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Alcalóides
Uma das maiores e mais diversas classes de metabólitos secundários de origem natural, com ampla relevância farmacológica e terapêutica. Presente em plantas, fungos, bactérias e animais, os alcalóides fascinam cientistas e farmacêuticos há séculos.
FARMACOGNOSIA
QUÍMICA DE PRODUTOS NATURAIS
Alcalóides – Conceito
Os alcalóides constituem um grupo heterogêneo de substâncias orgânicas de origem natural, caracterizadas pela presença de nitrogênio em um anel heterocíclico e pela natureza básica. São biossinteticamente derivados de aminoácidos e apresentam distribuição restrita nos organismos vivos.
Origem Natural
Derivados de aminoácidos; encontrados em plantas, bactérias, fungos e animais
Estrutura Química
Nitrogênio em heterociclo; natureza básica; peso molecular entre 100 e 900
Diversidade
Grande número de substâncias descritas; grupo não homogêneo química ou fisiologicamente
Atividade
Apresentam marcante atividade farmacológica; distribuição restrita nos seres vivos
Biossíntese – L-Ornitina
A maioria dos alcalóides é sintetizada a partir de aminoácidos precursores. A L-Ornitina origina três importantes classes de alcalóides, enquanto alcalóides terpênicos, esteroidais e purínicos possuem diversos outros precursores biossinteticamente distintos.
L-Ornitina
Aminoácido precursor fundamental
Pirrolizidínicos
Ex.: Retronecina — núcleo bicíclico
Pirrolidínicos
Ex.: Higrina — anel de 5 membros
Tropânicos
Ex.: Hiosciamina — importante atividade anticolinérgica
Biossíntese – L-Lisina e L-Triptofano
A L-Lisina e o L-Triptofano são aminoácidos precursores de classes alcaloídicas estruturalmente distintas e farmacologicamente relevantes. O triptofano, em particular, origina os importantes alcalóides indólicos encontrados em diversas plantas medicinais.
L-Lisina
Quinolizidínicos
Ex.: Lupinina — presente no tremoço
Indolizidínicos
Anel indolizidínico — base bicíclica nitrogenada
L-Triptofano
Indólicos
Ex.: Ajmalicina — atividade anti-hipertensiva
Quinolínicos
Derivados de indol com condensação com anel piridínico
Biossíntese – Fenilalanina/Tirosina e Histidina
A L-Fenilalanina e a L-Tirosina são os principais precursores dos alcalóides isoquinolínicos, um dos maiores grupos alcaloídicos conhecidos. Já a L-Histidina origina os alcalóides imidazólicos, como a pilocarpina.
L-Fenilalanina / L-Tirosina
Isoquinolínicos — Ex.: Papaverina, morfina, codeína. Grupo de enorme relevância terapêutica e farmacológica.
L-Histidina
Imidazólicos — Ex.: Pilocarpina, usada no tratamento do glaucoma. Anel imidazólico de 5 membros.
Biossíntese – Ácido Antranílico e Ácido Nicotínico
O Ácido Antranílico e o Ácido Nicotínico são precursores de classes alcaloídicas de grande importância medicinal e econômica. A nicotina, derivada do ácido nicotínico, é um dos alcalóides mais estudados do mundo.
Ácido Antranílico
Quinolínicos
Ex.: Quinina — antimalárico clássico, extraído da quina
Quinazolínicos
Núcleo benzênico fundido com anel pirimidínico
Ácido Nicotínico
Piridínicos
Ex.: Nicotina — presente em Nicotiana tabacum, potente agonista nicotínico
Principais Estruturas dos Alcalóides
Os alcalóides apresentam enorme diversidade estrutural. Os principais núcleos heterocíclicos nitrogenados encontrados são a base para a classificação química desse grupo. Cada núcleo confere propriedades farmacológicas características.
Propriedades Físico-Químicas
As propriedades físico-químicas dos alcalóides estão intimamente relacionadas à presença ou ausência de oxigênio na molécula e ao estado de protonação do nitrogênio. Essas características determinam solubilidade, estabilidade e aplicações farmacêuticas.
Alcalóides Oxigenados
Geralmente sólidos cristalinos incolores; muitos são opticamente ativos; maior estabilidade química
Não-Oxigenados
Geralmente líquidos e voláteis — ex.: coniína (cicuta) e nicotina (tabaco)
Base Livre
Instável; solúvel em solventes orgânicos (clorofórmio, éter); pouco solúvel em água
Forma de Sal
Estável; solúvel em água; pouco solúvel em solventes orgânicos — forma usada em medicamentos
Extração de Alcalóides
A extração dos alcalóides baseia-se na solubilidade diferencial dependendo do pH do meio. O controle do pH permite a conversão entre a forma de sal (solúvel em água) e a base livre (solúvel em solventes orgânicos), permitindo separação e purificação eficientes.
Estratégia de Extração
1
Forma de sal → água
Em meio ácido (pH baixo), o nitrogênio se protona formando sal solúvel em água
2
Base livre → solvente orgânico
Em meio básico (pH alto), o alcalóide fica neutro e migra para a fase orgânica
3
Remoção de interferentes
Ceras e gorduras lipofílicas eliminadas com hexano ou éter de petróleo
Materiais e Equipamentos
Evaporador rotativo, funil de separação e material vegetal são ferramentas essenciais na extração de alcalóides.
Detecção de Alcalóides
A detecção qualitativa de alcalóides é realizada com reagentes de precipitação, que formam complexos insolúveis com metais pesados, gerando precipitados de cores características. São utilizados em cromatografia em camada delgada (CCD) e em reações de tubo.
Mayer
Tetraiodomercurato de potássio — precipitado branco ou creme
Dragendorff
Tetraiodobismutato de potássio — precipitado laranja-avermelhado
Bertrand
Ácido silícico-túngstico — precipitado amarelo-esbranquiçado
Bouchardat
Solução de iodo e iodeto de potássio — precipitado marrom
Hager
Solução de ácido pícrico — precipitado amarelo
Classificação dos Alcalóides
Os alcalóides são classificados em três grandes grupos de acordo com a origem biossintética do átomo de nitrogênio. Cada grupo tem características estruturais e farmacológicas distintas.
Verdadeiros
Derivam de aminoácidos; N faz parte de um heterociclo; apresentam atividade farmacológica marcante
Protoalcalóides
Derivam de aminoácidos; N não integra um anel heterocíclico. Ex.: mescalina, efedrina
Pseudoalcalóides
Não derivam de aminoácidos como precursores primários do N. Ex.: cafeína (purínico), alcalóides terpênicos
Classificação por Origem Biossintética
A classificação mais utilizada na farmacognosia baseia-se na origem biossintética do átomo de nitrogênio. Cada aminoácido precursor gera uma família estruturalmente coesa de alcalóides com propriedades farmacológicas relacionadas.
Alcalóides Terpênicos – Pseudoalcalóides
Os alcalóides terpênicos são classificados como pseudoalcalóides pois não derivam biossinteticamente de aminoácidos. O nitrogênio é incorporado tardiamente na estrutura terpênica, a partir do ácido mevalônico via unidades isoprênicas. Podem ser artefatos resultantes da reação de iridóides com amônia.
Monoterpênicos
2 unidades isoprênicas (C10)
Sesquiterpênicos
3 unidades isoprênicas (C15)
Diterpênicos
4 unidades isoprênicas (C20)
Triterpênicos
6 unidades isoprênicas (C30)
Alcalóides Imidazólicos – Pilocarpus jaborandi
Os alcalóides imidazólicos têm distribuição restrita às famílias Rutaceae, Cactaceae e Fabaceae, sendo derivados biossinteticamente da histidina. O gênero Pilocarpus é a principal fonte desses alcalóides, com destaque para a pilocarpina, único composto com real interesse terapêutico.
Espécies de Pilocarpus
P. microphyllus — jaborandi-do-Maranhão
P. jaborandi — jaborandi-do-Pernambuco
P. pennatifolius — jaborandi-do-Paraguai
P. trachypholus — jaborandi-do-Ceará
P. racemosus — jaborandi-de-Guadalupe
Árvore ou arbusto nativo da Amazônia. Muito utilizado pelos povos indígenas.
Pilocarpina: única substância do jaborandi com interesse terapêutico comprovado. Seu uso contra xerostomia (boca seca) é promissor.
Alcalóides Imidazólicos – Pilocarpina
A pilocarpina é instável em pH ácido ou básico, sofrendo isomerização para isopilocarpina (C3-beta), inativa farmacologicamente. Em meio aquoso ocorre hidrólise gerando ácido pilocárpico.
Alcalóides do jaborandi
Pilocarpina, isopilocarpina e pilosina
Isomerização
Pilocarpina (C3-α) → Isopilocarpina (C3-β) em pH ácido ou básico — perde atividade
Hidrólise aquosa
Forma ácido pilocárpico + isopilocarpinaem meio aquoso
Propriedades Farmacológicas da Pilocarpina
A pilocarpina é um potente parassimpatomimético de ação direta, com efeitos muscarínicos predominantes e nicotínicos em doses elevadas. Seu principal uso terapêutico é no tratamento do glaucoma.
Ação Miótica
Contrai os músculos ciliares; facilita a drenagem do humor aquoso no glaucoma crônico; retém a íris no glaucoma agudo
Hipersecreção
Aumenta a secreção salivar, gástrica e sudorípara; broncoconstrição e bradicardia
Efeitos Nicotínicos
Em doses elevadas, a pilocarpina passa a apresentar efeitos nicotínicos sobre gânglios autonômicos
Alcalóides Derivados do Ácido Nicotínico – Nicotina
A nicotina é biossintetizada a partir do ácido aspártico e do gliceraldeído, via ácido nicotínico. É produzida nas raízes de Nicotiana tabacum (Solanaceae) e transportada às folhas, onde acumula em concentrações de até 5%. É o alcalóide majoritário do tabaco, com amplas implicações farmacológicas e toxicológicas.
Alcalóides do tabaco
Nicotina (majoritário), anabasina, anatabina e nornicotina — extraídos das folhas secas
Ações no SNC
Ativa centros respiratórios e êmese; pode causar tremores e convulsões em doses elevadas
Ações periféricas
Age no músculo liso intestinal; aumenta a pressão arterial; possui ação inseticida
Uso farmacêutico
Patches cutâneos para cessação do tabagismo; originalmente usada contra enxaqueca
Alcalóides Isoquinolínicos – Fenilalanina e Tirosina
A grande maioria dos alcalóides derivados da L-Fenilalanina e da L-Tirosina apresenta o núcleo tetraisoquinolínico, formado pela condensação de dois equivalentes de dopamina. Esse grupo inclui alguns dos fármacos mais importantes da farmacologia clínica.
Alcalóides Isoquinolínicos – Subclasses
A diversidade farmacológica dos alcalóides isoquinolínicos é extraordinária: de analgésicos potentes a alucinógenos, vasod ilatadores e relaxantes musculares. Cada subclasse estrutural apresenta mecanismo de ação específico.
1
Arilalquilaminas
Efedrina (pseudoalcalóide) — simpatomimético, anorexígeno; uso proibido pela FDA
2
Tetraisoquinolínicos simples
Mescalina (protoalcalóide) — alucinógeno potente; presente no cacto peiote
3
Benzilisoquinolínicos
Boldina, hidrastina, papaverina (vasodilatador), curare (bloqueador neuromuscular), morfina e codeína
4
Fenetilisoquinolínico
Colchicina — usado no tratamento da gota; inibe polimerização da tubulina
5
Isoquinolínico monoterpênicos
Emetina — amebicida; extraída da ipecacuanha (Carapichea ipecacuanha)
Efedrina – Arilalquilamina de Destaque
A efedrina é o principal alcalóide de Ephedra sp. (Ephedraceae), utilizada na medicina chinesa há mais de 5.000 anos. Classificada como pseudoalcalóide (protoalcalóide), é extraída dos ramos com rendimento de 0,5 a 2%. Seu uso como redutor de apetite levou à proibição pelo FDA nos EUA por risco cardiovascular.
Espécies de Ephedra
E. equisetina
E. sinica
E. intermedia
E. gerardiana
Também produz (+)-pseudoefedrina, usada como descongestionante nasal em formulações farmacêuticas.
Atenção: A efedrina possui propriedades anorexígenas e foi amplamente comercializada para emagrecimento. O uso indiscriminado causa sérios riscos cardiovasculares — seu uso é proibido pelo FDA.
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