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<p>MEIO</p><p>AMBIENTE</p><p>Ronei Stein</p><p>Epidemiologia ambiental:</p><p>impactos ambientais</p><p>causados por agrotóxicos</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:</p><p>� Identificar os produtos potencialmente tóxicos utilizados na agricultura.</p><p>� Relacionar os impactos ambientais com a utilização inadequada de</p><p>agrotóxicos.</p><p>� Reconhecer os riscos do uso de agrotóxicos à saúde pública.</p><p>Introdução</p><p>Os agrotóxicos, como o próprio nome indica, são produtos tóxicos, no-</p><p>civos à saúde humana. O brasileiro consome o equivalente a 7,3 litros de</p><p>agrotóxicos por pessoa a cada ano. O Brasil é campeão mundial de uso de</p><p>agrotóxicos, embora não seja o campeão mundial de produção agrícola.</p><p>Agrotóxicos estão presentes em frutas, verduras, carnes, leite, bebidas,</p><p>produtos industrializados e em quase tudo que compramos nos super-</p><p>mercados. Além disso, o uso desses produtos químicos contamina o</p><p>solo, a água e o ar e ocasiona a mortandade de animais (principalmente</p><p>insetos), o que acaba afetando toda a cadeia alimentar.</p><p>Neste capítulo, você estudará alguns dos principais tipos de agrotó-</p><p>xicos utilizados na agricultura, bem como os principais riscos que o uso</p><p>destes produtos podem trazer, tanto para o meio ambiente como para</p><p>a saúde humana.</p><p>Principais produtos químicos utilizados</p><p>na agricultura</p><p>A poluição ambiental sempre existiu. Entretanto, os efeitos eram tão pequenos</p><p>que praticamente não havia consequências para o meio ambiente. Está situação</p><p>começou a mudar após a Revolução Industrial, período no qual o homem dei-</p><p>xou de produzir produtos e alimentos unicamente para seu consumo próprio,</p><p>passando a produzir em larga escala. Com o passar dos anos, a sociedade foi</p><p>se modificando de acordo com o desenvolvimento tecnológico e científico,</p><p>buscando melhorar a vida humana, bem como atender os objetivos individuais e</p><p>coletivos de crescimento econômico (BARSANO, BARBOSA, VIANA, 2014).</p><p>A agricultura é um setor fundamental para a economia e para a sociedade,</p><p>pois fornece alimentos a bilhões de pessoas diariamente. Porém, este também é</p><p>um setor que contribui significativamente para a degradação do meio ambiente,</p><p>por meio da contaminação do solo, da água (superficial e subterrânea) e do</p><p>ar, pelo uso de defensivos agrícolas.</p><p>Londres (2011) menciona que, mesmo a agricultura sendo praticada pela</p><p>humanidade há mais de dez mil anos, o uso intensivo de agrotóxicos para</p><p>o controle de pragas e doenças das lavouras existe há pouco mais de meio</p><p>século. A prática teve origem após as grandes guerras mundiais, quando a</p><p>indústria química, fabricante de venenos então usados como armas, encontrou</p><p>na agricultura um novo mercado para os seus produtos. No Brasil, uso de</p><p>agrotóxicos assumiu proporções assustadoras na última década. Entre 2001</p><p>e 2008, a venda de venenos agrícolas no país saltou de pouco mais de US$ 2</p><p>bilhões para mais US$ 7 bilhões, quando alcançamos a triste posição de maior</p><p>consumidor mundial desses produtos.</p><p>Defensivos agrícolas são produtos químicos, físicos ou biológicos usados no controle</p><p>de seres vivos considerados nocivos ao homem, suas criações e suas plantações. São</p><p>também conhecidos por agrotóxicos, pesticidas, praguicidas ou produtos fitossanitários.</p><p>Dentre esses termos, agrotóxico é a categoria utilizada pela legislação brasileira.</p><p>De acordo com Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012), nas regiões rurais,</p><p>a falta de esgotamento sanitário adequado e o uso indiscriminado de pesticidas</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos2</p><p>e fertilizantes é a principal fonte de contaminação dos solos. Os compostos</p><p>presentes nos pesticidas e agrotóxicos, quando utilizados em demasia, pro-</p><p>vocam contaminações de grandes áreas, além de enorme risco à saúde dos</p><p>trabalhados e moradores locais.</p><p>De modo geral, Silva e Costa (2012) comentam que o uso dos pesticidas tem</p><p>por objetivo a eliminação de pestes ou pragas (Figura 1), os quais são consi-</p><p>derados organismos biológicos nocivos que interferem na atividade humana,</p><p>competindo por alimentos, disseminando doenças ou prejudicando colheitas</p><p>e ecossistemas urbanos. As pestes/pragas podem ser classificadas como:</p><p>� Ervas daninhas: plantas que competem por água, sol e nutrientes</p><p>com os cultivos.</p><p>� Insetos: invertebrados capazes de proliferar em diversos climas.</p><p>� Organismos patogênicos: fungos, vírus, bactérias e helmintos.</p><p>� Vertebrados: animais que podem provocar perdas em culturas, como</p><p>os roedores.</p><p>Figura 1. Pesticidas visam a eliminar pestes/pragas das lavouras agrícolas; apresentam,</p><p>porém, enormes riscos ao meio ambiente e à saúde das pessoas.</p><p>Fonte: wong sze yuen/Shutterstock.com.</p><p>3Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>Santos e Daibert (2014) afirma que o solo possui em sua composição ar,</p><p>água, matéria orgânica e mineral. Essa estrutura possibilita o desenvolvimento</p><p>das mais diversas espécies de plantas que conhecemos. Por meio do solo, são</p><p>cultivados direta ou indiretamente a maior parte dos alimentos consumidos</p><p>pela humanidade. Se ele estiver contaminado, certamente nossa saúde estará́</p><p>em risco.</p><p>Principais produtos tóxicos usados na agricultura</p><p>Segundo Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012), os pesticidas podem ser</p><p>classificados quanto:</p><p>� ao grupo de organismos que controlam;</p><p>� à toxicidade;</p><p>� ao grupo químico ao qual pertencem.</p><p>Porém, Sanches et al. (2003) mencionam que, além dessas classificações, os</p><p>pesticidas podem ser considerados ainda quanto à finalidade (aficida, ovicida,</p><p>larvicida, raticida, formicida, acaricida, inseticida, entre outros) e quanto ao</p><p>modo de ação (ingestão, contato, microbiano e fumegante), sendo possível o</p><p>enquadramento em mais de uma classe. Quanto à origem, a divisão envolve</p><p>os compostos inorgânicos (compostos de mercúrio, bário, enxofre e cobre),</p><p>os pesticidas de origem vegetal, bacteriana e fúngica (piretrinos, antibióticos</p><p>e fitocidas), além dos pesticidas orgânicos.</p><p>Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012) afirmam que, em termos gerais,</p><p>a classificação de pesticidas segundo duas categorias, iônicos e não iônicos,</p><p>de modo que cada uma apresenta subdivisões. Dentre os pesticidas iônicos,</p><p>encontram-se os catiônicos (diquat, paraquat, etc.), básicos (ametrina, atrazina,</p><p>simazina, etc.), ácidos (dicamba, 2,4-D, 2,4,5-T, etc.), além de outros, como</p><p>glifosato, bromacil, ácido cacodílico, etc. Dentre os pesticidas não iônicos,</p><p>encontram-se os clorados (DDT, endrim, lindano, dieldrim, etc.), fosforados</p><p>(dimetoato, paration, etion, etc.), dinitroanilinas (benefin, trifluoralina, nitra-</p><p>lina, etc.), carbanilatos (chlorprophan, bardan, etc.), tiocarbamatos (cycloste,</p><p>metham, butilato, dialato, etc.), anilidas (alachlor, propanil, solan, etc.) ureias</p><p>(norea, linuron, diuron, etc.) metilcarbamatos (carbaril, terbutol, zectran, etc.) e</p><p>outros grupos menores, como benzonitrilas, ésteres, acetamidas e carbotioatos.</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos4</p><p>Os pesticidas iônicos apresentam capacidade de se unir à parte mineral do solo,</p><p>enquanto os não iônicos possuem maior capacidade de serem influenciados pela</p><p>matéria orgânica.</p><p>Silva e Costa (2012) apresentam os principais tipos de defensivos. São eles:</p><p>� Herbicidas: produtos destinados a eliminar ou impedir o crescimento</p><p>de ervas daninhas. Podem ser classificados de acordo com: sua atividade</p><p>(de contato ou sistêmicos), uso (aplicados no solo, pré-emergentes ou</p><p>pós-emergentes) e modo de ação sobre o mecanismo bioquímico da</p><p>planta. Podem ser também segmentados em herbicidas não seletivos (que</p><p>destroem todas as plantas) e seletivos (aqueles que atacam unicamente</p><p>a praga, preservando a lavoura).</p><p>� Inseticidas: são produtos à base de substâncias químicas ou agentes</p><p>biológicos destinados a eliminar insetos. Há três grandes famílias de</p><p>compostos químicos: os organossintéticos, os inorgânicos e os botânicos</p><p>ou bioinseticidas.</p><p>� Fungicidas: são agentes físicos, químicos ou biológicos</p><p>destinados</p><p>a combater os fungos. Também podem eliminar plantas parasíticas e</p><p>outros organismos semelhantes.</p><p>� Acaricidas: produtos químicos destinados a controlar ou eliminar</p><p>ácaros, especialmente em frutas cítricas, como a laranja.</p><p>� Agentes biológicos de controle: organismos vivos que atuam por meio</p><p>de uma ação biológica, como parasitismo ou competição com a praga.</p><p>� Defensivos à base de semioquímicos: armadilhas semelhantes aos</p><p>feromônios naturais, que emanam pequenas doses de gases capazes de</p><p>atrair e capturar insetos. São específicos para cada espécie de praga e</p><p>agem em concentrações reduzidas e de baixo impacto ambiental.</p><p>� Produtos domissanitários: destinam-se às regiões urbanas. São dividi-</p><p>dos em: inseticidas domésticos, moluscicidas, rodenticidas e repelentes</p><p>de insetos.</p><p>5Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>Os pesticidas estão divididos em quatro classes toxicológicas:</p><p>� I (rótulo vermelho): compostos considerados altamente tóxicos para seres</p><p>humanos.</p><p>� II (rótulo amarelo): mediamente tóxicos.</p><p>� III (rótulo azul): pouco tóxicos.</p><p>� IV (rótulo verde): compostos considerados praticamente não tóxicos para seres</p><p>humanos.</p><p>Impactos ambientais causados pelos</p><p>agrotóxicos</p><p>O agronegócio tem nos agrotóxicos um insumo básico, porque utiliza largas</p><p>extensões de terras para implantação de monocultivos. Esses cultivos de um</p><p>único produto destroem a biodiversidade do local e desequilibram o ambiente</p><p>natural, tornando-o propício ao surgimento de elevadas populações de insetos</p><p>e de doenças. Demandam, assim, o uso de produtos químicos para combater</p><p>tais pragas.</p><p>Uma vez utilizados na agricultura, Burigo e Venâncio (2016) ressaltam</p><p>que os pesticidas podem seguir diferentes rotas no ambiente. Menos de 10%</p><p>dos agrotóxicos aplicados por pulverização atingem seu alvo. Os agrotóxicos</p><p>são aplicados diretamente nas plantas ou no solo. Mesmo aqueles aplicados</p><p>diretamente nas plantas têm como destino final o solo, sendo lavados das</p><p>folhas através da ação da chuva ou da água de irrigação. Além disso, o uso de</p><p>agrotóxicos contribui com o empobrecimento do solo, reduzindo a eficiência</p><p>da fixação de nitrogênio realizada por microrganismos, o que faz com que o</p><p>uso de fertilizantes seja cada vez mais necessário.</p><p>Segundo Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012), a dinâmica dos pesticidas</p><p>no solo envolve processos de retenção, transformação (degradação química</p><p>e/ou microbiológica) e transporte (volatilização, lixiviação e escorrimento</p><p>superficial), conforme indicado na Figura 2. Estes acabam por transformar</p><p>completamente o composto inserido no solo. O destino final desses compostos</p><p>depende de uma série de variáveis, que dizem respeito à estrutura e composição</p><p>do solo (textura, estrutura, teor de matéria orgânica, pH, capacidade de troca</p><p>catiônica (CTC), conteúdo de água, topografia, composição da população de</p><p>microrganismos e equilíbrio nutricional), às condições climáticas (umidade</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos6</p><p>relativa do ar, temperatura, luminosidade e vento), às propriedades físico-</p><p>-químicas dos herbicidas, à tecnologia de aplicação, à presença ou ausência</p><p>de plantas e os tipos de manejos utilizados nas culturas.</p><p>Figura 2. Principais processos de degradação e transporte que ocorrem com pesticidas</p><p>no solo.</p><p>Fonte: Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012, p. 80).</p><p>Translocação</p><p>Fotodegradação</p><p>Difusão</p><p>Volatilização</p><p>Degradação</p><p>química</p><p>Degradação</p><p>biológica</p><p>Absorção</p><p>Lixiviação</p><p>Escoamento</p><p>super�cial</p><p>Os lençóis freáticos subterrâneos podem ser contaminados por pesticidas</p><p>por meio da lixiviação da água e da erosão dos solos. Essa contaminação</p><p>também pode ocorrer superficialmente, devido à intercomunicabilidade dos</p><p>sistemas hídricos, atingindo áreas distantes do local de aplicação do agrotó-</p><p>xico (VEIGA et al., 2006). Segundo Foster et al. (2006), as práticas agrícolas</p><p>e a vulnerabilidade natural do aquífero podem representar um alto nível de</p><p>impactos negativos, tornando a água imprópria para o consumo.</p><p>Além de tornar a água imprópria para o consumo humano (ou mesmo</p><p>de animais), existem outros problemas ambientais causados pelo uso destes</p><p>produtos tóxicos, como, por exemplo, os inseticidas do tipo organoclorados e</p><p>organofosforados. Estes são bioacumulativos, o que significa que o composto</p><p>permanece no corpo do inseto ou dos animais (como peixes) mesmo após sua</p><p>7Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>morte. Caso algum outro animal se alimentar de um animal contaminado,</p><p>também ficará intoxicado, e assim sucessivamente, aumentando o alcance do</p><p>problema e afetando em toda a cadeia alimentar (Figura 3).</p><p>Figura 3. Muitos tipos de pesticidas são bioacumulativos, ou seja, acumulam-se em eleva-</p><p>das concentrações nos organismos de níveis tróficos mais baixos, afetando toda a cadeia</p><p>alimentar.</p><p>Fonte: Adaptada de Pajtica/Shutterstock.com; Photografiero/Shutterstock.com; VICHAILAO/Shutterstock.</p><p>com; Old apple/Shutterstock.com; Sekar B/Shutterstock.com.</p><p>Um dos problemas associados ao uso de pesticidas é que alguns tipos de</p><p>pragas acabam desenvolvendo resistência aos compostos químicos, tornando-</p><p>-se invulneráveis. Assim, os pesticidas favorecem o surgimento de pragas</p><p>progressivamente mais fortes, por meio de um processo de “seleção natural”,</p><p>em que os animais mais resistentes aos agrotóxicos tomam o lugar das espécies</p><p>mais suscetíveis. Esse processo também acaba garantindo a manutenção da</p><p>produção de agrotóxicos.</p><p>Os agrotóxicos são produtos químicos que eliminam insetos, fungos, ervas daninhas,</p><p>bactérias e outras pragas prejudiciais à agricultura. Apesar disso, são um composto</p><p>eficaz no combate a essas infestações, tornando a produção agrícola mais eficiente.</p><p>Porém, nem todos os insetos são prejudiciais às lavouras, como é o caso das abelhas,</p><p>que possuem, entre outras funções, a polinização de plantas e produção de mel.</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos8</p><p>As indústrias fabricantes de agrotóxicos têm obrigação legal (segundo Lei</p><p>nº 9.974, de 6 de junho de 2000) de recolher as embalagens vazias devolvidas</p><p>pelos agricultores, dando um destino adequado a elas e, em colaboração com</p><p>o poder público, implementando programas educativos de controle e estimulo</p><p>à lavagem e à devolução. Porém, compete aos agricultores a responsabilidade</p><p>de fazer a ‘tríplice lavagem’ das embalagens vazias e encaminhá-las, com as</p><p>respectivas tampas, a uma unidade de recebimento dentro do prazo máximo</p><p>de um ano a partir da data da compra do agrotóxico.</p><p>O processo de “tríplice lavagem” ou “lavagem sob pressão” é uma operação importante</p><p>para o sucesso do programa e da implementação do conceito de “logística reversa” das</p><p>embalagens vazias de agrotóxicos. Essa operação deve ser realizada pelos agricultores</p><p>logo após o uso final do produto contido na embalagem, no próprio campo, e a água</p><p>deve ser colocada nos equipamentos agrícolas, para posterior aplicação nas lavouras</p><p>(PELISSARI, 1999).</p><p>Uma embalagem lavada três vezes reduz o risco de contaminação humana, dos</p><p>animais domésticos e de criação e do meio ambiente. Cada lavagem reduz a quantidade</p><p>de produto que permanece na embalagem a níveis cada vez mais seguros.</p><p>Agrotóxicos e saúde humana: principais riscos</p><p>Rosa, Fraceto e Moschini-Carlos (2012) mencionam que a Organização Mun-</p><p>dial de Saúde (OMS) estima que aproximadamente três milhões de pessoas</p><p>são intoxicadas anualmente em decorrência da utilização de agrotóxicos.</p><p>Dessas, 220 mil morrem e 750 mil adquirem doenças crônicas, devido à</p><p>Lamentavelmente, o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos,</p><p>e as abelhas estão sofrendo com isso. As moléculas de agrotóxico atuam diretamente</p><p>no sistema nervoso das abelhas e, principalmente, no seu cérebro, causando um</p><p>transtorno na comunicação das células nervosas. Com isso, as abelhas acabam tendo</p><p>uma deficiência em sua comunicação, o que faz com que fiquem</p><p>desorientadas, de</p><p>forma a não conseguirem voltar à colmeia. Desse modo, acabam morrendo.</p><p>9Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>grande periculosidade dos pesticidas e agrotóxicos, que possuem alto potencial</p><p>carcinogênico, mutagênico e teratogênico. Órgãos internacionais e nacionais</p><p>têm estabelecido limites máximos de resíduos (LMR) permitidos para cada</p><p>binômio pesticida/cultura.</p><p>Um dos maiores perigos representados pelos agrotóxicos diz respeito aos</p><p>efeitos que eles podem provocar na saúde das pessoas, principalmente daque-</p><p>las que, no campo ou na indústria, ficam expostas ao contato direto com os</p><p>venenos. Existem diversos casos de abortos, assim como de bebês que nascem</p><p>com defeitos congênitos pelo fato de a mãe ou o pai terem tido contato com</p><p>agrotóxicos em sua vida, ou mesmo durante a gravidez.</p><p>Carneiro et al. (2015) mencionam que parte dos agrotóxicos possuem a ca-</p><p>pacidade de se dispersar no ambiente; outra parte, entretanto, pode se acumular</p><p>no organismo humano, inclusive no leite materno. O leite contaminado, ao ser</p><p>consumido pelos recém-nascidos, pode provocar agravos à saúde, pois estes</p><p>são mais vulneráveis à exposição a agentes químicos presentes no ambiente,</p><p>por suas características fisiológicas e por se alimentar quase exclusivamente</p><p>com o leite materno até os seis meses de idade.</p><p>Há pessoas que desenvolvem doenças apenas porque moram próximo à</p><p>plantações onde se usam muitos tóxicos; a contaminação chega pelo ar. Há</p><p>outros casos em que o uso intensivo de venenos agrícolas atingiu a água que</p><p>abastece as pessoas de toda uma região. Até mesmo alimentos com altas taxas</p><p>de resíduos de agrotóxicos podem ser capazes de produzir efeitos de longo</p><p>prazo nos consumidores, que muitas vezes sequer já viram uma embalagem</p><p>de veneno. Estes consumidores muito dificilmente saberão que as doenças que</p><p>os afligem foram provocadas pelos agrotóxicos (LONDRES, 2011).</p><p>As pessoas mais expostas aos perigos da contaminação pelos agrotóxicos</p><p>são aquelas que têm contato com eles no campo. Há os aplicadores, prepa-</p><p>radores de caldas e responsáveis por depósitos, que têm contato direto com</p><p>os produtos; há também os trabalhadores que têm contato indireto com os</p><p>venenos, ao realizar capinas, roçadas, colheitas, etc. Esse segundo grupo é, na</p><p>verdade, o de maior risco, uma vez que o intervalo de reentrada nas lavouras</p><p>não costuma ser respeitado, além do fato de que estes trabalhadores não usam</p><p>proteção. Moradores de regiões de predomínio do agronegócio, onde maciças</p><p>quantidades de agrotóxicos são usadas ao longo do ano, formam outro grupo</p><p>de grande risco. Em várias regiões do país é comum a aplicação aérea de</p><p>venenos (Figura 4).</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos10</p><p>Figura 4. Aplicação aérea de pesticidas.</p><p>Fonte: ChristopherH/Shutterstock.com.</p><p>O uso indiscriminado de agrotóxicos tem resultado em intoxicações, em</p><p>diferentes graus, de agricultores e de consumidores, tornando-se um problema</p><p>de saúde pública.</p><p>Tipos de intoxicação</p><p>Burigo e Venâncio (2016) alertam para os riscos de se ingerir agrotóxicos,</p><p>afirmando que o consumo prolongado e em quantidades acima dos limites</p><p>aceitáveis pode acarretar vários problemas de saúde. Uma exposição menor</p><p>pode causar dores de cabeça, alergias e coceiras, enquanto uma exposição maior</p><p>pode causar distúrbios do sistema nervoso central, malformação fetal e câncer.</p><p>Existem três tipos de intoxicação:</p><p>� Intoxicação aguda: é aquela cujos sintomas surgem rapidamente,</p><p>algumas horas após a exposição ao veneno. Normalmente trata-se de</p><p>exposição, por curto período, a doses elevadas de produtos muito tóxicos</p><p>(os casos de intoxicação que chegam a ser notificados são, basicamente,</p><p>deste tipo). Os efeitos podem incluir dores de cabeça, náuseas, vômitos,</p><p>11Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>dificuldades respiratórias, fraqueza, salivação, cólicas abdominais,</p><p>tremores, confusão mental, convulsões, entre outros. A intoxicação</p><p>aguda pode ocorrer de forma leve, moderada ou grave, dependendo da</p><p>quantidade de veneno absorvida. Em muitos casos pode levar à morte.</p><p>� Intoxicação subaguda ou sobreaguda: ocorre por exposição moderada</p><p>ou pequena a produtos alta ou medianamente tóxicos. Os efeitos podem</p><p>aparecer em alguns dias ou semanas. Os sintomas podem incluir dores de</p><p>cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago, sonolência, entre outros.</p><p>� Intoxicação crônica (ou, mais precisamente, efeitos crônicos decor-</p><p>rentes de intoxicação): caracteriza-se pelo surgimento tardio. Aparecem</p><p>apenas após meses ou anos da exposição pequena ou moderada a um ou</p><p>vários produtos tóxicos. Os sintomas são normalmente subjetivos e po-</p><p>dem incluir perda de peso, fraqueza muscular, depressão, irritabilidade,</p><p>insônia, anemia, dermatites, alterações hormonais, problemas imuno-</p><p>lógicos, efeitos na reprodução (infertilidade, malformações congênitas,</p><p>abortos), doenças do fígado e dos rins, doenças respiratórias, efeitos no</p><p>desenvolvimento da criança, entre outros. Normalmente o diagnóstico</p><p>da intoxicação crônica é difícil de ser estabelecido. Os danos muitas</p><p>vezes são irreversíveis, incluindo paralisias e vários tipos de câncer.</p><p>1. Um produtor rural, após colocar suas</p><p>vacas na pastagem, percebeu que</p><p>elas estavam com muitos carrapatos</p><p>(também conhecidos como carraça).</p><p>Qual o melhor tipo de pesticida para</p><p>controlar esse tipo de parasita?</p><p>a) Herbicida.</p><p>b) Acaricida.</p><p>c) Fungicida.</p><p>d) Nematicida.</p><p>e) Formicida.</p><p>2. A inovação nas técnicas produtivas,</p><p>a mecanização e a utilização</p><p>de insumos para melhorar a</p><p>produtividade e diminuir as perdas</p><p>por causas naturais provocaram</p><p>significativos impactos no</p><p>meio ambiente. São impactos</p><p>ambientais diretos decorrentes</p><p>do uso de defensivos agrícolas:</p><p>a) desmatamento.</p><p>b) assoreamento.</p><p>c) contaminação do solo.</p><p>d) erosão.</p><p>e) eutrofização de</p><p>mananciais hídricos.</p><p>3. Defensivos agrícolas são produtos</p><p>químicos, físicos ou biológicos</p><p>usados no controle de seres vivos</p><p>considerados nocivos ao homem,</p><p>à sua criação e às suas plantações.</p><p>São também conhecidos por</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos12</p><p>agrotóxicos, pesticidas, praguicidas</p><p>ou produtos fitossanitários. Dentre</p><p>esses termos, a palavra “agrotóxico”</p><p>é a mais utilizada pela legislação</p><p>brasileira. A respeito dos agrotóxicos,</p><p>assinale a alternativa correta.</p><p>a) Os pesticidas matam todo e</p><p>qualquer tipo de praga que</p><p>possa ameaçar as lavouras.</p><p>b) É praticamente impossível</p><p>produzir alimentos sem</p><p>o uso de agrotóxicos.</p><p>c) As indústrias fabricantes</p><p>de agrotóxicos têm a</p><p>obrigação legal de recolher as</p><p>embalagens vazias devolvidas</p><p>pelos agricultores.</p><p>d) Toda pessoa que tiver contato</p><p>com agrotóxicos desenvolverá</p><p>algum tipo de câncer.</p><p>e) Os agrotóxicos podem</p><p>provocar contaminação</p><p>ambiental unicamente</p><p>devido ao escoamento</p><p>superficial e à absorção.</p><p>4. Visando a combater a fome no</p><p>mundo, as sociedades humanas</p><p>desenvolveram a capacidade</p><p>de produzir mais alimentos,</p><p>surgindo, assim, as indústrias de</p><p>fertilizantes, adubos artificiais</p><p>e agrotóxicos. Sobre a utilização</p><p>dos agrotóxicos, marque</p><p>a opção correta.</p><p>a) Estimulam o aumento da</p><p>produção agrícola e diminuem o</p><p>preço dos alimentos no mundo.</p><p>b) Atuam em parceria com</p><p>os pequenos produtores</p><p>rurais e seus sistemas</p><p>tradicionais de uso da terra.</p><p>c) São as que menos poluem, pois</p><p>localizam-se em áreas rurais,</p><p>distantes das áreas urbanas.</p><p>d) Estimulam a competitividade,</p><p>a concentração de terras e a</p><p>migração campo-cidade.</p><p>e) Fixam os trabalhadores no</p><p>campo e contribuem para</p><p>a melhoria da qualidade</p><p>de vida nas áreas rurais.</p><p>5. Existem diversos riscos na</p><p>ingestão de agrotóxicos, sendo</p><p>que o consumo prolongado</p><p>e em quantidades acima dos</p><p>limites aceitáveis pode acarretar</p><p>vários problemas de saúde.</p><p>Carlos, após trabalhar o dia inteiro na</p><p>aplicação de um tipo de herbicida</p><p>em sua lavoura, começou a se sentir</p><p>mal no final do dia, apresentando</p><p>fortes</p><p>dores de cabeça. Pode-se</p><p>dizer que o produtor rural apresenta:</p><p>a) Intoxicação aguda.</p><p>b) Intoxicação subaguda</p><p>ou sobreaguda.</p><p>c) Desidratação.</p><p>d) Intoxicação crônica.</p><p>e) Enxaqueca.</p><p>BARSANO, P. R.; BARBOSA, R. P.; VIANA, J. V. Poluição ambiental e saúde pública. São</p><p>Paulo: Érica, 2014.</p><p>13Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos</p><p>BURIGO, A.; VENÂNCIO, J. Impacto dos agrotóxicos na alimentação, saúde e meio am-</p><p>biente. [S.l.]: Rede mobilizadores, 2016. Disponível em: . Acesso em: 07 jul.</p><p>2018.content/uploads/2016/08/Cartilha-Agrotoxicos-final.pdf>. Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>CARNEIRO, F. F. et al. (Org.). Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotó-</p><p>xicos na saúde. Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015. Disponível</p><p>em: . Acesso em: 08 jul. 2018.</p><p>FOSTER, S. et al. Proteção da qualidade da água subterrânea: um guia para empresas</p><p>de abastecimento de água, órgãos municipais e agências ambientais. São Paulo:</p><p>SERVMAR, 2006. Disponível em: . Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>LONDRES, F. Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida. Rio de Ja-</p><p>neiro: AS-PTA, 2011. Disponível em: .</p><p>Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>PELISSARI, A. et al. Tríplice lavagem e destinação das embalagens de defensivos agrícolas:</p><p>Programa Terra Limpa. Londrina: Seab/Andef, 1999.</p><p>ROSA, A. H.; FRACETO, L. F.; MOSCHINI-CARLOS, V. (Org.). Meio ambiente e sustentabi-</p><p>lidade. Porto Alegre: Bookman, 2012.</p><p>SANCHES, S. M. et al. Pesticidas e seus respectivos riscos associados à contaminação</p><p>da água. Revista de Ecotoxicologia e Meio Ambiente, Curitiba, v. 13, p. 53-58, jan./dez.</p><p>2003. Disponível em: .</p><p>Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>SANTOS, P. R. C.; DAIBERT, J. D. Análise dos solos: formação, classificação e conservação</p><p>do meio ambiente. São Paulo: Érica, 2014.</p><p>SILVA, M. F. O.; COSTA, L. M. A indústria de defensivos agrícolas. BNDES Setorial, n.</p><p>35, p. 233-276, mar. 2012. Disponível em: . Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>VEIGA, M. M. et al. Análise da contaminação dos sistemas hídricos por agrotóxicos</p><p>numa pequena comunidade rural do Sudeste do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio</p><p>de Janeiro, v. 22, n. 11, p. 2391-2399, nov. 2006. Disponível em: . Acesso em: 07 jul. 2018.</p><p>Leitura recomendada</p><p>ROCHA, J. C.; ROSA, A. H.; CARDOSO, A. A. Introdução à química ambiental. 2. ed. Porto</p><p>Alegre: Bookman, 2009.</p><p>Epidemiologia ambiental: impactos ambientais causados por agrotóxicos14</p><p>http://www.mobilizadores.org/</p><p>https://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/</p><p>http://siteresources.worldbank.org/INTWRD/Re-</p><p>http://antigo.contraosagrotoxicos.org/index.</p><p>https://revistas.ufpr.br/pesticidas/article/view/3165/2538</p><p>https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/</p><p>http://www.scielo.br/</p><p>Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para</p><p>esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual</p><p>da Instituição, você encontra a obra na íntegra.</p>