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6 - CONTEXTO AUTORAL A Igreja Cristã sempre relacionou a autoria do Pentateuco à Moisés; só recentemente este pensamento vem sendo questionado através da chamada “Crítica das Fontes”, que, ao invés de entender o Pentateuco como obra escrita durante uma única vida (a de Moisés), enxerga uma obra escrita através dos séculos, fornecida por várias mãos diferentes e reunidas em um só conjunto no período pós-exílico de Israel. Dessa forma, enquanto para os conservadores o Pentateuco é uma obra de “autoria mosaica”, para os críticos de seguimento liberal, trata-se de um “mosaico de autorias”. Como podemos ter certeza de que a autoria do Pentateuco pertence a Moisés? Porque o próprio Pentateuco apresenta Moisés como o “mediador” da aliança que está contida nele ... Ex 20:22,23 - “Então, disse o Senhor a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Vistes que dos céus eu vos falei. Não fareis deuses de prata ao lado de mim, nem deuses de ouro fareis para vós outros”. Ex 24:3 – “Veio, pois, Moisés e referiu ao povo todas as palavras do Senhor e todos os estatutos; então, todo o povo respondeu a uma voz e disse: Tudo o que falou o Senhor faremos”. Ex 35:1 – “Tendo Moisés convocado toda a congregação dos filhos de Israel, disse-lhes: São estas as palavras que o Senhor ordenou que se cumprissem”. Porque o próprio Pentateuco apresenta Moisés como o seu redator... Ex 17:14 – “Então, disse o Senhor a Moisés: Escreve isto para memória num livro e repete-o a Josué; porque eu hei de riscar totalmente a memória de Amaleque de debaixo do céu”. Ex 24:4,7 – “Moisés escreveu todas as palavras do Senhor e, tendo-se levantado pela manhã de madrugada, erigiu um altar ao pé do monte e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel... E tomou o livro da aliança e o leu ao povo; e eles disseram: Tudo o que falou o Senhor faremos e obedeceremos”. Nm 33:1,2 – “São estas as caminhadas dos filhos de Israel que saíram da terra do Egito, segundo os seus exércitos, sob as ordens de Moisés e Arão. Escreveu Moisés as suas saídas, caminhada após caminhada, conforme o mandado do Senhor ; e são estas as suas caminhadas, segundo as suas saídas:” Dt 31:9-11 - “Esta lei, escreveu-a Moisés e a deu aos sacerdotes, filhos de Levi, que levavam a arca da Aliança do Senhor , e a todos os anciãos de Israel. Ordenou-lhes Moisés, dizendo: Ao fim de cada sete anos, precisamente no ano da remissão, na Festa dos Tabernáculos, quando todo o Israel vier a comparecer perante o Senhor , teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel”. Porque outros textos do Velho Testamento atribuem a Moisés a autoria do Pentateuco... Js 8:30-32 – “Então, Josué edificou um altar ao Senhor , Deus de Israel, no monte Ebal, como Moisés, servo do Senhor, ordenara aos filhos de Israel, segundo o que está escrito no Livro da Lei de Moisés (Dt 27:4,5), a saber, um altar de pedras toscas, sobre o qual se não manejara instrumento de ferro; sobre ele ofereceram holocaustos ao Senhor e apresentaram ofertas pacíficas. Escreveu, ali, em pedras, uma cópia da lei de Moisés, que já este havia escrito diante dos filhos de Israel”. II Re 14:6 – “Porém os filhos dos assassinos não matou, segundo está escrito no Livro da Lei de Moisés, no qual o Senhor deu ordem, dizendo: Os pais não serão mortos por causa dos filhos, nem os filhos por causa dos pais; cada qual será morto pelo seu próprio pecado”. (Dt 24:16) Porque outros textos do Novo Testamento atribuem a Moisés a autoria do Pentateuco... Mc 7:10 – “Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte” (Ex 20:12; 21:17). Mc 12:26 – “Quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido no Livro de Moisés, no trecho referente à sarça, como Deus lhe falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó?” (Ex 3:6). Mt 8:4 – “Disse-lhe, então, Jesus: Olha, não o digas a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e fazer a oferta que Moisés ordenou,para servir de testemunho ao povo” (Lv 14:2-32). A HIPÓTESE DOCUMENTAL A partir de meados do século XVIII, em meio ao movimento do Iluminismo, uma série de novas teorias começaram a surgir no seio da Igreja Reformada, principalmente a alemã. - 1753 – Jean Astruc – médico e escritor francês - defendia que Moisés fez uso de duas fontes para a produção do Pentateuco. - 1878 – Julius Welhausen – teólogo alemão – “Prolegomena” – Instituição da Hipótese Documental (Crítica das Fontes). Defendia que o Pentateuco não era de autoria de Moisés, mas uma compilação de vários documentos de várias fontes diferentes construído por sacerdotes judeus do período pós exílico. MOTIVOS APRESENTADOS PELOS CRÍTICOS DAS FONTES Duplicação e repetição de material: - Uma mesma história ou evento contado mais de uma vez (ex: Abraão e Isaque dizem que suas esposas são suas irmãs; o relato da criação em Gn1 e 2). Variação dos nomes atribuídos a Deus: - Em alguns textos Jeová (J) e em outros Elohim (E). Contraste entre perspectivas distintas: - Segundo eles há contradições teológicas no Pentateuco, atestando pluralidade de fontes (ex: Ex 20:24 e Dt 12:11-14). Variação de vocabulário e de estilo literário: - Uso de termos diferentes para a mesma pessoa ou situação (ex: Hagar – Gn 16:1-8 (shifhâ – serva); Gn 21:10 (amâ – escrava) / O sogro de Moisés – Reuel (Ex 2:17-21); Jetro (Ex 3:1, 4:18-20). Evidência de trabalho editorial: - Gn 12:6; 36:31; Nm 12:3; Dt 2:10-12, 34:5,7 AS FONTES ORIGINAIS SEGUNDO A HIPÓTESE DOCUMENTAL Fonte “J” ou “Javista” (maior parte do livro): Produzida em Judá por volta do século X ou IX a.C por Davi ou seus descendentes; favorável à monarquia davídica (ex: A Bênção de Jacó – Gn 49:8,10,18; Gn 15:18); descrições antropomórficas de Deus (Gn 2:7,8; 3:8; Gn 18) Fonte “E” ou “Elohista” (começa a partir de Gn 20): Produzida em Israel (Reino do Norte) por volta do século VIII a.C. Mais associada ao Reino do Norte – se direciona mais a José e a Betel como lugar de adoração (Gn 28:17-19; Gn 31:11-13). Ênfase na espiritualização e na transcendência de Deus. Fonte “D” ou “Deuteronomista”: Associada à Reforma de Josias por volta do século VII a.C, após a queda de Samaria, com ajuda de sacerdotes que teriam migrado do norte para Jerusalém na época do Rei Ezequias, produzindo um texto focado em por Jerusalém como único lugar de culto. Apresenta uma preocupação humanitária mais visível (ex: Ex 21:1-11; Dt 15:12-18). Paralelos entre II Re 23:8-27 com Dt 12 e 16. Fonte “P” ou “Sacerdotal” (Priester): Associada ao período pós exílico (Séc V/IV a.C). Mais direcionada ao ofício sacerdotal (levítico) e genealogias (Gn 5 e 10). Ênfase na transcendência de Deus (ex: Gn 1). Teria dado a forma final do Pentateuco.