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AULA 01 - A PESSOA DO ESPÍRITO SANTO Leandro Lima INTRODUÇÃO Jesus disse: “O vento sopra onde quer, ou- ves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Ele destacou a existência do Espírito como análoga ao vento, demonstrando sua invisibilidade, sua imprevisibilidade, e ao mesmo tempo sua existência real e abençoadora. A palavra vento e a palavra Espírito são exatamente a mesma na língua grega1, e portanto, Jesus está fazendo um jogo de palavras nesse texto. Quando pensamos no Espírito como alguém semelhante ao vento, entendemos um pouco sobre quem ele é. Jesus disse: “O vento sopra onde quer”. Quem pode contro- lar o vento? Também ninguém pode contro- lar o Espírito. Em seguida disse: “Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai”. De alguma forma, podemos senti-lo, embora não possamos vê-lo, nem entendê-lo. Todos os crentes sabem quem é o Espírito Santo. Ninguém precisa descre- vê-lo para eles, até porque, ninguém conse- guiria. Todo crente sabe o que é esse mara- vilhoso sopro de vida e de paz que preenche a vida e eleva o nosso cotidiano. Essa “doce presença” inunda a existência do filho de Deus, e o leva a ter um relacionamento tão íntimo com Deus, quanto uma criancinha pode ter com seu pai (Rm 8.15). UMA PESSOA ESQUECIDA? Por outro lado, percebe-se que há muitos enganos a respeito da pessoa e da obra do Espírito Santo dentro do cristianismo. Se por séculos, o cristianismo pouco falou a respeito do Espírito2, o século vinte foi um verdadeiro despertar para o Espírito. Isso se deu basicamente por causa dos movimen- tos carismáticos que surgiram no início do século e se estenderam em sucessivas reno- vações até o fim do século vinte. Hoje, as igrejas pentecostais e neo-pentecostais são maioria absoluta em vários países do mun- do, inclusive no Brasil. O termo “pentecos- 1 No grego é a palavra “pneuma”. No hebraico “ruach” é espírito e também é vento. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 2 No início da igreja, a preocupação principal foi com a pessoa de Cristo, embora o Espírito Santo tenha recebido atenção. Durante a Reforma, a obra do Espírito Santo foi enfatizada, especialmente por Calvino, que redescobriu o papel do Espírito na aplicação da salvação. Mas nos estudos posteriores da Teologia Sistemática, a pessoa e a obra do Espírito nem sempre mereceram uma seção própria. Geralmente foi estudado junto com a Trindade ou dentro da Soteriologia. Sinclair B. Ferguson, no entanto, entende que o Espírito Santo não ficou esquecido nos escritos dos grandes teólogos, pois Calvino, Owen, Kuyper e outros se dedicaram à abordagem da doutrina do Espírito Santo, o que concordamos prontamente (Ver Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, p. 9-10). 3 R. C. Sproul. O Mistério do Espírito Santo, p. 17. tal” é uma referência aos acontecimentos do dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e eles passaram a falar em línguas estranhas (At 2). Supos- tos movimentos espirituais têm causado divisões e esfacelamento em denominações cristãs que tinham peso de séculos de exis- tência. Na “onda do Espírito” as pessoas têm tido as mais diversas e até aberrantes ma- nifestações supostamente espirituais. No outro extremo, muitos cristãos evitam todo tipo de manifestação espiritual, afastando- se completamente de tudo o que possa ter conotação carismática, e às vezes, vivem uma vida de frieza e indiferença em relação às coisas de Deus. Nesse estudo, consideraremos a personali- dade divina do Espírito, o significado de sua vinda, o batismo realizado por ele, e a dife- rença que ele produz na vida das pessoas. O objetivo é resgatar o ensino bíblico e o equi- líbrio sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo na teoria e na prática da vida cristã. A PERSONALIDADE DO ESPÍRITO É impossível entendermos quem é o Espíri- to Santo se não o considerarmos como uma Pessoa. A Escritura demonstra claramente que o Espírito Santo é uma pessoa, mas não faltaram hereges na história da igreja que negaram isso. Desde os tempos mais primi- tivos, pessoas relutantes em aceitá-lo como Deus, e também como a terceira pessoa da Trindade, têm negado sua personalidade. Preferem pensar nele como uma “força” ou uma “energia” de Deus, como algo impesso- al que Deus emite para realizar seus planos no mundo. Embora o Espírito Santo real- mente seja aquele que realiza os planos de Deus no mundo, negar sua personalidade é negar o ensino bíblico. Em seguida analisaremos algumas passa- gens que demonstram que o Espírito Santo é uma pessoa. São textos que demonstram que ele tem habilidades próprias de uma personalidade. Como disse Sproul “uma personalidade inclui inteligência, vontade, individualidade. Uma pessoa age por inten- ção. Nenhuma força abstrata pode tencionar fazer qualquer coisa. Boas ou más intenções são limitadas aos poderes de seres pesso- ais”3. Todas essas coisas podem ser vistas nas descrições que a Bíblia faz sobre o Espírito Santo. Falar é propriedade da personalidade, pois uma força não fala. O Espírito falou com Filipe, conforme Lucas registrou: “Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o” (At 8.29). O Espírito queria que Filipe pregasse o Evangelho ao eunuco, e o levou até ele e ordenou que fa- lasse com ele. Uma força não faria isso. Da mesma forma, o Espírito falou com Pedro: “Disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram; levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei” (At 10.19-20). Nesse caso, não só falou como deu instruções claras e precisas. Da mesma forma, Paulo e Barnabé foram chamados pela ordem do Espírito: “Disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2). Aqui ele chama e demonstra pre- ferência, como também faz noutra ocasião quando desejam “ir para Bitínia, mas o Es- pírito de Jesus não o permitiu” (At 16.7). Ter a capacidade de ensinar também é obra de alguém que tem personalidade. Jesus disse: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensi- nará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). Tam- bém disse que ele testemunharia: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos envia- rei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). Mais à frente, Jesus reiterou: “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir” (Jo 16.3). Todas essas capacidades de ensinar, testemunhar e guiar são coisas exclusivas de uma personalidade. Imaginar que uma força impessoal fosse capaz de rea- lizar essas coisas não faz sentido. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 O Novo Testamento fala ainda sobre a ques- tão de não pecar contra o Espírito Santo (Mt 12.31), do perigo de resistir ao Espírito San- to (At 7.51), e do dever de não entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30). Como diz Sproul: “ele nos é apresentado como uma pessoa a quem podemos agradar ou ofender, que pode amar e ser amado e com quem pode- mos ter comunhão pessoal”4. Todas essas coisas são próprias apenas de uma pessoa. Portanto, o Espírito Santo não é uma força ou uma energia, ele é uma pessoa, uma pes- soa divina. A DIVINDADE DO ESPÍRITO Alguns textos poderão nos dar uma breve descrição do que a Escritura considera ser a divindade do Espírito Santo. A divindade do Espírito Santo fica demonstrada pela Bíblia no fato de que ele possui atributos divinos.Ele desempenhou papel impor- tante na criação (Gn 1.2), e desempenha na providência (Sl 104.30). Isso nos fala de sua onipotência. Também percebemos sua Onisciência, pois Isaías pergunta: “Quem guiou o Espírito do senhor? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreen- são? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?”. E Paulo diz que o Espírito “a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10). Sua Onipresença pode ser vista no Salmo 139:7-8 “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também”. O fato ainda de que o nome do Espírito Santo apareça junto com o nome do Pai e com o nome do Filho na fórmula batismal (Mt 28.19), e na bênção apostólica (2Co 13.13), demonstra a igualdade entre as três pessoas da Trindade, e nos leva a consi- derar a divindade do Espírito Santo. De todos, o texto que mais claramente aponta a divindade do Espírito Santo é Atos 5.3-4: “Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentas- te no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus”. Na conhecida história em que Ananias e Safira vendem seu campo, mas resolvem entregar apenas metade do preço, Pedro disse que eles esta- vam mentindo “ao Espírito Santo”, e dessa forma, não mentiram aos homens, “mas a Deus”. Se mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus, então, o Espírito Santo é Deus. A VINDA DO ESPÍRITO A vinda do Espírito marcaria uma nova era para o mundo, e especialmente para a igre- ja. Há muito tempo Deus vinha anunciando através dos profetas a chegada de uma era espetacular. Essa era foi identificada como um derramamento especial do Espírito San- to. Apesar do Espírito já estar em atividade durante todo o período do Antigo Testamen- to, como disse Stott, “mesmo assim, alguns profetas predisseram que nos dias do Mes- sias, Deus concederia uma difusão liberal do Espírito Santo, nova e diferente, bem como acessível a todos”5. Isaías profetizou que depois de um tempo de muita destruição para o povo de Israel, onde os palácios seriam abandonados, as cidades ficariam desertas, as torres seriam destruídas, finalmente, Deus derramaria o “Espírito lá do alto”; então, toda uma renova- ção aconteceria (Is 32.14-15). Esse derramar do Espírito passou a ser uma das grandes expectativas escatológicas do povo de Deus. Isaías fala ainda: “Porque derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção, sobre os teus descendentes” (Is 44.3). Ezequiel foi ainda mais específico sobre esse derramamento: “Então, aspergirei água pura 4 R. C. Sproul. O Mistério do Espírito Santo, p. 19. 5 John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 17. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 6 F. D. Bruner. Teologia do Espírito Santo, p. 126. 7 Ver John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 20. sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e po- rei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de car- ne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.27). E Joel fala da amplitude desse derramamen- to: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão vi- sões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias” (Jl 2.28-29). Toda a expectativa sobre o derramamento do Espírito pode ser vista nas palavras de João Batista no início de seu ministério: “Eu vos tenho batizado com água; ele, po- rém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1.8). João Batista anunciou que a profecia do Antigo Testamento, sobre o derramar do Espírito Santo, logo se cumpriria na pessoa daquele a quem ele anunciava, o Senhor Je- sus Cristo. E o próprio Senhor, após a sua ressurreição, disse aos Apóstolos: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Jeru- salém seria o local onde finalmente o Espí- rito prometido viria. Bruner enfatiza a im- portância de Jerusalém nesse ponto: “Para receberem o Espírito Santo, os apóstolos são ordenados a não se ausentarem de Je- rusalém. Jerusalém, no conceito de Lucas, será o local do penúltimo evento da história da salvação antes do último evento: a volta de Cristo”6. Jerusalém é a cidade escolhi- da para que a antiga profecia se cumpra, e assim, o Espírito prometido venha sobre o povo escolhido. Por isso, no dia do Pentecostes, Pedro cla- ramente entendeu que a promessa havia se cumprido. Percebemos isso por suas pala- vras: “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” (At 2.16- 17). Sobre essa base, ele teve a coragem de proclamar à multidão que o ouvia: “Arrepen- dei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vos- sos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.38-39). O per- dão dos pecados e o dom do Espírito eram promessas divinas que haviam acabado de se cumprir naquele dia. A última expressão de Pedro de que a promessa era para todos os que “Deus chamar”, aponta para o aspec- to universal da promessa do Espírito. Joel já havia dito que o derramamento seria so- bre todo tipo de pessoas, incluindo jovens, velhos, homens, mulheres, servos e servas (Jl 2.29). Independente de idade, sexo, raça e classe social, o dom incluía todos os que se arrependessem e cressem7. Agora Pedro começa a alargar ainda mais a tenda, pois começa a antever a possibilidade de que ou- tros povos sejam incluídos. O OUTRO CONSOLADOR Mas, para que o Espírito fosse enviado, Je- sus precisaria consumar a sua obra primei- ro. Jesus esteve com os discípulos por cerca de 3 anos. Ele precisava partir para o santu- ário celestial onde continuaria sua obra de intercessão pelo seu povo até o último dia, mas os discípulos não ficariam sozinhos nesse ínterim, pois Jesus disse: “Eu roga- rei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador” (Jo 14.16). Jesus foi o grande consolador de seus discípulos. A palavra grega para con- solador é parakletos, e significa literalmente “aquele que está ao lado de”. Mas agora, ele precisava partir e não poderia mais perma- necer ao lado de seus discípulos. Entretanto, não deixaria seus discípulos sozinhos, pois mandaria um companheiro para seus ami- gos: o Espírito Santo. A partir daquele mo- mento Jesus seria o consolador (parakletos) Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 no céu (1Jo 2.1), intercedendo por seus dis- cípulos de lá, enquanto que o Espírito seria o consolador (parakletos) na terra, também intercedendo e cuidando dos discípulos aqui (Rm 8.26). Não poderia haver bênção maior para o povo de Deus do que ter, não um, mas dois “consoladores”. Por várias vezes Jesus advertiu seus discípu- losde que precisava partir. Um dos motivos principais é que somente após sua partida poderia enviar o outro Consolador (Ver Jo 7.38-39). Enquanto Jesus não fosse glorifica- do, o Espírito Santo não poderia ser enviado, por isso Jesus disse aos discípulos: “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.7). Era necessário que Cristo subisse aos céus e se assentasse à direita do trono de Deus, e assim glorificado, enviasse o Espírito Santo aos discípulos. Era muitíssimo necessário que o Espírito viesse. Além de substituir Jesus, ele teria funções extras. Seria sua função lembrar aos discípulos as coisas que Jesus havia dito (Jo 14.26). Também fazia parte de sua obra convencer o mundo do pecado da justiça e do juízo (Jo 18.8). Em tudo isto, o Espírito não agiria de forma independente, pois sua função era glorificar o próprio Jesus, exal- tando sua pessoa, seu poder e sua obra (Jo 16.14). Esse é um ponto de máxima impor- tância, pois é comum, nos dias atuais, as pessoas enfatizarem mais a pessoa e a obra do Espírito Santo do que a do Pai e a do Fi- lho. É verdade que o Espírito Santo não foi considerado como devia ao longo da história da igreja, porém, é um erro querer enfatizar a obra do Espírito acima da obra de Jesus. A função do Espírito seria a de testemunhar de Jesus. Jesus disse: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). Lloyd-Jones tem algumas palavras inte- ressantes nesse sentido: “Ao meu ver, esta é uma das coisas mais espantosas e extra- ordinárias acerca da doutrina bíblica sobre o Espírito Santo. Ele parece esquivar-se e ocultar-se. Ele está sempre, por assim di- zer, focalizando o Filho”8. De fato, a obra do Espírito Santo não é glorificar a si mesmo. Ele é como um holofote, sua função é ilu- minar, mas não a si mesmo, e sim a pessoa de Jesus. Ele quer glorificar o Senhor Je- sus, nos dando conhecimento dele e de seu amor por nós. Por essa razão, Lloyd-Jones está certo em afirmar que podemos saber o quanto temos do Espírito de acordo com o quanto consideramos o Senhor Jesus9. Como as pessoas não têm olhado para essa obra do Espírito, e têm focalizado excessiva- mente nele como um “fim em si mesmo”, podemos dizer que ele continua esquecido, muito embora as livrarias estejam cheias de livros a respeito do poder e da influência vencedora do Espírito. Jesus disse que o Espírito Santo seria envia- do para estar sempre com os discípulos, ou seja, eles não poderiam viver sem este Espí- rito. Isso nos fala da importância do Espírito Santo para a vida do crente. Não dá para con- ceber um crente sem o Espírito Santo, pois ele é absolutamente vital para que o crente conheça Jesus e receba a salvação. Um cren- te sem o Espírito Santo em hipótese alguma pode ser crente verdadeiro, pois a presença do Espírito Santo na vida dos discípulos é a garantia de que, de fato, conhecem a Jesus e pertencem a ele (Ver Rm 8.9, Ef 1.13-14). NO PODER DO ESPÍRITO Finalmente, devemos considerar a missão do Espírito Santo. Ele foi enviado para ca- pacitar a igreja a fim de desempenhar a ta- refa de propagar o Reino de Deus. Quando lemos o Novo Testamento, percebemos que até o Pentecostes, os discípulos nunca ha- viam entendido realmente qual era a liga- ção entre Jesus e o reino de Deus. Durante todo o ministério público de Jesus, eles es- peraram pela manifestação física, político- institucional deste reino. Lembramos que a nação de Israel era dominada pela poderosa 8 D. M. Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo, p. 31. 9 D. M. Lloyd-Jones. Deus o Espírito Santo, p. 31. Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 Roma, e frequentemente apareciam “liber- tadores” que arrastavam um pouco de povo para enfrentar de maneira suicida os pode- rosos exércitos romanos. A maior esperança de Israel estava na vinda do Messias, o pro- metido desde os tempos mais remotos do Antigo Testamento. Todos esperavam que ele libertasse a nação da escravidão e a es- tabelecesse como um reino próspero dian- te do qual todos os reinos da terra teriam que se prostrar. Os discípulos acreditavam que Jesus fosse o Messias, e portanto, espe- ravam que ele, de alguma forma tomasse o poder, assentasse no trono e restabelecesse a monarquia absoluta de Israel. Todas essas esperanças dos discípulos se acabaram com a morte de Jesus, entretanto se reacenderam extraordinariamente com a ressurreição. Em Atos 1.6, os discípulos se dirigem a Je- sus e pedem: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”. Jesus res- pondeu que a eles não seria dado conhecer tempos (cronos) e épocas (kairós) que o Se- nhor havia reservado exclusivamente para ele, mas, promete mandar o Espírito Santo que faria deles testemunhas cheias de poder em todo o mundo. Ele capacitaria a igreja a desempenhar seu papel no mundo. A igreja seria o instrumento para o estabelecimento do Reino de Deus, porém, seria um reino diferente, pelo menos, até a Segunda Vinda de Jesus. Ao dar esta resposta aos discípulos, Jesus es- tava lhes ensinando algo muito importante. Em primeiro lugar a restauração do reino (se é que haveria alguma restauração da forma como eles esperavam) não era assunto para aquele momento. Aproximava-se o instan- te da partida de Jesus, mas ele tinha planos grandiosos para seus discípulos, entretanto eles precisavam entender o caráter do Rei- no de Deus que se manifestava naquele mo- mento. Em várias ocasiões, quando interro- gado, Jesus explicou que o Reino de Deus já estava no meio do povo. Entendemos que ele se fazia presente na pessoa, na obra e no ensino do Messias. Dessa forma o reino poderia estar dentro de cada um (Lc 17.21). A expansão do reino espiritual era matéria para aquele momento e não de um reino fí- sico. O reino físico ficaria para o futuro, e seria a consumação do reino espiritual. Os discípulos seriam responsáveis pela tarefa de expandir o reino espiritual e para garan- tir que ela teria êxito, lhes seria mandado o Espírito Santo como fonte de poder. Entre os benefícios poderosos que o Espírito Santo concederia àqueles homens estava o entendimento, a ousadia e a garantia de re- sultados. Basta comparar a vida deles antes do Pentecostes com a depois, para ver como isso fez diferença. O entendimento pode ser visto pela mudança que ocorreu neles. Eles não entendiam bem como funcionava a ques- tão do Reino de Deus naquele momento, po- rém, mais tarde escreveram cartas que foram e continuam sendo o fundamento teológico da igreja. Mas não foi apenas entendimento que o Espírito Santo concedeu aos discípu- los, ele lhes deu também ousadia. Sabemos que os discípulos eram inconstantes durante a vida de Jesus e principalmente durante sua prisão e execução. Temiam por suas próprias vidas e preferiam se esconder dos sacerdotes a enfrentá-los (Ver Jo 20.19). Entretanto, que mudança poderosa se operou na vida daque- les amedrontados discípulos! Basta dar uma olhada no livro de Atos para ver o quanto suas vidas foram transformadas e com que ousadia falavam sobre Jesus, a ponto de não temerem os castigos, as afrontas, ou a pró- pria morte (Ver At 2.14-36; 4.1-22; 5.17-42). Porém, de nada adiantaria os discípulos re- ceberem entendimento e ousadia, se o Es- pírito Santo não autenticasse a obra deles conferindo resultado. Quando falamos em resultado, estamos dizendo que a obra do Reino alcança resultados visíveis. Para exem- plificarmos isso, basta lembrarmos que até o dia do Pentecostes havia 120 pessoas que se denominavam discípulos, e naquele mesmo dia foram acrescentadas mais três mil (At 2.41). Pouco tempo depois o número subiu para cinco mil (At 4.4). Deus autenticou a obra deles conferindo resultados.Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3 Nessa mesma perspectiva Jesus disse que a vinda do Espírito Santo faria dos discípulos testemunhas dele. Quando pensamos numa testemunha precisamos ter três coisas em mente. Em primeiro lugar diz respeito a al- guém que presenciou fatos. Uma testemu- nha é alguém que esteve presente e pôde ve- rificar a exatidão de certos acontecimentos. Os discípulos possuíam essa característica. Haviam presenciado tudo o que aconteceu e, por mais extraordinário que pudesse pare- cer, eles tinham certeza absoluta de que tudo era verdade. Em segundo lugar uma teste- munha é alguém que fala a respeito daquilo que viu. Alguém que testemunhou, mas que não manifesta por medo ou falta de vontade não é uma testemunha verdadeira. O Espíri- to lhes capacitou para testemunharem. Po- rém, em terceiro lugar, e talvez seja a maior característica da testemunha, ela sustenta seu testemunho até o fim. A própria pala- vra “testemunho” na língua grega é martyres donde vem o significado moderno de mártir. O mártir está disposto a morrer por aquilo que fala. Nada menos do que isso pode ser chamado de testemunha, e somente a pre- sença do Espírito Santo poderia habilitar os amedrontados discípulos a se tornarem va- lorosos mártires (testemunhas) do Senhor Jesus. Num resumo, para ser testemunha é necessário experimentar, falar e sustentar o testemunho até o fim. O Espírito é a grande testemunha de Cristo, e fez os discípulos se- rem testemunhas também (Jo 15.26-27). Jesus ampliou grandemente o horizonte dos discípulos. Eles estavam pensando num reino restrito a Israel, mas Jesus disse que pretendia que este reino se estendesse até aos confins da terra. E esta expansão seria feita através deles. É certo que começariam em Jerusalém a nas circunvizinhanças da Judéia, mas depois se estenderiam até a des- prezada Samaria e por fim alcançariam os lugares mais longínquos da terra. A respon- sabilidade desta obra e a eficácia do Espírito Santo não foram outorgadas apenas aos dis- cípulos que estavam reunidos naquele dia em Jerusalém, pois se estendem a todos os crentes até a vinda de Jesus. Esse mesmo Espírito está presente na vida das pessoas, regenerando-as, guiando-as à verdade, dan- do poder para viverem uma vida fiel, sendo poderosas testemunhas de Cristo. É muito discutível que o Espírito esteja realmen- te presente nos lugares onde há divisões, concorrência espiritual, aberrações e outras coisas semelhantes que têm se tornado tão comuns entre os evangélicos. Essas pessoas deveriam voltar à Palavra de Deus, e desen- volver uma vida equilibrada, com um alvo de santidade e testemunho de Jesus. Por outro lado, também aqueles que evitam toda ma- nifestação espiritual deveriam reconsiderar se não estão perdendo tempo em discussões de importância secundária, e se, por tanto medo do falso, não estão fechando as por- tas para o verdadeiro Espírito, que age onde quer e como quer (Jo 3.8). Made with Xodo PDF Reader and Editor https://xodo.onelink.me/MzCS/r9imbau3