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Brasília-DF. Sociedade da educação no BraSil Elaboração Rogério Gonçalves de Castro Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I SOCIEDADE E EDUCAÇÃO .................................................................................................................. 11 CAPÍTULO 1 O CENÁRIO GLOBAL E AS POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIAIS — CONSIDERAÇÕES INICIAIS ......... 11 CAPÍTULO 2 A SOCIOLOGIA APLICADA À EDUCAÇÃO ............................................................................... 15 UNIDADE II A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS .................................................................. 36 CAPÍTULO 1 DIREITO À EDUCAÇÃO: INCLUSÃO E REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES SOCIAIS ....................... 36 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 52 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução Podemos dizer que socialização é o processo de assimilação de hábitos característicos de um grupo social, no qual o indivíduo está inserido. É todo o processo por meio do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo contínuo, que nunca chega ao seu término e realiza-se por intermédio da comunicação, inicialmente pela “imitação” para se tornar mais sociável. Imitação: a reprodução dos comportamentos dos agentes socializadores é fundamental à interiorização desses mesmos comportamentos, já que tendemos a imitar os comportamentos, os gestos, as expressões que observamos, na tentativa de nos integrarmos mais facilmente nas várias situações do nosso quotidiano. (Disponível em: ). O processo de socialização inicia-se, contudo, após o nascimento e por meio, primeiramente, da família ou de outros agentes próximos, da escola, dos meios de comunicação de massas e dos grupos de referência que são compostos pelas nossas bandas favoritas, atores, atletas, super-heróis etc. Socialização é o processo pelo qual o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, adquirindo os seus hábitos e valores característicos. É pela socialização que o indivíduo pode desenvolver a sua personalidade e ser admitido numa sociedade. Ela é, portanto, um processo fundamental não apenas para a integração do indivíduo na sua sociedade, mas também, para a continuidade dos Sistemas Sociais. É o processo de integração do indivíduo numa sociedade, apropriando comportamentos e atitudes, modelando-os por valores, crenças, normas dessas mesmas culturas em que o indivíduo se insere. Entende-se por socialização primária quando a criança aprende e interioriza a linguagem, as regras básicas da sociedade, a moral e os modelos comportamentais do grupo a que se pertence. A socialização primária tem um valor primordial para o indivíduo e deixa marcas muito profundas em toda a sua vida, já que é aí que se constrói o primeiro mundo do indivíduo. Para Bernstein (1974), por meio de um processo de contextualização primária, que ocorre na família e no grupo de amigos, a criança adquire procedimentos e realizações que lhe permitem receber e oferecer comunicação apropriada. 8 Essas realizações estão, ao nível da contextualização primária, incorporadas nos contextos locais que lhes dão significância e significado legítimos e têm uma estrutura subjacente, determinada diretamente pela classe social. Ainda, segundo o autor, a experiência diária informal, a comunicação diária no interior da família e do grupo de amigos cria procedimentos e realizações fundamentais para a educação formal. Contudo, a educação formal faz uma seleção, refocagem e abstração dessa experiência, isto é, faz uma descontextualização e recontextualização. A socialização secundária é todo e qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo da sua sociedade (na escola, nos grupos de amigos, no trabalho,que muitas pessoas apenas obedeçam a ordens, sem, contudo, questionar ou lutar pela transformação da realidade, situação esta, que é motivada principalmente pelo medo e pela insegurança. Assim, Freire afirma que: A liberdade que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre; pelo contrário, luta por ela precisamente por que não a tem. (...) É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos (1985, p.35). Ainda para a autora, a dicotomia encontrada neste universo vai justamente no despertar da conscientização, onde as realidades são, em sua essência, domesticadoras, ou seja, é necessário para o opressor que o oprimido continue em sua condição de aceitação. A diferença entre a permanência na condição de opressão e o avanço para a libertação está, portanto, na conscientização, na politização e no projeto de transformação. Neste sentido o autor baseia-se no pensamento de Marx quando se refere à relação dialética subjetividade-objetividade, o que implica a transformação no sentido amplo de teoria e prática, de conscientizar para transformar e ninguém se conscientiza separadamente dos demais (FREIRE, 1985, p.40). Isto indica que é quando o subjetivo constitui com o objetivo uma unidade dialética que é possível a práxis autêntica, ou seja, a ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Paulo Freire busca a restauração, pois propõe à construção de sujeitos críticos, comprometidos com sua ação no mundo. Por esta razão a educação passa a exercer papel fundamental na desconstrução da característica de alienação que permeou sua história, que provocou uma consciência fragmentada e propõe a construção de espaços de participação, democratização e acesso 35 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I ao saber. Esta forma de educação levaria à conscientização, para a formação crítica e cidadã. Freire, referenda que a constatação de uma dada realidade, por si só, não provoca nenhuma mudança. A intervenção consciente sobre a realidade é tarefa a ser assumida, na busca pela transformação: Constato para mudar e não para me acomodar. Seria uma desolação para mim, se, enquanto ser humano tivesse de reconhecer a minha absoluta incapacidade de intervir eficazmente na realidade. Se tivesse de reconhecer que a minha aptidão de verificar não se alonga na de mudar o contexto em que verifiquei, provocando futuras verificações diferentes” (FREIRE, 2000, p. 42). Quando Freire afirmou que: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1985, p.79), ele denunciou toda opressão contida na educação. Ele insistiu ao dizer que para a superação da opressão é preciso que a educação se torne prática de liberdade, ao contrário da forma como ela se apresentou, ou seja, passe a ser prática de libertação e não de dominação. Com estas características a escola passaria a ser um espaço de luta contra-hegemônica no sentido dado por Antônio Gramsci, e estaria contribuindo, no coletivo, para o processo de emancipação humana pensado por Marx. Fonte: . Leia “Educação, Sociologia da Educação e Teorias Sociológicas Clássicas: Marx, Durkheim e Weber” de Paula Cristina Lopes. Disponível no link . 36 UNIDADE II A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS CAPÍTULO 1 Direito à educação: inclusão e redução das desigualdades sociais A garantia do direito à educação de qualidade é um princípio fundamental para as políticas e gestão da educação, seus processos de organização e regulação, assim como para o exercício da cidadania. A despeito dos avanços nas políticas e gestão da educação nacional, o panorama brasileiro é marcado por desigualdades regionais no acesso e permanência de estudantes à educação, requerendo mais organicidade das políticas educacionais, por meio da construção do Sistema Nacional de Educação (SNE) e do Plano Nacional de Educação (PNE) como políticas de Estado. O PNE – de duração decenal, ao definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades e propor meios de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas – requer um amplo e articulado planejamento, incluindo a construção e efetivação de planos estaduais, distrital e municipais de educação. O pacto federativo deve envolver União, estados, Distrito Federal e municípios em uma ação que seja o resultado da colaboração e coordenação entre os entes federados e diferentes esferas administrativas, em prol da garantia do direito à educação de qualidade para todos (as). Esses processos requerem a participação da sociedade brasileira, incluindo a participação nas conferências de educação. Em consonância com esses princípios, o PNE definiu como base para o planejamento e as políticas no Brasil as seguintes diretrizes: I - erradicação do analfabetismo; II - universalização do atendimento escolar; III - superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual; 37 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II IV - melhoria da qualidade da educação; V - formação para o trabalho e para a cidadania; VI - promoção do princípio da gestão democrática da educação; VII - promoção humanística, científica, cultural e tecnológica do País. VIII - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto, que assegure atendimento às necessidades de expansão, com padrão de qualidade e equidade; IX - valorização dos (as) profissionais da educação; X - promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos, à diversidade e sustentabilidade socioambiental. Para garantir o direito à educação, em sintonia com diretrizes nacionais, os desafios são: » a melhoria do acesso, permanência e aprendizagem com qualidade, em todos os níveis, etapas e modalidades; » a universalização da educação básica, de 4 a 17 anos, até 2016; » a gestão democrática nos sistemas de educação e nas instituições educativas; » reconhecimento e respeito à diversidade por meio da promoção de uma educação antirracista e antissexista; » a valorização dos profissionais da educação pública e privada (professores(as), técnicos(as), funcionários(as) administrativos(as) e de apoio), por meio de políticas de formação inicial e continuada, planos de carreira e salário e melhoria das condições de trabalho. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, organizou a educação em níveis, etapas e modalidades educativas. Quanto à organização em níveis, a LDB dividiu a educação em dois, a saber, educação básica e educação superior (art. 21). Por sua vez, a educação básica se subdivide em três etapas: educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. Art. 9o A União incumbir-se-á de: III - prestar assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de 38 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória, exercendo sua função redistributiva e supletiva; Art. 10. Os estados incumbir-se-ão de: II - definir, com os municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades, de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas esferas do poder público; (…) VI - assegurar o ensino fundamental e oferecer, comprioridade, o ensino médio a todos que o demandarem, respeitado o disposto no art. 38 desta Lei; (Redação dada pela Lei no 12.061, de 2009) Art. 11. Os municípios incumbir-se-ão de: V - oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas, e, com prioridade, o ensino fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino. Compete ao município a oferta de educação infantil e, sobretudo, do ensino fundamental, sua responsabilidade prioritária. Os estados são responsáveis pela oferta prioritária do ensino médio e pela garantia do ensino fundamental, em conjunto com os municípios. No que se refere ao Distrito Federal, dada sua singularidade, ele tem as mesmas competências de estados e municípios. É importante destacar que a União, por meio de sua função redistributiva e supletiva, deve prestar assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória. Isso quer dizer que o planejamento da educação deve envolver os diferentes entes federados nas políticas educacionais, programas e, sobretudo, por meio da aprovação de planos de educação (nacional, estadual, distrital e municipal). A educação superior, que pode ser oferecida tanto pelo setor público quanto pelo setor privado, envolve responsabilidades e incumbências dos entes federados, sobretudo da União. É importante destacar que a educação oferecida pelo setor privado é uma concessão do Estado. As instituições privadas de educação superior, bem como as IES federais, fazem parte do sistema federal de educação e devem estar alinhadas às políticas 39 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II de regulação e avaliação definidas por esse sistema. As instituições municipais, estaduais, distrital de educação superior, por sua vez, vinculam-se aos sistemas estaduais/distrital de ensino, devendo, ainda, considerar a legislação nacional, incluindo as políticas de regulação e avaliação. A educação nacional, organizada em dois níveis (básica e superior), apresenta formatos organizativos diferenciados, definidos pela legislação como modalidades educativas. A LDB define como modalidades: a. educação de jovens e adultos (EJA) àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria (art. 38); b. educação profissional e tecnológica, que se integra aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia (art. 39); c. educação especial, aos educandos com deficiência ou superdotação, devendo ser ofertada, preferencialmente, na rede regular de ensino (art. 58). Além dessas modalidades, outros formatos organizativos da educação e do ensino foram implementados pelos governos, articulados às políticas de ação afirmativa e inclusão, na perspectiva do combate às desigualdades sociais e regionais, da eliminação de preconceitos de origem, raça, gênero, idade e outras formas de discriminação e, ao mesmo tempo, fomentando a igualdade de acesso e permanência, respeitando as especificidades regionais e a diversidade sociocultural e ambiental. Dentre eles: educação escolar indígena, educação escolar quilombola, educação para jovens e adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais, educação do campo e dos povos das águas e das florestas. Ao abordar alguns indicadores sobre a educação no Brasil, uma análise pormenorizada da situação implica a agregação de indicadores regionais, estaduais e municipais, que permitam um refinamento analítico. Em que pese os limites desta análise, busca-se fornecer alguns elementos para a problematização dos principais desafios da educação básica e superior. A discussão nacional requer, portanto, o estabelecimento de políticas, estratégias e ações, que contribuam para a melhoria da educação, articulando níveis, etapas e modalidades educacionais. Matrículas Ainda que não sejam suficientes para a compreensão dos grandes desafios para a educação nacional, os indicadores de matrícula são importantes para dimensionar o 40 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS tamanho do sistema educacional brasileiro. Os censos da educação básica e superior mostram que, em 2011, o país registrou um total de 50.972.619 alunos matriculados na educação básica e 6.765.540 alunos matriculados na educação superior, somando um total de 57.738.159 matrículas, incluindo as modalidades educacionais (BRASIL, 2011). A população brasileira e a demanda por educação Para identificar a demanda por educação básica e superior, precisamos considerar a relação entre número de crianças e jovens, nas idades próprias, e sua correspondência a cada nível/etapa educacional. No caso da educação de 0 a 3 anos de idade, correspondente à creche, a ampliação de vagas deverá resultar da demanda das famílias e da sociedade civil organizada. Portanto, o atendimento de 0 a 3 anos de idade constitui um direito da criança e das famílias, porém, não se insere no âmbito da educação obrigatória. Segundo apurado no Censo Demográfico 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de crianças e jovens de 0 a 24 anos soma um total de 77.455.114 pessoas, que corresponde a 40,6% da população brasileira. As diferenças entre o número de jovens e adolescentes e os respectivos números de matrículas por nível/etapa e, particularmente, o número de matrículas correspondente a cada faixa etária e nível/etapa educacional evidenciam a grande demanda da população brasileira por educação. De uma população de 77.455.114 crianças e jovens, de 0 a 24 anos, o número geral de matrículas na educação básica e superior é de apenas 52.118.610, contudo, ao verificar o número de matrículas segundo a faixa etária e o nível/etapa educacional correspondente, o número cai para 39.362.826. Esse indicador aponta para dois grandes desafios: a) garantir o acesso de todos (as) à educação; b) melhorar a qualidade da educação, de modo garantir a aprendizagem e a redução da distorção/ defasagem idade-nível/etapa educacional, bem como a correção do fluxo escolar. Média de anos de estudos da população brasileira Outro indicador que expressa o grande desafio a ser vencido nos próximos anos se refere à média de anos de estudos dos jovens brasileiros. Os dados referentes ao período de 1996 a 2011 indicam um aumento na média de anos de estudo, tanto na população com 15 anos ou mais de idade, quanto na população de 18 a 24 anos, que seria a faixa etária correspondente à educação superior. Na população de 15 ou mais anos de idade, no período supracitado, foi registrado um incremento médio de dois anos a mais no tempo de estudo, passando de 5,7 para 7,7 41 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II anos. Contudo, observando-se o indicador segundo a localização, os dados demonstram que na zona rural o crescimento foi menor, tendo em vista que a população do campo teve um ano a menos que a urbana, apresentando um incremento de apenas 1,7 anos. Defasagem idade-nível/etapa educacional correspondente O descompasso entre o número da população brasileira, o total de matrículas e o número efetivo de matrículas por nível/etapas educacionais na faixa etária correspondente é chamado de defasagem escolar e/ou defasagem idade/série/nível/etapa educacional. A diferença registrada entre o número de crianças e jovens, o número geral de matrículas e total de matriculas segundo o nível/etapas/idade correspondente é resultante de múltiplos fatores, dentre eles: a existência de crianças e jovens fora da escola, ingresso tardio no sistema educacional, baixo aproveitamento/desempenhoescolar, matrículas em nível/ etapa educacional distintas da prevista para a idade própria (incluída a superdotação). Há, no Brasil, quantidade significativa de crianças e jovens com defasagem na relação idade/série/nível/etapa educacional correspondente. Temos o desafio de ampliar o acesso e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de aprendizagem, para superar a defasagem idade/série/nível/etapa educacional em todos os níveis educacionais. A baixa média geral dos anos de estudo da população brasileira estabelece interfaces com o abandono dos estudos e com o percentual da população que não conclui o ensino fundamental e o ensino médio. O país ainda tem um grande desafio pela frente com as dificuldades para a conclusão do ensino fundamental e do ensino médio na idade própria. Segundo o Censo da Educação Básica de 2011, no ensino fundamental, as escolas municipais apresentam a maior taxa de defasagem idade/série/nível/etapa educacional (26,5%), seguidas das escolas estaduais (24,2%), das federais (12,9%) e das privadas, que possuem uma defasagem de 5,2%. A taxa média brasileira foi de 22,9%. Portanto, dos 30.358.640 estudantes matriculados no ensino fundamental, 6.952.129 encontram-se fora da faixa de idade adequada para frequentar essa etapa educacional, que é a de 6 a 14 anos. Como o Brasil possuía 29.204.148 pessoas nessa faixa etária em 2010, havia, ainda, uma defasagem de 5.797.637 estudantes no ensino fundamental, com idade entre 6 e 14 anos. As taxas de defasagem idade-nível/etapa no ensino médio são mais elevadas que no ensino fundamental, tendo em vista que, na média, o Brasil apresentou uma taxa de 32,8% em 2011, enquanto que o percentual do ensino fundamental foi de 22,9%. Por esses 42 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS dados, 2.755.426 estudantes, dos 8.400.689 matriculados na etapa final da educação básica, encontram-se fora da faixa de idade adequada para essa etapa educacional, que é de 15 a 17 anos. Como em 2010 o Brasil possuía 10.357.874 pessoas na faixa etária de 15 a 17 anos, há que se incorporar 4.712.611 jovens nessa etapa da educação básica. Quanto à educação superior, os dados da PNAD de 2011 mostram que, dos 6.646.000 matriculados nesse nível de ensino, apenas 3.331.000 (50,1%) estão na faixa etária adequada, ou seja, de 18 a 24 anos. O desafio brasileiro para esse nível de educação, portanto, é atingir a marca de 33% dos jovens com idade entre 18 e 24 matriculados na ES, meta prevista no novo PNE, que terá vigência de uma década a partir de sua aprovação. O quantitativo de jovens nessa faixa etária, em 2010, era de 23.878.190. Como havia apenas 3.331.000 matriculados nessa faixa etária, há ainda que se expandir muito esse nível educacional. Como demonstra os estudos, para alcançar a meta estabelecida, seria necessário incorporar, na ES, 4.548.803 jovens, com idade entre 18 e 24 anos. Outros dados preocupantes com relação aos jovens com idade entre 18 e 24 anos são os de que, dentre os jovens nessa faixa etária que estudavam, ou seja, 6.494.000, 27.000 (0,4%) estavam cursando a alfabetização de jovens e adultos, 633.000 (9,7%) cursavam ainda o ensino fundamental e 2.503.000 (38,5%) estavam matriculados no ensino médio. Portanto, ainda existe uma grande quantidade de crianças e jovens a ser incorporada ao processo educacional brasileiro. Esse é o grande desafio que se relaciona diretamente com o financiamento da educação, pois cada nova matrícula exige ações em cascata, tanto em despesas de pessoal como em outros custeios e investimento. Novos professores e técnicos precisam ser contratados; elevam-se as despesas com água, luz, limpeza, vigilância, material de consumo, alimentos etc., que são as despesas de outros custeios; e eleva-se a necessidade de expansão física e a compra de novos equipamentos, que são os recursos de investimentos. Alfabetização, analfabetismo e taxa de conclusão Além das crianças e dos jovens nas idades próprias, que precisam ser incorporados à educação, há ainda aqueles com idade superior a 15 anos e que não foram alfabetizados ou não possuem a escolaridade básica completa. Temos, portanto, 43.053.942 matrículas de crianças e jovens nas escolas de educação básica financiadas com recursos públicos, o que representa 84,5% do total. Aliado ao 43 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II percentual significativo de matrículas deve-se problematizar a oferta segundo as etapas e modalidades desse nível educacional visando à superação das diferentes distorções. A Emenda Constitucional 59/2009 determina que o atendimento a educação obrigatória de 4 a 17 anos deverá ser universalizada até 2016, sem dúvida um dos maiores desafios para a educação básica no PNE, presente em várias metas e estratégias do plano. A análise das taxas de escolarização, sobretudo a líquida, sinaliza desafios significativos para a expansão da pré-escola e do ensino fundamental. A realidade educacional brasileira é complexa, pois, de um lado temos, na região Sul, uma das melhores taxas relativas ao ensino médio e, ao mesmo tempo, a menor taxa relativa à pré-escola. Os indicadores das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (excluído o Distrito Federal) apresentam desafios na pré-escola e ensino fundamental. Os dados precisam ser amplamente analisados, de modo a apreender a especificidade das regiões, as desigualdades regionais e locais. Um dos grandes desafios do ensino fundamental é garantir o processo de alfabetização das crianças na idade certa. Em 2012, o Brasil estabeleceu o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. É um compromisso formal, assumido pelos governos federal, do Distrito Federal, dos estados e municípios, visando a assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3o ano do ensino fundamental. Outro grande desafio do ensino fundamental é garantir melhorias efetivas nos processos formativos, incluindo a alfabetização das crianças, com ações coordenadas e cooperativas, por meio de compromissos formais, assumidos pelos governos federal, do Distrito Federal, dos estados e municípios, para que todas as crianças, os jovens e os adultos tenham a garantia de uma formação de qualidade, que lhes permita compreender a realidade social em que se situam, bem como ter acesso aos saberes produzidos pela humanidade. Propostas inovadoras e pautadas pela inclusão devem assegurar dinâmicas de organização e gestão da prática que contribuam para a otimização dos processos pedagógicos e, consequentemente, para a melhoria da qualidade. Para lograr políticas e ações de qualidade, o poder público deve garantir um conjunto integrado de programas, materiais e referências curriculares e pedagógicas, que contribuam para a alfabetização e o letramento, o acesso a bens culturais e ao saber historicamente produzido, tendo como eixo principal a formação dos professores. Certamente, processos formativos devem expressar dinâmicas pedagógicas articuladas à valorização dos profissionais da educação, gestão democrática, novas formas de organização e gestão das instituições educativas, que se articulem e contribuam para 44 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS o fortalecimento dos conselhos de educação, dos conselhos escolares e de outras instâncias comprometidas com a educação de qualidade. Educação especial As análises mais pormenorizadas sobre os desafios da universalização da educação básica devem contemplar também as especificidades de parcelas da população historicamente desconsideradas na definição das políticas educacionais e gestão dos sistemas de ensino e instituições educativas. Dados do Inep (2011) indicam que a política de inclusão social assumida, nos últimos anos, pelo Estado brasileiro e, particularmente, pelos sistemas de ensino, no atendimento educacional de pessoas com deficiência, nas diferentes etapas e modalidades da educação, tem sido exitosa,sobretudo no ensino fundamental. No que se refere especificamente à inclusão de alunos de 4 a 17 anos, público-alvo da educação especial, em escolas ou classes comuns do ensino regular, o Censo da Educação Básica de 2011 demonstra que a inclusão entre os anos de 1998 e 2010 subiu de 13% para 68,9%, enquanto o atendimento em escolas especializadas caiu de 87% para 31,1%. As escolas inclusivas são predominantemente públicas e o atendimento em escolas ou classes exclusivas/especiais é feito, em sua maioria, por instituições privadas. Vários são os desafios para garantir a universalização da educação básica obrigatória e, desse modo, a superação da desigual oferta da educação no Brasil. Para ampliar o acesso (de 4 a 17 anos), devem-se aprimorar os processos de organização e gestão dos sistemas de ensino e das instituições educativas, visando à melhoria da permanência, à valorização dos profissionais da educação e à qualidade de uma aprendizagem significativa, resultando em elevação da taxa de escolarização. Uma política educacional pautada na diversidade e nos direitos humanos traz para o exercício da prática democrática a problematização sobre a construção da igualdade social e a superação das desigualdades. Essa construção pressupõe o reconhecimento da diversidade no desenvolvimento socioeconômico, cultural, econômico e político da sociedade. Por essa razão, a educação como direito fundamental, universal e inalienável deve ser garantida para todos(as), nos diferentes espaços sociais e geopolíticos, em todos os níveis, etapas e modalidades da educação. Valorização dos profissionais da educação: indicadores e desafios Os profissionais da educação básica, compreendido como todos aqueles que estão em efetivo exercício na educação escolar básica, formados em cursos reconhecidos, 45 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II têm papel fundamental na garantia do direito a educação de qualidade socialmente referenciada. A lei define como profissionais da educação: I. professores habilitados em nível médio ou superior para a docência na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio; II. trabalhadores em educação portadores de diploma de pedagogia, com habilitação em administração, planejamento, supervisão, inspeção e orientação educacional, bem como com títulos de mestrado ou doutorado nas mesmas áreas; III. trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim. A valorização dos profissionais da educação passa, sobretudo, por ações e políticas, visando à formação inicial e continuada, salários, carreira e garantia de condições de trabalho, como definem as metas 15, 16, 17 e 18 do PNE e suas estratégias. Meta 15: Garantir, em regime de colaboração entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, no prazo de um ano de vigência deste PNE, política nacional de formação e valorização dos profissionais da educação, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. Meta 16: Formar em nível de pós-graduação cinquenta por cento dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos os profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino. Meta 17: Valorizar os (as) profissionais do magistério das redes públicas da educação básica, a fim de equiparar o rendimento médio dos (as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano da vigência deste PNE. Meta 18: Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os (as) profissionais da educação básica e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de carreira dos profissionais da educação básica pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do art. 206, VIII, da Constituição Federal. 46 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS Para tanto, faz-se necessária maior organicidade por parte dos sistemas de ensino para garantir as políticas de valorização associadas à formação, aos salários, à carreira e ao desenvolvimento profissional, equivalentes com as categorias profissionais de outras áreas com o mesmo nível de escolaridade, assim como o direito ao aperfeiçoamento profissional contínuo. Para definição e implementação das políticas de valorização dos professores da educação básica e superior e demais profissionais da educação, requer o conhecimento e o debate acerca das condições objetivas e das proposições direcionadas à valorização desses profissionais, resguardando as especificidades locais. O Brasil tem enormes desafios para garantir formação inicial a professores em efetivo exercício na educação básica pública, porém ainda sem graduação, além de formação continuada àqueles já graduados, por meio da interiorização da oferta de cursos e programas de educação superior. Outro desafio refere-se à expansão e consolidação de cursos a dirigentes, gestores, funcionários e outros profissionais da educação básica da rede pública. Considerando as políticas de inclusão adotadas no país a partir da relação articulada entre educação e diversidade, faz-se necessário desenvolver dinâmicas e processos pedagógicos mais adequados às áreas de educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação para os direitos humanos, educação das relações étnico-raciais, de gênero e orientação sexual e outras temáticas que contribuam para a efetivação das políticas nessas áreas nas instituições de educação básica no Brasil. Um dos grandes avanços em relação aos docentes da educação básica foi a Lei Federal no 11.738, de 16 de julho de 2008, que regulamentou a alínea “e” do inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para instituir o piso salarial profissional nacional aos profissionais do magistério público da educação básica. Além de determinar que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios não podem fixar o vencimento inicial das carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 (quarenta) horas semanais com valor abaixo do piso salarial profissional nacional, a lei 11.738/2008 determina, também, em seu artigo 2o, § 4o, que, na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com alunos. Desta forma, no mínimo 1/3 da jornada de trabalho devem ser destinados às chamadas atividades extraclasse. Efetivar esta Lei é de fundamental importância, pois vários estados não pagam o piso anunciado pelo MEC e/ou não cumprem a jornada extraclasse, 47 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II ou seja, não garantem a destinação de no mínimo um terço da jornada de trabalho do/a professor/a para atividades extraclasse. Por outro lado, os desafios de hoje apontam para uma agenda historicamente demandada de se avançar nos processos sobre a identidade e valorização dos profissionais da educação, envolvendo professores e funcionários. Esses desafios, por sua vez, se traduzem em agenda positiva, quando relacionados à meta 18 do PNE e estratégias direcionadas a esse segmento, tais como: assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino; instituir programa de acompanhamento do professor iniciante, supervisionado por profissional do magistério com experiência de ensino, a fim de fundamentar, com base em avaliação documentada, a decisão pela efetivação ou não efetivação do professor ao final do estágio probatório; fomentar a oferta de cursos técnicos de nívelmédio, destinados à formação de funcionários de escola para as áreas de administração escolar, multimeios e manutenção da infraestrutura escolar, inclusive para alimentação escolar, sem prejuízo de outras; implantar, no prazo de um ano de vigência dessa Lei, política nacional de formação continuada para funcionários de escola, construída em regime de colaboração com os sistemas de ensino; e realizar, no prazo de dois anos de vigência do PNE, em regime de colaboração com os sistemas de ensino, o censo dos funcionários de escola da educação básica. É importante destacar que a valorização dos profissionais que atuam na educação superior articula-se em torno de salário, carreira, condições de trabalho e formação inicial e continuada. Destacam-se, entre outras, a consolidação de políticas de estímulo a formação pós-graduada stricto sensu (mestrado e doutorado), bem como a concessão de licenças e bolsas, progressão vertical na carreira por meio de titulação, política salarial adequada que propicie ao profissional a atuação no ensino, pesquisa e extensão. Educação superior Como tem sido demonstrado ao longo dessa apostila, a educação brasileira tem apresentado avanços significativos, mas também muito desafios, que precisam ser superados, especialmente no que se refere à ampliação do acesso, correção das distorções idade/série, seja na educação básica ou superior. Os desafios do nível superior também são significativos, especialmente na democratização do acesso e da permanência, ou seja, na garantia de vagas nas instituições de educação superior, sobretudo nas públicas, de modo que os estudantes que concluam o ensino médio possam dar continuidade aos estudos, tendo condições de entrar e concluir com sucesso o curso escolhido. Além disso, atender, também, ao grande contingente de 48 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS pessoas que já concluíram o ensino médio e não tiveram a oportunidade de fazer um curso superior. Para vencer tal desafio, carecemos de ações políticas orgânicas, que envolvam diferentes atores e instituições, movimentos sociais e, sobretudo, as esferas governamentais. Os dados do Censo da Educação Superior, desenvolvido pelo Inep, mostram que, no que se refere à faixa etária desejável, ou seja, 18 a 24 anos, houve aumento do atendimento entre os anos de 1997 a 2011, mas em quantidade inferior ao planejado e ao necessário. Esses dados demonstram ainda que, para além da defasagem no atendimento em geral, a questão se agrava ainda mais com as assimetrias regionais, de sexo, raça e condição social. Nos últimos 14 anos, houve um crescimento geral de atendimento de pessoas que frequentam ou já concluíram o ensino superior de graduação na faixa etária desejável em todo o país, mas, quando observamos em âmbito regional, as assimetrias são visíveis. As regiões Norte e Nordeste tiveram, em 2011, um percentual de 11,6% de pessoas de 18 a 24 anos, portanto, abaixo da média do país (17,6%). As demais regiões apresentaram cerca de cinco pontos percentuais a mais que a média nacional, com destaque para a região Centro-Oeste, cujo percentual foi de 23,9%. Os indicadores revelam a necessidade de um grande esforço para ampliar o acesso à educação superior e, ao mesmo tempo, buscar superar as assimetrias regionais. Quanto às questões socioeconômicas, a diferença de acesso entre os 20% com maior renda e os 20% com renda menor foi superior a 42%, o que requer ações para a superação das desigualdades sociais, que afetam, sobremaneira, o acesso à educação superior. Elas se tornam mais urgentes e necessárias quando analisamos esses dados junto às questões raciais, que sinalizam enormes disparidades, tendo em vista que, em 2011, os brancos tiveram cerca de 15% mais acesso que os negros a esse nível de ensino. Já na questão de gênero, as mulheres mais jovens estão tendo mais acesso ao nível superior que os homens, tendo em vista que, dos estudantes com faixa etária entre 18 a 24 anos que estavam matriculados em algum curso superior, em 2011, 14,6% são homens e 20,5% mulheres. Financiamento da educação básica e superior A Constituição Federal do Brasil (CF) de 1988 estabeleceu as diretrizes do financiamento e da gestão da educação brasileira. Em seu artigo , afirma que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família”. As escolas públicas devem ser gratuitas, como determina o artigo 206 da CF, e as instituições privadas, concessão do Estado, devem funcionar conforme as normas e avaliação estabelecidas pelo poder público (BRASIL, CF, 1988). 49 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II Para que o direito a educação seja garantido, a CF, em seu artigo 212, fez uma vinculação do mínimo de recursos financeiros dos impostos arrecadados, que os entes federados devem aplicar na educação pública, de modo a viabilizar a organização e funcionamento das escolas públicas do país. Assim, a União aplicará, anualmente, nunca menos de 18, enquanto que o percentual mínimo dos estados, Distrito Federal e municípios não poderão ser inferiores a 25% da receita resultante de impostos, compreendida e proveniente de transferências para manutenção e desenvolvimento do ensino. Do percentual aplicado pela União, deverão ser descontadas as transferências aos estados, Distrito Federal e municípios; os estados devem adicionar ao seu percentual mínimo os recursos transferidos pela União, descontando os recursos transferidos aos municípios. Estes, por sua vez, devem aplicar além do que lhes é devido, ou seja, pelo menos 25% do volume de impostos por eles arrecadados, os repasses feitos pela União e pelos estados. Além dos recursos citados, uma fonte adicional para educação vem, por determinação da CF, no § 5o do artigo 212, da contribuição social do salário-educação, recolhida pelas empresas. A aprovação da Emenda Constitucional no 59, de 11 de novembro de 2009, constituiu elemento fundamental para o financiamento da educação, pois estabeleceu a construção de um plano nacional de educação, definiu a obrigatoriedade de uma vinculação entre gastos em educação e percentual do PIB e a meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto deveria ser estabelecida no PNE. Defender 10% do PIB como o percentual a ser investido na educação significa que este é o mínimo necessário para garantir as condições de uma educação com qualidade para a formação das crianças, dos jovens, dos adultos e dos idosos das instituições de educação básica e educação superior públicas do país, além da pesquisa, extensão e produção do conhecimento. Estas condições passam, segundo pesquisas e cálculos feitos por especialistas e órgãos de governo, por instituir um quadro de professores qualificado; uma carga horária suficiente para o desenvolvimento de atividades que não sejam, apenas, aulas; a dedicação dos professores a uma só escola; o aumento de salários de acordo com a formação continuada e a titulação; um corpo docente pertencente ao quadro efetivo, com entrada por meio de concurso público; a dedicação dos funcionários a uma só escola; instalações bem conservadas; a existência de biblioteca e laboratórios; motivação para o trabalho; diretor eleito e com experiência docente e de gestão; participação da comunidade escolar; integração da escola com a comunidade local e um conselho escolar atuante; cuidados com a segurança da comunidade escolar; assim 50 UNIDADE II │ A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS como o desenvolvimento de projetos especiais com governos e comunidade local. Estes são alguns dos parâmetros, a partir dos quais se deve calcular o custo aluno qualidade (CAQ), incorporado nas estratégias da Meta 20 do Projeto do novo PNE. O mecanismo do custo-aluno/qualidade (CAQ) foi apontado pela Conae 2010 como referência para o financiamento da educação pública brasileira. Devendo ser definido a partir do custo anual por estudante dos insumoseducacionais necessários para que a educação básica e a educação superior pública alcancem um padrão mínimo de qualidade. Há, portanto, uma ligação direta entre custo-aluno/qualidade e os recursos financeiros aplicados em educação. A valorização dos profissionais da educação, por meio de Piso Salarial Profissional Nacional, planos de carreira, formação inicial e continuada, bem como a gestão democrática, a infraestrutura adequada e materiais em quantidade suficiente são importantes para a qualidade da educação oferecida aos estudantes e impactam fortemente os recursos aplicados nas instituições educativas. Um salto educacional de qualidade socialmente referenciada no Brasil só será possível, portanto, com o crescimento dos recursos em relação à riqueza nacional. A Conae e o PNE aprovados no Senado Federal, em consonância com a Constituição Federal, a LDB e as leis complementares sinalizam grandes desafios para a educação nacional. Dentre eles, destacamos a garantia de processos participativos de discussão e deliberação, que envolvam os diferentes segmentos da sociedade brasileira, assegurando, entre outros, os seguintes princípios e políticas: » A efetivação do Sistema Nacional de Educação e a consolidação do Fórum Nacional de Educação como instâncias de deliberação do SNE. » A regulamentação do regime de colaboração e cooperação entre os entes federados. » A ampliação do investimento em educação pública em relação ao PIB, de modo a garantir 10% do PIB para a educação nacional, bem como a efetiva regulação democrática da educação nacional. » A defesa da educação democrática e de qualidade, tendo por eixos a inclusão, a diversidade e a igualdade, bem como a instituição de um sistema nacional de avaliação em sintonia com esses princípios, de modo a assegurar, por meio de políticas integradas e afirmativas, melhorias no acesso e permanência, com sucesso para todos. » A consolidação de políticas e programas de formação, desenvolvimento profissional e valorização dos profissionais da educação, incluindo planos de carreira e remuneração compatíveis. 51 A ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA E SEUS PRINCIPAIS DILEMAS │ UNIDADE II Quanto à gestão e financiamento da educação, incluindo os níveis, as etapas e as modalidades de educação que a constituem: » O redimensionamento dos recursos, por meio da consolidação do Fundeb e da otimização da relação entre os entes federados, consolidam o financiamento da educação básica e ampliam o aporte financeiro, especialmente da União, bem como a efetivação de um padrão de custo-aluno indissociável da qualidade. » Educação infantil, incluindo a consolidação de programas específicos direcionados à expansão com qualidade para essa etapa da educação básica. » Consolidação de políticas, visando à garantia da ampliação da escolarização obrigatória no país, que prevê, pela Emenda Constitucional no 59/2009, a educação básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria, por meio de estabelecimento de diretrizes, políticas e ações destinadas, dentre outras, à melhoria do ensino fundamental e de sua consolidação como etapa de formação ampliada de oito para nove anos, ao apoio efetivo à reorganização e ampliação do ensino médio e da educação profissional. » A ampliação e consolidação das políticas e programas de expansão da educação superior que viabilizem o acesso e a permanência com qualidade, especialmente no que se refere aos jovens de 18 a 24 anos. Aumentar o número de matrícula nos programas de pós-graduação, de modo a atender ao que define o PNE: » ampliar as políticas de inclusão e de assistência estudantil dirigida aos (às) estudantes de instituições públicas e a bolsistas de instituições privadas de educação superior, de modo a reduzir as desigualdades étnico-raciais e ampliar as taxas de acesso e permanência de estudantes egressos da escola pública, afrodescendentes, indígenas e de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, de forma a apoiar seu sucesso acadêmico. Para essas mudanças e a consolidação da qualidade para todos, a educação deverá ser a grande prioridade na próxima década. Em sintonia com as deliberações do FNE e o Documento-Referência da Conae, alguns artigos da Lei do PNE, em tramitação, são etapas fundamentais a esse processo, cujo horizonte é a ampliação de recursos do PIB para a educação, a melhoria, inclusão e democratização da educação. 52 Referências ALTUSSER, L. Pour Marx. Paris: François Maspero, 1973. ______. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). 2a ed. Tradução de Walter Evangelista e Maria Laura Vigueiros de Castro; introdução crítica de José Guilhon Albuquerque, Rio de Janeiro: Graal, 1987. ASSIS, Cássia Lobão; NEPOMUCENO, Cristiane Maria. Estudos contemporâneos de cultura. Campina Grande: UEPB/UFRN, 2008. AZEVEDO, Janete Maria Lins. A educação como política pública. São Paulo: Autores Associados, 2001. BARONE. R. Educação e políticas públicas: questões para o debate. Disponível em: . Acesso em: 17/9/2014. BERNSTEIN, B. 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Quando este código é adquirido, ocorre uma contextualização secundária e esta contextualização, isto é, as codificações do código educacional, informa as transmissões do adulto ao nível da contextualização primária, informando assim a experiência que a criança tem do processo de descontextualização. Ao nível da contextualização secundária, os significados são reunidos e separados de uma maneira particular, gerados por formas específicas de relações sociais, sendo o poder e o controle consubstanciados na estrutura simbólica libertada pelo código subjacente à recontextualização. A tese de Bernstein representa, neste sentido, uma tentativa para compreender como é que a classe social atua diferencialmente no processo de contextualização primária e no processo de recontextualização, de forma a reproduzirse. Importante salientar que a socialização é a transmissora da cultura, sendo que e a transmissão se dá por meio da educação. Entenda-se transmissão como qualquer forma de aprendizado passado de um indivíduo a outro e por esse processo de aculturação acontece a endoculturação do ser social. O processo cultural denominado pela Antropologia como endoculturação ou enculturação é aquele por meio do qual os indivíduos aprendem o modo de vida da sociedade na qual nascem, adquirem e internalizam um sistema de valores, normas, símbolos, crenças e conhecimentos. São, por 9 assim dizer, condicionados a um padrão cultural. Endoculturação significa interiorização, assimilação, apropriação, absorção, aprendizagem. É um processo social que se inicia na infância mediado pela família, pelos amigos, posteriormente, a partir da escola, da religião, do clube, do trabalho, do partido político e de tantos outros grupos sociais. (ASSIS, 2008, p. 3). INCLUíDA A endoculturação acontece de forma sistemática, quando se dá por mecanismos e instituições que se utilizam de metodologias formais para a transmissão do conhecimento e de forma assistemática, quando os indivíduos adquirem o conhecimento a partir da experiência do cotidiano, sem que haja uma demarcação formal dos ensinamentos. Já a aculturação é o processo de troca e/ou fusão entre culturas. Por meio do contato prolongado ou permanente, duas ou mais culturas permutam entre si seus valores, conhecimentos, normas, hábitos, costumes, símbolos, enfim, seus traços culturais. Nesse processo, uma cultura se caracteriza como doadora e a outra como receptora, o que não significa dizer que este seja um processo de via única, ou seja, quando em contato, todas as culturas podem sofrer mudanças, pois ocorre aí um processo de influxo recíproco (ULLMANN, 1991). De forma muito apropriada, Coelho (2004, p. 36) define a aculturação como: [...] resultante de uma pluralidade de formas de intercâmbio entre diversos modos culturais – cultura erudita, popular, empresarial, etc. – que geram processos de adaptação, assimilação, empréstimo, sincretismo, interpretação, resistência (reação contra-culturativa), ou rejeição de componentes de um sistema identitário por um outro sistema identitário. Modos culturais compósitos, como operas montadas em estádios de futebol, espetáculos de dança moderna apoiados em manifestações de origem popular, como jazz, exemplificam processos de aculturação ou de culturas híbridas. Por esta definição podemos concluir que toda e qualquer apreensão que o indivíduo “toma” para si é resultado da socialização, desde o seu nascimento (e até antes, pois para o seu nascimento teve antes que existir diversas relações: pai e mãe, mãe e médico etc.) até à sua morte (e mesmo depois, pois o ritual fúnebre é um fenômeno social). Ele será objeto da socialização, seja na escola, na empresa, na família, com os amigos, com os inimigos, nos cultos religiosos, nos momentos de lazer, ao comprar algo, ao ler um livro, ao imitar alguém, ao assistir TV, ao ir ao médico ou espetáculo cultural e até quando estiver olhando para um quadro para descansar do “contato” com as pessoas; em qualquer destes momentos e em infinitos outros, estará acontecendo a “socialização”. 10 Portanto, esse caderno de estudo objetivará fazer uma análise do tema Sociedade e Educação, abordando o contexto da sociologia aplicada à educação. Versará ainda, sobre a temática escola pública brasileira e seus principais dilemas, assim como a contextualização do direito à educação: inclusão e redução das desigualdades sociais. Objetivos » Abordar regras conceituais sobre o processo de integração social. » Introduzir as questões contemporâneas da educação em geral e em particular do ensino superior. » Promover o entendimento sobre a dinâmica social e questões da formação de professores. » Criar condições para a problematização e análise da relação entre a educação e as estruturas sociais. 11 UNIDADE ISOCIEDADE E EDUCAÇÃO CAPÍTULO 1 O cenário global e as políticas públicas e sociais — Considerações iniciais De acordo com Rosa Elisa M. Barone (1999), o cenário global sugere diferentes e inúmeras análises, reflexões e críticas. Uma das críticas enfatiza os desdobramentos do modelo de ajuste estrutural para os países em desenvolvimento – a ampliação do apartheid social, com a ampliação do fosso entre os países; a imposição de processos de modernização aos países em desenvolvimento, por meio da absorção de novas tecnologias, sob o risco de reforçarem sua exclusão; a definição de uma agenda educacional que privilegie o suprimento das necessidades identificadas como barreiras à maior produtividade e qualidade do produto. Esta análise destaca o fortalecimento do indivíduo como ator central da história em relação ao coletivo e o privilégio concedido à iniciativa privada, à livre concorrência e às leis do mercado. Para Barone (1999) cabe ao Estado, nesse processo de readequação das diferentes forças, desempenhar ações de caráter compensatório. Junto com a definição de novas relações entre o público e o privado, as medidas compensatórias cristalizam-se em uma nova estrutura de relações sociais. Como parte da política de compensação dos ajustes econômicos implementados, foram criados os “fundos” destinados ao financiamento de programas sociais, visando garantir uma estrutura institucional que propiciasse a superação de problemas históricos da política social da América Latina. Acreditava-se que os problemas podiam ser solucionados com uma coordenação intersetorial, com a convergência orçamentária e com um sistema de informações e avaliações dos diferentes programas. Neste sentido, buscou-se: […] abandonar a configuração estatal-monopólica na formulação e na administração dos serviços sociais, por meio de mecanismos flexíveis de dotação de recursos, particularmente os resultantes em bem- 12 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO estar, que assegurassem uma descentralização efetiva dos serviços. Pensava-se em um modelo ‘pluralista’ de política social […] que reconhecesse as vantagens pluralistas do setor privado, o setor não governamental e outros que exercem efeito sobre o bem-estar, como a família, organizados em um sistema com capacidade de resolver os problemas concretos da população. Em sua prática, no entanto, os fundos acabaram se portando diferentemente do prescrito, constituindo-se em um mecanismo paralelo à administração pública dos setores sociais. O conjunto desses aspectos, na prática, reforça a vulnerabilidadedos países em desenvolvimento em relação à definição de suas políticas públicas. Para os países da América Latina e para o Brasil em particular, contrariando os ganhos advindos da Constituição de 1988, ao longo dos anos 1990 verifica-se que: […] o desmonte da já precária estrutura de proteção social ocorre concomitantemente aos efeitos dos programas de ajuste macroeconômico. A receita neoliberal aplicada desigualmente no cenário latino-americano tem os mesmos referenciais de ação: privatização, descentralização, localização e programas sociais de emergência, sendo que o modelo chileno é apresentado como paradigma a ser seguido em virtude de seu ‘êxito’ na reformulação do papel do Estado. Nesta mesma direção, podemos destacar que o cenário pós-constituição de 1988 vem sendo fortemente marcado pela presença de políticas sociais sem direitos sociais. Concordamos com a avaliação do referido autor ao mostrar que ao longo de sua história o país vem se defrontando com a constante intervenção estatal no âmbito das políticas sociais. Ao mesmo tempo, o Estado tem funcionado como salvaguarda dos detentores de capital, ainda que em muitos momentos sua presença tenha sido repudiada, em nome dos interesses do mercado. No quadro atual, de desemprego crescente e de privações ilimitadas, a intervenção do Estado é condição essencial para garantir os direitos sociais contidos na Carta de 1988, buscando construir a segurança social no Brasil, e “não o Estado do bem-estar social que o passado não concretizou aqui”. Ao mesmo tempo em que o debate sobre a presença estatal na economia e nas políticas sociais ganham corpo, assiste-se a um intenso crescimento das ações sociais propostas no âmbito da iniciativa privada. A ampliação do setor privado no campo das políticas sociais O debate sobre o novo caráter e perfil das políticas sociais vem tendo eco entre os diferentes segmentos da sociedade civil e da iniciativa privada. Cresce a importância 13 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I e a atenção dadas às organizações não governamentais, interlocutoras privilegiadas para o diálogo entre as instâncias do governo e os interesses da sociedade, propondo uma reflexão política de fundo sobre o público e o privado. Cresce a participação da iniciativa privada no campo das políticas sociais, sobretudo aquelas ligadas à educação e ao meio ambiente. Na sua prática, o crescimento das iniciativas sociais a partir do setor privado e do capital, recupera e repagina as ideias de assistência e filantropia. São ações que se difundem em conjunto com as críticas ao esgarçamento das políticas sociais públicas. Dentre as ações e práticas gestadas no âmbito da iniciativa privada, destaca-se o desenvolvimento da noção de responsabilidade social difundida por empresários considerados progressistas. Importado dos Estados Unidos, o conceito de responsabilidade social diz respeito aos valores éticos, às pessoas, à comunidade e ao meio ambiente, aspectos considerados estratégicos para o sucesso das empresas no cenário contemporâneo. A ideia de responsabilidade social vincula-se, ainda, ao crescimento do “terceiro setor”, da organização (espontânea) da sociedade civil para o trato de temas públicos. Segundo essa perspectiva. não cabe às empresas apenas: […] discutir a relevância da participação do mercado, do mundo empresarial no enfrentamento dos desafios que encaramos todos nesta virada de século. Os problemas de iniquidade na distribuição da renda, do desemprego, da fome, da violência, entre outros, são muito complexos e não nos deixam outra alternativa que a do engajamento de todos os setores da sociedade no seu combate. /…/ Ética, visão de mundo, transparência, responsabilidade para com o ambiente e a comunidade passam a ser, a cada dia, atributos mais relevantes para a conquista da lealdade de consumidores e consequente rentabilidade nos negócios. Na atração de recursos humanos diferenciados, fator crítico para a competitividade das empresas, o fenômeno se repete. Trabalhadores talentosos, criativos e envolvidos, capazes de criar valor para consumidores e acionistas, exigem outro tipo de ambiente de trabalho: aberto, participativo, transparente, em que o respeito às pessoas, ao indivíduo e suas relações esteja presente. Na qual a recompensa material é apenas um dos dados do jogo. Nos últimos anos, essas ideias vêm se materializando por meio de iniciativas privadas no campo da educação básica pública. As propostas de “adoção” de escolas públicas, uma união entre as empresas e as escolas, já contam com muitos adeptos e reiteram o pressuposto neoliberal de que o Estado seria inoperante na gestão escolar. É também neste contexto que se insere a determinação de um número crescente de empresas de 14 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO assumir para si a tarefa de promover a escolarização de seus trabalhadores, levando a escola para o chão de fábrica. Esse movimento demonstra que a educação contínua e interna ao mundo do trabalho não é mais uma atividade episódica no cotidiano das empresas, mas sobretudo, é parte integrante para a elaboração de um planejamento estratégico. Em síntese, podemos dizer que em um contexto marcado por novas relações entre o público e o privado e de desregulamentações importantes, cabem muitas dúvidas sobre as energias e vitalidade social do setor privado para assumir a liderança de um novo estilo de crescimento. Na verdade, é este setor que deve realizar os investimentos produtivos necessários, aumentando a produtividade do capital, realizando crescente incorporação tecnológica e substituindo o consumo extravagante. A experiência regional mostra um ator econômico muito diferente em transformação: empresários acostumados a operar em mercados protegidos e/ou altamente subsidiados, buscando a rentabilidade imediata e a recuperação do investimento em curto prazo. Converteram-se eles ao novo credo do risco, do investimento produtivo em médio prazo, da maior competitividade baseada em crescente produtividade? Para além das questões sugeridas, é preciso destacar que começa a ganhar espaço neste final de década, um conjunto de indagações formuladas por técnicos responsáveis, em grande medida, pelo receituário internacional proposto aos países emergentes, colocando em “xeque” muitas das propostas neoliberais. O recente discurso que vem sendo divulgado por dirigentes do Banco Mundial é sugestivo e permite algumas considerações. 15 CAPÍTULO 2 A Sociologia aplicada à educação A educação, quando apreendida no plano de determinações e relações, e sendo componente intrínseco dessas mesmas relações, apresenta-se historicamente como um campo de disputa por hegemonia. Portanto, essa dissensão/luta de interesses se trava na perspectiva de articular as concepções, a organização dos processos, os conteúdos educativos, as relações sociais e as pressões sofridas por diferentes segmentos e sujeitos que convivem na escola. Diante disso, torna-se impossível pensar a escola sem considerar a ligação que se estabelece entre educação e sociedade, tão pouco, ignorar as questões que buscam apreender a função social da educação na produção e reprodução das relações sociais, pois, é possível afirmar que a educação só terá sentido se estiver integrada ao processo de transformação social. Analisando o papel e a função que a educação desempenha, sob a égide do ser humano, temos que considera-lo como ser concreto e histórico, que em sociedade relaciona-se com outros seres vivos. Gramsci (1978b p. 43-44) contribui com esta afirmação quando analisa como o homem entra em contato historicamente com os demais homens e a natureza e nos ajuda a perceber como se dá a relação de hegemonia e contra-hegemonia nas ações políticas e sociais e nelas inseridas as concepções educativas. Para realizar a função hegemônica, a mesma classe hegemônica recorre ao que Gramsci chama de instituições privadas, dentre elas, a escola. Para entendermos melhor opapel da educação nas relações sociais, analisaremos os conceitos de “hegemonia”, “contra-hegemonia”, “educação” e “escola”. A construção da hegemonia e a luta das classes sociais Etimologicamente, hegemonia deriva do grego eghestai, que significa “conduzir”, “ser guia”, “ser chefe”, e do verbo eghemoneuo, que quer dizer “conduzir” e, por derivação, “ser chefe”, “comandar”, “dominar”. Eghemonia, no grego antigo, era a designação para o comando supremo das Forças Armadas. Trata-se, portanto, de uma terminologia com conotação militar. O eghemon era o condottiere, o guia e também o comandante do exército (JESUS, 1989, p.31). Para Gramsci (1978b), a hegemonia não é um sistema formal fechado, nem absolutamente homogêneo e articulado – estes sistemas nunca ocorrem na realidade prática, só no 16 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO papel, por isso, são tão cômodos, fáceis, abstratos e esmiuçados –, que não explica os acontecimentos numa sociedade particular determinada. A hegemonia, pelo contrário, é um processo que expressa a consciência e os valores organizados praticamente por significados específicos e dominantes, num processo social vivido de maneira contraditória, incompleta e, até muitas vezes, difusa. Referente às classes sociais Engels afirma que foi Marx quem descobriu a grande lei da história, Lei segundo a qual todas as lutas históricas se desenvolvem quer no domínio político, religioso, filosófico, quer em outro qualquer campo ideológico, são, na realidade, apenas a expressão mais ou menos claras de lutas entre classes sociais, e que a existência e, portanto, também os conflitos entre estas classes são, por sua vez, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, pelo seu modo de produção e de troca, que é determinado pelo precedente (ENGELS, 1885, apud MARX, 2004, p.13). Para Marx, a história de todas as sociedades, desde o aparecimento da propriedade privada, tem sido a história da luta de classes. Gramsci reafirma esta análise ao dizer que é durante o processo de organização que as classes sociais buscam a construção da hegemonia na constituição de relações de forças que são a avaliação dos graus da homogeneidade, autoconsciência e organização atingida pelos vários grupos sociais. Esse momento por sua vez, pode ser analisado e diferenciado em vários graus que correspondem a momentos diversos de consciência política coletiva, assim como tem se manifestado até agora na história (GRAMSCI, 2004, p.49). Com isto concorda Ribeiro (1999), ao afirmar que é a propriedade dos meios de produção, por oposição a não propriedade destes meios que se constitui no elemento definidor dos interesses que colocam em posições antagônicas as classes, pois: Os capitalistas enquanto proprietários do capital e os operários enquanto possuidores de sua energia, sem a qual os meios de produção apropriados pelo capitalista não funcionam. Por isso, o interesse básico que define os antagonismos e, consequentemente, a relação entre as classes, é a propriedade privada dos meios de produção definindo também esta relação como luta, ou mesmo como uma guerra de classes. (RIBEIRO, 1999, p.148). 17 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I Para Gramsci (1978), a hegemonia da civilização burguesa se perpetua na sociedade por meio de atividades e iniciativas de uma ampla rede de organizações culturais, movimentos políticos e instituições educacionais que difundem sua concepção de mundo e seus valores relativos à sociedade. Ainda, em Gramsci, a hegemonia é apresentada em toda a sua plenitude, isto é, não atinge apenas a estrutura econômica e a organização política da sociedade, mas, também age sobre o modo de pensar, de conhecer e as orientações ideológicas e culturais. Segundo Gramsci (1978b), é a prática política da classe dominante, nas sociedades capitalistas avançadas, que visa à constituição da ficção de um interesse geral buscando com isto suscitar o consentimento ativo dos dominados, por intermédio da elaboração de uma função ideológica particular. Isto caracteriza o exercício não coercitivo do domínio e da dominação de classe pela hegemonia ideológica, porque a dominação de classe pode fazer adotar os seus valores e as suas convicções pelo restante da sociedade pelas instâncias de socialização sem ter de recorrer à força ou à repressão, o que na escola assume características próprias. As categorias educação e escola reproduzindo a dominação de classe Quando pensamos nos conceitos de sociedade civil e de hegemonia, é possível observar a educação tanto como instrumento de dominação e reprodução das relações sociais quanto de emancipação. Por meio do pensamento gramsciano, podemos admitir que na sociedade civil circulam ideologias, o que é explicitado por Freitag (1980), quando afirma que “nela a classe hegemônica procura impor à classe subalterna sua concepção de mundo que, aceita e assimilada, vai constituir o senso comum (FREITAG, 1980 p. 38)”. Nesse sentido, de acordo com Clarice Zientarski (2010), a educação representa para a sociedade mais do que uma organização econômica que gera despesas ou lucro, tanto para o poder público, como para a sociedade civil, seja ela a classe dominante ou dominada. Ela representa também uma concepção de mundo, embasada em ideologias e ao mesmo tempo reflete esta concepção na sociedade na qual está inserida. Todos os “socialistas utópicos, todos os anarquistas chamaram a atenção e, ainda mais, confiaram no ensino e na instrução como instrumentos de transformação (MARX; ENGELS, 1992, p. 2)”. Para eles, a educação, a ciência e a extensão do conhecimento podem levar os seres humanos à emancipação e à libertação das forças opressoras. Gramsci concebe a hegemonia como uma relação educacional; a educação equivale às operações fundamentais da hegemonia. A educação, neste caso, entendida em sentido 18 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO mais amplo envolve as relações existentes em toda a sociedade, entre amplas camadas de indivíduos de intelectuais e não intelectuais entre os dirigentes e dirigidos, as elites e os seguidores, entre os governantes e governados. Para Antônio Gramsci (1978b, p.37), toda relação de hegemonia é uma relação pedagógica. Azevedo (2001, p. 40) diz que a educação é compreendida por Marx como um dos instrumentos de apoio na organização e na luta do proletariado contra a burguesia, muito embora questione o papel do Estado burguês como o responsável pela educação popular. As relações educacionais constituem o próprio núcleo da hegemonia, portanto, qualquer análise sobre a hegemonia vai implicar em um estudo cuidadoso sobre as atividades e instituições educacionais, pois, nem sempre as complexidades da hegemonia nem o significado da educação podem ser entendidos enquanto se pensar a educação exclusivamente em termos de “relações escolares” (BUTTIGIEG, 2003, p. 47). O que se percebe, entretanto, com respeito à escola, é que ela, enquanto instituição inserida numa sociedade capitalista, aparece como uma instituição neutra dissociada de qualquer influência social. Esta ideia é referendada por Althusser (1987), quando afirma que na ideologia capitalista tecnoburocrática, a escola está representada como “neutra, desprovida de ideologia”, já que é necessário ao regime burguês camuflar os conflitos de interesses sociais (ALTHUSSER, 1987, p. 57). Althusser configura a ideologia como um conjunto de relações que ocultam ou representam mal as relações reais, embora ao mesmo tempo designem uma relação vivida, portanto, real. O autor afirma: Na ideologia os homens expressam, com efeito, não as suas relações nas suas condições de existência, o que supõe, ao mesmo tempo, relação real e relação “vivida, imaginária” [...]. Na ideologia, a relação real está inevitavelmente invertida na relação imaginária: relação que exprime mais uma vontade (conservadora, conformista, reformista ou revolucionária), mesmo um esperança ou nostalgia que não descreveuma realidade. (ALTUSSER, 1973, p. 333) Concorda com Zientarski (2010), ao afirmar que este caráter neutro a ela imputado faz com que a escola sofra enormes pressões de diferentes segmentos e incorpore os valores desta sociedade, o que a confirma como uma instituição política destituída de qualquer neutralidade. Neste sentido, a instituição educativa recebe constantemente pressões externas e a sociedade tem demonstrado seu desagrado em relação ao trabalho realizado pelas 19 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I instituições e pelos educadores. Denota-se a insatisfação social partir dos resultados do fracasso escolar, amplamente divulgado no país e em organismos internacionais. Isto demonstra o quanto a escola e os educadores estão sendo cobrados no sentido de dar respostas para os problemas emergentes, os quais são reflexos sociais e que estão carregados de uma racionalidade ligada ao papel político que a educação desempenha na sociedade, configurada pelos antagonismos entre classes sociais, no qual uma delas emerge como dominante, procurando manter o domínio e a direção sobre o conjunto da sociedade. Torna-se bastante observável que em uma sociedade dividida em classes – assumir essa divisão é admitir o conflito e o antagonismo entre elas – a escola, em específico, assume a representação de um instrumento da difusão ideológica da classe dominante. Portanto, a escola, como constatamos ainda hoje se constitui em um instrumento da reprodução e manutenção das relações capitalistas de produção, contribuindo para a marginalização e ampliação das desigualdades sociais. Embora a escola não seja a única responsável pela transformação da sociedade e pelas contradições existentes, a partir dela poderá ser construída uma nova consciência que leve à superação do estado de dominação e desemboque na construção de uma nova ordem social, pois, “a escola não é a alavanca da transformação social, mas essa transformação não se fará sem ela” (GADOTTI, 1984, p. 73). Para Althusser, há uma relação recíproca entre a superestrutura e a infraestrutura social. Essa, por ser a base econômica da sociedade, é autônoma e determina a superestrutura. Já o Estado, em geral, como parte da superestrutura, é composto pelo governo, a administração, o exército (=forças militares), a polícia, o sistema penal, o sistema judiciário. Esses subconjuntos de elementos legais e administrativos formam o conjunto estatal de mecanismos repressivos, ou seja, aqueles aparatos que podem e devem usar da força moral, psicológica ou física para reprimir resistências ou oposições, quando for necessário. Diante do exposto, é possível afirmar que os aparelhos ideológicos do Estado são aqueles aparelhos que “[...] sob a forma de instituições distintas e especializadas”, necessariamente, complementam o sistema estatal de dominação, por meio das ideologias. Então, quais seriam esses aparelhos? Os jurídicos, políticos, religiosos, sindicais, culturais e escolares. Os aparelhos ideológicos têm a função ativa da reprodução das relações de produção, que devem ser criadas em sua “naturalidade”. Assim, a reprodução das relações sociais deveria se dar no contexto da produção material, mas também no da (re)produção ideológica. 20 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO Para entender como se dá a relação de dominação e compreender o processo educacional, suas contradições, suas possibilidades e seus limites é necessário considerá-lo em articulação com o processo social concreto. Partindo-se do pressuposto de que a questão educacional tem que ser vista em relação às condições objetivas do mundo da produção, convém analisar o quanto a escola tem contribuído para o domínio da classe dominante, em acordo com as próprias políticas educacionais. Sendo que estas políticas são veiculadas em documentos elaborados por organismos multilaterais, respaldadas por instituições empresariais, com acentuadas delimitações econômicas e mesmo em reflexões feitas por alguns intelectuais afinados com essas propostas. A descontextualização histórica revela uma profunda incompreensão da escola concreta com a qual vivemos hoje, pois, é necessário reconhecer que a história da escola no Brasil foi, desde o início, vinculada ao desenvolvimento do capital. No Brasil, apesar das intensas lutas do seu povo, o país sempre foi mantido numa situação de dependência externa e a educação foi utilizada para atender a estes propósitos. Leia Althusser: ideologia e aparelhos de estado – velhas e novas questões de Ester Vaisman. Disponível no link: . 1. Observe as assertivas abaixo e complete, respectivamente: I) _______________________ são as instituições responsáveis pela dominação e manutenção de um ideário construído pelo Estado, para garantir a forma de produção. II) _______________________ são as instituições utilizadas pelo Estado para reprimir outras formas de pensamento (ideologias). III) _____________________ nada mais é do que uma forma de expressão ideológica do Estado que, em suas atividades, reforça valores construídos por uma sociedade burguesa. Assinale a alternativa correta: a. aparelhos repressivos de Estado, escola, aparelhos ideológicos de Estado. b. aparelhos ideológicos de Estado, aparelhos repressivos de Estado, escola. 21 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I c. governo, aparelhos ideológicos de Estado, escola. d. aparelhos ideológicos de Estado, aparelhos repressivos de Estado, governo. 2. Após conhecermos a teoria de Althusser sobre os aparelhos ideológicos de Estado, que aspectos são importantes para serem analisados e aplicados na escola? Construa um texto no qual você expressará esses conhecimentos. 3. Discuta em grupos as seguintes assertivas: a. A escola transmite as ideologias dominantes. b. A escola serve ao capitalismo e reproduz seu sistema, seus meios e relações de produção. Os caminhos e descaminhos da escola brasileira A educação, conjuntamente com a escola formal, foi um dos instrumentos que lançaram mão aos sucessivos grupos que ocuparam o poder para promover e preservar a dependência, por meio da exclusão pura e simples, impedindo-se o acesso e ou a permanência de grande parte dos brasileiros à escola; ou ainda, ppor meio de um ensino de propósitos de submissão, desprovido da preocupação crítica, bem como em relação aos conteúdos e aos métodos. De acordo com Sodré (1997), durante todo o período colonial no qual tivemos o predomínio da economia agroexportadora, com uma sociedade escravista, que não demonstrava interesse no desenvolvimento e na autonomia do país, não havia preocupação com a cultura e educação. O grupo encarregado das coisas do espírito (ordens religiosas e especialmente os jesuítas) encarregou-se também do ensino, pois, “a catequese os obriga a ensinar, como caminho para a conquista das almas, e são educadores por missão fundamental”. (SODRÉ, 1997, pp. 272-273). Freitag reafirma a análise de Sodré ao dizer que no contexto colonial em que o Brasil vivia não havia preocupação com a educação, visto que não havia nenhuma função de reprodução da força de trabalho a ser preenchida pela escola. E, este modelo econômico e social, perdurou até a crise do café, que foi gerada pela crise da economia mundial em 1929 (FREITAG, 1986, pp. 46-47). A autora esclarece, ainda, que neste período a política educacional estatal era quase inexistente e feita quase exclusivamente no âmbito da sociedade civil pela atuação da Igreja. 22 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO Sodré (1997) assinala que a partir da segunda metade do século XIX, quando a economia colonial entra em decadência profunda é que o ensino começa a alterar os seus rumos. Mas, somente durante a República, com o processo de industrialização, o ensino foi pressionado no sentido de fornecer à geração em formação instrumentalização adequada à vida. Jorge Nagle (1974) faz um estudo detalhado sobre a sociedade e a educaçãodurante a Primeira República Brasileira e afirma que, ao se aceitar a ideia da transição de uma “sociedade fechada” para uma “sociedade aberta”, torna-se necessário identificar o papel desempenhado pela escolarização no sentido de favorecer ou dificultar esta passagem. O autor assinala ainda que a maior prova disto foi o aparecimento do interesse pela escolarização e o marcante entusiasmo pedagógico, visto que existe a crença de que quanto mais disseminar a escolarização e o número de instituições escolares, maior possibilidade de incorporar camadas da população na senda do progresso nacional e colocar o Brasil no caminho das grandes nações (NAGLE, 1974, pp. 99-101). Ainda, Nagle (1974) esclarece que, ao se atribuir importância ao processo de escolarização, preparou-se o terreno para determinados intelectuais e educadores – principalmente para os “educadores profissionais” transformarem um programa de ação social num restrito programa de formação, no qual a escolarização era vista como a mais eficaz alavanca da história brasileira. Ele cita algumas afirmações feitas no período: O povo brasileiro é um dos mais ignorantes na face da terra (...) A ignorância mata tudo no Brasil, é a causa de todas as nossas crises (...) A educação do povo é a pedra angular sobre o que repousa a estrutura toda da organização social.(...) resolvido o problema da educação do povo, todos os demais se resolverão automática e espontaneamente(...) ( NAGLE, 1974, p.110). Diante deste contexto, a escolarização da população, principalmente o grau primário, desenvolveu-se verticalizado, ou seja, “de cima para baixo”. O entusiasmo educacional foi uma questão proposta, desde os primeiros momentos por uma cúpula interessada em transformar esse nível da escolarização em instrumento de atuação política. O Estado Brasileiro vinha concretizando esse direito de forma ainda muito tímida, longe da universalização esperada. Com isso, as medidas governamentais de caráter “democrático”, que foram tomadas na maioria das vezes atendiam aos interesses da burguesia que via no processo de escolarização da população e “democratização” do ensino uma possibilidade de qualificar a mão de obra para ampliar a produção. Marques (1967) diz que a política educacional republicana oscila entre a vertente liberal, federativa com descentralização administrativa e unidade política centralizada. 23 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I A vertente positivista, ultrafederalista com descentralização administrativa e política e a vertente autoritária cujo papel intervencionista do Estado reúne centralização política com pouca descentralização administrativa. O modelo que implantou a escola, o grupo escolar, o ginásio de estado, o jardim de infância, dentre outros, também definiu normas, procedimentos, uso de materiais específicos, orientações aos professores, enfim, um conjunto de realizações que facilmente podem ser utilizados como exemplo da chegada do novo tempo e do novo ciclo histórico para a história do país. No período posterior, entre 1946 e início da década de 1960, denota-se certo avanço na educação popular brasileira e isto se deve ao fato que eclode certo desenvolvimento dos movimentos populares. Com Freitag (1980), entendemos que esta fase corresponde à aceleração e diversificação do processo de substituição de importações. O Estado populista-desenvolvimentista, característico deste período, estabeleceu uma aliança entre um empresariado nacional que desejava ampliar a indústria capitalista e os setores populares que queriam ter acesso aos bens de consumo e que reivindicavam uma maior participação política. No entanto, eram manipulados pelos empresários que queriam utilizá-los como uma arma a mais contra as antigas oligarquias. Para Freitag, portanto: Nessa fase surge um novo protagonista do processo de substituição de importações: o capital estrangeiro que, pelo menos na fase de euforia desenvolvimentista, não é percebido como um inimigo do projeto nacional-desenvolvimentista, já que sua penetração não parecia ter nenhum sentido desnacionalizante, ou de expropriação de áreas já ocupadas pelo capital nacional, mas simplesmente o de abertura de novas frentes de investimento substitutivo. Com o fim do período fácil de substituição de importações, em que todos os interesses pareciam conciliáveis, vão aflorando os conflitos que antes só existiam de forma latente (FREITAG, 1980, p. 56). Ao analisar este período, Gohn (1995), diz que ele corresponde também a uma fase de grande interferência do Estado na economia, objetivando criar condições básicas para a nova aquisição do capital que se baseava na indústria de bens de capital. O Estado intervém de forma clientelística querendo integrar nas cidades as massas recém-chegadas do campo e ganhar sua simpatia por meio de barganhas, como por exemplo, o voto em troca de qualquer melhoria urbana (GOHN, 1995, p. 89). 24 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO É possível observar que, no final deste período, começa a delinear-se uma nova polarização: de um lado os setores populares representados até certo ponto pelo Estado e por alguns intelectuais de classe média; e de outro, um grupo heterogêneo do qual fazia parte a burguesia nacional, o capital estrangeiro monopolista e os representantes das antigas oligarquias. Ao analisarmos a política educacional desse período, podemos observar que ela mostra a disputa de interesses contraditórios. Isto pode ser observado na medida em que os interesses pelas questões educacionais se reduzem à luta em torno da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1961) e à Campanha da Escola Pública. O que se pretende para o momento é a inserção do país na nova ordem econômica, alicerçada no desenvolvimento de algumas nações periféricas, aproveitando as riquezas e a mão de obra barata. Esta situação não se altera com a proposta educacional implantada a partir de 1964 que veio para atender aos interesses do capital, agora estrangeiro. O modelo implantado pelo regime militar, ao mesmo tempo em que distanciava o povo do processo de desenvolvimento, introduzia novos padrões de consumo e de exigências sociais ditadas pela “modernização” da sociedade brasileira (PEREIRA, 1989, p.132). O golpe de 1964 foi uma manobra dos setores mais avançados da burguesia brasileira, que contou com o apoio e a aliança dos latifundiários, das multinacionais, do governo dos Estados Unidos da América, da classe média e dos militares responsáveis pela intervenção executiva. Esse regime utilizou-se de muitos mecanismos repressivos para impedir a participação e a representação das massas populares em nível institucional e estes reflexos foram sentidos na educação. Segundo Natália Peixoto (2014), Antes da tomada militar do poder, entretanto, grupos organizados de empresários, industriais, representantes da Igreja e donos de veículos de comunicação se articulavam desde 1961 em uma campanha intensiva de desestabilização de Jango, com receio de que o governante populista, conhecido pelo aumento de 100% do salário mínimo enquanto ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, criasse uma república sindicalista. Contra essa ameaça, empresários fincaram no Rio e em São Paulo as sedes do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipês. (Disponível em: ). 25 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I O golpe de 1964 e a instauração do regime militar Celso Castro Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. João Goulart, em busca de segurança, viajou no dia 1o de abril do Rio, para Brasília, e em seguidapara Porto Alegre, onde Leonel Brizola tentava organizar a resistência com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil para ser sepultado, em 1976. Antes mesmo de Jango deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na Constituição de 1946, e como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real, no entanto, encontrava-se em mãos militares. No dia 2 de abril, foi organizado o autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas. Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como por exemplo o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste. O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife. A junta baixou um “Ato Institucional” – uma invenção do governo militar que não estava prevista na Constituição de 1946 nem possuía fundamentação jurídica. Seu objetivo era justificar os atos de exceção que se seguiram. Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos Policiais Militares (IPMs). Chefiados em sua maioria por coronéis, esses inquéritos tinham o objetivo de apurar atividades consideradas subversivas. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram seus mandatos 26 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados. Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes. Entretanto, o golpe militar foi saudado por importantes setores da sociedade brasileira. Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja católica, vários governadores de estados importantes (como Carlos Lacerda, da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Ademar de Barros, de São Paulo) e amplos setores de classe média pediram e estimularam a intervenção militar, como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica. O golpe também foi recebido com alívio pelo governo norte-americano, satisfeito de ver que o Brasil não seguia o mesmo caminho de Cuba, onde a guerrilha liderada por Fidel Castro havia conseguido tomar o poder. Os Estados Unidos acompanharam de perto a conspiração e o desenrolar dos acontecimentos, principalmente através de seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e do adido militar, Vernon Walters, e haviam decidido, através da secreta “Operação Brother Sam”, dar apoio logístico aos militares golpistas, caso estes enfrentassem uma longa resistência por parte de forças leais a Jango. Os militares envolvidos no golpe de 1964 justificaram sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e a hierarquia nas Forças Armadas e deter a “ameaça comunista” que, segundo eles, pairava sobre o Brasil. Uma ideia fundamental para os golpistas era que a principal ameaça à ordem capitalista e à segurança do país não viria de fora, através de uma guerra tradicional contra exércitos estrangeiros; ela viria de dentro do próprio país, através de brasileiros que atuariam como “inimigos internos” – para usar uma expressão da época. Esses “inimigos internos” procurariam implantar o comunismo no país pela via revolucionária, através da “subversão” da ordem existente – daí serem chamados pelos militares de “subversivos”. Diversos exemplos internacionais, como as guerras revolucionárias ocorridas na Ásia, na África e principalmente em Cuba, serviam para reforçar esses temores. Essa visão de mundo estava na base da chamada “Doutrina de Segurança Nacional” e das teorias de “guerra anti-subversiva” ou “anti-revolucionária” ensinadas nas escolas superiores das Forças Armadas. Os militares que assumiram o poder em 1964 acreditavam que o regime democrático que vigorara no Brasil desde o fim da Segunda Guerra Mundial havia se mostrado incapaz de deter a “ameaça comunista”. Com o golpe, deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”, isto 27 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I é, um regime político que privilegiava a autoridade do Estado em relação às liberdades individuais, e o Poder Executivo em detrimento dos poderes Legislativo e Judiciário. Já no início da “Revolução” ficou evidente uma característica que permaneceria durante todo o regime militar: o empenho em preservar a unidade por parte dos militares no poder, apesar da existência de conflitos internos nem sempre bem resolvidos. O medo de uma “volta ao passado” (isto é, à realidade política pré-golpe) ou de uma ruptura no interior das Forcas Armadas estaria presente durante os 21 anos em que a instituição militar permaneceu no controle do poder político no Brasil. Mesmodesunidos internamente em muitos momentos, os militares demonstrariam um considerável grau de união sempre que vislumbravam alguma ameaça “externa” à “Revolução”, vinda da oposição política. A falta de resistência ao golpe de 1964 não deve ser vista como resultado da derrota diante de uma bem articulada conspiração militar. Foi clara a falta de organização e coordenação entre os militares golpistas. Mais do que uma conspiração única, centralizada e estruturada, a imagem mais fidedigna é a de “ilhas de conspiração”, com grupos unidos ideologicamente pela rejeição da política pré-1964, mas com baixo grau de articulação entre si. Não havia um projeto de governo bem definido, além da necessidade de se fazer uma “limpeza” nas instituições e recuperar a economia. O que diferenciava os militares golpistas era a avaliação da profundidade necessária à intervenção militar. Desde o início havia uma nítida diferenciação entre, de um lado, militares que clamavam por medidas mais radicais contra a “subversão” e apoiavam uma permanência dos militares no poder por um longo período e, de outro lado, aqueles que se filiavam à tradição de intervenções militares “moderadoras” na política – como havia acontecido, por exemplo, em 1930, 1945 e 1954 – seguidas de um rápido retorno do poder aos civis. Os mais radicais aglutinaram-se em torno do general Costa e Silva; os outros, do general Humberto de Alencar Castelo Branco. Articulações bem-sucedidas na área militar de um grupo de oficiais pró-Castelo e o apoio dos principais líderes políticos civis favoráveis ao golpe foram decisivos para que, no dia 15 de abril de 1964, Castelo Branco assumisse a presidência da República, eleito, dias antes, por um Congresso já bastante expurgado. O novo presidente assumiu o poder prometendo a retomada do crescimento econômico e o retorno do país à “normalidade democrática”. Isto, no entanto, só ocorreria 21 anos mais tarde. É por isso que 1964 representa um marco e uma novidade na história política do Brasil: diferentemente do que ocorreu em outras 28 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO ocasiões, desta vez militares não apenas deram um golpe de Estado, comopermaneceram no poder. Fonte: . Com relação à política educacional, podemos entender com Severino (1986, p. 92), que: A nova política educacional implementada pelo governo pós-64, além de seu caráter puramente mercantil, tem, pois, função ideológica muito atuante, respondendo bem à reprodução da ideologia e, através dela, do sistema de relações sociais. O que se quer do sistema educacional é a produtividade, o baixo custo de mão-de-obra numerosa, mas com qualificação puramente técnica, disciplinada e dócil, adequada às necessidades da manutenção do sistema econômico vigente. Esta política acaba criando, na prática, dois sistemas: o público e o privado. Severino (1986) explica o que aconteceu com a educação no Brasil com a tendência ao privatismo empresarial, pois a educação, para atender aos interesses capitalistas, tornou-se elemento da indústria cultural, servindo para a comercialização de produtos culturais, bens simbólicos, a baixo custo e com muita rentabilidade, buscando a extensão do mercado neoliberal que começava a se afirmar para permanecer. Ao referir-se à escola neste período, Codato (2004), afirma que: Na escola (com exceções, evidentemente), a história política e social brasileira variava do oficialismo militaresco ao ufanismo anedótico, seja em nome das homenagens aos “heróis da pátria”, seja pela admiração obrigatória da exuberância da “nossa natureza”. Nos meios de comunicação primeiro o apoio aberto ao golpe de Estado, depois a autocensura em nome dos “ideais da Revolução”, depois a censura política prévia nas redações, depois a autocensura ideológica já no fim do regime impuseram sobre a política nacional e, principalmente, sobre o período que iniciou mesmo antes de 1964 e até o período final do governo militar uma barreira quase intransponível. (Disponível em: ). Com isto, pode-se perceber que a repressão desencadeada no país pelo poder militar fez calar os movimentos populares em defesa da democracia, da liberdade e do direito à educação. Porém, assim como as classes dominantes do país se organizaram no sentido de combater os movimentos populares, muitos líderes comunitários, educadores, estudantes, religiosos e outros componentes da sociedade civil comprometidos com a 29 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I educação e engajados na luta pela democratização se organizaram e realizaram muitos protestos mesmo sendo perseguidos, torturados, cassados e exilados, representando, portanto, uma força contra hegemônica. Os militares brasileiros, por meio de seus intelectuais, formularam e proclamaram um discurso de valorização da educação enquanto campo fundamental para o desenvolvimento de seu projeto “Brasil Grande Potência”, transformando as políticas educacionais em estratégia de hegemonia e num meio para a obtenção de consenso junto à sociedade, sobretudo às classes médias e subalternas. Contrário ao seu discurso de valorização da educação, o regime militar concentrou as suas ações na repressão violenta a professores e estudantes que se colocaram contrários ao regime vigente, controlaram política e ideologicamente o ensino com vistas a eliminar o exercício da crítica social e política. Do ponto de vista teórico, o regime nilitar orientou a política educacional com bases na economia da educação de cunho liberal, ou seja, seguiu as orientações contidas na teoria do capital humano (BECKER; SCHULTZ, 1973), com o objetivo de estabelecer uma relação direta, imediata e mesmo subordinada da educação à produção. Os efeitos dessas disposições foram sentidos ainda no início dos anos 1970, quando pequenas organizações anteriormente identificadas com o espírito assistencialista dos programas da Aliança para o Progresso abandonam esta estratégia e incorporam tanto o método Paulo Freire de “educação popular” quanto o “princípio de que só a participação direta do povo seria capaz de conduzir o país ao desenvolvimento (DOIMO, 1995, p.76)”. A disseminação do poder entre as instâncias da sociedade classista (especialmente a instância educacional) acentuou a dissonância entre o que é proposto pela escola e o que é vivido pela classe trabalhadora. Surgem muitos conflitos. Nesse embate a escola, justamente por ser palco destas lutas, que são de classes, apresenta-se conflituosa e contraditória. A escola poderia desempenhar um importante papel político na formação das camadas populares, uma contra-hegemonia, o que vem acontecendo muito lentamente, com movimentos isolados. Ponce (1981) diz que o conceito da evolução histórica como resultado das lutas de classes nos mostrou, com efeito, “que a educação é o processo mediante o qual as classes dominantes preparam na mentalidade e na conduta das crianças as condições fundamentais da sua própria existência”. O autor explica que os ideais pedagógicos não são criações artificiais que um pensador elabora em isolamento e procura tornar realidade porque acredita que são justas. 30 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO Formulações necessárias das classes que estão empenhadas na luta, estes ideais não são capazes de transformar a sociedade, a não ser depois que a classe que os inspirou tenha triunfado e subjugado as classes rivais (PONCE, 1981, p.165). Ainda é possível observar, nesse período, a reforma do ensino de 1o e 2o graus (Lei no 5.692/1971) que apresenta como aspectos fundamentais a extensão da escolaridade obrigatória de 8 anos, unindo o ensino primário ao ginásio e a proposição da generalização do ensino técnico profissional em nível médio (2o grau) com caráter terminal. A ampliação da escolaridade obrigatória para 8 anos – assim como na reforma universitária – significou uma estratégia de hegemonia, recomendada pelo Fórum “A educação que nos convém” promovido pelo Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), com o objetivo de se antecipar às possíveis manifestações de reivindicação social sob o pretexto de proporcionar uma maior igualdade de oportunidades num contexto de expansão econômica e demasiada concentração de renda. O crescimento da oferta de vagas no ensino público disposto na Lei no 5.692/1971 ocorreu na proporção da diminuição do número de horas que passou a compor a jornada escolar, aumentando, por consequência o número de turnos e, portanto, de vagas, prejudicando a qualidade do ensino oferecido pelas escolas públicas. Acrescente-se a este quadro, o baixo e/ou pequeno investimento efetuado pelo Estado na educação – no período 1981-1985 esses investimentos decaíram em 10 pontos percentuais. “Os salários e as condições de trabalhos dos professores sofreram um agudo processo de deterioração e as escolas se degradaram” (GERMANO, 2005 p. 169). A escola brasileira do final do século XX e início do século XXI renova o sentido da centralidade na educação, mas continua adequando-se às virtudes do mercado: realidade inescapável que aloca recursos e benefícios sob o impacto da eficiência capitalista. Diante desses pressupostos, trata-se de convencer com o uso mínimo da ação estatal e da força. Trata-se de persuadir e construir novo consenso, agora sob a influência do neoliberalismo, da globalização da economia e da hegemonia do capital global (internacional). Portanto, a educação é compreendida como elemento constituído e constituinte crucial de luta hegemônica numa perspectiva neoliberal e neoconservadora que tem por objetivo adequá-la ao processo de redefinição do novo padrão e à alternativa democrática. De acordo com Frigotto (2003, p. 203): 31 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I As propostas neoliberais como alternativa no campo educativo expõe os limites do horizonte da burguesia e, em casos como o brasileiro, sobredeterminados por uma burguesia atrasada, elitista e despótica. Isto, como vimos, se materializa de forma exemplar no embateem torno da educação no processo constituinte (1988) e, mais especificamente, no processo em curso há mais de 5 anos da LDB (1989-1995).O discurso da modernidade esconde o profundo atraso histórico. O que vem ocorrendo por inúmeros disfarces, convênios, cooperativa etc., é a privatização crescente e o desmonte da escola pública. Buscando a discussão das alternativas educacionais em disputa hegemônica hoje, Frigotto expressa o seguinte (2003, p. 139): O embate que se efetiva em torno dos processos educativos e de qualificação humana para responder aos interesses ou às necessidades de redefinição de um novo padrão de reprodução do capital, ou o atendimento das necessidades e interesse da classe trabalhadora, firma-se sobre uma mesma materialidade, em profunda transformação, onde o processo técnico assume um papel crucial, ainda que não exclusivo. Portanto, por meio das ponderações de Frigotto, pode-se perceber a relação conflitante e antagônica presentes na educação, por representar de um lado as necessidades do capital e de outro, as múltiplas necessidades humanas e sociais. O autor coloca em evidência da necessidade e a positividade que teimam em coexistir numa mesma totalidade e num mesmo processo histórico e que sua definição se dá pela correlação das forças dos diferentes grupos e classes sociais. O embate da “luta hegemônica dá-se tanto no conteúdo, na forma e no método de produção do conhecimento científico elaborado, quanto no acesso efetivo ou exclusão do mesmo (FRIGOTTO, 1998, p.187). A educação se faz necessária para romper com as amarras, mas, “processos educativos de novo tipo implicam necessariamente o desenvolvimento de relações sociais de novo tipo e de um industrialismo de novo tipo”. (FRIGOTTO, 2003, p. 203). Diante disso, é possível afirmar que o modelo neoliberal se expressa como um projeto ambicioso de reforma ideológica das nossas sociedades, ou seja, a construção e a difusão de um novo senso comum que fornece coerência, sentido e uma pretensa legitimidade às propostas de reforma impulsionadas pelo bloco dominante. Assim como afirma Pablo Gentili: 32 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO Se o neoliberalismo se transformou num verdadeiro projeto hegemônico, isto se deve ao fato de ter conseguido impor uma intensa dinâmica de mudança material e, ao mesmo tempo, uma não menos intensa dinâmica de reconstrução discursivo ideológica da sociedade, processo derivado da enorme força persuasiva que tiveram e estão tendo os discursos, os diagnósticos e as estratégias argumentativas, elaboradas e difundidas por seus expoentes intelectuais - num sentido gramsciano - por seus intelectuais orgânicos (GENTILI, 1996, p.11). De acordo com Clarice Zientarski (2010), é possível, então, afirmar, que em se tratando de matéria educacional, o projeto neoliberal não apresenta muitas diferenças dos seus objetivos econômicos e ideológicos, que são: expansão do mercado livre, a drástica redução da responsabilidade governamental pelas necessidades sociais, o reforço das estruturas intensamente competitivas de mobilidade, o rebaixamento das expectativas das pessoas em termos de segurança econômica e a popularização de uma determinada forma de pensamento de evolução social. A autora é enfática quando coloca que: de outro lado, um “Estado fraco ou pequeno” limita a sua ação ao transferir para o mercado, o qual defende e legitima tantas atividades de bem-estar social (dentre outras) quantas forem necessárias, desde que atendam os seus interesses. Mas na educação, a reorganização em torno da competição e da escolha não é completamente visível; em vez disso, o que se coloca é um sistema dual, polarizado entre escolas de mercado e escolas mínimas. Eis, portanto, o “retrato” da educação tanto no passado, como no momento atual: conflitante, elitista e desprovida de qualquer neutralidade, como afirmamos anteriormente. Mas nem por isso, deixa de representar uma das poucas oportunidades de transformação social, visto que é e sempre será uma prática política e um espaço de luta por hegemonia. Além disso, pode representar uma oportunidade na emancipação daqueles que historicamente foram dominados. Como instituição social, ela pode tanto contribuir para a manutenção quanto para a transformação social. Numa visão transformadora ela teria um papel essencialmente crítico e criativo. (ZIENTARSKI, 2010, p.2) Frigotto e Chiavatta (2003, pp. 93-130) reafirmam estas questões ao dizer que: Neste sentido, a educação é tanto um direito social básico e universal quanto vital para romper com a histórica dependência científica, tecnológica e cultural do país, e fundamental para a construção de uma nação autônoma, soberana e solidária na relação consigo mesma e com 33 SOCIEDADE E EDUCAÇÃO │ UNIDADE I outras nações. A educação é, portanto, ao mesmo tempo determinada e determinante da construção do desenvolvimento social de uma nação soberana. Além de ser crucial para uma formação integral humanística e científica de sujeitos autônomos, críticos, criativos e protagonistas da cidadania ativa, é decisiva, também, para romper com a condição histórica de subalternidade e de resistir a uma completa dependência científica, tecnológica e cultural. Vamos recorrer a Paulo Freire para elaboramos uma análise das possibilidades que a educação e, com ela, a escola tem de representar um papel crítico, uma força contra-hegemônica. A educação e a escola como proposta de transformação da realidade=força contra-hegemônica Clarice Zientarski Paulo Freire entende a escola não apenas como um espaço de produção de conhecimento, mas, também de transformação social. Ele defende que é preciso acreditar nas utopias, na transformação, numa sociedade mais justa e igualitária. Do mesmo modo, é preciso ter dentro de si a esperança, a ousadia, a coragem de enfrentar as “adversidades do dia a dia e as repentinas”; é preciso, igualmente, acreditar na integridade, na beleza, e no poder de transformação dentro do ser humano, principalmente daqueles a quem a vida fecha as portas, dos “esfarrapados do mundo” (FREIRE, 2000, p. 23) e dos “demitidos da vida”. Desta forma, buscando em Freire uma sustentação, poderia se tentar encaminhar a escola para um rumo diferente do que tem sido trilhado por ela enquanto espaço de luta hegemônica. Freire nos conscientiza de que: [...] toda prática educativa libertadora, valorizando o exercício da vontade, da decisão, da resistência, da escolha; o papel das emoções, dos sentimentos, dos desejos, dos limites; a importância da consciência na história, o sentido ético da presença humana no mundo, a compreensão da história como possibilidade jamais como determinação, é substantivamente esperançosa e, por isso mesmo, provocadora da esperança (FREIRE, 2000, p. 23). Neste aspecto, a escola precisaria mudar sua função de construção da cidadania proposta pela teoria liberal ou neoliberal, concretizada por uma pedagogia de opressão, para ser construtora, do éthos libertador, através de uma práxis também libertadora (FREIRE, 1985). Teríamos assim a “liberdade colocada como 34 UNIDADE I │ SOCIEDADE E EDUCAÇÃO premissa necessária” (GRAMSCI, 1978a, p. 56). A escola tornar-se-ia assim um local onde os educadores e as educadoras, junto com os educandos, se sentiriam partícipes de um projeto capaz de transformar a realidade, com alternativas que possibilitariam melhorias para os próprios sistemas de suas vidas, de contínuas decisões, retornos, avaliações e novas reflexões. Por isso Freire fala que “é impossível a educação sem que o educando se eduque a si mesmo no próprio processo da sua libertação” (FREIRE, 1985, p.79). Através de seu artigo “A educação e a escola brasileira: dialogando com Freire e Gramsci” Clarice Zientarski coloca que a libertação é um “parto” conforme afirma o autor, pois a superação da opressão exige o abandono da condição “servil”, que faz com