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QUESTÕES ATUAIS DOS CRIMES CONTRA A VIDA Comitê Científico Ary Baddini Tavares (UNIMESP) Andrés Falcone (Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina) Alessandro Octaviani (USP-SP) Daniel Arruda Nascimento (UFF-RJ) Eduardo Saad-Diniz (USP, Ribeirão Preto) Isabel Lousada (Universidade Nova de Lisboa, Portugal) Jorge Miranda de Almeida (UESB-BA) Marcia Tiburi Marcelo Martins Bueno (Mackenzie) Miguel Polaino-Orts (Universidade de Sevilha, Espanha) Maurício Cardoso (FFLCH – USP) Maria J. Binetti (CONICET, ARG) Michelle Vasconcelos de Oliveira Nascimento (FURG-RS) Paulo Roberto Monteiro Araújo (Mackenzie-SP) Patricio Sabadini (Universidad Cuenca del Plata, ARG) Rodrigo Santos de Oliveira (FURG-RS) Sandra Caponi (UFSC-SC) Sandro Luiz Bazzanella (Universidade do Contestado - UnC) Tiago Almeida (USP-SP) Saly Wellausen (USP-SP) ARTUR DE BRITO GUEIROS SOUZA QUESTÕES ATUAIS DOS CRIMES CONTRA A VIDA 1ª edição LiberArs São Paulo – 2016 Questões atuais de crimes contra a vida © 2016, Editora LiberArs Ltda. Direitos de edição reservados à Editora LiberArs Ltda ISBN 978-85-9459-025-1 Editores Fransmar Costa Lima Lauro Fabiano de Souza Carvalho Revisão técnica Cesar Lima Editoração e capa Simone Alauk Impressão e acabamento Gráfica Rotermund Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP Bibliotecária responsável Neuza Marcelino da Silva – CRB 8/8722 Todos os direitos reservados. A reprodução, ainda que parcial, por qualquer meio, das páginas que compõem este livro, para uso não individual, mesmo para fins didáticos, sem autorização escrita do editor, é ilícita e constitui uma contrafação danosa à cultura. Foi feito o depósito legal. Editora LiberArs Ltda www.liberars.com.br contato@liberars.com.br Processo isbn 025-1 mailto:contato@liberars.com.br Dedico esta obra a Milena Cursino Rodrigues, com todo meu Amor! SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................................... 11 Introdução ................................................................................................................................. 13 1. Considerações iniciais......................................................................... 13 2. Bem jurídico tutelado nos crimes contra a vida. ............................... 14 Capítulo Primeiro Do Homicídio ........................................................................................................................... 17 1. Introdução. ........................................................................................... 18 2. Bem jurídico protegido. ....................................................................... 20 3. Sujeito ativo. ......................................................................................... 21 4. Sujeito passivo. ..................................................................................... 21 5. Tipo objetivo......................................................................................... 22 6. Tipo subjetivo. ...................................................................................... 24 7. Consumação e tentativa. ...................................................................... 26 8. Homicídio privilegiado. ....................................................................... 28 8.1. Motivo de relevante valor social. ..................................................... 29 8.2. Motivo de relevante valor moral. Eutanásia e ortotanásia. ...................................................................................... 30 8.3. Domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima. ..................................................................... 31 9. Homicídio qualificado. ......................................................................... 34 9.1 Homicídio praticado mediante paga ou promessa de recompensa ou por outro motivo torpe. ....................................... 35 9.2. Homicídio qualificado por motivo fútil. .......................................... 39 9.3. Homicídio qualificado pelo emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso, cruel ou que cause perigo comum. ................................................ 41 9.4. Homicídio cometido a traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido. .................................... 44 9.5. Homicídio cometido para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime. ............................................................................................... 46 9.6. Feminicídio ........................................................................................ 49 9.7. Contra autoridades e agentes das Forças Armadas e de segurança pública, sistema prisional, Força Nacional e seus familiares. ................................................................................ 52 10. Premeditação e homicídio qualificado. ............................................ 54 11. Homicídio privilegiado-qualificado .................................................. 55 12. Homicídio culposo. ............................................................................ 57 12.1. Homicídio culposo e a teoria da imputação objetiva. .................. 59 12.2. Homicídio culposo na condução de veículo automotor. .............. 61 13. Causas de aumento de pena. ............................................................. 65 14. Perdão judicial ................................................................................... 68 15. Homicídio praticado por milícia privada ou por grupo de extermínio .................................................................................. 69 16. Aumento de pena no feminicídio. ..................................................... 70 17. Pena e ação penal. .............................................................................. 71 18. Questões de concurso público. ......................................................... 75 Capítulo Segundo Da Participação em suicídio ........................................................................................... 79 1. Introdução. ........................................................................................... 79 2. Indicadores de risco de suicídio. ......................................................... 81 3. Sujeito ativo. ......................................................................................... 82 4. Sujeito passivo. ..................................................................................... 82 5. Tipo objetivo. ....................................................................................... 83 5.1. Participação indireta ou mediante omissão em suicídio................ 84 5.2. Participação em roleta-russa. .......................................................... 86 5.3. Homicídio consentido ou homicídio a pedido ................................ 86 5.4. Pacto de morte ou suicídio coletivo. ................................................ 87 5.5. Atos de convicção ideológica ou religiosa. ...................................... 88 5.6. Natureza jurídica do resultado morte ou lesão corporal grave. ............................................................................................... 88 5.7. Participação em suicido quando o agente custeia a viagem/hospedagem de alguém para um país onde há clínicas especializadas emsupõe – real ou ficticiamente – que a vítima estaria envolvida afetivamente com terceira pessoa.42 Como bem ressaltado pela doutrina e jurisprudência, a antiga tese da chamada “legítima defesa da honra” – que, no passado, era tida como idônea ao reconhecimento do “privilégio” ou até mesmo “excludente de antijuridicidade” –, foi completamente abandonada. Não há que prosperar, portanto, argumentos dessa natureza. A rigor, cuida-se de situação antagônica – em absoluto – com a figura penal do feminicídio, abaixo apresentada.43 41 Cf. TJSP. In RT 572/325. 42 A propósito desse sentimento, vide a seguinte lição: “O ciúme já na sua antiga origem etimológica grega, em sua terminologia em tal idioma, bem indicava tal estado psíquico de tormento, pois significava ‘ardor’, ‘ferver’, ‘fermentar’, considerando-o os gregos, como um ‘amor excessivo’, enquanto os romanos identificavam-no mais com o sentimento de inveja (...). A sabedoria popular diz que o ciumento fica ‘cego’ pelo seu tormento, pelo inferno que vive, pois a verdadeira realidade não existe para ele, somente a realidade que ‘imagina’ ilusoriamente, alucinadamente, falsamente’.” (ALVES, Roque de Brito. Ciúme e crime. Apud NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 646). 43 Nesse sentido, repelindo teses de “legítima defesa da honra”, verbis: “O marido que atira em esposa que comete adultério não age à sombra do instituto penal da legítima defesa da honra. A perda da honra 34 9. Homicídio qualificado. O art. 121, § 2º, do CP, arrola, em seus incisos, várias hipóteses qualificadoras em sentido estrito. Isso quer dizer que, na presença das situações ali descritas, tipifica-se um novo patamar punitivo. A qualificadora é, portanto, “uma cominação abstrata mínima e máxima de pena, diversa daquela cominada na forma básica do delito.”44 Na espécie, o tipo básico – ou simples – de homicídio prevê pena de reclusão, de seis a vinte anos, ao passo que, no homicídio qualificado, aplica- se pena privativa de liberdade de doze a trinta anos de reclusão. Conforme será visto na sequência, o homicídio qualificado consiste em um tipo penal derivado. No caso, os motivos determinantes, os meios empregados, a forma de sua execução ou as características da vítima – ou todas essas circunstâncias reunidas – tornam o fato mais reprovável do que aquele perpetração na modalidade básica. Nesse sentido, divide-se o homicídio qualificado em dois grandes grupos. O primeiro compreende determinados “fatores subjetivos”, consistentes em motivações mais reprováveis. São eles: 1) torpeza; 2) futilidade; e 3) finalidade de facilitar ou assegurar a execução, ocultação, vantagem ou impunidade de outro crime. O segundo grupo compreende “fatores objetivos”, igualmente reprováveis, subdivididos em três vertentes: 1) meios utilizados para matar, tais como a insídia, a crueldade ou o perigo para a coletividade; 2) modo de execução – ou modus operandi – que dificultem ou tornem a defesa impossível; e 3) condição especial da vítima. Diante disso, observa-se ser possível, no caso concreto, incidência de homicídio “dupla” ou até “multiplamente” qualificado, ou seja, pela motivação, pelo meio utilizado, pelo modo de realização da conduta ou pela condição da vítima. Segundo Luiz Regis Prado, se o agente incorrer em duas ou mais qualificadoras, uma incidirá no cálculo da pena-base, enquanto a outra será considerada como agravante comum, se cabível. Portanto, “se o homicídio for praticado mediante emboscada (art. 121, § 2º, IV, CP), e com o emprego de explosivo (art. 121, § 2º, III, CP), a primeira qualificadora fornecerá as margens penas mais gravosas (tipo derivado), e a outra funcionará como circunstância agravante genérica (art. 61, II, d, CP), na segunda etapa da fixação da pena definitiva.”45 é do cônjuge infiel e não do inocente, portanto não se configura a excludente de ilicitude.” (RT 761/645). “O uxoricida passional, que pratica o crime em exaltação emocional, pode apenas invocar a causa de redução de pena prevista no § 1º do art. 121, não, porém, a legítima defesa da honra.” (RT 486/265) 44 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 523. 45 PRADO, Luiz Regis et. al. Op. cit., p. 641. 35 Por outro lado, vale observar que, não raro, hipóteses qualificadoras do homicídio constam, também, como circunstâncias agravantes no art. 61, do CP. Nesse sentido, no momento da aplicação da pena – para não violar o princípio do ne bis in idem – cumpre não efetuar uma dupla valoração das mesmas circunstâncias. Por exemplo, se o homicídio for qualificado por motivo fútil, o cálculo da pena há de começar pelos parâmetros fixados no art. 121, § 2º, do CP. Porém, não haverá acréscimo, na segunda fase da fixação da pena, pela agravante do motivo fútil (art. 61, inc. II, al. “a”, do CP), porque esta circunstância já qualificou o crime.46 Por fim, o fato de não haver motivação conhecida para matar não significa, de per si, que a pena deva corresponder ao tipo qualificado. Isto porque, de outra forma, teríamos, por exclusão, apenas duas modalidades de homicídio doloso – qualificado ou privilegiado –, quando, na verdade, além destes, há, também, a forma simples.47 A propósito, o seguinte arresto: Deve-se ter em conta que a existência de motivação para a prática do crime de homicídio não pode, inexoravelmente, conduzir à existência de um lado de um delito qualificado ou, de outro, obrigatoriamente, privilegiado. Há hipóteses em que configura-se-á a prática de um homicídio simples. Basta, para tanto, que a motivação não seja capaz de atrair a causa de diminuição da pena (assim, não tenha sido cometido impelido por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta emoção logo em seguida a injusta provocação da vítima) ou que as razões da ação criminosa não se qualifiquem como insignificantes – fútil, portanto – ou abjetas – torpe.48 9.1 Homicídio praticado mediante paga ou promessa de recompensa ou por outro motivo torpe. A primeira qualificadora é a que alude à motivação torpe. Com efeito, torpe – do latim turpis – é o homicídio cometido por motivo asqueroso, repugnante, vil, que causa desprezo ou aversão.49 No caso, o homicídio decorre de fatores de extrema vileza, vulgaridade, inveja, cobiça etc., ofendendo, pois, a moralidade média ou o sentimento ético comum do conjunto social, dando azo a maior reprimenda penal.50 46 Sobre o assunto: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 528. 47 Nesse sentido: NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 646. 48 STJ. HC 77309. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJ de 26.05.08. 49 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 492. 50 Cf. RJTJSP 22/449. No mesmo sentido, verbis: “Motivo torpe é aquele que, em razão de sua natureza vulgar, medíocre e vil, desvia-se dos padrões de moralidade aceitos, em geral, pela sociedade (STJ. HC 198377. 5ª T. Relatora Min. Laurita Vaz. Pub. DJ de 02.10.13). “Por motivo torpe deve ser entendido o motivo repugnante, abjeto, vil, indigno, que repugna a consciência média”. (TJDF. APE 14935520108070013. Relator Des. Alfeu Machado. Pub. DJ de 29.09.10). 36 Nesses termos, matar por dinheiro – o chamado crime mercenário ou assassinato – é homicídio torpe por excelência. Isso porque, em tais circunstâncias, o agente não tem motivos para querer a morte da vítima, matando-a apenas em função de vantagem pessoal. Como se pode observar, a qualificadora pressupõe o concurso, ao menos, de duas pessoas: o mandante e o executor, aquele pagando ou prometendo recompensa, e, este,aceitando ou cumprindo sua parte no combinado. Constata-se, portanto, que a paga ou a promessa de recompensa verifica-se quando o agente recebe valores para praticar o delito ou o comete tão somente porque obteve a indicação de que, provavelmente, irá obter proveito econômico com a sua realização. Por outro lado, a doutrina difere paga de promessa de recompensa. Segundo Damásio de Jesus, na primeira, o recebimento é prévio, o que não ocorre na segunda hipótese. Leciona, ainda, aquela autor, que não é necessário que o sujeito receba, efetivamente, a recompensa, bastando a sua promessa. Ele observa, ainda, que há a qualificadora se o sujeito recebe parte da paga.51 Com relação a natureza da vantagem aqui considerada, tem-se que a mesma deve ser de cunho material ou econômico. É o que ocorre, por exemplo, com a promessa de emprego, de aquisição de bens materiais, de viagens internacionais ou herança dos bens da vítima, dentre outras.52 Contudo, parte da doutrina sustenta a incidência da qualificadora quando se tratar de paga ou oferta de recompensa de qualquer natureza, mesmo sem conotação econômica direta ou explícita. Citem-se, como exemplos, vantagens de cunho moral, sexual ou mesmo promessa de casamento.53 Na mesma linha, alguns sustentam que a qualificadora pode operar independentemente de prévia quantificação monetária, ficando, pois, o seu “preço” ao alvedrio do executor ou do mandante.54 Ainda sobre a torpeza, merece registrar que o ciúme e a vingança – isoladamente considerados – não são tidos como motivo torpe. Sobre ciúme, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que o fato da vítima ter dado um 51 JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. 2º vol. 32ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 99. 52 Nesse sentido: “Embora não se negue que motivos não-econômicos possam perfeitamente figurar como móvel do delito, não foram estes incluídos no âmbito da qualificadora. O fundamento de maior reprovabilidade reside na desvaloração do motivo, de forma que a admissão de motivos não- econômicos implicaria a necessidade de determinação, em cada caso, da especial reprovabilidade dos mesmos, o que criaria grande insegurança jurídica. Deveria ser analisado, concretamente, se a promessa de um cargo político, de matrimônio ou de um favor sexual, por exemplo, configurariam ou não motivos torpes e, por isso, particularmente reprováveis. Por essa razão, acertada a opinião dominante que considera que a paga ou promessa de recompensa devam ter conteúdo econômico. Pode o juiz, porém, avaliar o motivo não-econômico quando da fixação da pena-base (art. 59, CP).” (PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 638). 53 Nesse sentido: JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 99. 54 Ibid. 37 “passeio” ou de ter tido um “relacionamento mais íntimo” com a namorada do agente – circunstância esta que ocasionara a subsequente ação homicida – , não importaria na qualificadora do motivo torpe, pois o “ciúme influi de modo intenso e negativo no controle emocional de sua presa e as ações a que dá causa podem ser injustas, mas não comportam a qualificação de fúteis ou torpes.”55 Todavia, em certas situações, pode, sim, o ciúme vir a caracterizar a qualificadora da torpeza. Nessa linha, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais decidiu que se caracteriza o motivo torpe quando o ciúme extravasa a “normalidade” a ponto de se tornar “repugnante” à consciência média, por ser “propulsionador de vingança” ante a recusa da ex-mulher em “reconciliar- se.”56 Sobre vingança – ou vindita, desforra, revanche – ela, por si só, isto é, desacompanhada de outros fatores, não bastaria para caracterizar o delito como torpe. Faz, assim, necessário aprofundar a compreensão acerca da natureza da vingança que, a depender das circunstâncias, poderá caracterizar um comportamento abjeto, ou, ao revés, até mesmo uma honoris causae.57 Uma questão bastante discutida sobre essa qualificadora é a concernente a sua comunicabilidade àquele que oferece a vantagem econômica, isto é, ao mandante do crime. Exemplo: “A”, irmão de “B”, pessoa portadora de uma suposta “vida miserável”, não desejando mais ver o seu familiar em um estado tão degradante, contrata o pistoleiro “C”, por um determinado valor, para dar cabo na vida de “B”, o que, de fato, ocorre. Sobre a questão, a doutrina majoritária é no sentido de que a qualificadora da “paga”, que motivou “C” a matar “B”, seria incomunicável a “A”, consoante a conjugação do art. 121, § 2º, inc. I, com a regra do art. 30, ambos do CP. Nesse sentido, observa Luiz Regis Prado, que a ratio da qualificadora é o “móvel de lucro”, considerado “especialmente reprovável”. Portanto – para aquele autor –, seria “incabível a aplicação da qualificadora 55 Cf. TJSP. In RT 715/448. A propósito, verbis: “O inconformismo com o término de relacionamento não se enquadra em um contexto capaz de despertar especial repúdio, e, por isso, não tem o condão de, or si só, fazer incidir a qualificadora de motivo torpe, sobretudo quando se tem notícia nos autos de que estaria preenchido pelo sentimento de ciúme.” (STJ. HC 198377. 5ª T. Relatora Min. Laurita Vaz. Pub. DJ de 2.10.13). “O ciúme, por si só, sem outras circunstâncias, não caracteriza o motivo torpe.” (STJ. HC 123918. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJe de 5.10.09). No mesmo sentido: STJ. HC 147533. 5ª T. Relator Min. Jorge Mussi. Pub. DJ de 4.10.10. 56 Cf. TJMG. In RT 753/664. 57 Cf.: “Com efeito, os fundamentos que alimentam o sentimento de vingança, que não é protegido pelo direito, podem ser nobres, relevantes, éticos e morais; embora não justifiquem o crime, podem privilegiá-lo, quando, por exemplo, configurem relevante valor social ou moral, v.g., quando o próprio pai mata o estuprador de sua filha.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. Vol. 2. 13ª ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 85). 38 àquele que oferece a paga ou recompensa, já que este atua imbuído de motivação diversa, sendo possível inclusive, que o faça por motivo nobre.”58 Entretanto, a jurisprudência controverte sobre o assunto. Com efeito, a 5ª Turma do STJ fixou entendimento no sentido de que os dados que compõem o tipo básico ou fundamental – inseridos no caput do art. 121 – são elementares ou essentialia delicti, ao passo que aqueles que integram o acréscimo, estruturando o tipo derivado – qualificado ou privilegiado – são circunstâncias ou accidentalia delicti. Dessa forma, “a qualificadora de ter sido o delito praticado mediante paga ou promessa de recompensa é circunstância de caráter pessoal e, portanto, ex vi do art. 30, do CP, incomunicável.”59 Todavia, a 6ª Turma do mesmo Tribunal se posicionou a favor da comunicabilidade. O argumento foi no sentido de que, no homicídio, o fato de ter sido o delito praticado mediante paga ou promessa de recompensa, “por ser elemento do tipo qualificado, é circunstância que não atinge exclusivamente o executor, mas também ao mandante ou qualquer outro coautor.”60 Os precedentes do Supremo Tribunal Federal filiam-se no sentido da segunda corrente, ou seja, favorável a comunicabilidade. Isso porque, “a comissão do homicídio mediante paga, sendo elementar do tipo qualificado, é circunstância que não atinge exclusivamente o accipiens, mas também o solvens ou qualquer outro coautor.”61 O dispositivo refere-se, ainda, a “outro motivo torpe”. Isso importa dizer que quaisquer motivações deploráveis ou repugnantes, equivalentes às exemplificadas – paga ou promessa de recompensa – poderão qualificar o homicídio. Em outras palavras, cuida-se da técnica legislativa denominada de 58 PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 639. Na mesma linha, Cezar Roberto Bitencourt assinala que os “motivos quequalificam o crime de homicídio, na hipótese de concurso de pessoas, são incomunicáveis, pois a motivação é individual, e não constituem elementares típicas, segundo o melhor entendimento doutrinário.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 86). No mesmo sentido: JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 99; DELMANTO, Celso et al. Op. cit., p. 243. 59 STJ. HC 78404. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJ de 09/02/09. No mesmo sentido: STJ. REsp 467810. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub DJ de 19/12/03; e STJ. HC 11764. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJ de 5.6.00. 60 STJ. HC 99.144-RJ. STJ. 6ª T. Rel. Min. Og Fernandes. Pub. DJ de 09/1208. No mesmo sentido: “No homicídio mercenário, a qualificadora da paga ou promessa de recompensa é elementar do tipo qualificado e se estende ao mandante e ao executor.” (STJ. AgRg no REsp. 912491. 6ª T. Relatora Min. Maria Thereza de Assis Moura. Pub. DJ de 29.11.10). 61 STF. HC 71582. 1ª T. Relator Min. Sepúlveda Pertence. Pub. DJ de 9.6.95. No mesmo sentido: “Homicídio: qualificativa de cometimento do crime mediante paga ou promessa de recompensa que, embora relativa ao mandatário, se comunica ao mandante.” (STF. HC 69940. 1ª T. Relator Min. Sepúlveda Pertence. Pub. DJ de 2.4.93). A 2ª Turma do STF também colaciona julgado no mesmo sentido: STF. HC 66571. 2ª T. Relator Min. Célio Borja. Pub. DJ de 4.10.91. 39 “interpretação analógica” – ou intra legem – espécie do gênero “interpretação extensiva”.62 A propósito, vide o seguinte arresto do STJ, verbis: (...) A qualificadora do motivo torpe, para restar configurada, até pela própria redação do Código Penal, deve assemelhar-se ao crime de homicídio cometido ‘mediante paga ou promessa de recompensa’, porquanto tem-se aí típica hipótese de interpretação analógica. Isso significa que o ‘outro motivo torpe’, a que faz alusão a lei no final do dispositivo, deve ter intensidade equiparada às hipóteses constantes no tipo.63 Cite-se, como exemplo, o homicídio perpetrado pela disputa de um “território” de venda de drogas ilícitas.64 Por outro lado, cumpre não confundir interpretação analógica – no caso, a atividade exegética que visa qualificar ou não a torpeza – com analogia in malam partem. Isso porque, “na interpretação analógica não há falar em ‘lacuna’ no texto da lei – pressuposto para a integração via analogia. Nesta última, diante da não regulação normativa de uma determinada hipótese fática, supre-se a lacuna por intermédio da aludida analogia legis ou analogia iuris.”65 9.2. Homicídio qualificado por motivo fútil. Motivo fútil – do latim futilis, de fundere – é o motivo insignificante, desproporcional, leviano ou banal. A qualificadora indica a percepção de que a motivação decorre de um fator insuficiente para conduzir alguém a delinquir. Não há, assim, “na futilidade, simetria relevante entre a razão delinquente e o fato em si perpetrado. O estímulo que desencadeou a ação, em geral explosiva, foi de somenos importância.”66 Exemplo: “A”, colega de “B” em uma cozinha de um restaurante, mata este último com uma faca existente no local porque “B” errara o molho de um prato de comida. 62 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 98. Ainda sobre interpretação analógica, verbis: “Ela consiste em se estender a atividade hermenêutica para abranger os casos semelhantes aos que foram exemplificados no texto legal. Trata-se, igualmente, de técnica recorrentemente encontrada no Direito Penal. (...) Cumpre, portanto, observar que a interpretação analógica obedece à seguinte dinâmica: quando a uma relação casuística seguir-se uma cláusula geral, a vontade da lei é abranger todas as hipóteses que, no caso concreto, sejam semelhantes ao rol exemplificado.” (Ibid., p. 98). 63 STJ. HC 77309. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJ de 26.5.08. 64 Cf. STF. HC 117385. 1ª T. Relator Min. Luiz Fux. Pub. Dje de 13.2.14. 65 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 91-92. 66 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 492. 40 Como se pode observar, a atitude de “B” – errar em um ingrediente de comida – é completamente desproporcional ou inadequado à reação homicida de “A”. Vê-se, assim, que motivo fútil é aquele desimportante, desproporcional, leviano, ou seja, no qual inexiste relação de proporcionalidade entre o fato precedente e o crime praticado. Nesse sentido, o seguinte arresto: “Como é sabido, ‘fútil’ é o ‘motivo’ insignificante, apresentando desproporção entre o crime e sua causa moral.”67 Por outro lado, motivo fútil difere da noção de motivo injusto ou, ainda, de ausência de motivo. Isso porque, para fins penais, injusta é a conduta não amparada por nenhuma excludente de antijuridicidade. Sendo assim, para que se reconheça a qualificadora da futilidade, “faz-se necessário que, além de injusta, a motivação do agente tenha se revelado insignificante.”68 Conforme decidido pelo Tribunal de Justiça em Santa Catarina: “Motivo ‘fútil’ é aquele ‘insignificante’, mesquinho, banal, o que não equivale a ‘motivo injusto’, pois este está relacionado à causa moral, conforme os antecedentes psicológicos do crime.”69 A seu turno, ausência de motivo é algo em si neutro. Conforme escrito alhures: embora a inexistência de motivação escape à ontologia do comportamento humano – tendo em conta que todo o crime tem um porquê –, é possível não restar evidenciada, no caso concreto, a razão para o agir criminoso. Isso faz com que não aplique, em certas hipóteses, a presente qualificadora.70 Sobre o ciúme – tido como motivador de inúmeros homicídios –, releva salientar que ele não pode ser considerado, de forma isolada, motivo fútil. Isso porque, “em geral, o crime praticado sob este selo decorre de um sentimento de insegurança ou de possessão para com outra pessoa, obviamente injusto e reprovável. No entanto, dependendo da hipótese fática, 67 STJ. AgRg no AREsp. 152705. 5ª T. Relatora Min. Laurita Vaz. Pub. DJe de 9.5.13. 68 Ibid., p. 402. Nesse sentido: “Não se deve confundir o motivo fútil com o motivo injusto. Aliás, a injustiça da motivação do agente é elemento integrante do crime. Para que se reconheça a futilidade da motivação, é necessário que, além de injusto, o motivo seja insignificante.” (In RJTJSP 62/356). No mesmo sentido: “(...) Segundo consta dos autos, o réu, em tese, teria cometido o delito contra sua esposa, com quem era casado há 13 (treze) anos e tinha uma filha, por não ter aceitado o anúncio da separação. No caso, o motivo pode ser tido como injusto, porém isso não significa que seja, outrossim, torpe, ou ao menos fútil.” (STJ. HC 77309. 5ª T. Relator Min. Felix Fischer. Pub. DJ de 26/05/08). 69 TJSC. RCCR 53645. 1ª C. Crim.. Relator Des. Amaral e Silva. Pub. DJ de 04/04/06. No mesmo sentido: “Ensina o mestre Aníbal Bruno que motivo fútil é aquele pequeno demais para que na sua insignificância possa parecer capaz de explicar o crime que dele resulta. O que acontece é uma desconformidade revoltante entre a pequeneza da provocação e a grave reação criminosa que o sujeito lhe opõe.” (In RJTJSP 11/529). 70 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 492. No mesmo sentido: “(...) quando não se descobre o motivo, considerando-se a ausência de motivo, jamais se deve qualificar o crime como fútil; afinal, inexiste padrão de comparação entre o móvel interior do agente para a ação homicida e o resultado. Não é válido dizer, por simples suposição, que a ausência de motivo torna-se mais grave do que a existência de qualquer motivo, por mais simplista que seja.” (NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 646). 41 o ciúme pode guardar certo relevo psicológico – afastando, assim, a futilidade –ou restar estribado em um doentio sentimento de amor e posse, antagônicos, pois, da torpeza.”71 Na mesma esteira, os nossos julgados assinalam: “O ciúme não configura a qualificadora do motivo fútil no crime de homicídio, pois ainda que seja um motivo egoístico na essência, trata-se de sentimento profundo e arrebatador, contrário à banalidade.”72 “O ciúme, embora injusto e moralmente reprovável, é um sentimento forte e arrebatador, que pode gerar descontrole emocional e impulsionar o agente ao crime, não consubstanciando em motivo fútil.”73 9.3. Homicídio qualificado pelo emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso, cruel ou que cause perigo comum. Neste grupo de casos, o comportamento criminoso denota maior reprovabilidade, não pelos motivos em si, mas pelo meio de sua perpetração: insidioso, cruel ou que cause perigo comum. O próprio dispositivo trata de exemplificar quais seriam estas reprováveis formas homicidas: veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura etc. Cuida-se, portanto, de uma qualificadora de caráter objetivo, consoante a classificação supramencionada. Por se tratar de fatores objetivos ou impessoais, não se exclui, a priori, sua comunicabilidade aos demais concorrentes do delito (cf. art. 30, do CP). Por essa mesma razão – e como visto abaixo –, é possível, em tese, a compatibilidade dessa qualificadora com a figura do homicídio privilegiado (art. 121, § 1º, do CP), a exceção da “crueldade”. Com efeito, a primeira hipótese diz respeito ao emprego de veneno. Veneno é um meio insidioso por excelência, pois a pessoa não sabe que está sendo morta. Cuida-se de qualquer substância gasosa, mineral, vegetal ou animal que, introduzida no organismo, é idônea a alterar ou destruir as funções vitais, levando ao óbito. É, de fato, meio costumeiramente 71 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 492. 72 Cf. RT 756/569 73 Cf. TJSP. RECSENSES 7742540620098260577. 13ª C. Crim. Relator Des. Renê Ricupero. Pub. DJ de 02/08/11. No mesmo sentido: “Tanto a jurisprudência como a doutrina, reiteradamente, têm se manifestado no sentido de que o ciúme não caracteriza ‘motivo fútil’, pois ‘fútil’ seria aquilo sem importância, desarrazoado, ínfimo.” (Cf. TJRN. RECSENSES 9435. RN 2011.000943-5. Relator Des. Maria Zeneide Bezerra. Pub. DJ de 14/04/11). 42 imperceptível, como ocorre, v.g., com “vidro moído”, adicionado a um suco ou alimento a ser ingerido pela vítima.74 Exemplo: “A”, com ciúme do marido “B”, adiciona “chumbinho” no jantar que serve ao mesmo, como meio de retaliar suposto adultério. Em razão da referida substância, “B” tem convulsões e vômitos que os levam a óbito. Como dito, entende-se que a qualificadora do veneno só ocorre quando o veneficio é ministrado de forma insidiosa, isto é, sub-repticiamente, como, por exemplo, em um cálice de vinho, contendo uma quantidade mortal de cianureto, que é dado à vítima para brindar com o agente. Evidentemente, “se o veneno foi empregado às claras, como, por exemplo, forçando a vítima a ingerir uma ampola de cicuta, não caracterizará meio insidioso, mas, sim, o cruel.”75 Se o veneno ilustra bem o meio insidioso, o fogo, por sua vez, é um exemplo eloquente de um meio cruel de dar a morte a alguém. Em poucas palavras, fogo é a ação simultânea de calor e luz, produzida pela combustão de matérias inflamáveis, como a madeira, o carvão e o gás. O fogo destrói e mata todo e qualquer ser vivo, evidenciando, no caso, toda a crueldade da ação homicida.76 Ademais, além de cruel, o fogo pode causar incêndio, trazendo perigo para a incolumidade pública, razão pela qual, além de também importar na qualificadora sob consideração, pode vir a tipificar o crime do art. 250, do CP: “Causar incêndio, expondo a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de outrem.”77 74 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 495. Em sentido contrário: “O veneno há de ser substância capaz de atuar no organismo, mesclando-se ao seu funcionamento, ministrado em forma gasosa, sólida ou líquida, provocando danos, porém sem a materialização do vidro moído. Assim, poderíamos considerar um gás venenoso, um comprimido fatal ou mesmo uma substância líquida mortífera. Na realidade, fazer com que a vitima ingira vidro moído significa uma forma de insídia, mas não necessariamente trata-se de veneno. Pode representar, sem dúvida, uma maneira cruel ou insidiosa de matar, o que qualifica o delito do mesmo modo.” (NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 642-643). 75 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 495. No mesmo sentido: DELMANTO, Celso et al. Op. cit., p. 233. Além de figurar como qualificadora do homicídio, o veneno é elementar do crime tipificado no art. 270, do CP: “Envenenar água potável, de uso comum ou particular, ou substância alimentícia ou medicinal destinada a consumo. Pena: reclusão de 10 (dez) a 15 (quinze) anos.” Dessa forma, na hipótese do agente envenenar um garrafão d’água que, além de outros, o desafeto iria saciar sua sede, desejando, por essa ação, a sua morte, poder-se-á estar, em tese, diante da figura de homicídio em concurso formal com o crime do art. 270, do CP. No caso, para não violar o princípio do ne bis in idem, cumpre não aplicar a qualificadora sob consideração (art. 121, § 2º, inc. III, do CP). 76 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 495. 77 Como já observado, a incidência do crime de incêndio acarretará, no caso concreto, o afastamento da qualificadora do homicídio, sob pena de incorrer em reprovável bis in idem, por ocasião da aplicação da pena. 43 Explosivo é, igualmente, uma forma cruel de matar, bem assim de expor a perigo a coletividade, consoante o tipo penal do art. 251, do CP. Explosivo – do latim explosus, i.e., “impelido para fora”78 – adjetiva aquilo que é capaz de explodir, detonar, estourar ou rebentar, vale dizer, é qualquer corpo capaz de se transformar rapidamente em gás à temperatura elevada. No caso, a explosão pressupõe o emprego de nitroglicerina (dinamite), pólvora ou substância de efeito análogo, como, por exemplo, fogos de artifício detonados, pelo agente, perto de área vital do corpo da vítima, como a cabeça. Asfixia é a ação externa que bloqueia a passagem de ar, impedindo a função respiratória. A interrupção da respiração pode se dar de diversas formas: esganadura, enforcamento, estrangulamento, constrição do pescoço com fios, cordas, arames etc., sufocação – p. ex., com travesseiros –, afogamento, dentre outras.79 Em média, um ser humano pode suportar cerca de três minutos sem ar, vindo, em seguida, a óbito por asfixia. Cuida-se, a toda evidência, de um meio cruel de homicídio.80 Matar sob tortura significa infligir intenso mal para dar a morte a alguém. Tortura é, portanto, o excesso de dor, de angústia, de sofrimento desnecessário. Ela pode ser física ou moral, como ocorre, por exemplo, quando o agente emprega “terror” por ocasião da conduta homicida. Por outro lado, cumpre observar que a tortura propriamente considerada – em geral um meio hediondo, mas, lamentavelmente recorrente no nosso cotidiano, para se extrair “informações” do torturado – foi tipificada autonomamente como crime, consoante o art. 1º, incs. I e II, e seus §§, da Lei n. 9.455/97, promulgada em consonância com o art. 5º, inc. XLIII, da CF/88. A propósito, releva não confundir o crime homicídio qualificado pelo emprego de tortura (art. 121, § 2º, inc. III, do CP), com a hipótese do crime de tortura qualificado pela morte da vítima (art. 1º, § 3º, da Lei n. 9.455/97). A distinção se opera no plano subjetivo, pois, no primeiro caso, há dolo de matar por impingindo-segrande e desnecessário sofrimento ao sujeito passivo, ao passo que, no segundo, o dolo é o de torturar, sendo o evento morte decorrente de preterdolo. O dispositivo faz menção, na sua parte final, a “outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum”. Cuida-se, novamente, da 78 Cf. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Curitiba: Positivo, 2004, p. 857. 79 Observe-se que a Reforma Penal de 1984 cancelou a asfixia como circunstância agravante, conforme o art. 61, inc. II, al. “d”, do CP, “por considerá-la redundante como exemplificativa da insídia ou crueldade”, mas a manteve no “rol das qualificadoras do homicídio” (SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 495). 80 Nesse sentido, verbis: “A asfixia assume perspectiva singular no confronto das qualificadoras, porque se apresenta como uma forma cruel da prática de homicídio. No seu conceito está ínsito o sofrimento atroz da vítima.” (TJSP. In RT 448/353). 44 utilização de interpretação analógica. Portanto, quando as circunstâncias fáticas evidenciarem que o agente valeu-se de um meio insidioso – ou seja, de estratagemas ou perfídias81 – ou de um meio cruel – isto é, de forma brutal, bárbara ou impiedosa82 – ou, ainda, de um meio que possa resultar perigo comum – por exemplo, atingindo a vítima escolhida, mas expondo a perigo um número indeterminado de outras pessoas, como ocorre em desabamentos ou inundações.83 9.4. Homicídio cometido a traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido. Nas hipóteses constantes do art. 121, § 2º, inc. IV, do CP, o acréscimo punitivo guarda relação com formas de matar mais “covardes”. Com efeito, são situações nas quais o agente atua de maneira desleal, mais segura ou com abuso da boa-fé da vítima. Em breves palavras, são modos de execução – ou modus operandi – mais reprováveis porque dificultam, oneram ou impossibilitam a legítima defesa por parte do ofendido.84 Exemplo: “A”, aproveitando-se que a vítima “B” está desatenta e indefesa, visto que cochila em uma cadeira de balanço, desfere-lhe uma punhalada no peito, causando a sua morte imediata. Observe-se que no exemplo o homicídio perpetrado por “A” encontra-se qualificado não pelo meio utilizado – um golpe de faca no peito –, tampouco pela motivação, posto que desconhecida. Qualifica-se porque “A” aproveitou- se da desatenção de “B” em um momento de “cochilo”, isto é, quando se encontrava indefeso, surpreendendo-lhe com a punhalada fatal.85 A primeira hipótese exemplificativa da qualificadora é a traição. Na traição, há a quebra da confiança depositada pelo lesado. Isso porque o agente constrói ou tira vantagem da fidúcia alheia. 81 Cf. TJSP. In RT 683/303. 82 Cf. TJMG. In RT 777/663. Nesse sentido: “Bater em velho até este morrer configura, iniludivelmente, a qualificadora do emprego de meio cruel.” (Cf. TJSP. In RT 553/347). 83 Cf. HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 167. Nesse sentido: “Para a configuração da qualificadora do art. 121, § 2º, III, do CP, há necessidade de que o agente tenha procurado meio capaz de resultar perigo comum, com o desencadear de forças dificilmente controláveis, tais como inundação, incêndio, explosão, envenenamento de uma fonte ou de substâncias alimentícias, que possam atingir indeterminado número de pessoas.” (Cf. TJSP. In RT 468/329). 84 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 494. Nesse sentido, a lição de Nélson Hungria: “No inciso IV, é qualificado o homicídio quando haja insídia, não já pela natureza do meio empregado, mas no modo da atividade executiva, de que resulte dificuldade ou impossibilidade de defesa da vítima.” (HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 168) (grifo do original). 85 Nesse sentido: “A surpresa se aproxima da traição, mas o que a caracteriza é que exige os elementos de deslealdade e confiança. Há surpresa quando o ataque é feito de modo inesperado, colhendo a vítima desatenta e indefesa” (In RJTJSP 103/424). 45 Segundo Hans von Henting, cuida-se, em geral, de alguém que, de ordinário, (...) desconsiderava a vítima”, mas, para praticar o crime de maneira “segura”, dela se aproxima e passa a demonstrar uma “amabilidade astuta e tranquilizadora”. O autor alude, no particular, à técnica de matar por intermédio do “servir-se da carícia ou, inclusive, do mais íntimo dos contatos, para conquistar a confiança da vítima, deixando-a indefesa.86 A segunda qualificadora relativa ao modo de execução refere-se a emboscada. Emboscar, literalmente, é “meter-se no bosque”, isto é, “onde se esconde para, repentinamente, atacar o inimigo”.87 Pressupõe-se, pois, que “o agente se oculte, em um local planejado, e aguarde, pacientemente, a passagem da vítima desprevenida. Alude-se à tocaia ou atalaia como expressões sinônimas da emboscada”.88 A seu turno, matar mediante simulação é agir encobrindo os “desígnios hostis”, ou seja, com artifício, ardil ou disfarce apto a “enganar ou iludir”.89 Cite-se, como exemplo, a demonstração de “falsa amizade” ou a simulação de “fazer as pazes” com a vítima, dela se aproximando “com o braço estendido”, como se fosse “apertar as mãos”, golpeando-a desprevenidamente.90 O dispositivo recorre, novamente, à interpretação analógica: ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido. Como exemplos de outros recursos, a doutrina e jurisprudência referem-se ao “ataque de surpresa” e ao “ataque enquanto a vítima dorme”. Com relação a surpresa, ela pressupõe-se, naturalmente, que o ofendido não espere, por parte do agente, um comportamento agressivo, agindo, este, “pelas costas” ou de forma “inopinada”91. Nesse sentido, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que: A surpresa, como circunstância qualificadora, aproxima-se da traição, da emboscada e da simulação e, evidentemente, só existe quando se traduz num 86 HENTING, Hans von. Estudios de psicología criminal. El asesinato. Vol. II. 3ª ed. Trad. Rodrígues Devesa. Madrid: Espasa, 1971, p. 222. 87 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da lingua portugueza. Tomo I. Lisboa: Borel, Borel e Cia., 1858, p. 763. 88 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 494. 89 Ibid., p. 494. Nesse sentido, decidiu-se uma hipótese de simulação na qual o réu “implementou as condições logísticas para a ocorrência do evento delituoso, ao providenciar crachás e uniformes médicos e veículo para que ele e seus comparsas adentrassem hospital público, armados, para resgatar preso que estava sob escolta de policiais civis, resultando as condutas em um homicídio consumado e outro tentado, resultados previsíveis.” (STF. RHC 103542. 1ª T. Relator Min. Luiz Fux. Pub. DJe de 26.9.11). 90 Nesse sentido, verbis: “Dissimulação é a ocultação da intenção hostil, para acometer a vítima de surpresa. Ela só ocorre quando a vítima não tinha motivo para desconfiar da conduta do réu. Impossível sua caracterização quando a vítima, que mantinha relacionamento espúrio com a esposa do réu, devia ao menos supor uma reação violenta do réu.” (TJPR. In RT 561/369). 91 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 494. 46 comportamento insidioso em que se marcara a intenção agressiva de forma tal que a vítima, em nenhum momento, teve qualquer razão para suspeitar sequer do ataque, vindo a ser colhida de modo desprevenido. Gramaticalmente, surpresa é o ataque inopinado. Juridicamente, porém, não basta que o ataque seja inopinado. É preciso, além do procedimento inesperado, que o agredido não tivesse razão para esperá-lo, ou ao menos, suspeitá-lo.92Por outro lado, na hipótese do sono, pode-se evidenciar o desvalor da conduta, de forma semelhante à traição, ou seja, quando o agente ataca alguém com quem mantenha laços de coabitação ou hospedagem.93 Caso o agente se aproxime sorrateira ou clandestinamente no local onde a vítima dorme, poder-se-á estar diante de situação similar a surpresa.94 Agregue-se, por fim, que a superioridade em armas ou força física, circunstancial ou provocada, não configura, por si só, a qualificadora sob consideração, pois não é, sempre, um recurso que dificulte ou impossibilite a defesa do ofendido.95 9.5. Homicídio cometido para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime. Após tipificar, nos dois incisos precedentes, hipóteses de maior reprovação, em regra, de caráter objetivo, o art. 121, § 2º, inc. V, do CP, retoma uma qualificadora de natureza subjetiva: homicídio praticado para assegurar a execução, ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime. Cuidam-se – a toda evidência –, de motivação de natureza torpe, mas singularizada, em um determinado inciso, tendo em vista uma espécie de “espiral criminosa”.96 Assinale-se, no particular, certo paradoxo, pois pratica- 92 Cf. RJTJSP 1/218. No mesmo sentido: “A surpresa se aproxima da traição, mas o que a caracteriza é que exige os elementos de deslealdade e confiança. Há surpresa quando o ataque é feito de modo inesperado, colhendo a vítima desatenta e indefesa.” (TJSP. In RJTJPS 103/424). 93 Nesse sentido: “Tendo cometido o homicídio da vítima enquanto ela dormia, o delito é qualificado pela traição.” (TJSP. In RT 467/336). 94 Nesse sentido: “A qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa do ofendido, diversamente do pretendido não encontra respaldo na alegada necessidade de algum dos acusados ter tido participação no induzimento ao sono das vítimas. O fato de encontrarem os sicários os ofendidos dormindo, em horário tardio, em sua residência, adentrando de inopino o recesso do lar, para matá-los, é fato que demonstra a impossibilidade de defesa por parte das vítimas, que foram mortas na própria cama sem esperar o sorrateiro ataque feito no interior de seu quarto. Prova disso é que o laudo de exame cadavérico revela apenas em (...) lesões de defesa em suas mãos, na tentativa evidente de aparar os golpes desferidos de inopino em sua cabeça.” (TJSP. RSE 429.367-3/3-00. 5ª C. Crim. Relator Des. Barbosa Pereira. Pub. DJ de 09/10/03). 95 Cf. DELMANTO, Celso et allii. Op. cit., p. 234. No mesmo sentido: JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 102. 96 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 493. 47 se um crime grave – o homicídio –, muitas vezes para viabilizar ou ocultar outro crime de menor gravidade. Como lecionado por von Henting: Pode parecer absurdo que se cometa o mais grave de todos os crimes – o homicídio – para executar ou ocultar um fato punível de menor gravidade. Esta contradição tem, na verdade, uma explicação. Considerando a opinião ou a experiência do criminoso, a chance de ser descoberto é menor no homicídio do que em outros crimes. Com o homicídio se cala a mais importante ‘testemunha’ dos fatos: a própria vítima. As lesões corporais, o furto, o roubo – pensa o criminoso –, são noticiados pelas vítimas sobreviventes, e são averiguados com mais frequência, ao passo que o homicídio o é mais raramente, ou nunca.97 Como se vê, o homicídio é, no caso, um “coadjuvante” de outro crime, já praticado ou em vias de sê-lo. Em outras palavras, o móvel de matar é o de facilitar a execução, a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime. Por conta disso, o dispositivo sob análise denomina-se qualificadora pela conexão teleológica (relação de meio e fim) ou consequencial (relação de causa e efeito) com outro ilícito penal.98 Com relação à conexão consequencial, pressupõe-se um delito já praticado. É, por exemplo, eliminar a testemunha de viso do crime anterior ou atirar nos policiais que o perseguem ainda em estado de flagrante delito (art. 302, inc. III, do CPP).99 O crime anterior pode ter sido praticado pelo próprio homicida ou por outra pessoa.100 A seu turno, a conexão teleológica pressupõe, via de regra, um delito que ainda não foi praticado, mas que, para sua concretização, o agente toma 97 HENTIG, Hans von. Op. cit., p. 75. 98 Cf. Regis Prado: “Nessas hipóteses, o homicídio não é o objetivo central da ação, mas sim o outro delito, e é praticado tão-somente com o intuito de propiciar a execução deste último ou sua ocultação, impunidade ou vantagem.” (PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 641). 99 Nesse sentido: “O recorrente agiu para forrar-se à confrontação com a autoridade pública, a qual, pelos seus antecedentes criminais em investigação, sabia ser-lhe desvantajosa. Foi visando à impunidade de seus crimes que resistiu e atirou. A conexão consequencial, no plano psicológico do agente, é perfeita. Ensina Aníbal Bruno que o ‘que vale é a representação do fato na consciência do agente, como motivo determinante da sua vontade e da sua ação. Isso basta para compor a maior reprovabilidade ético-social da conduta’. José Frederico Marques, observando que a qualificadora não passa de espécie do motivo torpe, salienta que relevante é tão-só o elemento subjetivo, bastando que se apura a conexão em sentido meramente psicológico. Irrelevante a contemporaneidade dos delitos, isto é, do atual com os anteriores, cuja ocultação, impunidade ou vantagem é visada’.” (TJSP. In RJTJSP 21/436) 100 Nesse sentido: “Na sequência, a recorrente (...) teria apertado o pescoço de (...) com as mãos, praticando esganadura, que ocasionou asfixia mecânica à vítima. Assim, estando desfalecida – mas ainda viva – o acusado (...) resolveu defenestrá-la, visando ocultar o delito praticado por (...). Demais disso, há indicativos de que a defenestração da vítima resultou em uma tentativa de se ocultar a agressão precedente praticada contra aquela – asfixia mecânica – o que, só por si, já é o suficiente à manutenção da qualificadora prevista no art. 121, § 2º, V, do Código Penal.” (TJSP. RSE 990.08.196361-2. 4ª C. Crim. Relator Des. Luís Soares de Mello. Pub. DJ de 24/03/09). 48 como conditio sine qua non a destruição da vida da vítima. É, por exemplo, matar o marido para estuprar a mulher. Sobre o assunto, cumpre distinguir a hipótese em que o agente mata por um determinado motivo101 e, subsequentemente, decide subtrair os bens do de cujus – na verdade, dos herdeiros do morto –, com a situação do roubo do qual a violência resulta morte, isto é, o latrocínio (art. 157, § 3º, 2ª parte, do CP). Nestes termos, se a violência ocorrer até a subtração da coisa móvel alheia, ou logo depois dela ser subtraída, poderá caracterizar o crime de latrocínio, consumado ou tentado, mesmo tendo havido, junto com o dolo de furtar, a vontade de matar.102 Exemplo: Em uma rodovia deserta, já tarde da noite, “A”, querendo subtrair o automóvel de “B”, aponta-lhe a arma, manda entregar as chaves do veículo e, nesse momento, dispara um tiro contra a sua cabeça, causando-lhe a morte. Todavia, se a morte dolosa de “B” ocorrer em um “sensível espaço de tempo ou de lugar” distinto do roubo perpetrado por “A”, descaracterizar-se- á o latrocínio, tipificando-se, na verdade, o delito do art. 121, § 2º, inc. V, em concurso material com o art. 157, ambos do CP.103 Exemplo: “A”, depois de roubar o carro de “B”, dirige o veículo por alguns quilômetros, mas, algum tempo depois, retorna ao local onde rendera sua vítima, e, para evitar que ela acionasse a polícia ou a seguradora do automóvel, dispara-lhe um tiro fatal contra sua cabeça. Por outro lado, a referência legal a assegurar a “execução” de outro crime não exige que efetivamenteo “segundo” crime tenha se aperfeiçoado, bastando, tão somente, a intenção de cometê-lo. Nesse sentido, se o agente mata “A” para a finalidade de, posteriormente, sequestrar “B”, restará caracterizada a qualificadora do homicídio, inobstante a privação da liberdade do hipotético sequestrado não tenha sequer adentrado na fase executória. No que diz respeito à ocultação, cuida-se de expressão que guarda relação com o móvel do agente em garantir, com o crime de homicídio, que as provas de outro crime – em especial a prova testemunhal ou mesmo a oitiva do ofendido – não serão produzidas. Agregue-se, por oportuno, que 101 Nesse sentido: “Os antolhos de roubar podem levar o agente a cometer o fato [o homicídio], mas podem também surgir depois de realizado um fato que teve origem psicológica completamente distinta. Com uma pedrada, Zurflüh deu a morte à amante que engravidara, jogando o cadáver nas águas de um rio. ‘Quando a tomei por morta – prosseguiu o inculpado – pensei que o dinheiro que ela possuía não serviria para nada dentro do rio’.” (HENTIG, Hans von. Op. cit., p. 64). 102 Nesse sentido, a Súmula 610, do STF: “Há crime de latrocínio, quando o homicídio se consuma, ainda que não realize o agente a subtração de bens da vítima.” 103 Cf. TJSP. In RT 474/296. 49 uma das causas que justificam a decretação da prisão preventiva é, justamente, a da conveniência da instrução criminal (cf. art. 312 do CPP, com a redação dada pela Lei n. 12.403/11). Assegurar a impunidade significa o propósito de não sofrer as consequências penais decorrentes da perpetração do outro crime. É o que ocorre, por exemplo, na hipótese do condenado “A” matar o oficial de justiça “B”, no momento em que este o interpela com o mandado de prisão para cumprimento de pena, logrando, com essa conduta, empreender fuga. A seu turno, garantir a vantagem consiste no objetivo do homicídio ter por escopo a fruição de um benefício de qualquer natureza – isto é, econômico ou não, direto ou indireto –, benefício decorrente de outro crime. Cite-se, como exemplo, o caso do assaltante “A” matar o comparsa “B”, para auferir a totalidade do lucro havido com o delito de roubo que ambos perpetraram. Por fim, ante a conexão do homicídio com outro crime, cumpre observar a regra inserta no art. 108 do CP, no sentido de que a extinção da punibilidade, por qualquer causa – a exceção, por óbvio da morte do agente – , do outro delito, não impede o reconhecimento da qualificadora sob consideração. 9.6. Feminicídio Conforme adiantado, a Lei 13.142/2015 incluiu o crime de feminicídio, no Código Penal, como hipótese qualificadora do homicídio. Acrescentou-se, assim, ao art. 121, § 2°, a alínea VI, bem assim o do art. 121 e o § 2°-A. O feminicídio foi incluído no Código em decorrência de compromissos internacionais que o Brasil assumiu na ratificação de tratados e convenções que buscam promover a igualdade de gênero e reprimir a violência à mulher, como por exemplo, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher ou Convenção de Belém, no âmbito latino americano e, na esfera universal, a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher de 1993 adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Cumpre agregar que femicídio ou feminicídio é utilizado indistintamente nos países latino-americanos para designar a morte de mulheres em razão de gênero. No entanto, cuidar-se-iam de expressões distintas. O femicídio teria sido a designação dada por Diane Russel (femicide, em inglês), em 1970, para destacar a morte violenta de mulheres, com o fito de dar visibilidade à opressão, discriminação e morte de mulheres 50 em razão da condição de gênero. Dessa forma, o femicídio é toda morte de mulher por motivo sexista.104 Por outro lado, a palavra feminicídio teria sido criada por Marcela Lagarde, pesquisadora mexicana, para designar igualmente a morte de mulheres em razão de gênero. No entanto, o feminicídio denotaria uma conotação política, qual seja, o descaso do Estado em dar efetivo cumprimento aos compromissos internacionais assumidos nessa matéria, bem como a omissão em processar e punir os executores de fatos dessa natureza. Para Marcela Lagarde, o feminicídio seria um verdadeiro crime de Estado.105 De toda sorte, em ambos os casos – femicídio ou feminicídio –, o que se pretende destacar é a morte de mulheres em razão da sua condição de gênero no contexto de uma cultura de violência sistemática contra a mulher. Nesse sentido, existiriam modalidades de feminicídio, quais sejam: o íntimo, não-íntimo, infantil, familiar, por conexão, sexual sistêmico, por prostituição ou ocupação estigmatizada, por tráfico de pessoas, por contrabando de pessoas, transfóbico, lesbofóbico, racista e, por fim, por mutilação genital feminina.106 Nesse contexto social e criminológico, cumpre ressaltar que todo feminicídio é um homicídio, mas nem todo homicídio de mulher é um feminicídio. Explica-se: a morte, ainda que violenta, de uma mulher decorrente, por exemplo, de um acidente de trabalho, em nada se relaciona a sua condição de mulher. Portanto, para caracterizar a qualificadora do feminicídio, deve-se atentar para especial motivação que move a conduta contra o sujeito passivo: a condição de mulher. “Isto significa que o agente femicida, ou seus atos, reúne um ou vários padrões culturais arraigados em ideias misóginas de superioridade masculina, de discriminação contra a mulher e de desprezo a ela ou à sua vida.”107 A lei é taxativa ao designar a mulher como sujeito passivo desse crime. É controverso assinalar se a doutrina ou a jurisprudência poderia interpretar o elemento “mulher” como normativo ao invés de descritivo, incluindo, assim, o homicídio contra transgênico. Ademais, a lei especifica em que circunstâncias há “condição de sexo feminino”: 1º nos casos de violência doméstica e familiar; e 2º quando há menosprezo ou discriminação à condição de mulher (cf. art. 121, § 2-A, inc. I e II, do CP). Na primeira hipótese – violência doméstica e familiar –, por uma interpretação 104 Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2013/01/protocolo_feminicidio.pdf, acessado dezembro 2015 105 Id., ibid. 106 Para mais informações ver:pretendido pelo legislador. Explica-se. As hipóteses, agora enquadradas na qualificadora do feminicídio, conduziam – como visto nos exemplos anteriores –, a imputação de homicídios dupla ou até triplamente qualificado (motivo torpe ou fútil, meio insidioso, cruel ou perigoso, ou de forma covarde ou traiçoeira), além da circunstância agravante do art. 61, inc. II, al. “e” ou “f”, do CP. Doravante, é possível se que possa sustentar – inclusive com efeitos benéficos da lei penal no tempo –, a favor do autor do crime contra a mulher, ter o mesmo dado a morte à vítima tão somente em razão da sua condição de sexo feminino, especializando, pois, esta qualificadora e afastando a incidência das demais (princípio da especialidade), bem assim da mencionada agravante (princípio do ne bis in idem). 108 Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual.” 109 Nesse sentido, o PLS n. 236, acima referido, prevê a inclusão de uma qualificadora, no homicídio, nos seguintes termos: “por preconceito de raça, cor, etnia, orientação sexual e identidade de gênero, deficiência, condição de vulnerabilidade social, religião, procedência regional ou nacional, ou por outro motivo torpe; ou em contexto de violência doméstica ou familiar.” 52 9.7. Contra autoridades e agentes das Forças Armadas e de segurança pública, sistema prisional, Força Nacional e seus familiares. A Lei 13.142/2015 inseriu ao § 2° do art. 121, a alínea VII. Trata-se de uma qualificadora quando o crime é praticado contra autoridade ou agente das Forças Armadas, da segurança pública, integrantes do sistema prisional ou da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição. Registra-se que esta qualificadora faz expressa referência a dois dispositivos da Constituição Federal de 1988: o art. 142 e o art. 144. O primeiro dispõe sobre as Forças Armadas e diz: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Por sua vez, o art. 144, dispõe sobre as autoridades e agentes de segurança pública: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - polícia federal; II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.” Cumpre mencionar que o § 8°, do art. 144, da Constituição, faz referência à guarda municipal e, o § 10, refere-se à segurança viária. Considerando que a qualificadora não faz menção somente ao caput do 144, da Constituição Federal, deve-se entender que ela abarcaria, igualmente, as autoridades e agentes da guarda municipal110 e da segurança viária111, e pessoas a eles relacionados, o que ampliaria, sobremodo, o raio de incidência dessa qualificadora. Por outro lado, como visto, os integrantes do sistema prisional também são mencionados pela qualificadora em questão. Como membros do sistema prisional entende-se “não apenas os agentes presentes no dia a dia da execução penal (diretor da penitenciária, agentes, guardas etc.), mas também 110 Art. 144, § 8°, Constituição Federal: Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei. 111 Art. 144, § 10, Constituição Federal: A segurança viária, exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias públicas: I - compreende a educação, engenharia e fiscalização de trânsito, além de outras atividades previstas em lei, que assegurem ao cidadão o direito à mobilidade urbana eficiente; e II - compete, no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, aos respectivos órgãos ou entidades executivos e seus agentes de trânsito, estruturados em Carreira, na forma da lei. 53 aqueles que atuam em certas etapas da execução penal (integrantes da comissão técnica de classificação, comissão de exame criminológico, conselho penitenciário etc.)”.112 A alteração do tipo penal do homicídio foi resultante do Projeto de Lei n. 846 de 2015. É interessante observar que a redação originária do PL 846 previa apenas uma hipótese majorante ao crime de homicídio, e tão somente quando o crime fosse cometido contra as autoridades do artigo 144, da Constituição Federal. Na ocasião, o argumento era o de que se fazia necessário o recrudescimento da pena para crimes cometidos contra as autoridades de segurança pública. Portanto, conforme os motivos que ensejaram o Projeto de Lei, a alteração normativa seria um elemento a ser agregado ao combate ao crime organizado, “fortalecendo a sociedade e gerando sensível aumento da sensação de segurança e efetiva sensação de diminuição da impunidade.”113 Todavia, em razão de emendas no curso de sua tramitação, a ideia original foi abandonada, passando, assim, a constar como uma nova qualificadora do homicídio. As críticas a serem dirigidas a esta qualificadora assemelham-se à anterior. Cuida-se de uma tendência securitária do Direito Penal, em detrimento de uma concepção sistêmica da disciplina. Nesse passo, duas observações podem ser feitas. A primeira é a de que, de fato, a morte de uma autoridade ou agente das Forças Armadas, segurança pública etc., ou de pessoas a elas relacionadas, em razão dessa condição, é altamente reprovável. Há, indubitavelmente, torpeza nesse tipo de homicídio. Por outro lado, não se deve olvidar de uma perspectiva mais ampla e, consequentemente, mais grave, qual seja, a de que o Brasil é um país extremamente violento, ou seja, que nós temos uma das maiores taxas de policiais que morrem em serviço, mas, também, uma das polícias que mais matam no mundo.114 Diante dessa lamentável constatação, parece pouco crível que a mera introdução dessa hipótese qualificadora possa servir a fins preventivos ou, de todo modo, deter a espiral da violência no cotidiano brasileiro. Demais disso, critica-se a previsão da qualificadora operar quando o homicídio é praticado contra autoridade ou agente das Forças Armadas, da segurança pública, integrantes do sistema prisional ou da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra 112 BITENCOURT, Cezar Roberto. Qualificadora de homicídio contra policial não protege a pessoa, e sim a função. 2015. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2015-jul-29/cezar-bitencourt-homicidio- policial-protege-funcao-publica, acessado dezembro 2015.113http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1312213&filename=Avuls o+-PL+846/2015, acessado dezembro 2015. 114 Cf. GOMES, Luiz Flavio. http://institutoavantebrasil.com.br/letalidade-da-acao-policial-notas-para- reflexao, acessado dezembro de 2015. http://www.conjur.com.br/2015-jul-29/cezar-bitencourt-homicidio-policial-protege-funcao-publica http://www.conjur.com.br/2015-jul-29/cezar-bitencourt-homicidio-policial-protege-funcao-publica http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1312213&filename=Avulso+-PL+846/2015 http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1312213&filename=Avulso+-PL+846/2015 http://institutoavantebrasil.com.br/letalidade-da-acao-policial-notas-para-reflexao http://institutoavantebrasil.com.br/letalidade-da-acao-policial-notas-para-reflexao 54 seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição, olvidando-se de igual proteção para outras autoridades e agentes que exerçam funções públicas na órbita penal e processual penal. Dito por outras palavras, não se compreende o porquê do legislador penal não estender a hipótese para magistrados, membros do Ministério Público, Defensores Públicos, advogados criminalistas, respectivos servidores que auxiliam em tais misteres, bem assim pessoas a eles relacionados, quando a morte é dada em razão de tais funções. Nesse sentido, e conforme é de conhecimento público, citem-se o crime perpetrado contra a vida Juíza Patrícia Acioli, em 2011, então titular do Tribunal do Júri de São Gonçalo/RJ, bem assim a morte do Juiz Alexandre Martins, ocorrido, em 2003, em Vitória/ES, e do Procurador da República Pedro Jorge, em Olinda/PE, em 1982. Em síntese, há diversos juízes e membros do Ministério Público ameaçados de morte no Brasil, em razão de suas funções.115 10. Premeditação e homicídio qualificado. A doutrina brasileira – influenciada, talvez, pela Escola Positiva116 –, entende que a premeditação, isoladamente considerada, não constitui 115 Cf. Corregedoria pediu reforço de segurança para juízes ameaçados. In http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/57429-corregedoria-pediu-reforco-de-seguranca-para- juizesameacados, acessado dezembro 2015. No mesmo sentido: No Pará, juízes e promotores sofrem ameaças de morte. In http://amp-go.jusbrasil.com.br/noticias/100626397/no-para-juizes-e-promotores- sofrem-ameacas-de-morte, acessado dezembro de 2015. 116 Cf. lecionado por Hungria: “Razões tinha o legislador pátrio para repelir o critério de agravação a priori da pena por motivo de premeditação, que poderá ser ou não um índice de perversidade do agente. Muito antes do advento da Escola Positiva (que pleiteia o radical cancelamento da agravante da premeditação), já Holtzendorff evidenciara que a premeditação, ao contrário do conceito tradicional, não revela, por si mesma, perversidade ou abjeção de caráter, senão resistência à ideia criminosa. (...) Seriam, assim, os requisitos da agravante o intervalo de tempo (mora habens) e a frieza e calma de ânimo (frigidus pacatusque animus). Ora, o primeiro é tudo quando há de mais arbitrário e inconcludente. Quando ao segundo, não passa, como diz Costa, de um atributo da personalidade psicofísica ou psicofisiológica do agente, e nada tem a ver com o processo volitivo. A frieza e calma de ânimo é um modo de ser do temperamento. Com frieza e calma de ânimo, tanto se pode cometer um crime quanto uma ação nobilíssima (Ferri).” (HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 33). A propósito, Ferri leciona: “Se premeditar que dizer, literalmente, ‘pensar antes’, é evidente que ele se verifica em cada forma de dolo, dado que sempre o pensamento, mesmo nos crimes de ímpeto, precede a ação. (...) Recorreram os clássicos a três critérios diferentes para precisar a premeditação: critério cronológico (intervalo de tempo entre pensamento e ação); psicológico (frieza e tranquilidade de ânimo); e ideológico (determinação precisa pelo desígnio criminoso, segundo o CP Francês, art. 297). Mas estes critérios são apenas de psicologia comum, isto é, sem referência a atividade criminosa e ao seu valor jurídico-penal. Há verdade em cada um desses critérios, mas valem tanto para quem premedita uma boa ação como para quem premedita um crime atroz.” (FERRI, Henrique. Princípios de Direito Criminal. O criminoso e o crime. Trad. Lemos D’Oliveira. São Paulo: Saraiva, 1931, p. 421-422). Sobre a Escola Positiva Italiana, vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 37 e segs.). http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/57429-corregedoria-pediu-reforco-de-seguranca-para-juizesameacados http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/57429-corregedoria-pediu-reforco-de-seguranca-para-juizesameacados http://amp-go.jusbrasil.com.br/noticias/100626397/no-para-juizes-e-promotores-sofrem-ameacas-de-morte http://amp-go.jusbrasil.com.br/noticias/100626397/no-para-juizes-e-promotores-sofrem-ameacas-de-morte 55 qualificadora do homicídio, embora tenha sido na legislação anterior.117 É certo que, em outros países, a “premeditação” ou “deliberação”, não somente qualifica, como, em certos ordenamentos jurídicos, dá azo a aplicação da pena capital. A razão para a retirada da premeditação decorre da sua natureza relativa e subjetiva. Isso porque, “aquilo que se toma como premeditar o crime pode tanto significar uma fria ação calculista, como, ao inverso, uma louvável hesitação moral do infrator. Ademais, dificilmente se conseguia cronometrar as 24 horas a partir da deliberação criminosa, em face do seu cunho subjetivo, salvo se o agente confessasse.”118 De fato, a premeditação pode denotar uma “frieza reprovável” ou, ao contrário, que a maturação da ideia homicida constituiu-se uma “relutância” ou “resistência à prática delituosa.”119 A jurisprudência considera, igualmente, que a premeditação nem agrava, nem qualifica o crime de homicídio. Desse modo, ante a “impossibilidade prática de comprovação de intervalo de tempo e da calma da vontade, bem avisado andou o Código excluindo-a da lista de qualificadoras.”120 Por fim, cumpre mencionar que a “emboscada”, qualificadora acima analisada, não deixa de ser um “crime premeditado”.121 Todavia, a recíproca não é verdadeira. Pode, portanto, configurar-se a hipótese de crime premeditado sem que tenha havido, v.g., a espera pela passagem da vítima por um local onde o agente a aguardava de maneira oculta ou a espreita. 11. Homicídio privilegiado-qualificado Discute-se sobre a possibilidade do chamado homicídio privilegiado- qualificado. Exemplo: “A”, transtornado com a saúde do parente “B”, que sofre dores terríveis em decorrência de uma doença terminal, decide abreviar o seu sofrimento, adicionando, sem o seu conhecimento, uma dose excessiva de morfina no suco por ele ingerido, levando-o ao óbito. 117 Cf. art. 294, c/c art. 39, § 2°, do CP/1890: “Ter sido o crime cometido com premeditação, mediando entre a deliberação criminosa e a execução o espaço, pelo menos, de 24 horas.” 118 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 491. 119 Cf. BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 93. Nesse sentido: “Explica-se tal posicionamento pelo fato de a premeditação não revelar, necessariamente, disposição de ânimo fria e calculista. Com efeito, pode indicar indecisão ou relutância, sendo inclusive possível a prática premeditada de um homicídio por motivo de relevante valor social ou moral e a execução de inopino do mesmo delito, por motivo fútil.” (PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 637). Embora concordando com essa orientação, Damásio de Jesus observa: “Entretanto, tal circunstância não é irrelevante diante da pena, podendo agravá-la nos termos do art. 59 do CP (circunstância judicial).” (JESUS, Damásio E.de. Op. cit., p. 98). 120 TJMG. In RT 534/396. 121 Nesse sentido: BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 91. 56 No exemplo, observa-se que “A” matou “B” por motivo de relevante valor moral – dir-se-ia, praticou eutanásia –, beneficiando-se, pois, da minorante do art. 121, § 1º, do CP, mas o fez através de “meio insidioso” – i.e., dose mortal de morfina –, hipótese que qualifica o crime: art. 121, inc. III, do CP. Sobre o assunto, há duas grandes orientações. Para a primeira, “A” não seria contemplado com a causa de redução de pena acima mencionada. Isso porque, o privilégio, no homicídio, somente poderia incidir sobre a forma básica do delito (art. 121, caput, do CP). A própria localização topográfica do homicídio privilegiado (art. 121, § 1º, do CP), sinalizaria no sentido de afastá- lo das hipóteses qualificadoras do § 2º, do art. 121, do CP.122 Diversamente, para a segunda corrente, seria possível a coexistência do homicídio privilegiado com os tipos qualificados do § 2º, desde que se tratem de hipóteses objetivas, tais como o meio – como o meio insidioso, referido no exemplo supra – ou o modo de execução que dificulte ou impossibilite a defesa do ofendido. A única exceção seria a crueldade, pois, na verdade, é uma qualificadora de natureza híbrida: objetiva e subjetiva. A doutrina parece inclinar para a segunda corrente: “As circunstâncias legais contidas na figura típica do homicídio privilegiado são de natureza subjetiva. Na do homicídio qualificado, algumas são objetivas (§ 2º, III e IV, salvo a crueldade), outras subjetivas (ns. I, II e IV). De acordo com a nossa posição, o privilégio não pode concorrer com as qualificadoras de natureza subjetiva. Não se compreende homicídio cometido por motivo fútil e, ao mesmo tempo, de relevante valor moral. Os motivos subjetivos determinantes são antagônicos. O privilégio, porém, pode coexistir com as qualificadoras objetivas. Admite-se homicídio eutanásico cometido mediante veneno. A circunstância do relevante valor moral (subjetivo) não repele o elemento exasperador objetivo. O mesmo se diga do fato de alguém matar de emboscada e impelido por esse motivo.”123 Na mesma esteira, a jurisprudência considera possível o homicídio privilegiado-qualificado: A jurisprudência do STF admite a possibilidade de homicídio privilegiado- qualificado, desde que não haja incompatibilidade entre as circunstâncias do caso. O recurso utilizado para atingir a vítima ‘é realidade objetiva, pertinente 122 Nesse sentido: “Foi propositadamente, e, a nosso ver, com acerto, que o Código fez preceder o dispositivo concernente ao privilégio ao das qualificadoras. Não admite, ele, o homicídio qualificado- privilegiado, por considerá-lo forma híbrida, enquanto reconhece a compossibilidade do mesmo privilégio nas lesões corporais graves, gravíssimas e seguidas de morte, onde não há realmente antagonismo algum.” (SILVEIRA, Euclides Custódio. Direito Penal. Crimes contra a pessoa. Apud NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 645). 123 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 97. No mesmo sentido: BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 83. PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 637. DELMANDO, Celso et alli. Op. cit., p. 231. NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 645. 57 à mecânica do agir do infrator’ (HC 77.347, HC 69.524, HC 61.074). Daí a inexistência de contradição no reconhecimento da qualificadora, cujo caráter é objetivo (modo de execução do crime), e do privilégio, afinal reconhecido (sempre de natureza subjetiva).124 No mesmo sentido, a 2ª Turma do STF decidiu: 1. A atual jurisprudência do Supremo Tribunal Federal admite a possibilidade de ocorrência de homicídio privilegiado-qualificado, desde que não haja incompatibilidade entre as circunstâncias aplicáveis. Ocorrência da hipótese quando a paciente comete o crime sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, mas o pratica disparando os tiros de surpresa, nas costas da vítima (CP, art. 121, § 2º, IV) A circunstância subjetiva contida no homicídio privilegiado (CP, art. 121, § 1º) convive com a circunstância qualificadora objetiva ‘mediante recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima’ (CP, art. 121, § 2º, IV). Precedentes.125 Por outro lado, considera-se inadmissível a coexistência de homicídio privilegiado e qualificado, quando decorrentes de fatores ou motivações de natureza subjetiva – tais como a torpeza ou a futilidade –, uma vez que motivações nobres e reprováveis excluem-se reciprocamente. 12. Homicídio culposo. Leciona Cezar Bitencourt que as legislações modernas adotam o princípio da excepcionalidade do crime culposo (cf. art. 18, parágrafo único, do CP). Portanto, “a regra é a de que as infrações penais sejam imputadas a título de dolo, e só excepcionalmente a título de culpa e, nesse caso, quando expressamente prevista a modalidade culposa da figura delituosa.”126 O homicídio é, com efeito, uma das previsões legais de punição a título de culpa. Nesse sentido, dispõe o art. 121, § 3º, do CP, que, se o homicídio for culposo, a pena será de detenção, de um a três anos. Como se pode observar não se define, de modo pormenorizado, o que venha a ser um “homicídio culposo”, sendo certo que o tipo do art. 121, § 3º, há de ser complementado pela norma geral que afirma que o crime culposo se perfaz “quando o agente 124 STF. HC 89.921. 1ª T. Relator Min. Carlos Britto. Pub. DJ de 27.4.07. 125 STF. HC 76.196. 2ª T. Relator Min. Maurício Corrêa. Pub. DJ de 15.12.00. Igualmente: STF. RCH 116.058. 2ª T. Relator Min. Ricardo Lewandowski. Pub. DJe de 14.05.13. No mesmo sentido, decidiu o STJ: “A violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima (CP, art. 121, § 1º) – causa especial de diminuição da pena – não é incompatível com o emprego de recurso que impossibilita a defesa da vítima (CP, art. 121, § 2º) – qualificadora. Uma não contradiz a outra. A primeira é de natureza subjetiva. A segunda, objetiva. Não se repelem, não se eliminam. Assim, convivem, podem coexistir. Factualmente, admissível o agente sob violenta emoção, escolher, na execução, modo de impossibilitar ou tornar impossível a reação da vítima.” (STJ. Relator Luiz Vicente Cernicchiaro. In JSTJ 86/368) 126 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 93. (grifo do original). 58 deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.” (art. 18, inc. II, do CP). Relativamente ao dispositivo por último mencionado, cumpre esclarecer que a compreensão dogmática do tipo culposo é mais complexa do que a simples referência a imprudência, negligência ou imperícia.127 De fato, tem-se que no crime culposo o agente, “violando o cuidado, a atenção ou a diligência a que estava adstrito, causa o resultado que podia prever, ou que previu, supondo, no entanto, levianamente, que não ocorreria.”128 Desse jeito, no homicídio culposo, observa-se que o resultado causado – a morte de um ser humano – não decorre de um comportamento doloso, mas, sim, da violação de um dever de cuidado exigido pela norma penal, ante a previsibilidade objetiva do fato desvalioso. Na hipótese de uma conduta descuidada causar, não a morte, mas somente sequelas físicas ou na saúde do ofendido, restará configurado o crime do art. 129, § 6º, do CP: lesão corporal culposa. É certo, contudo, existir duas modalidades do crime: homicídio por culpa inconsciente ou culpa consciente. A primeira – também chamada de culpa sem previsão –, ocorre quando o agente não prevê o resultado que poderia e deveria ter previsto. No caso, apesar da previsibilidade objetiva – isto é, para a generalidade das pessoas que se encontrassem na mesma posição –, não há previsão por parte do agente, por descuido, desatenção ou simplesassistência ao suicida? ....................... 90 6. Tipo subjetivo. ...................................................................................... 91 7. Consumação e tentativa. ...................................................................... 91 8. Formas majoradas. .............................................................................. 92 9. Pena e ação penal. ................................................................................ 93 10. Questões de concurso público. ......................................................... 94 Capítulo Terceiro Do Infanticídio ........................................................................................................................ 97 1. Introdução. ........................................................................................... 97 2. Sujeito ativo. ......................................................................................... 99 3. Sujeito passivo. ..................................................................................... 99 4. Tipo objetivo. ....................................................................................... 100 4.1. Elementar: próprio filho. .................................................................. 100 4.2. Durante o parto ou logo após ........................................................... 101 4.3. Conceito de estado puerperal. ......................................................... 101 5. Tipo subjetivo. ...................................................................................... 103 6. Consumação e tentativa. ...................................................................... 103 7. Concurso de pessoas no infanticídio. ................................................. 103 8. A questão do “infanticídio” indígena .................................................. 106 9. Distinção entre infanticídio e crimes assemelhados. ........................ 108 10. Pena e ação penal. .............................................................................. 108 11. Questões de concurso público........................................................... 108 Capítulo Quarto Do Aborto ................................................................................................................................... 111 1. Introdução. ........................................................................................... 111 2. Classificação de aborto. ....................................................................... 112 3. Discussão sobre a liberação do aborto no Brasil. .............................. 112 4. Sujeito ativo. ......................................................................................... 114 5. Sujeito passivo. ..................................................................................... 114 6. Tipicidade objetiva. .............................................................................. 115 6.1. Tipo objetivo do autoaborto ou aborto consentido. ....................... 116 6.2. Tipo objetivo do aborto provocado por terceiro sem consentimento. ................................................................................ 118 6.3. Tipo objetivo do aborto provocado por terceiro com consentimento. ................................................................................ 119 7. Tipo subjetivo. ...................................................................................... 120 8. Consumação e tentativa. ...................................................................... 121 9. Aborto qualificado (art. 127 do CP). ................................................... 121 10. Aborto legal (art. 128, incs. I e II, do CP, e ADPF 54). ...................... 122 10.1. Aborto necessário ou terapêutico. ................................................. 122 10.2. Aborto sentimental ou ético. .......................................................... 123 10.3. Aborto de feto anencefálico (ADPF 54). ........................................ 124 11. Pena e ação penal. .............................................................................. 128 12. Questões de concurso público........................................................... 128 11 APRESENTAÇÃO O presente livro se apresenta ao público como fruto de reflexões próprias dos anos de atuação acadêmica no curso de direito da UERJ. A experiência no magistério, das aulas em graduação que versaram e versam sobre a temática dos crimes contra a vida, bem como das reuniões da linha de pesquisa em direito penal no programa de pós-graduação da mesma universidade, foi o principal subsídio para a elaboração da presente obra. A temática dos crimes contra a vida não foi escolhida à toa: de modo a manter viva a discussão sobre um Direito Penal que se proponha liberal é impossível não discutir a maior supressão de direito a um indivíduo, qual seja, o direito à vida. Ainda, tendo em vista a importância do tema nos últimos certames públicos, inclusive na área federal, e exame de ordem dos advogados, a discussão termina por manter relevância também em uma esfera pragmática de utilidade para aqueles preocupados com as provas. Por isso é que não se deixou de trazer aqui uma dupla abordagem: discussão científica sobre pontos novos, polêmicos e tormentosos na esfera dos crimes contra a vida, bem como a presença das soluções práticas adotadas pelos tribunais brasileiros e as inseridas questões de concursos públicos ao final dos capítulos. Ambas as abordagens só foram possíveis com a aliança de teoria e prática, pesquisa de doutrina e jurisprudência, além da já citada experiência e capacidade crítica que o magistério proporciona de forma ímpar. Ao final deixo os agradecimentos a todos que ajudaram na elaboração da presente obra, companheiros e companheiras da linha de pesquisa em direito penal da UERJ: professor Carlos Eduardo Adriano Japiassú e os alunos e alunas da pós-graduação Adriana Cruz, Bruna Laiber, Cecília Choeri, Elder Fernandes, José Maria Panoeiro, Juliana Câmara, Matheus de Alencar, Sylvia Chaves e Thamyrys Alli. 13 Introdução 1. Considerações iniciais Os crimes contra a vida atingem o núcleo fundamental da coexistência social. É inconcebível imaginar um modelo de sociedade onde não se protegesse, por intermédio da ameaça de sanções penais, os seus membros frente a ações ou omissões de outrem que conduzissem a sua destruição. Bem por isso, pode-se afirmar, em termos introdutórios, que todas as legislações, tanto na perspectiva temporal como na espacial, contemplaram a punição do homicídio. Partindo desse modo – da incriminação do homicídio – é possível detectar certa variação punitiva com relação aos demais crimes contra a vida, vale dizer, a incriminação da participação em suicídio, do infanticídio e do aborto. De toda sorte, ainda que existam reações penais heterogêneas com relação aos demais crimes contra a vida, o presente estudo visa discorrer sobre este grupo de delitos adotando como parâmetro o ordenamento jurídico brasileiro, onde, como antecipado, o Código Penal (Decreto-lei n. 2.848/1940) positiva quatro crimes contra a vida, consoante os artigos 121 a 128. Com efeito, observa-se que o Capítulo I, do Título I, da Parte Especial, do Código Penal brasileiro contempla os crimes contra a vida. No caso, a destruição ou supressão da vida humana consiste no mais grave atentado aos integrantes do corpo social. Com efeito, o escopo do Código Penal (CP), no referido capítulo, é o de resguardar a existência do indivíduo, desde a concepção até o seu último instante, vale dizer, até a morte cerebral. Nesse sentido, os crimes contra a vida são: homicídio (art. 121, do CP), induzimento, instigação ou auxílio a suicídio (art. 122, do CP), infanticídio (art. 123, dodesinteresse. Em síntese, é a “imprevisão do previsível”.129 Por sua vez, a culpa consciente – ou culpa com previsão – é aquela em que ocorre a efetiva previsão do resultado, conquanto o agente não aceite ou assuma o risco de produzi-lo. No caso, “o autor, deixando de observar a diligência a que estava obrigado, prevê o resultado, que era previsível, mas confia convictamente que ele não ocorrerá. É a previsão do previsível, mas não tolerável. O agente crê, por confiança em si próprio ou por leviandade, que poderá evitar o previsível resultado.”130 Insta acrescentar que o homicídio culposo se faz presente, em grande intensidade, na nossa realidade cotidiana. Desastres nos meios de transporte – tais como veículos automotores, aeronaves, embarcações, trens etc. –, bem assim acidentes de trabalho na construção civil, ataques de animais bravios por descuido dos seus donos, quedas de objetos nas vias públicas, choques 127 “Imprudência” é a prática de uma conduta arriscada ou perigosa. “Negligência” é displicência no agir, a falta de precaução, a indiferença do agente que, podendo agir com cautela, não o faz. A negligência denotaria um caráter passivo, ao passo que, a imprudência, um caráter comissivo. Por sua vez, a “imperícia” é a falta de capacidade, despreparo ou insuficiência de conhecimento técnico para exercício de arte, profissão ou ofício. A imperícia vincula-se a questões como o “erro profissional”. (Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 238-239). 128 Ibid., p. 238. 129 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 239-240. 130 Ibid., p. 239. 59 elétricos, desabamentos, incêndios em prédios, explosões de tubulações de gás e, em particular, erros médicos derivados da inobservância das regras da medicina,131 compõem um número de fatos dos quais resultam mortes, não queridas nem assumidas pelos agentes, mas que carregam um custo social altíssimo. 12.1. Homicídio culposo e a teoria da imputação objetiva. Em que pese a adoção, no art. 13, caput, do Código Penal, da teoria da equivalência dos antecedentes causais – também conhecida como a teoria da conditio sine qua non –, é certo que o desenvolvimento das reflexões dogmáticas subsequentes possibilitaram a construções de novos modelos de imputação objetiva do resultado. Se é certo afirmar que a teoria da equivalência do antecedentes causais constitui-se um “limite mínimo” de imputação, na medida em que, quando categoricamente ausente qualquer relação de causalidade entre conduta e resultado, não há que falar de imputação, considera-se – na atualidade – que ela não é suficiente para o processo de atribuição objetiva – isto é, sem analisar a tipicidade subjetiva – do evento ao comportamento do agente. Segundo a teoria da imputação objetiva, cujos contornos modernos foram elaborados por Claus Roxin, além dos pressupostos já conhecidos para o preenchimento do tipo objetivo – conduta, resultado e nexo de causalidade entre um e outro –, faz-se necessária a verificação de mais dois requisitos: 1) que a realização da conduta criou um risco não permitido de lesão ao bem jurídico; e 2) que este risco não permitido tenha se materializado no resultado.132 A partir de tais premissas, Claus Roxin – bem como os demais doutrinadores que se filiaram, em maior ou menor extensão, à teoria da imputação objetiva – desenvolveu grupos de casos onde, apesar da existência da relação de causalidade entre ação e resultado, não seria juridicamente aceitável a atribuição do evento desvalioso ao agente. Dentre os casos de exclusão de imputação, merecem destaque: 1) a não imputação do resultado 131 Nesse sentido: “Homicídio culposo. Negligência. Atendimento médico. Doença desconhecida. Liberação do paciente. Caracteriza a culpa do profissional da medicina, por negligência, quando, atendendo paciente, na segunda vez, e ainda mantendo estado febril, com vômito, sintomas de irritabilidade e sensibilidade à palpitação abdominal, não determina a internação hospitalar, e nem requisita a realização de exames para diagnosticar a doença até então desconhecida. A ‘causa mortis’ por choque séptico-meningococcemia, revela a gravidade do problema apresentado e a falta de cuidado de um profissional da área médica, ao ministrar medicação para atacar tão-somente os efeitos da doença, até ali desconhecida.” (TJRS. AC 70000441550. Relator Des. Silvestre Torres. Julg. 31.5.00). 132 Cf. ROXIN, Claus. Derecho Penal. Parte General. Tomo I. 2ª ed. Trad. Luzón Peña. Madrid: Civitas, 2006, p. 363. No mesmo sentido: SCHÜNEMANN, Berd. Consideraciones sobre la teoría de la imputación objetiva. In Temas actuales y permanentes del Derecho penal después del milênio. Trad. Marina Sacher. Madrid: Tecnos, 2002, passim). 60 no caso de diminuição de risco;133 2) a não imputação ante a falta da criação de risco;134 e 3) a não imputação fora do âmbito de proteção da norma.135 Conforme dito linhas antes, a teoria da imputação objetiva encontra- se consagrada no plano doutrinário, na medida em que corresponderia melhor às necessidades de regulação penal do tipo das sociedades (de risco) nas quais vivemos atualmente. Se no tocante ao tipo doloso – notadamente no dolo direto de primeiro grau – transparece evidente a criação de um risco não permitido, risco este materializado no resultado, no que diz respeito ao tipo culposo, tem-se que o potencial resolutivo de situações da vida cotidiana aumenta exponencialmente com a adoção da teoria sob consideração. Desse modo, observa-se que os tribunais também estão aderindo aos aportes dogmáticos da teoria da imputação objetiva, em particular diante de situações que, a princípio, constituiriam crime de homicídio culposo. Nesse sentido, o seguinte arresto do STJ, verbis: HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO CULPOSO. VÍTIMA - MERGULHADOR PROFISSIONAL CONTRATADO PARA VISTORIAR ACIDENTE MARÍTIMO. ART. 121, §§ 3º E 4º, PRIMEIRA PARTE, DO CÓDIGO PENAL. TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. 1. Para que o agente seja condenado pela prática de crime culposo, são necessários, dentre outros requisitos: a inobservância do dever de cuidado objetivo (negligência, imprudência ou imperícia) e o nexo de causalidade. 2. No caso, a denúncia imputa ao paciente a prática de crime omissivo culposo, na forma imprópria. A teor do § 2º do art. 13 do Código Penal, somente poderá ser autor do delito quem se encontrar dentro de um determinado círculo normativo, ou seja, em posição de garantidor. 3. A hipótese não trata, evidentemente, de uma autêntica relação causal, já que a omissão, sendo um não-agir, nada poderia causar, no sentido naturalístico da expressão. Portanto, a relação causal exigida para a configuração do fato típico em questão é de natureza normativa. 4. Da análise singela dos autos, sem que haja a necessidade de se incursionar na seara fático-probatória, verifico que a ausência do nexo causal se confirma nas narrativas constantes na própria denúncia. 5. Diante do quadro delineado, não há falar em negligência na conduta do paciente (engenheiro naval), dado que prestou as informações que entendia pertinentes ao êxito do trabalho do profissional qualificado, alertando-o sobre 133 Segundo esse grupo de casos, faltaria a criação de risco e, por conseguinte, faz-se impossível a imputação do resultado ao agente em situações nas quais este “modifica um curso causal” de tal maneira que diminui o perigo que já existia para a vítima e, portanto, melhora a sua situação (Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 215). 134 Para a teoria da imputação objetiva, deve-se igualmente rechaçar a atribuição da conduta ao tipo objetivo quandoo agente certamente não diminui o risco de lesão de um bem jurídico, mas, tampouco o eleva de modo juridicamente considerável. (Ibid., p. 216). 135 Cuidam-se de hipóteses nas quais o risco não permitido aumenta, de fato, o perigo de um resultado, mas, apesar disso, não há sentido na atribuição do resultado, pois o fim do preceito normativo não lhe abrange, como ocorre – por exemplo – no caso de “morte por susto”, ou seja, quando alguém sofre um infarto cardíaco por conta de uma notícia trágica, não sendo razoável atribuir ao autor do fato trágico a morte do enfartado. (Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 217). 61 a sua exposição à substância tóxica, confiando que o contratado executaria a operação de mergulho dentro das regras de segurança exigíveis ao desempenho de sua atividade, que mesmo em situações normais já é extremamente perigosa. 6. Ainda que se admita a existência de relação de causalidade entre a conduta do acusado e a morte do mergulhador, à luz da teoria da imputação objetiva, seria necessária a demonstração da criação pelo paciente de uma situação de risco não permitido, não-ocorrente, na hipótese. 7. Com efeito, não há como asseverar, de forma efetiva, que engenheiro tenha contribuído de alguma forma para aumentar o risco já existente (permitido) ou estabelecido situação que ultrapasse os limites para os quais tal risco seria juridicamente tolerado. 8. Habeas corpus concedido para trancar a ação penal, por atipicidade da conduta.136 Conclui-se, portanto, esse tópico, ressaltando a pertinência da teoria da imputação objetiva no Direito Penal brasileiro, estando ela em consonância com o Código Penal, visto que a regra do art. 13, caput, do CP, estabelece um limite mínimo – mas não suficiente – de atribuição da conduta ao resultado. Deve-se, assim, analisar o caso concreto, com a finalidade de verificar se, para além da relação de causalidade, a conduta do agente criou um perigo não permitido de lesão ao bem jurídico, bem assim se esse perigo, de fato, se materializou no evento desvalioso. E isso se faz particularmente pertinente nos casos de delitos culposos, pois a violação de um dever de cuidado nada mais significa, em outras palavras, do que a criação de um risco não permitido. 12.2. Homicídio culposo na condução de veículo automotor. Cumpre alertar que o homicídio culposo – bem como as lesões corporais de natureza culposa –, decorrente da condução de veículo automotor, passou a estar tipificado, não mais no Código Penal, mas, sim, na Lei n. 9503/1997 (Código de Trânsito Brasileiro), com a redação dada pela Lei n. 12.971/2014: Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Penas: detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1º No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade, se o agente: I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação; II - praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada; III - deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente; IV - no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. 136 STJ. HC 68.871. 6ª Turma. Relator p/Acórdão Ministro Og Fernandes. Pub. DJe 05/10/2009. 62 § 2º Se o agente conduz veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência ou participa, em via, de corrida, disputa ou competição automobilística ou ainda de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automotor, não autorizada pela autoridade competente: Penas: reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.137 Observa-se que a pena de prisão, prevista no caput do art. 302, para o crime cometido na “condução de veículo automotor”138 – detenção, de dois a quatro anos – é sensivelmente maior do que a pena do homicídio culposo regulada no Código Penal – detenção, de um a três anos. Isso acarretou discussão doutrinária a respeito da violação dos princípios constitucionais da isonomia e da proporcionalidade em matéria penal (art. 5º, caput, e incs. I e XLVI, da CF/88), vis-à-vis tratarem-se de condutas assemelhadas e com o mesmo grau de reprovabilidade. No sentido da inconstitucionalidade 137 A qualificadora do art. 302, § 2º, da Lei n. 9.503/1997, com a redação dada pela Lei n. 12.971/2014, causa, ao menos, duas perplexidades ao intérprete. A primeira, como se vê da redação do dispositivo, é de que, apesar de se apresentar como uma qualificadora em sentido estrito, tendo em vista, em tese, a maior reprovabilidade do homicídio culposo nessas circunstâncias, fato é que a quantidade de pena cominada é a mesma do caput do art. 302, alterando-se, tão-somente, a pena de detenção para reclusão. A segunda perplexidade consiste no fato de que a Lei n. 12.971/2014 também alterou o art. 308 do Código de Trânsito Brasileiro, que passou a ter a seguinte redação: “Participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de corrida, disputa ou competição automobilística não autorizada pela autoridade competente, gerando situação de risco à incolumidade pública ou privada. Pena: detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. § 1º Se da prática do crime previsto no caput resultar lesão corporal de natureza grave, e as circunstâncias demonstrarem que o agente não quis o resultado nem assumiu o risco de produzi-lo, a pena privativa de liberdade é de reclusão, de três a seis anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo. § 2º Se da prática do crime previsto no caput resultar morte, e as circunstâncias demonstrarem que o agente não quis o resultado nem assumiu o risco de produzi-lo, a pena privativa de liberdade é de reclusão, de cinco a dez anos, sem prejuízo das outras penas previstas neste artigo.” Como se pode verificar, há uma redundância na Lei n. 12.971/2014, na medida em que tipificou em duplicidade, mas com penas distintas, o mesmo comportamento ilícito. Com efeito, a morte não intencional (sem dolo direto ou eventual) decorrente de acidente de trânsito no qual o agente participa, em via pública, de corrida não autorizada, está prevista em dois dispositivos legais: no art. 302, § 2º, com pena de dois a quatro anos de reclusão (além da perda da habilitação para dirigir) e no art. 308, § 2º, com pena de cinco a dez anos de reclusão (além de perda da habilitação para dirigir). Pode-se especular que a má técnica legislativa ora verificada guarde relação com o alto índice de vítimas fatais de acidentes de trânsito no Brasil, que acarretou uma espécie de “clamor público” no sentido de um incremento do rigor legislativo-penal para casos como os acima descritos: imprudentes disputas de corridas de automóveis em vias públicas, que culminariam com a morte de pessoas. A presente impropriedade somente foi corrigida por intermédio da Lei n. 13.281/2016, que revogou expressamente o mencionado § 2º, do art. 302, da Lei n. 9.503/1997. 138 Segundo o Anexo I, da Lei n. 9.503/97, “veículo automotor” é todo veículo a motor de propulsão que circule por seus próprios meios, e que serve normalmente para o transporte viário de pessoas e coisas, ou para a tração viária de veículos utilizados para o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os veículos conectados a uma linha elétrica e que não circulam sobre trilhos (ônibus elétrico). 63 daquele dispositivo posicionam-se, dentre outros, Luiz RegisPrado e Sérgio Salomão Shecaira.139 Em sentido inverso, Cezar Roberto Bitencourt sustenta necessário discernir o desvalor da ação do desvalor do resultado nos crimes de trânsito e nos crimes culposos havidos em outras situações da vida cotidiana. Nesse sentido, para este autor, conquanto o desvalor do resultado seja idêntico – a morte de alguém – sendo o bem jurídico lesado também o mesmo – a vida humana –, o mesmo não pode ser dito com relação ao desvalor da ação. Segundo Cezar Bitencourt: “É de uma clareza meridiana a diferença e a maior desvalia das ações ‘descuidadas’ praticadas no trânsito daquelas demais ações supracitadas, que podem ocorrer no quotidiano social. Com efeito, referindo-nos às penas alternativas aplicáveis aos ‘crimes de trânsito’, previstas no Código Penal (arts. 47, III, e 57), tivemos oportunidade de afirmar: ‘O aumento da criminalidade no trânsito hoje é um fato incontestável. O veículo transformou-se em instrumento de vazão da agressividade, da prepotência, do desequilíbrio emocional, que se extravasam na direção perigosa de veículos. E uma das finalidades desta sanção é afastar do trânsito os autores de delitos culposos que, no mínimo, são uns descuidados.”140 É certo que a matéria sob consideração – i.e., o índice elevado de mortes e lesões decorrentes de acidentes de trânsito – tem preocupado não somente os especialistas, mas, também, autoridades públicas em todo o mundo.141 No Brasil, as estatísticas sobre homicídios e lesões corporais de natureza culposa, nas nossas ruas, avenidas e rodovias, são alarmantes. Segundo dados do Sistema de Informação de Mortalidade, do Ministério da Saúde: 139 Segundo Luiz Regis Prado, “a elevação das margens penais demonstra excessivo realce ao desvalor do resultado.” (PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 641-642). Para Salomão Shecaira, o art. 302, do CTB, “não só feriu o princípio da isonomia como também inseriu espécie de objetividade na culpabilidade.” (SHECAIRA, Sérgio Salomão. Primeiras perplexidades sobre a nova lei de trânsito. In Boletim IBCCrim, n. 61, S. Paulo, dez. 1997, p. 3). 140 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 106. (grifos do original). 141 Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), haveria uma espécie de “epidemia letal” no trânsito em todo o planeta: “Só no ano de 2010, aconteceram 1,24 milhão de mortes por acidente de trânsito em 182 países do mundo. Entre 20 e 50 milhões sobrevivem com traumatismos e feridas. Os acidentes de trânsito representam a 3ª causa de mortes na faixa de 30-44 anos; a 2ª na faixa de 5-14; e a 1ª na faixa de 15-29 anos de idade. A OMS estima que, na atualidade, 90% dessas mortes acontecem em países com rendimentos baixos ou médios que, em conjunto, possuem menos da metade dos veículos do mundo, e vai ser precisamente nesses países que as previsões da OMS indicam que a situação vai se agravar ainda muito mais, em função de um esperado aumento nos índices de motorização, sem equivalentes investimentos na segurança nas vias públicas, como vem acontecendo no Brasil. Atualmente, tais acidentes já representam um custo global de US$ 518 bilhões/ano. Se nada for feito, a OMS estima que deveremos ter 1,9 milhão de mortes no trânsito em 2020 e 2,4 milhões em 2030.” (WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência 2013: acidentes de trânsito e motocicletas. In http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_transito.pdf, p. 5, acessado dezembro 2015). 64 Entre 1980 e 2011, foram registrados perto de um milhão de óbitos nos diversos tipos de acidentes de trânsito acontecidos no País. Em 2010, aquele Sistema registrou perto de 43 mil mortes no trânsito, quantidade superada, a seguir, com os números de 2011. E o mais preocupante do caso é que a tendência evidente na série a partir do ano 2000 é de continuar crescendo com um ritmo elevado: 3,7% ao ano em média.142 Diante dessa grave realidade, talvez se compreenda o recrudescimento político-criminal relativo a cominação de sanção corporal mais elevada para o homicídio culposo na direção de veículo automotor, frente ao mesmo delito, praticado em outro contexto, distinguindo-se, portanto, no disposto no art. 121, § 3º, do Código Penal. Ainda com relação aos crimes de trânsito, cumpre observar que, além da detenção, de dois a quatro anos, o art. 302, caput, da Lei n. 9.503/97, prevê, no caso de homicídio culposo, a “suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor”. Sobre esta pena, questiona-se se ela violaria o direito constitucional ao trabalho, particularmente quando o agente for “motorista profissional” sendo tal atividade essencial para seu sustento e de sua família. A controvérsia encontra-se em discussão no STF, consoante a se observa da seguinte ementa: “Possui repercussão geral a discussão sobre a hipótese de violação do direito constitucional ao trabalho no caso de suspensão da habilitação de motorista profissional condenado por homicídio culposo na direção de veículo automotor.”143 Por outro lado, há, ainda, controvérsia a respeito da possibilidade de se aplicar o perdão judicial – abaixo analisado – no caso de homicídio culposo decorrente de acidente de trânsito. Isso porque, o art. 300, da Lei n. 9.503/97, que previa regra idêntica àquela constante do art. 121, § 5º, do CP, sofreu “veto presidencial”. Segundo Rui Stoco, a preponderar a impossibilidade de perdão judicial nos casos de morte no trânsito, haverá “absurda injustiça ou desajuste legal, na medida em que o ordenamento jurídico passa a estabelecer critérios diversos para situações idênticas.”144 142 Id., Ibid., p. 20. 143 STF. RE 607.107. Plenário. Relator Min. Joaquim Barbosa. Pub. DJe de 16.12.11. 144 STOCO, Rui. Código de Trânsito Brasileiro. Disposições penais e suas incongruências. In Boletim IBCCrim, n. 61, S. Paulo, dez. 1997, p. 9). Prossegue o autor: “Aquele que vitima um parente e comete homicídio culposo, na condução de uma aeronave, de uma composição férrea, no metrô, na intervenção médico-cirúrgica etc., terá possibilidade de obter o perdão judicial, enquanto que a ocorrência do mesmo fato, nas mesmas circunstâncias, mas na condução de um veículo automotor, não poderá ensejar a obtenção do benefício.” (Idem, p. 9). 65 Todavia, para Luiz Regis Prado, é, de fato, incabível, na hipótese, o perdão judicial, pois o art. 291, da Lei n. 9.503/97, restringiu essa aplicação às normas gerais do Código Penal. Demais disso, segundo este autor, “o obstáculo decisivo está na impossibilidade de aplicação analógica em se tratando de normas penais não incriminadoras excepcionais.”145 Por fim, sobre o tipo penal do art. 121, § 3º, do CP, cumpre ser registrado que o resultado morte, a título de culpa, integra, na condição de preterdolo, outras figuras delituosas do Código Penal que prevejam a elementar violência física, tais como lesões corporais, roubo, extorsão, estupro, dentre outras. Porém, como mencionado acima, no caso de roubo – i.e., de latrocínio –, prevalece o entendimento de que a regra do art. 157, § 3º, 2ª parte, do CP, prepondera sobre o art. 121, do CP, mesmo quando, junto ao dolo de roubar, há o resultado morte a título de culpa ou dolo. 13. Causas de aumento de pena. O art. 121, § 4º, do CP, prevê causas de aumento de pena, na fração de 1/3 (um terço), tanto para homicídio culposo como para o homicídio doloso. Para aquele, a primeira parte do parágrafo – que remonta ao texto original do CP1940 – dispõe que a pena será majorada quando o crime decorrer de inobservância de normas de natureza técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir as consequências de seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Como se vê, aprimeira agravação do homicídio culposo é a decorrente da inobservância de normas técnicas. Segundo a doutrina brasileira – lastreada na opinião de Aníbal Bruno –, esta majorante não se confundiria com a “imperícia” em si, ou seja, uma das modalidades de crime culposo. Assim, não seria a imperícia do agente que se tornaria agravante na hipótese, “mas a inconsideração com que age, desprezando as regras do seu ofício, e, por esse desinteresse, provocando o fato punível.” 146 145 PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 644-645. 146 BRUNO, Aníbal. Direito Penal. Vol. IV. 3ª ed. Rio: Forense, 1967, p. 129. Nesse sentido: “APELAÇÃO. HOMICÍDIO CULPOSO. INOBSERVÂNCIA DE REGRA TÉCNICA. CONSTRUÇÃO CIVIL. AUSÊNCIA DE EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO COLETIVA E INDIVIDUAL. NEGLIGÊNCIA. (...) Acusados que detinham dever de fiscalização da presença dos itens de segurança coletiva e individual, bem como ingerência sobre os operários e, de forma negligente, não observaram os deveres objetivos de cuidado e tampouco as normas técnicas ao deixarem prosseguir edificação da construção civil sem a presença dos equipamentos de guarda-corpo e bandeja de proteção, exigidos pela NR nº 18 do Ministério do Trabalho. Ademais, restou comprovado que a vítima, no momento do fato, não utilizava cinto de segurança para retirada do entulho do quarto pavimento da obra, irregularidade que devia ter sido fiscalizada e corrigida pelos corréus. (...) MAJORANTE. ART. 121, § 4º DO CP. Réus que, ao deixarem de providenciar equipamentos de proteção coletiva indispensáveis na construção civil, não observaram regra técnica de profissão consubstanciada na Norma Reguladora do Ministério do Trabalho e do Emprego número 18. Reconhecida a causa especial de aumento de pena, o montante da elevação está previamente definido pelo legislador, inexistindo 66 Sustenta, ainda, a nossa doutrina, que tal causa de aumento se restringiria tão-somente a “culpa profissional.”147 Diversamente, a jurisprudência do STF é mais ampla, admitindo, pois, que a circunstância de agravação da pena prevista no art. 121, § 4º, do CP, relativa à inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, aplica-se tanto aos fatos culposos praticados por profissionais como aos amadores.148 A respeito das demais majorantes para o homicídio culposo – omissão de socorro à vítima, não adoção de providências para diminuir as consequências do seu ato ou fuga do local para evitar a prisão em flagrante – é certo que, consoante a Exposição de Motivos do CP/1940, elas tiveram por objetivo, precipuamente, a “condução de automóveis”. Isso porque, já naquela época, as mortes de acidente de trânsito constituíam uma “causa frequente de eventos lesivos contra a pessoa, agravando-se o mal com o procedimento post factum dos motoristas, que, tão somente com o fim egoístico de escapar à prisão em flagrante ou à ação da justiça penal, sistematicamente imprimem maior velocidade ao veículo, desinteressando- se por completo da vítima, ainda quando um socorro imediato talvez pudesse evitar-lhe a morte.”149 Entretanto, conforme acima mencionado, o homicídio culposo na condução de veículo automotor passou a estar tipificado no art. 302 da Lei n. 9.503/97 (Código de Trânsito Brasileiro), com a redação dada pela Lei n. 12.971/2014, sendo certo que este diploma legal prevê, igualmente, o aumento de pena, de um terço a metade, se o agente “deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente.” (art. 302, § 1º, inc. III, do CTB, com a redação da Lei n. 12.971/2014).150 Sobre o assunto, a jurisprudência do STJ firmou-se no sentido de ser “irrelevante”, no crime ora referido, “o fato de a vítima ter falecido imediatamente no acidente para a incidência da causa de aumento de pena relativa a omissão de socorro, uma vez que não compete ao condutor do veículo levantar suposições sobre as razões para alterá-lo. (...).” (TJRS. Processo 70053630026. 3ª C. Crim. Relator Des. Jayme Weigartner Neto. Pub. DJ de 09/05/13). 147 Cf. FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal. Parte Especial. Vol. I. 11ª ed. Rio: Forense, 1995, p. 47. BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 113. JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 116. DELMANTO, Celso et allii. Op. cit., p. 237. 148 Cf. STF. HC 48.375. 1ª T. Relator Min. Barros Monteiro. In RTJ 56/695. 149 E.M. do CP/1940, item 38. 150 Cite-se, ainda, o art. 304, da Lei n. 9.503/97: “Deixar o condutor do veículo, na ocasião do acidente, de prestar imediato socorro à vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da autoridade pública. Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, ou multa, se o fato não constituir elemento de crime mais grave. Parágrafo único: Incide nas penas previstas neste artigo o condutor do veículo, ainda que a sua omissão seja suprida por terceiros ou que se trate de vítima com morte instantânea ou com ferimentos leves.” 67 condições físicas da pessoa lesionada a fim de deixar de prestar o devido auxílio.”151 Como se observa, o art. 121, § 4º, 1ª parte, do CP, cuida de causa de aumento de pena no homicídio culposo com “omissão de socorro”. No caso, o delito de omissão de socorro (art. 135 do CP) resta absorvido pelo tipo culposo de homicídio. Segundo Damásio de Jesus, há, de fato, duas condutas: “uma, inicial, culposa, produtora da lesão corporal; outra, subsequente, consistente na omissão de socorro, punida a título de dolo de perigo. Forma típica em que um crime culposo tem qualificadora punida a título de dolo.”152 Por esse mesmo motivo – ou seja, por ser regra especial – a omissão de socorro regulada no art. 121, § 4º, 1ª parte, prevalece sobre a norma geral do art. 13, § 2º, al. “c”, do CP.153 Exemplo: “A”, de maneira negligente, não amordaça seu cão feroz quando passeia com o mesmo em uma praça pública da cidade. Em um momento de descuido de “A”, o cão se desprende da coleira e ataca “B”, que estava naquela praça, matando-o. Diante do fato, “A” se omite em prestar socorro a “B”, preferindo se evadir do local. Segundo lecionado por Cezar Bitencourt, em casos como o ora exemplificado, restaria afastado o homicídio doloso comissivo por omissão. Isso porque existe a “previsão especial” (art. 121, § 4º, do CP), que afasta a “norma geral” do garantidor (art. 13, § 2º, al. “c”, do CP). Demais disso, a simples omissão de socorro à vítima da conduta anterior do próprio agente, que podia socorrê-la, não implica, necessariamente, o “dolo eventual de ocasionar-lhe a morte”, podendo configurar, pois, a culpa, “especialmente a culpa consciente”. Por fim – conforme exposto por aquele doutrinador –, importa observar que a morte da vítima é o elemento material que tipifica o crime culposo, sem o qual ele não se configura. O “dever de agir” é um complemento normativo majorante. Ao revés, no crime omissivo impróprio, o “dever de agir” implica no “dever de impedir a produção de um resultado concreto.”154 O dispositivo alude, ainda, a majoração quando o autor do homicídio culposo “não procura diminuir as consequências do seu ato”. Segundo Luiz Regis Prado, trata-se, na verdade, de “referência redundante”, tendo em vista que a majorante já se encontraria abarcada pela “omissão de socorro à vítima”.155 151 STJ. REsp. 1391004. 5ª T. Relator Min. Marco Aurélio Bellizze. Pub. DJe de 01/10/13. 152 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 116. 153 Cf. DELMANTO, Celso et allii. Op. cit., p. 238. 154 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 115-116. 155 PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 643. 68 Com relação a fuga para evitar a prisão em flagrante,156trata-se de outro comportamento doloso, superveniente ao culposo, igualmente agravado. Para Cezar Roberto Bitencourt, esta majorante constitui uma espécie sui generis de “elemento subjetivo do tipo majorado”. Dessa maneira, apesar de se assemelhar com a supracitada omissão de socorro – possuindo idêntico conflito aparente com o crime de omissão imprópria –, leciona Bitencourt que a “dificuldade da identificação de uma ou outra é, aparentemente, indiferente, na medida em que se aplica somente uma majoração.”157 A segunda parte do § 4º, do art. 121, diz respeito não mais ao homicídio culposo, mas, sim, ao doloso. Ela foi introduzida pela Lei n. 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e, subsequentemente, alterada pela Lei n. 10.741/03 (Estatuto do Idoso). Cuida-se, efetivamente, de uma impropriedade legislativa, pois reuniu em único dispositivo matérias referentes a crimes de espécie distintas – culposo e doloso. De toda sorte, segundo o art. 121, § 4º, 2ª parte, sendo doloso o homicídio, “a pena é aumentada de 1/3 (um terço) se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos”. Cumpre observar que esta causa de aumento abrange todas as formas de homicídios dolosos, isto é, homicídio simples, privilegiado ou qualificado. Evidentemente, a incidência da majorante afasta a agravante do art. 61, inc. II, letra “h”, do CP, na parte referente a “criança” e “maior de sessenta” anos, sob pena de violação do princípio do ne bis in idem. Ademais, para que a pena seja elevada em um terço, faz-se necessário que o fator “idade da vítima” integre a parte cognitiva do dolo do agente.158 Por fim, considerando a redação do dispositivo, caso a vítima tenha completado quatorze anos, na data do fato (cf. art. 4º, do CP), ou que, nesta mesma data, ela tenha exatos sessenta anos, não haverá o acréscimo de pena. Isso porque, o art. 121, § 4º, 2ª parte, refere-se a “menor” de quatorze ou “maior” de sessenta anos.159 14. Perdão judicial O art. 121, § 5º, do CP – introduzido pela Lei n. 6.416/77 – prevê, para o homicídio culposo, que o juiz poderá deixar de aplicar a pena, “se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”. Cuida-se do perdão judicial, ou seja, a possibilidade do juiz deixar de aplicar a pena, nas hipóteses expressamente 156 A prisão em flagrante está regulada nos arts. 301 a 310, do CPP. 157 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 114. 158 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 118. 159 Ibid., p. 118. 69 previstas em lei, como a ora considerada. De fato, “são situações em que, embora reconhecida a perpetração do delito, há circunstâncias de cunho moral ou social que justificam a não imposição da sanção penal.”160 O instituto do perdão judicial tem natureza jurídica de causa de extinção da punibilidade (cf. art. 107, inc. IX, do CP), sendo certo que a “sentença que conceder perdão judicial não será considerada para efeitos de reincidência” (art. 120, do CP). Sobre o assunto, o STJ editou a Súmula 18, dispondo que a “sentença concessiva de perdão judicial é declaratória de extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório”. Na presente hipótese legal, o homicídio culposo pode acarretar, no agente, graves consequências físicas ou psíquicas. É fundamental, contudo, que tais desdobramentos gravosos devem estar “direta e imediatamente vinculados à conduta do autor do homicídio culposo.”161 Cite-se, como exemplo, a hipótese de um acidente no qual, além da morte de outrem, o próprio autor sofre sequelas de natureza grave, como, v.g., a tetraplegia. Além de consequências físicas, alude-se, como dito, a consequências psíquicas ou emocionais, particularmente quando a vítima do homicídio culposo possuía vínculos de parentesco ou amizade com o agente. Nesse sentido, o seguinte arresto: “De rigor a concessão do perdão judicial ao agente que causa a morte do filho, por um comportamento negligente, posto que, diante do sofrimento moral a que fica submetido, torna-se prescindível a sanção estatal. Irrelevante que o acusado não empregasse todos os cuidados exigidos a uma criança de tenra idade, mormente se não tinha condições financeiras para tanto, não restando configurados o descaso para co a vida do filho e tampouco a ausência de vínculo afetivo.”162 Por fim, ressalta Damásio de Jesus, que a medida deve ser aplicada “com suficiente prudência” sob pena de se tornar “válvula de impunidade penal”. Desse modo, “só deve ser permitida pelo juiz em casos de gravíssimas consequências, quando a imposição da pena pareça de flagrante inutilidade.”163 15. Homicídio praticado por milícia privada ou por grupo de extermínio Consoante o art. 121, § 6º, do CP, a pena do homicídio deve ser aumenta, de um terço até a metade, “se o crime for praticado por milícia privada, sob pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio”. 160 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 666. 161 PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 644. 162 TACRIM-SP. AC. Relator Wilson Barreira. Apud FRANCO, Alberto Silva et al. Código Penal e sua interpretação jurisprudencial. Vol. 2. 7ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 2208. 163 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 125. 70 Cuida-se de causa de aumento de pena – destinada ao homicídio doloso – que foi introduzida pela Lei n. 12.720/2012, com o objetivo de dispor sobre o “crime de extermínio de seres humanos”, bem assim introduzir o citado § 6º, do art. 121 e o § 7º, do art. 129, ambos do CP. A propósito, o art. 288-A do CP – introduzido, como dito, pela Lei n. 12.720/12 – tipifica a constituição de milícia privada: “Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código. Pena: reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos.” Caso o integrante da “milícia privada” ou do “grupo de extermínio”, conforme acima definido, perpetre, de fato, delito de homicídio, além de estar incurso na pena de reclusão do art. 288-A do CP, responderá pela morte dolosa, com a incidência da majorante ora analisada.164 Cumpre acrescentar, no particular, que além da causa de aumento de pena sob consideração, o homicídio praticado em “situação de grupo de extermínio”, seja simples ou qualificado, passou a ser considerado “crime hediondo”, consoante o art. 1º, inc. I., da Lei n. 8.072/90, com a redação dada pela Lei n. 8.930/94. 16. Aumento de pena no feminicídio. Conforme exposto acima, a Lei n. 13.104/2015 introduziu a hipótese qualificadora do feminicídio, no art. 121, § 2º, inc. VI, consistente na morte dolosa contra mulher por razões da sua condição de sexo feminino. Nestes termos, a Lei n. 13.104 também dispôs da elevação da pena do homicídio qualificado nessas circunstâncias, quando o fato for praticado: 1º durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto; 2º contra mulher menor de quatorze anos, maior de sessenta ou com deficiência; e 3º na presença de descendente ou de ascendente da vítima. Como se pode verificar, cuidar-se-iam de situações nas quais a morte por razões da condição de sexo feminino guardaria maior reprovabilidade. No primeiro caso, justifica-se a majorante em razão do estado gravídico da mulher, bem assim pelo período de amamentação. Na segunda hipótese, ao lado da condição de mulher, haveria uma maior vulnerabilidade em função da idade (menor de quatorze ou maior de sessenta anos de idade) ou de deficiências físicas ou psíquicas. Por fim, a prática do feminicídio na presença de parentes na linha vertical (descendente ou ascendente)164 Em sentido contrário: “(...) se o agente for condenado pela prática do crime de constituição de milícia privada, ainda que tenha cometido um homicídio, não poderá sofrer a majorante por tal crime ter sido praticado por integrante de milícia privada, pois representaria uma dupla punição por um mesmo fundamento. Em outros termos, essa majorante somente pode ser aplicada se o autor do homicídio for reconhecido no julgamento do homicídio como suposto integrante de milícia privada, mas que não tenha sido condenado por esse crime.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 119). 71 evidenciaria inequívoco desvalor da ação, em função do abalo emocional ante a violência de viso. Deve-se atentar, contudo, no tocante à dosimetria da pena, para que não se incorra em indevido bis in idem, na medida em que os dados constantes da majorante ora analisada também podem constituir circunstância judicial ou agravante do crime. 17. Pena e ação penal. Em quaisquer das modalidades do homicídio, a ação penal é pública incondicionada (art. 100, caput, do CP).165 Saliente-se que a denúncia – peça inicial da ação penal pública – deverá ser oferecida “quando contiver suporte probatório mínimo de autoria e de materialidade, a chamada justa causa, além de outros requisitos legais pertinentes (arts. 41 e 395 do CPP, este último com a redação dada pela Lei n. 11.719/08).”166 Caso o Ministério Público não ofereça a denúncia no prazo legal, surge a possibilidade do ofendido, no caso de homicídio tentado, ou de quem tiver qualidade para representá-lo, no caso de crime consumado, oferecer a ação penal privada subsidiária da pública (art. 5º, inc. LIX, da CF/88, e art. 100, § 3º, do CP. O prazo para o oferecimento da denúncia, estando o réu preso, é de 5 (cinco) dias, contado da data em que o órgão do Ministério Público receber os autos do inquérito policial, ou de 15 (quinze) dias, se o réu estiver solto.ou afiançado (art. 46 do CPP). Para o homicídio simples, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 20 (vinte) anos. Para o homicídio qualificado, a pena é de reclusão, entre 12 (doze) e 30 (trinta) anos. Par o homicídio culposo, de detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos. O tipo penal também contempla causas de aumento de pena. Reitere-se que o homicídio qualificado – bem como o homicídio simples, quando praticado em situação de “grupo de extermínio” –, passou a ser considerado “crime hediondo”, nos termos do art. 1º, inc. I, da Lei n. 8.072/90, com a redação dada pela Lei n. 8.930/94. Por conta disso, são insuscetíveis de anistia, graça, indulto e fiança (cf. art. 5º, XLIII, da CF/88; art. 2º, incs. I e II, da Lei n. 8.072/90, com a redação dada pela Lei n. 11.464/07; e art. 323, II, do CPP, com a redação dada pela Lei n. 12.403/11). O regime inicial de cumprimento de pena será o fechado (cf. art. 2º, § 1º, da Lei n. 8.072/90, com a redação dada pela Lei n. 11.464/07). 165 Cf. “Consoante afirmado, ação penal é o meio pelo qual se inicia o processo penal, com o fito de ser aplicada a pena contra determinado infrator. Sob o enfoque penal, tem-se que o magistério punitivo pertence à Sociedade, por intermédio do Estado, uma vez que foram abolidas as formas de vingança privada.” (SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 639). 166 Ibid., p. 641. No particular, sobreleva de importância a feitura do “exame de corpo de delito” ou “exame cadavérico” (autópsia), nos termos dos arts. 162 e segs. do CPP. 72 Cumpre observar que a forma dolosa de homicídio é da competência do Tribunal do Júri – como ocorre com todos os crimes dolosos contra a vida, cf. art. 5º, inc. XXXVIII, alínea “d”, da CF/88. O Tribunal do Júri pode ser da competência da Justiça Estadual ou da Justiça Federal, consoante, no último caso, o disposto no art. 109 da CF/88. O homicídio doloso praticado contra ou por funcionário público federal no exercício de suas funções ou em razão dela atrai a competência do Tribunal do Júri Federal167. A motivação do crime, nesses casos, está associada ao exercício das funções da vítima e/ou do agente. A fixação da competência do Tribunal do Júri Federal decorre da pluriofensidade da conduta do agente. Além de atentar dolosamente contra a vida, a conduta também afeta interesse da União, suas entidades autárquicas ou empresas públicas. O crime doloso contra a vida praticado a bordo de navio ou aeronave civil também atrai a competência da Justiça Federal, a teor do que dispõe o art. 109, IX, da Constituição Federal. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça assentou os requisitos para fixação da competência federal no caso dos navios. A Corte considerou que a prática do delito no interior de embarcação não é suficiente para atrair a incidência do dispositivo constitucional e extraiu da norma dois requisitos para sua aplicação: (i) porte da embarcação e; (ii) situação de deslocamento ou potencial deslocamento internacional. O acórdão de referência foi assim ementado: CONFLITO DE COMPETÊNCIA. DESENVOLVIMENTO CLANDESTINO DE ATIVIDADES DE TELECOMUNICAÇÃO. CRIME COMETIDO A BORDO DE NAVIO ANCORADO NO PORTO DE PARANAGUÁ. SITUAÇÃO DE POTENCIAL DESLOCAMENTO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 1. A Constituição Federal, em seu art. 109, IX, expressamente aponta a competência da Justiça Federal para processar e julgar "os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar". 2. Em razão da imprecisão do termo "navio" utilizado no referido dispositivo constitucional, a doutrina e a jurisprudência construíram o entendimento de que "navio" seria embarcação de grande porte o que, evidentemente, excluiria a competência para processar e julgar crimes cometidos a bordo de outros tipos de embarcações, isto é, aqueles que não tivessem tamanho e autonomia consideráveis que pudessem ser deslocados para águas internacionais. 167 O verbete de súmula nº 147 do Superior Tribunal de Justiça firma-se nesse sentido. Embora não se refira especificamente à competência do Tribunal do Júri, afirma a competência da Justiça Federal nas hipóteses em que o crime está relacionado à atividade profissional do funcionário público. “Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes praticados contra funcionário público, quando relacionados com o exercício da função. 73 3. Restringindo-se ainda mais o alcance do termo "navio", previsto no art. 109, IX, da Constituição, a interpretação que se dá ao referido dispositivo deve agregar outro aspecto, a saber, que ela se encontre em situação de deslocamento internacional ou em situação de potencial deslocamento. 4. Os tripulantes do navio que se beneficiavam da utilização de centrais telefônicas clandestinas, para realizar chamadas internacionais, pertenciam a embarcação que estava em trânsito no Porto de Paranaguá, o que caracteriza, sem dúvida, situação de potencial deslocamento. Assim, a competência, vista sob esse viés, é da Justiça Federal. 5. Conflito conhecido para declarar competente o Juízo Federal e Juizado Especial de Paranaguá - SJ/PR.168 Duas hipóteses podem, ainda, determinar a instituição do Tribunal do Júri Federal: (i) crime doloso contra a vida que envolva disputa sobre direitos indígenas e; (ii) crime doloso contra a vida praticado no contexto de grave violação de direitos humanos.169 No caso das questões indígenas é imprescindível que os interesses em disputa transcendam os limites individuais e afetem a toda a comunidade. O vetor de análise será o princípio da preponderância de interesse, conforme os parâmetros do art. 231 da CF. O processamento e julgamento de crimes praticados por índios e contra índios é, como regra, de competência da Justiça Estadual, a teor do que dispõe a súmula 140 do SuperiorTribunal de Justiça: “Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que o indígena figure como autor ou vítima”. A questão foi enfrentada de forma paradigmática por ocasião do julgamento do conhecido caso de homicídio do índio pataxó Galdino de Jesus dos Santos queimado enquanto dormia nas ruas da Capital Federal. Naquela oportunidade o Supremo Tribunal Federal excluiu a competência federal por se cuidar de delito isolado, sem envolvimento com a comunidade indígena. Aplicou-se, assim, interpretação restritiva ao dispositivo nos seguintes termos: COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA LOCAL PARA PROCESSAR E JULGAR CRIME DE HOMICÍDIO COMETIDO CONTRA INDÍGENA, DETERMINADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA AO JULGAR CONFLITO DE COMPETÊNCIA. ALEGAÇÃO DE COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 1. O inciso IV do art. 109 da Constituição, ao atribuir competência à Justiça Federal para processar e julgar as infrações penais praticadas em detrimento 168 STJ. CC 118503. 3ª Seção. Ministro Rogério Schietti Cruz. Pub. DJ de 28.4.15. 169 Art .109, XI e § 5º da CF. 74 de interesse da União, não tem a extensão pretendida pelos impetrantes, até porque no cenário desta singular amplitude seria muito difícil excluir alguma infração penal que não fosse praticada em detrimento dos interesses diretos ou indiretos da União. 2. O inciso XI do mesmo artigo confere competência à Justiça Federal para processar e julgar a disputa sobre direitos indígenas, os quais são aqueles indicados no art. 231 da Constituição, abrangendo os elementos da cultura e os direitos sobre terras, não alcançando delitos isolados praticados sem qualquer envolvimento com a comunidade indígena. 3. Habeas-corpus conhecido, mas indeferido.170 Contudo, como exposto, em se verificando a presença de interesses da comunidade indígena, a solução é diametralmente oposta. O Superior Tribunal de Justiça teve oportunidade de se manifestar sobre a questão em processo envolvendo tentativa de homicídio imputada a indígena, que teria sido motivada por disputas relacionadas à exploração de garimpo na reserva. Na ocasião, o Tribunal assim se pronunciou: CONFLITO DE COMPETÊNCIA. PROCESSUAL PENAL. TENTATIVA DE HOMICÍDIO PRATICADO POR INDÍGENA. MOTIVAÇÃO. EXPLORAÇÃO DE GARIMPOS EM RESERVA INDÍGENA. HIPÓTESE DO ART. 109, XI DA CF. SÚMULA 140/STJ. INAPLICABILIDADE. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 1. Nos termos do enunciado n° 140/STJ, a mera participação de indígena em crime é insuficiente para atrair a competência da Justiça Federal. 2. Na espécie, entretanto, a tentativa de homicídio praticada por silvícola contra advogado teve como motivação conflitos ligados à exploração de garimpos no interior de reserva indígena, o que caracteriza a hipótese do art. 109, XI, da Constituição da República. 3. Conflito conhecido para declarar a competência da Justiça Federal, o suscitado, determinando-se a remessa do feito ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região a fim de prosseguir no julgamento do recurso em sentido estrito.171 O incidente de deslocamento de competência por grave violação de direitos humanos, por seu turno, foi introduzido pela Emenda Constitucional nº 45/04. O Procurador-Geral da República, com o fim de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos, pode requerer ao Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do processamento, o deslocamento do feito para a Justiça Federal. 170 STF. HC 75404. 2ª T. Ministro Maurício Corrêa. Pub. DJ de 27.4.01. 171 STJ. CC 99406. 3ª Seção. Ministro Jorge Mussi. Pub. DJ de 20.10.10. 75 A esse propósito, merece registro que o Brasil tem sido levado a responder perante o sistema interamericano de direitos humanos por falhas e insuficiência na investigação e aplicação da lei penal.172 Não se cuida aqui de estabelecer grau de eficiência ou hierarquia entre os ramos do Poder Judiciário, porém é preciso reconhecer que o instrumento processual de que se trata pode ser um importante mecanismo de efetividade disponível aos operadores. Todas as ferramentas possíveis para a punição de graves violações de direitos humanos devem ser, nesse sentido, valorizadas. No primeiro incidente examinado após a vigência da Emenda Constitucional, o Superior Tribunal de Justiça estabeleceu os requisitos para a procedência do requerimento. Além da grave violação de direitos humanos e da necessidade de assegurar os compromissos internacionais assumidos pelo país, a Corte considerou ser indispensável que esteja presente a incapacidade ou ineficácia do sistema de justiça local para levar a cabo a persecução penal. Essa incapacidade pode ser oriunda da inércia, omissão, falta de vontade política ou mesmo condições materiais para esse fim. A ineficiência (ausência de resultados úteis) por si só, não seria suficiente para permitir a excepcionalidade da medida173. A Corte admitiu o incidente na hipótese de homicídio praticado no contexto de grupo de extermínio174 e mais recentemente, em decisão monocrática, foi admitido o processamento do incidente para definir eventual deslocamento de competência para processo e julgamento da chamada Chacina do Cabula, que resultou na morte de 12 (doze) pessoas entre 15 e 28 anos e em 6 (seis) feridos, praticada, em tese, por membros da Policia Militar do Estado da Bahia.175 18. Questões de concurso público. 1ª Questão do XXXII Concurso de ingresso na classe inicial da Carreira do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, ocorrido em 2011: Ao sair de uma boate de madrugada andando por uma rua deserta e mal iluminada, Vespúcio viu cruzar a esquina e caminhar em sua direção Caio, antigo desafeto e autor de inúmeras ameaças pretéritas de morte. Tão logo avistou Vespúcio, Caio colocou a mão direita dentro de seu paletó com um sorriso nos lábios. Apavorado e supondo estar na iminência de ser 172 Confira-se a propósito os casos relacionados ao Brasil e submetidos perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Disponível em . Acesso em 19.10.16. 173 STJ. IDC 1. 3ª Seção. Ministro Arnaldo Esteves Lima. Pub. 10.10.05. 174 STJ. IDC 5. 3ª Seção. Ministro Rogério Schietti Cruz. Pub. 01.08.14. 175 ST. IDC 10. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca. Pub 25.08.2016. http://www.corteidh.or.cr/cf/Jurisprudencia2/ficha_tecnica.cfm?nId_Ficha=277&lang=es 76 mortalmente agredido, Vespúcio sacou seu revolver cal. 38, do qual tinha regular registro e autorização para porte, com o qual efetuou um único disparo contra seu desafeto, atingindo-o na coxa direita e fazendo-o tombar ao solo. Após o disparo, Vespúcio aproximou-se de Caio e constatou que, na verdade, seu declarado inimigo estava desarmado e que o objeto que pretendia tirar do bolso de seu paletó era um lenço branco, destinado a selar simbolicamente a paz entre os dois, conforme lhe foi dito pelo próprio ferido. Nada obstante a essa surpreendente constatação e à revelia das súplicas de Caio por socorro, Vespúcio, dominado pelo rancor acumulado durante os longos anos de rivalidade, resolve abandoná-lo à própria sorte, deixando o local, embora fosse perfeitamente possível prestar-lhe assistência ou, no mínimo, solicitar socorro pelo telefone celular que portava. Sem qualquer assistência médica, Caio agonizou na rua deserta, vindo a falecer em consequência de grave hemorragia, por ruptura da artéria femoral. Quais serão as consequências jurídico-penais para Vespúcio, decorrentes do episódio narrado? Resposta objetivamente justificada. Resposta: A questão toca em tema controvertido no âmbito dos crimes omissivos, o da possibilidade de responsabilização penal pela omissãoe, caso positivo, a qual título, diante de uma descriminante putativa. Preliminarmente, é necessário que se retorne à controvérsia sobre a natureza do erro sobre pressupostos fáticos da causa de justificação, se erro de tipo ou se erro de proibição. Entendido que a situação configura um erro de tipo permissivo, posição de Assis Toledo e que consta da Exposição de Motivos da Reforma da Parte Geral de 1984, na linha da teoria limitada da culpabilidade, não haveria nem dolo e muito menos culpa, pois o contexto de inúmeras ameaças de morte indica que não era previsível ao agente que não fosse ser morto. Seguindo-se a posição de Heleno Fragoso, na linha da teoria extremada da culpabilidade, ter-se-ia um erro de proibição, logo, excluída a culpabilidade, ou seja, presente um fato típico e ilícito. Independentemente da corrente seguida a solução será a mesma, ainda que com breve fundamentação legal diferente. Como se sabe o homicídio é um delito de ação livre, isto é, pode ser cometido por qualquer meio, inclusive, por omissão. No caso apresentado não se pode imputar a prática de um homicídio doloso por ação na medida em que não houve ação, mas omissão. Assim, o descumprimento da norma esculpida no art. 135 CP foi o móvel para a prática do homicídio. Ocorre que, como é intuitivo, o dolo do agente não foi o de deixar de prestar socorro, mas de matar. Assim a norma que embute o dever de agir (art. 135 CP) passa a servir de fundamento para a responsabilização de Vespúcio por omissão com base no art. 13 § 2º "a" do CP, não respondendo o agente por omissão de socorro, mas por homicídio doloso consumado por omissão imprópria (art. 121 c/c art. 13 §2º "a" c/c art. 135 CP). Ressalte-se que 77 este não é o gabarito oficial, mas tão somente uma análise da questão conforme a orientação abordada neste livro. 2º Questão do Concurso Público de ingresso na Carreira de Juiz de Direito do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ocorrido em 2007: Fulgêncio, com animus necandi, coloca na xícara de chá servida a Arnaldo certa dose de veneno. Batista, igualmente interessado na morte de Arnaldo, desconhecendo a ação de Fulgêncio, também coloca uma dose de veneno na mesma xícara. Arnaldo vem a falecer pelo efeito combinado das duas doses de veneno ingeridas, pois cada uma delas, isoladamente, seria insuficiente para produzir a morte, segundo a conclusão da perícia. Fulgêncio e Batista agiram individualmente, cada um desconhecendo o plano, a intenção e a conduta do outro. Pergunta-se: a) Fulgêncio e Batista respondem por tentativa de homicídio doloso qualificado. b) Fulgêncio e Batista respondem, cada um, por homicídio culposo. c) Fulgêncio e Batista respondem por lesão corporal, seguida de morte. d) Fulgêncio e Batista respondem, como co-autores, por homicídio doloso, qualificado, consumado. Resposta: A alternativa correta é a letra “A”. 79 Capítulo Segundo Da Participação em suicídio Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio Art. 122 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça: Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave. Parágrafo único - A pena é duplicada: Aumento de pena I - se o crime é praticado por motivo egoístico; II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. 1. Introdução. A palavra suicídio – etimologicamente, sui (si mesmo) e caedes (ação de matar) – teria sido utilizada pela primeira vez por Desfontaines, em 1737, com o significado de morte intencional autoinflingida, isto é, quando a pessoa, por desejo de escapar de uma situação de sofrimento intenso, decide tirar sua própria vida.176 Suicídio é a supressão voluntária e consciente da própria vida. Compõe- se da vontade que a pessoa tem de se matar e da prática de certos atos por parte desta pessoa. O fato de uma pessoa se matar é um indiferente legal. Não sendo incriminada a ação de matar-se ou a tentativa de suicídio, a participação em tais atos não poderia – ou não deveria – ser punível, pois não há participação punível senão em fato delituoso. Todavia, as legislações modernas, atendendo ao valor excepcional da vida humana, passaram a prever uma figura sui generis, que é a participação no suicídio de outra pessoa. Ao reverso, maioria das legislações não pune a 176 ABC da Saúde. In , acessado dezembro 2015. Segundo, ainda, esse mesmo texto: “Nos EUA, se estima que a cada ano ocorram 30.000 mortes decorrentes de suicídio, sendo que as tentativas de suicídio que não terminaram em mortes são estimadas em 8 a 10 vezes esse número. Atualmente, o suicídio ocupa a 8ª posição entre as causas gerais de morte nos EUA, depois de problemas do coração, câncer, derrame, acidentes, pneumonia, diabetes e cirrose. (Ibid.). 80 tentativa de suicídio, que é, entretanto, considerada como fato ilícito por atingir um bem jurídico indisponível, e por não ser o exercício de nenhum direito subjetivo, permitindo-se a coação para impedi-lo (cf. art. 146, § 3º, inc. II). O bem jurídico tutelado, tal como no artigo precedente, é a vida humana extrauterina. Entretanto, para que o fato da participação em suicídio venha a se tipificar, é necessário que o bem jurídico venha a ser atingido (morte) ou que ocorra lesão corporal de natureza grave à integridade física da vítima. Em uma palavra, preserva-se a vida humana, por se tratar de bem indisponível. Sob outra vertente, um dos indicadores do risco da prática de suicídio é o registro de tentativas frustradas anteriores. Diante dessa constatação empírica, tem-se como político-criminalmente inconveniente a imposição de sanção àquele que não conseguiu se matar, na medida em que isto operaria como um fator “instigador” ao agente reiterar na conduta, dessa vez com sucesso.177 Ainda sob a perspectiva prática, constata-se que certos fatores – como o gênero –, que influenciariam as taxas de suicídio. Nesse sentido, tem-se que as mulheres, via de rega, tentam o suicídio pelo menos quatro vezes mais que homens. Estes, por sua vez, morrem três vezes mais que as mulheres. Pode parecer contraditório, mas a explicação residiria nos métodos utilizados para a consecução do ato. Em geral, os homens costumam utilizar formas mais agressivas do que as mulheres, como armas de fogo ou lançar-se nos trilhos de um trem, ao passo que as mulheres geralmente se valem de atos menos agressivos, tais como o uso de grande quantidade de medicamento ou veneno.178 As variáveis idade e doença preexistente também interfeririam nos dados de suicídio. Com efeito, a maioria dos casos registrados ocorre na faixa dos 15 aos 44 anos. Doenças, tais como câncer, epilepsia, AIDS, alcoolismo, drogadição, depressão e esquizofrenia, dentre outras, estariam igualmente relacionadas ao fenômeno do suicídio.179 A propósito, em seu conhecido estudo sobre a matéria, Emile Durkheim sustenta que o suicídio seria resultante de distúrbios entre o indivíduo e a sociedade. Segundo o autor, 177 Até mesmo eventual previsão de punição pecuniária, confisco de bens ou vedação de enterro ou cerimônia fúnebre cristã – sanções cominadas no passado – só traria efeitos negativos para os familiares do de cujus, em franca violação ao princípio da personalidade das penas. 178 ABC da Saúde. Op. cit, p. 2. 179 Ibid. Além disso, uma pessoa que já tentou cometer o suicídio anteriormente tem maior risco de cometê-lo. 81 quanto mais fortemente esteja o indivíduo integrado no grupo social, menor será a probabilidade de suicídio.180 Cumpre, ainda, observar, que a participação em suicídio deve ser dolosae deve ser prestada em etapa de preparação do ato suicida. Isso porque, o agente responderá por homicídio no caso em que praticar atos de execução, tais como ajudar a dar um tiro, acabar de enterrar a faca, abrir a torneira de gás enquanto o suicida fecha as janelas. Para Nélson Hungria, suicídio é a eliminação voluntária e direta da própria vida. Segundo ele, para que haja o suicídio, é imprescindível a intenção positiva de “despedir-se da vida”, tratando-se elemento subjetivo inequívoco, não se confundindo, pois, com situações de “falso suicídio”, geralmente praticado para “chamar a atenção” de alguém próximo ou familiar.181 Registre-se que o suicídio não se confunde com o ato do herói que, na defesa de um ideal ou para salvaguardar determinado bem jurídico, se lança a um perigo certo e vem a ser sacrificado. Na verdade, o suicídio é um fim em si mesmo – o suicida mata-se porque não quer viver, não para salvar a vida alheia.182 Em razão disso, não há confundir-se suicídio – ato ilícito que é – com situações em que o Código Penal exige do sujeito o dever de enfrentar o perigo nos casos em que, com o comportamento anterior, o agente tenha criado o risco da ocorrência de resultado lesivo (ingerência) ou casos em que o agente, por força de comando legal, não possa alegar em seu favor o estado de necessidade (art. 24, § 1º). Em ambos os casos, o dever de enfrentar o perigo não é absoluto. 2. Indicadores de risco de suicídio. Conquanto seja algo que, na generalidade dos casos não possa ser previsto, a literatura médica aponta alguns sinais indicadores do risco de alguém perpetrar suicídio: a) existência de tentativa anterior ou fantasias de suicídio; b) disponibilidade de meios para o suicídio; c) ideias de suicídio abertamente faladas; d) preparação de um testamento; e) luto pela perda de alguém próximo; f) histórico de suicídios na família; e g) depressão, pessimismo ou falta de esperanças na vida.183 Diante de tais fatores, o Direito exige daqueles que se encontrem numa relação especial de proteção ou vigilância para com a pessoa do potencial suicida a adoção de comportamento comissivo no sentido de obstar 180 DURKEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. Trad. Monica Stabel. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 181 HUNGRIA, Nélson. Op. Cit., p. 231 182 Ibid. 183 ABC da Saúde. Op. Cit., p. 2. 82 situações crítica para a prática do ato extremo, encaminhando-a, inclusive, para uma avaliação psiquiátrica até mesmo em emergências de hospitais públicos ou particulares, de molde a que, com o quadro devidamente avaliado, possa ser destinado um tratamento – internação ou ambulatorial – que venha a minimizar o citado risco de morte autoinfligida. 3. Sujeito ativo. Sujeito ativo da participação em suicídio é qualquer pessoa capaz de induzir, instigar ou auxiliar alguém a se suicidar. O agente praticaria uma “forma especial” de homicídio, na medida em que concorre àquele ato com dolo de matar. O que singulariza este delito é o fato de que, conforme adiantado, não há conduta executiva da morte alheia. A propósito, cumpre não confundir participação em suicídio, enquanto tipo penal autônomo, com as hipóteses de participação em sentido estrito, contempladas no art. 29, caput, e §§, do CP. Em suma, qualquer pessoa – excluindo-se aquele que se suicida ou que tenta se matar – pode responder pelo crime em questão. 4. Sujeito passivo. O sujeito passivo da participação em suicídio é qualquer pessoa capaz de ser instigada, induzida ou auxiliada a este ato. Pressupõe-se, para figurar como sujeito passivo, que o indivíduo possua capacidade de discernimento e de compreensão do ato extremo. Nesse sentido, cuidando-se de inimputável, de pessoa de tenra idade ou pessoa sem capacidade circunstancial de discernimento, não haverá esse crime, mas, sim, o de homicídio por autoria mediata. Conforme lecionado por Damásio de Jesus, tratando-se de alienado mental ou de criança, a ausência de vontade válida faz com que inexista o delito privilegiado, cuidando-se de homicídio (autoria mediata).184 Por outro lado, se a vítima é forçada, por coação física ou moral, de maneira irresistível, a atentar contra a própria vida – como no célebre Julgamento de Sócrates, que fora compelido a beber um cálice de cicuta –, também ficará descaracterizada a participação em suicídio. Observe-se, porém, que se a coação for resistível, não ficará afastada a incidência do tipo do art. 122, do CP. Caso se trate de vítima com capacidade de compreensão ou de resistência diminuída, haverá o delito de participação em suicídio, incidindo, 184 Id., ibid. 83 ainda, a causa especial de aumento de pena regulado no inciso II, do parágrafo único, do art. 122, do CP. Um aspecto importante acerca do sujeito passivo é a exigência de que se trate de pessoa determinada. Não haverá o delito quando a de indução ou instigação for de caráter geral e indeterminado, conforme ocorre em obras literárias, tais como o romance Werther, de Goethe, que gerou uma onda de suicídios quando da sua publicação (1774), tendo sido, na ocasião, sua vendagem proibida na cidade de Leipzig/Alemanha. No mesmo sentido, – isto é, ante a exigência do sujeito passivo ser pessoa determinada, não configura a participação em suicídio na difusão, em redes sociais, tais como Facebook, ou quaisquer outros meios de divulgação, da apologia ao suicídio, ainda que com “instruções” de técnicas “eficazes” para o autoextermínio. 5. Tipo objetivo. A conduta é induzir, instigar ou auxiliar alguém a suicidar-se. Na Parte Geral do Código, a participação possui natureza de norma de extensão ou de adequação típica indireta, prevista no art. 29, do CP. No crime sob consideração, a participação em suicídio cuida-se de forma direta de tipificação delitiva.185 A propósito, cabe indagar: pode haver participação em participação em suicídio? A resposta é, sim, positiva. É o que ocorre p. ex., no caso de “A” instigar “B” a auxiliar “C” a atentar contra a própria vida. É, igualmente, cabível a participação de menor importância e a cooperação dolosamente distinta no crime de participação em suicídio, conforme os respectivos institutos analisados no concurso de pessoas (art. 29, §§ 1º e 2º, do CP). A norma penal do art. 122, do CP, contém três verbos, quais sejam: (1) induzir, (2) instigar e (3) prestar auxílio ao suicídio. Com relação aos dois primeiros, tem-se que induzir é fazer surgir a ideia delitiva até então inexistente, ao passo que instigar é animar, reforçar, estimular uma ideia preexistente.186 Nesse sentido, o seguinte arresto: “[o] induzimento do suicídio significa a persuasão, incutir no espírito de outrem o desígnio de eliminar voluntariamente a própria vida. A instigação, porém, é de caráter dinâmico traduzindo um acoroçoamento ao ato de dar-se alguém a morte”.187 Nélson Hungria define o induzir como o “persuadir ou levar alguém a algo”, o que pressupõe uma participação na formação da vontade do 185 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; Japiassú, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 370-371. 186 Ibid., p. 371. 187 TJSP. HC. Rel. Adriano Marrey. In RJTJSP 11/408. 84 indivíduo. Para aquele autor, instigar, por sua vez, tem caráter secundário; estimula-se uma ideia pré-concebida.188 O tipo menciona, ainda, o prestar auxílio, que significa prestar assistência material, facilitando a execução de um ato. De certa forma, ao contribuir materialmente para a conduta, o autor reforça o propósito moral do suicida, muito embora a recíproca não seja necessariamente verdadeira, ou seja, “pode-se participar moralmente sem auxiliar materialmente o executor. Por óbvio, nada impede que ocorramtodas as vertentes da participação no mesmo caso concreto.”189 5.1. Participação indireta ou mediante omissão em suicídio. Trata-se de questão polêmica, em particular com relação às condutas de induzir e prestar auxílio, que denotariam atividade comissiva – enquanto que o instigar pode, em tese, ocorrer tanto ação como por omissão. Na doutrina brasileira, preponderam duas correntes, sendo que a primeira não admite a forma omissiva, uma vez que a expressão induzir ou prestar auxílio denotaria um ato comissivo, sendo impossível a prestação de ajuda por inação. Filiam- se a este entendimento os doutrinadores Frederico Marques, Bento de Farias, Roberto Lyra e Damásio de Jesus. A propósito, este último assinala: “Mesmo que o sujeito tenha o dever jurídico de impedir a morte, não existe delito de participação em suicídio por atipicidade do fato, podendo haver omissão de socorro (CP, art. 135)”.190 Em sentido inverso, há doutrinadores que consideram cabível o induzimento ou a prestação de auxílio mediante omissão, quando o agente ostentar a posição de garantidor, nos termos do art. 13, § 2º, do CP. Nélson Hungria, Magalhães Noronha, Julio Mirabete, Cezar Bitencourt, Guilherme de Souza Nucci e Luiz Regis Prado filiam-se a esta segunda corrente. Conforme expresso pelo último autor: “Em verdade, o auxílio a suicídio por omissão é, em tese, admitido, se o omitente ocupa posição de garante. Entretanto, esta não existe ou desaparece a partir do momento em que o suicida recusa a ajuda para impedir o ato suicida ou manifesta sua vontade nesse sentido.”191 Por sua vez, Nélson Hungria observa que o prestar auxílio pode se dar por conduta comissiva ou omissiva, sendo que, para a imputação por omissão, exige-se que o agente se coloque na posição de garantidor, ou seja, 188 HUNGRIA, Nélson. Código Penal Comentado. Op. Cit., p. 232. 189 SOUZA, Artur de Brito Gueiros; Japiassú, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 372. 190 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 98. No mesmo sentido: “Não há auxilio por omissão. Prestar auxílio é sempre conduta comissiva. A expressão usada no núcleo do tipo (prestar-lhe auxílio para que o faça) do art. 122, do CP, impede a admissão do auxílio omissivo.” (TJSP. In RT 491/285). 191 PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 651. 85 que haja um dever jurídico de impedir o suicídio. 192 O autor exemplifica com a hipótese de um pai que, propositalmente, deixa que o filho menor, acusado de fato desonroso, ponha termo à vida. Outro exemplo seria o do diretor de estabelecimento prisional que, deliberadamente, não impede que o prisioneiro morra pela greve de fome, deixando-o de encaminhar ao nosocômio adequado.193 Na opinião de Hungria, não só o auxílio, mas, igualmente, o induzimento ao suicídio pode ocorrer, como nos casos de maus-tratos reiteradamente infligidos, fazendo com que a vítima se mate por desespero. Pressupõe-se, é claro, a existência de dolo direto ou eventual.194 Não obstante a posição de Hungria e outros, o Supremo Tribunal Federal já teve oportunidade de decidir de forma contrária a admissibilidade da participação indireta ou mediante omissão em suicídio. Com efeito, por ocasião do julgamento de habeas corpus interposto contra decisão que pronunciara um acusado de participação em suicídio, acusado este que, reiteradamente, praticava maus-tratos contra a própria esposa que findou se suicidando, decidiu-se pela atipicidade da forma omissiva, em uma interpretação restritiva do CP e à luz da classificação normativa de provocação direta e provocação indireta do suicídio, constante tanto do Código Penal Militar como do CP/1969.195 Verbis: SENTENÇA DE PRONÚNCIA. (...) SUICÍDIO. TIPICIDADE. ELEMENTO SUBJETIVO. O tipo do artigo 122 do Código Penal deve estar configurado em uma das três formas previstas na norma – o induzimento, a instigação ou o auxílio ao suicídio, exsurgindo daí o dolo específico. SUICÍDIO. MAUS TRATOS. LESÕES CORPORAIS. Em toda ciência, e o Direito o é, os vocábulos, as expressões e os institutos têm sentido próprio, cumprindo àqueles que deles se utilizam o apego à maior tecnicidade possível. Ao 192 HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 232 193 Relativamente a hipótese de um suicídio havido em ume estabelecimento prisional, vide o seguinte arresto: “Segundo narra a denúncia, o preso que veio a falecer estava sob a tutela do Estado, já que se encontrava provisoriamente preso na cela da polícia federal. Seguindo essa linha de raciocínio, iremos chegar o ponto da responsabilidade estatal. Se o preso estava custodiado pelo Estado, cabia ao Estado garantir-lhe integridade tanto física como mental. A conduta praticada, em tese, pelo acusado Francisco Soares Padilha Neto, instigando a vítima Domingos Sávio Mota Cabral ao suicídio, têm como liame a participação do interesse da União Federal, já que a competência a ser atribuída não se dá em razão do delito em si, mas sim, em decorrência dos prejuízos por ele cometido a bens, serviços ou interesses da União (enforcamento nas dependências da polícia federal).” (STJ. REC 546/RN RELATOR: Des. PAULO GADELHA). 194 HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 234. Cezar Bitencourt sustenta, igualmente, que a forma omissiva de auxílio a suicídio ocorre nos casos em que exista o dever jurídico de agir para impedir o suicídio, salientando, ainda, ser equivocada a corrente contrária, pois “deixar de impedir a ocorrência de um evento que se tem o dever jurídico de evitar é, com certeza, uma forma de prestar auxílio.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 414). 195 Cf. o Código Penal Militar: “Provocação direta ou auxílio a suicídio. Art. 207. Instigar ou induzir alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça, vindo o suicídio a consumar-se. Pena: reclusão, de dois a seis anos. Provocação indireta do suicídio. § 2º Com a detenção de um a três anos, será punido quem, desumana e reiteradamente, inflige maus-tratos a alguém, sob sua autoridade ou dependência, levando-o, em razão disso, à prática do suicídio.” O artigo 123 e seu § 2º, do Código de 1969 continham igual redação típica. 86 contrário do que preceituado no artigo 207, § 2º, do Código Penal Militar, o Diploma Penal Comum não contempla como tipo penal a provocação indireta ao suicídio, de resto cogitada no § 2º do artigo 123 do que seria o Código Penal de 1969, cuja vigência, fixada para 1º de agosto de 1970, jamais ocorreu.196 Em que pese o citado precedente da Corte Suprema, tem-se como mais correta a posição doutrinária favorável a admissibilidade da participação indireta ou por omissão em suicídio, considerando a adoção, pelo art. 13, § 2º, do CP, de hipóteses de posição de garante. O fato de o CP/1969, que jamais entrou em vigor, bem assim o Código Penal Militar terem, expressamente, feito menção a figura normativa da participação indireta em suicídio, não infirma, à luz do vigente Código Penal, a possibilidade dogmática daqueles que se encontram em uma posição especial de vigilância ou garante – o marido com relação a esposa, o pai com relação ao filho, o diretor do estabelecimento prisional com relação ao preso, aquele que, com seu comportamento anterior de maus-tratos, criou o risco de lesão ao bem jurídico etc. –, responderem indiretamente ou mediante omissão pelo crime sob consideração. Corroborando este entendimento, reitere-se os indicadores do risco de suicídio, acima assinalados que, quando presentes, exigem daquele que se encontre na posição de garantidor, cuidados especiais para com a pessoa da vítima. 5.2. Participação em roleta-russa. Na chamada roleta-russa, ou seja, espécie de duelo em que os contendores disparam, de forma aleatória, contra a própria cabeça, rodando uma bala no tambor do revólver, entende-seCP), e aborto (arts. 124 a 128, do CP). Além deles, cabe mencionar o crime de genocídio, que se encontra tipificado no art. 1° da Lei 2.889/56, bem como no art. 6° do Estatuto do Tribunal Penal Internacional.1 1 Promulgado, no Brasil, pelo Decreto Federal n° 4.388/2002. Veja que o TRF1 entende que a competência para processar e julgar acusados da prática do crime de genocídio contra etnia indígena, quando não houver denúncia também pela prática do crime de homicídio, é do juízo federal singular, e não do Tribunal do Júri Federal, porquanto o objeto jurídico tutelado nesse delito não é a vida em si mesma, mas, sim, a sobrevivência, no todo ou em parte, de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. (TRF1, ACR 1997.01.00.017140-0, JUIZ TOURINHO NETO, 3ª TURMA, e-DJF1 DATA:11/09/2009 PAGINA:256). 14 Com relação ao crime de homicídio, registra-se que ele encontra-se igualmente cominado no Código Penal Militar (Decreto-lei n° 1.001/1969), quando praticado por “militar contra militar”. Caso se trate de crime doloso, praticado por militar contra a vida de civil, aplica-se o Código Penal, consoante os termos do art. 9°, parágrafo único, do CPM, com a redação atualizada pela Lei n° 12.432/2011.2 A seu turno, o art. 29 da Lei nº 7.170/1983 (Lei de Segurança Nacional), criminaliza o homicídio de determinadas pessoas (Presidente da República, do Senado Federal, da Câmara dos Deputados ou do Supremo Tribunal Federal), desde que tal fato seja motivado por razões políticas e objetivem lesar ou expor a perigo a integridade territorial ou a soberania nacional; o regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito; ou a pessoa dos chefes dos Poderes da União, consoante os arts. 1º e 2º, da mencionada Lei n. 7.170/1983. 2. Bem jurídico tutelado nos crimes contra a vida. Uma palavra deve ser dita sobre o bem jurídico tutelado pelos crimes em questão. Com efeito, o bem jurídico imediatamente protegido nos crimes contidos no Capítulo I, do Título I, da Parte Especial, do Código Penal, é a vida humana. Nesse sentido, para a lei penal, a destruição da vida de um ser humano pode estar tutelada imediatamente, como nos crimes dos arts. 121 a 128, do CP, ou mediatamente, como ocorrem com as formas qualificadas presentes em outros tipos penais, tanto no Código Penal como na legislação penal especial. É isso que se verifica, por exemplo, com a previsão da lesão corporal seguida de morte (art. 129, § 3º, do CP), bem como o roubo seguido de morte (art. 157, § 3º, 2ª parte, do CP), o estupro seguido de morte (art. 213, § 2º, do CP), dentre outros delitos. Nestes casos, está-se diante de figuras preterdolosas, decorrendo, o evento morte, de culpa em sentido estrito. A propósito, observa Nélson Hungria que o rigor do Código foi ao ponto de não incluir, no setor dos crimes contra a vida, a mencionada lesão corporal seguida de morte, deixando, assim, de seguir o exemplo contrário de outros Códigos, entre os quais o Código Penal argentino.3 2 Esta Lei excepciona a hipótese da eliminação da vida humana realizada nos termos do art. 303, da Lei n. 7.565/86 (Código Brasileiro de Aeronáutica), vale dizer, o chamado “abate de aeronave” classificada como “hostil” pelas autoridades brasileiras. Sobre o assunto, vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Curso de Direito Penal. Parte Geral. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 263. 3 HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal. Vol. V. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1958, p. 21. 15 Protege-se, pois, o direito de viver, pressuposto lógico do exercício de todos os demais direitos contemplados no ordenamento jurídico. Conforme dito por Hungria, o primeiro dos bens é o bem da vida.4 Não há que olvidar, contudo, que o direito a vida tem base constitucional e mesmo supraconstitucional. No âmbito constitucional, o Preâmbulo da Constituição Federal (CF) de 1988 afirma que o Estado Democrático destina-se a assegurar o exercício dos direitos individuais e sociais, dentre outros valores. O art. 1º, inc. III, do mesmo diploma alude à dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. O art. 5º, caput, da CF, ao tratar dos direitos e garantias fundamentais, assegura, em primeiro plano, o direito à vida. Inúmeros outros princípios e regras constitucionais efetuam ou buscam efetivar o exercício daquele direito, como, v.g., a garantia do direito à saúde, à previdência e assistência social etc. Diante disso, tendo como premissa a necessidade de se interpretar o Código Penal à luz do texto constitucional, entende-se que as questões tratadas no Capítulo I – notadamente, as controvérsias abaixo consideradas – exigem do intérprete a consciência da dimensão supralegal do bem jurídico objeto de estudo. Em síntese, como dito, os crimes contra a vida são o homicídio, a participação em suicídio, o infanticídio e o aborto. Todos são punidos a título de dolo direto ou eventual. A única hipótese legal da modalidade culposa está no crime de homicídio. Por fim, a única figura preterdolosa ocorre no crime de aborto. 4 Ibid., p. 27. 17 Capítulo Primeiro Do Homicídio Homicídio simples Art. 121. Matar alguem: Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Caso de diminuição de pena § 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. Homicídio qualificado § 2° Se o homicídio é cometido: I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe; II - por motivo fútil; III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum; IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido; V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime: Pena - reclusão, de doze a trinta anos. Feminicídio (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) VI - contra a mulher por razões da condição de sexo feminino: (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) VII - contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição: (Incluído pela Lei nº 13.142, de 2015) Pena - reclusão, de doze a trinta anos. § 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) I - violência doméstica e familiar; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) Homicídio culposo § 3º Se o homicídio é culposo: Pena - detenção, de um a três anos. Aumento de pena § 4o No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 (um terço), se o crime resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir as consequências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) se o crime é http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art142 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art144que o sobrevivente responderá pelo delito de participação em suicídio. Neste sentido, cite-se acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de onde se extrai o entendimento de que, no caso de roleta-russa, há a configuração, ao menos em tese, do crime em questão. Verbis: “há fortes indícios da autoria e do crime, principalmente pelo laudo de exame de arma de fogo e pelo auto de exame cadavérico, bem como pelos depoimentos prestados, (...) que indicam que o recorrente e a vítima estariam praticando roleta russa”.197 5.3. Homicídio consentido ou homicídio a pedido 196 STF. HC 2049. 2ª T. Ministro Marco Aurélio. Pub. DJ de 18.5.01. 197 TJRJ. REC. nº 0021366.90.2006.8.19.0031. Relatora Des. Nilza Bitar. 87 É certo que apesar da proximidade existente entre participação em suicídio e homicídio consentido – ou homicídio a pedido –, o que singulariza o tipo em comento é que a própria vítima deve praticar o ato destrutivo da sua vida. Numa palavra, exige-se que ela execute o ato, sendo certo que, este ato há de acarretar a sua morte ou, alternativamente, lesão corporal de natureza grave. Se o ato executório for praticado, não pelo suicida, mas pelo agente – do “participante” do suicídio –, ainda que com o consentimento ou a pedido daquele, o crime será de homicídio. Enfatize-se que haverá o crime de homicídio quando o agente pratica ou colabore diretamente no ato executivo do suicídio. Dito por outras palavras é homicida quem puxa a corda ou empurra o banquinho onde o enforcado se equilibra. Também será homicida aquele que abre a torneira de emissão de gás, no compartimento onde a vítima se dispõe a morrer, ou dá a carga final de injeção de morfina na corrente sanguínea, em razão do desmaio daquele que tencionava se matar. É importante frisar essa distinção no momento de solucionar casos concretos que venham a surgir. Isto porque não se pode, de forma apriorística, imputar ao agente o cometimento de homicídio ou participação em suicídio em um determinado fato sem antes averiguar a perpetração, isolada ou em coautoria, de atos de execução do verbo matar. Em síntese, o ato material – o verbo matar – deve ser integralmente praticado pela própria vítima. O homicídio constitui-se, pois, norma especial que afasta o tipo do art. 122, em um hipotético conflito aparente de normas. 5.4. Pacto de morte ou suicídio coletivo. Cuida-se de hipótese na qual duas ou mais pessoas decidem fazer um pacto de morte. Quando isto ocorre, presume-se que os pactuantes estão se induzindo e instigando mutuamente: nenhum deles praticaria o ato de execução em relação a outro, ou, de forma ilustrativa, cada um ingere o seu próprio veneno. Aquele que teve a ideia é o induzidor e os que aceitam seriam instigadores. Diante desse quadro, se ninguém sofrer lesão grave não é típico o fato. Se um deles sofrer lesão grave, o outro ou outros respondem pelo art. 122, do CP. Se os todos sofrerem lesões graves, responderão pelo crime do art. 122, do CP. Se apenas um pratica ato de execução (ex.: fecha a janela e liga o gás), vindo ele a ser o único sobrevivente, responderá por homicídio; se quem sobreviveu foi outrem, responderá pelo art. 122, do CP; se todos sobreviverem, o que praticou ato executório responderá por tentativa de homicídio, os demais pelo induzimento ao suicídio, se alguém tiver sofrido 88 lesão corporal grave. Se todos praticarem atos de execução (ex.: alguns fecham as janelas enquanto alguém abre o registro de gás), os que sobreviverem respondem por homicídio; se todos sobreviverem poderão responder por tentativa de homicídio. Conforme assinalado, é indispensável à tipicidade do delito a existência de resultado naturalístico morte ou lesão corporal grave. O fato será atípico se, apesar do induzimento, instigação ou auxílio, a vítima vir a sofrer apenas lesão leve ou, apenas, lesão psíquica. 5.5. Atos de convicção ideológica ou religiosa. Interessante problema diz respeito àqueles que, por convicções ideológicas ou religiosas, após ferirem-se gravemente em um acidente, necessitem de uma transfusão de sangue ou outra intervenção médica, recusando-se a fazê-lo em razão de tais convicções. Diante de tais conflitos ideológicos ou religiosos, têm-se como soluções as seguintes providências: (1) Sendo imprescindível a transfusão, mesmo sendo a vítima maior e capaz, tal comportamento deve ser encarado como tentativa de suicídio, devendo o médico intervir, pois está na posição de garantidor. Nesse particular, a regra do art. 146, § 3º, inc. I e II, corroboraria a conduta do médico; (2) Caso os pais ou responsáveis pelo enfermo o subtraiam da necessária intervenção cirúrgica, responderão por homicídio, na hipótese de sobrevir o resultado morte, por se encontrarem, igualmente, na posição de garantidores. Por fim, é controverso se os pais ou responsáveis, em razão daquelas convicções ideológicas ou religiosas, poderiam alegar, em seu benefício, a circunstância exculpante da inexigibilidade de conduta diversa. 5.6. Natureza jurídica do resultado morte ou lesão corporal grave. Outra controvérsia envolvendo a participação em suicídio diz respeito à natureza jurídica do resultado morte ou lesão corporal grave, constante no preceito secundário do art. 122, do CP. Há quem entenda que tal resultado constituiria condição objetiva de punibilidade. Como se sabe, as condições objetivas de punibilidade são fatores ou contingências externas ao fato típico, não abrangidas pelo dolo do agente, mas necessárias para que o direito de punir possa existir. O crime existe, há tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade, mas não há, enquanto não 89 verificada determinada condição objetiva de punibilidade, a consequência jurídica do delito: o ius puniendi in concreto.198 Nesse sentido, para Nélson Hungria, embora o crime se apresente consumado com o simples induzimento, instigação ou prestação de auxílio ao suicídio, a punição estaria condicionada à superveniente consumação do fato ou, no caso de tentativa, à produção de lesão corporal de natureza grave na “pessoa do frustrado desertor da vida.”199 Em sentido contrário, parte da doutrina considera o resultado morte ou lesão corporal grave como integrante da descrição típica da participação em suicídio. Por outras palavras, o fato será atípico se, apesar do induzir, instigar ou do prestar auxílio, o pretenso suicida sofrer (apenas) lesão leve ou não sofrer lesão alguma. Por integrar a tipicidade objetiva, tem-se que, evidentemente, o resultado morte ou lesão grave deve estar abrangida pelo dolo do agente. Nesse sentido, leciona Damásio de Jesus que A morte e as lesões graves são o resultado a que tende a intenção do sujeito. Ele induz a vítima a que dê cabo à própria vida. Logo, a morte está no fato. Tanto assim que se não ocorrer morte ou lesão corporal de natureza grave o evento será atípico. Isso demonstra que aqueles resultados fazem parte do fato.200 No mesmo sentido, o seguinte trecho de acórdão julgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo: “Sem ocorrência de suicídio ou de tentativa de suicídio, não há possibilidade de tipificação do delito do art. 122 do CP”.201 Cumpre registrar, no particular, que a previsão de lesão corporal grave para a caracterização do crime em questão foi uma inovação do Código Penal de 1940. A legislação penal pretérita tipificava a participação em suicídio somente na hipótese de ocorrer o resultado morte. 198 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 653. 199 HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 236. No mesmo sentido: “(...) o resultado morte ou lesão grave é tão somente condição objetiva de punibilidade. Assim, consuma-se o delito com o induzimento, a instigaçãoou o auxílio, funcionando aqueles acontecimentos como condicionantes da aplicação concreta da pena.” (PRADO, Luiz Regis et al. Op. cit., p. 652). 200 JESUS, Damásio. Op. cit., p. 96. No mesmo sentido: “É equivocada a orientação doutrinária que sustenta tratar-se de condição objetiva de punibilidade do crime de participação em suicídio. Como a morte e as lesões corporais graves integram a definição legal do crime de participação em suicídio devem, por conseguinte, ser abrangidas pelo dolo. Não são condição objetiva de punibilidade, mas a própria essência da instigação e do mandado. Se o crime não se consuma, o instigador ou mandante não é responsável. Trata-se no caso, portanto, do resultado naturalístico do crime.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado..., Op. cit., p. 411). 201 TJSP. In RT 531/326 90 5.7. Participação em suicido quando o agente custeia a viagem/hospedagem de alguém para um país onde há clínicas especializadas em assistência ao suicida? Uma situação que pode despertar a atenção sobre o auxílio ao suicídio é a hipótese de apoio material a indivíduo que pretende se suicidar em território estrangeiro, cujas condições para realização do suicídio são oferecidas por clínicas especializadas. Embora esse tipo de serviço não exista no Brasil – uma vez que se trataria justamente de participação em suicídio, ato aqui considerado criminoso – em outros países não só essa prática não constitui crime como é livremente difundida. Na Suíça, por exemplo, há clínicas que atendem nacionais bem como estrangeiros interessados em obter este auxílio, mediante pagamento e o cumprimento de alguns requisitos, tais como a capacidade de discernimento, a existência de uma doença incurável com morte previsível e que imponha sofrimento ao doente, bem como que o pedido de auxilio seja reiterado, demonstrando que o pretendente se encontra decidido ao ato. Tratando-se de ajuda prestada por um agente no Brasil, e considerando que a legislação no exterior permite, em tese, a prática desse auxílio, cumpre analisar se estaríamos diante da prática do delito do artigo 122 do Código penal brasileiro, na modalidade de auxílio ao suicídio. Como se destacou acima, no Brasil o tipo de participação em suicídio envolve a atuação em etapa de preparação do ato suicida e deve ser cometido de forma dolosa. Assim, punem-se os atos que antecedem a execução do suicídio propriamente dito. Observe-se, portanto, que o legislador pátrio optou por tratar a participação em suicídio como modalidade autônoma de delito que em nada se confunde com a execução do suicídio e as consequências dela decorrentes (a morte ou lesões corporais, por exemplo). Assim, não se trata de participação em delito de terceiro. Dessa forma, parece que, se o auxílio é prestado no país, é irrelevante o tratamento penal dispensado a esse mesmo ato no país em que se dá a execução do suicídio. O fato morte pela conduta de se suicidar é um evento natural, ocorrido no exterior, mas o auxílio já estaria prestado em local cuja legislação proíbe tal conduta justamente pelo financiamento (auxílio material) da empreitada suicida. O tipo penal de auxílio ao suicídio não demanda, como figura normativa, que o evento morte tenha que ocorrer em algum local em que o auxílio também seja punido. Evidentemente que as peculiaridades de cada caso devem ser observadas, como é a hipótese de o auxiliar saber o propósito da viagem e contribuir para que a jornada venha a se realizar. É preciso que exista o 91 limiar psicológico na participação, pelo que só é punível aquele que tem conhecimento sobre o propósito e as intenções do suicida. Em situações onde ele não existe, o simples ato de custear viagem nada tem de ilícito. 6. Tipo subjetivo. É o dolo, ou seja, a vontade consciente de induzir, instigar ou auxiliar a vítima à prática do suicídio. Trata-se de dolo genérico, sem exigência de especial fim de atuar. Nada impede possa ocorrer o delito a título de dolo eventual, como no exemplo do marido que pratica sevícias contra esposa, conhecendo intenção de suicídio, ou do pai que expulsa um filho de casa, assumindo, no caso concreto, o risco de que tal filho, com tendências suicidas, venha a se matar.202 A participação em suicídio não exige nenhum elemento subjetivo do tipo – também chamado de dolo específico.203 Dito por outras palavras, o tipo subjetivo se aperfeiçoa com o dolo de realizar as elementares do tipo. Eventuais intenções paralelas – ou segundas intenções –, ao lado do dolo genérico, como o motivo egoístico, poderá dar ensejo a elevação de pena do parágrafo único do art. 122, do CP. Por outro lado, é de se exigir, para a caracterização do dolo, que a manifestação de vontade do agente revista-se do cunho de seriedade na realização de sua conduta. É certo que, para alguns doutrinadores, como Damásio de Jesus, este cunho de seriedade seria elemento subjetivo do tipo ou do injusto, ou seja, a vontade real de que a vítima venha a destruir a própria vida”.204 Outrossim, não cabe falar de modalidade culposa deste delito, como, por exemplo, quando o suicídio ocorre em razão do rompimento de relacionamento com pessoa portadora de quadro de depressão. Nesse sentido, verbis: “O simples rompimento de um namoro não pode jamais ser havido, de per si, como ato tendente a induzir ou instigar o parceiro a cometer o suicídio”.205 7. Consumação e tentativa. Como visto, o crime se consuma com o resultado natural morte ou lesão corporal de natureza grave. Fora daí, ou seja, havendo lesões corporais de 202 Sobre o dolo eventual: “Age com dolo eventual o neto que entrega bolsa contendo arma municiada ao avô, que se encontrava internado e suspeitava ser portador de moléstia incurável.” (TJSP. Apud DELMANTO et al. Op. cit., p. 246). 203 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 233-234. 204 JESUS, Damásio. Op. cit., p. 99. 205 TJSP. In RT 410/88 92 natureza leve ou “tentativa branca” – ou seja, sem nenhuma consequência física –, não há crime a punir, tendo em vista a construção típica adotada pelo legislador. Nestes termos, embora tecnicamente possível a tentativa, o legislador entendeu de afastá-la. Deste modo, quando o agente induz, instiga ou preste auxílio, mas não praticando a vítima o ato ou, ainda, se de ato praticado sobrevier apenas lesão corporal de natureza leve, não caberá a punição a título de tentativa. Nélson Hungria concorda com a solução legal, pois, segundo ele, do contrário estar-se-ia diante de um absurdo jurídico, qual seja a tentativa punível de fato impunível.206 Damásio de Jesus, em sentido inverso, discorda da retromencionada opção do legislador, pois, no seu entender, o Código deveria prever pena para a tentativa branca de suicídio, bem assim para a tentativa que resulta lesão corporal de natureza leve.207 Opiniões a parte, é certo que não existe tentativa de participação em suicídio porque além de ser delito material, o qual o tipo condiciona a tipicidade à produção do resultado por ele descrito. Afasta-se, assim, a incidência da regra do art. 14, inc. II, do CP. Neste sentido, a lição de Cezar Bitencourt: Como crime material que é, em tese, admitiria a tentativa. No entanto, trata- se de uma figura complexa, que prevê no próprio tipo a sua forma tentada, que poderíamos chamar de tentativa qualificada, na medida em que é punida se decorrer lesão de natureza grave. Em síntese, não admite tentativa branca (sem a lesão grave). Somente a tentativa cruenta, com lesão grave, é punível.208 Supõe-se que a opção político-criminal do legislador guarde relação ao tabu existente em sociedade, em torno da figura do suicídio, seja consumado ou gerador de sequelas de natureza grave. Isso explicaria a solução legislativa de deixarno terreno da atipicidade – isto é, da irrelevância penal – determinados fatos que escapem de maior gravidade. Não por outra razão que há países nos quais não se pune, sob qualquer hipótese, a participação em suicídio. 8. Formas majoradas. O parágrafo único do art. 122, do CP, prevê três hipóteses de causa de aumento de pena, vale dizer, da duplicação da pena cominada na forma 206 HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 236 207 JESUS, Damásio. Op. cit., p. 99 208 BITENCOURT, Cezar R. Op. cit., p. 415. 93 básica. São elas: (1) motivo egoístico; (2) vítima menor; e (3) vitima com capacidade de resistência diminuída. A primeira, motivo egoístico, é o referente a um especial fim de caráter eminentemente pessoal, como, por exemplo, a obtenção de vantagem patrimonial na herança do suicida ou na percepção de um seguro de vida. Cite-se, ainda, a motivação de contribuir para a eliminação da vida de um rival do amor de uma mulher etc. O desprezo pela sorte do suicida, isto é, o sobrepor do interesse pessoal (egoísta), justifica a majorante. Como visto acima, cuida-se de especial tendência ao lado do dolo genérico. A segunda majorante é da vítima menor de idade. Considera-se menor a pessoa que se encontre em uma faixa intermediária entre a infância e a maturidade. Dito por outras palavras trata-se de idade em que o menor possua relativa compreensão do caráter grave do ato de suicídio. Em sentido inverso, ou seja, caso falte ao menor tal capacidade de compreensão, a conduta do agente deixará de ser participação em suicídio para tipificar o homicídio por autoria mediata. Por intermédio de uma interpretação sistêmica do Código Penal, considera-se vitima menor aquela entre 14 e 18 anos de idade. Isto porque, nos crimes sexuais (Título VI da Parte Especial do Código Penal), considera- se que o menor de quatorze anos – agora denominado de vulnerável – não tem capacidade ou maturidade jurídica ao ato sexual. Desta forma, se a lei penal considera o menor de quatorze juridicamente incapaz de manter relações sexuais, muito menos para perpetrar ação suicida. Por outra vertente, cuidando-se de vítima maior de dezoito anos, plenamente capaz de compreender o caráter do ato de se matar ou de agir conforme tal capacidade, fica igualmente afastada a majorante sob consideração, salvo, evidentemente, se remanescer, por outra causa que não a idade, diminuída a capacidade de resistência. A terceira e última majorante é, justamente, a hipótese de a vítima ter diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. Cuida-se de circunstâncias pessoais do suicida que diminuem – mas não excluem – seu juízo de discernimento, tais como enfermidade física, perturbação da saúde mental, idade avançada, embriaguez, longo período de internação hospitalar etc. 9. Pena e ação penal. A pena varia conforme o resultado naturalístico: se resulta morte, será de reclusão, de dois a seis anos; se resulta lesão corporal de natureza grave, reclusão de um a três anos. Nessa última hipótese, cabe suspensão condicional do processo. No caso de majorante, a pena será aplicada em 94 dobro. A ação penal é pública incondicionada, sendo o julgamento da competência do Tribunal do Júri. 10. Questões de concurso público. 1ª Questão do Concurso Público para o ingresso na Carreira do Ministério Público do Estado do Paraná, ocorrido em 2014: Rapaz de 30 (trinta) anos, que não estuda, nem trabalha e convive com o genitor, diz-lhe, pela primeira vez, que quer se matar, sem condutas antecedentes que denunciassem tal intenção. O pai, que nunca cogitou matar o filho, sem falar nada, imediatamente antes de sair pela porta da casa e deixar o rapaz sozinho, entrega um frasco com veneno, que é ingerido pelo moço, que morre minutos depois: a) É caso de autoria mediata, respondendo o pai por homicídio comissivo por omissão, pois o filho encontra-se sob sua guarda; b) Trata-se de homicídio qualificado pelo emprego de veneno, com incidência da agravante de crime praticado contra descendente; c) O pai responderá por homicídio culposo, porque atuou com imprudência, violando dever objetivo de cuidado; d) O caso é atípico, pois a lei não pune o suicídio; e) O pai responderá por crime de auxílio ao suicídio, com incidência de agravante genérica de crime praticado contra descendente. Resposta: A alternativa correta é a letra “E”. 2ª Questão do Exame unificado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), realizado em 2013: José e Maria estavam enamorados, mas posteriormente vieram a descobrir que eram irmãos consanguíneos, separados na maternidade. Extremamente infelizes com a notícia recebida, que impedia por completo qualquer possibilidade de relacionamento, resolveram dar cabo à própria vida. Para tanto, combinaram e executaram o seguinte: no apartamento de Maria, com todas as portas e janelas trancadas, José abriu o registro do gás de cozinha. Ambos inspiraram o ar envenenado e desmaiaram, sendo certo que somente não vieram a falecer porque os vizinhos, assustados com o cheiro forte que vinha do apartamento de Maria, decidiram arrombar a porta e resgatá-los. Ocorre que, não obstante o socorro ter chegado a tempo, José e Maria sofreram lesões corporais de natureza grave. 95 Com base na situação descrita, assinale a afirmativa correta. a) José responde por tentativa de homicídio e Maria por instigação ou auxílio ao suicídio. b) José responde por lesão corporal grave e Maria não responde por nada, pois sua conduta é atípica. c) José e Maria respondem por instigação ou auxílio ao suicídio, em concurso de agentes. d) José e Maria respondem por tentativa de homicídio. Resposta: A alternativa correta é a letra “A”. 97 Capítulo Terceiro Do Infanticídio Infanticídio Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de dois a seis anos. 1. Introdução. Infanticídio é a supressão da vida do ser humano que está nascendo ou acabou de nascer, efetuada pela própria mãe em condições especiais. Considerado, pelo legislador, como um fato menos grave do que o homicídio, o infanticídio é delito autônomo, com pena sensivelmente menor àquele. Cuida-se de hipótese específica da genitora atentar contra a vida do próprio filho, influenciada pelo estado puerperal, durante ou logo após o parto. Portanto, trata-se de uma espécie derivada (e abrandada) do gênero homicídio, na medida em que o núcleo de ambos contempla o mesmo verbo “matar” um ser humano.209 Sobre o assunto, cumpre registrar que no Código Criminal do Império (1830), o infanticídio pressupunha a prática do delito para ocultar a desonra própria. O Código Penal de 1890 também aludir ao requisito da honoris causae. A seu turno, no Anteprojeto de Código Penal de Galdino Siqueira, o infanticídio passou a ser forma de homicídio atenuado. Por sua vez, no Anteprojeto Alcântara Machado, que deu origem ao Código atual, retomava o critério do crime estar vinculado ao objetivo de ocultar desonra própria. Todavia, a Comissão Revisora deste último Anteprojeto optou por tratar o infanticídio como delictum exceptum em paralelo com o tipo de homicídio. Acresça-se, ainda, que o PLS 236 (Anteprojeto de Código Penal), em 209 Cf. JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 138. 98 tramitação no Senado Federal, mantém, em linhas gerais, a mesma sistemática do vigente diploma legal, somente substituído a dicção “estado puerperal” por “influência perturbadora do parto”, bem assim fazendo expressa exclusão ao concurso de pessoas. Ainda em considerações gerais, deve-se fazer menção aos sistemas legais de caracterização do infanticídio: (1) psicológico; (2) fisiopsíquico; e (3) misto oueclético. O primeiro – critério psicológico – leva em consideração, para a configuração do infanticídio, da perpetração da morte do nascente ou neonato por motivação moral, em geral para ocultar o fruto de uma gravidez “indesejada”. Nestas circunstâncias, a gravidez ou o parto acarretaria um estado de angústia em que se apagaria o próprio instinto de piedade para com o infante. O sistema psicológico fora sido adotado pelo CP/1969, que, como se sabe, ficou em vacatio legis por anos até ser revogado sem nunca ter entrado em vigor. O critério ou sistema fisiopsíquico leva em consideração não uma gravidez ilegítima ou coisa do gênero, mas, sim, a ação perturbadora decorrente do parto e seus reflexos no organismo da mulher. É nesse sentido que o Código Penal alude às elementares da influência do estado puerperal. No caso, a honoris causae fica relegada para um plano secundário. Segundo as palavras de Nélson Hungria, “ao invés do ímpeto do pudor, o ímpeto da dor”.210 Por sua vez, o critério misto ou eclético objetiva levar em consideração, ao mesmo tempo, a influência perturbadora do parto e a motivação moral. Ainda sobre o assunto, Nélson Hungria sustentava que se fôssemos atender à honoris causa, como alguns doutrinadores desejavam, poder-se-ia, também, admitir a figura privilegiada do infanticídio para justificar – de modo indesejado – outras motivações ou ímpetos, tais como matar o nascente ou o recém-nascido por “dificuldades econômicas”. Ademais – salienta aquele autor – seria importante sobrepor o “interesse coletivo” na preservação da vida humana ao “motivo de desonra pessoal”.211 Não obstante, o próprio Hungria reconheceu que razões de desonra pessoal podem contribuir para o estado de perturbação ou angústia que acarretam, junto com o puerpério, a diminuição da responsabilidade da parturiente. No entanto, como bem anotado por Julio Mirabete, é certo que a jurisprudência tem entendido que o infanticídio é, em termos práticos, um delito eminentemente social, praticado, na quase totalidade dos casos, por mães solteiras ou abandonadas pelos homens e que, por isso, o antigo 210 HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 248. 211 Ibid. 99 conceito psicológico ou da honoris causa vai, aos poucos, “se confundindo com o conceito psicofisiológico, por força de reiteradas decisões judiciais.”212 O bem jurídico tutelado é o direito à vida do ser humano nascente ou do recém-nascido. O bem jurídico – vale repetir – consiste na vida extrauterina. 2. Sujeito ativo. Trata-se de crime próprio. O sujeito ativo é a “mulher-mãe” que, sob ação do estado puerperal, destrói a vida do próprio filho. Apesar de ser crime próprio, o infanticídio não é considerado, segundo a maioria da doutrina, um crime de mão própria, razão pela qual nele caberia a figura da autoria mediata, como, por exemplo, o caso da mãe que, sob tais circunstâncias, induz terceiro a erro invencível de ministrar veneno ao invés de medicamento ao próprio filho recém-nascido. Admite-se, em tese, o concurso de pessoas, a despeito da controvérsia abaixo pormenorizada. Considerando o princípio do ne bis in idem, não se aplicam ao crime as agravantes previstas no artigo 61, II, letras “e” e “h”, do CP. Isso porque, a relação de parentesco já constitui o crime e, a qualidade de criança do sujeito passivo, também. 3. Sujeito passivo. O sujeito passivo, isto é, a vítima do infanticídio, é o filho nascente, quando a ação é praticada durante o parto. Pode, ainda, ser o neonato, ou seja, aquele que acabou de nascer. A prova da existência de vida do infante é dada pela docimasias (em grego, “exame”), que podem ser respiratórias e não-respiratórias (ex: gastrointestinal ou circulatórias). As docimasias respiratórias podem, ainda, ser diretas ou indiretas. Segundo Luiz Regis Prado, as docimasias diretas “investigam a efetiva penetração de ar nos pulmões ou em outras cavidades do organismo, examinando as modificações – volumetrias, de peso ou histológicas –, que os atos respiratórios produzem nesses órgãos. As docimasias indiretas analisam as demais atividades fisiológicas do neonato, decorrentes do início da respiração.”213 Há de se observar, contudo, que as docimasias respiratórias não são consideradas definitivas. Isto porque, é existir vida apnéica extrauterina, ou seja, vida sem respiração. Por esse motivo, exige-se a realização de outros exames – docimasias não-respiratórias –, para comprovação se trata-se ou 212 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. Parte Especial. Vol. II. 27ª ed. São Paulo: Atlas, 2013, p. 182. 213 PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 650. 100 não de conduta praticada contra ser humano vivo ou, ao revés, natimorto. Nesse sentido, tem-se que a vida biológica é comumente provada pela bossa serossanguínea, “proveniente do desequilíbrio de pressão entre a parte do corpo da criança nascente ainda alojada no útero materno e a outra parte que surge no canal pélvico.”214 Na hipótese de parto prematuro, desde que se alcance vida extrauterina, configurar-se-á o infanticídio. Numa palavra, somente na hipótese de natimorto, deixa de existir o sujeito passivo do crime; nesse sentido, qualquer conduta configurará o crime impossível. 4. Tipo objetivo. O tipo objetivo do crime em questão contempla o verbo “matar”. Cuida- se, portanto, da mesma conduta do art. 121 do CP, isto é, destruir, eliminar ou suprimir a vida humana. Sendo assim, todas as considerações efetuadas com relação ao verbo do delito de homicídio são aqui igualmente pertinentes. Trata-se de delito classificado como de forma livre. Isto quer dizer, que o infanticídio tanto pode ser praticado por um comportamento “ativo” (por exemplo, sufocação ou fratura do crânio) como “passivo” (deixar de alimenta, deixar de efetuar a ligadura do cordão umbilical etc.). Por outras palavras, o delito pode ser praticado por qualquer meio, até mesmo por omissão imprópria (art. 13, § 2º, “a”, do CP). 4.1. Elementar: próprio filho. Para alguns, o infanticídio poderia ocorrer tanto em relação ao filho que está nascendo ou que acabara de nascer, como, igualmente, contra outro filho da autora do crime. É o que ocorreria, por exemplo, na hipótese de um filho de tenra idade, próximo à agente, vir a ser morto por esta, estando presente, evidentemente, as demais elementares do tipo penal. Esse argumento teria lastro no fato de que o art. 123 alude, dentre outras, às expressões “próprio filho”, ou seja, um filho daquela que se encontra sob a influência do estado puerperal. Nesse particular, o Código Penal anterior, de forma mais precisa, aludia à vítima, qualificando-a como “infante”. Contudo, há de se rejeitar essa tese, na medida em que ela se sustenta unicamente em uma interpretação literal daquele dispositivo legal. Na verdade, o que singulariza o infanticídio, tornando-o um crime próprio privilegiado, é, justamente, o fato de ter como sujeito passivo o filho que está nascendo ou que acabou de nascer. Deve-se, assim, se utilizar da 214 Ibid. 101 interpretação teleológica para se alcançar o exato significado no tipo penal em questão. 4.2. Durante o parto ou logo após Para a tipificação do infanticídio, a conduta deve ocorrer durante ou logo após o parto. Cuida-se de elemento normativo temporal ou cronológico. Deve-se esclarecer que “parto” consiste no conjunto dos processos mecânicos, fisiológicos e psicológicos, por intermédio dos quais o feto a termo ou viável se separa do organismo materno e passa ao mundo exterior. Dito de outra forma, parto ou período de expulsão é o processo de afastamento do feto e seus anexos do organismo materno. O parto compreende três momentos: a dilataçãodo útero, a expulsão do feto e a expulsão da placenta. Nesse sentido, Damásio de Jesus leciona que o parto começa a ocorrer com a dilatação do colo do útero, seguido da expulsão, ocasião em que o nascente é impelido para a parte externa do útero. Por último, há a expulsão da placenta, terminando-se, pois, o fenômeno do parto. Para aquele Autor, a “morte do sujeito passivo, em qualquer das fases do parto, constitui delito de infanticídio.215 Ainda sobre o assunto, cumpre observar que existe certa dificuldade na em se precisar o conteúdo das elementares “logo após”. Para a maioria da doutrina, este lapso temporal compreende todo o período do estado puerperal, circunstância a ser analisada pelos peritos médicos no caso concreto. Desse modo, poder-se-ia falar que o estado puerperal perduraria por sete ou oito dias, aproximadamente. Contudo, Guilherme de Souza Nucci sustenta que se deve interpretar aquela expressão com o “caráter de imediatidade, pois, do contrário, poderão existir abusos.”216 Ultrapassado este limite temporal, ou se a morte do neonato não tiver qualquer relação com o estado puerperal, o crime será de homicídio. Em sentido inverso, ou seja, na hipótese da destruição da vida ocorrer antes do parto, estará configurado o crime de aborto. 4.3. Conceito de estado puerperal. Não há uma uniformidade na doutrina acerca das elementares “estado puerperal”. Segundo extraído de fontes diversas, ele significaria dores do parto, excitações, distúrbios, temores, delírios, apreensões, exaustões, 215 JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Parte Especial. Vol. 2. 32ª ed. São Paulo: Saraiva, p. 139. 216 NUCCI, Guilherme de Souza. Op. cit., p. 604. Para Damásio de Jesus, a melhor solução sobre o “logo após” é, de fato, o exame do caso concreto. Segundo ele, “Assim, enquanto permanecer a influência desse estado, vindo a mãe a matar o próprio filho, estamos diante da expressão ‘logo após’ o parto.” (JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 141). 102 irritações, emoções tumultuárias, loucuras emotivas, falta de orientação, desatino, confusão ou conturbação mental, acessos de fúria etc.217 Tem-se, assim, que, diante de inúmeras descrições para o estado puerperal, o legislador não teria agido bem ao relacionar o crime de infanticídio àquele fenômeno antropológico. Sobre a matéria, escreveu Magalhães Noronha: A respeito da situação do sujeito ativo, variam as leis: umas adotam o sistema psicológico e outras o fisiopsicológico. O primeiro assenta-se no motivo da honra (CP argentino, art. 81, § 2º, e CP italiano, art. 578), isto é, na gravidez fora do matrimônio - a solteira, a viúva ou a casada com esposa de impotência generandi -, quando é imperioso ocultar o fruto da concepção, o que faz a mulher viver estado de angústia e de tormento moral. O segundo sistema, ao revés, não se cinge ao motivo (CP suíço, art. 115), mas leva em conta o desequilíbrio fisiopsíquico, oriundo do parto, conquanto não desconheça que o móvel pode entrar no complexo desencadeante desse desequilíbrio. Adotou o último nossa lei, já que invoca o estado puerperal.218 De toda sorte, tem-se que o estado puerperal se trata de manifestação humana de caráter normal, relativamente breve ou passageiro. Sendo assim, na hipótese de um estado puerperal “prolongado no tempo”, poder-se-á estar diante de um quadro patológico, vindo a caracterizar doença ou perturbação mental, com a consequente qualificação da conduta da mãe como tendo ocorrido em estado de inimputabilidade ou de semirresponsabilidade penal. Cumpre ressaltar, porém, que o estado puerperal é efeito normal de qualquer parto. Desnecessária, portanto, a prova dessa elementar. O que necessita ser comprovado é a relação de causalidade entre o puerpério e a forma especial de matar que tipifica o infanticídio, pois nem sempre ele produz perturbações psíquicas na parturiente.219 Repita-se: se a conduta de 217 Cf. Nélson Hungria: “Com o parto, novos motivos sobrevêm aos já antes existentes e surge uma força coercitiva para a decisão, e a parturiente, menos capaz de tranquila reflexão e extenuada, não pode resistir ao impulso para a ocisão do filho e, em certos casos, deixa-se, por assim dizer, dominar por ele.” (HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 265). 218 NORONHA, Magalhães. Op. cit., p. 45-46. (grifos do original). 219 Cf. o seguinte arresto: “Pronúncia. Homicídio qualificado (meio cruel) e ocultação de cadáver. Alegado estado puerperal. Inocorrência. Pretendida desclassificação para aborto provocado ou infanticídio. Inadmissibilidade. Mérito: Impronúncia ou exclusão da qualificadora do meio cruel e do delito de ocultação de cadáver. Impossibilidade. ‘Tendo sido a morte do feto descoberta muito tempo depois da ocisão, difícil ou impossível se torna a prova de que a acusada tivesse agido sob a influência do estado puerperal, traço diferenciador entre o infanticídio e o homicídio’ (RT 488/323). ‘Se não se verificar que a mãe tirou a vida do filho nascente ou recém-nascido sob a influência do estado puerperal, a morte praticada se enquadrará na figura típica do homicídio’ (RT 491/292-293). (...).” (TJSC. RCCR 758865. 1ª Câmara Criminal. Relator Des. Aloysio Gonçalves. Pub. DJ de 6/12/1994). 103 matar não tiver esse pressuposto, a mãe irá responder pelo delito do art. 121 do CP.220 5. Tipo subjetivo. Trata-se de delito doloso, que pode ser praticado com dolo direto, de primeiro ou de segundo grau, ou eventual. A mãe deve estar sob a influência do estado puerperal (elemento fisiopatológico). Discute-se a possibilidade jurídica de “infanticídio culposo”. Seria o caso da mãe, de forma negligente, der causa a morte do filho, sob a influência do estado puerperal, vale dizer, sob o efeito desta fragilidade psíquica. No entender de Damásio de Jesus, se a morte decorrer de comportamento culposo, todavia relacionado com o estado puerperal, cuidar-se-ia de fato atípico, ou seja, a autora “não responde por delito algum (nem homicídio, nem infanticídio).221 Diversamente, Luiz Regis Prado sustenta que, se a morte do recém- nascido é decorrência da inobservância de um dever de cuidado, incorre o agente nas penas do artigo 121, § 3º, do CP (homicídio culposo).222 No particular, considera-se correto o entendimento de não existir motivo legal para o afastamento da norma penal do art. 121, § 3o, do CP, tendo em vista que, como visto, infanticídio nada mais é do que um homicídio privilegiado. É possível, inclusive, a concessão do perdão judicial, previsto para a modalidade culposa de homicídio. Trata-se, em suma, de interpretação sistêmica dos dispositivos que tutela o bem jurídico vida humana. 6. Consumação e tentativa. A consumação, no infanticídio, é idêntica à do homicídio, ou seja, consuma-se com a morte do nascente ou recém-nascido. Na mesma esteira, o conatus é possível, desde que, iniciada a execução, a morte não ocorra por circunstancias alheias à vontade da mãe. Como visto acima, se o infante nasce morto, tratar-se-á de crime impossível (art. 17, do CP). 7. Concurso de pessoas no infanticídio. 220 Sobre o tema, vide o Item 40 da Exposição de Motivos do CP/1940: Esta cláusula [influência do estado puerperal], como é óbvio, não quer significar que o puerpério acarrete sempre uma perturbação psíquica: é preciso que fique averiguado ter esta realmente sobrevindo em consequência daquele, de modo a diminuir a capacidade de entendimento ou de autoinibição da parturiente. Fora daí, não há por que distinguir entre infanticídio e homicídio. 221JESUS. Damásio E. de. Op. cit., p. 141. O Autor salienta que a “mulher, porém, pode vir a matar a criança, não se encontrando sob a influência do estado puerperal, agindo culposamente. Haverá,neste caso, homicídio culposo, descrito no art. 121, § 3º, CP (ibid.). 222 PRADO, Luiz Régis. Op. cit., p. 662. 104 Uma das questões mais controvertidas da Parte Especial do Código diz respeito à possibilidade de um terceiro concorrer – como coautor ou partícipe – para a prática do infanticídio. A controvérsia diz respeito se ao concorrente deve ser aplicada a pena cominada para esse delito ou a prevista para o crime de homicídio. Exemplo: “A”, sob influência do estado puerperal, pede a “B”, seu marido, para jogar o filho “C” pela janela do alto da maternidade aonde acabara de parir, ambos associados no sentido de matar o recém-nascido. No exemplo em destaque – bem como em outras variáveis dogmáticas relativas ao concurso de pessoa – é de se perquirir, à luz dos arts. 123 c/c 30, ambos do CP, se “B”, marido de “A”, também responde pelo infanticídio ou se, diferentemente, deve ele responder por homicídio ao passo que ela pelo crime menos grave do art. 123, do CP. O cerne da controvérsia reside na comunicabilidade ou não da elementar típica da influência do estado puerperal ao terceiro que concorre, de forma consciente e voluntária, ao crime de infanticídio.223 Em linhas gerais, existem três correntes que procuram solucionar essa discussão. A primeira delas afirma que, a rigor, estado puerperal seria uma elementar mais do que pessoal, seria, na verdade, “personalíssima”. Por conta disso, não seria comunicável ao concorrente, escapando-se, assim, da regra da comunicabilidade. O coautor ou partícipe responderia por homicídio, enquanto que a mãe permaneceria enquadrada no infanticídio. Segundo Nélson Hungria – defensor dessa solução – o privilégio legal seria “inextendível” ao concorrente.224 Para uma segunda corrente, há de ser aplicada a norma do art. 30, do CP, uma vez que, como visto, se trata de elementar do tipo penal descrito no art. 123. O agente que, ciente da presença do estado puerperal, dividiu com a mãe a conduta de matar o seu filho (coautor), ou aquele que participar, material ou moralmente, desse crime, restará incurso na pena do infanticídio (detenção, de dois a seis anos). Filia-se a tal corrente, dentre outros, Damásio de Jesus, estribado no argumento de que, efetivamente, influência do estado puerperal constitui elementar do delito de infanticídio, comunicando, desde que integre o dolo do agente.225 Há, contudo, uma posição intermediária: a solução da questão dependeria da constatação do caráter acessório da ação do concorrente, isto é, saber se ele figurou como partícipe ou coautor do infanticídio. No primeiro caso, haveria incidência da comunicabilidade, respondendo, ambos (mãe-autora e o partícipe), pelo crime do 223 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 384-385. 224. HUNGRIA, Nélson. Comentários..., cit., p. 266). 225. JESUS, Damásio Evangelista de. Op. cit. Agregue-se que na histórica Conferência dos Desembargadores de 1943, em São Paulo, ocorrida logo após a entrada em vigor do Código, a síntese dos debates, tomada por maioria dos votos, foi formulada em termos da comunicabilidade. 105 art. 123. Do contrário, deve-se excepcionar o concurso de pessoas, punindo de maneira distinta cada um dos autores, ou seja, não haverá a comunicabilidade da figura do infanticídio ao concorrente. Neste sentido, Luiz Regis Prado apresenta as seguintes hipóteses: (1) a mãe e o terceiro realizam o núcleo do tipo; (2) a mãe mata e o terceiro a auxilia; e (3) o terceiro mata a criança com a participação acessória da mãe. Segundo aquele autor, na primeira hipótese, a mãe e o terceiro são coautores do delito de infanticídio (art. 123 c/c art. 29, CP). Também na segunda hipótese, o delito é de infanticídio para ambos – mãe (autora) e terceiro (partícipe). Por fim, no último caso, o terceiro responde como autor do crime de homicídio e a mãe como partícipe.226 Em que pesem os argumentos contrários, tem-se que não há como escapar da regra da comunicabilidade ao concorrente do infanticídio, sob pena de violação do princípio da legalidade. Não se pode aceitar a primeira corrente (Hungria), visto que buscar discernir pessoal de personalíssimo é, fundamentalmente, uma burla de etiquetas. A tese intermediária, embora tecnicamente superior, não convence porque desconsidera não apenas o art. 30, mas, igualmente, o art. 29, do CP, isto é, o princípio da unidade do delito. Portanto, apesar de louvável, é forçoso reconhecer que a preconizada distinção entre as figuras de coautor e partícipe, importa em indevida analogia in malam partem. Tem-se, portanto, que aquele que concorrer – como coautor ou partícipe – ao infanticídio, ciente de que a morte do nascente ou neonato se dá sob a influência do estado puerperal da mãe, restará beneficiado com a punição mais branda do art. 123, ao invés de incorrer nas penas do art. 121 do CP, tendo em vista a incidência da norma do art. 30, do CP. Com o objetivo de dirimir a presente controvérsia, o PLS 236 (Anteprojeto de Código Penal), em tramitação no Senado Federal, introduz, no tipo penal do infanticídio, o seguinte dispositivo: “Parágrafo único. Quem, de qualquer modo, concorrer para o crime, responderá nas penas dos tipos de homicídio.” Como se observa, de lege ferenda, adota-se a teoria pluralista no tocante àqueles que concorrem ao infanticídio, passando, este último, a ser delito sui generis.227 Não obstante, tem que solução legal mais adequada seria o infanticídio deixar de ser delito autônomo, passando a se constituir forma privilegiada do tipo penal do homicídio. Dessa maneira, deixando de existir 226 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. Vol. 2. 9ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. Em sentido semelhante, Cezar Bitencourt sustenta, em longa exposição, que a solução deve ser encontrada atentando-se para quem realizou a ação central. (Bitencourt, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. Vol. 2. 14ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009). 227 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 343. 106 as elementares de caráter pessoal, não haveria mais a comunicabilidade dos efeitos regulados no art. 30, do CP. 8. A questão do “infanticídio” indígena Uma forte polêmica que circunda o delito tipificado no art. 123 do Código Penal diz respeito ao chamado “infanticídio indígena”. Em algumas tribos indígenas brasileiras, existe uma prática costumeira de morte de recém-nascidos, seja em razão de deficiências físicas ou mentais, seja por ser tratar de gêmeos ou mesmo de filhos de mães solteiras. As técnicas de morte variam de acordo com cada etnia: as crianças podem ser enterradas vivas, estranguladas, sufocadas ou deixadas na mata para morrer228. Os motivos para tais costumes são variados. A morte de gêmeos, por exemplo, é justificada pelo argumento de que duas crianças demandariam maiores cuidados da mãe, a qual não conseguiria conciliar suas tarefas comunitárias dentro e fora de casa com o dispêndio de atenção a dois filhos. De outra banda, a eliminação de recém-nascidos portadores de algum tipo de deficiência é fruto da compreensão de que a criança não conseguirá sobreviver na comunidade, por não ser apta a pescar, caçar e interagir com os demais membros, gerando uma forte dependência dos demais integrantes229. Para algumas etnias, a própria concepção de vida é diversa daquela exposta no início dessa obra. É o caso dos Yanomami, que habitam o Estado de Roraima, cujos costumes são descritos por Rita Laura Segato com base no relato do antropólogo do Ministério Público Federal Ivan Soares: as mulheres Yanomami têm poder total de decisão a respeito da vida dos seus recém-nascidos. O parto acontece no mato, fora da aldeia. Nesse ambienteretirado, fora do contexto da vida social, a mãe tem duas opções: se não encosta no bebê nem o levanta em seus braços e o deixa na terra onde caiu, significa que ele não foi acolhido no mundo da cultura e das relações sociais e, portanto, não se tornará humano, pois, na perspectiva nativa, o atributo da humanidade é uma construção coletiva, sem a qual nenhum organismo se torna humano. Humanidade, aí, não é outra coisa que o resultado de um trabalho de humanização por parte da coletividade. Dessa forma, na perspectiva nativa, não se pode dizer que tenha ocorrido um homicídio, pois isso que permaneceu na terra não constituía uma vida humana. Assim, entre 228 ALVES, Fernando de Brito. VILAS BOAS, Márcia Cristina Alvater. Direito à cultura e o direito à vida: visão crítica sobre a prática do infanticídio em tribos indígenas. Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza – CE. Junho de 2010 , v. XIX. P. 4962-4973. Disponível em:. Acesso em 19 out 2016. p. 4965. 229 REIS, Junio Barreto. O Infanticídio Indígena: um conflito entre a diversidade cultural e os direitos humanos. Disponível em . Acesso em 19 out 2016. 107 os Yanomami, o nascimento biológico não é a entrada na humanidade, pois, para que o último ocorra, deverá haver um “nascimento pós-parto”, isto é, produzido na cultura e dentro do tecido social230. A controvérsia, pois, está na tensão entre o direito à vida – consagrado no art. 5o, caput da Constituição Federal - e o direito à autodeterminação. Este último tem amparo no art. 231, caput da Carta Magna, e reconhece aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. Ademais, a Convenção n. 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 5.051/2004, dispõe em seu artigo 5º que deverão ser reconhecidos e protegidos os valores e práticas sociais, culturais, religiosos e espirituais próprios dos povos mencionados e dever-se-á levar na devida consideração a natureza dos problemas que lhes sejam apresentados, tanto coletiva como individualmente. Dentro desse raciocínio, há quem sustente que a prática do “infanticídio indígena” estaria inserida num contexto de erro de proibição culturalmente condicionado, no qual o índio não é capaz de perceber seu ato como ilícito por estar impregnado por sua identidade cultural231. Razões culturais, portanto, configurariam uma excludente de culpabilidade. Não há registro de precedentes judiciais que tenham examinado a questão da ilicitude de mortes de crianças provocadas nas circunstâncias acima mencionadas. No entanto, no dia 26 de agosto de 2015, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei n. 1057/2007, que versa sobre medidas para combater algumas práticas tradicionais tidas por nocivas, dentre as quais o infanticídio232. O aludido projeto de lei incorpora o art. 54-A ao Estatuto do Índio (Lei n. 6.001/73), e, no caput do dispositivo, reafirma o respeito e o fomento às práticas tradicionais indígenas, sempre que elas estejam em conformidade com os direitos fundamentais estabelecidos na Constituição Federal e com os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos de que a República Federativa do Brasil faça parte. 230 SEGATO, Rita Laura. Que cada povo teça os fios da sua história: o pluralismo jurídico em diálogo didático com legisladores. Revista de Direito da Universidade de Brasília. Brasília, v. 01, n. 01, p. 65-92, jan-jun 2014. p.76. 231 CASTILHO, Ela Wiecko Volkmer de; COSTA, Paula Bajer Fernandes Martins da. O Projeto de Lei do Senado no 156, de 2009, que institui novo Código de Processo Penal e os crimes praticados contra indígenas ou por indígenas. Revista de Informação Legislativa. Brasília, ano 46, n. 183, p. 55-66, jul./set. 2009. p.60. 232 PIOVESAN, Eduardo; SIQUEIRA, Carol. Câmara aprova projeto que prevê combate ao infanticídio em áreas indígenas. Câmara dos Deputados. Brasília, 26 ago 2015. Disponível em . Acesso em 19 out 2016. 108 Não há propriamente a criminalização de um tipo específico de infanticídio, tampouco a descriminalização da prática, mas um extenso rol de políticas públicas a serem implementadas pela FUNAI com o intuito de evitar a morte de crianças. Contudo, é bastante elucidativa a ênfase do legislador na proclamação da garantia do direito à vida, à saúde e à integridade fisíco-psíquica. O Projeto de Lei n. 1057/2007 foi encaminhado ao Senado Federal no mês de setembro de 2015, onde segue os trâmites regimentais. 9. Distinção entre infanticídio e crimes assemelhados. Como visto, infanticídio distingue-se do homicídio na medida em que aquele se trata de delito especial cometido pela própria mãe, sob influência do estado puerperal. A seu turno, o homicídio é tipo geral que tutela a vida humana frente a condutas vocacionadas para a sua destruição. Difere, ainda, o infanticídio do delito de aborto, conforme o momento da conduta. Ou seja, o aborto somente pode ocorrer antes do início do parto, sendo certo que o infanticídio de perfaz a partir desse instante. Por fim, há de se distinguir infanticídio do delito de exposição ou abandono de recém-nascido (art. 134, do CP). Fundamentalmente, o tipo do art. 134, do CP, consiste em um delito de perigo, enquanto que, o art. 123, do CP, tipifica-se um crime de dano contra o bem jurídico vida humana. 10. Pena e ação penal. No infanticídio, a pena é de detenção, de 2 a 6 anos. Esta sanção penal é bem inferior, como dito, àquela cominada ao homicídio. A ação penal é pública incondicionada. 11. Questões de concurso público. 1ª Concurso de ingresso na Carreira da Defensoria Pública do Estado da Paraíba, ocorrido em 2014: Mediante promessa de pagamento de cem reais, a intrometida vizinha Florisbela participa dolosamente do infanticídio executado pela jovem mãe Aldegunda que, em desespero, se encontrava então sob forte influência do estado puerperal. Sobre Florisbela, à vista do entendimento hoje dominante na doutrina, com esses dados em princípio pode-se afirmar que a) responderia por homicídio doloso qualificado, caso a lei brasileira classificasse o infanticídio como modalidade privilegiada de homicídio. 109 b) responderia por homicídio privilegiado, com Aldegunda, caso a lei brasileira classificasse o infanticídio como modalidade privilegiada de homicídio. c) responde por homicídio qualificado. d) responde por infanticídio qualificado. e) responde por infanticídio privilegiado, com Aldegunda. Resposta: A resposta correta é a letra “A”. 2ª Exame Unificado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ocorrido em 2010: Arlete, em estado puerperal, manifesta a intenção de matar o próprio filho recém-nascido. Após receber a criança no seu quarto para amamentá-la, a criança é levada para o berçário. Durante a noite, Arlete vai até o berçário, e, após conferir a identificação da criança, a asfixia, causando a sua morte. Na manhã seguinte, é constatada a morte por asfixia de um recém-nascido, que não era o filho de Arlete. Diante do caso concreto, assinale a alternativa que indique a responsabilidade penal da mãe. a) Crime de homicídio, pois, o erro acidental não a isenta de reponsabilidade. b) Crime de homicídio, pois, uma vez que o art. 123 do CP trata de matar o próprio filho sob influência do estado puerperal, não houve preenchimento dos elementos do tipo. c) Crimede infanticídio, pois houve erro quanto à pessoa. d) Crime de infanticídio, pois houve erro essencial. Resposta: A resposta correta é a alternativa “C”. 111 Capítulo Quarto Do Aborto Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque: Pena - detenção, de um a três anos. Aborto provocado por terceiro Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de três a dez anos. Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de um a quatro anos. Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de quatorze anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência. Forma qualificada Art. 127 - As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte. Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. 1. Introdução. Sob a perspectiva histórica, cumpre registrar que antes do Cristianismo preponderar como religião oficial do antigo Império Romano, o aborto não era uma questão de Direito Penal. Preponderava, naquela época, a noção de que a mulher poderia dispor livremente do seu próprio corpo. Contudo, com o predomínio do catolicismo, passou-se vicejar preocupações próprias da religião do povo de Cristo. Sendo assim, prevaleceu o entendimento de que a conduta abortiva importava na morte de um ser humano sem o seu batismo. No caso, a alma do feto ficaria no limbo, isto é, não chegaria ao Reino dos Céus. Por conta disso, em maior ou menor escala, as legislações que se edificaram depois daquele momento histórico, passaram a criminalizar, em 112 maior ou menos extensão, o abortamento voluntário. De certa forma, até os dias atuais, a liberalidade ou o recrudescimento para com a conduta de abortar guardaria – mesmo em se tratado de um Estado laico – relação político-criminal com a prevalência ou não de forças políticas religiosas junto ao Parlamento; enfim, ao legislador de um determinado país. Feita essa observação inicial, cumpre definir o que vem a ser aborto. Em breves palavras, aborto significa a interrupção da gravidez com a destruição do feto, seguida ou não da sua expulsão do corpo da mulher. É a destruição do ovo ou óvulo fecundado, quando ocorre em até três semanas; do embrião, a partir deste momento até o estágio de três meses, aproximadamente; ou do feto propriamente considerado, após ou três meses até o final da gestão. A destruição ou morte intencional do óvulo, embrião ou feto não exige, para caracterização do aborto, a sua expulsão do corpo da mulher. Em termos etimológicos, aborto provém da junção das partículas ab, que significa privação, com ortus, ou seja, nascimento. Ou seja, aborto é a privação do nascimento de um ser humano. Tecnicamente, a palavra correta para designar o delito talvez fosse “abortamento”, vale dizer, provocar ou dar causa ao o aborto – a morte do produto da concepção. A seu turno, “aborto” seria, na verdade, o resultado ou consequência do abortamento. Na prática, contudo, consagrou-se a última expressão, tendo sido, de resto, acolhida pelo legislador penal. 2. Classificação de aborto. O aborto pode ser (1) “natural”, como ocorre, por exemplo, em razão de problemas de saúde; (2) “acidental”, ou seja, decorrente de uma queda, um choque violento ou qualquer outro descuido durante a gravidez; e (3), “provocado”, vale dizer, decorrente de uma conduta intencional ou com a assunção do risco da sua ocorrência. Por sua vez, o aborto provocado se divide em (1) “aborto criminoso”, consoante os termos dos arts. 124 a 126, do CP; e (2) “aborto legal”, regulado no art. 128, do CP, e pela ADPF n. 54, do STF. A seu turno, o “aborto criminoso” pode ser “qualificado” em quando acarretar lesão corporal de natureza grave ou morte da gestante (cf. art. 127, do CP). Há, ainda, a figura do “aborto preterdoloso”, que, na verdade, consiste em uma das hipóteses de lesão corporal de natureza grave, consoante o art. 129, § 2º, V, do CP. 3. Discussão sobre a liberação do aborto no Brasil. 113 O aborto é tema polêmico na generalidade dos países. No Brasil, em virtude de suas raízes e tradições religiosas, o debate sobre a sua liberação ganha profunda ressonância, a despeito das questões sociais e econômicas concorrentemente envolvidas. Além disso, é forçoso reconhecer que em razão de rede de assistência pública deficitária, o problema tornar-se uma séria questão de saúde pública, considerando que – por óbvio – a criminalização do aborto não impede que a sua prática ocorra, muitas vezes acarretando sequelas gravíssimas nas mulheres que optam por essa via clandestina. Nesse particular, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, ocorreriam, no Brasil, aproximadamente um milhão de abortos clandestinos por ano, além de cerca de 250 mil internações para tratamento de complicações pós-abortamento anualmente.233 A seu turno, um relatório oficial do Governo brasileiro, apontou que o “abortamento clandestino constitui a quinta causa de morte materna no país.”234 É de se observar, portanto que, muito mais do que uma “questão penal”, o aborto é fundamentalmente uma questão de “saúde pública”. Além da questão de saúde pública, a criminalização do aborto evidencia, igualmente, uma grave injustiça social. Com efeito, no Brasil, a verdade é que quem quer abortar o fará. Na realidade, a “distinção” repousará em saber – para além do drama pessoal que a questão naturalmente envolve – se a mulher que quer abortar terá recursos financeiros para fazê-lo em uma “clínica luxuosa”, cercada de segurança e mínimas condições higiene, ou em “clínicas de fundo de quintal”, isto é, condições ultrajantes, degradantes e perigosas para a sua vida e saúde. Vê-se, assim, o viés profundamente injusto da realidade social brasileira, pois aqui – como em muitas outras situações reprováveis do nosso cotidiano – o que parece preponderar é a condição ou classe social da grávida. Polêmicas a parte, certo é que o Código Penal foi considerado um diploma “avançado” para a época da sua edição (1940), no que diz respeito ao tratamento do aborto. Isso porque, contemplaram-se hipóteses de aborto legal nos incisos I e II, do art. 128, do CP, apesar da forte oposição por parte de segmentos sociais e religiosos.235 Mais recentemente, por uma série de precedentes judiciais que culminaram no julgamento da ADPF n. 54 do STF, uma nova hipótese de 233 Cf. http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-20/clandestinas-retratos-do-brasil-de-1-milhao-de- abortos-clandestinos-por-ano.html, acessado junho de 2016. 234 Cf. http://oglobo.globo.com/sociedade/governo-afirma-onu-que-aborto-clandestino-no-pais- problema-de-saude-publica-15550664, acessado junho de 2016. 235 Na época, vozes preconizam que o aborto legal deveria ser precedido de cerimônia religiosa, na qual um duto levaria um pouco de água benta até o feto, antes da manobra abortiva legal. 114 aborto foi oficializada em nosso ordenamento jurídico, qual seja, a interrupção legal da gravidez de feto anencefálico. Cumpre registrar, por outro lado, que o bem jurídico protegido pela incriminação do aborto é a vida decorrente da concepção. Por outras palavras, é a vida humana em formação uterina.Nesse particular, há quem diga que não se trataria, rigorosamente, de um “crime contra a pessoa”, na medida em que, biologicamente, o feto não teria uma vida independente da gestante. No entanto, certo é que o produto da concepção “vive” e é isso suficiente do ponto de vista do Direito Penal. Enquanto que o Código Civil declara que a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida, ressalvando, contudo, desde a concepção, os direito do nascituro, o Código Penal considera o feto como pessoa humana para fins de proteção jurídico- penal. Ressalte-se, ainda, que no autoaborto a objetividade jurídica é, como visto, o direito a vida do feto. No aborto provocado por terceiro, há duas objetividades jurídicas: (1) imediata, incidente sobre o direito a vida, cujo titular é o produto da concepção, e (2) mediata, incidente sobre o direito a vida e à incolumidade física e psíquica da própria gestante. 4. Sujeito ativo. Consoante o acima exposto, há três hipóteses de aborto: autoaborto ou aborto consentido; aborto praticado por terceiro sem o consentimento da gestante e aborto com o consentimento da gestante. No primeiro caso, o sujeito ativo é a própria gestante. Trata-se de crime próprio, conquanto admita o concurso de agentes, não sem alguma controvérsia doutrinária. Nos demais casos, o sujeito ativo pode ser qualquer pessoa. 5. Sujeito passivo. A vítima do delito de aborto é, em primeiro lugar, o produto da concepção, seja ele o óvulo fecundado, embrião ou feto. Todavia, há quem entenda que o sujeito passivo seria o Estado, na medida em que ele tem interesse na prevenção e repressão de todo e qualquer crime. Porém, por esse mesmo motivo – repita-se, pelo fato do Estado ser considerado “sujeito passivo constante” dos crimes em geral –, tem-se que a sua indicação como vítima dos crimes em questão pouco contribui para a respectiva análise dogmática. Demais disso, esse raciocínio conduziria a classificar o aborto como “crime vago”, ou seja, aquele sem um sujeito passivo pormenorizado, o que não condiz com sua condição de crime contra a vida. 115 Por sua vez, a mulher-gestante será, também, vítima na hipótese de aborto sem o seu consentimento. 6. Tipicidade objetiva. Nos delitos tipificados nos arts. 124, 125 e 126, do CP, o verbo homogêneo é o “provocar”. Provocar significa causar, produzir, originar, enfim, promover o aborto. Cuida-se de comportamento intencional ou, ao menos, com a assunção do risco, hipótese antagônica do aborto espontâneo ou culposo. Em suma, provocar aborto é interromper a gravidez antes de atingir o seu limite fisiológico, vale dizer, durante período compreendido entre a concepção e o início do parto. Tratando-se de delito de forma livre, qualquer meio, comissivo ou omissivo, idônea a causar a destruição do feto, será considerado aborto. Registre-se que a morte do feto pode ocorrer dentro ou fora do útero. Nesse sentido, é possível que, em razão do estágio adiantado, o feto venha a ser expulso do útero com vida, vindo a falecer imediatamente ou mesmo semanas depois da manobra abortiva. De toda sorte, estar-se-á diante do crime de aborto. Os procedimentos empregados para a provocação do aborto podem ser químicos, físicos e psíquicos. Meios químicos são aqueles que atuam internamente, causando intoxicação no organismo humano. Tratam-se de substâncias orgânicas ou inorgânicas. É possível que tais substâncias possam, a princípio, não ter propriedades abortivas, mas, em virtude de forte intoxicação da gestante, dar causa ao abortamento. A seu turno, meios físicos se dividem em mecânicos, que são considerados os mais aptos para a concretização delitiva, térmicos, como bolsa d’água quente, e elétricos, como corrente galvânica etc. Os meios mecânicos se dividem em diretos ou indiretos. São citados como meios mecânicos diretos os seguintes procedimentos: pressão sobre o útero; traumatismo vaginal ou do colo do útero (por exemplo, utilizando-se uma lâmina de metal) ou sobre o feto (punção, deslocamento e curetagem); utilização de objetos pontiagudos, como, v.g., gravetos de roseiras. Os meios mecânicos indiretos agiriam à distância do aparelho vaginal, como, por exemplo, uma queda provocada; a imposição a gestante da obrigação de se submeter à fortes exercícios físicos etc. Embora menos frequente, a doutrina assinala, ainda, que o aborto pode decorrer de meios psíquicos, como, v.g., sustos ou choques morais, imposição de terror etc. 116 De toda maneira, o que importa é idoneidade do meio empregado visto que, do contrario, poder-se-á estar diante de uma tentativa inidônea. Sendo assim, benzedeiras, rezas, crendices, substâncias inofensivas ou placebos caracterizam a figura do crime impossível, por absoluta ineficácia do meio.236 Nesse sentido, Luiz Regis Prado enfatiza que o aborto pode ser praticado por omissão. Segundo o Autor, “Nada obsta, portanto, a responsabilização do médico ou do enfermeiro que, dolosamente, não prestam o socorro devido ou deixam de prestar a assistência necessária para evitar o aborto espontâneo ou acidental, já que têm o dever jurídico de impedir o resultado.”237 Sob outra vertente, tem-se que o pressuposto típico objetivo dos crimes de aborto é a constatação de uma gravidez normal. É necessária a prova de que o feto estava vivo no momento da ação, razão pela qual se exige a realização de exame de corpo de delito direto ou indireto (crime que deixa vestígios). Do contrário, ou seja, tratando-se de gravidez patológica, não há que falar de delito. É o que ocorre, por exemplo, com a gravidez extrauterina ou molar, não haverá tipificação do aborto. No primeiro caso – isto é, na gravidez extrauterina –, o óvulo se desenvolve fora do ventre materno, como ocorre, v.g., na chamada gravidez tubária. Por sua vez, na gravidez molar, há uma formação derivada de membranas fetais, sem que haja a presença de um embrião. Há, na verdade, uma mola, pois o embrião foi naturalmente destruído, ficando, em seu lugar, restos do seu invólucro ou outras partículas. 6.1. Tipo objetivo do autoaborto ou aborto consentido. No art. 124 do CP, está tipificada a conduta de provocar o aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque. Como se observa, cuida-se de crime de mão própria onde há duas figuras típicas, sendo que a primeira consiste na gestante, querendo abortar ou assumindo o risco do abortamento, praticar, moto proprio, comportamento ilícito que acarreta o resultado desvalioso. É o que ocorre, por exemplo, com a ingestão de determinadas substâncias que têm a propriedade de causar forte hemorragia no corpo humano, dando azo ao abortamento. No caso do aborto consentido, o consenso da mulher integra a descrição típica, sendo certo que a conduta que interrompe a gravidez e destrói o 236 Cf. BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 167. No mesmo sentido: JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 155. 237 PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 669. 117 produto da concepção é praticada por outra pessoa que não a gestante. Longe de se consistir condição negativa do tipo ou de integrar causa supralegal de exclusão da antijuridicidade, o consenso, no caso, constitui condição positiva de tipicidade. O consenso, sinônimo de permissão, anuência, acordo e tolerância, deve ser manifestado de forma livre e consciente, detendo a mulher a capacidade para tanto.238 No crime sob comento, constata-se a incidência de uma exceção ao princípio da unidade do delito, contemplado no art. 29, caput, do CP. Acolhe-se, pois, a teoria a teoria pluralista no concurso de agentes, razão pela qual a mulher irá responder pelo delito sob apreço, ao passo que o concorrente responderá pelo tipo penal do art. 126 do CP.239 Segundo a doutrina, a mulher que consente no próprio aborto e, nasequência, auxilia decisivamente provocando ações abortivas, pratica um só crime, por se tratar de tipo penal de ação múltipla ou de conteúdo variado. Consoante lecionado por Cezar Bitencourt, quem provoca o aborto, com o consentimento da gestante, pratica o crime do art. 126 do mesmo estatuto e não o do art. 124. Assim, por exemplo, O agente que leva a amásia à casa da parteira, contrata e paga os seus serviços é autor do crime tipificado no art. 126, enquanto que a amásia, que consentiu, incorre no art. 124. Enfim, o aborto consentido não admite coautoria entre o terceiro e a gestante, constituindo uma das exceções à teoria monística da ação, que é a consagrada pelo nosso Código Penal. Em quem provoca aborto sem consentimento da gestante incorre nas sanções do art. 125.240 Insta salientar, ainda, que além de ser crime próprio – como dito acima –, cuida-se, igualmente, de crime de mão própria. Isso quer dizer que somente o sujeito ativo especial, a mulher gestante, pode praticar o aborto em si mesma ou permitir que outrem efetue o abortamento. Para a doutrina é possível o concurso de agentes no delito do art. 124 do CP, desde que o concorrente assuma posição acessória. Ao revés, se o concorrente praticar o ato de provocar o aborto, com o consentimento da gestante, responderá pelo tipo descrito no art. 126 do CP. Sob outro aspecto, considerando que a autolesão ou o suicídio é impunível, a gestante não responde pela causa de aumento de um terço, quando, em consequência do autoaborto ou do aborto consentido, lhe sobrevier lesão corporal de natureza grave (art. 127, 1ª parte, do CP), 238 Vide o parágrafo único, do art. 126 do CP. 239 Sobre os princípios que regem o concurso de pessoas vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 342 e segs. 240 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 168. (grifos do original). 118 tampouco – obviamente –, pela duplicação da pena em função do resultado morte. Entretanto, havendo participação, em sentido estrito, ao partícipe poderá ser imputado, não o tipo do art. 127 do CP, mas, sim, o tipo penal da lesão corporal grave ou do homicídio. Ainda sobre esse crime, indaga-se se a gestante responderá pelo autoaborto ou aborto consentido quando presentes, para ela, as hipóteses de aborto legal. Com relação a esta questão, parece não existir dúvidas de que a gestante não responde, em nenhuma hipótese, no caso de aborto terapêutico (art. 128, I, do CP), visto estar-se diante de uma situação típica de estado de necessidade. Contudo, com relação ao aborto sentimental, ou seja, quando a gravidez decorreu de estupro, parte da doutrina sustenta que remanesce o crime de autoaborto. Nesse sentido, Damásio de Jesus assinala que a norma contida no art. 128, II, do CP, exige que a intervenção abortiva seja feita por médico.241 Evidentemente, ainda que persista o injusto típico, parece inquestionável a inexigibilidade de conduta diversa, ou seja, de uma causa exculpante. Por óbvio, se aquela que pratica o autoaborto for médica, restará preenchido o citado requisito formal. Discute-se a situação jurídica daquele que tem participação bifronte. Isto quer dizer, o concorrente que, v.g., no mesmo contexto, induz tanto a mulher ao autoaborto e, em paralelo, o terceiro a realizar o aborto com consentimento, responderá como partícipe por qual dos dois delitos? Acerca da questão, há duas correntes. Para a primeira, quem participa do fato, ainda que com participação bifronte, responderá sempre pelo art. 126 do CP, por se tratar de crime mais grave, consoante o princípio da consunção ou absorção. Para a segunda corrente, deve-se verificar a postura do participante, vale dizer, se ele se restringir a concorrer à ação da gestante ou se também concorre com a ação do terceiro que efetuará o aborto. Conforme dito por Damásio de Jesus, “se se limita a induzir/instigar a gestante a prestar seu consentimento na provocação do aborto, responde pelo delito do art. 124, 2ª parte. Se, entretanto, emprestar qualquer auxílio na provocação do aborto, será partícipe do fato descrito no art. 126.”242 6.2. Tipo objetivo do aborto provocado por terceiro sem consentimento. No art. 125 do CP, está prevista a conduta de provocar aborto, sem o consentimento da gestante. No caso, o agente emprega a força física, a ameaça ou a fraude para a realização das manobras abortivas. Segundo Luiz 241 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 156. 242 Ibid., p. 156-157. 119 Regis Prado, o aborto “reputa-se praticado sem o consentimento, quer quando a gestante tenha se mostrado – por palavras ou atos – contrária ao aborto, quer quando desconhecia a própria gravidez ou o processo abortivo em curso.”243 Trata-se de hipótese mais grave de aborto e, portanto, mais severamente punida. Isso porque, ante a ausência de consentimento, a conduta delitiva acarreta lesão a duas vítimas: o feto e a gestante. Com efeito, o pressuposto do delito tipificado no art. 125, do CP, é o “dissenso” da gestante. O dissenso pode ser real, isto é, quando há o emprego de violência, fraude, simulação, grave ameaça, comportamentos estes voltados para obrigar ao abortamento; ou presumido, quando a gestante for menor de 14 anos ou alienada ou débil mental, consoante o teor do art. 126, parágrafo único, do CP. 6.3. Tipo objetivo do aborto provocado por terceiro com consentimento. O art. 126 trata do aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante. Na verdade, o tipo em questão contempla duas hipóteses: 1) aborto consensual simples, previsto no caput do dispositivo; e 2) aborto consensual qualificado, descrito em seu parágrafo único, que, na verdade, exemplifica situações relativas ao delito antecedente (aborto sem o consentimento). Como visto linhas antes, trata-se de exceção à teoria monista do concurso de agentes, fundada no desnível de grau de reprovabilidade entre as condutas da gestante que anuiu e do terceiro, que fez a manobra abortiva. Consentimento ou consenso significa a permissão, anuência, tolerância da gestante para com o provocar aborto, consenso este expresso (inequívoca vontade) ou presumido (como, p. ex., manter-se a gestante em estado de passividade). Pressupõe-se, naturalmente, que a gestante tenha capacidade de consentir. O consentimento também pode ser aferido por “exclusão”, ou seja, há concordância desde que não se trate de pessoa menor de 14 anos, alienada ou débil. Por outro lado, se houver emprego de violência física ou moral, ou, ainda, de fraude, não existirá, obviamente, consentimento para o aborto, subsumindo a conduta no tipo do art. 125 do CP, conforme o disposto no parágrafo único do artigo sob consideração. A anuência pode ser pode ser expressa ou tácita, verbal ou por escrito, devendo perdurar – segundo as palavras de Damásio de Jesus – durante toda 243 PRADO, Luiz Régis. Op. cit., p. 673. 120 a conduta do terceiro, conhecendo a gestante o fato em suas bases integrantes (fato material). Segundo, ainda, aquele Autor, o consentimento, anterior à ação, deve continuar durante todo o fato da provocação: Se, não obstante o assentimento prévio, a gestante desiste de prosseguir antes de tornar-se eficaz a provocação, o terceiro não comete o crime de aborto consensual, mas sim o fato descrito no art. 125 do CP. Embora o consenso constitua elemento subjetivo do tipo, a conduta da gestante não é meramente subjetiva. Seu comportamento não é simples omissão ou conivência. Ela coopera com o terceiro nas manobras abortivas. Não permanece inerte, mas colabora pelo menos com movimentos corpóreos (p. ex.: colocando-se em posição obstétrica). Não se omite, age. É necessário, porém,http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm#art144 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13142.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 18 praticado contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos. (Redação dada pela Lei nº 10.741, de 2003) § 5º - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária. (Incluído pela Lei nº 6.416, de 24.5.1977) § 6o A pena é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio. (Incluído pela Lei nº 12.720, de 2012) § 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado: (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima. (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015) 1. Introdução. Homicídio – do latim homicidium, proveniente da junção das palavras hominis, “homem”, e excidium, “matar” – consiste no ato de uma pessoa matar outra. Em outras palavras, é morte, destruição, eliminação ou ocisão da vida de um ser humano, por parte de outro. De forma mais precisa, cuida- se da injusta eliminação da vida humana extra-uterina.5 Embora seja frequente – ou coloquial – a utilização das expressões “homicídio” e “assassinato” como sinônimo, do ponto de vista jurídico-penal, são vocábulos distintos. Homicídio é o gênero do delito sob consideração, ao passo que assassinato significaria uma das modalidades de homicídio, qual seja, aquele cometido de forma mercenária, razão pela qual, nesta hipótese, incide a qualificadora prevista no art. 121, § 2º, inc. I, do CP.6 Em linhas gerais, merece observar que, no Código Penal, há previsão de diversas modalidades de homicídios. São elas: homicídio simples (art. 121, caput); homicídio privilegiado (art. 121, § 1º); homicídio qualificado (art. 121, § 5 Cf. Nélson Hungria: “O latim clássico não conheceu o termo homicidium, que só mais tarde foi empregado. A famosa Lex Cornelia, promulgada ao tempo de Sila, designava os homicidas, na falta de outro vocábulo, como sicarii.” (HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 28-29). 6 Cf. lecionado por Nélson Hungria: “O texto legal faz menção expressa do homicídio por mandato remunerado (pecunia accepta vel pretio convento). É o assassinium do direito medieval, que, na espécie, chegava a autorizar, ad terrorem, fossem os culpados cortados aos pedaços (per frusta scinduntur), da a hediondez do crime (propter criminis immanitatem).” (HUNGRIA, Nélson. Op. cit., p. 163-164). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2003/L10.741.htm#art121§4 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6416.htm#art121§5 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6416.htm#art121§5 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12720.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13104.htm#art1 19 2º); homicídio culposo (art. 121, § 3º).7 Alude-se, de forma não muito técnica, a figura do “homicídio preterdoloso”, que, na verdade, é o crime de lesão corporal seguida de morte (art. 129, § 3º, do CP). Há, ainda terminologicamente, a expressão “genocídio” – junção do grego genos, que significa “raça”, “tribo” ou “nação”, com o latim excidium, já mencionado.8 No nosso Direito Penal, o crime de genocídio encontra-se tipificado no art. 1º, al. “a”, da Lei n. 2889/56, bem assim no art. 6º, al. “a”, do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. Ambos os dispositivos mencionam a conduta criminosa de “matar”, no todo ou em parte, “grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal”. Cumpre mencionar que o homicídio é um crime de bastante relevância no sistema penal e carcerário brasileiro. Segundo dados recentes, é a terceira causa de encarceramento, com o total de 63.066 presos, atrás apenas dos crimes contra o patrimônio (267.975 presos) e tráfico de drogas (138.198 presos).9 Por outro lado, as taxas de homicídio no Brasil apresentam-se elevadas: 1.145.908 vítimas de homicídio entre os anos de 1980 e 2011, um crescimento de 131,1%. Desde 1980, quando as pesquisas científicas começaram a ser feitas, o País tinha uma taxa de homicídio de 11,7 por 100 mil habitantes. De 2003 (em que a taxa de homicídio era de 28,9 por 100 mil habitantes) ao ano de 2007, houve um declínio no número de homicídios fruto de campanhas de desarmamento em algumas unidades da federação. Em 2007, foram registrados 21.605 homicídios entre a população não-jovem (menos de 15 anos e mais de 25 anos) e entre a população jovem (dos 15 anos aos 29 anos), no mesmo ano, o número era de 26.102 vítimas. Entre os jovens, o homicídio foi causa de 28,5% das mortes no período de 1980 a 2011.10 7 Cumpre observar que, com o advento da Lei 9.503/97 (Código de Trânsito Brasileiro), o homicídio culposo decorrente da direção de veículo automotor – que corresponde a grande maioria das incidências dessa figura delituosa – passou a subsumir-se ao disposto no seu art. 302. 8 A propósito, tem-se que a palavra “genocídio” teria surgido em 1943, por criação de Raphael Lemkin para designar a morte sistemática de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Ressalte-se que o conceito originalmente delineado por Lemkin era mais restrito do que o adotado na Convenção para Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio de 1948. O autor entendia por genocídio a destruição de uma nação ou de grupo étnico, enquanto na referida Convenção, o genocídio foi concebido como “a intenção de detruir no todo ou em parte um grupo nacional, étnico, racial ou religioso” (Cf. LEMKIN, Raphael. Axis rule in occupied Europe: Laws of occupation, analysis of government, proposals for redress. 2nd Ed. The Lawbook Exchange, p. 79 e segs.) 9 JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Desafios contemporâneos da execução penal no Brasil. In Revista Eletrônica de Direito Penal, Rio de Janeiro, V. 2, n. 1, p. 101-111, dez. 2015. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2015. 10 Disponível em: Acesso em: 29 set. 2015. 20 Deve-se, ainda, mencionar que o Brasil supera, em taxa de homicídio, os países mais populosos do mundo com a taxa de 27,4 homicídios por 100 mil habitantes em 2010, ficando à frente do México (22,1 homicídios por 100 mil habitantes), da Rússia (13,3 homicídios por 100 mil habitantes) e das Filipinas (13 por 100 mil habitantes).11 A propósito, se comparada a taxa de homicídio no Brasil – país, a rigor, sem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristasque sua conduta não se insira no processo causal da provocação, isto é, que não pratique fato de provocação do aborto. Se, por exemplo, a par do meio empregado pelo terceiro, a gestante pratica exercícios exagerados para facilitar o processo da interrupção da gravidez e morte do produto da concepção, ocorrendo o resultado, responde por autoaborto, pois neste caso provocou o resultado.244 7. Tipo subjetivo. O tipo subjetivo dos crimes de aborto é o dolo, ou seja, a vontade livre e consciente de interromper, direta ou indiretamente, a gravidez e provocar a eliminação do feto ou a assunção do risco dessa provocação. Não se exige nenhum especial fim de agir. Segundo Damásio de Jesus, um exemplo de aborto com dolo eventual consistiria na gestante, de forma livre e consciente, praticar esporte violento ou radical, tendo consciência de que pode vir a abortar.245 No aborto qualificado pelo resultado (art. 127 do CP), o crime é preterdoloso. Isso quer dizer que há dolo no antecedente (no ato provocar o aborto) e culpa no consequente, ou seja, na produção do resultado lesão corporal de natureza grave ou morte da gestante. Cumpre observar que o aborto culposo não é punível no Brasil. Há lugares, contudo, nos quais a gestante pode vir a responder quando viola determinado dever de cautela, o que não ocorre em nosso ordenamento jurídico. Por sua vez, o terceiro que, culposamente, causa o aborto na gestante, como, p. ex., em um acidente de bicicletas, responderá pelo crime de lesão corporal culposa. A propósito, reitere-se, novamente, que há previsão preterdolosa para aborto, no caso de lesões corporais de natureza grave (art. 244 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 157-158. 245 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 155. 121 129, § 2º, V, do CP), desde que o agente tenha ciência do estado gravídico da mulher. 8. Consumação e tentativa. Nos delitos de aborto, a consumação se dá com a produção do resultado morte do feto, depois da interrupção da gravidez. É desnecessária, como dito, a sua expulsão. Para a caracterização do delito, pouco importa a viabilidade da vida; desde que comprovado que o feto estava vivo e não se tratava de uma gravidez patológica ou anencefálica. A morte do feto deve ser efeito da interrupção da gravidez ou do emprego dos meios para obtê-la. Se a morte decorrer de outra causa, como, v.g., o feto conseguir sobreviver, vindo, porém, a falecer em razão de infecção hospitalar, poderá ser caracterizada a tentativa de aborto, nos termos do art. 13, § 1º, do CP. Se o feto já estava morto quando da provocação da interrupção da gravidez, haverá crime impossível, ante a absoluta impropriedade do objeto, conforme o disposto no art. 17 do CP. Tem-se como perfeitamente possível a tentativa de aborto. É o que ocorre, por exemplo, quando as manobras abortivas não têm o condão de interromper a gravidez, acarretando, tão-somente, a aceleração do parto ou o chamado parto prematuro. Acresça-se, ainda, que é cabível o conatus mesmo na hipótese abaixo considerada (art. 127 do CP), ou seja, quando o feto sobrevive apesar da gestante sofrer lesões corporais de natureza grave ou morte. 9. Aborto qualificado (art. 127 do CP). Com efeito, o art. 127 do CP, trata, na verdade, não de uma qualificadora em sentido estrito, mas, sim, de causa de aumento de pena no aborto provocado por terceiro. Está, portanto, equivocada a menção do legislador a expressão “forma qualificada”, pois, na verdade, não há o estabelecimento de novo patamar punitivo, mas sim de uma elevação, de um terço ou o dobro, a depender do resultado, sobre as penas cominadas nos arts. 125 e 126 do CP.246 Cuida-se daquilo que se denomina de aborto preterdoloso ou preterintencional, incidente sobre os arts. 125 e 126 do CP. A elevação de pena não incide no art. 124 do CP (autoaborto), uma vez que, como visto acima, a legislação penal brasileira não pune a autolesão. Deve-se registrar que a “qualificadora” do art. 127 do CP, não faz referência a lesão corporal de natureza leve, na medida em que este tipo de 246 Sobre a distinção entre qualificadoras e causas de aumento de pena vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 522-523. 122 ferimento é ínsito ao próprio ato de abortar. Sendo assim, o dispositivo prevê a majoração punitiva se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave ou morte. Por outras palavras, pune-se de forma mais acentuada consequências mais graves contra a integridade física ou a própria vida da gestante, em si não resultantes ou não inerentes ao ato de abortamento. Conforme explanado pela doutrina, o legislador prevê, no caso, duas hipóteses: 1) Há provocação do aborto e, em consequência, a vítima vem a morrer ou a sofrer lesão corporal de natureza grave; e 2) O sujeito emprega meios destinados à provocação do aborto, que não ocorre, mas, em consequência, advém a morte da gestante ou lesão corporal de natureza grave.247 Segundo se depreende do art. 127, se, em função do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave, as penas cominadas nos arts. 125 e 126 são aumentadas de um terço. Se sobrevém a morte da gestante, as penas são duplicadas. Todavia, na hipótese do agente atuar com dolo direto ou eventual para causar lesão corporal de natureza grave ou a morte da gestante, tem-se que ele irá responder pelo aborto (art. 125 ou 126 do CP), em concurso formal impróprio com o art. 129, §§ 1º ou 2º, ou com o art. 121, todos do CP. No caso, não incidirá a majoração de pena do art. 127, por força do princípio do ne bis in idem. 10. Aborto legal (art. 128, incs. I e II, do CP, e ADPF 54). Segundo o art. 128, incs. I e II, do CP, não se pune o aborto praticado por médico: 1) se não há outro meio de salvar a vida da gestante; e 2) se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Cuida-se de causas de exclusão da ilicitude ou antijuridicidade, previstas na Parte Especial do Código. Ao lado dessas duas hipóteses de aborto legal, soma-se aquela decidida pelo STF por ocasião do julgamento da ADPF 54, qual seja, o aborto de feto anencefálico. 10.1. Aborto necessário ou terapêutico. Também chamado de aborto indireto, caracteriza-se pela situação de conflito entre a vida da gestante e a vida do nascituro. O aborto necessário só é permitido quando não há outro meio de salvar a vida da gestante. Para o Código Penal, o aborto necessário, praticado por médico, exige dois 247 Cf. JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 159. 123 requisitos cumulativos: 1) perigo de vida da gestante; e 2) inexistência de outro meio para salvá-la.248 Cuida-se de situação característica de atuação em estado de necessidade (art. 24 do CP). Ou seja, diante do conflito incontornável entre os bens jurídicos vida da gestante e vida do feto, o legislador faz opção àquele em detrimento deste. Nesse sentido, para Luiz Regis Prado, fundamenta-se o estado de necessidade porque “a conduta do médico visa afastar de perigo atual – ou mesmo iminente – bem jurídico alheio (vida da gestante), cujo sacrifício, nas circunstâncias, não é razoável exigir-se. O mal causado (morte do produto da concepção) é menor do que aquele que se pretende evitar (morte da mãe).”249 Segundo, ainda, Regis Prado, se o aborto é praticado por pessoa não habilitada legalmente – como, v.g., enfermeira –, a exclusão da ilicitude também ocorre com lastro no estado de necessidade justificante (arts. 23, I, e 24, CP), “mas é preciso a existência de perigo atualpara a vida da gestante.”250 Pressupõe-se, para a realização do aborto necessário, que haja a existência de laudo médico indicativo da intervenção abortiva. É o que ocorre, por exemplo, nos casos em que a gestante padece de grave anemia, câncer uterino em evolução, trombose, hemorragias etc. Cumpre observar que, se o prosseguimento da gravidez e o parto provocar perigo para a saúde, mas não para a vida da gestante, não há que falar de aborto necessário. 10.2. Aborto sentimental ou ético. Conhecido, igualmente, como aborto da estuprada, foi uma inovação trazida pelo Código Penal de 1940. O fundamento ético dessa modalidade de aborto legal repousa no fato de que a legislação penal seria extremamente draconiana se exigisse da mulher, sob a ameaça de pena, o prosseguimento da gestação, bem assim a obrigação de criar um ser humano que lhe recordaria, a todo instante, o episódio de violência e brutalidade da qual fora vítima.251 Contudo, esta forma de aborto legal demanda a certeza jurídica acerca da ocorrência de estupro, bem assim a manifestação de vontade da gestante 248 Cf. BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 174. 249 PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 676. 250 Ibid. 251 No mesmo sentido: “O fundamento da indicação ética reside no conflito de interesses que se origina entre a vida do feto e a liberdade da mãe, especialmente as cargas emotivas, morais e sociais que derivam da gravidez e da maternidade, de modo que não lhe é exigível outro comportamento.” (PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 677). 124 ou de seu representante legal. Com relação a prova do estupro, ela pode se dar por qualquer meio idôneo, como, p. ex., as circunstâncias fáticas, boletim de ocorrência policial, prontuário de atendimento médico etc. Embora a lei não exija, não é raro que o médico solicite que a estuprada obtenha “autorização judicial de aborto”, para que ele se acautele acerca da intervenção médica, precavendo-se do risco de incidir no crime de aborto diante de uma inverídica comunicação de violência sexual. Não obstante, a doutrina é uníssona no sentido da desnecessidade de tal providência judicial.252 Tendo em vista a reunião dos delitos de estupro e atentado violento ao pudor numa única figura típica (art. 213, com a redação dada pela Lei n. 12.015/2009), ficou superada a polêmica referente ao aborto legal quando a gravidez resultar de atentado violento ao pudor (o agora revogado art. 214, do CP). Por outro lado, a Lei n. 12.015/2009 trouxe a baila a questão da legitimidade de aborto sentimental no caso de estupro de vulnerável (art. 217-A, do CP). Para Damásio de Jesus, não se deve punir o aborto praticado por médico se a gravidez resulta de estupro de vulnerável: O CP, no art. 128, II, fala em estupro. Este delito encontra-se definido nos arts. 213 e 217-A, com a redação dada pela Lei n. 12.015/2009. Ora, se existem dois crimes subsumíveis à definição legal de estupro, e o CP, na norma permissiva do aborto, não faz distinção, é porque pretende que em todos os casos de existência do delito não responda o médico pela provocação do fato.253 Por fim, conforme lecionado por Luiz Regis Prado, o art. 128, II, é norma não incriminadora excepcional. Dessa forma, segundo aquele Autor, “não é possível sua aplicação por analogia para abranger casos em que a gravidez seja decorrente de outro delito sexual (v.g., art. 215, CP – violação sexual mediante fraude), mesmo que em benefício do réu.”254 10.3. Aborto de feto anencefálico (ADPF 54). 252 Cf. “Essa restrição [autorização judicial] não consta do dispositivo, e, consequentemente, sua ausência não configura o crime de aborto. O médico deve procurar certificar-se da autenticidade da afirmação da paciente, quer mediante a existência de inquérito policial, ocorrência policial ou processo judicial, quer por quaisquer outros meios ou diligências pessoais que possa e deva realizar para certificar-se da veracidade da ocorrência de estupro. Acautelando-se sobre a veracidade da alegação, somente a gestante responderá criminalmente (art. 124, 2ª figura) se for comprovada a falsidade da afirmação. A boa-fé do médico caracteriza erro de tipo, excluindo o dolo, e, por consequência, afasta a tipicidade.” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 175). 253 JESUS, Damásio E. de. Op. cit., p. 161. No mesmo sentido: BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 176. 254 PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 678. 125 Feto ou embrião anencefálico é aquele que apresenta um processo patológico, caracterizado pela falta de estruturas cerebrais (hemisférios cerebrais e córtex), o que impede o desenvolvimento das funções superiores do sistema nervoso central, impedindo, por via de consequência, alcançar as etapas mais avançadas de vida, tanto intra como extrauterina.255 Parte da doutrina procura tratar o aborto de feto anencefálico como sendo comportamento penalmente atípico, na medida em que, por não existir a viabilidade da vida humana, não haveria, por conseguinte, bem jurídico passível de tutela penal. Nesse sentido, o art. 3º, da Lei n. 9.434/1997, considera não existir mais vida quando há o diagnóstico de “morte encefálica”, constatada por dois médicos, circunstância autorizativa da retirada post morten de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano. Nesse sentido, Luiz Regis Prado assinala que o anencéfalo não é biologicamente capaz de concretizar-se em uma vida humana viável, razão pela qual o aborto, nessa circunstância, trata-se de “fato atípico, visto que falta o desvalor da ação, considerada essa postura dogmaticamente preferível a qualquer outra.”256 Todavia, há quem prefira contornar a polêmica acerca da existência ou não de vida no anencéfalo, preferindo tratar a hipótese como causa exculpante, na medida em que não seria exigível da gestante comportamento diverso. Ficaria, assim, ao seu escrutínio pessoal prosseguir ou não com essa hipótese de gravidez, sendo defeso ao Estado imiscuir-se nessa matéria de foro íntimo da gestante. Nesse sentido, Cezar Bitencourt formula a seguinte indagação: Com que autoridade moral o Estado poderá exigir dessa gestante que aguarde o ciclo biológico, mantendo em seu ventre um ser inanimado, que, quando a natureza resolver expeli-lo, não terá alternativa senão pranteá-lo, enterrá-lo ou cremá-lo? Para aquele Autor, a inexigibilidade de conduta diversa, nessa hipótese, deve ser aceita como causa excludente da culpabilidade. Assim, na hipótese de anencefalia, “não se pode reprovar o abortamento de uma aflita e desesperada gestante.”257 Após longa discussão doutrinária, e diante de uma jurisprudência bastante conflitante acerca da legalidade ou não do aborto de feto anencefálico, o Supremo Tribunal Federal pacificou a questão por intermédio do julgamento da ADPF n. 54, em abril de 2012, verbis: ESTADO – LAICIDADE. O Brasil é uma república laica, surgindo absolutamente neutro quanto às religiões. Considerações. FETO 255 Ibid., p. 680. 256 Ibid., p. 681. 257 BITENCOURT, Cezar Roberto. Op. cit., p. 186. 126 ANENCÉFALO – INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ – MULHER – LIBERDADE SEXUAL E REPRODUTIVA – SAÚDE – DIGNIDADE – AUTODETERMINAÇÃO – DIREITOS FUNDAMENTAIS – CRIME – INEXISTÊNCIA. Mostra-se inconstitucional interpretação de a interrupção da gravidez de feto anencéfalo ser conduta tipificada nos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II, do Código Penal.258 Observa-se, portanto, que o STF optou por considerar a conduta de provocar o aborto de feto anencéfalo como atípica. Diante dessa interpretação, nem a gestante ou o médico – bem assim todos que porventura concorram para a prática dessa modalidade de aborto, consoante a teoria da acessoriedade limitada259 –, praticam fatopenalmente relevante. Sob outra vertente, não há que confundir aborto de anencefálico com aborto engenésico. No caso de indicação eugenésica ou eugênica – não admitida pela legislação brasileira –, existem fundados riscos de que o embrião ou o feto sejam portadores de graves anomalias genéticas de qualquer natureza ou de outros defeitos físicos ou psíquicos decorrentes da gravidez. Vê-se, assim, que há uma relação de gênero (aborto eugenésico) e espécie (aborto anencefálico).260 Na mesma esteira, não se admite, no Brasil, o chamado aborto econômico. Vários seriam os motivos que justificariam a admissão dessa modalidade de aborto: 1) fatores estritamente econômicos, tais como baixa renda, família numerosa com precária situação financeira, problemas de moradia, dívidas elevadas etc. e 2) fatores de natureza social, tais como situação de grave enfermidade física ou psíquica de algum membro da família ou da própria mãe, desde que insuscetível de inclusão na indicação terapêutica, gravidez fruto de relações extramatrimoniais, mãe muito jovem ou idosa, sem condições de assumir a maternidade e suas obrigações etc.261 Antes de se concluir o presente tópico, deve-se fazer menção aos casos de microcefalia em fetos de grávidas aparentemente contaminadas pelo Zika Vírus. Com efeito, diante da severidade dos danos que acarretados por essa moléstia, tem-se discutido a possibilidade de utilização de analogia in bonam partem, de forma a que seja autorizada judicialmente a interrupção da gravidez, assegurando-se, assim, àquelas que optarem por tal providência, o acesso seguro a rede pública de saúde. 258 STF. ADPF 54. Tribunal Pleno. Relator Min. Marco Aurélio. In http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 259 Sobre as teorias da acessoriedade da participação, vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 373-374. 260 Cf. PRADO, Luiz Regis. Op. cit., p. 678-680. 261 Ibid., p. 681. 127 A matéria está em pauta no Supremo Tribunal Federal nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade 5581/DF, movida pela Associação Nacional dos Defensores Públicos – ANADEP para impugnar o art. 18, caput e §§ 2o e 3o da Lei n. 13.301/2016. Em conjunto, a entidade também promoveu Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, por julgar as políticas públicas estatuídas pela referida lei insuficientes para garantir os direitos de mulheres e crianças infectadas pelo vírus da zika262. Em parecer apresentado nos autos do aludido processo, a Procuradoria Geral da República sustentou que a continuidade forçada de gestação em que há certeza de infecção pelo vírus da zika representa violação do direito fundamental à saúde mental da mulher e à garantia constitucional de vida livre de tortura e gravos severos. Salientou-se que a vida, a liberdade e a igualdade são direitos fundamentais de igual hierarquia e que, no caso em questão, a infecção pelo vírus da zika atinge a saúde mental da mulher antes mesmo de existir uma criança com deficiência à espera de cuidado263. O Procurador-Geral da República externou seu entendimento de que a criminalização da mulher que interrompe a gravidez nas circunstâncias ora examinadas equivaleria a definir que a reprodução é um dever, e não um direito, o que estaria em descompasso com o art. 226, § 7o da Constituição Federal. Invocou o precedente firmado na ADPF 54 e aduziu que “o Direito Penal é forma de recuperação e reafirmação da autoridade do estado por violação de direitos, não meio de tortura”. Concluiu, ao final, pela necessidade de conferir interpretação conforme aos arts. 124, 126, 23, I e 24 do Código Penal para considerar que a interrupção da gravidez em caso de comprovada infecção pelo zika vírus não constitui ilícito penal, por estar sob o amparo da causa de justificação genérica do estado de necessidade264. De outra banda, a Advocacia Geral da União esposou posicionamento oposto. Em documento apresentado ao STF, a AGU argumentou que a interrupção da gravidez por gestantes contaminadas pelo vírus da zika representa uma violação do direito à vida, uma vez que, ao contrário do que ocorre nas hipóteses de anencefalia, há viabilidade de desenvolvimento da criança, não obstante as limitações cognitivas. Considerou, pois, que o precedente da ADPF 54 não é aplicável à hipótese265. 262 STF. Defensores públicos questionam lei sobre combate a doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Brasília, 25 ago. 2016. Disponível em . Acesso em 19 out 2016. 263 MUNIZ, Mariana. PGR defende e AGU é contra aborto para grávidas com zika. JOTA. 8 set. 2016. Disponível em . Acesso em 19 out 2016. 264 Ibid. 265 Ibid. 128 O julgamento do processo, entretanto, ainda está pendente no âmbito do Supremo Tribunal Federal, a quem caberá lançar uma pá de cal sobre a polêmica. 11. Pena e ação penal. No autoaborto e aborto consentido, a pena prevista é de detenção, de um a três anos. O aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante é punível com pena de reclusão de três a dez anos. O aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante recebe a cominação de reclusão, de um a quatro anos. As penas cominadas ao aborto provocado por terceiro, com ou sem o consentimento da gestante, são aumentadas de um terço, se, por consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave, e são duplicadas se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte. A ação penal é pública incondicionada. Assim como ocorre com os demais crimes dolosos contra a vida, trata-se de crime da competência do Tribunal do Júri (art. 5º, inc. XXXVIII, al. “d”, da CF/1988). O autoaborto e o aborto consentido admitem a suspensão condicional do processo (art. 89 da Lei n. 9.099/1995), salvo se se estiver diante de violência doméstica e familiar contra a mulher (art. 41 da Lei n. 11.340/2006). 12. Questões de concurso público. 1ª Questão do Concurso de ingresso a Carreira de Juiz Substituto do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, ocorrido no ano de 2014. Maria, 22 anos, aos 7 meses de gestação decide praticar um aborto em si mesma. Para tanto, pede e obtém auxílio de sua irmã Ana, 24 anos, que adquire medicamento abortivo. Sem muita coragem, mas mantendo seu propósito inicial, Maria pede a Ana que lhe administre a substância, de forma endovenosa, o que é feito. Quando se inicia a expulsão do feto, ambas arrependem-se da prática, e procuram um serviço médico em busca de auxílio. O feto é expulso no hospital, mas em virtude do seu já adiantado estado de desenvolvimento, sobrevive sem sequelas. Maria, em razão da ação do medicamento abortivo, sofre uma histerectomia. Diante desse quadro, Maria: a) responderá por aborto tentado (tentativa imperfeita) em concurso com Ana. 129 b) não será punida, em virtude do arrependimento eficaz, e Ana será punida por lesão corporal gravíssima (perda de função reprodutiva). c) será punida por autoaborto, e Ana, por provocar aborto com consentimento de terceiro, mas ambas na modalidade tentada (tentativa imperfeita). d) e Ana não serão punidas, em virtude do arrependimento posterior. Resposta: A alternativa correta é a letra “B”. 130 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Fernando de Brito. VILAS BOAS, Márcia Cristina Alvater. Direito à cultura e o direito à vida: visão crítica sobre a prática do infanticídio em tribos indígenas. Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza – CE. Junho de 2010 , v. XIX. P. 4962-4973. Disponívelem:. Acesso em 19 out. 2016. BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado. São Paulo: Saraiva, 2002 _____. Tratado de Direito Penal. Vol. 2. 13ª ed. 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O bem jurídico tutelado, no crime de homicídio, é a vida humana extrauterina. No caso, o interesse juridicamente tutelado se funde com o próprio objeto material do crime, ou seja, o corpo humano. A vida humana, ora considerada, para fins de caracterização do crime, é entendida a partir do nascimento, isto é, durante o parto ou logo após. Releva esclarecer que se o ato for praticado antes do parto, cuidar-se-á de crime de aborto. Nesse sentido, para fins jurídico-penais, tem-se como iniciado o parto com a dilatação do colo do útero e rompimento da bolsa d’água (saco amniótico). Sobre o assunto, decidiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em sede de habeas corpus, que, com o início do “trabalho de parto”, resta configurada a hipótese de homicídio (ou infanticídio).13 Por outro lado, recaindo a conduta sobre pessoa sem vida, isto é, sobre alguém que já é cadáver, estar-se-á diante da figura do crime impossível, diante da absoluta impropriedade do objeto (cf. art. 17, do CP). Impossível 11 Id., ibid. 12 Id., ibid. 13 “(...) Os fatos descritos na denúncia são claros e determinados, podendo caracterizar, em tese, o crime de homicídio culposo por inobservância de regra técnica, não prosperando a alegação de ocorrência de ‘aborto culposo provocado por terceiro’ ou de crime impossível em razão do bebê ter sido retirado do ventre materno sem vida, pois consta dos autos que a mãe já havia entrado em trabalho de parto há mais de oito horas e os batimentos cardíacos foram monitorados por todo esse período até não mais serem escutados. 4. Iniciado o trabalho de parto, não há falar mais em aborto, mas em homicídio ou infanticídio, conforme o caso, pois não se mostra necessário que o nascituro tenha respirado para configurar o crime de homicídio, notadamente quando existem nos autos outros elementos para demonstrar a vida do ser nascente, razão pela qual não se vislumbra a existência do alegado constrangimento ilegal que justifique o encerramento prematuro da persecução penal. (...).” (STJ. HC 228.998. 5ª T. Min. Marco Aurélio Bellizze. Pub. DJe de 30.10.12). (grifou-se) 21 também será a conduta quando o meio utilizado for absolutamente ineficaz, como, por exemplo, o acionar de uma arma de fogo inapta ou descarregada. 3. Sujeito ativo. Trata-se de crime comum por excelência. Portanto, para configurar como sujeito ativo, o tipo em questão não exige do autor nenhuma condição ou qualidade especial. Em outras palavras, qualquer pessoa pode ser sujeito ativo do crime de homicídio, podendo o praticar sozinho ou em concurso de agentes. Por outro ângulo, exclui-se do rol de sujeito ativo aquele que atenta contra a própria vida, ou seja, o suicida. Não obstante, a participação em suicídio encontra-se tipificada, consoante os termos do art. 122, do CP. Outrossim, a mãe que mata o próprio filho, sob influência do estado puerperal, durante o parto ou logo após, pratica uma forma especial de homicídio, qual seja, o “infanticídio” (art. 123, do CP). 4. Sujeito passivo. Segundo a letra da lei, o sujeito passivo no homicídio é o “alguém”. Isto quer dizer, o ser humano vivo, sem quaisquer distinções possíveis ou imagináveis. Conforme antiga lição das aulas correntes nas nossas faculdades de Direito, “alguém” é qualquer ser que saia com vida das “entranhas de uma mulher”. A propósito, uma questão importante é a de se saber do início da existência humana para fins de homicídio, questão que também interessa para a tipificação do delito de infanticídio. Como visto acima – e de forma sistêmica com o delito de aborto –, a vida humana, para o homicídio, existe a partir do início do parto. Não se exige como no passado, que o crime pressuponha “vida humana viável”. Como dito, qualquer ser humano é – e sempre será – digno de tutela penal. O nascimento com vida se comprova pelos “exames docimácias”, vale dizer, com os exames indicativos de sinais de respiração, pulsações etc. Se se tratar de “cadáver” não há que falar de homicídio. A eliminação, total ou parcial desse objeto material, quando dolosa, poderá caracterizar delito contra o respeito aos mortos, ou seja, destruição (art. 211, do CP) ou vilipêndio a cadáver (art. 212, do CP). No caso de gêmeos siameses – ou “xipófagos” – tem-se que a morte de um acarretará, necessariamente, o perecimento do outro. Por essa razão, estar-se-á diante de um duplo homicídio, perpetrado, em tese, com dolo 22 direto ou imediato, em relação ao primeiro indivíduo, e dolo direto de segundo grau ou dolo eventual, relativamente ao segundo. A seu turno, quando a vítima for Presidente da República, do Senado Federal, da Câmara dos Deputados ou do Supremo Tribunal Federal, tendo o homicida atuado por motivações ou objetivos políticos, por força da regra da especialidade, o crime será o do art. 29, da Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83). Por fim, as Leis n. 13.104 e 13.142, ambas de 2015, alteraram o tipo penal do homicídio, para incluir qualificadores em razão de características especiais da vítima, vale dizer, quando o sujeito passivo for mulher e morta em razão da condição de sexo feminino e quando o crime for praticado contra autoridade ou agente das Forças Armadas ou da segurança pública, ou pessoas a ele vinculadas, em razão dessa condição. 5. Tipo objetivo. O tipo simples de homicídio14 contempla duas únicas elementares – “matar” e “alguém” –, que definem, com precisão, o ato da eliminação da vida humana. O verbo matar é considerado de forma livre ou indeterminada, ou seja, pode ser praticado por qualquer meio idôneo, desde que evidenciado o móvel de destruição da vida alheia. Nesse sentido, podem ser utilizados meios diretos ou indiretos, físicos, químicos ou até mesmo psíquicos. Desse modo, o núcleo do tipo pode ser realizado por ação – por exemplo, através de disparo de arma de fogo, punhaladas, envenenamento, estrangulamento etc. – ou por inação, quando caracterizada juridicamente a chamada posição de garantidor (art. 13, § 2º, do CP). É o que ocorre, por exemplo, no caso do agente deixar de fornecer alimentos a um recém-nascido, tendo a obrigação de fazê-lo.15 Como adiantado, o homicídio pode também pode ser praticado por meios psíquico ou morais. No caso, é importante observar se a ação do agente é apta a acarretar o evento morte. Imagine-se, por exemplo, a hipótese de uma pessoa cardiopata que sofre violenta emoção, provocada, dolosamente, por impropérios verbalizados pelo agente – ciente daquela condição de saúde –, ocasionando o seu óbito. Nesse sentido, assevera Magalhães Noronha, os meios psíquicos também podem se mostrar idôneos 14 Alude-se como “inadequada” a locução homicídio simples. Isso porque, na verdade, nenhum crime dessa natureza pode ser considerado um fato “simples”. O argumento procede, mas em parte certo. Procede na medida em que, efetivamente, nenhuma morte dada a outrem pode ser adjetivada como um fato simples ou de somenos importância. Contudo, há de se observar que metodologicamente, isto é, dentro da técnica do Direito Penal, a expressão “homicídio simples” visa diferenciar esta sorte de injusto típico, perpetrado na sua modalidade básica (art. 121, caput, do CP), das hipóteses privilegiada, qualificada e culposa de homicídio (art. 121, §§ 1º, 2º e 3º, do CP). 15 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 250 e segs. 23 quando, por exemplo, a violenta emoção é provocada dolosamente. Oexemplo do referido autor é de um filme (As Diabólicas) em que “um homem depois de fazer crer a sua mulher que ela o havia assassinado, aparece-lhe, durante a noite, em uma casa deserta e lúgubre, fulminando-a com uma síncope.”16 Cumpre consignar que o homicídio é crime material. Exige-se, portanto, a superveniência do resultado naturalístico – a morte – para a sua consumação. Por esse motivo, cuida-se de crime que deixa vestígios, sendo necessária, nos termos do art. 158, do Código de Processo Penal (CPP), a realização de exame de corpo de delito, que, no caso, denomina-se “exame cadavérico” ou “autópsia” (arts. 162 a 166, do CPP). Excepcionalmente – isto é, quando desaparecidos os vestígios – admite-se o exame de corpo de delito indireto, que, em geral, consiste na prova testemunhal relativamente a ocorrência do óbito (cf. art. 167, do CPP).17 Exemplos disso são os casos de desaparecimento forçado de pessoas, tão comum nas ditaduras latino- americanas, bem como hipóteses em que o corpo da vítima é lançado ao mar ou enterrado em mata fechada, dentre outras em que, embora o corpo não seja recuperado, a prova testemunhal confirme que houve o homicídio. Cumpre destacar, que o Supremo Tribunal Federal já consolidou o seu entendimento pela legitimidade da condenação criminal por homicídio que se vale de prova indiciária18. Assim, é possível fundamentar uma condenação por crime de homicídio com base em outras provas validamente obtidas – que não o corpo de delito – e que, veementes e coerentes entre si, permitam deduzir que houve o crime. Um caso emblemático em que foram admitidos indícios como prova da materialidade de um homicídio foi o desaparecimento de Eliza Samúdio, ex- namorada do então goleiro do Flamengo, Bruno. As provas obtidas no Inquérito Policial e ao longo do processo (provas periciais, documentais e testemunhais, entre elas o depoimento do primo adolescente do acusado Bruno) foram decisivas para apontar a materialidade indireta do crime, mesmo sem o corpo da vítima ter sido encontrado. A juíza da pronúncia aceitou a tese da acusação, entendendo que, na tentativa de não deixar vestígios, os agentes ocultaram ou extraviaram o cadáver da vítima Eliza Samúdio para não serem punidos. Ao final, o Goleiro Bruno e seus comparsas foram condenados pelo júri pelo crime de homicídio. 16 NORONHA, Edgard Magalhães. Direito Penal. Vol. 2. São Paulo: Saraiva, 1972, p. 18. 17 Sobre a discussão da “morte presumida”, vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 657 e segs. 18 Cfe RE nº 216.024/RS, Rel. Ilmar Galvão, 1ª Turma, unânime, DJ 13.08.1999; HC nº 74.152/SP, Rel. Sydney Sanches, 1ª Turma, maioria, DJ 08.10.1999; e INQ (QO) nº 1957/PR, Rel. Carlos Velloso, Pleno, maioria, DJ 11.11.2005. 24 Veja-se com isso também que pode haver, no caso concreto, a hipótese do concurso de crimes entre homicídio e outras figuras delituosas, como, por exemplo, com o crime de lesão corporal contra terceiro, aborto, no caso de vítima grávida, além da já citada ocultação do cadáver do homicídio etc. Por sua vez, cuidando-se de sucessivas mortes – como, v.g., o caso de matador em série ou serial killer –, a Reforma Penal de 1984 passou a admitir, nos termos do art. 71, parágrafo único, do CP, a possibilidade da incidência do crime continuado.19 Isso permite que o juiz, com base nas circunstâncias judiciais do caso concerto, aplique a pena de um só dos crimes, mas aumentada em uma escala que vai até o triplo. Por conta disso, a doutrina considera que a Parte Geral de 1984 tornou prejudicada a Súmula n. 605, do STF, que, até então, vedava a continuidade delitiva nos crimes contra a vida.20 Esse entendimento encontra-se corroborado na jurisprudência dos tribunais, como, v.g., em um Habeas Corpus impetrado junto ao STF que pugnava por nova dosimetria da pena em razão do não reconhecimento da continuidade delitiva diante de crimes de mesma espécie (homicídio e homicídio tentado). Nesse sentido, ante os pressupostos objetivos do art. 71 do CP, a prática de dois ou mais crimes da mesma espécie, condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras circunstâncias próximas, impunham, como decidido pela Corte Suprema, a unificação das penas mediante o instituto da continuidade delitiva. Nesse sentido, o seguinte arresto: CONTINUIDADE DELITIVA. CRIME CONSUMADO E CRIME TENTADO. Desinfluente, ante o disposto no art. 71, do Código Penal, é o fato de, em relação a delitos da mesma espécie – no caso, o homicídio – haver as figuras crime consumado e tentado. CONTINUIDADE DELITIVA. QUALIFICADORAS DIVERSAS. O enquadramento de crimes da mesma espécie – na hipótese, o homicídio – consideradas qualificadoras distintas não afasta o instituto da continuidade delitiva. CRIME DOLOSO CONTRA A VIDA. PENA. DOSIMETRIA – ERRO E CORREÇÃO – ÓRGÃO. Verificado o erro na fixação da pena, no que não levada em conta a continuidade delitiva, cumpre afastar do cenário jurídico o ato formalizado. Aperfeiçoado o veredicto dos jurados, impõe-se o reconhecimento da intangibilidade, voltando o processo ao Presidente do Tribunal do Júri para a prolação de sentença a fixar a pena. 21 6. Tipo subjetivo. 19 Ibid., pp. 540 e segs. 20 JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Parte Geral. 21ª Ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 600; DELMANTO, Celso et alli. Código Penal Comentado. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 134; BITENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 249. 21 STF. HC 83.575. 1ª T. Min. Marco Aurélio. Pub. DJ de 19.12.03. 25 O tipo subjetivo do art. 121, caput, e dos §§ 1º e 2º, do CP, é o dolo direto ou eventual. Consiste, pois, na consciência e vontade de matar outro ser humano (dolo direto de primeiro grau ou intenção), tomar a sua morte como consequência necessária de outra ação (dolo direto de segundo grau ou dolo ligado às consequências) ou de assumir o risco da ocorrência daquele resultado. O dolo no homicídio é conhecido pela expressão latina animus necandi. Sobre a caracterização do homicídio com dolo direto de segundo grau, calha citar o clássico Caso Thomas: Alexander Keith, que chamava a si mesmo de Thomas, hospedou-se, em dezembro de 1875, em um hotel de Bremen e preparou um grande tonel cheio de dinamite, colocando no interior um aparato de relógio que, ao funcionar em determinado instante, poria em movimento um embolo de aço, que, ao se chocar com a dinamite, determinaria a explosão do tonel. Depois de dar corda no mecanismo, dispondo-o de maneira a que a descarga ocorresse oito dias mais tarde, fez com que transportassem o tonel ao porto de Bremen. O propósito de Thomas era embarcar o tonel no vapor Mosela, da Cia. Lloyd, que saía de Bremen no dia 11 de dezembro de 1875, tendo, antes, feito, na Inglaterra, vários contratos de seguro sobre a mercadoria em quantias muito elevadas, contando com que a máquina infernal fosse explodir quando o Mosela se encontrasse em alto-mar, entre os portos de Southampton e de Nova York. A sua intenção era receber os valores segurados sem que se descobrisse a causa do ‘acidente’. Porém, ainda no cais de Bremen, no lugar imediato onde se achava ancorado o Mosela, quando os estivadores descarregavam o tonel da carruagem, este escapou-lhes das mãos, por causa do seu grande volume, produzindo uma grande explosão. Somente após oito dias foi possível conhecer exatamente o alcance dos estragos, que, em definitivo, atingiu as cifras de 59 mortos identificados, 50 feridos e 24 desaparecidos. Seis pessoas morreram a bordo do Mosela, e 20 foram feridos em maior ou menor proporção. Thomas saiu ileso.22 Neste caso verídico – como em outros, como, por exemplo, no hipotético caso no qual o agente coloca uma bomba em um avião comerciala ser explodida, em pleno voo, com o propósito de se vingar da Cia. aérea que o demitira –, o fim proposto (a vantagem ilícita em prejuízo das empresas de seguro) e os meios escolhidos (explosão do vapor Mosela), são abrangidos imediatamente pela vontade consciente de Thomas (dolo direto de primeiro grau). A seu turno, os efeitos colaterais necessários (mortes e lesões de pessoas, no cais ou em alto-mar), em face da natureza do fim proposto ou dos meios empregados, são abrangidos mediatamente pela vontade consciente do agente (dolo direto de segundo grau).23 22 Cf. MEZGER, Edmund. Tratado de Derecho Penal. Vol. II. 3ª ed. Trad. Rodrigues Munõz, 1957, p. 165. 23 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 230-231. 26 Cumpre, ainda, ressaltar que o tipo básico do art. 121, caput, do CP, não exige nenhuma finalidade especial de agir. Caso presente, a motivação do agente poderá determinar a incidência da modalidade privilegiada ou qualificada de homicídio. A seu turno, cuidando-se de morte acarretada por violação do dever objetivo de cuidado – vale dizer, sem intenção ou aceitação do resultado desvalioso –, estar-se-á diante da hipótese de homicídio culposo. 7. Consumação e tentativa. Como dito, trata-se de crime material ou de resultado. Desse modo, o homicídio somente se consuma com a superveniência do resultado morte. O Código Penal de 1969 – que nunca entrou em vigor – equiparava, para fins de punição, ao crime consumado a tentativa que acarretasse consequências de “excepcional gravidade” para a vítima, como cegueira ou paralisia.24 Uma questão que suscita controvérsia é a que diz respeito à certeza jurídica da morte, em particular quando o lesado é socorrido e levado até a emergência de um hospital. Em termos gerais, a doutrina divide-se entre aqueles que aceitam a chamada “morte clínica” – que significa, em regra, a paralisação do coração ou dos pulmões, mas as células do organismo ainda se encontram ativas – ou da “morte cerebral” ou “encefálica”, importando, pois, na completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro, decorrente, em geral, de severa agressão ou ferimento no cérebro, acarretando o bloqueio do sangue que vem do corpo para suprir este órgão vital.25 Sobre o assunto – e considerando que o que singulariza o fenômeno “morte” é o seu “caráter irreversível” –, tem-se que, de fato, o mais adequado, do ponto de vista jurídico, é a adoção o conceito de morte cerebral, pois se trata de fenômeno cientificamente irreversível. Nesse sentido, o art. 3º, da Lei n. 9.434/1997 (Lei de transplante de órgão), somente autoriza a retirada post mortem de tecidos, órgãos ou parte do corpo humano, destinada a transplante ou tratamento, após o diagnóstico de “morte encefálica”, constatado por dois médicos não participantes das equipes de remoção e transplante. 24 Cf. “Na punição da tentativa, manteve-se o critério de redução da pena, de um a dois terços, como regra geral. Todavia, em casos de gravidade excepcional, permitiu-se a aplicação da mesma pena prevista para o crime consumado. Recolheu-se, assim, a lição de nosso grande Costa e Silva (Código Penal, 1943, pág. 69). Se o agente, querendo matar, inutiliza a vítima, tornando-a, por exemplo, cega e paralítica, merece a pena do crime consumado. Sem chegar a tais extremos, outros casos podem ser formulados, a evidenciar a correção do critério.” (E. M. do CP/1969, item 9). Agregue-se que o Código Penal Militar, ainda em vigor, tem norma idêntica àquela do CP/1969 (SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 329). 25 Cf. BIBLIOTECA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE. In http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/146morte_encefalica. html, acessado dezembro de 2015. 27 A tentativa, perfeita ou imperfeita, é possível no crime de homicídio, desde que iniciada a fase de execução, não consiga, o agente, atingir a fase da consumação por circunstâncias alheias a sua vontade de matar. A tentativa pode importar em ferimentos na vítima – chamada, no caso, de “tentativa cruenta” – ou em nenhuma lesão física – a denominada “tentativa branca”. De toda sorte, é fundamental, para a incidência do conatus, que fique caracterizado o elemento subjetivo, ou seja, o citado animus necandi, direto ou eventual.26 É cabível, igualmente, a hipótese da desistência voluntária. Por exemplo, após errar o primeiro disparo, o agente não efetua outros, por vontade própria. Da mesma forma, pode ocorrer o arrependimento eficaz, v.g., após disparar, o agente muda de ideia, socorrendo e salvando a pessoa baleada.27 Não se descarta, por outro lado, a incidência do crime impossível. É o que ocorre, por exemplo, quando o agente atira em alguém que já estava morta, apesar de aparentar estar dormindo. Segundo o nosso Direito Penal, não se pune a figura do crime impossível ou da tentativa inidônea.28 Sobre o tema sob consideração, há, ainda, um dado relevante, consistente na distinção – teórica e prática – entre “tentativa de homicídio” e o delito de “lesões corporais”. Em muitos casos, não se pode afirmar, em abstrato, se um ato de agressão desferido pelo agente consiste em lesões corporais ou, diferentemente, uma tentativa de homicídio. Tudo irá depender da análise do tipo subjetivo, ou seja, da caracterização do animus ofendendi ou necandi, respectivamente.29 A propósito, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), desproveu recurso especial interposto pelo Ministério Público, confirmando a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, no sentido de que faltavam evidências do dolo (eventual) de matar. Em razão disto, determinou-se a desclassificação de homicídio qualificado para o crime de lesões corporais de natureza grave. Verbis: RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. TENTATIVA DE HOMICÍDIO. DESCLASSIFICAÇÃO PARA LESÃO CORPORAL GRAVE. AUSÊNCIA DE ANIMUS NECANDI. INCIDÊNCIA DO VERBETE SUMULAR N.º 07 DESTA CORTE. PRECEDENTES. RECURSO NÃO CONHECIDO. 1. O acórdão hostilizado consignou existirem elementos suficientes para demonstrar a autoria delitiva. No entanto, entendeu patente a falta de comprovação acerca do animus necandi dos agentes, rejeitando a tese de dolo eventual. Por essa razão, afastou a competência do Tribunal do Júri e desclassificou as condutas. 26 Cf. SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 329 e segs. 27 Ibid., p. 335 e segs. 28 Ibid., p. 338 e segs. 29 Em geral, o dolo se infere pelas circunstâncias do caso concreto, como, por exemplo, a violência dos golpes, o local do corpo humano atingido, a proximidade ou não de um órgão vital etc. 28 2. Com efeito, se o Tribunal de origem decidiu por uma das teses igualmente amparadas pelo conjunto fático-probatório dos autos, não cabe a esta Corte Superior de Justiça emitir qualquer juízo de valor acerca de qual versão seria mais acertada, por demandar minucioso exame das provas produzidas, o que não se coaduna com a via do recurso especial. Precedentes. 3. Recurso não conhecido. 30 Colhe-se do voto da Relatora o seguinte trecho: Não se pode afirmar que o resultado, cujo risco se teve por assumido, de fato, era a eventual morte da vítima, como narrado expressamente na denúncia. Assumir o risco da produção de um determinado resultado não é o mesmo que querer esse resultado. Daí não se pode dizer que os embargantes tenham assumido o risco de praticar a morte da vítima, nem mesmo que tenham assumido o risco da produção de qualquer resultado, até porque essa admissão caracterizaria o reconhecimento da responsabilização penal inclusive pelo caso fortuito, o que não é admitido pelo ordenamento jurídico. (...) Diante das diferentes interpretações tomadas nasinstâncias ordinárias, não vejo como conhecer do recurso especial interposto pelo Ministério Público estadual, já que, para tanto, far-se-ia necessário proceder ao revolvimento dos elementos fático-probatórios da causa, de modo a acolher a versão acusatória.31 Antes de concluir este tópico, merece registro que, nos termos do art. 1º, inc. I, da Lei n. 8.072/90, com a redação dada pela Lei n. 8.930/94, considera- se crime hediondo o homicídio simples, quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente, bem assim o homicídio qualificado.32 8. Homicídio privilegiado. O homicídio privilegiado, regulado no art. 121, § 1º, do CP, cuida-se, na verdade, de uma causa especial de diminuição de pena, variável de 1/6 a 1/3. Por consequência, caso presentes os seus pressupostos, o juiz deve proceder a referida diminuição, podendo a pena final ser fixada abaixo do mínimo legal cominado.33 30 STJ. REsp. 1134619. 5ª T. Min. Laurita Vaz. Pub. DJe de 11.09.13. 31 Ibid. 32 Parte da doutrina critica a referida previsão legal: “(...) a atividade típica de grupo de extermínio sempre foi considerada pela nossa jurisprudência um crime cometido por motivo torpe. (...) Dessa maneira, não vemos como aplicar ao homicídio simples a qualificação de hediondo, pois, caso atue o agente como exterminador, a tipificação será de homicídio qualificado, já que o delito certamente será considerado repugnante.” (NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. 7ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 644). 33 Cf. “Vê-se, assim, que diferentemente do que ocorre com as circunstâncias judiciais e com as agravantes e atenuantes, para as causas de aumento ou de diminuição o legislador prevê a respectiva quantidade de majoração ou minoração punitiva. Outra dessemelhança entre elas é que para as causas de 29 Como dito, por se tratar de causa de diminuição de pena – ou minorante –, e não de um “tipo derivado” da forma básica, não há que falar, nos termos do art. 30, do CP, da sua comunicabilidade aos demais concorrentes, isto é, aos coautores ou partícipes. Consoante o citado art. 30, do CP, somente quando estiver presentes elementares de caráter pessoal – como, no caso, a nobreza da motivação da conduta – é que irá ocorrer a mencionada comunicabilidade.34 Cumpre observar que, na essência, o privilégio legal consiste em um especial fim de agir, qual seja, um motivo nobre (honoris causae). Isto acarreta uma menor reprovabilidade da ação delituosa, ou, por outras palavras, um menor desajuste da conduta ou abrandada periculosidade da ação do agente. Com efeito, são três as hipóteses de homicídio privilegiado. As duas primeiras dizem respeito a motivações voluntárias do agente ou determinados valores sociais; e a terceira toma como antecedente um comportamento reprovável da vítima. 8.1. Motivo de relevante valor social. A primeira hipótese privilegiada diz respeito ao homicídio praticado por motivo de relevante valor social. Isso quer dizer, há a redução de pena quanto o crime é praticado para afirmação ou reafirmação de valores relevantes da vida em comunidade, como, por exemplo, por “patriotismo”, pela “busca da paz” em local assolado por altas taxas de criminalidade etc. Exige-se, portanto, para a aplicação da minorante que o fato seja cometido por causa de relevantes interesses coletivos. Pode, igualmente, fundamentar a diminuição de pena a ocorrência, no caso concreto, de específicas paixões ou preocupações sociais, nobres em si mesmas e relativamente condizentes com a organização da sociedade. Em poucas palavras, cuida-se, pois, de motivo altruísta que acarreta menor reprovabilidade. Além de nobre, a motivação deve ser relevante, ou seja, de notável importância para o conjunto da sociedade. Observe-se, porém, que descabe a causa de diminuição quando o agente atua de maneira excessivamente arbitrária. É o que ocorre, por exemplo, com aumento e diminuição a pena aplicada pode ultrapassar, respectivamente, o limite máximo e mínimo cominado para o delito, o que não se verifica com as circunstâncias acima indicadas. Nesse sentido, a Súmula 231 do STJ: ‘A incidência da circunstância atenuante não pode conduzir à redução da pena abaixo do mínimo legal’.” (SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo A. Op. cit., p. 522-523) (grifos do original). 34 Ibid., p. 309 e segs. Cite-se, como exemplo, o tipo penal da exposição ou abandono de recém-nascido (art. 134, do CP): “Expor ou abandonar recém-nascido, para ocultar desonra própria. Pena: detenção, de seis meses a dois anos”. 30 os “justiceiros”, ou seja, indivíduos que matam supostos infratores impelidos por reprovável sentimento de vingança privada ou social. 8.2. Motivo de relevante valor moral. Eutanásia e ortotanásia. A segunda causa de diminuição de pena relaciona-se com convicções de caráter pessoal, ainda que com significado valorativo para a sociedade. É o que se dá, por exemplo, com o chamado homicídio piedoso ou por compaixão. Nesse sentido, o paradigma do homicídio por relevante valor moral parece ser a chamada eutanásia. Eutanásia, etimologicamente, significa “morte limpa”. Sobre o assunto, discute-se a possibilidade da eutanásia deixar de ser crime no nosso ordenamento jurídico, como ocorre em outros países.35 No particular – e apesar de um tema bastante polêmico –, não haveria, na eutanásia, a exclusão das elementares do crime, isto é, da tipicidade, da antijuridicidade, nem mesmo da culpabilidade. Segundo a lei vigente (lege lata), há somente a diminuição da reprovabilidade, por compreensível razão político-criminal, qual seja, o intuito de abreviar o irremediável sofrimento da vítima. Em que pese este entendimento – conforme noticiado pelo site ConJur – , um Tribunal do Júri, no Estado de São Paulo, absolveu um réu acusado de matar o próprio irmão, a pedido deste último, com o acolhimento da tese de “coação moral irresistível”. Verbis: A tese de coerção irresistível defendida pelo advogado Edmundo Cavanezzi convenceu os sete jurados presentes na Vara do Júri de Rio Claro (SP) a absolver seu cliente, Roberto, pelo crime de homicídio doloso contra o próprio irmão, Geraldo. A decisão põe fim ao trágico caso de fratricídio, pois o Ministério Público informou à defesa que não irá recorrer. Geraldo era tetraplégico e, dizendo se sentir um peso na vida da família, pediu que a mulher e o filho saíssem de casa. Em depressão profunda, passou a pedir que o irmão o matasse, para se libertar do sofrimento. No início, Roberto relutou, mas a forte insistência do irmão fez com que eles elaborassem um plano de simulação de assalto que terminaria com a morte de Geraldo, que financiou a compra da arma. “Apresentei ao júri a tese de coerção irresistível, pois foi um conjunto de situações que pressionaram Roberto a atender o pedido. Geraldo cobrava o irmão de tirá-lo daquela situação, pois teria sido ele que o colocou nela, ao chamá-lo para a corrida de carro que resultou no acidente que o 35 Segundo Roxin, eutanásia é “a ajuda que se presta a uma pessoa gravemente doente, a seu pedido ou ao menos levando em conta sua vontade presumida, no sentido de proporcionar-lhe uma morte em consonância com a sua noção de dignidade humana.” (ROXIN, Claus. Estudos de Direito Penal. Trad. Luís Greco. Rio de Janeiro: Renovar, 2006 p. 177). 31 deixou tetraplégico. Os dois vinham de uma família de forte patriarcado e Geraldo era o irmão mais velho. Por isso não poderia ser desobedecido. Essa cobrança era diária”, afirmou Cavanezzi em entrevista à ConJur — ele atuou pro bono no caso.O advogado conta que Roberto passou a assistir filmes como Menina de Ouro e internalizar o conceito de que assassinar um ente amado para livrá-lo de sofrimento pode ser um ato de bondade e humanidade.36 Sob outra vertente, cabe não confundir eutanásia com ortotanásia. Ortotanásia ocorre, por exemplo, quando os médicos desligam os aparelhos hospitalares que mantém a vida artificial de um doente terminal. De lege ferenda, a ortotanásia não deverá mais ser crime.37 Todavia, de lege lata, é forçoso reconhecer que também a ortotanásia caracteriza o delito de homicídio, ainda que as circunstâncias indiquem, igualmente, a incidência da forma privilegiada. Isto porque não há como ignorar a relação de causalidade entre o resultado morte e a conduta da retirada dos aparelhos hospitalares, consoante a regra do art. 13, caput, do CP. Contudo, por intermédio da teoria da imputação objetiva, pode-se sustentar a não ocorrência, no caso da ortotanásia, do incremento do risco para o bem jurídico vida. A adoção daquela corrente teórica conduzia a exclusão da tipicidade objetiva do fato.38 8.3. Domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima. Trata-se daquilo que se convencionou chamar de homicídio passional. Vale dizer, a morte dada a outrem quando o agente está compelido por emoção altamente absorvente, emoção esta acarretada por prévia ação injusta da vítima. Com efeito, violenta emoção significa cólera ou ira, desde que não seja passageira. A reação deve ser imediata, pois não pode haver um intervalo entre a ação e a reação. A provocação, por parte da vítima, deve ser injusta, 36 MARTÍNES, Fernandes. Fratricídio Perdoado. Júri acata tese de coerção e inocenta homem que matou irmão a pedido dele. In http://www.conjur.com.br/2015-out-28/juri-sao-paulo-inocenta-homem- matou-irmao-pedido-dele, acessado outubro de 2016. 37 Segundo o Anteprojeto de Código Penal n. 236, do Senado Federal (PLS 236), com o Parecer dado pelo então Senador Pedro Taques, a ortotanásia passaria a ser causa justificante. Verbis: Art. 121 (...) Ortotanásia. § 6º No âmbito dos cuidados paliativos aplicados a pessoa em estado terminal ou com doença grave irreversível, não há crime quando o agente deixar de fazer uso de meios extraordinários, desde que haja consentimento da pessoa ou, em sua impossibilidade, do cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão. § 7º A situação de morte iminente e inevitável ou de doença irreversível, no caso do parágrafo anterior, deve ser previamente atestada por dois médicos.” (Cf. http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/106404, acessado outubro 2016). 38 Sobre causalidade e imputação objetiva, vide: SOUZA, Artur de Brito Gueiros; JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Op. cit., p. 205 e segs. http://www.conjur.com.br/2015-out-28/juri-sao-paulo-inocenta-homem-matou-irmao-pedido-dele http://www.conjur.com.br/2015-out-28/juri-sao-paulo-inocenta-homem-matou-irmao-pedido-dele http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/106404 32 consistindo em ofensas à honra, vias de fato, ameaças, deboches, bullying, apelidos indecentes, ações emulativas, entre outros.39 Enfatize-se que a provocação referida não importa, necessariamente, em uma agressão, abarcando, contudo, “todas e quaisquer condutas desafiadoras ou injuriosas”. A provocação pode, inclusive, ser “indireta”, isto é, dirigida contra “terceira pessoa ou até mesmo contra um animal”. Reitera-se, ainda, a necessidade de preenchimento dos dois requisitos complementares ao reconhecimento do privilégio: 1) o domínio de violenta emoção, tomando-se, como violenta, a emoção intensa, absorvente ou cega; e 2) a reação imediata do agente, ou seja, logo depois da provocação da vítima, sem hiato temporal, devendo perdurar o estado de violenta emoção. Cumpre observar, contudo, que não se deve confundir domínio com influência de violenta emoção. Domínio é um rompante de maior intensidade do que a mera influência ou perturbação emocional. A influência decorre, em geral, de uma simples altercação ou desentendimento entre as partes. Nesse sentido, o STF denegou Habeas Corpus, onde o impetrante questionava a sanção aplicada a um determinado paciente. Segundo a Corte Suprema, no caso concreto, cumpria distinguir a existência de anterior “discussão” entre as partes a respeito da ocupação de um imóvel e divisão do patrimônio, havia sido sopesada para elevar a pena-base (motivos do crime) e a violenta emoção, subsequentemente havida por causa de forte excitação do agente, logo depois de ter sido agredido pela vítima, que fez com que os jurados reconhecessem a figura do homicídio privilegiado. A propósito, vide o seguinte trecho do acórdão: (...) 6. O Conselho de Sentença acolheu a tese de homicídio privilegiado em razão (ou pelo motivo) de que o paciente agiu impelido de forte excitação ao ser agredido pela vítima, ou seja, por motivo diverso do utilizado para exasperar a pena-base. 7. Resulta legítima a fixação da pena-base acima do mínimo legal com fundamento em apenas uma das circunstâncias judiciais arroladas no art. 59 do Código Penal, in caso os motivos do crime (HC 76.196- GO, 2ª T., Rel. Min. Maurício Corrêa, DJ de 29/09/1998). 8. Ordem denegada.40 39 Para Luiz Régis Prado, “Exige-se, para a caracterização do privilégio, que a emoção do agente seja violenta, além de acompanhada de injusta provocação da vítima e da reação imediata daquele. A emoção violenta é a resultante de severo desequilíbrio psíquico, capaz de eliminar a capacidade de reflexão e de autocontrole. Configura, portanto, um ‘verdadeiro impulso de desordem afetiva, porque este é destrutivo da capacidade de reflexiva de frenagem’. A paixão, por representar um processo afetivo duradouro, somente configura o privilégio se geradora de um estado emocional violento.” (PRADO, Luiz Regis; CARVALHO, Érika Mendes de. CARVALHO, Gisele Mendes de. Curso de Direito Penal Brasileiro. Parte Geral e Parte Especial. 14ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 635). 40 STF. HC 108146. 1ª T. Relator Min. Luiz Fux. Pub. DJe de 22.06.12. 33 Por outro lado, se houver apenas “influência” de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima, não há que falar da hipótese privilegiada de homicídio, mas, somente, da incidência da circunstância atenuante do art. 65, III, al. “c”, do CP. A seu turno, a expressão “logo em seguida” pressupõe não ter havido solução de continuidade entre provocação e reação. Exige-se, em regra, uma “relação de imediatidade”. Contudo, é possível que ocorra o decurso de certo lapso de tempo, desde que o agente parta em uma hipotética perseguição ou a procura daquele que o provocara injustamente. Em outras palavras, não pode existir uma reação extemporânea ou cronologicamente desconectada com o suposto comportamento reprovável da vítima. Dessa maneira, o homicídio praticado friamente, ou seja, horas depois de pretendida injusta provocação da vítima, não pode ser configurado como homicídio privilegiado. Isto porque, a simples existência de emoção por parte do agente não basta ao reconhecimento do privilégio, pois “não se pode outorgar privilégios aos irascíveis ou às pessoas que facilmente se deixam dominar pela cólera.”41 Ainda sobre o assunto, merece ser distinguido o homicídio passional do homicídio por ciúme. O ciumento mata, geralmente, por conta do orgulho ferido, e não motivado por violenta emoção. Não há que confundir, portanto, a situação daquele que mata, após ser surpreendido com seu cônjuge “deitado na cama” com outra pessoa – portanto, sob o domínio de violenta emoção –, com a hipótese de alguém que se deixa levar por um ciúme doentio, via de regra após o rompimento da relação sentimental, quando se