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ACESSE AQUI ESTE MATERIAL DIGITAL! CÉSAR BRASIL SPERB LILIAN CRUZ SOUTO DE OLIVEIRA SPERB INVESTIGAÇÃO EM SAÚDE E ENFERMAGEM Bibliotecária: Leila Regina do Nascimento - CRB- 9/1722. Ficha catalográfica elaborada de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Núcleo de Educação a Distância. SPERB, César Brasil; SPERB, Lilian Cruz Souto de Oliveira. Investigação em Saúde e Enfermagem / César Brasil Sperb; Lilian Cruz Souto de Oliveira Sperb. - Florianópolis, SC: Arqué, 2025. 212 p. ISBN papel 978-65-279-1175-3 ISBN digital 978-65-279-1145-6 1. Investigação 2. Saúde 3. Enfermagem 4. EaD. I. Título. CDD - 610.73 EXPEDIENTE Ano de impressão: Impresso por: Coordenador(a) de Conteúdo Liliana Antoniolli Projeto Gráfico e Capa Arthur Cantareli Silva Editoração Alan Diego Hordina e Yago Luiz Nardelli Design Educacional Taísa Moreira Revisão Textual Carla Cristina Farinha Ilustração André Azevedo, Bruno Pardinho e Eduardo Aparecido Alves Fotos Shutterstock e Envato FICHA CATALOGRÁFICA N964 03507560 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/20897 RECURSOS DE IMERSÃO Utilizado para temas, assuntos ou con- ceitos avançados, levando ao aprofun- damento do que está sendo trabalhado naquele momento do texto. APROFUNDANDO Utilizado para desmistificar pontos que possam gerar confusão sobre o tema. Após o texto trazer a explicação, essa interlocução pode trazer pontos adicionais que contribuam para que o estudante não fique com dúvidas sobre o tema. ZOOM NO CONHECIMENTO Este item corresponde a uma proposta de reflexão que pode ser apresentada por meio de uma frase, um trecho breve ou uma pergunta. PENSANDO JUNTOS Utilizado para aprofundar o conhecimento em conteúdos relevantes utilizando uma lingua- gem audiovisual. EM FOCO Utilizado para agregar um con- teúdo externo. EU INDICO Professores especialistas e con- vidados, ampliando as discus- sões sobre os temas por meio de fantásticos podcasts. PLAY NO CONHECIMENTO PRODUTOS AUDIOVISUAIS Os elementos abaixo possuem recursos audiovisuais. Recursos de mídia dispo- níveis no conteúdo digital do ambiente virtual de aprendizagem. Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Aqui você terá indicações de filmes que se conectam com o tema do conteúdo. INDICAÇÃO DE FILME Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Aqui você terá indicações de livros que agregarão muito na sua vida profissional. INDICAÇÃO DE LIVRO 4 149U N I D A D E 3 PROJETO DE PESQUISA: METODOLOGIA DE PESQUISA 150 ANÁLISE DE DADOS EM PESQUISA 170 ESCRITA ACADÊMICA 190 7U N I D A D E 1 PESQUISA EM SAÚDE: ASPECTOS HISTÓRICOS 8 PESQUISA EM ENFERMAGEM 32 ÉTICA E BIOÉTICA EM PESQUISA 56 81U N I D A D E 2 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE PESQUISA 82 ACESSO À PESQUISA CIENTÍFICA NA ÁREA DA SAÚDE E AVALIAÇÃO DOS ESTUDOS 104 QUALIDADE E NÍVEIS DE EVIDÊNCIA DAS PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS 126 5 SUMÁRIO UNIDADE 1 MINHAS METAS PESQUISA EM SAÚDE: ASPECTOS HISTÓRICOS Identificar os tipos de conhecimento e sua importância para a prática. Compreender a relação entre teoria e reflexão crítica. Refletir sobre a influência histórica, social e cultural na enfermagem. Diferenciar os principais paradigmas científicos da pesquisa em saúde. Relacionar as concepções teóricas da ciência. Entender os paradigmas positivista, compreensivo e crítico na pesquisa. Refletir sobre o enfermeiro na produção e aplicação do conhecimento. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 1 8 INICIE SUA JORNADA Você já pensou em quantos tipos de conhecimento estão envolvidos na for- mação em enfermagem? De um lado, há o conhecimento técnico, essencial para garantir que os procedimentos sejam seguros e eficazes. De outro, há o conhecimento prático, que só se aprende no contato direto com os pacientes, com a equipe de saúde e na rotina diária. VOCÊ SABE RESPONDER? Mas como articular esses dois saberes para construir uma atuação profissional mais completa e fundamentada? A teoria é indispensável, pois permite compreender os processos de adoecimento, embasando decisões clínicas e aprimorando a assistência. No entanto a prática, frequentemente, desafia o que está nos livros. No cotidiano do cuidado, muitas situações exigem que o enfermeiro tome decisões rápidas, confie na sua expe- riência e, em alguns casos, até utilize conhecimentos advindos do saber popular. Afinal, nem sempre há um protocolo específico para cada situação, e é nesse momento que entra a capacidade crítica e reflexiva do profissional. Além disso, a aprendizagem na enfermagem vai muito além da memorização de conceitos. No estágio, por exem- plo, observa-se que cada paciente é único e que a adaptação é uma habilidade essencial. Encontrar o equilíbrio entre a ciência baseada em evidências e a sensibilidade do cuida- do não apenas qualifica a assistência, mas também torna o profissional mais preparado para lidar com a complexidade do sistema de saúde. Além disso, há um elemento fundamental que precisa ser incorporado a esse processo: a reflexão crítica. O conhecimento não é neutro, ele carrega consigo Ciência baseada em evidências e a sensibilidade do cuidado UNIASSELVI 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 influências históricas, sociais e culturais. Compreender essa inter-relação é essen- cial para uma prática mais ética e consciente, porque o enfermeiro não é apenas aquele que executa técnicas, mas, sim, um agente ativo na produção e aplicação do conhecimento em saúde. DESENVOLVA SEU POTENCIAL A ciência não é apenas um conjunto de informações organizadas, mas um pro- cesso contínuo de investigação. Diferentemente do que muitos imaginam, ela não surge espontaneamente da observação dos fatos, mas, sim, da necessidade de resolver problemas. Para isso, segundo Castro (2008), utilizamos hipóteses, que são suposições a serem testadas. Só assim podemos garantir que o conhecimento produzido é confiável e bem fundamentado. VAMOS RECORDAR? Olá, estudante! Vamos relembrar as principais ideias sobre as teorias da enfermagem para reforçar a impor- tância da base científica no cuidado em saúde. Então, ao pensar na assistência, lembre-se sempre desses concei- tos e teorias que orientam a nossa atuação! Você já parou para pensar como a ciência e o cuidado humani- zado se encontram na enfermagem? Neste podcast, conhecere- mos a história de Florence Nightingale, a pioneira da enfermagem moderna! Descubra como ela revolucionou o cuidado em saúde, alinhando-se ao positivismo e ao paradigma compreensivo. PLAY N O CONHECIMENTO 1 1 https://www.youtube.com/watch?v=6zAvI8a5g54&t=24s https://on.soundcloud.com/XV6XR5eSXIwOSY8nCG Um aspecto essencial nesse processo é a testabilidade. Para Castro (2008), uma afirmação só pode ser considerada científica se puder ser verificada por meio da observação, da experimentação ou de cálculos. Se não houver uma maneira de confirmar ou refutar determinada ideia, ela não faz parte da ciência, mas, sim, do campo das crenças ou opiniões. No contexto da Enfermagem, o pensamento epistemológico permite que os profissionais questionem e compreendam as bases científicas que sustentam suas ações. O cuidado baseado em evidências, por exemplo, não deve ser apenas a adoção de protocolos previamente estabelecidos, mas, sim, um processo de análise crítica, onde se avaliam as melhores evidências disponíveis e sua aplicabilidade à realidade do paciente. Além disso, a Epistemologia incentiva a reflexãotornando nosso cuidado mais eficaz, seguro e humano. Outro ponto é que a pesquisa não pode ficar restrita apenas aos meios acadê- micos. Donaldson e Crowley (1978) reforçam que o conhecimento gerado precisa ser levado diretamente à prática diária dos profissionais. Isso fortalece a auto- nomia dos enfermeiros e aumenta o valor da enfermagem dentro do sistema de saúde, permitindo-nos oferecer cuidados cada vez mais eficientes e humanizados. Apesar de Donaldson e Crowley (1978) enfatizarem a necessidade de aprimo- rar constantemente as intervenções de enfermagem por meio da busca por evidências científicas sólidas, é essencial reconhecer que a enfermagem não pode se limitar exclusivamente à dimensão científica. O cuidado efetivo deve também abraçar a dimensão humana, ética e sensível ao contexto e às particularidades individuais. Assim, embora as práticas baseadas em evi- dências sejam fundamentais, elas não podem substituir totalmente o valor do conhecimento empírico, da sensibilida- de humana e das experiências pessoais dos pacientes, familiares e profissionais. Precisamos entender a pesqui- sa não só como algo acadêmico, mas como uma ferramenta poderosa para transformar nossa profissão. Como ressaltam Donaldson e Crowley (1978), investir em pesquisa é investir no fu- turo da enfermagem, preparando os profissionais para enfrentar os desafios atuais e garantir sempre o melhor cui- dado possível para a sociedade. O cuidado efetivo deve também abraçar a dimensão humana 5 1 1. Para Horta (1979), o Ser-Enfermeiro é um ser humano, com todas as suas dimensões, po- tencialidades e restrições, alegrias e frustrações; é aberto para o futuro, para a vida, e nela se engaja pelo compromisso assumido com a enfermagem. Esse compromisso o levou a receber conhecimentos, habilidades e formação de enfermeiro, sancionados pela socieda- de que lhe outorgou o direito de cuidar de pessoas, de outros seres humanos. De acordo com Horta (1979), qual é a principal característica do “Ser-Enfermeiro”? a) Possuir uma atuação exclusivamente técnica e científica. b) Ser uma entidade abstrata, separada das interações humanas. c) Ser um agente exclusivamente de ações médicas prescritas previamente. d) Ser um profissional que cuida de outros seres humanos, integrando habilidades técnicas e humanas. e) Restringir-se apenas à execução de procedimentos médicos. 2. A enfermagem é uma ciência aplicada, que sai da fase empírica para a científica, desen- volvendo teorias próprias, sistematizando seus conhecimentos e utilizando metodologia científica própria. Baseada nas necessidades humanas básicas, a teoria proposta por Wanda Horta (1979) fundamenta-se na teoria da motivação humana. De acordo com Wanda Horta, em sua teoria das Necessidades Humanas Básicas, qual é o objeto principal da ciência da enfermagem? a) O diagnóstico clínico das doenças. b) A realização de procedimentos médicos prescritos previamente. c) A aplicação exclusiva de técnicas e procedimentos médicos. d) A intervenção autônoma em necessidades psicobiológicas, psicossociais e psicoespi- rituais do paciente. e) A execução restrita das prescrições médicas e protocolos hospitalares. AUTOATIVIDADE 5 1 3. O pensamento rizomático na enfermagem sugere a possibilidade de desenvolver o conhe- cimento da disciplina por meio de diferentes perspectivas e abordagens metodológicas. Essa perspectiva promove uma visão abrangente das questões enfrentadas na prática pro- fissional, buscando explorar caminhos variados e inovadores para entender a complexidade inerente às práticas e teorias de enfermagem (Holmes; Gastaldo, 2004). Sobre o pensamento rizomático proposto por Holmes e Gastaldo (2004) na enfermagem, analise as afirmativas a seguir: I - Propõe uma visão linear e tradicional do desenvolvimento do conhecimento. II - Busca estabelecer uma definição única e absoluta para a enfermagem. III - Defende a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e diversificada. IV - Valoriza a multiplicidade de abordagens teórico-metodológicas. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. AUTOATIVIDADE 5 2 REFERÊNCIAS BOISVERT, Y. Postmoderne: analyse du discours sur la Postmodernité. Paris: Éditions L’Harmattan, 1996. CARPER, B. A. Fundamental patterns of knowing in nursing. Advances in Nursing Science, v. 1, n. 1, p. 13-23, 1978. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. A Thousand Plateaus. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1987. DONALDSON, S. K.; CROWLEY, D. M. The discipline of nursing. Nursing Outlook, v. 26, n. 2, p. 113-120, 1978. HOLMES, D.; GASTALDO, D. Rhizomatic thought in nursing: an alternative path for the develop- ment of the discipline. Nursing Philosophy, v. 5, p. 258-267, 2004. HOLMES, D.; MURRAY, S. J. Civilizing the ‘Barbarian’: A critical analysis of behaviour modification programmes in forensic psychiatry settings. Journal of Nursing Management, v. 19, n. 3, p. 293- 301, abr. 2011. HOLMES, D.; PERRON, A.; O’BYRNE, P. Evidence, Virulence, and the Disappearance of Nur- sing Knowledge: A Critique of the Evidence-Based Dogma. Worldviews on Evidence-Based Nursing, v. 3, n. 3, p. 95-102, 2006. HORTA, W. A. Processo de Enfermagem. São Paulo: EPU, 1979. NIGHTINGALE, F. Notes on Nursing: What it is and what it is not. London: Harrison, 1859. NIGHTINGALE, F. Notes on Hospitals. London: John W. Parker and Son, 1863. SACKETT, D. Evidence-based medicine: How to practice and teach EBM. New York: Churchill Livingstone, 2000. STRAUS, S. E.; TETROE, J.; GRAHAM, I. Defining knowledge translation. CMAJ, v. 181, n. 3-4, p. 165-168, 4 ago. 2009. STRAUS, S. E.; TETROE, J.; GRAHAM, I. Knowledge translation in health care: moving from evi- dence to practice. 2. ed. London: BMJ Books, 2013. WALKER, K. Why evidence-based practice now? A polemic. Nursing Inquiry, v. 10, n. 3, p. 145-155, 2003. 5 3 1. Alternativa D. A alternativa D está correta, pois Horta enfatiza que o Ser-Enfermeiro é um profissional que cuida de outros seres humanos, integrando habilidades técnicas com uma dimensão essencialmente humana e relacional. A alternativa A está incorreta, pois não menciona o aspecto essencial da relação interpessoal na enfermagem. A alternativa B está incorreta, pois está incompleta e ignora o aspecto técnico fundamental ao profissional enfermeiro. A alternativa C está incorreta, pois desconsidera o papel autônomo e integrado do enfermeiro. A alternativa E está incorreta, pois limita equivocadamente o enfermeiro apenas à execução de procedimentos médicos, ignorando suas competências próprias e o aspecto humano fundamental à profissão. 2. Alternativa D. A alternativa D está correta, pois Wanda Horta enfatiza que o objeto principal da enferma- gem é a intervenção autônoma para atender às necessidades humanas básicas do paciente, abrangendo suas dimensões psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais. A alternativa A está incorreta, pois a enfermagem não se limita à fase empírica, mas avança para um corpo de conhecimento científico próprio. A alternativa B está incorreta, pois o papel da enferma- gem vai além de seguir exclusivamente prescrições médicas. A alternativa C está incorreta, pois limita inadequadamente a enfermagem apenas a ações não autônomas. A alternativa E está incorreta, pois reduzi a enfermagem apenas a ações médicas prescritas e protocolos hospitalares, ignorando a autonomia profissional na assistência integral. 3. Alternativa C. A afirmativa I está correta, porque o pensamento rizomático valoriza justamente a multi- plicidade das abordagens teórico-metodológicas, defendendo que não há apenas uma maneira correta de compreender a enfermagem, mas diversas possibilidades coexistindo simultaneamente. A afirmativa III está correta, porque o pensamento rizomático defende explicitamente a interdisciplinaridade e a diversidade na construção do conhecimento em enfermagem. A afirmativa II está incorreta, poiso pensamento rizomático rejeita a ideia de definição única ou absoluta da enfermagem, argumentando exatamente o contrário, que não há uma essência fixa e absoluta. A afirmativa IV está incorreta, porque o pensamento rizomático questiona precisamente as abordagens lineares e tradicionais, propondo, ao contrário, um modelo flexível, múltiplo e descentralizado para o desenvolvimento do co- nhecimento na enfermagem. GABARITO 5 1 MINHAS ANOTAÇÕES 5 5 MINHAS METAS ÉTICA E BIOÉTICA EM PESQUISA Compreender os fundamentos éticos na pesquisa científica. Explorar o histórico e a evolução das diretrizes éticas. Analisar o papel do CEP e da Conep. Utilizar instrumentos éticos: TCLE, registro e consentimento. Aplicar os princípios da ética na pesquisa qualitativa em saúde. Relacionar a bioética com suas aplicações em saúde e enfermagem. Assumir a responsabilidade social e científica como pesquisador. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 3 5 1 INICIE SUA JORNADA Você, estudante de Enfermagem, já se perguntou até onde vai a nossa responsa- bilidade quando fazemos pesquisa? Durante a graduação, nós aprendemos muita coisa técnica e científica, mas nem sempre paramos para refletir sobre as questões éticas envolvidas no que fazemos. Quando começamos a participar de projetos ou estágios, é comum surgirem dúvidas: “Isso é certo?”, “Qual o impacto dessa decisão na vida de alguém?”. Essas perguntas fazem parte do crescimento como pesquisador e como profissional de saúde. VOCÊ SABE RESPONDER? Em meio à busca por resultados, nasce uma inquietação genuína: até que ponto nossas decisões respeitam os direitos e a dignidade do outro? Esse questionamento leva a uma nova forma de enxergar o próprio papel profis- sional. Ética e bioética se conectam diretamente com o cuidado, com o respeito ao ser humano e com a produção responsável do conhecimento, e não são apenas temas abordados na formação dos profissionais. O estudante começa a perceber que sua futura atuação exige mais do que conhecimento técnico: exige sensibili- dade, consciência e compromisso com a vida em todas as suas dimensões. O contato direto com práticas de pesquisa e situações reais oferece oportu- nidades de aprendizado. Ao participar de estudos, aplicar questionários, coletar dados ou mesmo observar interações entre pesquisador e participante, surgem dilemas que exigem escolhas conscientes. Essas vivências concretas desafiam o estudante a alinhar teoria e prática, escutar mais atentamente e considerar o outro em sua singularidade. Com o tempo, essas experiências se transformam em aprendizados profun- dos. Olhar para trás e refletir sobre os próprios atos, perceber o que poderia ter sido feito de forma diferente e identificar os valores que orientaram as decisões UNIASSELVI 5 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 ajuda a fortalecer uma postura profissional mais madura e comprometida. Assim, compreender a ética na pesquisa deixa de ser um conteúdo a ser memorizado e passa a ser uma parte indissociável da identidade profissional em construção. DESENVOLVA SEU POTENCIAL FUNDAMENTOS ÉTICOS NA PESQUISA CIENTÍFICA A ética na pesquisa científica com seres humanos constitui um dos fundamen- tos indispensáveis à produção responsável e justa do conhecimento. No campo da saúde, onde frequentemente estão em jogo condições de vulnerabilidade, VAMOS RECORDAR? Você lembra o papel da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) na pesquisa com seres humanos? No vídeo Ética na Pesquisa com Seres Humanos, é apre- sentada a importância da Conep na proteção dos partici- pantes e na garantia dos princípios éticos fundamentais nas pesquisas científicas. Assista agora e fique por dentro desse assunto essencial para sua formação profissional. Você sabe o que fazer quando seu projeto recebe uma pen- dência do CEP? Neste episódio, acompanharemos Letícia e sua orientadora em um caso quase real, cheio de aprendizados so- bre ética em pesquisa. Venha com a gente entender esse pro- cesso na prática! PLAY N O CONHECIMENTO 5 8 https://youtu.be/jgnzObbfy-c?si=REyawYMuehTt_UgD https://on.soundcloud.com/cYYVbIARz9H5BR3vgK sofrimento e desigualdade, os princípios éticos ganham relevância ainda maior, servindo como guia para ações que respeitem os direitos e a dignidade dos par- ticipantes. Compreender esses fundamentos é imprescindível para formar profis- sionais tecnicamente competentes, mas com sensibilidade às implicações sociais e humanas de suas práticas investigativas. Segundo Melo e Melo (2023), a ética aplicada à ciência deve ser compreendi- da como um elo entre o conhecimento e os direitos humanos, propondo que toda pesquisa, independentemente de sua área, seja orientada por valores universais, como respeito, equidade e solidariedade. Isso significa que o pesquisador deve atuar com consciência das implicações de sua atividade, buscando o bem-estar dos participantes e evitando qualquer forma de dano ou injustiça. Segundo Gomes, Cardoso e Rocha (2018), entre os princípios mais ampla- mente discutidos no campo da bioética, destacam-se a beneficência, a não ma- leficência, a justiça e a autonomia. Esses conceitos orientam o planejamento e a execução das pesquisas e estabelecem critérios para avaliação ética dos projetos. A beneficência, por exemplo, pressupõe que a pesquisa deve oferecer algum tipo de benefício, seja individual ou coletivo, evitando intervenções que gerem apenas riscos. A não maleficência, por sua vez, exige um compromisso ativo com a prevenção de danos físicos, emocionais, sociais ou simbólicos aos participantes. Ainda segundo os autores, o princípio da justiça diz respeito à equidade no acesso aos benefícios da pesquisa e à distribuição justa dos encargos e riscos en- tre os sujeitos envolvidos. Isso se reflete na necessidade de uma seleção ética dos participantes, especialmente, evitando a exploração de populações vulneráveis. A autonomia, finalmente, está relacionada ao respeito pela capacidade de decisão do indivíduo, o que se concretiza por meio do consentimento livre e esclarecido, uma etapa que garante que os participantes compreendam plenamente os obje- tivos, os métodos e os possíveis desdobramentos da pesquisa. Esses princípios devem ser interpretados dentro de contextos socioculturais específicos, especialmente em pesquisas qualitativas, onde o envolvimento com os sujeitos é mais próximo e relacional. O pesquisador precisa cultivar uma pos- tura ética contínua, guiada pela escuta, pela empatia e pelo compromisso com o outro. Essa abordagem é especialmente importante em estudos que envolvem narrativas pessoais, histórias de vida e observações em campo, onde a sensibili- dade ética se torna parte do próprio método. UNIASSELVI 5 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 Além dos aspectos individuais, há também uma dimensão coletiva e institucional da ética em pesquisa. É dever do pesquisador considerar o impacto social de sua investigação, promo- vendo o avanço do conhecimento sem comprometer os direitos e o bem-estar das comunidades envolvidas. Isso implica responsabilidade com a divulgação dos dados, com a preservação da confidencialidade e com a devolutiva dos resultados às populações estudadas. Nesse cenário, torna-se essencial que o processo de formação dos profissio- nais de saúde inclua o desenvolvimento de competências éticas, que permitam uma atuação crítica e comprometida. A ética não deve ser tratada como uma formalidade ou um obstáculo à produção científica, mas como um alicerce que legitima o saber produzido e fortalece o vínculo entre ciência e sociedade. É dever do pesquisador considerar o impacto social de sua investigação Assim, para se compreender os fundamentos éticos na pesquisa científica, é neces- sário internalizar valores, construir uma postura profissional respeitosa e engajada e reconhecer que toda investigação que envolve seres humanos deve, antes de tudo, preservar sua dignidade, promover o bem-estar e fortalecer a justiça social. 1 1 HISTÓRICOE EVOLUÇÃO DAS DIRETRIZES ÉTICAS A construção das diretrizes éticas na pesquisa com seres humanos está profun- damente ligada ao contexto histórico do seu surgimento. Ao longo do século XX, episódios marcados por graves violações da dignidade humana revelaram a urgência de estabelecer parâmetros regulatórios para proteger os indiví- duos envolvidos em estudos científicos. Tais acontecimentos provocaram uma transformação significativa na forma como a ciência passou a ser conduzida, principalmente, nas áreas da saúde e das ciências humanas e sociais. De acordo com Motta, Vidal e Siqueira-Batista (2012), a preocupação com a ética em pesquisa surgiu como resposta aos abusos cometidos durante re- gimes autoritários, especialmente os experimentos conduzidos na Alemanha nazista. Nesse período, pessoas eram submetidas a procedimentos cruéis sem qualquer consentimento, sendo tratadas como objetos de experimentação. Em reação a essas atrocidades, surgiu o Código de Nuremberg (1947), con- siderado o primeiro documento internacional a estabelecer diretrizes éticas formais para a pesquisa científica, introduzindo, entre outros princípios, o consentimento voluntário e informado dos participantes. Posteriormente, com o avanço das pesquisas biomédicas e o aumento da visibilidade de novos casos de violação ética, foi elaborada a Declaração de Helsinque (1964), que ampliou as diretrizes anteriores, incorporando aspectos mais detalhados sobre a proteção dos participantes e o papel dos comitês de avaliação ética. Esse documento consolidou a exigência de que todos os estu- dos envolvendo seres humanos fossem previamente avaliados por instâncias independentes, com o intuito de assegurar o respeito à dignidade, à liberdade e ao bem-estar dos envolvidos (Melo; Melo, 2023). O desenvolvimento das normativas éticas não ocorreu apenas por ini- ciativa das instituições científicas, mas também como resultado de mobi- lizações sociais e políticas que reivindicavam mais transparência, justiça e equidade na condução das pesquisas. Segundo Fonseca (2015), eventos, como o estudo Tuskegee, nos Estados Unidos, no qual homens negros in- fectados com sífilis foram impedidos de receber tratamento mesmo após a descoberta da penicilina, foram fundamentais para escancarar os riscos da ciência descomprometida com os direitos humanos. UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 No Brasil, o processo de institucionalização das diretrizes éticas foi influenciado por esse movimento internacional, mas também precisou lidar com as especi- ficidades culturais, sociais e acadêmicas do país. De forma progressiva, foram sendo criadas instâncias responsáveis por regulamentar a pesquisa científica com seres humanos, promovendo a implantação de comitês de ética e a elaboração de documentos normativos adaptados à realidade nacional. É importante ressaltar que a ética em pesquisa não se restringe à formalidade dos documentos, mas deve ser uma prática viva, contextual e relacional. A ética precisa dialogar com as realidades sociais e culturais dos participantes, adaptando-se aos diferentes cenários onde a ciência é produzida. Isso significa compreender que a proteção ética vai além da obtenção de assinaturas, envolvendo escuta, respeito e corresponsabilidade entre os envolvidos no processo investigativo. Em síntese, a evolução das diretrizes éticas reflete uma mudança no paradigma científico, no qual a centralidade da pessoa humana é reconhecida como condi- ção para a legitimidade da pesquisa. Os marcos históricos que deram origem às normativas são expressões de lutas por justiça, reconhecimento e proteção dos sujeitos envolvidos na produção do saber. Entender esse percurso é fundamental para que estudantes e pesquisadores desenvolvam uma atuação crítica, sensível e comprometida com a integridade ética da ciência. O PAPEL DO CEP E DA CONEP O controle ético da pesquisa científica com seres humanos no Brasil é exercido por um sistema estruturado que visa garantir a integridade dos estudos e a proteção dos participantes. Nesse contexto, os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) desempenham funções complementares e fundamentais. Pesquisadores e estudantes da área da saúde, especialmente em campos, como a enfermagem, onde a interação com os sujeitos da pesquisa é constante e sensível, precisam compreender o papel de cada uma dessas instâncias. 1 2 Os CEPs constituem instâncias institucionais responsáveis por avaliar os aspec- tos éticos dos projetos de pesquisa em nível local. Estão presentes em univer- sidades, institutos de pesquisa, hospitais e outras instituições que desenvolvem estudos com seres humanos. A sua atuação envolve a análise dos riscos e be- nefícios das propostas, a verificação da clareza e adequação dos instrumentos de consentimento e a observância de princípios éticos fundamentais, como a autonomia, a justiça e a beneficência. O CEP é, portanto, a porta de entrada do processo de avaliação ética, funcionando como um mediador entre o pes- quisador e os direitos dos participantes. Já a Conep atua em instância nacional e coordena o sistema como um todo. A Conep possui papel regulador, normativo e deliberativo, sendo responsável por elaborar diretrizes éticas gerais, supervisionar os CEPs e avaliar pesquisas que envolvem temáticas de maior complexidade ou risco, como estudos com popu- lações vulneráveis, tecnologias invasivas ou projetos multicêntricos de grande escala. A Conep também intervém quando há recursos contra decisões dos CEPs ou em casos de denúncias sobre condutas inadequadas. UNIASSELVI 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 O processo de submissão de projetos aos CEPs deve ser compreendido como uma etapa de proteção, e não como um obstáculo burocrático. É por meio dessa análise que se verifica se os participantes estão sendo devidamente informados, se os dados sensíveis estão protegidos e se o estudo está comprometido com os princípios da ética em pesquisa. Além disso, os CEPs realizam acompanhamento dos estudos, exigindo relatórios, e podem solicitar ajustes ou suspensões, caso identifiquem irregularidades (Soares et al., 2016). Quando você submete um projeto ao CEP, ele passa, primeiro, por uma che- cagem, é como uma triagem para verificar se todos os documentos necessários foram enviados corretamente. Depois disso, vem a análise inicial do CEP, onde se observa se o projeto está de acordo com os princípios éticos estabelecidos pelas resoluções vigentes, como a Resolução CNS nº 466/2012. A partir dessa análise, há dois caminhos iniciais: ■ Se o projeto for aprovado diretamente, a tramitação é finalizada e você pode dar andamento à pesquisa. ■ Se houver pendências, o CEP pode solicitar ajustes. Nesse caso, você re- ceberá uma devolutiva com as correções necessárias. Aí é o momento de responder, ajustar o que for solicitado e reenviar. Esse retorno será novamente avaliado: ■ Se tudo estiver certo, o projeto será aprovado. ■ Porém, se ainda houver problemas, o parecer pode vir como pendente mais uma vez, e aí começa um novo ciclo de resposta. ■ Em situações em que o CEP identifica óbices éticos (problemas graves do ponto de vista da ética), o projeto pode não ser aprovado. Caso o projeto não seja aprovado, é possível apresentar um recurso. Esse recurso será analisado novamente pelo CEP e pode levar à aprovação ou à manutenção da não aprovação. Se mesmo após o recurso o projeto continuar não aprovado, o pesquisador ainda tem uma última instância: apelar à Conep (Comissão Na- cional de Ética em Pesquisa), que avaliará o caso. Agora, vejamos, na Figura 1, como funciona o fluxograma de tramitação dos protocolos de pesquisa. 1 1 Figura 1 – Fluxograma de tramitação dos protocolos de pesquisa / Fonte: Conep (2122, p. 15). Descrição da Imagem: a figura apresenta um fluxograma, colorido, que representa o processo de avaliação ética de projetos submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Na parte superiorcentral, há um retângulo azul-claro, no qual está escrito “Checagem”, ligado por uma seta pontilhada azul a outro retângulo logo abaixo, em azul-escuro, com o texto “Análise inicial do CEP”. A partir desse ponto, o fluxograma se divide em dois caminhos principais: um à esquerda e outro à direita. No lado esquerdo, aparece um retângulo verde, no qual está escrito “Aprovado”. Abaixo dele, há uma seta que leva a um retângulo cinza, no qual está escrito “Tramitação finalizada”. Ainda no lado esquerdo, há duas ramificações: a primeira, para cima, conduz a um retângulo laranja com a palavra “Retirado”, que também leva à “Tramitação finalizada” em cinza, e a segunda ramificação desce e leva a um retângulo amarelo-claro com o texto “Pendente”. De “Pendente”, uma seta segue para um retângulo laranja com a palavra “Resposta”, que, por sua vez, divide-se em dois caminhos: um leva a um retângulo verde com a palavra “Aprovado” e, depois, à “Tramitação finali- zada”; o outro leva a um retângulo roxo com o texto “Óbice(s) ético(s)”. No lado direito da imagem, outro caminho parte da “Análise inicial do CEP” e conduz a um retângulo amarelo com a palavra “Pendente”. Abaixo dele, há três retângulos laranja empilhados com as seguintes etapas: “Resposta”, “Checagem documental” e “Análise - CEP”. Essa sequência leva a um retângulo vermelho com o texto “Não aprovado”. A partir de “Não aprovado”, há uma seta para um retângulo laranja com a palavra “Recurso”. Se o recurso for aceito, uma seta leva a um retângulo verde com o texto “Aprovado” e, em seguida, à “Tramitação finalizada” em cinza. Se o recurso for negado, a seta segue para outro retângulo vermelho com “Não aprovado”, que, por sua vez, leva a um novo “Recurso” (em laranja) e, por fim, a um retângulo azul-claro com o texto “Conep”. As cores utilizadas ajudam a identificar as etapas: azul para checagem e análise inicial; verde para aprovação; amarelo para pendência; laranja para ações intermediárias, como respostas e recursos; vermelho para reprovação; roxo para obstáculos éticos; e cinza para indicar tramitação finalizada. Fim da descrição. UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 A função pedagógica dos CEPs também deve ser ressaltada ao promover orien- tações, dialogar com os pesquisadores e revisar as propostas de forma crítica e colaborativa. Esses comitês contribuem para a formação de uma cultura ética na ciência. Eles, além de fiscalizar, educam e promovem o desenvolvimento de uma consciência ética entre os profissionais e acadêmicos. Um ponto importante é o compromisso dessas instâncias com a transpa- rência e a justiça. A existência de uma estrutura, como o sistema CEP/Conep, assegura que a ciência esteja sujeita à supervisão da sociedade, evitando práticas abusivas e garantindo que os interesses dos participantes sejam priorizados frente às ambições acadêmicas ou institucionais. Essa mediação é essencial para manter a legitimidade da pesquisa científica e fortalecer a confiança pública na ciência. Portanto, analisar o papel do CEP e da Conep é reconhecer que a ética em pesquisa é uma condição que perpassa todas as etapas do processo científico. Esses órgãos são responsáveis por garantir que a produção de conhecimento ocorra com responsabilidade, respeito e compromisso com a dignidade humana, promovendo uma ciência mais justa, transparente e socialmente comprometida. INSTRUMENTOS ÉTICOS: TCLE, REGISTRO E CONSENTIMENTO A proteção ética dos participantes de pesquisas científicas é um fator fundamen- tal para garantir o respeito à dignidade humana e à autonomia individual. Dentre os instrumentos mais relevantes nesse processo, está o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), cuja função é assegurar que os sujeitos envolvidos tenham plena compreensão sobre a pesquisa, seus objetivos, riscos, benefícios e direitos. O consentimento, entretanto, não deve ser entendido como um mero procedimento burocrático, mas como parte essencial do compromisso ético do pesquisador com a integridade da relação estabelecida com o participante. O consentimento livre e esclarecido deve ser adequado ao contexto da pes- quisa e às características socioculturais dos participantes. Isso significa que não há um único modelo de obtenção do consentimento que se aplique de forma universal. Em muitas situações, especialmente nas ciências humanas e sociais, a linguagem escrita formal pode não ser a melhor forma de garantir a compreen- são e a voluntariedade, exigindo alternativas, como registros sonoros ou visuais. 1 1 Essa diversidade de modalidades foi reconhecida pelas normativas para pesquisas em ciências humanas e sociais, que ampliaram o conceito tradicional de TCLE para contemplar outras formas de registro. O importante é garantir que o participante receba informações suficientes, em linguagem clara, e tenha a liberdade para aceitar ou recusar sua participação sem coerções, constrangimentos ou prejuízos. O pesquisador, por sua vez, deve estar atento ao processo de con- sentimento como um diálogo contínuo, que pode e deve ser retomado ao longo do estudo, especialmente em pesquisas de longa duração ou com múltiplas etapas. O termo de consentimento trata-se de estabelecer um vínculo de respeito e cooperação entre quem pesquisa e quem contribui com a pesquisa, sustentado pelo diálogo, pela compreensão mútua e pelo compromisso ético. Esse cuidado deve permanecer presente mesmo após o término da coleta de informações, prin- cipalmente no momento em que os achados forem compartilhados, assegurando o sigilo dos dados e protegendo a identidade dos envolvidos. Nas pesquisas em saúde, o TCLE assume uma importância ainda maior, considerando a possibilidade de riscos físicos, emocionais ou simbólicos aos participantes. Em contextos clínicos, o consentimento deve incluir os aspectos científicos do estudo e suas implicações práticas para o cotidiano dos participan- tes, como a necessidade de deslocamento, o uso de medicamentos ou a realização de exames. Essa abordagem ampliada do consentimento reforça a centralidade da autonomia do sujeito e a necessidade de respeitar seus valores, crenças e decisões. Além disso, é importante considerar situações em que o consentimento deve ser obtido de forma diferenciada, como em pesquisas com populações vulneráveis, crianças, pessoas com deficiência ou em contextos comunitários. Nesses casos, o processo de consentimento exige atenção redobrada e, muitas vezes, o uso de instrumentos complementares, como o assentimento, que ga- rante a manifestação da vontade do participante, mesmo quando ele não possui plena capacidade legal para consentir. Portanto, discutir os instrumentos éticos de consentimento é reconhecer que a ética em pesquisa vai além da conformidade documental. Ela exige sensibili- dade para identificar as melhores formas de comunicação com os participantes, responsabilidade para garantir sua proteção e compromisso com a construção de uma ciência ética, transparente e respeitosa. Tenha a liberdade para aceitar ou recusar sua participação sem coerções UNIASSELVI 1 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 ÉTICA NA PESQUISA QUALITATIVA EM SAÚDE A pesquisa qualitativa, particularmente no campo da saúde, ocupa um lugar singular na produção do conhecimento, pois busca compreender as experiên- cias humanas em sua complexidade, subjetividade e contexto social. Diferen- temente das abordagens quantitativas, que operam com dados mensuráveis, a pesquisa qualitativa envolve um contato direto com os sujeitos, suas histórias, sentimentos e vivências. Essa característica torna o componente ético ainda mais central e desafiador, exigindo sensibilidade, respeito e constante reflexão por parte do pesquisador. A ética na pesquisa qualitativa deve ser compreendida como um processo contínuo, não restrito à aprovação formal dos projetos por comitês de ética. Nesse tipo de investigação, a relação entre pesquisador e participante é marcada por in- terações abertas e escuta ativa. Taisvínculos, embora fundamentais para o apro- fundamento dos dados, também geram dilemas éticos que exigem discernimento constante, especialmente em relação à preservação da privacidade, à exposição de situações sensíveis e à manipulação da narrativa do outro (Amorim, 2019). Segundo Minayo (2021), a reflexividade é um dos principais elementos éticos desse tipo de pesquisa. O pesquisador qualitativo não é um observador neutro, mas um sujeito que interfere e é interferido pelo campo. Essa consciência de si e da influência mútua no processo investigativo deve ser explicitada como parte da postura ética. Trata-se de reconhecer os próprios valores, limites e impactos na coleta e interpretação dos dados, de modo que a relação com os participantes seja horizontal e respeitosa. Outro aspecto essencial é a natureza relacional dos dados produzidos qua- litativamente, onde os dados são construídos em conjunto com os sujeitos. Isso implica que o pesquisador tem a responsabilidade ética de representar com fi- delidade as vozes que emergem no processo investigativo, evitando distorções, silenciamentos ou interpretações descontextualizadas que possam prejudicar os participantes ou suas comunidades. A aprovação ética de projetos qualitativos por instâncias reguladoras sempre foi motivo de debate, sobretudo pela inadequação dos critérios utilizados inicialmente, que eram baseados em modelos biomédicos. O reconhecimento dessas especifi- cidades levou à criação de diretrizes mais apropriadas, com a publicação de regu- lamentações que contemplam as particularidades das ciências humanas e sociais. 1 8 Essas diretrizes representam um avanço, pois compreendem que, em vez de um termo padronizado de consentimento, muitas vezes, é necessário adaptar a linguagem, a forma de registro e o momento da autorização, respeitando as realidades e culturas dos participantes. As regulamentações para pesquisas em ciências humanas e sociais trouxeram, entre outras inovações, o reconhecimento de que nem todo estudo exige o mesmo tipo de consentimento formal, podendo adotar formas alternativas, como gravações ou registros visuais. No campo da saúde, onde as pesquisas qualitativas frequentemente envolvem contextos de sofrimento, exclusão e desigualdade, é necessário adotar práticas éticas que valorizem a dignidade dos sujeitos. Isso significa promover benefícios sociais, como o reconhecimento das narrativas marginalizadas e o estímulo à participação cidadã no processo científico, além de evitar danos. UNIASSELVI 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 Portanto, a ética na pesquisa qualitativa em saúde deve ser pensada como uma postura comprometida com o cuidado, a escuta e o reconhecimento do outro. Ao considerar a complexidade das relações humanas envolvidas, essa abordagem amplia o sentido da ética científica, promovendo um conhecimento que é, ao mesmo tempo, rigoroso e sensível às realidades vividas. O Experimento da Prisão de Stanford, um dos mais conhecidos da psicologia, investigou como contextos institucionais influenciam comportamentos e relações de poder. Apesar da ampla divulga- ção, o estudo é alvo de críticas éticas e metodológicas. Neste ví- deo, você refletirá sobre seus ensinamentos para a Enfermagem, que lida com diversos contextos sociais e relações humanas. E U I N DI CO BIOÉTICA: PRINCÍPIOS E APLICAÇÕES EM SAÚDE E ENFERMAGEM A bioética, enquanto campo transdisciplinar, surge da necessidade de refletir criticamente sobre as implicações éticas das práticas em saúde, especialmente diante do avanço das tecnologias biomédicas e das transformações nas relações entre profissionais e pacientes. Esse campo do saber propõe uma abordagem integrada entre ciência, filosofia e direitos humanos, sendo fundamental para orientar a conduta de enfermeiros e demais profissionais de saúde na tomada de decisões complexas que envolvem vida, morte, sofrimento, autonomia e justiça. Além do ambiente clínico, a bioética também influencia diretamente a produção do conhecimento na área da saúde. Isso ocorre, por exemplo, nas decisões sobre os tipos de pesquisa a serem conduzidas, os métodos a serem utilizados e a forma como os resultados são divulgados. Dessa forma, a bioética impõe limites à ciência, lembrando que nem tudo o que é possível tecnicamen- te deve ser feito, especialmente quando há riscos à dignidade humana. Essa perspectiva reforça a necessidade de submeter projetos de pesquisa à avaliação ética e de garantir que os interesses da sociedade estejam acima de interesses meramente acadêmicos ou econômicos. 7 1 https://www.youtube.com/watch?v=kY_ioteYEHs Outro aspecto importante diz respeito ao impacto das novas tecnologias nas práticas de saúde. O uso de dispositivos de monitoramento, inteligência artificial, manipulação genética e intervenções invasivas levanta questões bioéticas cada vez mais complexas. Nesse cenário, os profissionais de enfermagem, por estarem em contato direto com os pacientes, precisam estar preparados para lidar com as implicações dessas tecnologias, assumindo um papel ativo na defesa dos direitos dos usuários e na promoção de cuidados éticos. O artigo Bioética: afinal, o que é isto? apresenta uma reflexão crítica sobre a origem, os conceitos e os principais desafios da bioética, destacando sua importância para lidar com questões éticas nas ciências da vida, na saúde pública, na pesquisa e na preservação ambiental. Confira! E U I N DI CO Portanto, a bioética é uma base essencial para a construção de práticas compro- metidas com a vida, a justiça e a dignidade. No campo da enfermagem, ela se manifesta na escuta, na presença, na defesa dos vulneráveis e na constante refle- xão sobre o agir profissional. A bioética contribui para formar profissionais mais conscientes, críticos e preparados para enfrentar os dilemas éticos do cotidiano com responsabilidade e humanidade. RESPONSABILIDADE SOCIAL E CIENTÍFICA DOS PESQUISADORES A produção científica, especialmente quando envolve seres humanos, é um exer- cício técnico ou intelectual e um compromisso ético que transcende a metodo- logia, atingindo diretamente a vida das pessoas, suas histórias e seus contextos sociais. Nesse sentido, a responsabilidade social e científica dos pesquisadores ocupa um lugar central na ética da pesquisa, exigindo uma postura que combi- ne rigor metodológico com sensibilidade humana e consciência dos impactos sociais do conhecimento produzido. UNIASSELVI 7 1 https://docs.bvsalud.org/upload/S/1679-1010/2012/v10n5/a3138.pdf TEMA DE APRENDIZAGEM 3 Segundo Amorim (2019), o pesquisador não deve apenas observar regras éticas formais, mas incorporar a ética como atitude diante do outro, reconhecendo a alteridade, os direi- tos e a dignidade dos sujeitos da pesquisa. Isso significa que, desde a fase de planejamen- to, é preciso refletir sobre o objetivo social do estudo, os benefícios que ele pode gerar e os possíveis riscos que podem ser causados aos participantes e à comunidade envolvida. A ciência, ao lidar com vidas humanas, deve ser orientada por valores, como solidariedade, justiça e respeito à diversidade. Essa orientação se traduz em práticas que vão desde a construção de perguntas de pesquisa socialmente relevantes até a escolha de métodos éticos e o tratamento respeitoso dos dados coletados. A res- ponsabilidade do pesquisador não se encerra com a obtenção dos resultados, mas se estende à forma como esses resultados são interpretados, divulgados e utilizados. Um dos pilares dessa responsabilidade é a transparência. A clareza na comuni- cação dos objetivos, métodos e riscos da pesquisa é essencial para garantir o consen- timento verdadeiramente informado dos participantes. Segundo Gomes, Cardoso e Rocha (2018), essa transparência deve estar presente também na relação com a socie- dade, por meio da devolução dos resultados de forma acessível e útil para as comuni- dades envolvidas. A pesquisa, especialmente em saúde, deve ser compreendida como um instrumentode transformação social, e não como um privilégio de especialistas. A veracidade dos dados também é um aspecto fundamental da ética na pes- quisa. Manipulações, omissões ou interpretações enviesadas comprometem a integridade científica e podem gerar impactos negativos sobre políticas públicas, práticas clínicas e a própria confiança da população na ciência. A relevância social da pesquisa é outro elemento que precisa ser considerado como parte da responsabilidade ética do pesquisador. Isso implica escolher temas que dialoguem com as ne- cessidades reais da sociedade, evitando estudos que apenas reproduzam desigualdades ou reforcem estig- mas. Nas ciências da saúde e humanas, é preciso ir além da preocupação com a validade científica, incorporan- do a preocupação com o impacto social e cultural dos estudos. A ética, portanto, não se limita à conformidade com normas institucionais. Ela se manifesta na postura do pesquisador diante dos desafios do campo, das ambiguidades das relações humanas e das tensões entre interesses acadêmicos, institucionais e sociais. Uma conduta ética exige coragem para questionar padrões estabelecidos, humildade para escu- tar os sujeitos da pesquisa e compromisso com uma ciência voltada para o bem comum. Temas que dialoguem com as necessidades reais da sociedade 7 2 Desse modo, estimular a reflexão crítica sobre a responsabilidade científica e social é uma etapa essencial na formação de pesquisadores conscientes e compro- metidos. Mais do que produzir conhecimento, trata-se de produzir conhecimen- to com sentido, respeito e propósito. Isso fortalece a ciência como ferramenta de justiça social e contribui para uma sociedade mais ética, inclusiva e democrática. NOVOS DESAFIOS Ao longo deste tema de aprendizagem, exploramos conceitos fundamentais sobre ética e bioética na pesquisa e na prática em saúde. Agora, é importante reconhe- cer como esse conhecimento teórico se manifesta no dia a dia do enfermeiro. Cada tomada de decisão, cada escuta atenta e cada cuidado prestado é atraves- sado por princípios éticos que foram discutidos aqui. Beneficência, autonomia, justiça e não maleficência deixam de ser apenas conceitos e passam a ser guias concretos que orientam a conduta profissional em situações reais, especialmente diante da vulnerabilidade dos pacientes. Na prática, isso significa que o enfermeiro atua não apenas com base em pro- tocolos técnicos, mas também com sensibilidade, escuta qualificada e responsa- bilidade social. A formação ética se revela no modo como o profissional acolhe, respeita as escolhas dos pacientes, conduz consentimentos informados e participa de pesquisas com integridade. Dessa for- ma, teoria e prática não caminham separadas: elas se entrelaçam na construção de uma identidade profissional comprometida com o cuidado humano e com a produção responsável de conhecimento na enfermagem. Dessa forma, teoria e prática não caminham separadas Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO UNIASSELVI 7 3 https://vimeo.com/1119443243/e1509c75f3 TEMA DE APRENDIZAGEM 3 O ser enfermeiro, no entanto, envolve mais do que dominar técnicas assistenciais, exige também com- preender o compromisso ético que envolve a atuação profissional e a produção de conhecimento. Partici- par de pesquisas de forma ética, conhecendo o papel fundamental do CEP e da Conep, assim como conduzir adequadamente o processo de consentimento com o uso do TCLE são práticas que reforçam a responsabili- dade do enfermeiro na proteção dos direitos e da dignidade dos pacientes. Essa consciência e preparo ético tornam-se diferenciais importantes para uma atuação profissional íntegra, segura e alinhada às exigências contemporâneas da saúde. 7 1 1. O controle ético da pesquisa científica com seres humanos no Brasil é exercido por um sis- tema estruturado que visa garantir a integridade dos estudos e a proteção dos participantes. Nesse contexto, os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) desempenham funções complementares e fundamentais. Os CEPs são responsáveis pela avaliação ética local dos projetos, enquanto a Conep atua em nível na- cional, elaborando diretrizes e avaliando pesquisas de maior complexidade, como aquelas que envolvem populações vulneráveis ou riscos elevados (Amorim, 2019; Fonseca, 2015). Sobre o funcionamento do sistema de avaliação ética da pesquisa científica com seres humanos no Brasil, assinale a alternativa correta: a) Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) têm como principal função elaborar normas éticas nacionais aplicáveis às pesquisas científicas. b) A Conep é uma instância local que avalia todos os projetos de pesquisa submetidos por instituições de ensino superior. c) O sistema CEP/Conep tem por finalidade principal a aprovação de projetos em nível internacional, sem interferência em pesquisas locais. d) A Conep é responsável por avaliar projetos de maior complexidade ética e coordena os CEPs, funcionando como instância nacional reguladora. e) Os CEPs não possuem autonomia para emitir pareceres; todas as decisões são tomadas exclusivamente pela Conep. 2. A ética em pesquisas com seres humanos é um dos pilares fundamentais da produção científica na área da saúde. Ela se baseia em princípios que asseguram a dignidade, a li- berdade e a segurança dos participantes, exigindo compromisso dos pesquisadores com práticas transparentes, informadas e responsáveis. A Resolução CNS nº 466/2012 e outras normativas são referências obrigatórias. No entanto, ainda, existem lacunas entre o co- nhecimento teórico e sua aplicação na prática cotidiana, exigindo maior formação ética e conscientização por parte de todos os envolvidos (Lima et al., 2010). Analise as afirmativas a seguir sobre a ética em pesquisas com seres humanos: I - A ética em pesquisa busca garantir a proteção dos participantes, respeitando sua digni- dade, autonomia e integridade. II - A aplicação prática dos princípios éticos ainda enfrenta desafios, especialmente em relação à obtenção do consentimento livre e esclarecido. III - As diretrizes éticas, como a Resolução CNS nº 466/2012, são fundamentais para orientar as práticas em pesquisa envolvendo seres humanos. IV - O conhecimento sobre ética em pesquisa está consolidado entre os profissionais de saúde, sendo desnecessária a formação contínua. AUTOATIVIDADE 7 5 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. Pesquisas indicam que os acadêmicos de enfermagem reconhecem a importância da ética na pesquisa com seres humanos, mas apresentam lacunas em relação ao conhecimento das diretrizes normativas e do funcionamento do sistema CEP/Conep. O sistema brasileiro é estruturado para proteger os participantes das pesquisas, sendo formado pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs), em nível institucional, e pela Comissão Nacional de Ética em Pes- quisa (Conep), em nível nacional. O fortalecimento da formação ética e bioética é essencial para garantir práticas científicas responsáveis (Cardoso; Gomes; Rocha, 2018; Amorim, 2019). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - O conhecimento ético dos estudantes de enfermagem sobre a condução de pesquisas com seres humanos ainda apresenta fragilidades. PORQUE II - O sistema CEP/Conep atua apenas na aprovação de projetos científicos desenvolvidos por instituições privadas e não se aplica ao contexto da formação acadêmica pública. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a IIé uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 7 1 REFERÊNCIAS AMORIM, K. P. C. Ética em pesquisa no sistema CEP-CONEP brasileiro: reflexões necessárias. Ciência & Saúde Coletiva, v. 24, n. 3, p. 1033-1040, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ csc/a/GVpthgx8Qf5vYtRFMLt5CJN/. Acesso em: 3 jun. 2025. CARDOSO, P. K. B.; GOMES, A. V.; ROCHA, F. C. V. Ética e bioética em pesquisa: conhecimento de acadêmicos do curso de enfermagem. Revista Uningá, v. 55, n. 4, p. 209-219, 2018. CONEP – COMISSÃO NACIONAL DE ÉTICA EM PESQUISA. Construção do parecer consubstan- ciado: sugestões de padronização. Brasília, DF: Conep, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/ conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/sobre-o-conselho/camaras-tecni- cas-e-comissoes/conep/cep/projetos-de-acreditacao-de-cep/publicacoes/manual-cons- trucao-do-parecer-consubstanciado-sugestoes-de-padronizacao.pdf. Acesso em: 3 jun. 2025. FONSECA, C. Situando os comitês de ética em pesquisa: o sistema CEP (Brasil) em perspectiva. Horizontes antropológicos, v. 21, n. 44, p. 333-369, 2015. Disponível em: https:// www.scielo.br/j/ha/a/wwFHfCrDPN8xF5HpS9HCKDP/abstract/?lang=pt. Acesso em: 3 jun. 2025. GOMES, A. V.; CARDOSO, P. K. B.; ROCHA, F. C. V. Research protocols: ethical and bioethical as- pects recognition and analysis. Revista de Enfermagem da UFPI, v. 7, n. 2, 2018. Disponível em: https://periodicos.ufpi.br/index.php/reufpi/article/view/499. Acesso em: 3 jun. 2025. LIMA, S. G. de. et al. Ética em pesquisas com seres humanos: do conhecimento à prática. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 95, p. 289-294, 2010. MELO, R. P. de.; MELO, L. F. de. Ética e suas implicações na pesquisa com seres humanos. Hori- zontes, v. 41, n. 1, p. 2023. Disponível em: https://revistahorizontes.usf.edu.br/horizontes/article/ view/1646. Acesso em: 3 jun. 2025. MINAYO, M. C. Ética das pesquisas qualitativas segundo suas características. Revista Pesquisa Qualitativa, v. 9, n. 22, p. 521-539, 2021. Disponível em: https://editora.sepq.org.br/rpq/article/ view/506. Acesso em: 3 jun. 2025. MOTTA, L. C. de S.; VIDAL, S. V.; SIQUEIRA-BATISTA, R. Bioética: afinal, o que é isto? Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v. 10, n. 5, 2012. Disponível em: https://pesquisa.bvsa- lud.org/portal/resource/pt/lil-652309. Acesso em: 17 abr. 2025. SOARES, M. C. et al. Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Enfermagem da UFPel: sete anos de história. Journal of Nursing and Health, v. 6, 2016. Disponível em: https://periodicos. ufpel.edu.br/index.php/enfermagem/article/view/8844. Acesso em: 3 jun. 2025. 7 7 1. Alternativa D. A alternativa D está correta, pois a Conep é a instância nacional responsável por coordenar o sistema CEP/Conep, elaborar diretrizes normativas e avaliar projetos com maior complexidade ética, como os que envolvem populações vulneráveis, riscos elevados ou multicentricidade. Sua função é reguladora, normativa e deliberativa, complementando a atuação dos CEPs. A alternativa A está incorreta, pois a elaboração de normas éticas nacionais é de competência da Conep, e não dos CEPs. Os CEPs aplicam essas normas em nível institucional/local. A alternativa B está incorreta, pois a Conep atua em nível nacional, e não como instância local. A avaliação de projetos submetidos por instituições ocorre, em regra, nos CEPs vinculados a essas instituições. A alternativa C está incorreta, pois o sistema CEP/ Conep é voltado à ética em pesquisa no contexto brasileiro, com foco na proteção de participantes, especialmente em nível local e nacional. Projetos internacionais podem ser avaliados, mas não são o foco exclusivo. A alternativa E está incorreta, pois os CEPs têm autonomia para emitir pareceres consubstanciados sobre os projetos de pesquisa, sendo a primeira instância do processo de avaliação ética. A Conep atua apenas em casos específicos ou como instância recursal. 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, pois ressalta a função central da ética em proteger os participan- tes. A afirmativa II está correta, pois aborda um dos principais desafios citados por Lima et al., que é a aplicação prática dos princípios, especialmente no processo de consentimento. A afirmativa III está correta, pois reconhece a importância da Resolução CNS nº 466/2012 como diretriz normativa essencial para a condução ética das pesquisas. A afirmativa IV está incorreta, pois o texto destaca justamente a necessidade contínua de formação ética, indicando que o conhecimento sobre ética em pesquisa não está totalmente consolidado entre os profissionais. 3. Alternativa C. A asserção I é verdadeira, pois estudos apontam lacunas no conhecimento ético de es- tudantes de enfermagem, conforme evidenciado por Cardoso et al. (2018). A asserção II é falsa, porque o sistema CEP/Conep se aplica tanto a instituições públicas quanto privadas, incluindo o contexto da formação acadêmica e projetos desenvolvidos por estudantes e docentes. A Conep, inclusive, estabelece diretrizes normativas para todas as instituições de ensino e pesquisa no Brasil (Amorim, 2019). GABARITO 7 8 MINHAS ANOTAÇÕES 7 9 UNIDADE 2 MINHAS METAS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE PESQUISA Olhar o currículo Lattes como instrumento de construção da identidade acadêmica. Reconhecer o papel das agências de fomento no incentivo à pesquisa científica. Entender a pesquisa como parte essencial da prática profissional em Enfermagem. Identificar os elementos que compõem a estrutura de um projeto de pesquisa. Estimular a elaboração de projetos de pesquisa desde a graduação. Compreender a função ética da Plataforma Brasil na pesquisa com seres humanos. Refletir sobre o enfermeiro como agente de transformação por meio da ciência. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 1 8 2 INICIE SUA JORNADA Durante a graduação em Enfermagem, é natural que muitas dúvidas surjam sobre os caminhos possíveis dentro da profissão. A maioria dos estudantes associa o futuro profissional à prática assistencial, o que é legítimo e fundamen- tal, mas nem sempre se imagina também como alguém que pesquisa, escreve projetos, participa de editais ou organiza um currículo acadêmico. À medida que avançamos na formação, no entanto, percebemos que o desen- volvimento profissional vai muito além do cuidado direto: ele também passa pela produção e aplicação do conhecimento. Imagine que você esteja finalizando a graduação e precise decidir qual cami- nho seguir: atuar diretamente na assistência, investir na docência, assumir funções de gestão ou se dedicar à pesquisa. Já parou para pensar em como sua formação pode abrir todas essas possibilidades? Mais do que cumprir exigências formais, aprender a lidar com instrumentos, como o Currículo Lattes, os projetos de pesquisa e a Plataforma Brasil, é uma forma de ampliar seus horizontes. Embora possam parecer dis- tantes da prática clínica, esses elementos fazem parte de uma base que sustenta a Enfermagem como ciência, como profissão comprometida com evidências, com ética e com transformação social. Suponha que, em breve, você esteja diante de uma vaga que exige conhe- cimento em pesquisa científica ou participação em projetos institucionais. Você estaria preparado? O profissional que compreende o funcionamento da ciência e participa ativamente dela está mais capacitado para tomar decisões críticas, trabalhar em equipe de forma colaborativa e contribuir, de maneira significativa, para a melhoria do cuidado em saúde. Neste tema de aprendizagem, vamos explorar esses caminhos que co- nectam o mundo acadêmico à realidade profissional. O convite é para que você se reconheça como protagonista da sua formação e enxergue na pes- quisa não apenas um requisito curricular, mas uma possibilidade concreta de crescimento e impacto na Enfermagem. Como ciência, como profissão comprometida com evidências UNIASSELVI 8 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 DESENVOLVA SEU POTENCIAL CURRÍCULO LATTES: IDENTIDADEACADÊMICA Se você já participou de um processo seletivo para uma bolsa de iniciação cien- tífica, submeteu um projeto a uma agência de fomento ou se candidatou a um programa de pós-graduação no Brasil, certamente, já ouviu falar ou preencheu o Currículo Lattes. Mais do que um formulário on-line, o Lattes é uma plataforma que compõe a base da organização da vida acadêmica e científica brasileira. Mas por que ele é tão central em nossa trajetória? E como surgiu essa ferramenta que, para muitos, é quase um “diário profissional”? VAMOS RECORDAR? Você se lembra da importância da pesquisa na prática da Enfermagem? A leitura do artigo a seguir convida você a recordar sobre como esses dois perfis profissionais se percebem e se relacionam no dia a dia. Você já teve uma dúvida durante um estágio e pensou: “Isso daria uma boa pesquisa”? No podcast Do problema à pesquisa: como nasce um projeto científico?, conversaremos, de forma leve e prática, sobre como transformar uma ideia em um projeto de pesquisa estruturado. PLAY N O CONHECIMENTO 8 1 https://www.scielo.br/j/reben/a/hK5YLcXV4QyfhCb5ShVfGkw/?lang=pt https://on.soundcloud.com/CL9Eei7KUd2ZxcFNYy A Plataforma Lattes foi criada no final da década de 1990 (Brasil, 2025), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com o objetivo de unificar e padronizar os currículos da comunidade científica, tec- nológica e acadêmica do país. Desde então, tornou-se referência nacional na catalogação da produção intelectual e no acompanhamento das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Seu nome é uma homenagem ao físico brasileiro César Lattes, reconhecido mundialmente por suas contribuições à ciência. A escolha de um nome emblemático não é por acaso. A plataforma carrega consigo uma dimensão simbólica: representar o compromisso com a excelência científica e com a valorização do conhecimento produzido no Brasil. Ao longo dos anos, ela se consolidou como ferramenta essencial em processos avaliativos nas universidades, institutos de pesquisa, órgãos públicos e agências de fomento. Organização e estrutura do currículo O Currículo Lattes é estruturado de forma a contemplar todas as dimensões da atuação acadêmica e profissional. Sua lógica é padronizada, o que permite com- parar perfis de pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento. Entre os campos disponíveis, estão: formação acadêmica, atuação profissio- nal, produção bibliográfica (como artigos, livros e capítulos), produção técnica, participação em eventos científicos, orientações concluídas e em andamento, en- tre outros. Já dentre as funcionalidades, destaca-se a possibilidade de integração com bases de dados, como o DOI (Digital Object Identifier) e a ORCID (Open Researcher and Contributor ID), contribuindo para a verificação da autoria e autenticidade das produções declaradas. Essa organização não é aleatória. Ela responde a uma demanda histórica por critérios mais objetivos na avaliação de méritos acadêmicos. Em outras palavras, o Lattes facilita processos, como seleção de bolsistas, avaliação de programas de pós-graduação, credenciamento docente e análise de produtividade científica. A confiabilidade da plataforma decorre da responsabilidade do próprio pesqui- sador pela atualização e veracidade das informações declaradas, podendo haver sanções em casos de fraudes ou inconsistências (Brasil, 2025). UNIASSELVI 8 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 Ele funciona como a nossa “identidade profissional” dentro do mundo acadê- mico e da pesquisa. É nele que registramos todo o nosso caminho: a graduação, estágios, participações em projetos de extensão, iniciação científica, eventos, pu- blicações e muito mais. Para você, estudante, que está na graduação, pode parecer cedo para pensar nisso, mas é justamente agora que se constrói a base de uma trajetória. Manter o Lattes atualizado e organizado é uma forma de mostrar o seu envolvimento com a Enfermagem e com a produção de conhecimento na área da saúde. Além disso, é por meio do Lattes que professores, pesquisadores, instituições de fomento — como o CNPq, a Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoa- mento de Pessoal de Nível Superior), as diversas Fundações de Amparo à Pesqui- sa existentes nos estados brasileiros bem como os programas de pós-graduação — conhecem o seu perfil e avaliam o seu mérito acadêmico para bolsas, estágios, seleções ou futuros projetos. Por isso, compreender o funcionamento, os limites e as potencialidades dessa plataforma é fundamental para qualquer pessoa que atue na pesquisa, no ensino ou na gestão acadêmica. Atualizá-lo com responsa- bilidade, refletir sobre seus critérios e propor melhorias são atitudes que também fazem parte do nosso compromisso com uma ciência mais ética, transparente e socialmente engajada. FONTES DE FINANCIAMENTO DA PESQUISA NO BRASIL Quando falamos em desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil, é funda- mental reconhecermos o papel das agências de fomento que viabilizam a realiza- ção de pesquisas, a formação de recursos humanos qualificados e a consolidação da infraestrutura acadêmica. VOCÊ SABE RESPONDER? Você sabia que o Currículo Lattes é muito mais do que uma lista de cursos e certificados? 8 1 Conhecer essas fontes de fomento, seus editais, suas áreas de atuação e os critérios de avaliação é parte fundamental da vida acadêmica. Afinal, são esses recursos que possibilitam transformar ideias em projetos, hipóteses em descobertas e conheci- mento em inovação com impacto social. Entre essas instituições, três se destacam pela abrangência e importância no cenário nacional: o CNPq, a Capes e as Funda- ções Estaduais de Amparo à Pesquisa, presentes em diversos estados brasileiros. CNPq O CNPq é uma das agências federais mais tradicionais do país. Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o conselho atua tanto no fomento direto à pesquisa quanto no apoio à formação de pesquisadores em todos os níveis. Por meio da concessão de bolsas (de iniciação científica a pós- doutorado), auxílios financeiros para projetos e editais de chamadas públicas, o CNPq desempenha papel central na promoção da ciência brasileira. Além disso, o CNPq é o responsável pela Plataforma Lattes, ferramenta essencial para a avaliação da produtividade e trajetória dos pesquisadores, e pela Plataforma Carlos Chagas, utilizada na submissão e acompanhamento de projetos financiados. Outro destaque é o PQ, Bolsa de Produtividade em Pesquisa, considerada um dos principais reconhecimentos à trajetória de ex- celência científica no Brasil. UNIASSELVI 8 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 Capes A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) está vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e tem como foco principal a formação de recursos humanos qualificados, com ênfase na pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado). A agência financia bolsas de estudo no país e no exterior, promove programas de cooperação internacional e realiza a avaliação periódica dos cursos de pós-graduação, sendo referência na indução de qualidade acadêmica. Importante destacar que muitos programas de pós-graduação contam com bolsas da Capes para seus estudantes, o que contribui para a dedicação exclusiva à pes- quisa e ao avanço das investigações científicas. A Capes também desenvolve programas estratégicos, como o Proex, o Proap e o PNPD, que apoiam a manutenção e expansão dos programas de pós-graduação. O Proex (Programa de Excelência Acadêmica) é um programa da Capes voltado para cursos de pós-graduação que possuem alto desempenho acadêmico. Ele oferece apoio financeiro para que esses programas continuem desenvolvendo pesquisas de qualidade e promovendo a formação de mestres e doutores. Os recursos podem ser usados para custear bolsas, passagens, inscrição em eventos, publicação de artigos, entre outros. Já o Proap (Programa de Apoio à Pós-graduação) também é uma iniciativa da Capes e tem como objetivooferecer suporte financeiro aos programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) que ainda não fazem parte do Proex. Ele contribui para o fortalecimento da formação acadêmica e científica, apoiando atividades, como pesquisa, capacitação de estudantes, participação em eventos e manutenção de laboratórios. Por fim, o PNPD (Programa Nacional de Pós-Doutorado) é voltado para quem já concluiu o doutorado e deseja continuar pesquisando dentro de um programa de pós-graduação. Ele oferece bolsas de pós-doutorado para pes- quisadores desenvolverem projetos em instituições de ensino superior. Esse programa ajuda a integrar doutores recém-formados às universidades, forta- lecendo os grupos de pesquisa. 8 8 Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa Além das agências federais, existem Fundações Estaduais de Amparo à Pes- quisa. Essas fundações têm papel complementar e estratégico, pois atuam em sintonia com as demandas regionais e contribuem para a descentralização do financiamento à ciência. A descentralização do financiamento à ciência permite que diferentes re- giões do Brasil invistam em pesquisa de forma mais alinhada às suas realidades, promovendo equidade no desenvolvimento científico e fortalecendo capacida- des locais. Isso significa que os recursos financeiros destinados à pesquisa cien- tífica não ficam concentrados apenas no governo federal, mas são distribuídos entre diferentes esferas de governo, especialmente para os estados. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) é um exemplo dessa atuação. Assim como ela, outras fundações estaduais, como a Fapesp (São Paulo), a Fapemig (Minas Gerais), a Facepe (Pernambuco) e a Fapesc (Santa Catarina), também, promovem editais para financiamento de pesquisas científicas e tecnológicas e concessão de bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de fomentar a inovação em parceria com empresas e instituições públicas. As Fundações Estaduais, em geral, buscam articular o desenvolvimento científico com as necessidades locais, contribuindo para o fortalecimento dos ecossistemas de inovação regionais e para uma ciência mais próxima da realidade de cada estado. A ARTICULAÇÃO ENTRE AS AGÊNCIAS Apesar de atuarem em diferentes esferas (federal e estadual), essas institui- ções, muitas vezes, trabalham de forma articulada, compartilhando critérios, cofinanciando projetos e promovendo programas conjuntos. Essa integração é essencial para garantir a continuidade das pesquisas, especialmente em tempos de restrição orçamentária. Além disso, todas essas agências utilizam o Currículo Lattes como base para avaliação dos pesquisadores e projetos submetidos, reforçando a importância da transparência e da consistência na apresentação da trajetória acadêmica. UNIASSELVI 8 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 ESTRUTURA E ELEMENTOS: DA IDEIA À CONSTRUÇÃO CIENTÍFICA Elaborar um projeto de pesquisa é uma etapa essencial para quem deseja in- vestigar um problema com rigor científico. Seja no início da graduação, no mestrado ou no doutorado, a construção do projeto permite ao pesquisador organizar seu pensamento, justificar a relevância do estudo e planejar o cami- nho metodológico a ser seguido. Como lembra Minayo (2014), a pesquisa científica é um processo sistemático que envolve tanto a construção teórica quanto a articulação com a realidade em- pírica. Por isso, o projeto de pesquisa não é apenas um documento burocrático; ele é, acima de tudo, a expressão estruturada de um percurso investigativo que visa produzir conhecimento. A seguir, apresentamos os principais elementos que compõem um projeto de pesquisa, discutindo suas funções, interconexões e cuidados na elaboração. 9 1 Introdução. A introdução é o primeiro contato do leitor com o problema de pesquisa. Deve apresentar de forma clara e objetiva o tema investigado, seu contexto e relevância científica e social, além de sinalizar o foco do estudo. Aqui, o pesquisador começa a explicitar o que será investigado e por quê. É importan- te evitar uma abordagem genérica, centrando-se em uma delimitação temática coerente com o campo de conhecimento. Segundo Lakatos e Marconi (2003), a introdução deve conduzir o leitor para o problema, ao mesmo tempo em que estabelece os contornos do estudo. Problema e Objetivos da Pesquisa. O problema da pesquisa deve emergir de uma lacuna identificada na literatura ou de uma inquietação prática fun- damentada. É a partir dessa problematização que o pesquisador formulará os objetivos gerais e específicos. O objetivo geral descreve a finalidade ampla do estudo, aquilo que se pretende alcançar. Já os objetivos específicos traduzem esse propósito em etapas ou metas operacionais, auxiliando na definição da metodo- logia. Para Minayo (2014), os objetivos precisam estar intimamente articulados ao problema de pesquisa e refletir a coerência interna do projeto. Fundamentação Teórica. A fundamentação teórica, também chamada de referencial teórico ou revisão de literatura, oferece o alicerce conceitual que sus- tenta o projeto. Trata-se de revisar criticamente os principais estudos, autores, teorias e categorias que dialogam com o tema proposto. Nesta etapa, é funda- mental demonstrar domínio do campo de conhecimento e capacidade analíti- ca. A leitura não deve ser apenas descritiva, mas interpretativa e articuladora. Como orienta Minayo (2014), o pesquisador deve posicionar-se frente ao saber já produzido, identificando consensos, contradições e lacunas que justificam a realização do estudo, ou seja, significa que o pesquisador não deve apenas repetir ou resumir o que outros estudiosos já escreveram, mas, sim, assumir uma postura crítica e reflexiva diante dos conhecimentos existentes, identificar o que falta e justificar por que o novo estudo é necessário. Metodologia. A seção metodológica é o coração técnico do projeto. É nela que se descreve o tipo de pesquisa (exploratória, descritiva, explicativa etc.), a abordagem (quantitativa, qualitativa ou mista), os instrumentos de coleta de dados, a amostra, o local do estudo e os procedimentos de análise dos dados. Minayo (2016), referência na pesquisa qualitativa em saúde, ressalta que a escolha metodológica deve ser compatível com o objeto de estudo e seus objetivos. Em outras palavras, não se trata apenas de aplicar técnicas, mas de construir estratégias UNIASSELVI 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 coerentes com a lógica interna do problema investigado. Além disso, é aqui que se deve apresentar aspectos éticos da pesquisa, como a submissão ao Comitê de Ética, o uso de termos de consentimento e a proteção dos participantes. Resultados esperados. Embora ainda não se tenha realizado o estudo, é importante sinalizar que tipo de resultados se pretende alcançar. Trata-se de uma projeção, uma hipótese do tipo de conhecimento que será produzido. Deve-se evitar previsões fechadas ou garantias de descobertas, valorizando a abertura ao inesperado. Justificativa. Alguns projetos optam por incluir uma seção chamada “Justi- ficativa”, na qual o pesquisador detalha por que o estudo é necessário e como ele pode contribuir para o campo científico, político ou social. Essa parte dialoga com a introdução, mas vai além ao mostrar o impacto potencial da pesquisa. É também um espaço estratégico para mostrar a atualidade do tema, responder a críticas antecipadas e reforçar a originalidade da proposta. Cronograma e Orçamento. O cronograma deve distribuir as etapas do projeto ao longo do tempo, especificando o que será feito em cada período (por exemplo: revisão bibliográfica, coleta, análise, redação). Já o orçamento, quan- do exigido, deve detalhar os recursos financeiros necessários para viabilizar a pesquisa (passagens, diárias, materiais, softwares etc.). Esses dois elementos são fundamentais para mostrar a viabilidade prática do estudo, especialmente em projetos submetidos a editais de fomento. Referências. Ao finaldo projeto, devem constar todas as fontes bibliográ- ficas utilizadas, seguindo as normas da instituição ou da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). A qualidade da bibliografia revela muito sobre a densidade teórica do projeto e o comprometimento do pesquisador com a atualização científica. O projeto de pesquisa é um documento vivo: ele organiza, estrutura e dá sentido à investigação que está por vir. Mais do que cumprir eta- pas formais, escrever um projeto é um exercício de reflexão crítica, planejamen- to rigoroso e compromisso ético. Autores, como Minayo (2014), ensinam-nos que não existe método neutro ou tema trivial: toda escolha carrega intencio- nalidades e implica posicionamento. Por isso, elaborar um projeto é, também, um ato de autoria, de inserção no campo científico e de responsabilidade com o conhecimento que se quer produzir. Apêndices e Anexos. Quando elaboramos um projeto de pesquisa, é comum surgirem dúvidas sobre o que deve ser incluído no corpo principal do texto e o 9 2 que pode ser apresentado como material complementar. Nesse sentido, enten- der a função dos apêndices e anexos é fundamental para organizar o trabalho de forma clara e coerente. Os apêndices são materiais elaborados pelo próprio pesquisador e servem para aprofundar ou complementar algum ponto tratado no projeto. Por exemplo, se você criou um questionário, um roteiro de entrevista ou um formulário específico para coletar os dados da pesquisa, esse material deve ser incluído como apêndice. Ele é parte do seu processo investigativo, mas, para não sobrecarregar o corpo do texto, fica separado ao final do trabalho. Já os anexos são diferentes, eles reúnem documentos que não foram produzidos por você, mas que são relevantes para embasar ou ilustrar o que está sendo discuti- do no projeto. É o caso de legislações, diretrizes do Ministério da Saúde (MS), tabelas de dados de fontes oficiais (OMS), manuais técnicos, entre outros. Esses materiais ajudam a dar suporte à sua argumentação, mesmo não sendo de sua au- toria. Tanto apêndices quanto anexos devem ser organizados após as referências bibliográficas, e cada um deles precisa ser identificado por letras (por exemplo, Apêndice A, Anexo A), sempre com títulos claros que indiquem do que se trata o conteúdo. Incluir esses materiais corretamente não é apenas uma questão de formatação: é uma prática que valoriza a transparência do processo científico e facilita a compreensão do leitor. A PLATAFORMA BRASIL E A ÉTICA NA PESQUISA CIENTÍFICA Após compreendermos a importância do Currículo Lattes como identidade aca- dêmica, conhecermos o papel das agências de fomento no incentivo à ciência e entendermos a estrutura fundamental de um projeto de pesquisa, é hora de abordar um elemento essencial para quem realiza estudos com seres humanos: a Plataforma Brasil. Trata-se do sistema nacional que centraliza e gerencia os processos de sub- missão e avaliação ética dos projetos de pesquisa no país. Assim como manter o Lattes atualizado e elaborar projetos bem fundamentados são práticas indispen- sáveis à vida acadêmica, conhecer e utilizar corretamente a Plataforma Brasil é um compromisso ético e legal de todo pesquisador. Ela representa o elo entre a produção científica e a garantia dos direitos dos participantes da pesquisa, for- talecendo a integridade e a responsabilidade na condução dos estudos. UNIASSELVI 9 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 A Plataforma Brasil é um sistema on-line, gratuito, criado para registrar, avaliar e acompanhar pesquisas que envolvem seres humanos. Pois bem: esse é o espaço oficial onde os projetos são submetidos para avaliação ética. O objetivo principal é garantir que os estudos respeitem as normas éticas e protejam os direitos, a dignidade e o bem-estar das pessoas que participam da pesquisa. Antes que qualquer coleta de dados comece, o projeto precisa ser enviado pela Plataforma Brasil e analisado por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). So- mente depois da aprovação ética é que a pesquisa pode ser iniciada. Isso vale para todos os estudos com seres humanos, da graduação ao pós-doutorado. Desde que foi criada, em 2012, a Plataforma Brasil substituiu o antigo sistema Sisnep (Sistema Nacional de Ética em Pesquisa) e se consolidou como uma base nacional unificada. Isso facilitou muito o acompanhamento das pesquisas no Brasil: agora é possível monitorar todas as etapas do processo, desde a submissão inicial até os relatórios finais, promovendo mais transparência e controle (Brasil, 2025). 9 1 Além disso, a Plataforma permitiu maior integração entre pesquisadores, Comitês de Ética e a própria sociedade, fortalecendo o compromisso com a responsabilidade científica. Ela também tornou o acesso ao sistema mais democrático, permitindo que pesquisadores de todas as regiões e áreas do conhecimento possam submeter seus projetos com mais facilidade. Todo esse processo é regulado por normas éticas que evoluíram ao longo do tempo, como a Resolução nº 466/2012, que traz princípios, como a auto- nomia, a beneficência, a justiça e a equidade. Mais recentemente, a Resolução nº 510/2016 passou a reconhecer as particularidades das pesquisas em Ciên- cias Humanas e Sociais, trazendo diretrizes mais adequadas a essas áreas. Assim, mais do que um sistema de envio de projetos, a Plataforma Brasil representa um verdadeiro instrumento de governança ética e científica. Ela fortalece a integridade das pesquisas realizadas no país e garante que os direitos das pessoas envolvidas sejam sempre respeitados. Entender seu funcionamento é um passo essencial para quem deseja atuar com respon- sabilidade na produção do conhecimento. Veja como acessar: 1. O acesso à Plataforma Brasil é feito pelo site: plataformabrasil. saude.gov.br. 2. Crie um cadastro pessoal, preenchendo dados, como CPF, nome, e-mail e formação. 3. Após o cadastro, você terá acesso ao painel do pesquisador. 4. Para submeter um projeto, será necessário preencher um formulário eletrônico e anexar o projeto completo, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o cronograma, o orçamento (mesmo que estimado) e outras informações solicitadas. 5. Ao final, o projeto é enviado para o CEP da instituição, que irá avaliar e emitir parecer. Mesmo o estudante de graduação, pode (e deve) submeter seu projeto caso ele envolva seres humanos. No entanto o projeto deve ter obrigatoriamente um orientador cadastrado na Plataforma Brasil que será o pesquisador res- ponsável. Nesse caso, o estudante deve ser cadastrado como “integrante da equipe de pesquisa”. Por outro lado, os estudantes de pós-graduação podem ser cadastrados como pesquisadores responsáveis. Itens que devem ser submetidos na Plataforma Brasil: UNIASSELVI 9 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 FOLHA DE ROSTO Documento gerado automaticamente pela Plataforma Brasil após o preenchimento do formulário eletrônico. Deve ser assinado pelo pesquisador responsável e pelo repre- sentante legal da instituição (como o diretor ou coordenador de pesquisa). Serve para formalizar o vínculo institucional da pesquisa. CARTA DE ANUÊNCIA Documento emitido por instituições, serviços ou locais onde a pesquisa será realizada (como hospitais, escolas, UBSs). Declara que essas entidades estão cientes e autorizam a realização do estudo em suas dependências. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE) Documento que deve ser entregue e assinado pelos participantes da pesquisa. Nele, o pesquisador explica os objetivos, procedimentos, riscos e benefícios do estudo, garan- tindo a participação voluntária, com liberdade para desistência a qualquer momento. TERMO DE ASSENTAMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TALE) Documento similar ao TCLE, mas voltado a crianças e adolescentes, escrito em lingua- gem acessível. Deve ser usado junto ao TCLE dos responsáveis legais, garantindo que o menor compreenda a pesquisa. Utilizado somente quando for o caso. TERMO DE COMPROMISSO DE USO DE DADOS Utilizado quandosobre as práticas coti- dianas, evitando que procedimentos sejam realizados de maneira acrítica, ou seja, sem questionamento, análise crítica ou reflexão sobre os motivos pe- los quais são adotados. Realizar algo de maneira acrítica significa seguir mé- todos ou rotinas apenas por hábito, tradição ou convenção, sem considerar sua eficácia, segurança ou adequação às necessidades atuais dos pacientes. Um enfermeiro que compreende a importância da reflexão epistemológica está mais apto a identificar e corrigir práticas obsoletas, aprimorando, assim, a qualidade e a segurança da assistência prestada. A Ciência, quando utilizada sem consciência, pode perder seu propósito original de promover o bem-estar e a melhoria da vida. No campo da Saúde, essa consciência se torna ainda mais necessária, pois o impacto das decisões baseadas no conhecimento científico afeta diretamente a qualidade de vida UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 dos indivíduos. Ao longo da história da ciência, diferentes paradigmas orienta- ram a produção do conhecimento, influenciando a forma como compreendemos e aplicamos a Ciência. Dentre esses paradigmas, o positivismo se destaca como um dos mais influentes, especialmente nas ciências naturais e da saúde. O PARADIGMA POSITIVISTA NA PESQUISA EM CIÊNCIAS DA SAÚDE E DA VIDA O positivismo surgiu no século XIX com o filósofo Auguste Comte (1798– 1857) (Figura 1), que defendia a ideia de que o conhecimento científico deve- ria basear-se exclusivamente em fatos observáveis e mensuráveis, rejeitando explicações metafísicas ou subjetivas (Comte, 1978). Esse paradigma consoli- dou a Ciência como um campo pautado pela objetividade, pela busca de leis universais e pelo uso do método experimental. Figura 1 – Augusto Comte (1798–1857) Fonte: https://commons.wikimedia. org/wiki/File:Auguste_Comte.jpg. Acesso em: 31 maio 2125. Descrição da Imagem: a figura apresenta uma fotografia que re- trata Auguste Comte em um re- trato clássico em preto e branco. Ele aparece de frente, com uma expressão séria e olhar direto, transmitindo um ar de reflexão e rigor intelectual. Seu cabelo é cur- to e penteado para trás, com uma entrada acentuada, e ele veste um casaco escuro sobre uma camisa de gola alta, típica do século XIX. O fundo é simples e claro, desta- cando o rosto e a vestimenta de Comte. Fim da descrição. 1 2 No campo da Saúde, o positivismo influenciou diretamente a Medicina e a En- fermagem, promovendo o modelo biomédico baseado em diagnósticos clínicos, exames laboratoriais e intervenções baseadas em evidências quantitativas (Mina- yo, 2001). Essa abordagem trouxe avanços significativos, como o desenvolvimen- to de vacinas, antibióticos e técnicas cirúrgicas seguras, mas também foi alvo de críticas por reduzir o cuidado à dimensão biológica, desconsiderando aspectos subjetivos e sociais da saúde. Na Enfermagem, o positivismo esteve presente na consolidação da profissão como uma ciência baseada em evidências, valorizando a padronização de proce- dimentos e a mensuração de resultados. Autores, como Florence Nightingale, já demonstravam a importância da observação sistemática e da estatística na melhoria das condições sanitárias e na promoção da saúde (Nightingale, 1989). A frase “Saber para prever, prever para prover” sintetiza a essência do pensa- mento positivista, que enfatiza a importância da ciência baseada em evidências para a antecipação de problemas e a aplicação do conhecimento em benefício da sociedade (Comte, 1978). No campo da saúde, essa ideia se traduz na pesquisa epidemiológica, na medicina baseada em evidências e no planejamento de polí- ticas públicas para prevenir doenças e promover o bem-estar coletivo. VOCÊ SABE RESPONDER? Você já se perguntou por que a medicina e outras áreas da saúde dão tanta ênfase a números, estatísticas e experimentos? Isso se deve, em grande parte, à influência do positivismo. Essa abordagem, que surgiu no século XIX, propõe que, para entendermos o mundo, é preciso ob- servá-lo, medi-lo e buscar padrões universais. Auguste Comte, considerado o “pai” do positivismo, organizou o conhe- cimento humano em três fases: teológica, metafísica e positiva (Comte, 1978). Na fase positiva, a ciência e a razão ganham protagonismo, guiando nossa com- preensão sobre o mundo, inclusive sobre as doenças e os cuidados com a saúde. UNIASSELVI 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 O Positivismo e as pesquisas na saúde: como isso afeta a prática? Você, estudante de enfermagem, certamente, já se deparou com o conceito de evidência científica. Esse princípio, fortemente influenciado pelo positivismo, fundamenta grande parte das práticas em saúde. Foi essa abordagem que permi- tiu avanços, como o uso de estatísticas na epidemiologia para identificar fatores de risco, a implementação de ensaios clínicos controlados e o estabelecimento de protocolos de tratamento embasados em dados empíricos (Comte, 1978). Essa influência se manifesta de diversas formas, como no uso de escalas pa- dronizadas para avaliação da dor, no monitoramento de indicadores de qualidade assistencial e na adoção de procedimentos validados cientificamente. Mas será que a pesquisa em saúde pode ser reduzida apenas à mensuração de dados e análises estatísticas? PE N SA N DO JUNTOS O cuidado envolve mais do que números, e compreender os limites e possibili- dades dessa abordagem é essencial para uma prática reflexiva e humanizada. Durkheim e o positivismo: qual a relação com a saúde? Você já ouviu falar em Émile Durkheim? Considerado um dos fundadores da sociologia, ele foi um dos pensadores que ampliou o impacto do positivismo para o estudo dos fenômenos sociais, incluindo aqueles relacionados à saúde. Para Durkheim, os fatos sociais deveriam ser analisados como “coisas”, ou seja, de maneira objetiva e desvinculada das percepções individuais (Durkheim, 2000, 2007). Essa perspectiva buscava identificar padrões e regularidades por meio de métodos quantitativos, permitindo compreender como determinados compor- tamentos e condições sociais influenciam a coletividade. 1 1 Essa abordagem teve um impacto significativo na pesquisa em saúde. Ao aplicar essa lógica, estudos passaram a utilizar análises estatísticas para investigar fato- res que afetam a saúde pública, como a distribuição de doenças, os determinantes sociais da saúde e os impactos das condições de vida no bem-estar populacional. Essa influência ainda pode ser observada nos indicadores epidemiológicos, nas políticas de saúde coletiva e nas pesquisas que buscam compreender a relação entre sociedade e adoecimento (Durkheim, 2000, 2007). Neste vídeo, você conhecerá melhor quem foi Émile Durkheim e como suas ideias revolucionaram a sociologia! E U I N DI CO Mas será que essa abordagem, centrada em dados e padrões, é suficiente para explicar toda a complexidade do cuidado? PE N SA N DO JUNTOS UNIASSELVI 1 5 https://www.youtube.com/watch?v=2zwXhDCuJgs TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Embora a abordagem positivista tenha sido fundamental para estruturar a pes- quisa em saúde, trazendo rigor científico, padronização e embasamento estatís- tico (Comte, 1978; Durkheim, 2000, 2007), ela não é suficiente para abranger toda a complexidade do cuidado. Isso porque a saúde não se restringe a nú- meros e padrões; ela envolve dimensões subjetivas, culturais e emocionais que impactam diretamente a experiência do paciente e a qualidade da assistência prestada (Nightingale, 1989). Na enfermagem, por exemplo, não basta apenas seguir protocolos baseados em dados epidemiológicos ou indicadores clínicos. É essencial considerar o significado que o adoecimento tem para cada indivíduo, as relações interpessoais no ambiente de cuidado e os fatores psicossociais que influenciam a recuperação (Nightingale, 1989). Um paciente com dor crônica pode apresentar escores dentro de uma escala padronizada, mas será que essa mensuração captura integralmente o impacto da dor em sua vida cotidiana? Dao projeto não envolve contato direto com pessoas, mas, sim, o uso de dados secundários, como prontuários, bases de dados, registros públicos etc. Garante que os dados serão tratados de forma ética e confidencial. Utilizado somente quando for o caso. PROJETO DE PESQUISA NA ÍNTEGRA Documento completo do projeto, contendo: título, justificativa, objetivos, fundamenta- ção teórica, metodologia, critérios de inclusão/exclusão, riscos e benefícios, instrumen- tos de coleta, entre outros. Deve ser coerente com o que foi preenchido na plataforma. 9 1 Compreender e utilizar corretamente a Plataforma Brasil é, portanto, mais do que cumprir uma exigência burocrática, é assumir uma postura ética e comprometida com a qualidade da ciência produzida no país. Ao garantir que as pesquisas res- peitem os direitos dos participantes e estejam alinhadas às normativas vigentes, o pesquisador reafirma seu papel como agente responsável pela produção de conhecimento crítico, transparente e socialmente relevante. Dominar esse pro- cesso é parte fundamental da formação científica e do exercício de uma pesquisa verdadeiramente comprometida com o bem coletivo. CRONOGRAMA Tabela com a previsão das etapas da pesquisa, desde a submissão, coleta de dados e análise até a divulgação dos resultados. Ajuda o sistema CEP/Conep a avaliar o realis- mo do planejamento. ORÇAMENTO Descrição dos recursos financeiros necessários para a realização da pesquisa, incluindo custos com materiais, transporte, impressão, entre outros. Mesmo que não haja finan- ciamento externo, é importante apresentar um orçamento estimado. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO UNIASSELVI 9 7 https://vimeo.com/1119443077/0d126e8cf5 TEMA DE APRENDIZAGEM 4 NOVOS DESAFIOS Neste momento da sua formação, é essencial que você perceba como todo o conhecimento teórico construído até aqui se conecta com a prática e com o pro- fissional que você está se tornando. Compreender a estrutura de um projeto de pesquisa, utilizar corretamente o Currículo Lattes, conhecer as agências de fomento e dominar o uso da Plataforma Brasil não são apenas exigências acadê- micas. São competências que fortalecem sua trajetória científica e representam diferenciais importantes para sua atuação no mercado de trabalho. No contexto atual, o enfermeiro não é apenas um cuidador, mas também um profissional crítico, pesquisador e protagonista na construção de políticas públi- cas e práticas baseadas em evidências. Seja atuando em hospitais, unidades básicas de saúde, instituições de ensino ou em gestão, o domínio desses instru- mentos amplia horizontes e prepara o graduando para uma atuação ética, reflexiva e comprometida com a qualidade do cuidado. Assim, teoria e prática se encontram na formação de um enfermeiro mais completo, preparado para os desafios e possibilidades do mercado de trabalho contemporâneo. E agora que você, estudante, conhece todos os passos para elaborar um pro- jeto de pesquisa, será que bateu aquele receio de começar a escrever o seu? Se sim, saiba que é absolutamente normal sentir insegurança e faz parte de qualquer processo de aprendizado. Contudo lembre-se: ninguém nasce sabendo escrever projetos prontos e perfeitos. Cada pesquisador que você admira um dia começou exatamente como você, com dúvidas, rascunhos e muitos ajustes. O mais importante é dar o primeiro passo, com coragem e curiosidade. Você já tem uma base sólida: entende a importância da ética, sabe onde e como regis- trar o projeto e conhece o papel do Currículo Lattes e das agências de fomento. Agora é hora de transformar essa bagagem em ação. Confie na sua trajetória, pro- cure apoio nos professores e colegas e permita-se aprender fazendo. A pesquisa é, acima de tudo, um exercício de construção e você já está no caminho certo. Unidades básicas de saúde, instituições de ensino ou em gestão 9 8 1. O Currículo Lattes é uma ferramenta fundamental para pesquisadores, professores e estudantes envolvidos na produção de conhecimento científico no Brasil. A plataforma possibilita o registro detalhado da trajetória acadêmica, incluindo formação, publicações, projetos, orientações, entre outros. Seu uso é obrigatório em diversos processos seletivos para bolsas, programas de pós-graduação, concursos e editais de fomento à pesquisa. Manter o currículo atualizado e bem organizado demonstra não apenas comprometimento com a carreira acadêmica, mas também habilidades, como gestão da informação e pla- nejamento profissional. Com base no texto anterior, assinale a alternativa que melhor expressa a competência profis- sional predominante associada ao uso adequado do Currículo Lattes no contexto acadêmico. a) Capacidade de aplicar métodos estatísticos avançados em projetos de pesquisa. b) Habilidade em desenvolver softwares para registro de dados científicos. c) Competência em gestão da trajetória acadêmica, com foco na organização, atualização e clareza das informações. d) Domínio exclusivo de ferramentas bibliográficas internacionais. e) Conhecimento aprofundado sobre a história da enfermagem e tecnologia no Brasil. 2. Um projeto de pesquisa deve refletir a capacidade do pesquisador em planejar uma in- vestigação científica. Ele serve como guia tanto para a execução da pesquisa quanto para sua avaliação por comitês científicos e órgãos de fomento. A clareza e a consistência das informações apresentadas são indispensáveis, assim como a justificativa de sua relevância social e científica (Gil, 2021). Com base no texto anterior e nos conhecimentos sobre elaboração de projetos de pesquisa, analise as afirmativas a seguir: I - A relevância social e científica de um projeto é um dos critérios de avaliação por agências de fomento e comitês de ética. II - A metodologia é parte fundamental do projeto, pois descreve como os objetivos serão alcançados na prática. III - A clareza na apresentação das ideias fortalece a credibilidade e a viabilidade do projeto de pesquisa. IV - O projeto de pesquisa deve conter objetivos e justificativa, mas não precisa de crono- grama, pois esse é exigido apenas na etapa de execução. AUTOATIVIDADE 9 9 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. A Plataforma Brasil é um sistema nacional unificado, criado para registrar, avaliar e monitorar pesquisas envolvendo seres humanos. Sua utilização é obrigatória para qualquer projeto que pretenda envolver pessoas direta ou indiretamente, incluindo análises de prontuários, entrevistas, aplicação de questionários e testes. O sistema é gerido pela Conep e articula-se com os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) em todo o país, promovendo a conformidade com as diretrizes e normas da Resolução CNS nº 466/12, além de garantir os direitos dos participantes de pesquisa (Brasil, 2025). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - A submissão de um projeto à Plataforma Brasil é obrigatória apenas quando há coleta de sangue ou exames físicos nos participantes da pesquisa. PORQUE II - A Plataforma Brasil é destinada exclusivamente às pesquisas clínicas com intervenções diretas em seres humanos. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 1 1 1 REFERÊNCIAS BRASIL. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Dispõe sobre as diretrizes e normas re- gulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Gov.br, 2012. Disponível em: https:// www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/atos-normativos/reso-lucoes/2012/resolucao-no-466.pdf/view. Acesso em: 3 jun. 2025. BRASIL. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Gov.br, 2016. Disponível em: https://www.gov.br/conselho-na- cional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/atos-normativos/resolucoes/2016/resolucao- -no-510.pdf/view. Acesso em: 3 jun. 2025. BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. CNPq – Conselho Nacional de Desenvol- vimento Científico e Tecnológico. A plataforma Lattes. c2025. Sobre a plataforma Lattes. Dispo- nível em: https://lattes.cnpq.br/. Acesso em: 4 jun. 2025. BRASIL. Ministério da Saúde. SUS – Sistema Único de Saúde. Plataforma Brasil. 29 maio 2025. Pá- gina inicial. Disponível em: https://plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf. Acesso em: 4 jun. 2025. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2021. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. MINAYO, M. C. de S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 2016. 1 1 1 https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/atos-normativos/resolucoes/2012/resolucao-no-466.pdf/view https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/atos-normativos/resolucoes/2012/resolucao-no-466.pdf/view https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/atos-normativos/resolucoes/2012/resolucao-no-466.pdf/view 1. Alternativa C. A Alternativa C está correta, pois expressa corretamente a competência predominante rela- cionada ao uso eficaz do Currículo Lattes: gestão da trajetória acadêmica. Isso inclui saber organizar, atualizar e apresentar as informações de forma clara, o que é fundamental para o reconhecimento em processos seletivos acadêmicos e científicos. Já as alternativas A, B, D e E estão incorretas. Embora tratem de habilidades importantes no meio acadêmico, elas não correspondem à principal competência requerida para a boa manutenção do Lattes. A plataforma não exige conhecimento estatístico avançado (A), nem desenvolvimento de soft- wares (B), tampouco é centrada em bibliografias internacionais (D) ou na história da ciência (E). 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, pois a relevância social e científica é um critério central na ava- liação de projetos por agências de fomento e comitês de ética. A afirmativa II está correta, pois a metodologia é fundamental, já que descreve os procedimentos e as técnicas que serão utilizados para alcançar os objetivos da pesquisa. A afirmativa III está correta, pois a clareza na apresentação das ideias é essencial para a credibilidade e a compreensão do projeto por parte dos avaliadores. Já a afirmativa IV está incorreta, pois o cronograma é um componente fundamental em projetos de pesquisa, sendo exigido para delinear o planeja- mento temporal das atividades propostas. Sua ausência pode comprometer a avaliação e a viabilidade do projeto. 3. Alternativa E. A asserção I é falsa, porque a submissão à Plataforma Brasil não se limita a procedimentos clínicos. Qualquer pesquisa com seres humanos (incluindo entrevistas, análises de dados secundários identificáveis, aplicação de questionários etc.) deve ser submetida. A asserção II também é falsa, porque a Plataforma Brasil não é exclusiva para pesquisas clínicas. Ela abrange todas as pesquisas envolvendo seres humanos, com ou sem intervenção direta. GABARITO 1 1 2 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 3 MINHAS METAS ACESSO À PESQUISA CIENTÍFICA NA ÁREA DA SAÚDE E AVALIAÇÃO DOS ESTUDOS Reconhecer a importância das bases de dados científicas para a Enfermagem baseada em evidências. Identificar bases, como BVS, SciELO, PubMed, LILACS, MEDLINE e Cochrane. Compreender o papel dos descritores DeCS e MeSH na padronização da pesquisa. Selecionar e combinar descritores adequados aos temas de interesse. Entender como usar AND, OR e NOT para refinar a busca científica. Elaborar estratégias de busca eficientes e organizadas. Realizar a busca de forma transparente para garantir reprodutibilidade. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 5 1 1 1 INICIE SUA JORNADA Você já se perguntou como tomar decisões em Enfermagem que realmente se baseiam nas melhores evidências disponíveis? Em um cenário de constante transformação, será que apenas dominar técnicas é suficiente para oferecer um cuidado qualificado? Ou será que também precisamos saber onde e como buscar informações confiáveis, interpretar os dados e aplicá-los de forma crítica na prática profissional? Dentro desse contexto, o acesso às bases de dados especializadas, a escolha criteriosa de palavras-chave, o uso de ferramentas lógicas de combinação de termos e a elaboração de estratégias sistematizadas de busca se tornam compe- tências essenciais para a formação acadêmica e a prática profissional em saúde. São esses recursos que permitem que o enfermeiro desenvolva uma atuação baseada em evidências, contribuindo para a qualidade do cuidado e para o avanço do conhecimento científico. Quando você precisa investigar um tema, por exemplo, cuidados com feridas ou segurança do paciente, por onde começa sua busca? Quais palavras-chave es- colher? Como combinar os termos para obter resultados mais relevantes? Será que você conhece os recursos das bases de dados científicas e sabe usá-los a seu favor? Neste tema de aprendizagem, o convite é simples, mas essencial: vamos juntos explorar como planejar suas buscas, organizar os termos com lógica e acessar fontes que realmente façam sentido para sua formação. Mais do que aprender uma técnica de pesquisa, a proposta aqui é desenvolver compe- tências que vão acompanhar você em toda a sua trajetória como estudante, pesquisador e enfermeiro. Preparado para começar essa jornada? No episódio Quando a dúvida vira ação, o Sr. José, recém-diag- nosticado com diabetes tipo 2, quer saber: o que pode comer? Ao lado de uma estudante de Enfermagem, vamos em busca das melhores evidências para transformar a dúvida em cuida- do qualificado. PLAY N O CONHECIMENTO UNIASSELVI 1 1 5 https://on.soundcloud.com/J0oSPdnae3V6yLEHXf TEMA DE APRENDIZAGEM 5 DESENVOLVA SEU POTENCIAL DECS E MESH TERMS: DESCOMPLICANDO A PESQUISA EM SAÚDE Imagine que você precisa fazer uma pesquisa científica para um trabalho da fa- culdade. Você tem uma ideia em mente, abre o computador, entra no banco de dados da biblioteca virtual, digita algumas palavras soltas e, de repente, aparecem mil artigos diferentes! Uns até parecem falar do que você quer, mas outros nem tanto. Será que existe um jeito mais organizado e eficaz de buscar exatamente o que precisamos? Sim! E para isso, vamos conhecer dois aliados importantíssimos: o DeCS e o MeSH Terms. Vamos começar pelo básico: DeCS significa “Descritores em Ciências da Saúde”. É como se fosse um grande dicionário organizado de palavras-chave para a área da saúde. Ele foi criado pela Bireme (Centro Latino-Americano e do Cari- be de Informação em Ciências da Saúde) para padronizar os termos usados nas pesquisas em português, espanhol e inglês (Bireme, 2025). MeSH, por outro lado, é a sigla para Medical Subject Headings. Criado pela National Library of Medicine (NLM) dos Estados Unidos, ele é uma lista con- trolada de termos usados especialmente para indexar artigos no banco de dados PubMed (NLM, 2025). VAMOS RECORDAR? Vamos recordar o que é a pesquisa e qual seu papel na construção do conhecimento científico? No conteúdo a seguir, os autores refletem sobre a essência da pesquisa: suas finalidades, etapas, autoria e importância ética. Com uma abordagem didática, o texto ajuda a compreender como a investigação científica impulsiona o desenvolvi- mento humano e coletivo, indo além dos resultados para transformar realidades. 1 1 1 https://www.scielo.br/j/pob/a/Y7Zwy8rNNVf6TS6Sv78v6SN/?lang=ptEm resumo, o DeCS é como o MeSH para quem vai utilizar o descritor em português e espanhol. Já o MeSH é a linguagem oficial da NLM para a organização de artigos científicos em inglês. E por que isso é importante para a Enfermagem? Utilizar descritores oficiais é fundamental para garantir que as buscas bibliográficas sejam mais precisas e eficientes. Imagine o seguinte cenário: ao pesquisar sobre o mesmo tema, uma pessoa utiliza o termo “pressão alta”, outra opta por “hipertensão arterial” e outra ainda por “alta de pressão”. Sem um padrão, os resultados obtidos seriam disper- sos e desorganizados. No entanto, ao utilizar o descritor correto, como “Hiperten- são”, reconhecido tanto no DeCS quanto no MeSH, estabelece-se uma linguagem comum e padronizada para a pesquisa científica (Bireme, 2025; NLM, 2025). Adotar descritores controlados permite: ■ Localizar artigos mais relevantes e diretamente relacionados ao tema de interesse. ■ Realizar revisões bibliográficas com maior qualidade e rigor metodológico. ■ Elaborar projetos de pesquisa de forma mais estruturada e coerente. ■ Aprimorar a escolha de palavras-chave para futuros trabalhos científicos. Assim, o uso adequado dos descritores não apenas facilita o acesso às melhores evidências, mas também contribui para a produção acadêmica de excelência em Enfermagem. Como usar o DeCS e o MeSH na prática? Vamos supor que você queira pes- quisar sobre aleitamento materno. Se você simplesmente digitar “amamentação” no PubMed, pode encontrar alguns artigos, mas também vai perder muitos ou- tros. Agora, se você usar o MeSH Term “Breast Feeding”, a busca será muito mais eficaz. Se você estiver fazendo a pesquisa em português e quiser usar o DeCS, verá que o termo oficial também é “Aleitamento Materno”. Dica prática: acesse o site do DeCS (https://decs.bvsalud.org/) para encontrar o termo oficial em português. Se estiver pesquisando em inglês no PubMed, busque o MeSH Term correspondente (https://meshb.nlm.nih.gov/). UNIASSELVI 1 1 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 E se eu não usar? Se você não usar os descritores corretos, corre o risco de: ■ Não encontrar tudo o que poderia sobre o seu tema. ■ Incluir artigos irrelevantes na revisão. ■ Ter o seu trabalho criticado por falta de rigor na metodologia. Em pesquisas científicas, especialmente em revisões sistemáticas, usar correta- mente os descritores é essencial para garantir a reprodutibilidade do estudo, ou seja, que outras pessoas consigam repetir a pesquisa com os mesmos critérios. Na enfermagem, saber buscar, organizar e aplicar o conhecimento científico de forma precisa é uma habilidade que faz toda a diferença. Então, da próxima vez que for montar um trabalho, lembre-se: consulte o DeCS ou o MeSH primeiro. ONDE BUSCAR INFORMAÇÕES CIENTÍFICAS? Antes de aprender como montar estratégias de busca usando técnicas especí- ficas, precisamos entender onde buscar as informações. Afinal, fazer uma pes- quisa de qualidade não é apenas digitar palavras soltas no Google e escolher o primeiro artigo que aparece. Na área da saúde e, especialmente na Enfermagem, 1 1 8 é essencial utilizar bases de dados científicas, organizadas e atualizadas por instituições reconhecidas, que garantem a qualidade e a confiabilidade dos con- teúdos. Essas bases reúnem artigos, dissertações, livros, revisões sistemáticas e outros materiais fundamentais para embasar práticas seguras e baseadas em evidências. Quer saber quais são as principais bases que você precisa conhecer? A Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) é um grande portal que integra várias fontes de informação em saúde da América Latina e do Caribe. Ela reúne artigos, dissertações, livros e documentos oficiais, sempre revisados e classificados por especialistas (Bireme, 2025). Dentro da BVS, você pode encontrar conteúdos de várias bases, como a LILACS e a SciELO. E o melhor: é tudo em português, espanhol ou inglês. A BVS é excelente para quem está começando na pesquisa científica e precisa encontrar materiais em português. A Scientific Electronic Library Online (SciELO) é uma biblioteca digital que disponibiliza gratuitamente artigos científicos de periódicos da América Latina, Caribe, Espanha, Portugal e África do Sul (Capes, 2025). Ela é muito usada porque oferece acesso aberto, ou seja, você não precisa pagar para ler os artigos. Na Enfermagem, a SciELO é uma fonte riquíssima, especialmente para trabalhos de conclusão de curso e revisões integrativas. Se a BVS é um grande portal da América Latina, o Portal Internacional de Pesquisas Biomédicas (PubMed) é o gigante mundial. Ela é administrada pela National Library of Medicine (NLM) dos Estados Unidos e reúne milhões de artigos científicos, especialmente das áreas biomédicas, como Medicina, Enfer- magem e Saúde Pública (NLM, 2025). Nesse portal, a maioria dos artigos está em inglês, e você precisa usar os MeSH Terms para fazer buscas mais precisas. Se o seu objetivo é buscar o que há de mais recente e internacional sobre um tema, a PubMed é uma excelente escolha. A Base de Dados Biomédica (MEDLINE) é, na verdade, a principal base de dados que alimenta o PubMed. Ela seleciona os artigos mais relevantes das áreas biomédicas, com critérios rigorosos de qualidade editorial (NLM, 2025). Então, quando você pesquisar na PubMed, boa parte dos resultados vem da MEDLINE. Se você quer saber o que há de melhor em evidência científica, precisa conhecer a Cochrane Library. Ela reúne revisões sistemáticas de altíssima qualidade, elaboradas por grupos de especialistas independentes (Cochrane Library, 2025). Essas revisões avaliam, resumem e analisam criticamente os estudos existentes sobre um tema, ajudando profissionais da saúde a tomar decisões baseadas nas melhores evidências. UNIASSELVI 1 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 Podemos perceber que cada base tem seu valor. Saber onde buscar é tão impor- tante quanto saber o que buscar. Escolher a base certa pode fazer toda a diferença para encontrar artigos relevantes, confiáveis e atualizados. Então, antes de come- çar sua próxima pesquisa, pergunte-se: ■ Preciso de artigos em português? → BVS, SciELO, LILACS. ■ Quero evidências internacionais? → PubMed, MEDLINE. ■ Procuro revisões sistemáticas? → Cochrane. Com essas ferramentas em mãos, você estará mais preparado para construir um trabalho de Enfermagem sólido e baseado em evidências. OPERADORES BOOLEANOS - A CHAVE PARA UMA PESQUISA MAIS INTELIGENTE Agora que você já conhece as principais bases de dados em saúde, talvez esteja se perguntando: “Mas como encontrar exatamente o artigo que eu preciso no meio de tantos milhares de documentos?”. É aqui que entram duas ferramentas essenciais para tornar suas buscas muito mais rápidas e precisas: os descritores em Ciências da Saúde (DeCS e MeSH Terms) e os operadores booleanos (AND, OR, NOT). Eles o ajudarão a escolher as palavras certas e combinar ideias de forma estratégica, otimizando seus resultados de pesquisa. Vamos aprender como usar essas ferramentas a nosso favor? Quem foi Boole? Os operadores booleanos recebem essa denominação em homenagem a Geor- ge Boole (1815–1864), matemático do século XIX, que desenvolveu a chamada Álgebra Booleana (Figura 1). Esse sistema lógico, originalmente criado para resolver problemas matemáticos, estabeleceu as bases para a lógica formal aplicada em diversas áreas do conhecimento, como a computação e a ma- temática, e, de maneira muito relevante, nas estratégias de busca científica contemporâneas (Rocha, 2018). 1 1 1 Figura 1 – George Boole (1815–1811) Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:George_Boole_color.jpg. Acesso em: 1 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura mostra uma ilustração, colorida, de George Boole, representado como um homem de meia-idade, em busto, voltado ligeiramente para a esquerda. Ele está vestido com trajes formais do século XIX, incluindo paletó escuro, colete, camisa branca de colarinho alto e gravata borboleta escura. Boole tem cabeloescuro, repartido ao lado, e costeletas espessas que se estendem até a mandíbula. O fundo da imagem é neutro e claro, sem elementos adicionais. Fim da descrição. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 Os operadores booleanos são palavras usadas para combinar ou excluir termos durante uma busca. Eles ajudam você a: ■ Refinar os resultados. ■ Ampliar a pesquisa. ■ Eliminar informações indesejadas. Estes três operadores principais, AND, OR e NOT, funcionam como comandos especiais. Vamos ver um por um? AND, OR e NOT O operador AND (em português, “E”) é usado quando você quer que ambos os termos apareçam nos resultados. Por exemplo, em casos em que você queira artigos que falem sobre infecção hospitalar e cateter venoso, sua busca seria: “Infecção hospitalar” AND “Cateter venoso” Dessa forma, os resultados da busca incluirão exclusivamente documentos que abordam, de maneira conjunta, ambos os temas. Quanto mais termos você com- binar com AND, mais específica e restrita será a sua pesquisa. O operador OR (em português, “OU”) é usado para buscar artigos que falem de um assunto ou de outro. Por exemplo, caso você queira pesquisar sobre feridas cirúrgicas ou úlceras por pressão, sua busca seria: “Ferida cirúrgica” OR “Úlcera por pressão”. Com esse operador booleano, você amplia a busca para encontrar qualquer artigo que fale de um ou de outro. Use OR quando você quiser expandir seus resultados e incluir sinônimos ou temas relacionados. O operador NOT (em português, “NÃO”) é usado para excluir termos que você não quer que apareçam. Por exemplo, você quer pesquisar sobre infecção hospitalar, mas não quer artigos que falem de pediatria, sua busca seria: 1 1 2 “Infecção hospitalar” NOT “Pediatria”. Assim, os resultados trarão apenas estudos de infecção hospitalar que não men- cionam o público pediátrico. Use NOT com cuidado, você pode acabar excluindo artigos que poderiam ser importantes para sua pesquisa. DA TEORIA À PRÁTICA: APLICANDO ESTRATÉGIAS DE BUSCA CIENTÍFICA Agora que já compreendemos a importância dos operadores booleanos, dos descritores padronizados (como DeCS e MeSH) e das principais plataformas de busca científica, é o momento de colocar esse conhecimento em prática. Saber a teoria é fundamental, mas é na aplicação prática que conseguimos realmente entender como essas ferramentas se articulam para encontrar infor- mações relevantes, de forma precisa e eficiente. Vamos aprender a realizar uma busca avançada em bases, como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando tudo o que construímos até aqui para estru- turar pesquisas de alta qualidade e alinhadas às exigências da prática profissional em Enfermagem. A seguir, um passo a passo para facilitar sua busca: UNIASSELVI 1 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 1. Acesse a plataforma: Entre no site da BVS pelo endereço: https://bvsalud.org/. Na página inicial (Figu- ra 2), você encontrará o campo de busca simples. Para estratégias mais refinadas, clique em “Busca Avançada”. Figura 2 – Página inicial do Portal Regional da BVS / Fonte: https://bvsalud.org/. Acesso em: 1 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura apresenta uma captura de tela do site “Portal Regional da BVS – Biblioteca Virtual em Saúde”, com o logotipo da BVS no canto superior esquerdo, seguido do título em azul-escuro “Portal Regional da BVS” e o subtítulo “Informação para Ação em Saúde”. No canto superior direito, há opções de idioma em texto azul (“Português”, “English”, “Español”) e um botão azul com o texto “Login em Minha BVS”. Abaixo, há um menu horizontal com fundo roxo e letras brancas contendo as opções: “Home”, “Sobre”, “Produtos e Serviços”, “Como pesquisar?” e “Pergunte ao Bibliotecário”. Centralizada na imagem, há uma faixa verde com uma mensagem em branco informando que o sistema de busca da BVS está passando por instabilidade e que a equipe está atuando para resolver o problema. Abaixo da faixa, há uma barra de busca branca com botão roxo à direita, no qual está escrito “Pesquisar” e há ícone de lupa, além de dois botões abaixo: um verde com ícone de filtro e texto “Busca avançada” e outro cinza com ícone de lista e texto “Busca DeCS/MeSH”. O plano de fundo é verde com círculos e partículas em diferentes tons de verde e branco. Fim da descrição. 2. Organize seus termos de pesquisa: Antes de preencher os campos, planeje sua busca: defina os descritores relaciona- dos ao seu tema (utilizando o DeCS) e estruture os termos utilizando operadores booleanos (AND, OR, NOT), conforme a lógica da sua pergunta de pesquisa. Por exemplo, se o objetivo for encontrar estudos sobre “cuidados de enfer- magem” em “pacientes com feridas”, pode-se usar: “cuidados de enfermagem” AND “pacientes com feridas”. 1 1 1 A seguir, você verá uma simulação com uma parte da tela no site da BVS (Figura 3). Figura 3 – Tela de Busca Avançada na BVS Fonte: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/advanced/. Acesso em: 1 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura apresenta uma captura de tela da seção “Busca Avançada” do site da BVS (Biblioteca Virtual em Saúde). No topo, à esquerda, há o título em preto “Busca Avançada” e, logo abaixo, a instrução em negrito “Use o formulário abaixo para construir sua expressão de busca”. Abaixo dessa instrução, há dois campos de texto alinhados horizontalmente: o primeiro com o termo entre aspas “cuidados de enfermagem” e o segundo com “pa- cientes com feridas”, ambos acompanhados por menus suspensos à direita com a opção selecionada “Título, resumo, assunto”. Entre os dois campos, há um menu com a opção lógica «AND» selecionada. Abaixo de cada campo, aparece o link azul «Mostrar Índice». Há também, mais à esquerda, a caixa “Adicionar linha” com um ícone de “+ Adicionar linha”. No canto inferior direito da imagem, há um botão roxo com o texto branco “Pesquisar”. O fundo da página é branco. Fim da descrição. 3. Preencha os campos adequadamente: Na tela da busca avançada, no campo indicado para os termos de busca, insira os descritores selecionados. Utilize os operadores booleanos disponíveis no menu suspenso para combinar os termos. Se desejar, selecione o campo específico onde deseja buscar (por exemplo, título, assunto, autor). A BVS também permite agrupar termos com parênteses para construir com- binações mais complexas. A seguir, você verá uma simulação com uma parte da tela no site da BVS (Figura 4). UNIASSELVI 1 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 Figura 1 – Configuração de Filtros na Busca Avançada da BVS Fonte: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/advanced/. Acesso em: 1 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura mostra a tela da página “Busca Avançada” do Portal Regional da BVS, com fundo branco e letras pretas. No topo, há a trilha de navegação em azul com os links “Home”, “Pesquisa” e “Busca Avançada”. Abaixo, em negrito, aparece o título “Busca Avançada” e o texto “Use o formulário abaixo para construir sua expressão de busca”. O formulário contém dois campos de texto, um com a expressão “cuidados de enfermagem” e outro com “pacientes com feridas”, ambos com o link azul “Mostrar Índice” logo abaixo. À esquerda entre os campos, há um menu suspenso com a opção “AND” selecionada. Abaixo dos campos de busca, existe o botão “+ Adicionar linha”. À direita dos campos de texto, um menu suspenso está expandido e exibe várias opções, como: “Título, resumo, assunto” (se- lecionado), “Título”, “Autor”, “Descritor de assunto”, “Assunto principal”, “Qualificador de assunto”, “Resumo”, “Revista”, entre outros. No canto inferior direito, há um botão roxo com a palavra “Pesquisar” em branco. No rodapé, em letras pequenas, lê-se “Powered by iAHx 3.1.39 - Portal Regional da BVS” e links em azul com os textos “Solicitar ajuda / Enviar comentário / Comunicar erro”. Fim da descrição. 4. Utilize filtros para refinar os resultados: Após a busca, você pode aplicar filtros para tornar os resultados ainda mais relevantes: ■ Idioma: Português, Espanhol, Inglês. ■ Tipo de documento: artigo científico,tese, revisão. ■ Ano de publicação. ■ Base de dados: LILACS, SciELO, MEDLINE, entre outras. Esses filtros ajudam a focar nos estudos mais recentes ou no tipo de evidência que você precisa. 1 1 1 A seguir, você verá uma simulação com uma parte da tela no site da BVS (Figura 5). Figura 5 – Resultados de pesquisa na BVS sobre cuidados de enfermagem a pacientes com feridas Fonte: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/?output=&lang=pt&from=&sort=&format=&count=&fb=&pa- ge=1&tab=&skfp=&index=&q=%28cuidados+de+enfermagem%29+AND+%28pacientes+com+feridas%29. Acesso em: 1 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura mostra a tela de resultados de uma pesquisa realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com o termo de busca: (“cuidados de enfermagem”) AND (ti:(“pacientes com feridas”)). No topo da página, há uma barra de navegação com os links «Home» e “Pesquisa” e a consulta entre aspas. Abaixo, duas abas são exibidas horizon- talmente: “Coleção LILACS Plus” com 13 resultados, destacada por uma linha azul, e “Coleção completa da BVS”, com 14 resultados. À esquerda, há um menu vertical com o botão “Mais filtros” em roxo, seguido de diversas opções de filtragem com caixas de seleção à esquerda, incluindo: “Texto completo”, “Coleções”, “Base de dados”, “Assunto principal”, “Tipo de estudo”, “Idioma”, “Aspecto”, “Limite”, “País/Região como assunto”, “Ano de publicação” e “Tipo de documento”. Algumas dessas caixas estão marcadas. No centro superior da tela, há uma barra com o menu suspenso “Ordenar por” e a opção de exibir os resultados em grupos de “20 | 50 | 100”. Do lado direito, está indicado: “Resultados 1 - 13 de 13”. Em seguida, abaixo, os resultados aparecem em lista numerada. O primeiro artigo, com número 1 e um quadrado de seleção à esquerda, tem o título em azul: “Acompanhamento de pacientes com feridas crônicas em uma unidade básica de saúde do interior paulista / Follow-up of patients with chronic wounds in a basic health unit in São Paulo / Seguimiento de pacientes con heridas crónicas en unidad básica de salud en paulista interior”, seguido pelo nome da autora em preto e sublinhado: Zanoti, Marcia Diana Umebayashi. Abaixo, os dados da publicação em itálico: CuidArte, Enferm; 15(2): 196-204, jul.-dez. 2021, com nota de que é um artigo em português, da base BDENF – Enfermagem, com ID: biblio-1366271. O segundo artigo, também com caixa de seleção, tem o título em azul: “Nursing team knowledge on care for patients with fungating wounds / Conocimiento del equipo de enfermería sobre cuidados con pacientes con úlceras neoplásicas / Conhecimento da equipe de enfermagem sobre cuidados com pacientes com feridas neoplásicas”, seguido dos nomes dos autores em preto sublinhado: Schmidt, Fernanda Mateus Queiroz; Firmino, Flávia; Lenza, Nariman de Felício Bortucan. À direita da lista de resultados, há a opção “Ver mais detalhes” acompanhada de um botão deslizante desativado. Abaixo, há uma coluna com o título “ENVIAR RESULTADO:” e campos para envio por Email, Exportar, Imprimir, RSS e XML, cada um com seu respectivo ícone cinza dentro de uma caixa branca. Abaixo, há a seção “SELEÇÃO DE REFERÊNCIAS”, com o texto “Listar selecionados (0)” e “Limpar seleção”. No canto inferior direito da imagem, aparece um botão com ícone de seta apontando para cima. O fundo da página é branco, os textos aparecem nas cores preta, azul e cinza, e a interface está organizada em três colunas principais. Fim da descrição. UNIASSELVI 1 1 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 5. Registre sua estratégia: Ao encontrar os resultados, é importante registrar a estratégia de busca utilizada (descritores, operadores, filtros, data da busca), especialmente se você estiver desenvolvendo projetos de pesquisa ou trabalhos acadêmicos. Essa prática é fundamental para garantir transparência, reprodutibilidade e rastreabilidade na pesquisa científica. Quando você faz uma busca na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), não pre- cisa ficar copiando tudo manualmente. A plataforma permite que você imprima ou salve a lista dos artigos encontrados de forma rápida e organizada. Selecione os documentos que interessam e escolha a opção de exportar. Você pode gerar um arquivo em PDF, salvar como texto ou até enviar para o seu e-mail. Além disso, registre sua estratégia. Para manter a transparência e a reproduti- bilidade da sua pesquisa, anote: a base de dados usada; os descritores e operadores booleanos aplicados; os filtros (idioma, ano, tipo de publicação); e a data da busca. Essa função é muito importante para manter um registro das pesquisas feitas ou montar um banco de dados pessoal para projetos e trabalhos acadêmicos. 6. Selecione os artigos para sua pesquisa: Após realizada a busca científica em bases, como a BVS, SciELO ou PubMed, você pode se deparar com dezenas ou até centenas de resultados. Contudo atenção: nem todos os artigos que aparecem são, de fato, úteis para sua pergunta de pesquisa. Aqui entra uma etapa fundamental do processo investigativo: avaliar critica- mente cada resultado. Mas como saber se um artigo é pertinente? Pergunte-se: 1. O artigo realmente responde à minha pergunta de pesquisa? 2. O público estudado é semelhante ao que estou investigando? 3. A metodologia é adequada e clara? 4. Os resultados são coerentes com o que preciso discutir? 5. O texto é recente ou está desatualizado? 1 1 8 Se a resposta for “não” para a maioria dessas perguntas, esse artigo provavelmente não será útil para sua revisão ou fundamentação teórica. E o que fazer com os artigos que parecem úteis? Esses devem ser lidos com mais atenção. Anote: o título, o autor, o ano e a fonte; os principais achados; e a relação direta com o seu tema. Faça uma tabela para facilitar sua organização. Esse registro não é só um requisito acadêmico, ele ajuda você a não se perder nas próximas etapas e permite que outros pesquisadores entendam como você chegou àquela seleção dos artigos. Ao seguir cada etapa que vimos, como montar uma boa pergunta, escolher bem os descritores e usar os filtros com estratégia, você está se preparando para encontrar informações relevantes, atuais e confiáveis. Esperamos que esse passo a passo ajude você a se sentir mais seguro, crítico e confiante na hora de tomar decisões no cuidado, sempre com respaldo científico. NOVOS DESAFIOS Ao longo deste conteúdo, percorremos um caminho essencial para a formação crítica e científica dos futuros profissionais de Enfermagem. Estudamos a impor- tância de identificar bases de dados confiáveis, a utilização de descritores padro- nizados e a elaboração de estratégias de busca inteligentes, utilizando operadores booleanos para otimizar o acesso às melhores evidências disponíveis. Esses conhecimentos não são apenas teóricos. Eles se conectam diretamen- te ao ambiente profissional que você, estudante, encontrará em breve. Em um mercado de trabalho cada vez mais orientado pela prática baseada em evidências, o enfermeiro que domina a busca e a seleção de informações cientí- ficas torna-se um diferencial nas equipes de saúde. Ambiente profissional que você, estudante, encontrará em breve Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO UNIASSELVI 1 1 9 https://vimeo.com/1119428377/cd956c5315 TEMA DE APRENDIZAGEM 5 Na prática clínica, a habilidade de localizar protocolos atualizados, diretrizes terapêuticas e estudos recentes é fundamental para a tomada de decisões seguras, o planejamento do cuidado individualizado e a promoção da qua- lidade assistencial. Em projetos de educação em saúde, a utilização de fontes científicas sólidas confere legitimidade às ações educativas realizadas com pacientes e comunidades. Já na pesquisa e na gestão, dominar estratégias de busca é essencial para elaborar projetos, fundamentar relatórios técnicos e propor melhorias baseadas em dados concretos. Além disso, o mercado de trabalho da Enfermagem vem exigindo, cada vez mais, profissionaisque saibam interpretar criticamente a literatura científica, elaborar revisões sistemáticas, participar de comissões de protocolos clínicos e contribuir para a inovação na assistência, na educação e na gestão em saúde. Assim, o conhecimento aqui desenvolvido transcende a sala de aula: ele se torna uma ferramenta permanente de qualificação profissional, prepa- rando-o para atuar com competência, responsabilidade e protagonismo no cenário da saúde contemporânea. 1 2 1 1. O uso de vocabulários controlados, como o DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e o MeSH (Medical Subject Headings), é essencial para a padronização da terminologia nas pesquisas em saúde. Esses vocabulários são utilizados para indexação de artigos científi- cos e para a recuperação mais precisa da informação. O DeCS, desenvolvido pela Bireme, é uma tradução e adaptação do MeSH ao contexto da América Latina e inclui descritores específicos em português, espanhol e inglês. Saber identificar e empregar corretamente os termos controlados aumenta a qualidade e a relevância dos resultados em bases, como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed. Ao realizar uma pesquisa bibliográfica em saúde, um estudante opta por usar os descritores do DeCS em vez de termos livres. Com base no texto, qual é a principal vantagem do uso de vocabulários controlados, como o DeCS ou MeSH, em estratégias de busca científica? a) Eles aumentam a quantidade de artigos encontrados, independentemente da relevância. b) Permitem recuperar somente artigos em inglês, garantindo maior qualidade científica. c) Favorecem a padronização dos termos utilizados e aumentam a precisão da busca. d) São úteis apenas para pesquisas realizadas na área de medicina clínica. e) Tornam desnecessário o uso de filtros e operadores booleanos durante a busca. 2. Para realizar pesquisas científicas confiáveis na área da saúde, é fundamental compreender as particularidades das bases de dados disponíveis. A Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) integra diversas fontes, como LILACS, SciELO e Medline, permitindo buscas em portu- guês, espanhol e inglês, com ênfase na produção latino-americana. A PubMed é um portal gratuito mantido pela National Library of Medicine dos EUA e permite o acesso à base MEDLINE, que indexa artigos de periódicos biomédicos revisados por pares. A Cochrane Library é especializada em revisões sistemáticas e é reconhecida mundialmente por sua metodologia rigorosa baseada em evidências. Sobre as bases de dados científicas em saúde, analise as afirmativas a seguir: I - A BVS permite o acesso integrado a diversas bases de dados com foco na produção científica da América Latina e Caribe. II - A Cochrane Library publica revisões sistemáticas com rigor metodológico voltadas à tomada de decisão clínica. III - A MEDLINE pode ser acessada gratuitamente por meio da plataforma PubMed. IV - A PubMed é uma base de dados paga, acessada somente por instituições com assinatura. AUTOATIVIDADE 1 2 1 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. A busca por evidências científicas confiáveis exige mais do que inserir palavras soltas em um campo de pesquisa. É necessário compreender e aplicar descritores controlados, como DeCS e MeSH, além de operadores booleanos (AND, OR, NOT) para organizar logicamente os termos de busca. Isso permite localizar artigos com maior precisão e relevância, princi- palmente em bases, como BVS, PubMed e Cochrane Library. Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - A utilização de descritores controlados nas estratégias de busca contribui para aumentar a precisão na recuperação de artigos científicos relevantes. PORQUE II - Os descritores DeCS e MeSH são vocabulários controlados que padronizam a terminologia utilizada na indexação de documentos científicos. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 1 2 2 REFERÊNCIAS BIREME – CENTRO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE. BVS: biblioteca virtual em saúde. c2025. Página inicial. Disponível em: https://bvsalud. org/. Acesso em: 4 jun. 2025. CAPES – COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR; CNPQ – CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO; FAPESP – FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO. SciELO: scientific electronic library online. c2025. Página inicial. Disponível em: https://scielo.org/. Acesso em: 4 jun. 2025. COCHRANE. Cochrane Library. c2025. Página inicial. Disponível em: https://www.cochraneli- brary.com/. Acesso em: 4 jun. 2025. NLM – NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE. PubMed. c2025. Página inicial. Disponível em: https:// pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/. Acesso em: 4 jun. 2025. ROCHA, A. C. da. Boole e a lógica vista como álgebra das operações do pensamento. Coletânea, Rio de Janeiro, v. 17, n. 34, p. 307-322, jul./dez. 2018. Disponível em: https://www.revistacoletanea. com.br/index.php/coletanea/article/view/151. Acesso em: 4 jun. 2025. 1 2 3 1. Alternativa C. A alternativa C está correta, pois o uso de vocabulários controlados, como DeCS e MeSH, padroniza os termos e melhora a precisão da busca, permitindo recuperar artigos realmente relevantes ao tema. A alternativa A está incorreta, pois a quantidade de artigos pode aumentar com termos livres, mas a relevância tende a diminuir. A alternativa B está incorreta, pois o MeSH é em inglês, mas o DeCS está disponível em português e espanhol também, e o idioma também não determina qualidade. A alternativa D está incorreta, pois esses vocabulários são aplicáveis a várias áreas da saúde, não apenas à medicina clínica. A alternativa E está incorreta, pois os filtros e operadores booleanos continuam sendo essenciais mesmo com o uso de descritores. 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, porque a BVS realmente oferece acesso a múltiplas bases com foco regional. A afirmativa II está correta, pois a Cochrane Library é reconhecida por suas revisões sistemáticas baseadas em evidências. A afirmativa III está correta, porque MEDLINE é acessível gratuitamente via PubMed. A afirmativa IV está incorreta, porque a PubMed é uma plataforma gratuita e de acesso aberto, não exige assinatura. 3. Alternativa A. A asserção I é verdadeira, pois o uso de descritores controlados permite recuperar artigos com maior precisão, filtrando melhor os resultados. A asserção II também é verdadeira e justifica corretamente a I, já que tanto o DeCS (em português) quanto o MeSH (em inglês) são vocabulários padronizados criados para organizar os temas e facilitar a indexação e recuperação dos conteúdos nas bases científicas. GABARITO 1 2 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 2 5 MINHAS METAS QUALIDADE E NÍVEIS DE EVIDÊNCIA DAS PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS Compreender que nem toda evidência científica tem o mesmo peso. Diferenciar pesquisas quantitativas e qualitativas e valorizar ambas. Refletir sobre o papel das revistas científicas. Conhecer o funcionamento do sistema Qualis CAPES e seus estratos. Explorar a Plataforma Sucupira como ferramenta de consulta. Valorizar a ciência aberta e o acesso livre ao conhecimento. Reconhecer-se como parte da comunidade científica. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 1 1 2 1 INICIE SUA JORNADA Você já parou para pensar em como as decisões que tomamos na prática de enfermagem, desde a administração de um medicamento até a prescrição de enfermagem, devem ser baseadas em evidências? Essa abordagem, conhecida como prática baseada em evidências, tem se consolidado comoum dos pilares fundamentais da atuação profissional na área da saúde. Mas o que isso significa, na prática? Significa que, antes da adoção de qualquer con- duta, é necessário recorrer a informações confiáveis, produzidas por meio de pesquisa científica. Esse conhecimento é compartilhado principalmente por meio das publicações científicas, que funcionam como meio de disseminação do saber validado pela comunidade acadêmica. Dessa forma, ao acessar um artigo científico, tem-se a oportunidade de entrar em contato com uma parcela relevante do saber cons- truído e validado pela comunidade científica. Sendo assim, imagine as seguintes situações: ao se deparar com um paciente que apresenta uma ferida crônica, qual o curativo mais eficaz para promover a cicatrização? Ou, em um cenário de surto de uma doença infecciosa, qual a melhor estratégia de isolamento para conter a disseminação? Nessas e em outras situações, você poderá buscar em bases de dados científicas (como PubMed, LILACS ou Scielo) por artigos que comparem a eficácia de diferentes tipos de curativos, analisem o impacto de diversas estratégias de isolamento ou avaliem a segurança de novas técnicas de enfermagem. Ao analisar criticamente os resultados desses estudos, você será capaz de identificar o caminho mais seguro e eficaz para a resolução do problema. Por- tanto, é fundamental, desenvolver a capacidade de avaliar a qualidade das evi- dências e aplicá-las ao contexto individual do paciente, lembrando que decisões não embasadas em evidências científicas confiáveis podem levar a intervenções ineficazes, causar danos ao paciente e até mesmo comprometer a segurança e a credibilidade da assistência em enfermagem. Nem todas as publicações, contudo, possuem o mesmo nível de qualidade. Algumas apresentam maior rigor metodológico, utilizam estratégias analíticas elaboradas e oferecem resultados mais consistentes. Outras, porém, podem Informações confiáveis, produzidas por meio de pesquisa científica UNIASSELVI 1 2 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 apresentar limitações ou lacunas que podem comprometer a confiabilidade dos dados. Por esse motivo, torna-se essencial que a qualidade das publicações seja avaliada de forma criteriosa, contribuindo para uma prática profissional mais segura, atualizada e fundamentada em evidências sólidas. DESENVOLVA SEU POTENCIAL Ao longo da graduação, especialmente em Enfermagem, é comum termos contato com artigos científicos nos mais diversos contextos: em disciplinas teóricas, nos estágios, nos projetos de pesquisa e até nos trabalhos de conclusão de curso. Porém surge uma pergunta essencial: como saber se um artigo é, de fato, confiável e de qualidade? A avaliação da qualidade das publicações científicas envolve critérios fundamentais que orientam a seleção e o uso de evidências na prática profissional e acadêmica. Segundo Lakatos e Marconi (2003), a relevância do tema, sua atualidade, originalidade e a metodologia empregada são elementos essenciais para avaliar a consistência e validade de uma produção científica. A seguir, são citados três critérios importantes e relevantes quando se analisa um artigo científico. Você já se perguntou de verdade o que é fazer ciência durante a graduação? No podcast Enfermagem: muito além da técnica, você vai perceber que Enfermagem também é ciência, método e investigação. Descubra como você já pode transformar o cui- dado e elevar a profissão. PLAY N O CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? O que é a CAPES? Neste vídeo, você vai descobrir o que ela faz, como atua, suas principais funções e por que é tão fundamental para todo acadêmico! 1 2 8 https://on.soundcloud.com/VGZySxsU7c5nW8tioW https://www.youtube.com/watch?v=OHm_CNgRCGw Esses três critérios caminham juntos. Um estudo pode ser inovador, mas, se for mal conduzido, terá sua validade comprometida. Da mesma forma, uma pesquisa com bom método, mas que não dialoga com questões relevantes, terá impacto limitado. O PROCESSO DA REVISÃO POR PARES Quando um artigo é submetido a uma revista científica, ele geralmente passa por um processo chamado revisão por pares (peer review) (Barata, 2019). Isso significa que especialistas na área (os “pares”) avaliam o manuscrito antes de sua publicação. O objetivo é verificar se a pesquisa foi bem planejada, se os dados são confiáveis, se as conclusões são coerentes e se o estudo realmente contribui para o avanço do conhecimento. Nesse contexto, existem diferentes modelos de revisão: ORIGINALIDADE O estudo traz uma abordagem nova? Explora uma questão ainda pouco discutida ou propõe um olhar diferente sobre um tema já conhecido? A originalidade é o que impul- siona o avanço do conhecimento. RELEVÂNCIA A pesquisa contribui para resolver problemas reais na prática de enfermagem ou em políticas de saúde? Um estudo relevante é aquele que se conecta com as necessida- des da sociedade e da profissão. RIGOR METODOLÓGICO Aqui entram todos os cuidados que os autores tomam para garantir que os dados co- letados e as análises feitas sejam confiáveis. Isso inclui uma boa definição da amostra e uso adequado de métodos estatísticos (nos estudos quantitativos) ou de estratégias bem fundamentadas de análise (nos estudos qualitativos), além da coerência entre ob- jetivos, resultados e conclusões. UNIASSELVI 1 2 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 ■ Revisão cega simples: o revisor sabe quem são os autores, mas os autores não sabem quem avaliou. ■ Revisão cega dupla: nem os autores nem os revisores sabem a identidade uns dos outros. ■ Revisão aberta: autores e revisores conhecem as identidades entre si. Apesar de ser um processo amplamente adotado, o peer review não é isento de falhas. Há críticas quanto à demora nas avaliações, à possibilidade de viés (por exemplo, favorecendo autores mais conhecidos) e à falta de padronização entre revistas. Como resposta a essas limitações, novas formas de revisão estão sendo testadas, como a revisão aberta, a revisão colaborativa e os pré-prints, que tornam o processo mais transparente e acessível. Além da análise do conteúdo, as publicações científicas também são avaliadas com base em indicadores de impacto. O mais tradicional é o fator de impacto, que mostra quantas vezes, em média, os artigos de uma revista são citados em outros trabalhos ao longo de dois anos. No entanto ele tem limitações, pois depende de critérios editoriais e varia conforme a área do conhecimento e depende de critérios editoriais específicos. Por isso, outros indicadores vêm sendo utilizados para complementar essa avaliação: ■ H-index: combina o número de publicações com o número de citações, indicando a consistência do impacto de um autor. ■ CiteScore: semelhante ao fator de impacto, mas calcula a média de citações em um intervalo de quatro anos, sendo disponibilizado pela base Scopus. ■ Altmetric: avalia o impacto social do artigo ao medir sua visibilidade em redes sociais, blogs, plataformas de notícias e gerenciadores de referência, como o Mendeley. Essas métricas complementares ajudam a compreender não apenas a influência acadêmica de um estudo, mas também seu alcance na sociedade e nos meios digitais. Além disso, são ferramentas que auxiliam na avaliação da produção científica, mas não devem ser usadas isoladamente. O mais importante continua sendo o conteúdo do artigo e a forma como ele foi construído. 1 3 1 Avaliar uma publicação científica com senso crítico é uma competência essencial para quem deseja atuar com responsabilidade. Com base em critérios claros e em ferramentas de análise confiáveis, é possível selecionar estudos de qualidade para embasar a prática profissional, os projetos de pesquisa e a formação continuada. E, ao produzir conhecimento, esses mesmos critérios ajudam a garantir que a ciência feita na Enfermagem seja sólida, ética e relevante. NÍVEIS DE EVIDÊNCIA NOS ESTUDOS CIENTÍFICOS Ao buscar informações para fundamentar a prática profissional na Enfermagem, especialmente natomada de decisões clínicas, é comum nos depararmos com diferentes tipos de estudos científicos. Porém nem todos oferecem o mesmo grau de confiabilidade para responder a determinadas perguntas. É aqui que entra o conceito de nível de evidência, uma classificação que ajuda a entender o peso e a força de cada tipo de estudo na produção do conhecimento científico. Os níveis de evidência representam uma hierarquia da confiabilidade dos estudos científicos, especialmente para questões de eficácia de intervenções, acurácia diagnóstica, prognóstico e prevenção. Quanto mais alto o nível, mais rigoroso e confiável tende a ser o método utilizado e, portanto, mais seguro será utilizar seus resultados como base para a prática profissional. Essa hierarquia é frequentemente apresentada em forma de pirâmide, organizada conforme o delineamento metodológico, especialmente das pesquisas quantitativas, que buscam medir, comparar, testar hipóteses e generalizar resultados. Na Enfermagem, fundamentar a atuação em evidências confiáveis é essencial para garantir um cuidado seguro, ético e qualificado. No entanto a Enfermagem também lida com dimensões subjetivas, emocionais e culturais do cuidado, que nem sempre podem ser mensuradas. Por isso, além dos estudos quantitativos, as pesquisas qualitativas desempenham um papel indispensável. A seguir, apresentaremos uma versão adaptada da pirâmide dos níveis de evidência, incluindo pesquisas qualitativas, que tradicionalmente não figuram nessas hierarquias, mas são essenciais para responder a perguntas sobre experiências, significados e contextos de cuidado. UNIASSELVI 1 3 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 NÍVEL 1 Metanálises de ensaios clínicos randomizados (ECRs) e revisões sistemáticas: síntese de resultados de estudos experimentais com alto rigor metodológico. Consideradas o nível mais alto de evidência quantitativa. NÍVEL 2 Ensaios clínicos randomizados (ECRs): estudos que comparam grupos de forma aleató- ria, permitindo forte controle de viés. Ideais para avaliar intervenções. NÍVEL 3 Estudos de coorte: acompanham grupos ao longo do tempo, observando desfechos relacionados a exposições específicas. NÍVEL 4 Estudos caso-controle: comparam grupos com e sem determinada condição para in- vestigar fatores associados retrospectivamente. NÍVEL 5 Estudos transversais (ou seccionais): descrevem características ou prevalência de fenô- menos em um dado momento. São úteis para diagnósticos situacionais. NÍVEL 6 Relatos de caso e séries de casos: descrevem situações clínicas específicas. Úteis para gerar hipóteses, mas com baixo poder de generalização. NÍVEL 7 Opiniões de especialistas e consensos: baseados na experiência clínica, são considera- dos níveis iniciais de evidência quando não há estudos empíricos disponíveis. 1 3 2 Embora os ensaios clínicos randomizados sejam geralmente considerados o padrão ouro entre os níveis de evidência, é importante lembrar que nem todos são conduzidos com o rigor necessário, e seus resultados precisam ser avaliados com atenção crítica (Burns; Rohrich; Chung, 2011). Além disso, as pesquisas qualitativas não se encaixam diretamente nessa pirâmide tradicional porque respondem a outro tipo de pergunta. Enquanto os estudos quantitativos buscam responder “qual intervenção funciona melhor?”, os estudos qualitativos buscam responder “como os indivíduos vivenciam determinada situação?”, “o que significa para o paciente viver com uma doença crônica?” ou “quais são os sentidos atribuídos ao cuidado em determinado contexto?”. Apesar de não hierarquizados da mesma forma, os estudos qualitativos têm critérios próprios de rigor, como saturação teórica, triangulação, validade interna e coerência interpretativa. Eles são fundamentais em Enfermagem para compreender dimensões humanas do cuidado, a construção de vínculos, a comunicação com a equipe, as barreiras culturais ao tratamento, entre outros aspectos que os números, sozinhos, não captam. Portanto, não se trata de mais ou menos importante, mas de finalidades diferentes e complementares. Níveis de evidência e os tipos de pesquisa na prática Imagine a seguinte situação: um enfermeiro deseja implementar uma nova abordagem de escuta qualificada em uma unidade de saúde mental. Para tomar essa decisão de forma fundamentada, ele pode buscar diferentes tipos de estudos científicos. Uma revisão sistemática, por exemplo, pode oferecer uma visão ampla e confiável sobre a eficácia da escuta ativa em ambientes clínicos, sendo considerada um nível elevado de evidência. Um estudo de coorte, por sua vez, pode acompanhar pacientes antes e depois da implantação da estratégia, permitindo observar mudanças ao longo do tempo em um contexto real de cuidado. Já uma pesquisa qualitativa pode revelar como os próprios pacientes percebem o acolhimento recebido, oferecendo uma compreensão mais profunda e sensível da experiência vivida. Perceba como cada uma dessas fontes traz uma contribuição diferente e complementar: enquanto uma responde sobre o que funciona, outra ajuda a entender em que contexto funciona, e a terceira mostra como essa prática é vivenciada pelas pessoas envolvidas. UNIASSELVI 1 3 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Por isso, compreender os níveis de evidência e os diferentes tipos de pesquisa, tanto quantitativos quanto qualitativos, é fundamental para que o profissional de Enfermagem desenvolva um olhar crítico diante das publicações científicas, saiba selecionar informações confiáveis para apoiar sua prática e contribua para a produção de conhecimento com ética, clareza metodológica e compromisso com o cuidado. Afinal, ciência de qualidade não é apenas aquela que mede com precisão, mas também aquela que ouve, interpreta e compreende a complexidade do ser humano em suas diversas formas de viver, sentir e cuidar. O QUALIS CAPES E A AVALIAÇÃO DAS REVISTAS CIENTÍFICAS Ao se buscar um periódico para publicar ou consultar artigos científicos, especialmente durante a graduação ou em projetos de iniciação científica, é comum surgir uma dúvida: essa revista é considerada de boa qualidade? Uma das formas de responder a essa pergunta no contexto brasileiro é por meio do Qualis, um sistema de avaliação de periódicos utilizado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). O Qualis CAPES é um sistema criado para classificar os periódicos científi- cos que veiculam a produção dos programas de pós-graduação no Brasil. Ele é utilizado como um dos critérios na avaliação quadrienal dos programas de mes- trado e doutorado, sendo, portanto, uma ferramenta de regulação da qualidade da pesquisa científica nacional. Cada área do conhecimento, incluindo a Enfermagem, possui uma comissão específica que define os critérios para classificar os periódicos. Esses critérios consideram, por exemplo, o fator de impacto, a indexação em bases internacio- nais, a periodicidade, a qualidade editorial e a pre- sença de revisão por pares. No sistema Qualis CAPES, as revistas científicas são organizadas em estratos de qualidade, que indicam o nível de reconhecimento e impacto dessas publicações. Essa classificação vai desde o estrato A1, considerado o mais alto, até o estrato C, que representa revistas sem qualificação. Entre eles, existem os níveis intermediários: A2, B1, B2, B3, B4 e B5. A definição do estrato leva em conta tanto critérios quantitativos, como o número de Define os critérios para classificar os periódicos 1 3 1 citações e a indexação em bases internacionais, quanto critérios qualitativos, como a relevância da revista para a área de conhecimento. De maneira geral, revistas A1 e A2 são aquelas com maior prestígio e impacto internacional, enquanto os estratos B1 a B5 incluem periódicos com impacto mais moderado, mas que ainda cumprem critérios importantes de qualidade. Já o estrato C se refere a revistas que não atendem aos critérios mínimos definidos pela área. É importante lembrar que essa classificaçãovaria de acordo com a área de avaliação. Uma revista que aparece como B1 em Enfermagem pode ser classificada como A2 em Saúde Coletiva, por exemplo, já que cada área estabelece seus próprios parâmetros com base em suas necessidades e características. Por isso, ao consultar o Qualis, é fundamental considerar em qual área do conhecimento a revista está sendo avaliada. A seguir, exemplos de revistas da Enfermagem segundo o Qualis CAPES. REVISTA ESTRATO QUALIS DESCRIÇÃO REVISTA LATINO- AMERICANA DE ENFERMAGEM (RLAE) A1 Publicada pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP. Tem alto impacto na América Latina e ampla indexação. TEXTO & CONTEXTO ENFERMAGEM (UFSC) A2 Revista com foco em práticas críticas e reflexivas na Enfermagem, com abordagem multidisciplinar. REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM (REBEN) A3 Órgão oficial da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), amplamente utilizada em TCCs e pesquisas nacionais. REVISTA ENFERMAGEM EM FOCO (COFEN) A4 Publicação de ampla circulação, vinculada ao Conselho Federal de Enfermagem, com impacto acadêmico moderado. JONAH – JOURNAL OF NURSING AND HEALTH (UFPEL) A5 Revista do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPel, com foco em saúde, enfermagem e interdisciplinaridade. Quadro 1 – Exemplos de Revistas Científicas em Enfermagem e seus Estratos no Qualis CAPES (Qualis vigente até o ciclo 2117–2121) Fonte: adaptado de https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublica- caoQualis/listaConsultaGeralPeriodicos.jsf. Acesso em: 1 jul. 2125. UNIASSELVI 1 3 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Como consultar o Qualis de uma revista passo a passo Para verificar a classificação de uma revista no sistema Qualis da CAPES, o primeiro passo é acessar o site oficial da plataforma, disponível na Plataforma Sucupira-Capes. Ao entrar na página, será necessário selecionar o campo “Evento de Classificação”, escolhendo o período desejado, por exemplo, “Classificações de Periódicos Quadriênio 2017–2020”. Em seguida, é possível refinar a busca utilizando diferentes filtros, como a área de avaliação (por exemplo, “Enfermagem” ou “Saúde Coletiva”), o ISSN da revista (sem hífen), o título completo ou parcial do periódico, o estrato de classificação desejado, como A1, A2, B1, entre outros. Após preencher os campos necessários, basta clicar em “Consultar” para visualizar os resultados. No exemplo a seguir, é possível verificar uma busca por revistas A1 na área da Enfermagem: Figura 2 – Tela de Consulta ao Qualis CAPES – Plataforma Sucupira Fonte: https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublicacaoQualis/ listaConsultaGeralPeriodicos.jsf. Acesso em: 1 jul. 2125. Descrição da Imagem: a figura mostra a página “Qualis Periódicos” da Plataforma Sucupira, com o logotipo no canto superior esquerdo, onde se lê “PLATAFORMA Sucupira Newton Sucupira (1920-2007)”. No canto superior direito, há um botão azul com o ícone de um computador e o texto “ACESSO RESTRITO”, além de duas bandeiras, uma do Brasil e uma dos Estados Unidos, que indicam a opção de troca de idioma. Abaixo do cabeçalho, está a trilha de navegação “Início >> Qualis >> Qualis Periódicos”, mostrando o caminho percorrido dentro do site. Em seguida, há o título da seção em destaque sobre uma faixa azul escura: “Qualis Periódicos”. Abaixo do título, encontra-se um formulário de consulta com os seguintes campos: “Evento de Classificação” (campo obrigatório, marcado com um asterisco vermelho), com a opção selecionada “CLASSIFICAÇÕES DE PERIÓDICOS QUADRIÊNIO 2017-2020”; “Área de Avaliação”, com a caixa de seleção marcada para “ENFERMAGEM”; um campo de texto em branco para “ISSN”; um campo de texto em branco para “Título”; e o campo “Classificação”, com a caixa de seleção marcada e a opção “A1” selecionada. Na parte inferior do formulário, há dois botões: “Consultar”, em azul, e “Cancelar”, em branco com borda cinza. Do lado direito da tela, há um ícone azul com a imagem de duas mãos brancas, que representa um recurso de acessibilidade em Libras (Língua Brasileira de Sinais), sinalizando que o site oferece tradução de conteúdo para usuários surdos. O fundo da página é claro e apresenta elementos gráficos com bolhas e linhas curvas. Fim da descrição. 1 3 1 A plataforma apresentará uma lista com as revistas que atendem aos critérios informados, trazendo dados, como o título da revista, o ISSN, à área de avaliação e a classificação Qualis atribuída. É importante lembrar que uma mesma revista pode ter classificações diferentes conforme a área do conhecimento avaliada, o que torna essencial a escolha correta da área na hora da consulta. Caso você deseje, há também a opção de baixar a lista completa de periódicos por área. Para isso, basta selecionar apenas a área de avaliação, clicar em “Consultar” e, em seguida, utilizar a opção de exportação disponível na página para gerar um arquivo com todas as revistas e suas respectivas classificações. Qualis em transformação: entendendo a nova proposta da CAPES A CAPES anunciou que, a partir do ciclo 2025–2028, adotará um novo modelo de avaliação, baseado na qualidade individual dos artigos, e não apenas na revista onde foram publicados. Isso significa que: Figura 1 – Resultado de Consulta Qualis A1 na Área de Enfermagem - Plataforma Sucupira Fonte: https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublicacaoQualis/ listaConsultaGeralPeriodicos.jsf. Acesso em: 1 jul. 2125. Descrição da Imagem: a figura mostra a tela de resultados da Plataforma Sucupira após uma consulta aos periódicos classificados como A1 na área de Enfermagem, dentro do ciclo de avaliação do Qualis CAPES referente ao quadriênio 2017–2020. O quadro apresentado contém colunas com as seguintes informações: ISSN, título da revista, área com publicação no quadriênio, classificação e área mãe. É possível visualizar diversos periódicos com classificação A1, como Accident Analysis and Prevention, Acta Biomaterialia, Advances in Nursing Science e Advances in Wound Care. Embora todos estejam relacionados à área de Enfermagem, muitos pertencem a diferentes áreas mãe, como Medicina, Saúde Coletiva, Odontologia, Educação Física e Fisioterapia e Ciências Biológicas. A imagem ilustra como uma mesma revista pode ter sua classificação Qualis considerada em múltiplas áreas do conhecimento, dependendo do contexto da publicação. Fim da descrição. UNIASSELVI 1 3 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 • Artigos publicados em um mesmo periódico poderão receber classificações diferentes, de acordo com seus méritos. • Haverá maior ênfase em indicadores do próprio artigo, como citações, visibilida- de e contribuição científica. • A análise qualitativa pelas áreas ganhará protagonismo, considerando pertinên- cia temática, inovação e impacto do estudo. Essa mudança visa tornar a avaliação mais justa, permitindo que produções relevantes sejam reconhecidas mesmo quando publicadas em revistas com menor fator de impacto. Ela representa um avanço no sentido de avaliar a ciência pelo conteúdo, e não apenas pela “embalagem” em que ela é publicada. Para estudantes e futuros pesquisadores, isso significa que a escolha do periódico deve ser feita com base em critérios, como adequação temática, público-alvo e qualidade editorial, e não somente no estrato Qualis. Por que isso importa para a Enfermagem? Na Enfermagem, há um forte compromisso com a aplicação prática do conhecimento. Muitas pesquisas de alta relevância são realizadas em contextos regionais ou publicadas em revistas nacionais, com foco em saúde coletiva, atenção básica e gestão do cuidado. Por isso, é fundamental que a avaliação da produção científica valorize o conteúdo, e não apenas o prestígio da revista. Conhecer o Qualis e suas mudanças contribui para uma formação mais crítica, estratégica e alinhada às reais necessidades da ciência e da sociedade. Outro desafio crescente é o de selecionar onde publicar e comodivulgar o conhecimento produzido. Em um cenário onde a CAPES caminha para avaliar a qualidade individual dos artigos, e não apenas das revistas, o acadêmico precisa entender que a relevância de uma pesquisa não depende somente de estar em um periódico A1, mas também da consistência metodológica, do rigor ético e da contribuição que aquele estudo oferece para a Enfermagem e para a sociedade. Nesse sentido, conhecer o funcionamento do Qualis CAPES e utilizar ferramentas, como a Plataforma Sucupira, são atitudes estratégicas para quem pretende construir uma trajetória sólida na pesquisa. Você já se perguntou como uma revista científica pode “subir de nível” no Qualis CAPES? Embora o sistema esteja passando por mudanças, a lógica de valorização da qualidade editorial e do impacto científico continua sendo central. 1 3 8 Imagine uma revista da área da saúde que, há alguns anos, era classificada como B3. Na época, publicava apenas em português, tinha pouca regularidade nas edi- ções e não estava indexada em bases internacionais. Seus artigos eram relevantes, mas pouco citados em outras pesquisas, e o processo de avaliação por pares ainda estava em consolidação. Com o tempo, os editores decidiram investir na melhoria da qualidade edi- torial: adotaram a publicação bilíngue (português e inglês), passaram a seguir rigorosamente os critérios de revisão por pares, ampliaram a diversidade do cor- po editorial com pesquisadores de diferentes regiões e universidades e buscaram indexação em bases, como SciELO e Scopus. Além disso, a revista começou a atrair pesquisas mais robustas metodologi- camente e com maior impacto prático, o que fez com que seus artigos passassem a ser mais citados. Como consequência desse conjunto de esforços, na avaliação seguinte da CAPES, a revista foi reclassificada como B1. Anos depois, com a consolidação do seu impacto e a presença crescente em bases internacionais, alcançou o estrato A2. Esse exemplo mostra que a classificação Qualis não é algo fixo ou definitivo. Ela pode (e deve) refletir a trajetória de crescimento de uma revista científica. Para estudantes e futuros pesquisadores, isso significa que revistas hoje classificadas como B podem, com o tempo, tornar-se veículos de alto prestígio acadêmico. Por isso, mais do que apenas olhar a sigla A1 ou B2, é importante compreender o contexto da revista, seu escopo, seu público e sua evolução editorial. AÇÃO ESTRATÉGICA IMPACTO NA REVISTA CONTRIBUIÇÃO PARA O AVANÇO NO QUALIS Adotar publicação bilíngue (português/ inglês) Aumenta a visibilidade internacional e o acesso ao conteúdo Maior alcance e potencial de citação Aprimorar o processo de revisão por pares Garante maior qualida- de e credibilidade dos artigos publicados Valoriza o rigor científico exigido pelas áreas de avaliação UNIASSELVI 1 3 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 6 AÇÃO ESTRATÉGICA IMPACTO NA REVISTA CONTRIBUIÇÃO PARA O AVANÇO NO QUALIS Incluir a revista em bases indexadoras (SciELO, Scopus, DOAJ) Aumenta a presença da revista em repositórios de pesquisa acadêmica Critério importante nos indicadores bibliométricos Cumprir com regula- ridade a publicação das edições Demonstra organização e compromisso editorial Evita penalizações e melhora a avaliação da consistência da revista Diversificar o corpo editorial Atrai pesquisadores de diferentes regiões e instituições Fortalece o caráter científico e plural da revista Estimular a submissão de artigos com meto- dologias robustas. Melhora a qualidade geral da produção publicada Atrai mais citações e amplia o reconhecimento da revista Aderir à ciência aber- ta e ao acesso livre (Open Access) Facilita o acesso ao conteúdo sem barreiras financeiras ou institucionais Melhora a disseminação do conhecimento e os indicadores de visibilidade Divulgar os artigos em redes acadêmicas e mídias científicas Aumenta a presença da revista fora dos meios tradicionais Contribui para Altmetrics e engajamento com a comunidade científica Representatividade com Foco na Diversi- dade Institucional Promover a pluralidade de perspectivas, meto- dologias e abordagens que vêm de diferentes centros de pesquisa Reduzir a percepção de que a revista está favorecendo auto- res de sua própria instituição ou de instituições com as quais tenha laços mais próximos Quadro 2 – Elementos que favorecem a reclassificação positiva de periódicos científicos no Qualis / Fonte: a autora. Em um tempo em que a informação circula com velocidade, mas nem sempre com qualidade, seu papel, enquanto estudante de Enfermagem, torna-se ainda mais relevante: é preciso filtrar, analisar, questionar e, sobretudo, agir com cons- ciência científica. Os desafios são muitos, é verdade. Mas cada etapa superada, 1 1 1 da leitura crítica à produção de conhecimento, da escolha da revista à aplicação ética das evidências, fortalece não só a formação individual, mas também a En- fermagem como ciência e como prática social. Que este percurso de aprendizado inspire atitudes curiosas, críticas e compro- metidas. E que você possa enxergar a si mesmo como parte ativa da construção de um cuidado fundamentado em evidências, guiado pela ciência, sustentado pela ética e sensível às realidades humanas. Isso porque, no fim das contas, o conhecimento que realmente transforma é aquele que se coloca a serviço da vida. NOVOS DESAFIOS Avançar no conhecimento científico exige mais do que ler artigos e realizar trabalhos acadêmicos. Para os estudantes e futuros profissionais da Enfermagem, os caminhos da formação estão cada vez mais conectados com a produção, a leitura crítica e o uso responsável da ciência. Os temas discutidos ao longo deste material, como a qualidade das publicações, os níveis de evidência, os critérios de avaliação das revistas científicas e as transformações do sistema Qualis CAPES, apontam para novos desafios e responsabilidades no percurso acadêmico. Um primeiro desafio é o de compreender e interpretar criticamente as evidências científicas. Não basta apenas citar um artigo ou repetir conclusões de forma automática; é preciso saber de onde vêm os dados, qual o tipo de estudo realizado, qual o nível de evidência envolvido e se aquela informação é adequada para a realidade do cuidado em saúde. Para isso, conhecer a diferença entre estudos qualitativos e quantitativos, saber o que é uma revisão sistemática ou um estudo de coorte e reconhecer os limites de um relato de caso são competências essenciais para a prática baseada em evidências. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO UNIASSELVI 1 1 1 https://vimeo.com/1119443127/7bf54330aa TEMA DE APRENDIZAGEM 6 Além disso, há um chamado para que os estudantes se engajem em práticas de ciência aberta, colaborativa e acessível. Isso significa considerar novas formas de comunicar a ciência, va- lorizar revistas de acesso livre, participar de eventos científicos e buscar formação contínua em leitura crítica e produção acadêmica. Também envolve re- fletir sobre o impacto social da pesquisa: como os resultados podem influenciar o cuidado? Como podem contribuir para políticas públicas, formação de profissionais e promoção da saúde? Por fim, há um desafio ainda maior e talvez o mais importante: formar-se como profissional que alia competência técnica, sensibilidade ética e consciência crítica. A Enfermagem é, antes de tudo, uma ciência do cuidado. E o cuidado baseado em evidências exige responsabilidade não só com o conhecimento que se produz, mas com as pessoas que esse conhecimento pretende beneficiar. Portanto, o convite final é este: que você, estudante de Enfermagem, possa se reconhecer como parte da comunidade científica, com voz, com potência e com compromisso. Produzir ciência não é privilégio de poucos, mas uma construção coletiva, e a Enfermagem tem muito a contribuir para que essa construçãomesma forma, um idoso institucionalizado pode ter suas necessidades fisiológicas atendidas, mas será que sua saúde emocional e social está igualmente contemplada? Por isso, a enfermagem incorpora também abordagens qualitativas e com- preensivas na pesquisa e na prática. Métodos, como entrevistas, narrativas e observação participante, permitem explorar os significados e as percepções dos pacientes, trazendo uma visão mais holística do cuidado (Minayo, 2001, 2014). Além disso, a integração de diferentes paradigmas científicos — como o paradigma compreensivo e o crítico-estruturalista — amplia a compreensão dos desafios da assistência, permitindo intervenções mais humanizadas e con- textualizadas (Minayo, 2001, 2014). Portanto, ainda que a objetividade da análise positivista seja um alicerce es- sencial na ciência da saúde, ela precisa ser complementada por abordagens que respeitem a subjetividade do paciente, a complexidade do contexto social e a singularidade do cuidado em enfermagem. Afinal, cuidar não é apenas tratar a doença, é compreender e acolher o ser humano em sua totalidade. 1 1 O Positivismo como modelo de racionalidade científica O positivismo ajudou a construir uma forma de pensamento que distingue o co- nhecimento científico de outras formas de conhecimento, como o senso comum e as humanidades. Essa busca por uma verdade única e objetiva foi fortemente influenciada por grandes nomes, como Copérnico, Kepler, Galileu, Newton, Ba- con e Descartes (Santos, 2010). Você já parou para pensar no impacto que essa visão teve na forma como trata- mos a saúde e a pesquisa científica? Será que só existe uma única maneira de se conhecer a realidade? PE N SA N DO JUNTOS Muitas críticas ao positivismo surgiram exatamente por essa visão totalitária do conhecimento. Ao enfatizar apenas a mensuração e a quantificação, algu- mas abordagens acabaram deixando de lado aspectos essenciais da experiência humana (Santos, 2010). Desafios do positivismo: será que tudo pode ser medido? Embora o positivismo tenha sido fundamental para avanços na saúde, ele tam- bém enfrenta críticas (Santos, 2010). Nem tudo pode ser medido com precisão, especialmente quando falamos sobre experiências humanas, emoções e o impac- to subjetivo de uma doença. O que você acha? Faz sentido tentar transformar tudo em números ou há espaço para abordagens diferentes? A pesquisa qualitativa surgiu justamente para complementar essa visão. Metodologias, como a fenomenologia e a etnografia, dão voz aos pacientes e profissionais da saúde, permitindo uma compreensão mais rica do cuidado e da relação entre enfermeiros, médicos e pacientes (Minayo, 2001, 2014). E Agora? Como equilibrar as abordagens? UNIASSELVI 1 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Atualmente, muitos pesquisadores acreditam que o caminho ideal é a integração entre abordagens quantitativas e qualitativas (Creswell, 2010). Ao mesmo tempo em que buscamos evidências concretas e mensuráveis, também, reconhecemos a importância de entender o contexto, a história e a experiência do paciente. Em um mundo onde a ciência está sempre evoluindo, é essencial lembrar que o conhecimento não deve ficar restrito aos laboratórios e artigos acadêmicos. O verdadeiro desafio está em transformar esse conhecimento em algo acessível e útil para as pessoas, equilibrando rigor científico com empatia e compreensão humana. O que você pensa sobre isso? Como você vê a influência do positivismo na saúde e na sua própria experiência? PARADIGMA COMPREENSIVO: UMA CONVERSA SOBRE A COMPREENSÃO SOCIAL Imagine que você está conversando com um grupo de amigos sobre como as pessoas enxergam o mundo. Alguns acreditam que tudo pode ser medido e ex- plicado com números, enquanto outros dizem que entender a sociedade é muito mais do que apenas contar e classificar. 1 8 Foi justamente assim que, no final do século XIX e ao longo do século XX, surgiu o Paradigma Compreensivo, desenvolvido por Weber (2022), uma abordagem que propõe olhar para os fenômenos sociais de uma maneira di- ferente: a partir do significado que as pessoas dão às suas próprias ações. O que faz do paradigma compreensivo algo especial? Você já entendeu que a abordagem positivista defende a ideia de que a rea- lidade social pode ser estudada com a mesma objetividade que um cientista analisa a natureza. Porém o paradigma compreensivo veio para desafiar isso. Em vez de apenas medir comportamentos, ele busca interpretar as intenções e os significados por trás das ações das pessoas (Weber, 2022). Vamos pensar em um exemplo simples: quando alguém sorri, nós podemos apenas contar quantos sorrisos aconteceram em um dia (como um positivista faria) ou tentar entender o que motivou esses sorrisos (como faria um pesqui- sador compreensivo). Essa última abordagem nos ajuda a enxergar que um sorriso pode significar alegria, ironia, nervosismo ou mesmo um gesto educado. Como esse paradigma se estrutura? Os pesquisadores compreensivos seguem algumas direções para entender a sociedade: SUBJETIVIDADE E SIGNIFICADO As pessoas não são apenas números em uma tabela. Elas têm emoções, valores e cren- ças que influenciam suas ações (Weber, 2022). INTERPRETAÇÃO E EMPATIA Para entender um grupo ou indivíduo, o pesquisador precisa se colocar no lugar das pessoas e tentar enxergar o mundo pelos olhos delas (Schütz, 2003). UNIASSELVI 1 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 MÉTODOS QUALITATIVOS Em vez de usar apenas estatísticas, esse paradigma valoriza ferramentas, como entre- vistas, observação participante e análise documental (Minayo, 2014). CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL Nenhuma ação acontece no vácuo. É essencial entender o ambiente e a época em que as pessoas vivem para compreender suas atitudes (Durkheim, 2007). Onde o paradigma compreensivo se aplica? O paradigma compreensivo tem se consolidado como uma abordagem significa- tiva para diversas áreas das ciências humanas e sociais, permitindo uma análise mais aprofundada da ação humana. Ao permitir que os pesquisadores acessem os significados subjetivos das ações humanas, o paradigma compreensivo enriquece a compreensão dos fenômenos sociais, políticos e culturais, promovendo análises mais sensíveis e contextualizadas sobre a realidade, reconhecendo a subjetividade como elemento essencial na construção do conhecimento. As ideias desse para- digma podem ser encontradas em diversas áreas das ciências: Na Sociologia, essa perspectiva foi desenvolvida por Max Weber (2002), que introduziu o conceito de ação social como chave para a compreensão do compor- tamento humano. Para Weber, não basta observar o que os indivíduos fazem; é im- prescindível compreender por que fazem, ou seja, identificar os sentidos subjetivos que orientam suas ações no contexto social em que estão inseridos (Weber, 2002). Já na Antropologia, o paradigma compreensivo impulsionou metodologias de pesquisa baseadas na imersão cultural e na interpretação simbólica. Geertz (1989), por exemplo, propôs o conceito de “descrição densa”, enfatizando a necessidade de interpretar detalhadamente os significados atribuídos pelos próprios indivíduos às suas práticas e costumes. Essa abordagem permite que o pesquisador vá além da ob- servação externa e compreenda a cultura a partir da perspectiva de seus membros. 2 1 Na Ciência Política, essa abordagem possibilita uma compreensão mais refinada sobre os processos de tomada de decisão e participação política. Skin- ner (2002) argumenta que os atos políticos devem ser analisados dentro de seus respectivos contextos históricos e intencionais, pois seu significado não se restringe apenas aos resultados finais, mas também às motivações e circunstâncias que levaram à ação. No campo da História, o paradigma compreensivo contribui para a valori- zação das experiências individuais dentro de grandes eventos históricos. Burke (1992) defende que a história social deve ser construída a partir de múltiplas pers- pectivas, destacando como as narrativas individuaisseja mais ética, mais humana e mais transformadora. Formas de comunicar a ciência, valorizar revistas de acesso livre 1 1 2 1. A revisão por pares (peer review) é um processo central na validação de artigos científicos antes da publicação. Nesse modelo, pesquisadores da mesma área do autor analisam o manuscrito de forma crítica, avaliando a qualidade metodológica, a coerência dos resultados, a originalidade da proposta e a relevância do estudo para a área científica. Existem diferentes formas de revisão, como a cega simples (em que apenas o revisor conhece os autores), a cega dupla (em que autores e revisores não sabem quem são) e a aberta (em que ambos se identificam). Embora não seja isenta de limitações, a revisão por pares é amplamente reconhecida como um mecanismo fundamental de controle de qualidade na ciência (Barata, 2019). Considerando o processo de revisão por pares, assinale a alternativa que descreve corretamente uma característica desse sistema de avaliação científica. a) A revisão por pares garante que apenas artigos de revistas com fator de impacto elevado sejam aceitos. b) O modelo de revisão cega dupla permite que os autores acompanhem diretamente quem avaliou seu manuscrito. c) A revisão por pares é uma etapa obrigatória para todos os artigos publicados em periódicos científicos. d) A revisão por pares busca garantir a qualidade científica do manuscrito antes da publicação, sendo realizada por especialistas da área. e) A principal vantagem da revisão por pares é acelerar o tempo de publicação dos artigos. 2. O sistema Qualis CAPES é uma ferramenta criada para classificar a qualidade da produção científica brasileira, especialmente a publicada em periódicos. Ele utiliza critérios, como impacto, indexação, periodicidade e avaliação por pares, para ranquear as revistas em estratos (A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C). No campo da Enfermagem, compreender o Qualis é essencial para que os acadêmicos possam reconhecer revistas com maior reconhecimento na área e fazer escolhas mais estratégicas quanto à submissão de seus trabalhos científicos (Capes, 2022). Sobre o sistema Qualis CAPES na área da Enfermagem, analise as afirmativas a seguir: I - O Qualis CAPES serve como um guia para avaliar a relevância dos periódicos onde os pesquisadores publicam seus estudos. II - Na área da Enfermagem, revistas classificadas como A1 e A2 são consideradas de excelência acadêmica e científica. AUTOATIVIDADE 1 1 3 III - Conhecer a classificação Qualis dos periódicos pode ajudar estudantes a tomar decisões mais estratégicas sobre onde submeter seus trabalhos. IV - O sistema Qualis classifica os periódicos com base na opinião dos autores dos artigos publicados, sem considerar critérios técnicos ou métricos. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. A qualificação de periódicos científicos é influenciada por critérios, como consistência editorial, rigor metodológico e engajamento com a comunidade científica. Estratégias, como a submissão de artigos com metodologias robustas e a divulgação em redes científicas, favorecem a reputação e o reconhecimento das revistas no sistema de avaliação da CAPES (Capes, 2022). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - Estimular a submissão de artigos com metodologias robustas é uma estratégia que pode atrair mais citações e ampliar o reconhecimento da revista científica. PORQUE II - O rigor metodológico das publicações é valorizado nas áreas de avaliação da CAPES e pode contribuir para o avanço da revista nos estratos superiores do Qualis. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 1 1 1 REFERÊNCIAS BARATA, R. B. Desafios da editoração de revistas científicas brasileiras da área da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, p. 929-939, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ csc/a/HJHZbydzcwtmBD3GLcJB5gQ/. Acesso em: 1 jul. 2025. BURNS, P. B.; ROHRICH, R. J.; CHUNG, K. C. The levels of evidence and their role in evidence-ba- sed medicine. Plastic and Reconstructive Surgery, v. 128, n. 1, p. 305-310, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1097/PRS.0b013e318219c171. Acesso em: 1 jul. 2025. CAPES – COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR. Classi- ficação de periódicos no Qualis. c2022. Página inicial. Disponível em: https://sucupira-legado. capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublicacaoQualis/listaConsultaGeral- Periodicos.jsf. Acesso em: 1 jul. 2025. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. 1 1 5 1. Alternativa D. A alternativa D está correta, pois a revisão por pares é realizada por especialistas e tem como objetivo verificar a qualidade científica, o rigor metodológico e a relevância do manuscrito antes de sua publicação. Trata-se de uma prática consolidada na comunidade científica. A alternativa A está incorreta, pois a revisão por pares avalia o artigo em si e não está vinculada ao fator de impacto da revista. A alternativa B está incorreta, pois, no modelo cego duplo, justamente nenhum dos lados conhece a identidade do outro. A alternativa C está incorreta, pois, embora comum, nem todos os periódicos adotam revisão por pares — pré-prints, por exemplo, não passam por esse processo. A alternativa E está incorreta, pois revisão por pares pode, na verdade, aumentar o tempo de publicação, justamente por envolver avaliação crítica e possíveis revisões. 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, pois o Qualis ajuda a avaliar onde a produção científica está sendo publicada, servindo como referência para a qualidade dos periódicos. A afirmativa II está correta, pois os estratos A1 e A2 representam revistas de maior prestígio e impacto científico na área da Enfermagem. A afirmativa III está correta, pois conhecer a classificação Qualis dos periódicos pode ajudar estudantes a tomar decisões mais estratégicas sobre onde submeter seus trabalhos. A afirmativa IV está incorreta, pois o Qualis utiliza critérios objetivos e técnicos, como o fator de impacto, indexações, regularidade da publicação e outros indicadores bibliométricos, e não a opinião dos autores. 3. Alternativa A. A asserção I é verdadeira, pois a publicação de artigos com metodologias robustas aumenta a credibilidade científica, o que favorece as citações e o reconhecimento da revista. A asserção II é verdadeira e uma justificativa correta da I, pois, ao mesmo tempo, o rigor metodológico é um critério valorizado pela CAPES na avaliação das áreas, sendo um fator relevante para o avanço no Qualis. GABARITO 1 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 1 1 7 UNIDADE 3 MINHAS METAS PROJETO DE PESQUISA: METODOLOGIA DE PESQUISA Compreender os fundamentos da construção da pesquisa científica. Entender que a pergunta de pesquisa define o rumo da investigação. Saber que a hipótese será testada com a investigação. Conhecer o acrônimo FINER. Perceber os diferentes tipos de pesquisa e como eles se classificam. Compreender que a pesquisa qualitativa foca na experiência. Assimilar que a pesquisa quantitativa busca medir e quantificar. fenômenos. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 7 1 5 1 INICIE SUA JORNADA Você já esteve em um estágio ou durante uma disciplina e pensou: “Isso aqui não faz sentido” ou “Por que isso sempre acontece assim?” Pois é, muitas vezes, essas situações cotidianas que parecem pequenas são, na verdade, grandes janelas para perguntas importantes.Uma dificuldade constante no cuidado, algo que os pacientes relatam com frequência, ou até uma falha na comunicação entre a equipe, tudo isso pode ser o início de um problema de pesquisa. E isso não precisa vir de um livro: vem da prática, do que você vive no hospital, no posto de saúde ou nas rodas de conversa com colegas e professores. Mas por que isso importa? Porque é justamente a partir dessa inquietação real que nasce a pesquisa que faz sentido. Uma pesquisa que não fica só no papel, mas que tem potencial de transformar a prática, melhorar a vida dos pacientes e fortalecer a profissão. Quando você percebe que sua dúvida pode virar uma pergunta de pesquisa, está começando a trilhar o caminho de quem deseja mudar a realidade com conhecimento. É como se essa dúvida se tornasse uma bússola, guiando seu olhar, seus estudos e suas decisões acadêmicas. E o mais incrível: é você quem segura essa bússola. E aí começa a parte mais interessante: experimentar. Isso não significa sair aplicando questionários de qualquer jeito, mas, sim, mergulhar nesse processo com curiosidade. Observar mais atentamente, conversar com quem já pesquisa, ler artigos, comparar experiências. É nesse movimento de busca que você vai percebendo que existe método, que há formas de transformar a dúvida em uma pergunta clara, objetiva e investigável. Às vezes, o primeiro rascunho da sua pergunta ainda está meio solto, e tudo bem. Aos poucos, com ajuda de professores, colegas e da própria prática, você vai afunilando até enxergar com mais nitidez o que quer investigar. O que você observa como estudante hoje pode ser o ponto de partida para mudanças reais amanhã. Pesquisar não é só uma obrigação acadêmica, é uma escolha por olhar com mais atenção, perguntar com mais coragem e construir Observar mais atentamente, conversar com quem já pesquisa UNIASSELVI 1 5 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 com mais propósito. Quando você escolhe transformar uma inquietação em investigação, você está também se reconhecendo como parte ativa dessa profissão. E essa é uma das formas mais potentes de cuidar: cuidando do conhecimento, cuidando da prática e cuidando do futuro da Enfermagem. DESENVOLVA SEU POTENCIAL Você já se deparou, durante um estágio ou disciplina, com uma situação que parece exigir respostas mais profundas? Talvez, tenha notado algo que se repete entre os pacientes, uma dificuldade no cuidado, ou até mesmo uma lacuna na comunicação entre profissionais da equipe. Quando essas observações despertam em nós a vontade de compreender melhor uma realidade, estamos diante de um possível problema de pesquisa. No podcast Gestão do Tempo na Pesquisa Acadêmica em En- fermagem, vamos falar sobre um dos maiores desafios da vida acadêmica: a gestão do tempo na pesquisa em enfermagem. Descubra estratégias práticas para organizar sua rotina. Dê o play e venha com a gente! PLAY N O CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? Neste vídeo, você vai recordar, de forma clara e objetiva, o papel do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na formação acadêmica, destacando sua importância como primeiro passo na trajetória científica. 1 5 2 https://on.soundcloud.com/aSe3I38h4Jo1XgH1yK https://www.youtube.com/watch?v=3UphFl6r1Rc De forma conceitual, Gil (2010) refere que o problema de pesquisa pode ser definido como uma questão relevante, clara e delimitada, que expressa uma dúvida fundamentada e passível de investigação científica. Ele não é apenas uma curiosidade momentânea, mas uma inquietação que surge a partir de uma leitura crítica da realidade, algo que, por não estar bem compreendido, carece de estudo sistemático. Na Enfermagem, muitos problemas de pesquisa emergem diretamente da prática: do cuidado, da gestão, da educação, da saúde coletiva ou da saúde mental. Pesquisar, nesse contexto, é uma forma de transformar a prática por meio do conhecimento. O problema de pesquisa representa o alicerce de todo o processo de pesquisa, orientando a definição de objetivos, a escolha da metodologia e a análise dos dados. É, de fato, o norte que direcionará sua jornada no universo da pesquisa. PROBLEMA DE PESQUISA: A BÚSSOLA QUE O GUIARÁ Um problema de pesquisa, em sua concepção mais fundamental, é uma lacuna no conhecimento existente, uma questão que carece de respostas completas ou aprofundadas. Trata-se de uma inquietação que surge da observação da realidade, instigando o questionamento: “Será que...?” ou “Qual a relação entre...?” (Gil, 2017). No contexto da enfermagem, essa lacuna, frequentemente, manifesta-se em aspectos relacionados à saúde, ao processo de cuidado, ao bem-estar dos pacientes e comunidades ou à dinâmica do trabalho da equipe de enfermagem. Por exemplo, a constatação de elevadas taxas de não adesão ao tratamento em pacientes com doenças crônicas ou a busca por estratégias mais eficazes de educação em saúde para familiares são exemplos de problemas que emergem da prática e demandam investigação. A elaboração de um problema de pesquisa exige a observância de alguns critérios fundamentais. Para auxiliar na avaliação da qualidade de uma questão de pesquisa, muitos pesquisadores utilizam o acrônimo FINER, que destaca características essenciais, embora não seja a única forma de garantir a excelência da sua formulação (Hulley et al., 2003). Esses critérios incluem: UNIASSELVI 1 5 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 O problema deve ser formulado de maneira concisa, direta e inequívoca, evitan- do generalizações. Quanto mais específico ele for, mais direcionada será a investi- gação. Por exemplo, em vez de uma pergunta genérica, como “Como melhorar a saúde da população?”, uma formulação mais científica seria: “Quais as estratégias de intervenção de enfermagem mais eficazes na redução da taxa de readmissão hospitalar de pacientes idosos com insuficiência cardíaca no período pós-alta?”. F — FACTÍVEL (FEASIBLE) Refere-se à exequibilidade da pesquisa. É fundamental que haja disponibilidade de recursos (financeiros, humanos, temporais), acesso à população de estudo e dados e expertise por parte do pesquisador para conduzir a investigação. I — INTERESSANTE (INTERESTING) A pesquisa deve despertar o interesse do investigador e da comunidade científica, ga- rantindo motivação e engajamento ao longo de todo o processo. N — NOVA (NOVEL) Embora nem toda pesquisa precise ser radicalmente inovadora, ela deve trazer uma nova perspectiva, aprofundar um conhecimento existente ou aplicá-lo a um novo con- texto. O ineditismo confere originalidade e contribui para o avanço da ciência. E — ÉTICO (ETHICAL) Qualquer investigação deve ser conduzida respeitando rigorosamente os princípios éti- cos e bioéticos, garantindo a proteção e a dignidade dos participantes. R — RELEVÂNCIA (RELEVANT) A investigação deve gerar conhecimento que traga benefícios significativos para a en- fermagem, para a saúde coletiva ou para a sociedade. Deve preencher uma lacuna de conhecimento que justifique o esforço da pesquisa. 1 5 1 A identificação de um problema de pesquisa é um processo que combina ob- servação crítica e revisão da literatura. Trata-se de um movimento investigativo que envolve a análise atenta da realidade, o conhecimento científico acumulado e a escuta de diferentes vozes no campo da saúde. Essa construção ocorre por meio de diferentes estratégias, que se complementam e se retroalimentam. Entre elas, destacam-se: ■ Observação da Prática Clínica: as vivências cotidianas nos campos de estágio e nas unidades de saúde, frequentemente, revelam desafios, lacunas no cuidado ou fenômenos que demandam explicação e melhoria. ■ Revisão de Literatura: o estudo aprofundado de artigos científicos, teses e dissertações permite identificar conhecimentos já estabelecidos, mas também aponta para áreas pouco exploradas ou inconsistências em achados de pesquisa, sugerindo a necessidade de novas investigações. ■ Diálogo e Discussão: a interação com professores, enfermeiros experientes e colegas pode catalisara formulação de problemas de pesquisa, à medida que diferentes perspectivas enriquecem o processo de questionamento. ■ Inquietação Pessoal: a curiosidade e o senso crítico do pesquisador são impulsionadores importantes, transformando questionamentos pessoais em investigações científicas. O problema de pesquisa é, portanto, o “porquê” geral da sua pesquisa, a razão pela qual você está investigando. Ele é mais abrangente. A pergunta de pesquisa, por outro lado, é o “o quê” específico que você vai investigar para tentar preen- cher aquela lacuna ou resolver o problema. Ela é mais delimitada e operacional. A relação é de progressão: primeiro, você identifica um problema (uma área de preocupação) e, então, a partir desse problema, você formula uma ou mais perguntas de pesquisa para investigá-lo de forma sistemática. A pergunta é uma versão mais específica e questionável do problema. UNIASSELVI 1 5 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 Em resumo, o problema de pesquisa define a área de interesse, enquanto a per- gunta de pesquisa direciona o foco da investigação dentro dessa área. ELABORANDO A PERGUNTA DE PESQUISA A pergunta de pesquisa não é um adorno, mas, sim, a interrogação central que define o que você vai investigar. Se o problema de pesquisa aponta para uma lacuna no conhecimento, a pergunta de pesquisa formaliza essa lacuna em um questionamento direto. É ela quem orientará cada etapa do seu estudo, desde a escolha da metodologia, que será adequada para responder a essa pergunta específica, até a análise dos dados e a interpretação dos resultados (Gil, 2017). Uma pergunta de pesquisa bem formulada é o que confere propósito à sua investigação. Ela delimi- ta seu campo de atuação, direciona seus esforços e impede que você se perca em informações irrelevan- tes. É ela quem orientará cada etapa do seu estudo. A formulação do problema de pesquisa é comumente apresentada na forma de uma pergunta, embora possa ser uma afirmativa que delineie a questão a ser investigada. Para problemas de natureza clínica, a estrutura PICOD é amplamente recomendada por sua clareza e abrangência (Methley et al., 2014): • P — População/Paciente: quem é o grupo de interesse da pesquisa? (Exemplo: pacientes hospitalizados com úlcera por pressão). • I — Intervenção: qual a intervenção ou exposição a ser investigada? (Exemplo: uso de coberturas especiais de silicone). • C — Comparação: com o que a intervenção será comparada? (Exemplo: comparado com as coberturas convencionais). • O — Outcome/Desfecho: qual o resultado esperado ou medido? (Exemplo: tempo de cicatrização da lesão). • D — Design: quais procedimentos metodológicos e instrumentos de coleta de dados foram empregados na pesquisa? Ela delimita seu campo de atuação, direciona seus esforços 1 5 1 Aplicando o PICOD, um problema de pesquisa poderia ser: “Em pacientes hospi- talizados com úlcera por pressão (P), o uso de coberturas especiais de silicone (I) reduz o tempo de cicatrização da lesão (O) de forma mais eficaz do que as coberturas convencionais (C) em um estudo qualitativo com abordagem fenomenológica (D)?” A cuidadosa formulação do problema de pesquisa não é meramente uma etapa formal do processo acadêmico. Ela é a base para a geração de conhecimento que impulsiona o avanço da enfermagem como ciência e profissão. É por meio da pesquisa que as práticas de cuidado são embasadas em evidências, a segurança do paciente é aprimorada e a autonomia profissional é fortalecida. Ao investir na identificação e formulação de um problema de pesquisa relevante, você, futuro enfermeiro e pesquisador, contribui diretamente para a transformação e qualificação da assistência à saúde. HIPÓTESES: A RESPOSTA PROVISÓRIA À SUA PERGUNTA DE PESQUISA Depois de identificar e formular um problema e a pergunta de pesquisa, o próximo passo na sua jornada investigativa é pensar nas hipóteses. Imagine a hipótese como uma aposta informada, uma resposta provisória ou uma previsão para a sua pergunta de pesquisa. Ela é uma afirmação que você vai testar com a sua investigação. Basicamente, uma hipótese é uma declaração formal sobre a relação esperada entre duas ou mais variáveis (Lakatos; Marconi, 2017). Ela não é uma pergunta, mas, sim, uma afirmação que pode ser comprovada ou refutada pelos dados que você vai coletar e analisar. EXEMPLIFICANDO Por exemplo, se o seu problema de pesquisa é: “A educação em saúde focada no autocuidado é mais eficaz na melhoria da adesão ao tratamento em pacientes com diabetes tipo 2 do que na educação tradicional?”, uma hipótese seria: “Pa- cientes com diabetes tipo 2 que recebem educação em saúde focada no auto- cuidado apresentarão maior adesão ao tratamento do que aqueles que recebem educação tradicional”. UNIASSELVI 1 5 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 Perceba que a hipótese transforma a pergunta em uma afirmação testável. Existe a hipótese nula, que é a hipótese da “não diferença” ou “não relação”. Ela afirma que não há efeito, não há diferença ou não há relação entre as variáveis. No nosso exemplo, a hipótese nula seria: “Não há diferença na adesão ao tratamento entre pacientes com diabetes tipo 2 que recebem educação em saúde focada no autocuidado e aqueles que recebem educação tradicional”. Em termos estatísticos, segundo Martins (2002), é essa a hipótese que você tenta refutar. Já a hipótese de pesquisa (ou hipótese alternativa) é a hipótese que você realmente acredita que é verdadeira. Ela afirma que existe uma diferença, um efeito ou uma relação entre as variáveis. Pode ser direcional (indicando a direção da relação, como “maior que”, “menor que”) ou não direcional (apenas afirmando que existe uma diferença, sem especificar a direção). Por exemplo: ■ Direcional: “pacientes com diabetes tipo 2 que recebem educação em saúde focada no autocuidado apresentarão maior adesão ao tratamento do que aqueles que recebem educação tradicional”. ■ Não Direcional: “existe uma diferença na adesão ao tratamento entre pacientes com diabetes tipo 2 que recebem educação em saúde focada no autocuidado e aqueles que recebem educação tradicional”. Geralmente, na pesquisa quantitativa, você começa formulando a hipótese nula e tenta encontrar evidências que a permitam ser rejeitada em favor da hipótese de pesquisa. As hipóteses são mais comuns em pesquisas quantitativas, especialmente aquelas que buscam relações de causa e efeito, comparações ou associações entre variáveis. Segundo Minayo (2014), se você está fazendo um estudo descritivo (apenas descrevendo um fenômeno) ou uma pesquisa qualitativa (explorando experiências e significados), talvez, não precise de hipóteses formais. Nesses casos, a pergunta de pesquisa é a sua principal guia. Uma boa hipótese deve ser (Martins, 2002): ■ Clara e concisa: fácil de entender e sem ambiguidades. ■ Testável: você deve conseguir coletar dados para verificar se ela é verdadeira ou falsa. ■ Específica: definir claramente as variáveis e a relação esperada. 1 5 8 ■ Plausível: baseada em conhecimento prévio ou observações lógicas. ■ Orientada para o problema: deve responder diretamente (mesmo que provisoriamente) à sua pergunta de pesquisa, oferecendo um foco claro para a investigação. A hipótese é, essencialmente, sua resposta provisória e testável à pergunta de pes- quisa. Ela transforma um questionamento em uma afirmação clara e específica sobre a relação esperada entre variáveis, servindo como a principal predição que seu estudo buscará confirmar ou refutar com evidências empíricas. É o que você aposta que vai encontrar. CLASSIFICAÇÕES E TIPOS DE PESQUISA: UM GUIA ABRANGENTE A pesquisa científica é uma jornada de descoberta e, para que essa jornada seja bem-sucedida, é fundamental entender os diferentes tipos de pesquisa e como eles se classificam. A escolha do tipo de pesquisa adequado impacta diretamente a metodologia, os resultados e a relevância do seu estudo (Lakatos; Marconi, 2003). Vamos explorar as principais classificações:1. Quanto à Finalidade. Essa classificação diz respeito ao propósito principal do estudo. ■ Pesquisa Básica, ou Fundamental: o objetivo é gerar conhecimento novo, expandir teorias e princípios gerais, sem uma aplicação prática imediata em mente. É a pesquisa “pela pesquisa”, buscando entender fenômenos. ■ Pesquisa Aplicada, ou Tecnológica: diferentemente da básica, essa pesquisa tem um propósito prático e busca solucionar problemas específicos ou desenvolver novas tecnologias. Ela utiliza o conhecimento gerado pela pesquisa básica para criar soluções concretas. 2. Quanto à Natureza. Essa categoria se refere à forma como os dados são coletados e à intervenção do pesquisador. ■ Pesquisa Observacional: o pesquisador não manipula variáveis ou interfere no fenômeno estudado. Ele apenas observa e registra o que acontece de forma natural. Exemplos incluem estudos de caso ou surveys (questionários). UNIASSELVI 1 5 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 ■ Pesquisa Experimental: nessa abordagem, o pesquisador manipula uma ou mais variáveis (independentes) para observar seus efeitos sobre outras variáveis (dependentes). Há controle rigoroso das condições para estabe- lecer relações de causa e efeito. 3. Quanto à Forma de Abordagem. Refere-se à maneira como os dados são analisados e interpretados, focando em números ou em significados. ■ Pesquisa Qualitativa: foca na compreensão aprofundada de fenômenos, comportamentos, opiniões e experiências. Não busca a generalização numérica, mas, sim, a riqueza dos detalhes e dos significados, utilizando dados, como entrevistas, grupos focais e observação participante. ■ Pesquisa Quantitativa: baseia-se na coleta e análise de dados numéricos para identificar padrões, testar hipóteses e fazer generalizações. Utiliza métodos estatísticos para analisar dados obtidos por meio de questioná- rios estruturados, censos, entre outros. Pode ser descritiva, em que se des- creve as características de uma população ou fenômeno, sem manipular variáveis, ou analítica, que vai além da descrição, buscando entender as relações entre variáveis, causas e efeitos. 4. Quanto aos Objetivos. Essa classificação está ligada ao grau de aprofun- damento que a pesquisa busca. ■ Pesquisa Exploratória: tem como objetivo principal familiarizar-se com um tema ou fenômeno, levantar problemas e hipóteses ou desenvolver novas ideias. É frequentemente o primeiro passo em áreas pouco estudadas. ■ Pesquisa Explicativa: visa explicar as causas dos fenômenos, identificando as relações de causa e efeito entre variáveis. É a mais complexa e aprofun- dada, buscando o “porquê”. 5. Quanto aos Procedimentos Técnicos. A classificação se refere às téc- nicas e fontes de coleta de dados utilizadas. ■ Pesquisa Bibliográfica: realizada a partir de materiais já elaborados, como livros, artigos científicos, teses e dissertações. É fundamental para qualquer pesquisa, pois fornece o embasamento teórico. 1 1 1 ■ Pesquisa Documental: utiliza documentos primários ou secundários que não foram publicados ou que não tiveram tratamento analítico, como relatórios, cartas, diários, filmes etc. ■ Pesquisa de Laboratório: envolve a coleta de dados em um ambiente controlado, como um laboratório, permitindo a manipulação de variáveis e o teste de hipóteses em condições ideais. ■ Pesquisa de Campo: a coleta de dados ocorre no ambiente natural onde o fenômeno acontece (ex.: comunidades, empresas, escolas). Pode envolver ob- servações, entrevistas, questionários aplicados diretamente aos participantes. 6. Quanto ao Desenvolvimento no Tempo. Essa classificação considera o período de tempo em que a pesquisa é conduzida e os dados são coletados. ■ Pesquisa Transversal: os dados são coletados em um único ponto no tempo ou em um curto período, oferecendo um “instantâneo” da situação estudada. ■ Pesquisa Longitudinal: ocorre ao longo de um período estendido, com a coleta de dados em diferentes momentos. Permite observar mudanças e tendências ao longo do tempo. ■ Pesquisa Prospectiva: acompanha um grupo de indivíduos ou fenômenos a partir do presente para o futuro, registrando eventos à medida que eles ocorrem. ■ Pesquisa Retrospectiva: analisa dados de eventos ou fenômenos que já ocorreram no passado, buscando entender as causas ou o desenvolvimento de uma situação presente. Compreender essas classificações é um passo essencial para planejar e executar uma pesquisa eficaz, garantindo que suas escolhas metodológicas estejam alinha- das com seus objetivos e com a natureza do problema que você busca investigar. MÉTODOS QUANTITATIVO, QUALITATIVO E QUANTI-QUALI Vamos entender sobre como nasce e se estrutura uma pesquisa científica, espe- cialmente nas ciências sociais e da saúde. Tudo começa com uma inquietação, um tema ou problema que nos provoca. Porém transformar essa inquietação em um objetivo de pesquisa exige mais do que inspiração: requer método, leitura crítica e planejamento. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 A primeira etapa é situar o tema no tempo e no espaço. Para isso, fazemos uma revisão bibliográfica, que não é apenas juntar textos sobre o assunto, mas com- preender como ele foi discutido ao longo do tempo, dentro de diferentes contextos. Essa revisão ajuda a construir o marco teórico, que nada mais é do que o conjunto de ideias, teorias e conceitos que vão fundamentar a nossa investigação (Sautu, 2005). Nesse momento, é importante já pensarmos na abordagem metodológica: Será que nossa pergunta de pesquisa pede um olhar quantitativo, qualitativo ou uma combinação dos dois, quanti-quali (método misto)? PE N SA N DO JUNTOS Na pesquisa quantitativa, buscamos medir e quantificar fenômenos. Ela está mui- to associada ao paradigma positivista e pós-positivista, com foco em variáveis, indicadores mensuráveis e na análise estatística dos dados. Aqui, os objetivos são definidos com clareza desde o início, e os instrumentos de pesquisa mais comuns são questionários estruturados, censos e formulários padronizados, além da análise de conteúdo quantitativa. Já na pesquisa qualitativa, o olhar é outro. O pesquisador procura compreender a experiência, os sentidos e os significados atribuídos pelos sujeitos. A base aqui está no paradigma construtivista ou interpretativo, e os instrumentos são mais abertos e flexíveis: entrevistas não estruturadas ou em profundidade, observação participante, grupos focais, diários de campo, análise de discurso, entre outros. O marco teórico qualitativo, ao contrário do quantitativo, vai se construindo junto à coleta e análise dos dados; ele é mais fluido, e a teoria emerge ao longo do processo. E se a pesquisa exigir tanto compreensão de significados quanto mensura- ção de dados? Aí entra a abordagem quanti-quali, que propõe articular os dois olhares. Essa integração pode acontecer de várias formas, seja aplicando métodos diferentes em etapas distintas da pesquisa, seja combinando os dados qualitativos e quantitativos para responder a uma mesma pergunta de pesquisa. 1 1 2 O objetivo da pesquisa se conecta a tudo isso por meio da teoria, mas precisa con- versar com a prática. Ele deve ser factível, ou seja, possível de ser executado com os métodos e instrumentos escolhidos. Ao formular os objetivos, é fundamental pen- sar nas implicações metodológicas das teorias utilizadas. Por exemplo, se a pesquisa pretende analisar desigualdades sociais a partir de uma perspectiva crítica, isso implica escolher métodos que captem a estrutura social, como análises estatísticas multivariadas (no caso quantitativo) ou narrativas de vida (no caso qualitativo). Já o desenho da pesquisa atua como um roteiro de viagem, ele define qual teoria será usada, qual metodologia orientará a produção de evidências e qual será a estratégia de análise. Na pesquisa quantitativa, esse design é mais fechado, define-se logo de início quais são as variáveis, como serão medidas, quem será estudado (amostra) e qual técnica estatísticaserá aplicada. Na qualitativa, o design é mais flexível e adaptável, pois os significados podem mudar ao longo do contato com os participantes e com os dados coletados. E qual o papel dos instrumentos de pesquisa? Os instrumentos de pesquisa são os meios pelos quais os dados são produzidos. Em uma pesquisa quantitativa, podemos utilizar escalas de avaliação, formulários eletrônicos, ban- cos de dados institucionais ou registros médicos, por exemplo. Para que esses instrumentos sejam válidos, precisamos transformar conceitos teóricos em variáveis operacionais, ou seja, aquilo que conseguimos de fato medir. Na pesquisa qualitativa, os instrumentos incluem roteiros de entrevistas, protocolo de observação, documentos institucionais, registros audiovisuais e materiais culturais, ou seja, o foco está na interpretação dos dados, e não na sua quantificação. E como fica a validade do que se produz? Seja em que abordagem for, é sem- pre a teoria que dá sentido aos dados. No caso da pesquisa quantitativa, isso sig- nifica confiar que os números representam fielmente os conceitos teóricos (como saúde mental, adesão ao tratamento, bem-estar). Já na qualitativa, os dados são vistos como construções sociais, e a validade está na coerência interpretativa, na transparência do processo de análise e no diálogo com os sujeitos pesquisados. Por fim, toda pesquisa nasce de uma pergunta, mas precisa caminhar de forma rigorosa para oferecer respostas úteis e confiáveis, seja quantitativa, qua- litativa ou quanti-quali, cada abordagem tem suas forças, limites e exigências. Podemos utilizar escalas de avaliação, formulários eletrônicos UNIASSELVI 1 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 7 NOVOS DESAFIOS A pesquisa em saúde está em constante evolução, impulsionada por avanços tecnológicos e uma crescente complexidade dos desafios de saúde globais. Nesse cenário dinâmico, novos desafios surgem, exigindo que pesquisadores e instituições repensem suas abordagens e metodologias para garantir que o conhecimento gerado seja relevante, ético e impactante. Um dos campos mais promissores e, ao mesmo tempo, desafiadores é a Inteligência Artificial (IA) e o Big Data. A capacidade de processar e analisar vastos volumes de dados de saúde promete revelar padrões e percepções que antes eram invisíveis. No entanto o grande desafio reside em como integrar e utilizar essas ferramentas de IA de forma ética, garantindo a privacidade e a segurança dos dados dos pacientes e validando a confiabilidade dos algoritmos. Outro pilar fundamental para a pesquisa do futuro é a Pesquisa Multi- disciplinar e Interprofissional. A saúde, por sua natureza, é um campo que transcende as fronteiras de uma única disciplina. O desafio aqui é romper as barreiras de linguagem e metodologia entre diferentes áreas do conhecimento, A escolha da abordagem depende da natureza da pergunta e da forma como o pesquisador concebe a realidade que quer investigar. O importante é manter a coerência entre teoria, objetivo, metodologia e instrumentos e lembrar sempre que a boa pesquisa é aquela que, com ética e método, ajuda-nos a compreender melhor o mundo em que vivemos. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO 1 1 1 https://vimeo.com/1119443150/0d371edadf promovendo uma colaboração efetiva entre profissionais de saúde, engenhei- ros, cientistas de dados, sociólogos e outros, para abordar os problemas de saú- de de forma verdadeiramente holística e integrada. Somente assim poderemos construir soluções mais completas e eficazes. A disseminação e aplicação rápida do conhecimento são um gargalo histó- rico. Não basta produzir conhecimento; é preciso que ele chegue rapidamente à prática clínica e às políticas de saúde. O grande desafio é encurtar o tempo entre a descoberta científica e sua aplicação real, superando as barreiras de comunica- ção e implementação que, muitas vezes, atrasam a translação dos achados para benefício direto da população. Em um mundo em constante transformação, a validade e a confiabilidade em contextos de mudança rápida são uma preocupação crescente. Cenários de saúde que evoluem de forma acelerada, como pandemias ou mudanças demográficas significativas, exigem que os desenhos de pesquisa sejam fle- xíveis e adaptáveis. O desafio é manter o rigor metodológico e a validade dos achados, garantindo que as conclusões sejam robustas mesmo diante de um ambiente em constante mutação. UNIASSELVI 1 1 5 1. Quando você identifica que uma inquietação pode ser transformada em um questionamento científico, inicia o percurso de quem busca promover mudanças por meio do saber. Essa dúvida se transforma em um instrumento de orientação, direciona suas leituras, suas escolhas e o desenvolvimento do seu projeto. E o mais importante: é você quem conduz esse processo (Gil, 2008). Com base no texto, identifique a alternativa que melhor expressa a finalidade do problema de pesquisa no desenvolvimento científico em enfermagem. a) O problema de pesquisa é uma descrição detalhada do método estatístico a ser aplicado após a coleta de dados. b) O problema de pesquisa corresponde à justificativa teórica do projeto e deve ser formulado somente após a conclusão da análise. c) O problema de pesquisa é uma questão específica e pontual, usada exclusivamente para a escolha dos instrumentos de coleta. d) O problema de pesquisa orienta a elaboração de toda a investigação, pois identifica uma lacuna no conhecimento que será explorada. e) O problema de pesquisa é substituído pela pergunta de pesquisa e não tem impacto na relevância da investigação. 2. A hipótese é uma proposição provisória que o pesquisador formula com base no problema de pesquisa, na literatura e em sua observação da realidade. Ela expressa uma possível explicação ou relação entre variáveis e deverá ser testada ao longo do estudo. Em pesquisas quantitativas, a hipótese é mais comum e geralmente assume a forma de afirmações que serão confirmadas ou refutadas a partir da análise dos dados. Embora nem toda pesquisa exija hipóteses formais, sua formulação é importante porque contribui para o direcionamento dos objetivos, da coleta de dados e da interpretação dos resultados. Uma boa hipótese deve ser clara, testável e estar em consonância com o problema identificado (Gil, 2008). Com base nas informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I - A hipótese é uma suposição que o pesquisador estabelece antes de iniciar a investigação e que será confirmada ao final do estudo. II - Em pesquisas quantitativas, a formulação de hipóteses contribui para organizar o raciocínio científico e orientar o teste de relações entre variáveis. III - Uma hipótese bem formulada precisa ser clara, testável e relacionada ao problema de pesquisa. IV - A hipótese deve ser baseada em achismos e experiências pessoais, já que não precisa ter vínculo com dados prévios. AUTOATIVIDADE 1 1 1 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. Ao elaborar uma pergunta de pesquisa, é essencial observar características que garantam sua qualidade. Esses aspectos ajudam a construir uma investigação sólida, útil e aplicável à prática profissional. Ao elaborar uma pergunta de pesquisa, é essencial observar características que garantam sua qualidade. Esses aspectos ajudam a construir uma investigação sólida, útil e aplicável à prática profissional. Além disso, é importante que desperte interesse, tanto para quem conduz o estudo quanto para a comunidade científica, garantindo engajamento ao longo do processo (Hulley et al., 2003). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - A formulação cuidadosa da pergunta de pesquisa contribui diretamente para a relevância e aplicabilidade dos resultados do estudo. PORQUE II - Ao descrever critérios que ajudama identificar se uma pergunta de pesquisa é adequada, o acrônimo FINER destaca aspectos relevantes para a qualidade do estudo. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 1 1 7 REFERÊNCIAS GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008. HULLEY, S. B. et al. Delineando a pesquisa clínica: uma abordagem epidemiológica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MARTINS, G. de A. Princípios de Estatística. São Paulo: Atlas, 2002. METHLEY, A. M. et al. PICO, PICOS and SPIDER: a comparison study of specificity and sensitivity in three search tools for qualitative systematic reviews. BMC health services research, v. 14, n. 1, p. 1-10, 2014. Disponível em: https://bmchealthservres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12913- 014-0579-0. Acesso em: 8 jul. 2025. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: HUCITEC, 2014. 407 p. SAUTU, R. Todo es teoria-objetivos y métodos de investigación. Buenos Aires: Lumiere, 2005. 1 1 8 1. Alternativa D. A alternativa D está correta, pois o texto enfatiza que o problema de pesquisa é o ponto de partida da investigação e exerce papel central na construção do projeto. Ele representa uma lacuna que orienta as decisões sobre objetivos, metodologia e análise. A alternativa A está incorreta, pois o problema não trata de métodos estatísticos, mas de questões a serem respondidas. A alternativa B está incorreta, pois o problema é formulado no início da pesquisa, não após a análise. A alternativa C está incorreta, pois o problema não se resume à escolha de instrumentos de coleta, mas guia toda a pesquisa. A alternativa E está incorreta, pois o problema não é substituído, mas, sim, complementado pela pergunta de pesquisa. 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, pois a hipótese é uma suposição inicial que será verificada com base nos dados coletados e analisados. A afirmativa II está correta, pois, em pesquisas quantitativas, as hipóteses orientam a análise estatística e a verificação de relações entre variáveis. A afirmativa III está correta, poia a clareza, a testabilidade e o vínculo com o problema são características fundamentais de uma boa hipótese. A afirmativa IV está incorreta, pois a hipótese deve ser fundamentada em evidências teóricas e empíricas, não em achismos. 3. Alternativa A. A asserção I afirma que a formulação cuidadosa da pergunta melhora a relevância e aplicabilidade dos resultados. A asserção II explica como essa formulação cuidadosa pode ser feita, apresentando o FINER como um guia prático que ajuda a garantir critérios de qualidade na elaboração da pergunta. Em outras palavras, a aplicação do FINER é um meio concreto pelo qual se alcança o que é afirmado na I. GABARITO 1 1 9 MINHAS METAS ANÁLISE DE DADOS EM PESQUISA Identificar os métodos de análise qualitativo. Conhecer os métodos de análise quantitativo. Saber como organizar a análise dos dados. Reconhecer ferramentas e aplicativos para análise de dados qualitativos. Explorar ferramentas e aplicativos para análise de dados qualitativos. Distinguir os diferentes métodos para aplicar na realidade da assistência. Detectar como uma Junk Science prejudica a ciência. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 8 1 7 1 INICIE SUA JORNADA Se você é estudante de Enfermagem, provavelmente, já se deu conta de como o trabalho do enfermeiro não se resume ao cuidado direto ao paciente. Ele também envolve analisar, refletir e tomar decisão sobre o que fazer para atender melhor cada pessoa, cada família e cada comunidade. É exatamente para responder a essas dúvidas que a avaliação de dados entra em cena. Parece complexo? Na realidade, é algo que faz parte do nosso dia a dia na Enfermagem. Sempre que observamos um paciente, anotamos suas queixas, compartilhamos opiniões com a equipe ou contamos o número de pacientes que melhoraram depois de um tratamento, estamos tentando com- preender uma situação a partir de informações. A avaliação de dados consiste exatamente em usar métodos específicos para organizar, analisar e interpretar essas informações de forma científica. O enfermeiro deve realizar suas ações a partir de evidências, ou seja, de dados obtidos de forma organizada, e é exatamente nesse ponto que surgem algumas reflexões importantes. Por que será que, apesar de coletarmos tantos dados no nosso dia a dia, ainda temos dificuldades para usá-los de forma efetiva? Por que, às vezes, determinados problemas na assistência permaneceram ao longo do tempo, apesar de toda a informação que temos? Isso revela que não basta ter dados, é preciso saber como interpretá-los, como relacioná-los ao contexto do cuidado e como transformá-los em conhecimento para tomada de decisão. É preciso ir além de números e registros, é preciso refletir sobre o que esses dados representam na realidade da assistência e como se relacionam às necessidades das pessoas envolvidas, como os pacientes, as famílias, as comunidades e também a equipe de Enfermagem. VOCÊ SABE RESPONDER? Mas como saber o que está funcionando na assistência, o que precisa ser melhorado ou como provar que determinada abordagem deu resultado? UNIASSELVI 1 7 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Ainda temos de considerar outras dificuldades. Por exemplo: como garantir a confiabilidade das informações que coletamos? Como minimizar a subjetividade na hora de registrar determinados achados? Como assegurar que o que estamos mensurando corresponde, de fato, ao que queríamos saber? Essas dúvidas mostram que o caminho da avaliação de dados não é simples. Ele envolve uma combinação de conhecimento técnico, senso crítico, ética e responsabilidade. É preciso saber fazer as perguntas certas, eleger o que é rele- vante, registrar de forma fiel o que foi observado e, depois, usar tudo isso para melhorar a assistência. DESENVOLVA SEU POTENCIAL Você já percebeu então que o nosso trabalho não se limita ao cuidado direto ao paciente. Ele também envolve questionar, analisar e compreender o que está acontecendo na assistência, para que possamos atender cada pessoa da melhor Junk science na área da saúde? Descubra como ela engana, confunde e prejudica a ciência. Neste episódio, vamos descom- plicar o assunto para você, futuro enfermeiro, fazer a diferença! PLAY N O CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? Neste vídeo, vamos rever a diferença entre pesquisa qualitativa e quantitativa, para você consolidar o aprendi- zado e usar o melhor caminho no seu TCC. 1 7 2 https://on.soundcloud.com/M94EmXSy2l6yFbLBiv https://www.youtube.com/watch?v=cgCgTfNzTl0 forma. Uma das maneiras de fazer isso é coletar e usar dados, transformando o que observamos na prática em informações que ajudam tanto na avaliação quanto na tomada de decisão. Vamos olhar para os métodos de análise de dados qualitativos, que ajudam a compreender o porquê das ações, das opiniões e das experiências compartilhadas pelos pacientes e pelos membros da equipe. Vamos também explorar o método de análise de dados quantitativos, que proporciona uma visão mais numérica e mensurável da realidade, mostrando, por exemplo, quantos pacientes se recuperaram depois de um tratamento ou quanto tempo permaneceram hospitalizados. E como fazer tudo isso na prática? É aí que entram as ferramentas e os aplica- tivos para a análise de dados. Eles vêm para facilitar o nosso trabalho, organizan- do as informações, auxiliando nas contagens, nas comparações e na avaliação de resultados, tanto qualitativos quantoquantitativos. Dessa forma, podemos usar a tecnologia como aliada na hora de apoiar nossas ações de cuidado e de buscar uma assistência cada dia melhor. MÉTODOS DE ANÁLISE DE DADOS QUALITATIVOS Você, provavelmente, já ouviu dizer que nem tudo na Enfermagem pode ser medido com números, não é? Por trás de cada paciente, de cada família e de cada situação clínica existem experiências, percepções, sentimentos, crenças e valores que também ajudam a dizer como o cuidado está sendo realizado. É exatamente para compreender essas dimensões que existem os métodos de avaliação de dados qualitativos. Em outras palavras, a análise qualitativa se relaciona ao estudo de dados não numéricos, como textos de entrevistas, gravações de conversas, anotações de observação, diários de pacientes e outras fontes que ajudam a dar voz às pessoas envolvidas no cuidado. Dessa forma, ao invés de focar na quantidade, ela se relaciona principalmente à qualidade, ao significado e ao contexto das experiências compartilhadas (Minayo, 2014). Por que usar métodos qualitativos na Enfermagem? Usar métodos qualitativos na Enfermagem é importante porque nos proporcionam uma compreensão mais profunda e humana do cuidado. Por exemplo: UNIASSELVI 1 7 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 EXEMPLIFICANDO Revelam como o paciente vivenciou o período de internação, suas dificuldades, suas emoções e suas expectativas. Revelam também a visão da equipe de Enfermagem sobre determinados proce- dimentos, suas opiniões a respeito do trabalho, suas estratégias para atender às necessidades de cada paciente e até suas sugestões para a melhoria do serviço. Fortalecem o modelo de assistência centrado na pessoa, considerando tanto o ponto de vista de quem recebe o cuidado quanto o de quem o presta. Sendo assim, ao usar métodos qualitativos, o enfermeiro consegue ir além de números e índices, chegando à essência da experiência humana envolvida no cuidado. Isso proporciona uma avaliação mais completa, que revela tanto o que funciona quanto o que precisa ser modificado na assistência de Enfermagem. Agora, vamos pensar em como podemos estruturar os dados coletados. A análise de dados qualitativos vai além da simples organização. É um processo que envolve a imersão nos materiais, a identificação de padrões, temas recorrentes e categorias emergentes com o objetivo de construir significados e compreender a complexidade dos fenômenos. Essa etapa exige sensibilidade, atenção aos de- talhes e uma compreensão profunda das abordagens interpretativas que podem ser aplicadas. Seja utilizando a análise de conteúdo, a análise temática ou a teoria fundamentada, o foco é sempre o mesmo: extrair o máximo valor dos dados para que eles revelem as experiências, percepções e realidades dos participantes de forma precisa e rica (Minayo, 2014). Ao longo desse processo, você pode se deparar com surpresas. Entrevis- tas que pareciam desconexas podem, na verdade, revelar novos ângulos de visão. Da mesma forma, algumas expectativas iniciais podem ser redefinidas, enquanto outras perspectivas se mostram mais presentes do que o esperado. Essa flexibilidade e abertura a novas compreensões são essenciais, pois a análise de dados é um ciclo iterativo. Muitas vezes, a primeira leitura dos dados leva a novas indagações, que, por sua vez, podem sugerir a busca por mais depoi- mentos ou uma reavaliação dos registros existentes, refinando continuamente a compreensão sobre o tema em questão. A análise de dados em pesquisas qualitativas difere dos procedimentos quan- titativos, pois não existem fórmulas ou receitas predefinidas para orientar os pes- quisadores, dependendo muito da capacidade e do estilo do próprio investigador. 1 7 1 Algumas abordagens e princípios da análise qualitativa incluem: Etapas de Análise (Miles; Huberman, 1994): ■ Redução: processo de seleção e simplificação dos dados brutos, trans- formando-os em sumários organizados por temas ou padrões. Envolve seleção, focalização, simplificação, abstração e transformação. ■ Exibição: organização dos dados selecionados, de forma a permitir a análise sistemática de semelhanças, diferenças e inter-relacionamentos. Pode ser feita por meio de textos, diagramas, mapas ou matrizes. ■ Conclusão/Verificação: revisão dos dados para compreender seu sig- nificado, regularidades, padrões e explicações. A verificação implica testar a credibilidade, defesa e capacidade das conclusões para suportar explicações alternativas. Com essas estratégias, você consegue dar uma organização ao seu material de for- ma clara e consistente. Contudo é importante dizer que a avaliação de dados na abordagem qualitativa não segue um caminho totalmente rigidamente estabeleci- do. Na realidade, ela é um processo dinâmico, que se relaciona tanto com a forma como o pesquisador coleta as informações quanto com a maneira como ele as in- terpreta. É nesse contexto que entram os princípios orientadores de Tesch, que aju- dam o pesquisador a conduzir a avaliação de forma reflexiva, tentando ao máximo permanecer fiel ao significado compartilhado pelos participantes da investigação. Princípios Orientadores (Tesch, 1990): ■ A análise não é a última fase, mas é cíclica e concomitante à coleta de dados, iniciando-se já na própria coleta. ■ O processo é sistemático e abrangente, mas não rígido, terminando quando novos dados não acrescentam mais informações (saturação). ■ Inclui uma atividade reflexiva com notas de análise que guiam o processo conceitual. ■ Os dados são segmentados em unidades relevantes e significativas, mantendo conexão com o todo, com o objetivo de promover uma explicação. UNIASSELVI 1 7 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 ■ As categorias são estabelecidas de forma predominantemente indutiva a partir dos próprios dados, sendo flexíveis e preliminares no início. ■ A comparação é a principal ferramenta intelectual, utilizada em diversos momentos para estabelecer categorias, definir sua amplitude, sumariar conteúdo e testar hipóteses. ■ A manipulação dos dados é eclética, não havendo uma única maneira de fazê-la, permitindo a criatividade do pesquisador. ■ Os procedimentos não são científicos nem mecanicistas; a interpretação desempenha um papel importante. ■ O resultado final é uma síntese de nível mais alto, buscando um quadro mais amplo e coerente, como a construção de uma teoria fundamentada nos dados. Em suma, ao aplicar esses princípios orientadores, o pesquisador consegue con- duzir uma avaliação de dados que respeita tanto a complexidade das experiências compartilhadas quanto a riqueza do contexto em que ocorrem. Dessa forma, o conhecimento gerado não é apenas um fim em si mesmo, mas um ponto de par- tida para reflexões, mudanças na prática clínica e melhorias no cuidado de En- fermagem. Assim, o caminho da avaliação de dados qualitativos revela-se como um instrumento importante para a compreensão da realidade da assistência e para o desenvolvimento de uma prática baseada em evidências. Principais métodos de avaliação de dados qualitativos Agora que já entendemos como o processo de avaliação de dados qualitativos se re- laciona tanto ao estilo do pesquisador quanto às diretrizes que ele segue, vale a pena conhecer algumas das estratégias mais utilizadas na prática. Esses métodos ajudam o enfermeiro-pesquisador a organizar, interpretar e dar sentido às experiências com- partilhadas pelos participantes, transformando o que foi coletado em conhecimento relevante para o cuidado, o ensino e a administração em Enfermagem. A seguir, va- mos explorar algumas das principais alternativas de avaliação de dados qualitativos. A análise de conteúdo consiste em organizar, categorizar e interpretar o que os participantes disseram, tentando encontrar determinados temas recorrentes, que ajudam o pesquisador a compreender o fenômeno como um todo. É como se ele “mergulhasse” nas falas para encontrar o que se destaca. 1 7 1 Bardin (2011) propõe algumas fases nesse caminho: a pré-análise,a exploração do material e o tratamento de resultados. Na pré-análise, o pesquisador faz uma leitura flutuante para se familiarizar com o texto. Na exploração, ele codifica o material, agrupando mensagens semelhantes. Por fim, ele faz o tratamento e a interpretação, tentando dar um significado ao que foi categorizado. A análise de discurso quer ir além do que o texto diz na superfície. Busca compreender como determinados discursos representam relações de poder, ideologias e posições compartilhadas pelo grupo envolvido. Na Enfermagem, pode ajudar a refletir sobre como pacientes e enfermeiros percebem o cuidado, suas responsabilidades e suas dificuldades (Orlandi,1999). A análise fenomenológica quer dizer: ir ao cerne da experiência vivida. Busca captar como o paciente, o enfermeiro ou o cuidador vivenciam determi- nados fenômenos (como dor, doença, cuidado). Por meio de uma abordagem descritiva, o pesquisador revela o significado que a experiência possui para cada pessoa (Holanda, 2016). A análise temática consiste em identificar, organizar e interpretar determi- nados temas recorrentes nas mensagens compartilhadas pelos participantes. É particularmente útil para destacar o que determinados grupos consideram im- portante, compartilhado ou relevante nas suas experiências (Braun; Clarke, 2006). Em outras pala- vras, esses métodos de avaliação de dados qualitativos são como ferramentas que aju- dam o enfermeiro a escutar, compreender e dar forma às expe- riências compartilha- das pelos pacientes, pelas famílias e tam- bém pelos membros da equipe de Enfer- magem. Cada um des- ses caminhos, seja a Análise de Conteúdo, UNIASSELVI 1 7 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 de Discurso, Fenomenológica ou Temática, proporciona uma maneira especial de olhar para o que as pessoas vivenciaram, tentando captar o que é importante para elas, o que faz sentido nas suas histórias e como tudo isso se relaciona ao cuidado de Enfermagem. Assim, ao usar esses métodos, o pesquisador consegue ir além de números e índices, chegando ao olhar subjetivo, compartilhando uma compreensão mais humana e relevante, que fortalece tanto o cuidado ao paciente quanto o aprendizado, a avaliação e a melhoria permanente da prática de Enfermagem. Ferramentas e aplicativos para análise de dados qualitativos Com o avanço da tecnologia, o enfermeiro-pesquisador não precisa fazer toda a organização e avaliação de dados qualitativos só no papel. Ele pode usar algumas ferramentas e aplicativos específicos para facilitar o trabalho de armazenar, codificar, categorizar e interpretar o que os participantes compartilharam nas entrevistas, nas observações ou nas mensagens de grupos focais. Essas ferramentas ajudam a organizar o grande volume de dados, encontrar determinados conteúdos, marcar trechos específicos e fazer relações entre diferentes categorias. Isso torna o processo de avaliação mais ágil, preciso e claro, principalmente quando temos um número maior de participantes ou muito material para trabalhar. Vamos conhecer algumas das alternativas mais utilizadas na avaliação de dados qualitativos: ATLAS TI É um software destinado à organização e avaliação de textos, gravações de áudio, ví- deos e imagens. Ele proporciona recursos para você codificar determinados trechos, categorizá-la, relacionar esses conteúdos e preparar relatórios. Dessa forma, o Atlas. ti torna o trabalho de avaliação mais dinâmico e preciso, auxiliando o pesquisador a encontrar padrões, conexões e relações nos dados. 1 7 8 Ainda existem outras alternativas, algumas gratuitas, como o Taguette, que é open source (código aberto) e destinado a codificar textos de forma simples, sendo particularmente acessível para estudantes que estão começando a usar métodos qualitativos. Ainda temos o Dedoose, o Transana, entre outras alternativas, cada uma com suas particularidades e recursos específicos. Em suma, o uso de ferramentas e aplicativos na avaliação de dados qualitativos não substitui o olhar do pesquisador, mas proporciona recursos que ajudam a organizar o trabalho, identificar padrões, agilizar o processo de avaliação e dar uma base mais consistente às interpretações. Dessa forma, o futuro enfermeiro consegue focar no que é mais importante: compreender a realidade vivida pelos pacientes, pelas comunidades e pelos próprios membros da equipe de Enfermagem, tentando encontrar caminhos para atender às necessidades de forma cada vez mais humana, compartilhada e baseada em evidências. MÉTODOS DE ANÁLISE DE DADOS QUANTITATIVOS Agora que já falamos sobre como a avaliação de dados qualitativos funciona, é hora de focar na análise de dados quantitativos. Na Enfermagem, o NVIVO Muito utilizado na pesquisa qualitativa, o NVivo proporciona uma plataforma onde você consegue armazenar diferentes tipos de dados (como textos de entrevistas, gravações, redes sociais, documentos PDF etc.). Ele também oferece recursos para categorizar, fazer anotações, marcar trechos relevantes e, depois, preparar relatórios e visualizações que ajudam a compreender o fenômeno que você quer estudar. MAXQDA O MaxQDA é um software destinado tanto à avaliação de dados qualitativos quanto mistos (qualitativos e quantitativos). Ele proporciona ferramentas para organização, categorização, criação de mapas mentais e redes semânticas, sendo particularmente útil para trabalhar com grandes volumes de texto, como várias transcrições de entrevistas ao mesmo tempo. UNIASSELVI 1 7 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 método quantitativo é usado principalmente para trabalhar com números, frequências, médias, porcentagens e outras medidas que ajudam a dizer com clareza o que aconteceu, com que frequência aconteceu e qual a intensidade de determinados fenômenos. Em outras palavras, ele responde a perguntas, como: quantos pacientes melhoraram depois de um tratamento? Quantos permaneceram hospitalizados depois de determinada doença? Qual é a média de idade de um grupo de pacientes? Essa etapa exige atenção aos detalhes e uma compreensão profunda dos métodos estatísticos e das ferramentas que podem ser aplicadas. Seja utili- zando softwares complexos ou planilhas simples, o foco é sempre o mesmo: extrair o máximo valor dos dados para que eles contem a história da sua pesquisa de forma precisa (Polit; Beck, 2019). Ao longo desse processo, você pode se deparar com surpresas. Dados que pareciam não ter relação podem, na verdade, revelar resultados importantes. Da mesma forma, algumas hipóteses iniciais podem ser derrubadas, enquanto outras se mostram mais fortes do que o esperado. Essa flexibilidade e abertura a novas descobertas são essenciais, pois a análise de dados é um ciclo iterativo. Muitas vezes, a primeira análise leva a novas perguntas, que, por sua vez, exigem a coleta de mais dados ou uma reavaliação dos dados existentes, refinando continuamente o entendimento sobre o tema em questão. Estatística descritiva É o ponto de partida na avaliação de dados numéricos. Com ela, você consegue resumir e apresentar o conjunto de dados de forma simples e organizada (Rodrigues; Lima; Barbosa, 2017). ■ Médias (como a média de idade de um grupo de pacientes). ■ Mediana (o valor que fica exatamente no meio). ■ Moda (o valor que aparece com mais frequência). ■ Desvios-padrão e variância (que ajudam a dizer quanto os valores estão concentrados ou dispersos). 1 8 1 TESTE DE HIPÓTESES INDICAÇÕES DO TESTE ESTATÍSTICO t de Student Comparar médias de dois grupos cujos dados apresentaram distribuição normal Amostras independentes ou amostras relacionadas Anova Comparar média de mais de dois grupos cujos dados apresentaram distribuição normal Amostras independentes ou amostras relacionadas Qui-quadrado Analisar dados nominais de mais de 40 participantes independentemente da distribuição dos dados Amostras independentes Exato de Fisher Analisar dados nominais de até 40 participantes independentemente da distribuição dos dados Amostrasindependentes U de Mann-Whitney Analisar dados escalares e ordinais de dois grupos independentemente da distribuição dos dados Amostras independentes Estatística Inferencial Vai além da simples organização de números. Com ela, você consegue tirar conclusões sobre uma população a partir de uma amostra, tentando dizer se o que você observou provavelmente vale para todos. A tabela, a seguir, proporciona uma referência geral para determinar qual teste estatístico utilizar. UNIASSELVI 1 8 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Ferramentas e aplicativos para análise de dados quantitativos A análise de dados quantitativos é essencial para a interpretação objetiva de informações numéricas em pesquisas científicas, sociais e mercadológicas. Para isso, diversas ferramentas e aplicativos vêm sendo amplamente utilizados, proporcionando agilidade, precisão e visualizações avançadas. Softwares, como Excel, SPSS, R e Python, auxiliam na organização, tratamento estatístico e interpretação dos dados, tornando-se aliados fundamentais na tomada de decisões baseadas em evidências. Com o avanço da tecnologia, o domínio dessas ferramentas tornou-se uma competência indispensável para pesquisadores e profissionais de diversas áreas. ■ Microsoft Excel: é um programa de planilhas muito utilizado tanto na academia quanto no trabalho. Ele faz cálculos, grava fórmulas automati- camente, relaciona diferentes grupos de dados e ainda consegue preparar gráficos e tabelas para facilitar a visualização. Útil para análises descriti- vas, como média, desvio-padrão, percentual e outras. Postos sinalizados de Wilcoxon Analisar dados escalares e ordinais de dois grupos independentemente da distribuição dos dados Amostras relacionadas Kruskal-Wallis Analisar dados escalares e ordinais de mais de dois grupos independentemente da distribuição dos dados Amostras independentes Kolmogorov-Smirnov Verificar se dados são da mesma população Amostras independentes Quadro 1 – Referência para a escolha do teste estatístico mais adequado. Fonte: Rodrigues, Lima e Barbosa (2117, p. 121). 1 8 2 ■ IBM SPSS (Statistical Package for the Social Sciences): é um software destinado à avaliação de dados. Ele cobre tanto a análise descritiva quanto a inferencial, sendo particularmente útil para aplicar testes de hipótese, análises de correlação, regressão e outras métodos específicos de avaliação. Uma das vantagens é a interface gráfica, que torna o uso mais intuitivo. ■ SAS (Statistical Analysis System): é um software robusto, destinado ao tratamento e à avaliação de grandes volumes de dados. Ele é muito utilizado nas áreas da saúde, principalmente na epidemiologia, pelo setor governamental e organizações hospitalares. Ele consegue trabalhar tanto análises descritivas quanto multivariadas, aplicar modelos de regressão, realizar análises de sobrevivência, série temporal e outras metodologias avançadas. Por ser pago e possuir uma linguagem de programação própria, ele apresenta uma curva de aprendizado maior, sendo, porém, uma das alternativas mais confiáveis e completas para a avaliação de dados. ■ R: é uma linguagem de programação e um software gratuito destinado à avaliação de dados. Ele proporciona maior liberdade, sendo usado tanto para análises simples quanto para métodos muito específicos, como modelos multivariados, redes neurais e outras aplicações avançadas. É preciso um treinamento especializado para usar, principalmente, para escrever determinados códigos, mas ele é muito poderoso e atualizado. ■ JAMOVI: é um programa gratuito, de código aberto, criado para facilitar a avaliação de dados. Ele possui uma interface gráfica moderna, sendo mais simples que o R, porém compartilhando o poder da mesma base estatística. Uma alternativa ao SPSS para ensino, pelo custo zero e pelo uso intuitivo. ■ JASP: com uma abordagem também open source, o JASP proporciona uma análise estatística robusta e relativamente simples de usar. Ele cobre tanto métodos descritivos quanto algumas hipóteses inferenciais. Uma alternativa para fazer uma avaliação de forma gráfica, simples e gratuita. Em outras palavras, usar essas ferramentas para analisar seus dados faz toda a diferença para você, como futuro enfermeiro. Elas ajudam tanto a organizar quanto a entender melhor as informações que você coleta, sendo muito úteis para tomar decisões, preparar o seu TCC ou compartilhar o resultado de uma investigação para outras pessoas. UNIASSELVI 1 8 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 8 Com o uso desses recursos, você consegue apoiar suas ações por meio da ciência e transformá-las em evidências, ao invés de fazer tudo apenas pelo que acha ou pelo que vivenciou. NOVOS DESAFIOS É importante dizer que o caminho não para por aqui. Você, futuro enfermeiro, será cada vez mais desafiado a usar essas habilidades para atender às demandas da profissão, que estão sempre mudando e se tornando mais complexas. Isso quer dizer que o enfermeiro do futuro também será um analista, capaz de usar diferentes métodos para compreender a realidade da assistência, encontrar problemas, implementar melhorias e provar a eficácia do cuidado que presta. Portanto, ao se preparar para o mercado de trabalho, você deve dominar tanto métodos qualitativos quanto quantitativos, saber usar as ferramentas de avaliação de dados e, principalmente, de- senvolver um olhar crítico e reflexivo, que o ajude a usar esses recursos para elevar a qualidade da assistên- cia, atender às neces- sidades da população e fazer a diferença na vida das pessoas. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO 1 8 1 https://vimeo.com/1119443173/4f3d2dc48e 1. A pesquisa científica na enfermagem exige rigor metodológico para garantir que os resultados sejam confiáveis e possam ser aplicados na prática clínica. Sem um método estruturado, as investigações podem gerar dados imprecisos e conclusões equivocadas e, consequentemente, comprometer a qualidade do cuidado prestado aos pacientes. Ter um método bem definido significa estabelecer diretrizes claras sobre como coletar, organizar e interpretar as informações. Isso é fundamental porque permite que outros profissionais compreendam exatamente como a pesquisa foi conduzida, possibilitando a reprodução do estudo e a validação dos achados. Além disso, a metodologia adequada garante que os dados sejam tratados de forma sistemática, reduzindo a influência de vieses pessoais do pesquisador (Minayo, 2014). Com base no texto apresentado, assinale a alternativa que melhor descreve a análise qualitativa. a) A análise qualitativa utiliza apenas dados numéricos e estatísticos para compreender os fenômenos. b) A análise qualitativa foca exclusivamente na quantidade de dados coletados, priorizando amostras grandes. c) A análise qualitativa estuda dados, como entrevistas e observações, focando no significado e contexto das experiências. d) A análise qualitativa segue protocolos rígidos e fórmulas matemáticas específicas para garantir a objetividade dos resultados. e) A análise qualitativa é utilizada apenas para validar dados quantitativos previamente coletados em pesquisas. 2. A importância dessa escolha metodológica reside no fato de que diferentes abordagens geram diferentes tipos de compreensão sobre o mesmo fenômeno. Enquanto algumas estratégias focam na identificação de padrões e regularidades nos dados, outras priorizam a compreensão das experiências individuais e subjetivas dos participantes. Ter domínio sobre essas diferentes possibilidades metodológicas capacita o enfermeiro-pesquisador a extrair o máximo valor dos dados coletados, contribuindo para o desenvolvimento de uma prática baseada em evidências e para o avanço do conhecimento científico em enfermagem (Minayo, 2014). Com base nas estratégias de avaliação de dados qualitativos, analise as afirmativas a seguir: I - A Análise de Discurso se relaciona ao modo como determinadosdiscursos representam relações de poder e ideologias compartilhadas. II - A Análise Fenomenológica visa ao cerne da experiência vivida pelo paciente, pelo enfermeiro ou pelo cuidador. AUTOATIVIDADE 1 8 5 III - A Análise de Conteúdo organiza, categoriza e interpreta mensagens tentando encontrar determinados temas recorrentes. IV - A Análise Temática quer ir além do que o texto diz na superfície, focando nas posições compartilhadas pelo grupo envolvido. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. A avaliação de dados qualitativos na Enfermagem proporciona ao pesquisador diferentes caminhos para se aproximar das experiências compartilhadas pelos pacientes, pelas famílias e pelos membros da equipe. Entre esses caminhos, a Análise Temática apresenta uma abordagem particularmente relevante, sendo capaz de trabalhar o material de forma organizada e interpretativa. Dessa maneira, o enfermeiro consegue dar forma às mensagens compartilhadas e refletir sobre determinados aspectos presentes nas vivências das pessoas envolvidas no cuidado (Minayo, 2014). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - A Análise Temática é importante para destacar o que determinados grupos consideram importante nas suas experiências compartilhadas. PORQUE II - A Análise Temática proporciona uma compreensão mais humana e relevante, que fortalece tanto o cuidado ao paciente quanto o aprendizado e a avaliação da prática de Enfermagem. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 1 8 1 REFERÊNCIAS BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011. BRAUN, V.; CLARKE, V. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, v. 3, n. 2. p. 77-101, 2006. HOLANDA, A. F. Fenomenologia e Psicologia no Brasil: aspectos históricos. Estudos de Psicolo- gia, Campinas, v. 33, p. 383-394, 2016. MILES, M. B.; HUBERMAN, A. M. Qualitative data analysis: An expanded sourcebook. 2. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, 1994. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: HUCITEC, 2014. 407 p. ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999. POLIT, D. F.; BECK, C. T. Fundamentos de pesquisa em enfermagem: avaliação de evidências para a prática da enfermagem. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. RODRIGUES, C. F. S; LIMA, F. J. C. de.; BARBOSA, F. T. Importance of using basic statistics adequa- tely in clinical research. Revista Brasileira de Anestesiologia, v. 67, p. 619-625, 2017. TESCH, R. Qualitative research: analysis types and software. New York: Falmer Press, 1990. 1 8 7 1. Alternativa C. A alternativa C está correta, porque sintetiza adequadamente as principais características da análise qualitativa apresentadas no texto: o foco em dados não numéricos (entrevistas, observações, diários), a ênfase no significado e contexto das experiências. A alternativa A está incorreta, pois a análise qualitativa estuda dados não numéricos. A alternativa B está incorreta, pois a análise qualitativa, ao invés de focar na quantidade, relaciona-se principalmente à qualidade. A alternativa D está incorreta, pois a análise qualitativa contradiz a ideia de protocolos rígidos. A alternativa E está incorreta, pois a análise qualitativa não serve apenas para validar dados quantitativos, mas, sim, como um método independente para compreender experiências e percepções. 2. Alternativa D. As afirmativas I, II e III estão corretas. A Análise de Discurso relaciona-se às posições compartilhadas pelo grupo e às relações de poder presentes nas mensagens. A Análise Fenomenológica quer captar o cerne da experiência vivida pelo sujeito. A Análise de Conteúdo organiza e interpreta mensagens tentando encontrar determinados temas recorrentes. A afirmativa IV está incorreta, porque a Análise Temática não quer ir além do que o texto diz na superfície, ao invés disso, quer destacar o que determinados grupos consideram importante nas suas experiências compartilhadas. 3. Alternativa A. A afirmativa I é verdadeira ao dizer que a Análise Temática revela o que determinados grupos consideram importante nas suas experiências compartilhadas. A afirmativa II também é verdadeira, pois essa abordagem proporciona uma compreensão humana e relevante, fortalecendo tanto o cuidado ao paciente quanto o aprendizado e a avaliação da prática de Enfermagem. A II justifica a I ao destacar o motivo pelo qual a Análise Temática é particularmente útil para destacar o que determinados grupos vivenciam como importante. GABARITO 1 8 8 MINHAS ANOTAÇÕES 1 8 9 MINHAS METAS ESCRITA ACADÊMICA Aprender a discutir dados de pesquisa com análise crítica. Saber quando e como usar citação direta e indireta. Reconhecer o valor das referências na produção científica. Aplicar corretamente as normas ABNT e Vancouver. Escrever as considerações finais com clareza e propósito. Fortalecer a autoria na escrita acadêmica. Usar a escrita científica como ferramenta de transformação. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 9 1 9 1 INICIE SUA JORNADA Você já parou para pensar em como a forma como escrevemos diz muito sobre a forma como pensamos? Na Enfermagem, escrever vai muito além de cumprir uma exigência da faculdade. É uma maneira de organizar ideias, registrar expe- riências, comunicar descobertas e, principalmente, mostrar que o conhecimento construído tem base, propósito e responsabilidade. A escrita acadêmica pode parecer, de início, algo distante, cheia de normas e palavras difíceis. É normal sentir certa insegurança. Contudo escrever bem não é dom, é prática, é construção. E, como tudo na Enfermagem, envolve técnica, sensibilidade e dedicação. Cada vez que você organiza um raciocínio, fundamenta uma ideia ou apresenta uma conclusão com clareza, está exercendo um papel essencial na produção do saber em saúde. Está, também, apren- dendo a se posicionar como futuro profissional, capaz de contribuir com decisões baseadas em evidências e comunicar-se com outros profissionais de maneira ética e eficiente. A escrita acadêmica, então, não pre- cisa ser um obstáculo. Ela pode ser uma aliada. Um instrumento que ajuda a transformar vivências em conhecimento, observações em registros relevantes e reflexões em ações mais conscientes. E quanto mais você se aproxima dela, mais natural ela se torna. Escrever academicamente é, também, uma forma de dar voz à Enfermagem. Du- rante a formação, você se depara com muitas vivências, seja nas aulas, nos estágios, nas leituras e nas conversas com colegas e professores. Porém é por meio da escrita que todas essas experiências ganham forma, organizam-se e podem ser comparti- lhadas com outras pessoas. É nesse momento que a prática encontra a teoria e que o conhecimento deixa de ser algo apenas aprendido para se tornar algo produzido. É importante lembrar que escrever academicamente não significa usar palavras difíceis ou fazer frases complicadas. Significa ser claro, coerente e responsável com o que se diz. É saber quando citar uma fonte, como construir uma argumentação sólida, como respeitar a ética na comunicação e como valorizar o conhecimento que já foi produzido por outros pesquisadores e profissionais da área. Além disso, escrever é um exercício de autonomia intelectual. Ao produzir um texto, você Capaz de contribuir com decisões baseadas em evidências UNIASSELVI 1 9 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 escolhe o que enfatizar, como organizarenriquecem a interpretação dos acontecimentos históricos e permitem uma visão mais complexa da realidade. Nos Estudos Culturais, essa abordagem tem sido amplamente utilizada para investigar como os indivíduos ressignificam elementos culturais em suas práticas diárias. Hall (2006) propõe que as identidades culturais são construídas socialmente por meio da interação e da interpretação dos símbolos culturais, rejeitando a ideia de que as identidades são fixas ou imutáveis. Nas Ciências da Saúde, a pesquisa qualitativa fundamentada no paradig- ma compreensivo tem desempenhado um papel essencial na compreensão das percepções individuais sobre doenças, tratamentos e bem-estar. Minayo (2014) enfatiza que essa abordagem permite capturar os significados subjetivos que os indivíduos atribuem à sua saúde, favorecendo a implementação de práticas mais humanizadas e contextualizadas, especialmente na saúde pública, na en- fermagem e na psicologia. ORIGENS E CONCEITOS CENTRAIS DO ESTRUTURALISMO O estruturalismo é uma abordagem teórica que surgiu no século XX e influen- ciou diversas áreas do conhecimento, incluindo a linguística, a antropologia, a sociologia e, mais recentemente, as ciências da saúde. Sua premissa fundamental é a ideia de que os fenômenos sociais e culturais são organizados por estruturas subjacentes, ou seja, sistemas de regras e relações que moldam a forma como os indivíduos interagem e percebem a realidade (Saussure, 2006; Lévi-Strauss, 2008). Seu significado não se restringe apenas aos resultados finais UNIASSELVI 2 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 O estruturalismo teve como precursor Ferdinand de Saussure (1857–1913), que propôs que a linguagem é um sistema estruturado de signos, no qual o signi- ficado de cada termo depende de sua relação com os demais (Saussure, 2006). Essa abordagem influenciou diretamente Claude Lévi-Strauss (1908–2009), que demonstrou que as culturas seguem padrões estruturais recorrentes, mesmo em sociedades distintas. Segundo ele, os mitos, as regras de parentesco e os rituais são expressões de uma estrutura social subjacente (Lévi-Strauss, 2008). O impacto do estruturalismo também chegou à filosofia e às ciências huma- nas, influenciando Michel Foucault (1926–1984) (Figura 2), que aplicou essa abordagem na análise das instituições e do poder, especialmente no campo da saúde e da biopolítica (Foucault, 1979). Foucault (1979) argumenta que as estru- turas de poder dentro dos hospitais e sistemas de saúde moldam a forma como o cuidado é prestado e, consequentemente, como os profissionais de enfermagem desempenham seu papel. Você já parou para pensar em como as estruturas sociais, políticas e institucionais organizam os fenômenos que vivenciamos na área da saúde? PE N SA N DO JUNTOS O estruturalismo permite compreender como os papéis profissionais são organiza- dos dentro das instituições de saúde. A relação entre enfermeiros, médicos e outros profissionais da equipe multidisciplinar pode ser vista como parte de um sistema hierárquico e normativo que regula as práticas de cuidado (Foucault, 1979). 2 2 Figura 2 – Michel Foucault (1921–1981) Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_Foucault_1971_Brasil.jpg. Acesso em: 2 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figuram apresenta uma fotografia, em preto e branco, que retrata Michel Foucault. Ele apa- rece calvo, de óculos, vestindo um terno escuro e uma camisa clara, sentado atrás de uma mesa de madeira. Ele está gesticulando com as mãos enquanto fala. Atrás dele, há uma cadeira com encosto entalhado e um quadro negro na parede. Sobre a mesa, há alguns papéis. Fim da descrição. UNIASSELVI 2 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 Tendências contemporâneas Conversaremos sobre as ideias principais de Thomas Kuhn e por que elas ainda são tão importantes para quem está se formando em áreas, como Enfermagem. Primeiro, lembremos que a obra de Kuhn (A Estrutura das Revoluções Cientí- ficas, primeira edição publicada em 1962) defende que a ciência não evolui de forma cumulativa e linear, como se fosse só juntar um fato depois do outro. Em vez disso, Kuhn (1997) mostra que a ciência se organiza em torno de “paradig- mas”: grandes modelos ou conjuntos de ideias que guiam como uma comunida- de científica enxerga, pesquisa e resolve problemas em determinado momento. Figura 3 – Thomas Kuhn (1922–1991) Fonte: https://colunastortas.com.br/thomas-kuhn/. Acesso em: 2 jun. 2125. Descrição da Imagem: a figura apresenta uma fotografia de Thomas Kuhn em preto e branco e apresenta um efeito visual de múltiplas exposições, criando a impressão de que sua imagem está sendo replicada e desvanecendo em camadas para a direita. Kuhn aparece vestindo um paletó e camisa, com sua característica calvície frontal e óculos de armação escura. O fundo da imagem mostra uma estrutura arquitetônica com arcos, sugerindo um ambiente acadêmico. Fim da descrição. 2 1 Pense em um paradigma como um mapa detalhado de uma cidade. Enquanto todo mundo seguir esse mapa, as rotas e os caminhos parecem bem claros. É isso que Kuhn (1997) chama de “ciência normal”: os cientistas (ou, no nosso caso, profissionais de saúde) aceitam um conjunto de teorias e métodos e ficam aprimorando, ajustando e confirmando esse conhecimento, como se estivessem encaixando as peças de um quebra-cabeça cujo desenho final já conhecem. De acordo com Thomas Kuhn (1997), paradigma é o conjunto de realiza- ções científicas que uma comunidade reconhece como modelo, orientando tanto os problemas que devem ser investigados quanto as maneiras de solucioná-los. Em outras palavras, o paradigma oferece o “mapa” que guia a prática da ciência em determinado período, definindo o que se considera fato, quais métodos são legítimos e até mesmo quais perguntas podem (ou não) ser feitas. Quando esse conjunto de pressupostos fica em crise, por exemplo, quando surgem muitas anomalias que o paradigma não consegue explicar, abre-se caminho para uma possível revolução científica e a eventual adoção de um novo paradigma. Mas e quando algo novo surge ou algum resultado não se encaixa no que era esperado? Kuhn (1997) chama isso de “anomalia”. Às vezes, essas anomalias podem ser ignoradas, mas, se forem muito insistentes, acabam abrindo espaço para uma crise. É nesse momento que algumas pessoas passam a desconfiar do “mapa” antigo, talvez ele não sirva mais para explicar toda a cidade. Se a crise for forte o suficiente, surge uma “revolução científica”, com a adoção de um novo paradigma. Kuhn (1997) usa como exemplo a revolução que Copérnico iniciou na astrono- mia, ao dizer que a Terra se movia em torno do Sol. Na época, isso contradizia tudo o que era considerado “verdadeiro” pela ciência vigente. Foi preciso uma mudança completa de conceitos, como “Terra” e “movimento”, para que a nova teoria fizesse sentido. Kuhn (1997) mostra que essas mudanças levam tempo e não acontecem sem resistência: muita gente lutou para manter o modelo antigo, e nem todo mundo aceita o novo imediatamente. Para nós, que lidamos com cuidados de saúde, esse modo de pensar ajuda a perceber que o conhecimento científico não é apenas um conjunto de verdades eternas. Ele é fortemente influenciado pelo contexto histórico e social e pelos pressupostos (paradigmas) que orientam o que pesquisamos, como pesquisamos e até como interpretamos os achados. UNIASSELVI 2 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 1 As tendências contemporâneas trazidas por Kuhn (1997) rompem com a ideia de que o progresso da ciência é sempre linear e livre de influências culturais ou históricas. Assim, compreender Kuhn (1997) nos inspira a ficar abertos ao que surge de novo na pesquisa e na prática clínica, sem descartar resultados que não batem com o que achamos ser “certo” — afinal, essas contradições podem até indicar que estamos diante de uma nova e importante mudança de paradigma. Pense a importância de entender a história da ciência para captar como os paradigmas se formam e, depois, transformam-se.suas ideias, quais referências utilizar e como dialogar com elas. Aos poucos, você vai percebendo que sua voz também tem lugar no universo acadêmico e que suas contribuições importam. Não se cobre perfeição logo de início. Assim como aprender a aplicar uma técnica de enfermagem exige treino, a escrita também se desenvolve com o tem- po, com paciência e com persistência. O importante é começar, errar, revisar, reescrever e continuar. Porque escrever, no fim das contas, é parte do cuidado: com o outro, com a profissão e com o próprio saber. Vamos juntos transformar esse desafio em oportunidade? DESENVOLVA SEU POTENCIAL A DISCUSSÃO DOS DADOS DE PESQUISA Discutir os dados de uma pesquisa é mais do que simplesmente expor resultados; trata-se de interpretá-los a partir dos objetivos do estudo, da literatura científica Você sabe o que é plágio e como evitá-lo na pesquisa científica? Neste episódio, falamos sobre a integridade acadêmica na En- fermagem e dicas para escrever com ética e responsabilidade. Dê o play e venha aprender com a gente! PLAY N O CONHECIMENTO VAMOS RECORDAR? Está com dúvidas sobre como começar seu TCC? Vamos recordar o que escrever na introdução para garantir uma abertura clara e objetiva. 1 9 2 https://on.soundcloud.com/iQPVzeTJx57pVoPp48 https://www.youtube.com/watch?v=NZLzp9RlQvg consultada e do contexto em que a investigação se insere. É nesse momento que o pesquisador precisa refletir criticamente sobre o que os dados revelam e quais implicações eles carregam para a área de conhecimento. Vamos pensar juntos: quando você lê que “70% dos participantes relataram x”, isso, por si só, não diz muita coisa, certo? É apenas uma informação descritiva. A discussão, por outro lado, busca responder: por que 70%? O que levou a esse resul- tado? Como ele se relaciona com o que já se sabe? Aqui, o papel do pesquisador é, justamente, analisar essas evidências, contextualizá-las e atribuir-lhes significado. É como se os dados fossem peças de um quebra-cabeça. Na seção de resultados, você apresenta as peças; na discussão, você começa a montar e mostrar o que ele significa. É muito comum confundir os limites entre a seção de resultados e a de dis- cussão. A primeira é dedicada à apresentação objetiva dos dados, frequentemente com o apoio de gráficos, tabelas ou trechos categorizados (no caso das pesquisas qualitativas). Já a discussão exige um movimento analítico: comparar, interpretar, levantar hipóteses e dialogar com autores e teorias. Uma boa estratégia para dar início a essa seção é retomar os principais acha- dos da pesquisa de forma organizada e, a partir deles, estabelecer conexões com: os objetivos que orientaram o estudo; a literatura científica previamente revisada; o contexto em que o estudo foi realizado (institucional, social, político, cultural); e os modelos teóricos ou conceituais utilizados. Dependendo do tipo de abordagem, a forma de discutir os dados varia. Em pesquisas quantitativas, a interpretação se apoia em médias, desvios padrão, testes estatísticos e significâncias. O olhar está voltado para os números e suas relações. Já em investigações qualitativas, a riqueza está na análise de significa- dos, discursos, padrões de fala e sentidos atribuídos pelos participantes. Alguns deslizes são frequentes e podem comprometer a qualidade da análise, como: repetir os resultados sem ir além da descrição; omitir dados que não confirmam a hipótese inicial; ignorar os estudos já publicados sobre o tema; desconsiderar as implicações dos achados para a prática ou para a teoria; e fazer afirmações exageradas ou sem base nos dados coletados. A discussão é o momento em que o pesquisador demonstra sua capacidade analítica e sua maturidade científica (Gil, 2002). Por isso, deve ser escrita com clareza, coerência e embasamento. Um bom texto de discussão não apenas descreve, mas também interage com a ciência: amplia o entendimento sobre o fenômeno inves- tigado, aponta novas direções e fortalece o diálogo com a comunidade acadêmica. UNIASSELVI 1 9 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 Outra questão importante na discussão de dados é a honestidade intelectual. Nem sempre os resultados vão ao encontro das nossas expectativas. Às vezes, eles mostram o oposto do que imaginávamos ou não apontam diferença significativa alguma. E tudo bem. Isso faz parte do fazer científico. O papel do pesquisador não é provar que estava certo desde o início, mas, sim, relatar o que os dados mostraram com fidelidade e maturidade. Quando você reconhece as limitações do seu estudo ou aponta incoerências nos dados, está sendo ético e contribuindo para o aprimoramento das investigações futuras. As limitações fazem parte de toda pesquisa: podem estar relacionadas ao ta- manho da amostra, ao recorte temporal, ao instrumento utilizado, ao acesso aos participantes, entre outros fatores. O que importa é que essas limitações sejam reconhecidas e explicadas, mostrando ao leitor que você tem consciência dos contornos do seu trabalho. Isso, longe de enfraquecer seu estudo, demonstra comprometimento com a qualidade científica. Outro ponto que merece atenção é o encaminhamento dos achados para a prática profissional. Em Enfermagem, especialmente, espera-se que a pesquisa dialogue com o cuidado, com a gestão, com a forma- ção, com as políticas públicas. Então, ao discutir seus resultados, pense: de que forma esses achados podem ser benéficos na prática do enfermeiro? Eles sugerem alguma mudança de conduta? Reforçam determinada política? Indicam uma lacuna na formação profissio- nal? Trazer esses questionamentos para o texto fortalece a relevância do estudo e aproxima a ciência da realidade vivida nos serviços de saúde. Por fim, lembre-se de que discutir dados não é uma tarefa solitária. Você está conversando com a literatura, com os autores que leu, com os dados que colheu e, também, com os profissionais que vão se beneficiar do que você descobriu. Escreva essa seção com responsabilidade, mas também com entusiasmo. A discussão é o lugar onde seu olhar de pesquisador ganha força e é exatamente aí que sua voz começa a se destacar no meio científico. Vamos conversar agora sobre um aspecto que costuma gerar dúvidas: a or- ganização do texto da discussão. Em geral, é importante manter uma estrutura lógica especialmente se você estiver trabalhando com várias categorias de análise ou variáveis. Subtítulos podem ser bem-vindos, pois ajudam o leitor a acompa- nhar o raciocínio. Porém o mais importante é manter a coesão entre as ideias. Esses achados podem ser benéficos na prática do enfermeiro? 1 9 1 Evite uma discussão fragmentada ou que pule de um ponto a outro sem conexão. Faça pontes, relacione os temas e vá construindo uma narrativa. Lembre-se também de que a discussão é um espaço para mostrar que você leu e compreendeu a literatura científica sobre o tema. Isso significa citar autores, mas não de forma solta. Evite usar a citação como um enfeite. O ideal é que ela dialogue com o que você está dizendo, que ajude a sustentar sua análise. Por exemplo: se você identificou que há resistência de enfermeiros ao uso de um novo protocolo, procure autores que já discutiram esse tipo de resistência, explique por que ela acontece e, se possível, aponte caminhos. A ideia é que a sua análise se fortaleça por meio desse intercâmbio com o conhecimento já produzido. Outra dica importante: evite usar a discussão para defender o seu trabalho de forma apaixonada. UNIASSELVI 1 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 A pesquisa precisa ser defendida com argumentos, não com justificativas emocio- nais. Frases, como “acredito que isso foi importante” ou “esse achado me emocio- nou muito”, até podem aparecer em textos mais reflexivos ou “autoetnográficos”, mas, de modo geral, o tom da discussão deve ser mais analítico e fundamentado. Você pode mostrar envolvimento com o tema, isso é até desejável, mas o desta- que deve estar na qualidade da interpretação dos dados. Outroaspecto que, às vezes, passa despercebido é o uso de linguagem acessível, sem perder a precisão científica. Isso não significa “simplificar demais”, mas, sim, tornar o conhecimento compartilhável. Pense que muitos profissionais da Enfermagem estão no campo, lidando com demandas intensas, e precisam de textos objetivos, apropriados e claros. Uma boa discussão respeita o tempo e o saber de quem vai ler, e isso também é uma forma de cuidado. E cuidado, aliás, é uma palavra-chave aqui. Porque quando discutimos dados, não estamos lidando apenas com números ou frases soltas. Estamos lidando com vidas, contextos e realidades complexas. Reconheça o valor do seu olhar como pesquisador. Você passou por todas as etapas da investigação, lidou com incertezas, coletou, organizou, analisou... Agora, na discussão, é o momento de dar voz aos dados com coragem analítica e sensibilidade ética. Mostre que você não está apenas cumprindo uma exigên- cia metodológica, mas contribuindo para uma Enfermagem mais crítica, mais humana e mais comprometida com a transformação da realidade. Agora que você já compreendeu a importância da discussão, vale a pena pensar: como encerrar essa etapa com consistência? Um bom caminho é fazer uma espécie de balanço dos achados. VOCÊ SABE RESPONDER? Pergunte-se: o que meus dados mostraram de mais relevante? O que foi possível compreender com base neles? Que lacunas permaneceram? Isso ajuda a organizar o pensamento e, ao mesmo tempo, prepara o terreno para a seção seguinte, as considerações finais. E tem outro ponto interessante: se a sua pesquisa teve como base alguma teoria, conceito ou modelo, vale a pena voltar a eles aqui na discussão. Como essas ideias se confirmaram ou se modificaram 1 9 1 diante da realidade observada? A teoria deu conta do fenômeno? Ou os dados revelaram algo novo, que talvez exija outro olhar? Esse diálogo entre teoria e prática é importante, principalmente em Enfermagem, onde o cuidado se constrói no entrelaçamento entre o saber acadêmico e o cotidiano profissional. Se você está escrevendo seu primeiro TCC ou artigo, talvez, venha aquela in- segurança: “Será que eu posso mesmo argumentar sobre isso?” A resposta é: sim, pode e deve! A discussão dos dados é justamente o momento em que você começa a se colocar como pesquisador. E não se trata de “bater de frente” com autores consagrados, mas de apresentar seu ponto de vista com respeito e embasamento. Você está dialogando com a ciência, e isso é parte do crescimento acadêmico. Agora, uma dica prática e preciosa: não precisa escrever demais, precisa escrever bem. Uma discussão objetiva, bem articulada e fundamentada é muito mais eficaz do que páginas e páginas repetitivas. Vá direto ao ponto, conecte ideias com clareza e, sempre que possível, peça para alguém ler com um olhar crítico. Às vezes, é na leitura em voz alta ou no retorno de um colega que perce- bemos o que pode ser melhorado. Discutir dados é muito mais do que cumprir uma etapa do trabalho. É um ato de reflexão, de compromisso com a realidade e com a transformação do cuidado. Em Enfermagem, cada dado analisado com atenção pode virar uma mudança concreta: em protocolos, em atitudes, em políticas. Por isso, quando você for escrever essa parte, lembre-se de que sua voz tem potência e pode, sim, fazer diferença. E, por fim, uma última provocação: o que você espera que sua pesquisa inspire em quem a ler? Seja qual for o impacto, lembre-se: a ciência que nasce no cotidiano, com rigor e escuta sensível, tem poder transformador. E você, ao escrever, está assumindo esse papel de quem não apenas descreveu um problema, mas buscou compreendê-lo e contribuir com soluções ou reflexões. CITAÇÃO DIRETA E INDIRETA: QUANDO E COMO UTILIZAR Na escrita científica, citar é mais do que uma formalidade: é uma prática de diálo- go com a produção de conhecimento já existente. Ao utilizar as palavras ou ideias de outros autores, o pesquisador mostra que está situado dentro de um campo acadêmico e que suas reflexões estão fundamentadas em saberes consolidados. UNIASSELVI 1 9 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 No entanto é essencial saber quando optar por uma citação direta ou indireta e como fazê-lo de maneira ética e estratégica, evitando tanto o plágio quanto o excesso de transcrições literais. O que são citações diretas e indiretas? Vamos esclarecer as diferenças: A citação direta consiste na transcrição literal de um trecho retirado da fonte consul- tada. Pode ser curta (até três linhas, incorporada ao parágrafo, entre aspas) ou longa (com mais de três linhas, destacada em bloco, com recuo e fonte menor, sem aspas). Já a citação indireta ocorre quando o pesquisador reescreve a ideia original com suas próprias palavras, mantendo-se fiel ao conteúdo e à intenção do autor, sem- pre com a devida referência. Z OOM N O CONHECIMENTO A citação direta é indicada em situações específicas, como: ■ Quando o texto original apresenta formulações técnicas, conceituais ou estilísticas que não podem ser substituídas sem perda de precisão. ■ Quando a escolha lexical do autor é essencial para sustentar um argumento ou provocar reflexão. ■ Quando se pretende fazer uma análise crítica específica do trecho citado. ■ Apesar de seu valor, o uso excessivo de citações diretas deve ser evitado, pois pode comprometer a fluidez do texto e reduzir a autonomia autoral do pesquisador. A citação indireta é mais comum e desejável na redação acadêmica. Ela demons- tra que o pesquisador compreendeu o conteúdo, conseguindo integrá-lo, de for- ma coesa e reflexiva, ao seu próprio raciocínio. Esse tipo de citação contribui para a construção de um texto autoral, fluido e com maior domínio conceitual. Citar exige responsabilidade e atenção. Algumas orientações importantes incluem: ■ Sempre indicar a fonte, independentemente de ser uma citação direta ou indireta. 1 9 8 ■ Manter a fidelidade ao pensamento do autor original, sem distorcer suas ideias. ■ Seguir as normas de referência exigidas pela instituição ou periódico (ABNT, Vancouver etc.). ■ Evitar o uso de citações soltas, que não dialogam com o texto e não con- tribuem para a argumentação. Antes de inserir uma citação, vale a pena refletir: esta citação fortalece o argumen- to que estou desenvolvendo? Posso reescrever essa ideia com minhas próprias palavras, mantendo seu significado? A inclusão da citação direta é realmente necessária neste ponto do texto? Dê preferência às citações indiretas para pre- servar o tom autoral. Quando utilizar citações diretas, faça-o com parcimônia e apenas quando sua presença for justificável. E lembre-se: parafrasear não signi- fica apenas trocar palavras, trata-se de reorganizar o pensamento do autor com profundidade, respeitando seu conteúdo e intenção. Referências bibliográficas Elaborar corretamente as referências bibliográficas é parte essencial da integridade científica. As referências indicam as fontes que sustentam a produção acadêmica e permitem que outros leitores e pesquisadores localizem os documentos citados. Entre os estilos mais adotados no meio acadêmico brasileiro e internacional estão o modelo autor-data da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e o sistema numérico da Vancouver, amplamente utilizado nas ciências da saúde. Seguir normas de referência não é apenas uma exigência formal: trata-se de uma prática que fortalece a integridade e a qualidade da produção científica. Essas normas cumprem pelo menos duas funções essenciais: ■ Ética e transparência: ao indicar corretamente as fontes utilizadas, o pesquisador reconhece o trabalho intelectual de outros autores, evita o plágio e demonstra honestidade acadêmica. Em outras palavras, dá os devidos créditos a quem contribuiu para a construção do conhecimento. ■ Rastreabilidade: referências bem feitas possibilitam que qualquer lei- tor localize as obras citadas e aprofunde o estudo, o que é fundamental em um ambiente científico que preza pelareprodutibilidade e verifica- ção das informações. UNIASSELVI 1 9 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 Além desses aspectos, seguir um padrão normativo confere uniformidade ao texto, facilitando a leitura e a compreensão por parte de avaliadores, editores e demais pesquisadores. Um trabalho acadêmico que apresenta suas fontes de forma clara e padronizada transmite credibilidade, profissionalismo e respeito às boas práticas científicas. Por isso, mais do que cumprir uma exigência institucional, dominar as normas de referência é parte do compromisso do pesquisador com a ciência e com a sociedade que se beneficia dela. Vamos conversar sobre referências no estilo ABNT? Você já deve ter se perguntado como organizar corretamente as fontes que uti- lizou ao longo do seu trabalho acadêmico, não é mesmo? É aí que entram as normas da ABNT, a Associação Brasileira de Normas Técnicas. Segundo essas diretrizes, todas as referências bibliográficas precisam ser apresentadas de forma padronizada, reunindo as fontes citadas ao longo do texto. Quando chega a hora de fazer as referências no final de um trabalho, muita gente fica insegura ou acha que é só copiar qualquer modelo da internet. Entretanto é bem mais simples do que parece. Primeiro, pense na referência como um endereço completo que você entrega para o leitor: é ali que a pessoa encontra a fonte original de tudo o que você usou para construir o seu texto. Assim, você mostra honestidade intelectual e também ajuda quem quiser aprofundar o assunto. Na ABNT (2025), cada tipo de material (livro, capítulo de livro, artigo de revista, TCC, dissertação, tese, site, vídeo etc.) tem uma forma específica de ser referenciado, mas a lógica é a mesma: quem escreveu, o que escreveu, onde, quando e quem publicou. Por exemplo: LIVRO Você escreve o SOBRENOME em maiúsculas, o prenome normal, depois o título em destaque (pode ser negrito ou itálico), a edição (se não for a primeira), a cidade, a editora e o ano de publicação. Exemplo: OLIVEIRA, João. Metodologia Científica. 2. ed. São Paulo: Brasil, 2025. 2 1 1 Perceba que tudo segue uma ordem lógica: começa pelo autor, mostra o título, diz onde saiu, quem publicou e quando. Assim, fica fácil para qualquer pessoa localizar essa mesma fonte. E se ainda tiver dúvida, consulte o manual da ABNT (NBR 6023) ou peça ajuda para um bibliotecário. Estilo Vancouver (sistema numérico) No estilo Vancouver (Inoue et al., 2020), usado principalmente nas áreas da saúde e ciências biomédicas, as referências são numeradas por ordem de aparecimento no texto. A lógica também é simples: primeiro o sobrenome do autor, seguido pelas iniciais do(s) prenome(s) (sem vírgula e sem ponto entre as iniciais), o título da obra, depois os dados de publicação, como local, editora, ano, tudo de forma enxuta e com pontuação específica. Veja como fica para cada tipo de material: CAPÍTULO DE LIVRO Aqui entra um detalhe importante: você indica quem escreveu o capítulo, depois diz “In:” e informa o autor ou organizador da obra, o título do livro, a editora, o ano e as páginas daquele capítulo. Exemplo: OLIVEIRA, Maria. Educação popular. In: SANTOS, João. (org.). Temas em Saúde Pública. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2025. p. 45-60. ARTIGO DE REVISTA Funciona quase igual, mas você acrescenta o nome da revista, a cidade, o volume, o número do fascículo, as páginas e o mês/ano de publicação. Exemplo: SANTOS, Ana. Humanização no cuidado. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 70, n. 3, p. 456- 460, maio/jun. 2025. TRABALHOS ACADÊMICOS (TCC, DISSERTAÇÃO, TESE) Além do autor, título e ano, você diz o tipo de trabalho, o grau (graduação, mestrado, doutorado), a área, a instituição e a cidade. Exemplo: COSTA, João Pedro. Práticas de autocuidado em idosos. 2025. 120 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Univer- sidade Federal do Paraná, Curitiba, 2025. UNIASSELVI 2 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 LIVRO Começa com o(s) autor(es), depois o título do livro, edição (se não for a primeira), cidade, editora e ano. Exemplo: Oliveira M. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Brasil; 2025. CAPÍTULO DE LIVRO Primeiro o autor do capítulo, depois o título do capítulo, seguido da expressão “In:” e os dados do livro (autor/organizador, título, cidade, editora, ano, páginas). Exemplo: Oli- veira M. Educação popular. In: Santos J, organizador. Temas em saúde pública. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2025. p. 45-60. ARTIGO DE PERIÓDICO Inclui o(s) autor(es), título do artigo, nome da revista abreviado (como no PubMed), ano, volume, número (se houver), e página inicial-final. Exemplo: Santos A. Humanização no cuidado. Revista Brasileira de Enfermagem. 2025;70(3):456-60. TRABALHOS ACADÊMICOS (TCC, DISSERTAÇÃO, TESE) Indique o autor, o título, o tipo de trabalho, o grau, a instituição, o local e o ano. Exem- plo: Oliveira MJ. Práticas de autocuidado em idosos [dissertação]. Curitiba: Universidade Federal do Paraná; 2025. 2 1 2 Perceba que, mesmo com outra formatação, a lógica se mantém: quem escreveu, o que escreveu, onde e quando publicou. A diferença está na pontuação, ordem dos elementos e uso de abreviações. Se estiver em dúvida, consulte o ICMJE Recommendations ou bases, como o PubMed, para confirmar a forma correta de citação. Mais do que uma formalidade, as referências bibliográficas são um convite para que o leitor possa ampliar seus estudos, conferir os fundamentos da pesquisa e dialogar com a produção científica existente. Por isso, não se trata apenas de “citar por obrigação”, mas de reconhecer e valorizar a contribuição intelectual de outros autores. AS CONSIDERAÇÕES FINAIS DA PESQUISA Chegamos agora à etapa de encerramento do trabalho: as considerações finais. Essa seção não é um simples “adeus” ao leitor é uma oportunidade significante de revisitar o caminho percorrido, reforçar o que foi descoberto e destacar a importância do estudo. E, como sempre, vamos pensar juntos: o que não pode faltar nesse fechamento? Primeiro, é essencial retomar os objetivos da pesquisa. Vale a pena escrever algo como: [...] “O objetivo desta pesquisa foi compreender...” ou “Este estudo buscou inves- tigar...”. Em seguida, você pode indicar se os objetivos foram alcançados, total ou par- cialmente, e de que forma isso aconteceu com base nos dados analisados. Esse retorno aos objetivos mostra coerência e amarra bem a trajetória iniciada lá na introdução. Depois, pense na sua pergunta de pesquisa: você conseguiu respondê-la? Se sim, diga como. Se não, explique o motivo — pode ter surgido uma limita- ção inesperada ou o fenômeno se mostrou mais complexo do que parecia. O importante é refletir com honestidade e clareza. Lembre-se: a ciência não exige respostas definitivas o tempo todo, mas valoriza a capacidade de formular boas perguntas e analisar os caminhos trilhados. Outro ponto que pode aparecer aqui são os principais resultados positivos do estudo. Não se trata de repetir a discussão, mas de fazer uma síntese objetiva: o que a sua pesquisa contribuiu para o conhecimento na área? O que ela revelou de novo, relevante ou válida para a prática da Enfermagem? Essa é a hora de deixar claro o motivo pelo qual seu trabalho importa para outros pesquisadores, para profissio- nais de saúde, para a formação acadêmica, para os pacientes e para a sociedade. UNIASSELVI 2 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 Nenhuma pesquisa, porém, é perfeita e é aí que entram as fragilidades ou limi- tações do estudo (Minayo, 2001). Fale sobre elas com maturidade. Isso pode incluir o tamanho da amostra, o tempo disponível para coleta de dados, o acesso limitado a fontes ou mesmo restrições metodológicas. As considerações finais são o espaço onde o pesquisador demonstra, com clareza e responsabilidade, a relevância do caminho percorrido, a maturidade em reconhecer os limites do trabalho realizado e o compromisso com a produção de conhecimento que possa inspirar avanços futuros. Então vamos explorar alguns desses pontos: Alcancedos objetivos: é imprescindível iniciar retomando explicitamente os objetivos traçados no início do trabalho. Pergunte-se: o que eu pretendia investigar ou compreender? E, depois, informe se isso foi efetivamente atingido. Por exemplo: “O objetivo deste estudo foi analisar as percepções de profissionais de Enfermagem sobre o cuidado humanizado em unidades de pronto atendimento. Esse objetivo foi plenamente alcançado por meio da coleta e análise das narrativas dos participantes, permitindo uma compreensão aprofundada sobre as práticas, os desafios e as potencialidades do cuidado humanizado nesse contexto”. Essa retomada garante coesão ao texto e demonstra que houve alinhamento entre o que foi proposto e o que foi executado. Resposta à pergunta norteadora: a seguir, indique se a pergunta norteadora, aquela questão principal que guiou a investigação, foi respondida de forma satisfatória. Por exemplo: A pergunta central da pesquisa, “Como os profissionais de Enfermagem percebem e aplicam o cuidado humanizado em situações de alta demanda?”, foi respondida a partir dos relatos que evidenciaram estratégias de acolhimento, comunicação efetiva e manejo de recursos limitados, destacando a resiliência e o compromisso ético desses profissionais.” Se a resposta não foi conclusiva, explique as razões de forma honesta: “Embora a pesquisa tenha elucidado aspectos importantes sobre o tema, algumas lacunas permaneceram devido ao número reduzido de entrevistas, o que indica a necessidade de novos estudos para uma compreensão mais abrangente”. Principais resultados positivos: depois, apresente uma síntese dos princi- pais achados, destacando o que foi mais relevante ou inovador: 2 1 1 “Entre os resultados mais significativos, destacam-se a identificação de práticas informais de apoio entre colegas, o protagonismo de profissionais na criação de estratégias de humanização em condições adversas e a percepção de que a escuta ativa é um fator central para fortalecer vínculos com os usuários”. Deixe claro como esses achados contribuem para a área de Enfermagem: “Esses resultados fortalecem a discussão sobre a necessidade de políticas institucionais que valorizem o cuidado humanizado, além de sugerirem inter- venções voltadas à formação continuada e ao suporte emocional da equipe.” Fragilidades e limitações: reconheça com transparência as limitações do seu estudo. Isso não diminui a pesquisa, ao contrário, demonstra ética, autocrítica e rigor científico: “Este estudo apresentou como principais limitações o recorte geográfico restrito a uma única unidade de pronto atendimento, o que limita a generaliza- ção dos resultados. Além disso, o período curto para realização das entrevistas pode ter influenciado na profundidade de algumas respostas”. Esse cuidado mostra que o pesquisador sabe situar seus achados no contexto adequado. Indicação de estudos futuros e reflexão final: por fim, aponte possi- bilidades para investigações futuras e, se desejar, faça uma breve reflexão pessoal ou profissional sobre o aprendizado durante o processo: “Sugere-se a realização de estudos multicêntricos, que incluam diferentes regiões e perfis de unidades de saúde, para ampliar a compreensão sobre o cuidado humanizado em situações de alta demanda. Recomenda- se também explorar a perspectiva dos usuários. Além das contribuições acadêmicas, esta pesquisa possibilitou o desenvolvimento de habilidades de escuta, análise crítica e empatia, reforçando a convicção de que a Enfermagem, quando fundamentada em princípios éticos e humanos, tem um papel transformador na vida de pessoas e comunidades”. Para facilitar esse momento, realize o checklist a seguir que funciona como uma ajuda de última hora, quase como aquele amigo que revisa tudo com você antes de entregar. Nele, você confere se lembrou de retomar o objetivo do seu estudo, se conseguiu ou não responder à pergunta principal, se destacou os resultados mais importantes de forma clara e se lembrou de apontar as limitações que encontrou no caminho. UNIASSELVI 2 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 9 TÓPICO DESCRIÇÃO VERIFICAÇÃO 1. Retomada do objetivo O texto retoma, de forma clara, o objetivo principal da pesquisa, mostrando coerência com a introdução. [ ] 2. Resposta à pergunta de pesquisa Indica se a pergunta norteadora foi respondida ou explica as razões caso não tenha sido possí- vel respondê-la integralmente. [ ] 3. Principais resultados Apresenta uma síntese dos achados mais rele- vantes e sua contribuição para a área. [ ] 4. Limitações do estudo Reconhece e descreve as limitações ou fragili- dades do trabalho com clareza e ética. [ ] 5. Estudos futuros Indica sugestões de novas pesquisas, possíveis aprofundamentos ou lacunas a serem exploradas. [ ] 6. Reflexão final e impacto Traz uma mensagem de encerramento que destaque o impacto da pesquisa e, se desejar, uma breve reflexão pessoal. [ ] 7. Coerência e fechamento Garante que não foram inseridos dados ou aná- lises inéditos nesta seção de fechamento. [ ] Quadro 1 – Checklist para considerações finais da pesquisa / Fonte: o autor. Usar esse checklist é uma forma de garantir que suas considerações finais sejam mais do que um “adeus”, que sejam um convite para refletir, continuar pesquisando e transformar a prática. Lembre-se que encerrar uma pesquisa não é apenas uma formalidade; é um momento de síntese, reflexão e responsabilidade com tudo o que foi construído ao longo do estudo. As considerações finais representam o fechamento de um ciclo investigativo, no qual se retomam os objetivos propostos, destacam-se os principais achados e se discutem as implicações do trabalho para a prática, para a ciência e, muitas vezes, para a própria formação profissional. É nessa etapa que o conhecimento produzido ganha sentido, relevância e contribuição real para a Enfermagem e para a sociedade. 2 1 1 NOVOS DESAFIOS Depois de tantas reflexões e aprendizados, talvez, a pergunta que fique seja: “E agora, o que faço com tudo isso?” Essa é uma pergunta legítima e muito bem- vinda. Porque mais importante do que conhecer as etapas da escrita científica é entender como transformar esse conhecimento em prática. A partir daqui, é hora de experimentar. A escrita acadêmica, como qualquer habilidade, só amadurece com o tempo, o treino, os erros e os acertos do processo. Por isso, a principal recomendação é: comece. Não espere a escrita “perfeita” para escrever. Comece com rascunhos, com perguntas mal resolvidas, com inseguran- ças; elas fazem parte do caminho de quem está realmente pensando. A pesquisa em Enfermagem precisa de vozes plurais, de olhares sensíveis, de análises com- prometidas com a realidade dos sujeitos. E isso começa quando você se autoriza a escrever com autenticidade, com responsabilidade e com coragem de sustentar o que pensa sempre em diálogo com a ciência, é claro. Também é hora de assumir sua posição como sujeito produtor de conhecimen- to. Não apenas reproduza o que os autores disseram, converse com eles, confron- te-os, complemente-os. E lembre-se: você não está sozinho. A escrita científica é coletiva. Envolve escuta, revisão, reescrita e, muitas vezes, dúvidas compartilhadas. Busque apoio nos seus orientadores, colegas e grupos de pesquisa. Aprender a es- crever é também aprender a dialogar. Então, o que fazer a partir de agora? Escrever, revisar, refletir e continuar caminhando, com a certeza de que cada etapa vencida, por menor que pareça, é um passo a mais na construção de uma Enfermagem crí- tica, comprometida e transformadora. Que você leve consigo, mais do que técnicas, uma postura, a de quem escreve com intenção, ética e cuidado. Gostou do que discutimos até aqui? Tenho mais para conversar com você a respeito deste tema. Vamos lá? E M FOCO UNIASSELVI 2 1 7 https://vimeo.com/1119443186/09eefb86af 1. Ao discutir os dados de uma pesquisa, o compromisso com a veracidade dos achados é essencial. Mesmo que os resultadosnão confirmem hipóteses iniciais, cabe ao pesquisador apresentar o que foi constatado com clareza e responsabilidade. Além disso, é esperado que se reconheçam possíveis fragilidades do estudo, como aspectos metodológicos que possam ter influenciado nos resultados. Outro ponto importante é refletir sobre a aplicação dos achados no contexto profissional, especialmente na Enfermagem, onde a conexão entre pesquisa e prática deve ser constantemente valorizada (Gil, 2002). Com base no texto, assinale a alternativa que representa uma atitude condizente com a postura ética e científica na discussão dos dados de uma pesquisa em Enfermagem. a) Ajustar os dados para que se adequem às hipóteses propostas inicialmente. b) Ignorar limitações metodológicas para não enfraquecer o estudo. c) Apresentar apenas os resultados que confirmam os objetivos da pesquisa. d) Relatar com fidelidade os achados, reconhecer limitações e refletir sobre a contribuição prática dos resultados. e) Utilizar a discussão para reforçar a importância do tema sem relacionar os dados à realidade profissional. 2. Ao discutir os dados de uma pesquisa, é importante destacar os principais achados e refletir sobre suas implicações. A retomada de conceitos teóricos utilizados na fundamentação pode enriquecer a análise, possibilitando a comparação entre o que foi previsto e o que foi observado. Esse processo favorece a construção de argumentos próprios e contribui para a consolidação da identidade do pesquisador em formação (Gil, 2002). A partir do texto, analise as afirmativas a seguir sobre a etapa de discussão dos dados em um trabalho científico. I - A discussão é o momento de destacar os dados mais relevantes da pesquisa e refletir sobre seu significado. II - Retomar teorias ou modelos utilizados anteriormente pode contribuir para uma análise mais aprofundada dos resultados. III - A argumentação na discussão dos dados contribui para o desenvolvimento da autonomia acadêmica do pesquisador. IV - A discussão deve ser feita com neutralidade absoluta, sem apresentar qualquer ponto de vista do pesquisador. AUTOATIVIDADE 2 1 8 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. Em todo processo investigativo, é comum que o pesquisador enfrente desafios relacionados à amostragem, ao tempo de coleta, aos instrumentos utilizados ou à generalização dos resultados. O reconhecimento dessas limitações no relatório científico não fragiliza o estudo, pelo contrário, reforça sua credibilidade, pois evidencia a postura ética, o compromisso com a transparência e a capacidade de análise crítica por parte do autor (Minayo, 2001). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - Apontar as limitações de um estudo fortalece a credibilidade da pesquisa perante a comunidade científica. PORQUE II - Reconhecer as fragilidades do estudo demonstra uma postura ética e crítica do pesquisador. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 2 1 9 REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Venha ser um associado ABNT. c2025. Página inicial. Disponível em: https://abnt.org.br/. Acesso em: 9 jul. 2025. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002. INOUE, C. R. et al. Manual de normalização de trabalhos acadêmicos: citação e referência: Vancouver. São Paulo: Unesp, 2020. https://drive.google.com/file/d/1122KOAzlwGoWQomR- bBDT2trMC-3BLJOv/view. Acesso em: 9 jul. 2025. MINAYO, M. C. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. 2 1 1 1. Alternativa D. A Alternativa D está correta, pois reflete a conduta ética e científica esperada: relatar os dados com fidelidade, apontar limitações e promover a articulação entre pesquisa e prática profissional. A Alternativa A está incorreta, pois manipular dados compromete a integridade da pesquisa. A Alternativa B está incorreta, pois ocultar limitações impede a avaliação crítica e transparente do estudo. A Alternativa C está incorreta, pois selecionar apenas resultados favoráveis distorce a análise e prejudica a validade científica. A Alternativa E está incorreta, pois a discussão precisa articular dados e prática, não apenas reafirmar o tema. 2. Alternativa D. A afirmativa I está correta, porque expressa um dos propósitos centrais da discussão: selecionar os achados mais significativos e interpretar seu sentido no contexto do estudo. Trata-se de uma etapa analítica e reflexiva. A afirmativa II está correta, porque o retorno a conceitos teóricos na discussão é uma prática válida e recomendada, pois possibilita comparar o que foi observado com o que a literatura propõe, enriquecendo a análise dos dados. A afirmativa III está correta, porque, ao construir argumentos próprios e dialogar com autores da área, o pesquisador fortalece sua autonomia e identidade acadêmica. Essa é uma etapa formativa importante, especialmente para estudantes e pesquisadores iniciantes. A afirmativa IV está incorreta, porque, embora a argumentação deva ser baseada em evidências, a discussão é justamente o momento de o pesquisador apresentar sua interpretação e ponto de vista, com embasamento científico. Neutralidade absoluta pode levar à omissão de uma análise crítica importante. 3. Alternativa A. Ambas as asserções são verdadeiras e relacionadas logicamente. Apontar as limitações fortalece a pesquisa porque evidencia a ética e a autocrítica do pesquisador, o que são fundamentos do rigor científico. GABARITO 2 1 1 MINHAS ANOTAÇÕES 2 1 2 unidade 1 PESQUISA EM SAÚDE: ASPECTOS HISTÓRICOS PESQUISA EM ENFERMAGEM ÉTICA E BIOÉTICA EM PESQUISA unidade 2 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE PESQUISA ACESSO À PESQUISA CIENTÍFICA NA ÁREA DA SAÚDE E AVALIAÇÃO DOS ESTUDOS QUALIDADE E NÍVEIS DE EVIDÊNCIA DAS PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS unidade 3 PROJETO DE PESQUISA: METODOLOGIA DE PESQUISA ANÁLISE DE DADOS EM PESQUISA ESCRITA ACADÊMICA Forms - Uniasselvi: Botão 50: Botão 51: Botão 52: Botão 53: Botão 54: Button 28:Às vezes, o que é considera- do científico em determinado período acaba parecendo estranho quando olha- mos com olhos de hoje, mas, na época, fazia sentido para aquela comunidade. Isso mostra que nossa forma de produzir e validar conhecimento não depende só de experimentos ou de “verdades” absolutas: ela também sofre influências sociais, culturais e educacionais. Isso vale bastante para a Enfermagem, pois evidencia que práticas de cuidado e protocolos de saúde podem se tornar “nor- mais” em um momento, mas podem ser questionados mais à frente, conforme surgem novas pesquisas e realidades na assistência ao paciente. É por isso que a obra de Kuhn (1997) segue tão atual, mesmo décadas após seu lançamento: ela nos lembra que a mudança faz parte do processo de cres- cimento da ciência e que é sempre bom ficarmos atentos às “anomalias” que podem indicar inovações ou transformações importantes. Confira a aula referente a este tema. E M FOCO 2 1 https://vimeo.com/1119443210/d24e1d040a NOVOS DESAFIOS O ambiente profissional atual exige que os pesquisadores e profissionais da saúde e das ciências sociais sejam capazes de articular teoria e prá- tica de maneira crítica e criativa. A pesquisa qualitativa, por exemplo, ao captar as subjetividades e os significados atribuídos às experiências humanas, torna-se essencial para compreender o comportamento dos indivíduos e das comunidades, fornecendo insumos estratégicos para intervenções mais eficazes no campo da saúde pública, da educação e das políticas sociais. Nesse contexto, alguns desafios emergem: ■ Integração entre pesquisa e atuação profissional: o conheci- mento produzido não pode ficar restrito às universidades e centros de pesquisa. É necessário que os profissionais desenvolvam habi- lidades para traduzir os achados científicos em soluções aplicáveis e acessíveis, seja no atendimento em saúde, na formulação de po- líticas públicas ou no setor privado. ■ Novas exigências do mercado: o mundo do trabalho valoriza cada vez mais profissionais que saibam interpretar dados, tomar decisões informadas e lidar com a complexidade social. O domínio de metodologias de pesquisa, sejam elas qualitativas ou quantitati- vas, passa a ser um diferencial competitivo. ■ Ética e responsabilidade social: em um cenário de rápidas trans- formações, o pesquisador não pode se limitar à análise neutra da realidade. O compromisso ético e o engajamento na construção de soluções inovadoras e inclusivas são essenciais para que o conhe- cimento produzido tenha impacto social positivo. A conexão entre teoria e prática exige um olhar dialógico e interdisci- plinar. O conhecimento não é um fim em si mesmo, mas um meio para compreender e transformar realidades. À medida que avançamos no século XXI, a pesquisa social continua a evoluir, enfrentando novos desafios e expandindo suas fronteiras. UNIASSELVI 2 2 1. O positivismo, como corrente filosófica surgida no século XIX, estabeleceu a ideia de que o conhecimento científico deve ser construído com base em fatos observáveis, mensuráveis e verificáveis, eliminando explicações subjetivas ou metafísicas. Esse pensamento influen- ciou significativamente a pesquisa em saúde, promovendo uma abordagem voltada para a objetividade, o uso do método experimental e a busca por padrões gerais (Comte, 1978; Nightingale, 1989). O pensamento positivista teve grande influência na pesquisa em saúde. Qual das opções a seguir melhor caracteriza essa abordagem? a) Ênfase na interpretação subjetiva das experiências individuais. b) Priorização da observação, medição e busca de padrões universais. c) Rejeição do método científico na prática da enfermagem. d) Foco exclusivo em pesquisas qualitativas. e) Defesa da intuição e do conhecimento popular como principais fontes para a tomada de decisão na enfermagem. 2. O paradigma compreensivo surge como uma abordagem que busca interpretar os fenô- menos sociais de maneira mais profunda, considerando a complexidade das interações humanas. Diferentemente de modelos que focam na generalização de resultados, essa perspectiva reconhece a diversidade dos contextos e a influência de múltiplos fatores na construção do conhecimento. A pesquisa compreensiva se preocupa em captar a riqueza dos acontecimentos sociais, levando em conta as relações, os processos e as dinâmicas envolvidas. Esse paradigma permite uma visão mais detalhada das realidades estudadas, promovendo reflexões que vão além de padrões preestabelecidos e considerando a mul- tiplicidade de fatores que influenciam o comportamento humano (Weber, 2022). O paradigma compreensivo se diferencia do positivismo porque: I - Valoriza a subjetividade e os significados atribuídos pelas pessoas às suas experiências. II - Utiliza métodos, como entrevistas e observação participante. III - É amplamente aplicado na enfermagem e na saúde pública para uma abordagem humanizada. IV - Rejeita completamente a importância da ciência na enfermagem. AUTOATIVIDADE 2 8 É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 3. Na Enfermagem, a aplicação de normas e protocolos estruturados é essencial para garantir a qualidade e a segurança do cuidado. No entanto a prática profissional exige mais do que a simples aplicação de diretrizes fixas, pois cada paciente possui necessidades individuais, subjetividades e contextos específicos. Enquanto o estruturalismo enfatiza a influência das estruturas sociais e das normas na organização da sociedade, o cuidado em saúde demanda flexibilidade e adaptação, permitindo que a assistência seja centrada no paciente e respeite sua autonomia (Nightingale, 1989; Minayo, 2001). Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I - Na prática da Enfermagem, o estruturalismo pode ser insuficiente para abordar a com- plexidade do cuidado, pois enfatiza a rigidez das normas e das estruturas sociais. PORQUE II - O cuidado de enfermagem exige flexibilidade e adaptação, levando em conta a indivi- dualidade, a autonomia e as necessidades subjetivas de cada paciente. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta: a) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são falsas. AUTOATIVIDADE 2 9 REFERÊNCIAS BURKE, P. A Escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992. CASTRO, S. Introdução à Filosofia. Petrópolis: Vozes, 2008. COMTE, A. Curso de Filosofia Positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978. CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. DURKHEIM, É. O Suicídio: Estudo de Sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. DURKHEIM, É. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989. HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1997. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008. MINAYO, M. C. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. NIGHTINGALE F. Notas sobre enfermagem: o que é e o que não é. São Paulo: Cortez, 1989. SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2010. SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. SCHÜTZ, A. El problema de la realidad social. Buenos Aires: Amorrortu,2003. SKINNER, Q. Visions of Politics: Regarding Method. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da Sociologia Compreensiva. 4. ed. Brasília: Editora UnB, 2022. 3 1 1. Alternativa B. A alternativa B está correta, pois o positivismo prioriza a observação, medição e busca de padrões universais para garantir objetividade e previsibilidade na pesquisa em saúde. A alter- nativa A está incorreta, pois o positivismo rejeita a subjetividade e valoriza dados concretos e mensuráveis. A alternativa C está incorreta, pois o positivismo fortaleceu o método científico na Enfermagem, não o rejeitou. A alternativa D está incorreta, pois o positivismo privilegia pesquisas quantitativas, não exclusivamente qualitativas. A alternativa E está incorreta, pois o positivismo baseia-se em evidências científicas, não na intuição ou conhecimento popular. 2. Alternativa D. As afirmativas I, II e III são corretas, porque o paradigma compreensivo valoriza a subjetividade (I), utiliza métodos qualitativos, como entrevistas e observação participante (II), e é aplicado na Enfermagem e na Saúde Pública para promover uma abordagem mais humanizada (III). A afirmativa IV está incorreta, porque o paradigma compreensivo não rejeita a ciência na Enfermagem, mas complementa a prática científica com a compreensão dos significados e contextos sociais. 3. Alternativa A. A afirmativa II justifica a I, pois a necessidade de adaptação no cuidado de enfermagem é um dos principais desafios à visão estruturalista rígida, que pode não dar conta da singu- laridade do paciente. As asserções I e II são verdadeiras, porque o estruturalismo enfatiza normas e estruturas fixas, o que pode ser insuficiente para lidar com a complexidade do cuidado de enfermagem, que exige flexibilidade, adaptação e respeito à individualidade e autonomia do paciente. GABARITO 3 1 MINHAS METAS PESQUISA EM ENFERMAGEM Conhecer a história da Ciência na Enfermagem. Entender o quanto as teorias embasam a prática diária da enfermagem. Diferenciar os saberes empírico, ético, pessoal e estético na enfermagem. Compreender a importância do saber científico na prática assistencial. Saber equilibrar rigor científico e sensibilidade humana no cuidado. Refletir sobre os limites e potenciais da prática baseada em evidências. Desenvolver uma visão crítica sobre a aplicação prática da pesquisa científica. T E M A D E A P R E N D I Z A G E M 2 3 2 INICIE SUA JORNADA Imagine-se trabalhando em um hospital onde os pacientes enfrentam condições insalubres, infecções hospitalares são comuns e não há um método estruturado para organizar os cuidados. Como você se sentiria ao perceber que, apesar de seus esforços, os pacientes continuam adoecendo devido à falta de higiene e ventilação adequada? Essa era a realidade dos hospitais no século XIX, quando Florence Nightingale (1820–1910) chegou à Guerra da Crimeia (1853–1856) e encontrou soldados morrendo não apenas devido aos ferimentos, mas por doenças evitáveis. Diante dessa situação, Nightingale (1859) não aceitou a enfermagem como um conjunto de ações desorganizadas e empíricas. Pelo contrário, ela utilizou dados, estatísticas e observação sistemática para demonstrar que a adoção de práticas sanitárias poderia reduzir drasticamente a mortalidade hospitalar. VOCÊ SABE RESPONDER? Mas como essa abordagem científica pode ser aplicada ao seu desenvolvimento como estudante de enfermagem? Ao longo da graduação, muitas vezes, somos levados a repetir práticas sem ques- tionar sua base científica. No entanto Florence Nightingale (1859) nos ensina que a enfermagem não deve ser apenas um ato de cuidado, mas um campo de pesquisa, análise e reflexão. Em sua obra Notes on Nursing: What It Is and What It Is Not (Nightingale, 1859), ela destaca que a enfermagem eficaz depende da observação criteriosa e do uso do raciocínio clínico baseado na ciência. Como estudante, você pode se perguntar: estou apenas reproduzindo práticas ou estou refletindo sobre o impacto delas no paciente? A pesquisa em enferma- gem não acontece apenas em laboratórios ou artigos científicos; ela começa no dia a dia, na forma como olhamos para a prática e buscamos maneiras de me- lhorá-la. Florence Nightingale (1859) abriu o caminho para uma enfermagem científica. Agora, cabe a você seguir os seus passos. UNIASSELVI 3 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 DESENVOLVA SEU POTENCIAL A PESQUISA EM ENFERMAGEM: CIÊNCIA E PRÁTICA Vamos refletir um pouco sobre algo muito importante na enfermagem: a pes- quisa. Segundo Donaldson e Crowley (1978), para que qualquer ciência cresça e evolua, é fundamental que ela construa constantemente novos conhecimentos científicos. E com a enfermagem não poderia ser diferente! O que torna a nossa ciência especial é justamente a capacidade de combinar o rigor científico com a sensibilidade humana, para entender melhor os fenômenos que envolvem a saúde e o bem-estar das pessoas. VAMOS RECORDAR? Você lembra o que é o Positivismo e como ele impacta a ciência e a saúde? Assista ao conteúdo a seguir e relem- bre como Auguste Comte propôs uma visão científica da sociedade, valorizando o conhecimento baseado em fatos observáveis. Um ótimo reforço para pensar sobre a prática de enfermagem baseada em evidências! Você já parou para pensar em quem abriu os caminhos da en- fermagem brasileira? No episódio de hoje, vamos dialogar so- bre Anna Nery (1814–1880), uma mulher corajosa que se tornou símbolo do cuidado humanizado durante a Guerra do Paraguai. PLAY N O CONHECIMENTO 3 1 https://www.youtube.com/watch?v=0ki0ySUVaT8 https://on.soundcloud.com/4w9xmhGaLdYSzx3j2p A enfermagem tem um objetivo muito claro e nobre: promover a saúde e oferecer cuidados de qualidade a indivíduos, famílias e comunidades. Para atingir esse propósito, Donaldson e Crowley (1978) afirmam que a pesquisa precisa ir além do aspecto teórico, focando também na aplicação prática dos conhecimentos ad- quiridos. Em outras palavras, não basta apenas saber, precisamos usar o que aprendemos para melhorar o cuidado no dia a dia. Isso significa que as práticas de enfermagem precisam ser constantemente revisadas e atualizadas com base nas descobertas científicas. A pesquisa em enfermagem se apoia em diferentes tipos de teorias, que po- dem ser descritivas ou prescritivas. As teorias descritivas ajudam a compreen- der fenômenos da realidade, enquanto as prescritivas orientam diretamente nossas ações e decisões no cuidado. Donaldson e Crowley (1978) destacam que, por ser uma ciência prática, a enfermagem precisa especialmente dessas teorias prescritivas, pois são elas que orientam nosso trabalho diário com pacientes. Focando também na aplicação prática dos conhecimentos UNIASSELVI 3 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Além disso, a pesquisa em enfermagem não envolve apenas técnicas e métodos científicos, mas também valores éticos muito claros. Um exemplo disso é a pesquisa clínica, que serve para testar teorias diretamente na prática profissio- nal e resolver problemas reais do cotidiano da enfermagem. Como enfatizam Donaldson e Crowley (1978), é por meio da pesquisa que conseguimos clarear nossos conceitos principais, melhorar nossas abordagens e expandir continua- mente nosso conhecimento. DIALOGANDO COM FLORENCE NIGHTINGALE As ideias de Florence foram revolucionárias para a época e seguem essen- ciais nos dias atuais. A prática baseada em evidências, que é um dos pilares da enfermagem moderna, tem suas raízes no método adotado por Nightingale (1859, 1863). Ao aplicar estatísticas para comprovar a importância da higiene e do ambiente hospitalar na recuperação dos pacientes, ela transformou a en- fermagem em uma ciência (Nightingale,1859, 1863). Assim, não basta apenas realizar os procedimentos corretamente, é necessário entender por que e como eles impactam a saúde dos pacientes. Mas como trazer essa visão científica para sua prática como estudante? Nos estágios,você pode perceber que determinadas práticas parecem ser feitas de for- ma automática, sem que os profissionais reflitam sobre sua real eficácia. Florence Nightingale nos ensina que a enfermagem exige um olhar crítico sobre os processos. VOCÊ SABE RESPONDER? Durante o estágio, você percebe que poucos profissionais seguem corretamente as práticas de higienização das mãos. Isso afeta a incidência de infecções hospitalares? A organização do ambiente do paciente impacta sua recuperação? Nightingale responderia a essas perguntas com dados e evidências. Se queremos avançar na enfermagem, precisamos experimentar, testar hipóteses e registrar 3 1 nossas observações. Em Notes on Hospitals (Nightingale, 1863), ela demonstrou, com gráficos e estatísticas, que hospitais com melhores condições estruturais reduziam drasticamente a mortalidade. Assim, cada vez que observamos um problema no cuidado e buscamos embasamento para propor uma solução, es- tamos seguindo seus passos. Florence Nightingale O filme biográfico Florence Nightingale (2008) retrata a vida e o legado de Florence Nightingale, destacando sua contribuição na transformação da enfermagem em uma ciência baseada em evidências e cuidados humanizados. I N DI CAÇÃO DE FILME A enfermagem evoluiu porque pessoas, como Florence Nightingale, questiona- ram e pesquisaram. Se ela tivesse aceitado o cuidado hospitalar como era prati- cado na época, milhares de vidas teriam sido perdidas. Hoje, a pesquisa continua sendo fundamental para que a enfermagem avance e ofereça um cuidado cada vez mais seguro e eficaz. UMA CONVERSA BASEADA EM WANDA HORTA Quando pensamos em enfermagem, é comum lembrarmos imediatamente das técnicas, dos procedimentos e do cuidado direto que prestamos diariamente. Mas você já parou para refletir sobre como essas ações cotidianas estão embasa- das cientificamente? Como destaca Wanda Horta (1979), a enfermagem é uma ciência aplicada em constante transição da prática empírica para uma abordagem científica mais estruturada. Ela afirma claramente que nenhuma ciência pode existir sem uma filosofia própria. Precisamos, então, de uma filosofia unificada que nos dê bases sólidas para continuar crescendo como ciência e profissão. UNIASSELVI 3 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Horta (1979) levanta uma pergunta essencial: será que a enfermagem realmente é uma ciência? Ela analisa profundamente essa questão e conclui que sim, pois os fenômenos estudados pela enfermagem são reais, podem ser observados, tes- tados e avaliados de maneira sistemática. As teorias na enfermagem são ferra- mentas práticas, estruturadas logicamente, que nos ajudam a entender melhor os fenômenos que observamos diariamente e orientam nosso trabalho na prática. Dentre essas teorias, Horta (1979) destaca especialmente a Teoria das Ne- cessidades Humanas Básicas, que ela classifica como uma teoria prescritiva de nível IV, ou seja, uma teoria que orienta claramente como agir frente a situações específicas. Essa teoria fornece uma espécie de roteiro ou guia prático, ajudando os enfermeiros a identificar as necessidades humanas fundamentais de seus pa- cientes e desenvolver um cuidado mais eficaz e direcionado. O nível IV referido por Wanda Horta (1979) indica um tipo específico de teoria dentro da classificação das teorias de enfermagem proposta por ela. Hor- ta estruturou as teorias em diferentes níveis conforme seu grau de abstração e aplicabilidade prática: NÍVEL I – TEORIA FILOSÓFICA Mais abstrata, relacionada a questões filosóficas gerais. NÍVEL II – TEORIA EXPLICATIVA Busca explicar fenômenos, mas sem prescrever ações específicas. NÍVEL III – TEORIA PREDITIVA Permite prever consequências ou desdobramentos futuros de determinadas situações. NÍVEL VI – TEORIA PRESCRITIVA Orienta especificamente como agir frente a situações concretas. 3 8 Portanto, quando Horta classifica a Teoria das Necessidades Humanas Básicas como uma teoria prescritiva de nível IV, significa que essa teoria oferece dire- trizes claras, objetivas e concretas para a prática profissional da enfermagem, orientando diretamente as ações que os profissionais devem adotar diante das necessidades humanas identificadas nos pacientes. Ao propor uma teoria estruturada e um método claro, como o Processo de Enfermagem, Horta (1979) busca facilitar a introdução de uma metodologia científica rigorosa no cotidiano profissional. Ela afirma que a autonomia da pro- fissão só será alcançada quando toda a categoria adotar e implementar, de forma sistemática, essa metodologia científica. A publicação do livro Processo de Enfermagem tem impacto direto na for- mação dos estudantes, apresentando desde cedo a importância da pesquisa e mostrando que é perfeitamente possível aplicar métodos científicos rigorosos na prática clínica. Segundo Horta (1979), adotar o processo de enfermagem não apenas contribui para a melhora contínua do nível teórico da enfermagem, mas também promove uma prática mais segura, eficaz e humanizada. Ao implementar o processo de enfermagem com base no método científi- co, o profissional consegue levantar precocemente os problemas dos pacientes, promovendo uma interação mais profunda e melhorando significativamente a comunicação e o relacionamento entre enfermeiros, pacientes e estudantes. Isso faz com que o cuidado deixe de ser apenas empírico e passe a ser um cuidado baseado em evidências e dados concretos. Confira a imagem a seguir para uma visão detalhada dos conceitos relacionados a Wanda Horta: UNIASSELVI 3 9 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Figura 1 – Mapa mental Wanda Horta / Fonte: a autora. Descrição da Imagem: a figura apresenta um mapa mental ilustrado e colorido que apresenta os principais concei- tos da teoria de Wanda Horta, enfermeira e teórica brasileira da enfermagem. No centro da imagem, há um círculo com o nome “Wanda Horta” destacado, escrito em letras rosa sobre um fundo azul-claro, com efeito pincelado. Várias setas partem desse círculo central, conectando-o a diferentes conceitos, formando um mapa mental. No lado esquerdo, há um grupo intitulado “Processo de Enfermagem”, escrito dentro de um círculo com destaque em marca texto rosa-claro e decorado com um clipe e com detalhe em desenho de coração. Esse grupo está ligado aos termos “Histórico”, “Diagnóstico”, “Planejamento”, “Implementação” e “Avaliação (evolução)”, cada um inserido em balões ovais. Acima, à direita do centro, encontra-se o grupo “Atendimento integral às necessidades humanas básicas”, com a palavra “necessidades” em destaque rosa. Três setas se conectam a esse grupo, levando aos tipos de necessidades: psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais. No canto inferior direito, há o grupo “Classificação das teorias”, destacado em marca texto lilás e um pequeno clip com uma flor. A partir dele, quatro setas apontam para os níveis filosófico (nível I), explicativo (nível II), preditivo (nível III) e prescritivo (nível IV). No canto inferior esquerdo, encontra-se o grupo “Importância”, destacado com marca texto azul-claro e um clipe em forma de coração. Ele está conectado aos conceitos de autonomia profissional, cuidado humanizado e prática baseada em evidências. Na parte inferior esquerda da imagem, há a ilustração, em preto e branco, de uma enfermeira com prancheta, desenhada em estilo desenho à mão. No lado direito, há também um ícone decorativo de estetoscópio em formato de coração, com detalhes em azul. Fim da descrição. Um dos aspectos mais interessantes apresentados por Horta (1979) é como a avaliação contínua da assistência é fundamental para a prática clínica da enfer- magem. A fase da “evolução de enfermagem”, descrita por ela como um registro 1 1 diário das mudanças no paciente, permite acompanhar e ajustar o cuidado de maneira precisa. Essa avaliação constante funciona como uma verdadeira análise de evidências, permitindo identificar novos problemas e revisar diagnósticos e planos de cuidado sempre que necessário. Além disso,Horta propõe o conceito de “síndromes de enfermagem” como uma forma útil para reconhecer padrões comuns nas necessidades dos pacientes, tornando a prática clínica ainda mais assertiva. Assim, o processo de enferma- gem, fundamentado na pesquisa e no método científico, torna-se uma ferramenta poderosa para melhorar continuamente a assistência prestada. Wanda Horta ainda ressalta que a pesquisa não é uma atividade acadêmica distante, mas um instrumento essencial para o enfermeiro aplicar na sua rotina profissional, garantindo que o cuidado prestado seja sempre atualizado e eficaz. Em outras palavras, a pesquisa em enfermagem é indispensável não apenas para o crescimento da profissão, mas especialmente para o benefício daqueles que mais importam: os pacientes. A PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS NA ENFERMAGEM A Prática Baseada em Evidências (PBE), conhecida internacionalmente como Evidence-Based Nursing (EBN), emergiu com destaque no campo da saúde, re- sultando na criação de periódicos especializados e diretrizes clínicas orientado- ras. Na enfermagem, essa abordagem ganhou relevância crescente, pautando-se na ideia de que as ações clínicas devem se sustentar em investigações científicas, garantindo, assim, melhores resultados para os pacientes (Sackett, 2000). Essa perspectiva é frequentemente destacada pelo uso de termos, como “melhor evidência”, “melhor prática” e “melhor qualidade” (Walker, 2003), o que configura, segundo Holmes e Gastaldo (2004), um novo paradigma de verdade na prática profissional. Embora muitos acreditem que a PBE garanta automaticamente o cuida- do ideal (Walker, 2003), é fundamental que nós, estudantes e profissionais da área, questionemos o que realmente significa “evidência”. O predomínio dessa abordagem fez com que fosse amplamente aceita como o “padrão ouro” da profissão, promovendo frequentemente apenas um método específico de de- senvolvimento do conhecimento. UNIASSELVI 1 1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Holmes, Perron e O’Byrne (2006) alertam sobre o perigo de estabelecer hierarquias rígidas entre diferentes métodos de pesquisa. Eles defendem que uma diversidade metodológica deve guiar tanto a pesquisa quanto a prática clínica, questionando a dominância do paradigma pós-positivista, que, frequentemente, privilegia os Ensaios Clínicos Randomizados (ECRs) como evidência superior. Essa simpli- ficação pode não apenas reduzir a complexidade inerente à prática clínica, mas também restringir nosso olhar e nossa capacidade crítica enquanto profissionais. Outro ponto relevante é o risco de a enfermagem perder sua autonomia pro- fissional ao aderir, sem reflexão crítica, ao modelo da PBE inspirado diretamen- te na medicina. Holmes e Murray (2011), Walker (2003) e Holmes e Gastaldo (2004) destacam que a enfermagem corre o risco de “medicalizar” sua prática ao buscar legitimidade científica por meio da imitação das características da medicina, como o uso rigoroso de terminologias semelhantes e a priorização exclusiva de ECRs. Esse movimento pode prejudicar a construção de uma iden- tidade própria e diversificada da enfermagem (Holmes; Perron; O’Byrne, 2006). Carper (1978) lembra-nos que a enfermagem é uma profissão caracterizada por múltiplas formas de conhecimento: o saber empírico, ético, pessoal e estético. SABER EMPÍRICO É aquele baseado em evidências científicas, obtido por meio de pesquisas e observa- ções objetivas. Está relacionado ao uso de métodos científicos e resultados de estudos para orientar as práticas de cuidado. SABER ÉTICO Envolve a capacidade do enfermeiro de tomar decisões responsáveis diante de situa- ções delicadas e dilemas morais na prática assistencial, buscando sempre preservar os direitos e o bem-estar dos pacientes. 1 2 Portanto, é importante refletir sobre como essa diversidade pode ser afetada pela valorização exclusiva de um único tipo de evidência. A busca pela legiti- midade científica não deve levar ao abandono ou à minimização das demais formas de saberes próprios da enfermagem, como o saber pessoal, que emerge das experiências clínicas individuais dos enfermeiros, o saber ético, relaciona- do à tomada de decisões diante de dilemas morais na prática assistencial, e o saber estético, que permite ao enfermeiro perceber e responder às necessidades emocionais e subjetivas dos pacientes. Uma visão pós-moderna sugere a necessidade de pluralismo metodológico e epistemológico (Boisvert, 1996). Isso significa que precisamos reconhecer e valo- rizar diferentes formas de entender e produzir conhecimento, utilizando diversos métodos de pesquisa (quantitativos, qualitativos, mistos, entre outros) e diferentes perspectivas epistemológicas (como o positivismo, o construtivismo, entre outros). Holmes e Gastaldo (2004), por exemplo, propõem adotar uma perspectiva pós-estruturalista, utilizando o conceito de pensamento rizomático desenvolvido por Deleuze e Guattari (1987). Esse conceito desafia o tradicional pensamento linear e hierarquizado, propondo uma rede aberta e diversificada de conheci- mentos, capaz de acolher múltiplas vozes e perspectivas. SABER PESSOAL Refere-se ao conhecimento que o enfermeiro desenvolve a partir de suas próprias ex- periências clínicas, emoções e reflexões pessoais, permitindo uma compreensão mais profunda de si mesmo e dos pacientes. SABER ESTÉTICO Está relacionado à sensibilidade do enfermeiro em perceber e responder às necessida- des emocionais e subjetivas dos pacientes, utilizando empatia, criatividade e intuição para proporcionar um cuidado mais humano e acolhedor. UNIASSELVI 1 3 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 É essencial que, enquanto futuros profissionais, mantenhamos uma postura crítica diante da prática baseada em evidências, reconhecendo sua importância, mas também seus limites. Precisamos promover um diálogo aberto, plural e reflexivo, valorizando diferentes abordagens e metodologias para construir um conhecimento de enfermagem que seja não apenas cientificamente robusto, mas também sensível à complexidade e diversidade do cuidado em saúde. COMPREENDENDO A TRADUÇÃO DO CONHECIMENTO (KT) NA PRÁTICA EM SAÚDE Imagine que você realizou uma pesquisa inovadora na área da saúde, com resulta- dos promissores. Mas você já se perguntou como esses resultados podem efetiva- mente beneficiar pacientes, profissionais de saúde e todo o sistema de saúde? É exa- tamente aí que entra a Tradução do Conhecimento (KT — Knowledge Translation). A Tradução do Conhecimento, segundo Straus, Tetroe e Graham (2009, 2013), é um processo dinâmico e interativo que envolve a síntese, disseminação, troca e aplicação ética do conhecimento, visando melhorar a saúde e os serviços oferecidos. De maneira simples, a KT conecta a pesquisa científica ao mundo real, garantindo que os avanços cheguem às pessoas certas, na hora certa. Para compreender melhor esse processo, o modelo Conhecimento-para-A- ção (KTA) proposto por Straus, Tetroe e Graham (2009, 2013) é especialmente resolutivo. Pense nesse modelo como um ciclo contínuo, flexível e interativo. Embora seja apresentado visualmente como um ciclo, suas etapas podem ocorrer em qualquer ordem, dependendo das necessidades específicas do projeto. Um ponto importante é envolver os usuários finais do conhecimento, como profissionais de saúde e pacientes, desde o início. Essa colaboração garante que as evidências sejam relevantes e utilizáveis no contexto prático. O modelo KTA divide-se em duas grandes fases: a Criação de Conhecimento e o Ciclo de Ação, sendo essa segunda fase composta por sete etapas que podem ser realizadas simultânea ou sequencialmente, adaptadas às necessidades práticas. Veja mais detalhes no quadro a seguir: 1 1 FASE ETAPA DESCRIÇÃO CRIAÇÃO DE CONHECIMENTO 1. Investigação É a produção direta de conhecimento por meio de pesquisas primárias. 2. Síntese do Conhecimento Aqui, ocorre a reunião e análise rigorosa de diferentes estudos sobre um mesmo tema, frequentemente usando revisões sistemáticas,que garantem a robustez e a qualidade das evidências coletadas. 3. Ferramentas de Conhecimento Os resultados mais relevantes são tra- duzidos em ferramentas práticas, como diretrizes clínicas, algoritmos ou mate- riais de apoio à decisão, facilitando sua aplicação direta na prática clínica. CICLO DE AÇÃO 1. Identificação do problema clínico ou de saúde pública. 2. Seleção e revisão crítica do conhecimento disponível. 3. Adaptação das evidências ao contexto local. 4. Avaliação dos fatores que influenciam a implementação do conhecimento (facilitadores e barreiras). 5. Escolha e implementação de intervenções específicas para aplicar esse conhecimento. 6. Monitoramento e avaliação dos impactos das intervenções. 7. Estratégias para garantir a sustentabilidade dos resultados alcançados. Quadro 1 – Fases do modelo KTA / Fonte: adaptado de Straus, Tetroe e Graham (2119, 2113). UNIASSELVI 1 5 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 Além disso, existem dois tipos principais de KT: ■ KT ao final do estudo: visa, principalmente, à disseminação dos resul- tados após a conclusão de um projeto. As ações variam de publicações científicas até eventos específicos para divulgar os achados. ■ Pesquisa de KT Integrada: envolve a participação ativa dos usuários finais desde o início do processo de pesquisa, garantindo maior relevância e facilidade de implementação das descobertas científicas. Um desafio significativo no contexto da KT é o chamado “lacuna do conheci- mento” (KTA Gap). Esse termo refere-se à distância entre a produção do co- nhecimento científico e sua aplicação prática. Esse hiato pode ocorrer devido à ineficácia na disseminação das evidências ou porque as pesquisas não abordam necessidades reais dos usuários finais. Por isso, identificar barreiras e facilitadores é essencial para a KT ser eficaz. As teorias e os modelos que embasam a KT incluem abordagens da psicologia cognitiva, teoria da ação planejada e modelos educacionais e organizacionais, além de teorias de melhoria contínua da qualidade. Avaliar continuamente o impacto das intervenções é importante para garantir que as práticas adotadas sejam eficazes e sustentáveis. Vejamos agora um exemplo prático de implementação de diretrizes clínicas para prevenção de quedas em idosos hospitalizados: 1. Identificação do problema: uma equipe de enfermagem percebeu um alto índice de quedas entre idosos internados em uma unidade hospitalar, resultando em fraturas e internações prolongadas. 2. Síntese do conhecimento: realizou-se uma revisão sistemática sobre prevenção de quedas em idosos hospitalizados, identificando as inter- venções mais eficazes, como avaliação sistemática do risco, adaptação de ambiência e treinamento da equipe. 3. Criação de ferramentas de conhecimento: as evidências foram sinte- tizadas e traduzidas em um protocolo simples de prevenção de quedas e um checklist para avaliação diária do risco de queda dos pacientes. 4. Avaliação de barreiras e facilitadores: identificaram-se barreiras, como resistência dos profissionais devido à falta de tempo e facilitadores, como apoio institucional e disposição dos profissionais em melhorar a segu- rança dos pacientes. 1 1 5. Implementação: realizaram-se oficinas de treinamento com enfermeiros e técnicos sobre o uso do protocolo e checklist. Cartazes explicativos fo- ram espalhados pelas unidades e lembretes foram inseridos nos sistemas eletrônicos de prontuários. 6. Monitoramento e avaliação: durante seis meses, o número de quedas foi monitorado regularmente, observando-se uma redução significativa após a implementação do protocolo. 7. Sustentabilidade: após comprovar o sucesso, o protocolo foi incorpo- rado permanentemente à rotina hospitalar, com atualizações regulares baseadas em novas evidências científicas. Nesse exemplo, a Tradução do Conhecimento garantiu que evidências científicas fossem aplicadas diretamente na prática clínica, resultando em benefícios cla- ros para os pacientes e profissionais envolvidos. Dessa maneira, a Tradução do Conhecimento é essencial para transformar evidências científicas em melhorias concretas na saúde, promovendo uma prática baseada em evidências e colabo- rativa, alinhada às necessidades reais dos usuários finais. UNIASSELVI 1 7 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 O IMPACTO DA PESQUISA EM ENFERMAGEM A pesquisa em enfermagem tem papel essencial, não apenas para nós, futuros profissionais da área, mas também para toda a sociedade. Quando falamos em pesquisa, estamos falando de estudos organizados que buscam responder a per- guntas importantes sobre a prática de enfermagem e a saúde das pessoas. Por meio desses estudos, construímos um conhecimento científico específico que nos diferencia claramente como profissão e disciplina dentro da área da saúde. Ao realizar pesquisas, desenvolvemos uma compreensão única sobre os fenô- menos relacionados à saúde humana, especialmente sobre a experiência e a qua- lidade de vida das pessoas que cuidamos. Isso nos ajuda a consolidar a identidade profissional da enfermagem, fortalecendo nossa autonomia e responsabilidade profissional, também conhecida como accountability, ou seja, a capacidade de respondermos pelas nossas ações com base em evidências científicas e éticas. Além disso, a pesquisa promove uma reflexão crítica permanente sobre nossa prática, levando-nos a questionar, inovar e melhorar continuamente o cuidado prestado aos pacientes. Comunicar esses resultados para outros profissionais e para a sociedade é essencial, pois mostra claramente o papel fundamental e único que a enfermagem desempenha no cuidado à saúde. 1 8 É importante, no entanto, termos consciência de que existem desafios nessa tra- jetória. Por exemplo, o excesso de valorização de pesquisas quantitativas pode reduzir ou desvalorizar outras abordagens igualmente válidas, como os estudos qualitativos, simplificando excessivamente a complexidade real da nossa prática clínica (Holmes; Perron; O’Byrne, 2006). Além disso, precisamos reconhecer que nossas pesquisas são influenciadas por diversos fatores sociais, econômicos e políticos que moldam o que consideramos conhecimento válido ou relevante. Para a sociedade, o impacto da pesquisa em enfermagem é direto e signifi- cativo. Nossas investigações buscam melhorar a qualidade de vida e entender melhor as necessidades dos pacientes, especialmente aqueles em situações mais vulneráveis. Por meio desse olhar atento à experiência das pessoas, somos capazes de identificar desigualdades, como vulnerabilidade e marginalização, e buscar soluções mais justas e eficazes. Dessa forma, a pesquisa em enfermagem não ape- nas descreve realidades, mas também atua como agente de transformação social. É fundamental lembrar que nossa pesquisa precisa ser relevante para diferen- tes contextos globais, abordando questões importantes e com impacto na socie- dade. Como futuros enfermeiros, temos a responsabilidade ética de desenvolver pesquisas que respondam às necessidades da população e promovam uma prática profissional ética e humanizada. Portanto, investir em pesquisa é essencial para o fortalecimento da enferma- gem como profissão e para a melhoria da saúde e do bem-estar da sociedade, con- siderando sempre a diversidade e complexidade dos contextos em que atuamos. Estudante, para expandir seus conhecimentos sobre o assunto abordado, gostaríamos de lhe indicar a aula que preparamos es- pecialmente para você. Acreditamos que essa aula complemen- tará e aprofundará ainda mais o seu entendimento sobre o tema. E M FOCO UNIASSELVI 1 9 https://vimeo.com/1119443227/3869ebb1d1 TEMA DE APRENDIZAGEM 2 NOVOS DESAFIOS A pesquisa não é um “luxo acadêmico”; ela é essencial para o crescimento da en- fermagem como profissão. De acordo com Donaldson e Crowley (1978), quanto mais a enfermagem evolui teoricamente e na prática, maior será o impacto positi- vo no cuidado aos pacientes. Ao pesquisarmos, conseguimos trazer informações relevantes de outras áreas,