nos meios de comunicação de massa etc.), podemos falar de uma pedagogia familiar, de uma pedagogia política etc. e, também, de uma pedagogia escolar. Nesse caso constituem-se disciplinas propriamente pedagógicas tais como a Teoria da Educação, Teoria da Escola, Organização Escolar, destacando-se a Didática como Teoria do Ensino. (Libâneo, 1990) Para que a Pedagogia possa estudar e compreender a Educação esta precisa recorrer a outras ciências. As ciências, em geral, estudam sistematicamente algo que seja interessante para os seres humanos, para a vida de outros seres, para os ambientes que habitamos e tudo que possa ser de alguma forma relevante para nós. Um médico estuda outras ciências, como é o caso da biologia, da física, da química, da farmacologia, da psicologia, etc. Ele assim o faz, pois seria Didática Geral 23 praticamente impossível atender seus pacientes sem conhecimentos dessas áreas todas que possibilitam conhecer melhor os seres humanos em todas essas dimensões. Conhecimentos essenciais a quem precisa compreender como tudo está interligado de maneira complexa e interdependente. As inúmeras pesquisas científicas que são produzidas pelo mundo em diversas áreas se multiplicam, muitas novas áreas são criadas para dar conta de tentar captar um pouco do que o mundo tem para oferecer. Muitos recortes da realidade são criados com um rótulo de uma nova ciência. Ao se criar a Pedagogia, por exemplo, o recorte se vincula a investigar apenas e, ao mesmo, totalmente, o que envolve o fenômeno educativo na vida das pessoas, da sociedade em geral. Para isso, quase sempre se precisa de outros conhecimentos que se vinculam com os objetos de estudo dessa ciência. Como por exemplo: para se educar alguém é necessário saber o que é exatamente a Educação, o que é a cultura, como são os homens e como se organizam socialmente, como se comportam, como deveriam se comportar, quais conhecimentos são importantes para a espécie humana, como o homem se desenvolve e como aprende, etc. Mas, por que tantas perguntas? Vejamos como a Filosofia pode nos ajudar mais sobre isso. 2.1. A FILOSOFIA NA EDUCAÇÃO Segundo Lorieri e Rios (2004), a Filosofia busca a compreensão, que diz respeito ao sentido, ao significado, ao valor. Ela se apresenta como uma maneira de pensar que tem um conteúdo próprio: os aspectos fundamentais da realidade e da existência humana. Eles dizem que a forma do pensamento filosófico pode ser expressa como uma forma de pensar reflexiva, crítica, profunda, metódica e abrangente que busca contextualizar, ou colocar em unidades referenciais significativas mais amplas, os aspectos importantes ou fundamentais da realidade e da existência humana. Com um esforço de reflexão desse texto, é importante imaginar o quão interligado isso está com a Educação, uma vez que não refletir, questionar, analisar e tentar compreender mais detalhadamente a Educação pode incorrer a um ativismo precipitado, daquele que passa a fazer sem compreender o que faz, o que acontece, etc. A Filosofia, interligada com a Educação, questiona a mesma para que se chegue a um nível de compreensão mais preciso e seguro antes de se colocar a executá-la nas escolas. Vejamos alguns importantes questionamentos e análises decorrentes do caráter filosófico inserido na educação. O que seria uma boa forma de Educação? A qual tipo de vida ela conduziria? Didática Geral 24 Que tipo de homem e de mundo estamos buscando? Que ações pedagógicas seriam capazes de levar aos seres humanos um comportamento melhor e mais útil a sociedade? Que posicionamento as pessoas da escola devem ter uns para com os outros? Quais seriam as qualidades importantes em uma pessoa para que seja ensinado nas escolas? Seria possível ensinar essas qualidades? Como? São apenas alguns questionamentos que a Filosofia nos ajuda a levantar para que se possa trabalhar melhor e mais consciente de suas responsabilidades. Convido o leitor a refletir sobre esses questionamentos indo para além do que aqui está escrito, uma vez que se trata apenas de um estímulo a capacidade crítica e vivencial do futuro professor que está estudando com esse material. Imaginar o que seria um homem ideal é um importante exercício para que possamos organizar didaticamente as ações necessárias para se chegar a esse homem ideal. Talvez traçar qualidades, comportamentos, características, que possam ser valorizadas pela sociedade e capazes de municiar suficientemente bem o sujeito que delas precisar para trabalhar, viver socialmente, ser feliz e produzir cultura. Mas, e a sociedade, como funciona? Qual a maneira como devemos enxergá-la como educadores? Reproduzindo tudo que já se faz até hoje ou transformando o mundo para algo diferente? Vamos ver o que a Sociologia, aplicada a Educação, pode contribuir para tentar responder a estas questões, assim como enxergar possibilidades educativas em uma perspectiva mais interessante para o professor, para os alunos e para o mundo. SAIBA MAIS Pense sobre as perguntas acima e FILOSOFANDO, tente responder essas questões com hipóteses que possam satisfazer a você como educador. Imagine a criação de um mundo ideal e se perguntecomo seria possível a Educação, como fenômeno e processo social, ser capaz de construir esse mundo. Imagine e discuta com alguém quais qualidades as pessoas deveriam ter para que pudessem ser felizes e fazer um mundo melhor, não apenas para ela mesma, mas para todas as pessoas. Por último, pense na diferença entre uma postura crítica e, no extremo oposto, uma postura conformista e acomodada. Pense também entre a diferença entre ser crítico e ser o que as pessoas chamariam de chato, ou pessimista. Didática Geral 25 2.2. A SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO Sendo a Filosofia uma ciência questionadora e crítica, ela serve de base para uma postura mais interessante, daqueles que não se deixam levar pelas primeira impressões. Graças a ela, como primórdio da ciência, vieram todas as outras importantes contribuições científicas que permitem vislumbrar um mundo de possibilidades e uma busca incessante por respostas. A Sociologia emana dessa Filosofia, questionando fatos da vida social que permitem aos homens assumir dadas posturas socialmente. A Política, a Cultura, os Costumes, a Economia, etc. tudo isso provém de uma organização social e, a Sociologia como ciência, busca encontrar uma compreensão mais profunda sobre como tudo isso acontece, como se manifesta e a que conseqüências. Vejamos o que diz Libâneo (1990) sobre a Sociologia da Educação: “A Sociologia da Educação estuda a educação como processo social e ajuda os professores a reconhecerem as relações entre o trabalho docente e a sociedade. Ensina a ver a realidade social no seu movimento, a partir da dependência mútua entre seus elementos constitutivos, para determinar os nexos constitutivos da realidade educacional. A par disso, estuda a escola como ‘fenômeno sociológico’, isto é, uma organização social que tem a estrutura interna de funcionamento interligada ao mesmo tempo com outras organizações sociais (conselho de pais, associações de bairros, sindicatos, partidos políticos, etc.). A própria sala de aula é um ambiente social que forma, junto com a escola como um todo, o ambiente global da atividade docente organizado para cumprir os objetivos de ensino.” (Libâneo, 1990) Como vimos, a Sociologia da Educação se preocupa mais especificamente como as pessoas socialmente se organizam e como a Educação se envolve com esse fator. É necessário um ambiente de criticidade, que garanta uma compreensão mais aprofundada do fenômeno que envolve a vida social, as condições de trabalho, as divisões de classe, a ideologia, etc. Esses conceitos são muito importantes para se ultrapassar o senso comum e se aproximar da ciência, uma vez que durante muito tempo a Educação teve vinculada à interesses ideológicos de uma minoria pertencente as elites da sociedade. Pela influencia de grandes teorias sociológicas temos noções de que a busca de uma sociedade democrática, que defenda os interesses de toda a população e não apenas parte dela se faz imprescindível. Didática Geral 26 2.2.1. A VISÃO SOCIOLÓGICA SOBRE A DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO Segundo Libâneo (1990), a educação é socialmente determinada, pois os fins e exigências sociais, políticas e ideológicas guiam todo o processo de funcionamento da sociedade, determinando valores, normas e particularidades da estrutura social, da qual a educação está subordinada. Isso, pois desde o início da existência da espécie humana, os homens vivem em grupos e a vida de um está sempre vinculada e na dependência da vida de outros. Por exemplo, a nossa organização atual no Brasil funciona com a existência de um Estado que governa e, dele depende todo o futuro da nação. As ações do governo provocam um efeito cascata, influenciando no preço dos alimentos, no aumento ou diminuição dos impostos, na oferta de empregos, na qualidade de vida das pessoas, na criminalidade, etc. Essa forma de organização, a divisão em classes sociais e o capitalismo que hoje rege praticamente o mundo todo vão configurando as ações práticas e concretas dos homens. Libâneo (1990) explica que desde quando os homens passaram a viver socialmente começaram a travar relações de reciprocidade diante da necessidade de organizar seu trabalho em conjunto e garantirem sua sobrevivência. Essas relações se transformaram, criando novas necessidades, novas maneiras de organizar o trabalho de todos, conforme sexo, idade, ocupações, de maneira que existisse uma distribuição das atividades entre todos envolvidos nesse processo. O tempo e os interesses de uma parte da população se encarregaram de manifestar as relações de desigualdade econômicas e de classe. Para os primitivos, as relações davam igual aproveitamento do trabalho em comum. Contudo, nos momentos seguintes da história da sociedade cada vez mais aumentavam a distribuição desigual do trabalho e do aproveitamento que se tirava deste. A divisão do trabalho fazia com que os indivíduos se rotulassem em sua ocupação da atividade produtiva. Vejamos as etapas descritas por Libâneo (1990): Sociedade Escravista: os meios do trabalho e o próprio trabalhador (escravo) eram propriedade dos donos da terra. Sociedade Feudal: os servos trabalhavam gratuitamente para os donos da terra ou lhe pagavam tributos. Sociedade Capitalista: Existe uma divisão entre os proprietários privados dos meios de produção (empresas, maquinas, bancos, instrumentos de trabalho, etc.) e os que vendem sua força de trabalho para seu próprio sustento, vivendo de um salário. Assim se configurou a história da organização do trabalho até a formação atual da sociedade capitalista, fortemente marcada pela divisão de Didática Geral 27 classes, onde os capitalistas e os trabalhadores ocupam lugares opostos e antagônicos no processo produtivo. Os proprietários tirando seus lucros da exploração da classe trabalhadora – sendo esta a maioria da população – e tal classe trabalhadora é obrigada a submeter a isso, uma vez que precisam de alguma fonte de renda, mas seus salários mal chegam a cobrir todas as suas necessidades vitais. Mas, o que isso tem a ver com a Educação? TUDO! Uma vez que a alienação econômica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é ao mesmo tempo uma alienação intelectual, determina uma desigualdade social, determinando não apenas as condições materiais de vida e de trabalho dos indivíduos, mas também o acesso a cultura mental, à educação. O poder alcançado pelo detentor do capital influencia toda uma forma de fomento a manutenção desse sistema, fazendo com que todos os agentes da vida social reproduzam esse modelo de vida. A ausência de outra maneira de organização social provoca no capitalismo tudo o que este precisa para se manter. O desemprego, por exemplo, é um excelente mecanismo para fazer com que o trabalhador implore por um emprego qualquer, vendendo sua força de trabalho por qualquer compensação financeira, por necessidade. Foi notória a divisão entre a escola dos ricos, que por poderem pagar os melhores professores os ensinavam a pensar, a serem críticos e criativos para continuar detendo os meios de acumulação de capital e as escolas dos pobres, que davam ênfase no trabalho manual, como maneira de formar para o trabalho, para a exploração, e não para que aprendessem a pensar, questionar, pois assim estragariam todo o esquema da elite pedindo melhores salários, melhores condições de trabalho, etc. Libâneo (1990) destaca as idéias, valores e práticas apresentados pela minoria dominante como se fossem representativos dos interesses de todas as classes sociais, o que se conhece pelonome de ideologia. Ele cita os seguintes discursos como exemplo da inculcação da verdade que eles queriam que os trabalhadores acreditassem. Segue alguns dos discursos: “O governo sempre faz o possível; as pessoas é que não colaboram”; “Os professores não têm que se preocupar com política, o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola”; “Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem um bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais”; “As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende do esforço pessoal”; “Bom aluno é aquele que sabe obedecer”. Didática Geral 28 Essas frases mostram idéias e valores que não são muito reais. É como se o governo estivesse acima dos conflitos entre as classes sociais e das desigualdades, fazendo com que parecesse ser um problema de incompetência das pessoas, e que a escolarização pudesse reduzir as diferenças sociais porque dá oportunidades iguais a todos, o que sabemos não ser verdade. Assim, essas meias verdades escondem os conflitos sociais e tentam passar uma idéia positiva das coisas. Pessoas ingênuas acabam assumindo essas crenças, valores e práticas como se fizessem parte da normalidade da vida e acabam acreditando que a sociedade é boa, os indivíduos é que destoam. É dentro desse jogo de relações sociais que a escola se insere, que os professores trabalham e que os alunos se desenvolvem. No trabalho do professor está presente interesses dos mais diversos, sociais, políticos, econômicos, culturais; isso precisa ser bem compreendido pelo professor! Precisa ser compreendido também que tudo isso não é imutável, estabelecidas para sempre. As relações sociais são dinâmicas e passíveis de transformações pelos indivíduos pertencentes à sociedade. Por esse motivo, o reconhecimento do papel político do docente implica a luta pela modificação dessas relações de poder. Para quem lida com a educação tendo em vista a formação de um ser humano, é imprescindível que desenvolva a capacidade de descobrir as relações sociais implicadas em cada acontecimento, em cada situação da vida real e da sua profissão, em cada matéria que ensina e seu próprio discurso, nos meios de comunicação de massa, nas relações das pessoas cotidianamente e no trabalho. Conforme Libâneo (1990): “O campo específico de atuação profissional e política do professor é a escola, à qual cabem tarefas de assegurar aos alunos um sólido domínio de conhecimentos e habilidades, o desenvolvimento de suas capacidades intelectuais, de pensamento independente, crítico e criativo. Tais tarefas representam uma significativa contribuição para a transformação de cidadãos ativos, criativos e críticos, capazes de participar nas lutas pela transformação social. Podemos dizer que, quanto mais a minoria dominante refina os meios de difusão da ideologia burguesa, tanto mais a educação escolar adquire importância, principalmente para as classes trabalhadoras. Preparar crianças e jovens para a participação ativa na vida social é o objetivo mais imediato da escola pública. Esse objetivo é atingido pela instrução e ensino, as tarefas básicas do trabalho do professor. A instrução permite a conquista do domínio dos conhecimentos sistematizados e a promoção do desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos. O Didática Geral 29 ensino, mais ligado ao que corresponde às ações indispensáveis para se realizar a instrução sendo a atividade conjunta do professor e dos alunos, cuja qual transcorre o processo de transmissão e assimilação ativa de conhecimentos, habilidades e hábitos, tendo em vista a instrução e educação. A Didática e as metodologias específicas das disciplinas, com uso dos conhecimentos pedagógicos e técnico-científicos, são disciplinas que dão condições à ação docente em situações de vida real cujas quais se realizam o ensino. Libâneo (1990) diz que, em relação ao tipo de escola que deveríamos ter para o exercício da docência, para uma sociedade melhor, a escolarização básica constitui um instrumento indispensável para se construir uma sociedade mais democrática. Precisamos dar a todos uma formação que permita o domínio da parcela de conhecimentos culturalmente acumulados e um entendimento crítico da realidade. O professor deverá, através do estudo das matérias escolares e do domínio dos métodos pelos quais desenvolvem suas capacidades de conhecimento e formam habilidades para elaborar independentemente os conhecimentos, para que os alunos possam expressar de forma elaborada os conhecimentos que correspondem aos interesses majoritários da sociedade e inserir-se ativamente nas lutas sociais para transformação da sociedade. Entretanto, inúmeros problemas surgem para isso: o poder público ainda deixa a desejar no cumprimento da manutenção do ensino obrigatório e gratuito, os recursos parecem ser insuficientes e mal gastos, muitas escolas funcionam precariamente por falta de recursos materiais e didáticos, os professores são mal remunerados e os alunos não possuem muitos recursos que os ajudariam e muito na missão de aprender e se desenvolver. Muitos ainda apontam para o grande número de reprovações nas escolas e, decorrentes disso, a desistência (evasão escolar). Muitos dizem que a função educativa é a de adaptarmos os alunos para a vida social. Nesse caso estaríamos oferecendo uma educação ajustadora e não transformadora, que fizesse com que os alunos apenas se ajustassem as condições de vida oferecidas, adversas ou não. Quando um aluno não consegue aprender e se desenvolver ele costuma abandonar a escola. Isso é o que podemos chamar de fracasso escolar. Além disso, dentro da própria escola existem diferenças no modo de conduzir o processo de ensino conforme a origem social dos alunos, geralmente discriminando os mais pobres, que se conseguem persistir e ficar na escola, recebem uma educação e um preparo muito abaixo dos demais. Contudo, se ficarmos presos a esta falta de condições e utilizarmos como desculpa para nada fazermos, isso tudo nunca mudaria. Acreditamos que deverá ser feito exatamente o oposto, ao invés de se acomodar, devemos lutar para um trabalho que tenha condições de formar pessoas aptas pela luta social Didática Geral 30 que pretenda reverter essas desigualdades e exija melhores condições de vida, de trabalho de estudos, etc. Para se garantir uma escolarização capaz de lutar pela democratização da sociedade, segundo Libâneo (1990) é necessária a atuação em duas frentes: a política e a pedagógica. A política tem caráter pedagógico, pois visa formar para a sociedade e para o envolvimento dos educadores nos movimentos sociais e sindicais, nas lutas organizadas em defesa da escola unitária, democrática e gratuita; a pedagógica tem caráter político, pois parte de representar interesses estratégicos de toda uma população e não apenas a elite. A escola deve ser unitária porque deve garantir uma base comum de conhecimentos sólidos e consistentes a toda a população nacional, de um saber sistematizado que dê condições de uma compreensão mais ampla por parte do aluno a fim de elaborá-los criticamente em função dos interesses da população majoritária, igualmente, sem discriminar por classe, cor de pele, poder aquisitivo, etc. A escola pública deve ser democrática, garantindo a todos o acesso e a permanência, por no mínimo até o final da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio), proporcionando um ensino de qualidade que leve em conta as característicasespecíficas dos alunos que atualmente a freqüentam. Trazendo democracia inclusive nos mecanismos de gestão interna envolvendo a participação de todos no poder decisório dos rumos da escola. Deve ser gratuita, pois é o que garante a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/962. 2 Do Direito à Educação e do Dever de Educar Art. 4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria; II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio; III - atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a cinco anos de idade; V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; VII - oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola; VIII - atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde; IX - padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. X – vaga na escola pública de educação infantil ou de ensino fundamental mais próxima de sua residência a toda criança a partir do dia em que completar 3 anos de idade. (Redação dada pela Lei nº 11.700, de 2008). Didática Geral 31 Para finalizar, é importante ser dito que deve haver um compromisso social e ético por parte dos professores que nada mais é do que seu permanente empenho na instrução e educação dos seus alunos, dirigindo o ensino e as atividades de estudo de modo que estes dominem os conhecimentos básicos e as habilidades, e desenvolvam suas forças, capacidades físicas e intelectuais, tendo em vista equipá-los para enfrentar os desafios da vida prática no trabalho e nas lutas sociais pela democratização da sociedade. 2.3. A PSICOLOGIA NA EDUCAÇÃO A Psicologia Educacional preocupa-se em estudar como os aspectos físico-motor, intelectual ou cognitivo, afetivo-emocional e social, desde o nascimento até a idade adulta, se desenvolvem e como esses aspectos interferem na capacidade de aprender na pessoa do aluno, evitando uma atividade desvinculada com as capacidades humanas e os limites das possibilidades de cada pessoa. O professor que negligencia alguns aspectos importantes das dinâmicas de desenvolvimento e aprendizagem corre o risco de não apenas deixar de ensinar, como também trazer problemas sérios à capacidade de aprender e se desenvolver dos alunos. Todos nós temos uma maneira de nos comportar, em parte por conta da cultura, em parte por conta da influência genética, em parte por conta das nossas escolhas, incluindo as pessoas ao nosso redor que nos influenciam a todo instante. Formação do ser humano Todos se encontram sempre presentes Os três aspectos se articulam mutuamente Aspecto Motor Aspecto Cognitivo Aspecto Afetivo Tabela 1 - A preocupação da Psicologia Educacional volta-se para os conjuntos funcionais humanos (Motor, Afetivo e Cognitivo). Didática Geral 32 Algumas regras de desenvolvimento já existem graças à ciência moderna, da mesma forma isso acontece na capacidade dos seres humanos aprenderem. Decorrente disso tudo vêm as questões: é possível aprender sem se desenvolver? Ou, do outro lado, é possível se desenvolver sem aprender? As respostas a essas perguntas estão nas interessantes teorias do desenvolvimento e da aprendizagem. Por serem perguntas complexas, as respostas também o são. O único fato irrefutável é que ser professor sem conhecer cientificamente como se desenvolve e como aprende uma criança seria leviano e seria como aplicar uma atividade de ensino arriscando cometer erros que o conhecimento teórico nos teria evitado. Esta ciência, como sub-divisão da Psicologia e da Pedagogia, como áreas que se inter-relacionam, tem por objetivo fornecer um olhar pelas lentes da psicologia nos assuntos relacionados com o desenvolvimento da pessoa humana e de como a aprendizagem acontece decorrente de questões de ensino. O fim maior é o de proporcionar ao professor uma familiaridade com as questões decorrentes do natural desenvolvimento que costuma ocorrer com seus alunos, assim como as implicações com a aprendizagem, uma vez que para ensinar o professor deve conhecer a dinâmica de desenvolvimento dos alunos, como eles pensam, sentem e agem diante das circunstâncias de vida diária. Para se pensar sobre as questões Didáticas, como a forma de organizar as condições do ensino para os alunos e a interação entre a tríade professor – aluno – conhecimento a Psicologia Educacional favorece uma visão suficientemente boa para que tudo ocorra de uma forma muito natural, desde que respeitadas as características do desenvolvimento e da aprendizagem dos alunos como seres humanos. Para que os professores possam exercer sua atividade de ensino eles precisam se situar sobre todas as variáveis envolvidas por esta atividade, como por exemplo, a forma de se desenvolver e aprender do seu aluno. Didática Geral 33 RESUMO A Pedagogia, ao estudar a Educação, assume o papel de investigar outras ciências em busca de respostas que auxiliem na formação de um pensamento educativo. Desta forma, precisa formar uma visão de homem, de mundo, de sociedade e da cultura, e utiliza para isso a Filosofia, questionando coisas que auxiliem no levantamento de questões fundamentais para se exercer uma atividade educativa. A Sociologia da Educação se preocupa mais especificamente como as pessoas socialmente se organizam e como a Educação se envolve com esse fator. É necessário um ambiente de criticidade, que garanta uma compreensão mais aprofundada do fenômeno que envolve a vida social, as condições de trabalho, as divisões de classe, a ideologia, etc. É dentro desse jogo de relações sociais que a escola se insere, que os professores trabalham e que os alunos se desenvolvem. No trabalho do professor está presente interesses dos mais diversos, sociais, políticos, econômicos, culturais; isso precisa ser bem compreendido pelo professor! Precisa ser compreendido também que tudo isso não é imutável, estabelecidas para sempre. As relações sociais são dinâmicas e passíveis de transformações pelos indivíduos pertencentes à sociedade. Para se garantir uma escolarização capaz de lutar pela democratização da sociedade, segundo Libâneo (1990) é necessária a atuação em duas frentes: a política e a pedagógica. A política tem caráter pedagógico, pois visa formar para a sociedade e para o envolvimento dos educadores nos movimentos sociais e sindicais, nas lutas organizadas em defesa da escola unitária, democrática e gratuita; a pedagógica tem caráter político, pois parte de representar interesses estratégicos de toda uma população e não apenas a elite. A Psicologia Educacional preocupa-se em estudar como os aspectos físico-motor, intelectualou cognitivo, afetivo-emocional e social, desde o nascimento até a idade adulta, se desenvolvem e como esses aspectos interferem na capacidade de aprender na pessoa do aluno, evitando uma atividade desvinculada com as capacidades humanas e os limites das possibilidades de cada pessoa. Para se pensar sobre as questões Didáticas, como a forma de organizar as condições do ensino para os alunos e a interação entre a tríade professor – aluno – conhecimento a Psicologia Educacional favorece uma visão suficientemente boa para que tudo ocorra de uma forma muito natural, desde que respeitadas as características do desenvolvimento e da aprendizagem dos alunos como seres humanos. Didática Geral 34 Exercícios 1) Qual a utilidade da Filosofia na sua relação com a Educação? (a) Chegar a pensar abstratamente, da mesma forma como fazem os filósofos da antiguidade. (b) Escrever livros sobre filosofia utilizando as teorias que cuidam dos bons modos e do respeito ao próximo. (c) Chamar atenção das autoridades para as atrocidades que acontecem diariamente, como os casos de estupro, roubo e o crime organizado. (d) Pensar na utilidade da criação teórico-prática, como faziam os filósofos da idade média. (e) Questionar a Educação para que se chegue a um nível de compreensão mais preciso e seguro antes de se colocar a executá-la nas escolas. 2) Por que é necessário ao professor estudar a Sociologia da Educação? (a) Para conseguir participais de movimentos de revolução popular. (b) É necessário um ambiente de criticidade, que garanta uma compreensão mais aprofundada do fenômeno que envolve a vida social, as condições de trabalho, as divisões de classe, a ideologia, etc. (c) Para dar conta de compreender como as pessoas produzem as teorias da conspiração. (d) É necessário um diálogo mais complexo, para dar condições de ler e escrever nas escolas. (e) Por que a vida social seria mais alegre, cheia de paz e harmoniosa. 3) O que a desigualdade econômica e a divisão de classes tem relacionado com o que acontece nas escolas? (a) Não tem relação direta. Apenas é um fator sociológico relevante. (b) A relação é de desigualdade material e profissional. Dentro das escolas não tem maiores interesses sobre isso. (c) A alienação econômica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é ao mesmo tempo uma alienação intelectual, determina uma desigualdade social, determinando não apenas as condições materiais de vida e de trabalho dos indivíduos, mas também o acesso a cultura mental, à educação. (d) A relação é proporcional a falta de uma teoria sócio-comportamental. Didática Geral 35 (e) Não existe um estudo sobre isso. Ainda é muito difícil esse tipo de discussão por falta de material teórico. Resolução dos Exercícios 1) A Filosofia, interligada com a Educação, questiona a mesma para que se chegue a um nível de compreensão mais preciso e seguro antes de se colocar a executá-la nas escolas. Resposta correta: (e) Questionar a Educação para que se chegue a um nível de compreensão mais preciso e seguro antes de se colocar a executá-la nas escolas. 2) Como vimos, a Sociologia da Educação se preocupa mais especificamente como as pessoas socialmente se organizam e como a Educação se envolve com esse fator. É necessário um ambiente de criticidade, que garanta uma compreensão mais aprofundada do fenômeno que envolve a vida social, as condições de trabalho, as divisões de classe, a ideologia, etc. Esses conceitos são muito importantes para se ultrapassar o senso comum e se aproximar da ciência, uma vez que durante muito tempo a Educação esteve vinculada a interesses ideológicos de uma minoria pertencente às elites da sociedade. Resposta correta: (b) É necessário um ambiente de criticidade, que garanta uma compreensão mais aprofundada do fenômeno que envolve a vida social, as condições de trabalho, as divisões de classe, a ideologia, etc. 3) Mas, o que isso tem a ver com a Educação? TUDO! Uma vez que a alienação econômica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é ao mesmo tempo uma alienação intelectual, determina uma desigualdade social, determinando não apenas as condições materiais de vida e de trabalho dos indivíduos, mas também o acesso a cultura mental, à educação. Resposta correta: (c) A alienação econômica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é ao mesmo tempo uma alienação intelectual, Didática Geral 36 determina uma desigualdade social, determinando não apenas as condições materiais de vida e de trabalho dos indivíduos, mas também o acesso a cultura mental, à educação. 3. A DIDÁTICA COMO TEORIA E TÉCNICA DA INSTRUÇÃO E DO ENSINO: COMO A HISTÓRIA AJUDA NA COMPREENSÃO DO HOJE A história da Didática explica como foi se configurando o aparecimento do ensino no decorrer do desenvolvimento da sociedade, da produção e das ciências, como uma forma de atividade sistematizada e planejada, intencional, dedicada à instrução. Segundo Haydt (2002), desde a antiguidade até por volta do século XIX, a prática escolar predominante era do tipo passivo e receptivo. Aprender estava mais ligado ao que conhecemos como memorizar do que compreender. Considerava-se o ser humano mais como uma massa de modelar, pois o professor tinha a possibilidade de transformar o indivíduo naquilo que ele quisesse. Desde a Grécia antiga, com Aristóteles era processada essa concepção, muito semelhante ao que foi teorizado muito mais tarde, século XVII, como a teoria da Tabula Rasa. Para o filósofo inglês John Locke (1632 – 1704), todas as pessoas ao nascer o fazem sem saber de absolutamente nada, sem impressões nenhumas, sem conhecimento algum. Então todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência, pela tentativa e erro, o homem nasce como se fosse uma "folha em branco". Durante séculos o estudo dos textos literários, da gramática, da História, da Geografia, das ciências físicas e biológicas caracterizou-se pela recitação de cor. O importante é que o aluno reproduzisse palavras mecanicamente, frases, tudo decorado, sem importancia da reflexão e da compreensão. Como primeiras manifestações de ensino e de Didática, não devemos deixar de citar a contribuição do Filósofo Sócrates (século V a.C.). Para ele, o saber não era algo que alguem de fora (mestre) pudesse transmitir. O conhecimento é uma descoberta que a própria pessoa realiza. A função do mestre, segundo Sócrates (citado por Haidt, 2002) é apenas ajudar o discípulo a descobrir, por si mesmo, a verdade. Ele inclusive se comparava com a profissão de sua mãe, que era parteira, dizendo que ela não dava a luz às crianças, mas as ajudava a nascer, como ele fazia com seus discipulos em relação ao conhecimento. Seu método chamava-se ironia e funcionava em duas etapas. A primeira chamada de refutação, momento que ele levantava objeções sobre as opiniões manifestadas pelos discipulos, até quando este admitisse sua própria ignorância e se dissesse incapaz de definir o que anteriormente havia dito conhecer tão bem. A segunda etapa chamada maiêutica, momento que o discipulo admitia que nada sabia e, partindo do conhecido para o desconhecido, do mais fácil para o mais difícil Sócrates vai conduzindo, por Didática Geral 37 meio de perguntas, um diálogo capaz de induzir a descoberta do conhecimento pelo interlocutor. Conta-se que ele foi capaz de fazer com que um escravo descobrisse noções de geometria utilizandoeste método. Ele afirmava que os mestres deveriam ter paciência com os erros e dúvidas de seus discípulos, pois é a partir disso que eles poderiam progredir. Quase dois mil anos depois nascia o pai da Didática. João Amós Comênio (1592-1670), um pastor protestante, escreveu a primeira obra clássica sobre Didática, a Didactica Magna. Segundo Libâneo (1990), Comênio foi o primeiro educador a formular a idéia da difusão dos conhecimentos a todos e criar princípios e regras de ensino. Comênio desempenhou uma influência considerável não apenas porque desenvolveu métodos de instrução mais rápidos e eficientes, mas também porque desejava que todos deveriam usufruir dos benefícios do conhecimento. O sistema de produção capitalista já influenciava a organização da vida social, política e cultural de sua época. Sua Didática, com idéias avançada para sua época e que não contrapunham as idéias conservadoras da nobreza e do clero, se pautava nos seguintes princípios: A finalidade da educação é conduzir a felicidade eterna com Deus. Todos os homens merecem a sabedoria, a moralidade e a religião, porque todos, por natureza, são parte dos desígnios de Deus. Assim, a educação é um direito natural de todos. Por ser parte da natureza, o homem deve ser educado de acordo com seu desenvolvimento natural, dentro de suas capacidades de conhecimento. Portanto, a tarefa principal da Didática é estudar tais características e os métodos de ensino coerentes que correspondam a estas fases. A assimilação dos conhecimentos não se dá instantaneamente. Por isso, o ensino tem um papel decisivo na percepção sensorial das coisas. O conhecimento deve ser adquirido a partir da observação das coisas e dos fenômenos, utilizando e desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos. O método intuitivo consiste numa observação direta pelos órgãos dos sentidos, das coisas, para o registro das impressões na mente do aluno. Primeiramente as coisas, depois as palavras. O planejamento de ensino deve obedecer ao curso da natureza infantil; por isso devem ser ensinadas uma de cada vez, somente o que a criança possa aprender e partindo do conhecido para o desconhecido. Apesar da grande novidade destas idéias naquela época, Comênio não escapou de algumas crenças comuns, naquele momento histórico, sobre ensino. Mesmo partindo da observação e da experiência sensorial, manteve o caráter da transmissão do ensino; ainda que tendo procurado adaptar o ensino Didática Geral 38 às fases de desenvolvimento infantil, o método funcionava de forma única, a todos os alunos. Outra coisa é a supervalorização da percepção sensorial. Sabemos que as percepções podem nos enganar e também que já existe uma gama de conhecimentos sensoriais que não necessitam ser reaprendidos. Contudo, Comênio teve um papel importantíssimo, pois, não apenas porque se empenhou em desenvolver métodos de instrução mais eficientes e mais rápidos, mas porque dava igual importância a todos os alunos. Ainda assim, mesmo com essas excelentes contribuições possíveis até aquele momento histórico, continuava-se utilizar os métodos de Idade Média, com ensino intelectualista, verbalista e dogmático, de memorização e repetição mecânica, em que as idéias dos alunos não interessavam. O contexto histórico de transição entre os meios de produção antigos (com o Clero e a Nobreza dominando) foram se enfraquecendo e o capitalismo crescendo. Isso pedia uma mudança importante para a valorização do desenvolvimento livre das capacidades e interesses individuais. O Filosofo Jean Jacques Rousseau (1712-1778) interpretando bem essas aspirações propôs uma nova concepção de ensino, com base nas necessidades e interesses imediatos da criança. As idéias mais importantes de Rousseau, segundo Libâneo (1990), são as seguintes: Os interesses e necessidades do aluno que determinam a organização do estudo e seu desenvolvimento. Elas precisam despertar o gosto pelo seu estudo e nada melhor do que a natureza, a experiência e o sentimento para conquistar isso. A Educação é um processo natural que se fundamenta no desenvolvimento interior do aluno. As crianças são boas por natureza, elas tem uma tendência natural para se desenvolverem. Rousseau não elaborou propriamente uma teoria de ensino e nem colocou nada em prática. Quem deu continuidade a essas primeiras influências foi outro pedagogo suíço, Henrique Pestalozzi (1766-1841), que trabalhou por toda sua vida na educação de crianças pobres em suas próprias instituições. Atribuiu grande importância ao ensino como meio de educação e desenvolvimento das capacidades do ser humano através do cultivo do sentimento, da mente e do caráter. Pestalozzi que, ao valorizar o método intuitivo, levou muitos alunos a desenvolverem o senso de observação, análise dos objetos, fenômenos da natureza e a capacidade da linguagem, aquela capaz de expressar em palavras o resultado das observações. Isso foi o que consistiu em uma educação intelectual, valorizando fortemente à psicologia da criança como base para se compreender o desenvolvimento infantil. As idéias dos gregos antigos, Comênio, Rousseau e Pestalozzi tiveram muita influência em outros pedagogos. Podemos dizer que até hoje se Didática Geral 39 encontram alguns traços característicos dessas teorias nas práticas de alguns professores. Entretanto, após estes pensadores da educação, Johann Friedrich Herbart (1766-1841) foi um dos que mais influenciaram a formação de uma corrente conservadora da educação. Esse pedagogo alemão, que deixou muitos discípulos, deixou idéias que precisam de uma atenção especial, uma vez que, ocuparam presença constante na história da educação brasileira. Formulou teoricamente sobre os fins da educação e da Pedagogia como ciência, além de desenvolver uma análise do processo psicológico-didático de aquisição do conhecimento, sob a direção do professor. Para ele, a moralidade é o principio maior da educação, que deve ser atingida mediante a prática educativa. Ao homem, a instrução deve buscar que o ele queira o bem de modo que ele aprenda a comandar a si próprio. O professor auxilia nesse processo introduzindo idéias corretas na mente dos alunos, como um arquiteto da mente, trazendo a atenção dos alunos para as idéias desejadas pelo professor, controlando seus interesses. O método consiste em provocar uma espécie de acumulação de idéias na mente da criança. Herbart buscou também uma formulação de um método único de ensino em conformidade com as leis psicológicas do conhecimento. Estabeleceu quatro passos didáticos que deveriam ser rigorosamente seguidos: a apresentação e preparação da nova matéria, que ele denominou de clareza; após isso seria o momento de associação entre o conhecimento antigo e o novo; o terceiro é a sistematização dos conhecimentos visando a generalização para outras áreas; por último é chegada o momento do método, como forma de aplicação e exercícios. Seus discípulos aperfeiçoaram essa proposta e desenvolveram uma versão com cinco passos: a preparação, apresentação, assimilação, generalização e aplicação, formula que ainda encontramos em grande parte dos professores no Brasil. Esse sistema pedagógico herbatiano trouxe contribuições válidas para a organização da prática docente, por exemplo: a necessidade de estruturar e ordenar o processo de ensino, a exigência de compreensão dos assuntos estudados e não apenas a memorização, o significado educativo da disciplina na formação do caráter. Contudo, o ensino era entendido como uma transferência da mente do professor para a do aluno,com a necessidade de reprodução das idéias do professor pelo aluno. Com isso, tivemos uma aprendizagem mecânica, que não proporcionava nada melhor do que uma memorização, sem reflexão e muito menos o pensamento independente e criativo dos alunos. RESUMO A história da Didática explica como foi se configurando o aparecimento do ensino no decorrer do desenvolvimento da sociedade, da produção e das ciências, como uma forma de atividade sistematizada e planejada, intencional, dedicada à instrução. Didática Geral 40 Como primeiras manifestações de ensino e de Didática, há a contribuição do Filósofo Sócrates (século V a.C.). Para ele, o saber não era algo que alguem de fora (mestre) pudesse transmitir. O conhecimento é uma descoberta que a própria pessoa realiza. Seu método chamava-se ironia e funcionava em duas etapas. A primeira chamada de refutação e a segunda etapa chamada maiêutica. Quase dois mil anos depois nascia o pai da Didática. João Amós Comênio (1592-1670), um pastor protestante, escreveu a primeira obra clássica sobre Didática, a Didactica Magna. O Filosofo Jean Jacques Rousseau (1712-1778) interpretando bem as aspirações daquele momento histórico propôs uma nova concepção de ensino, com base nas necessidades e interesses imediatos da criança. Rousseau não elaborou propriamente uma teoria de ensino e nem colocou nada em prática. Quem deu continuidade a essas primeiras influências foi outro pedagogo suíço, Henrique Pestalozzi (1766-1841), que trabalhou por toda sua vida na educação de crianças pobres em suas próprias instituições. Johann Friedrich Herbart (1766-1841) foi um dos que mais influenciaram a formação de uma corrente conservadora da educação. Esse pedagogo alemão, que deixou muitos discípulos, deixou idéias que precisam de uma atenção especial, uma vez que, ocuparam presença constante na história da educação brasileira. Exercícios 1) Como funcionava a Ironia, o método elaborado por Sócrates? (a) Funcionava em dois momentos: ditado: momento que ditava o texto e correção: momento que ele corrigia o aluno. (b) Funcionava basicamente como um modelo na lousa e os alunos prestando atenção à explicação do professor. (c) Para ser mais preciso, não funcionou adequadamente naquele momento histórico. (d) Funcionava em duas etapas: refutação: momento que ele levantava objeções até quando este admitisse sua própria ignorância e a maiêutica: momento que por meio de perguntas induzia a descoberta do conhecimento pelo interlocutor. (e) Funcionava como uma espécie de pedagogia dos projetos. Muito moderno para aquele momento histórico. Didática Geral 41 2) Comênio foi o primeiro educador a formular a idéia da difusão dos conhecimentos a todos e criar princípios e regras de ensino. O que ele quis dizer com a frase: “Primeiramente as coisas, depois as palavras”? (a) A assimilação é feita pela incorporação dos dados da realidade nos esquemas disponíveis no sujeito, é o processo pelo qual as idéias, pessoas, costumes são incorporadas à atividade do sujeito. (b) A incorporação é a principal forma de atividade mental. Foi isso que ele quis deixar mais claro. (c) A interiorização é feito primeiramente pela vida em casa, com os pais, depois se aprende na escola. (d) Quis dizer que não é importante o como, mas o quê se aprende. (e) O conhecimento deve ser adquirido a partir da observação das coisas e dos fenômenos, utilizando e desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos. 3) Herbart buscou também uma formulação de um método único de ensino em conformidade com as leis psicológicas do conhecimento. O que ele estabeleceu? (a) Estabeleceu o que as crianças deveriam aprender. (b) Estabeleceu inúmeros passos, dentre eles a retórica. (c) Estabeleceu quatro passos a ser seguidos: clareza (apresentação), associação, sistematização e o método (aplicação e exercícios). (d) Estabeleceu como motivar os alunos pela palavra. (e) Estabeleceu a maneira de trabalhar psicologicamente com os alunos. Resolução dos Exercícios 1) Seu método chamava-se ironia e funcionava em duas etapas. A primeira chamada de refutação, momento que ele levantava objeções sobre as opiniões manifestadas pelos discipulos, até quando este admitisse sua própria ignorância e se dissesse incapaz de definir o que anteriormente havia dito conhecer tão bem. A segunda etapa chamada maiêutica, momento que o discipulo admitia que nada sabia e, partindo do conhecido para o desconhecido, do mais fácil para o mais difícil Sócrates vai conduzindo, por meio de perguntas, um diálogo capaz de induzir a descoberta do conhecimento pelo interlocutor. Resposta correta: (d) Funcionava em duas etapas: refutação: momento que ele levantava objeções até quando este admitisse sua própria ignorância e a Didática Geral 42 maiêutica: momento que por meio de perguntas induzia a descoberta do conhecimento pelo interlocutor. 2) A assimilação dos conhecimentos não se dá instantaneamente. Por isso, o ensino tem um papel decisivo na percepção sensorial das coisas. O conhecimento deve ser adquirido a partir da observação das coisas e dos fenômenos, utilizando e desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos. Resposta correta: (e) O conhecimento deve ser adquirido a partir da observação das coisas e dos fenômenos, utilizando e desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos. 3) Estabeleceu quatro passos didáticos que deveriam ser rigorosamente seguidos: a apresentação e preparação da nova matéria, que ele denominou de clareza; após isso seria o momento de associação entre o conhecimento antigo e o novo; o terceiro é a sistematização dos conhecimentos visando a generalização para outras áreas; por último é chegada o momento do método, como forma de aplicação e exercícios. Resposta correta: (c) Estabeleceu quatro passos a ser seguidos: clareza (apresentação), associação, sistematização e o método (aplicação e exercícios). 4. AS TENDÊNCIAS DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS3 Segundo Libâneo (1985), verifica-se três tipos de tendências que interpretam o papel da educação na sociedade: a educação como redenção, a educação como reprodução e a educação como transformação da sociedade. Saviani (2003) chama de ‘Teorias Não-Críticas’ o que Libâneo (1985) chamou de ‘Tendências Liberais de Educação’ o grupo que ele chama de educação como redenção. Todos esses termos convergem para um fato em comum, o que acredita ingenuamente que a educação, por si só, seria o bastante, sem adentrar as questões sócio-políticas que determinam a educação, como vimos anteriormente, poderia ser detentora da sociedade, como fator de ascensão social. Trata-se do fato de não terem uma criticidade sociológica, tentando encontrar fatores de perpetuação da desigualdade ou 3 A principal referência, inclusive da estrutura de apresentação dessas tendências foi LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública. São Paulo: Loyola, 1985. Didática Geral 43 determinantes de uma herança social que coloca a escola como reprodutora de uma sociedade injusta e antidemocrática. Essas teorias visam trabalhar com propostas práticas e julgando-as como suficientemente capazes de tirar o sujeito em desvantagem de sua condição de desigualdade. Entretanto, sem que haja uma atenção a todo o contexto socialmente montado, o que se configura numa falta de criticidade, ou numa ingenuidade total. São chamadas de Liberais, poisao defender a predominância da ‘liberdade’ e do interesses individuais da sociedade, estabeleceu uma forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção, também denominada sociedade de classes. A Pedagogia Liberal, portanto, é uma forma de manifestação deste tipo de sociedade, que acaba por ser uma forma de justificação do sistema capitalista. Saviani (2003) chama de Teorias Crítico-Reprodutivistas o que Libâneo (1985) chamou de Educação Como Reprodução. Elas são assim chamadas, pois são teorias que não apresentam uma proposta prática; apenas se limitam a criticar sociologicamente toda a formação da reprodução social de classes, a ausência de uma democracia. Colocam que a escola reproduz a desigualdade fora dela, mas não fazem nada para que possa ser combatida essa forma de desigualdade. Diferente das primeiras, que viam a Educação como capaz de promover a mudança social, combatendo o fenômeno da marginalidade, o que sabemos ser ingenuidade, as Teorias Crítico- Reprodutivistas são como diz o nome a elas dado: ‘críticas’, mas se limitam a criticar e nada a fazer de concreto, não produziram nenhuma proposta de trabalho Didático-Pedagógico. Por último, segue o que Saviani (2003) chamou de Teorias Críticas da Educação e Libâneo (1985) as denominou de Educação Como Transformação da Sociedade ou Progressistas. Estas, como uma espécie de junção das duas primeiras, são críticas, como as Crítico-Reprodutivistas, por acreditarem nos determinantes sociais que a escola se submete, como fatores de reprodução da desigualdade existente na sociedade atual e na falta de uma democracia real e batalhadora de condições mais justas e igualitárias de vida; também são propostas práticas, como as Liberais, por apresentarem uma forma de trabalho pedagógico que visa atuar dentro das escolas, mas não de forma ingênua, como as Liberais, mas sim buscando uma transformação da sociedade em algo mais justo e democrático, combatendo a reprodução da desigualdade social. Dessas três abordagens teóricas apenas a Pedagogia Liberal e as Progressistas serão aprofundadas nesse texto, pois as teorias Crítico- Reprodutivistas não possuem uma aplicabilidade prática, apesar de seu valor pelos apontamentos teóricos que fazem. Didática Geral 44 SAIBA MAIS Procure o livro de Dermeval Saviani, Escola e Democracia, e veja mais sobre as teorias Crítico-Reprodutivistas. São elas: Teoria do Sistema de Ensino como Violência Simbólica, Teoria da Escola Como Aparelho Ideológico de Estado (AIE) e a Teoria da Escola Dualista. A Pedagogia Liberal também possui a característica de ser um tipo de Educação Ajustadora, uma vez que apenas ajusta o aluno para que este possa participar da reprodução da sociedade. Esta Pedagogia possui muitas correntes teóricas, entretanto, as que mais se destacaram e que iremos detalhar aqui neste texto são quatro delas: Tradicional, Renovada Progressivista, Renovada Não-Diretiva e Tecnicista. No outro lado, temos a Pedagogia Progressista, que possui a característica de uma Educação Transformadora, por dar condições do desenvolvimento dos alunos permitir que estes tenham capacidade de lutar por uma transformação social em uma direção mais justa e igualitária. As principais representantes teóricas dessa Pedagogia são: Libertadora, Libertária e a Crítico-Social dos Conteúdos. Vejamos essas sete tendências, quatro liberais e mais três progressistas. É evidente que tanto as tendências quanto as manifestações não são puras nem mutuamente exclusivas, o que, aliás, é a limitação principal de qualquer tentativa de classificação da realidade. Em alguns casos, as tendências se complementam, em outros, divergem. De qualquer forma, a classificação e sua descrição poderão funcionar como instrumento de análise para o professor avaliar a sua prática de sala de aula. PEDAGOGIA LIBERAL A educação brasileira, ao menos nos últimos cinqüenta anos, tem sido marcada pelas tendências liberais, que não tem o sentido de ‘avançado’, ‘democrático’, ‘aberto’, como costuma ser usado. Este tipo pedagógico tem se apresentado de maneira conservadora ou às vezes renovada. Evidentemente tais tendências costumam se manifestar, concretamente, nas práticas escolares e na concepção pedagógica de muitos professores, ainda que de maneira inconsciente por boa parte deles. A Pedagogia Liberal impõe a idéia de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais, por isso os indivíduos precisam aprender a se adaptar aos valores e as normas vigentes da sociedade de classes através do desenvolvimento da cultura individual. A ênfase no aspecto cultural esconde a realidade das diferenças de classes, pois, embora difunda a idéia de igualdade Didática Geral 45 de oportunidades, não leva em consideração a desigualdade de condições que a vida oferece, legitimando a ideologia capitalista. 4.1. PEDAGOGIA LIBERAL TRADICIONAL Papel da Escola: A atuação da escola consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para assumirem sua posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os problemas sociais pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Desta maneira, os menos capazes devem se esforçarem para superar suas dificuldades e conquistar seu lugar junto aos mais capazes. Caso não consigam, devem procurar o ensino profissionalizante. Conteúdos de Ensino: São os conhecimentos e valores sociais acumulados pelas gerações adultas e repassados ao aluno como verdades. As matérias de estudo visam a preparar o aluno para a vida, são determinadas pela sociedade e ordenadas na legislação. Os conteúdos são separados da experiência do aluno e das realidades que a sociedade oferece, valendo pelo valor intelectual, motivo pelo qual a pedagogia tradicional é criticada como intelectualista e, às vezes, como enciclopédica. Métodos: Com base na exposição verbal da matéria e/ou demonstração. Tanto a exposição quanto a análise são feitas pelo professor, observados os seguintes passos: I) preparação do aluno (definição do trabalho, recordação da matéria anterior, despertar interesse); II) apresentação (destaque de pontos chaves, demonstração); III) associação (combinação do conhecimento novo com o já conhecido por comparação e abstração); IV) generalização (dos aspectos particulares chega-se ao conceito geral, é a exposição sistematizada); V) aplicação (explicação de fatos adicionais e/ou resolução de exercícios). O destaque nos exercícios, na repetição de conceitos ou fórmulas na memorização visa disciplinar a mente e formar hábitos. Relação Professor-Aluno: Há a predominância da autoridade do professor que exige atitude receptiva dos alunos e impede qualquer comunicação entre eles no decorrer da aula. O professor transmite o conteúdo na forma de verdade a ser absorvida; em conseqüência, a disciplina imposta é o meio mais eficaz para assegurar a atenção e o silêncio. Aprendizagem: Predomina a idéia de que o ensino consiste em repassar os conhecimentos para a mente da criança como se a mesma tivesse a capacidade de assimilação semelhante ao adulto, apenas menos desenvolvida. Os programas devem ser dados numa progressão lógica pelo professor, não levando em conta as características próprias de cada idade. A aprendizagem, Didática Geral 46 desta forma, é receptiva e mecânica, recorrendo quase sempre para isso à coação. A retenção do que foi ensinado é garantida pela repetiçãode exercícios sistemáticos e recapitulação da matéria. A transferência da aprendizagem depende do treino; é indispensável a retenção, a fim de que o aluno possa responder às situações novas de forma semelhante às respostas dadas em situações anteriores. A avaliação se dá por verificações de curto prazo (prova oral, lição de casa) e de prazo mais longo (provas escritas, trabalhos para se fazer em casa, como projetos). O esforço é, em geral, negativo (punição, notas baixas, apelos aos pais); às vezes são positivos (estímulos para motivação, classificações). Manifestações na Prática Escolar: A pedagogia liberal tradicional ainda é muito presente em nossas escolas. Na descrição apresentada aqui, podemos incluir as escolas religiosas ou leigas que adotam uma orientação clássico- humanista ou uma orientação humano-científica, sendo que esta se aproxima mais do modelo de escola predominante em nossa história educacional. 4.2. PEDAGOGIA LIBERAL RENOVADA PROGRESSIVISTA4 Papel da Escola: A finalidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social e, para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto possível, a vida do aluno. Todo ser dispõe dentro de si mesmo mecanismos de adaptação progressiva ao meio em que vive e uma ligação de tudo isso ao comportamento. Essa ligação se dá por meio de experiências que devem satisfazer, ao mesmo tempo, os interesses do aluno e as exigências sociais. À escola cabe suprir as experiências que permitam ao aluno educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução do objeto de conhecimento, numa interação entre estruturas cognitivas do indivíduo e estruturas do ambiente. Conteúdos de Ensino: Como o conhecimento é resultado da ação a partir dos interesses e necessidades do aluno, os conteúdos de ensino são estabelecidos em função das experiências que o sujeito vivencia frente a desafios cognitivos do que de conteúdos organizados sistematicamente. Trata-se de ‘aprender a aprender’, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. Métodos: A idéia de ‘aprender fazendo’ está sempre presente. Há valorização das tentativas experimentais, da pesquisa, da descoberta, o estudo do meio natural e social, o método de solução de problemas. Embora os métodos 4 Também conhecida como ESCOLA NOVA. Didática Geral 47 variem as escolas ativas ou novas (nas propostas de Dewey, Montessori, Decroly, Cousinet e outros) partem sempre de atividades adequadas à natureza do aluno e às etapas do seu desenvolvimento. Em grande parte delas existe uma valorização do trabalho em grupo não somente como técnica, mas como condição necessária ao desenvolvimento mental. As etapas básicas no método ativo são: I) colocar os alunos numa situação de experiência que tenha um interesse por si mesma; II) o problema deve ser desafiante, como estímulo à reflexão; III) o aluno deve dispor de informações e instruções que lhe permitam pesquisar a descoberta de soluções; IV) soluções provisórias devem ser incentivadas e ordenadas, com a ajuda discreta do professor; V) deve-se garantir a oportunidade de colocar as soluções à prova, a fim de determinar sua utilidade para a vida. Relação Professor-Aluno: Não há lugar privilegiado para o professor; antes de mais nada, seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; se ele intervém, é para ajudar a dar forma ao raciocínio dela. A disciplina surge de uma tomada de consciência dos limites da vida grupal; assim, aluno disciplinado é aquele que é solidário, participante, respeitador das regras do grupo. Para garantir um clima harmonioso dentro da sala de aula é indispensável um relacionamento positivo entre professores e alunos, uma forma de conseguir uma ‘vivência democrática’, como deve ser a vida em sociedade. Aprendizagem: A motivação depende de como foi estimulado o problema e das disposições internas e interesses dos alunos. Desta forma, aprender se torna uma atividade de descoberta, é uma auto-aprendizagem, sendo o ambiente apenas o meio estimulador. É retido o que se incorpora à atividade do aluno pela descoberta pessoal; o que é incorporado passa a fazer parte da estrutura cognitiva para ser utilizado em novas situações. A avaliação é fluida e tenta ser eficaz à medida que os esforços e êxitos são pronta e explicitamente reconhecidos pelo professor. Manifestações na Prática Escolar: Os princípios da pedagogia progressivista vêm sendo difundidos, em larga escala, nos cursos de licenciatura, e muitos professores sofrem sua influência. Entretanto, sua aplicação é reduzidíssima, não somente por falta de condições objetivas como também por que se choca com as práticas tipicamente tradicionais. Alguns métodos são adotados em escolas particulares, como o método Montessori, o método dos centros de interesse de Decroly, o método de projetos de Dewey. O ensino baseado na psicologia genética de Piaget tem larga aceitação na educação pré-escolar. Pertencem também à tendência progressivista muitas das escolas denominadas experimentais, as escolas comunitárias e, mais remotamente Didática Geral 48 (década de 60), a escola secundária moderna, na versão difundida por Lauro de Oliveira Lima. 4.3. PEDAGOGIA LIBERAL RENOVADA NÃO-DIRETIVA Papel da Escola: Acentua-se, nesta tendência, o papel da escola na formação de atitudes, razão pela qual deve estar mais preocupada com problemas psicológicos do que com pedagógicos ou sociais. Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do ambiente. Carl Rogers5 considera que o ensino é uma atividade excessivamente valorizada; para ele, os procedimentos didáticos, a competência na matéria, as aulas, livros, tudo tem pouca importância, face ao propósito de favorecer à pessoa um clima de auto- desenvolvimento e realização pessoal, o que implica estar bem consigo próprio e com seus semelhantes. O resultado de uma boa educação é muito semelhante ao de uma boa terapia. Conteúdos de Ensino: A ênfase que esta tendência põe nos processos de desenvolvimento das relações e da comunicação coloca em segundo plano a transmissão de conteúdos. Os processos de ensino visam mais a facilitar aos estudantes os meios para buscarem por si mesmos os conhecimentos que, no entanto, são dispensáveis. Métodos: Os métodos usuais são dispensados, prevalecendo quase que exclusivamente o esforço do professor em desenvolver um estilo próprio para facilitar a aprendizagem dos alunos. Rogers explicita algumas das características do professor ‘facilitador’: a aceitação da pessoa do aluno, a capacidade de ser confiável, receptivo e ter plena convicção na capacidade de auto-desenvolvimento do estudante. Sua função restringe-se a ajudar o aluno a 5 Carl Ransom Rogers (1902- 1987), Psicólogo norte-americano que foi o primeiro a gravar sessões psicoterapêuticas, com as devidas permissões, tornando possível o estudo objetivo de um processo eminente subjetivo. Sua dedicação à construção de um método científico na psicologia foi reconhecido por prêmio da Associação Americana de Psicologia, da qual também foi eleito presidente, em 1958. Seus métodos científicos estão descritos em livros traduzidos no Brasil como "A Pessoa como Centro" e "Um jeito de ser". “Subvertendo” a “relação de poder” terapeuta-cliente (decorrente do pressuposto, até então, de que psicólogos e psiquiatras é quedetinham o conhecimento da subjetividade de seus pacientes)seu trabalho "suberteu" também outras áreas, o que só se tornou visível para o próprio Rogers após décadas de atividades, como relatou em uma de suas últimas e melhores obras, “Sobre o Poder Pessoal” – livro em que traça, por exemplo, um paralelo entre suas descobertas e as de Paulo Freire e de sua “pedagogia do oprimido”. Fruto de suas pesquisas, sistematizou o método da “Terapia centrada no cliente” que depois evoluiu para a “Abordagem centrada na pessoa”(ACP), mas ele próprio afirma que seu objetivo nunca fora criar um sistema próprio de psicoterapia e sim estudar os critérios necessários para a evolução da psicoterapia científica como um todo. É considerado um precursor da psicologia humanista e criador da linha teórica conhecida como Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Didática Geral 49 se organizar, utilizando técnicas de sensibilização onde os sentimentos de cada um possam ser expostos, sem ameaças. Desta maneira, o objetivo do trabalho escola se encerra nos processos de melhora do relacionamento interpessoal, como condição para o crescimento pessoal. Relação Professor-Aluno: A pedagogia não-diretiva propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua personalidade por meio da vivência de experiências significativas que lhe permitam desenvolver características inerentes à sua natureza. O professor deve ser um especialista em relações humanas, ao garantir o clima de relacionamento pessoal e autêntico. ‘Ausentar- se’ é a melhor forma de respeito e aceitação plena da pessoa do aluno. Toda intervenção tende a ser ameaçadora, inibidora da aprendizagem. Aprendizagem: A motivação é resultado do desejo de adequação pessoal na busca da auto-realização; é portanto, um ato interno. A motivação aumenta quando o sujeito desenvolve o sentimento de que é capaz de agir no sentido de alcançar suas metas pessoais, isto é, desenvolver a valorização do seu próprio ‘eu’. Aprender, portanto, é modificar suas próprias percepções; daí que apenas se aprende o que estiver significativamente relacionado com essas percepções. O resultado é que se retém o que tiver relação com o ‘eu’, pois quando não existe tal relação não será retido ou transferido. Portanto, a avaliação escolar perde inteiramente o sentido, privilegiando-se a auto- avaliação. Manifestações na Prática Escolar: O maior inspirador desse tipo de pedagogia é justamente Carl Rogers, na verdade mais psicólogo clínico do que educador. Suas idéias influenciaram um número expressivo de educadores e professores, principalmente orientadores educacionais e psicólogos escolares que se dedicam ao aconselhamento dos alunos. Menos recentemente, podemos citar também tendências inspiradas na escola de Summerhill do educador inglês A. Neill. 4.4. PEDAGOGIA LIBERAL TECNICISTA Papel da Escola: Como essa concepção apregoa um sistema social harmônico, orgânico e funcional, a escola, deste modo, funciona como modeladora do comportamento humano, através de técnicas específicas. À educação escolar cabe organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, úteis e necessários para que os indivíduos se integrem na máquina do sistema social global. Tal sistema social é regido por leis naturais (há na sociedade a mesma regularidade e as mesmas relações funcionais observáveis entre os fenômenos da natureza), cientificamente descobertas. Basta aplicá-las. A atividade da ‘descoberta’ é Didática Geral 50 função da educação, mas deve ser restrita aos especialistas; a ‘aplicação’ é competência do processo educacional comum. A escola atua, assim, no aperfeiçoamento da ordem social vigente (o sistema capitalista), articulando-se diretamente com o sistema produtivo; para tanto, emprega a ciência da mudança de comportamento, ou seja, a tecnologia comportamental. Seu interesse imediato é o de produzir indivíduos ‘competentes’ para o mercado de trabalho, transmitindo eficientemente informações precisas, objetivas e rápidas. A pesquisa científica, a tecnologia educacional, a análise experimental do comportamento garantem a objetividade da prática escolar, uma vez que os objetivos instrucionais (conteúdos) resultam da aplicação de leis naturais que independem dos que a conhecem ou a executam. Conteúdos de Ensino: São as informações, princípios científicos, leis, etc., estabelecidos e ordenados numa sequência lógica e psicológica por especialistas. É matéria de ensino apenas o que é redutível ao conhecimento observável e mensurável; os conteúdos decorrentes, assim, da ciência objetiva, eliminando-se qualquer sinal de subjetividade. O material instrucional encontra- se sistematizado nos manuais, nos livros didáticos, nos módulos de ensino, nos dispositivos audiovisuais, etc. Métodos: Consistem nos procedimentos e técnicas necessárias ao arranjo e controle das condições ambientais que assegurem a transmissão/recepção de informações. Se a primeira tarefa do professor é modelar respostas apropriadas aos objetivos instrucionais, a principal é conseguir o comportamento adequado pelo controle do ensino; daí a importância da tecnologia educacional. A tecnologia educacional é a aplicação sistemática de princípios científicos comportamentais e tecnológicos a problemas educacionais, em função de resultados efetivos, utilizando uma metodologia e abordagem sistêmica abrangente. Qualquer sistema instrucional (há uma enorme variedade deles) possui três componentes básicos: objetivos instrucionais operacionalizados em comportamentos observáveis e mensuráveis, procedimentos instrucionais e avaliação. Essas etapas básicas de um processo de aprendizagem devem ser: I) estabelecimento de comportamentos terminais, por meio de objetivos instrucionais; II) análise da tarefa de aprendizagem, a fim de ordenar seqüencialmente os passos da instrução; III) executar o programa, reforçando gradualmente as respostas corretas correspondentes aos objetivos. O essencial da tecnologia educacional é a programação por passos seqüenciais, empregando-a na instrução programada, nas técnicas de microensino, multimeios e módulos, etc. O emprego da tecnologia instrucional na escola pública aparece nas formas de planejamento em moldes sistêmicos, concepção de aprendizagem como mudança de comportamento, operacionalização de objetivos, uso de Didática Geral 51 procedimentos científicos (instrução programada, audiovisuais, avaliação, etc., inclusive a programação de livros didáticos). Relação Professor-Aluno: São relações estruturadas e objetivas, com papeis bem definidos: o professor administra as condições de transmissão da matéria, conforme um sistema instrucional eficiente e efetivo em termos de aprendizagem; o aluno recebe, aprende e fixa as informações. O professor é apenas um elo entre a verdade científica e o aluno, cabendo-lhe empregar o sistema instrucional previsto. O aluno é um indivíduo que responde, mas não participa da elaboração do programa educacional. Ambos são apenas coadjuvantes dessa produção de conhecimentos. A comunicação professor- aluno tem um sentido exclusivamente técnico de garantir a eficácia da transmissão do conhecimento. Debates, discussões, questionamentos são desnecessários, assim como não são interessantes as relações afetivas e pessoais dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Aprendizagem: As teorias de aprendizagem que dão base para a formação dessa pedagogia tecnicista dizem que aprender é uma questão de modificação do desempenho: o bom ensino depende da organização eficiente das condiçõesestimuladoras, de modo que o aluno possa sair da situação de aprendizagem diferente de quando entrou. Com outras palavras, o ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. Assim, os sistemas instrucionais visam ao controle do comportamento individual frente aos objetivos pré-estabelecidos. Trata-se de um enfoque diretivo do ensino, centrado no controle das condições que envolvem o organismo que se comporta. O objetivo da ciência pedagógica, a partir da psicologia, é análise científica do comportamento: descobrir as leis naturais que presidem as reações físicas do organismo que aprende, a fim de aumentar o controle das variáveis que o afetam. Os componentes da aprendizagem: motivação, retenção, transferência, decorrem da aplicação do comportamento operante. Segundo Skinner, o comportamento apreendido é uma resposta a estímulos externos, controlados por meio de reforçamentos que ocorrem com a resposta ou após a mesma: Se a ocorrência de um comportamento operante é seguida pela apresentação de um estímulo reforçador, a probabilidade de reforçamento é aumentada. Entre os autores que contribuem para os estudos de aprendizagem destacam-se: Skinner, Gagné, Bloon e Mager. Manifestações na Prática Escolar: A influência da pedagogia tecnicista remonta à segunda metade dos anos 50, pelo Programa Brasileiro-Americano de Auxílio ao Ensino Elementar (PABAEE). Contudo, foi introduzida mais efetivamente no fim dos anos 60, com a intenção de adequar o sistema educacional à orientação político-econômica do regime militar: inserir a escola Didática Geral 52 nos modelos de racionalização do sistema de produção capitalista. É quando a orientação escolanovista cedeu o lugar às tendências tecnicistas, ao menos no nível político oficial daquele momento; os marcos da implantação do modelo tecnicista são as promulgações das leis 5.540/68 e 5.692/71, que reorganizaram o ensino superior e o ensino de 1º e 2º graus, respectivamente. A despeito da máquina oficial, contudo, não há indícios seguros de que os professores da escola pública tenham conseguido assimilar a pedagogia tecnicista, pelo menos em seu ideário. A aplicação da metodologia tecnicista (planejamento, livros didáticos programados, procedimentos de avaliação, etc.) não configuravam uma postura tecnicista do professor. O exercício profissional continuou mais para uma postura eclética em torno de princípios pedagógicos fixados nas pedagogias tradicional e renovada. PEDAGOGIA PROGRESSISTA O termo ‘progressista’ é usado para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implicitamente os fins sócio-políticos da educação. Evidentemente, a pedagogia progressista não encontra muito espaço para adentrar a prática das escolas atualmente, por sermos de uma sociedade capitalista. Portanto, ela serve como instrumento de luta dos professores ao lado de outras práticas sociais. A pedagogia progressista tem-se manifestado em três tendências: a libertadora, mais conhecida como a pedagogia de Paulo Freire6; a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos no seu confronto com as realidades sociais. 4.5. PEDAGOGIA PROGRESSISTA LIBERTADORA Papel da Escola: Não é característico da pedagogia libertadora uma educação propriamente escolar, uma vez que sua principal contribuição é na atuação não ‘formal’. Contudo, professores e educadores engajados no ensino escolar vêm adotando pressupostos dessa pedagogia. Assim, ao falar em educação nessa proposta, dizemos que ela é uma atividade onde professores e alunos são 6 Paulo Reglus Neves Freire (1921 — 1997) foi um educador e filósofo brasileiro. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência. Autor de “Pedagogia do Oprimido”, um método de alfabetização dialético, se diferenciou do "vanguardismo" dos intelectuais de esquerda tradicionais e sempre defendeu o diálogo com as pessoas simples, não só como método, mas como um modo de ser realmente democrático. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. Didática Geral 53 mediados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem e atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, com propósitos de atuar sobre ela num sentido de transformação social. Tanto a educação tradicional, que Paulo Freire chamava de ‘bancária’, que visava depositar informações sobre o aluno e depois passar a prova (como se fosse um cheque para ver se tinha fundos) e testar o conhecimento; quanto a educação renovada – que pretendia ser uma forma de libertação psicológica individual – são domesticadoras, pois em nada contribuem para se compreender a realidade social de opressão. A educação libertadora, ao contrário, questiona concretamente a realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando a transformação – daí ser uma educação crítica. Conteúdos de Ensino: São os chamados ‘temas geradores’, extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. Os conteúdos tradicionais são recusados porque cada pessoa, cada grupo envolvido na ação pedagógica, dispõe em si mesmo, ainda que de forma rudimentar e precária, dos conteúdos necessários dos quais se parte. O importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a experiência vivida. A transmissão de conteúdos estruturados a partir de fora é considerada como ‘invasão cultural’ ou ‘depósito de informações’, por que não emerge do saber popular. Se forem necessários textos de leitura, estes deverão ser redigidos pelos próprios educandos com orientação do educador. Em nenhum momento o inspirador e mentor dessa pedagogia, Paulo Freire, deixou de mencionar o caráter essencialmente político de sua pedagogia, o que em suas próprias palavras, impede que ela seja posta em prática em termos sistematizados, em instituições oficiais, antes que se transforme a sociedade. Razão pela qual sua atuação se dava mais na educação extra-escolar, o que nunca impediu, por outro lado, que esses pressupostos sejam adotados e aplicados por grande número de professores. Métodos: Para que seja um ato de conhecimento, o processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e educandos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os sujeitos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido. O diálogo engaja ativamente a ambos os sujeitos do ato de conhecer: educador-educando e educando- educador. Dessa forma, a maneira de se educar é o ‘grupo de discussão’, a quem cabe autogerir a aprendizagem, definindo o conteúdo e a dinâmica das atividades. O professor é um animador que, por princípios, deve ‘descer’ ao nível dos alunos, adaptando-se às suas características e ao desenvolvimento próprio de cada grupo. Deve caminhar ‘junto’, intervir minimamente e se for Didática Geral 54 realmente necessário, embora não deixe, caso seja importante, de fornecer uma informação mais sistematizada. O Caminho Para a Aprendizagem: Codificação-decodificação, e problematização da situação – permitindo aos educandos um esforço de compreensão do ‘vivido’, até chegar a um nível mais crítico de conhecimento da sua realidade, sempreatravés da troca de experiência em torno da prática social. Se tudo isso é o que faz o trabalho educativo, não há a necessidade de um programa previamente estruturado, trabalhos escritos, aulas expositivas, assim como qualquer tipo de verificação direta de aprendizagem (avaliação), o que acontece exatamente na educação bancária, portanto, domesticadora. Contudo, admite-se a avaliação da prática vivenciada entre educador- educandos no processo de grupo e, às vezes, a auto-avaliação feita em termos dos compromissos assumidos com a prática social. Relação Professor-Aluno: Há uma relação horizontal por meio do diálogo entre o educador e os educandos, ambos se posicionando como sujeitos do ato de conhecimento. A total identificação com o povo é o critério de bom relacionamento, pois sem isso a relação pedagógica perderia consistência. Toda relação de autoridade é eliminada, uma vez que inviabilizaria o trabalho de conscientização, de aproximação de consciências. Existe uma não- diretividade, entretanto, não da maneira como Rogers dizia (se ausentando), mas que permanece vigilante para assegurar ao grupo um espaço mais humano para dizer sua palavra, para se expressar sem se neutralizar. Aprendizagem: A força motivadora da aprendizagem é revelada pela própria designação de educação problematizadora como correlata de educação libertadora. A partir da codificação de uma situação problema a motivação se revela, tomando distância para analisá-la criticamente. A razão de ser dos fatos, por meio de representações da realidade concreta, é a busca a ser alcançada por meio dessa análise envolvendo a abstração. Da situação real vivida pelo educando o resultado é a aprendizagem, como um ato de conhecimento desta realidade. O que é aprendido não decorre de uma imposição ou memorização, mas de um nível crítico de conhecimento, que se chega pelo processo de compreensão, crítica e reflexão. O que foi incorporado como resposta a situações de opressão, ou seja, seu engajamento político é o que o educando transfere em termos de conhecimento. Manifestações na Prática Escolar: O principal inspirador e divulgador da pedagogia libertadora foi Paulo Freire, que aplicou suas idéias pessoalmente em diversos países, primeiro no Chile, depois na África. No Brasil exerceu uma influência expressiva nos movimentos populares e sindicatos e, praticamente, se mistura com a maior parte das experiências do que se denominou educação Didática Geral 55 popular. Há diversos grupos desta natureza que ainda atuam, mesmo após a morte de Freire, não apenas no nível da prática popular, mas também por meio de publicações, com relativa independência em relação às idéias originais da pedagogia libertadora. Embora essas formulações teóricas sejam restritas à educação de adultos ou educação popular, muitos professores tentam colocá- la em prática em todos os graus de ensino nas escolas. 4.6. PEDAGOGIA PROGRESSISTA LIBERTÁRIA Papel da Escola: Esta pedagogia pretende que seja exercida pela escola uma transformação na personalidade dos alunos em um sentido libertário e autogestionário. Funciona basicamente como introduzir modificações institucionais a partir dos níveis mais baixos (população) que será capaz de ir ‘contaminando’ todo o sistema. A escola instituirá mecanismos de mudanças, com base na participação grupal, como assembléias, conselhos, eleições, reuniões, associações, etc., de tal maneira que o aluno, uma vez que atue nas instituições ‘externas’, leve para lá tudo o que aprendeu. Outra forma de atuação da pedagogia libertária, semelhante a primeira, é aproveitando a margem de liberdade do sistema criando grupos de pessoas com princípios educativos autogestionários (associação, grupos informais, escolas autogestionárias). Há, portanto, um sentido expressamente político, da forma como se afirma o indivíduo como produto do social e que o desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo. A autogestão é, dessa forma, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico quanto o político. Na pedagogia escolar ou institucional, a pedagogia libertária pretende ser uma forma de resistência contra a burocracia como instrumento da ação dominadora do Estado, que tudo controla (professores, programas, provas etc.), retirando a autonomia do processo. Conteúdos de Ensino: Os conteúdos ficam à disposição do aluno, entretanto, sem nenhuma exigência de que se recorra a elas, pois são um instrumento a mais. O verdadeiro conhecimento é aquele resultante das experiências do grupo, principalmente das participações críticas. Conhecimento aqui não é a investigação intelectual da realidade para que se extraia um sistema de representações mentais, mas a descoberta que se faz das respostas às necessidades e exigências que a vida social demanda. Desta forma, os conteúdos são o resultado das necessidades e interesses manifestados pelo grupo e que não são necessariamente as matérias de estudo. Métodos: A própria vivência grupal, na forma de autogestão, que os alunos irão buscar bases mais satisfatórias de sua própria instituição, a partir de sua própria iniciativa e sem qualquer forma de poder. Trata-se de se instituir responsabilidades pelo coletivo a todos, como o conjunto da vida, as atividades Didática Geral 56 e a organização do trabalho no interior da escola (menos a elaboração dos programas e a decisão dos exames que não dependem nem dos docentes e nem dos alunos). Aos alunos fica a decisão de trabalhar ou não, ficando o interesse pedagógico na dependência de suas necessidades ou das do grupo. A progressão da autonomia, sem qualquer direção de fora do grupo, se dá numa direção crescente pela oportunidade de contatos, aberturas dos integrantes, relações informais entre os alunos. Só então, o grupo começa a se organizar de maneira que todos possam participar das discussões, cooperativas, assembléias, isto é, diversas formas de participação e expressão verbal. Entretanto, quem quiser fazer outras coisas deve entrar em acordo com o grupo ou se retirar. No terceiro momento, o grupo se organiza de maneira mais efetiva e, finalmente, no quarto momento, parte para a execução do trabalho elaborado pelo grupo. Relação Professor-Aluno: Esta pedagogia visa, em primeiro lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não-diretividade, isto é, considerar como ineficaz e nocivo todos os métodos que utilizem obrigações e ameaças. Mesmo sendo o professor e o aluno diferentes, nada impede que o primeiro se coloque a serviço do segundo, sem impor suas concepções e idéias, sem transformar o aluno em objeto. O professor é um catalisador e orientador, ele se mistura ao grupo para refletirem mutuamente. Por serem os alunos livres frente ao professor, este também o é em relação aos alunos (ele pode, caso queira, recusar-se a responder alguma pergunta, permanecendo em silêncio). Entretanto, esse tipo de liberdade de atitude tem um sentido muito claro, pois se um aluno resolve não participar, o faz porque não se sente integrado e, como o grupo tem responsabilidade sobre esse fato deve se colocar a questão. Quando o professor se cala diante de uma pergunta, seu silêncio tem um significado educativo que pode, por exemplo, ser uma ajuda para que talvez o grupo assuma a responsabilidade de responder ou lidar com a situação criada. No mais, o professor se incumbe como uma espécie de conselheiro e, outras vezes, de instrutor ou monitor à disposição do grupo. Em nenhum momento esses papéis do professor se resumem em algum modelo, pois essa pedagogia recusa qualquer espécie de poder ouautoridade. Aprendizagem: A principal ênfase é na aprendizagem informal, via grupo, e o repúdio a qualquer forma de repressão visam favorecer o desenvolvimento de pessoas mais livres. Assim, as formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de impessoalidade, comprometem o crescimento pessoal. A motivação, assim, está no interesse em crescer dentro das possibilidades da vivência grupal, desenvolvendo a cada um de seus membros a satisfação de suas aspirações e necessidades. Didática Geral 57 Somente o experimentado, vivido, é incorporado e útil em situações novas. Desta forma, o critério de relevância do saber sistematizado é seu possível uso prático. Por esta razão, não faz nenhum sentido qualquer forma de avaliação da aprendizagem, ao menos no que se refere aos conteúdos. Manifestações na Prática Escolar: Esta pedagogia inclui quase todas as tendências anti-autoritárias em educação, como a anarquista, a psicanalista, a dos sociólogos, e também a dos professores progressistas. Embora Rogers e Neill não possam ser considerados professistas, pela ausência do aspecto da criticidade sócio-política, não deixam de influenciar alguns libertários, como Lobrot. Entre os estrangeiros, podemos citar Vasquez e Oury entre os mais recentes, Ferrer y Guardia entre os mais antigos. Particularmente significativo é o trabalho de Célestin Freinet, que foi sempre muito estudado por suas inúmeras contribuições, existindo inclusive algumas escolas aplicando seu método. Dentre os estudiosos e divulgadores desta tendência, podemos citar Maurício Tragtenberg, apesar da tônica de seus trabalhos não ser propriamente pedagógica, mas de crítica das instituições a favor de um projeto autogestionário de educação. 4.7. PEDAGOGIA PROGRESSISTA CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS Papel da Escola: A propagação dos conteúdos é uma tarefa primordial nessa tendência. Não qualquer conteúdo, de maneira abstrata, mas conteúdos concretos, vivos, portanto, inerentes as realidades sociais. A escola é valorizada como instrumento capaz de proporcionar a apropriação do saber como serviço prestado aos interesses populares, uma vez que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Sendo a escola uma parte que integra a totalidade social, a ação dentro dela é também uma forma de agir ruma a uma transformação social. Como o que define uma pedagogia crítica é exatamente a consciência de seus condicionantes histórico-sociais, a função da pedagogia ‘dos conteúdos’ é dar um passo a frente na tarefa de transformar a escola, mas a partir de condições já existentes. Desta forma, o pré-requisito para que a escola sirva aos interesses populares é a garantir a todos um bom ensino, isto é, a apropriação dos conteúdos escolares básicos que tenham ressonância na vida dos alunos. Compreendida desta maneira, a educação é ‘uma atividade mediadora no seio da prática social global’, ou seja, uma das mediações pela qual o aluno, com a intervenção do professor e por sua própria participação ativa, passa de uma experiência inicialmente confusa e fragmentada (sincrética) a uma visão sintética, mais organizada e unificada. Resumindo, a atuação escolar consiste na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio Didática Geral 58 da aquisição dos conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e ativa na democratização social. Conteúdos de Ensino: São os conhecimentos e conteúdos culturais universais que se constituíram em domínios relativamente autônomos, incorporados pela humanidade, mas permanentemente reavaliados face às realidades sociais. Mesmo que se aceite que os conteúdos são realidades exteriores ao aluno, de devem ser assimilados e não simplesmente reinventados, eles não são fechados e refratários às realidades sociais. Não é o bastante que esses conteúdos sejam apenas ensinados, ainda que como um trabalho bem feito; é preciso uma conexão de forma indissociável à sua significação humana e social. Essa forma de conceber os conteúdos não estabelece oposição entre cultura erudita e cultura popular, ou espontânea, apenas uma relação de continuidade em que, gradativamente, se passa da experiência imediata e desorganizada ao conhecimento sistematizado. Não que a primeira apreensão da realidade seja errada, mas é necessária a subida a uma forma de elaboração superior, pelo próprio aluno, com a mediação do professor. Métodos: Em poucas palavras, a aula começa pela constatação da prática real, havendo, em seguida, a consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto, como forma de confronto entre a experiência e a explicação do professor. Em suma, caminha-se da ação à compreensão e da compreensão à ação, até a síntese, o que nada mais é do que a unidade entre teoria e prática. Admitindo-se um conhecimento relativamente autônomo, assumimos o saber como possuindo um conteúdo relativamente objetivo, contudo, ao mesmo tempo, deve-se introduzir a possibilidade de uma reavaliação crítica frente a tal conteúdo. Trata-se de o professor, de um lado, obter o acesso do aluno aos conteúdos, ligando-os com a experiência concreta dele, continuamente. Entretanto, por outro lado, proporciona-se elementos de análise crítica que ajudem o aluno a ultrapassar a experiência, os estereótipos, as pressões difusas da ideologia dominante, é a ruptura. Dito isso, o resultado claro é que se pode ir do saber ao engajamento político, mas não o contrário, sob o risco de se afetar a própria especificidade do saber e até cair numa forma de pedagogia ideológica, que é exatamente o que se critica na pedagogia tradicional e na pedagogia nova. Os métodos se subordinam aos conteúdos, pois se o objetivo é privilegiar a aquisição do saber vinculado às realidades sociais, se faz necessário que os métodos favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxílio ao seu esforço de compreensão da realidade (prática social). Dessa forma, nem se trata dos métodos impositivos e inquestionáveis do saber da Didática Geral 59 pedagogia tradicional, nem da sua substituição pela descoberta, investigação ou livre expressão das opiniões, como se o saber pudesse ser inventado pela criança, na concepção da pedagogia renovada. Os métodos dessa pedagogia crítica não partem, portanto, de um saber superficial, depositado a partir de fora, nem do espontâneo, mas de uma experiência direta na relação com o aluno, no confronto com o saber trazido de fora da escola. O trabalho do professor deve relacionar a prática vivida pelos alunos com os conteúdos propostos pelo professor, para que se dê a ‘ruptura’ em relação à experiência pouco elaborada. Essa ruptura somente é possível com a introdução explícita, pelo professor, dos elementos novos de análise a serem aplicados criticamente à prática do aluno. Relação Professor-Aluno: Como o conhecimento resulta de trocas que se estabelecem na relação com o meio (natural, social e cultural) e o sujeito, sendo o professor uma espécie de mediador, então a relação pedagógica consiste no provimento das condições em que os professores e alunos possam colaborar para fazer progredir essas trocas. A missão do adulto é insubstituível, mas aumenta-se também a participação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com sua experiência imediata no contexto cultural participa na busca da verdade e tem de confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo professor. Entretanto,esse esforço do professor em orientar, em abrir perspectivas a partir dos conteúdos, implica um envolvimento com o estilo de vida dos alunos, tendo consciência inclusive das disparidades entre sua própria cultura e a do aluno. Não se satisfará em satisfazer apenas as necessidades e carências, mas buscará despertar outras necessidades, acelerar e disciplinar os métodos de estudo, exigir o esforço do aluno, propor conteúdos e modelos que sejam compatíveis com suas experiências vividas, para que esses alunos se mobilizem para uma participação ativa. Logicamente o papel de mediação exercido em torno da análise dos conteúdos exclui a não-diretividade como forma de orientação do trabalho escolar, porque o diálogo entre adulto e aluno é desigual. O adulto terá muito mais experiência acerca das realidades sociais e ‘deve dispor’ de uma formação para ensinar, possuir conhecimentos e a ele cabe fazer uma análise dos conteúdos em confronto com as realidades sociais. A não-diretividade deixa os alunos a suas próprias vontades, como se eles tivessem uma tendência espontânea a alcançar os objetivos esperados da educação. Sabemos que as tendências espontâneas e naturais não são ‘naturais’, mas tributárias das condições de vida e do meio. Não serviria apenas o amor, a aceitação, para que os filhos dos trabalhadores conquistem a vontade de estudar mais, de progredir. É necessária a intervenção do professor para que se possa levar o aluno a acreditar nas suas possibilidades, a ir mais longe, a prolongar a experiência vivida. Didática Geral 60 Aprendizagem: Por meio de um esforço próprio o aluno é capaz de se reconhecer nos conteúdos e nos modelos sociais apresentados pelo professor; dessa forma, poderá ampliar sua própria experiência com seu próprio esforço. Para aprender, o aluno utiliza sua estrutura prévia de conhecimento, ou o professor provê uma maior estruturação do que o aluno ainda não disponha. O grau de envolvimento na aprendizagem irá depender tanto da capacidade e disposição do aluno quanto do professor e do contexto da sala de aula. Aprender, nesta visão, é desenvolver a capacidade de processar informações e lidar com os estímulos do ambiente, organizando os dados disponíveis da experiência. Em conseqüência, precisa-se verificar aquilo que o aluno já sabe como pré-requisito de uma aprendizagem significativa. O professor precisa ter ciência do que os alunos dizem ou fazem, assim como o aluno precisa compreender o que o professor pretende lhe passar. A transferência ocorre a partir do momento da síntese, quando o aluno supera sua visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. O resultado é que precisa ser avaliado, não como julgamento definitivo e indiscutível do professor, mas como comprovação para o aluno de seu progresso em direção a noções mais sistematizadas. Manifestações na Prática Escolar: Podem ser citadas a experiência pioneira do educador e escritor russo Makarenko7. Entre outros autores podem ser citados B. Charlot, Suchodolski, Manacorda e, de maneira especial, G. Snyders, além dos autores brasileiros que desenvoveram investigações relevantes, destacando-se Dermeval Saviani. Representam também os inúmeros professores de rede escolar pública que se ocupam, competentemente, de uma pedagogia de conteúdos articulada com a adoção de métodos que garantam a participação do aluno que, muitas vezes sem saber, avançam na democratização efetiva do ensino para as camadas populares. O esforço de elaboração de uma pedagogia ‘dos conteúdos’ está em propor modelos de ensino voltados para a interação conteúdos-realidades sociais. Dessa maneira, visa avançar em termos de uma articulação do político e do pedagógico, aquele como extensão deste, ou seja, a educação ‘a serviço da transformação das relações de produção’. Mesmo que a curto prazo se espere que o professor tenha mais conhecimentos sobre os conteúdos de sua disciplina e o domínio de uma boa Didática a fim de garantir maior competência técnica, sua contribuição será muito mais eficaz uma vez que compreenda os vínculos de sua prática com a prática social global, tendo em vista a democratização da sociedade brasileira, o atendimento dos interesses das 7 Anton Semyonovich Makarenko, (1888 — 1939) foi um pedagogo ucraniano que se especializou no trabalho com menores abandonados, especialmente os que viviam nas ruas e estavam associados ao crime. Didática Geral 61 camadas populares, a transformação estrutural da sociedade brasileira com princípios de mais justiça e igualdade. RESUMO Segundo Libâneo (1985), verifica-se três tipos de tendências que interpretam o papel da educação na sociedade: a educação como redenção, a educação como reprodução e a educação como transformação da sociedade. A Pedagogia Liberal também possui a característica de ser um tipo de Educação Ajustadora, uma vez que apenas ajusta o aluno para que este possa participar da reprodução da sociedade. Esta Pedagogia possui muitas correntes teóricas, entretanto, as que mais se destacaram são quatro delas: Tradicional, Renovada Progressivista, Renovada Não-Diretiva e Tecnicista. No outro lado, temos a Pedagogia Progressista, que possui a característica de uma Educação Transformadora, por dar condições do desenvolvimento dos alunos permitir que estes tenham capacidade de lutar por uma transformação social em uma direção mais justa e igualitária. As principais representantes teóricas dessa Pedagogia são: Libertadora, Libertária e a Crítico-Social dos Conteúdos. A Pedagogia Liberal impõe a idéia de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais, por isso os indivíduos precisam aprender a se adaptar aos valores e as normas vigentes da sociedade de classes através do desenvolvimento da cultura individual. A ênfase no aspecto cultural esconde a realidade das diferenças de classes, pois, embora difunda a idéia de igualdade de oportunidades, não leva em consideração a desigualdade de condições que a vida oferece, legitimando a ideologia capitalista. Na Pedagogia Liberal Tradicional a atuação da escola consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para assumirem sua posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os problemas sociais pertencem à sociedade. Os conteúdos são separados da experiência do aluno e das realidades que a sociedade oferece, valendo pelo valor intelectual, motivo pelo qual a pedagogia tradicional é criticada como intelectualista e, às vezes, como enciclopédica. Na Pedagogia Liberal Renovada Progressivista a finalidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social e, para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto possível, a vida do aluno. Trata-se de ‘aprender a aprender’, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. A idéia de ‘aprender fazendo’ está sempre presente. Há valorização das tentativas experimentais, da pesquisa, da descoberta, o estudo do meio natural e social, o método de solução de problemas. Na Pedagogia Liberal Renovada Não-Diretiva acentua-se, nesta tendência, o papel da escola na formação de atitudes, razão pela qual deve Didática Geral 62 estar mais preocupada com problemas psicológicos do que com pedagógicos ou sociais. Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do ambiente. Os processos de ensino visam maisa facilitar aos estudantes os meios para buscarem por si mesmos os conhecimentos que, no entanto, são dispensáveis. Os métodos usuais são dispensados, prevalecendo quase que exclusivamente o esforço do professor em desenvolver um estilo próprio para facilitar a aprendizagem dos alunos. Na Pedagogia Liberal Tecnicista a educação escolar cabe organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, úteis e necessários para que os indivíduos se integrem na máquina do sistema social global. É matéria de ensino apenas o que é redutível ao conhecimento observável e mensurável; os conteúdos decorrentes, assim, da ciência objetiva, eliminando-se qualquer sinal de subjetividade. Consistem nos procedimentos e técnicas necessárias ao arranjo e controle das condições ambientais que assegurem a transmissão/recepção de informações. A comunicação professor-aluno tem um sentido exclusivamente técnico de garantir a eficácia da transmissão do conhecimento. O termo ‘progressista’ é usado para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implicitamente os fins sócio-políticos da educação. A pedagogia progressista tem-se manifestado em três tendências: a libertadora, mais conhecida como a pedagogia de Paulo Freire; a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos no seu confronto com as realidades sociais. Na Pedagogia Progressista Libertadora existe uma atividade onde professores e alunos são mediados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem e atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, com propósitos de atuar sobre ela num sentido de transformação social. Os conteúdos são os chamados ‘temas geradores’, extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. O diálogo engaja ativamente a ambos os sujeitos do ato de conhecer: educador- educando e educando-educador. Dessa forma, a maneira de se educar é o ‘grupo de discussão’, a quem cabe autogerir a aprendizagem, definindo o conteúdo e a dinâmica das atividades. O professor é um animador que, por princípios, deve ‘descer’ ao nível dos alunos, adaptando-se às suas características e ao desenvolvimento próprio de cada grupo. Na Pedagogia Progressista Libertária pretende-se que seja exercida pela escola uma transformação na personalidade dos alunos em um sentido libertário e autogestionário. A autogestão é, dessa forma, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico quanto o político. Na pedagogia escolar ou institucional, a pedagogia libertária pretende ser uma forma de Didática Geral 63 resistência contra a burocracia como instrumento da ação dominadora do Estado, que tudo controla (professores, programas, provas etc.), retirando a autonomia do processo. O verdadeiro conhecimento é aquele resultante das experiências do grupo, principalmente das participações críticas. A própria vivência grupal, na forma de autogestão, que os alunos irão buscar bases mais satisfatórias de sua própria instituição, a partir de sua própria iniciativa e sem qualquer forma de poder. Na Pedagogia Progressista Crítico-Social dos Conteúdos a propagação dos conteúdos é uma tarefa primordial nessa tendência. Não qualquer conteúdo, de maneira abstrata, mas conteúdos concretos, vivos, portanto, inerentes as realidades sociais. A escola é valorizada como instrumento capaz de proporcionar a apropriação do saber como serviço prestado aos interesses populares, uma vez que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Não é o bastante que esses conteúdos sejam apenas ensinados, ainda que como um trabalho bem feito; é preciso uma conexão de forma indissociável à sua significação humana e social. Em poucas palavras, a aula começa pela constatação da prática real, havendo, em seguida, a consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto, como forma de confronto entre a experiência e a explicação do professor. Em suma, caminha-se da ação à compreensão e da compreensão à ação, até a síntese, o que nada mais é do que a unidade entre teoria e prática. Exercícios: Faça a correspondência entre os pares que se complementam colocando a letra correspondente à abordagem em questão. (A) Pedagogia Liberal TRADICIONAL; (B) Pedagogia Liberal RENOVADA PROGRESSIVISTA; (C) Pedagogia Liberal RENOVADA NÃO-DIRETIVA; (D) Pedagogia Liberal TECNICISTA; (E) Pedagogia Progressista LIBERTADORA; (F) Pedagogia Progressista LIBERTÁRIA; (G) Pedagogia Progressista CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS. ( ) Subordina a educação à sociedade, tendo como função a preparação de “recursos humanos” (mão de obra para a indústria). Dessa forma, o essencial não é o conteúdo da realidade, mas as técnicas (forma) de descoberta e aplicação. Ela “é encarada como instrumento capaz de promover, sem contradição, o desenvolvimento econômico pela qualificação da mão-de-obra, pela redistribuição da renda, pela maximização da Didática Geral 64 produção e, ao mesmo tempo, pelo desenvolvimento da ‘consciência política’ indispensável à manutenção do Estado autoritário”. ( ) Se caracteriza por acentuar o ensino humanístico, de cultura geral, no qual o aluno é educado para atingir, pelo próprio esforço, sua plena realização como pessoa. Os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação professor-aluno não tem nenhuma relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as realidades sociais. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual. ( ) Propõe uma síntese superadora das pedagogias tradicional e renovada, valorizando a ação pedagógica enquanto inserida na prática social concreta. Entende a escola como mediação entre o indivíduo e o social, exercendo aí a articulação entre a transmissão dos conteúdos e a assimilação ativa por parte de um aluno concreto (inserido num contexto de relações sociais); dessa articulação resulta o saber criticamente reelaborado. ( ) Orienta para os objetivos de auto-realização (desenvolvimento pessoal) e para as relações interpessoais. Acentua-se, nesta tendência, o papel da escola na formação de atitudes, razão pela qual deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que com os pedagógicos ou sociais. Todo o esforço está em estabelecer um clima favorável a uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do ambiente. ( ) Espera que a escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. A idéia básica é introduzir modificações institucionais, a partir dos níveis subalternos que, em seguida, vão “contaminando” todo o sistema. Há, portanto, um sentido expressamente político, à medida que se afirma o indivíduo como produto do social e que o desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favorecer o desenvolvimento das pessoas mais livres. ( ) Acentua o sentido da cultura como desenvolvimento das aptidões individuais. Mas a educação é um processo interno, não externo; ela parte das necessidades e interesses individuais necessários para a adaptação ao meio. A educação é a vida presente, é à parte da própria experiência humana. Propõe um ensino que valorize a auto-educação (o aluno como sujeito do conhecimento), a experiência direta sobre o meiopela atividade; um ensino centrado no aluno e no grupo. Didática Geral 65 ( ) Questiona concretamente a realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando a uma transformação – daí ser uma educação crítica. Os conteúdos de ensino são denominados como temas geradores e são extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. O importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a experiência vivida. “O diálogo engaja ativamente a ambos os sujeitos do ato de conhecer: educador e educando e educando e educador”. Resolução dos Exercícios: As respostas estão classificadas nesta ordem: (D) Pedagogia Liberal TECNICISTA (A) Pedagogia Liberal TRADICIONAL (G) Pedagogia Progressista CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS (C) Pedagogia Liberal RENOVADA NÃO-DIRETIVA (F) Pedagogia Progressista LIBERTÁRIA (B) Pedagogia Liberal RENOVADA PROGRESSIVISTA (E) Pedagogia Progressista LIBERTADORA Volte nas questões e no texto. Faça uma análise e compare suas respostas com as corretas. Analise, interprete e escreva a respeito. É uma das melhores formas para assimilar melhor esse conteúdo. Didática Geral 66 5. OS OBJETIVOS, CONTEÚDOS E PROCEDIMENTOS DE ENSINO Para que os professores possam ter minimamente um trabalho organizado é necessário um bom planejamento. Esse planejamento, que será retratado em grandes detalhes no capítulo 7, possui etapas e componentes que devem ser bem estruturados pelo docente, de maneira que seu trabalho fique claro para ele mesmo, seus alunos, escola e comunidade; além do fato de fugir de uma improvisação, antecipar resultados, etc. Os componentes se revestem de funções a serem previstas pelo professor durante todo o trabalho educativo e refletem seus valores, suas pretensões e expectativas que faz sobre seu próprio trabalho, estimando coisas que ele pensa que devem acontecer para que os alunos sofram modificações positivas em seus comportamentos, principalmente no que tange a vida social. As etapas ou componentes do planejamento são: Objetivos, Conteúdos e Procedimentos (neste capítulo), recursos e avaliação (no próximo capítulo). Sua divisão se deu, principalmente, pela razão de que os três primeiros juntos, carregam a alma de nossas aulas. Os recursos e a avaliação servem para: no caso do primeiro, instrumentalizar e enriquecer as condições de trabalho do professor; já o segundo, é uma espécie de verificação do dever cumprido. Teve êxito ou não? O que falhou no processo? E perguntas que ajudem a aprimorar o processo de ensino-aprendizagem docente. Começamos com os objetivos educacionais. 5.1. OS OBJETIVOS As pessoas em geral, costumam sempre fazer planos, expectativas, olhando para seu próprio futuro. Basicamente isso faz parte de todos nós. Planejar o futuro é olhar as possibilidades e buscar o alcance de algumas metas pessoais, como por exemplo, a compra de um bem material, uma viagem nas férias, uma mudança em algo sobre um relacionamento afetivo (como casar-se, ter filhos, etc.), e muitas outras coisas que devem ser alcançadas para que a vida não se torne vazia e sem propósito. Resumindo, TODOS TEMOS OBJETIVOS A SEREM ALCANÇADOS! Queremos alcançar nossas metas e, ao alcançá-las sentir o prazer da conquista e se sentir realizado. Entretanto, ao alcançar uma meta, costumamos ir adiante e traçar novas metas e continuar lutando para alcançá-las. Os seres humanos são assim e isso é bom, pois graças a essa insatisfação é que a evolução da espécie foi alcançada e que estamos alcançando coisas cada vez mais audaciosas e que, em outros tempos, julgaríamos impossíveis de serem alcançadas. Entretanto, caso não saibamos aonde queremos chegar, sem um simples objetivo, estaríamos totalmente entregues a um ativismo qualquer. Ou, Didática Geral 67 como diria o Filósofo Montaigne, em seus ensaios escritos no século XVI, citado por Haydt (2002): “nenhum vento ajuda a quem não sabe a que porto deverá velejar”. Um professor sem objetivos educacionais seria como um sujeito fazendo coisas sem propósito, somente passando o tempo e, no caso da missão docente, o tempo é valioso, pois do trabalho educativo deve resultar em grandes conquistas que raríssimos casos algum aluno conseguiria sem ajuda de ninguém. Nesse caso, a educação objetiva suas atividades traçando metas para a aprendizagem de seus alunos, sabendo quais serão os conjuntos de conquistas que esses alunos deverão alcançar. Saber aonde se quer chegar possibilita traçar os meios capazes de fazer com que as metas possam ser atingidas, além de saber o que se poderá avaliar. “Os objetivos antecipam resultados e processos esperados do trabalho conjunto do professor e dos alunos, expressando conhecimentos, habilidades e hábitos (conteúdos) a serem assimilados de acordo com as exigências metodológicas (nível de preparo prévio dos alunos, peculiaridades das matérias de ensino e características do processo de ensino e aprendizagem).” Libâneo (1990) Por serem educacionais, os objetivos são hábitos, conhecimentos, comportamentos que devem ser adquiridos dentro de uma cultura, dando possibilidades de adaptação e condições de pensar, refletir e interferir nesta cultura. Esta é a razão pela qual o professor deve elaborar com todo o cuidado tais objetivos, pois serão as principais aquisições que os indivíduos farão no trabalho com a escola e, determinará em grande parte, que tipo de seres humanos serão e o que terão a oferecer a nossa sociedade. Além disso, tendo claro os objetivos, o professor deverá elaborar meios para alcançá-los e terá mais facilidade de elaboração, pois sabendo aonde se quer chegar viabiliza a visualização de métodos de trabalho mais eficazes. Há dois tipos de objetivos a serem determinados: os objetivos gerais – de longo prazo – e os objetivos específicos – de curto prazo. Piletti (2010), denomina os gerais como educacionais, pois visualizam a longo prazo características a serem construídas de pouco a pouco com a ajuda do educador, como por exemplo a criatividade, o pensamento crítico, a capacidade de elaboração e organização de pensamento, etc. São fruto da visão de homem e de mundo do educador, valorizados por ele e almejados para a aquisição pelos alunos de tais capacidades humanas. Já os objetivos específicos ele chama de instrucionais, pois em curto prazo se ocupam da instrução do indivíduo, de comportamentos a serem adquiridos em menos tempo que os objetivos gerais, contudo, sempre relacionados a estes. Didática Geral 68 Os objetivos gerais são aqueles previstos para determinado ciclo ou grau de ensino, como por exemplo, ao final do ensino fundamental, ou do ensino médio, ou até mesmo, neste caso em menos tempo, ao final de um ano de trabalho, como por exemplo, ao final da 5ª série. Os objetivos específicos são os definidos para uma disciplina, uma unidade de ensino ou apenas uma aula. São elaborados como constituintes ou partes do objetivo geral e, devem proporcionar gradativamente e indiretamente o alcance deste. Por exemplo, se o objetivo geral fosse desenvolver a criticidade, os objetivos específicos poderiam ser: falar sobre um evento que foi previamente assistido; analisar um texto com base em na aula assistida; explicar os pontos positivos e negativos encontrados pelo grupo após a aula. São apenas alguns exemplos de comportamentos esperados como objetivos específicos que possam servir como constituintes do objetivogeral. Isso é o que pode ser chamado de desdobramento do objetivo geral em objetivos específicos. Pega-se como base, conforme o exemplo, um objetivo que tenha de ser construído gradativamente (desenvolver a criticidade) como objetivo geral e, elabora-se objetivos específicos (a serem alcançados em apenas uma aula cada um) capazes de auxiliar também no alcance do objetivo geral. Essa é a dinâmica. A escrita dos objetivos, tanto gerais quanto específicos, devem obedecer a determinadas regras para dar clareza, coerência e unidade. Vejamos tais regras: I. Como parte da intenção da modificação das capacidades dos alunos, deve-se deixar guiar pela seguinte frase: Ao final da aula (ou unidade, ou ano, ou algum período de tempo no trabalho educativo), os alunos serão capazes de... II. Decorrente da regra anterior podemos perceber que o que encaixa melhor na frase acima é um verbo no infinitivo, como por exemplo: falar, analisar, explicar, desenvolver, aprender, etc. III. Os objetivos sempre se referem aos alunos, conforme a frase diz, ‘que eles sejam capazes’. Isso deve ficar bem claro para que o professor não cometa equívocos na elaboração colocando coisas sobre seu próprio comportamento. Por exemplo: ‘Fazer os alunos falarem a respeito do carnaval’. Está incorreto, pois quem vai fazer os alunos falarem é o professor, portanto, impede que os objetivos ‘mirem’ o comportamento dos alunos, desviando para o do próprio professor, que deve se ocupar com os meios. Além disso, não casaria com a frase feita na primeira regra. Didática Geral 69 Essas regras facilitam muito na escrita, pois darão clareza, foco no aluno e coerência com o projeto educativo que o professor possa elaborar. Vejamos os objetivos gerais que os Parâmetros Curriculares Nacionais elegeram para o Ensino Fundamental. Os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam capazes de: • compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a- dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito; • posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas; • conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao País; • conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais; • perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente; • desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania; • conhecer e cuidar do próprio corpo, valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde coletiva; • utilizar as diferentes linguagens — verbal, matemática, gráfica, plástica e corporal — como meio para produzir, expressar e comunicar suas idéias, interpretar e usufruir das produções culturais, em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação; • saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos; • questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê-los, utilizando para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação. Outra razão, além do fato de ser um excelente exemplo, que levou a trazer esses objetivos gerais para o ensino fundamental elaborado para os PCNs, foi o fato de ser uma abordagem crítica, não conteudista. É sobre essa criticidade e esse conteudismo que pretendemos aprofundar um pouco. Didática Geral 70 A Educação como um fenômeno social deve acompanhar a sociedade em uma crescente evolução, dando oportunidade da vida em comum ser cada vez melhor, mais justa, mais ética e mais igualitária, superando as diferenças e equiparando todos em um mesmo patamar. Sabemos, conforme visto anteriormente, que está longe da sociedade ser dessa forma e, como a educação é capaz de capacitar as pessoas para lutar por transformações necessárias, é justamente esse tipo de educação que devemos dar aos nossos alunos; em oposição a uma educação não-crítica e ajustadora. Conteudismo nada mais é do que a forma como a educação tradicional tratou dos objetivos educacionais, colocando os conteúdos como se fossem os próprios objetivos das aulas, unidades e cursos. Conforme se coloca na abordagem crítico-social dos conteúdos, eles (os conteúdos) são extremamente importantes para se proporcionar uma educação transformadora, pois somente dominando todo um conteúdo cultural acumulado seremos capazes de compreender a sociedade através da história, entender a situação da sociedade de classes que defende interesse da minoria dominante e desfavorece grande parte da população que não tem condições intelectuais para lutar por uma transformação. Entretanto, só o conteúdo, sem a ligação com as questões sociais, conforme faz a educação tradicional, seriam insuficiente por não darem a oportunidade de ligar os conhecimentos de dentro da escola para o mundo a fora. Por exemplo: numa aula conteudista de português, o professor poderia colocar como objetivo específico: aprender a diferença no emprego dos 4 porquês. Em uma abordagem crítica não ficaríamos presos ao domínio dessas diferenças e o objetivo poderia ser este, por exemplo: criar uma modificação de um texto com o uso dos 4 tipos de porquês. Nesse caso, a utilização da capacidade criativa e organizacional do pensamento poderia proporcionar ao estudante instrumentos de uma educação transformadora, pois utilizaria a criatividade, o pensamento, a visualização de possibilidades, etc. Vejamos um pouco mais sobre a questão dos conteúdos para aprofundar essas questões aqui discutidas. 5.2. OS CONTEÚDOS “Conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos de sua prática de vida. Englobam, portanto: conceitos, idéias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras; habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudo, de trabalho e de convivência social; valores, convicções, atitudes. São expressos nos programas oficiais, nos livros didáticos, nos planos de ensino e Didática Geral 71 de aula, nas aulas, nas atitudes e convicções do professor, nos exercícios, nos métodos e formas de organização do ensino.” Libâneo (1990) Essa excelente definição de Libâneo expressa completamente o que se entende por conteúdos de ensino, de uma forma complexa e não simplista.Não há uma definição em poucas palavras que pudesse satisfazer com todo o significado dos conteúdos de ensino, pois ele é ‘tudo o que se ensina visando atingir objetivos educacionais e instrucionais’. Por um lado, os conteúdos ocupam o lugar dos conhecimentos socialmente construídos pela humanidade; ainda podemos dizer que são também os modos de ação culturalmente determinados pela sociedade; acrescentando, também são as descobertas científicas condensadas em necessidades de conhecimento de toda a população, permitindo acompanhar a evolução científica cuja qual a sociedade conquistou. Quanto à divisão em elementos dos conteúdos de ensino, temos várias classificações. Entretanto, duas se destacam dentre as utilizadas pelos teóricos da Didática e da Pedagogia. Uma delas é a de Libâneo (1990), que divide entre os conhecimentos sistematizados como sendo a base da instrução e do ensino, os objetos de assimilação e meio indispensável para o desenvolvimento global da personalidade; as habilidades como sendo as qualidades intelectuais necessárias para a atividade mental no processo de assimilação de conhecimentos e os hábitos como sendo os modos de agir relativamente automatizados que tornam mais eficaz o estudo ativo e independente; as atitudes e convicções se referindo a modos de agir, sentir e se posicionar frente a tarefas da vida social. Libâneo (1990) se refere a estes elementos como formadores da capacidade de conhecimento (ou cognocitiva) da formação dos indivíduos. Outra classificação interessante é a dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNs (Brasil, 1997). Eles dizem que a organização dos conteúdos, tem sido marcada pela linearidade e pela segmentação dos assuntos. No entanto, para que a aprendizagem possa ser significativa é preciso que os conteúdos sejam analisados e abordados de modo a formarem uma rede de significados. A hipótese deles parte da premissa de que compreender é apreender o significado, e de que para apreender o significado de um objeto ou de um acontecimento é preciso vê-lo em suas relações com outros objetos ou acontecimentos; é possível dizer que a idéia de conhecer assemelha-se à de tecer uma teia. Tal fato evidencia os limites dos modelos lineares de organização curricular que se baseiam na concepção de conhecimento como “acúmulo” e indica a necessidade de romper essa linearidade. Segundo os PCNs (Brasil, 1997) é importante deixar claro que, na escolha dos conteúdos a serem trabalhados, é preciso considerá-los numa Didática Geral 72 perspectiva mais ampla, que leve em conta o papel, não somente dos conteúdos de natureza conceitual — que têm sido tradicionalmente predominantes —, mas também dos de natureza procedimental e atitudinal. Para os PCNs, os conteúdos têm de levar em conta as três dimensões: Conceitual, Procedimental e Atitudinal. Os conteúdos de natureza conceitual, que envolvem a abordagem de conceitos, fatos e princípios, referem-se à construção ativa das capacidades intelectuais para operar com símbolos, signos, idéias, imagens que permitem representar a realidade. Tal aprendizado está diretamente relacionado à segunda categoria de conteúdos: a de natureza procedimental. Os procedimentos expressam um saber fazer, que envolve tomar decisões e realizar uma série de ações, de forma ordenada e não aleatória, para atingir uma meta. Os conteúdos procedimentais sempre estão presentes nos projetos de ensino, pois realizar uma pesquisa, desenvolver um experimento, fazer um resumo, construir uma maquete, são proposições de ações presentes nas salas de aula. A terceira categoria diz respeito aos conteúdos de natureza atitudinal, que incluem normas, valores e atitudes, que permeiam todo o conhecimento escolar. A escola é um contexto socializador, gerador de atitudes relativas ao conhecimento, ao professor, aos colegas, às disciplinas, às tarefas e à sociedade. A não compreensão de atitudes, valores e normas como conteúdos escolares faz com que estes sejam comunicados, sobretudo de forma inadvertida — acabam por serem aprendidos sem que haja uma deliberação clara sobre esse ensinamento. Finalizando com esta proposta, é colocado de maneira muito importante que dada à diversidade existente no país, é natural e desejável que ocorram alterações no quadro de conteúdos proposto nos Parâmetros Curriculares Nacionais tendo em vista que a definição dos conteúdos a serem tratados, em cada sala de aula, deve considerar o desenvolvimento de capacidades adequadas às características sociais, culturais e econômicas particulares de cada localidade. Assim, na mesma direção dos PCNs, a definição de conteúdos é uma referência suficientemente aberta para técnicos e professores analisarem, refletirem e tomarem decisões de escolhas, em função das necessidades de aprendizagem de seus alunos. Acreditamos que a escolha de conteúdos deva ir além dos programas oficiais e da simples organização lógica da matéria, ligando-se às exigências teóricas e práticas da vida social. Tais exigências devem ser consideradas em três sentidos. Primeiro: a participação na prática social, no mundo do trabalho, da política, da cultura, requer o domínio de conhecimentos básicos e habilidades intelectuais, como por exemplo, a leitura, a escrita, o cálculo, a Didática Geral 73 história, as ciências, à geografia, etc. Segundo: a ligação entre tudo o que se aprende na escola com os problemas a serem resolvidos na vida social diária. Terceiro: a questão do rendimento escolar dos alunos tem interferências na condição social de cada um. É preciso uma interferência nos conteúdos para que haja uma superação da desigualdade em termos de acesso e permanência na escola por parte de TODOS. Sobre os conteúdos e o livro didático temos um alerta importante para que o professor não venha a utilizá-lo sem uma prévia reflexão crítica a respeito do que ele está veiculando. Vejamos o que Libâneo (1990) diz a respeito: “ Ao recorrer ao livro didático para escolher os conteúdos, elaborar o plano de ensino e de aulas, é necessário ao professor o domínio seguro da matéria e bastante sensibilidade crítica. De um lado, os seus conteúdos são necessários e, quanto mais aprofundados, mais possibilitam um conhecimento crítico dos objetos de estudo, pois os conhecimentos sempre abrem novas perspectivas e alargam a compreensão do mundo. Por outro lado, esses conteúdos não podem ser tomados como estáticos, imutáveis e sempre verdadeiros. É preciso, pois, confrontá-los com a prática de vida dos alunos e com a realidade. Em certo sentido, os livros, ao expressarem o modo de ver de determinados segmentos da sociedade, fornecem ao professor uma oportunidade de conhecer como as classes dominantes explicam as realidades sociais e como dissimulam o real; e podem ajudar os alunos a confrontarem o conteúdo do livro com a experiência prática real em relação a esse conteúdo.” Dessa forma, precisamos ter um posicionamento suficientemente capaz de não seguir as cegas o que diz nos livros, conhecendo a matéria de maneira mais aprofundada e selecionando a maneira como deve ser ensinadas aos alunos, para que se apropriem de maneira crítica e engajada na dinâmica da sociedade em toda a complexidade que ela comporta. Se falamos sobre os objetivos educacionais e os correspondentes conteúdos, precisamos saber a maneira mais apropriada para se organizar o ensino aos alunos. Esse é exatamente o próximo tema a ser tratado. 5.3. OS MÉTODOS DE ENSINO Podemos colocar que a alma de processo pedagógico do professor se encontra nesse campo. Chamamosde procedimentos, estratégias, métodos e técnicas para nos referirmos ao simples fato de ‘como devemos ensinar aquilo que queremos que nosso aluno aprenda’. Entretanto, existe uma diferença Didática Geral 74 entre cada um desses termos e precisamos diferenciá-los, pois são complementares sem representarem o mesmo significado. Segundo Piletti (2010), estratégia é uma descrição dos meios disponíveis pelo professor para atingir os objetivos específicos. No caso do método, é um caminho a seguir para se alcançar um fim, o que para o professor acaba por ser um roteiro geral para a atividade; é um caminho que leva até certo ponto, não sendo o veículo de chegada, pois este é a técnica. A técnica é uma forma de operacionalizar o método, como a escolha de diferentes formas de se aplicar o ensino, por exemplo, dinâmica de grupo, dramatização, etc. Já os procedimentos é a maneira de efetuar algo, consiste na descrição das atividades desenvolvidas pelo professor e as atividades desenvolvidas pelos alunos. Conforme falamos, basicamente, todos esses termos, de maneira complementar se voltam para a maneira sobre como devemos conduzir as atividades para que, utilizando-se dos conteúdos de ensino, o professor possa atingir seus objetivos gerais e específicos, por meio de tudo que é desenvolvido pelos principais personagens na escola. De um lado, o professor, do outro, os alunos. Ao professor, cabe a tarefa de direção e estímulo do processo de ensino em função da necessidade de aprender dos alunos, utilizando intencionalmente um conjunto de ações, passos, condições externas e procedimentos, a que podemos chamar neste texto de métodos de ensino. Para exemplificar, a atividade de explicação da matéria pode ser entendida como o método de exposição, à atividade de diálogo ou discussão com os alunos pode ser chamada de método de elaboração conjunta, os alunos acabam por utilizar métodos de assimilação de conhecimentos, assim como poderia ser dado pelo professor um método de resolução de problemas para os alunos. A ação do professor pelos objetivos, conteúdos e métodos, terá sempre como suporte uma concepção pedagógica, ou seja, um posicionamento sociopolítico do processo educativo. Portanto, os métodos de ensino não se reduzem a quaisquer medidas, procedimentos e técnicas, pois se baseiam em uma concepção de sociedade, antes até de se constituir em passos, medidas e procedimentos. Fundamentam-se em formas de reflexões, ações sobre a realidade educacional e interna e as relações entre objetos, fatos, problemas dos conteúdos de ensino, vinculando a todo o momento o processo de conhecimento e a atividade prática humana no mundo. A ação do professor pelos objetivos, conteúdos e métodos, terá sempre como suporte uma concepção pedagógica, ou seja, um posicionamento sociopolítico do processo educativo. O método de ensino deve implicar a visão do objeto de estudo nas suas propriedades e nas suas relações com outros objetos e fenômenos e sob Didática Geral 75 vários ângulos, especialmente na sua implicação com a prática social, uma vez que a apropriação de conhecimentos se justifica na sua ligação com as necessidades da vida humana e com a transformação da realidade social. Devido a isso, os métodos de ensino dependem dos objetivos que o professor formula tendo em vista o conhecimento e a transformação da realidade, pois é por meio desse processo de transmissão e assimilação ativa dos conhecimentos e habilidades que a preparação de crianças e jovens adquirem uma compreensão mais ampla da realidade social e se tornem agentes ativos de transformação dessa realidade. Analisando o processo de ensino, podemos destacar seu aspecto bilateral, em que a atividade de ensino do professor e de aprendizagem do aluno atual reciprocamente; o professor estimulando e dirigindo o processo em função da aprendizagem ativa do aluno. Os métodos é que tornam esse processo possível. Assim, quando é utilizada a exposição lógica da matéria, predomina a atividade do professor, mas sempre preocupado com a compreensão e assimilação por parte do aluno, suscitando sua atividade mental. Os métodos correspondem, desta maneira, a seqüência de atividade do professor e dos alunos, supondo objetivos do professor e os meios e formas de organização do ensino de que dispõe e, ao mesmo tempo, os objetivos dos alunos e a ativação das suas forças mentais. Graças à combinação dessa ação conjunta realiza-se o processo ensino-aprendizagem. Os métodos nada significam separados dos objetivos e dos conteúdos de ensino. A assimilação dos conteúdos depende tanto dos métodos de ensino quanto dos de aprendizagem. Um importante destaque a ser feito é que o conteúdo de ensino não é a matéria em si, mas uma matéria de ensino, selecionada e preparada pedagógico e didaticamente para ser apreendida pelos alunos. Por isso, não basta transmitir a matéria! É preciso considerar que tudo está determinado pelos aspectos político-pedagógicos, lógicos e psicológicos, o que implica considerar a relação de subordinação dos métodos aos objetivos gerais e específicos. Os objetivos devem expressar não somente a antecipação dos nossos propósitos em relação ao desenvolvimento e transformação da personalidade dos alunos frente às exigências individuais e sociais, como também os princípios pedagógicos dos conteúdos. Os métodos, portanto, são as formas pelas quais os objetivos e conteúdos procuram se manifestar no processo de ensino. Os métodos, portanto, são as formas pelas quais os objetivos e conteúdos procuram se manifestar no processo de ensino. Libâneo (1990), explicando sobre a utilização de métodos ativos defende que, ao invés de adotar a máxima ‘aprender fazendo’, deve adotar a do ‘aprender pensando naquilo que faz’. E, para isso, sugere algumas recomendações práticas em relação a esse princípio que vale ser trazido aqui: Didática Geral 76 Esclarecer os alunos sobre os objetivos da aula e sobre a importância dos novos conhecimentos para a seqüência dos estudos, ou para atender necessidades futuras; Provocar a explicitação da contradição entre idéias e experiências que os alunos possuem sobre um fato ou objeto de estudo e o conhecimento científico sobre esse fato ou objeto de estudo; Criar condições didáticas nas quais os alunos possam desenvolver métodos próprios de compreensão e assimilação de conceitos e habilidades (explicar como resolveu um problema, tirar conclusões sobre dados da realidade, fundamentar uma opinião, seguir regras para desempenhar uma tarefa etc.); Estimular os alunos a expor e defender pontos de vista, conclusões sobre uma observação ou experimento e a confrontá-los com outras opiniões; Formular perguntas ou propor tarefas que requeiram a exercitação do pensamento e soluções criativas; Criar situações didáticas (discussões, exercícios, provas, conversação dirigida etc.) em que os alunos possam aplicar conteúdos a situações novas ou a problemas do meio social; Desenvolver formas didáticas variadas de aplicação do método de solução de problemas. Pode-se dizer que dispensa comentários o fato de que o professor PRECISA fazer seus alunos pensarem e não apenas memorizarem palavras, fórmulas ou expressões. A compreensão deve vir sempre em primeiro lugar, por isso é tão importante, quanto essencial o professor se basear nos conhecimentos prévios de seus alunos, a fim de estabelecer um processo mais coerente com a realidade destes. Há inúmeras classificações de métodos de ensino, conforme os critérios de cada autor. Adotaremos avisão de Libâneo (1990), pois é a que mais está de acordo com o que foi dito até aqui. Em função disso, podemos classificar os métodos de ensino segundo os seus aspectos externos – método de exposição pelo professor, método de trabalho relativamente independente do aluno, método de elaboração conjunta (ou de conversação) e método de trabalho em grupos – e seus aspectos internos – passos ou funções didáticas e procedimentos lógicos e psicológicos de assimilação da matéria. No Método de exposição pelo professor ou aula expositiva, os conhecimentos, habilidades e tarefas são apresentadas, explicadas ou demonstradas pelo professor, tendo os alunos a necessidade da atitude receptiva. O professor expõe por meio da lógica a matéria, buscando provocar a reflexão nos alunos e tentando combinar outros procedimentos, como o Didática Geral 77 trabalho independente, a conversação e o trabalho em grupo. Deve ser utilizado apenas quando não é possível prover a relação direta do aluno com o conhecimento. No Método de trabalho independente os alunos fazem tarefas, dirigidas e orientadas pelo professor, para que possam resolvê-las de modo relativamente independente e criador. Pressupõe determinados conhecimentos, compreensão de tarefas e do seu objetivo, o domínio do método de solução, de modo que os alunos possam aplicar conhecimentos e habilidades sem a orientação direta do professor. Pode ser desenvolvido em três etapas: na tarefa preparatória os alunos devem escrever o que pensam sobre o assunto tratado, colhendo dados e observações, respondendo um breve questionário ou teste, fazendo uma redação sobre um tema; dessa forma verifica-se os conhecimentos prévios dos sujeitos. A segunda são tarefas de assimilação do conteúdo que consiste em exercícios de aprofundamento e aplicação dos temas tratados, estudo dirigido, solução de problemas, pesquisa com base em um problema novo, leitura do texto do livro, desenho de mapas depois de uma aula de Geografia etc. A terceira são as tarefas de elaboração pessoal que são exercícios nos quais os alunos produzem respostas surgidas do seu próprio pensamento. O modo prático de solicitar esse tipo de tarefa é fazer uma pergunta ao aluno que o leve a pensar: o que aconteceria se..., o que devemos fazer quando..., o aluno também pode relatar o que viu ou observou (uma planta, um animal, uma experiência, um estudo do meio, etc.). Libâneo (1990) sugere o cumprimento de alguns pré-requisitos para que o trabalho independente cumpra sua função didática. O professor precisa: Dar tarefas claras, compreensíveis e adequadas, à altura dos conhecimentos e da capacidade de raciocínio dos alunos; Assegurar condições de trabalho (silêncio, local, material disponível etc.); Acompanhar de perto (às vezes individualmente) o trabalho; Aproveitar o resultado das tarefas para toda a classe. Aos alunos, Libâneo (1990) diz que eles devem: Saber precisamente o que fazer e como trabalhar; Dominar as técnicas do trabalho (como fazer a leitura de um texto, como utilizar o dicionário ou a enciclopédia, como utilizar o atlas, como fazer uma observação ou um experimento de um fenômeno, como fazer um esquema ou um resumo, como destacar idéias principais e idéias secundárias etc.) Didática Geral 78 Desenvolver atitudes de ajuda mútua não apenas para assegurar o clima de trabalho na classe, mas também para pedir ou receber auxílio dos colegas. Outro método interessante é o da Elaboração Conjunta que é uma forma de interação ativa entre o professor e os alunos visando à obtenção de novos conhecimentos, habilidades, atitudes e convicções, bem como a fixação e consolidação de conhecimentos e convicções já adquiridos. A forma mais típica desse método é a conversação didática ou aula dialogada. Mas a conversação é algo mais, é pautado numa conversa aberta com a contribuição do professor e dos alunos, com a pergunta tendo sido preparada cuidadosamente para que seja compreendida pelo aluno, iniciada com um pronome interrogativo correto (o quê, quando, quanto, por quê etc.) e deve estimular uma resposta pensada e não simplesmente sim ou não. Por exemplo: Como podemos distinguir as aves dos mamíferos? Por que uma planta germina e cresce? São perguntas que vão além de uma resposta simples. O Método de trabalho em grupo consiste basicamente em distribuir temas de estudo iguais ou diferentes a grupos fixos ou variáveis, compostos de 3 a 5 alunos. São sempre de caráter transitórios, ou seja, empregados eventualmente, conjugados com outros métodos de exposição e de trabalho independente. A principal finalidade é obter cooperação dos alunos entre si na realização da tarefa, por isso exige-se que seja precedida de uma exposição, conversação introdutória e instruções claras. SAIBA MAIS Faça uma pesquisa diferenciando outras formas de trabalho em grupo, como Debate, Philips 66, Tempestade Mental, Grupo de Verbalização-Grupo de Observação (GV-GO) e Seminário. Um método interessante é denominado como Atividades Especiais que são aquelas que complementam os métodos de ensino e que correspondem para a assimilação ativa dos conteúdos, como por exemplo: estudo do meio, o jornal escolar, a assembléia de alunos, o museu escolar, o teatro, a biblioteca escolar etc. Para que se escolha o melhor método, sempre leve em conta: sua experiência na matéria a ser ensinada, características dos alunos, o tempo disponível para o trabalho pedagógico, condições físicas e a estrutura do assunto e tipo de aprendizagem envolvida. Não há mágicas, a escolha de uma forma de trabalhar exige muita reflexão, comprometimento e visão. É necessário que o professor seja sensível a todos os fatores que interferem na aprendizagem dos alunos e visualize seu trabalho antes mesmo que ele seja executado. Sem isso, corre-se o risco de Didática Geral 79 um ativismo mal planejado que pode ser enfadonho tanto para os alunos quanto para o professor. Para uma visão mais categorizada, dentro do que falamos e outros que ainda não falamos, vamos a descrição de alguns tipos conhecidos de método e técnica: Tradicionais – exigem um comportamento passivo do aluno e envolvem: Aulas expositivas - técnica mais tradicional de ensino, como a cópia, o ditado e a leitura, ainda é muito útil e necessária. Hoje, no entanto, só é viável quando o professor assume a posição de diálogo. A posição dogmática (mensagem não pode ser contestada) não é mais aceita; Perguntas e respostas - enriquece a aula expositiva. O professor dirige perguntas aos alunos sobre o que estudaram ou sobre a sua experiência. O objetivo não é julgar ou atribuir notas, mas estimular a participação. Os alunos também podem perguntar e o professor responder, com uma variação onde quem não sabe interroga quem sabe. Torna a aula expositiva menos individualizada; Novos ou Ativos – dá grande destaque à vida social do aluno como fator fundamental para o seu desenvolvimento intelectual e moral e envolvem os seguintes métodos e técnicas: Montessori – centrado no aluno, baseia-se nos princípios da liberdade, atividade, vitalidade e individualidade, que se resumem na auto- educação. Em um ambiente apropriado, as necessidades interiores dos alunos de cada grau de desenvolvimento o impulsionam a aprender. O professor deve ser substituído pelo material didático, que corrige-se a si mesmo e permite que o aluno eduque-se a si mesmo, o que deve ser recompensado com um “parabéns” ou “ muito bem”; Centros de interesse – leva em contaa evolução natural dos interesses do aluno. Inicialmente, uma criança só se interessa por si mesma, depois por sua família e sua casa, e finalmente progride para círculos de interesse cada vez mais amplos, até atingir os problemas da As técnicas mais utilizadas são as tradicionais, basicamente a aula expositiva, eventualmente enriquecida com perguntas e respostas, mas há outras técnicas que podem ser utilizadas. Didática Geral 80 humanidade. Procura fazer com que o aluno se interesse agora por aquilo que ele vai necessitar mais tarde; Unidades didáticas – aqui, o ensino é desenvolvido através de unidades amplas, significativas e coesas, superando as limitações do ensino através de informações isoladas e estanques (lições, pontos...). Tem como objetivo primordial a integração das diferentes matérias. Uma variante sua é o método das unidades de experiência; Trabalho em grupo – oferece ao aluno a oportunidade de trocar idéias e opiniões, desenvolvendo a prática da convivência social. A formação dos grupos pode ser espontânea ou dirigida. O método visa completar e enriquecer conhecimentos, enriquecer experiências, atender a diferenças individuais, treinar a capacidade de liderança e aceitação, e desenvolver o senso crítico, a criatividade e o espírito de cooperação; Solução de problemas – considera que ensinar é apresentar problemas e aprender, resolvê-los. O problema deve estimular o pensamento reflexivo na busca de uma solução satisfatória, uma vez que o hábito resolve situações rotineiras, já o pensamento reflexivo, as situações novas; Método de projetos – se propõe a transformar as atitudes dos alunos, convertendo-os em seres ativos que concebem, preparam e executam o próprio trabalho. A tarefa do professor é dirigi-los, sugerir-lhes idéias úteis e auxiliá-los quando necessário. Assemelha-se ao método de solução de problemas, mas é mais amplo, pois aquele possui um caráter intelectual e este envolve atividades manuais, estéticas, sociais e intelectuais. Todo projeto é um problema, mas nem todo problema é um projeto; Psicogenético – criado por Jean Piaget, biólogo e filósofo suíço, prega que o pensamento é a base em que se assenta a aprendizagem, a maneira da inteligência manifestar-se. Esta, por sua vez, é um fenômeno biológico sujeito à maturação do organismo, a novas estruturas mentais, e não a aumento de conhecimentos. O desenvolvimento do pensamento da criança se realiza através de etapas: sensório-motor, objetivo- simbólico, operatório concreto e operatório formal; Estudo dirigido – se fundamenta no princípio de que o professor não ensina, ajuda o aluno a aprender. Parte sempre da utilização de um texto, solicitando tarefas como sínteses, citação dos principais fatos, Didática Geral 81 divisão dos textos em partes principais, extração das idéias principais, resumos etc.; Fichas didáticas – consiste em colocar à disposição do aluno, na sala de aula, fichas necessárias ao estudo de um determinado conteúdo. Inclui fichas de noções (conceitos a serem ensinados), de exercício (questões sobre o conteúdo apresentado) e de correção (respostas correspondentes às questões apresentadas); Instrução programada – aqui, o comportamento desejado é fixado pela recompensa. Enfatiza-se a importância de uma definição precisa do que o aluno deverá aprender e dos materiais a serem utilizados, para que o aluno aprenda exatamente o que se quer que ele aprenda. A matéria é desdobrada em pequenas informações e o seu acerto ou erro é conhecido imediatamente; Você deve estar se perguntando: como decidir que método ou técnica utilizar? A resposta é: depende dos seguintes fatores: Dos objetivos educacionais; Da experiência didática do professor; Do tipo de aluno; Das condições físicas da sala de aula; Do tempo disponível; Da estrutura do assunto e tipo de aprendizagem a ser desenvolvido. SAIBA MAIS Conhecer, selecionar e planejar é uma tarefa constante do professor, mas exige bastante conhecimento do que existe disponível nos dias de hoje. Procure aprofundar o conhecimento dos métodos citados, de maneira a conhecê-los mais profundamente. Você perceberá que eles ficarão cada vez mais acessíveis e práticos no seu cotidiano. Mas, para isso, leia mais a esse respeito. RESUMO As etapas ou componentes do planejamento são: Objetivos, Conteúdos e Procedimentos, recursos e avaliação. Por serem educacionais, os objetivos são hábitos, conhecimentos, comportamentos que devem ser adquiridos dentro de uma cultura, dando possibilidades de adaptação e condições de pensar, refletir e interferir nesta cultura. Há dois tipos de objetivos a serem determinados: os objetivos gerais – Didática Geral 82 de longo prazo – e os objetivos específicos – de curto prazo. Os objetivos gerais são aqueles previstos para determinado ciclo ou grau de ensino, como por exemplo, ao final do ensino fundamental, ou do ensino médio, ou até mesmo, neste caso em menos tempo, ao final de um ano de trabalho, como por exemplo, ao final da 5ª série. Os objetivos específicos são os definidos para uma disciplina, uma unidade de ensino ou apenas uma aula. São elaborados como constituintes ou partes do objetivo geral e, devem proporcionar gradativamente e indiretamente o alcance deste. Os conteúdos são tudo aquilo que se ensina para os alunos. Quanto à divisão em elementos dos conteúdos de ensino, temos várias classificações. Entretanto, duas se destacam dentre as utilizadas pelos teóricos da Didática e da Pedagogia. Uma delas é a de Libâneo (1990), que divide entre os conhecimentos sistematizados; as habilidades e os hábitos; as atitudes e convicções. A segunda é dos PCNs (Brasil, 1997) cuja qual, na escolha dos conteúdos a serem trabalhados, é preciso considerá-los numa perspectiva mais ampla, que leve em conta o papel, não somente dos conteúdos de natureza conceitual — que têm sido tradicionalmente predominantes —, mas também dos de natureza procedimental e atitudinal. A estratégia é uma descrição dos meios disponíveis pelo professor para atingir os objetivos específicos. No caso do método, é um caminho a seguir para se alcançar um fim, o que para o professor acaba por ser um roteiro geral para a atividade; é um caminho que leva até certo ponto, não sendo o veículo de chegada, pois este é a técnica. A técnica é uma forma de operacionalizar o método, como a escolha de diferentes formas de se aplicar o ensino, por exemplo, dinâmica de grupo, dramatização, etc. Já os procedimentos é a maneira de efetuar algo, consiste na descrição das atividades desenvolvidas pelo professor e as atividades desenvolvidas pelos alunos. Há inúmeras classificações de métodos de ensino, conforme os critérios de cada autor. Existem: o método de exposição pelo professor ou aula expositiva, método de trabalho independente, a elaboração conjunta, o método de trabalho em grupo, as atividades especiais, perguntas e respostas, e alguns consagrados métodos, como Montessori, Centros de interesse, Unidades didáticas, Solução de problemas, Método de projetos, Psicogenético – criado por Jean Piaget, Estudo dirigido, Fichas didáticas, Instrução programada, etc. Para a seleção dos métodos mais interessantes, cabe ao professor mais aprofundamento teórico naqueles disponíveis atualmente, assim como as características de tudo que envolve o contexto educacional ocupado. Didática Geral 83 Exercícios 1) Quais os principais detalhes da forma de escrever os objetivos,tanto gerais quanto específicos? (a) Escolher características, saber escrevê-los e ter uma boa organização. (b) Lembrar que estamos falando das capacidades que terão ao final do processo; utilizar sempre um verbo no infinitivo; lembrar que deve se referir sempre aos comportamentos dos alunos, nunca do professor. (c) Não se explica como se escreve os objetivos, como forma de não desestimular a criatividade do professor. (d) Escrever claramente e encaixar com o plano dos outros professores. (e) Selecionar habilidades, capacidades e o que mais o professor for desenvolver. 2) O que são os conteúdos, segundo a definição de Libâneo? (a) São o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos de sua prática de vida. (b) São as principais formas de atividade mental dadas pelo professor. (c) São todas os objetivos educacionais e seu método de ensino. (d) São apenas as matérias dadas nos livros e nada mais. (e) São as formas que se escolhe para ensinar algo pelo professor. 3) Qual a diferença entre Método e Procedimentos? (a) Método é a maneira de efetuar algo, procedimentos é um caminho a seguir para se alcançar um fim. (b) Método é uma descrição dos meios disponíveis pelo professor para atingir os objetivos específicos, procedimentos é o que para o professor acaba por ser um roteiro geral para a atividade. (c) Método é uma forma de operacionalizar o método, procedimentos é um caminho que leva até certo ponto, não sendo o veículo de chegada, pois este é a técnica. (d) Método é um caminho a seguir para se alcançar um fim, procedimentos é a maneira de efetuar algo. (e) Método é um jeito de trabalhar, procedimentos é a forma de organizar todo o percurso de planejamento. Didática Geral 84 Resolução dos Exercícios 1) I - Como parte da intenção da modificação das capacidades dos alunos, deve-se deixar guiar pela seguinte frase: Ao final da aula, os alunos serão capazes de...; II - Decorrente da regra anterior podemos perceber que o que encaixa melhor na frase acima é um verbo no infinitivo, como por exemplo: falar, analisar, explicar, desenvolver, aprender, etc. III - Os objetivos sempre se referem aos alunos, conforme a frase diz, ‘que eles sejam capazes’. Resposta correta: (b) Lembrar que estamos falando das capacidades que terão ao final do processo; utilizar sempre um verbo no infinitivo; lembrar que deve se referir sempre aos comportamentos dos alunos, nunca do professor. 2) “Conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos de sua prática de vida. Englobam, portanto: conceitos, idéias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras; habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudo, de trabalho e de convivência social; valores, convicções, atitudes. São expressos nos programas oficiais, nos livros didáticos, nos planos de ensino e de aula, nas aulas, nas atitudes e convicções do professor, nos exercícios, nos métodos e formas de organização do ensino.” Libâneo (1990) Resposta correta: (a) São o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos de sua prática de vida. 3) Segundo Piletti (2010), método é um caminho a seguir para se alcançar um fim, o que para o professor acaba por ser um roteiro geral para a atividade; é um caminho que leva até certo ponto, não sendo o veículo de chegada, pois este é a técnica. Já os procedimentos é a maneira de efetuar algo, consiste na descrição das atividades desenvolvidas pelo professor e as atividades desenvolvidas pelos alunos. Resposta correta: Didática Geral 85 (d) Método é um caminho a seguir para se alcançar um fim, procedimentos é a maneira de efetuar algo. 6. OS RECURSOS E A AVALIAÇÃO DO ENSINO Completando os componentes do processo pedagógico, somam-se aos objetivos, conteúdos e métodos já devidamente explicados no tópico anterior, os recursos e a avaliação de todo o percurso. Para que se execute um bom ensino, se faz necessário, além de estabelecer metas a serem alcançadas (objetivos), escolher o que será ensinado (conteúdos) e como será ensinado, na montagem do processo de ensino e na escolha do método, os professores devem recorrer aos recursos de ensino que, se bem utilizados, podem auxiliar na motivação dos alunos, ajudar a compreender o que está sendo explicado, ajudar a fixar um conteúdo ou até se aproximar da realidade fora das escolas. Além disso, seria inconcebível um professor não se preocupar se seu trabalho está dando certo, se o que ele estabeleceu como o que deve ser aprendido foi realmente aprendido, se o aproveitamento da classe foi satisfatório, qual processo teve maior êxito e o que talvez precise ser melhorado. Estamos falando da avaliação. Vejamos como funciona o emprego dos recursos e da avaliação nesse processo educativo. 6.1. OS DIFERENTES RECURSOS Piletti (2010) define os recursos de ensino como componentes do ambiente da aprendizagem que dão origem à estimulação para o aluno. Esses componentes podem ser o professor, os livros, os mapas, os objetos físicos, as fotografias, os CDs, as gravuras, os filmes, os recursos da comunidade, os recursos naturais etc. Vários autores definem diferentemente uma classificação de recursos, pois não há consenso. Vamos a uma classificação tradicional adotada por Piletti (2010): Recursos visuais: projeções, cartazes, gravuras, etc. Recursos auditivos: rádio, gravações, etc. Recursos audiovisuais: cinema, televisão, etc. Podemos incluir também duas outras formas de recursos. Os recursos humanos, incluindo professor, alunos, pessoal escolar, comunidade, etc. e os recursos materiais que podem ser: do ambiente, como os naturais (água, folha, pedra, etc.) e escolar (quadro, giz, cartazes, etc.); e da comunidade (bibliotecas, indústrias, lojas, repartições públicas, etc.). Didática Geral 86 Podemos citar inúmeros benefícios da utilização de recursos para o ensino. Vamos a alguns: para motivar e despertar o interesse dos alunos, para favorecer o desenvolvimento da capacidade de observação, para aproximar os alunos da realidade, para visualizar ou concretizar os conteúdos da aprendizagem, para oferecer mais informações e dados, para permitir a fixação da aprendizagem, para ilustrar noções mais abstratas, para desenvolver a experimentação concreta, etc. Para que realmente sejam bem utilizados e cumpram sua função educativa, são necessárias algumas observações importantes. Vamos a elas: I. Quando utilizamos um recurso de ensino devemos ter em vista os objetivos que deverão ser alcançados e não porque a utilização daquele recurso esta na moda. II. Da mesma forma, não se deve utilizar algo que não se conhece, pois não saberíamos aproveitá-lo adequadamente, assim como ganhar a desconfiança por parte dos alunos. III. Para que seja eficaz a utilização de recursos existe a dependência da interação entre eles e os alunos. Por esta razão deve-se estimular os comportamentos que aumentem a receptividade deles, como a atenção, a percepção,o interesse, a participação ativa, etc. IV. É imprescindível a atenção sobre as características dos próprios recursos com relação às funções que possa exercer no processo ensino-aprendizagem. A função de um cartaz, por exemplo, é diferente da do álbum seriado. V. Ao escolher os recursos, leve em conta a natureza da matéria a ser ensinada. Algumas matérias exigem maior utilização de recursos audiovisuais do que outras. Português, por exemplo, exige mais recursos audiovisuais do que a Matemática. VI. Prestar atenção às condições ambientais pode facilitar, uma vez que a inexistência de uma tomada de energia elétrica exclui inúmeras opções de recursos, como retroprojetores, computador, projetor de slides, filmes, etc. VII. A questão do tempo disponível é outro importante elemento a ser considerado. Alguns tipos de recursos exigem mais tempo, e nem sempre se dispõe de todo o tempo necessário, o que exige talvez uma mudança para outros recursos que não necessitam de tanto tempo para serem aproveitados. Os recursos audiovisuais, cujos quais estimulam simultaneamente a visão e a audição podem colaborar para aproximar a aprendizagem de situações reais da vida. Principalmente hoje, quando as crianças já nascem com uma imensidão de informações vindas da TV, computadores, celulares e rádios, graças ao desenvolvimento tecnológico. Didática Geral 87 Entretanto, ainda que possamos contar com tantos recursos, não podemos descuidar dos perigos que estes possam nos oferecer. Vejamos alguns importantes recursos e que tipo de riscos eles podem trazer junto deles. Vamos falar primeiramente da internet, pois é um dos recursos mais utilizados. Depois falaremos sobre a TV e os Filmes e a utilização de músicas. A internet, por exemplo, passa a ser uma porta de entrada para tudo que a sociedade pode nos oferecer. Existem muitas coisas boas, como toda a gama de informações que ela nos oferta, mas junto a isso existem hackers8 que tentam invadir, via rede, o computador de outras pessoas em busca de informações pessoais para levar vantagens. Também existe, como outro fator agravante, muita pornografia circulando pelos sites, existem pessoas mal intencionadas nas redes sociais (Orkut, Facebook, etc.). Muitos professores ainda pedem trabalhos para pesquisa na internet e não se atentam ao fato de que muitos alunos apenas imprimem as páginas pesquisadas sem nem ao menos ter lido sobre o assunto, não aprendendo absolutamente nada. É importante que o professor tenha refletido sobre o que pedir a seus alunos no que se refere ao uso da internet. Sugerimos que seja pedido algo que reflita a respeito de algum assunto, com base em algum texto encontrado na internet, ou até mesmo livros, artigos científicos, etc. Assim, o aluno terá de ler para que, com suas próprias palavras possam discorrer sobre o assunto. Somente dessa maneira eles poderão aprender algo com esse tipo de recurso. Ao pedir trabalho de pesquisas, utilizando a internet, faça de uma maneira que exija uma reflexão, evitando cópias impressas pelo aluno, sem ao menos ler o que está entregando. Sobre a TV e os Filmes, é uma fonte riquíssima para aprender mais sobre o mundo, além de ser, para alguns, muito mais motivante do que a leitura de livros. Um aluno pode aprender sobre um determinado assunto assistindo na TV, como no caso de documentários, programas educativos, etc. No entanto, o professor deve preparar o aluno para saber como se envolver com o 8 Originalmente, e para certos programadores, hackers (singular: hacker) são indivíduos que elaboram e modificam software e hardware de computadores, seja desenvolvendo funcionalidades novas, seja adaptando as antigas. Originário do inglês, o termo hacker é utilizado no português. Os hackers utilizam todo o seu conhecimento para melhorar softwares de forma legal. Eles geralmente são de classe média ou alta, com idade de 12 a 28 anos. Além de a maioria dos hackers serem usuários avançados de Software Livre como os BSD Unix (Berkeley Software Distribution) e o GNU/Linux. A verdadeira expressão para invasores de computadores é denominada Cracker e o termo designa programadores maliciosos e ciberpiratas que agem com o intuito de violar ilegal ou imoralmente sistemas cibernéticos. Figura 1 - A internet é um dos recursos mais utilizados nos dias de hoje. Entretanto, merece muita atenção por tudo que é possível de se fazer com esse recurso. Fonte: Clip-art Microsoft Word 2007. Didática Geral 88 recurso, como por exemplo, dar ao aluno uma aula introdutória antes dele tentar se envolver com o assunto apenas assistindo ao programa televisivo. No caso dos filmes, muitos professores pedem para que um aluno assista um determinado filme para que possa entender algum conceito, uma idéia, uma forma de preconceito, etc. Entretanto, caso o professor não discuta sobre os assuntos antes e depois de os alunos assistirem o filme, o assunto pode não ser assimilado, ou mal assimilado, até mesmo ser interpretado de maneira completamente equivocada. Por exemplo, digamos que o professor queira que seus alunos compreendam mais sobre a questão do preconceito racial e peça para que seus alunos assistam ao filme ‘Mississipi em Chamas’9 de 1988. Os alunos podem, de repente, interpretarem que é normal o tratamento dado aos negros naquele filme, o que é exatamente o oposto que o deveriam ter interpretado. O mesmo acontece com filmes de violência e uso de drogas, que devem ter um tratamento bem minucioso para que os alunos compreendam que a violência deve ser sempre repudiada e que o uso de drogas é extremamente nocivo e degradante para a saúde das pessoas, além de incitar mais violência e a marginalidade. Portanto, como podemos perceber, os recursos, mesmo sendo extremamente interessantes e avançados, devem ser utilizados com toda cautela possível, para que possam servir a favor da aprendizagem que o professor quer promover em seus alunos e não que seja uma coisa contrária ao que foi planejado. Outra importante recomendação que recai sobre a questão dos filmes é sobre o aspecto erótico. Caso os filmes tenham alguma cena erótica, e o professor deve tê-lo assistido antes, precisa verificar se é realmente digno de ser assistido, ou se trará problemas com os pais dos alunos, uma vez que a formação moral e religiosa de alguns pais proíbe a menor manifestação de qualquer coisa que se refira à sexualidade. Portanto, o bom senso deve ser a arma do professor para que não tenha problemas ou repercussões negativas de seu trabalho. O mesmo acontece no caso do recurso da música, que tem sido muito utilizada pelos professores. Muitos alunos chegam à escola ouvindo música no celular e outros aparelhos eletrônicos. Entretanto, apesar do gosto musical deles, o professor deve ter muita cautela com o aproveitamento do estilo musical predileto da turma, pois se fizer menções a conteúdos eróticos, vão recair nos mesmos problemas mencionados sobre os filmes acima. Já tive muitos casos relatados sobre este tipo de problema, contando sobre as coreografias ensinadas e das músicas utilizadas, cujos pais alegavam que os professores estavam induzindo seus filhos ao gosto pelo erotismo e pela 9 Mississipi, 1964. Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (Willem Dafoe), dois agentes do FBI, investigam a morte de três militantes dos direitos civis em uma pequena cidade onde a segregação divide a população em brancos e pretos e a violência contra os negros é uma tônica constante. Didática Geral 89 manifestaçãode sua sexualidade. Para evitar constrangimentos ou desgastes, vale a pena se atentar a isso. Não podemos, entretanto, generalizar a utilização da música como algo negativo. Ao contrário, pois ela tem sido utilizada, inclusive, para se contar histórias, interiorizar conteúdos complexos, etc. modificando as letras originais e readaptando com os conteúdos a serem ensinados. Na Educação Infantil ela é muito utilizada e, sempre muito bem aceita pelos alunos, por terem ritmos motivantes e contagiantes. Geralmente, a utilização de aparelhos de som vem crescendo, trazendo um pouco mais do que se utiliza como entretenimento para a educação nas escolas. Isso é muito bom, pois devemos trazer para a escola todos os recursos que podemos encontrar na vida social a fora. SAIBA MAIS Procure pesquisar mais sobre a utilização de recursos e suas vantagens. Procure notar como é grande o número de possibilidades e faça visualizações e esquematizações de como poderiam ser suas aulas com a utilização destes. Assista ao filme Escola da Vida (2005) e tente observar quantos e quais recursos o professor utiliza para promover a aprendizagem de seus alunos. 6.2. A QUESTÃO DA AVALIAÇÃO “A avaliação é uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente, que deve acompanhar passo a passo o processo de ensino e aprendizagem. Através dela, os resultados que vão sendo obtidos no decorrer do trabalho conjunto do professor e dos alunos são comparados com os objetivos propostos, a fim de constatar progressos, dificuldades, e reorientar o trabalho para as correções necessárias. A avaliação é uma reflexão sobre o nível de qualidade do trabalho escolar tanto do professor como dos alunos. Os dados coletados no decurso do processo de ensino, quantitativos ou qualitativos, são interpretados em relação a um padrão de desempenho e expressos em juízos de valor (muito bom, bom, satisfatório etc.) acerca do aproveitamento escolar.” Libâneo (1990) A avaliação é muito mais complexa e interessante do que uma simples aplicação de provas e a atribuição de notas por parte dos professores. Ao contrário da forma punitiva que ela vem sendo utilizada, penalizando os alunos pelo fracasso do processo ensino-aprendizagem, ela deve proporcionar uma visão geral do trabalho em conjunto, sendo professor e alunos responsáveis por conseguirem alcançar os resultados almejados para aquele trabalho educativo. Didática Geral 90 Não cabe apenas ao professor querer ensinar, se os alunos não quiserem aprender. Da mesma forma, não basta os alunos quererem aprender, se o professor não desenvolver um ensino eficiente e eficaz. Ambos são responsáveis pelo trabalho educativo, tendo de serem cúmplices do processo que depende de ambos para funcionar. Muitos professores colocam a avaliação como uma espécie de momento para devolverem aos alunos o resultado do desinteresse que eles demonstraram ao longo do percurso, fazendo com que uma prova difícil e as baixas notas sejam uma forma de lição, para que eles mudem seu comportamento e comecem a dar mais valor ao processo de ensino. Entretanto, caso este professor preste mais atenção a este tipo de atitude, ele pode perceber que isso, além de não resolver o problema da falta de comprometimento dos alunos, irá fazer com que o processo todo demonstre ter falhado, pois nem o professor conseguiu ensinar e, tampouco os alunos aprenderam. Seria um enorme e precioso ‘tempo desperdiçado’. Se há algum problema no processo de ensino e aprendizagem, isso não deveria de nenhuma maneira ter reflexos na avaliação, como se fosse a hora da vingança do professor, pois criará uma relação problemática entre o professor e os alunos e, pior do que isso, não resultará em aprendizagem alguma, apenas uma intriga desnecessária. Os professores e os alunos precisam estar muito conscientes de que devem ir para a mesma direção. O professor se empenhando de todas as formas para conseguir ensinar e aos alunos compete todo o empenho possível para aprender. Ambos poderão ganhar com esse processo, principalmente em satisfação do dever cumprido, por parte do professor e dos alunos. A avaliação tem passado, ao longo dos anos, por sucessivas transformações. Mesmo assim, o processo avaliativo continua tendo sua complexidade no contexto educacional. O processo de ensino e aprendizagem requer momentos de reflexão, parada e retomada das atividades. Essas “paradas” possibilitam um espaço para que os alunos, individualmente ou em grupos, possam utilizar o conjunto de conhecimentos apreendidos para criar, questionar, sugerir, procurar novas formas de aplicar o saber, enfim, mostrar as transformações que o novo saber lhes proporcionou. Durante todo o processo, a avaliação deve estar presente, formulando juízos sobre os diferentes elementos que configuram o caminho da atividade pedagógica. Assim, devem ser avaliados não só os alunos, mas o professor, o cotidiano desenvolvido, os recursos utilizados, os objetivos e a metodologia, bem como outros elementos. Luckesi (2000) define avaliação como: “o ato crítico que nos subsidia na verificação de como estamos construindo o nosso projeto educacional. A avaliação da aprendizagem é como um ato amoroso, no sentido de que a avaliação, por si, é um ato acolhedor, integrativo, inclusivo. É necessário distinguir avaliação de julgamento. O julgamento é um ato que distingue o certo Didática Geral 91 do errado, incluindo o primeiro e excluindo o segundo. A avaliação tem por base acolher uma situação, para, (e só então), ajuizar a sua qualidade, tendo em vista dar-lhe suporte de mudança, se necessário. A avaliação, como ato diagnóstico, tem por objetivo a inclusão e não a exclusão; a inclusão e não a seleção (que obrigatoriamente conduz à exclusão). O diagnóstico tem por objetivo aquilatar coisas, atos, situações, pessoas, tendo em vista tomar decisões no sentido de criar condições para a obtenção de uma maior satisfatoriedade daquilo que se esteja buscando ou construindo.” Para Piletti (2010) a avaliação “é um processo contínuo de pesquisas que visa interpretar os conhecimentos, habilidades e atitudes dos alunos, tendo em vista mudanças esperadas no comportamento, propostas nos objetivos, a fim de que haja condições de decidir sobre alternativas do planejamento do trabalho do professor e da escola como um todo.” Já para Haidt (2002) a avaliação “é um processo de coleta e análise de dados, tendo em vista verificar se os objetivos propostos foram atingidos. No âmbito escolar, a avaliação se realiza em vários níveis: do processo ensino- aprendizagem, do currículo, do funcionamento da escola como um todo.” É comum entender a avaliação como o resultado de testes, provas, trabalhos ou pesquisas que são dadas ao aluno e aos quais se atribui uma nota ou conceito e neste caso, esta aprova ou reprova. Ao elaborar os instrumentos de avaliação, o professor necessita de uma reflexão sobre os objetivos propostos em seu planejamento, para garantir de fato a verificação da aprendizagem. Piletti (2010) estabelece princípios básicos de avaliação que o professor precisa ter claros ao aplicar um instrumento de avaliação, como: • Estabelecer com clareza o que vai ser avaliado, avaliar o aproveitamento, a inteligência, o desenvolvimento sócio-emocional, as competências e habilidades necessárias para a assimilação dos conteúdos. • Selecionar instrumentos adequados para avaliar e o que se pretende avaliar. • Utilizar, na avaliação, uma variedade de instrumentos para se ter um quadro mais completo do desenvolvimento do aluno (quantitativo e qualitativo).• Ter consciência de possibilidades e limitações dos instrumentos de avaliação. • A avaliação é um meio para alcançar fins e não um fim em si mesma. O professor, ao elaborar um instrumento de avaliação deve ter consciência do que de fato quer avaliar, quais os objetivos que quer atingir com a avaliação. Haydt (2002) e Piletti (2010) concordam quando se referem à divisão entre testar, medir e avaliar. Pelo grau de abrangência, do menor para o maior, o conceito de testar é o primeiro e menos abrangente. Significa a verificação de algo por meio de situações previamente definidas, os testes. Após a aplicação dos testes, de uma maneira mais ampla, é possível medir, que Didática Geral 92 significa determinar a extensão, as dimensões, a quantidade e o grau ou a capacidade de algo. Geralmente expresso por meio de números. Ainda mais abrangente, temos o conceito de avaliar, que significa a interpretação ou a apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores. A avaliação, portanto, serve para acompanhar todo esse complexo processo, visando interpretar todas as informações que auxiliem a compreender se o trabalho está na direção certa, se os alunos indicam algo que possa ser interessante de ser aproveitado ou até uma mudança de direção das atividades pedagógicas, etc. Para avaliar, por todo o processo de ensino o professor faz a verificação coletando dados sobre o aproveitamento dos alunos, por meio de provas, exercícios, tarefas ou meios auxiliares, como observação de desempenho, entrevistas etc. Após a verificação o professor fará uma qualificação para comprovar resultados alcançados em relação aos objetivos traçados previamente e, conforme o caso atribuirá notas ou conceitos. Por último, compete uma apreciação qualitativa dos resultados, referindo-os a padrões do desempenho esperado. Libâneo (1990) diz que a avaliação escolar cumpre ao menos três funções: pedagógico-didática, de diagnóstico e de controle. A função pedagógico-didática diz respeito ao cumprimento dos objetivos gerais e específicos da educação escolar, comprovando se houve o atendimento das finalidades sociais do ensino de preparar os alunos para o enfrentamento das exigências da sociedade, da inserção no processo global de transformação social e da aquisição dos meios culturais de participação ativa nas diversas esferas da vida social. A função de diagnóstico tem a intenção de identificar o êxito nas conquistas e as dificuldades dos alunos, assim como a atuação do professor que determinam modificações do processo de ensino para melhor cumprir as exigências dos objetivos. Possibilita a avaliação do cumprimento da função pedagógico-didática e dá sentido pedagógico a função controle, sendo em três etapas: inicial (pelas condições prévias dos alunos), de acompanhamento durante o processo de transmissão e assimilação do conhecimento e final de uma unidade didática, do bimestre ou do ano letivo (início, durante e final). A função de controle refere-se aos meios e à freqüência das verificações e de qualificação dos resultados escolares, possibilitando o diagnóstico de situações didáticas. Ocorre por meio de um controle sistemático e contínuo do processo de interação professor-alunos no decorrer das aulas. Muito semelhante a essa classificação é a de Piletti (2010), que coloca a função dignóstica como sondagem inicial, para verificar as características e os conhecimentos prévios dos alunos; a função formativa que acompanha o processo de formação dos alunos, orientando sobre o rendimento, localizando Didática Geral 93 deficiências, etc.; e a função somativa, que é uma função classificatória, para um final de processo. Haydt (2002) coloca alguns pressupostos e princípios da avaliação. Trata-se de considerar a avaliação como processo contínuo e sistemático, como um meio e não um fim e, por isso, não pode ser esporádica ou improvisada, mas constante e planejada, ao longo de todo o processo, para que possa guiar uma reorientação e aperfeiçoamento. Da mesma forma, considera a avaliação como funcional, pois se realiza em função dos objetivos a serem atingidos. Também diz que é orientadora, pois indica avanços e dificuldades do aluno, ajudando-o a progredir na aprendizagem ao ofertar orientações no sentido de atingir objetivos propostos. Ela também é integral, por considerar o aluno como um ser total e não de maneira compartimentada, ou seja, o aluno é um ser não apenas intelectual, mas psicomotor e afetivo- social também. Deve ser olhado pela totalidade, e não apenas em um de seus campos funcionais. Esses princípios levam a adotar uma visão mais interessante da avaliação, pois dá dinamismo, objetividade, orientação e integralidade. Tudo o que na vida social encontramos devemos inserir dentro das escolas, pois os alunos não viverão dentro das escolas, mas passam boa parte do início de suas vidas lá para aprenderem a viver melhor fora dela. A avaliação é a fase final de um processo de coleta, análise e interpretação de dados. Os recursos que são utilizados para isso, denominam- se “instrumentos de avaliação”. A seleção das técnicas e instrumentos de avaliação deve ser realizada durante o processo de planejamento pedagógico e deve considerar os seguintes aspectos: Objetivos direcionados para o ensino-aprendizagem; A natureza do componente curricular; Métodos e procedimentos usados no ensino; Número de alunos; Tempo do professor; A avaliação do processo de ensino e aprendizagem requer que o aluno não só adquira os conhecimentos necessários para viver em sociedade, mas avalie as habilidades e competências exigidas para tal. Nessa perspectiva, a avaliação deve estar a serviço da aprendizagem, em favor do aluno, em favor de uma formação básica que possibilitem competências técnicas, humanas e sociais. Os modelos pedagógicos historicamente retratam o contexto da sociedade. Entretanto, não existe uma metodologia consensual. Uma concepção filosófica da educação, regra geral, não nega a anterior. Ela se adapta e inova a cada momento. O fundamental é que a análise do conteúdo Didática Geral 94 pelo aluno possa passar de uma apropriação apenas reprodutiva para uma apropriação transformadora. Segundo Haidt (2002), para avaliar o aproveitamento dos alunos existem três técnicas básicas e uma grande variedade de instrumentos de avaliação, que podem ser sintetizados do seguinte modo: TÉCNICAS INSTRUMENTOS OBJETIVOS BÁSICOS Observação – é a técnica mais comum, e nela que o professor avalia não apenas a aquisição de conhecimentos, mas também verifica hábitos e habilidades do convívio social; Registro da observação: Fichas; Caderno; Verificar o desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicossocial do educando, em decorrência das experiências vivenciadas. Autoavaliação – é a apreciação feita pelo próprio aluno no processo vivenciado e dos resultados obtidos. Registro da autoavaliação Aplicação de Provas: Argüição; Dissertação; Testes; Prova oral Prova Escrita Dissertativa Objetiva Determinar o aproveitamento cognitivo do aluno, em decorrência da aprendizagem. O ato de avaliar está presente em todos os momentos da vida humana, seja na alfabetização ou na graduação, e se reflete pela unidade imediata do pensamento e da ação. Um bom instrumento didático que os professores dispõe para essa finalidade é a chamada “Escadade Bloom”, citado por Piletti (2010). Didática Geral 95 Avaliação Síntese Análise Aplicação Compreensão Conhecimento Escada de Bloom Tratam-se de degraus a serem alcançados de acordo com a aprendizagem. Cada degrau apresenta as seguintes características fundamentais: Conhecimento – é atingido quando o aluno passa a ter conhecimento de determinado assunto, ou seja, quando o assunto é apresentado a ele pela primeira vez. Neste nível, o máximo que o professor deve cobrar em termos de avaliação é que o aluno responda as questões com as palavras do autor ou do professor, quando for o caso, meramente repetindo-as; Compreensão - é atingido quando o professor trabalha por tempo suficiente para proporcionar entendimento real sobre o assunto. Neste nível, o professor poderá solicitar aos alunos que respondam aos questionamentos com suas próprias palavras; Aplicação – é atingido após o cumprimento das etapas anteriores e se caracteriza pela apresentação de uma situação problema e a requisição aos alunos que apliquem sua compreensão sobre o assunto para dar solução ao problema; Análise – é atingido quando os alunos são preparados suficientemente para desdobrar o assunto em partes e estudar cuidadosamente cada uma delas, de modo a proporcionar o entendimento detalhado; Síntese – é atingido quando o aluno está apto a sintetizar o conhecimento de modo a, após o entendimento de cada uma das partes que compõe o assunto, adquirirem entendimento do todo; Avaliação – último estágio ou degrau, a ser atingido quando o aluno, após passar por todos os demais, estiver apto a avaliar a importância do assunto para sua vida e para a sociedade. Só aqui ele poderá se pronunciar no sentido de dizer se o assunto é ou não importante, em sua opinião. A Escada de Bloom ajuda o professor a planejar sua ação didática e promover uma avaliação mais justa da aprendizagem. Didática Geral 96 RESUMO Os recursos de ensino são como componentes do ambiente da aprendizagem que dão origem à estimulação para o aluno. Esses componentes podem ser o professor, os livros, os mapas, os objetos físicos, as fotografias, os CDs, as gravuras, os filmes, os recursos da comunidade, os recursos naturais etc. Vários autores definem diferentemente uma classificação de recursos, pois não há consenso. A uma classificação adotada por Piletti (2010) inclui: Recursos visuais: projeções, cartazes, gravuras, etc; Recursos auditivos: rádio, gravações, etc.; Recursos audiovisuais: cinema, televisão, etc. É importante que o professor tenha refletido sobre o que pedir a seus alunos no que se refere ao uso da internet. Sugerimos que seja pedido algo que reflita a respeito de algum assunto, com base em algum texto encontrado na internet, ou até mesmo livros, artigos científicos, etc. Sobre a TV e os Filmes, é uma fonte riquíssima para aprender mais sobre o mundo, além de ser, para alguns, muito mais motivante do que a leitura de livros. Entretanto, caso o professor não discuta sobre os assuntos antes e depois de os alunos assistirem o filme, o assunto pode não ser assimilado, ou mal assimilado, até mesmo ser interpretado de maneira completamente equivocada. A avaliação é muito mais complexa e interessante do que uma simples aplicação de provas e a atribuição de notas por parte dos professores. Ao contrário da forma punitiva que ela vem sendo utilizada, penalizando os alunos pelo fracasso do processo ensino-aprendizagem, ela deve proporcionar uma visão geral do trabalho em conjunto, sendo professor e alunos responsáveis por conseguirem alcançar os resultados almejados para aquele trabalho educativo. Haydt (2002) e Piletti (2010) concordam quando se referem à divisão entre testar, medir e avaliar. Pelo grau de abrangência, do menor para o maior, o conceito de testar é o primeiro e menos abrangente. Significa a verificação de algo por meio de situações previamente definidas, os testes. Após a aplicação dos testes, de uma maneira mais ampla, é possível medir, que significa determinar a extensão, as dimensões, a quantidade e o grau ou a capacidade de algo. Geralmente expresso por meio de números. Ainda mais abrangente, temos o conceito de avaliar, que significa o julgamento ou a apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores. A seleção das técnicas e instrumentos de avaliação deve ser realizada durante o processo de planejamento pedagógico e deve considerar os seguintes aspectos: Objetivos direcionados para o ensino-aprendizagem; A Didática Geral 97 natureza do componente curricular; Métodos e procedimentos usados no ensino; Número de alunos; Tempo do professor. A avaliação do processo de ensino e aprendizagem requer que o aluno não só adquira os conhecimentos necessários para viver em sociedade, mas avalie as habilidades e competências exigidas para tal. Nessa perspectiva, a avaliação deve estar a serviço da aprendizagem, em favor do aluno, em favor de uma formação básica que possibilitem competências técnicas, humanas e sociais. Exercícios 1) De acordo com uma classificação adotada por Piletti (2010), como são classificados os recursos? (a) Recursos Financeiros: dinheiro, etc.; Recursos Humanos: pessoas, etc. (b) Recursos casuais: objetos selecionados; Recursos premiados: escolhidos pela diretoria. (c) Recursos Primários; Recursos Secundários e Recursos Terciários. (d) Recursos abstratos; Recursos não-abstratos. (e) Recursos visuais: projeções, cartazes, gravuras, etc.; Recursos auditivos: rádio, gravações, etc.; Recursos audiovisuais: cinema, televisão, etc. 2) Qual a diferença entre testar, medir e avaliar? (a) Testar significa provar; Medir significa qualificar; Avaliar significa aplicar uma prova. (b) Testar significa dar casos para avaliar; Medir significa quantificar; Avaliar significa observar. (c) Testar significa a verificação de algo por meio de situações previamente definidas, os testes. Medir significa determinar a extensão, as dimensões, a quantidade e o grau ou a capacidade de algo. Avaliar significa a interpretação ou a apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores. (d) Testar significa observar; Medir significa passar uma fita métrica; Avaliar significa submeter a uma situação. (e) Testar significa gerar uma situação; Medir significa elaborar; Avaliar significa aplicar um teste e observar. 3) A avaliação para Piletti (2010) tem três momentos: Diagnóstica, Formativa e Somativa. Qual alternativa corresponde a esses momentos, respectivamente? Didática Geral 98 (a) refere-se aos meios e à freqüência das verificações; ocorre por meio de um controle sistemático; processo de interação professor-alunos. (b) prevê os processos; previne os problemas de aprendizagem; verifica as notas finais. (c) sondagem inicial; acompanha o processo de formação dos alunos; é uma função classificatória, para um final de processo. (d) trabalha a observação; forma as posições; soma as notas. (e) previne problemas; orienta as ações; classifica em números. Resolução dos Exercícios 1) Vários autores definem diferentemente uma classificação de recursos,pois não há consenso. Vamos a uma classificação tradicional adotada por Piletti (2010): Recursos visuais: projeções, cartazes, gravuras, etc.; Recursos auditivos: rádio, gravações, etc.; Recursos audiovisuais: cinema, televisão, etc. Resposta correta: (e) Recursos visuais: projeções, cartazes, gravuras, etc.; Recursos auditivos: rádio, gravações, etc.; Recursos audiovisuais: cinema, televisão, etc. 2) Pelo grau de abrangência, do menor para o maior, o conceito de testar é o primeiro e menos abrangente. Significa a verificação de algo por meio de situações previamente definidas, os testes. Após a aplicação dos testes, de uma maneira mais ampla, é possível medir, que significa determinar a extensão, as dimensões, a quantidade e o grau ou a capacidade de algo. Geralmente expresso por meio de números. Ainda mais abrangente, temos o conceito de avaliar, que significa a interpretação ou a apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores. Resposta correta: (c) Testar significa a verificação de algo por meio de situações previamente definidas, os testes. Medir significa determinar a extensão, as dimensões, a quantidade e o grau ou a capacidade de algo. Avaliar significa a interpretação ou a apreciação sobre alguém ou alguma coisa, tendo como base uma escala de valores. 3) Muito semelhante a essa classificação é a de Piletti (2010), que coloca a função dignóstica como sondagem inicial, para verificar as características e os conhecimentos prévios dos alunos; a função Didática Geral 99 formativa que acompanha o processo de formação dos alunos, orientando sobre o rendimento, localizando deficiências, etc.; e a função somativa, que é uma função classificatória, para um final de processo. Resposta correta: (c) sondagem inicial; acompanha o processo de formação dos alunos; é uma função classificatória, para um final de processo. 7. O PLANEJAMENTO ESCOLAR Até este ponto, vimos todos os componentes do processo didático, como os objetivos, conteúdos, métodos, recursos e a avaliação. Todos esses componentes fazem parte do que julgamos ser a atividade essencial para o ensino, o Planejamento. Se todos nós precisamos de um planejamento para as atividades de vida diária, para viajar, para trocar de casa, para comprar algo mais caro e controlar as despesas, que diríamos em relação as atividades educativas? O planejamento é essencialmente o que dá a segurança de um trabalho pensado, organizado e estruturalmente bem montado. Mas, qual a diferença entre planejamento e plano? Segundo Haydt (2002), o planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. É uma atividade tipicamente humana e está presente na vida de todos os indivíduos, nos mais variados momentos. O plano é o resultado desse processo, é o ponto mais alto do processo mental de planejamento, como um esboço das conclusões resultantes do processo mental de planejar, podendo ou não assumir uma forma escrita. Mas, para que serve o planejamento no campo da atividade docente? Para que possamos traçar e depois atingir os objetivos desejados, superar as dificuldades, controlar a improvisação, etc. Trata-se de prever algumas dificuldades que poderão surgir durante todo o processo e, dessa forma, poder superá-las mais facilmente, evitar repetir de maneira desordenada e mecânica os cursos e aulas, adequar o trabalho de acordo com os recursos disponíveis e às características dos alunos, adequar os conteúdos, atividades e procedimentos de avaliação aos objetivos propostos, prever uma distribuição mais proporcional do trabalho educativo no tempo disponível, etc. Dessa forma, permite ao professor a organização antecipada da ação didática, contribuindo para o aprimoramento do trabalho docente e aproveitamento dos alunos. Infelizmente, muitos professor não se preocupam com seu planejamento. Daí podemos imaginar grande parte da qualidade que não se consegue alcançar na educação dos alunos e no desperdício do tempo empregado para essa etapa tão preciosa da vida de nossos alunos. Didática Geral 100 7.1. O PLANEJAMENTO EM SEUS VÁRIOS NÍVEIS No campo da educação e do ensino, existem diversos níveis de planejamento, que variam em abrangência e complexidade. São eles: planejamento de um sistema educacional, planejamento geral das atividades de uma escola, planejamento de currículo, planejamento didático ou de ensino e, dentro deste último, temos o planejamento de curso, planejamento de unidade didática e o planejamento de aula. O planejamento de um sistema educacional envolve as grandes esferas administrativas, nacional, estadual e municipal. Está vinculado com a lei da educação, que atualmente é a nº 9394/96, e com todos os documentos elaborados por estas esferas administrativas, que determinam em cada nível metas e diretrizes para uma boa educação e ensino. Vamos detalhar melhor os próximos níveis, pois somente sobre eles o educador tem alguma influência, enquanto que o planejamento do sistema educacional é decidido pelas esferas políticas e administrativas. 7.2. PLANEJAMENTO ESCOLAR O planejamento escolar envolve todas as atividades de uma escola, o que ela tem para oferecer em termos de formação a seus alunos e todas as ações, tanto administrativas quanto pedagógicas. A montagem desse planejamento, ao contrário do que muitos pensam, não é para ser feito apenas pelo diretor da escola. É por ele, mas acompanhado de todos os professores, funcionários, pais e alunos, de maneira democrática e participativa. O resultado será o plano escolar, que deverá ser seguido por todos. Haydt (2002) sugere algumas etapas que facilitam um bom planejamento, são elas: a sondagem e diagnóstico da realidade da escola (características da comunidade e da clientela escolar, recursos humanos e materiais disponíveis, avaliações dos desempenhos da escola anteriormente); definição dos objetivos e prioridades da escola, proposição da organização geral da escola (quadro curricular e distribuição de carga horária, calendário escolar, critérios de agrupamento dos alunos, definição do sistema de avaliação, recuperação, reposição de aulas, compensação de ausência e promoção dos alunos); elaboração de plano de curso contendo as programações das atividades curriculares; elaboração do sistema disciplinar da escola; atribuição de funções a todos os participantes da equipe escolar (direção, corpo docente, corpo discente, equipe pedagógica, equipe administrativa, equipe de limpeza, etc.) Didática Geral 101 7.3. PLANEJAMENTO CURRICULAR No planejamento de currículo, iremos prever os diversos componentes curriculares que serão desenvolvidos ao longo do curso, com a definição dos objetivos gerais e a previsão dos conteúdos programáticos de cada componente. Para isso, é necessário tomar consciência da concepção filosófica que irá nortear os fins e objetivos da ação educativa, pois a partir daí que serão definidos os critérios para a seleção dos conteúdos, devendo estes serem significativos para a emancipação desses alunos para que sejam capazes de lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, portanto, democrática. Além disso, devem ser organizados num todo orgânico e coerente, para que sejam mais bem assimilados pelos alunos de cada série, assim como a continuidade deles através das séries. O primeiro critério legal a ser seguido são as diretrizes do Conselho Federal de Educação que colocam as disciplinas de núcleo comum e a parte diversificada (esta última mais aberta pela comunidadelocal e por exigências culturais e regionais, determinada pelo Conselho Estadual de Educação). Cada escola deve elaborar seu próprio currículo seguindo estas exigências legais citadas, levando em conta sua clientela e as reais condições de trabalho na escola. 7.4. PLANEJAMENTO DIDÁTICO OU DE ENSINO Haydt (2002) define o planejamento de ensino como a previsão das ações e procedimentos que o professor vai realizar junto a seus alunos, assim como a organização das atividades dos alunos e das experiências da aprendizagem, na intenção de atingir os objetivos educacionais estabelecidos. Dessa forma, o planejamento de ensino ou didático especifica e operacionaliza o plano curricular. Isso tudo significa a definição sobre os objetivos (gerais e específicos) a serem alcançados ao longo do ano, a seleção de todos os conteúdos a serem ensinados, a escolha dos métodos e procedimentos mais interessantes para cada turma, assim como a forma de avaliar todo o trabalho que será feito. Para isso, é necessária uma análise criteriosa sobre os alunos que serão atendidos e perceber quais os recursos disponíveis naquela escola, para após isso se definir o restante do planejamento. O ponto alto desse processo é a elaboração do plano, como documento escrito, pois se trata do registro do que foi estabelecido como previsão das atividades docentes e discentes. O professor que não registra esse plano didático no papel corre o risco de se perder e ter de recorrer ao improviso, o que quase sempre é um desastre total. A maneira como registrar vai depender de cada professor, pois o plano de ensino é algo pessoal e subjetivo. Por isso, não se pode emprestar o plano de ensino a outros professores e imaginar que o trabalho será igual. Didática Geral 102 Logicamente ele foi pensado e estruturado de uma forma peculiar e, outra pessoa não teria uma visão tão realista do que foi planejado. Entretanto, a clareza é essencial, para que não deixe dúvidas nem para o professor, tampouco para quem quiser acompanhar seu processo didático-pedagógico. Para que possamos alcançar mais qualidade nesse tipo de planejamento, algumas recomendações são valiosas. Uma das características de um bom plano é o grau de coerência e de unidade, pois a conexão entre objetivos e meios mais adequados devem estabelecer um par inseparável; outro ponto é sobre a continuidade e seqüência, pois o trabalho deve ter um início, meio e fim, de maneira gradativa, que ajude os alunos a garantirem mais facilmente suas aquisições; a flexibilidade é também fundamental, uma vez que o plano foi feito para o professor e não ao contrário. Isso permite constatar que o que foi escrito e estabelecido pode ser mudado, de acordo com as necessidades que serão notadas, dando espaço para incluir ou excluir coisas previamente selecionadas; um bom plano também possui objetividade e funcionalidade, atendendo objetivamente as possibilidades, necessidades e interesses dos alunos, de maneira prática e funcional; por último, os planos devem ter precisão e clareza, apresentando uma linguagem simples e clara, indicando exata e precisamente para que não tenha uma dupla interpretação. Uma última recomendação é que este planejamento não seja encarado como mera formalidade ou como uma exigência burocrática, recaindo, desta maneira, em um plano vazio e sem sentido. Trata-se de algo importante demais para ser relegado apenas como uma tarefa burocrática, pois é uma organização essencial para o professor, conferindo segurança a seu trabalho. O plano didático ou de ensino pode ser dividido em três outros, ou seja, que farão parte integrante dele, com graus de abrangência diferentes. Trata-se do planejamento de curso, planejamento de unidade e planejamento de aula. 7.5. PLANEJAMENTO DE CURSO O planejamento de curso prevê os conhecimentos a serem desenvolvidos e as atividades que serão realizadas em cada classe, durante certo tempo, em geral naquele ano ou semestre letivo, prevendo o que fará o professor e o que farão os alunos naquele ano ou semestre letivo. É interessante, primeiramente, fazer um levantamento de dados sobre as características dos alunos, por meio de uma sondagem inicial. Após essa sondagem, escolher objetivos gerais e definir objetivos específicos a serem atingidos durante o período letivo estipulado. Só então escolher os conteúdos que serão desenvolvidos e, logo após, as atividades e procedimentos de ensino e aprendizagem adequados aos objetivos e conteúdos propostos. Até este ponto já definido, devemos selecionar os recursos existentes que serão mais interessantes de serem aproveitados. Em última etapa, escolher formas Didática Geral 103 de se avaliar que sejam mais coerentes com os objetivos definidos e os conteúdos a serem desenvolvidos. 7.6. PLANEJAMENTO DE UNIDADE DIDÁTICA Este planejamento reúne várias aulas sobre assuntos semelhantes, constituindo uma porção significativa da matéria, que acaba por ser dominada em suas inter-relações. Piletti (2010) define uma divisão desse plano em três partes: a apresentação, o desenvolvimento e a integração. Na apresentação o professor deverá identificar e estimular os interesses dos alunos, fazendo a conexão com o tema da unidade. Ele poderá fazer isso aplicando um pré-teste oral ou escrito, dialogando com a classe a respeito do tema, comunicar aos alunos sobre os objetivos da unidade, utilizar materiais ilustrativos, como jornais, cartazes, revistas, objetos históricos, etc. permitindo a introdução do tema, ou até mesmo fazendo uma aula expositiva. O desenvolvimento é o momento em que os alunos deverão alcançar a compreensão do tema e, para isso, o professor pode utilizar estudo de textos, estudo dirigido, solução de problemas, projetos, trabalho em grupo, etc. Por último, vem a integração, momento em que os alunos deverão ser capazes de sintetizar os temas abordados, utilizando para isso uma organização de resumos, relatório oral com os tópicos principais. 7.7. O PLANO DE AULA O plano de aula é a menor unidade do planejamento de um professor, pois é sobre uma aula que ele está planejando, mas sempre pensando que a cada aula ele deve estar mais próximo do alcance de seus objetivos específicos e gerais. A aula é composta, primeiramente, de objetivos imediatos que se pretende alcançar. Em termos de objetivos específicos, estes são os mais restritos, pois visualizam apenas aquele momento presente. Deve-se pautar a escolha dos objetivos específicos da aula em conhecimentos, habilidades e atitudes. Após a escolha dos objetivos, o professor deve escolher os conteúdos a serem abordados naquele momento, em termos de itens ou subitens, pois alguns conteúdos precisarão de mais de uma aula para serem devidamente ensinados. De posse dos objetivos e conteúdos, deve elaborar os procedimentos metodológicos para organizar didaticamente o ensino através de atividades a serem desenvolvidas. Após isso, deve-se determinar quais serão os recursos a serem utilizados (cartazes, mapas, jornais, livros, objetos variados, etc.) durante aquela aula Didática Geral 104 para despertar o interesse dos alunos, facilitar a compreensão e estimular a participação ativa dos alunos. Por último, deve-se descrever qual a forma de avaliação das atividades, de maneira que se possa perceber ao final da aula se o(s) objetivo(s) foi devidamente alcançado. Desta forma, podemos concluir que o plano de aula é a esquematização seqüencial de tudo que irá ser desenvolvido em um dia letivo. É sistematizar todas as atividades que se desenvolvem noperíodo de tempo em que o professor e os alunos irão interagir. Devemos lembrar também que o plano de aula deve estar adaptado às reais condições e características dos alunos, quanto às possibilidades, necessidades e interesses, além dos conhecimentos prévios que eles já possuem. Por esta razão a sondagem inicial é muito importante, pois permite maiores adequações, caso necessário. É comum também a presença de diários e semanários em algumas escolas, o que correspondem a modalidades diferentes dos professores planejarem suas aulas. Mas isso é um critério adotado por algumas escolas. Veja a seguir um modelo simples de estrutura para plano de aula: PLANO DE AULA TEMA DA AULA: OBJETIVOS: CONTEÚDOS: ESTRATÉGIAS: RECURSOS: AVALIAÇÃO: Didática Geral 105 SAIBA MAIS Existem inúmeros modelos de planos de aula e de planejamento escolar. Pesquise mais sobre eles e veja qual você melhor se adapta. As fontes para a pesquisa são inúmeras. Vão desde a bibliografia deste documento até as fontes disponíveis na internet. RESUMO Segundo Haydt (2002), o planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. É uma atividade tipicamente humana e está presente na vida de todos os indivíduos, nos mais variados momentos. O plano é o resultado desse processo, é o ponto mais alto do processo mental de planejamento, como um esboço das conclusões resultantes do processo mental de planejar, podendo ou não assumir uma forma escrita. No campo da educação e do ensino, existem diversos níveis de planejamento, que variam em abrangência e complexidade. São eles: planejamento de um sistema educacional, planejamento geral das atividades de uma escola, planejamento de currículo, planejamento didático ou de ensino e, dentro deste último, temos o planejamento de curso, planejamento de unidade didática e o planejamento de aula. O planejamento escolar envolve todas as atividades de uma escola, o que ela tem para oferecer em termos de formação a seus alunos e todas as ações, tanto administrativas quanto pedagógicas. No planejamento de currículo, iremos prever os diversos componentes curriculares que serão desenvolvidos ao longo do curso, com a definição dos objetivos gerais e a previsão dos conteúdos programáticos de cada componente. O planejamento de ensino é a previsão das ações e procedimentos que o professor vai realizar junto a seus alunos, assim como a organização das atividades dos alunos e das experiências da aprendizagem, na intenção de atingir os objetivos educacionais estabelecidos. O plano didático ou de ensino pode ser dividido em três outros, ou seja, que farão parte integrante dele, com graus de abrangência diferentes. Trata-se do planejamento de curso, planejamento de unidade e planejamento de aula. O planejamento de curso prevê os conhecimentos a serem desenvolvidos e as atividades que serão realizadas em cada classe, durante certo tempo, em geral naquele ano ou semestre letivo, prevendo o que fará o professor e o que farão os alunos naquele ano ou semestre letivo. O planejamento de Unidades Didáticas reúne várias aulas sobre assuntos semelhantes, constituindo uma porção significativa da matéria, que acaba por ser dominada em suas inter-relações. O plano de aula é a menor unidade do planejamento de um professor, pois é sobre apenas uma aula que ele está planejando, mas sempre pensando Didática Geral 106 que a cada aula ele deve estar mais próximo do alcance de seus objetivos específicos e gerais. A aula é composta, primeiramente, de objetivos imediatos que se pretende alcançar. Após a escolha dos objetivos, o professor deve escolher os conteúdos a serem abordados naquele momento, para depois elaborar os procedimentos metodológicos para organizar didaticamente o ensino através de atividades a serem desenvolvidas. Após isso, deve-se determinar quais serão os recursos a serem utilizados (cartazes, mapas, jornais, livros, objetos variados, etc.) durante aquela aula para despertar o interesse dos alunos, facilitar a compreensão e estimular a participação ativa dos alunos. Por último, deve-se descrever qual a forma de avaliação das atividades, de maneira que se possa perceber ao final da aula se o(s) objetivo(s) foi devidamente alcançado. Didática Geral 107 Exercícios 1) Qual a diferença entre Planejamento e Plano? (a) O planejamento é uma meta a ser estabelecida. O plano é aquilo que se estabelece para curto prazo. (b) O planejamento são as atividades a serem aplicadas. O plano é apenas uma aula. (c) O planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. O plano é o resultado desse processo, podendo ou não assumir uma forma escrita. (d) O planejamento é uma forma de elaborar uma aula, selecionando maneiras de aplicá-la. O plano é o conjunto de recursos a serem envolvidos no processo. (e) O planejamento é apenas uma unidade de ensino. O plano é todo o processo de escolarização. 2) O plano didático ou de ensino pode ser dividido em três outros. Quais são eles? (a) planejamento de curso, planejamento de unidade e planejamento de aula. (b) diários, semanários e unidade didática. (c) anuário, plano de escola, planejamento político-pedagógico. (d) planejamento curricular; planejamento escolar e planejamento educacional. (e) Plano de contingências; plano de atividades; plano de tarefas. 3) Quais são os elementos que compõe uma aula? (a) A aula é composta de parte inicial, parte principal e volta à calma. (b) A aula é composta de aquecimento, preparação da atividade central e discussão final. (c) A aula é composta de recapitulação da aula anterior, apresentação do novo tema, aprofundamento, exercícios de casa e finalização. (d) A aula é composta de reintegração do último tema, desenvolvimento do novo tema, aprofundamento, generalização e aplicação. (e) A aula é composta de objetivos, os conteúdos a serem abordados naquele momento, para depois elaborar os procedimentos metodológicos, recursos a serem utilizados. Por último, deve-se descrever qual a forma de avaliação das atividades. Didática Geral 108 Resolução dos Exercícios 1) Segundo Haydt (2002), o planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. É uma atividade tipicamente humana e está presente na vida de todos os indivíduos, nos mais variados momentos. O plano é o resultado desse processo, é o ponto mais alto do processo mental de planejamento, como um esboço das conclusões resultantes do processo mental de planejar, podendo ou não assumir uma forma escrita. Resposta correta: (c) O planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão. O plano é o resultado desse processo, podendo ou não assumir uma forma escrita. 2) O plano didático ou de ensino pode ser dividido em três outros, ou seja, que farão parte integrante dele, com graus de abrangência diferentes. Trata-se do planejamento de curso, planejamento de unidade e planejamento de aula. Resposta correta: (a) planejamento de curso, planejamento de unidade e planejamento de aula. 3) A aula é composta, primeiramente, de objetivos imediatos que se pretende alcançar. Após a escolha dos objetivos, o professor deve escolher os conteúdos a serem abordados naquele momento, para depois elaborar os procedimentosmetodológicos para organizar didaticamente o ensino através de atividades a serem desenvolvidas. Após isso, deve-se determinar quais serão os recursos a serem utilizados (cartazes, mapas, jornais, livros, objetos variados, etc.) durante aquela aula para despertar o interesse dos alunos, facilitar a compreensão e estimular a participação ativa dos alunos. Por último, deve-se descrever qual a forma de avaliação das atividades, de maneira que se possa perceber ao final da aula se o(s) objetivo(s) foi devidamente alcançado. Resposta correta: (e) A aula é composta de objetivos, os conteúdos a serem abordados naquele momento, para depois elaborar os procedimentos metodológicos, recursos a serem utilizados. Por último, deve-se descrever qual a forma de avaliação das atividades. Didática Geral 109 8. O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM: UMA DISCUSSÃO GERAL Tudo o que foi visto e discutido até esse ponto visa formar uma visão técnica sobre o trabalho do professor, crítica sobre a formação da sociedade e real sobre as possibilidades dos alunos. Não há, em termos de possibilidades, como executar um trabalho de professor arriscando acertar simplesmente com o instinto. É preciso o domínio de certos conhecimentos que façam com que o professor encontre maior segurança, organização, estruturação e visão, sobre todos os fatores que interferem no trabalho educativo. Vamos tratar agora, para isso, sobre a relação entre professor e alunos, que é a mais forte em termos de necessidade de convivência dentro da escola e, por isso, deve acontecer de uma maneira positiva, amistosa e clara dentro das salas de aula. Vamos tratar também um pouco mais sobre o processo de ensino e aprendizagem, sobre alguns dos fatores importantes para que eles aconteçam, pois o professor é aquele que guia e, se bem guiado, terá seus alunos aprendendo favoravelmente. Para finalizar, trataremos da importância do diálogo e da disciplina, fundamentais para um educação mais democrática, que atenda as necessidades dos alunos e possa acontecer de uma maneira favorável e aberta nas salas de aula. 8.1. A RELAÇÃO PROFESSOR – ALUNO E O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM Como mencionado anteriormente, a aprendizagem é um processo contínuo e bilateral, aprende-se sempre e isto não é uma propriedade exclusiva do aluno: o professor também aprende. O significado de ensinar nos leva a outros termos, como: fazer saber, instruir, comunicar conhecimentos, mostrar, orientar, guiar, dirigir, desenvolver habilidades – que apontam para o professor enquanto agente principal e responsável pelo ensino. Neste sentido, o ensino centraliza-se no professor, em suas qualidades e habilidades. Contudo, a aprendizagem deve ser significativa para o aluno, envolvendo-o como pessoa. Trata-se de um processo que deve levar o aluno a relacionar o que está aprendendo com conhecimentos e experiências que já possui e, assim, interagir e transferir o que aprendeu em situações concretas na sociedade em que vive. A aprendizagem precisa ser acompanhada de um feedback imediato, ou seja, de um retorno que fornece dados ao aluno e ao professor para corrigir e levar adiante o processo. Segundo Haidt (2002), o processo de ensino- aprendizagem é uma atividade conjunta de professores e alunos, organizado sob a direção do professor, com a finalidade de prover as condições e meios Didática Geral 110 pelos quais os alunos assimilam ativamente conhecimentos, habilidades, atitudes e convicções. Os alunos de escolas de educação básica, regra geral, encontram-se numa faixa etária na qual assimilam conhecimentos e desenvolvem hábitos e atitudes de convívio social, justamente convivendo com pessoas. É durante esse convívio que o domínio afetivo se une à esfera cognitiva e surge o aluno integral, como ele realmente é, agindo não somente com a razão, mas também com os sentimentos. Não se pode esquecer a função educativa da interação humana, pois é convivendo com seus semelhantes que o ser humano é educado e se educa. Essa interatividade envolve, necessariamente, na escola, a relação entre professor e aluno. Nela, o professor tem basicamente duas funções, de acordo com Haidt (2002): • função incentivadora: aproveitando a curiosidade natural do aluno para despertar seu interesse e mobilizar seus esquemas cognitivos; • função orientadora: orientando os esforços do aluno para aprender, ajudando-o a construir seu conhecimento. Na aprendizagem o professor é, portanto, acima de tudo um estimulador, orientador e facilitador. Seu papel será o de ajudar o aluno a aprender, criar as condições para que o aluno adquira informações e acima de tudo questione, não seja somente um receptor, mas seja capaz de discernir, questionar, pensar a sociedade e o mundo no qual ele esta inserido. Futuramente caberá a você, como professor, ajudar seu aluno a transformar a curiosidade em esforço cognitivo e a passar de um conhecimento confuso a um saber organizado. Em outras palavras, caberá a você, ser muito mais do que um professor: ser um educador. Como educador, caberá a você, não apenas transmitir conhecimento, mas também facilitar a veiculação de idéias, valores e princípios de vida, contribuindo para a formação cidadã do seu futuro aluno. Em poucas palavras, o professor tem sua personalidade orientada por valores e princípios de vida e consciente ou inconscientemente, explícita ou implicitamente, ele veicula esses valores durante as aulas, manifestando-os a seus alunos. Assim, ao interagir com cada aluno em particular e se relacionar com a classe como um todo, o professor não apenas transmite conhecimentos, em forma de informações, conceitos e idéias (aspecto cognitivo), não apenas ensina gestos ou movimentos (aspecto motor), mas também facilita a veiculação de ideais, valores e princípios de vida (elementos do domínio afetivo), ajudando a formar a personalidade do educando. Por isso, o professor deve ter bem claro que, antes de ser um professor, ele é um educador. Didática Geral 111 Em síntese, a condução da aprendizagem dos seus alunos, o professor tem duas funções básicas: a função incentivadora, pois precisa garantir situações que incentivem o aluno a continuar progredindo nos estudos e estimulem sua participação ativa no ato de aprender; e a função orientadora, pois cabe a ele ensinar, isto é, orientar o processo de aprendizagem dos alunos para que possam construir o próprio conhecimento. A autoridade do professor é inerente à sua função educadora, ou seja, é a autoridade de quem incentiva e orienta. Outra questão fundamental é sobre a motivação, que é um processo psicológico energético, interno e profundo, que impele o indivíduo para a ação, determinando a direção do comportamento. É um fenômeno pessoal que depende da experiência prévia de cada aluno e do seu nível de aspiração. Por isso, o professor não pode motivar o aluno a aprender, mas pode incentivá-lo, isto é, estimulá-lo externamente, captando e polarizando sua atenção e despertando o seu interesse. Para isso, pode e deve usar recursos e procedimentos incentivadores, aproveitando os fatores ambientais, não apenas no início das aulas, mas durante todo o seu decorrer. 8.2. A QUESTÃO DO DIÁLOGO Na relação professor-aluno, o diálogo é fundamental. A atitude dialógica no processo ensino-aprendizagem é aquela que parte de uma questão problematizadora para desencadear o diálogo, no qual o professor transmite o que sabe, aproveitando os conhecimentos prévios e as experiências anteriores do aluno. Assim, ambos chegama uma síntese que elucida, explica ou resolve a situação problema que desencadeou a discussão. A construção do conhecimento é um processo interpessoal. O professor, de certa forma, aprende com seu aluno, na medida em que consegue perceber como ele percebe e sente o mundo. Assim, o professor pode e deve rever comportamentos, ratificar ou retificar opiniões, desfazer preconceitos, mudar atitudes, alterar posturas. Devemos sempre nos lembrar deste princípio fundamental: a construção do conhecimento é um processo social, e não individual. Professor e aluno ensinam e aprendem um com o outro. De nada adiantará a você, no futuro exercício da sua profissão, conhecer novos métodos e técnicas de ensino ou usar recursos audiovisuais modernos, se encarar seu aluno como um ser passivo e receptivo. Sua forma de ensinar e de interagir com seus alunos dependerá do modo como você os conceberá (seres ativos ou passivos) e da maneira como verá a atuação deles no processo de aprendizagem. Lembramos que ‘diálogo não é monólogo’, deve haver sempre o espaço para o questionamento, a dúvida, a discussão e o debate franco, justo e honesto. Nunca devemos, como professores, fazer valer algum grau de superioridade, mas deve-se conquistar o respeito dos alunos através do nosso Didática Geral 112 conhecimento, sem medo de estar equivocado, ou de reconhecer o valor das palavras dos alunos, do esforço que eles empregam na forma como sabem participar. 8.3. A DISCIPLINA E A INDISCIPLINA Uma aula disciplinada é muito mais do que conservar a classe em ordem. O objetivo, ao buscar disciplina, deve ser o de desenvolver no aluno o autocontrole, o autorrespeito e o respeito pelas pessoas e coisas que o rodeiam. Se o professor não tem essas qualidades, é inútil tentar desenvolvê- las nos alunos, por isso é bom ir treinando-as desde já. A verdadeira disciplina não se origina de pressões, mas parte do íntimo do indivíduo. Há alguns processos que são costumeiramente utilizados para conseguir disciplina. São eles: • uso da força: bastante utilizado antigamente, ainda é empregado por muitos professores. Nesse processo, são utilizados castigos e ameaças. As normas estabelecidas pelo professor devem ser seguidas sem questionamento. O aluno, regra geral, obedece aos regulamentos, segue as ordens, executa os deveres, sem qualquer interesse, apenas para livrar-se das punições e censuras; • chantagem afetiva: consiste em cativar a amizade do aluno ou da classe para se alcançar disciplina. O aluno, então, fará tudo o que o professor desejar, por medo de perder sua amizade ou magoá-lo. Ao seguir as normas e os regulamentos, terá em mente agradar o professor; • uso da responsabilidade: consiste em desenvolver a responsabilidade do aluno. Exige capacidade para acompanhar o seu amadurecimento, dando-lhe responsabilidades dentro dos limites de seu nível de maturidade e de inteligência. Consiste em criar oportunidades para a autodireção do aluno. Os três processos têm possibilidades de alcançar o alvo, mas o terceiro é, sem dúvida, o que deve ser priorizado. Muitas vezes, no entanto, você, no exercício da profissão, será obrigado a recorrer aos outros dois, sem, contudo, jamais chegar ao extremo da força física. Para desenvolver nos alunos a autodisciplina, alguns aspectos devem ser observados: • utilizar formas positivas de orientação: evitar castigos que possam humilhar o aluno; Didática Geral 113 • considerar cada incidente: os alunos não devem ser punidos como exemplo para o grupo; • promover um clima de respeito e confiança: sendo tratados com respeito e compreensão, os alunos aprendem a respeitar-se mutuamente. Por outro lado, pessoas continuamente cerceadas ou humilhadas facilmente aprendem a duvidar de si e dos outros; • ajudar os alunos a compreender a razão de ser das regras: o aluno deve ser conduzido a compreender a necessidade da existência de regulamentos e, se possível, até ajudar na sua formulação; • ajudar os alunos a prever as conseqüências dos próprios atos: em certos casos, porém, é melhor deixar que tenham suas experiências e delas tirem normas para o futuro; • procurar as causas da indisciplina de maneira objetiva e racional: num ambiente autoritário, obtemos uma disciplina superficial, com a aplicação de regras coercitivas; • ajudar os alunos a compreender as causas do seu próprio comportamento e a desenvolver meios de solucionar seus conflitos: em grande parte das vezes, o problema é trazido de casa, e é preciso não coibir essa fonte de informações, reprimindo os alunos sob exigências de ordem, silêncio ou atenção. Pedir para os alunos se colocarem no lugar de outra pessoa, por exemplo, é um meio de ajudá-los a aprender que um problema tem muitos ângulos. Sabemos que o relacionamento em sala de aula é bom quando vemos alunos alegres e seguros enquanto desenvolvem suas atividades de aprendizagem. Como professor, sua influência será muito importante, e a criação de um clima psicológico que favoreça ou não a aprendizagem dependerá principalmente de você. Esse clima estará sujeito, em grande parte, ao tipo de liderança por você adotado (Piletti, 2010). Existem três tipos básicos: • autoritária: nela, tudo o que deve ser feito é determinado pelo líder. Ele não diz aos liderados quais os critérios de avaliação, e as notas não podem ser discutidas. Esse líder não participa das atividades da turma, apenas distribui as tarefas e dá as ordens. Como resultado, os alunos manifestam dois comportamentos típicos: apatia e agressividade; Didática Geral 114 • democrática: nela, tudo o que for feito será objeto de decisão da turma. Todos são livres para trabalhar com os colegas que quiserem, e o líder discute com todos os elementos os critérios de avaliação, além de participar das atividades do grupo. Como resultado, os alunos mostram-se responsáveis e espontâneos no desenvolvimento de suas tarefas, e são menos frequentes os comportamentos agressivos; • permissiva: nela, o líder é passivo, dá liberdade completa ao grupo de indivíduos a fim de que eles determinem suas próprias atividades. Ele não se preocupa com qualquer avaliação sobre a atividade do grupo e permanece alheio ao que está acontecendo. Como resultado, os alunos não chegam a se organizar como grupo, e se dedicam mais tempo às tarefas propostas na ausência do líder. Pode-se concluir que o melhor tipo de liderança é a democrática. Há algumas dicas de atitudes e comportamentos que você deve adotar para desempenhar esse papel: • tenha claro o objetivo a atingir em cada tarefa; • comunique esse objetivo; • faça da aula um desafio para seus alunos; • sugira, em vez de impor; • ouça as sugestões dos alunos e coloque-as em discussão; • coloque-se diante deles como um orientador; • faça os alunos trabalharem com você, e não para você; • elogie tudo o que for elogiável e destaque os acertos; • estimule as equipes a estabelecer regras de trabalho; • não fale muito, mas ouça muito; • encerre as atividades com uma avaliação feita pelos próprios alunos. Várias podem ser as causas da indisciplina de um aluno. Ele pode estar simplesmente nervoso, ou doente, com problema em casa, os pais podem ter discussões constantes, ele pode não estar dormindo o suficiente, neste caso cabe ao professor tentar averiguar as causas. A falha pode ter sido da escola, sua (em sua atuação como professor), da técnica utilizada, ou mesmo estar em outro aluno. Em síntese, no que se refere à disciplina,é preciso orientar a conduta dos alunos com atitudes seguras e ao mesmo tempo compreensivas. Como fazer isso dependerá da postura de cada professor e do “clima” da classe, pois em educação não há formulas prontas. O professor perceberá que às vezes precisa ser mais enérgico e outras vezes menos, dependendo da situação e do “clima” da classe. Convém lembrar que os elogios funcionam como reforço positivo, estimulando o aluno e Didática Geral 115 ajudando-o a desenvolver o autoconceito positivo. Mas é preciso usar o elogio nas situações adequadas, ou seja, quando perceber realmente que o aluno está se esforçando de verdade e fazendo o melhor que pode. O professor e os alunos devem propor, analisar e discutir, em conjunto, os padrões de comportamento e normas de conduta, pois quando o aluno participa da elaboração de um “código” de comportamento, tende a assumir o que propôs e a adotá-lo, na prática cotidiana durante as aulas, mais facilmente do que se fosse imposto. Assim, quando o aluno pode discutir ou elaborar as regras coletivamente, ele se sente mais motivado para respeitá-las. Por último, mas não menos importante, devemos falar sobre a direção de classe que é a organização e apresentação de situações de ensino de forma a facilitar a realização da aprendizagem e a construção do conhecimento pelo aluno. O professor perceberá que, às vezes, terá de agir de modo mais diretivo; outras vezes, de forma não-diretiva, deixando o aluno descobrir por si mesmo. O importante é usar um método ativo ou operativo (segundo a denominação de Jean Piaget), que acione e mobilize os esquemas operativos de cognição, agilizando, em especial, as operações mentais. O mesmo pode- se dizer sobre os aspectos motores e afetivos. Disciplina de verdade só ocorre com o desenvolvimento da autodisciplina nos alunos. Dizemos da heterodisciplina (disciplina imposta pelo outro) para a autodisciplina (disciplina imposta por si mesmo). 8.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos, o processo de ensino e aprendizagem é altamente complexo. Isso significa que existem muitos fatores intervenientes contidos dentro dele, como concepção pedagógica, detalhes técnicos, visão do professor e dos alunos, características gerais do trabalho educativo, da escola, dos recursos, etc. Todos esses fatores concorrem para que aconteça a ação didático-educativa dos professores na relação com seus alunos. É preciso, nos dias atuais, de pessoas que possam ter um posicionamento crítico da educação e do ensino. Uma mente aberta para aceitar divergências de opinião, discordâncias, questionamentos que exijam mais precisão, pedidos de maiores explicações, etc. Fica claro em todo o texto que a educação que se prega aqui é para uma sociedade mais democrática e, por isso, mais capaz de lutar por transformações significativas na sociedade atual, para uma busca de maior justiça, menos desigualdade de direitos, melhor qualidade de vida, de estudos, de trabalho, etc. Para isso, os professores não poderão ter medo da verdade e, educação, nos dias de hoje, não acontece como na época da ditadura militar, que NUNCA PODERIA SER CONTESTADA A PALAVRA DO PROFESSOR. Didática Geral 116 Isso, felizmente, já passou! Hoje o que se busca é um diálogo aberto, franco, sincero e positivo, dando espaço para a uma relação de companheirismo na busca de uma evolução pessoal, tanto dos alunos quanto dos professores. Não há momento melhor para o desenvolvimento do que a sala de aula, com muitas perguntas implorando por respostas, com muita dúvida exigindo melhores explicações, com muita boa vontade querendo reciprocidade. Devemos dar um basta na relação de poder que os professores faziam, quando utilizavam-se das salas de aula para mostrar superioridade frente aos alunos. Isso, por parte dos alunos, faziam com que eles regredissem buscando auto-afirmação, querendo aparecer mais do que o professor, agredindo o professor verbal ou até fisicamente (em casos extremos que podemos averiguar em jornais). Para reverter essa situação, os dois polos da relação (professor e alunos) devem ‘jogar no mesmo time’, acabando com aquela visão de competição sobre quem mostra mais. Ao professor, compete comprar a causa dos alunos, se comprometendo em dar um ensino mais interessante, mais aberto a discussões, mais exigente e menos punitivo, o que implica em exigir esforço, mas não punir o aluno com dificuldades de aprendizagem com resultados em notas baixas. Aos alunos, compete a compreensão de que o professor está lá para ajudá-lo em seu desenvolvimento e sua aprendizagem, fazendo-o dar um salto qualitativo em termos de capacidade de participação na vida social. Para isso, os alunos devem se empenhar com todas as forças, de maneira a ‘jogar o jogo proposto pelos professores’ para conseguir obter os resultados tão sonhados por ambos (professor e aluno). Isso é uma educação transformadora, aberta a discussão, sem jogo de interesses ocultos, que mostra boa vontade por parte do professor e dos alunos, os dois sendo cúmplices da mesma causa: o desenvolvimento de uma sociedade melhor e mais interessante de se viver. Didática Geral 117 RESUMO Não há, em termos de possibilidades, como executar um trabalho de professor arriscando acertar simplesmente com o instinto. É preciso o domínio de certos conhecimentos que façam com que o professor encontre maior segurança, organização, estruturação e visão, sobre todos os fatores que interferem no trabalho educativo. O significado de ensinar nos leva a outros termos, como: fazer saber, instruir, comunicar conhecimentos, mostrar, orientar, guiar, dirigir, desenvolver habilidades – que apontam para o professor enquanto agente principal e responsável pelo ensino. Neste sentido, o ensino centraliza-se no professor, em suas qualidades e habilidades. O professor tem sua personalidade orientada por valores e princípios de vida e consciente ou inconscientemente, explícita ou implicitamente, ele veicula esses valores durante as aulas, manifestando-os a seus alunos. Assim, ao interagir com cada aluno em particular e se relacionar com a classe como um todo, o professor não apenas transmite conhecimentos, em forma de informações, conceitos e idéias (aspecto cognitivo), não apenas ensina gestos ou movimentos (aspecto motor), mas também facilita a veiculação de ideais, valores e princípios de vida (elementos do domínio afetivo), ajudando a formar a personalidade do educando. Por isso, o professor deve ter bem claro que, antes de ser um professor, ele é um educador. A condução da aprendizagem dos seus alunos, o professor tem duas funções básicas: a função incentivadora, pois precisa garantir situações que incentivem o aluno a continuar progredindo nos estudos e estimulem sua participação ativa no ato de aprender; e a função orientadora, pois cabe a ele ensinar, isto é, orientar o processo de aprendizagem dos alunos para que possam construir o próprio conhecimento. A autoridade do professor é inerente à sua função educadora, ou seja, é a autoridade de quem incentiva e orienta. Na relação professor-aluno, o diálogo é fundamental. A atitude dialógica no processo ensino-aprendizagem é aquela que parte de uma questão problematizadora para desencadear o diálogo, no qual o professor transmite o que sabe, aproveitando os conhecimentos prévios e as experiências anteriores do aluno. Assim, ambos chegam a uma síntese que elucida, explica ou resolve a situação problema que desencadeou a discussão. Uma aula disciplinada é muito maisdo que conservar a classe em ordem. O objetivo, ao buscar disciplina, deve ser o de desenvolver no aluno o autocontrole, o autorrespeito e o respeito pelas pessoas e coisas que o rodeiam. Se o professor não tem essas qualidades, é inútil tentar desenvolvê- las nos alunos, por isso é bom ir treinando-as desde já. A verdadeira disciplina não se origina de pressões, mas parte do íntimo do indivíduo. No que se refere à disciplina, é preciso orientar a conduta dos alunos com atitudes seguras e ao mesmo tempo compreensivas. Como fazer isso Didática Geral 118 dependerá da postura de cada professor e do “clima” da classe, pois em educação não há formulas prontas. O professor perceberá que às vezes precisa ser mais enérgico e outras vezes menos, dependendo da situação e do “clima” da classe. Convém lembrar que os elogios funcionam como reforço positivo, estimulando o aluno e ajudando-o a desenvolver o autoconceito positivo. Mas é preciso usar o elogio nas situações adequadas, ou seja, quando perceber realmente que o aluno está se esforçando de verdade e fazendo o melhor que pode. O professor e os alunos devem propor, analisar e discutir, em conjunto, os padrões de comportamento e normas de conduta, pois quando o aluno participa da elaboração de um “código” de comportamento, tende a assumir o que propôs e a adotá-lo, na prática cotidiana durante as aulas, mais facilmente do que se fosse imposto. Assim, quando o aluno pode discutir ou elaborar as regras coletivamente, ele se sente mais motivado para respeitá-las. A direção de classe que é a organização e apresentação de situações de ensino de forma a facilitar a realização da aprendizagem e a construção do conhecimento pelo aluno. O professor perceberá que, às vezes, terá de agir de modo mais diretivo; outras vezes, de forma não-diretiva, deixando o aluno descobrir por si mesmo. O importante é usar um método ativo ou operativo (segundo a denominação de Jean Piaget), que acione e mobilize os esquemas operativos de cognição, agilizando, em especial, as operações mentais. O mesmo pode-se dizer sobre os aspectos motores e afetivos. É preciso, nos dias atuais, de pessoas que possam ter um posicionamento crítico da educação e do ensino. Uma mente aberta para aceitar divergências de opinião, discordâncias, questionamentos que exijam mais precisão, pedidos de maiores explicações, etc. Fica claro em todo o texto que a educação que se prega aqui é para uma sociedade mais democrática e, por isso, mais capaz de lutar por transformações significativas na sociedade atual, para uma busca de maior justiça, menos desigualdade de direitos, melhor qualidade de vida, de estudos, de trabalho, etc. Didática Geral 119 Exercícios 1) Na Teoria Psicogenética de Jean Piaget, como o conhecimento se constrói? (a) O conhecimento se dá pela vontade do indivíduo, com muita persistência. (b) O conhecimento se dá pela ação do sujeito sobre o objeto, ou seja, o conhecimento humano se constrói na interação homem-meio, sujeito- objeto. (c) Ele não explica como se dá o conhecimento, mas diz que o homem aprende com o meio. (d) O conhecimento se dá pela força da sociedade, da mesma forma como fala Vygotsky. (e) Ele diz que surge do amor dos pais, pela dedicação em cuidar de seus filhos. 2) O que é assimilação para Piaget? (a) A assimilação é a incorporação dos dados da realidade nos esquemas disponíveis no sujeito, é o processo pelo qual as idéias, pessoas, costumes são incorporadas à atividade do sujeito. (b) A assimilação é a principal forma de atividade mental. (c) A assimilação nada mais é do que a motivação. (d) A assimilação é o conhecimento. (e) A assimilação é o mesmo que a acomodação. Por isso elas se alternam mutuamente no processo de conhecimento e fazem isso muito lentamente. 3) O que é acomodação para Piaget? (a) A acomodação é a criança em fase conflitiva. (b) A acomodação é o não sedentarismo. (c) A acomodação é a modificação dos esquemas para assimilar os elementos novos. (d) A acomodação é o relaxamento muscular. (e) É o mesmo que conforto. Didática Geral 120 Resolução dos Exercícios 1) Piaget afirma que o sujeito somente constrói seu conhecimento na interação entre as demandas do meio e suas iniciativas. É na interação entre sujeito e objeto de conhecimento que o sujeito constrói suas bases e evolui. Resposta correta: (b) O conhecimento se dá pela ação do sujeito sobre o objeto, ou seja, o conhecimento humano se constrói na interação homem-meio, sujeito- objeto. 2) A assimilação é a aplicação dos esquemas anteriores do sujeito a uma nova situação, incorporando os novos elementos aos esquemas anteriores do sujeito. Acontece que, ao entrarmos em contato com a realidade o sujeito tenta retirar desta uma forma de interpretação e incorporá-la, ou, utilizando uma linguagem mais próxima de Piaget, no contato do sujeito com o objeto de conhecimento, este tenta interpretá-lo com a ajuda de seus conhecimento prévios. Resposta correta: (a) A assimilação é a incorporação dos dados da realidade nos esquemas disponíveis no sujeito, é o processo pelo qual as idéias, pessoas, costumes são incorporadas à atividade do sujeito. 3) A acomodação é o que torna possível a adaptação do sujeito, pois pode complementar o processo de assimilação. Trata-se da reestruturação ou modificação dos esquemas assimilatórios do sujeito para dar condições a este para assimilar o novo conhecimento. Podemos afirmar que, em muitos momentos o conhecimento não se deixa conquistar tão facilmente. Por isso, as estruturas do sujeito precisam se modificar para dar condições assimilatórias ao sujeito. Essas modificações acontecem ao mesmo tempo em que o sujeito tenta assimilar o novo objeto de conhecimento, fechando, assim, o ciclo adaptativo da equilibração majorante. Resposta correta: (c) A acomodação é a modificação dos esquemas para assimilar os elementos novos. Didática Geral 121 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, C.R. O que é Educação? São Paulo: Cortez, 1989 (Coleção Primeiros Passos). BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. HAIDT, R.C.C. Curso de Didática Geral. 7. Ed. São Paulo: Ática, 2002. LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública. São Paulo: Loyola,1985. _________. Didática. 18. Ed. São Paulo: Cortez, 2008. LORIERI, M.A. e RIOS, T.A. Filosofia na escola: o prazer da reflexão. São Paulo: Moderna, 2004. LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar. 16. Ed. São Paulo: Cortez, 2005. PILETTI, C. Didática Geral. 24 Ed. São Paulo: Ática, 2010. SAVIANI, D. Escola e democracia. 36 Ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.