Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

ESTÁGIO SUPERVISIONADO I 
UERJ CEDERJ 
ALUNA: Kesia Costa de Oliveira Azevedo** 
POLO: NITERÓI 
 
 
 
RELATÓRIO DE CAMPO – OBSERVAÇÃO ESCOLAR 
CIEP 051 MUNICIPALIZADO ANITA GARIBALDI 
SÃO GONÇALO – RJ 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
O presente relatório tem como objetivo apresentar uma análise sistemática das 
observações realizadas no CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, localizado no bairro 
Jardim Catarina, em São Gonçalo – RJ. A escola está inserida em um contexto marcado por 
significativa vulnerabilidade socioeconômica, precariedade infraestrutural e exposição 
constante a situações de violência urbana, fatores que exercem influência direta sobre o 
processo educativo. 
 
A observação foi conduzida com base em uma perspectiva qualitativa, utilizando-se de 
registros em diário de campo, entrevistas informais e análise documental. O estudo buscou 
compreender as dinâmicas escolares em suas múltiplas dimensões: condições materiais, 
organização do trabalho pedagógico, perfil da clientela, práticas curriculares e os impactos 
do território no cotidiano escolar. 
 
A relevância deste relatório reside na possibilidade de dar visibilidade aos desafios 
enfrentados por escolas em contextos de alta vulnerabilidade, assim como destacar as 
estratégias de resistência e adaptação desenvolvidas pela comunidade escolar. 
 
 
 
CONTEXTO TERRITORIAL E SUAS IMPLICAÇÕES 
 
O Jardim Catarina configura-se como uma das regiões mais vulneráveis da Região 
Metropolitana do Rio de Janeiro. Dados recentes do CESeC (2023) e do Instituto Fogo 
Cruzado (2023) apontam a localidade como uma das mais afetadas pela violência armada, 
com frequentes operações policiais e confrontos entre grupos armados. Essas condições 
resultam em interrupções recorrentes de serviços públicos essenciais, incluindo o 
funcionamento das escolas. 
 
Nesse cenário, o CIEP 051 Anita Garibaldi assume a função de um espaço de proteção e 
acolhimento, embora suas atividades sejam constantemente interrompidas pela dinâmica 
violenta do território. A insegurança impacta desde o deslocamento de alunos e 
profissionais até a realização de atividades pedagógicas regulares. 
 
A comunidade do entorno enfrenta desafios históricos de acesso a direitos básicos, como 
saúde, saneamento e segurança pública, o que reflete diretamente no perfil dos estudantes 
e nas demandas apresentadas à escola. 
 
 
 
CONDIÇÕES MATERIAIS E INFRAESTRUTURA 
 
A infraestrutura do CIEP 051 reflete um estado de precariedade estrutural crônica. As salas 
de aula apresentam problemas graves: portas danificadas ou ausentes, janelas quebradas 
ou sem vedação, o que compromete a segurança, a acústica e a climatização dos 
ambientes. Em dias de calor intenso, as salas tornam-se insalubres, afetando a 
concentração e a permanência de alunos e professores. 
 
Os banheiros demandam manutenção constante e reposição de materiais básicos como 
papel higiênico e sabão. A quadra esportiva, embora utilizada para aulas de Educação 
Física e eventos comunitários, apresenta desgaste acentuado no piso e nas tabelas de 
basquete. Espaços externos com potencial pedagógico e recreativo encontram-se 
subutilizados em função do abandono e da falta de manutenção. 
 
É importante ressaltar que a degradação do ambiente físico também incide sobre a 
autoimagem dos estudantes, que frequentemente associam a precariedade da escola a 
uma forma de abandono por parte do poder público. Em conversas informais, alunos 
demonstraram consciência crítica sobre as desigualdades sociais, comparando as 
condições de sua escola com instituições de outras regiões. 
 
 
 
ESTRUTURA ORGANIZACIONAL E DINÂMICA DO TRABALHO** 
 
A gestão escolar demonstra esforços significativos para manter o funcionamento da 
unidade, mesmo diante da escassez de recursos humanos e materiais. A equipe gestora 
busca estabelecer canais de diálogo com professores, familiares e alunos, ainda que a 
comunicação seja frequentemente interrompida por situações de crise no entorno. 
 
A rotatividade docente é elevada, especialmente em disciplinas como Ciências e 
Matemática, o que gera instabilidade no processo de ensino-aprendizagem. Muitas turmas 
permanecem sem professores regulares por longos períodos, sobrecarregando os docentes 
existentes que precisam assumir turmas extras ou desenvolver atividades coletivas para 
suprir essas lacunas. 
 
Nas reuniões pedagógicas observadas, identificou-se uma postura colaborativa entre os 
profissionais, com discussões que ultrapassam o desempenho acadêmico e abarcam as 
dimensões socioemocionais dos estudantes. O conselho de classe mostrou-se um espaço 
de escuta e construção coletiva, ainda que limitado pelas condições externas de violência e 
pela sobrecarga de trabalho. 
 
A gestão demonstra preocupação com a formação continuada dos professores, 
organizando momentos de estudo e planejamento coletivo, porém esbarra na falta de 
recursos e no tempo escasso devido às demandas emergenciais do cotidiano escolar. 
 
 
 
PERFIL DA CLIENTELA ESCOLA 
 
Os alunos do CIEP 051 são, em sua maioria, oriundos de famílias de baixa renda, com 
históricos de desemprego, moradia precária e acesso limitado a políticas públicas. Muitos 
apresentam maturidade precoce em função das responsabilidades assumidas no âmbito 
doméstico e comunitário, como cuidado com irmãos mais novos e contribuição no 
orçamento familiar. 
 
Observou-se que os estudantes possuem vínculos afetivos sólidos com a escola, que é 
percebida como um refúgio em relação às ruas. No entanto, demonstram dificuldades de 
aprendizagem associadas a fatores emocionais e à exposição a situações de violência. Em 
dias de tiroteio, é comum a queda no rendimento e a dificuldade de concentração, mesmo 
após a normalização das atividades. 
 
O envolvimento das famílias é limitado, o que não se deve ao desinteresse, mas a 
obstáculos concretos como jornadas exaustivas de trabalho, dificuldade de locomoção e 
medo de circular no bairro em horários de risco. A escola desenvolve estratégias 
alternativas de comunicação, como bilhetes, grupos de WhatsApp e reuniões em horários 
flexíveis, para manter o contato com os responsáveis. 
 
Muitos estudantes relataram em conversas informais que a escola representa um espaço de 
paz em meio ao contexto violento do território, valorizando especialmente as atividades 
extracurriculares e os momentos de interação com os professores. 
 
 
 
CURRÍCULO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS 
 
O currículo adotado segue as diretrizes da BNCC (2018), porém sua implementação é 
constantemente adaptada às realidades locais. Os professores demonstram notável 
capacidade de improvisação e criatividade, elaborando materiais didáticos alternativos e 
estratégias de engajamento baseadas em metodologias ativas. 
 
Foram observadas práticas como rodas de conversa, projetos interdisciplinares, uso de 
músicas e vídeos, produção de murais e atividades coletivas. Essas iniciativas visam não 
apenas ao cumprimento de conteúdos, mas também ao fortalecimento de vínculos e ao 
desenvolvimento socioemocional. Os professores demonstram sensibilidade para acolher 
as demandas afetivas dos estudantes, muitas vezes priorizando o acolhimento em 
detrimento do conteúdo formal. 
 
Eventos escolares, como feiras pedagógicas e apresentações culturais, são organizados 
com frequência e recebem alta adesão dos alunos, reforçando o sentido de pertencimento e 
valorização do espaço escolar. Foi observada uma feira de ciências onde os estudantes 
apresentaram experimentos com materiais reciclados, demonstrando engajamento e 
criatividade apesar das limitações de recursos. 
 
A avaliação é compreendida como processo contínuo, com ênfase no desenvolvimento 
integral dos estudantes. Os registros docentes revelam preocupação em considerar não 
apenas os aspectos cognitivos, mas também as trajetórias individuais e os contextos sociais 
dos alunos. 
 
 
 
IMPACTOS DA VIOLÊNCIA URBANA NO PROCESSO EDUCACIONAL 
 
A violência armada é o fator externo que mais incide sobre o cotidiano da escola.Confrontos e operações policiais resultam em suspensões de aula, evasão, absenteísmo e 
atraso no cronograma letivo. Professores relatam a necessidade de interromper atividades 
repentinamente e liberar os alunos em situações de risco iminente. 
 
Alunos e profissionais expressam medo constante, especialmente no deslocamento 
casa-escola. Muitos estudantes relatam preferir faltar às aulas a correr riscos em dias de 
confronto. Esse contexto gera um clima de ansiedade e insegurança que compromete o 
processo de ensino-aprendizagem e a saúde mental de todos os envolvidos. 
 
Foram registrados relatos de professores que precisam se abrigar com os alunos em 
corredores internos durante tiroteios, criando protocolos informais de segurança. Essas 
situações traumáticas deixam marcas psicológicas profundas e afetam o clima escolar por 
longos períodos, mesmo após o cessar dos confrontos. 
 
A violência também impacta a frequência dos profissionais, muitos dos quais residem em 
outras localidades e enfrentam dificuldades de acesso à escola em dias de operações 
policiais. Essa instabilidade contribui para o acúmulo de conteúdo não trabalhado e a 
descontinuidade do processo pedagógico. 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES 
 
O CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi constitui um exemplo emblemático de como a 
escola pública em contextos vulneráveis assume funções que ultrapassam a dimensão 
estritamente educativa, tornando-se um espaço de acolhimento, proteção e resistência. A 
atuação dos profissionais é digna de nota, demonstrando resiliência e comprometimento 
com a educação e o bem-estar dos estudantes. 
 
No entanto, é urgente a implementação de políticas públicas específicas para escolas em 
territórios de alta vulnerabilidade. A realidade observada evidencia que as soluções 
precisam ser estruturais e intersetoriais, envolvendo não apenas a educação, mas também 
a segurança pública, a assistência social e a saúde. 
 
Recomendações: 
 
1. Investimento em infraestrutura: Reforma urgente das salas de aula, banheiros e espaços 
externos, com atenção especial à acessibilidade e condições básicas de funcionamento; 
 
2. Ampliação do quadro de profissionais: Contratação de professores efetivos, 
especialmente para as disciplinas de Ciências e Matemática, e redução da rotatividade 
docente por meio de incentivos profissionais; 
 
3. Apoio psicossocial:Implantação de programa permanente de acompanhamento 
psicológico para alunos e funcionários, com atenção aos traumas decorrentes da exposição 
à violência; 
 
4.Segurança no entorno: Desenvolvimento de protocolos de segurança em parceria com 
órgãos públicos e ações integradas para garantir o acesso seguro à escola; 
 
5. Projetos pedagógicos contextualizados:Fomento a práticas educativas que dialoguem 
com a realidade local, valorizando os saberes da comunidade e fortalecendo a identidade 
cultural; 
 
6. Formação continuada: Oferta de formação específica para professores atuantes em 
contextos de vulnerabilidade, com enfoque em práticas pedagógicas resilientes e 
acolhedoras. 
 
A escola resiste e cumpre seu papel social com dignidade, mas necessita de suporte efetivo 
e continuado para garantir o direito à educação de qualidade previsto na Constituição 
Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente. 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Brasília: MEC, 
2018. 
 
CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania. Monitor da Violência no Estado do 
Rio de Janeiro. 2023. 
 
FOGO CRUZADO. Relatório Anual da Violência Armada no Grande Rio. 2023. 
 
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO GONÇALO. Documentos 
Institucionais. 2023.

Mais conteúdos dessa disciplina