Prévia do material em texto
AULA 05 - A PLENITUDE DO ESPÍRITO Leandro Lima introdução A Plenitude do Espírito Santo é a vida idea- lizada por Deus para todos os crentes, ela é o segredo do sucesso espiritual e a garantia da vida de santidade. Quando Deus criou o homem à sua imagem, idealizou um rela- cionamento íntimo com ele. Esse relacio- namento se quebrou por causa do pecado, mas em Jesus Cristo o homem é restaurado ao relacionamento pessoal com Deus, no ní- vel mais elevado que poderia existir: passa a ser habitação do Espírito de Deus. Assim, o homem pode desfrutar do maior benefí- cio que poderia ser imaginado. E é só dessa forma que o homem pode se sentir plena- mente realizado e feliz. Sem essa plenitude, embora convertidos, podemos ser bem pou- co diferentes da maioria dos homens que vivem nesse mundo. A plenitude nos torna pessoas verdadeiramente diferentes. Muitas vezes, as pessoas confundem Batis- mo do Espírito com Plenitude do Espírito. Como já vimos no estudo anterior, o Batis- mo é uma obra única que acontece no mo- mento da conversão e que nunca mais se repete. Porém, o Batismo dá direito a um enchimento contínuo do Espírito Santo, e a um agir do Espírito sobre a vida do crente que pode ser aumentado ou diminuído ao longo da vida. Chamamos o enchimento do Espírito de Plenitude do Espírito. De acor- do com a Bíblia, essa plenitude deveria ser a vida cristã normal, mas o pecado causa o esvaziamento espiritual. Esse esvaziamen- to, ainda que não seja definitivo, faz com que não tenhamos forças para resistir ao mal e nem vontade de servir ao Senhor. Em contrapartida, Deus nos coloca a opção contínua desse enchimento, e isso significa que podemos ser cheios tantas vezes quan- tas precisarmos, e de fato, sempre precisa- mos. Ao contrário do Batismo do Espírito que é uma obra realizada por Deus, inde- pendente de nossa própria vontade, a Bíblia nos ensina a orar e buscar a plenitude do Espírito Santo. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 1 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 35. 2 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 44. 3 A.A. Hoekema. Salvos pela Graça, p. 58. Uma obra continuamente necessária Ser cheio ou pleno do Espírito Santo deve ser a maior busca do cristão nessa vida. A plenitude do Espírito é uma obra diferente das demais obras do Espírito por ser condi- cional, experimental e repetida. O batismo, a regeneração e o selo do Espírito são coisas não experimentais, ocorrem no momen- to da conversão, e de uma vez por todas. O “enchimento” do Espírito, ao contrário, pode ser experimentado e repetido muitas vezes. Como diz Stott, “quando falamos do batismo do Espírito estamos nos referindo a uma concessão definitiva; quando falamos da plenitude do Espírito estamos reconhe- cendo que é preciso apropriar-se contínua e crescentemente deste dom”1. Portanto, re- conhecer que o batismo é uma experiência da qual não participamos, não faz de nós pessoas inativas, pois temos a responsabi- lidade da plenitude do Espírito. Isso leva ao entendimento de que é possível que alguém que foi batizado com o Espírito se esvazie desse Espírito e precise encher-se novamen- te. Não significa que ele será batizado outra vez, pois o batismo é único, nem mesmo que ficará “totalmente” vazio desse Espírito, pois Deus nunca retira totalmente o Espíri- to dos regenerados. Cheios novamente No dia do Pentecostes, os discípulos recebe- ram o batismo com o Espírito Santo e tam- bém receberam a plenitude do Espírito. O batismo nunca mais se repetiu, mas a ple- nitude sim. Em Atos 4 está registrado o mo- mento em que a igreja enfrentou a primeira perseguição. Os sacerdotes prenderam os apóstolos e os lançaram na prisão (At 4.1-3). Após interrogá-los, exigiram que não falas- sem mais no nome de Jesus (At 4.18), e lhes fizeram ameaças (At 4.21). Quando foram soltos, os crentes se reuniram e começaram a orar. Na oração, clamaram pela Soberania de Deus, e pediram: “Agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermé- dio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 4.29-30). Lucas relata a resposta de Deus à oração da igreja: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos fica- ram cheios do Espírito Santo e, com intre- pidez, anunciavam a palavra de Deus” (At 4.31). Eles já haviam sido batizados com o Espírito, mas precisaram de um novo en- chimento do Espírito para poder realizar a obra de Deus e enfrentar os desafios ainda maiores que surgiram. Quem, quando e como Em Efésios 5.18 Paulo diz: “E não vos embria- gueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito”. A primeira coisa que notamos no texto é a expressão: “Enchei-vos”. O verbo está no imperativo, o que significa que é uma ordem que deve ser obedecida. Como diz Stott, “a plenitude do Espírito Santo não é opcional, mas obrigatória para o cristão”2. Te- mos a obrigação e a responsabilidade de ser- mos cheios do Espírito. Outro aspecto impor- tante é que o verbo está no plural, o que indica que a ordem é direcionada a todos os crentes, assim, todos têm a obrigação de serem cheios do Espírito Santo. Não existe uma classe de crentes que tenha esse privilégio, pois todos podem e devem ser cheios. Além disso, o ver- bo está na voz passiva, o que demonstra que a ação de encher é do Espírito e não nossa. Uma boa tradução poderia ser: “Deixai o Es- pírito vos encher”. Mas isso não significa que sejamos passivos, pois a nossa participação é significativa, cabe a nós buscarmos esse en- chimento. E por fim, e talvez mais importan- te de tudo, a ordem está no tempo presente, o que representa uma ação contínua, e isso significa que devemos estar continuamente sendo cheios do Espírito Santo. Hoekema ob- serva que, “o imperativo presente ensina-nos que ninguém pode, jamais, reivindicar ter sido cheio do Espírito de uma vez por todas. Estar sendo continuamente cheio do Espírito é, de fato, o desafio de uma vida toda e o desa- fio de cada dia.”3 Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 Já dissemos que o enchimento do Espírito é algo que, por um lado é passivo, pois o Espí- rito nos enche, e por outro ativo, pois temos a responsabilidade de buscar esse enchimen- to. Algo que ainda precisa ficar claro é como podemos ser cheios. Jesus nos dá a resposta: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que ha- viam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorifica- do” (Jo 7.37-39). Jesus aproveitou um ritual da Festa dos Tabernáculos para ilustrar algo de imenso valor para as pessoas. No ritual, um sacerdote saía com uma procissão e tra- zia num jarro de ouro um pouco de água da piscina de Siloé. Aquela água seria derrama- da no altar, e provavelmente simbolizasse o próprio derramamento futuro do Espírito Santo, que Ezequiel e os profetas haviam anunciado (Is 44.3; Ez 39.29; Jl 2.28). Tal- vez, Jesus tenha observado aquele ritual, e, então, aproveitando o momento, se levan- tou e falou de uma água melhor. Ele já havia oferecido essa água à mulher samaritana ao lado do poço de Jacó (Jo 4.10-15). Aquela água que podia matar a sede dos sedentos era o Espírito Santo. Jesus nos explica aqui como essa água pode ser conseguida. Ele diz: “Quem tem sede venha a mim e beba”, ou seja, o que é necessário é tão somente, ir a Jesus e beber. O método divino pelo qual podemosser cheios do Espírito Santo é o mais simples de todos: basta ter sede, ir a Jesus e beber. Jesus é o responsável por nos encher do Espírito, isso pode ser feito a qualquer momento, em qualquer lugar, e em qualquer situação. Uma vez que o Deus Onipresente está sempre conosco, não há qualquer empecilho prático para que a nos- sa sede seja saciada agora mesmo. Mas, é preciso ter sede... Porque ser cheio Devemos pensar ainda no “porquê” de ser- mos cheios do Espírito. Basicamente são duas razões: maturidade e serviço. O enchi- mento do Espírito Santo representa a ma- turidade cristã. Quando somos convertidos, a Bíblia diz que passamos pela experiência de um “novo nascimento”. Estendendo a analogia, podemos dizer que no momento da conversão somos “crianças” ou mesmo “bebês” em Cristo. Louis Berkhof usa uma figura para ilustrar a nossa nova condição: “Uma criança recém-nascida é, salvo exce- ções, perfeita em suas partes, mas não está no grau de desenvolvimento ao qual foi des- tinada. Justamente assim, o novo homem é perfeito em suas partes, mas, na presente vida, continua imperfeito no grau de desen- volvimento espiritual”.4 O fato é que preci- samos crescer. Esse crescimento vem pelo enchimento do Espírito Santo. Certa oca- sião Paulo teve que dizer aos Coríntios: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo” (1Co 3.1). Paulo havia detectado uma série de problemas dentro da igreja de Corinto. Aquela igreja estava cheia de divisões, orgulho espiritual, fornicação e uso impróprio dos dons espirituais. Essas atitudes demonstravam que os crentes de Corinto eram crianças em Cristo. Paulo fez uma distinção entre alguém “espiritual” e alguém “carnal”, ou “criança”. Infelizmente essa distinção existe. Devemos pensar que o espiritual é aquele que, através da plenitude do Espírito, experimenta o verdadeiro cres- cimento em fé, esperança e amor, enquanto que o carnal, é aquele cujo reservatório qua- se sempre está muito baixo. O enchimento do Espírito nos faz ser espi- rituais, ou seja, maduros na fé. A falta desse enchimento nos torna débeis e presa fácil do mundo, da carne e do diabo. Porém, não devemos entender a expressão “carnal” no sentido de um crente de segunda classe, al- guém dividido entre a carne e o Espírito. Os crentes verdadeiros deixaram de ser carnais nesse sentido, pois são novas criaturas, e não podem ser meio novas e meio velhas. Paulo deixou bem claro que o verdadeiro crente é aquele que já “crucificou” ou “se despojou” 4 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 541. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 5 João Calvino. Institutas, II.2.19. 6 R. C. Sproul. Verdades Essenciais da Fé Cristã, Vol 2, p. 15. 7 Edwin H. Palmer. El Espiritu Santo, p. 68. do velho homem (Rm 6.6; Cl 3.9). O crente verdadeiro, nesse sentido, não está na car- ne, mas no Espírito (Rm 8.8-9). Carne aqui deve ser entendida como a velha natureza pecaminosa herdada de Adão. Não é a carne no sentido de corpo humano, mas carne no sentido de escravidão do pecado. Mas apesar de estar no Espírito, muitas vezes os crentes têm atitudes carnais e cedem à tentação da carne, pois ainda estão na carne, no sentido de “corpo carnal decaído” (Fp 1.22,24). Além da maturidade, o enchimento do Espí- rito Santo é necessário para o serviço cristão. Nesse ponto, é importante atentarmos para o fato de que, desde o Antigo Testamento, o Espírito capacitava pessoas para funções especiais na obra de Deus, como Bezalel, Sansão, Davi e outros. Lembramos também que João Batista foi cheio do Espírito Santo desde o ventre materno para realizar a tarefa de ser o precursor de Cristo (Lc 1.15-17). Os diáconos escolhidos em Atos 6, para servir as mesas, também eram cheios do Espírito Santo (At 6.3-5). Barnabé que serviu junto com Paulo era homem cheio do Espírito Santo (At 11.24). Paulo não poderia ser di- ferente, somos informados que, quando ele ficou cheio do Espírito Santo, imediatamen- te começou a pregar que Jesus era o Filho de Deus (At 9.17, 20). E houve momentos em que, muitos desses foram novamente enchidos, de acordo com as necessidades da ocasião. Como já vimos, a igreja ficou cheia do Espírito após as ameaças e então, com mais intrepidez, anunciou o Evangelho (At 4.31-32). Antes disso, Pedro já estava cheio do Espírito Santo quando encarou o Siné- drio que o julgava (At 4.8). Estevão também estava cheio do Espírito Santo no momento em que foi martirizado (At 7.55). E Paulo, quando repreendeu Elimas o mágico, estava novamente cheio do Espírito (At 13.9). Tudo isso nos aponta para a imensa necessidade de ser cheio do Espírito Santo para realizar o serviço na obra de Deus, e nos lembra que o sucesso nessa obra não é “por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito” (Zc 4.6). É impossível realizar a obra de Deus sem esse enchimento do Espírito, mas, a grande notícia é que podemos ser cheios a qualquer momento. Quem tem sede, beba. A iluminação do Espírito Uma vida cheia do Espírito Santo, além de ter como característica a produção do “fruto do Espírito”, será também uma vida dirigida pelo Espírito. Uma das principais obras do Espírito dentro dos crentes é a iluminação. Iluminação refere-se basicamente à atuação do Espírito Santo em capacitar os homens a entenderem a Palavra de Deus. A ilumi- nação não provê informações ou revelações além daquelas encontradas na Bíblia, a ilu- minação esclarece a Bíblia para nós. O Espí- rito Santo nos convence da verdade da Pala- vra de Deus, e então, nos ajuda a entender e a aplicar essa verdade em nossa vida. Sem essa iluminação do Espírito jamais poderí- amos entender a Palavra de Deus. Calvino diz, “a carne não é capaz de tão alta sabe- doria como é compreender a Deus e o que a Deus pertence, sem ser iluminada pelo Espírito Santo”5. A Escritura já é luz por si mesma (Sl 119.105), porém, precisamos de uma luz adicional, porque por natureza, es- tamos em trevas. Sproul diz: “O mesmo Es- pírito Santo que inspira a Palavra, age para iluminar a Palavra em nosso benefício. Ele derrama luz sobre a luz original”6. Palmer diz: “Para adquirir conhecimento verdadeiro não basta, pois, possuir a clara re- velação de Deus; o homem precisa também poder ver. E precisamente aqui é onde entra o Espírito Santo. Dá ao homem não somente um livro infalível, mas também olhos para que o possa ler”7. Paulo deixa isso bem claro em sua primeira carta aos Coríntios. Ele diz: “Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais pene- trou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9). Ao contrário do que geralmente se su- põe, Paulo não está falando aqui do paraíso, mas do Evangelho de Cristo. Esse Evangelho foi revelado pelo Espírito, conforme ele de- Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 clara: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscru- ta, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10). Segundo esse texto, o Espírito nos re- vela aquilo que está na mente de Deus. Ele “perscruta”, no sentido de iluminar ou tor- nar claro para nós, aquilo que está na men- te de Deus. O que os olhos humanos não conseguem contemplar, o Espírito revela, “para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (1Co 2.12). Obvia- mente, ele está se referindo à salvação pela graça. Porém, “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Aqui está a declaração de que o homem na- tural, ou seja, o homem nãoconvertido não consegue aceitar e entender essas coisas do Espírito. Falta-lhe a iluminação do Espírito, e, como diz Spurgeon: “nós nunca conhece- remos nada enquanto não formos ensinados pelo Espírito Santo, que fala mais ao coração do que ao ouvido.”8 A mesma ideia pode ser encontrada em 2Co- rintios 4. Paulo diz que rejeitava as formas astuciosas de pregação, mantendo a integri- dade da Palavra de Deus (2Co 4.2). Ou seja, sua pregação consistia na exposição precisa da Palavra de Deus, e não em recursos de oratória ou sabedoria secular. Entretanto, nem todos estavam crendo na mensagem da graça, e Paulo sabe o porquê: “Mas, se o nosso Evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o enten- dimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do Evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.3-4). Aqui está a explicação sobre por que a maioria das pessoas simplesmente não consegue entender o Evangelho. A razão é que estão cegas, pois Satanás as cegou. Elas não conseguem entender o Evangelho da Palavra de Deus porque lhes falta um dis- positivo interno chamado entendimento ou iluminação. Suas mentes estão obscureci- das (Ef 4.17-18) e só podem crer se forem iluminadas (2Co 4.6). Essa tarefa de ilumi- nar pertence ao Espírito Santo. Quando o Espírito Santo age na vida de uma pessoa incrédula, ele abre os olhos e os ou- vidos espirituais dessa pessoa, a fim de que consiga ver e ouvir a revelação de Deus na Escritura. Dessa forma, a pessoa passa a ter convicção de seus pecados e entenderá que a salvação somente é possível na pessoa de Cristo. Mas a obra da iluminação não pára por aí. Durante toda a vida, o crente terá à disposição essa obra iluminadora do Espíri- to Santo que lhe ajudará a entender a Escri- tura e a discernir a vontade de Deus. Esse fator de iluminação é de imensa ajuda para que desenvolvamos uma vida de sabedoria e obediência à sua vontade. Uma das coisas que Paulo mais desejava para seus filhos espirituais era esse fator de iluminação, pois ele disse ao Efésios que orava frequen- temente por isso: “Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda es- pírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a espe- rança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (Ef 1.16-19). Mediante a ilu- minação do Espírito podemos compreender as grandezas de Deus para nossa vida e des- frutar delas. Nesse sentido, João chamava a iluminação de “unção que vem do Santo”, a qual é responsável pelo conhecimento que os cristãos têm da verdade (1Jo 2.20-21). João apela para essa unção a fim de evitar que os crentes sejam enganados por falsos ensinos. Evidentemente, precisamos dizer mais uma vez, que esse conhecimento está sempre ligado à Palavra de Deus, que é a Palavra da Verdade (Jo 17.17). O fruto do espírito A maior consequência da plenitude do Es- pírito é o desenvolvimento natural do “fruto 8 C.H. Spurgeon. Firmes na Verdade, p. 72. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 9 R. C. Sproul. O Mistério do Espírito Santo, p. 163. 10 R. C. Sproul. O Mistério do Espírito Santo, p. 164. do Espírito”. Na igreja, os dons do Espírito são muito mais populares do que o fruto do Espírito. É fácil vermos as pessoas orando por dons, mas, raramente vemos alguém orando pelo fruto. O motivo disso também não é difícil de saber, pois os dons nos fa- lam de algo extraordinário, sugerindo poder e feitos magníficos. O fruto, por outro lado, fala da dura rotina de evidenciar um caráter transformado. Por causa disso, como diz Sproul, “os diversos frutos do Espírito pare- cem estar condenados à obscuridade, ocul- tos na sombra dos dons mais preferidos”9. Porém, segundo a Bíblia, a grande evidên- cia de que alguém está cheio do Espírito é o fruto e não necessariamente os dons. Isso nos lembra as palavras de Jesus: “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lan- çada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.18-20). O próprio Jesus disse que a evidência de “poder” na vida das pessoas não significa necessariamente con- versão, pois, conforme ele completou: “Mui- tos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Se- nhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos mui- tos milagres? Então, lhes direi explicitamen- te: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7.22-23). Para Jesus o critério da verdadeira conversão não é “poder” que alguém manifesta, mas a obediência, a vida realmente transformada. Isso nos ensina que, mais do que manifes- tações espirituais, deveríamos buscar a real transformação de vida que se demonstra em atitudes práticas de obediência à Palavra de Deus, mediante a plenitude do Espírito. Gálatas 5.16-25 é o grande texto da Escritura sobre as obras da carne e o fruto do Espíri- to. Paulo faz importantes declarações sobre as duas coisas e nos dá o segredo para que o fruto do Espírito seja produzido em nós, que, como já vimos, é andar no Espírito. A palavra “andar” é um hebraísmo que significa viver continuamente na prática de algo. A figura bíblica do “andar” é significativa, pois aponta para a nossa realidade diária de caminhar, nos deparando com novas e desafiadoras situa- ções, para as quais o Espírito nos conduzirá de forma segura conforme as Escrituras. As- sim, a Bíblia diz que Enoque e Noé andaram com Deus (Gn 5.24, 9.6). Isso denota toda uma vida de dedicação e fiel cumprimento aos princípios divinos. Esse apego contínuo ao Espírito Santo que está em nós é a garantia de que a carne perderá a guerra contra o Espí- rito. Por sua vez, isso indica que quando não vivemos dessa forma, a carne ganhará. Guerra sem trégua Uma das realidades mais vívidas do crente é a do conflito. Quando nos convertemos, caí- mos de pára-quedas em meio a um imenso combate que já vem sendo travado há muito tempo, o combate do bem contra o mal, do Reino de Deus contra o Império das Trevas. Paulo diz que estamos em meio a uma guer- ra que não é contra “o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, con- tra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas re- giões celestes” (Ef 6.12). Não há como fugir dessa guerra. Uma vez que fomos tirados do Império das Trevas (Cl 1.13), agora todo aquele império é nosso inimigo. Por isso só nos resta vestir a armadura, empunhar a espada e orar até não poder mais (Ef 6.11- 18). Alguém poderia esperar que a luta fosse apenas externa, mas o problema é que há uma luta dentro de nós também. Paulo diz: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventu- ra, seja do vosso querer” (Gl 5.17). Esta é uma batalha terrível. O velho homem não quer entregar o terreno de bom grado e se arma até aos dentes a fim de resistir ao Espírito. Como diz Sproul, “embora essa guerra seja interna e invisível, há claros sinais externos da carnificina provocada pela batalha”10. Ele está se referindo especialmente ao que acon- tece quando a carne vence, pois aparecem as obras da carne. Não devemos ignorar a re- Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3alidade desse combate, e somos chamados para tomar o lado do Espírito nessa batalha. Paulo diz: “Ora, as obras da carne são co- nhecidas e são: prostituição, impureza, las- cívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, por- fias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.19-21). Evidentemente, essas obras caracterizam a vida de uma pessoa não-regenerada. Não significa que um crente não possa cair em algum desses pecados ocasionalmente, po- rém, se essas coisas forem evidências contí- nuas na vida de alguém, como Jesus disse, isso caracteriza natureza de árvore má, ou seja, ausência de conversão. A lista parece falar de pecados que têm relação com o sexo (prostituição, impureza, lascívia), com a re- ligião (idolatria, feitiçarias), com relaciona- mentos (inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas), e, por fim, com com os apetites (bebedices, glutonarias). Porém, a lista não é exaustiva, pois Paulo diz: “E coisas semelhantes a es- sas”. Quatro áreas problemáticas ficam bem enfatizadas: sexo, religião, relacionamentos e apetites. São quatro áreas em que a car- ne gosta de se manifestar. As armas da car- ne são poderosas, elas atuam em todos os nossos pontos mais fracos e, como Paulo diz, são conhecidas, na verdade são nossas conhecidas íntimas. São as coisas mais co- muns que encontramos no mundo, quando ligamos a tv, abrimos o jornal, ou conver- samos informalmente com os amigos. Até mesmo na igreja elas podem se manifestar. Mesmo no recanto de nossa mente, e inclu- sive até nos sonhos elas tramitam e fazem guerra contra o Espírito. Deus engrandeça o seu Espírito dentro de nós! Tríplice relacionamento Em contrapartida, o Fruto do Espírito apre- senta as virtudes da vida cristã autêntica. Stott vê uma tríplice divisão nesse fruto, que é composto de nove elementos, classifi- cando-o como: Relacionamento com Deus, relacionamento com os outros, e relaciona- mento com nós mesmos mesmos11. Em relação a Deus estão o amor, a alegria e a paz. O amor é o único que figura tanto na lista do fruto quanto dos dons do Espírito. É o primeiro e o mais importante nas duas listas. Paulo diz que o amor de Deus é derra- mado em nossos corações pelo Espírito (Rm 5.5). Ele diz que o amor é “do Espírito” (Rm 15.30) e “no Espírito” (Cl 1.8). De certa for- ma, exibir esse amor é evitar todas as obras da carne (1Co 13.4-7). A alegria do Espírito é uma marca fundamental do crente e é uma das características principais do próprio rei- no de Deus (Rm 14.17). Ela está relacionada à posição que o crente tem diante de Deus. Não é uma simples euforia por alguma con- quista pessoal, mas uma alegria sincera e profunda, oriunda da certeza da salvação, e que não diminui em meio às dificuldades e provações da vida (Fp 4.4). A paz que é fru- to do Espírito também é bastante diferen- te da “paz” que o mundo almeja. Essa paz não significa apenas ausência de conflito. O crente pode estar em paz mesmo em meio às guerras e tribulações da vida, afinal, a vida cristã é uma guerra externa e interna. Essa paz “excede todo o entendimento” (Fp 4.7). Como diz Stott, amor, alegria e paz são ca- racterísticas fundamentais do cristão, “tudo o que ele faz é concebido com amor, inicia- do com alegria e executado com paz”12. Em relação aos outros estão longanimidade, benignidade e bondade. Um temperamento longânimo é caracterizado pela demora em se irritar e por uma ausência completa de “pavio curto”, conseguindo suportar as ofen- sas dos outros e evitando o ato de julgar. A característica principal da longanimidade é a capacidade de esperar. O crente espera que as coisas mudem a longo prazo. Ele não de- seja tudo para hoje, pois consegue esperar o momento certo. A benignidade é uma virtu- de que tem a ver com o devido controle da 11 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 56. 12 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 56. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 13 Anthony Hoekema. Salvos Pela Graça, p. 51. força. É uma característica própria de Deus que não usa sua força além do necessário. Alguém benigno sabe ser bondoso com os que estão errados. A bondade tem em Deus o seu próprio padrão, pois somente Deus é realmente bom. Quando somos conver- tidos, o Espírito muda nossa essência má, tornando-nos imitadores de Deus. Assim, podemos demonstrar bondade uns com os outros sem esperar nada em troca. Em relação a nós mesmos estão fidelidade, mansidão e domínio próprio. A fidelidade é uma graça que o convertido recebe. Ele não é fiel aos outros, ele é fiel a si mesmo, pois em última instância sua fidelidade é para com Deus. Sua preocupação não é com o que os outros vão pensar, mas sim, com o que Deus pensa dele, e com o que ele pensa de si mesmo. Ele deseja agir coerentemente com o que recebeu de Deus. Não devemos confundir mansidão com fraqueza, pois al- guém que tem o poder e até o direito de re- vidar, mas abre mão disso por uma questão de fé, não é um covarde, é um corajoso. E domínio próprio é a virtude do auto-controle. Tem domínio próprio quem recebeu o po- der de controlar a língua, os apetites e até os pensamentos. Há um só fruto do espírito Precisamos notar que, apesar de termos lis- tado várias características, há na verdade, apenas um fruto do Espírito. Ainda que, ge- ralmente falemos em “frutos do Espírito”, a palavra em Gálatas 5.22 está no singular. Os dons do Espírito são muitos porque carac- terizam a diversidade de membros no cor- po de Cristo e, por conseguinte, ninguém tem todos os dons, mas o fruto não tem essa função, e por isso, cada crente verdadeiro deve produzir todo o fruto do Espírito. Todo crente tem pelo menos um dom que lhe foi concedido soberanamente pelo Espírito, além de ter a responsabilidade de buscar outros dons (Ver 1Co 12.3), porém, como diz Hoekema, “podemos ser salvos sem muitos dos dons do Espírito, mas não podemos ser salvos sem o fruto do Espírito”13. A unidade do fruto do Espírito, portanto, nos diz que não podemos escolher virtudes, devemos evidenciá-las todas. Uma pessoa não pode ser apenas “longânima” sem ser “fiel”. Do mesmo modo não pode evidenciar “amor” sem “domínio próprio”. A plenitude do fru- to do Espírito é a evidência principal da ple- nitude do Espírito. Característica orgânica do fruto Uma vez que estamos falando de “fruto”, também devemos pensar em seu crescimen- to orgânico. Isso nos sugere duas coisas: Primeiro que ele precisa crescer e segundo, que cresce em certas circunstâncias. Não devemos esperar que uma pessoa recém- convertida demonstre o fruto do Espírito em sua forma plena, pois ele será desenvolvido gradualmente. Isso nos leva à segunda ob- servação, pois para que algo se desenvolva, precisa ser alimentado. Usando a analogia da natureza, sabemos que uma árvore não precisa fazer força para produzir frutos, ela precisa dispor dos elementos necessários, como chuva, boa terra, sol, etc. Da mesma forma, o crente não produz frutos forçada- mente, mas quando dispõe dos elementos necessários para isso, como a pregação da Palavra, a comunhão entre os irmãos, a ora- ção, a meditação, etc., essas santas influên- cias do Espírito Santo produzirão, na vida do crente, o bendito fruto do Espírito. Esse é o segredo do “andar no Espírito”. E quem anda no Espírito tem a garantia de não satisfazer as concupiscências da carne (Gl 5.16; 25). O segredo do fruto do Espírito é andar no Espí- rito. Quando vivemos sob as influências do Espírito Santo, que nos são oferecidasatra- vés da Palavra de Deus, da oração, da comu- nhão e da igreja, o fruto do Espírito crescerá e amadurecerá naturalmente em nós. O Es- pírito nunca é estéril naquele em que habita, contudo, há um processo gradativo de matu- ridade espiritual. O fruto do Espírito não é algo eventual ou esporádico, mas gradativo e sistemático. Somos conduzidos dia a dia a frutificar no Espírito, pois como diz Hoeke- Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 ma: "Se andarmos continuamente no Espí- rito, estaremos continuamente abundando no fruto do Es pírito."14 CONCLUSÃO Portanto, a plenitude do Espírito é a vida ideal do crente. Nada menos do que isso deve nos satisfazer. Essa vida está acessível a todos os convertidos, pois Jesus continua acessível a todos, dizendo: venha e beba. Paulo disse que se andássemos no Espírito nunca satisfaríamos os desejos da carne (Gl 5-16). Quando estamos cheios do Es pírito, o mundo não brilha tanto para nós. Satanás já não é tão ameaçador, e nossa carne fica bastante enfraquecida. Ser cheio do Espíri- to é a garantia de uma vida cristã autêntica. Quando deixamos o pecado se avultar em nossa vida, perdemos o que temos de mais precioso, que é a comunhão com Deus me- diante a plenitude do Espírito dentro de nós. A vida do crente deve ser uma vida plena. O fruto do Espírito e a iluminação do Espírito devem ser coisas contínuas no processo de aperfeiçoamento. Viver abaixo deste padrão é viver uma vida esvaziada de significado e propósito, é simplesmente trágico. 14 A. A. Hoekema. O Cristão Toma Consciência do Seu Valor, p. 53. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3