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QUALIDADE NO ATENDIMENTO MÉDICO E A FALTA DE ESTRUTURA NA ÁREA DA SAÚDE NO BRASIL SHEILA ESTEVES A saúde é um direito constitucional e um dos pilares mais importantes da cidadania brasileira. Desde a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988, o país deu um passo fundamental na universalização do acesso aos serviços médicos, garantindo que qualquer cidadão, independentemente de renda, pudesse ser atendido em unidades básicas, hospitais gerais ou centros de alta complexidade. Entretanto, ao longo das décadas, o crescimento populacional, o subfinanciamento, a má gestão de recursos e as desigualdades regionais tornaram-se obstáculos significativos para a plena efetividade desse direito. Paralelamente, a saúde suplementar, organizada pelos planos privados, cresceu e passou a ser vista por muitos brasileiros como alternativa para escapar da superlotação e dos atrasos do setor público. Ainda assim, como afirmam Scheidweiler (2019) e Ciommo (2019), o problema central não está apenas na qualidade técnica do atendimento médico, mas na falta de estrutura física, logística e administrativa, tanto na rede pública quanto na privada, o que compromete a experiência do usuário e a integralidade do cuidado. Ao comparar o atendimento oferecido pelo SUS e pelos planos de saúde, nota-se que o tempo de espera é uma das diferenças mais marcantes. No SUS, a alta demanda e a limitação de recursos resultam em filas extensas para consultas especializadas, exames de média e alta complexidade e cirurgias eletivas. Esse cenário leva muitos pacientes a conviverem com a ansiedade da espera ou, em casos graves, com o agravamento de doenças devido ao diagnóstico e tratamento tardios. Já nos planos privados, em linhas gerais, o acesso costuma ser mais ágil, permitindo marcações em prazos menores, o que aumenta a percepção de eficiência. Contudo, é importante destacar que nem sempre essa rapidez se traduz em resolutividade: em algumas regiões, mesmo na rede suplementar, pode haver demora para especialidades muito concorridas, além de limitações impostas pelos contratos dos planos, como carência, coparticipação e negativa de procedimentos de alto custo. A questão da infraestrutura é outro ponto crucial na análise da qualidade do atendimento. Muitos hospitais e unidades públicas de saúde sofrem com prédios antigos, leitos insuficientes, equipamentos obsoletos e carência de materiais básicos, o que gera não apenas demora no diagnóstico, mas também risco para o paciente e sobrecarga para os profissionais. Apesar disso, o SUS mantém centros de excelência reconhecidos mundialmente, especialmente em procedimentos complexos como transplantes, atendimentos de emergência em grande escala e vacinação em massa, nos quais o sistema público se mostra superior à rede privada. Em contrapartida, os planos privados, em geral, oferecem ambientes mais confortáveis, modernos e tecnologicamente equipados, com foco no acolhimento e na comodidade. Essa diferença, porém, não significa superioridade técnica em todos os aspectos, mas evidencia que a estrutura física e logística influencia diretamente a percepção de qualidade e a satisfação do usuário. Apesar das diferenças estruturais, existem também similaridades e desafios comuns entre o público e o privado. A primeira delas é a dificuldade em garantir um atendimento verdadeiramente humanizado. Em ambos os sistemas, a sobrecarga dos médicos e o pouco tempo disponível para cada paciente resultam em consultas rápidas, muitas vezes sem espaço para diálogo, explicações detalhadas ou acolhimento adequado. Tanto no SUS quanto nos planos, usuários relatam a sensação de que foram “atendidos às pressas” e de que suas queixas não foram ouvidas em profundidade. Além disso, burocracias administrativas, falhas de comunicação entre os níveis de atenção e demora na entrega de exames prejudicam a continuidade do cuidado, impactando diretamente a qualidade. Outro aspecto que aparece tanto no público quanto no privado é a concentração de profissionais em grandes centros urbanos, deixando regiões periféricas e o interior com baixa oferta de médicos especialistas, o que reforça desigualdades históricas no acesso à saúde. Diversos fatores explicam a baixa qualidade no atendimento médico no Brasil. O primeiro é o subfinanciamento do SUS: estudos indicam que o sistema recebe investimentos insuficientes para atender de maneira adequada a toda a população, o que compromete desde a compra de insumos até a contratação e a valorização de profissionais. A má gestão em algumas localidades, marcada por desperdício de recursos e falta de planejamento, agrava ainda mais esse cenário. No setor privado, por sua vez, a lógica do mercado muitas vezes coloca em primeiro plano a redução de custos, levando a restrições na cobertura e à remuneração reduzida das consultas, o que pressiona médicos a atenderem um número elevado de pacientes em pouco tempo. Em ambos os sistemas, observa- se também a desigualdade regional: enquanto grandes capitais contam com hospitais equipados e ampla rede de profissionais, municípios menores e áreas rurais enfrentam carência de infraestrutura e de especialistas, tornando o acesso à saúde de qualidade ainda mais difícil para populações vulneráveis. Outro fator relevante é a sobrecarga de profissionais de saúde. No SUS, é comum que médicos atendam dezenas de pacientes por dia, em jornadas exaustivas, o que compromete não apenas a qualidade técnica, mas também a dimensão humana do cuidado. Esse mesmo problema se repete na saúde suplementar, uma vez que planos pagam valores baixos por consulta, levando médicos a agendarem atendimentos em intervalos muito curtos para compensar financeiramente. A consequência desse cenário é que o paciente, seja no público ou no privado, frequentemente sente que foi tratado como “mais um número”, sem espaço para esclarecer dúvidas ou criar vínculo com o profissional. Esse distanciamento compromete a confiança no sistema de saúde e reforça a percepção de baixa qualidade, mesmo quando os procedimentos técnicos são adequados. Por fim, ao refletir sobre a qualidade do atendimento médico e a falta de estrutura na saúde brasileira, fica evidente que tanto o SUS quanto a saúde suplementar enfrentam limitações e desafios que precisam ser superados por meio de políticas públicas consistentes, maior investimento e melhor gestão. O SUS deve ser fortalecido com recursos adequados, valorização dos profissionais e estratégias de gestão que reduzam desperdícios e tornem o sistema mais eficiente. Já os planos privados necessitam de regulação mais rigorosa para garantir cobertura integral, evitar abusos contratuais e oferecer atendimento humanizado, sem sobrecarregar os médicos. A solução não está em escolher entre um ou outro sistema, mas em reconhecer que ambos são complementares e fundamentais para a saúde coletiva. Para avançar, é necessário enxergar a saúde como direito social e não como mercadoria, garantindo que cada cidadão, independentemente de classe social, região ou renda, tenha acesso digno, ágil e de qualidade ao atendimento médico. Somente assim será possível transformar a percepção de desigualdade em uma realidade de equidade e dignidade no cuidado à população. REFERÊNCIAS • Scheidweiler, P. (2019). Planos de saúde no Brasil: expansão e desafios. • Ciommo, A. (2019). Saúde suplementar: limitações e perspectivas. • STRUETT, M.A.M. (2020). Políticas Públicas da Saúde. Paranavaí: FATECIE. • Observatório 3º Setor. (2024). 62% dos brasileiros não buscam atendimento médico quando precisam. Disponível em: observatorio3setor.org.br. • Associação Médica Brasileira (AMB). (2024). Distribuição de médicos no Brasil. • SciELO. (2023). Fatores que influenciam a satisfação do paciente ambulatorial em uma população de baixa renda. QUALIDADENO ATENDIMENTO MÉDICO E A FALTA DE ESTRUTURA NA ÁREA DA SAÚDE NO BRASIL SHEILA ESTEVES