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Indaial – 2019 Políticas de informação Profª. Daniella Camara Pizarro 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2019 Elaboração: Profª. Daniella Camara Pizarro Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: P695p Pizarro, Daniella Camara Políticas de informação. / Daniella Camara Pizarro. – Indaial: UNIASSELVI, 2019. 180 p.; il. ISBN 978-85-515-0401-7 1. Políticas públicas de informação. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 020 III aPresentação Prezado acadêmico, seja bem-vindo! É uma satisfação estar aqui para refletirmos sobre este importante elemento curricular de sua formação acadêmica e profissional. Este livro didático, direcionado à disciplina de “Políticas de Informação”, pretende proporcionar a você conhecimentos obrigatórios presentes na ementa desta referida disciplina. Para facilitar nossa caminhada, vamos trabalhar esses conteúdos reagrupados e inter-relacionados de forma coerente em três unidades. Na Unidade 1, vamos compreender o que significa o desenvolvimento de coleções, bem como refletir algumas questões: por que, para quem, onde e como desenvolvemos coleções. E, por fim, compreender a finalidade da Política de Formação e Desenvolvimento de Coleções. Na Unidade 2, vamos estudar os aspectos sociais, políticos e análise de políticas públicas, seguido da contextualização de políticas públicas culturais. Na Unidade 3, abordaremos as políticas públicas de informação no cenário nacional, as políticas públicas do livro, leitura e bibliotecas no país. E, por fim, as políticas públicas relacionadas às minorias sociais, como, por exemplo, os idosos e as populações de origem africana. Sugerimos a leitura atenta de cada unidade deste livro didático, bem como após cada leitura, exercite seus conhecimentos por intermédio das respostas das autoatividades. Estas foram preparadas visando auxiliar você a reforçar e fixar seu aprendizado nesta disciplina. É importante lembrar que devemos ter uma boa gestão do tempo de estudo na qual possamos praticar uma leitura atenta, calma e que possamos nos concentrar nas reflexões aqui propostas. Desejamos um ótimo estudo e que este material possa contribuir para a sua formação e para sua prática futura como bibliotecário! Tudo de bom! Profª. Daniella Camara Pizarro IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos! UNI V VI Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer teu conhecimento, construímos, além do livro que está em tuas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela terás contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar teu crescimento. Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nessa caminhada! LEMBRETE VII UNIDADE 1 – POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO ..........................................................1 TÓPICO 1 – O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO ....................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3 2 O QUE SÃO POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO? ...............................................................................3 2.1 TIPOS DE POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO .................................................................................7 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................10 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................11 TÓPICO 2 – PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO ..............................................13 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................13 2 ABORDAGENS SOBRE AS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO ......................................................................14 2.1 O ESTADO INFORMACIONAL E A POLÍTICA DE INFORMAÇÃO ....................................16 2.2 O EXERCÍCIO DA CIDADANIA E A INFORMAÇÃO COMO DIREITO UNIVERSAL DE TODO CIDADÃO .....................................................................................................................18 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................22 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................24 TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO ................................................................................................................27 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................27 2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO: O QUE SÃO? ......................................................27 3 POLÍTICA NACIONAL DE INFORMAÇÃO E OS CONCEITOS DE INFRAESTRUTURA DE INFORMAÇÃO E DA “SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO .........30 4 POLÍTICAS PÚBLICAS, MICROPOLÍTICAS E O REGIME DE INFORMAÇÃO .................35 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................40 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................52 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................54UNIDADE 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS ...................................................................................................................57 TÓPICO 1 – ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS .......59 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................59 2 POLÍTICAS PÚBLICAS E OS PAPÉIS DO GOVERNO E SEUS ATORES...............................60 3 ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS ............................................................................................63 4 MODELOS TEÓRICOS PARA COMPREENSÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS ..................67 4.1 MODELO SEQUENCIAL OU DO CICLO POLÍTICO (POLICY CICLE) ................................67 sumário VIII 4.1.1 Metáfora dos fluxos múltiplos (Multiple Streams Framework) ...........................................69 4.1.2 Modelo do equilíbrio interrompido (Punctuated Equilibrium Theory) .............................73 4.1.3 Quadro teórico das coligações de causa ou de interesse (Advocacy Coalition Framework – ACF) ....................................................................................................................75 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................83 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................93 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................95 TÓPICO 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS .........................................................................97 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................97 2 O QUE SÃO POLÍTICAS CULTURAIS? .........................................................................................97 3 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO BRASIL ......................................................................99 4 PLANO NACIONAL DE CULTURA (PNC) ..................................................................................102 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................105 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................107 UNIDADE 3 – DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS ............................................................................................109 TÓPICO 1 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL.......111 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................111 2 GOVERNO ELETRÔNICO COMO UMA POLÍTICA PÚBLICA DE INFORMAÇÃO .......112 3 PROGRAMA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO, O LIVRO VERDE E O LIVRO BRANCO ..............................................................................................................................................115 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................120 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................128 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................130 TÓPICO 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL ......................................................................................................................133 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................133 2 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS BIBLIOTECAS NO BRASIL .............................................133 3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO: CONHECENDO A POLÍTICA NACIONAL DO LIVRO E O PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA (PNLL) .....138 3.1 EIXO 1 – DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO...........................................................................140 3.2 EIXO 2 – FOMENTO À LEITURA E À FORMAÇÃO DE MEDIADORES ...........................142 3.3 EIXO 3 – VALORIZAÇÃO INSTITUCIONAL DA LEITURA E INCREMENTO DO SEU VALOR SIMBÓLICO ............................................................................................................143 3.4 EIXO 4 - DESENVOLVIMENTO DA ECONOMIA DO LIVRO..............................................145 3.5 POLÍTICA NACIONAL DE LEITURA E ESCRITA (PNLE) ...................................................146 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................149 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................150 TÓPICO 3 – POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO ...........................................153 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................153 2 POLÍTÍCAS PÚBLICAS PARA AS PESSOAS IDOSAS: BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO ...................................................................................................................154 IX 2.1 POLÍTICA NACIONAL DO IDOSO ...........................................................................................158 2.2 ESTATUTO DO IDOSO .................................................................................................................160 2.3 POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE DA PESSOA IDOSA .....................................................160 2.4 PENSANDO O IDOSO E O ACESSO ÀS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO (TICs) ..............................................................................................................161 3 POLÍTICAS PÚBLICAS PELA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL: MOVIMENTOS SOCIAIS NEGROS E A INFLUÊNCIA EM POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA .....................................................................................................163 3.1. SECRETARIA ESPECIAL DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE (SEPPIR) E AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA POPULAÇÃO NEGRA E QUILOMBOLA .............................................................................................................................165 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................167 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................169 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................171 X 1 UNIDADE 1 POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer os aspectos conceituais e tipologias das políticas de informação; • entender o panorama histórico das políticas de informação; • aprender sobre a legislação que promove o acesso à informação e à cultura; • compreender a sociedade da informação e sua relação com as políticas públicasde informação. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer desta unidade, você irá encontrar autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo estudado. TÓPICO 1 – O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO TÓPICO 2 – PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO TÓPICO 3 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO 1 INTRODUÇÃO A informação é fundamental na vida de qualquer ser humano. Quando iniciamos a leitura de um livro, de um artigo, de letreiros em outdoors ou em propagandas na televisão estamos obtendo informações que poderão ser úteis para a transformação de nossas vidas nos mais diferentes contextos, tais como educacional, profissional, político, econômico etc. Com a chegada da internet, diariamente somos bombardeados com informações que, em sua maioria, não são relevantes para o nosso dia a dia. No entanto, é um direito do cidadão que o uso da internet permita o acesso às informações. Entre os tipos de informações que os sujeitos possuem estão as informações governamentais, por exemplo, que permitem o acompanhamento e controle das ações do Estado e também sobre os gastos e investimentos. As políticas de informação permitem que as pessoas tenham acesso às informações governamentais, assim como a algumas informações que envolvem organizações, instituições e demais órgãos controlados pela administração pública. Neste tópico, será apresentado o conceito de política da informação, além das suas características, história, legislação e sua relação dentro da sociedade da informação, biblioteconomia e ciência da informação. 2 O QUE SÃO POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO? Considerada uma das formas mais antigas de governança, a política de informação tem sofrido diversas mudanças a partir das sucessivas alterações passadas pelo Estado, principalmente, após a década de 1990. Desde o período de 1960, tomou-se consciência da rapidez das mudanças ocorridas entre o espaço, tempo e fronteiras, assim como, dos processos decisórios (PINHEIRO, 2011). A UNESCO, na década de 1950, incentivou a formação dos centros nacionais de informação, aqueles que, posteriormente, passaram a ter a função de definir o que seriam políticas de informação e de estabelecer os sistemas de informação específicos de cada país (PELUFÊ; SILVA, 2004). UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 4 A implementação de políticas de informação tem sido um desafio em diversos países para que estes possam ingressar e participar efetivamente da chamada Sociedade da Informação (FERREIRA; SANTOS; MACHADO, 2012). Conforme a filósofa Maria Nélida González de Gómez (2003), a Sociedade da Informação se convencionou tendo como base o aporte teórico da filosofia da linguagem. Nesse sentido, a linguagem e a natureza comunicativa da humanidade perpassam todos os âmbitos do agir e do fazer, assim como das esferas das relações de poder. Ao se pensar a concepção de política como a definição do bem comum, é necessário pensar no cuidado com a comunicação, já que esta é carregada de conteúdos informacionais e deve conduzir os indivíduos a alcançarem sua condição humana em todas as possibilidades coletivas de dignidade e de felicidade (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2003). Para se compreender o que são políticas de informação, é necessário o entendimento dos conceitos de política e informação de forma separada. Política é definida como “o estabelecimento, por parte de um país, estado, município, organização, comunidade ou grupo, de estratégias e diretrizes de atuação com uma visão macroeconômica” (LLARENA; PINHO; NÓBREGA, 2013, s.p.). A política pode ser entendida como arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. Toda política precisa de um plano ou planejamento, definidos como “componentes da política nacional de desenvolvimento das nações, esta que pressupõe a concepção de um modelo global de desenvolvimento” (LLARENA; PINHO; NÓBREGA, 2013, s.p.). Sobre o processo de criação de políticas, leis, normas ou regras, este possui seu início com uma “demanda de institucionalização de uma determinada atividade ou problema, e, além de um conhecimento técnico para a resolução de problemas, é primordial a criação de significado, além da concordância da solução encontrada entre os atores envolvidos” (BASTOS, 2013, p. 20). Quanto à informação, esta é uma força constitutiva na sociedade e pode ser definida como um fenômeno humano e derivado das interações sociais, situada entre o conhecimento e as comunicações (RIBEIRO, 2004). Farias e Vital (2007, s. p.) lembram que “por denotar poder e ser um elemento essencial em todos os processos organizacionais, a informação nunca é neutra, e nem todas as pessoas têm interesse que ‘tudo’ circule nos diferentes setores”. Para compreender mais sobre o conceito de informação, acesse o vídeo “O pensamento vivo da informação”, com Armando Malheiro. DICAS TÓPICO 1 | O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO 5 FONTE: <https://youtu.be/b_tA5SL--8A>. Acesso em: 30 set. 2019. Conforme o seu histórico evolutivo, as políticas de informação têm levado os Estados a promoverem os avanços científico e tecnológico (DUTRA; CORRÊA; RUAS, 2013). A política de informação aponta a agenda proveniente da tomada de decisão que envolve os atores políticos e sociais, as instituições e seus processos informacionais (COELHO, 2019). Foi a partir dos anos 1950, com o crescimento de alguns Estados do Ocidente, que começou a construção de políticas de informação com o objetivo de produzir os avanços científico e tecnológico sob incentivo dos Estados. Estes passaram a promover a importância da ciência e da tecnologia (C & T) como elementos de modernização da estrutura produtiva, conforme afirma Pinheiro (2011; 2012). O início do uso do conceito começou na área governamental como uma política de Estado e o termo foi criado no pós II Guerra Mundial enquanto um “implemento para as áreas de ciência e tecnologia militar” (DUTRA; CORRÊA; RUAS, 2013, p. 24). Ainda com relação ao conceito, Choo (2011, p. 314) define as políticas de informação como procedimentos operacionais das próprias organizações, assim, são vistas como: regras que especificam o sistema de comunicação que dirige e delimita o fluxo e o uso da informação. Em particular, essas regras definem as características da informação que entra na organização, distribuição e condensação da informação recebida, a distribuição e condensação da informação gerada internamente e as características da informação que devem sair da organização. Para Davenport (1998, p. 52), a política de informação é um componente crítico que “envolve o poder proporcionado pela informação e as responsabilidades da direção em seu gerenciamento e uso”. Enquanto isso, González de Gómez (1999, p. 11) considera que as políticas de informação são “um conjunto de práticas UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 6 e ações encaminhadas à manutenção, reprodução, mudança e reformulação de um regime de informação, no espaço local ou global”. Quanto à abordagem sobre o estudo da política de informação, Braman (2006, p. 9) afirma que este: [...] deve começar com a questão o que é informação. Não há uma resposta fácil [...]. Os debates sobre o direito comercial internacional, por exemplo, são consistentemente marcados por diferenças entre aqueles que veem fluxos de informações internacionais, como filmes, programas de televisão e filmes, e aqueles que veem esses meios de comunicação como potentes forças culturais. Já em 1980, Garcia afirmou que uma política no campo da informação científica ou tecnológica indica que há princípios sobre o que é desejávele realizável para um país em termos de: produção, transparência e acesso à informação. Assim, por um lado, há uma idealização, por outro, objetivos de atuação e de transformação da realidade numa determinada direção. A operacionalização de uma política inicia-se com a tradução dos princípios de transformação da realidade, através do detalhamento e da delimitação do campo de ação, seguindo-se a formulação de metas, ou seja, dos resultados concretos a serem obtidos dentro de um prazo determinado, visando à implementação da (s) política (s) e das diretrizes (GARCIA, 1980, p. 5). Ficou com dúvidas ainda sobre as políticas de informação? Veja este vídeo disponibilizado pela Profa. Bárbara Coelho intitulado “O que é política de informação”, no qual entrevista as especialistas em Política de Informação, Dra. Terezinha Elisabeth da Silva (Câmara dos Deputados) e Dra. Joana Coeli Garcia (UFPB), no Enancib em Salvador. DICAS FONTE: <https://youtu.be/4urX9CmMVUg>. Acesso em: 17 jun. 2019. TÓPICO 1 | O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO 7 2.1 TIPOS DE POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO A informação possui um caráter público, material e social da informação desde o início dos tempos. Para os estudos da informação, há a importante tarefa de buscar “conciliar estudos sobre o fenômeno da informação em nosso tempo com estudos das práticas sociais e públicas, das realidades políticas, da economia e da cultura” (FROHMANN, 2006, p. 1). As organizações (bibliotecas, unidades de informação, empresas, instituições, universidades etc.) diariamente são influenciadas pela informação e a cada momento a informação está sob ação do poder, da política e da economia. Dessa forma, o olhar consciente e sistemático para as políticas de informação de dentro de uma organização – seja ela privada ou governamental – é um elemento natural e inevitável para o aperfeiçoamento do uso de sistemas de informação e do conhecimento (DAVENPORT, 1998). Entre os fatores que levam à escolha de determinada política de informação para uma organização estão: o tamanho, o seu ramo de atividade, a estrutura da organização, e essencialmente, quem faz as escolhas e as consequências à organização (DAVENPORT, 1998). Conforme Davenport (1998), existem diversos modelos viáveis para governar a informação em uma instituição, entre eles, destacam-se quatro modelos: o federalismo, feudalismo, monarquia e anarquia. Cada um desses modelos pode ser adequado para um determinado tipo de organização, e formam “a evolução do controle local em contraposição ao controle centralizado do ambiente informacional” (DAVENPORT, 1998, p. 91-92). FIGURA 1 – A EVOLUÇÃO DO CONTROLE DA INFORMAÇÃO Monarquia Federalismo Feudalismo Anarquia Maior controle Central Menor controle Central FONTE: <https://ppgic.files.wordpress.com/2018/07/davenport-t-h-2002.pdf>. Acesso em: 16 jun. 2019. Davenport (1998, p. 92 apud FARIAS; VITAL, 2007, s.p.) teve os cinco tipos de política da informação sintetizados da seguinte forma: UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 8 Utópico tecnocrático – a forte abordagem técnica como solução para todos os problemas. Enfoca fortemente a modelagem e categorização da informação e está sempre atenta a novas tecnologias de software e de hardware. A política utópica tecnocrática dá mais ênfase à tecnologia que à informação, tecnologia é um suporte que torna possíveis a circulação, armazenamento e disseminação da informação com maior eficácia, com importância indiscutível no processo de gestão da informação. Porém, aliadas à tecnologia, a qualidade, a confiabilidade e a precisão da informação são elementos fundamentais, definidores do ‘sucesso’ da gestão e algumas vezes são negligenciados na política. Anárquico – inexistência de qualquer política de gerenciamento de informação. Os indivíduos determinam seus próprios sistemas de informações e a forma de gerenciamento. A política anárquica não seria exatamente uma política, mas sim a falta dela. Davenport (1998) diz que esse tipo de política é frequente em locais onde os funcionários trabalham essencialmente com conhecimento, como cientistas, consultores, programadores. Cada um cria seu ‘sistema de informação’. Em empresas menores, a situação também é frequente, e possível pelo fato de o presidente ou diretor ter conhecimento e domínio sobre todos os processos, correndo o risco de, na falta do diretor, o caos ser instaurado. Feudalista – o gerenciamento da informação por unidades ou funções individuais, que definem suas próprias necessidades de informações, reportando somente parte das informações para a organização. A política feudalista dificulta ou impede a disseminação da informação na organização como um todo. Sabendo-se que a maior parte da informação que uma empresa necessita encontra-se dentro dela mesma, esse tipo de política cria sérios entraves ao fomento e compartilhamento de informações entre os diferentes pares. O feudalismo não leva em consideração o contexto mais amplo, delimitando-se aos problemas informacionais do setor. Monárquico – o gerenciamento da informação é ditado pelo líder da organização que define o sistema de informações e o nível de acesso dos demais componentes da organização. A política monárquica apresenta características similares à feudalista, sendo que o poder de decisão sobre as informações, fontes que irão circular pela organização, encontra-se centrado em uma pessoa. Federalista – o gerenciamento da informação é feito com a participação de todos os elementos da organização, poucas decisões centralizadas. O objetivo é que a política seja determinada como resultado do consenso. Há uma certa autonomia dos diferentes setores, porém, o objetivo final é sempre compartilhado por todos os membros e as decisões são discutidas com toda a organização. Para Farias e Vital (2007), esses diferentes tipos de políticas de informação trazem vantagens e desvantagens, além de sofrerem com a influência do contexto no qual estão inseridos. Dessa forma, para as autoras, o profissional da informação deve realizar o diagnóstico para saber qual é a política de informação que predomina na organização para trabalhar os seus pontos fortes e fracos de forma a democratizar o acesso, a disseminação e o uso da informação. TÓPICO 1 | O CONCEITO DE POLÍTICA DA INFORMAÇÃO 9 Deve haver uma mudança na cultura da organização e das novas tecnologias via gerenciamento da política de informação (DAVENPORT; ECCLES; PRUSAK, 1992 apud FARIAS; VITAL, 2007). O gerenciamento da política, apoiado por todos os gerentes da organização e tendo a informação como um elemento fundamental para o sucesso, é algo que deve ser focado nos ambientes das organizações. Os próprios tomadores de decisão dentro de uma organização devem identificar suas necessidades de informação e buscar supri-las de forma a obter o conhecimento necessário para a resolução dos seus problemas do cotidiano profissional junto aos contextos políticos e econômicos da sociedade (FARIAS; VITAL, 2007). Para conhecer um exemplo de política da informação, recomenda-se a leitura da Política Nacional de Informação e Informática em Saúde, com elaboração em 2016 pelo Ministério da Saúde. DICAS FONTE: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_infor_ informatica_saude_2016.pdf>. Acesso em: 2 ago. 2019. 10 Neste tópico, você aprendeu que: • A política de informação é uma das formas mais antigas de governança. • A UNESCO incentivou a formação de centros nacionais de informação, os quais definiriam o que são políticas de informação e quais os sistemas de informação de cada país. • Um dos desafios encontra-se na implementação de políticas de informação, pois sem elas os países estariam fora do que se convencionou chamar de Sociedade da informação. • As políticas de informação não podem ser compreendidas sem antes compreender o que são políticas e o que é informação. • Porconta da política de informação, os países têm investido na promoção da ciência e da tecnologia. Foi nos Estados do Ocidente que começou a construção de políticas para os avanços científico e tecnológico. • Existem diversos conceitos de políticas de informação. O conceito de Choo (2011) afirma que políticas de informação são regras que especificam o sistema de comunicação que dirige e delimita o fluxo e o uso da informação. • Os cinco tipos de política de informação são: utópico-tecnocrático, feudalista, monárquico, anárquico e federalista. • O profissional da informação deve fazer o diagnóstico da organização para saber qual política de informação melhor se encaixa. RESUMO DO TÓPICO 1 11 1 Considerando o tópico estudado, responda com verdadeiro (V) ou falso (F) para as seguintes sentenças: a) ( ) As políticas de informação são desnecessárias à gestão das organizações. b) ( ) Os diferentes tipos de política sofrem com a influência do contexto e das especificidades que caracterizam cada organização. c) ( ) O profissional da informação precisa realizar um estudo de comunidade dentro da organização, buscando compreender os pontos fortes e fracos, assim como as melhores formas de democratizar o uso e o acesso à informação. d) ( ) O gerenciamento das políticas da informação não necessita do apoio dos gerentes da organização, pois há a informação como elemento para o sucesso. e) ( ) Uma política no campo da informação científica ou tecnológica indica que há princípios sobre o que é desejável e realizável para um país em termos de: produção, transparência e acesso à informação, além da sua estrutura, recursos de informação e necessidades informacionais de seus usuários (GARCIA, 1980). 2 Identifique qual é o propósito/objetivo da Política Nacional de Informação e Informática em Saúde – PNIIS, disponibilizada como leitura complementar do Tópico 1 desta unidade. I. Promover o uso inovador, criativo e transformador da tecnologia da informação, melhorando os processos de trabalho em saúde e, assim, resultando em um Sistema Nacional de Informação em Saúde (SNIS) articulado e que produza informações para os cidadãos, a gestão, a prática profissional, a geração de conhecimento e o controle social, garantindo ganhos de eficiência e qualidade mensuráveis através da ampliação de acesso, equidade, integralidade e humanização dos serviços de saúde, contribuindo, dessa forma, para a melhoria da situação de saúde da população. II. Identificar as necessidades informacionais, o mapeamento dos fluxos formais (conhecimento explícito) de informação nos diferentes ambientes da organização, até a coleta, filtragem, análise, organização, armazenagem e disseminação, objetivando apoiar o desenvolvimento das atividades cotidianas e a tomada de decisão no ambiente corporativo. III. Uma ação que promoverá a conquista da “cidadania digital” e contribuirá para uma sociedade mais igualitária, com a expectativa da inclusão social. IV. Levantar algumas referências da abordagem cognitiva de análise de políticas públicas para a compreensão da constituição da educação básica do campo, um referencial que integra, na atualidade, a política educacional brasileira. V. Direcionar, para escolas rurais com turmas multisseriadas, a instauração de uma nova prática pedagógica, buscando promover a melhoria da qualidade do ensino fundamental. AUTOATIVIDADE 12 Conforme os itens descritos, marque a resposta CORRETA: a) ( ) As questões I e II estão corretas. b) ( ) Somente a questão I está correta. c) ( ) As questões I, II e III estão corretas. d) ( ) As questões IV e V estão corretas. e) ( ) As questões II, III e IV estão corretas. f) ( ) Somente a questões IV está correta. g) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 3 Conforme Davenport (1998), existem cinco tipos de políticas de informação. Entre os tipos, encontra-se a política anárquica, que se refere: a) ( ) À ênfase ligada à tecnologia. Tecnologia é um suporte que torna possíveis a circulação, armazenamento e disseminação da informação com maior eficácia, com importância indiscutível no processo de gestão da informação. b) ( ) À inexistência de qualquer política de gerenciamento de informação. Os indivíduos determinam seus próprios sistemas de informações e a forma de gerenciamento. A política não seria exatamente uma política, mas sim a falta dela. c) ( ) Ao gerenciamento da informação por unidades ou funções individuais. Estas definem suas próprias necessidades de informações, reportando somente parte das informações para a organização. d) ( ) À apresentação de características similares à feudalista, sendo que o poder de decisão sobre as informações, fontes que irão circular pela organização encontra-se centrado em uma pessoa. e) ( ) Ao objetivo que a política seja determinada como resultado do consenso. Há uma certa autonomia dos diferentes setores, porém, o objetivo final é sempre compartilhado por todos os membros e as decisões são discutidas com toda a organização. 4 Para González de Gómez (1999, p. 11), as políticas de informação são “um conjunto de práticas e ações encaminhadas à manutenção, reprodução, mudança e reformulação de um regime de informação, no espaço local ou global”. A partir da leitura deste tópico, elabore um conceito de políticas de informação para a sua organização. 5 Como foi percebido ao longo do Tópico 1, existem desafios para a implementação de políticas de informação. Qual é o principal deles? a) ( ) Planos e planejamento. b) ( ) Filosofia da linguagem. c) ( ) Concepção política. d) ( ) Sociedade da informação. e) ( ) Fenômenos humanos e sociais. 13 TÓPICO 2 PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO No contexto da sociedade da informação, as mudanças mundiais demarcadas fortemente pelos paradigmas técnicos, econômicos e das tecnologias da informação têm incentivado a competitividade entre Estados. A informação é poder, e o estabelecimento de uma sociedade da informação permeada pelo poder do controle da informação e do capital se tornou o principal objetivo daqueles que desejam ser considerados países de primeiro mundo. Embora se tenha como afirmativa de que estamos na sociedade da informação, é preciso compreender que sociedades como a brasileira ainda não levam a informação para todo e qualquer cidadão. Comunidades carentes, ribeirinhas, indígenas, carcerárias, entre outras, ainda estão longe de possuírem o acesso às informações que, de fato, tragam mudanças efetivas para suas vidas. Mesmo que diuturnamente se tenha contato com uma gama de informações, a maioria daquilo que se recebe não é relevante para a transformação de sujeitos pertencentes a determinadas classes sociais, econômicas, de cor, religião, sexualidade ou cultura. Como profissionais da informação e bibliotecários, deve-se refletir sobre o papel da informação, seu acesso e uso pelas populações que compõem a sociedade brasileira. Dessa forma, neste tópico, será apresentada a informação como um direito universal a partir das declarações de direitos humanos e da Constituição Federal Brasileira. Neste tópico, você estudará as políticas da informação e as contribuições da Ciência da Informação para a discussão desse campo, bem como sobre o conceito de estado informacional, estabelecido por Sandra Braman e as legislações de promoção de acesso à informação. UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 14 2 ABORDAGENS SOBRE AS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO As sociedades têm criado historicamente seus próprios parâmetros para institucionalizar as informações que produzem buscando que estas sejam mais ou menos dependentes da ação do Estado (LIMA; MALIN, 2011). Em diferentes países, “o conflito que tem se estabelecido para os diferentes Estados é o de pertencimento ou não à sociedade que rebatiza o mundo com uma novaera” (AUN, 2000, p. 1). Os Estados estão buscando reestruturar suas políticas de informação e as substituindo por programas de curto prazo como solução de emergência à participação neste ambiente. González de Gómez é uma das epistemólogas da Ciência da Informação a enfatizar que “a política de informação emerge como tema e domínio relativamente autônomo, em nível nacional e internacional, no cenário do pós- guerra, associada às políticas de ciência e tecnologia” (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 27). A ligação entre a informação e a política encontra-se estabelecida pela inclusão da informação na esfera de intervenção do Estado (País), em especial, no que se refere à dimensão de racionalidade administrativa, onde a informação torna-se um dos fatores estratégicos do desenvolvimento científico-tecnológico (SILVA; PINHEIRO, 2011). A Ciência da Informação tem discutido sobre política de informação, embora ainda precise de maior aprofundamento em seus aspectos teóricos e contextuais, como elencam os autores Frohmann (1995), McClure e Jaeger (2008) e Silva e Pinheiro (2011). Especificamente sobre o conceito de política de informação, Aun (2000) e Silva e Pinheiro (2011) apontam que ainda existem na literatura algumas dificuldades quanto aos aspectos semânticos e conceituais entre os termos política, planos, programas, diretrizes, regras que levam à confusão sobre a utilização adequada dos termos. Como mudança, a sociedade contemporânea passa a possuir uma nova configuração e a dar uma nova dimensão à política da informação. Outra questão levantada na literatura refere-se à confusão semântica e conceitual que há entre os termos política, planos, programas, regras e diretrizes, como resultado de uma mudança nas formas de gestão dos Estados a partir do processo neoliberal. Essa nova configuração da sociedade contemporânea modifica a “face da informação” e o seu contexto social se transfigura, dando nova dimensão à política de informação (SILVA; PINHEIRO, 2011). As transformações ocorridas na sociedade fazem com que ocorra um deslocamento dos discursos sobre as políticas de informação dando um lugar de neutralidade. No entanto, não se pode esquecer que as políticas são os resultados das relações de poder e, portanto, a neutralidade não existiria na política visto que “onde há poder, o poder se exerce, mesmo que não se consiga determinar a titularidade desse poder”, conforme aponta Foucault (1989) citado por Silva e Pinheiro (2011, p. 1631). TÓPICO 2 | PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO 15 A Ciência da Informação originalmente se preocupou com a geração, o armazenamento e a disseminação da informação para seu uso de forma efetiva vinculada a campos temáticos da ciência e tecnologia. Posteriormente, trouxe seu olhar para os movimentos da globalização e seu impacto na comunicação e transferência da informação, conduzindo “a um estado de tensão na distribuição de informação de valor agregado ou de mercado e as informações de bem público e de livre acesso” (AUN, 1997, p. 1). Entre as questões a serem definidas nas políticas de informação, encontram-se a dosagem, as prioridades e valores da informação, assim como a duplicidade entre o acesso e o limite, o direito público e o privado. Frohmann (1995) aborda a política pública como área da pesquisa dentro da Ciência da Informação. Para o autor, existiram muitos debates sobre o tema, não havia sinais de que as políticas de informação tenham sido implementadas. O tema da política da informação possui um leque de problemas devido às diferentes concepções trazidas, tornando o tema complexo (FROHMANN, 1995). Dentro das limitações sobre o tema política de informação dentro da Ciência da Informação, o autor destaca: • a interpretação da questão da política de informação sob o foco da produção documental governamental, ou seja, a política do governo para os documentos do governo; • a restrição do foco da pesquisa em política de informação diante dos problemas de produção, organização e disseminação das informações científica e tecnológica; • o foco epistemológico estreito da Ciência da Informação sobre política de informação; • o caráter instrumental da pesquisa, com ênfase nas maximizações técnica e gerencial do fluxo da informação (ênfase para a implementação de tecnologias, aprimoramento da comunicação entre departamentos no âmbito da administração pública, aumento do acesso aos documentos governamentais) e; • a ausência de ênfase na relação entre informação e poder (FROHMANN, 1995, s.p.). Na evolução do tema política da informação, a conexão entre tecnologia e seus papéis humano e social vinculados à preocupação com as políticas de informação e o privilégio dado a determinados campos conceituais e teóricos passaram a ser o foco de pesquisas da área a partir da década de 1970 (AUN, 1997). O tema política de informação, na opinião de Silva e Pinheiro (2011), tem que ser refletivo e verificado sobre a necessidade de atualização conceitual. Também é importante compreender que a sociedade da década atual é diferente daquela de 1970 e 1980, período quando as pesquisas e produções sobre política de informação dentro da Ciência da Informação começaram a ser evidenciadas. “Intensas transformações afetaram profundamente a sociedade nessas [...] décadas, modificando também a maneira como pensamos, agimos e trabalhamos as questões da informação” (SILVA; PINHEIRO, 2011, p. 1627). Dentro do Estado Brasileiro, as atividades informacionais sempre estiveram ligadas à figura gestora do país. Com relação aos novos modos de UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 16 institucionalização e de disseminação da informação, estes têm sido criados tanto no contexto nacional como internacional, um resultado dos esforços organizados e mobilizados pela sociedade civil na sua relação com o Estado (LIMA; MALIN, 2011). Na década de 1980, o quadro institucional começou a incorporar de forma mais explícita uma nova organização, parceria e mediadora envolvendo os movimentos sociais e de organizações da sociedade civil, tais como as Organizações Não Governamentais (ONGs) (LIMA; MALIN, 2011). O governo brasileiro buscou introduzir-se na chamada Sociedade da Informação a partir do ano de 1996, por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, programa que foi lançado em dezembro de 1999 e coordenado pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia. 2.1 O ESTADO INFORMACIONAL E A POLÍTICA DE INFORMAÇÃO O Estado informacional se refere a uma “fase da evolução humana em que o poder informacional é fator decisivo para os Estados, em seus processos de disputa e controle” (PINHEIRO, 2011, p. 1487). De forma emergente, o “poder informacional permeia os meios clássicos de poder estatal: instrumental, estrutural e simbólico, constituindo-se como um quarto instrumento” (PINHEIRO, 2011, p. 1487). Para Braman (2006), o Estado sabe muito mais sobre indivíduos do que os indivíduos sobre o Estado. Com o advento da democracia representativa, o conhecimento individual sobre as atividades e processos realizados pelos governos e também o conhecimento sobre os próprios cidadãos se tornaram algo que muitos buscam apreender para repartir os recursos e a representação. As exigências informativas do Estado acabaram por aumentar, buscando conhecer os indivíduos, grupos e comunidades que seriam utilizadores de suas políticas. Nas décadas após o estabelecimento de agências reguladoras e de programas de redes de segurança, as leis e os regulamentos foram também criados para aumentar a simetria entre o conhecimento do cidadão sobre o Estado e do Estado sobre o cidadão (BRAMAN, 2006). No entanto, Braman (2006) afirma que nunca houve de fato uma simetria absoluta ou a completa transparência, pois a necessidade de proteção da segurança nacional manteve em sigilo as informações críticas sobre o governo e as leis de privacidadebuscam proteger algumas informações e pessoas do governo. Com o estado informacional, no entanto, aumenta a capacidade estatal de reunir e processar informações sobre seus cidadãos. Em contrapartida, a capacidade de o cidadão aprender o que o governo tem realizado, investido, TÓPICO 2 | PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO 17 decidido ou exterminado tem diminuído. Isso tem acontecido, pois o uso das técnicas de vigilância sobre o indivíduo tem aumentado (BRAMAN, 2006). Atualmente, se forem analisadas as mídias sociais como facebook, instagram, twitter e demais redes sociais, percebe-se que as informações pessoais se encontram cada vez menos sigilosas e a privacidade ameaçada. Para utilizar uma mídia social como o facebook, por exemplo, é preciso cadastrar seus dados pessoais e assinar os termos de privacidade dessas redes. Os aplicativos em smartphones, jogos on-line e demais produtos e serviços como a internet banking coletam informações dos seus clientes e depois as comercializam para empresas e prestadores de serviços. FIGURA 2 - PÁGINA INICIAL DE CADASTRO NO FACEBOOK E A RELAÇÃO DE DADOS SOLICITADOS FONTE: <https://www.facebook.com/>. Acesso em: 17 jun. 2019. No que se refere ao Estado, observa-se que há uma demanda da sociedade para que o Estado aumente a sua transparência. Entre as informações governamentais que mais causam interesse nos cidadãos estão as informações legislativas e as informações que embasam a construção de políticas públicas. Estas são necessárias para a implementação de ações que promovam a igualdade de direitos e o pleno exercício da cidadania dos cidadãos a partir do acesso à informação sobre o tema (CERÓN; LIMA, 2013). Entretanto, há uma precariedade da organização da informação governamental, conforme afirmam Ceron e Lima (2013), e isso afeta a eficácia das formulações de políticas públicas de informação, que deixam de levar em consideração os requisitos necessários de informação para a formulação e suporte. UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 18 2.2 O EXERCÍCIO DA CIDADANIA E A INFORMAÇÃO COMO DIREITO UNIVERSAL DE TODO CIDADÃO A informação é construtora da cidadania. A cidadania é observada como um conjunto de conquistas que perpassam as questões políticas, civis e sociais e está contextualizada a diversos acontecimentos resultantes da ação dos sujeitos de nossa sociedade. No entanto, quando se analisa o que é repassado à sociedade no que se refere à informação, percebe-se que o repasse está aquém do que é necessário para mudanças efetivas da sociedade (PELUFÊ; SILVA, 2004). O conceito de cidadania presume a participação do indivíduo na sociedade, sendo que seu exercício se dará de maneira mais efetiva e consciente se ele possuir embasamento crítico acerca dos acontecimentos político-sociais (PELUFÊ; SILVA, 2004). Ao se refletir sobre a informação, deve-se buscar entender quais os instrumentos normativos a indicam como um direito humano. Comecemos, então, com a Declaração dos Direitos Humanos – anteriormente intitulada de Universal dos Direitos do Homem – aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948, um dos primeiros documentos criados em prol da atribuição dos direitos e deveres das pessoas (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, [1948] 2009). Em seu artigo 19, a Declaração infere que “todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, [1948] 2009, s.p., grifo nosso). Desse aspecto, pode-se entender que é a partir do acesso à informação que surgirá uma conscientização crítica sobre a realidade, pois, pelo intercâmbio de informações, os sujeitos sociais se comunicam, tomam conhecimento de seus deveres e direitos e também tomam decisões sobre suas vidas em todos os níveis (educacional, profissional, coletivo, individual, econômico etc.) (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, [1948] 2009). Após essa Assembleia Geral da ONU, foi solicitado aos países-membros que os mesmos publicassem o texto da Declaração para que ele fosse disseminado, lido e explicado, em especial nas escolas e demais instituições educacionais, sem distinção política ou econômica dos Países ou Estados (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, [1948] 2009). Quarenta anos após, na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, artigo 5º, inciso XIV, passa a ser “assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional” (BRASIL, 1988, s.p., grifo nosso). Ainda no artigo 5º, no inciso XXXIII, a Constituição afirma que: TÓPICO 2 | PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO 19 todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado (BRASIL, 1988, s.p., grifo nosso). Sobre o item, a Constituição traz um regulamento identificado pela Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, que vigora para os órgãos públicos integrantes da administração direta dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e do Ministério Público, além das autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista, empresas públicas e demais entidades que sejam direta ou indiretamente controladas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios (BRASIL, 2011). Conhecida desde sua implementação como Lei de Acesso à Informação, a lei e seus procedimentos buscam assegurar ao cidadão o direito fundamental de acesso à informação. A Lei traz ainda as diretrizes para que seja executada: I- observância da publicidade como preceito geral e do sigilo como exceção; II- divulgação de informações de interesse público, independentemente de solicitações; III- utilização de meios de comunicação viabilizados pela tecnologia da informação; IV- fomento ao desenvolvimento da cultura de transparência na administração pública; V- desenvolvimento do controle social da administração pública (BRASIL, 2011, s.p.). Com relação aos conceitos, a Lei aborda os conceitos de: a) Informação: refere-se a dados, processados ou não, contidos em determinado meio, suporte ou formato, que podem ser usados para produção e transmissão de conhecimento; b) Documento: refere-se à unidade de registro de informações em quaisquer formatos ou suportes; c) Informação sigilosa: refere-se àquela informação submetida de forma temporária para restrição de acesso público em razão de ser imprescindível à segurança da sociedade e do Estado; d) Informação pessoal: refere-se à informação relacionada à pessoa natural identificada ou identificável; e) Tratamento da informação: refere-se ao conjunto de ações relacionadas à produção, recepção, classificação, acesso, uso, reprodução, transporte, transmissão, distribuição, arquivamento, armazenamento, eliminação, avaliação, destinação ou controle da informação; f) Disponibilidade: a qualidade da informação que pode ser usada e conhecida pelos indivíduos, equipamentos ou sistemas autorizados; g) Autenticidade: refere-se à qualidade da informação produzida, expedida, recebida ou modificada por determinada pessoa, equipamento ou sistema; UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 20 h) Integridade: refere-se à qualidade da informação não modificada, incluindo a sua origem, trânsito e destinação; i) Primariedade: relaciona-se à qualidade da informação que foi coletada na fonte, com o máximo de detalhes possíveis, sem nenhuma modificação (BRASIL, 2011). Com relação ao acesso à informação e à divulgação, a Lei infere que cabe aos órgãos e às entidades do poder público o seguinte: a) A gestão transparenteda informação, de forma a propiciar o amplo acesso à mesma e a sua divulgação; b) A proteção da informação, de forma a garantir a sua disponibilidade, autenticidade e integridade; c) A proteção das informações sigilosas e da informação pessoal, observadas a disponibilidade, autenticidade, integridade e a restrição ao acesso (BRASIL, 2011). Entre os direitos observados, encontra-se o direito da obtenção à: a) Orientação quanto aos procedimentos para a consecução de acesso, assim como a localização da informação para sua obtenção e uso; b) Informação contida em registros ou documentos que tenham sido produzidos ou acumulados por órgãos ou entidades, recolhidos ou não aos arquivos públicos; c) Informação que tenha sido criada ou custodiada por pessoa física ou alguma entidade privada decorrente de vínculo com seus órgãos ou entidades, mesmo que esse vínculo não exista mais; d) Informação primária, íntegra, autêntica e atual; e) Informação referente às atividades exercidas por órgãos e entidades, incluindo aquelas relativas à política, organização e serviços; f) Informação relacionada à administração do patrimônio público, utilização de recursos de ordem pública, licitação de contratos administrativos; g) Informação relativa à implementação, acompanhamento e resultados de projetos, programas e ações de órgãos e entidades públicas, além de metas e indicadores. Ainda, informações relativas ao resultado de auditorias, prestações e tomadas de contas, inspeções feitas por órgãos de controles interno e externo, inclusive prestações de contas relativas a exercícios anteriores. Com relação às informações que não são compreendidas pelas Lei de acesso à informação, estão aquelas que fazem parte de projetos de pesquisa e desenvolvimento científicos ou tecnológicos onde o sigilo é necessário para a segurança da sociedade e do país. TÓPICO 2 | PANORAMA DAS POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO 21 Sobre as informações parcialmente sigilosas, a lei afirma que está assegurado ao cidadão o acesso à parte não sigilosa por intermédio de certidão, extrato ou cópia com as partes sob sigilo ocultadas do documento apresentado. Como podemos observar, a Lei de acesso à informação tem propiciado ao cidadão a oportunidade de obter maior controle sobre as informações públicas. Assim, consegue participar dos processos de tomada de decisão de forma mais crítica e exigir ações do Estado, assim como o monitoramento para ações de combate à corrupção (FERREIRA; SANTOS; MACHADO, 2012). Acesse o site da Organização das Nações Unidas (ONU) e leia na íntegra a Declaração Universal: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf. DICAS 22 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • As sociedades têm criado historicamente seus próprios parâmetros para institucionalizar as informações que produzem buscando que estas sejam mais ou menos dependentes da ação do Estado. • Os Estados estão buscando reestruturar suas políticas de informação e as substituindo por programas de curto prazo como solução de emergência. • A política de informação emerge como tema e domínio relativamente autônomo, em nível nacional e internacional, no cenário do pós-guerra, associada às políticas de ciência e tecnologia. • A Ciência da Informação tem discutido sobre política de informação, embora ainda precise de maior aprofundamento em seus aspectos teóricos e contextuais, como elencam os autores Frohmann (1995), McClure e Jaeger (2008) e Silva e Pinheiro (2011). • A sociedade contemporânea passa a possuir uma nova configuração e a dar uma nova dimensão à política da informação. • As transformações ocorridas na sociedade fazem com que ocorra um deslocamento dos discursos sobre as políticas de informação. • Frohmann (1995) aborda a política pública como área da pesquisa dentro da Ciência da Informação. Para o autor, existiram muitos debates sobre o tema, não havia sinais de que as políticas de informação tenham sido implementadas. Considera que o tema política da informação possui um leque de problemas devido às diferentes concepções trazidas. • Para Frohmann (1995), existem limitações do tema política de informação dentro da CI. • Na evolução do tema política da informação, a conexão entre tecnologia e seus papéis humano e social vinculados à preocupação com as políticas de informação e o privilégio dado a determinados campos conceituais e teóricos passaram a ser o foco de pesquisas da área a partir da década de 1970. • Dentro do Estado Brasileiro, as atividades informacionais sempre estiveram ligadas à figura gestora do país. 23 • O Estado informacional se refere a uma “fase da evolução humana em que o poder informacional é fator decisivo para os Estados, em seus processos de disputa e controle”. • Para Braman (2006), o Estado sabe muito mais sobre indivíduos do que os indivíduos sobre o Estado. • Com o estado informacional, no entanto, aumenta a capacidade estatal de reunir e processar informações sobre seus cidadãos. Em contrapartida, a capacidade de o cidadão aprender sobre o que o governo tem realizado, investido, decidido ou exterminado tem diminuído. • Há uma demanda da sociedade para que o Estado aumente a sua transparência. • Entre as informações governamentais que mais causam interesse nos cidadãos, estão as informações legislativas e as informações que embasam a construção de políticas públicas. 24 1 Conforme o material estudado, identifique quais as limitações elencadas por Frohmann sobre o tema da política de informação na Ciência da Informação. I. A interpretação da questão da política de informação sob o foco da produção documental governamental, ou seja, como política do governo para os documentos do governo; II. A restrição do foco da pesquisa em política de informação diante dos problemas de produção, organização e disseminação das informações científica e tecnológica; III. O foco epistemológico estreito da Ciência da Informação sobre política de informação; IV. O caráter instrumental da pesquisa, com ênfase na maximização técnica e gerencial do fluxo da informação (ênfase para a implementação de tecnologias, aprimoramento da comunicação entre departamentos no âmbito da administração pública, aumento do acesso aos documentos governamentais) e; V. A ausência de ênfase na relação entre informação e poder. Após a leitura das sentenças, marque a resposta correta: a) ( ) As respostas I e II estão corretas. b) ( ) As respostas III e IV estão corretas. c) ( ) As respostas I, II e III estão corretas. d) ( ) As respostas III, IV e V estão corretas. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Leia a sentença a seguir: Nas décadas após o estabelecimento de agências reguladoras e de programas de redes de segurança, as leis e os regulamentos foram também criados para aumentar a simetria entre o conhecimento do cidadão sobre o Estado e do Estado sobre o cidadão (BRAMAN, 2006). Para Braman (2006), nunca houve de fato uma simetria absoluta ou a completa transparência, visto que: a) ( ) O comportamento informacional se refere ao modo como os indivíduos lidam com a informação, o que inclui a busca, o uso, a alteração, a troca e o acúmulo. b) ( ) A necessidade de proteção da segurança nacional manteve em sigilo as informações críticas sobre o governo e as leis de privacidade buscam proteger algumas informações pessoais do governo. c) ( ) É necessário entender que mudar a maneira como as pessoas usam a informação e construir uma cultura informacional são desafios da gestão da informação nas organizações. AUTOATIVIDADE 25 d) ( ) A necessidade de formação e capacitação continuada dos recursos humanos para o uso adequado dessas ferramentas e para o desenvolvimento das potencialidades das aplicações em prol das atividades desempenhadas pelo Centro de Pesquisa. e) ( ) Uma organização processa a informação para dar sentido a seu ambiente, para criar novos conhecimentos e para tomar decisões.3 Conforme a Lei de Acesso à informação, existe um tipo de informação que se refere àquela informação submetida de forma temporária à restrição de acesso público em razão de ser imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. Marque a resposta em que aparece a qual tipo de informação o conceito se refere: a) ( ) Informação pessoal. b) ( ) Informação sigilosa. c) ( ) Informação primária. d) ( ) Informação de organizações não-governamentais. e) ( ) Informação relacionada ao patrimônio público. 4 A lei de acesso à informação aborda as informações que não são contempladas por sua implementação. Quais tipos de informação são excluídos da referida lei? 5 Conforme a Lei de Acesso à informação, quais os conceitos de autenticidade, integridade e primariedade? 26 27 TÓPICO 3 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO A sociedade da informação tem sido discutida desde o final do século XX, início do século XXI. Tal termo foi criado para tentar explicar de uma forma mais fácil sobre constituição da sociedade pós-industrial e do paradigma técnico- econômico (WERTHEIN, 2000). Dentro das transformações que fazem parte da sociedade da informação está a constituição de sociedades menos industrializadas e onde o paradigma da tecnologia da informação e da comunicação está presente nas transformações existentes dentro das sociedades. Dentro deste contexto da sociedade da informação, a informação é a matéria-prima, na qual as tecnologias penetram e afetam as atividades humanas (tanto individual ou coletivas) sob o predomínio da sociedade em rede (CASTELLS, 2000; WERTHEIN, 2000). Atrelado ao desenvolvimento da sociedade da informação, encontram-se as ações realizadas pelo governo que se destinam a resolver obstáculos presentes dentro dos setores (saúde, educação, economia etc.) daquele país. Tais ações são as conhecidas políticas públicas, criadas pelos governos em forma de atividades que são elaboradas visando agir e influenciar na vida dos cidadãos. Neste tópico será apresentado o conceito de políticas públicas, além das políticas públicas de informação, alguns tipos de políticas públicas no contexto da gestão da informação, assim como, uma breve contextualização sobre políticas nacionais de informação, os conceitos de “infraestrutura de informação” e da “sociedade da informação”. 2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO: O QUE SÃO? As políticas públicas de informação têm sido estudadas dentro da Ciência da Informação juntamente com os esforços para a compreensão do papel do Estado e suas implicações na sociedade atual. Dessa forma, o estudo das políticas públicas tem buscado observar qual a lógica existente entre o Estado e a Sociedade, identificando as relações existentes entre seus atores e compreendendo as dinâmicas da ação pública (JARDIM; SILVA; NHARRELUGA, 2009). 28 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO Para saber um pouco mais sobre o conceito de política pública, acesse e leia o Diccionario Crítico de Ciencias Sociales. DICAS As políticas públicas são compreendidas como o “Estado em ação” e, conforme Muller e Surel (2004, p. 11), a ação do Estado pode ser considerada como o lugar privilegiado em que as sociedades modernas, enquanto sociedades complexas, vão colocar o problema crucial de sua relação com o mundo através da construção de paradigmas ou referenciais, sendo que o conjunto de matrizes cognitivas e normativas intelectuais determina, ao mesmo tempo, os instrumentos graças aos quais as sociedades agem sobre elas mesmas. Quanto ao conceito, este encontra-se entre os interesses e as metas políticas e burocráticas, mas não necessariamente de forma congruente, manifestando-se como algo além do aparato governamental. Dessa forma, a política de informação se expressa para além do campo formal das leis e dos regulamentos, incluindo práticas e ações informacionais de determinados contextos em que se integram sujeitos, instituições e interesses, cujas manifestações nem sempre são reveladas por mecanismos formais (SILVA, 2011; PEREIRA; SILVA, 2015; BARCELOS; PEREIRA; SILVA, 2017). FONTE: FERRI DURÁ, J. Políticas públicas. In: REYES, R. Diccionario crítico de ciencias sociales. 2004. Disponível em: http://www.ucm.es/info/eurotheo/diccionario. Acesso em: 1° out. 2019. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 29 Dessa forma, assim como as “políticas públicas são desenvolvidas para serem implementadas em contextos específicos de informação, as políticas de informação também dependem dos diversos segmentos e contextos comunitários para se desenvolverem no cotidiano das pessoas” (PEREIRA; SILVA, 2015, p. 7-8). Desse modo, as políticas de informação são elaboradas e direcionadas com o intuito de atender às demandas, suprir as necessidades e atender às exigências das comunidades. Portanto, encontram-se além do que o aparato governamental engloba. De fato, pelo caráter público dessas políticas, há a multiplicação de seu desempenho e a inter-relação com o governo e a sociedade (PEREIRA; SILVA, 2015). Entre os tipos de Políticas Públicas de Educação no contexto da gestão da informação, podemos citar como exemplos: a) Sistema Integrado de Gestão Educacional (SIGE): o sistema é o de gerenciamento de informações da Secretaria de Educação do Estado do Ceará- SEDUC. Desenvolvido em parceria com o CETREDE da Universidade Federal do Ceará, objetiva a otimização e modernização dos processos administrativos e de compartilhamento e integração de informações entre as instituições de ensino e a SEDUC (PEREIRA; SILVA, 2015). FIGURA 3 – SISTEMA INTEGRADO DE GESTÃO EDUCACIONAL FONTE: <https://docs.google.com/file/d/0B6WATAW0l5S9alM0OXEzcVQ5aWs/edit>. Acesso em: 17 jun. 2019. 30 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO b) Sistema de Acompanhamento das Ações do Paic (SAAP): é um sistema informatizado de gerenciamento de informações desenvolvido visando à coleta de informações para o município poder entender a sua rede escolar, direcionar e acompanhar as ações de gestão e das práticas educacionais do Programa de Alfabetização na Idade Certa – PAIC (PEREIRA; SILVA, 2015). c) Plano de Ações Articuladas (PAR): o planejamento multidimensional da política de educação colocou à disposição dos municípios, estados e do Distrito Federal, instrumentos para avaliação e de implementação de políticas de melhoria da qualidade da educação, em especial da educação básica pública (BRASIL, 2007). Desse modo, o PAR “apresenta o detalhamento das ações e subações selecionadas por cada estado ou município” (BRASIL, 2007, s.p.) e é coordenado pelas secretarias municipais e estaduais de educação, contando com a participação de gestores, de professores e da comunidade local em seu processo de elaboração (PEREIRA; SILVA, 2015). FIGURA 4 – PLANO DE AÇÕES ARTICULADAS (PAR) FONTE: <https://www.fnde.gov.br/images/headers/par-1240-247.jpg>. Acesso em: 17 jun. 2019. Para aprender mais sobre o Plano de Ações Articuladas (PAR) do Ministério da Educação, visite o Relatório Público disponibilizado no site: http://simec.mec.gov.br/cte/ relatoriopublico/principal.php. DICAS 3 POLÍTICA NACIONAL DE INFORMAÇÃO E OS CONCEITOS DE INFRAESTRUTURA DE INFORMAÇÃO E DA “SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Política e informação se relacionam, dentro do escopo e abrangência do paradigma de soberania da atualidade, por uma duplicada referência ao Estado e a uma constituição de comunicação flexível e desigual. A partir da década de 1950, essa relação começa a ser explicitada em programas de governos e de políticas públicas. Entre os fatos que demarcaram a construção do campo das políticas de TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 31 informação, encontra-se o “Weinberg Report” (U.S. President’s Science and Advisory Commitee, 1963) dos EUA –que define o escopo e a abrangência de uma política de informação - além das agendas internacionais da ONU para a Educação, Cultura e Ciência (UNESCO). Com suas ações, o objetivo era o estabelecimento de um programa intergovernamental e cooperativo visando à promoção e otimização do acesso e do uso da informação. Dessa forma, objetivava-se a superação de lacunas científicas e informacionais entre os mais diversos países de diferentes graus de desenvolvimento (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). Com a organização da definição da política de informação, haveria o Estado como agente privilegiado de sua elaboração e implantação, e a ciência e a tecnologia estariam sob o seu domínio. Além disso, a convicção do papel da informação no desenvolvimento de um mundo moderno não se mostrou eficaz para a formulação de estruturas institucionais, informação científico-tecnológica e em parâmetros tecnológicos e organizacionais (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). O que acontece de fato é que os sistemas nacionais de informação científica e tecnológica não conseguem ser expressos em um domínio que seja estável e transparente dentro de instituições, pautas como agendas de elaboração de políticas públicas. Isso acontece porque a informação é objeto de políticas tácitas e indiretas, ou porque o escopo e a abrangência dessas políticas, quando colocados juntos ao grande volume de políticas públicas, são deslocados, reformulados ou realocados conforme as prioridades dadas pela conjuntura e que estão em constante mudança (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). No final da década de 1970, começou a construção de um cenário com a unificação das novas tecnologias da informação e da comunicação, denominadas TICs. Passaram a ser utilizados recursos diferenciados, assim como diferentes abordagens para o estudo das relações entre as TICs e as transformações culturais nos processos de trabalho, nas práticas e nos modelos de gestão (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). Assim, deu-se a passagem para o que para alguns chamou-se de mudança revolucionária nos modos de produzir, e para outros concretizou a ruptura na passagem de uma sociedade industrial para uma pós-industrial (BELL, 1976 apud GONZÁLEZ DE GOMÉS, 2002). Para outros, tratou-se de uma ruptura estabelecida na passagem de uma sociedade focada no modo fordista para um modo pós-fordista de produção. Esses novos arranjos relacionados ao Estado encontram-se expressos pelos intelectuais Manuel Castells (1999) e Bruno Latour (2000) ao utilizarem o conceito de rede para a sua representação. Para Castells, o Estado-rede representa uma nova fórmula político- institucional, caracterizada pela redistribuição de competências e recursos de coordenação entre distintos atores, jurisdições e níveis institucionais e organizacionais governamentais e não- governamentais, compondo os processos decisórios contemporâneos. As novas tecnologias de comunicação e informação forneceriam 32 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO os meios para manter ativas as relações entre os agentes e as instituições envolvidos nas novas cadeias decisionais e acionais, com diversas modalidades de complexidade e extensão: locais, regionais, transnacionais (CASTELLS, 1999; JESSOP, 1998). Sem entrar neste momento na discussão dos grandes quadros teóricos ou históricos, interessa-nos resgatar enunciados e acontecimentos mais específicos que contribuam para o reconhecimento do estatuto atual da relação entre política e informação (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 29). No final da década de 1970 que começaram a se desenvolver atividades econômicas com a principal função de produção, processamento ou distribuição da informação. Isso acontecia de forma diferente daquelas atividades em que a informação era colocada como secundária ou subordinada à função principal, conforme afirma Porat (1977) citado por González de Goméz (2002). A partir disso, estabeleceu-se o que hoje se chama de quarto setor, que era um pouco mais autônomo que os sistemas anteriores e que afetou a economia como um todo. Assim, os discursos sobre os sistemas nacionais de informação científico- tecnológica enquanto algo do Estado passaram a ser substituídos por um discurso focado no econômico. González de Goméz (2002, p. 29) traz como exemplo: Zurkowski (1984), presidente da Associação das Indústrias da Informação, usa o conceito de ‘infoestrutura’ como uma composição dos termos ‘informação’ e ‘estrutura’ para designar “a miríade de elementos necessários para sustentação da sofisticada capacidade de manipulação da informação”. Ao mesmo tempo em que procura mapear essa “infoestrutura” em suas crescentes complexidade e expressão, Zurkowski se pergunta pelas possibilidades de integração das tecnologias, dos mercados e dos diferentes segmentos das indústrias da informação como o caminho de sobrevivência e oportunidade de fortalecimento do setor, superando suas atuais segmentações, suas justaposições e conflitos, suas formas oportunistas e imprevisíveis de agregação e de expansão. A indústria da informação desde seu início busca a integração econômica no polo da produção. Assim, passaram a existir duas tendências: a primeira tendência indicava uma crescente importância e a autonomia nos campos econômicos, políticos e sociais dos fenômenos comunicacionais e informativos, onde os novos modelos tecnológicos e econômicos passam a ser estruturais e estruturantes das atividades sociais. A segunda “sustentando a constituição de um setor diferenciado das atividades, da indústria e dos mercados de informação, “o quarto setor”, diferenciado do setor de serviços” (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 30). No entanto, houve, ao que parece, uma interceptação do desenvolvimento da segunda tendência por parte da primeira, em que, segundo Maria Nélida Gonzaléz de Goméz (2002), os fenômenos, os processos e as atividades informacionais passaram a ser identificados como planos de construção das atividades e manifestações sociais, econômicas e culturais. Para a autora, isso se deve à sociedade da informação e à infraestrutura da informação. Há o que a autora chama de “deslocamento discursivo” no campo TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 33 estratégico do Estado para o campo da economia, onde ocorre a passagem do modelo do ‘quarto setor’ à ‘infraestrutura de informação’, perpassando todas as atividades sociais. Assim, ocorre uma profunda alteração nos “cenários da informação e a reformulação dos agregados de atores políticos, econômicos e sociais que deveriam compor os novos arranjos organizacionais do domínio” (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 30). Castells esclarece o ponto principal dessa mudança ao inferir que: O termo sociedade da informação destaca o papel desta última na sociedade. Sustentarei, porém, que a informação, em seu sentido mais amplo, ou seja, como ‘comunicação do conhecimento’, tem sido fundamental em todas as sociedades, incluída a Europa medieval, que estava estruturada e em certa medida unificada em torno do escolasticismo, isto é, em conjunto, um marco intelectual... Em contraste, o termo informacional indica o atributo de uma forma específica de organização social na qual a geração, processamento e transmissão da informação convertem-se em fontes fundamentais da produtividade e do poder, devido às novas condições tecnológicas que surgem no período histórico (CASTELLS, 1997, p. 47 apud GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 30). Em 1994, um dos carros-chefes da política norte-americana do governo Clinton foi o programa da Global Information Infrastructure (GII), apresentado em 1994 na reunião Internacional Telecommunication Union naquele ano em Buenos Aires. Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos, consolidou, na reunião de apresentação, a associação entre infraestruturas e informação ao conceito de rede, mercado e globalização. A ruptura paradigmática ocorreu a partir do conceito de infraestrutura ser anexado juntamentecom o termo informação. Infraestrutura é genericamente atribuída como um conjunto de instalações, recursos, meios que são requeridos para que uma atividade, organização ou sociedade funcione (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). A infraestrutura de informação propõe-se como comunicacional e produtiva, nela acontece tanto a transmissão como a geração de valor. Liderando um modelo aberto e expansivo da “pax” globalizada, lançava-se uma convocatória de investimento nesse novo tipo de infraestrutura que, diferentemente das redes viárias e territoriais, caracterizava-se por seu alcance global e sua capilaridade local, sua capacidade de ligar nações e domicílios, organizações poderosas e indivíduos anônimos, sem passar necessariamente pelas fronteiras instituídas: as geopolíticas, as institucionais, as disciplinares (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 30). Dessa forma, no programa apresentado por Al Gore, GII aconteceria visando aos mercados e a “universalização do acesso aconteceria pela facilitação da aquisição de equipamentos tecnológicos (preços acessíveis para as pessoas de todos os níveis de renda) e pela padronização, interoperabilidade e transportabilidade de produtos e serviços” (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 30). Dessa forma, a 34 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO economia da informação seria renovada e o projeto moderno de integração seria reformulado na aposta de conjugação da democracia neoliberal, a “pax” global e os mercados concorrenciais. Enquanto isso, a sociedade europeia elaborou um documento intitulado ‘Europa e a Sociedade Global da Informação” – também conhecido como Bangemann Report – e o apresentou na reunião de 1994 do Conselho Europeu, em Corfu. O documento em forma de relatório se refere à “revolução baseada na informação, mesma expressão do conhecimento humano”. A sociedade da informação passa a ser o termo utilizado para designar as transformações em vez de infraestrutura. Sociedade é indicativo de convocação de atores da iniciativa privada para implementação das mudanças e o termo informação foca nas aplicações e conteúdos culturais, visando atender tanto a diversidade linguístico- cultural da Europa como as potencialidades de seu capital artístico-intelectual. Dada a importância de manter a integração tecnológica e comunicacional dos países membros da Comunidade Europeia, será necessário desenvolver ações de coordenação e de harmonização das estruturas reguladoras e organizacionais. “Comitês” interorganizacionais e outras figuras de cooperação autorreguladoras (como os “consórcios”) surgirão para atender às novas situações, estabelecer padrões e prover a interconexão de redes e serviços nas principais atividades econômicas, culturais e sociais (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002, p. 31). Já na década de 1990, a Unesco, “cujas intervenções no domínio da informação tiveram sempre um papel significativo em nível internacional e na América Latina”, passou a modificar os seus principais programas envolvendo informação, em especial o General Information Programme (PGI) e o Intergovernmental Informatics Programme (IIP). Segundo a própria Unesco, com a revolução informacional houve a crescente justaposição de ambos os programas e dessa forma foi preciso reformular a inserção organizacional. Assim, a partir do ano de 1996, passa a existir uma única secretaria, a Divisão de Informática e Informação. O objetivo do novo programa era a contribuição na configuração da sociedade da informação (UNESCO, 2000 apud GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). Em 1995, um grupo intitulado Grupo dos 7 anunciou que colaboraria para a construção de uma infraestrutura global de informação com princípios idênticos aos apresentados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em reunião ocorrida em Buenos Aires, referindo-se aos aspectos considerados tecnológicos, como a interoperabilidade, a interconectividade, o acesso aberto. Assim como outras iniciativas europeias, o Grupo dos 7 trouxe diretrizes sobre os conteúdos e os canais de informação (BORGMANN, 2000 apud GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). González de Goméz (2002, p. 31) sintetiza dizendo que a “relação entre política e informação deverá ser reconstruída a partir de sua ‘imersão’ nas novas configurações das infraestruturas de informação e da Sociedade da Informação”. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 35 4 POLÍTICAS PÚBLICAS, MICROPOLÍTICAS E O REGIME DE INFORMAÇÃO A relação entre política e informação, nos novos cenários, deverá ser compreendida quando inserida nos domínios econômicos e tecnológicos, nos quais atua o plano implícito de micropolíticas, que pode ser inscrito nos “componentes técnicos e não técnicos do desenho e operacionalização dos dispositivos de informação ou através de figuras econômicas – como as tendências oligopólicas ou monopólicas” (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 32). Em seu sentido mais amplo, o conceito de ‘infraestrutura de informação’ se refere à “convergência das tecnologias da comunicação, telecomunicação e informática, tendo a internet como principal locus de realização dessa convergência” (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 32). Ao se analisar de forma breve os aspectos próprios das redes e da infraestrutura, se permite reconhecer a existência de um plano de conexo entre a informação e a política como expressividades de interesses, desejos, escolhas e tomadas de decisão (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002). Conforme Maria Nélida González de Gómez (2002, p. 32): Em primeiro lugar, consideraremos que políticas tácitas estão embutidas no design e formas de operação das infraestruturas de redes. A inscrição de padrões nas infraestruturas de informação – não visíveis ou implícitos desde o ponto de vista dos usuários – faz aparecer, como determinações funcionais e instrumentais, as decisões e alternativas que resultam das negociações de interesses, dos objetivos, projetos e escolhas organizacionais que, de modo prescritivo, antecipam operações e relações preferenciais nas redes, entre sujeitos, organizações e informações. Desse modo, existiriam os “padrões”, que seriam regras construídas por “atores em práticas sociais e operações técnico-instrumentais”. Esses atores podem “ser ‘de jure’, sancionados em processos institucionais ou jurídicos, ‘formais’ ou convencionais, gerados em processos ‘quase democráticos’, por corpos colegiados e “padrões de fato”, embutidos com caráter prescritivo em processos, serviços e produtos pelas forças do mercado” (GONZÁLEZ DE GOMES, 2002, p. 32). Assim, “seriam esses padrões de comunicação infraestrutural os que produzem nas redes um primeiro plano de zoneamento discursivo. São facilitadas certas relações, trajetórias e ocorrências semânticas, enquanto outras são desativadas ou dificultadas” (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 32). A autora traz como reflexão as escolhas de um ou outro sistema operacional (Windows ou Lynnus) a ser utilizado em redes de comunicação via computador (como escolas, hospitais, universidades etc.). É preciso lembrar do caráter regulatório dos padrões tecnológicos, que estão inferidos enquanto micropolíticas tácitas sobre os processos de informação e comunicação. 36 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO Com relação aos macrosistemas tecnológicos, a autora informa que estes não seguiram uma trajetória de estabilidade obrigatória, mas respondem à negociação de interesses. Latour chama de “tradução” o modo como os interesses são negociados, buscando corporalizar-se e constituir caixas-pretas ou cadeias de relações irreversíveis (LATOUR, 2000). Os sistemas tecnológicos passariam assim por fases, estando nas fases iniciais mais sujeitos à negociação (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 32). A convergência tecnológica, por sua vez, tornava favorável a formação de grandes corporações, oligopólios e quase-monopólios. Dessa forma, essa convergência pode incorporar“os mais diversos segmentos das indústrias eletrônicas, audiovisuais, editoras, empresas de telecomunicação, rádio, televisão, cadeias de broadcasting, publicações, serviços audiovisuais, serviços de informação on-line (acesso a bases e bancos de dados)” (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 33). Segundo Mosco (1999) apud González de Gomez (2002, p. 33), os princípios das convergências tecnológica e econômica tornavam favorável a repetição, via internet, de arranjos monopólicos já experimentados no domínio das telecomunicações. Dessa forma, a internet encontra-se no que o autor considera como uma “encruzilhada entre o desenvolvimento de experiências democráticas e inovadoras ou o fortalecimento de tendências monopólicas, sobrecodificadoras, de regulamentação”. Segundo Mosco (1999) citado por González de Gomez (2002, p. 33): O grupo de pesquisa sobre governos eletrônicos, CYPRG, por exemplo, considera que a motivação inicial de dar à publicidade as informações públicas teria dado lugar a uma preocupação maior com as “estratégias de navegação” e com um estilo jornalístico de construção discursiva, em uma crescente ‘mediatização’ da Web. Não seria, porém, a política de informação a única afetada pelas novas formas de vinculação e desvinculação de sujeitos, informações e discursos: o que estaria em jogo, após ser verificada a impossibilidade de vigência ou reformulação da “constituição comunicacional”, seria a possibilidade do político, em geral. Para Knoche (1996) citado por González de Gomez (2002, p. 33), a concretização dos modelos de Estado Organizacional ou da chamada sociedade- rede tornará cada subsistema funcional e desenvolveria autonomamente suas próprias semânticas especializadas. Dessa forma, “cada subsistema constrói uma imagem tematicamente diversificada do social, comprometendo toda composição político-cognitiva de uma visão abrangente do social”. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 37 Sem ‘algo em comum’, que teria proporcionado à modernidade a garantia e a possibilidade de uma vontade do coletivo. Um impasse não só para “as expectativas de uma democracia extensível à sociedade, mas também ao próprio conceito de ‘política’, provocando a perda de sentido da questão da política informacional” (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 33). Definidos à luz das formas modernas de soberania, os sujeitos políticos da informação estariam sujeitos às mesmas questões e tribulações dos grandes atores dos cenários modernos. Os sujeitos informacionais e os contextos institucionais de ação, articulados por ontologias classificatórias comuns, ofereciam um horizonte antropológico constante que permitia traçar linhas de continuidade entre as micropolíticas inscritas nos dispositivos de informação e as macropolíticas que exprimiam conflitos e interesses em figuras hegemônicas organizadas pelo Estado (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 33). As redes sociais de comunicação e informação acompanhariam, simultaneamente, “em cada um de seus elos, momentos e configurações, uma teia social singularizada por sua ancoragem no tempo e no espaço”, conforme infere Maria Nélida González de Gómez (2002, p. 34). Existe, então, a dificuldade para um observador que busca reconstruir a identificação dos sujeitos em ambientes de redes, visto que a dificuldade é equivalente à de encontrar indivíduos e grupos para o desenvolvimento de seus processos individuais de subjetividades dentro dessas interfaces (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002). Os ambientes de rede, por sua heterogeneidade, pela desativação das formas prévias das vinculações social e discursiva e também pela desconexão dos contextos já habituais das mensagens, nem sempre respondem aos critérios de valor e aos procedimentos estabelecidos de confiabilidade da informação, que foram constituídos nos diferentes espaços sociais de práticas e interações comunicacionais (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 34). Dessa forma, como consequência, a ausência de regras e padrões sociais e valores explícitos, reconhecidos e aceitos pelos sujeitos envolvidos em um processo de comunicação em redes, geraria uma nova forma de “anomia informacional. Além disso, os novos cenários trariam a necessidade de revisão das categorias de análises e dos procedimentos metodológicos. Para tal, o conceito de ‘regime de informação’ passaria a designar o modo de produção informacional dominante em uma formação social. Serão definidos sujeitos, instituições, regras e autoridades informacionais, os meios e os recursos preferenciais de informação, os padrões de excelência e os arranjos organizacionais de seu processamento seletivo, seus dispositivos de preservação e distribuição. 38 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO Um “regime de informação” constituiria, logo, um conjunto mais ou menos estável de redes sociocomunicacionais formais e informais. Informações podem ser geradas, organizadas e transferidas de diferentes produtores, através de muitos e diversos meios, canais e organizações, a diferentes destinatários ou receptores, sejam estes usuários específicos ou públicos amplos. O regime de informação não tem a configuração de um sistema de informação ou de um “sistema de sistemas”. É uma morfologia de rede. Uma figura mais ou menos discernível por suas zonas de desigual densidade e seus planos agregados de fluxos e estruturas de informação, de desigual estabilidade (GONZALEZ DE GOMEZ, 2002, p. 34). Assim, um regime de informação é constituído, em cada caso, por encadeamentos de relações pluridiversas, tais como: a) Intermediáticas – que se referem à TV, jornais, conversas informais, Internet etc.; b) Interorganizacionais – ligadas à empresa, universidade, domicílios, associações etc., e; c) Intersociais – referentes a atores comunitários, coletivos profissionais, agências governamentais etc. Logo, Um regime de informação pode considerar-se, logo, como equivalente aos dispositivos de Foucault, destacando seu ser definido só por meio de sua operacionalização. Nunca é plenamente constituído por uma intenção a priori e carece, ao mesmo tempo, de uma neutralidade tal que possa ser considerado um mero instrumento a receber, a posteriori, um fim. As regras e o desenho de sua constituição operacional levam as marcas das condições de sua emergência e realização – tecnológicas, organizacionais, econômicas, culturais. Diferentemente do sistema, o dispositivo é opaco, complexo, nada antecipa nem garante a equifinalidade de suas partes (GONZALEZ DE GÓMEZ, 2002). TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 39 FIGURA 5 – REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DE UM EXEMPLO DE REGIME DE INFORMAÇÃO FONTE: <http://www.scielo.br/pdf/pci/v15n3/07.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2019. Regime de Informação Atores Sociais Ação de Informação Dispositivos de Informação Artefatos de Informação Atores Sociais Dispositivos de Informação Artefatos de Informação Ação de Informação Fatores ou Relação Externa Interferência ou elo Exemplos Com relação ao conceito de “regime de informação”, este demarcaria, conforme González de Gómez (2002, p. 35), um amplo e exploratório domínio onde a “relação entre a política e a informação ficaria em observação, permitindo incluir tanto políticas tácitas e indiretas quanto explícitas e públicas, micro e macropolíticas, articulando, em um plexo de relações por vezes indiscerníveis, as políticas de comunicação, cultura e informação”. 40 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO LEITURA COMPLEMENTAR Vamos reforçar o aprendizado sobre políticas públicas de informação? Leia o texto a seguir: ESTADO INTELIGENTE: BASE PARA CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS Marta Pinheiro Aun No ambiente da “sociedade em redes”, Bourguinat (1998) propõe aos estados uma economia que ele denomina de “moral” para que a esfera econômica não venha afetar as aquisições institucionaisobtidas pelas diferentes sociedades. Para o autor, a revolução informacional, constituída pelo “trio mágico: informática- telecomunicação-eletrônica”, potencializado pela multimídia, possibilitou uma realidade inegável, a do processo de globalização. Na prática dessa economia, ao invés de negar através de críticas a globalização, esta deve ser encarada na forma como tem afetado cada estado em sua individualidade e não de maneira única, global. Para o autor, como também para Lojkine (1998) e Serfati (1999), o que não se pode aceitar seria a fatalidade de um pensamento único, de uma única forma de se colocar no mundo. É como se todos estivessem atrasados para um “grande acontecimento”. Para ele, não são as nações ou estados a desaparecer, mas o pensamento único, tornando irreconhecíveis. É como se pensar e agir politicamente se tornassem ações “atrasadas” em relação a medir e a disputar reputação e credibilidade junto às altas esferas financeiras da Tríade 2. O mundo abandona o construído. O discurso da urgência substitui os pianos de longo prazo. O importante nesse ambiente do “novo”, um novo que parece ter que vir pronto, sem processo de princípio, meio e fim, é que os estados não percam a consciência da realidade. Chesnais (1996) e Boyer (1998) alertam para a dificuldade dos estados na coordenação dos espaços verdadeiramente de interesse de suas sociedades. A perspectiva internacional direciona para a equação do lucro imediato, competitividade e curto prazo, minando as possibilidades das perspectivas sociais e culturais, da elaboração de conteúdos regionalizados, que exigem políticas de longo prazo, principalmente em relação à informação. Esses autores, reconhecendo a realidade da atual fragilidade dos estados, consideram como primordial o estabelecimento de estratégias que permitam a cada país estabelecer a sua margem de manobra nesse contexto tendendo ao perfilamento ideológico. Os Estados Unidos como nação soberana, ao contrário do que é pregado pelo sistema neoliberal, o mercado como coordenador, continua tendo, na figura do TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 41 seu governo, a representação da força de poder e de decisão, como já foi apontado por Cassiolato (1997). Quais seriam então as iniciativas para a preservação dos territórios, sociedades, culturas, economias, identidades? Bourguinat (1998) considera que para serem conservadas essas identidades seria necessário que os estados aceitassem o dever de um inventário. Inventariar: quem somos e o que podemos ser no contexto mundializado também denominado de sociedade da informação. E assim ele fala da França: “Mesmo que isso venha a nos custar muito, saibamos perder o que é acessório para conservar o que é essencial”. A visão do que seja essencial é que parece rarefeita. Assim, o “inventário” deveria ser iniciado pelos estados determinando seus objetivos em relação à sociedade da informação. Para tanto, é necessário ao Estado conhecer as necessidades do seu povo, as organizações dos seus funcionários e as escolas de seus alunos. Na ambiência do mundo atual, muitas vezes parece que o estado, política e poder são conceitos que vão se tornando peças de um jogo de adivinhação. Programas, planos e objetivos governamentais são tomados por políticas ou como ações de interesses políticos. O poder parece ser dado aos que correm contra o tempo, o poder de atender à urgência. O estado parece ter se tornado figura fragilizada, envolvido pela gama de movimentos imprevisíveis da esfera econômica, sendo rotulado de ter se tornado máquina pesada e “inchada” até mesmo por seus próprios governantes (ANDERSON, 1996). O poder não é mais nomeado e até a tecnologia passa a ser detentora desse poder e responsabilizada por todas as transformações. Como se encontram então essas peças institucionais tão importantes: estado, política e poder? A política constitui conceito claro e bem definido. Sua origem, a cidade grega, a polis, significa a comunidade organizada de homens livres e o termo tem em Aristóteles uma definição precisa: a arte e a maneira de conduzir os trabalhos públicos, de regrar as relações entre os indivíduos e os grupos ou, dito de outra forma, a arte de governar. Conforme apontado por Maille (1995), o estado existindo há mais de dez séculos é produto do encontro da política e da história, é a instituição das instituições e seu desenvolvimento advém de certo número de elementos imprescindíveis: a) Um território, delimitado geograficamente. b) Um meio militar e diplomático, pois sempre foi através de conquistas e tratados que os estados ganharam suas extensões territoriais. c) Uma população. d) Uma língua. e) Uma cultura que se liga à língua. f) Uma economia, um princípio para garantir a subsistência da população e como forma de poder. O poder foi definido por Heródoto a.c. como sendo a modalidade de exercício da autoridade. Uma definição mais simples e elucidativa citada por Maille (1995) é a capacidade de agir de um indivíduo ou de um grupo sobre outro indivíduo ou grupo. O fim da bipolaridade política mundial e todas as transformações econômicas mundiais foram substituídos pela penetração de um capitalismo comum de contenção de gastos sociais e de equilíbrio pela esfera econômica. Sua penetração encontrou no desenvolvimento das redes tecnológicas instrumento possibilitador do processo de globalização. Uma UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 42 aparente homogeneização política acabou por camuflar a clareza do emprego dos conceitos de estado, política e o conhecimento transparente da distinção entre espaço público e espaço privado. O conhecimento do que era público em distinção ao conhecimento do espaço privado torna-se cada vez menos perceptível no mundo contemporâneo. Alguns autores, como Foray e Lundvall (1996), afirmam que a tradicional dicotomia entre conhecimento público e conhecimento privado tem se tornado, portanto, menos relevante. Segundo eles, formas híbridas de conhecimento têm sido colocadas social e politicamente não sendo nem completamente públicas nem completamente privadas. Se o conhecimento e a competência estão sendo desenvolvidos interativamente em redes, as mudanças podem ser vistas como um mudar histórico, um processo de transformação social onde começamos a perguntar sobre velhos atores com papéis e pontos definidos anteriormente no bloco histórico para que possamos dimensionar o espaço da informação e do conhecimento nesse novo tempo e sua relação com as atuais transformações do estado e suas políticas, sobretudo de informação. Contemporaneamente, em lugar de força ou poder do estado, fala-se de força econômica mundial determinada em um espaço restrito pela competência científico-tecnológica e pela força oligopólica financeira. Koenig (1995) e Ianni (1996) assim afirmam e ainda consideram que as formas de poder e os espaços de politização se transformam em um espaço crescentemente despolitizado pelo enfraquecimento dos estados- nação e esse poder hoje não está mais atrelado à figura do estado, mas ao papel desempenhado pela informação e ao conhecimento pela emergência da sociedade da informação. Nos conceitos gramscianos, o estado enfraquecido assumido representativamente por uma classe dominante quando não consegue cumprir todos os papéis, principalmente o de condensador de forças dos coletivos, estabelece, então, aparelhos de coerção (polícias, tribunais, normas, “regras de mercado” opostos à construção hegemônica. Já o estado forte tem seu campo de poder na legitimidade ativa das classes. O poder do estado legitimado pela sociedade civil transforma uma sociedade política forte, não perdendo sua representatividade junto à sociedade. Ao estado, cabe a decisão do saber, “o saber prudente”. Seria o estado forte ou poderíamos nomeá-lo, na ambiência informacional, de estado inteligente. A construção do conceito de conhecimentose faz então à luz do poder do estado, que representa o próprio conhecimento, a informação como realização da racionalidade, o consentimento ativo dado pela sociedade civil, os “elos formados por interesses comuns através da informação” (GÓMEZ, 1997), tendo um papel essencial no seio da superestrutura mundial. Foucault (1995) relata o poder como uma realidade plural, não podendo, portanto, ser classificado pela sua natureza ou essência e, portanto, ser caracterizado universalmente (não hegemônico, portanto). O autor estabelece que o poder não é único, globalizado e que na verdade ele pode ser percebido em TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 43 formas heterogêneas, diferenciadas, em constantes transformações. O poder para Foucault é uma relação social e, por isso, constituído historicamente representando a ação sobre a ação. Assim, o autor argumenta que o estado não pode ser considerado como aparelho central e exclusivo de poder. O que existe é uma articulação com diferentes poderes locais, específicos, anônimos, pertencentes a uma única área de ação, a da instituição. A mecânica do poder se expande, se difunde pela sociedade em formas moleculares caracterizadas, às vezes, por micro ou subpoderes. Há uma forma funcional de troca de informações, sendo estabelecidos hierarquias e valores, sanções normalizadoras. A informação passa a ser então o dispositivo dos dispositivos, a instituição das instituições. Já Latour (1994) atua em um processo de tradução das redes. Vê, no estado, uma “criatura artificial”, composta de cidadãos que estão unidos na aparência por uma autorização dada por alguém que representa, tendo o poder da representação. A questão para ele reside no fato de a constituição moderna inventar uma separação entre o poder científico encarregado de representar as coisas, a natureza e o poder político encarregado de representar os sujeitos, a sociedade. A competência da representação do sujeito fica com o estado. A natureza fica como “estrangeira e até hostil”. Os erros causados são então colocados na tecnologia, tecnologia que Latour vê como integrante da sociedade dando estabilidade e durabilidade. Para Latour, sociedade e tecnologia devem funcionar num programa de ação e relação com momentos de separação e de ligação em associações e desassociações contingenciais. Ligados ao estado aparecem o campo do poder e o capital político e dentro do campo de poder está o capital da informação. Mais englobante que o capital cultural, o conhecimento reconstitui as relações sociais. O conhecimento deve ser mutável, passar por processos através de cadeias de associações: um trabalho de rede, onde cabe o trabalho de tradução, evitando a separação do mundo das coisas. Sociotécnicas, as redes para ele são a representação que engloba também o científico e o político. A centralização do poder informacional, para Latour, parece inviável. Os estados se subdividem em microestados ou se aglutinam em blocos contemplando ora a técnica, ora a sociedade. As redes estabelecem diferentes pontos de integração, permitindo passar do local para o global e vice-versa. Segundo Latour, as redes, saindo de sua clandestinidade, representarão governos, as técnicas. Castells (1997) e Gómez (1997) veem a sociedade da informação como uma sociedade em rede, onde múltiplas formas de poder estão representadas. Propõe-se a visão de um estado que não se resuma em representar a única forma de poder ou que apoie uma forma de poder anônimo que considere natural a desintegração dos coletivos. Defendemos a presença forte de um estado que, integrado à sociedade, a represente em uma rede mundializada. A rede como “representação dos coletivos” divulga um estado legitimado pela sociedade civil e em constante transformação, criando associações em ações heterogêneas e desassociações em relações contingenciais de uma sociedade em transformação despertada pela informação e pelo conhecimento. UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 44 Estado como coordenador Segundo Levy (1996), o poder da inteligência coletiva, acoplando a inteligência individual à memória dinâmica dos coletivos, cria e modifica as representações e a linguagem. Transforma e cria valores, modificando, deslocando. O autor visualiza a possibilidade de um metamercado integrado, instrumento de uma avaliação cooperativa distribuído à sociedade por ela mesma, onde o estado deve representar com políticas dos coletivos. Janni (1996), de forma menos otimista, diz que um poder anônimo se instala na forma de um supersistema padronizador de formas de pensar e de agir sem a consciência “inteligente” dos coletivos. No supersistema, o estado é localizado como subsistema em relação ao sistema social enquanto sistema político, estabelecendo seu vínculo através do estabelecimento de políticas, mesmo que estas estejam em transformação. Estados sempre sofreram pressões externas e internas interferindo em seu processo de construção política, políticas sempre elaboradas em consonância com esses desafios. Hoje, os estados fragilizados, vivendo um clima de incertezas, são o reflexo claro dos problemas. O problema é que essas forças não podem ser aceitas pacificamente como “incontroláveis” ou “naturais”. Assim, os governos convivem hoje com mudanças que não advêm somente do seu interior. Du Castel (1995) afirma que os governos têm cada vez mais dificuldade de rivalizar com as potências transnacionais que desafiam toda a forma de controle por parte dos estados no exercício de sua soberania nacional, sobretudo em relação à comunicação. Para Diniz (1996), os estados são permeados por um sistema de intermediação de interesses oligopolísticos que não garantem governabilidade, criando gargalos nas políticas. Sofrendo cobranças e pressões externas e internas, cabe ao estado, mais que em outras épocas, o papel de coordenador e implementador. Dentre os autores que não acreditam na falência dos estados, citamos Diniz (1996) que, como tantos outros, vê o fortalecimento no uso da governance ou coordenação como forma política dos novos tempos. “A capacidade governativa no sentido amplo, envolvendo a capacidade de ação estatal na implementação das políticas e na consecução das metas coletivas. É o conjunto dos mecanismos e procedimentos para lidar com a dimensão participativa e plural da sociedade, o que implica expandir e aperfeiçoar os meios de interlocução e administração do jogo de interesses” (DINIZ, 1996). A eficácia da ação do estado não depende apenas da capacidade de tomar decisões, mas de adequar as suas políticas a partir de arenas de discussão e de negociação, implementando uma gestão articulada. Diante das pressões internacionais que todos os estados têm sofrido, a governance surge como forma de governar com maior flexibilidade, ao serem descentralizadas funções e transferidas responsabilidades a parceiros sociais, ampliando o “universo dos atores participantes”, sem que o estado tenha que abrir mão de seus instrumentos de coordenação, controle e de supervisão, tendo TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 45 ainda o respaldo social para as suas ações externas (DINIZ, 1996). Os estados procuram mudar internamente através de serviços públicos mais transparentes, mais eficazes, menos rotineiros, em diálogo aberto com a sociedade. A importância de um estado é conquistada pelas suas práticas sociais. A participação social exige hoje uma comunicação direta. As redes podem tornar isso possível se os objetivos forem claros e os interesses nacionalizados. De forma já generalizada, seguindo a mão única do tecnomemado, vão acontecendo altos investimentos sem uma seleção prévia das tecnologias mais apropriadas às necessidades da sociedade. Assim, são estabelecidos planos de curto prazo, atendendo à urgência, um selecionar único para municípios, empresas e instituições de ensino.Influência da urgência A questão da urgência está normalmente associada às TIs e é vista por determinados autores com reserva. Giddens (1991) e Monnoyer-Smith (1998), por exemplo, apontam que a representação do tempo, acelerada pelas técnicas, seja uma das consequências da modernidade, influenciando sociedades e seus governos a darem uma conotação obsessiva ao fator tempo. Isso, para Monnoyer- Smith, vem gerando ao modelo ocidental de cultura temporal duas características (i) o tempo agora é tomado como termo de eficácia e por eficiência. O autor atribui essa particularidade à invasão da lógica de mercado em todas as esferas da economia e da sociedade; (ii) a rapidez é encorajada e valorizada. A rapidez de respostas e de ações passa a ser elemento da competitividade das empresas. Como consequência da supervalorização do tempo, surge a ideologia da urgência, que aparece claramente em nível político como uma forma de ação- resposta às crises crônicas enfrentadas pelos governos. Quando não se fala nos discursos em urgência, emergência, fala-se de atraso e sempre do atraso técnico (gestão da técnica) ou de domínio da técnica (gestão técnica do sociocultural). Monnoyer-Smith (1998) argumenta que a urgência vem para preencher um vazio conceitual, próprio à transição e assim cita Aubert: “A urgência se presta a dissimular a perda de significado que afeta nossas sociedades”(AUBERT, citado por MONNOYER-SMITH, 1998). Uma ilustração da evolução de urgência, da questão da temporalidade na esfera política fica clara nos discursos dos primeiros ministros das maiores potências da Europa. Para Monnoyer-Smith, assiste-se à emergência da temática da urgência como garantia de legitimidade da ação política. O autor argumenta que a urgência se coloca de forma obrigatória dentro do discurso político, para assim o governo agir mais livremente em resposta à esfera econômica. Por outro lado, a situação de “começo” é então apresentada como ruim, dramatizada pelo discurso do atraso. Numa situação colocada de urgência permanente, a lógica das ações rápidas e planos de curto prazo vem justificar a substituição das políticas de longo prazo. Da crise ao vazio social, cria-se a necessidade de ações urgentes apresentadas dentro dos programas governamentais, de forma dominante e necessária. Agindo 46 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO dessa maneira, a garantia do desenvolvimento sustentável torna-se imprevisível. Os estados, mesmo nos países desenvolvidos, têm-se tornado mais modestos em suas atuações sociais. As cotas com a educação, saúde e segurança têm sido menores. Seus governos encaram com naturalidade a fragilidade dos sindicatos e sua perda do adquirido (LOJKINE, 1998). Sua capacidade de coordenação, de governance fica comprometida. Evidentemente que o ritmo e a orientação do desenvolvimento tecnológico dependem de decisões políticas, tanto públicas como privadas. Castells (1998) salienta o papel do estado: “O estado (bloqueia, aciona ou conduz a inovação técnica) exerce um papel decisivo. Gera exprimindo e organizando as forças sociais e culturais que prevalecem em determinado momento e lugar. A técnica revela em grande parte a capacidade de uma sociedade de se lançar no domínio tecnológico através das instituições sociais que compreendem o estado. O processo histórico pelo qual produzo desenvolvimento das forças produtivas define as características das técnicas e a maneira pela qual acontecem as relações sociais” (1998). Sem sentido é pensar e aceitar o fim de estados. Ao contrário, é preciso pensar e compreender sua nova formatação ao tentar acompanhar as ondas de transformações da nova era da informação. As intervenções institucionais sobre a técnica não vêm mais só do estado, mas de centros de decisão públicos e privados. Mas sempre é o institucional, o político é que determina o técnico. Sozinho, sem o patrocínio institucional, um cidadão, uma pequena empresa, navegarão sem rumo pelas redes. Portanto, para participar da sociedade da informação de forma mais positiva, exige-se, acima de tudo, a construção de políticas nacionais que atendam aos interesses sociais. Para a construção do novo quadro político, os estados parecem encontrar importantes desafios. Experiências analisadas nos países da Europa ocidental para a concretização dessa nova sociedade informacional fazem-nos acreditar em possíveis vivências e experiências positivas observadas na Alemanha, França e Reino Unido. Políticas de informação: políticas emergentes na sociedade da informação A partir da década de 1950, num desenvolvimento originado nos estados mais desenvolvidos do ocidente, tem início a construção de políticas de informação voltadas para os desenvolvimentos científico e tecnológico, incentivadas pelos estados que passam a promover a importância da ciência como modernizadora da estrutura produtiva (SILVA, 1993). O advento do Sputnik, que a URSS lança em 1957, surpreende os países de pesquisa científica mais avançada. Para Cacaly (1990) e Browne (1997), esse inesperado evento faz o governo dos Estados Unidos concluir que a informação científica circulava mal mundialmente. Movidos pela carência e ineficácia, os Estados Unidos iniciam uma política de informação científica e tecnológica de aspecto mais abrangente. Essa política é explicitada através do documento Weinberg (nome do relator do projeto), dando início a esse novo formato de construção política que TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 47 é divulgada pelo presidente Kennedy em 1963. No documento, a comunidade científica e o governo são responsabilizados pela transferência de informações. Esse relatório faz um alerta às principais comunidades científicas mundiais, que passam, junto a seus governos, a estabelecer políticas de informação nas quais o poder do controle da informação, responsável pelo desenvolvimento técnico- produtivo, fica dividido entre os estados e a ciência ou a comunidade científica. Até a década de 1990, na tentativa de melhorar a eficácia na transferência de informações na Europa, a França, a Alemanha e o Reino Unido, embora tenham adotado políticas nacionais diferentes, estabeleceram, como ponto comum, a centralização das ações para a elaboração dessas políticas em um só órgão. A esses órgãos cabia a responsabilidade do mapeamento da produção científica nacional, gerando as fontes para o desenvolvimento de bases de dados referenciais, além de outros recursos, instrumentos e serviços orientados a propiciar melhor disseminação da informação, servindo de insumo à construção de indicadores de modernidade. No período que cobre as décadas de 70 e 80 do século XX, observa-se um grande esforço de desenvolvimento das telecomunicações, da informática e da eletrônica através de políticas implementadas que privilegiam essas áreas, e bibliotecas brasileiras começam a sua automação. A emergência da nova era é acelerada com a rápida difusão dos computadores pessoais e com a expansão e desenvolvimento da interface das áreas de informática, eletrônica e telecomunicações. Populariza-se, então, a expressão ‘sociedade da informação’ e o mundo assiste ao movimento de uma nova forma de comunicação social, onde a informação passa a ser disseminada através de redes que se expandem vindo a afetar diretamente as esferas econômicas, políticas e sociais. O processo de transformações tecnológicas e econômicas modifica a sociedade mundial, a construção de suas políticas de informação, obrigando- as a se reestruturarem. Dos diferentes países vem, então, a necessidade de estabelecerem programas ou políticas nacionais de informação que contemplem o estabelecimento de conteúdos regionalizados aliados ao desenvolvimento de tecnologias informacionais e o estabelecimento de infraestrutura tecnológica como condição básica. Trabalhos da OCDE (1997) e do governo francês PAGSI (1999) explicitamque, com a emergência da nova era informacional, economias e sociedades muito têm a ganhar se souberem aproveitar essas oportunidades, mas que se torna fundamental a todos os países a consciência de que o processo de integração dependerá de uma série de fatores. Destacamos, então, a importância da educação com novas possibilidades técnicas. Se bem utilizadas, empregando as novas tecnologias informacionais, haverá um melhor nível de prestação de serviços sociais, maior acesso à cultura, ao lazer e ao emprego. Esses trabalhos, entretanto, alertam para o fato de que todos os ganhos são dependentes da possibilidade de acesso a um novo sistema mundializado 48 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO que exige tecnologia de redes, domínio das tecnologias de informação. A complexidade maior será sempre em relação ao acesso aos conteúdos pertinentes. O cenário de construção de políticas de informação tem refletido o processo de transformações em vigor. Diversos autores, dentre os quais destacam-se Bowne (1997), Rowlands (1997), Moore (1997), Cacaly (1990) e Du Castel (1997), argumentam que se clareiem os conceitos básicos de política de informação e a abrangência dessas políticas. Para os autores, é importante a explicitação de diferentes conceitos sobre a abrangência da política de informação. Em primeiro lugar, o conceito de política tem que ser diferido do conceito de plano. O plano se traduz por um programa de atividades (informacionais no nosso tema) dirigidas à construção das culturas de organizações, sejam públicas ou privadas, numa operacionalização de estabelecimento de metas, linhas de ação. As condições de elaboração e agentes responsáveis são direcionadas pelas organizações ou instituições e não têm a obrigatoriedade de uma explicitação legal. O plano possui um horizonte temporal mais curto por estar ligado diretamente à operacionalização. Políticas são bem mais complexas. Abrangendo uma temporalidade de longo prazo, são explicitadas através de leis, decretos ou documentos aprovados por um governo em exercício, como forma de intervenção de sua administração (MOORE, 1998). Para Orna, política é o termo mais empregado para descrição de estratégias ou metas governamentais, sendo também usado em referência às estratégias usadas pelos setores público e privado e pelo setor das organizações em geral. Para Harnon, Burgei e Braman, as políticas de informação referem-se ao processo de transferência da informação, dentro de um contexto social que gera o ciclo de vida da informação. Para E isenschitz (apud BOWNE, 1997), o mais importante é o estabelecimento de mecanismos que garantam todo o processo de transferência de informação, garantindo, ao final da cadeia, a assimilação da informação por usuário, assegurando o acesso ao conhecimento. Já Moore, Meyriat, Kristiansson e Orna atualizam seus conceitos de ambiência do processo global da sociedade da informação, sugerindo as políticas de informação como uma resposta às influências externas. Dentro desses conceitos, as TIs ganham maior importância pela necessária conecção em redes. Política de informação: movimento de transição Rowlands (1996) afirma que grande parte do interesse atual pela política de informação advém da ampla discussão sobre a necessidade de desenvolvimento das infovias de informação. Segundo ele, dois fatores são responsáveis pelas novas visões e experimentos em política de informação: a) a convergência de mídias, tecnologias e serviços (conduzindo a mudanças no estabelecimento de políticas e sistemas de regulação); b) a atual visão de que as políticas de informação acarretam um potencial de contribuição positiva ao bem-estar social e econômico no aproveitamento da potencialidade transformadora em ganhos de produtividade e na melhoria da qualidade de vida. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 49 Segundo estudos de Weingarten (1989), hoje, há maior complexidade envolvida na construção dessas políticas. Para ele, a questão fundamental é equacionar efetivos compromissos com interesses competitivos. Cabe lembrar que, no progressivo estabelecimento dessa nova era, o controle dos fluxos de informação e do conhecimento representa crescentemente fonte importante de poder. Argumenta-se, então, que a política de informação atual tem que ser flexível, dinâmica, respondendo às circunstâncias de mudanças que ocorrem em maior velocidade. O processo de construção política deve hoje considerar que o novo cenário repleto de impactos e incertezas tem dificultado o estabelecimento dos objetivos das políticas de informação, redimensionando os processos políticos através de variáveis que podem ser conceitualizadas como dependentes e independentes. Considerando políticas de informação como variáveis independentes, podem ser analisados o impacto e o êxito sobre outros planos e dimensões de processos políticos mais amplos, como sociais, econômicos, educacionais. Considerando como variáveis dependentes, sofrem as contingências da ambientação mundial, não se limitando hoje às fronteiras nacionais, acarretando a característica de aparente emergencialidade. Burger (1993) apresenta três níveis hierarquizados de políticas de informação: a) Política de infraestrutura: estabelece as cotas de emprego, concessões e políticas de educação aplicadas à sociedade e em todo o seu contexto. b) Política de informação horizontal: aplicação específica e impactos sobre o setor de informação, como provisão estatutária de serviços de bibliotecas, formação de coleções, leis de proteção de dados. c) Política de informação vertical: aplicações para setores específicos de geração e uso da informação, tal como a comunidade geográfica de informação. Para Bowne (1997), no processo de transição, os países, ao buscarem espaço na nova era da informação, necessitam de modelos que os ajudem a analisar de forma mais ampla os fenômenos influenciados pelas mudanças no ambiente tecnoeconômico-social global. Há, então, maior necessidade de valor crítico no processo de construção de política de informação para melhor equilíbrio entre os campos tecnológico e sociocultural, ou seja, entre o continente e o conteúdo. Os pesos e medidas passam a ser outros, respeitando, principalmente, a vocação da sociedade e das empresas de cada país. Sem a precisão de modelos que os auxiliem a acompanhar tantas transformações de forma positiva, correm o risco ao elaborarem programas emergenciais. Hill (1995) adverte que os países devem ter consciência que o mais importante das políticas de informação é que elas podem vir a minimizar barreiras se proporcionarem o bom uso da informação ou penalizarem as sociedades, se houver mau uso ou um mau emprego da informação. Assim, é muito importante a seleção de conteúdos socioculturais que garantam qualidade da informação e não só a quantidade, respeitando as especificidades. 50 UNIDADE 1 | POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO: CONCEITUAÇÃO, PANORAMA E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO O autor, dando um enfoque mais industrial ao processo, destaca ainda que as políticas devem trabalhar com quatro níveis de recursos (tecnologia de informação; indústrias de informação; sistemas de informação e recursos humanos), assegurados por programas intensivos de informação (ensino, educação, pesquisa), programas de inovação, desenvolvimento de coleções, tomada de decisão, controle de informação, informação econômica, produção e invenção, distribuição e comercialização, administração de risco, coordenação, processamento, administração, atividades governamentais, além de um programa que acoberte todo o ciclo de vida da informação, desde a sua criação e produção à distribuição e uso. Complementando, Boyer (1998) assinala que os governos estão excessivamente preocupados com as transações financeiras, esquecendo-se de que se as políticas são bem estruturadas podem garantir as finanças e nãoo contrário. Para satisfação do mercado financeiro, muitos países estão voltando atrás com programas intensos e fundamentais nas áreas de educação, de saúde e segurança. É a lógica do sistema capitalista, excluindo a maior força política de um país: um povo educado, saudável e seguro, pondo em risco a formação de um povo determinado politicamente pelo seu nível de conhecimento. A subordinação, visando somente às transações econômicas do comércio eletrônico e à corrida às bolsas, nas quais, como argumenta Chesnais (1996), “informações são vendidas antes mesmo de existem”. Hoje, o processo de construção de políticas de informação é, em toda a sua complexidade, bastante diferente do que foi até o início da década de 70, quando, seguindo um modelo pós-fordista, privilegiava os desenvolvimentos científico e tecnológico através da sua sustentação informacional no desenvolvimento de coleções e na criação de bases de dados especializadas, incluindo os conteúdos por áreas de conhecimento. A diferença é que agora a orientação dessas políticas volta-se para empresas, negócios, serviços comerciais, de educação, de saúde, domiciliares. Busca-se, então, disponibilizar toda a informação em redes, com segurança de qualidade, autenticidade e proteção dos direitos e das próprias informações. “Estar disponível” ou produzido não garante a sua transformação em conhecimentos tácitos. Portanto, as demandas de construção política em seus múltiplos aspectos agora são outras e muito mais complexas. Exigem dos indivíduos, empresas e instituições governamentais uma nova capacitação de busca, a criação de conteúdos pertinentes e a definição do instrumental necessário ao atendimento dessa exigência. O desafio reside, então, no equilíbrio e na vontade explícita dos governos em formarem cidadãos conscientes para participarem mais ativamente da sociedade da informação, orientados politicamente para um mundo com maior visão social, contribuindo para que o crescimento das atuais múltiplas formas de pobreza não conduza o mundo a incontroláveis formas de barbárie. TÓPICO 3 | SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO 51 Moore (1996) e Browne (1997) alertam para o fato de que as políticas de informação tenham sido realizadas sem fortes bases intelectuais que venham dar suporte aos seus elaboradores, principalmente em relação à regulação e ao tratamento dos conteúdos. Esses autores consideram que o campo de estudo na área ainda é “novo” em relação às reorientações internacionais a serem submetidas às especificidades socioculturais dos diferentes países. Ainda é, portanto, necessária a sua integração aos estudos de ciências políticas e de política internacional, tornando-se interdisciplinar para que não se percam as orientações e o embasamento de outros processos anteriores de construção política. * Partes do texto foram retiradas visando tornar a leitura mais dinâmica e acessível. Para ler o texto na íntegra: AUN, Marta Pinheiro. Políticas públicas de informação e desenvolvimento. In: PAIM, Isis. A Gestão da informação e do conhecimento. Belo Horizonte: Escola da Ciência da Informação, 2003. 52 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Políticas públicas, o papel do Estado e suas implicações na sociedade atual têm sido questões estudadas na Ciência da Informação. • O estudo das políticas públicas tem buscado observar qual a lógica existente entre o Estado e a Sociedade, identificando as relações existentes entre seus atores e compreendendo as dinâmicas da ação pública. • As políticas públicas são compreendidas como o “Estado em ação”. • A política de informação se expressa para além do campo formal das leis e dos regulamentos, incluindo práticas e ações informacionais de determinados contextos, integrando sujeitos, instituições e interesses, cujas manifestações nem sempre são reveladas por mecanismos formais. • As políticas públicas são desenvolvidas para serem implementadas em contextos específicos de informação. Também dependem dos diversos segmentos e contextos comunitários para se desenvolverem no cotidiano das pessoas. • Os sistemas nacionais das informações científica e tecnológica não conseguem ser expressos em um domínio que seja estável e transparente dentro de instituições. • A partir da década de 1970, os discursos sobre os sistemas nacionais de informação científico-tecnológica enquanto algo do Estado passaram a ser substituídos por um discurso focado na economia. • Um dos carros-chefes da política norte-americana do governo Clinton foi o programa da Global Information Infrastructure (GII), apresentado em 1994 na reunião Internacional Telecommunication Union em Buenos Aires. • Já na Europa, o documento “Europa e a Sociedade Global da Informação”, também conhecido como Bangemann Report, foi apresentado na reunião de 1994 do Conselho Europeu, em Corfu. O documento, em forma de relatório, refere-se à “revolução baseada na informação, expressão do conhecimento humano”. 53 • Infraestrutura, conceito oriundo da ruptura de paradigmas, é genericamente atribuída como um conjunto de instalações, recursos, meios que são requeridos para que uma atividade, organização ou sociedade funcione. • O conceito de ‘infraestrutura de informação’ se refere à “convergência das tecnologias comunicação, telecomunicação e informática, tendo a Internet como principal locus de realização dessa convergência. • O conceito de ‘regime de informação’ passaria a designar o “modo de produção informacional dominante em uma formação social. Serão definidos sujeitos, instituições, regras e autoridades informacionais, os meios e os recursos preferenciais de informação, os padrões de excelência e os arranjos organizacionais de seu processamento seletivo, seus dispositivos de preservação e distribuição”. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar tua compreensão. Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo. CHAMADA 54 1 Considerando o Tópico 2, você aprendeu alguns tipos de Políticas Públicas de Educação no contexto da gestão da informação. Dessa forma, responda com verdadeiro (V) ou falso (F) as seguintes sentenças: a) ( ) O Plano de Ações Articuladas (PAR) se refere a um sistema informatizado de gerenciamento de informações desenvolvido visando à coleta de informações para o município poder entender a sua rede escolar, direcionar e acompanhar as ações de gestão e das práticas educacionais do Programa de Alfabetização na Idade Certa – PAIC. b) ( ) O Plano de Ações Articuladas (PAR) apresenta o detalhamento das ações e subações selecionadas por cada estado ou município. c) ( ) O Sistema Integrado de Gestão Educacional (SIGE) é o sistema de gerenciamento de informações da Secretaria de Educação do Estado do Maranhão-SEDUC. d) ( ) Entre os tipos de políticas públicas para gerenciamento de informações do campo da educação, encontram-se: Sistema Integrado de Gestão Educacional (SIGE), Plano de Ações Articuladas (PAR) e o Sistema de Acompanhamento das Ações do Paic (SAAP): 2 Conforme Gonzaléz de Gómez (2002), existem alguns fatos que demarcaram a construção do campo das políticas de informação. Marque qual (is) resposta (s) corresponde (m) a esses marcos. a) ( ) Weinberg Report – que define o escopo e a abrangência de uma política de informação e a UNESCO – com a realização de suas ações buscavam o estabelecimento de um programa intergovernamental e cooperativo visando à promoção e à otimização do acesso e do uso da informação. b) ( ) A UNESCO, reconhecendo os desenvolvimentos científico e tecnológico como pressupostos básicos para redução das desigualdades entre países, incentiva não só a criação de bases e sistemas nacionais de informação, como também a integração em nível internacional, principalmente da América do Norte. c) ( ) General Agreement on Tarifs and Trade (GATT), atual Organização Mundialdo Comércio – OMC, demonstrou que existem grupos tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento que estão plenamente conscientes da importância cultural e constitutiva da informação, de seu processamento, fluxos e uso. d) ( ) Actor Network Theory (ANT) observa os processos e as práticas informacionais nos artefatos híbridos (atores humanos e não humanos) através da mediação, esta que busca ressignificações do social numa linguagem intersubjetiva. AUTOATIVIDADE 55 3 Leia a passagem a seguir: A ciência e a tecnologia encontram-se sob o domínio do Estado, o qual é o responsável por organizar e definir quais as políticas de informação que serão realizadas por ele, o agente privilegiado de sua elaboração e implantação. Em países em desenvolvimento como o Brasil, ainda não há uma efetiva aplicação e desenvolvimento de políticas de informação. Além disso, a convicção do papel da informação no desenvolvimento de um mundo moderno não se mostrou eficaz para a formulação de estruturas institucionais, informação científico- tecnológica e em parâmetros tecnológicos e organizacionais (GONZÁLEZ DE GOMÉZ, 2002). Conforme a autora, os sistemas nacionais de informação científico- tecnológica não conseguem expressividade em domínios que não sejam estáveis e transparentes dentro das instituições. Dessa forma, marque qual o motivo que a autora elenca para que isso não ocorra. a) ( ) Isso ocorre, porque a informação ainda não se configura na sociedade contemporânea como fenômeno estruturante e inter-relacional de práticas sociais, políticas e econômicas dentro de uma coletividade, e ainda incide diretamente na formação política de uma sociedade devido à importância fenomênica na produção de novos conhecimentos. b) ( ) Isso acontece porque a informação é objeto de políticas tácitas e indiretas, ou porque o escopo e a abrangência dessas políticas quando colocados juntos ao grande volume de políticas públicas são deslocados, reformulados ou realocados conforme as prioridades dadas pela conjuntura. c) ( ) Isso ocorre por não ter sido desenvolvido um escopo teórico-conceitual para a delimitação e compreensão do objeto da Ciência da Informação, entendendo a informação como pragmática de ações de informação. d) ( ) Isso ocorre por ser necessário um aporte conceitual da gestão informacional visando às práticas de políticas de informação nas esferas do Estado e do setor privado ou público em uma relação intrínseca de gestão-informação-poder, considerando um envolvimento complexo entre atores humanos e não humanos (sujeitos, dispositivos, artefatos, ações, regras etc.). 4 Com base no material estudado, escreva o que você compreende pelo conceito de infraestrutura definido por Maria Nélida González de Gomez (2002). 56 57 UNIDADE 2 POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer as políticas públicas, o papel do governo e os atores que o compõem; • entender como ocorre a análise de políticas públicas e os tipos de análises de política; • aprender os quatro modelos teóricos para compreensão das políticas públicas; • aprender noções de políticas públicas culturais e a evolução histórica desde a Era Vargas até o governo Temer; • conhecer o Sistema Nacional de Cultura (SNC), seu objetivo e princípios; • estudar o Plano Nacional de Cultura (PNC), os eixos que o norteiam e seus componentes. Esta unidade está dividida em dois tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo estudado. TÓPICO 1 – ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS TÓPICO 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 58 59 TÓPICO 1 ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Como já foi estudado na unidade anterior, a origem e desdobramentos, trajetórias e perspectivas das políticas de informação são importantes para ser possível compreender o porquê de sua existência e qual seu papel na sociedade contemporânea. A política surge em forma de declarações gerais sobre as prioridades, regulamentos, diretrizes, procedimentos, padrões ou regras. Em seu conceito mais simples, a política pode se referir a um caminho de ação tomado para alcançar os objetivos que se deseja em um determinado contexto, direcionando a tomada de decisão de uma organização ou indivíduo (MACHAY; SHXTON, 2005). A política pública é aquilo que o governo escolhe fazer ou não fazer. Trata- se de uma decisão tomada pelo governo para agir ou não quando se quer resolver um problema. A política pública é uma ação em curso que orienta uma série de ações relacionadas em um determinado campo (MACHAY; SHXTON, 2005). As políticas raramente lidam com um só problema, mas sim com conjunto de problemas entrelaçados e de longo prazo. A política pública fornece orientação aos governos e links de prestação de contas aos cidadãos. Em alguns momentos, a tomada de decisão é regida por valores, em vez de se basear puramente em dados objetivos. A maioria das questões tende a envolver valores ou interesses profundamente arraigados, além de serem regidas por grandes quantias de dinheiro, tornando o processo político algo complexo (MACHAY; SHXTON, 2005). Neste tópico, serão apresentadas as políticas públicas vinculadas aos aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais e educacionais. Além disso, serão trazidos modelos de políticas públicas com base em teorias e estudos realizados. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 60 2 POLÍTICAS PÚBLICAS E OS PAPÉIS DO GOVERNO E SEUS ATORES Nos Estados Unidos, a política pública é vista tanto como área do conhecimento quanto disciplina acadêmica nascida nas universidades, sem qualquer relação com as bases teóricas do governo e o papel do estado, tendo como maior ênfase os estudos sobre as ações dos governos (SOUZA, 2006). No período pós-guerra, a análise de políticas públicas como campo disciplinar de estudos teve seu desenvolvimento potencializado, pois, por um lado, havia a expansão das áreas de intervenção do estado, buscando a resolução de problemas e exigindo informações sobre os mais diversos assuntos e setores da sociedade. Por outro lado, nas universidades americanas era difundida a ideia de desenvolvimentos do conhecimento e da informação, pois estes favoreciam a governança, em especial, no que se referia às políticas públicas que visassem à melhoria das condições de vida de cidadãos americanos (PARSONS, 1995 apud ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Os cientistas sociais norte-americanos Harold Lasswell, Herbert Simon, Charles Lindblom e David Easton são considerados os “fundadores” do estudo das políticas públicas pelos trabalhos seminais desenvolvidos por volta dos anos 50 (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 13). Na Europa, a política pública nasceu a partir de trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel a ser desempenhado pelo Estado e pelo governo, este último considerado produtor de políticas públicas por excelência (SOUZA, 2006). Conforme Souza (2006, p. 25), “as definições de políticas públicas, mesmo as minimalistas, guiam o nosso olhar para o locus. Os embates em torno de interesses, preferências e ideias se desenvolvem, isto é, os governos”. Para Araújo e Rodrigues (2017, p. 12): As políticas públicas, enquanto objeto de estudo, configuram, em primeiro lugar, processos complexos e multidimensionais que se desenvolvem em múltiplos níveis de ação e de decisão. Em segundo lugar, envolvem diferentes atores – governantes, legisladores, eleitores, administraçãopública, grupos de interesse, públicos-alvo e organismos transnacionais –, que agem em quadros institucionais e em contextos geográficos e políticos específicos, visando à resolução de problemas públicos, mas também à distribuição de poder e de recursos. Com relação a quem realiza as políticas públicas, pode-se dizer que elas se originam a partir daqueles que possuem autoridade legítima para poder impor diretrizes normativas para ação. As políticas públicas são realizadas por funcionários eleitos – como ministros, por exemplo – que agem em parceria com assessores de níveis superiores da administração pública. Os ministros ganham o direito de articular políticas públicas e as autoridades não eleitas são obrigadas a realizar a implementação de tais políticas por intermédio de programas (MACHAY; SHAXTON, 2005). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 61 O quadro de políticas públicas se refere a um amplo conjunto de políticas regentes de ações de grupos e organizações. O vasto conjunto de políticas se entrelaça e impacta no desenvolvimento de novas políticas e emendas de políticas. A presença ou a ausência de uma política pública afeta outras esferas de políticas dentro da sociedade (MACHAY; SHAXTON, 2005). Existe um ciclo de políticas públicas, cujo processo é interativo e não linear. Existem, atualmente, cinco fases principais que resultam nas políticas públicas, a saber: a) O surgimento de um problema que precisa de atenção do público e dos tomadores de decisão. b) Colocar o problema na agenda do governo para busca de uma solução; c) Formular alternativas para a resolução do problema em questão; d) Adotar uma política; e) Implementar e avaliar uma política (MACHAY; SHAXTON, 2005). A partir dos cinco passos, o pensamento sobre as políticas é organizado e ordenado. Dentro do ciclo, encontra-se uma variedade de atores considerados elementos-chave para o desenvolvimento de políticas em seus diferentes estágios. Indivíduos, instituições e agências envolvidos no processo de estabelecimento de políticas recebem o nome de atores. O governo é considerado como a única entidade envolvida no processo de elaboração de políticas. É ele quem possui o poder de financiar e de tomar a decisão final sobre o processo, no entanto, há diversos atores que contribuem para a construção de políticas públicas. Nesse sentido, são estabelecidos os atores que fazem parte do ciclo de políticas: • Governo: possui o controle social do comportamento e poder de coerção; • Gabinete: possui o monopólio sobre a oferta de legislação. É considerado o lócus do poder onde poucas pessoas tomam decisões; • Servidores públicos: atuam com o conhecimento técnico e assessoria política, são aqueles considerados como prestadores de serviços; • Partidos políticos: buscam desenvolver relações em troca de apoio político; • Mídia: visa reportar informações ao público e gerar interesse, além de moldar a opinião pública sobre o assunto; • Grupos de interesse: visam antecipar os interesses dos membros, além de terem uma grande influência na rede política de força; • Sistema legal: considerado o intérprete das leis, atua de forma independente; • Público: é aquele que elege governo, forma opiniões, junta grupos de interesse e coligações. Ainda, depende da mídia para obter informações sobre o que está acontecendo no país e no mundo (MACHAY; SHAXTON, 2005). Quanto aos instrumentos de políticas, estes podem ser considerados técnicas à disposição do governo, implementando os objetivos da política. Depois que o problema é definido, as ferramentas são utilizadas visando alcançar UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 62 o resultado desejado. Exemplos de instrumentos de política utilizados são: gastos, regulamentos, parcerias, troca de informações, tributação, licenciamento, prestação direta de serviços, contratos e subsídios (MACHAY; SHAXTON, 2005). Com relação aos objetivos desses instrumentos, os mesmos buscam: • Proporcionar mudanças de comportamento nos indivíduos; • Trazer condições sociais, políticas ou econômicas à população; • Fornecer serviços ao público, conforme demanda (MACHAY; SHAXTON, 2005). A escolha de instrumentos de política pelo governo é mais importante que as ações realizadas no passado (instrumentos de política que o governo atual usou no passado). No quadro político, outras restrições podem surgir, tais como pressões financeiras, sociais, internacionais e culturais. Os tipos de instrumentos de política disponíveis para o governo incluem: • Doing nothing (Fazer nada): decidir não intervir. Pode não haver problemas, restrições financeiras ou precedentes que façam com que o governo escolha não fazer nada. Ou, o problema pode ser autocorretivo; • Information-based (Baseado em informação): influencia as pessoas através da transferência de conhecimento, comunicação e persuasão moral (o comportamento é baseado em conhecimentos, crenças e valores). É o menos coercitivo dos instrumentos; • Expenditure-based (Baseado em despesas): o dinheiro é usado como um instrumento direto para alcançar o resultado (doações, contribuições, vales etc.); • Regulation (Regulamento): os papéis do governo são comandar e proibir – o instrumento/ferramenta mais utilizado. Define normas e comportamento aceitável ou limita atividades; • Acting directly (Agir diretamente): fornece um serviço direto para alcançar o resultado (ao invés de trabalhar através de cidadãos ou organizações para atingir metas). Exemplos incluem: educação, coleta de lixo, parques e recreação (MACHAY; SHAXTON, 2005). Quanto às influências, os instrumentos de política utilizados pelos governos estão agora sendo influenciados por: • Governo e governança: os instrumentos de políticas financeira e regulatória são limitados dentro de um novo ambiente de governança (aumento nas redes de políticas); • Influência internacional: política ambiental, tributação e política fiscal estão agora sujeitas à pressão internacional (MACHAY; SHAXTON, 2005). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 63 3 ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS Iniciada no início da década de 1960, nos Estados Unidos, a análise de políticas públicas visa colocar em pauta tanto a política quanto a política pública, procurando conhecer e descrever as ações do governo e também analisar e prescrever as políticas públicas. A análise de política visa diminuir problemas sociais por intermédio do aperfeiçoamento na formulação e na implementação de políticas públicas (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). Busca ainda, entender o porquê e para quem uma política foi criada, e não só olhar o conteúdo em si de tal política (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). A análise de políticas públicas – compreendida como uma ciência social – originou-se de duas vertentes de interesse: a) a partir das dificuldades que as pessoas idealizadoras e elaboradoras de políticas tinham frente à complexidade dos problemas; e b) a atenção dada por pesquisadores e acadêmicos em ciências sociais que buscavam estudar questões relacionadas às políticas públicas visando à aplicação do seu conhecimento na resolução de problemas concretos no setor público (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). A partir do movimento de políticas públicas – que buscava soluções para as falhas ocorridas na administração pública –, as agências governamentais passaram a inserir, em seu quadro de funcionários, analistas políticos que possuíam como objetivo utilizar de técnicas e práticas que visassem, por exemplo, analisar os custos e os benefícios, orçamentos de programas e análises de impacto (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). Na ciência política, o estudo de políticas públicas está centrado no poder e suas relações, assim como nos processos de aquisição dos recursos de poder, processos de participação no poder, competição e nas aliançasrealizadas (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). A análise das políticas públicas partiu das bases teóricas trazidas da ciência política, assim como da economia, psicologia, sociologia, história e estudos das organizações. O campo de estudos é considerado específico e pluridisciplinar, que abre espaços para o desenvolvimento de novas teorias (pensando a longo e médio prazo), de políticas públicas, permitindo a compreensão dos modos e regras para o funcionamento da ação pública. Além disso, a partir dessa compreensão, são analisadas as continuidades, as rupturas e os processos de seu desenvolvimento (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Assim, é preciso demonstrar como ocorre a lógica da ação pública, além das continuidades e rupturas dentro das políticas públicas, as regras para o seu funcionamento, a afetação de recursos e o papel e a interação de atores e instituições nos processos políticos (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 64 A análise de políticas públicas trouxe benefícios para o desenvolvimento de quadros teóricos, conceitos e disciplinas (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Ruas (2014, p. 20) afirma que a análise de política possui como objetos “os problemas com que se defrontam os formuladores de política (policy makers), auxiliando o seu equacionamento”. Para Estevão e Ferreira (2018), existem diferentes tipos de análises de política e a escolha de qual análise será utilizada dependendo do analista que desenvolve. Entre os tipos de análise estão: a) Estudo do conteúdo das políticas públicas: o analista investiga como determinada política surgiu, foi implementada e quais os resultados obtidos a partir de sua implementação; b) Estudo da elaboração das políticas: é a atenção dada para questões que fazem parte das influências na formulação de políticas; c) Estudo dos resultados das políticas: este visa identificar porque gastos e serviços são variáveis em diferentes áreas, buscando compreender as políticas no que se refere aos fatores sociais, econômicos, tecnológicos etc. d) Avaliação de políticas: procura identificar os impactos das políticas sobre a população; e) Informação para elaboração de políticas: busca organizar os dados para auxiliar os elaboradores de políticas na tomada de decisão; f) Defesa do processo de elaboração da política: os estudos são focados no melhoramento dos processos de elaboração de políticas e a máquina do governo; g) Defesa de políticas: o analista defende a adoção de ideias e opções no processo de elaboração de políticas (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Como objetivo, a análise de políticas públicas visa tornar a ação pública um objeto de estudo, visto como uma “caixa preta” do sistema político. FIGURA 1 – MODELO DE SISTEMA POLÍTICO FONTE: Estevão e Ferreira (2018, p. 170) TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 65 No sistema político, são evidenciados os inputs (entradas) e os outputs (saídas). As entradas são as demandas e apoio (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). As demandas se referem a ações de sujeitos e grupos de indivíduos na busca por recursos, visando suprir seus interesses. Quanto aos exemplos de demandas, estas podem ser bens e serviços, como saúde, educação, estradas, transporte, segurança pública etc. Com relação ao apoio, este pode ser de ações, como pagamento de taxas, o ato de votar, apoio a um partido político, respeito à autoridade de governantes etc. (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). Depois de serem processadas, as entradas teriam como resultado as respostas em forma de decisões políticas ou da própria política pública. O sistema se retroalimentaria com essas saídas (ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). O processo político é um processo que visa equilibrar as diferentes soluções para os diferentes aspectos de um grupo de problemas. Uma política possui três elementos-chave: uma definição de problema, metas a serem atingidas e os instrumentos de política para abordagem do problema. A política pode ser caracterizada como formal ou informal. A política formal pode ser um documento político planejado que foi escrito, discutido, revisado, aprovado e publicado por um órgão responsável para formulação de políticas. Pode ser, por exemplo, um plano nacional do governo para a promoção da leitura e da biblioteca. Uma política informal é aquela que pode ser considerada uma prática geral não escrita, mas amplamente reconhecida ou uma compreensão dentro de uma organização de que determinada ação tem um curso a seguir. Desse modo, mesmo que a política informal não esteja explicitada de forma escrita, ela ainda existe na prática (MACHAY; SHAXTON, 2005). Para Estevão e Pereira (2018), existe uma questão importante a ser observada na análise de políticas públicas, que é a relação entre as tomadas de decisões, as decisões tomadas, a estrutura da instituição e a distribuição de poder no Estado e sociedade. Nesse sentido, o analista precisa estudar o processo de elaboração de políticas para levantar questões sobre o papel do Estado, além de questões sobre a distribuição de poder entre diversos grupos sociais na sociedade contemporânea (HAM; HILL, 1993 apud ESTEVÃO; FERREIRA, 2018). O levantamento realizado pelo analista deve explorar três diferentes níveis de análise: a) O funcionamento da estrutura administrativa; b) O processo de decisão; c) A relação entre o Estado e a sociedade. A partir desses três níveis, são indicadas as relações políticas com os atores envolvidos. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 66 QUADRO 1 – NÍVEIS DE ANÁLISE DE POLÍTICAS Níveis de análise de políticas 1º Nível Funcionamento da estrutura administrativa (institucional) 2º Nível Processo de decisão 3º Nível Relações entre Estado e Sociedade Quando a análise está direcionada ao processo de decisão no interior das organizações e nas relações ocorridas. O segundo nível busca explicar o funcionamento institucional e as características da política. Dessa forma, são pesquisadas as relações que se estabelecem entre esses atores-chave e os grupos externos, além das relações de poder, coalizações de interesse, formação de grupos etc. O terceiro nível busca a compreensão, a partir do conhecimento do modo de produção capitalista, do porquê das relações se estabelecerem entre as várias porções do Estado com a sociedade. É o nível da aparência ou superficial. É o nível dos interesses dos atores. É o q u e s e p o d e denominar como nível da essência ou estrutural. FONTE: Adaptado de Estevão e Ferreira (2018) Para compreender mais sobre políticas públicas e o ciclo de políticas públicas, assista às partes 1 e 2 dos vídeos do Prof. Leonardo Secchi, da Universidade do Estado de Santa Catarina. DICAS O QUE SÃO POLÍTICAS PÚBLICAS? Entrevista Leonardo Secchi Parte 1 FONTE: <https://youtu.be/tWnZrMRLtCQ>. Acesso em: 8 out. 2019. CICLO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: O que é? | TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 67 Entrevista Leonardo Secchi Parte 2 FONTE: <https://youtu.be/N8phb0UN2WY>. Acesso em: 8 out. 2019. 4 MODELOS TEÓRICOS PARA COMPREENSÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS A seguir, serão apresentados os quatro modelos teóricos para compreensão do processo e problemas das políticas públicas, a saber: a) o modelo sequencial ou do ciclo político; b) o modelo dos fluxos múltiplos; c) o modelo do equilíbrio interrompido e; d) o quadro analítico das coligações de causa ou de interesse (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). 4.1 MODELO SEQUENCIAL OU DO CICLO POLÍTICO (POLICY CICLE) No modelo, as políticas públicas são entendidas como resultado de um processo desenvolvido por etapas em um ciclo político que se repete. O importante é compreender os modos da ação pública, demonstrar continuidades e as rupturas, assim como as regras de funcionamento específicas daspolíticas públicas (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). O modelo foi proposto por H. Lasswell no fim da década de 1950. O autor propôs uma análise estruturada do processo político, incentivando a sua decomposição em fases sucessivas, relacionadas entre si seguindo uma forma lógica e sequencial. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 68 O modelo foi criado a partir da abordagem sistemática trazida por Easton, que visava à construção do modelo Policy Cycle (também conhecido como modelo das etapas), propondo que as políticas públicas possam ser analisadas enquanto um resultado de um ciclo político desenvolvido por etapas. Na proposta de Lasswell, as fases do modelo possuem contributos decisivos para a criação de um mapa de conceitos para a orientação da análise das políticas públicas: informação, promoção, prescrição, inovação, aplicação, conclusão e avaliação (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Enquanto objetivo, o modelo possibilita a exploração e investigação do processo de políticas públicas visando reduzir sua complexidade. Assim, a ação pública é “analisada como um processo sequencial e inacabado que se repete e reconstrói, em resultado de mudanças induzidas por efeito de feedback das próprias políticas públicas, ou por alterações do contexto ou da relação entre os atores e instituições” (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 18). Já na década de 1970, Charles O. Jones (1984) desenvolveu uma classificação contendo 10 etapas, a partir daquela já realizada por H. Lasswell. As etapas eram: percepção do problema, agregação, organização, representação do público-alvo, agendamento, formulação, orçamentação, concretização, avaliação, ajustamento ou conclusão (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Embora muitos outros autores tenham sugeridos etapas, ciclos, fases ou sequências, Araújo e Rodrigues (2017) destacam quatro etapas que são comuns em todas as propostas: a) Definição do problema e agendamento: referem-se ao contexto e ao processo de emergência das políticas públicas. b) Formulação das medidas de política e legitimação da decisão: referem-se aos processos de tomada de decisão e de elaboração de argumentos que expliquem uma ação política, objetivos e estratégias para a resolução de problemas, de escolha de alternativas além de mobilização das bases de apoio político. c) Implementação: refere-se ao processo de fomentação de recursos institucionais, organizacionais, burocráticos e financeiros para a concretização de medidas de política. d) Avaliação e mudança: referem-se aos processos de acompanhar e avaliar os programas de ação e das políticas públicas, visando seus impactos e efeitos, a distância para alcance dos objetivos e metas (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Entretanto, o modelo sequencial ou do ciclo político tem recebido críticas por se basear em uma metodologia restrita de análise que acaba por criar uma visão artificial do processo político (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 69 4.1.1 Metáfora dos fluxos múltiplos (Multiple Streams Framework) John Kingdon desenvolveu o modelo analítico Multiple Streams em sua obra “Agendas, Alternatives and Public Policies” (2003). Nas obras, o autor explica como problemas se transformam em problemas políticos (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Em outras palavras, “como uma ideia se insere no conjunto de preocupações dos formuladores de políticas, transformando-se em uma política pública?” (CAPELLA, 2005, p. 2). Para o autor, as políticas públicas são um conjunto de quatro processos que englobam: “o estabelecimento de uma agenda de políticas; a especificação de alternativas a partir das quais as escolhas vão ser realizadas; a escolha dominante entre o conjunto de alternativas disponíveis” (CAPELLA, 2005, p. 2) e, por fim, a implementação da decisão. FIGURA 2 – LIVRO AGENDAS, ALTERNATIVES, AND PUBLIC POLICIES, DE JOHN KINGDON FONTE: <https://image.isu.pub/181024185530-db1feb381625ffec70d0e69da4cb8cdf/jpg/ page_1_thumb_large.jpg>. Acesso em: 15 jul. 2019. Em seu modelo, Kingdon (2003) se preocupa com dois processos chamados pelo autor de estágios pré-decisórios: a formação de agenda (agenda-setting) e a especificação (policy formulation) (CAPELLA, 2005). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 70 Nem todas as questões presentes na sociedade podem se tornar problemas políticos que precisam de intervenção do governo. Somente alguns deles chegam de fato a captar a atenção do público e dos políticos e, assim, são inseridos na ação pública. No modelo de análise, é procurada a resposta para as seguintes questões: a) Por que os decisores políticos prestam atenção em um determinado assunto em detrimento de outros? b) Como e por que se alteram as agendas políticas ao longo do tempo? c) Como os decisores políticos selecionam as soluções para aqueles problemas dentre um conjunto vasto de alternativas? (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Assim, o autor do modelo utiliza uma metáfora e três conceitos centrais para a sua elaboração, a saber: comunidades políticas, empreendedores políticos e a janela de oportunidade política. O primeiro conceito engloba investigadores, deputados, funcionários públicos, grupos de interesse, analistas e membros que se preocupam com um determinado tema ou problemas e que constroem e difundem ideias em diferentes fóruns. O segundo conceito é constituído de atores específicos atuantes na mediação e negociação de processos de agendamento; e o terceiro conceito se refere à janela que se abre quando convergem a percepção pública dos problemas (fluxo dos problemas), o conhecimento de soluções técnicas e políticas adequadas aos valores dominantes (também chamado de fluxo de políticas) e as condições de governação (conhecidas por fluxo da política). Esses três fluxos confluem no sistema político, utilizando regras e dinâmicas próprias (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). O modelo de Kingdon foi inicialmente pensado para analisar políticas públicas na área da saúde e na área de transportes do governo norte-americano. Posteriormente, tornou-se referência para estudos voltados para a análise da formulação de políticas do governo. A agenda governamental – definida como um conjunto de assuntos, os quais o governo e pessoas ligadas a ele focam sua atenção por um determinado momento – é onde são colocados os temas de interesse para a criação de políticas públicas. Os temas só são inseridos na agenda governamental após passarem pela agenda decisional, onde são decididos quais os temas ou questões que serão discutidas ativamente pelos formuladores de políticas. No modelo de Kingdon, a mudança na agenda governamental é o resultado da convergência dos fluxos dos problemas (problems), das soluções ou alternativas (policies) e das políticas (politics) (CAPELLA, 2006). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 71 FIGURA 3 – O FLUXO DO MODELO DE KINGDON FONTE: Capella (2005, p. 12) Ainda com relação aos fluxos, o quadro a seguir demonstra como Kingdon aborda cada um dos três fluxos. PROBLEM STREAM (Fluxo de problemas) Indicadores; Crises; Eventos focalizadores; Feedback de ações. POLICY STREAM (Fluxo de soluções) Viabilidade técnica; Aceitação pela comunidade; Custos toleráveis. POLITICAL STREAM (Fluxo político) "Humor nacional"; Forças políticas organizadas; Mudanças no governo. AGENDA - SETTING Acesso de uma questão à agenda. OPORTUNIDADE DE MUDANÇA (Windows) Convergência dos fluxos (coupling) pelos empreendedores (policy entrepreneurs) UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 72 FLUXO DE PROBLEMAS FLUXO DE POLÍTICAS FLUXO DA POLÍTICA Kingdon aborda os problemas como construções sociais estabelecidas por intervenção de atores – comunidades políticas – nos processos das políticas públicas. Estabeleceuma distinção entre questões e problemas políticos, considerando que uma questão – definida como uma situação socialmente percebida – só se transforma num problema quando os decisores políticos consideram que deve ser encontrada uma solução para a questão. Atendendo ao grande número de questões e à impossibilidade material dos decisores de lidarem com todas elas, a emergência de um problema é condicionada por mecanismos que contribuem para que a atenção dos decisores se centre em determinadas questões em detrimento de outras. Esses mecanismos são indicadores, eventos, crises, símbolos e feedback da ação política. A construção de argumentos, baseados em dados e informações, a elaboração de narrativas sobre as causas dos problemas e as respetivas soluções, a difusão desses argumentos e informações fazem parte da atividade das comunidades políticas, que são mais ou menos fragmentadas, integrando uma diversidade de pontos de vista e de ideias. Também os organismos internacionais desempenham neste processo um papel importante. A definição dos problemas constitui uma etapa fundamental, determinando o sucesso da ação política (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Composto pelo conjunto de alternativas e soluções disponíveis, geradas no interior das comunidades políticas. Para explicar a forma como são geradas as alternativas no interior das comunidades políticas, Kingdon utiliza a metáfora da “sopa primordial” (primeval soup). Ideias fluem no interior das comunidades (policy primeval soup), algumas tornam-se proeminentes e n q u a n t o o u t r a s desaparecem, em resultado de um processo evolutivo de amadurecimento, em que as ideias se confrontam e se combinam das mais variadas formas: eventuais consensos decorrem de processos de persuasão e de difusão de ideias. As alternativas de solução não decorrem necessariamente da prévia identificação e p e r c e p ç ã o p o l í t i c a dos problemas; o autor afirma inclusivamente q u e m u i t a s ve z e s a s soluções são construídas e só posteriormente são identificados os problemas. Não obstante a importância crucial que Kingdon confere às ideias e à existência de alternativas tecnicamente viáveis, considera que estas não representam, só por si, um fator gerador do agendamento (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Respeita a dimensão política que segue um curso independentemente dos problemas e das soluções políticas. O autor inclui neste fluxo três feixes de variáveis decisivas para alteração ou influência no processo de agendamento: - O sentimento nacional (national mood) , que caracteriza como “situações em que um grande número de pessoas num país partilha ideias comuns […]. O sentimento nacional sofre mudanças no tempo, de uma forma perceptível, e essas mudanças têm importantes impactos nas agendas e nos resultados políticos” (KINGDON, 2003, p. 146). – As forças políticas organizadas, onde os atores centrais são os partidos políticos e os grupos de interesse. A percepção que os decisores têm da forma como esses atores se inter-relacionam é de importância crucial para o desenvolvimento das políticas. – As mudanças governamentais ( g o v e r n m e n t a l t u r n o v e r ) , n o m e a d a m e n t e m u d a n ç a s de ciclo político, remodelações e reconfigurações de governos e parlamentos, mudanças nas hierarquias da administração, sendo a mudança de governo o fator mais propício à ocorrência de alterações na agenda política. Ao contrário do que acontece no fluxo das políticas, em que o consenso é produto de processos de persuasão e difusão, no fluxo da política os consensos são construídos através de intensos processos negociais e pelo estabelecimento de coligações (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). QUADRO 2 – RELAÇÃO DOS FLUXOS DOS PROBLEMAS, DAS POLÍTICAS E DA POLÍTICA FONTE: Araújo e Rodrigues (2017, p. 21-22) TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 73 O modelo Multiple Streams diferencia dois conjuntos de atores: a) Conjunto de atores visíveis – também chamados de visible cluster: são mais “expostos à pressão e atenção pública, incluindo o governo, o parlamento e os membros da administração” com poder de decisão. b) Conjunto de atores invisíveis – ou hidden cluster: grupos de interesse, pesquisadores, burocratas, acadêmicos, partidos políticos e opinião pública (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). No modelo, cada conjunto utiliza recursos diversos e distintos. O conjunto de atores visíveis irá dispor de uma autoridade formal e de prerrogativas legais concedidas pelo próprio estatuto. Já os atores invisíveis detêm maior controle sobre as alternativas e as soluções disponíveis. O modelo Multiple Streams tem sido “objeto de propostas de alteração e de introdução de novos fatores e mecanismos de análise, ultrapassando limitações apontadas” (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 23). 4.1.2 Modelo do equilíbrio interrompido (Punctuated Equilibrium Theory) O modelo foi desenvolvido por Frank Baumgartner e Bryan Jones. É constituído com base no princípio: “os processos políticos são geralmente caracterizados por estabilidade e incrementalismo, pontuados ou interrompidos, ocasionalmente, por mudanças de larga escala” (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 24). Estabilidade se refere àquela que caracteriza a maioria das áreas de política, embora as crises dentro do meio também ocorram. Assim, compreender o que é o processo político significa analisar as condições de estabilidade e, ao mesmo tempo, verificar as condições de mudança (TRUE; JONES; BAUMGARTHER, 2007, p. 155-156 apud ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 22). No modelo, os autores Frank Baumgather e Bryan Jones tinham como objetivo constituir uma abordagem que explicasse as descontinuidades ou interrupções das políticas. “A teoria do equilíbrio pontuado procura explicar uma observação simples: os processos políticos são, muitas vezes, guiados por estabilidade e incrementalismo, mas às vezes produzem também mudanças em grande escala” (BAUMGARTNER; JONES, 1999, p. 97). Propõem, então, uma metodologia que combinasse estudos qualitativos de políticas públicas com estudos quantitativos e longitudinais, seguindo as mudanças de políticas em grandes períodos de tempo. Trazem o conceito de imagem política, que se refere à forma como a política é percebida e discutida e os processos de mudança nas políticas públicas são realizados. Definem a imagem política como ideias que permitem que os problemas e as soluções sejam compreendidos e comunicados de forma simples e partilhados por uma comunidade (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 74 Quando uma imagem é largamente partilhada e aceita, constitui- se como monopólio político. Os monopólios políticos mantêm o equilíbrio e a estabilidade dos sistemas. Quando há divergências em relação a uma imagem, os defensores de ideias diferentes podem conseguir desestabilizar o monopólio. Imagens políticas alternativas são desenvolvidas com base em dois tipos de componentes: (1) informações e dados empíricos e (2) apelos emotivos (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 24). Além disso: As policy images são desenvolvidas com base em dois componentes: informações empíricas e apelos emotivos (tone). O tone é considerado, pelos autores, um fator crítico no desenvolvimento das questões, uma vez que mudanças rápidas no campo dos “apelos emotivos” da imagem podem influenciar a mobilização em torno de uma ideia. A imagem criada em torno da potência norte-americana é um exemplo desse tipo de situação: enquanto predominava uma imagem associada aos progressos econômico e científico, existia um policy monopoly. No entanto, a partir do momento em que ameaças de segurança e degradação ambiental apareceram, houve, pois, um esgotamento do monopólio. Novas imagens podem atrair novos participantes (ou afastá-los), bem como criar oportunidadespara promover determinadas questões (ou desencorajar) (CAPPELA, 2006, p. 40). Assim, o modelo intitulado “Punctuated Equilibrium” defende que no interior dos subsistemas políticos que são processados os problemas e toda a informação disponível. Os subsistemas políticos são, assim, entendidos como mecanismos que permitem ao sistema político assegurar o ‘processamento paralelo’ (parallel processing) de grandes volumes de informação diversificada (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Assim, o modelo é percebido como uma nova ferramenta para olhar as políticas públicas, explicando os longos períodos de estabilidade que caracterizam a ação pública e também as rápidas e explosivas mudanças que pontuam o equilíbrio, elegendo os subsistemas políticos como arranjos institucionais e garantindo a estabilidade, onde as ideias ocupam um lugar essencial (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Com relação às limitações do modelo, a metodologia utilizada permite a identificação de associações existentes, mas não identifica as relações causais entre as agendas da opinião pública, das arenas políticas com os resultados das políticas. Em um segundo momento, a outra limitação se refere ao fato de que o modelo negligencia a capacidade que os decisores políticos possuem de formatar as decisões de acordo com as suas preferências (JOHN, 2013 apud ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Assim, a imagem política é central “não só para a definição de problemas, mas também para a seleção de soluções no modelo proposto pelos autores, devendo, assim, ser considerada no contexto institucional em que é desenvolvida” (CAPPELA, 2006, p. 40). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 75 4.1.3 Quadro teórico das coligações de causa ou de interesse (Advocacy Coalition Framework – ACF) O modelo Advocacy Coalition Framework – ACF (Modelo de Coalizão de Defesa) foi criado na década de 1980 por Paul Sabatier e Jenkins-Smith e tem sido uma das mais importantes alternativas para refletir sobre o processo político. O modelo busca a compreensão da formulação e dos padrões de mudanças ocorridos nas políticas públicas a partir de uma perspectiva temporal de uma década ou mais. Orienta-se pelo entendimento de que as políticas públicas nas sociedades contemporâneas são complexas, englobam conflitos de metas, importantes disputas técnicas, diversos atores e os mais variados níveis governamentais. Há diversas traduções possíveis para Advocacy Coalition Framework (ACF): modelo das coalizões de advocacia; modelo das coalizões de defesa; enquadramento das coalizões de advocacia; e enquadramento das coalizões de defesa. IMPORTANT E O Modelo ACF propõe-se, em um primeiro momento, a encontrar uma alternativa ao modelo heurístico das etapas, que dominava o campo de estudo das políticas. Em um segundo momento, buscava sintetizar os melhores contributos das abordagens top-down e bottom-up, e por fim, visava incorporar informações técnicas nas teorias do processo político (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017). Dessa forma, seu objetivo foi explicar, de forma coerente, os principais fatores e dinâmicas que afetam o processo político. Com relação às características do modelo, podem ser destacados a “inserção de crenças, valores e o papel da aprendizagem política como importantes conceitos no processo de construção de mudanças nas políticas públicas” (SABATIER; JENKINS-SMITH, 1993 apud VICENTE; CALMON, 2011, p. 2). Coalização de defesa é definida como “pessoas de diversas posições (representantes eleitos e funcionários públicos, líderes de grupos de interesse, pesquisadores, intelectuais etc.) que (i) compartilham determinado sistema de crenças: valores, ideias, objetivos políticos, formas de perceber os problemas políticos, pressupostos causais e que (ii) demonstram um grau não trivial das ações coordenadas ao longo do tempo” (SABATIER, 1988, p. 139 apud VICENTE; CALMON, 2011, p. 2). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 76 O que aglutina uma coalização de defesa é o compartilhamento de crenças de seus membros sobre os assuntos políticos fundamentais. Em outras palavras, são os sistemas de crenças que irão determinar a direção que uma coalizão dará a um programa ou política pública (WEIBLE; SABATIER, 2009 apud VICENTE; CALMON, 2011). Após a formação das coalizações de defesa, estas irão traduzir suas crenças compartilhadas em políticas públicas ou programas governamentais, e assim, mobilizarão recursos políticos e participarão de processos contínuos de aprendizagem política, como o policy-oriented learning (também chamado de aprendizado orientado à política pública) (SABATIER; JENKINS-SMITH, 1993 apud VICENTE; CALMON, 2011). As ações e interações feitas são importantes na formulação de políticas públicas. Assim, o espaço ou o ambiente onde essas interações ocorrem é chamado de subsistema de políticas públicas. Esses subsistemas são descritos como um conjunto de atores (individuais ou coletivos) de várias organizações públicas, privadas ou da sociedade civil (ONGs) em um determinado espaço geográfico que está ativamente preocupado com uma questão de política pública específica, buscando influenciar as decisões naquele domínio (SABATIER; JENKINS-SMITH, 1993 apud VICENTE; CALMON, 2011). Existem, conforme os autores Sabatier e Jenkins-Smith (1999, p. 118-120), cinco pressupostos básicos do ACF: (i) a compreensão dos processos de mudança política e o papel da aprendizagem política requerem uma perspectiva ampliada de tempo (uma década ou mais); (ii) a unidade de análise mais útil para o estudo dessa mudança é por meio de subsistemas políticos; (iii) esses subsistemas têm que incluir a dimensão intergovernamental; (iv) políticas públicas – ou programas – podem ser conceituadas da mesma maneira por sistemas de crenças; e (v) o papel central das informações técnicas e científicas no processo de mudança política, facilitando o aprendizado político. TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 77 FIGURA 4 – DIAGRAMA DO MODELO ACF Parâmetros relativamente estáveis do sistema 1. Atributos básicos da área do problema 2. Distribuição básica de recursos naturais 3. Valores socioculturais fundamentais e estrutura social. 4. Estrutura constitucional básica (regras) Estruturas de oportunidade das coalizões (longo prazo) 1. Grau de consenso necessário para mudança substancial 2. Abertura do sistema político Eventos externos (Dinâmicos) 1. Mudanças nas condições socieconômicas 2. Mudanças na opinião pública 3. Mudanças nas coalizações governamentais 4. Decisões políticas e impactos de outros subsistemas Limitações e recursos dos atores do subsistema (curto prazo) COALIZÃO A • crenças políticas • recursos COALIZÃO B • crenças políticas • recursos Policy brokers agentes negociadores Estratégia Instrumentos de ação da coalização Estratégia Instrumentos de ação da coalizaçãoDecisões deautoridades governamentais Regras institucionais, alocação de reursos e indicações para cargos públicos Produção das políticas públicas (Outputs) Impactos das políticas públicas SUBSISTEMA DE POLÍTICAS PÚBLICAS FONTE: Vicente e Calmon (2011, p. 4) O modelo ACF apresentado possui, do lado esquerdo, dois conjuntos de eventos exógenos. Os Parâmetros relativamente estáveis do sistema são considerados um conjunto bastante estável e os Eventos externos são o conjunto mais dinâmico. Ambos afetam “as restrições e oportunidades dos atores dentro do subsistema” (VICENTE; CALMON, 2011, p. 4). Do lado direito, encontra-se “a dinâmica dos componentes internos do subsistema político, ocorrendo a dinâmica do policy- oriented learning (fatores cognitivos). A mudança na política pública é interpretada como uma função tanto da competição no interior do subsistema quanto da influência dos eventos exógenos” (VICENTE;CALMON, 2011, p. 4). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 78 QUADRO 3 – DESCRIÇÃO DOS ELEMENTOS COMPONENTES DO DIAGRAMA DO ACF Eventos exógenos ao subsistema que afetam as mudanças Os parâmetros relativamente estáveis: Externamente ao subsistema, colocam-se os parâmetros relativamente estáveis do sistema como: a) Os atributos básicos da área do problema ou bem, objeto de uma determinada área de política pública (características-chave desse problema ou bem e necessidades de intervenção estatal sobre o mesmo); b) Distribuição básica de recursos naturais: a abundância ou carência de recursos naturais disponíveis em uma sociedade condicionam suas possibilidades de desenvolver diferentes setores econômicos e determinam a viabilidade das opções de políticas públicas. c) Valores socioculturais fundamentais e estrutura social: significativas mudanças no poder, na influência e nos recursos financeiros de vários grupos sociais normalmente requerem diversas décadas. Para muitos grupos de interesses, os recursos políticos, ou mesmo a falta deles, mudam muito lentamente no tempo e os atores dentro de um subsistema devem levar isso em conta na formulação de suas estratégias de curto e de médio prazo. d) Estrutura constitucional das regras básicas do sistema político, extremamente difíceis de serem alteradas (VICENTE; CALMON, 2011). Os eventos externos (Dinâmicos): Os eventos externos ao subsistema são variáveis consideradas mais dinâmicas do que os parâmetros estáveis, pois podem apresentar mudanças no decorrer de uma década ou mais. Os eventos externos ou choques incluem: a) Amplas mudanças nas condições socioeconômicas e na opinião pública que podem afetar substancialmente um subsistema a ponto de enfraquecer os pressupostos causais que justificam a atual política pública ou podem alterar o suporte político à determinada coalizão. São fatores mais permeáveis a mudanças, especialmente no espaço de uma década ou mais. Abrangem também os eventos externos. b) As mudanças nas coalizões governamentais, pois alterações nos padrões políticos partidários são fundamentais no desenho das coalizões, c) As decisões políticas e impactos de outros subsistemas, e essa variável é importante porque os subsistemas são parcialmente autônomos. As decisões e impactos de outros subsistemas são elementos dinâmicos que afetam um subsistema específico. A influência dos fatores exógenos é mediada pelo grau de consenso necessário para a mudança na política, pelo grau de abertura do regime político, bem como pelas limitações e recursos dos atores do subsistema. De uma forma geral, os eventos políticos ou econômicos exógenos ao subsistema são essenciais para que agências governamentais alterem sua posição em direção às coalizões concorrentes. Isto é, os subsistemas não são imutáveis ante os eventos externos. Os subsistemas operam dentro de um ambiente político mais amplo e são definidos por parâmetros relativamente estáveis e eventos externos. Além disso, são constrangidos pelas estruturas de oportunidade de longo prazo das coalizões, pelas restrições de curto prazo, pelos recursos disponíveis aos atores do subsistema e pelos eventos de outro subsistema político (FENGER; KLOK, 2001 apud VICENTE; CALMON, 2011). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 79 Eventos internos ao subsistema É no âmbito interno do subsistema que são gerados os programas ou políticas públicas (policy outputs) que frequentemente incorporam elementos ou princípios defendidos por diferentes coalizões. Esses policy outputs são resultados dos processos de interação das coalizões no âmbito do subsistema na Figura 4, e decorrem de mudanças nas regras institucionais e de alocação de recursos impostas pela coalizão vencedora. Nesse sentido, cada coalizão detém determinado conjunto de recursos e opta por estratégias específicas, influenciadas pelo sistema de crenças, para atingir seus objetivos políticos (VICENTE; CALMON, 2011). Sabatier e Jenkins-Smith apontam uma série de instrumentos, em tese, disponíveis para atuação das coalizões. Uma coalizão pode tentar influenciar direta e indiretamente as decisões das agências administrativas governamentais, apelando para os tomadores de decisões nos planos legislativo, executivo, judiciário ou intergovernamental. São exemplos de atuação direta sobre decisões relativas à regulação e orçamento e outras políticas específicas: persuadir agentes públicos por meio de testemunho; a troca de pessoas, dentro de agências e instituições governamentais, o que afeta os recursos políticos de uma coalizão e sua capacidade de influenciar decisões coletivas relativas aos parâmetros da política pública; tornar públicos pela mídia os gaps de desempenho da agência governamental; providenciar relatórios de pesquisa; oferecer estímulos, como propinas ou ofertas de futuros empregos. São exemplos de atuação indireta por meio dos dirigentes políticos: conduzir revisão sistemática das regras da agência; alterar indicações políticas; caminhar para o litígio; tentar mudanças na legislação; tentar mudanças no orçamento da agência; mudar as preferências políticas pela via eleitoral; e influenciar a opinião pública e, por decorrência, os tomadores de decisão (VICENTE; CALMON, 2011). Geralmente, a implementação desses instrumentos de ação, visando à alteração de programas e/ou políticas públicas, provoca conflitos pela incompatibilidade entre as ideias e as crenças das coalizões concorrentes. Em regra, a resolução desses conflitos não é tarefa simples, pois esses atores percebem o mundo por meio de lentes distintas e também frequentemente interpretarão as peças das evidências de forma diferente (VICENTE; CALMON, 2011). Para isso, existe internamente ao subsistema a categoria dos policy brokers (mediadores), constituída por burocratas, parlamentares, juízes de cortes, promotores de Justiça e, mesmo, o conjunto de cidadãos no exercício do voto, que podem atuar no sentido de se chegar a acordos razoáveis que reduzam a intensidade de conflito entre as coalizões no âmbito do subsistema e geralmente tentam não ser membros das coalizões. São atores com algum poder para fazer com que compromissos entre coalizões competidoras sejam assumidos e ocorram de fato (VICENTE; CALMON, 2011). No caso brasileiro, podem ser claramente visualizados como um papel assumido pelo Ministério Público (GURGEL, 2007 apud VICENTE; CALMON, 2011). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 80 Sistemas de crenças As polít icas públicas são conceituadas como sistemas de crenças (beliefs systems). Políticas públicas incorporam teorias sobre como atingir determinados objetivos, portanto, envolvem valores, problemas que devem receber as mais altas prioridades, relações causais e percepções da magnitude dos problemas e da eficácia dos instrumentos de intervenção. A possibilidade de relacionar crenças e políticas públicas oferece melhor condição de análise da influência de vários atores no tempo. Os “sistemas de crenças” têm a função dupla de moldar uma perspectiva normativa para fundamentar a interpretação e o discernimento de soluções (diagnóstico) em relação a certos fenômenos percebidos. Estes “sistemas de crenças” são, assim, importantes porque (i) em geral as ações humanas são orientadas pelo sentido e porque (ii), na prática política, a persuasão é um fator central para justificar o acesso ao poder e legitimar aqueles que estão no poder (VICENTE; CALMON, 2011). TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 81 O s i s t e m a d e c r e n ç a s é organizado conforme uma estrutura hierárquica tripartite, disposta segundo o grau decrescente de resistência às mudanças (VICENTE; CALMON,2011): • Núcleo duro (deep core) – axiomas normativos e ontológicos fundamentais. São exemplos de crenças integrantes do núcleo duro (deep core): as concepções sobre a natureza humana, as prioridades relativas a valores fundamentais como direito à vida, dignidade da pessoa humana, liberdade, segurança, poder, conhecimento, saúde, amor, beleza, e outras, os critérios básicos de justiça distributiva, a identidade sociocultural etc. (VICENTE; CALMON, 2011). • Núcleo político (policy core) - posições mais importantes sobre a política pública, concernentes às estratégias básicas, às opções programáticas e à teoria de ação para se atingir os valores do deep core no âmbito do subsistema. Colocam- se no núcleo político (policy core) preceitos normativos essenciais, como a orientação sobre prioridades valorativas básicas e a identificação de grupos sociais ou outras entidades cujo bem-estar é objeto de maior consideração, bem como preceitos com componente empírico substancial, como os referentes a: causas básicas do problema, distribuição adequada de autoridade entre o governo e o mercado e entre os diferentes níveis de governo, prioridades entre os diferentes instrumentos de política pública, preferências políticas de destaque (policy core, policy preferences) etc. (VICENTE; CALMON, 2011). O modelo apresenta h ipóteses relativas à estrutura das coalizões e de seus sistemas de crenças, às mudanças políticas e ao aprendizado político entre as coalizões. • Hipótese de coalizão (relativas às coalizões de defesa): são baseadas na premissa de que seu principal elemento aglutinador é a concordância sobre crenças do núcleo político. Essas hipóteses postulam que os grupos de aliados e os de oponentes num dado sistema permanecem estáveis durante períodos de até uma década ou mais. O ACF pressupõe que está essencialmente no núcleo político (policy core) o consenso necessário para a existência da coalizão. Discorda que crenças específicas sejam, na prática, mais relevantes do que crenças abstratas. Os aspectos instrumentais são entendidos como componentes mais negociáveis no âmbito do subsistema (VICENTE; CALMON, 2011). • Hipóteses de mudança (relativas às mudanças na política pública): postulam que uma política pública tende a permanecer por tanto tempo quanto permanecer no poder a coalizão que a criou, tida como coalizão dominante. Segundo essas hipóteses, a única maneira de mudar os atributos do núcleo político de uma política governamental numa dada jurisdição é por meio de algum evento originado fora do subsistema, capaz de alterar substancialmente a distribuição de recursos políticos ou os pontos de vista das coalizões no âmbito desse subsistema. Mas, após alguns ajustes de redação, deixou-se claro que perturbações externas constituem causa necessária, porém não suficiente, para alterações nos atributos fundamentais de um programa governamental e que as autoridades governamentais, em certos casos, têm poder para revisar os programas, mesmo sem mudanças na situação de dominância entre coalizões (VICENTE; CALMON, 2011). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 82 • Aspectos instrumentais (secondary aspects) - decisões instrumentais, as medidas e as informações necessárias para implementar o policy core. A maior parte das preferências concretas em termos da política pública está inserida no nível dos aspectos instrumentais Assim, são exemplos de crenças do nível dos aspectos instrumentais: preferências políticas de menor destaque; crenças de menor amplitude referentes à seriedade de aspectos específicos do problema em locais específicos ou à importância relativa de fatores causais em diferentes momentos e locais; decisões sobre alocação de recursos orçamentários; interpretação de normas; informações sobre o desempenho de programas ou instituições específicas etc. Mudanças nesse nível são relativamente fáceis. É no nível dos aspectos instrumentais que está a maior parte do policy making administrativo e mesmo legislativo (VICENTE; CALMON, 2011). • Hipóteses de aprendizado (relativas ao processo de aprendizado orientado às políticas públicas): aplicam-se às condições conducentes à aprendizagem política entre sistemas de crenças, ou seja, entre coalizões. Baseando-se na premissa de que as coalizões resistem às mudanças em seu núcleo político ou, mesmo, em aspectos instrumentais importantes de seus sistemas de crenças, esse grupo de hipóteses defende que apenas evidências empíricas bastante sólidas podem conduzi-las a rever pontos de vista (VICENTE; CALMON, 2011). FONTE: Vicente e Calmon (2011, p. 6-8) Quer estudar mais sobre os modelos de análise de políticas públicas? Leia o artigo a seguir! FONTE: ALMEIDA, Lia de Azevedo; GOMES, Ricardo Corrêa. Processo das políticas públicas: revisão de literatura, reflexões teóricas e apontamentos para futuras pesquisas. Caderno EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 16, n. 3, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cebape/ v16n3/1679-3951-cebape-16-03-444.pdf. Acesso em: 10 jun. 2019. DICAS TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 83 LEITURA COMPLEMENTAR Para conhecer um estudo sobre política pública e ações de incentivo à leitura, recomenda-se a leitura do texto a seguir: POLÍTICAS PÚBLICAS E AÇÕES DE INCENTIVO À LEITURA PROMOVIDAS POR ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS SOB A ÓTICA DA RESPONSABILIDADE SOCIAL Adam Felipe Ferreira Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação pela Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP, campus de Marília. E-mail: adam.f.ferreira@hotmail.com Íris Marques Tavares Sardelari Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação pela Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP, campus de Marília. E-mail: irismtavares@hotmail.com Claudio Marcondes de Castro Filho Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo – USP Professor do curso de Biblioteconomia e Ciências da Informação e da Documentação da FFCLRP/USP e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação pela Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP, campus de Marília. E-mail: claudiomarcondes@ffclrp.usp.br Contextualização: A descoberta da imprensa possibilitou o acesso a obras literárias e à informação, antes restritas aos detentores do poder, como ordens religiosas, reis ou nobres. Entretanto, os altos índices de analfabetismo ainda eram uma barreira para que cada vez mais pessoas tivessem acesso à informação. Até meados do século XX, metade da população brasileira ainda era analfabeta, mas o estabelecimento de políticas públicas e ações da iniciativa privada contribuíram para mudar esta realidade. Objetivo: O objetivo deste artigo é discorrer sobre políticas públicas e ações de incentivo à leitura promovidas por organizações empresariais, no âmbito de suas estratégias de responsabilidade social, que contribuíram para a mudança dessa realidade. Metodologia: por meio de uma pesquisa de natureza exploratória e qualitativa, elaboramos uma revisão da literatura com o objetivo de apresentar as políticas públicas voltadas ao incentivo à leitura, bem como, com base no ranking da Revista Fortune das maiores empresas, escolhemos as sete empresas brasileiras constantes desse ranking para demonstrar o que elas têm feito para incentivar a leitura no Brasil. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 84 Resultados: No âmbito das políticas públicas de incentivo à leitura, no período de 2006 a 2010, verificou-se que a cadeia do livro passou a ser valorizada enquanto negócio rentável; houve a instalação de grandes grupos editorias e apoio de organismos internacionaiscomo OEI, UNESCO, entre outros. A partir de 2012, os incentivos públicos se concentraram em ações mais descentralizadas, como realização de reuniões, seminários e encontros. No âmbito das ações de incentivo à leitura da iniciativa privada as sete organizações estudadas apresentaram ações específicas voltadas ao incentivo à leitura. Conclusão: As ações da iniciativa privada juntamente com as políticas públicas desenvolvidas e implementadas no Brasil ainda acontecem de forma muito tímida, comparadas com a realidade desta sociedade, que possui em sua grande maioria indivíduos com dificuldades e limitações para a escrita, leitura e reflexão. Palavras-chave: Políticas Públicas. Responsabilidade Social. Leitura. Introdução Ao longo dos anos, a Sociedade tem sido denominada principalmente de acordo com os seus insumos econômicos. Quando sua base econômica era a Agricultura, foi denominada de Sociedade Agrícola. Durante a revolução industrial, passou a ser denominada de Sociedade Industrial. Na Terceira Onda, como sua base econômica é a informação, recebeu o nome de Sociedade da Informação ou ainda Sociedade do Conhecimento, dentre outros termos. Na atualidade, a informação configurou-se como elemento fundamental, assumindo ao longo dos anos um importante papel na vida das pessoas, estando presente de maneira intensiva em todos os aspectos e em todos os momentos de forma exaustiva. Nessa sociedade, a informação se configura como um insumo capaz de proporcionar uma transformação social. Mas, para isso, o desenvolvimento da competência em informação nas pessoas é essencial, pois não significa somente garantir o acesso à informação, mas ensiná-las a utilizá-la e aplicá-la ao seu contexto social. A capacidade de leitura, vinculada ao universo da informação, se configura, então, como uma competência essencial para que se consiga utilizar a informação em toda a sua potencialidade, pois quando os indivíduos não possuem a capacidade de ler e, assim, não têm acesso à informação, torna-se difícil formar cidadãos de fato e de direito. Diante disso, esse artigo tem como objetivo discorrer sobre políticas públicas e ações de incentivo à leitura promovidas por organizações empresariais, no âmbito de suas estratégias de responsabilidade social. Para isso, por meio de uma pesquisa de natureza exploratória e qualitativa, elaboramos uma revisão da literatura com o objetivo de apresentar as políticas públicas voltadas ao incentivo à leitura, bem como, com base no ranking de 2015 das 500 maiores empresas segundo a Revista Fortune, escolhemos as 7 empresas brasileiras constantes desse ranking para demonstrar o que elas têm feito para incentivar a leitura no Brasil. TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 85 Além disso, o tema desse artigo se justifica, pois, apesar da obtenção de avanços, como a diminuição do índice de analfabetismo, que passou de 50% em 1950 para 6% em 2011, o índice de livros lidos por ano no Brasil ainda é baixo, de apenas 3,1, conforme pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, edição de 2011. Informação e Leitura Terceira Onda, Era da Informação ou Sociedade da Informação, Sociedade em Rede, Sociedade do Conhecimento, Sociedade da Aprendizagem e Economia Informacional são alguns termos usados para descrever uma nova Era, marcada por grandes mudanças (COUTINHO; LISBÔA, 2011). Nessa Sociedade, seu insumo econômico principal é a informação, que, além de levar à criação de riquezas e prosperidade, proporciona a inclusão social, isto é, a cidadania. Corroborando-se a isso, para Bourdieu (1998 apud HOLANDA; OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2013), o acesso à informação é capaz de dividir uma sociedade entre aqueles que possuem mais ou menos informações. Belluzzo (2014) afirma que somente os acessos à informação ou ao conhecimento não são suficientes, mas deve-se saber qual o uso e significado da informação para saber entendê-la e disseminá-la. Assim, a utilização da informação pressupõe o desenvolvimento nos indivíduos da Competência em Informação (CoInfo), um: [...] processo contínuo de interação e internalização de fundamentos conceituais, atitudinais e de habilidades específicas como referenciais à compreensão da informação e de sua abrangência, em busca da fluência e das capacidades necessárias à geração do conhecimento novo e sua aplicabilidade ao cotidiano das pessoas e das comunidades ao longo da vida (BELLUZO, 2005, p. 38). A capacidade de leitura, vinculada ao universo da informação, se configura, então, como uma competência essencial para que se consiga utilizar a informação em toda a sua potencialidade, ou seja, Castro Filho e Romão (2011, p. 137) sustentam que “os gestos de leitura sempre se apoiam em saberes e dizeres já falados antes, sendo que ao leitor cabe renegociar o já-sabido com o texto/livro/ enunciado que tem em mãos”. De acordo com Castro Filho (2008, p. 83), “as leituras são essenciais no início do desenvolvimento intelectual do sujeito, e o entreter da leitura direciona do mágico para o real, que tem como base principal, informar, independente dos suportes que se pode oferecer”. Para Manguel (1997), na análise que elabora da maneira de ler de Santo Agostinho, relata que “tomando do livro uma ideia, uma frase, uma imaginação, ligando-se a outro texto preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias, produzirá na verdade, um texto novo de autoria do leitor”. “Leitores inferem, deduzem, completam vão e voltam, “levantam a cabeça” (como UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 86 bem disse Roland Barthes), rabiscam, subvocalizam, aumentam ou diminuem o ritmo” (RIBEIRO, 2011, p. 100). Nesse aspecto, a leitura passa a contribuir para a formação do indivíduo como uma atitude positiva, de reconhecimento de novas possibilidades, de interpretação do material conhecido e de descobrimento de novos caminhos para entender e interpretar a leitura. A descoberta da imprensa possibilitou que mais pessoas tivessem acesso aos textos, que, devido aos pouquíssimos exemplares das obras, tinham acesso restrito, pertencendo aos detentores do poder à época, como ordens religiosas, reis ou nobres. Apesar de junto com a revolução mercantil, que marcou o início da modernidade, ter começado a ascensão da burguesia e do regime político democrático, permitindo o acesso de mais pessoas a essas obras, ainda assim poucas pessoas tinham acesso aos livros, devido aos altos índices de analfabetismo. Retratos da Leitura no Brasil Criado em 2006 pelas entidades do livro Abrelivros, CBL e SNEL, o Instituto Pró-Livro (IPL) tem como objetivo o fomento à leitura e à difusão do livro no Brasil. Em 2011, o IPL foi o responsável pela elaboração da terceira edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que evidencia o comportamento do leitor no país desde 2000, ano de realização da primeira edição da pesquisa. Além de demonstrar o comportamento do leitor, a pesquisa também mede a intensidade, forma, motivação e condições de leitura da população brasileira, bem como traça o perfil dos leitores de livros digitais, além de avaliar a percepção dos usuários de bibliotecas públicas (INSTITUTO PRÓ-LIVRO, 2012). Em relação aos conceitos, em 2011, a pesquisa definiu como leitor aquele que declarou, no ato da pesquisa, ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses. E, não-leitor aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos três meses. Dessa forma, o índice de leitura tem como referência a leitura dos últimos três meses anteriores à pesquisa (INSTITUTO PRÓLIVRO, 2012). A partir da segunda edição (2007), realizada pelo recém-criado Instituto Pró-Livro, a pesquisa adotou uma metodologia desenvolvida pela UNESCO e pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), com o objetivo de orientar as pesquisas sobre leitura realizadas na América Latina. Com isso, a pesquisa buscoualcançar um padrão internacional de medição a fim de comparar a questão da leitura nos países da região. Considerando-se as diferenças metodológicas entre as edições, visando apresentar uma comparação entre elas, o IPL, em 2011, separou na 3º edição da pesquisa para estudo em cada amostra um grupo com o mesmo perfil: população acima de 15 anos, com no mínimo 3 anos de escolaridade, que leu pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. Os resultados desta comparação constam da Tabela 1. TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 87 Os dados mostram que o índice de leitura piorou da segunda (2007) para a terceira edição (2011) da pesquisa, passando de 3,7 para 3,1 quantidade de livros lidos por ano. Além disso, ao analisar o índice considerando-se as diferenças de raça/cor, renda, gênero, escolaridade, regiões, a pesquisa concluiu que quanto mais rico é o entrevistado, maior é a penetração da leitura e média de livros lidos nos últimos três meses (INSTITUTO PRÓ-LIVRO, 2012). A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, bem como aquelas realizadas pelo IBGE sobre escolaridade, alfabetismo e indicadores sociais e econômicos, têm subsidiado a criação de políticas públicas de leitura no nosso país. Políticas Públicas de Leitura no Brasil Segundo Holanda, Oliveira e Oliveira (2013), o povo procura no Estado apoio para suprir as suas necessidades, visando alcançar o seu direito à cidadania. Dessa forma, a política social faz parte das políticas públicas, que, segundo Saravia (2006, p. 28-29), consistem em: [...] um fluxo de decisões públicas, orientado a manter o equilíbrio social ou a introduzir desequilíbrios destinados a modificar essa realidade. Decisões condicionadas pelo próprio fluxo e pelas reações e modificações que elas provocam no tecido social, bem como pelos valores, ideias e visões dos que adotam ou influem na decisão. É possível considerá-las como estratégias que apontam para diversos fins, todos eles, de alguma forma, desejados pelos diversos grupos que participam do processo decisório. Com uma perspectiva mais operacional, poderíamos dizer que ela é um sistema de decisões públicas que visa a ações ou omissões, preventivas ou corretivas, destinadas a manter ou modificar a realidade de um ou vários setores da vida social, por meio da definição de objetivos e estratégias de atuação e da alocação dos recursos necessários para atingir os objetivos estabelecidos. Este fluxo de decisões públicas quando voltado às ações sociais recebe o nome de políticas públicas sociais. Para Holanda, Oliveira e Oliveira (2013), as políticas públicas sociais não se restringem somente ao Estado, pois atuam “de e para” todos nas políticas voltadas à universalização dos direitos sociais. Secchi (2014, p. 2) define política pública como uma “diretriz elaborada para enfrentar um problema público que possui dois elementos fundamentais: intencionalidade pública e resposta a um problema público”. FONTE: Instituto Pró-Livro (2012, p.73) TABELA 1 – Comparação 2000-2007-2011 da quantidade de livros/ano lidos no período de 3 meses UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 88 Holanda, Oliveira e Oliveira (2013) defendem que as políticas sociais relacionadas ao direito à informação são voltadas à viabilização do acesso aos instrumentos sociais e suportes comunicacionais que, por meio da informação, proporcionam uma transformação social. Nesse sentido, informação, leitura e cidadania se complementam, pois quando os indivíduos não possuem a capacidade de ler e, assim, não têm acesso à informação, torna-se difícil formar cidadãos de fato e de direito. Wethein (2008) defende que, por meio dos livros, se chega ao conhecimento e este é caminho para que “os conflitos naturais da vida em sociedade resultem em crescimento do bem-estar e redução das desigualdades”. O Brasil, ao longo dos anos, criou e implantou diversas políticas públicas para o livro, leitura, literatura e biblioteca. Oliveira e Prados (2015, p. 104) elencam as seguintes: • Criação do Instituto Nacional do Livro (INL) em 1937; • Implantação de pequenas bibliotecas a partir as primeiras décadas do século XX; • Descentralização das atividades do INL a partir do final da década de 60 e início da década de 70, para o campo das bibliotecas. Foram criados: o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas – SNBP (1976), Sistemas Estaduais de Bibliotecas Pública - SEBP; • Fundação Pró-Leitura (1988); • Fundação Biblioteca Nacional (1990). Neste período foram extintos o INL, SNBP e Fundação Pró-Leitura, sendo as atividades desses institutos centralizadas pela Fundação Biblioteca Nacional. • Política Nacional do Livro (Lei nº 10.753, a Lei do Livro) em 2003. • Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) em 2006. Em 2012, a Diretoria do Livro, Leitura e Literatura (DLLL) incorporou o SNBP, acrescentando então o “B” ao Plano, passando a ser chamado de Plano Nacional do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PNLLLB). Em 2014, os Ministérios da Cultura e da Educação publicaram uma edição atualizada e revisada do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). O PNLL reúne diretrizes para uma política pública voltada à leitura e à literatura no Brasil e, em particular, à biblioteca e à formação de mediadores. Essas diretrizes consideram a importância dessas instâncias para o desenvolvimento social e da cidadania, pois a formação de uma sociedade leitora é condição essencial para a “inclusão social de milhões de brasileiros no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável” (PNLL, 2014, p. 2). Diante desse contexto, o PNLL (2014) estabeleceu quatro eixos: a) democratização do acesso; b) fomento à leitura e à formação de mediadores; c) valorização institucional da leitura e o incremento de seu valor simbólico; d) desenvolvimento da economia do livro como estímulo à produção intelectual e ao desenvolvimento nacional; que orientam a sua organização, e dentro de cada eixo as ações. Além desses eixos e ações, o PNLL (2014, p. 15) valoriza cinco fatores identificados pela UNESCO: TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 89 a) o livro deve ocupar destaque no imaginário nacional, sendo valorizado por amplas faixas da população; b) devem existir famílias leitoras que compartilhem práticas de leitura, de modo que as gerações se influenciem mutuamente e construam representações afetivas em torno da leitura; c) deve haver escolas que saibam formar leitores, valendo-se de mediadores bem formados (professores, bibliotecários, mediadores de leitura) e de múltiplas estratégias e recursos para alcançar essa finalidade. d) deve ser garantido o acesso ao livro, com um número suficiente de bibliotecas e livrarias; e) o preço do livro deve ser acessível a grandes contingentes de potenciais leitores. Além desses eixos, ações e fatores, as políticas voltadas para o livro, leitura, literatura e bibliotecas seguem as diretrizes da competência em informação e do aprendizado ao longo da vida, que têm recebido especial atenção da UNESCO em diretrizes e políticas mundiais voltadas para o desenvolvimento, prosperidade e liberdade e para criar condições plenas de inclusão social (PNLL, 2014). Conscientes de que as políticas públicas não têm sido suficientes para o alcance do objetivo de assegurar e democratizar o acesso à leitura, ao livro, à literatura e às bibliotecas a toda a sociedade, organizações do terceiro setor e da iniciativa privada, no âmbito da responsabilidade social, têm realizado ações que contribuam para o alcance desse objetivo. Responsabilidade Social A Responsabilidade Social (RS) refere-se ao cumprimento dos deveres e obrigações dos indivíduos enquanto seres sociais e das organizações para com a coletividade. Dizrespeito ao exercício cidadão e ao pensar sustentável pautado na ética e na legalidade. Concretiza-se por meio de ações, tomadas de decisões, comportamentos e práticas construtivas, que contribuem de forma eficaz para a preservação e melhoria do bem-estar de todos. Para Ashley (2002, p. 6): responsabilidade social pode ser definida como o compromisso que uma organização deve ter para com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetam positivamente, de modo amplo, ou a alguma comunidade, de modo específico, agindo proativamente e coerentemente no que tange ao seu papel específico na sociedade e a sua prestação de contas para com ela. Ela acontece de forma voluntária pelas organizações, uma vez que adotam posturas integralizadoras que beneficiam seu público interno ou externo no que tange à sociedade. Por ser composta de ações voluntárias, não deve ser confundida como medidas compulsórias impostas pelo governo, pois a responsabilidade social transcende essas questões, já que sua essência está na transformação das pessoas em agentes socialmente ativos que buscam um ambiente mais digno e sustentável para todos. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 90 No cenário mundial contemporâneo, observam-se inúmeras transformações nas esferas econômicas, políticas, sociais, culturais que modificam as relações e as formas de trabalho. De acordo com Melo Neto (2001, p. 26), a responsabilidade social deve ser entendida pelas organizações como: a forma ética e responsável pela qual a empresa desenvolve todas as suas ações, políticas, suas práticas, suas atitudes, tanto com a comunidade quanto com o seu corpo funciona. Enfim, com o ambiente interno e externo à organização, e com todos os agentes interessados no processo. O ambiente organizacional atual anseia por um pensar pautado na postura cidadã, sustentável com responsabilidades voltadas à coletividade. Houve um despertar para o coletivo, as organizações agora precisam alcançar convergência entre metas econômicas e sociais. Segundo o Instituto Ethos (2016, p. 8), um negócio sustentável e responsável consiste em uma: [...] atividade econômica orientada para a geração de valor econômico-financeiro, ético, social e ambiental, cujos resultados são compartilhados com os públicos afetados. Sua produção e comercialização são organizadas de modo a reduzir continuamente o consumo de bens naturais e de serviços ecossistêmicos, a conferir competitividade e continuidade à própria atividade e a promover e manter o desenvolvimento sustentável da sociedade. Com o passar do tempo, o termo responsabilidade social modificou-se e amadureceu em sua essência e em seus principais objetivos, ocasionando algumas variações complementares ou distintas. Entre esses termos estão: • Responsabilidade Social Empresarial (RSE): está diretamente relacionada com o público interno de sua empresa, sejam eles funcionários; colaboradores; dentre outros. • Responsabilidade Social Corporativa (RSC): conceito frequentemente utilizado por grandes organizações (denominadas de grande porte), que se fundamenta em ações voltadas em benefício à economia local; ao meio ambiente; moradia; transporte; educação; políticas públicas em geral que contribuem positivamente para a melhoria da sociedade e organizações. • Responsabilidade Social Ambiental (RSA): tem seus princípios e valores arraigados em preocupações com a preservação e manutenção do meio ambiente, ações intimamente ligadas com o pensar sustentável. A sociedade atual exige de seus indivíduos uma nova forma de pensar e agir, uma vez que a globalização é um marco na era contemporânea e a responsabilidade social, pautada na postura cidadã e no exercício sustentável, engloba práticas que abrem caminho para uma sociedade mais humana e igualitária, pois a globalização e seus benefícios devem ser fatores de inclusão TÓPICO 1 |ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E DE ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DA ANÁLISE ATÉ OS MODELOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 91 e não de exclusão, sendo necessário estabelecer comportamentos baseados em princípios e valores coletivos, criar noções de integralização, pois a dignidade é um direito elementar à vida de qualquer cidadão. De modo a contribuir para a consolidação da responsabilidade social, foram criadas diversas regulamentações que reconhecem uma organização como sendo socialmente responsável. Dentre os indicadores mais destacados desta área, ressaltam-se os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social, reconhecido como o mais importante, que classifica anualmente as ações e organizações envolvidas em questões sociais e seu grau de comprometimento. Esses indicadores captam informações nas seguintes dimensões: a) Visão e estratégia; b) Governança e Gestão; c) Social; e d) Ambiental (INSTITUTO ETHOS, 2016). Dentre as tendências de mercado e com a intenção de estabelecer sempre uma padronização dos processos organizacionais por meio de selos e especificações técnicas, surgiram as certificações socioambientais que buscam, além da adequação das normas de excelência, a divulgação das boas práticas empresariais pautadas nos princípios da responsabilidade social. Uma organização voltada para o desenvolvimento da responsabilidade social planeja em seus negócios um horizonte multidimensional e integrado, proporcionando, assim, uma visão holística sobre a ambiência empresarial, transformando suas ações em estratégias para o exercício da vantagem competitiva, assegurando os direitos civis; econômicos; sociais; políticos e ambientais, contribuindo efetivamente para uma sociedade mais justa e igualitária. Considerações finais As ações de incentivo à leitura da iniciativa privada juntamente com as políticas públicas desenvolvidas e implementadas no Brasil acontecem de forma muito tímida comparadas com a realidade desta sociedade, que possui em sua grande maioria indivíduos com dificuldades e limitações para a escrita, leitura e reflexão, conforme evidenciado no Indicador de Alfabetismo Funcional e na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil apresentados neste artigo. Essas questões precisam ser levadas em consideração de forma mais contundente, uma vez que as políticas públicas devem ser pensadas como um conjunto de ações que modifiquem de fato a realidade social, transformando as pessoas em agentes sociais, pois o pensar coletivo pautado na ética e na legalidade é elementar para o mundo contemporâneo. É necessário trabalhar o conhecimento em sua totalidade, pois isso reflete diretamente na vida das pessoas, modificando e alterando padrões, exigindo uma nova maneira de pensar e agir perante o mundo. A Competência em Informação transforma os indivíduos em seres sociais, detentores do próprio saber, transformando-os em agentes ativos e autônomos no que tange à informação, produção e disseminação do conhecimento em sua potencialidade. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 92 A Era digital é incontestável nos dias de hoje, mas será que vivemos em um país globalizado? Ou vivemos em uma sociedade parcialmente evoluída no que se refere à ciência e à tecnologia? Será que a globalização vivida na sociedade brasileira é meramente parcial e acaba se transformando em um fator de exclusão e não de inclusão? O governo em todos os seus níveis de atuação (municipal, estadual e federal) tem o dever de promover ações e políticas para o desenvolvimento da leitura e do aprendizado, nesse sentido, ressalta-se a importância do papel das organizações empresariais, pois para haver progresso e crescimento é necessário convergência entre metas econômicas e sociais. Diante disso, concluímos que, para a promoção da leitura em nosso país, é imprescindível o pensar sustentável, o exercício da cidadania e a busca pelo aprendizado ao longo da vida, pois o ambiente atual anseia por ações de extensão mais ativas com base em uma visão integralizadora sob a ótica da responsabilidadesocial. FONTE: FERREIRA, Adam Felipe; SARDELARI, Íris Marques Tavares; CASTRO FILHO, Claudio Marcondes de. Políticas públicas e ações de incentivo à leitura promovidas por organizações empresariais sob a ótica da responsabilidade social. Biblioteca Escolar em Revista, Ribeirão Preto, v. 5, n. 1, p. 64-82, 2016. Disponível em: 10.11606/issn.2238-5894.berev.2016.110279. Acesso em: 10 jun. 2019. 93 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Nos Estados Unidos, a política pública é vista como área do conhecimento e como disciplina acadêmica nascida em universidades. • A análise de políticas públicas aconteceu no período pós-guerra visando à resolução de problemas. Nas universidades, a ideia de desenvolvimento do conhecimento e da informação foi evidenciada porque auxiliava na governança. • Harold Lasswell, Herbert Simon, Charles Lindblom e David Easton são considerados os “fundadores” do estudo das políticas públicas. • As políticas públicas, enquanto objeto de estudo, configuram, em primeiro lugar, processos complexos e multidimensionais que se desenvolvem em múltiplos níveis de ação e de decisão. Em segundo lugar, há diferentes atores – governantes, legisladores, eleitores, administração pública, grupos de interesse, públicos-alvo e organismos transnacionais, que agem em quadros institucionais e em contextos geográficos e políticos específicos, visando à resolução de problemas públicos, mas também a distribuição de poder e de recursos. • O ciclo de políticas públicas é um processo interativo, não linear composto por cinco fases principais. • Os atores que fazem parte do ciclo de políticas são: governo, gabinete, servidores públicos, partidos políticos, mídia, grupos de interesse, sistema legal e o público. • Existem instrumentos de políticas que são técnicas à disposição do governo para a implementação dos objetivos das políticas. Exemplos de instrumentos de política: gastos, regulamentos, parcerias, troca de informações, tributação, licenciamento, prestação direta de serviços, contratos e subsídios. • São três os objetivos dos instrumentos de políticas públicas: a) Proporcionar mudanças de comportamento nos indivíduos; b) Trazer condições sociais, políticas ou econômicas à população; c) Fornecer serviços ao público, conforme demanda. • Os tipos de instrumentos de política são: Doing nothing, Information-based, Expenditure-based, Regulation e Acting directly. 94 • Os instrumentos de políticas do governo são influenciados pelo governo e governança e pela influência internacional. • A análise de política visa diminuir problemas sociais por intermédio do aperfeiçoamento na formulação e na implementação de políticas públicas além de entender o porquê e para quem uma política foi criada, e não só olhar o conteúdo em si de tal política. • A análise de políticas públicas – compreendida como uma ciência social – originou-se de duas vertentes de interesse: a) a partir das dificuldades que as pessoas idealizadoras e elaboradoras de políticas tinham frente à complexidade dos problemas que buscavam resolver; e b) a atenção dada por pesquisadores e acadêmicos em ciências sociais que buscavam estudar questões relacionadas às políticas públicas visando aplicarem seu conhecimento para resolver problemas concretos no setor público. • Na ciência política, o estudo de políticas públicas está centrado no poder e suas relações (como é mantido, conquistado, distribuído e compartilhado o poder), assim como nos processos de aquisição dos recursos de poder, processos de participação no poder, a competição e as alianças realizadas. • A análise das políticas públicas partiu das bases teóricas trazidas da ciência política, assim como da economia, psicologia, sociologia, história e estudos das organizações. • Existem diferentes tipos de análise de políticas, a saber: estudo do conteúdo das políticas públicas, estudo da elaboração das políticas, estudo dos resultados das políticas, avaliação de políticas, informação para elaboração de políticas, informação para elaboração de políticas e defesa de políticas. • Uma política possui três elementos-chaves: uma definição de problema, metas a serem atingidas e os instrumentos de política para abordar o problema e atingir as metas. • Existem quatro modelos teóricos para compreensão do processo e problemas das políticas públicas, a saber: o modelo sequencial ou do ciclo político; o modelo dos fluxos múltiplos; o modelo do equilíbrio interrompido e o quadro analítico das coligações de causa ou de interesse. 95 AUTOATIVIDADE 1 Com base na leitura complementar intitulada “Políticas públicas e ações de incentivo à leitura promovidas por organizações empresariais sob a ótica da responsabilidade social”, marque a resposta que se refere ao conceito de responsabilidade social: a) ( ) Apresenta, de forma didática e em linguagem simples, informações sobre a Lei de Acesso à Informação (LAI) e orientações aos gestores públicos estaduais e municipais sobre as medidas necessárias para a efetiva implementação dessa Lei, bem como sua regulamentação. b) ( ) É o compromisso que uma organização deve ter para com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetam positivamente, de modo amplo, ou a alguma comunidade, de modo específico, agindo proativamente e coerentemente no que tange ao seu papel específico na sociedade e a sua prestação de contas para com ela. c) ( ) Admite a prestação de serviços em dois regimes jurídicos distintos. No chamado regime privado, a empresa recebe uma outorga denominada autorização, enquanto no chamado regime público, a outorga é conhecida como concessão. d) ( ) É o estudo da manifestação e da evolução do fenômeno informação e representa uma promissora ferramenta para a compreensão das dinâmicas de poder nos contextos sociais, onde estão incluídas as esferas econômicas e políticas. e) ( ) Realiza a busca, no marco legal das telecomunicações, quais são os serviços enquadrados no regime jurídico público e no privado. 2 Conforme Estevão e Ferreira (2018), uma política três elemento-chaves. Marque qual a resposta se refere à resposta correta, segundo abordado pelos autores no texto. a) ( ) Os três elementos-chave são: uma definição de problema, metas a serem atingidas e os instrumentos de política para abordar o problema e atingir as metas. b) ( ) Os três elementos-chave são: defesa do processo de elaboração, defesa de políticas e informação para a elaboração de políticas. c) ( ) Os três elementos-chave são: estudo da elaboração das políticas, estudo do conteúdo das políticas públicas e a avaliação de políticas. d) ( ) Os três elementos-chave são: afetação de recursos, o papel da interação, o papel dos atores e das instituições e as regras de funcionamento da política. 3 Para Estevão e Ferreira (2018) existem diferentes tipos de análises de política e a escolha de qual análise será utilizada depende do analista que a desenvolve. Entre os tipos de análise estão: 96 I. Estudo do conteúdo das políticas públicas: se refere à atenção dada para questões que fazem parte das influências na formulação de políticas. II. Estudo das regras das políticas: visa identificar porque gastos e serviços são variáveis em diferentes áreas buscando compreender as políticas no que se refere aos fatores sociais, econômicos, tecnológicos etc. III. Estudo da elaboração das políticas: neste tipo o analisa investiga como determinada política surgiu, foi implementada e quais os resultados obtidos a partir de sua implementação. IV. Avaliação de políticas: neste tipo se procura identificar os impactos das políticas sobre a população. V. Defesa do processo de elaboração da política: os estudos se forcam no melhoramento dos processos de elaboração de políticas e a máquina do governo. VI. Defesa de políticas: neste item o analista defende a adoção de ideias e opções no processo de elaboração de políticas.VII. Informação para elaboração de políticas: neste tipo busca-se organizar os dados para auxiliar os elaboradores de políticas na tomada de decisão. A partir do estudo do tópico, identifique a resposta CORRETA: a) ( ) As questões I, II, III, IV e VI estão corretas. b) ( ) As questões II, III, IV, V e VI estão corretas. c) ( ) As questões I, II, III, V e VI estão corretas. d) ( ) As questões IV, V, VI e VII estão corretas. e) ( ) As questões IV, III, VI e VII estão corretas. f) ( ) Nenhuma das questões está correta. g) ( ) Todas as questões estão corretas. 4 Conforme estudado no Tópico 1 existem três níveis de análise de políticas que se referem ao funcionamento da estrutura administrativa, ao processo de decisão e a relação entre o Estado e a sociedade. Dessa forma, explique qual é o nível denominado como “nível da essência ou estrutural”. 5 O Tópico 1 desta unidade demonstrou que existem quatro modelos teóricos para a compreensão do processo e problemas das políticas púbicas. Dessa forma, a partir da citação abaixo: Enquanto objetivo, este modelo possibilita a exploração e investigação do processo de políticas públicas visando reduzir sua complexidade. Assim, a ação pública é “analisada como um processo sequencial e inacabado que se repete e reconstrói, em resultado de mudanças induzidas por efeito de feedback das próprias políticas públicas, ou por alterações do contexto ou da relação entre os atores e instituições envolvidos” (ARAÚJO; RODRIGUES, 2017, p. 18). Identifique o modelo que a citação se refere: a) ( ) Multiple Streams Framework. b) ( ) Policy Cicle. c) ( ) Punctuated Equilibrium Theory. d) ( ) Advocacy Coalition Framework – ACF. 97 TÓPICO 2 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O presente tópico aborda o processo de incorporação da cultura nas ações públicas. Embora tenha diversos conceitos a partir de diversas perspectivas teóricas, pode-se entender que a cultura é a consciência coletiva que vincula os sujeitos uns aos outros (ORTIZ, 2013). A cultura também pode ser entendida como um conjunto de tradições, códigos, valores e práticas transferidas em vários sentidos. Há um entendimento de que a “compreensão sobre um dado grupo, um coletivo e suas respectivas produções ou reproduções culturais, é relevante, útil e necessário para o processo de formulação de políticas públicas” (LEITE, 2015, p. 21). Neste tópico, você aprenderá o conceito de políticas públicas culturais, estudará um breve histórico sobre o desenvolvimento das políticas culturais no Brasil e conhecerá o Sistema Nacional de Cultura e Plano Nacional de Cultura. 2 O QUE SÃO POLÍTICAS CULTURAIS? A primeira instituição responsável pela formulação e implementação de políticas públicas para a cultura foi o Departamento Municipal de Cultural da cidade de São Paulo, criada no Brasil em 1935 por Mário de Andrade. A partir deste marco que aponta a evolução do poder público visando à cultura, foi possível verificar o processo de construção da cultura como campo de atuação do poder público, até que, em 1985, foi criado o Ministério da Cultura, órgão este com atuação nacional (LEITE, 2015). As políticas públicas realizadas e promovidas pelo Ministério da Cultura englobam projetos de abrangência nacional e apelo social e incorporam inúmeras ações definidas em função das demandas vindas da população. Estas ações necessitam de estruturas complexas para operar, bem como, de esforços de comunicação interna e externa, em âmbito nacional e internacional, visando ao alcance dos objetivos e a promoção dos resultados (LEITE, 2015). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 98 Embora seja um objeto recente de estudos, as Políticas culturais podem ser definidas como “formulações e/ou propostas desenvolvidas pela administração pública, organizações não-governamentais e empresas privadas, com o objetivo de promover intervenções na sociedade através da cultura” (FÉLIX; FERNANDES, 2006, p. 1). Para Canclini (2001, p. 65), as políticas culturais são um “conjunto de intervenções realizadas pelo Estado, instituições civis e grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvolvimento simbólico, satisfazer as necessidades culturais da população e obter consenso para um tipo de ordem ou de transformação social”. Coelho Neto (1997, p. 292) complementa a definição acima afirmando que as iniciativas feitas por estes grupos objetivam “promover a produção, a distribuição e o uso da cultura, a preservação e divulgação do patrimônio histórico e o ordenamento do aparelho burocrático por elas responsável”. À medida que a política cultural traz uma resposta de uma autoridade política a um determinado problema do campo social ou artístico, ela condiciona de forma efetiva a economia dos bens culturais e as suas instituições, determinando, assim, a gênese e a história do campo de produção cultural (ALBUQUERQUE, 2011). Existem duas dimensões da cultura, a dimensão sociológica e a dimensão antropológica. A primeira – a dimensão sociológica – é privilegiada pelas políticas culturais e referem-se ao mercado, à cultura concebida de modo intencional e explícito visando à construção de sentidos e alcançar um público específico, por intermédio de meios específicos de expressão (BOTELHO, 2001; FÉLIX; FERNANDES, 2006). A segunda se refere à cultura produzida no cotidiano e representada por pequenos mundos construídos pelos sujeitos, que promove a eles o equilíbrio e a estabilidade no convívio social. Esta perspectiva é aquela que tem sido o desafio dos gestores da cultura (FÉLIX; FERNANDES, 2006). Para Albuquerque (2011), as políticas culturais são processos sociais institucionais. Em outras palavras, são “práticas de intervenção que vêm agregar e dar sentido a um conjunto necessariamente heteróclito de actos, discursos, despesas e práticas administrativas” (DUBOIS, 1999 apud ALBUQUERQUE, 2011, p. 91) “onde se jogam duas dimensões fundamentais das relações sociais: a cultura e o poder” (COSTA, 1997 apud ALBUQUERQUE, 2011, p. 91). Para além do Estado, as políticas culturais podem ser elaboradas por diversos setores e agentes sociais podendo estes, inclusive, atuar em conjunto para a realização de tais políticas. “Este é, particularmente, um alinhamento exigido pelas novas demandas sociais emergidas das constantes transformações culturais observadas na contemporaneidade” (FÉLIX; FERNANDES, 2006, p. 2). O campo cultural está presente de forma transversal em todas as áreas da vida social como a comunicação, o comportamento, a diversidade, a política TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS 99 nacional, a economia, entre outros, e demanda das políticas uma articulação que ultrapasse as fronteiras da dimensão sociológica da cultura (FÉLIX; FERNANDES, 2006). As desigualdades presentes em diversas regiões e grupos sociais no país são um exemplo de indicadores que tornam visíveis a necessidade de políticas de acesso a bens culturais. Além disso, a aceitação e convivência com diferentes grupos étnico-raciais, religiosos e culturais, o apoio à pluralidade de segmentos sociais e culturais e de manifestações também fazem parte dos desafios na elaboração e na prática de políticas culturais (FÉLIX; FERNANDES, 2006). Entre as dificuldades, está o corte de verbas para pagamento de dívidas que acaba, por retirar dos setores da cultura os investimentos para a elaboração de políticas públicas, o que atrasa o processo de inovação e desenvolvimento econômico do Brasil (FÉLIX; FERNANDES, 2006). 3 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO BRASIL As políticas culturais começaram no Brasil juntamente com a chegada da corte portuguesa no século XIX a partir da criação das primeiras instituições culturais, tais como o Museu Histórico Nacional, a Biblioteca Nacional etc. (MUSA; PASSADOR; PASCHOALOTTO, 2017). No entanto foi na Era Vargas que começaram a de fato existir intervenções do Estado relacionadas àcultura. Com o intuito de estabelecer uma identidade nacional e de novo cenário político, Getúlio Vargas estruturou instituições nacionais de cultura e de incentivo à produção cultural (MUSA; PASSADOR; PASCHOALOTTO, 2017). Já no período de ditadura civil-militar, o desenvolvimento de políticas públicas culturais foi contido de forma quase total. Inúmeros artistas e ativistas da área da cultura foram obrigados a pedir asilo, visto que houve perseguição e violência do Estado. Com o estabelecimento da Constituição Federal de 1988, passa a ser obrigação do Estado o financiamento de atividades culturais, assim como são garantidas manifestações culturais em sua forma diversa e total com fundos destinados à cultura (MUSA; PASSADOR; PASCHOALOTTO, 2017). Nos anos 1990, a parceria com empresas privadas por intermédio das leis de incentivo fiscal à cultura se tornou o meio de desenvolver as políticas públicas para a cultura durante este período. Neste ponto, o Estado é aquele que passou a facilitar e estimular o financiamento de atividades culturais por intermédio de capital privado. O Estado tinha como compromisso encontrar empresas privadas para garantir a receita para a viabilização de eventos e movimentos culturais (MIRANDA; ROCHA; ELGLER, 2014). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 100 Já nos governos Lula, a partir de 2003, a cultura passa a ocupar lugar de destaque para a formação de uma sociedade inclusiva, democrática, produtora, autônoma e protagonista de práticas econômicas, sociais e culturais mais justas. “No primeiro mandato do Governo Lula [...] passamos a observar uma retomada na construção de diretrizes para o estabelecimento de uma política verdadeira para o campo da cultura, notadamente na gestão do Ministro Gilberto Gil” (LEITE, 2015, p. 35). Assim, “há a recuperação das políticas de democratização e descentralização, a partir das discussões sobre a pertinência da Lei de Incentivo Fiscal e a reavaliação sobre o papel do Estado como formulador e gestor de políticas públicas” (LEITE, 2015, p. 35). Dessa forma, a política cultural elaborada para o Ministério da Cultura (MinC) a partir de 2003 “orienta-se para a criação de programas de apoio direto a iniciativas culturais realizadas em todo o país, buscando se estender ao plano do cotidiano e dirigidas a diversos segmentos sociais, considerando o protagonismo dos artistas brasileiros” (LEITE, 2015, p. 35). Neste período, houve o avanço das políticas públicas para a cultura por intermédio do Sistema Nacional de Cultura (SNC), visava focar nas políticas culturais e tirá-las da situação em que se encontrava nos governos anteriores. Organizado em regime de colaboração, centralizado e participativo, possui como objetivo a promoção do desenvolvimento social e econômico com pleno exercício dos direitos culturais. O SNC é definido como um “processo de gestão e promoção das políticas públicas de cultura, em regime de colaboração de forma democrática e participativa entre os três entes federados (União, estados e municípios) e a sociedade civil, tendo por objetivo promover o desenvolvimento humano, social e econômico com pleno exercício dos direitos culturais” (BRASIL, 2010, s.p.). Como princípios, o SNC possui: I- diversidade das expressões culturais; II- universalização do acesso aos bens e serviços culturais; III- fomento à produção, difusão e circulação de conhecimento e bens culturais; IV- cooperação entre os entes federados, os agentes públicos e privados atuantes na área cultural; V- integração e interação na execução das políticas, programas, projetos e ações desenvolvidas; VI- complementaridade nos papéis dos agentes culturais; VII- transversalidade das políticas culturais; VIII- autonomia dos entes federados e das instituições da sociedade civil; IX- transparência e compartilhamento das informações; X- democratização dos processos decisórios com participação e controle social; XI- descentralização articulada e pactuada da gestão, dos recursos e das ações; XII- ampliação progressiva dos recursos contidos nos orçamentos públicos para a cultura (BRASIL, 2019, s.p.). TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS 101 FIGURA 5 – LOGO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA (SNC) FONTE: <http://cultura.gov.br/wp-content/uploads/2019/02/snc-novos-municipios-interna_1. png>. Acesso em: 11 jul. 2019. Acesse o site do Sistema Nacional de Cultura e leia na íntegra os manuais publicados, as legislações, publicações e dados sobre o assunto. FONTE: <http://portalsnc. cultura.gov.br/sobre/o-que-e-o-snc/>. Acesso em: 8 out. 2019. DICAS A partir da observação da adaptação de outros modelos de políticas públicas do país, como o Sistema único de Saúde (SUS), a ideia para as políticas públicas culturais foi idealizada. Nos governos de Dilma e Temer, passou-se a ter uma perda simbólica e efetiva no campo da cultura (MUSA; PASSADOR; PASCHOALOTTO, 2017). A seguir, será apresentada a evolução histórica das políticas públicas culturais no Brasil de forma resumida. UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 102 QUADRO 4 - EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO BRASIL PERÍODO CARACTERÍSTICA PRINCIPAIS AÇÕES Era Vargas Início das intervenções do Estado na cultura do país - Valorização do patrimônio histórico e artístico. - Foco na democratização da cultura (Constituição de 1934) - Criação do CNC Ditadura Militar e início da redemocratização Repressão, censura, autoritarismo e investimentos - AI-5 - Investimento em infraestrutura em telecomunicações - Criação do CFC, de instituições culturais e do primeiro PNC - Criação do Ministério da Cultura (MinC) - Constituição de 1988 1990 a 2002 Modelo neoliberal - Extinção do MinC e de outras instituições públicas de cultura - Lei Rouanet e PRONAC - Parceria com empresas privadas - Desigualdade de distribuição de recursos Governo Lula Gestão compartilhada e participativa - Reestruturação do MinC - Reformulação das leis de incentivo fiscal - Criação do Programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura - Conferência Nacional de Cultura I e II - Criação do SNC Governo Dilma, impeachment e o presidente interino Michel Temer SNC como objetivo principal - SNC introduzido na Constituição Federal - Aprovação da distribuição de recursos do FNC aos entes aderidos ao SNC - Vale-cultura - III Conferência Nacional de Cultura - Extinção do MinC por um curto período de tempo FONTE: Musa, Passador e Paschoalotto (2017, p. 362) 4 PLANO NACIONAL DE CULTURA (PNC) O Plano Nacional de Cultura (PNC) é definido como “um conjunto de princípios, objetivos, diretrizes, estratégias, ações e metas que orientam o poder público na formulação de políticas culturais. Previsto no artigo 215 da Constituição Federal, o Plano foi criado pela Lei n° 12.343, de 2 de dezembro de 2010” (BRASIL, 2010, s.p.). O referido plano possui como objetivo “orientar TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS 103 o desenvolvimento de programas, projetos e ações culturais que garantam a valorização, o reconhecimento, a promoção e a preservação da diversidade cultural existente no Brasil” (BRASIL, 2010, s.p.). Sob a supervisão do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), o PNC foi elaborado após a realização de seminários, fóruns e consultas públicas. Possui como um marco importante de seu processo de construção a 1ª Conferência Nacional de Cultura, realizada em 2005, após as conferências municipais e estaduais (BRASIL, 2010). O CNPC foi instituído pela Constituição Federal, art. 216-A, § 2º, inciso II, pelo Decreto nº 5.520/2005 e pela Portaria nº 28/2016 e é definido como “um órgão colegiado que compõe o Sistema Nacional de Cultura (SNC) e integra a estrutura básica da Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania” (BRASIL, 2010, s.p.). Sua finalidade é propor a formulação de políticas públicas visando a promoção da articulaçãoe debate de diferentes níveis de governo e sociedade civil organizada para desenvolver e fomentar atividades culturais em território nacional. A partir do novo governo de 2019, foi modificado o CNPC. Acesse o site do Conselho Nacional de Cultura e leia o Decreto que regulamenta o novo formato para o Conselho Nacional de Política Cultural. FONTE: <http://cnpc.cultura.gov.br/2019/07/01/decreto-regulamenta-novo-formato-para- o-conselho-nacional-de-politica-cultural/>. Acesso em: 10 jun. 2019. DICAS O Plano Nacional de Cultura (PNC) possui a vigência de 10 anos, estando válido até 2 de dezembro de 2020 (BRASIL, 2010). Os eixos norteadores do PNC são baseados em três dimensões de cultura, a saber: • a cultura como expressão simbólica; • a cultura como direito de cidadania; • a cultura como potencial para o desenvolvimento econômico (BRASIL, 2010). A responsabilidade pela execução do PNC é da Secretaria Especial da Cultura, coordenadora executiva do Plano, responsável pelo monitoramento de ações necessárias para sua execução, conforme o artigo 3 da Lei nº 12.343/2010 (BRASIL, 2010). UNIDADE 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS: ASPECTOS SOCIAIS, ANALÍTICOS E CULTURAIS 104 Com relação à sua estrutura, o PNC possui os seguintes componentes: a) Órgãos gestores da cultura: executa as ações previstas no plano. Pode ser secretaria, fundação ou uma unidade gestora ligada a uma secretaria; b) Conselhos de política cultural: contribui com a formulação e o acompanhamento das políticas culturais, colabora com a organização do plano – orientado pelas diretrizes estabelecidas na conferência de cultura – e aprova sua forma final; c) Conferências de cultura: encarregada de avaliar as políticas culturais, analisar a conjuntura cultural e propor diretrizes para o Plano de Cultura; d) Sistemas de financiamento à cultura: conjunto dos instrumentos de financiamento público da cultura, tanto para as atividades desenvolvidas pelo Estado, como para apoio e incentivo a programas, projetos e ações culturais realizadas pela Sociedade; e) Planos de cultura: documento de planejamento para orientar a execução da política cultural da cidade. Ele estabelece estratégias e metas, define prazos e recursos necessários à sua implementação a partir das diretrizes definidas pela Conferência de Cultura. O Plano é elaborado pelo órgão gestor da cultura com a colaboração do Conselho de Política Cultural, a quem cabe aprová-lo; f) Sistemas setoriais de cultura: são subsistemas do SNC que se estruturam para responder com maior eficácia à complexidade da área cultural, que se divide em muitos setores, com características distintas, exemplo disso são o Sistema Brasileiro de Museus e o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas; g) Comissões intergestores: são instâncias de negociação e operacionalização do Sistema Nacional de Cultura; h) Sistemas de informações e indicadores culturais: conjunto de instrumentos de coleta, organização, análise e armazenamento de dados – cadastros, diagnósticos, mapeamentos, censos e amostras – a respeito da realidade cultural sobre a qual se pretende atuar; e i) Programas de formação na área da cultura: conjunto de iniciativas de qualificação técnico-administrativa – cursos, seminários e oficinas – de agentes públicos e privados envolvidos com a gestão cultural, a formulação e a execução de programas e projetos culturais (BRASIL, 2010). Conheça o guia de orientações para os Estados do Sistema Nacional de Cultura, disponível em: http://pnc.cultura.gov.br/wp-content/uploads/sites/16/2017/10/ Guia-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-para-os-estados-perguntas-e-respostas-Dez-2011.pdf. Conheça o guia de orientações para os Municípios do Sistema Nacional de Cultura, disponível em: http://pnc.cultura.gov.br/wp-content/uploads/sites/16/2017/10/Guia-de- orienta%C3%A7%C3%A3o-para-os-munic%C3%ADpios-perguntas-e-respostas-Dez-2012.pdf. DICAS 105 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico você aprendeu que: • Para que servem as políticas públicas culturais. • Há um histórico evolutivo de políticas públicas culturais no Brasil começando pela Era Vargas e terminando no governo Temer. • Políticas culturais podem ser definidas como “formulações e/ou propostas desenvolvidas pela administração pública, organizações não governamentais e empresas privadas, com o objetivo de promover intervenções na sociedade através da cultural. • Existem duas dimensões da cultura, a dimensão sociológica e a dimensão antropológica. • Para além do Estado, as políticas culturais podem ser elaboradas por diversos setores e agentes sociais podendo estes, inclusive, atuar em conjunto para a realização de tais políticas. • O campo cultural está presente de forma transversal em todas as áreas da vida social como a comunicação, o comportamento, a diversidade, a política nacional, a economia, entre outros, e demanda das políticas uma articulação que ultrapasse as fronteiras da dimensão sociológica da cultura. • As desigualdades presentes em diversas regiões e grupos sociais no país são um exemplo de indicadores que tornam visíveis a necessidade de políticas de acesso a bens culturais. Além disso, a aceitação e convivência com diferentes grupos étnico-raciais, religiosos e culturais, o apoio à pluralidade de segmentos sociais e culturais e de manifestações também fazem parte dos desafios na elaboração e na prática de políticas culturais. • Sistema Nacional de Cultura (SNC) visava focar nas políticas culturais e tirá- las da situação em que se encontrava nos governos anteriores. • O SNC é considerado um “processo de gestão e promoção das políticas públicas de cultura, em regime de colaboração de forma democrática e participativa entre os três entes federados (União, estados e municípios) e a sociedade civil, tendo por objetivo promover o desenvolvimento humano, social e econômico com pleno exercício dos direitos culturais”. 106 • Plano Nacional de Cultura (PNC) é vinculado à Secretaria Especial da Cultura e tem como objetivo orientar o desenvolvimento de programas, projetos e ações culturais que garantam a valorização, o reconhecimento, a promoção e a preservação da diversidade cultural existente no Brasil. • O PNC possui três dimensões da cultura como norte: a cultura e sua expressão simbólica, como direito de cidadania e como potencial para o desenvolvimento econômico. • O PNC possui como elementos que o compõe: os órgãos gestores de cultura, conselhos de política cultural, conferências de cultura, sistemas de financiamento à cultura, planos de cultura, sistemas setoriais de cultura, comissões intergestores, sistemas de informações e indicadores culturais e programas de formação na área da cultura. • Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) é um órgão colegiado cujo objetivo é propor a formulação de políticas públicas visando a promoção da articulação e debate de diferentes níveis de governo e sociedade civil organizada para desenvolver e fomentar atividades culturais em território nacional. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar tua compreensão. Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo. CHAMADA 107 AUTOATIVIDADE 1 Conforme estudado no Tópico 2, selecione a resposta correta que traz a definição de políticas culturais, segundo os estudos de Canclini (2001): a) ( ) As políticas culturais referem-se ao mercado, à cultura concebida de modo intencional e explícito visando à construção de sentidos e alcançar um público específico, por intermédio de meios específicos de expressão. b) ( ) As políticas culturais são um “conjunto de intervenções realizadas pelo Estado, instituições civis e grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvolvimento simbólico, satisfazer as necessidades culturais da população e obter consenso para um tipo de ordem ou de transformação social”. c) ( ) As políticas culturais são “práticas de intervenção que vêm agregar e dar sentidoa um conjunto necessariamente heteróclito de atos, discursos, despesas e práticas administrativas”. d) ( ) As políticas culturais são um insumo capaz de proporcionar uma transformação social. e) ( ) As políticas culturais são essenciais no início do desenvolvimento intelectual do sujeito, e o entreter da leitura direciona do mágico para o real, que tem como base principal, informar, independente dos suportes que se pode oferecer. 2 A partir do conteúdo estudado, identifique o conceito de Planos de cultura, componente elementar da estrutura do Plano Nacional de Cultura: a) ( ) Encarregados de avaliar as políticas culturais, analisar a conjuntura cultural e propor diretrizes para o Plano de Cultura. b) ( ) Conjunto dos instrumentos de financiamento público da cultura, tanto para as atividades desenvolvidas pelo Estado, como para apoio e incentivo a programas, projetos e ações culturais realizadas pela Sociedade. c) ( ) Documento de planejamento para orientar a execução da política cultural da cidade. Ele estabelece estratégias e metas, define prazos e recursos necessários à sua implementação a partir das diretrizes definidas pela Conferência de Cultura. O Plano é elaborado pelo órgão gestor da cultura com a colaboração do Conselho de Política Cultural, a quem cabe aprová-lo. d) ( ) Executa as ações previstas no plano. Pode ser secretaria, fundação ou uma unidade gestora ligada a uma secretaria. 3 A política cultural elaborada pelo Ministério da Cultura orientava-se para a criação de programas de apoio direto a iniciativas culturais realizadas em todo o país. Entre os avanços trazidos para as políticas públicas, estão aqueles trazidos pelo Sistema Nacional de Cultura. De acordo com o conteúdo estudado, este Sistema é definido como: 108 a) ( ) Processo de gestão e promoção das políticas públicas de cultura, em regime de colaboração de forma democrática e participativa entre os três entes federados (União, Estados e Municípios) e a sociedade civil, tendo por objetivo promover o desenvolvimento humano, social e econômico com pleno exercício dos direitos culturais. b) ( ) Conjunto de princípios, objetivos, diretrizes, estratégias, ações e metas que orientam o poder público na formulação de políticas culturais. c) ( ) Uma instância colegiada da estrutura da Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania elaborada pelo órgão gestor da cultura com a colaboração do Conselho de Política Pública Cultural, a quem cabe aprová-lo. d) ( ) Sistema de gestão de políticas de informação, voltado para a articulação, formação, fomento e promoção de políticas de informação. 4 A partir do estudo deste tópico, responda qual é a finalidade do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) e a qual órgão se encontra vinculado. 5 No Tópico 2 foram abordados desafios para a elaboração e prática de políticas públicas culturais. A partir do texto estudado, identifique qual das alternativas a seguir representam os desafios elencados no texto. I . Desigualdades presentes em diversas regiões e grupos sociais no país. II. A convivência e aceitação de diferentes grupos étnico-raciais, religiosos e culturais. III. O apoio à pluralidade de segmentos sociais e culturais. IV. O apoio a manifestações. Conforme as alternativas, marque a opção CORRETA: a) ( ) As alternativas I, II estão corretas. b) ( ) As alternativas II e III estão corretas. c) ( ) As alternativas III e IV estão corretas. d) ( ) Somente a alternativa IV está correta. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 109 UNIDADE 3 DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer experiências de políticas governamentais brasileiras voltadas ao fomento da Sociedade da Informação, em especial, o Governo Eletrônico (e-GOV) e o Programa Sociedade da Informação – Livro Verde e Livro Branco; • aprender os conceitos de Sociedade da Informação, governo eletrônico e outras políticas públicas de informação; • entender alguns elementos constituintes de políticas públicas para a promoção do livro, leitura, biblioteca e literatura; • conhecer as políticas nacionais de informação para a promoção do livro, da leitura e da biblioteca; • conhecer as políticas públicas destinadas às minorias sociais, em especial, às pessoas idosas e às populações negras. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo estudado. TÓPICO 1 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL TÓPICO 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL TÓPICO 3 – POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 110 111 TÓPICO 1 POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Desde o início da humanidade, a informação sempre foi uma parte fundamental para estabelecer o controle social, a mudança social e o estabelecimento de relações sociais. A partir da informação relevante adquire-se o conhecimento, e como a construção de novos conhecimentos realiza a mudança nas estruturas que nos cercam. Viver em uma sociedade com plenitude é possuir a informação como insumo para a superação de desigualdades, agregação de valor, criação de empregos, propagação do bem-estar e pleno exercício dos direitos básicos garantidos na Constituição. No dia a dia estamos em contato com a Sociedade da Informação quando nos conectamos à internet, quando acessamos, via nossos smartphones, as mídias sociais ou redes sociais on-line como twitter, facebook e instagram, quando falamos ao telefone ou via webconferência por acesso remoto, enviamos e-mails, acessamos nosso internet banking e fazemos transações bancárias, entre outras atividades cotidianas. A Sociedade da Informação propicia a geração de novas oportunidades para os sujeitos e também promove o crescimento e desenvolvimento econômico de diversos países (OLIVEIRA; SHIMA, 2012). Neste sentido serão apresentadas, neste tópico, algumas experiências de políticas governamentais brasileiras voltadas ao fomento da Sociedade da Informação, em especial, o Governo Eletrônico (e-GOV) e o Programa Sociedade da Informação – Livro Verde e Livro Branco que serão aqui destacados. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 112 2 GOVERNO ELETRÔNICO COMO UMA POLÍTICA PÚBLICA DE INFORMAÇÃO A Sociedade da Informação surge a partir dos avanços tecnológicos em rede e as novas exigências do mercado, que possui a informação como um bem social e elemento crucial para emancipação cidadã e da ação governamental. Conforme Nharreluga (2009), o governo eletrônico (e-GOV) constitui-se em um discurso propagado pela Sociedade da Informação, que emergiu devido ao capitalismo em países desenvolvidos e se ramifica para países em desenvolvimento. Esta política encontra-se fundamentada na relação entre o Estado e a Informação enquanto duas categorias. Dentro das políticas de governo desenvolvidas para o acesso à informação no Brasil, encontra-se o e-GOV. O conceito de Governo Eletrônico surgiu a partir do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, em especial, da internet, que propiciou à Administração Pública novas formas de se relacionar com a sociedade e vice-versa. Assim, promoveu a prestação de serviços governamentais sem a necessidade da presença física (BRASIL, 2014). FIGURA 1 – LOGO DO GOVERNO ELETRÔNICO (E-GOV) BRASILEIRO FONTE: <http://pedbrasil.org.br/wp-content/uploads/2019/08/9cnVd1BF_400x400.png>.Acesso em: 20 ago. 2019. O programa de Governo Eletrônico do Brasil surgiu a partir dos anos 2000, a partir da criação de um Grupo de Trabalho Interministerial, via Decreto de 3 de abril de 2000, para examinar e propor políticas, normas e diretrizes vinculadas às novas formas de interação eletrônica (BRASIL, 2000a). Nos diagnósticos realizados pelo GTTI identificou-se a existência de várias ações isoladas na área de serviços ao cidadão, oferecidos por meio da Internet como a entrega de declarações do Imposto de renda, divulgação de editais de compras governamentais, emissão de certidões de pagamentos e impostos, acompanhamentos de processos judiciais e prestação de informações sobre aposentadorias e benefícios da previdência social, entre outros. À mesma época, entrou em produção uma nova versão do Rede Governo, com melhorias e expansão dos serviços (http://www.redegoverno.gov.br). O projeto que teve como objetivo se transformar em um portal único de serviços e informações à sociedade (a primeira versão do ambiente entrou no ar em 25 de janeiro de 1999) (BRASIL, 2014, s.p.). TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 113 Os diagnósticos identificaram ainda boas iniciativas e também evidenciaram a ocorrência de infraestrutura deficitária, sendo esta composta por uma malha de diversas redes administrativas de forma isolada. Por este motivo, os serviços não possuíam um padrão de desempenho e interatividade, nem se apresentava interfaces amigáveis para o usuário, além de haver um descompasso na assimilação das TICs pelos diversos órgãos do governo. Corroborando a isso, os sistemas do Governo Federal eram pouco integrados entre si e sua estrutura era focada na gestão de funções e não de processos (BRASIL, 2014). O tema da exclusão digital também apareceu como um forte fator delimitador para a expansão da internet, em especial, pela dificuldade de acesso às linhas telefônicas e também às organizações provedoras de acesso aos usuários. Além disso, o custo dos equipamentos de informática eram outra barreira para grande parte da população brasileira. A partir daí as ações foram formalizadas em 12 de maio de 2000, pela Portaria da Casa Civil nº 23, e passaram a fazer parte das metas do Programa Sociedade da Informação (BRASIL, 2000b). Em junho de 2000, o Grupo de Trabalho propôs uma política de interação eletrônica do Governo com a sociedade. Como justificativa, apresentou o relatório de diagnóstico da situação brasileira de infraestrutura e serviços do Governo, as aplicações que existiam e quais eram aquelas requisitadas e também a situação da legislação sobre tal tema. Posteriormente, apresentou a Proposta de Política de Governo Eletrônico para o Poder Executivo Federal, que tinha como objetivos macros “estabelecer um novo paradigma cultural de inclusão digital, focado no cidadão/cliente, com a redução de custos unitários, a melhoria na gestão e qualidade dos serviços públicos, a transparência e a simplificação de processos” (BRASIL, 2000c, p. 5). Nesta proposta, são estabelecidas ainda as diretrizes gerais, o plano de metas para o ano de 2000 a 2003, os aspectos legais, a capacitação e as metas prioritárias e responsáveis (BRASIL, 2000c). Em outubro de 2000, foi criado o Comitê Executivo de Governo Eletrônico (GECE) com a finalidade de formular políticas, estabelecer diretrizes, fazer a coordenação e a articulação de ações de implantação do Governo Eletrônico (BRASIL, 2014). Entre as competências do GECE estão: • Coordenar e articular a implantação de programas e projetos para a racionalização da aquisição e da utilização da infraestrutura, dos serviços e das aplicações de tecnologia da informação e comunicações no âmbito da APF. • Estabelecer as diretrizes para a formulação, pelos Ministérios, de plano anual de tecnologia da informação e comunicações. • Estabelecer diretrizes e estratégias para o planejamento da oferta de serviços e de informações por meio eletrônico, pelos órgãos e pelas entidades da APF; • Definir padrões de qualidade para as formas eletrônicas de interação. • Coordenar a implantação de mecanismos de racionalização de gastos e de apropriação de custos na aplicação de recursos em tecnologia da informação e comunicações, no âmbito da APF. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 114 • Estabelecer níveis de serviço para a prestação de serviços e informações por meio eletrônico. • Estabelecer diretrizes e orientações e manifestar-se, para fins de proposição e revisão dos projetos de lei do Plano Plurianual, de Diretrizes Orçamentárias e do Orçamento Anual, sobre as propostas orçamentárias dos órgãos e das entidades da APF, relacionadas com a aplicação de recursos em investimento e custeio na área de tecnologia da informação e comunicações (BRASIL, 2014). O programa de Governo Eletrônico (e-GOV) brasileiro prioriza a utilização de tecnologias de informação e comunicação para democratizar o acesso à informação, buscando, assim, a ampliação do debate e da participação da população na construção de políticas públicas e no aprimoramento da qualidade de informações e serviços públicos prestados aos cidadãos (BRASIL, 2014). A política do e-GOV do Brasil se baseia em um conjunto de diretrizes que estão fundamentadas em três ideias: a participação cidadã, a melhoria do gerenciamento interno do Estado e a integração entre parceiros e fornecedores (BRASIL, 2014). Desde sua criação, o Programa de Governo Eletrônico busca transformar as relações entre o Governo e os cidadãos brasileiros, as organizações privadas e outros órgãos governamentais a fim de aprimorar a prestação de serviços, promover maior interação entre indústria e empresas, bem como fortalecer a participação do cidadão por intermédio do acesso à informação e uma administração pública eficiente (BRASIL, 2014). No que concerne ao e-GOV, este busca ampliar a oferta e a qualidade das informações e serviços prestados via meios eletrônicos, independentemente da origem de quem demanda por tais informações. O e-GOV “compreende a definição de padrões, a normatização, a articulação da integração de serviços eletrônicos, a disponibilização de boas práticas, a criação e construção de super infraestrutura tecnológica entre outras questões” (BRASIL, 2014, s.p.). A formulação da Política de Governo Eletrônico e a sua implementação promoveu o desenvolvimento de diversas ações e projetos. Entre eles destaca- se o Programa “Sociedade da Informação”, conduzido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Este programa está detalhadamente apresentado em um documento publicado no ano 2000 intitulado “Livro Verde” no qual faz referência às atribuições do Governo Eletrônico em seu Capítulo 6, chamado “Governo ao Alcance de todos” (BRASIL, 2019b). Além deste destacam-se outras contribuições que auxiliaram na reflexão e implantação de diretrizes do governo eletrônico brasileiro, tais como a Medida Provisório nº 2.200, de 2001 – que instituiu a criação da Infraestrutura de Chaves Públicas (ICP-Brasil) e possibilitou o uso de assinaturas eletrônicas, a criação da certificação digital e validade legal de documentos que circulam ou são criados em meio eletrônico – e o Decreto n. 3.697, de dezembro de 2000, o qual regulamentou o pregão eletrônico dentro da administração federal (BRASIL, 2014). TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 115 3 PROGRAMA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO, O LIVRO VERDE E O LIVRO BRANCO A sociedade da Informação engloba diversos países, e no Brasil, o Governo e a sociedade precisaram se unir para assegurar que os benefícios trazidos pela Sociedade da Informação alcançassem a todos. O surgimento da Sociedade da Informação promove novas formas de organizar e produzir em escala mundial, assim como de redefinir a inserção dos países na sociedade internacional e no sistema econômico mundial. Com a vindada internet, o Governo deve realizar a universalização do acesso e uso crescente dos meios eletrônicos de informação visando gerar uma administração eficiente e transparente em todos os sentidos. Oferecer e criar serviços equitativos e universais para atendimento de cidadãos devem contar entre as prioridades de quaisquer ações públicas. Cabe ainda ao Governo, implementar e promover políticas visando à inclusão social, para que as pessoas acompanhem os avanços tecnológicos e sociais ocorridos em sociedade. FIGURA 2 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO FONTE: <https://www.todoestudo.com.br/wp-content/uploads/2018/07/sociedade-da- informa%C3%A7%C3%A3o.png>. Acesso em: 10 ago. 2019. Pensando nisso, em 1999, foi criado o Programa Sociedade da Informação (SOCINFO), lançado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. O grupo de Implantação do Programa Sociedade da Informação, composto por representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia, da iniciativa privada e instituições públicas e privadas de ensino, foi quem originou o documento que é conhecido como Livro Verde (SARDENBERG, 2000). O objetivo do Programa Sociedade da Informação é realizar a integração, coordenação e fomento de ações para o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICS) visando contribuir para a inclusão de todas as pessoas na sociedade da informação brasileira, e, em paralelo, contribuir para que a economia do país consiga competir com o mercado global (MENEZES; SANTOS, 2001). Para a execução deste Programa é preciso o compartilhamento de responsabilidades UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 116 entre o governo, a iniciativa privada e a sociedade civil. Para isso, o Programa se desenvolve em sete grandes linhas de ação, a saber: a) mercado, trabalho e oportunidades; b) universalização de serviços e formação para a cidadania; c) a educação na sociedade da informação; d) conteúdos e identidade cultural; e) governo ao alcance de todos, f) P&D, tecnologias-chave e aplicações e também, g) infraestrutura avançada e novos serviços (MENEZES; SANTOS, 2001). Para Oliveira e Shima (2012), existem razões que levaram o Ministério da Ciência e Tecnologia à proposição do Programa Sociedade da Informação, a saber: 1) O papel central de Tecnologias de Informação (TI) na viabilização de competitividade econômica do país, não somente através da criação de novos produtos e serviços, mas especialmente por meio da renovação das estruturas tradicionais de produção e comercialização de bens e serviços. 2) A importância competitiva que TI pode assegurar a países em comércio internacional, através da implantação/uso de mecanismos de pagamento eletrônico, transporte de bens com acompanhamento em tempo real, alfândegas eletrônicas, entre outros. 3) A necessidade de uma infraestrutura avançada de redes e de computação para suporte a todas as atividades do país, perpassando desde educação e pesquisa até comércio de bens e serviços, destacando o oferecimento de serviços públicos eficientes. 4) A urgência de viabilizar a democratização do acesso à informação visando contribuir para o exercício pleno da cidadania (PROGRAMA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO, 2000 apud OLIVEIRA; SHIMA, 2012, p. 2). De posse de tais informações, o Ministério da Ciência e Tecnologia considerou que o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em uma infraestrutura nacional poderia propiciar a diminuição da distância entre países em desenvolvimento e países ricos no campo social, econômico e cultural (OLIVEIRA; SHIMA, 2012). Assim, foi criado um cronograma para o Programa Sociedade da Informação distribuído em duas etapas, sendo a primeira etapa a de implantação e a outra etapa de execução. Para Takahashi (2000), a fase de implantação era compreendida pela: a) elaboração de uma proposta inicial detalhada de Programa, no chamado “Livro Verde”, b) processo de consulta ampla à sociedade e; c) consolidação do plano definitivo com as atividades do Programa no chamado “Livro Branco”, contendo a inserção das ideias trazidas pelo Livro Verde e opiniões coletadas durante o processo de consulta. O Livro Verde do Programa Sociedade da Informação é uma das ações que elaboradas para apresentar à sociedade, metas de implementação do Programa e é composto por uma súmula consolidada de possíveis aplicações de Tecnologias da Comunicação e Informação. Nesse sentido, TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 117 contempla um conjunto de ações para impulsionarmos a Sociedade da Informação no Brasil em todos os seus aspectos: ampliação do acesso, meios de conectividade, formação de recursos humanos, incentivo à pesquisa e desenvolvimento, comércio eletrônico, desenvolvimento de novas aplicações. Esta meta é um desafio para o Governo e para a sociedade (SARDENBERG, 2000, p. 5). Tal documento aponta inicialmente uma proposta de ações concretas que engloba planejamento, orçamento, execução e acompanhamento específicos. “Estará exposto a toda a sociedade brasileira e a comunidade internacional, convidadas a participar de um processo de crítica, consulta e debates em torno de seu conteúdo” (ORGANIZACIÓN..., 2000, s.p.). Como resultado, esperou-se a depuração das propostas que promovesse a construção conjunta de um projeto que compartilhasse as responsabilidades entre o governo, as organizações privadas, a sociedade civil e o setor acadêmico – modelo básico de apoio à Sociedade da Informação (ORGANIZACIÓN..., 2000). FIGURA 3 – PROGRAMA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL - LIVRO VERDE FONTE: <http://livros01.livrosgratis.com.br/ci000005.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2019. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 118 No que se refere ao papel governo (incluindo seus diversos níveis: federal, estadual, municipal), este deve proporcionar e assegurar o acesso de forma universal às TICs e seus benefícios, independentemente da localização geográfica do sujeito ou população e da situação social em que este cidadão se encontra. Para tal, deve-se garantir o oferecimento de serviços mínimos e estimular a interoperabilidade de tecnologias e redes. Cabe ainda ao governo, estimular e viabilizar que ocorra a participação de organizações sem fins lucrativos, pequenas empresas e diversos segmentos sociais marginalizados e de minorias. Dessa forma, possibilitará que este segmento da população tenha acesso aos benefícios propiciados pela Sociedade da Informação e também aqueles que ainda poderá proporcionar. Ademais, cabe ao governo o estabelecimento de condições equitativas de competição entre os diferentes segmentos da população e seus agentes econômicos, sem retirar as iniciativas de investimento e de novos negócios, bem como implementar além de políticas públicas, instrumentos de regulação legal, flexível e que promova a proteção dos interesses dos cidadãos e estimule o desenvolvimento dos diversos setores da sociedade (ORGANIZACIÓN..., 2000). No que se refere às organizações privadas, estas são as que dispõem de maior capacidade de investir e inovar, de dinamizar e obter condições abrangentes de ações e de capilarização. Neste setor, a partir da colaboração com diferentes atores, pode-se decidir investir em tecnologias e aplicações. Por intermédio de tal parceria, deve também voltar-se para desenvolver produtos de alta qualidade e serviços inovadores que viabilizem oportunidades de novos mercados e melhorem as condições de vida de todas as pessoas (ORGANIZACIÓN..., 2000). Quanto à sociedade civil, esta precisa zelar pelo interesse público, buscando organizar seus setores para monitorar e influenciar os poderes públicos e as organizações de cunho privado. As organizações não governamentais (ONGs) ocupam importante papel na mobilização da sociedade, buscando garantir que os objetivos comuns sejam respeitados.Ademais, cada cidadão precisa atuar de forma ética, no que se refere a disseminar e utilizar conteúdos por intermédio de redes eletrônicas, em especial, na internet (ORGANIZACIÓN..., 2000). As universidades e outras instituições educacionais possuem um importante papel para o desenvolvimento e alcance de metas do Programa, visto que estão vinculadas à formação de pessoal qualificado e na construção de ciência e tecnologia. Por fim, todos os setores (governo, setor privado, setor acadêmico e cidadãos) precisam se unir para participar na concepção e conversão do projeto da Sociedade da Informação (ORGANIZACIÓN..., 2000). TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 119 No que concerne à informação disponibilizada e acessível no mundo digital, tal programa “considerou em suas metas as bibliotecas públicas pontos focais naturais para difusão, captação e processamento de conteúdos de interesse público” (MACHADO, 2010, p. 101). O livro Verde tornou-se uma referência para pesquisadores, gestores públicos, empresários e demais interessados no tema de políticas de Ciência e Tecnologia do Brasil. A partir de debates, assembleias e resoluções e, principalmente, da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação ocorrida em setembro de 2001 foram publicados os resultados no Livro Branco. Conforme Pacheco (2001), não restam dúvidas de que o Livro Branco é o “ponto culminante de uma trajetória de reforma do sistema nacional” de Ciência e Tecnologia, que ainda não foi completado, mas que possui um rumo a ser seguido. O Livro Branco não traz detalhadamente o “como” implementar as diretrizes discutidas na Conferência Nacional (BRASIL, 2002). No entanto, propõe uma síntese do que os participantes, debatedores, pesquisadores e demais integrantes da Conferência acordaram: “uma agenda de consensos que norteia uma direção” (PACHECO, 2001, p. 15). Esse documento traça rumos para os anos vindouros da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) brasileiras, num quadro de transformações mundiais. Realiza uma síntese do que os inúmeros interlocutores da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em setembro de 2001 acordaram entre si para formar e consolidar, em um ambiente estimulante e indutor da inovação, um Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação cuja base científica e tecnológica seja internacionalmente competitiva, ampla, diversificada e nacionalmente distribuída (BRASIL, 2002). UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 120 LEITURA COMPLEMENTAR O Programa Sociedade da Informação também foi instituído em outros países. A seguir, será realizada a leitura com o exemplo de aplicação do Programa em Portugal. Este é um trecho retirado do artigo “Sociedade da Informação no Brasil e Portugal: um panorama dos livros Verdes, escrito por Georgete Medleg Rodrigues, João Batista Simão e Patrícia Simas de Andrade e publicado na Revista Ciência da Informação, v. 32, n. 3, 2003. PROGRAMA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO EM PORTUGAL A iniciativa de Portugal para a criação de uma sociedade da informação baseia-se no Programa do 13º Governo Constitucional. Nele foram delineadas as intenções para o período 1995-1999. A Iniciativa Nacional para a Sociedade da Informação foi estruturada em torno de quatro temas: a escola – tecnologia da informação na educação; a empresa informatizada; a administração pública local e regional – o Estado aberto; o conhecimento – bibliotecas, museus, bancos de dados e instituições de pesquisa e desenvolvimento. O Livro Verde de Portugal aborda 11 tópicos: caráter democrático da sociedade da informação: o Estado aberto; o conhecimento disponível; as escolas conectadas – aprendendo na sociedade da informação; a empresa na sociedade da informação; o emprego na sociedade da informação; o mercado e a indústria de informação; as implicações sociais da sociedade da informação; as implicações jurídicas da sociedade da informação; infraestrutura nacional de informação; a pesquisa e o desenvolvimento na sociedade da informação. O Livro Verde pretende ser uma reflexão estratégica que define meios para implementação de uma sociedade da informação em Portugal. A construção dessa sociedade não é apenas uma questão tecnológica, nem o resultado de inovações da era digital. Trata-se de um desafio para a construção de uma democracia, na qual estão implícitos princípios de liberdade e igualdade. Pretende-se garantir o acesso de todos, independentemente de origem social, combatendo a infoexclusão e as desigualdades culturais, sociais e econômicas. Os princípios da democracia, consagrados na Constituição da República Portuguesa, devem ser respeitados para que se possa implementar uma sociedade da informação em Portugal. São eles: a) todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei (art.13º); b) direito à identidade pessoal, à cidadania, ao bom nome e reputação, à reserva da intimidade da vida privada e familiar (art. 26º); c) direito à liberdade e à segurança (art. 27º); d) liberdade de criação intelectual, artística e científica (art. 42º); TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 121 e) a informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes à vida intima ou privada dos cidadãos (art. 35º); f) o direito à livre expressão do pensamento e o direito de informação (art. 37º). O documento destaca ainda que o abismo existente entre os diferentes níveis de renda aprofunda-se aceleradamente e que as evidências mostram que cidadãos excluídos socialmente revelam falta de informação e de leitura e são fragilizados pela ausência de reconhecimento social e político. Para diminuir esse abismo, são necessárias medidas de iniciativa pública que criem condições de igualdade de acesso nas escolas, bibliotecas, autarquias e outros locais públicos, bem como o desenvolvimento de programas de apoio às associações culturais, centros de juventude e outras associações que contribuam para o combate à iniquidade nos meios de acesso e de assimilação dos benefícios que a sociedade da informação pode oferecer. Devem ser elaborados planos de ação visando à adequação das tecnologias da informação aos cidadãos portadores de necessidades especiais. Em cada um dos 11 tópicos do Livro Verde, foram apresentados programas em desenvolvimento e concluídos que concretizam as medidas apontadas. As diretrizes e medidas propostas correspondem às opções de política governamental, mas não contêm detalhes ou estimativas de custo para sua implementação. No que se refere ao primeiro tópico, O Caráter Democrático da Sociedade da Informação, vale a pena ressaltar o Programa Internet na Escola do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), uma vez que o sistema de ensino é um meio privilegiado para combater a desigualdade. O programa consiste na ligação à Internet das bibliotecas de todas as escolas públicas, privadas e profissionais do ensino fundamental por meio da Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade (RCTS). Foram criados, em todo o país, 15 pontos de acesso (POP), sediados em instituições universitárias e de pesquisa. No âmbito do MCT, foi criada a Unidade de Apoio à Rede Telemática Educativa (Uarte), que acompanha todo o programa, disponibilizando um serviço de apontadores de recursos educativos. Foram estabelecidos também protocolos entre o MCT e as câmaras municipais, com o objetivo de disponibilizar a alunos e professores das escolas do ensino fundamental a utilização educativa da internet. Outro programa que merece ser destacado é o Sistema Interdepartamental de Informação ao Cidadão (Infocid), direcionado à informação de cidadania e resultado da cooperação dos ministérios, que disponibiliza vasto conjunto de temas: cidadão e família; saúde; educação; juventude; vida cívica; trabalho; emprego; segurança social; direito e tribunais; habitação, empresa e economia.A informação é disseminada em quiosques, prédios públicos e terminais multibancos. O programa foi considerado exemplar pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 122 Em relação ao segundo tópico, O Estado Aberto, é evidenciada a importância do papel decisivo do Estado para colocar Portugal em posição competitiva no mercado global, onde ele tem poder para intervir nas estruturas internacionais, assegurando as opções nacionais em matéria de desenvolvimento da sociedade da informação. O Estado deve estimular a evolução e as mudanças necessárias nos setores relevantes e dar exemplos de uso das novas tecnologias para desburocratizar, simplificar e melhorar a eficiência da administração pública. O Ministério da Saúde possui um projeto denominado Cartão de Identificação do Usuário do Serviço Nacional de Saúde, que tem como objetivo a identificação dos cidadãos por meio de um número único em nível nacional, bem como a gestão de doentes nos órgãos prestadores de serviços de saúde, tanto em hospitais, quanto em centros de saúde. É de grande importância o processo de informatização da administração pública. O estatuto da informação existente em cada serviço deve ser claro, fazendo-se uma distinção entre a “informação de cidadania” (que deve ser universal e gratuita), a “informação para o desenvolvimento”, que é destinada principalmente aos agentes econômicos e sociais (pode ser remunerada a preço simbólico ou eventualmente gratuita), e a “informação de valor agregado” (que deve ser fornecida de acordo com as regras de mercado). O objetivo é que a administração pública ofereça condições de acesso à informação pública existente nos arquivos e disponibilize meios de coleta de informação por meio eletrônico. Estes procedimentos devem respeitar normas de proteção de dados pessoais e empresariais e de transferência eletrônica de dados. O cartão “Caixa Automática Universidade/Politécnico” é um exemplo de cartão de identificação que permite aos seus titulares, em sua maioria estudantes, docentes e funcionários de estabelecimentos de ensino superior, acesso direto à Internet com possibilidade de requisição de artigos e livros e ainda (no caso dos estudantes) acesso a estágios curriculares na instituição. Além disso, é possível obter créditos com taxas de juros reduzidas, crédito para habitação e seguros. Outro projeto que assegura troca de informações entre a administração pública, as empresas e os cidadãos pertence ao Ministério da Saúde, que dispõe na Internet de um sistema de informação sobre todas as áreas de sua responsabilidade contendo dados produzidos por suas instituições. A Rede de Informação de Saúde (RIS) tem como objetivo dotar o Ministério da Saúde dos meios (equipamento, software e serviços) que permitam a instalação de uma espinha dorsal de telecomunicações. A cobertura total do país torna possível a troca direta de informação clínica e administrativa entre instituições e a consulta às bases de dados. Visando tornar a administração pública mais eficiente, os dados disponíveis em registros públicos devem estar sempre sendo processados. O reaproveitamento da informação administrativa deve ser promovido de modo a eliminar a repetição do pedido da mesma informação aos cidadãos e às empresas TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 123 por parte da administração pública. Exemplo disso é o projeto “Dados dos Óbitos Substituem Prova de Vida”, que tem como objetivo facilitar a comunicação dos óbitos entre os órgãos envolvidos. A integração de informação geográfica digital no Sistema Nacional de Informação Geográfica e a existência de uma base cartográfica digitalizada na escala 1:25.000 são importantes para dar apoio às funções de ordenamento do território, como, por exemplo, o controle de desmatamento, incêndios etc. O quarto tópico refere-se ao conhecimento, que, mais do que em qualquer época, é poder. O país que tiver melhores condições para liderar a revolução da informação será mais poderoso do que qualquer outro. A criação e o apoio a uma rede de pesquisa científica, cultural e de educação são formas de o Estado contribuir para o aumento da percepção da importância da informação e da cultura. A consolidação da Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade (RCTS) é uma medida estratégica que envolve o MCT, a Fundação para a Computação Científica Nacional e a Portugal Telecom. A rede promove a conexão telemática de escolas, bibliotecas, associações científicas e culturais, universidades e instituições de pesquisa, contribuindo para uma disseminação mais rápida do conhecimento por todas as camadas sociais. Em 1997, foram firmados protocolos com a Associação Nacional dos Municípios e com a Fundação Calouste Gulbenkian, com o objetivo de equipar as bibliotecas da rede da Fundação com computadores multimídia com acesso à Internet e interligados à RCTS. O MCT cooperará na identificação de bibliografia científica e tecnológica, em língua portuguesa, destinada a enriquecer as bibliotecas, que, por sua vez, atuarão como polos dinamizadores da cultura científica. A cultura portuguesa deve ser afirmada no mundo por uma rede da lusofonia, principalmente nos países de colonização portuguesa, onde Portugal deixou marcas culturais importantes. Um dos projetos nessa área, o Projeto Terravista, permite a hospedagem gratuita de conteúdos e a criação de uma comunidade virtual de língua portuguesa. Em 1999, o governo, em parceria com a Associação Terravista, lançou Gentes e Lugares, um projeto de dinamização da utilização da Internet como ferramenta de trabalho e de valorização dos conteúdos portugueses. O governo empreendeu ainda esforços para o lançamento de um programa de pesquisa e desenvolvimento sobre o processamento computacional da língua portuguesa em que tornava obrigatória aos órgãos públicos a disponibilização, em formato digital na Internet, de toda publicação e informação por eles produzidas. O programa visa à criação de software de reconhecimento da escrita e da voz em língua portuguesa, bem como sua difusão e utilização mundial. Em 2000, o Ministério da Ciência e Tecnologia firmou protocolo com o jornal. O Público Comunicação Social, S.A., que se comprometia a ceder ao MCT, em formato digital, trechos de textos publicados no jornal, cobrindo vários anos de publicação e abrangendo várias seções do jornal. Os textos organizados pelo MCT são denominados Cetem Público. O Cetem destina-se a ser usado como fonte de UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 124 informação em projetos de pesquisa e desenvolvimento na área do processamento computacional da língua portuguesa e foi enviado a mais de 150 pesquisadores em todo o mundo e disponibilizado na Internet. As bibliotecas públicas precisam ser equipadas com novos equipamentos para se tornarem cada vez mais aptas a levar às populações os conhecimentos de que necessitam. Devem ser o ponto de acesso para os que estão excluídos por razões socioeconômicas e/ou culturais. Os arquivos e o patrimônio cultural devem ser divulgados na Internet. O conceito de educação deve ultrapassar as fronteiras do espaço e do tempo, dando lugar a um processo de aprendizagem durante toda a vida. Cabe ao sistema educativo fornecer, a todos, meios para dominar a proliferação de informações, de as selecionar e hierarquizar, com espírito crítico, preparando-os para lidar com uma quantidade enorme de informação que poderá ser efêmera e instantânea. Devem ser feitas adaptações ao sistema de ensino no que se refere a programas, conteúdos, formação de professores e recursos, e devem ser criados conteúdos educacionais, culturais e meios de auxílio e pesquisa para apoiar atividades docentes. Uma das prioridades consiste nautilização de computadores e no acesso às redes eletrônicas de informação pelos alunos de todos os graus de ensino, como já foi visto anteriormente no Programa Internet nas Escolas e na consolidação da RCTS. O Programa Nonio-Século XXI, lançado pelo Ministério da Educação, incentivou a criação de centros de competência, localizados em instituições de ensino superior, que, em conjunto com escolas do ensino fundamental e secundário, cooperam no uso das novas tecnologias da comunicação e da informação para a melhoria do ensino e do uso das novas tecnologias. A Rede Comunicação para Universitários é um projeto lançado, em colaboração com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, pela Portugal Telecom (PT), cuja finalidade é proporcionar o uso da Rede Digital de Serviços Integrados a estudantes e professores de diversas universidades. Quanto aos tópicos empresa e emprego, Portugal deve inserir-se no movimento global de mudança econômica decorrente do que se tem convencionado como “revolução digital”, adotando medidas que promovam a competitividade das empresas e reinventem a organização do trabalho e do emprego. O teletrabalho pode ser um estímulo importante ao desenvolvimento econômico e tecnológico de empresas, principalmente às pequenas e médias empresas que poderão competir melhor com as empresas maiores que não optem por métodos de trabalho inovadores. O Teleman é um corretor (broker) de teletrabalho português que presta apoio ativo a pessoas que não têm igualdade de oportunidades no mercado de trabalho tradicional e fomenta o autoemprego. A rede se estende a 10 países europeus. A inclusão do Brasil, prevista para 2000, não foi implementada. TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 125 É preciso que a política de emprego seja mais orientada para investimento em recursos humanos. A questão da qualificação profissional é crucial porque melhora a produtividade e qualidade do emprego. O Projeto Mercúrio criou, com o apoio do Procon, um espaço na Internet e desenvolveu infraestruturas de suporte ao uso das novas tecnologias de informação e comunicação no setor do comércio – parte do projeto de incentivo às transações seguras e à defesa do consumidor on-line. Um mercado dinâmico e uma forte indústria da informação são os alicerces da sociedade da informação. As telecomunicações providenciam as infraestruturas de transporte e acesso para que a informação possa ser consultada, transmitida e trocada entre os seus utilizadores. As indústrias de conteúdos, software e audiovisual devem ser dinamizadas por meio de mecanismos de investimento que englobem a digitalização de arquivos que pertençam ao patrimônio cultural e artístico português, o desenvolvimento de software e conteúdos multimídia para utilização de escolas, bibliotecas, hospitais e administração pública, bem como uma estratégia para exportação de conteúdos desenvolvidos por empresas nacionais para os mercados de língua portuguesa e para o mercado global. As parcerias entre o setor público e privado devem ser apoiadas, e o acesso à informação existente em arquivos nacionais públicos e privados, melhorado. Em relação às empresas nacionais, deve-se promover mecanismos para envolvê-las em parcerias internacionais e criar instrumentos para promover seu acesso a formas diversificadas de capital de risco para concretização de projetos de inovação. As implicações sociais resultantes do uso das novas tecnologias e suas aplicações atingem diversos setores da sociedade, afetando o modo de vida de uma maneira muito profunda e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos. Em contrapartida, a complexidade e o custo das novas tecnologias aumentam as desigualdades entre aqueles que têm acesso e os que não a têm, conduzindo à infoexclusão e a uma deterioração da qualidade de vida. Para assegurar um nível adequado de utilização das novas tecnologias, é preciso fomentar programas extraescolares e de formação profissional de infoalfabetização para atingir um nível mínimo de literacia em informática. Os grupos socialmente desfavorecidos são objeto de medidas específicas para que não se deparem com situações regressivas. O sistema Dixi destina-se a crianças com paralisia cerebral, servindo como ferramenta de aprendizagem na fase de associação de sons a letras. O sistema está sendo adaptado para ser utilizado por pessoas portadoras de necessidades especiais, principalmente visuais. Alguns tópicos relevantes no âmbito da sociedade da informação são de natureza global e, por este motivo, só podem ser abordados por meio de cooperação internacional entre os países membros da União Europeia. Com o UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 126 intuito de conciliar os diversos interesses, a União Europeia iniciou a elaboração de diretrizes em domínios como privacidade, comércio eletrônico, direito autoral etc. Contudo, algumas questões requerem intervenção normativa do Estado e já se encontram regulamentadas. São elas: – Decreto-lei nº 58, de 17.03.1998 – dispõe sobre o regime de aquisição de bens e serviços de informática; – Lei nº 59, Art. 190º, de 25.08.1998 – revisão do Código de Processo Penal – o correio eletrônico passa a ter um regime de interceptação mais exigente do que o aplicável ao correio pelos meios tradicionais; – Lei nº 65, de 02.09.1998 – revisão do art.221º sobre burla na informática e nas comunicações e agrava a punição da pedofilia; – Lei nº 67, de 26.10.1998 – regulamentação da diretiva 95/46/CE, de 24.10.1995, do Parlamento Europeu, relativa à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e sua livre circulação; – Lei nº 69, de 28.10.1998 – regulamentação do tratamento dos dados pessoais e a proteção da privacidade no setor das comunicações; – Lei do Orçamento de Estado de 1999 – inclui no Estatuto dos Benefícios Fiscais um artigo referente a software; – Decreto-lei nº 290-D, de 02.08.1999 – dispõe sobre o reconhecimento e o valor jurídico dos documentos eletrônicos e da assinatura digital, confia o controle da atividade de certificação de assinaturas a uma entidade a ser designada e define poderes e procedimentos desta, bem como as condições de credenciamento da atividade e os deveres das entidades certificadoras; – Decreto-lei nº 375, de18.09.1999 – dispõe sobre equiparação da fatura eletrônica à fatura emitida em papel, regulando igualmente a sua forma de conservação; – Lei nº 30C, de 29.12.2000 – altera o art.49 do Decreto-Lei 215, de 01.07.1989, que dispõe sobre o Estatuto dos Benefícios Fiscais; – Decreto-lei nº 234, de 25.09.2000 – cria o Conselho Técnico de Credenciamento como estrutura de apoio ao Instituto das Tecnologias da Informação na Justiça no exercício das funções de autoridade credenciadora de entidades certificadoras de assinaturas digitais; – Decreto-lei nº 51, de 02.03.2002 – atribui relevância jurídica à disponibilização e submissão por meio eletrônico de modelos dos formulários dos organismos e serviços públicos integrados na administração pública; – Decreto-lei nº 67, de 20.03.2002 – atribui competência para a constituição de um sítio na Internet para publicação de oferta de emprego na área científica e tecnológica. As Resoluções do Conselho de Ministros aprovaram as iniciativas e estratégias para a sociedade da informação. Na quarta revisão da Constituição, foram feitas alterações com a intenção de aperfeiçoá-la em matéria de novos direitos, liberdades e garantias. São elas: TÓPICO 1 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CENÁRIO NACIONAL 127 – Art. 34 – foi consagrada a proibição de ingerência indevida das autoridades em todas as comunicações dos cidadãos, qualquer que seja o suporte tecnológico que estes usem; – Art. 35/2 – define o conceito de dados pessoais, bem como as condições aplicáveis ao seu tratamentoautomatizado, conexão, transmissão e utilização. Garante a sua proteção através de entidade administrativa independente; – Art. 35/4 – reformula a proibição de acesso a dados pessoais de terceiros, salvo em casos excepcionais previstos na lei; – Art. 35/6 – garante o livre acesso às redes informáticas de uso público. A infraestrutura nacional de informação representa a plataforma tecnológica de suporte à sociedade da informação, na qual se integrarão todos os recursos nacionais disponíveis no mundo da informação, inclusive as pessoas que criam e desenvolvem produtos e aplicações ou que atuam como facilitadoras para a utilização dos mecanismos da sociedade da informação. Sua importância deve ser avaliada em termos dos benefícios produzidos econômica e socialmente. Cabe-lhe desempenhar um papel-chave em uma transição com êxito para uma nova economia na qual a criação de riqueza esteja baseada na inovação tecnológica e na utilização da informação como um bem precioso, assegurando distribuição dos benefícios econômicos. Para que seja implementada essa infraestrutura, é preciso uma interoperabilidade de todos os recursos, fornecendo as condições de capacidade e largura de banda, assim como entre aplicações e serviços, possibilitando a transmissão de voz, dados e imagens de forma eficiente para qualquer lugar, e uma atuação conjunta do setor privado e público. Cabe ao governo o papel de desenvolver e aplicar uma política para o setor de informação e comunicação, incluindo uma política de pesquisa e desenvolvimento. A pesquisa científica e o desenvolvimento experimental desempenham papel fundamental no desenvolvimento da sociedade da informação e devem ser promovidos por meio de racionalização e canalização de recursos, para definir e financiar um Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento, em articulação com os programas internacionais em que sejam identificados projetos prioritários de pesquisa, executados de forma cooperativa entre as instituições de pesquisa do Estado e do setor privado. FONTE: RODRIGUES, Georgete Medleg; SIMÃO, João Batista; ANDRADE, Patrícia Simas de. Sociedade da Informação no Brasil e em Portugal: um panorama dos Livros Verdes. Ciência da Informação, v. 32, n. 3, 2003. 128 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Existem algumas experiências de políticas governamentais brasileiras voltadas ao fomento da Sociedade da Informação. • A Sociedade da Informação surge a partir dos avanços tecnológicos em rede e das novas exigências do mercado, que possui a informação como um bem social e elemento crucial para emancipação cidadã e da ação governamental. • O conceito de Governo Eletrônico surgiu a partir do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, em especial, da internet, que propiciou à Administração Pública novas formas de se relacionar com a sociedade e vice-versa. • O programa de Governo Eletrônico do Brasil surgiu a partir dos anos 2000, a partir da criação de um Grupo de Trabalho Interministerial. • O Comitê Executivo de Governo Eletrônico (GECE) com a finalidade de formular políticas, estabelecer diretrizes, fazer a coordenação e a articulação de ações de implantação do Governo Eletrônico. • O programa de Governo Eletrônico (e-GOV) brasileiro prioriza a utilização de tecnologias de informação e comunicação para democratizar o acesso à informação, buscando, assim, a ampliação do debate e da participação da população na construção de políticas públicas e no aprimoramento da qualidade de informações e serviços públicos prestados aos cidadãos. • O e-GOV compreende a definição de padrões, a normatização, a articulação da integração de serviços eletrônicos, a disponibilização de boas práticas, a criação e construção de super infraestrutura tecnológica entre outras questões. • O grupo de Implantação do Programa Sociedade da Informação, composto por representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia, da iniciativa privada e instituições públicas e privadas de ensino, foi quem originou o documento que é conhecido como Livro Verde. 129 • O objetivo do Programa Sociedade da Informação é realizar a integração, coordenação e fomento de ações para o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICS) visando contribuir para a inclusão de todas as pessoas na sociedade da informação brasileira, e, ao mesmo tempo, em que contribui para que a economia do país consiga competir com o mercado global. • O papel governo (incluindo seus diversos níveis: federal, estadual, municipal) na Sociedade da Informação deve ser o de proporcionar e assegurar o acesso de forma universal às TICs e seus benefícios, independentemente da localização geográfica do sujeito ou população e da situação social em que esse cidadão se encontra. • O papel da sociedade civil é o de zelar pelo interesse público, buscando organizar seus setores para monitorar e influenciar os poderes públicos e as organizações de cunho privado. • As universidades e outras instituições educacionais possuem o papel para que está vinculado ao desenvolvimento e alcance de metas do Programa, pois são elas que estão vinculadas à formação de pessoal qualificado e na construção de ciência e tecnologia. Por fim, todos os setores (governo, setor privado, setor acadêmico e cidadãos) precisam se unir para participar na concepção e conversão do projeto da Sociedade da Informação. • O Livro Verde é composto por um conjunto de ações para impulsionarmos a Sociedade da Informação no Brasil em todos os seus aspectos: ampliação do acesso, meios de conectividade, formação de recursos humanos, incentivo à pesquisa e desenvolvimento, comércio eletrônico, desenvolvimento de novas aplicações. • O Livro Branco propõe uma síntese do que os participantes, debatedores, pesquisadores e demais integrantes da Conferência acordaram: “uma agenda de consensos que norteia uma direção. 130 1 Sobre os motivos que levaram à criação do Programa Sociedade da Informação, marque com V para verdadeiro e F para falso as opções a seguir: a) ( ) O papel central de Tecnologias de Informação (TI) na viabilização de competitividade econômica do país, não somente através da criação de novos produtos e serviços, mas especialmente por meio da renovação das estruturas tradicionais de produção e comercialização de bens e serviços. b) ( ) O desenvolvimento da discussão ampla de sua situação como cidadãos, suas reivindicações e direitos, além da valorização do potencial de vivência dentro das comunidades. c) ( ) A importância competitiva que TI pode assegurar a países em comércio internacional, através da implantação/uso de mecanismos de pagamento eletrônico, transporte de bens com acompanhamento em tempo real, alfândegas eletrônicas, entre outros. d) ( ) A utilização de infraestruturas de outros países para a propagação de redes de monitoramento de pessoal de TI no contexto mundial. e) ( ) A necessidade de uma infraestrutura avançada de redes e de computação para suporte a todas as atividades do país, perpassando desde educação e pesquisa até comércio de bens e serviços, destacando o oferecimento de serviços públicos eficientes. f) ( ) A urgência de viabilizar a democratização do acesso à informação visando contribuir para o exercício pleno da cidadania. 2 Conforme estudado no Tópico 1, para Takahashi (2000), a fase de implantação do Programa Sociedade da Informação era compreendida por: a) ( ) A elaboração de uma proposta inicial detalhada de Programa, no chamado “Livro Branco” seguido do processo de consulta ampla à elite da sociedade e, por fim, a consolidação do plano definitivo com as atividades do Programa no chamado “Livro Verde”, sem conter a inserção das ideias trazidas pelo Livro Branco e opiniões coletadas durante o processo de consulta. b) ( ) A elaboração de uma proposta inicial detalhada de Programa, no chamado “Livro Verde”, seguido pelo processo de consulta ampla à sociedade e; por fim,a consolidação do plano definitivo com as atividades do Programa no chamado “Livro Branco”, contendo a inserção das ideias trazidas pelo Livro Verde e opiniões coletadas durante o processo de consulta. c) ( ) A elaboração de uma proposta inicial detalhada de Programa, intitulado de “Livro Amarelo”, seguido pelo processo de inserção do modelo na sociedade enquanto um protótipo e; por fim, a consolidação do plano definitivo com as atividades do Programa no chamado “Livro Verde”, contendo a inserção das ideias trazidas pelo Livro Verde e opiniões coletadas durante o processo de consulta. AUTOATIVIDADE 131 d) ( ) A elaboração de uma proposta inicial de descentralização e regionalização da P&D, conhecida como “Livro Verde”, seguida da realização de pesquisas com comunidades vulneráveis da sociedade e, por fim, a implantação de tais ideias no “Livro Branco”. 3 Conforme estudado neste tópico, a política do Governo Eletrônico (Egov) do Brasil se baseia em um conjunto de diretrizes que estão fundamentadas em três ideias. Quais são elas? 4 O órgão que possui a finalidade de formular políticas, estabelecer diretrizes, fazer a coordenação e a articulação de ações de implantação do Governo Eletrônico é: a) ( ) Comitê Executivo de Governo Eletrônico. b) ( ) Assembleia Executiva do Governo Federal. c) ( ) Grupo de Trabalho de Governo Eletrônico. d) ( ) Política de Interação Eletrônica do Governo. e) ( ) Portal Eletrônico do Governo Federal. 5 Segundo o site do Governo Eletrônico (Egov), em outubro de 2000 foi criado o Comitê Executivo de Governo Eletrônico (GECE). A partir dos estudos realizados neste tópico, identifique nas opções a seguir a finalidade de tal Comitê: a) ( ) Realizar ações de promoção de debate, via redes sociais na internet, sobre as ações realizadas pela Administração Pública Federal, assim como realizar a coordenação do site do Governo Eletrônico. b) ( ) Promover a criação de diretrizes curriculares para a inserção do estudo das TICs nos cursos tecnológicos, técnicos e bacharelados. Além disso, estabelecer a articulação entre Organizações não governamentais e a criação de políticas públicas informacionais. c) ( ) Formar profissionais capacitados para gerenciar softwares e realizar a gestão eletrônica de documentos nos espaços da internet, assim como promover o debate acerca da coordenação do Governo Eletrônico e suas ações. d) ( ) Formular políticas, estabelecer diretrizes, fazer a coordenação e a articulação de ações de implantação do Governo Eletrônico. e) ( ) Ampliar o acesso às Tics e aos computadores pelas populações com menor poder aquisitivo via programas assistenciais de concessão de computadores para pessoas de baixa renda. 6 Conforme estudado neste tópico, o Programa Sociedade da Informação possui o objetivo de: a) ( ) Realizar a integração, coordenação e fomento de ações para o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICS) visando contribuir para a inclusão de todas as pessoas na sociedade da informação 132 brasileira, e, em paralelo, contribuir para que a economia do país consiga competir com o mercado global. b) ( ) Realizar a construção do projeto Mais Bibliotecas Públicas, criado com o objetivo de dar continuidade aos investimentos na ampliação do número de bibliotecas públicas e qualificação das já existentes, como uma ação estratégica dentro das políticas culturais voltadas para as bibliotecas públicas no Brasil. c) ( ) Focalizar as políticas de C&T no Brasil, ressaltando o papel desempenhado pelo Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), especialmente no que se relaciona às tecnologias da informação e comunicação (TICs). d) ( ) Realizar a integração, a coordenação e a proposição de políticas de promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra e outros segmentos raciais e étnicos da população brasileira. e) ( ) Elaborar o regimento interno do e-GOV e decidir sobre as alterações propostas por seus membros. 133 TÓPICO 2 POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Existem algumas iniciativas governamentais em torno de políticas públicas que buscam tornar possível a popularização da leitura e do livro, bem como a ampliação, modernização, criação e desenvolvimento de bibliotecas no Brasil (SANTOS, 2013). No Brasil, existem algumas iniciativas, como o Plano Nacional de Cultura (PNC), o Plano Nacional do Livro (PNLL), entre outras ações, que vinculadas a outras políticas públicas poderão mudar a realidade brasileira no que concerne ao acesso ao livro, à leitura e à biblioteca. Neste sentido, apresentam-se alguns elementos constituintes de políticas públicas para a promoção do livro, leitura, biblioteca e literatura. A seguir serão apresentadas as políticas nacionais de informação para a promoção do livro, leitura e da biblioteca, a saber: Programa Nacional de Incentivo à Leitura, Política Nacional do Livro, Plano Nacional do Livro e da Leitura, Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras, Política Nacional de Leitura e Escrita, entre outros. 2 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS BIBLIOTECAS NO BRASIL No Brasil, as políticas públicas para bibliotecas ainda não estão estabelecidas de forma definitiva. Embora nas últimas tenham as políticas governamentais tenham incluído as bibliotecas em seu foco, ainda falta um longo caminho para o estabelecimento completo de políticas públicas nacionais para bibliotecas. No que se refere aos marcos históricos, antes do ano de 1937, os governos buscavam criar bibliotecas públicas como ações governamentais sem participação cidadã (MACHADO, 2010). Foi em 1937 que houve a criação do Instituto Nacional do Livro pelo então ministro Gustavo Capanema. Neste Instituto havia a previsão de atribuições quanto à edição de obras literárias que tivessem interesse para a formação cultural da população, a elaboração de enciclopédia e dicionário nacional, além de promover a expansão do número de bibliotecas. (FGV, 2019). 134 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS No ano de 1992, foi criado o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) que visava fortalecer as bibliotecas públicas via implementação de processo sistêmico com ações para integrar as bibliotecas em âmbito nacional. Para que ocorresse, foi criado o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas (SEBP), que visa articular ações de diversas bibliotecas públicas municipais. Sob a responsabilidade do SNBP, encontrava-se a responsabilidade de ações como o programa “Livro Aberto”, criado em 2004, que visava inserir bibliotecas em municípios que não as possuem, assim como conceder bolsas na área do livro e leitura, realizar cadastros de bibliotecas existentes, revitalizar bibliotecas, capacitar os recursos humanos dessas unidades de informação, entre outros (MACHADO, 2010; PAIVA; ANDRADE, 2014). O Programa Livro Aberto existiu durante o período de 2004 a 2011, e a partir dele foram criadas 1.705 novas bibliotecas e revitalizadas 682. Tais ações do Programa foram realizadas por intermédio do estabelecimento de contratos entre a Fundação Biblioteca Nacional e a Prefeitura beneficiada de forma a garantir a entrega de materiais, equipamentos, mobiliários e acervo (SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS, 2019). No ano seguinte, o lançamento do programa “Uma biblioteca em cada município”, do Ministério da Educação, que surgiu com o objetivo de implementar bibliotecas no país e realizava a distribuição de estantes, livros e oferecia capacitação para gestão de bibliotecas (MACHADO, 2010; PAIVA; ANDRADE, 2014). Para Machado (2010), esse era um exemplo de política que era elaborado no estilo universalista, centralizado e tecnocrático. Foi ainda no ano de 1992, que o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) foi criado vinculado à FundaçãoBiblioteca Nacional via Decreto n. 519, de 13 de maio. Por intermédio de comitês regionais, o PROLER desenvolve ações em conjunto com secretarias municipais e estaduais de cultura e educação no Brasil. Na Casa de Leitura, sede do Programa no Rio de Janeiro são oferecidos diversos cursos para formação, promoção e incentivo à leitura, bem como capacitação de professores, agentes da leitura e bibliotecários (MACHADO, 2010). FIGURA 4 – LOGO DO PROLER FONTE: <http://proler.culturadigital.br/wp-content/arquivos/sites/5/2018/04/logo_proler2.png>. Acesso em: 20 ago. 2019. TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 135 O objetivo do PROLER é contribuir para a ampliação da leitura, promoção de acesso à prática de leitura e escrita críticas e criativas. Assim, visa articular a leitura com expressões de cultura, proporcionar o acesso a materiais escritos e abrir novos espaços de leitura e integração com práticas de leitura e hábitos da sociedade, de forma a constituir uma sociedade leitora com ampla participação cidadã no processo democrático em sociedade (PROLER, 2019). Pretende ainda, ser referência na valorização da leitura e da escrita no país, com qualidade, diversidade e inovação (PROLER, 2019). Além desses, outros marcos legais foram criados referentes às bibliotecas e políticas públicas no país, conforme demonstrado no Quadro 1. QUADRO 1 – MARCOS LEGAIS COM AS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS PARA BIBLIOTECAS NO PERÍODO DE 1990 A 2006 ANO DESCRIÇÃO 1990 Lei nº 8.028: Extingue o Ministério da Cultura e o substitui pela Secretaria da Cultura. 1991 Lei nº 8.313: Lei Rouanet, principal ferramenta de fomento à cultura, via renúncia fiscal dos patrocinadores. 1992 Lei nº 8.029: extingue o Instituto Nacional do Livro (INL, dentro da Fundação Pró-Leitura) e cria a Fundação Biblioteca Nacional (FBN). 1992 Decreto nº 99.240: extingue a Fundação Nacional Pró-Leitura (desdobramento da Lei nº 8.029). 1992 Decreto nº 519: cria o Proler (Programa Nacional e Incentivo à Leitura). 1992 Decreto nº 520: cria o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) dentro da FBN. 1992 Lei nº 8.490: Recria o Ministério da Cultura (MINC), sem, contudo, reestabelecer a estrutura anterior. 1995 Decreto-Lei nº 1.494: Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC). 1996 Programas “Uma biblioteca em cada município”, do MINC e “Livro Aberto” da FBN. 1999 Decreto nº 3.049: aprova a estrutura e os cargos do Ministério da Cultura, tendo em sua estrutura a Secretaria do Livro e da Leitura (SLL). 1999 Decreto nº 3.294: Sociedade da Informação 2000 Livro Verde da Sociedade da Informação. 2002 Cadastro Nacional de Bibliotecas (CNB). 2003 Extinção da Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. 2003 Novo estatuto da Fundação Biblioteca Nacional. 2003 Criação da Câmara Setorial do Livro, Literatura e Leitura (CSLLL). 2004 Programa Fome do Livro. 2004 Portaria nº 234 MINC: Institui o Grupo de Trabalho do livro e da leitura para formular a Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas. 2004 Lei nº 11.033: Decreta a desoneração do PIS/Cofins para o livro. 2005 Ano Viva leitura. 136 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 2005 Lei nº 11.116: Complementa a lei anterior e permite a utilização dos créditos do PIS/Cofins. 2005 Emenda Constitucional 48, institui o Plano Nacional da Cultura. 2006 Lançamento do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), com texto e objetivos, em 13 de março. 2006 Portaria Interministerial nº 1442 – Institucionalização do PNLL, (agosto). 2006 PNLL: texto programático conceitual (dezembro). FONTE: Paiva e Andrade (2014, p. 102-103) Em 2010, junto à Diretoria do Livro, Leitura e Literatura (DLLL), que estava vinculada à Secretaria de Articulação Institucional (SAI), do Ministério da Cultura (MinC), foi lançado o I Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais. Tal censo visava identificar o perfil dos equipamentos de cultura no Brasil. A partir desse período, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas tem trabalhado na coleta de dados e validação de informações junto aos Sistemas Estaduais de Bibliotecas Públicas, com objetivo de embasar políticas, investimentos públicos e ações para a área das bibliotecas no Brasil (SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS, 2019). No ano de 2012, o Decreto nº 7.747, de 6 de junho de 2012, promulgou a incorporação da DLLL e da SAI-MinC pela Fundação Biblioteca Nacional, a qual começou a ser chamada de Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) e o Sistema Nacional De Bibliotecas Públicas (SNBP) passou a ser subordinado à DLLLB, da FBN e não mais à Presidência da FBN Brasil (BRASIL, 2012; SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS, 2019). Em 2014, o Decreto nº 8.297, de 15 de agosto de 2014, alterou a configuração e a subordinação do SNBP, o qual foi transferido junto da DLLB para Brasília e passou a fazer parte da Secretaria Executiva (SE) do Ministério da Cultura. Dois anos depois, o Decreto nº 8.837, de 17 de agosto de 2016, estabeleceu uma nova estrutura no MinC. A partir dele, a Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas foi transformada no Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), ficando vinculado à Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC). (BRASIL, 2014; BRASIL, 2016; SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS, 2019). Já em 2017, a Portaria nº 84, de 8 de setembro de 2017 implementou a delegação de competências de políticas de programas do DLLLB ao Secretário da Economia e da Cultura, do Ministério da Cultura. No entanto, esta portaria foi revogada pela Portaria nº 30, de 8 de março de 2018. Este foi o mesmo ano em que o Ministério da Cultura reestruturou a Secretaria da Economia da Cultural por intermédio do Decreto nº 9.411, de 18 de junho de 2018. Atualmente, o DLLLB é composto por duas coordenações-gerais e três coordenações (BRASIL, 2017; BRASIL, 2018b; SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS, 2019). TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 137 Destaca-se ainda, o Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), no ano de 2003. Este programa contribui para o acesso ao livro pela população rural do país. No contexto brasileiro, sabe-se que ainda não há bibliotecas públicas em todos os municípios, e esse Programa busca ser um mecanismo de apoio e condições para o acesso ao livro e estímulo à leitura na zona rural, desempenhando, assim, a participação democrática da leitura (PECHI, 2017). FIGURA 5 – LOGO DO PROGRAMA DE BIBLIOTECAS RURAIS ARCA DAS LETRAS DESTINADO À REALIZAÇÃO DE BIBLIOTECAS NAS ZONAS RURAIS FONTE: <http://www.mda.gov.br/arcadasletras/inicio-arca-das-letras.jpg>. Acesso em: 19 ago. 2019. A Secretaria de Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário adotou a iniciativa de levar bibliotecas à zona rural dos municípios, visando possibilitar o acesso à informação, ao livro e à leitura para que ocorra a diminuição das desigualdades sociais no meio rural. As ações que o Programa executa são elaboradas pela Coordenação Geral de Ação Cultural (GCAC). O programa é visto também como um mecanismo de inclusão estratégica para enfrentar as dificuldades de acesso à informação (PECHI, 2017). Voluntários da comunidade, após passarem pelo processo de capacitação, são aqueles que colaboram com o cuidado, gestão, guarda, empréstimo e mediação de leitura na biblioteca e começam a atuar como Agentes de leitura nesse espaço. A partir da aderência à criação da biblioteca rural dentro da comunidade, as ações começam a transcorrer de forma colaborativa e estimulante, o que colabora para o desenvolvimento de ações e atividades pela e na biblioteca. Dessa forma, todas as atividades buscam ser planejadas de forma a incluir e envolver os usuários nas práticas de mediação da leitura,acesso ao livro e à promoção da cultura da comunidade (PECHI, 2017). 138 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS Para conhecer mais sobre o Programa Arca das Letras, leia o Manual do Programa produzido em 2013. Este material está disponível no link: <http://www.mda. gov.br/sitemda/sites/sitemda/files/user_arquivos_383/cartilha_10_anos.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2019. DICAS 3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO: CONHECENDO A POLÍTICA NACIONAL DO LIVRO E O PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA (PNLL) A Política Nacional do Livro foi sancionada em 30 de outubro de 2003 pela Lei Federal nº 10.753. Voltadas para as questões do livro, por meio desta lei foi instituído como o instrumento legal que autoriza o Poder Executivo criar e executar projetos de acesso ao livro e incentivo à leitura (BRASIL, 2003a). O livro é conceituado dentro desta política como “a publicação de textos escritos em fichas ou folhas, não periódica, grampeada, colada ou costurada, em volume cartonado, encadernado ou em brochura, em capas avulsas, em qualquer formato e acabamento” (BRASIL, 2003a, s.p.). Entre as diretrizes trazidas, a Política aborda que: a) Visa assegurar o pleno exercício do direito de acesso e uso do livro aos cidadãos; b) Busca trazer fomento e apoio para a produção, edição, difusão, a distribuição e também a comercialização do livro; c) Trazer estímulo à produção de escritores e autores brasileiros, tanto de obras científicas como culturais; d) Promover a leitura e incentivar o hábito da leitura; e) Proporcionar meios para que o Brasil se torne um grande centro editorial; f) Promover a competitividade no mercado internacional de livros de forma a ampliar a exportação de livros produzidos no Brasil; g) Dar apoio para a livre circulação de livros no Brasil; h) Promover a capacitação da população para a utilização do livro, a ser visto como um fator de fundamental importância para o desenvolvimento intelectual, político, justo, social, e de promoção igualitária de renda; i) Realizar a ampliação do número de livrarias, bibliotecas e pontos de venda do livro; j) Proporcionar aos editores, autores, distribuidores e livreiros as condições para o cumprimento da lei da Política Nacional do Livro e, por fim, k) proporcionar o acesso à leitura às pessoas com deficiência visual (BRASIL, 2003a, s.p.). TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 139 No que se refere ao Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), este foi criado por intermédio da Portaria Interministerial nº 1.442, de 10 de agosto de 2006, pelos ministros da Cultura e da Educação, durante o encerramento do Fórum PNLL/Vivaleitura 2006/2008 (ROSA; ODDONE, 2006). Inicialmente, o PNLL surgiu como uma política pública de cultura, cuja proposta estava em planejar, organizar, discutir e implementar projetos que fomentassem, disseminassem e incentivassem à leitura no Brasil (PLANO..., 2019). Oriundo de mais de 150 reuniões públicas em todo o país realizadas entre 2005 e 2006, o Plano foi elaborado a partir de sugestões realizadas por representantes de editores, livreiros, distribuidores, gráficas, fabricantes de papel, editores, educadores, bibliotecários, especialistas em livro e leitura, e demais interessados em geral. (PLANO..., 2019). Neste sentido, pretende-se que o Plano possua “a dimensão de uma Política de Estado, de natureza abrangente, que possa nortear, de forma orgânica, políticas, programas, projetos e ações continuadas desen volvidos no âmbito de ministérios – em particu lar os da Cultura e da Educação –, governos esta duais e municipais, empresas públicas e privadas, organizações da sociedade e, em especial, todos os setores interessados no tema” (PLANO..., 2019, s.p.). O PNLL possui quatro eixos estratégicos, contendo vinte linhas de ação e um calendário anual de eventos. É considerado uma ação liderada pelo governo federal para converter esse tema em política pública mediante a concentração e articulação dos esforços desenvolvidos pelos diversos atores sociais: Estado, universidade, setor privado e demais organizações da sociedade civil que formam o chamado terceiro setor. Tem como objetivo central melhorar a realidade da leitura no país e, por isso, é construído e se desenvolve por meio de um processo que transcende a imediatez (PNLL, 2006, p. 5). Em 1º de setembro de 2011, o PNLL foi instituído via decreto nº 7.559, firmado pela então presidente Dilma Rousseff (BRASIL, 2011). Trata-se de “um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbito federal, estadual e municipal) e pela sociedade” (PLANO..., 2013, s.p.). O PNLL está baseado em quatro eixos orientadores de sua organização, a saber: a) Eixo 1 – Democratização do acesso; b) Eixo 2 – Fomento à leitura e à formação de mediadores; c) Eixo 3 – Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico; d) Eixo 4 – Desenvolvimento da economia do Livro. 140 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS FIGURA 6 – LOGO DO PLANO NACIONAL DO LIVRO E LEITURA FONTE: <http://antigo.cultura.gov.br/documents/10919/957546/header-pnll-1.png/bc1383ff- 0a72-4b9e-92fd-75ae26ebbf4b?t=1457015369746>. Acesso em: 12 jul. 2019. A seguir, será descrito cada eixo e as linhas de ações que este engloba, com base no que está instituído no próprio PNLL. 3.1 EIXO 1 – DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO A democratização do acesso está delineada em seis pontos norteadores com sugestões de linhas de ações a serem realizadas para tornar a democratização do acesso ao livro e leitura algo efetivo. FIGURA 7 – DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO AO LIVRO E À LEITURA FONTE: <http://aaapucrio.com.br/wp-content/uploads/Untitled-185.png>. Acesso em: 16 ago. 2019. A primeira ação se refere à implantação de novas bibliotecas, sejam elas de acesso público, estaduais, escolares e municipais. Tais bibliotecas devem possuir acervos que busquem ao atendimento dos requisitos recomendados pela UNESCO, que incluem a disponibilização de livros em formato braille, digital, audiolivros etc., assim como computadores conectados à internet, revistas e jornais. Além disso, essas bibliotecas precisam funcionar como centros de ampla produção e disseminação da cultura. A implementação de bibliotecas comunitárias também é algo incentivado pelo PNLL para a democratização do acesso. Essas bibliotecas podem ser criadas em comunidades periféricas, hospitais, creches, zonas rurais e outros espaços sociais (PLANO..., 2010). TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 141 A segunda ação se refere ao fortalecimento da rede atual de bibliotecas por intermédio da consolidação e fortificação do sistema nacional de bibliotecas públicas, de forma a existir um sistema integrado de bibliotecas que possibilite a circulação de acervos, a informatização dos catálogos existentes, bem como a capacitação de gestores e bibliotecários para serem promotores de leitura. A terceira ação de democratização do acesso se refere à conquista de novos espaços de leitura. Esta ação se relaciona com a criação de salas de leituras, pontos de leitura (como ônibus, vans, peruas, barcos etc.) e bibliotecas circulantes. Incentiva ainda a realização de atividades de leituras em aeroportos, estações de metrô, trem e ônibus, atividades em livrarias, parques, entre outros. A leitura em penitenciárias, praças e consultórios, asilos e hospitais, assim como com crianças em situação de rua também são outros pontos elencados. FIGURA 8 – CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS EM PONTOS DE LEITURA VISANDO À DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO À LEITURA E AO LIVRO: CASE DO BOOKTRUCK, DA BIBLIOTECÁRIA CÁTIA LINDEMANN FONTE: <http://www.feiradolivro-poa.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Fotografia-Bere-Fischer-3.jpg>. Acesso em: 16 ago. 2019. A quarta ação de democratização do acesso se refere à distribuição de livros gratuitos por meio de programas de distribuição de livros didáticos e não didáticos. Tal distribuição deve visar alunos e professores de escolas públicas e privadas, como também adultos, jovens, crianças e idosos que estejam presentes em outros contextos da sociedade, tais como, as penitenciárias, os hospitais, entre outros. A quinta ação se refere à melhoria do acesso ao livro e as outras formas de expressão da leitura, que pode ser realizada em feiras de livros, no atendimento de necessidades de informação de pessoas com deficiência pela coedição de livros digitais, livros em braille e audiolivros. Essa melhoria pode acontecer também via projetos editoriais e campanhas de doação de livros. 142 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS A sexta e última ação se relaciona à incorporação e uso de tecnologias de informação e comunicação, que pode acontecer via criação de técnicas e aprimoramento das técnicas existentes que facilitem o acesso à informação, ao livro e à leitura. Essa ação incentiva a capacitação continuada para o efetivo aproveitamento das tecnologias da informação e comunicação. Sugere-se ainda, a criação e desenvolvimento de tecnologias que visem preservar os acervos, bem como ampliar e difundir bens culturais (livros digitais, bibliotecas digitais e informatização de bibliotecas). 3.2 EIXO 2 – FOMENTO À LEITURA E À FORMAÇÃO DE MEDIADORES Esse eixo é composto por cinco sugestões de linhas de ações a serem realizadas para fomentar a leitura e a formação de mediadores de leitura. O primeiro ponto sugerido é a formação de mediadores de leitura por intermédio de programas de capacitação de bibliotecários, educadores e demais mediadores de leitura. Sugere também a criação de cursos estratégicos de formação para educadores e estudantes, inclusive via educação à distância, com foco no fomento à leitura, formação de promotores de leitura em bibliotecas, escolas e comunidades. O segundo ponto se refere aos projetos sociais para fomento da leitura, que podem compreender rodas de leitura, atividades de formação do leitor na escola, clubes de leitura, atividades de leitura em comunidades quilombolas, indígenas, apenados em penitenciárias, comunidades rurais e outras excluídas da sociedade. Incentiva ainda a criação de projetos de formação de novos leitores e de diferentes contextos, bem como a criação de oficinas que visem à produção literária por crianças e jovens. FIGURA 9 – A) BIBLIOTECA EM ZONA RURAL E O ACESSO AO LIVRO. B) MEDIAÇÃO DA LEITURA EM ESCOLA DA ZONA RURAL a) b) FONTES: Imagem a: <http://www.mda.gov.br/sitemda/sites/sitemda/files imagem_destaque/ casca-rs-fot_eduardo_quadros_0.jpg>. Acesso em: 16 ago. 2019. Imagem b: <https://www.amambainoticias.com.br/media/images/1118/132190/ 5cbf508a015649386799157a4f647819c9014e6a3efb9.jpg>. Acesso em: 16 ago. 2019. TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 143 O terceiro ponto se refere aos estudos e fomento à pesquisa nas áreas do livro e da leitura, que visem à realização de diagnósticos da situação atual da leitura e do livro no Brasil. Indica ainda a necessidade de elaboração de pesquisas que identifiquem os hábitos de leitura e de consumo de livros dos cidadãos, bem como a busca por experiências exitosas e inovadoras de leitura. Penúltimo ponto aborda sobre os sistemas de informação nas áreas de bibliotecas, da bibliografia e do mercado editorial. Este ponto incentiva a realização de estudos e pesquisas que aprofundem o conhecimento sobre as realidades das editoras, das bibliotecas, das livrarias e do consumo de livros no nosso país. Sugere ainda levantamentos para averiguar a quantidade de livrarias, bibliotecas, investimentos no setor editorial, entre outros. O quinto e último ponto se relaciona à concessão de prêmios e reconhecimento de ações de incentivo e fomento às práticas sociais de leitura. Essa sugere a realização de concursos para premiar e reconhecer aquelas experiências que inovaram e promoveram a leitura e a literatura no país. Incentiva ainda a concessão de prêmios para ações que visem ao fomento da leitura e que são realizadas em escolas, comunidades, bibliotecas, organizações entre outros. 3.3 EIXO 3 – VALORIZAÇÃO INSTITUCIONAL DA LEITURA E INCREMENTO DO SEU VALOR SIMBÓLICO Este eixo possui, como pontos norteadores, três sugestões de linhas de ações, a saber: a) Ações para converter o fomento às práticas sociais da leitura em Política do Estado: Sugere a implementação de programas governamentais de fomento à leitura, a formulação de planos municipais e estaduais de livro e leitura, assim como a formulação de políticas e planos nacionais, estaduais e municipais de leitura e do livro. Propõe a realização de fóruns, congressos, jornadas e seminários que buscam propor agendas para a promoção do livro e da leitura, assim como, a execução de pesquisas sobre políticas públicas do livro, leitura e bibliotecas. 144 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS Você sabia que existe um Guia para elaboração e implantação dos Planos estadual e municipal do livro e leitura? Esse guia traz orientações e o passo a passo para a concretização dos Planos do Livro e da Leitura, além de complementar as outras ferramentas desse programa. DICAS Para conhecer, acesse o link disponível em: https://drive.google.com/file/ d/0B5QJujJhZbE9ckUwS2lwMjdLX0E/view. a) Ações para criar consciência sobre o valor social do livro e da leitura: Sugere a criação de campanhas institucionais para a valorização do livro, leitura, literatura e das bibliotecas em redes de televisão, jornais, outdoors, cinema e demais mídias. Traz ainda a sugestão para elaboração de campanhas de conscientização da importância da biblioteca e também contendo testemunhos de pessoas que sejam formadoras de opinião contando suas experiências com o livro e leitura, bem como a publicação de histórias de leitura e dicas de pessoas sobre livros. b) Publicações impressas e outras mídias dedicadas à valorização do livro e da leitura: Publicar cadernos, seções, revistas, portais e sites na internet sobre livro, leitura, biblioteca e literatura é uma das opções indicadas neste tópico. Além disso, incentiva a elaboração de resenhas para jornais e revistas com atuais lançamentos de editoras. TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 145 FIGURA 10 – VALORIZAÇÃO DO LIVRO E DA LEITURA FONTE: <https://valberlucio.files.wordpress.com/2011/11/liv.jpg>. Acesso em: 20 ago. 2019. 3.4 EIXO 4 - DESENVOLVIMENTO DA ECONOMIA DO LIVRO Este último eixo é composto por cinco sugestões de linhas de ações, a saber: a) Desenvolvimento da cadeia produtiva do livro: Este primeiro ponto está relacionado às linhas de financiamento destinadas às gráficas, editoras, livrarias e distribuidoras para a confecção e edição de livros. Engloba ainda, os programas do governo que se relacionam à aquisição que busca integrar a cadeia produtiva e os interesses das práticas sociais de leitura no Brasil, bem como, os programas de apoio à formação de editores, livreiros e demais profissionais que fazem parte do mercado editorial. b) Fomento à distribuição, circulação e consumo de bens de leitura: A sugestão engloba a política de fomentação à abertura de livrarias e apoio às já existentes. Refere-se também à criação de livrarias em praças públicas, à inserção de livros em bancas de jornais, ao apoio e financiamento ao setor livreiro e também aos programas para criação de pontos alternativos de venda. c) Apoio à cadeia criativa do livro: Refere-se à concessão de prêmios em diferentes áreas e bolsas para apoio aos escritores. Inclui tambémapoio à circulação e presença de escritores em feiras, escolas e bibliotecas, assim como a defesa dos direitos do escritor sobre sua obra e o apoio à publicação de novos autores. 146 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS d) Maior presença no exterior da produção nacional literária científica e cultural editada: Inclui a participação em feiras internacionais, programas de exportação e apoio à tradução de livros de autores brasileiros para serem publicados no exterior. Assim como, à difusão de escritores e a literatura brasileira em diversos países e à reedição de obras clássicas. 3.5 POLÍTICA NACIONAL DE LEITURA E ESCRITA (PNLE) Vinculado ao PNLL, encontra-se a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), sancionada em 12 de julho de 2018 pela Lei nº 13.696, que busca promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil. O PNLE veio para tornar institucional a responsabilidade na construção e revisão de Planos direcionados para o setor do livro, da leitura e das bibliotecas (BRASIL, 2018c). Conforme o documento desta política, esta será “implementada pela União, por intermédio do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios e com a participação da sociedade civil e de instituições privadas” (BRASIL, 2018c, s.p.). Como diretrizes, a PNLE trata: a) Universalização do direito ao acesso ao livro, à escrita, à leitura, à literatura e às bibliotecas; b) Reconhecer a leitura e a escrita como um direito de todos. Incentivar, inclusive, por intermédio de políticas de estímulo à leitura, as condições para exercer a cidadania de forma plena para viver de forma digna e contribuir com a construção da sociedade; c) Fortalecer o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), no âmbito do Sistema Nacional de Cultura (SNC); d) Articular com outras políticas que estimulem à leitura, ao conhecimento, às tecnologias e ao desenvolvimento educacional, cultural e social do país, em especial, com a Política Nacional do Livro; e) Reconhecer as cadeias criativas, produtiva e mediadora do livro, leitura, escrita, da literatura e das bibliotecas como integrantes fundamentais e dinamizadoras da economia criativa (BRASIL, 2018c). Esta Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) observará princípios e diretrizes de planos nacionais estruturantes, em especial, no Plano Nacional de Educação (PNE), Plano Nacional de Cultura (PNC), Plano Plurianual da União (PPA). Assim, a PNLE traz como objetivos: TÓPICO 2 | POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS NO BRASIL 147 I. Democratizar o acesso ao livro e aos diversos suportes à leitura por meio de bibliotecas de acesso público, entre outros espaços de incentivo à leitura, de forma a ampliar os acervos físicos e digitais e as condições de acessibilidade. II. Fomentar a formação de mediadores de leitura e fortalecer ações de estímulo à leitura, por meio da formação continuada em práticas de leitura para professores, bibliotecários e agentes de leitura, entre outros agentes educativos, culturais e sociais. III. Valorizar a leitura e o incremento de seu valor simbólico e institucional por meio de campanhas, premiações e eventos de difusão cultural do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas. IV. Desenvolver a economia do livro como estímulo à produção intelectual e ao fortalecimento da economia nacional, por meio de ações de incentivo ao mercado editorial e livreiro, às feiras de livros, aos eventos literários e à aquisição de acervos físicos e digitais para bibliotecas de acesso público. V. Promover a literatura, as humanidades e o fomento aos processos de criação, formação, pesquisa, difusão e intercâmbio literário e acadêmico em território nacional e no exterior, para autores e escritores, por meio de prêmios, intercâmbios e bolsas, entre outros mecanismos. VI. Fortalecer institucionalmente as bibliotecas de acesso público, com qualificação de espaços, acervos, mobiliários, equipamentos, programação cultural, atividades pedagógicas, extensão comunitária, incentivo à leitura, capacitação de pessoal, digitalização de acervos, empréstimos digitais, entre outras ações. VII. Incentivar pesquisas, estudos e o estabelecimento de indicadores relativos ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas, com vistas a fomentar a produção de conhecimento e de estatísticas como instrumentos de avaliação e qualificação das políticas públicas do setor. VIII. Promover a formação profissional no âmbito das cadeias criativa e produtiva do livro e mediadora da leitura, por meio de ações de qualificação e capacitação sistemáticas e contínuas; IX. Incentivar a criação e a implantação de planos estaduais, distrital e municipais do livro e da leitura, em fortalecimento ao SNC. X. Incentivar a expansão das capacidades de criação cultural e de compreensão leitora, por meio do fortalecimento de ações educativas e culturais focadas no desenvolvimento das competências de produção e interpretação de textos (BRASIL, 2018, s.p.). Como pode ser analisado a partir da leitura deste tópico, as políticas de informação estabelecidos no âmbito do livro, leitura, literatura e bibliotecas contribuíram para a promoção do hábito da leitura, para o estabelecimento de bibliotecas em lugares ainda não abarcados pelas bibliotecas públicas (como as instituídas em zonas rurais), bem como contribuem para a modificação da realidade social tanto do sujeito, quanto da comunidade a qual ele se insere. Destaca-se ainda que o papel do bibliotecário é fundamental na mediação, incentivo, aplicação e fortalecimento de tais políticas públicas informacionais. 148 UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS Para saber um pouco mais do PNLL, leia o livro “Plano Nacional do Livro e Leitura: Textos e História 2006-2010” sob organização de José Castilho Marques Neto, este livro é composto pelo PNLL, incluindo princípios norteadores, objetivos e metas, assim como seus eixos de ação e estrutura para implementação. Além disso, apresenta documentos, artigos e as realizações do Plano. DICAS Para baixar, acesse o link disponível em: https://drive.google.com/file/d/0B5QJujJhZ bE9Y3hIeEJqVS1taG8/view. 149 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Políticas públicas para bibliotecas ainda não estão consolidadas. • Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) visa fortalecer as bibliotecas públicas via implementação de processo sistêmico com ações para integrar as bibliotecas em âmbito nacional. • Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas (SEBP), que visa articular ações de diversas bibliotecas públicas municipais. • Programa Livro Aberto, Uma Biblioteca em cada município, Programa Nacional de incentivo à leitura (PROLER) e Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras são alguns dos programas que visavam à inclusão de bibliotecas em estados e municípios brasileiros. • O objetivo do PROLER é contribuir para a ampliação da leitura, promoção de acesso à prática de leitura e escrita críticas e criativas. Assim, visa articular a leitura com expressões de cultura, proporcionar o acesso a materiais escritos e abrir novos espaços de leitura e integração com práticas de leitura e hábitos da sociedade, de forma a constituir uma sociedade leitora com ampla participação cidadã no processo democrático em sociedade. (PROLER, 2019). • Existem marcos legais com as políticas governamentais para bibliotecas criados desde o período de 1990. • A Secretaria de Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário adotou a iniciativa de levar bibliotecas à zona rural dos municípios, visando possibilitar o acesso à informação, ao livro e à leitura para que ocorra a diminuição das desigualdadessociais no meio rural. • Dentro das bibliotecas rurais, os agentes de leitura são aqueles sujeitos da própria comunidade treinados para realizar a mediação de leitura, gestão, guarda e empréstimo de livros. • A Política Nacional do Livro tornou-se um instrumento legal que autoriza o Poder Executivo criar e executar projetos de acesso ao livro e incentivo à leitura. • O Plano Nacional do Livro e da Leitura – PNLL possui quatro eixos estratégicos, contendo vinte linhas de ação e um calendário anual de eventos. 150 AUTOATIVIDADE 1 Conforme estudado no Tópico 2, o Decreto nº 519, de 13 de maio de 1992, instituiu o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER). Tal programa atua [...] por meio de uma rede de Comitês sediados em prefeituras, secretarias de estados e municípios, fundações culturais ou educacionais, universidades e outras entidades públicas e privadas coordenados pela Coordenação-Geral de Leitura, Departamento do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), Secretaria da Economia da Cultura (SEC), Ministério da Cultura (MinC), e por seu Conselho Consultivo formado por gestores do MinC, do Ministério da Educação (MEC) e do Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL) e representantes dos Comitês. Tais instâncias de coordenação dedicam-se a estabelecer diretrizes que consolidem ações e planos na área do livro e da leitura e promovam ações de fortalecimento deste programa sem determinar a direção e ritmo de crescimento dessa rede, mas coligando os fios existentes, promovendo o diálogo entre diferentes concepções e iniciativas (PROLER, 2019, s.p.). A partir disso, identifique os objetivos que se referem ao Programa: a) ( ) I – promover o interesse nacional pelo hábito da leitura; II – estruturar uma rede de projetos capaz de consolidar, em caráter permanente, práticas leitoras; III – criar condições de acesso ao livro. b) ( ) I – ampliar a divulgação de arquivos e bibliotecas; II – construir uma rede de bibliotecas e arquivos para trocas de documentos; III – criar condições para acesso ao documento e ao livro; c) ( ) I – promover o acesso às tecnologias da informação e da comunicação; II – construir, via rede de computadores, softwares para bibliotecas públicas; III – fortalecer as bibliotecas digitais acessíveis. d) ( ) I – estabelecer a construção de políticas de informação para incentivo da leitura; II – estruturar uma corrente de capacitação de professores leitores; III – incentivar o acesso à literatura e à leitura. 2 Conforme o Quadro 1 referente aos Marcos Legais com políticas governamentais para bibliotecas no período de 1990 a 2016, no ano de 1999 foi estabelecido, via Decreto 3.294, o Programa que possui como objetivo viabilizar a nova geração da Internet e suas aplicações em benefício da sociedade brasileira. Com base nisso, indique a que Programa este Decreto se refere: a) ( ) Programa Fome do Livro; b) ( ) Programa Nacional de Apoio à Cultura; c) ( ) Programa Sociedade da Informação; 151 d) ( ) Programa Nacional e Incentivo à Leitura; e) ( ) Programa de Softwares Livres para Bibliotecas. 3 A partir da leitura do Tópico 2 e aprendizagem sobre o Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL), seus eixos estratégicos e suas linhas de ação, identifique com V (Verdadeiro) e F (Falso) as sentenças a seguir: a) ( ) O PNLL foi instituído pelo Decreto n. 7.559, de 1 de setembro de 2011. b) ( ) O PNLL está baseado em quatro eixos orientadores de sua organização, a saber: a) Eixo 1 – Democratização do acesso; b) Eixo 2 – Fomento à leitura e à formação de mediadores; c) Eixo 3 – Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico; d) Eixo 4 – Desenvolvimento da economia do Livro. c) ( ) A implementação dos programas, projetos e ações instituídos no âmbito do PNLL poderá ser realizada com a participação de instituições públicas ou privadas, mediante a celebração de instrumentos previstos em Lei. d) ( ) O Eixo 1 – Democratização do acesso possui seis linhas de ação. e) ( ) A linha de ação “criação de novos espaços de leitura” pertence ao Eixo 3. f) ( ) A linha de ação “promoção de atividades de reconhecimento de ações de incentivo e fomento à leitura” pertence ao Eixo 2. g) ( ) O Eixo 3 se refere à valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico e uma de suas linhas de ação é o “apoio à cadeia criativa do livro e incentivo à leitura literária”. h) ( ) O Eixo 3 se refere à valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico e uma de suas linhas de ação são “ações para criar consciência sobre o valor social do livro e da leitura”. i) ( ) A formação de mediadores de leitura e de educadores leitores está vinculada ao Eixo 2. 4 Conforme estudado neste tópico, qual a finalidade do Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras? 5 Atribua verdadeiro (V) ou falso (F) para as seguintes sentenças: a) ( ) A Política Nacional do Livro busca assegurar o pleno exercício do direito de acesso e uso do livro aos cidadãos. b) ( ) A Política Nacional do Livro visa trazer fomento e apoio para a produção, edição, difusão, a distribuição e também a comercialização do livro. c) ( ) A Política Nacional do Livro estimula a produção de escritores e autores brasileiros, tanto de obras científicas como culturais. d) ( ) A Política Nacional do Livro busca promover a leitura e incentivar o hábito da leitura. e) ( ) A Política Nacional do Livro deixa de proporcionar meios para que o Brasil se torne um grande centro editorial. f) ( ) A Política Nacional do Livro a ampliação do número de livrarias, bibliotecas e pontos de venda do livro. 152 153 TÓPICO 3 POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Entre as populações existentes que são consideradas minorias sociais, embora não quantidade, mas sim em aspectos representativos, estão as populações negras e população idosa. A primeira compõe cerca de 54% da população brasileira, quando contados os declarados negros e pardos. Já a segunda será, em alguns anos, a maioria populacional independentemente do pertencimento étnico-racial. Neste sentido, o foco deste tópico será para a compreensão das políticas públicas já criadas para tais populações, visto que os bibliotecários e profissionais da informação serão aqueles que oferecerão produtos e serviços informacionais voltados a tais públicos, bem como, será o mediador da leitura, da literatura e promotor do livro e da leitura. Assim, neste tópico, você irá aprender as políticas públicas informacionais que visam atender às demandas dessas populações que se encontram à margem da sociedade brasileira e que precisam ser devidamente atendidas pelos serviços e produtos de informação disponibilizados em bibliotecas e demais unidades informacionais. A seguir, iremos conhecer as políticas voltadas para as populações idosa e negra. Serão apresentadas algumas políticas tais como, Política Nacional do Idoso, Estatuto do Idoso, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (SECOMT) que conduzia, elaborava e monitorava políticas para as comunidades tradicionais. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 154 2 POLÍTÍCAS PÚBLICAS PARA AS PESSOAS IDOSAS: BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO Em diversos países do globo temos assistido o aumento do número de pessoas idosas, que se deve, em especial, à melhora na qualidade de vida, à redução da natalidade e ao declínio da mortalidade de pessoas ao redor do mundo. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é classificado como toda a pessoa que possui idade acima de 60 anos.Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018), a população com idade acima de 60 anos representa 13,5% dos brasileiros e as projeções indicam que em até duas décadas e meia, esse número irá aumentar para 24,5% (Gráfico 1). Conforme o IBGE, “a revisão 2018 mostrou que o envelhecimento do padrão da fecundidade é determinado pelo aumento na quantidade de mulheres que engravidam entre 30 e 39 anos e pela redução da participação de mulheres entre 15 e 24 anos na fecundidade em todas as grandes regiões do país” (IBGE, 2018, s.p.). Uma das tendências até 2060 é que o número de idosos aumente nos próximos anos e o número de crianças diminua. GRÁFICO 1 – EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA POR FAIXA ETÁRIA FONTE: <https://img.r7.com/images/populacao-25072018132753264>. Acesso em: 10 set. 2019. Quando é analisado o contexto histórico, percebe-se que a implantação de uma política nacional para idosos só aconteceu do ano de 1994. Antes deste período, a proteção para estas pessoas encontrava-se mencionada em alguns artigos do Código Civil, Código Pena, Código Eleitoral e outros (RODRIGUES, 2001). Antes da década de 1970, o trabalho feito com idosos era de cunho caritativo, realizado por ordens religiosas ou entidades filantrópicas. A partir da década de 1970 começou a aumentar o número de idosos na sociedade brasileira, algo que trouxe preocupação para os setores governamentais e privado e despertou para as questões sociais dessa população (RODRIGUES, 2001). TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 155 No ano de 1976 foram realizados três seminários regionais que visavam diagnosticar a questão do envelhecimento a nível nacional e apresentar as linhas básicas de políticas de assistência e promoção social de pessoas idosas. A partir desses eventos, foi elaborado pelo Ministério da Previdência e Assistência Social um documento intitulado “Políticas para a 3ª Idade – Diretrizes Básicas” (RODRIGUES, 2001). No entanto, este não foi o primeiro Programa voltado para a velhice, houve também o Programa de Assistência ao Idoso (PAI) realizado pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Em 1977, criou-se o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social, sistema responsável por atender, em nível nacional, às pessoas idosas. Dez anos depois, houve restruturação e o PAI passou a ser chamado de Projeto de Apoio à Pessoa Idosa (PAPI), que visava realizar ações direcionadas para pessoas idosas, desenvolver discussões sobre a situações de tais cidadãos, buscar responder às suas reivindicações e direitos, bem como valorizar o potencial de viverem em sociedade. A partir delas, outros marcos históricos referentes às políticas públicas destinadas a essa população foram criados, conforme demonstrado no Quadro 2. QUADRO 2 – CRONOLOGIA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DESTINADAS ÀS PESSOAS IDOSAS Ano Descrição da Política para Pessoas Idosas 1974 Por meio da Lei nº 6.179, foi criada a Renda Mensal Vitalícia, através do então Instituto Nacional de Previdência Social – INPS (18), e de decretos, leis, portarias, referentes, principalmente, à aposentadoria. 1977 Foi criado o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social (SINPAS), (Lei nº 6.439) integrando: o Instituto Nacional de Previdência Social – INPS, o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social – INAMPS, a Fundação Legião Brasileira de Assistência – LBA, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor FUNABEM, a Empresa de Processamento de Dados da Previdência Social – DATAPREV, o Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social – IAPAS, para unificar a assistência previdenciária. 1982 Foi realizada a I Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento (ONU), em Viena, que traçou as diretrizes do Plano de Ação Mundial sobre o Envelhecimento, publicado em Nova York em 1983. Esse Plano de Ação almejou sensibilizar os governos e sociedades do mundo todo para a necessidade de direcionar políticas públicas voltadas para os idosos, bem como alertar para o desenvolvimento de estudos futuros sobre os aspectos do envelhecimento. 1986 Foi realizada a 8ª Conferência Nacional de Saúde que propôs a elaboração de uma política global de assistência à população idosa. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 156 1988 Foi promulgada a Constituição Cidadã – Constituição Federal, que destacou no texto constitucional a referência ao idoso. Essa foi, de fato, a primeira vez em que uma constituição brasileira assegurou ao idoso o direito à vida e à cidadania: A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhe o direito à vida. - § 1º Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares. - § 2º Aos maiores de 65 anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos (CONSTITUIÇÃO FEDERAL...1988, s.p.). 1993 Foi aprovada a Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS – Lei nº 8.742/93, que regulamenta o capítulo II da Seguridade Social da Constituição Federal, que garantiu à Assistência Social o status de política pública de seguridade social, direito ao cidadão e dever do Estado. A LOAS inverte a cultura tradicional dos programas vindos da esfera federal e estadual como pacotes, e possibilita o reconhecimento de contextos multivariados e, por vezes universais, de riscos à saúde do cidadão idoso. Cita o benefício de prestação continuada, previsto no art. 20 que é a garantia de um salário mínimo mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso com setenta anos ou mais e que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção e nem de tê-la provida por sua família. 1994 Foi aprovada a Lei nº 8.842/1994 que estabelece a Política Nacional do Idoso (PNI), posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 1.948/96, e cria o Conselho Nacional do Idoso. Essa Lei tem por finalidade assegurar direitos sociais que garantam a promoção da autonomia, a integração e a participação efetiva do idoso na sociedade, de modo a exercer sua cidadania. Estipula o limite de 60 anos e mais, de idade, para uma pessoa ser considerada idosa. Como parte das estratégias e diretrizes dessa política, destaca-se a descentralização de suas ações envolvendo estados e municípios, em parceria com entidades governamentais e não governamentais. A Lei em discussão rege-se por determinados princípios, tais como: assegurar ao idoso todos os direitos de cidadania, com a família, a sociedade e o Estado os responsáveis em garantir sua participação na comunidade, defender sua dignidade, bem- estar e direito à vida. O processo de envelhecimento diz respeito à sociedade de forma geral e o idoso não deve sofrer discriminação de nenhuma natureza, bem como deve ser o principal agente e o destinatário das transformações indicadas por essa política. E, por fim, cabe aos poderes públicos e à sociedade em geral a aplicação dessa lei, considerando as diferenças econômicas e sociais, além das regionais. TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 157 1999 Foi implantada a Política Nacional da Saúde do Idoso pela Portaria nº 1.395/1999 do Ministério da Saúde (MS) que estabelece as diretrizes essenciais que norteiam a definição ou a redefinição dos programas, planos, projetos e atividades do setor na atenção integral às pessoas em processo de envelhecimento e à população idosa. Essas diretrizes são: a promoção do envelhecimento saudável, a prevenção de doenças, a manutenção da capacidade funcional, a assistência às necessidades de saúde dos idosos, à reabilitação da capacidade funcional comprometida, a capacitação derecursos humanos, o apoio ao desenvolvimento de cuidados informais, e o apoio aos estudos e pesquisas. E ainda, tem a finalidade de assegurar aos idosos sua permanência no meio e na sociedade em que vivem desempenhando suas atividades de modo independente. 2002 Foi realizada a II Assembleia Mundial sobre Envelhecimento em Madrid – Plano Internacional do Envelhecimento – que tinha o objetivo de servir de orientação às medidas normativas sobre o envelhecimento no século XXI. Esperava-se alto impacto desse plano nas políticas e programas dirigidos aos idosos, principalmente, nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Dessa feita, ele foi fundamentado em três princípios básicos: 1) participação ativa dos idosos na sociedade, no desenvolvimento, na força de trabalho e na erradicação da pobreza; 2) promoção da saúde e bem-estar na velhice; e 3) criação de um ambiente propício e favorável ao envelhecimento. 2003 Foi realizada a Conferência Regional Intergovernamental sobre Envelhecimento da América Latina e Caribe, no Chile, na qual foram elaboradas as estratégias regionais para implantar as metas e objetivos acordados em Madrid. Foi recomendado aos países que, de acordo com suas realidades nacionais, propiciassem condições que favorecessem um envelhecimento individual e coletivo com seguridade e dignidade. Na área da saúde, a meta geral foi oferecer acesso aos serviços de saúde integrais e adequados à necessidade do idoso, de forma a garantir melhor qualidade de vida com manutenção da funcionalidade e da autonomia. 2003 No Brasil, entra em vigor a Lei nº 10.741, que aprova o Estatuto do Idoso destinado a regular os direitos assegurados aos idosos. Esse é um dos principais instrumentos de direito do idoso. Sua aprovação representou um passo importante da legislação brasileira no contexto de sua adequação às orientações do Plano de Madrid. 2006 Foi realizada a I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, na qual foram aprovadas diversas deliberações, divididas em eixos temáticos, que visou garantir e ampliar os direitos da pessoa idosa e construir a Rede Nacional de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa – RENADI. FONTE: Fernandes e Soares (2012, p. 1497) UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 158 Mas o que isso tem a ver com as políticas públicas de informação? Tudo! Como já estudamos nos tópicos anteriores, as políticas públicas existem para o atendimento de demandas da sociedade, e a população idosa é uma delas, pois esta necessita do atendimento de suas demandas de informação para melhor qualidade de vida. Os idosos do presente e do futuro precisam ter qualidade de vida para que possam exercer os seus direitos mínimos básicos, como por exemplo, saúde, trabalho, assistência social, educação, cultura, esporte, habitação e meio de transportes. Esse direito está garantido, além da Constituição da República de 1988, na Política Nacional do Idoso (1994) e também no Estatuto do Idoso (2003). Os desafios que permeiam as vivências dos idosos estão vinculados à solução de problemas como a seguridade social, a dependência, a promoção do envelhecimento ativo e protagonismo social dos idosos que estão em conjunto com os direitos sociais fundamentais, como a noção de cidadania (VETTER, 2018). Nesse sentido, o profissional da informação e o bibliotecário precisam estar atentos para como auxiliar esta população a exercer o direito de acessar informações e modificar suas realidades sociais. A seguir, iremos apreender mais sobre algumas políticas, a saber: Política Nacional do Idoso, Estatuto do Idoso e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. 2.1 POLÍTICA NACIONAL DO IDOSO Existem legislações e políticas realizadas que buscam proporcionar proteção social básica aos idosos. A Política Nacional do Idoso foi criada em 4 de janeiro de 1994 e possui a finalidade de “assegurar os direitos sociais do idoso” (BRASIL, 1994, s.p.), de forma a criar meios e condições que promovam sua autonomia, sua integração e sua participação na sociedade de forma efetiva (BRASIL, 1994). Dentro dessa política, estão descritos os princípios que a regem, tais como: I- a família, a sociedade e o estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos da cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade, bem-estar e o direito à vida; II- o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de conhecimento e informação para todos; III- o idoso não deve sofrer discriminação de qualquer natureza; IV- o idoso deve ser o principal agente e o destinatário das transformações a serem efetivadas através desta política; V- as diferenças econômicas, sociais, regionais e, particularmente, as contradições entre o meio rural e o urbano do Brasil deverão ser observadas pelos poderes públicos e pela sociedade em geral, na aplicação desta lei (BRASIL, 1994, s.p.). TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 159 Dessa forma, é dever, não só da família e da sociedade, mas também do estado, assegurar que a pessoa idosa possa ter uma qualidade de vida e pleno exercício de direitos. Outro ponto fundamental acima é que não se deve discriminar o idoso. Essa afirmativa vai ao encontro do que está fundamentado no Código de Ética e Deontologia do Bibliotecário brasileiro, visto que este Código afirma que os serviços de informação oferecidos pelo profissional precisam ser disponibilizados de forma indiscriminada a todos os cidadãos (CONSELHO FEDERAL..., 2018). FIGURA 11 – IDOSOS EM MOMENTOS DE LAZER FONTE: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/images/agenciadenoticias/revista_retratos/ Revista16/idosos_not1-Licia.jpg>. Acesso em: 11 jul. 2019. Existem barreiras que trazem dificuldades à vida dos idosos, tais como problemas psicossociais, redução da independência e capacidade de gerenciar atividades cotidianas, dificuldades com as transformações trazidas pelo envelhecimento, problemas de saúde, necessidade de maior número de medicação, entre outros. Além disso, existem fatores que podem agravar o quadro, tais como, o isolamento social, privações por causa de problemas financeiros, perda de capital ou baixa renda, entre outros pontos que afetam os idosos (VETTER, 2018). Foi por intermédio da Política Nacional do Idoso que houve a regulamentação do atendimento de idosos em espaços que não sejam aqueles na modalidade asilar, os quais são denominados de Centros de Convivência. A biblioteca, por exemplo, pode possuir um Centro de Convivência destinado à recepção e oferecimento de serviços ao público idoso de forma a proporcionar um ambiente de socialização, integração e engajamento entre os usuários. Atividades como saraus literários, encontros com autores e leitores, cursos e demais atividades físicas, recreativas (a depender do espaço disponibilizado para tal), culturais e associativas que possam ser oferecidas para tal público. UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 160 2.2 ESTATUTO DO IDOSO O Estatuto do Idoso regulamenta as prioridades estabelecidas para o idoso, e estabelece prioridades para a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Em seu artigo 3º, inciso VII, aborda sobre o estabelecimento de mecanismos que busquem divulgar informações educativas sobre os aspectos biopsicossociais de envelhecimento. Além disso, aborda sobre os direitos fundamentais, divididos entre o direito à vida e também sobre o direito à liberdade, respeito e dignidade. Aborda ainda, sobre o direito à saúde, educação, cultura, esporte, lazer, entreoutros (BRASIL, 2003). No que se refere às políticas, o Estatuto do Idoso aborda a Política de Atendimento ao Idoso. Dentro dessas políticas de atendimento, destaca-se as “políticas de serviços especiais de prevenção e atendimento às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão” (BRASIL, 2003, s.p.). Pensando as bibliotecas, o trabalho bibliotecário e as estratégias de aplicação do referido Estatuto, pode-se, por exemplo, disponibilizar uma linha segura para denúncias de maus-tratos dentro da biblioteca. Além disso, realizar cursos para formação dos idosos sobre abusos, violências e proteção jurídica- social. Outra ressalva poderia ser a realização de parcerias ou convênios junto às entidades assistenciais para o oferecimento de serviços para pessoas idosas, tais como o atendimento psicológico, assistência jurídica, atendimento médico, entre outros. Importante também que a biblioteca esteja atenta às instalações físicas oferecidas para o uso por idosos, visto que estas devem estar em condições adequadas para ser habitadas, estarem higienizadas, ter salubridade e segurança (BRASIL, 2003). 2.3 POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE DA PESSOA IDOSA No Brasil, o idoso surgiu como uma prioridade de Políticas Públicas de Saúde somente no ano de 2006 no Pacto pela Vida, que auxiliou na promulgação da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSI) (MARIN; PANES, 2015). A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa foi aprovada pela Portaria nº 2.538, de 19 de outubro de 2006. A finalidade de tal Política é realizar a recuperação, manutenção e promoção da autonomia e independência de sujeitos idosos, direcionando mediadas de saúde de ordem coletiva e individual para tal público. O público-alvo desta Política é a população com ou mais de 60 anos. Enquanto diretrizes, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa contempla: TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 161 I. Promover o envelhecimento ativo e saudável. II. Atenção integral, integrada à saúde da pessoa idosa. III. Estimular ações intersetoriais, com o objetivo de integralizar a atenção à pessoa idosa. IV. Prover com recursos que assegurem a qualidade da atenção à saúde da pessoa idosa”. V. Estimular a participação e fortalecimento do controle social. VI. Formar e educar de forma permanente os profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) na área de saúde da pessoa idosa. VII. Promover a divulgação e informação sobre a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa para gestores, profissionais de saúde e usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). VIII. Promoção de cooperação nacional e internacional das experiências na atenção à saúde da pessoa idosa. IX. Apoio ao desenvolvimento de estudos e pesquisas (BRASIL, 2006). 2.4 PENSANDO O IDOSO E O ACESSO ÀS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO (TICs) Os estudos sobre políticas públicas de inclusão digital buscam, em sua maior parte, priorizar os aspectos econômicos vinculados aos deveres do Estado. Para Morato (2018, s.p.), isso constitui um dado real de uma sociedade heterogênea na qual a oportunidade de ascensão social por meio da educação frequentemente esbarra em limitações relativas não apenas ao acesso, mas à possibilidade de permanência nas instituições de ensino que deveriam efetivar as oportunidades a um mercado de trabalho cada vez mais excludente em face das rodadas tecnológicas – e as instituições financeiras constituem um exemplo adequado – que inviabilizam a inserção dos jovens que não apresentem a formação esperada e, com isso, os condenam ao desemprego ou ao subemprego. Nesse sentido, pensar a inclusão do idoso na sociedade da informação por intermédio da sua inclusão digital é importante para a garantia de direitos desses cidadãos. No imaginário social, ainda há o pensamento de que o idoso não pertence mais à sociedade devido ao fato de não trazer mais rendimentos para o Estado via força de trabalho. No entanto, não se pode esquecer que a sociedade contemporânea só é possível graças àqueles que trabalharam para construir o que se tem hoje (MORATO, 2018). Pensando no acesso à informação básica para subsistência e à própria qualidade de vida, não se pode permitir a exclusão digital dos idosos para que estes não fiquem vulneráveis às informações falsas que podem podar seu pleno exercício crítico de cidadania. Na Constituição Federal, está estabelecido que são deveres do Estado e da sociedade ampararem os idosos e fornecerem a eles tais condições de plena existência (MORATO, 2018). UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 162 Na profissão bibliotecária, é imprescindível garantir o acesso do idoso à informação (seja em forma digital, impressa, audiovisual etc.) que ele precisa. Dessa forma, uma opção para a biblioteca é oferecer cursos sobre noções básicas de informática, sendo esta uma das ações que podem ser realizadas para que a pessoa idosa possa procurar a informação relevante para ela na internet, assim como se conectar com amigos e familiares via acesso remoto. Pensando nas políticas públicas, estas devem oferecer possibilidades para que o sujeito participe “ativamente dos processos de inteligência coletiva que representam o principal interesse coletivo do ciberespaço” e, com isso, favorecer a ‘autonomia das pessoas ou grupos envolvidos’” (LÉVY, 1999, p. 238). A perda de autonomia da pessoa idosa não está presente somente no plano físico, mas também tecnológica, uma vez que depende de familiares, amigos e cuidadores para lhe auxiliar no uso da tecnologia. Dessa forma, o idoso passa a sofrer com a exclusão digital, visto que não consegue compreender adequadamente as tecnologias da informação (MORATO, 2018). Para Morato (2018), a exclusão digital do idoso é semelhante ao analfabetismo, uma vez que traz dificuldades para a inserção e socialização desse idoso no cotidiano, assim como interfere nos seus momentos de lazer e convívio social, visto que pode trazer limitações para que seja um sujeito ativo dentro do contexto que está inserido. Há, no entanto, exemplos de estratégias realizadas para que o idoso tenha aperfeiçoamento para fazer parte da sociedade da informação. Aqui serão destacadas duas ações, a saber: a) Projeto Silver-Code – Esta ação é financiada pela União Europeia e “visa melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas no nosso mundo digital através do desenvolvimento de conhecimentos e competências para aproveitar plenamente a tecnologia digital” (SILVER-CODE, 2019, s.p.). Além disso, permitiu o debate sobre as medidas adequadas à inclusão dos idosos, tais como análise das razões para a exclusão, o ensino e também os equipamentos necessários (MORATO, 2018). FIGURA 12 – PROJETO SILVER-CODE FONTE: <https://www.silvercodeproject.eu/fls/img/logos/home.png>. Acesso em: 10 jul. 2019. TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 163 b) Mapa da Inclusão Digital – Elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, este Mapa realiza a análise, por região do país, da exclusão de idosos ao acesso às tecnologias da informação no ano de 2012 (NERI, 2012; MORATO, 2018). Você sabia que o Projeto Silver-Code oferece curso para pessoas idosas de competências digitais e programação básica? O curso é distribuído em três módulos, a saber: Módulo 1 – Competências digitais básicas Módulo 2 – Programação web básica Módulo 3 – O pensamento computacional & competências transversais Módulo 4 – Fundamentos da programação de computadores Módulo 5 – Codificação no quotidiano Módulo 6 – Glossário Ficou curioso? Acesse o site: https://www.silvercodeproject.eu/pt/course.html DICAS 3 POLÍTICAS PÚBLICAS PELA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL: MOVIMENTOS SOCIAIS NEGROSE A INFLUÊNCIA EM POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA A luta do Movimento Negro começou desde que os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil (PEREIRA, 2007; SILVA, 2016). O Movimento Negro é constituído por um “conjunto de entidades, organizações e indivíduos que lutam contra o racismo e por melhores condições de vida para a população negra, seja através de práticas culturais, de estratégias políticas, de iniciativas educacionais etc.” (PEREIRA, 2007, p. 235). Com a Proclamação da República (1889-1937) e o Golpe do Estado Novo começou a primeira fase do Movimento Negro que buscava retirar os libertos, ex- cativos e seus descendentes da linha de marginalização instituída pela República, visto que, após abolição da escravatura, a população negra não obteve nenhum ganho material ou simbólico (DOMINGUES, 2007; SILVA, 2016). Como forma de articulação, foram criadas irmandades negras e sociedades beneficentes, de forma a promover a sociabilização e engajamento político de tais comunidades. Dessa forma, os movimentos sociais negros mobilizaram-se e criaram dezenas de grêmios, clubes e associações com o intuito de dar assistência e ser recreativo e/ ou cultural para estas populações (DOMINGUES, 2007; SILVA, 2016). Passando UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 164 pelo período do Estado Novo até à sociedade brasileira atual, os Movimentos Negros se articularam para lutar por direitos básicos como saúde, moradia, emprego digno, educação, equidade social e econômica, respeito, entre outros. Outro ponto de mobilização do movimento negro esteve na: [...] Marcha de Zumbi [que] foi, em primeiro lugar, uma estratégia do movimento negro para deslocar o foco das atenções da data da Abolição da Escravatura, 13 de maio, para o dia 20 de novembro, em razão do Dia Nacional da Consciência Negra. Em segundo, esse evento contou com uma forte mobilização popular, sendo estimada a participação de 30 mil pessoas na Marcha, o que propiciou um destaque incomum à temática racial no cenário público brasileiro. Por fim, este evento teve a formalização de uma proposta com a entrega do "Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial" ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. O documento apresentava um diagnóstico da desigualdade racial e da prática do racismo, com ênfase nos temas de educação, saúde e trabalho (LIMA, 2010, s.p.). Entre as ações, legislação, planos e políticas públicas que foram reivindicadas pela luta do Movimento, estão: a) A introdução da História do Negro no Brasil nos currículos escolares com a criação da Lei Federal nº 10.639/03 que trata da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio de instituições públicas e privadas brasileiras (BRASIL, 2003c). b) A Lei Federal nº 12.711/2012, chamada de Lei de Cotas, que permitiu o acesso de alunos autodeclarados negros às universidades brasileiras (SILVA, 2016). c) A criação de Núcleos de Estudos Afro-brasileiros (NEABs) em universidades públicas, privadas e comunitárias do país (SILVA, 2016). d) No que concerne ao âmbito internacional, uma das conquistas do movimento negro foi a realização, em 2001, da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU, na cidade de Durban, na África do Sul. Esta conferência permitiu explicitar as questões relacionadas à população negra e as formas de racismo, preconceito e discriminação sofridos por elas (SILVA, 2016). e) Houve também, a criação de Planos Nacionais para a Implementação da Lei Federal nº 10.639/03, a criação das Diretrizes Curriculares Nacionais sobre a História e Cultura Africana e Afro-brasileira, a criação das Diretrizes Curriculares Quilombolas (2014), a criação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (2004), entre outras (SILVA, 2016). f) Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) via Lei 10.678/2003. g) Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) via Decreto nº 4.885, novembro de 2003. h) Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (SECOMT) que conduzia, elaborava e monitorava políticas para as comunidades tradicionais. TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS, MINORIAS E MOVIMENTOS SOCIAIS: CONHECENDO AS POLÍTICAS PÚBLICAS E AS POLÍTICAS INFORMACIONAIS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO 165 i) Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR) via Decreto nº 4.886, novembro de 2003. A seguir, abordaremos algumas políticas públicas oriundas, entre outros motivos, pelas reivindicações dos movimentos sociais negros brasileiros. Ressalta- se que o movimento negro busca a criação de políticas públicas, de leis, de meios de comunicação em massa e imprensa que representem a população afro-brasileira e outros fatores que valorizem a história e a memória das populações africanas e afrodescendentes do Brasil. Além disso, tal movimento reivindica melhores condições de vida, a erradicação do racismo e o fortalecimento identitário desta população (SILVA, 2016). 3.1. SECRETARIA ESPECIAL DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE (SEPPIR) E AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA POPULAÇÃO NEGRA E QUILOMBOLA A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) foi um órgão do Poder Executivo brasileiro instituído em março de 2003 e extinto em outubro de 2015. Possuía como finalidade promover a igualdade e a proteção dos grupos étnico-raciais pertencentes à sociedade brasileira que são afetados pela discriminação e outras formas de intolerância. Entre as populações que sofrem racismo, destaca-se a população negra, indígena, judia, entre outras, que, em geral, encontram-se à margem da sociedade. Entre as políticas públicas implementadas com o foco na promoção da igualdade racial promovidas pela SEPPIR, elenca-se: a) I Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (I CONAPIR), cujo resultado trouxe a orientação para elaboração do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, legitimado pela democracia e controle social. b) Política para Remanescentes de Quilombos e o Programa Brasil Quilombola c) Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR) instituída pelo Decreto n.º. 4.886, novembro de 2003 possui como objetivo geral a redução das desigualdades étnico-raciais no Brasil, especialmente para a população negra, mediante a realização de ações executadas a médio, curto e longo prazos, visando atender às demandas imediatas e áreas prioritárias de atuação. Defende os direitos das populações negras e indígenas, afirma o caráter pluriétnico da sociedade brasileira; busca a implementação de ações que proíbam ações discriminatórias de populações negras e indígenas em todos os setores da sociedade; defende a ação afirmativa e promove a eliminação de quaisquer formas de discriminação e desigualdade raciais, entre outros fatores (BRASIL, 2003d). d) Criação de Grupo de Trabalho em Saúde da População Negra, de assessoramento à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (WERNECK, 2010). UNIDADE 3 | DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INFORMAÇÃO NO CONTEXTO NACIONAL ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DO LIVRO, DA LEITURA E PARA BIBLIOTECAS 166 e) O documento intitulado “Política Nacional de Saúde da População Negra: uma questão de equidade” foi criado em 2001, a partir da realização do Workshop Interagencial de Saúde da População Negra, com a participação de representantes de todas as agências das Nações Unidas presentes no Brasil e especialistas em saúde da população negra (WERNECK, 2010). f) Decreto nº 4.885, novembro de 2003 dispõe sobre a composição, estruturação, competências e funcionamento do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), um órgão colegiado de caráterconsultivo e integrante da estrutura básica da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR). Sua função é propor políticas de promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra e outros segmentos raciais e étnicos da população brasileira (BRASIL, 2003e). g) Criada em 2006 a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra com a finalidade de enfrentar dois problemas: o racismo e a mortalidade na população negra (WERNECK, 2010). Para apreender um pouco mais sobre políticas públicas e desigualdades raciais, recomenda-se a leitura do livro: O livro apresenta um conjunto de estudos enfocando diversos aspectos da questão racial no Brasil. Inicia com um enfoque histórico (capítulo 1), que analisa a formação do mercado de trabalho brasileiro à luz do passado escravista e da transição para o trabalho livre. Na sequência, há um capítulo (2) sobre a discriminação racial e a ideologia do branqueamento que ganham força, sobretudo a partir da abolição. O terceiro capítulo trata do tema racial tendo em vista as diferentes abordagens sobre a questão da mobilidade social, proporcionando um rico quadro da trajetória dos estudos relacionados ao tema. Os capítulos 4 e 5 tratam dos dados mais recentes sobre as desigualdades raciais, extraídos da Pnad: um sobre os aspectos demográficos outro sobre os diferencias de renda. Já o capítulo 6 trata das políticas públicas de combate à desigualdade racial no Brasil, seus limites e abrangência. Finalmente, no capítulo 7 são apresentadas algumas conclusões com base no que foi discutido nos capítulos anteriores. FONTE: THEODORO, Mário; GUERREIRO, Luciana Jaccoud Rafael; SOARES, Osório Sergei. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. Brasília: IPEA, 2008. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/Livro_ desigualdadesraciais.pdf. Acesso em: 10 ago. 2019. DICAS Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará você ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 167 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Dentre as populações existentes que são consideradas minorias sociais, embora não quantidade, mas sim em aspectos representativos, estão as populações negras e população idosa. • Existem as políticas públicas informacionais que visam atender às demandas dessas populações que se encontram à margem da sociedade brasileira e que precisam ser devidamente atendidas pelos serviços e produtos de informação disponibilizados em bibliotecas e demais unidades informacionais. • As políticas públicas existem para o atendimento de demandas da sociedade, e a população idosa é uma delas, pois esta necessita que suas demandas de informação sejam supridas para melhorar sua qualidade de vida. • A população idosa terá um aumento de 24,5% até o ano de 2060. • Os desafios que permeiam as vivências dos idosos estão vinculados à solução de problemas como a seguridade social, a dependência, a promoção do envelhecimento ativo e protagonismo social dos idosos que estão em conjunto com os direitos sociais fundamentais, como a noção de cidadania. • Existe uma cronologia de políticas públicas destinadas às pessoas idosas. Dentre as primeiras políticas criadas com ênfase na população idosa está o documento “Políticas para a 3ª Idade – Diretrizes Básicas” e “Programa de Assistência ao Idoso (PAI)” realizado pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). • Dentre as políticas públicas destinadas à população idosa encontra-se: Política Nacional do Idoso; Estatuto do Idoso, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. • Política Nacional do Idoso possui a finalidade de assegurar os direitos sociais do idoso (BRASIL, 1994), de forma a criar meios e condições que promovam sua autonomia, sua integração e sua participação na sociedade de forma efetiva. • Política Nacional da Saúde do Idoso estabelece as diretrizes essenciais que norteiam a definição ou a redefinição dos programas, planos, projetos e atividades do setor na atenção integral às pessoas em processo de envelhecimento e à população idosa. 168 • Foi por intermédio da Política Nacional do Idoso que houve a regulamentação do atendimento de idosos em espaços que não sejam aqueles na modalidade asilar, os quais são denominados de Centros de Convivência. • O Estatuto do Idoso regulamenta as prioridades estabelecidas para o idoso, e estabelece prioridades para a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. • Pensando no acesso à informação básica para subsistência e à própria qualidade de vida, não se pode permitir a exclusão digital dos idosos para que estes não fiquem vulneráveis às informações falsas que podem podar seu pleno exercício crítico de cidadania. • A perda de autonomia da pessoa idosa não está presente somente no plano físico, mas também tecnológica, uma vez que depende de familiares, amigos e cuidadores para lhe auxiliar no uso da tecnologia. Dessa forma, o idoso passa a sofrer com a exclusão digital, visto que não consegue compreender adequadamente as tecnologias da informação. • Existem políticas públicas criadas para a inclusão dos idosos na sociedade da informação, tais como Projeto Silver Code e o Mapa da Inclusão Digital. • As políticas de promoção da igualdade racial derivam das lutas dos movimentos sociais negros para acesso a direitos básicos, tais como, saúde, educação, trabalho digno, igualdade social, entre outros. • Dentre as políticas públicas destinadas à população negra, destacam-se: Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (SECOMT), entre outras. • A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) foi um órgão do Poder Executivo brasileiro que tinha como finalidade promover a igualdade e a proteção dos grupos étnico-raciais pertencentes à sociedade brasileira que são afetados pela discriminação e outras formas de intolerância. • A Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR) possui como objetivo geral a redução das desigualdades étnico-raciais no Brasil, especialmente para a população negra, mediante a realização de ações executadas a médio, curto e longo prazos, visando atender às demandas imediatas e áreas prioritárias de atuação • O Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) é um órgão colegiado de caráter consultivo e integrante da estrutura básica da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR). 169 AUTOATIVIDADE 1 A partir da leitura das opções abaixo e com base no tópico estudado, identifique com V ou F as questões que se referem às políticas públicas para pessoas idosas: a) ( ) A implantação de uma política nacional para pessoas idosas só foi acontecer em 1994, antes dela a proteção desta população era mencionada em alguns artigos do Código Civil, Código Pena, Código Eleitoral e outros. b) ( ) Foi em 1986 que foram realizados três Seminários regionais que visavam diagnosticar a questão do envelhecimento a nível nacional e apresentar as linhas básicas de políticas de assistência e promoção social de pessoas idosas. c) ( ) O primeiro programa criado para a pessoas idosas foi o Programa de Assistência ao Idoso (PAI). d) ( ) Em 1994, foi aprovada a Lei nº 8.842/1994, que estabelece a Política Nacional do Idoso (PNI), posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 1.948/96, e cria o Conselho Nacional do Idoso. 2 Conforme estudado, a Política Nacional da Saúde do Idoso pela Portaria nº 1.395/1999, do Ministério da Saúde (MS), que estabelece as diretrizes essenciais que norteiam a definição ou a redefinição