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Raciocínio Clínico em
Pneumonia
Desafios Diagnósticos e Manejo Clínico
Pneumologia Clínica 7º Período de Medicina 2026
Pneumonia: Definição e Conceitos
Definição
Inflamação aguda do parênquima pulmonar causada por agentes
infecciosos (bactérias, vírus, fungos) ou, raramente, por processos
não-infecciosos. Caracteriza-se por infiltrado alveolar e
comprometimento das trocas gasosas.
Classificação por Contexto
Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC)
Pneumonia Adquirida no Hospital (PAH)
Pneumonia Associada ao Ventilador (PAV)
Pneumonia por Aspiração
Pneumonia em Imunocomprometidos
Radiografia evidenciando consolidação pulmonar característica.
Impacto Epidemiológico
30%
dos pacientes internados com PAC são
imunocomprometidos
5ª
causa de morte mundial é a DPOC, frequentemente
complicada por pneumonia
70%
das exacerbações de DPOC são causadas por
infecções respiratórias
Grupos de Risco Elevado
Idosos (>65 anos) DPOC e Asma Imunocomprometidos (HIV, QT)
Diabetes Mellitus Cardiopatas Risco de Aspiração (AVC)
A pneumonia é a infecção invasiva mais comum em pacientes imunocomprometidos, apresentando mortalidade elevada mesmo com
tratamento adequado.
Fisiopatologia e Clínica
Mecanismo Patogênico
1 Colonização
Aspiração de secreções ou inalação de partículas infectadas.
2 Invasão
Ultrapassagem das defesas (clearance mucociliar, tosse).
3 Inflamação
Resposta do hospedeiro com infiltração celular.
4 Consolidação
Preenchimento alveolar com exsudato inflamatório.
5 Lesão Tissular
Dano ao parênquima e comprometimento das trocas.
Correlação Clínica
Infiltração Alveolar
Consolidação Lobar
Inflamação Intersticial
Infiltrado Difuso (Viral)
Resposta Inflamatória
Febre Alta, Tosse, Dor
Trocas Gasosas
Hipoxemia, Dispneia
Mediadores Sistêmicos
Mialgia, Cefaleia, Fadiga
Pneumonia Bacteriana: Apresentação Clínica
Sintomas Típicos
Início Agudo: Evolução rápida (horas a dias)
Febre Alta: >39°C, frequentemente com calafrios
Tosse Produtiva: Escarro purulento (amarelo/verde)
Dor Torácica: Pleurítica, piora com respiração
Dispneia: Progressiva e limitante
Sistêmico: Mialgia, fadiga, cefaleia
Exame Físico
Taquipneia (>30 irpm) e Taquicardia
Crepitações (estertores finos) à ausculta
Macicez à percussão (sinal de consolidação)
Broncofonia e egofonia presentes
Radiografia demonstrando consolidação lobar bem delimitada, característica de etiologia
bacteriana (ex: S. pneumoniae).
Achados Radiológicos
Infiltrado lobar ou segmentar bem demarcado
Consolidação com broncograma aéreo
Possível efusão pleural associada
Distribuição comum em lobos inferiores
Pneumonia Viral: Características Clínicas
Apresentação Clínica
Início: Gradual (2-3 dias)
Sintomas Constitucionais: Cefaleia, mialgia e fadiga
Tosse: Seca ou pouco produtiva
Febre: Moderada a alta, geralmente 38.5°C)
Escarro Aumento de volume/purulência habitual Purulento novo, diferente do habitual
Dor Torácica Geralmente ausente Frequentemente pleurítica
Ausculta Sibilância, roncos difusos Crepitações localizadas, consolidação
50-70%
das exacerbações de DPOC são causadas por infecções respiratórias.
25-50%
dos pacientes com DPOC exacerbada apresentam pneumonia concomitante.
Protocolo de Suspeita Diagnóstica
Quadro Típico
Febre >38.5°C
Tosse produtiva (purulenta)
Dor torácica pleurítica
Taquipneia (>30 irpm)
Consolidação à percussão
Quadro Atípico
Febre moderada ou ausente
Tosse seca/pouco produtiva
Sintomas constitucionais
Dispneia desproporcional
Sem consolidação típica
Imunocomprometidos
Febre prolongada (>1 sem)
Tosse seca persistente
Dispneia progressiva
Sintomas indolentes
RX pode ser normal (PJP)
Investigação Inicial
Radiografia de Tórax Hemograma Completo
Proteína C Reativa (PCR) Procalcitonina
Gasometria Arterial Culturas (Sangue/Escarro)
Sinais de Alerta
Infiltrado Novo no RX Leucocitose >11.000
PCR >50 mg/L Procalcitonina >0.25 ng/mL
Hipoxemia (SaO₂ 50 mg/dL(BUN > 19 mg/dL)
R
Respiração >= 30
Frequência respiratória elevada
B
Baixa Pressão
PAS = 65 anos
Fator de risco independente
Score 0 - 1
Baixo Risco
Considerar tratamento ambulatorial.
Score 2
Risco Moderado
Considerar internação em enfermaria.
Score 3 - 5
Alto Risco
Internação obrigatória. Considerar UTI (especialmente se 4-5).
*Cada item soma 1 ponto. A decisão clínica deve prevalecer sobre o escore isolado.
Achados Laboratoriais Essenciais
Hemograma
Leucocitose
Geralmente >15.000/mm³ em etiologias
bacterianas típicas.
Desvio à Esquerda
Aumento de formas jovens (bastonetes),
indicando infecção aguda.
Leucopenia
0.25 ng/mL
Bactéria provável
Achados Radiológicos Característicos
Comparação de padrões radiológicos: Consolidação lobar, broncopneumonia e infiltrado
intersticial.
Consolidação Lobar
Opacidade homogênea que respeita limites pleurais. Presença frequente de
broncograma aéreo. Típico de S. pneumoniae e Klebsiella.
Broncopneumonia
Infiltrados irregulares, multifocais e mal delimitados. Distribuição
peribronquiolar. Comum em S. aureus e Gram-negativos.
Infiltrado Intersticial
Padrão reticular ou reticulonodular difuso. Espessamento peribroncovascular.
Característico de etiologias virais e atípicas.
Sinais de Complicação
Derrame pleural (velamento do seio costofrênico), cavitação (nível
hidroaéreo) ou abscesso pulmonar.
Algoritmo Diagnóstico Integrado
1. Suspeita Clínica
Tosse, Febre, Dispneia, Dor Torácica, Ausculta Alterada
2. Radiografia de Tórax
PA e Perfil (Fundamental para confirmação)
Infiltrado Novo
Consolidação ou Infiltrado Intersticial
PNEUMONIA CONFIRMADA
Estratificar Risco (CURB-65)
Definir Local de Tratamento
Coletar Exames / Iniciar ATB
Sem Infiltrado
RX Normal ou Inalterado
INVESTIGAR OUTRAS CAUSAS
Exacerbação de DPOC / Asma
Insuficiência Cardíaca
Tromboembolismo Pulmonar
Alta Suspeita? Pedir TC de Tórax
História Clínica e Exame Físico Caso 01
Identificação e Queixa
Paciente
J.S., 45 anos, masculino, pedreiro.
Queixa Principal
"Febre alta e pontada no peito há 2 dias."
História da Doença Atual
Início súbito de calafrios seguidos de febre de 39.5°C. Evoluiu
com tosse produtiva e escarro ferruginoso. Dor torácica à direita,
pleurítica. Nega comorbidades.
Sinais Vitais
PA
110/70 mmHg
FC
110 bpm
FR
28 irpm
Temp
39.2°C
SatO2
92% (AA)
Exame Físico Segmentar
Geral:
Regular, lúcido,
taquipneico.
Inspeção:
Expansibilidade reduzida à
direita.
Palpação:
FTV aumentado na base direita.
Percussão:
Macicez na base direita.
Ausculta:
Murmúrio vesicular diminuído,
sopro tubário e estertores
crepitantes no terço inferior
direito.
Caso 1: Exames Complementares
Hemograma Completo
Hemoglobina 13.5 g/dL
Leucócitos 18.500 /mm³
Bastonetes 12%
Segmentados 78%
Plaquetas 250.000 /mm³
Bioquímica
Proteína C Reativa 145 mg/L
Ureia 42 mg/dL
Creatinina 1.0 mg/dL
Gasometria Arterial (AA)
pH 7.42
pO₂ 65 mmHg
pCO₂ 35 mmHg
SatO₂ 92%
Lactato 1.8 mmol/L
Laudo Radiológico
"Presença de opacidade heterogênea com broncograma aéreo de
limites bem definidos, ocupando o terço inferior do hemitórax
direito, compatível com consolidação lobar. Seios costofrênicos
livres."
Caso 1: Diagnóstico e Conduta
Hipótese Diagnóstica Principal
Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC)
Etiologia provável: Streptococcus pneumoniae (Pneumococo). Baseado na apresentação clínica e consolidação lobar radiológica.
Estratificação de Risco
CURB-65: 0 pontos — Decisão: Tratamento Ambulatorial
Confusão: Não
Ureia: Normal
Respiração & PA:(IgM) REAGENTE
Crioaglutininas POSITIVO
Caso 3: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Final
Pneumonia Atípica (Mycoplasma)
Racional: Paciente jovem, quadro subagudo, sintomas extrapulmonares (cefaleia,
mialgia) e dissociação clínico-radiológica (exame físico pobre vs. infiltrado extenso).
Antibiótico
Macrolídeo: Azitromicina 500mg 1x/dia por 3-5 dias
Alternativa:Claritromicina ou Doxiciclina
Beta-lactâmicos são ineficazes (bactéria sem parede
celular)
Suporte
Hidratação
Antitussígenos (se tosse muito incômoda)
Monitorar contatos (surtos em dormitórios)
Complicações
Anemia hemolítica (crioaglutininas)
Eritema multiforme
Meningoencefalite (raro)
Evolução: Melhora clínica lenta mas progressiva. A tosse persistiu por 3 semanas, resolvendo
espontaneamente.
Não usar Penicilinas ou Cefalosporinas
História Clínica e Exame Físico Caso 04
Identificação e Queixa
Paciente
R.O., 68 anos, aposentado. Tabagista (50 maços-ano).
Queixa Principal
"Piora do cansaço e catarro verde há 2 dias."
História da Doença Atual
Portador de DPOC. Relata piora da dispneia habitual, aumento
do volume do escarro e mudança da cor para purulento
(Critérios de Anthonisen). Apresentou febre de 38.5°C hoje.
Nega dor torácica ventilatório-dependente.
Sinais Vitais
PA
130/85 mmHg
FC
105 bpm
FR
26 irpm
Temp
38.5°C
SatO2
88% (AA)
Exame Físico Segmentar
Geral: Taquipneico, uso de musculatura acessória.
Tórax: Hiperinsuflado (tórax em tonel).
Ausculta: Murmúrio vesicular diminuído globalmente. Expiração
prolongada com sibilos difusos.
Estertores crepitantes focais em base direita (novo achado).
Caso 4: Exames Complementares
Hemograma Completo
Hemoglobina 15.5 g/dL (Poliglobulia)
Leucócitos 15.200 /mm³
Bastonetes 8%
Segmentados 75%
Plaquetas 210.000 /mm³
Bioquímica
Proteína C Reativa 85 mg/L
Ureia 55 mg/dL (Leve aumento)
Creatinina 1.1 mg/dL
Gasometria Arterial (AA)
pH 7.32 (Acidose)
pO₂ 58 mmHg
pCO₂ 55 mmHg
HCO₃ 28 mEq/L
SatO₂ 88%
Laudo Radiológico
Consolidação alveolar no lobo inferior direito sobre alterações crônicas;
sinais de hiperinsuflação.
Caso 4: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Integrado
PAC + Exacerbação Aguda de DPOC
Pneumonia atuando como gatilho infeccioso para descompensação da DPOC. Critérios de Anthonisen presentes (aumento de dispneia, volume
e purulência do escarro).
Antibioticoterapia
Levofloxacino 750mg
1x/dia por 5-7 dias (Cobertura para
H. influenzae e S. pneumoniae resistente).
Alternativa:
Amoxicilina-Clavulanato + Azitromicina.
Manejo da DPOC
Corticosteroide Sistêmico
Prednisona 40mg/dia por 5 dias (Reduz
inflamação brônquica).
Broncodilatadores
Otimizar SABA/SAMA (Nebulização ou Spray
com espaçador).
Oxigenoterapia
Alvo de SatO2: 88-92%
Evitar hiperóxia! Risco de narcose por CO₂ em
retentores crônicos.
VNI
Considerar se acidose respiratória (pH 35)
Laudo Radiológico
Infiltrado intersticial bilateral, com padrão em vidro fosco,
predominando nas regiões perihilares.
Caso 5: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Etiológico
Pneumocistose (PCP)
Infecção oportunista definidora de AIDS. Quadro clássico de hipoxemia desproporcional à ausculta, LDH elevado e imunossupressão grave
(CD4 35.
Protocolo
Prednisona com desmame gradual em 21 dias.
Previne piora respiratória inicial.
Manejo do HIV
Início da TARV
Aguardar 2 semanas de tratamento da PCP para
reduzir risco de IRIS (Síndrome de Reconstituição
Imune).
Profilaxia Secundária
Manter Bactrim profilático até CD4 > 200.
Evolução: Melhora lenta da hipoxemia após 5 dias. Alta hospitalar após término do tratamento endovenoso, mantendo profilaxia secundária e
encaminhamento para reinício da TARV.
História Clínica e Exame Físico Caso 06
Identificação e Fatores de Risco
Paciente
H.G., 82 anos, institucionalizado.
Antecedentes
Sequela de AVC isquêmico com hemiparesia à direita e disfagia
orofaríngea. Acamado crônico.
História da Doença Atual
Cuidadora relata episódio de engasgo com dieta pastosa há 2
dias. Evoluiu com prostração, febre não aferida e tosse
produtiva com escarro de odor fétido.
Exame Físico e Sinais Vitais
PA
100/60 mmHg
FC
112 bpm
FR
28 irpm
Temp
38.2°C
SatO2
89% (AA)
Oroscopia: Higiene oral precária, restos alimentares, halitose.
Pulmões: Estertores grosseiros em base direita e roncos difusos.
Caso 6: Exames Complementares
Hemograma Completo
Hemoglobina 12.8 g/dL
Leucócitos 16.800 /mm³
Bastonetes 10%
Segmentados 78%
Plaquetas 280.000 /mm³
Bioquímica
Proteína C Reativa 120 mg/L
Ureia 48 mg/dL
Creatinina 1.2 mg/dL
Gasometria Arterial (AA)
pH 7.35
pO₂ 62 mmHg
pCO₂ 42 mmHg
SatO₂ 90%
Laudo Radiológico
"Consolidação heterogênea localizada no segmento superior do
lobo inferior direito e segmento posterior do lobo superior direito.
Presença de pequena área de cavitação central (nível hidroaéreo
incipiente)."
Localização em Zonas Dependentes da Gravidade
Caso 6: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Final
Pneumonia Aspirativa
Infecção polimicrobiana (aeróbios + anaeróbios) secundária à macroaspiração. Fatores de risco evidentes (sequela de AVC, disfagia) e
localização radiológica dependente da gravidade.
Antibioticoterapia
Amoxicilina + Clavulanato
Cobertura para anaeróbios da cavidade oral e
gram-negativos entéricos.
Alternativa:
Ampicilina-Sulbactam ou Clindamycin (menos
preferida atualmente).
Prevenção
Fonoaudiologia
Avaliação da deglutição
(videofluoroscopia se necessário).
Dieta
Ajuste de consistência (espessantes) ou via
alternativa (SNE/GTT) se disfagia grave.
Medidas Gerais
Cabeceira Elevada
Manter 30-45° para reduzir risco de refluxo
e nova aspiração.
Higiene Oral
Reduzir carga bacteriana da orofaringe (fator
crítico).
Evolução: Resposta clínica lenta (comum em anaeróbios). Necessitou de sonda nasoenteral após falha no teste de deglutição. Alta para Home Care.
História Clínica e Exame Físico Caso 07
Identificação e Contexto
Paciente
J.S., 55 anos, masculino.
Internação Atual
5º dia de pós-operatório (Colectomia parcial). Estava em ar
ambiente, com boa evolução inicial.
História da Doença Atual
Apresentou pico febril súbito (38.8°C) associado a tosse
produtiva com escarro purulento e queda da saturação de
oxigênio nas últimas 12 horas.
Exame Físico e Sinais Vitais
PA
110/70 mmHg
FC
115 bpm
FR
24 irpm
Temp
38.8°C
SatO2
90% (O2 3L)
Geral: Regular estado geral, sudoreico.
Pulmões: Estertores crepitantes grosseiros difusos e roncos de transmissão.RX Tórax: Infiltrados multifocais (Broncopneumonia)
Caso 7: Exames Complementares
Hemograma e Inflamação
Leucócitos 18.500 /mm³
Bastonetes 12% (Desvio à E)
Plaquetas 150.000 /mm³
Proteína C Reativa 180 mg/L
Função Renal (Sepsis?)
Ureia 85 mg/dL
Creatinina 1.8 mg/dL (LRA)
Lactato Arterial 2.5 mmol/L
Microbiologia (Aspirado Traqueal)
BACILOS GRAM-NEGATIVOS
Cultura em andamento (Suspeita de Pseudomonas)
Laudo Radiológico
"Opacidades alveolares mal definidas, multifocais e bilaterais,
sugestivas de broncopneumonia. Ausência de derrame pleural
significativo. Tubo orotraqueal bem posicionado
(pós-intubação)."
Caso 7: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Final
Pneumonia Nosocomial (Hospitalar)
Início dos sintomas >48h após admissão. Alto risco de patógenos multirresistentes, especialmente Gram-negativos (Pseudomonas, Klebsiella) e
S. aureus.
Antibioticoterapia Empírica
Piperacilina-Tazobactam
4.5g IV 6/6h (Cobertura
antipseudomonas).
Considerar MRSA
Adicionar Vancomicina se fatores de risco.
Suporte Respiratório
Oxigenoterapia
Manter SatO2 >92%.
Fisioterapia Respiratória
Higiene brônquica e mobilização
precoce.
Prevenção de Recorrência
Cabeceira Elevada
30–45°.
Higiene Oral
Uso de clorexidina.
Evolução: Cultura isolou Klebsiella pneumoniae multissensível. Descalonamento para Cefepime. Alta da UTI em 5 dias.
História Clínica e Exame Físico Caso 08
Identificação e Contexto
Paciente
L.M., 22 anos, masculino.
História Patológica
Leucemia Mieloide Aguda (LMA). Em D14 de quimioterapia de
indução.
História da Doença Atual
Quadro de Neutropenia Febril. Iniciou febre alta (39.2°C) há 4
horas, associada a tosse seca e leve dispneia. Nega dor torácica
ou expectoração.
Exame Físico e Sinais Vitais
PA
90/60 mmHg
FC
120 bpm
FR
26 irpm
Temp
39.2°C
SatO2
91% (AA)
Oroscopia: Mucosite grau II.
Pulmões: Murmúrio vesicular presente, sem ruídos adventícios.
Atenção: A ausência de neutrófilos reduz a inflamação e os
sinais auscultatórios (pus).
Caso 8: Exames Complementares
Hemograma (Pancitopenia)
Hemoglobina 7.5 g/dL
Leucócitos Totais 300 /mm³
Neutrófilos 10% (ANC = 30)
Plaquetas 25.000 /mm³
Neutropenia Grave (ANC 96h
Ampliar cobertura (Vancomicina?
Carbapenêmico?) e iniciar Antifúngico
empírico.
Antiviral
Oseltamivir adicionado devido à
suspeita de Influenza (sazonal).
Evolução: Defervescência após 72h, coincidindo com o início da recuperação medular (neutrófilos > 500). PCR viral confirmou Influenza A. Antibiótico
mantido até resolução da neutropenia.
História Clínica e Exame Físico Caso 09
Identificação e Epidemiologia
Paciente
R.T., 45 anos, empresário. Tabagista.
História Social
Retornou há 5 dias de convenção em hotel com ar-condicionado
central.
História da Doença Atual
Início abrupto de febre alta, calafrios e tosse seca. Evoluiu com
diarreia (4 episódios/dia) e confusão mental hoje.
Exame Físico e Sinais Vitais
PA
100/60 mmHg
FC
92 bpm
FR
28 irpm
Temp
39.8°C
SatO2
88% (AA)
Neurológico: Desorientado em tempo e espaço (Glasgow 14).
Pulmões: Estertores crepitantes em base esquerda.
Sinal de Faget: Bradicardia relativa (FC 39°C).
Caso 9: Exames Complementares
Bioquímica (Pistas Diagnósticas)
Sódio (Na+) 128 mEq/L (Hiponatremia)
TGO / TGP 65 / 72 U/L (Elevados)
CPK (Creatinoquinase) 450 U/L (Elevado)
Proteína C Reativa 210 mg/L
Hiponatremia + Sintomas TGI = Suspeitar de Legionella
Hemograma
Leucócitos 14.500 /mm³
Bastonetes 6%
Plaquetas 180.000 /mm³
Antígeno Urinário
POSITIVO (Legionella pneumophila sg 1)
Laudo Radiológico
"Consolidação alveolar densa em lobo inferior esquerdo, com tendência à
progressão multilobar. Presença de pequeno derrame pleural ipsilateral.
Ausência de cavitações."
Caso 9: Diagnóstico e Conduta
Diagnóstico Etiológico
Doença dos Legionários (Legionella pneumophila)
Pneumonia atípica grave — hiponatremia, sintomas gastrointestinais e falha a beta-lactâmicos.
Antibioticoterapia
Levofloxacino 750mg
IV ou VO por 7-10 dias (preferencial em casos
graves).
Azitromicina
Alternativa eficaz.
Atenção:
Beta-lactâmicos são INEFICAZES
(intracelular).
Suporte Sistêmico
Hidratação
Corrigir hiponatremia; prevenir lesão renal.
Suporte Ventilatório
Alto fluxo ou VNI se necessário.
Epidemiologia
Notificação Compulsória
Investigar fontes (ar-condicionado, torres, água
quente).
Evolução: Melhora clínica lenta (defervescência em ~4-5 dias). Alta hospitalar por volta do 10º dia.
História Clínica e Exame Físico Caso 10
Identificação e Contexto
Paciente
M.O., 58 anos, masculino.
História Patológica
Transplante Renal há 6 meses. Em uso de Tacrolimus e
Micofenolato.
História da Doença Atual
Evolução subaguda (2 semanas). Queixa de febre baixa
vespertina, dor torácica pleurítica à direita e episódios de
hemoptise leve. Nega contato com tuberculose.
Exame Físico e Sinais Vitais
PA
130/80 mmHg
FC
88 bpm
FR
22 irpm
Temp
37.8°C
SatO2
94% (AA)
Pulmões:Murmúrio vesicular diminuído em base direita. Atrito pleural audível.
Tríade de Risco: Imunossupressão + Dor Pleurítica + Hemoptise
= Suspeitar de Fungo Invasivo.
TC Tórax: Nódulo com "Sinal do Halo"
Caso 10: Exames Complementares
Hemograma (Imunossupressão)
Leucócitos 2.800 /mm³
Neutrófilos 1.200 /mm³
Linfócitos 450 /mm³ (Linfopenia)
Plaquetas 130.000 /mm³
Bioquímica
Creatinina 1.6 mg/dL (Nefrotoxicidade?)
Proteína C Reativa 90 mg/L
Nível de Tacrolimus 12 ng/mL (Faixa terapêutica)
Galactomanana Sérica (Aspergillus)
ÍNDICE: 1.8 (POSITIVO)
Valor de referência: Aumenta
drasticamente nível de Tacrolimus.
Conduta
Reduzir dose do Tacrolimus em 50-75% e
monitorar nível sérico.
Evolução: Melhora clínica lenta após 2 semanas. TC de controle em 1 mês mostrou redução do nódulo e formação de cavitação ("Sinal do Crescente
Aéreo"), indicando resposta ao tratamento.
Síntese: 5 Pilares do Raciocínio Clínico
1
O Diagnóstico é Integrado
Não trate só a imagem. A história clínica (tempo,
sintomas) guia a interpretação radiológica.
2
O Hospedeiro Define o Patógeno
A imunidade édeterminante: em imunocompetentes
priorize Pneumococo; em imunossuprimidos amplie o
espectro.
3
Estratifique o Risco Sempre
Use scores objetivos (CURB-65, PSI) para definir local
de tratamento e recursos necessários.
4
Antibiótico: Rápido e Preciso
Na sepse, tempo é vida. Inicie empírico e ajuste
conforme diagnóstico microbiológico para descalonar.
5
Falha Terapêutica? Reavalie.
Se sem melhora em 48–72h, reconsidere complicações
(empiema, abscesso), diagnósticos alternativos ou
resistência.
Referências e Recursos
Diretrizes e Consensos
SBPT 2018
Corrêa RA, et al. Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na
comunidade 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423.
ATS/IDSA 2019 (PAC)
Metlay JP, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired
Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society
and Infectious Diseases Society of America.
Am J Respir Crit Care Med. 2019.
ATS/IDSA 2016 (PAH/PAV)
Kalil AC, et al. Management of Adults With Hospital-acquired and
Ventilator-associated Pneumonia: 2016 Clinical Practice Guidelines.
Clin Infect Dis. 2016.
Literatura Base
Harrison's Principles of Internal Medicine
Loscalzo J, Fauci A, et al. 21st Edition. McGraw Hill, 2022.
Murray & Nadel's Textbook of Respiratory Medicine
Broaddus VC, et al. 7th Edition. Elsevier, 2021.
Recursos Digitais
UpToDate
Tópicos: "Clinical evaluation and diagnostic testing for
community-acquired pneumonia in adults".
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia
www.sbpt.org.br
Obrigado!
Dúvidas?