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AULA 01 - A PESSOA DO ESPÍRITO SANTO 
Leandro Lima 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
Jesus disse: “O vento sopra onde quer, ou- 
ves a sua voz, mas não sabes donde vem, 
nem para onde vai; assim é todo o que é 
nascido do Espírito” (Jo 3.8). Ele destacou 
a existência do Espírito como análoga ao 
vento, demonstrando sua invisibilidade, 
sua imprevisibilidade, e ao mesmo tempo 
sua existência real e abençoadora. A palavra 
vento e a palavra Espírito são exatamente a 
mesma na língua grega1, e portanto, Jesus 
está fazendo um jogo de palavras nesse 
texto. Quando pensamos no Espírito como 
alguém semelhante ao vento, entendemos 
um pouco sobre quem ele é. Jesus disse: “O 
vento sopra onde quer”. Quem pode contro- 
lar o vento? Também ninguém pode contro- 
lar o Espírito. Em seguida disse: “Ouves a 
sua voz, mas não sabes de onde vem, nem 
para onde vai”. De alguma forma, podemos 
senti-lo, embora não possamos vê-lo, nem 
entendê-lo. Todos os crentes sabem quem é 
o Espírito Santo. Ninguém precisa descre- 
vê-lo para eles, até porque, ninguém conse- 
guiria. Todo crente sabe o que é esse mara- 
vilhoso sopro de vida e de paz que preenche 
a vida e eleva o nosso cotidiano. Essa “doce 
presença” inunda a existência do filho de 
Deus, e o leva a ter um relacionamento tão 
íntimo com Deus, quanto uma criancinha 
pode ter com seu pai (Rm 8.15). 
 
UMA PESSOA ESQUECIDA? 
 
Por outro lado, percebe-se que há muitos 
enganos a respeito da pessoa e da obra do 
Espírito Santo dentro do cristianismo. Se 
por séculos, o cristianismo pouco falou a 
respeito do Espírito2, o século vinte foi um 
verdadeiro despertar para o Espírito. Isso se 
deu basicamente por causa dos movimen- 
tos carismáticos que surgiram no início do 
século e se estenderam em sucessivas reno- 
vações até o fim do século vinte. Hoje, as 
igrejas pentecostais e neo-pentecostais são 
maioria absoluta em vários países do mun- 
do, inclusive no Brasil. O termo “pentecos- 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1 No grego é a palavra 
“pneuma”. No hebraico 
“ruach” é espírito e 
também é vento. 
 
 
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2 No início da igreja, a 
preocupação principal 
foi com a pessoa de 
Cristo, embora o 
Espírito Santo tenha 
recebido atenção. 
Durante a Reforma, 
a obra do Espírito 
Santo foi enfatizada, 
especialmente por 
Calvino, que redescobriu 
o papel do Espírito na 
aplicação da 
salvação. Mas nos 
estudos posteriores da 
Teologia Sistemática, 
a pessoa e a obra do 
Espírito nem sempre 
mereceram uma seção 
própria. Geralmente 
foi estudado junto 
com a Trindade ou 
dentro da Soteriologia. 
Sinclair B. Ferguson, 
no entanto, entende 
que o Espírito Santo 
não ficou esquecido nos 
escritos dos grandes 
teólogos, pois Calvino, 
Owen, Kuyper e 
outros se dedicaram à 
abordagem da doutrina 
do Espírito Santo, 
o que concordamos 
prontamente (Ver 
Sinclair B. Ferguson, O 
Espírito Santo, p. 9-10). 
3 R. C. Sproul. O 
Mistério do Espírito 
Santo, p. 17. 
tal” é uma referência aos acontecimentos do 
dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo 
desceu sobre os discípulos e eles passaram 
a falar em línguas estranhas (At 2). Supos- 
tos movimentos espirituais têm causado 
divisões e esfacelamento em denominações 
cristãs que tinham peso de séculos de exis- 
tência. Na “onda do Espírito” as pessoas têm 
tido as mais diversas e até aberrantes ma- 
nifestações supostamente espirituais. No 
outro extremo, muitos cristãos evitam todo 
tipo de manifestação espiritual, afastando- 
se completamente de tudo o que possa ter 
conotação carismática, e às vezes, vivem 
uma vida de frieza e indiferença em relação 
às coisas de Deus. 
 
Nesse estudo, consideraremos a personali- 
dade divina do Espírito, o significado de sua 
vinda, o batismo realizado por ele, e a dife- 
rença que ele produz na vida das pessoas. O 
objetivo é resgatar o ensino bíblico e o equi- 
líbrio sobre a pessoa e a obra do Espírito 
Santo na teoria e na prática da vida cristã. 
 
A PERSONALIDADE DO ESPÍRITO 
 
É impossível entendermos quem é o Espíri- 
to Santo se não o considerarmos como uma 
Pessoa. A Escritura demonstra claramente 
que o Espírito Santo é uma pessoa, mas não 
faltaram hereges na história da igreja que 
negaram isso. Desde os tempos mais primi- 
tivos, pessoas relutantes em aceitá-lo como 
Deus, e também como a terceira pessoa da 
Trindade, têm negado sua personalidade. 
Preferem pensar nele como uma “força” ou 
uma “energia” de Deus, como algo impesso- 
al que Deus emite para realizar seus planos 
no mundo. Embora o Espírito Santo real- 
mente seja aquele que realiza os planos de 
Deus no mundo, negar sua personalidade é 
negar o ensino bíblico. 
 
Em seguida analisaremos algumas passa- 
gens que demonstram que o Espírito Santo 
é uma pessoa. São textos que demonstram 
que ele tem habilidades próprias de uma 
personalidade. Como disse Sproul “uma 
personalidade inclui inteligência, vontade, 
individualidade. Uma pessoa age por inten- 
ção. Nenhuma força abstrata pode tencionar 
fazer qualquer coisa. Boas ou más intenções 
são limitadas aos poderes de seres pesso- 
ais”3. Todas essas coisas podem ser vistas nas 
descrições que a Bíblia faz sobre o Espírito 
Santo. Falar é propriedade da personalidade, 
pois uma força não fala. O Espírito falou com 
Filipe, conforme Lucas registrou: “Então, 
disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse 
carro e acompanha-o” (At 8.29). O Espírito 
queria que Filipe pregasse o Evangelho ao 
eunuco, e o levou até ele e ordenou que fa- 
lasse com ele. Uma força não faria isso. Da 
mesma forma, o Espírito falou com Pedro: 
“Disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens 
que te procuram; levanta-te, pois, desce e 
vai com eles, nada duvidando; porque eu 
os enviei” (At 10.19-20). Nesse caso, não só 
falou como deu instruções claras e precisas. 
Da mesma forma, Paulo e Barnabé foram 
chamados pela ordem do Espírito: “Disse o 
Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e 
Saulo para a obra a que os tenho chamado” 
(At 13.2). Aqui ele chama e demonstra pre- 
ferência, como também faz noutra ocasião 
quando desejam “ir para Bitínia, mas o Es- 
pírito de Jesus não o permitiu” (At 16.7). Ter 
a capacidade de ensinar também é obra de 
alguém que tem personalidade. Jesus disse: 
“Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem 
o Pai enviará em meu nome, esse vos ensi- 
nará todas as coisas e vos fará lembrar de 
tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). Tam- 
bém disse que ele testemunharia: “Quando, 
porém, vier o Consolador, que eu vos envia- 
rei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que 
dele procede, esse dará testemunho de mim” 
(Jo 15.26). Mais à frente, Jesus reiterou: 
“Quando vier, porém, o Espírito da verdade, 
ele vos guiará a toda a verdade; porque não 
falará por si mesmo, mas dirá tudo o que 
tiver ouvido e vos anunciará as coisas que 
hão de vir” (Jo 16.3). Todas essas capacidades 
de ensinar, testemunhar e guiar são coisas 
exclusivas de uma personalidade. Imaginar 
que uma força impessoal fosse capaz de rea- 
lizar essas coisas não faz sentido. 
 
 
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O Novo Testamento fala ainda sobre a ques- 
tão de não pecar contra o Espírito Santo (Mt 
12.31), do perigo de resistir ao Espírito San- 
to (At 7.51), e do dever de não entristecer o 
Espírito Santo (Ef 4.30). Como diz Sproul: 
“ele nos é apresentado como uma pessoa 
a quem podemos agradar ou ofender, que 
pode amar e ser amado e com quem pode- 
mos ter comunhão pessoal”4. Todas essas 
coisas são próprias apenas de uma pessoa. 
Portanto, o Espírito Santo não é uma força 
ou uma energia, ele é uma pessoa, uma pes- 
soa divina. 
 
A DIVINDADE DO ESPÍRITO 
 
Alguns textos poderão nos dar uma breve 
descrição do que a Escritura considera ser 
a divindade do Espírito Santo. A divindade 
do Espírito Santo fica demonstrada pela 
Bíblia no fato de que ele possui atributos 
divinos.Ele desempenhou papel impor- 
tante na criação (Gn 1.2), e desempenha 
na providência (Sl 104.30). Isso nos fala de 
sua onipotência. Também percebemos sua 
Onisciência, pois Isaías pergunta: “Quem 
guiou o Espírito do senhor? Ou, como seu 
conselheiro, o ensinou? Com quem tomou 
ele conselho, para que lhe desse compreen- 
são? Quem o instruiu na vereda do juízo, 
e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o 
caminho de entendimento?”. E Paulo diz 
que o Espírito “a todas as coisas perscruta, 
até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 
2.10). Sua Onipresença pode ser vista no 
Salmo 139:7-8 “Para onde me ausentarei do 
teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? 
Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha 
cama no mais profundo abismo, lá estás 
também”. O fato ainda de que o nome do 
Espírito Santo apareça junto com o nome 
do Pai e com o nome do Filho na fórmula 
batismal (Mt 28.19), e na bênção apostólica 
(2Co 13.13), demonstra a igualdade entre as 
três pessoas da Trindade, e nos leva a consi- 
derar a divindade do Espírito Santo. 
 
De todos, o texto que mais claramente 
aponta a divindade do Espírito Santo é Atos 
5.3-4: “Então, disse Pedro: Ananias, por 
que encheu Satanás teu coração, para que 
mentisses ao Espírito Santo, reservando 
parte do valor do campo? Conservando-o, 
porventura, não seria teu? E, vendido, não 
estaria em teu poder? Como, pois, assentas- 
te no coração este desígnio? Não mentiste 
aos homens, mas a Deus”. Na conhecida 
história em que Ananias e Safira vendem 
seu campo, mas resolvem entregar apenas 
metade do preço, Pedro disse que eles esta- 
vam mentindo “ao Espírito Santo”, e dessa 
forma, não mentiram aos homens, “mas a 
Deus”. Se mentir ao Espírito Santo é mentir 
a Deus, então, o Espírito Santo é Deus. 
 
A VINDA DO ESPÍRITO 
 
A vinda do Espírito marcaria uma nova era 
para o mundo, e especialmente para a igre- 
ja. Há muito tempo Deus vinha anunciando 
através dos profetas a chegada de uma era 
espetacular. Essa era foi identificada como 
um derramamento especial do Espírito San- 
to. Apesar do Espírito já estar em atividade 
durante todo o período do Antigo Testamen- 
to, como disse Stott, “mesmo assim, alguns 
profetas predisseram que nos dias do Mes- 
sias, Deus concederia uma difusão liberal 
do Espírito Santo, nova e diferente, bem 
como acessível a todos”5. 
 
Isaías profetizou que depois de um tempo 
de muita destruição para o povo de Israel, 
onde os palácios seriam abandonados, as 
cidades ficariam desertas, as torres seriam 
destruídas, finalmente, Deus derramaria o 
“Espírito lá do alto”; então, toda uma renova- 
ção aconteceria (Is 32.14-15). Esse derramar 
do Espírito passou a ser uma das grandes 
expectativas escatológicas do povo de Deus. 
Isaías fala ainda: “Porque derramarei água 
sobre o sedento e torrentes sobre a terra 
seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua 
posteridade e a minha bênção, sobre os teus 
descendentes” (Is 44.3). 
 
Ezequiel foi ainda mais específico sobre esse 
derramamento: “Então, aspergirei água pura 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 R. C. Sproul. O 
Mistério do Espírito 
Santo, p. 19. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 John Stott. Batismo 
e Plenitude do Espírito 
Santo, p. 17. 
 
 
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6 F. D. Bruner. 
Teologia do Espírito 
Santo, p. 126. 
 
7 Ver John Stott. 
Batismo e Plenitude do 
Espírito Santo, p. 20. 
sobre vós, e ficareis purificados; de todas as 
vossas imundícias e de todos os vossos ídolos 
vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e po- 
rei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós 
o coração de pedra e vos darei coração de car- 
ne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei 
que andeis nos meus estatutos, guardeis os 
meus juízos e os observeis” (Ez 36.27). 
 
E Joel fala da amplitude desse derramamen- 
to: “E acontecerá, depois, que derramarei 
o meu Espírito sobre toda a carne; vossos 
filhos e vossas filhas profetizarão, vossos 
velhos sonharão, e vossos jovens terão vi- 
sões; até sobre os servos e sobre as servas 
derramarei o meu Espírito naqueles dias” 
(Jl 2.28-29). 
 
Toda a expectativa sobre o derramamento 
do Espírito pode ser vista nas palavras de 
João Batista no início de seu ministério: 
“Eu vos tenho batizado com água; ele, po- 
rém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 
1.8). João Batista anunciou que a profecia 
do Antigo Testamento, sobre o derramar do 
Espírito Santo, logo se cumpriria na pessoa 
daquele a quem ele anunciava, o Senhor Je- 
sus Cristo. E o próprio Senhor, após a sua 
ressurreição, disse aos Apóstolos: “Eis que 
envio sobre vós a promessa de meu Pai; 
permanecei, pois, na cidade, até que do alto 
sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Jeru- 
salém seria o local onde finalmente o Espí- 
rito prometido viria. Bruner enfatiza a im- 
portância de Jerusalém nesse ponto: “Para 
receberem o Espírito Santo, os apóstolos 
são ordenados a não se ausentarem de Je- 
rusalém. Jerusalém, no conceito de Lucas, 
será o local do penúltimo evento da história 
da salvação antes do último evento: a volta 
de Cristo”6. Jerusalém é a cidade escolhi- 
da para que a antiga profecia se cumpra, e 
assim, o Espírito prometido venha sobre o 
povo escolhido. 
 
Por isso, no dia do Pentecostes, Pedro cla- 
ramente entendeu que a promessa havia se 
cumprido. Percebemos isso por suas pala- 
vras: “Mas o que ocorre é o que foi dito por 
intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos 
últimos dias, diz o Senhor, que derramarei 
do meu Espírito sobre toda a carne” (At 2.16- 
17). Sobre essa base, ele teve a coragem de 
proclamar à multidão que o ouvia: “Arrepen- 
dei-vos, e cada um de vós seja batizado em 
nome de Jesus Cristo para remissão dos vos- 
sos pecados, e recebereis o dom do Espírito 
Santo. Pois para vós outros é a promessa, 
para vossos filhos e para todos os que ainda 
estão longe, isto é, para quantos o Senhor, 
nosso Deus, chamar” (At 2.38-39). O per- 
dão dos pecados e o dom do Espírito eram 
promessas divinas que haviam acabado de 
se cumprir naquele dia. A última expressão 
de Pedro de que a promessa era para todos 
os que “Deus chamar”, aponta para o aspec- 
to universal da promessa do Espírito. Joel 
já havia dito que o derramamento seria so- 
bre todo tipo de pessoas, incluindo jovens, 
velhos, homens, mulheres, servos e servas 
(Jl 2.29). Independente de idade, sexo, raça 
e classe social, o dom incluía todos os que 
se arrependessem e cressem7. Agora Pedro 
começa a alargar ainda mais a tenda, pois 
começa a antever a possibilidade de que ou- 
tros povos sejam incluídos. 
 
O OUTRO CONSOLADOR 
 
Mas, para que o Espírito fosse enviado, Je- 
sus precisaria consumar a sua obra primei- 
ro. Jesus esteve com os discípulos por cerca 
de 3 anos. Ele precisava partir para o santu- 
ário celestial onde continuaria sua obra de 
intercessão pelo seu povo até o último dia, 
mas os discípulos não ficariam sozinhos 
nesse ínterim, pois Jesus disse: “Eu roga- 
rei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador” 
(Jo 14.16). Jesus foi o grande consolador de 
seus discípulos. A palavra grega para con- 
solador é parakletos, e significa literalmente 
“aquele que está ao lado de”. Mas agora, ele 
precisava partir e não poderia mais perma- 
necer ao lado de seus discípulos. Entretanto, 
não deixaria seus discípulos sozinhos, pois 
mandaria um companheiro para seus ami- 
gos: o Espírito Santo. A partir daquele mo- 
mento Jesus seria o consolador (parakletos) 
 
 
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no céu (1Jo 2.1), intercedendo por seus dis- 
cípulos de lá, enquanto que o Espírito seria 
o consolador (parakletos) na terra, também 
intercedendo e cuidando dos discípulos 
aqui (Rm 8.26). Não poderia haver bênção 
maior para o povo de Deus do que ter, não 
um, mas dois “consoladores”. 
 
Por várias vezes Jesus advertiu seus discípu- 
losde que precisava partir. Um dos motivos 
principais é que somente após sua partida 
poderia enviar o outro Consolador (Ver Jo 
7.38-39). Enquanto Jesus não fosse glorifica- 
do, o Espírito Santo não poderia ser enviado, 
por isso Jesus disse aos discípulos: “Mas eu 
vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, 
porque, se eu não for, o Consolador não virá 
para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo 
enviarei” (Jo 16.7). Era necessário que Cristo 
subisse aos céus e se assentasse à direita do 
trono de Deus, e assim glorificado, enviasse 
o Espírito Santo aos discípulos. 
 
Era muitíssimo necessário que o Espírito 
viesse. Além de substituir Jesus, ele teria 
funções extras. Seria sua função lembrar 
aos discípulos as coisas que Jesus havia dito 
(Jo 14.26). Também fazia parte de sua obra 
convencer o mundo do pecado da justiça e 
do juízo (Jo 18.8). Em tudo isto, o Espírito 
não agiria de forma independente, pois sua 
função era glorificar o próprio Jesus, exal- 
tando sua pessoa, seu poder e sua obra (Jo 
16.14). Esse é um ponto de máxima impor- 
tância, pois é comum, nos dias atuais, as 
pessoas enfatizarem mais a pessoa e a obra 
do Espírito Santo do que a do Pai e a do Fi- 
lho. É verdade que o Espírito Santo não foi 
considerado como devia ao longo da história 
da igreja, porém, é um erro querer enfatizar 
a obra do Espírito acima da obra de Jesus. A 
função do Espírito seria a de testemunhar 
de Jesus. Jesus disse: “Ele me glorificará, 
porque há de receber do que é meu e vo-lo 
há de anunciar” (Jo 16.14). 
 
Lloyd-Jones tem algumas palavras inte- 
ressantes nesse sentido: “Ao meu ver, esta 
é uma das coisas mais espantosas e extra- 
ordinárias acerca da doutrina bíblica sobre 
o Espírito Santo. Ele parece esquivar-se e 
ocultar-se. Ele está sempre, por assim di- 
zer, focalizando o Filho”8. De fato, a obra do 
Espírito Santo não é glorificar a si mesmo. 
Ele é como um holofote, sua função é ilu- 
minar, mas não a si mesmo, e sim a pessoa 
de Jesus. Ele quer glorificar o Senhor Je- 
sus, nos dando conhecimento dele e de seu 
amor por nós. Por essa razão, Lloyd-Jones 
está certo em afirmar que podemos saber 
o quanto temos do Espírito de acordo com 
o quanto consideramos o Senhor Jesus9. 
Como as pessoas não têm olhado para essa 
obra do Espírito, e têm focalizado excessiva- 
mente nele como um “fim em si mesmo”, 
podemos dizer que ele continua esquecido, 
muito embora as livrarias estejam cheias 
de livros a respeito do poder e da influência 
vencedora do Espírito. 
 
Jesus disse que o Espírito Santo seria envia- 
do para estar sempre com os discípulos, ou 
seja, eles não poderiam viver sem este Espí- 
rito. Isso nos fala da importância do Espírito 
Santo para a vida do crente. Não dá para con- 
ceber um crente sem o Espírito Santo, pois 
ele é absolutamente vital para que o crente 
conheça Jesus e receba a salvação. Um cren- 
te sem o Espírito Santo em hipótese alguma 
pode ser crente verdadeiro, pois a presença 
do Espírito Santo na vida dos discípulos é a 
garantia de que, de fato, conhecem a Jesus e 
pertencem a ele (Ver Rm 8.9, Ef 1.13-14). 
 
NO PODER DO ESPÍRITO 
 
Finalmente, devemos considerar a missão 
do Espírito Santo. Ele foi enviado para ca- 
pacitar a igreja a fim de desempenhar a ta- 
refa de propagar o Reino de Deus. Quando 
lemos o Novo Testamento, percebemos que 
até o Pentecostes, os discípulos nunca ha- 
viam entendido realmente qual era a liga- 
ção entre Jesus e o reino de Deus. Durante 
todo o ministério público de Jesus, eles es- 
peraram pela manifestação física, político- 
institucional deste reino. Lembramos que a 
nação de Israel era dominada pela poderosa 
 
 
 
 
8 D. M. Lloyd-Jones. 
Deus o Espírito Santo, 
p. 31. 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 D. M. Lloyd-Jones. 
Deus o Espírito Santo, 
p. 31. 
 
 
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Roma, e frequentemente apareciam “liber- 
tadores” que arrastavam um pouco de povo 
para enfrentar de maneira suicida os pode- 
rosos exércitos romanos. A maior esperança 
de Israel estava na vinda do Messias, o pro- 
metido desde os tempos mais remotos do 
Antigo Testamento. Todos esperavam que 
ele libertasse a nação da escravidão e a es- 
tabelecesse como um reino próspero dian- 
te do qual todos os reinos da terra teriam 
que se prostrar. Os discípulos acreditavam 
que Jesus fosse o Messias, e portanto, espe- 
ravam que ele, de alguma forma tomasse o 
poder, assentasse no trono e restabelecesse 
a monarquia absoluta de Israel. Todas essas 
esperanças dos discípulos se acabaram com 
a morte de Jesus, entretanto se reacenderam 
extraordinariamente com a ressurreição. 
 
Em Atos 1.6, os discípulos se dirigem a Je- 
sus e pedem: “Senhor, será este o tempo em 
que restaures o reino a Israel?”. Jesus res- 
pondeu que a eles não seria dado conhecer 
tempos (cronos) e épocas (kairós) que o Se- 
nhor havia reservado exclusivamente para 
ele, mas, promete mandar o Espírito Santo 
que faria deles testemunhas cheias de poder 
em todo o mundo. Ele capacitaria a igreja a 
desempenhar seu papel no mundo. A igreja 
seria o instrumento para o estabelecimento 
do Reino de Deus, porém, seria um reino 
diferente, pelo menos, até a Segunda Vinda 
de Jesus. 
 
Ao dar esta resposta aos discípulos, Jesus es- 
tava lhes ensinando algo muito importante. 
Em primeiro lugar a restauração do reino (se 
é que haveria alguma restauração da forma 
como eles esperavam) não era assunto para 
aquele momento. Aproximava-se o instan- 
te da partida de Jesus, mas ele tinha planos 
grandiosos para seus discípulos, entretanto 
eles precisavam entender o caráter do Rei- 
no de Deus que se manifestava naquele mo- 
mento. Em várias ocasiões, quando interro- 
gado, Jesus explicou que o Reino de Deus já 
estava no meio do povo. Entendemos que 
ele se fazia presente na pessoa, na obra e 
no ensino do Messias. Dessa forma o reino 
poderia estar dentro de cada um (Lc 17.21). 
A expansão do reino espiritual era matéria 
para aquele momento e não de um reino fí- 
sico. O reino físico ficaria para o futuro, e 
seria a consumação do reino espiritual. Os 
discípulos seriam responsáveis pela tarefa 
de expandir o reino espiritual e para garan- 
tir que ela teria êxito, lhes seria mandado o 
Espírito Santo como fonte de poder. 
 
Entre os benefícios poderosos que o Espírito 
Santo concederia àqueles homens estava o 
entendimento, a ousadia e a garantia de re- 
sultados. Basta comparar a vida deles antes 
do Pentecostes com a depois, para ver como 
isso fez diferença. O entendimento pode ser 
visto pela mudança que ocorreu neles. Eles 
não entendiam bem como funcionava a ques- 
tão do Reino de Deus naquele momento, po- 
rém, mais tarde escreveram cartas que foram 
e continuam sendo o fundamento teológico 
da igreja. Mas não foi apenas entendimento 
que o Espírito Santo concedeu aos discípu- 
los, ele lhes deu também ousadia. Sabemos 
que os discípulos eram inconstantes durante 
a vida de Jesus e principalmente durante sua 
prisão e execução. Temiam por suas próprias 
vidas e preferiam se esconder dos sacerdotes 
a enfrentá-los (Ver Jo 20.19). Entretanto, que 
mudança poderosa se operou na vida daque- 
les amedrontados discípulos! Basta dar uma 
olhada no livro de Atos para ver o quanto 
suas vidas foram transformadas e com que 
ousadia falavam sobre Jesus, a ponto de não 
temerem os castigos, as afrontas, ou a pró- 
pria morte (Ver At 2.14-36; 4.1-22; 5.17-42). 
Porém, de nada adiantaria os discípulos re- 
ceberem entendimento e ousadia, se o Es- 
pírito Santo não autenticasse a obra deles 
conferindo resultado. Quando falamos em 
resultado, estamos dizendo que a obra do 
Reino alcança resultados visíveis. Para exem- 
plificarmos isso, basta lembrarmos que até o 
dia do Pentecostes havia 120 pessoas que se 
denominavam discípulos, e naquele mesmo 
dia foram acrescentadas mais três mil (At 
2.41). Pouco tempo depois o número subiu 
para cinco mil (At 4.4). Deus autenticou a 
obra deles conferindo resultados.Made with Xodo PDF Reader and Editor
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Nessa mesma perspectiva Jesus disse que a 
vinda do Espírito Santo faria dos discípulos 
testemunhas dele. Quando pensamos numa 
testemunha precisamos ter três coisas em 
mente. Em primeiro lugar diz respeito a al- 
guém que presenciou fatos. Uma testemu- 
nha é alguém que esteve presente e pôde ve- 
rificar a exatidão de certos acontecimentos. 
Os discípulos possuíam essa característica. 
Haviam presenciado tudo o que aconteceu 
e, por mais extraordinário que pudesse pare- 
cer, eles tinham certeza absoluta de que tudo 
era verdade. Em segundo lugar uma teste- 
munha é alguém que fala a respeito daquilo 
que viu. Alguém que testemunhou, mas que 
não manifesta por medo ou falta de vontade 
não é uma testemunha verdadeira. O Espíri- 
to lhes capacitou para testemunharem. Po- 
rém, em terceiro lugar, e talvez seja a maior 
característica da testemunha, ela sustenta 
seu testemunho até o fim. A própria pala- 
vra “testemunho” na língua grega é martyres 
donde vem o significado moderno de mártir. 
O mártir está disposto a morrer por aquilo 
que fala. Nada menos do que isso pode ser 
chamado de testemunha, e somente a pre- 
sença do Espírito Santo poderia habilitar os 
amedrontados discípulos a se tornarem va- 
lorosos mártires (testemunhas) do Senhor 
Jesus. Num resumo, para ser testemunha é 
necessário experimentar, falar e sustentar o 
testemunho até o fim. O Espírito é a grande 
testemunha de Cristo, e fez os discípulos se- 
rem testemunhas também (Jo 15.26-27). 
Jesus ampliou grandemente o horizonte 
dos discípulos. Eles estavam pensando num 
reino restrito a Israel, mas Jesus disse que 
pretendia que este reino se estendesse até 
aos confins da terra. E esta expansão seria 
feita através deles. É certo que começariam 
em Jerusalém a nas circunvizinhanças da 
Judéia, mas depois se estenderiam até a des- 
prezada Samaria e por fim alcançariam os 
lugares mais longínquos da terra. A respon- 
sabilidade desta obra e a eficácia do Espírito 
Santo não foram outorgadas apenas aos dis- 
cípulos que estavam reunidos naquele dia 
em Jerusalém, pois se estendem a todos os 
crentes até a vinda de Jesus. Esse mesmo 
Espírito está presente na vida das pessoas, 
regenerando-as, guiando-as à verdade, dan- 
do poder para viverem uma vida fiel, sendo 
poderosas testemunhas de Cristo. É muito 
discutível que o Espírito esteja realmen- 
te presente nos lugares onde há divisões, 
concorrência espiritual, aberrações e outras 
coisas semelhantes que têm se tornado tão 
comuns entre os evangélicos. Essas pessoas 
deveriam voltar à Palavra de Deus, e desen- 
volver uma vida equilibrada, com um alvo de 
santidade e testemunho de Jesus. Por outro 
lado, também aqueles que evitam toda ma- 
nifestação espiritual deveriam reconsiderar 
se não estão perdendo tempo em discussões 
de importância secundária, e se, por tanto 
medo do falso, não estão fechando as por- 
tas para o verdadeiro Espírito, que age onde 
quer e como quer (Jo 3.8). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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