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REFUTAÇÃO TEOLÓGICA DA CRÍTICA DAS FONTES: Variação dos nomes atribuídos a Deus: Citar mais de um nome para o mesmo “deus” era prática bem comum nas civilizações mesopotâmicas e egípcias contemporâneas à produção do Pentateuco. Como exemplo podemos citar a mitologia babilônica que tinha em “Marduque” seu principal “deus”: “Sin é a tua natureza divina; Anu, o teu caráter nobre; Dagan, o teu caráter senhoril; Enlil, o eu caráter real (...) Teu nome mais importante, ó Marduque, é: o mais entendido dos deuses” (Citação do Enumah Elish). Outra questão também é que textos que segundo os próprios defensores da Crítica das Fontes pertenceriam à “fonte E”, se referem a Deus como Jeová ao invés de Elohim (Ex: Gn 12:8); ao passo que outros pertencentes à “fonte J”, se referem a Ele como Elohim ao invés de Jeová (Ex: Gn 32:24;28-30). Outra questão é o fato de que na primeira tradução do Pentateuco, do hebraico para o grego (Septuaginta), os tradutores usaram o termo “Kyrios” para Jeová, e “Theos” para Elohim; porém já foram comprovadas cerca de 180 ocorrências de inversões desses termos na Septuaginta. Ainda hoje, ao nos reportar a Deus, usamos mais de um nome (“Pai”, “Senhor”, “Meu Deus”). Tudo isto, mostra este argumento como improcedente. O fato de aparecer mais de um nome referente a Deus não implica pluralidade de autoria; o que realmente aparece é uma pluralidade de situações observadas pelo estilo literário. Vemos no Pentateuco o uso de “Elohim” nos textos mais voltados a um Deus criador e transcendente; já nos textos onde ele interage com os homens num sentido pactual, normalmente Ele é mencionado como Jeová. Observe que num mesmo texto (Gn 3), a serpente chama Deus de “Elohim”, mas no que se refere a Adão e Eva, Deus é mencionado como “Jeová”. Duplicação e repetição de material: A principal base para essa alegação são os capítulos 1 e 2 de Gênesis; segundo os defensores da Crítica das Fontes tratam-se de dois documentos distintos, Gn 1 (fonte P) e Gn 2 (fonte J); mas o que vemos na verdade é o que chamamos na linguagem jornalística de uma “descrição em pirâmide”; Gn 1 trás uma visão panorâmica de toda a criação, já Gn 2 vai detalhar de forma descritiva apenas a criação do homem. Apoia esse entendimento o fato dos cinco “toledoth” de Gênesis; esta palavra trata de “origem”, e dividem o livro de Gênesis em 5 partes principais que se iniciam com este termo. São elas... - Gn 1:1 – Toledoth geral; - Gn 2:4 – Toledoth dos Céus e da Terra; - Gn 11:27 – Toledoth de Terá; - Gn 25:19 – Toledoth de Isaque; e - Gn 37:2 – Toledoth de Jacó. Porém, em cada um desses “toledoth” o tema principal é o que vem a seguir: No toledoth de Jacó, o tema principal é José; no toledoth de Isaque, o tema principal é Jacó; no toledoth de Terá, o tema principal é Abraão; e no toledoth dos Céus e da Terra, o tema principal é o homem. Não há aqui pluralidade de fontes, mas uma narrativa progressiva da revelação de Deus. Outra alegação desta mesma natureza fala da duplicação dos sonhos, tanto de Jose como de Faraó; eles alegam que são na verdade contos provenientes de fontes diferentes; contudo, como vemos em alguns textos da Bíblia, como nesses exemplos citados, a duplicação de uma citação não implica em duplicação de fonte, mas na importância da mensagem. Outro foco está no fato de Abraão cometer o mesmo erro duas vezes e ser copiado por seu filho. Abraão disse ao Faraó (Gn 12) e a Abimeleque (Gn 20) que Sara era sua irmã; Isaque também disse isso a Abimeleque (Gn 26). O fato de uma pessoa cometer o mesmo erro duas vezes não implica em duplicação de fontes, mas na humanidade da pessoa; bem como filhos copiarem os mesmos erros de seus pais, o que é de fato bem comum. Quanto ao fato dos reis de gerar na época de Abraão e de Isaque terem o mesmo nome, não significa que eram a mesma pessoa, pois era algo bem comum naquela região reis manterem os mesmos nomes de seus pais (Ramsés, Ramisés II, Ramisés IV). Contraste entre perspectivas distintas: Nesta questão, os defensores da Hipótese Documental se apoiam principalmente em dois contextos: dizem que há diferença de perspectiva em relação ao local determinado por Deus para sua adoração e quanto à aplicação da lei quanto à revogação da escravidão. Segundo eles... Em Ex 20:24 o texto afirma que poderiam haver vários locais de adoração; já em Dt12:11-14 diz que só poderia haver um lugar para adoração, sendo assim haveria contradição entre os textos; porém eles se esquecem que o primeiro texto está contextualizado no deserto, quando não existia templo e nem Jerusalém; quando o povo era nômade e adoravam a Deus em um tabernáculo desmontável; ao passo que no segundo, o povo está se preparando para entrar e conquistar Canaã, onde deixariam de ser nômades e onde construiriam um lugar fixo para adoração – o templo. Ex 21;2,7-11, a lei determinada cita apenas a libertação de escravos (homens), enquanto em Dt 15:12-17 inclui as mulheres, parecendo ser mais humanitária e diferente da anterior. O que realmente acontece é que em êxodo as escravas não são impedidas de receber a mesma bênção, só não foram citadas, como acontece no texto mas detalhado de Deuteronômio; o que está previsto em Ex 7-11 diz respeito à escrava que se tornou esposa, no caso dela não seria mais tratada como uma escrava, por isso não haveria necessidade para sua libertação (deixou de ser escrava, tornou-se esposa). Não há contradição nestes textos nem base para julgá-los como fruto de fontes distintas. Variação de vocabulário e de estilo literário: Este acaba sendo um “argumento circular” e de fraca sustentação, pois como em qualquer outra obra que não tenha um estilo único haverão formas literária diferente para cada situação. Ex: O estilo literário de uma genealogia não pode ser comparado com estilo literário de uma narração. É óbvio que em uma obra como o Pentateuco haverá a sucessão de textos mais acadêmicos (rituais) e textos mais populares (narrativos), o que também não atesta pluralidade de fontes, mas sim de contextos literários. Também o fato de haverem personagens citados com mais de um nome, como no caso do sogro de Moisés (Reuel e Jetro), não indica pluralidade de fonte, mas formas de tratamento distintas. De acordo com o texto de Ex 2:18, o nome do sogro de Moisés é “Reuel”, só que no mesmo livro, capítulo 3:1, diz que o nome do sogro de Moisés é “Jetro”. Reuel era o nome real do sogro de Moisés e significa “amigo de Deus”. Jetro era um título de honra dado à Reuel, e significa “superior” ou “Sua excelência”. Esse título era dado à homens de classe sacerdotal da época, já que Reuel (Jetro) era sacerdote de Midiã. Flávio Josefo, em sua obra, informa que Reuel era um homem muito querido no meio dos seus, e muito querido por Moisés, pois este o acolheu, deu sua filha Zípora como esposa e o acompanhou quando ele mais precisou. No livro de Juízes (4:11), Reuel recebe um terceiro nome-título, “Hobabe”, que significa “Querido”. Conforme vemos, não existe contradição bíblica em nenhuma dessas narrativas. Evidência de trabalho editorial: Analise os textos a seguir: Gn 12:6 – “Atravessou Abrão a terra até Siquém, até ao carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra”. Gn 36:31 – “São estes os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse rei sobre os filhos de Israel”. Nm 12:3 – “Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra”. Dt 2:10-12 – “(Os emins, dantes, habitavam nela, povo grande, numeroso e alto como os anaquins; também eles foram considerados refains, como os anaquins; e os moabitas lhes chamavam emins. Os horeus também habitavam, outrora, em Seir; porém os filhos de Esaú os desapossaram, e os destruíram de diante de si, e habitaram no lugar deles, assim como Israel fez à terra da sua possessão, que o Senhor lhes tinha dado.)”. Dt 34:5-7 – “Assim, morreuali Moisés, servo do Senhor , na terra de Moabe, segundo a palavra do Senhor. Este o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura. Tinha Moisés a idade de cento e vinte anos quando morreu; não se lhe escureceram os olhos, nem se lhe abateu o vigor”. Os textos supracitados, como se pode ver, evidenciam sim um trabalho editorial por conta, provavelmente, daqueles que providenciaram sua tradução/compilação; porém, estas pequenas “notas de roda pé”, inseridas no corpo do texto apenas com um caráter explicativo, ou seja, sem adicionar nenhum conteúdo não deixam de submeter a obra a Moisés. É evidente também que não foi Moisés quem escreveu o trecho que narra sua morte e sepultamento, adição provavelmente providenciada por Josué após a morte de Moisés. Como podemos ver, não há nenhuma base onde os defensores da chamada Crítica das Fontes ou Hipótese Documental possam se suster para confrontar o que os israelitas do Velho Testamento, a Bíblia, Jesus, a Igreja Primitiva, a Igreja da Idade Antiga, a Igreja da Idade Média, a Igreja da Idade Moderna e a maioria dos teólogos e cristãos da Idade Contemporânea entenderam e entendem até hoje: Moisés é o responsável redatorial do Pentateuco que chegou a nós com alguns acréscimos sim (notas de roda pé que não alteram sua mensagem), sendo este, em seu todo, obra da Revelação direta de Deus a Moisés e de sua Inspiração através de seu Espírito Santo. Na verdade, a Torah não foi produzida por Moisés, e sim entregue a Moisés; ela já existia antes... Gn 26:5 – “Porque Abraão obedeceu à minha palavra e guardou os meus mandados, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis”. Em essência, a “Palavra” é Jesus (Jo 1:1) e ela já era bem antes de Moisés (Pv 8:22-36). 7 - CONTEXTO LITERÁRIO Dado que a história iniciada em Gênesis parece continuar, sem rupturas, após o Deuteronômio, em Josué, Juízes, Samuel e Reis, houve quem defendesse que a historiografia original compreendia não somente os cinco primeiros livros, mas seis (Hexateuco), sete (Heptateuco), oito (Octateuco) ou nove livros (Eneateuco). Também houve quem defendesse que Deuteronômio não pertence a este conjunto (Tetrateuco).