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TUTORIA 6 Helena Luiza Bez Batti Teles – T18 Módulo II – Manifestações abdominais Problema 06: “Pedras no caminho da minha vida”: - ID: A.L.C, 44 anos, sexo feminino, casada, natural e procedente de Cuiabá. - Queixa principal: Dor em cólica no hipocôndrio direito. - HDA: Procurou atendimento ambulatorial na Clínica Integrada do Univag relatando que há dois anos vem apresentando dor em cólica localizada no hipocôndrio direito que irradia para o epigástrio e para as costas toda vez que se alimenta de comidas gordurosas, tais como ovo frito, banana frita e bacon. No início a dor passava com uso de analgésicos orais, porém nas duas últimas crises precisou ir a uma UPA onde recebeu medicação endovenosa e soro. Na última crise, há um mês, que foi a pior, apresentou dois episódios de vômitos biliosos e colúria. Na UPA a sua temperatura, na hora do atendimento, estava em 37,7oC. Na ocasião, um exame de sangue realizado na urgência e mostrou bilirrubina total 2mg/dl sendo 1,5 de bilirrubina direta. Teve alta no dia seguinte recebendo antibióticos para tomar em casa e orientações para evitar alimentos gordurosos. Desde esse episódio, está sem sintomas e com urina de cor normal. - HPP: Hipertensa, diabética controlada com uso de hipoglicemiantes orais. G5A0P5. - História Social: Nega etilismo e tabagismo. - Exame Físico: Ectoscopia: Bom estado geral, anictérica, acianótica, altura:1,64m, IMC: 33,6 C. Sinais Vitais: PA:130X95 mmHg, FC: 80 bpm, peso: 90kg Aparelho respiratório: Murmúrio vesicular universalmente audível, sem ruídos adventícios. Aparelho cardiovascular: Ritmo regular em dois tempos, com bulhas normofonéticas, sem sopros. Abdome: plano, flácido, ruídos hidroaéreos presentes, fígado e baço não palpáveis. Ausência de dor às palpações superficial e profunda. O médico solicitou ultrassonografia de abdome total que revelou múltiplos cálculos na vesícula biliar com resto árvore biliar normal. Exames de laboratório mostraram glicemia de jejum 130mg/dl, colesterol total 250mg/dl, triglicerídeos 180mg/dl, exames de função hepática normais. Diante do resultado dos exames, o médico disse para A.L.P que ela tinha "pedras na vesícula" e a encaminhou para uma consulta na clínica cirúrgica. A.L.P disse, que tudo isso era mais uma pedra no caminho de sua vida! Objetivo geral: Compreender as colecistopatias calculosas. Objetivos específicos: 1) Entender a morfofisiologia das vias biliares. 2) Discorrer sobre os fatores de risco e epidemiologia da colelitíase. 3) Explicar a fisiopatologia das colecistopatias calculosas. 4) Conhecer o quadro clínico das colecistopatias calculosas. 5) Elencar o diagnóstico das colecistopatias calculosas. 6) Citar as condutas terapêuticas das colecistopatias calculosas. OBJETIVO 1: Entender a morfofisiologia das vias biliares: A vesícula biliar tem localização intraperitoneal, na região superior direita do abdome, diretamente na face inferior do fígado, incluída na fossa da vesícula biliar. Ela está ligada ao fígado e ao duodeno através das vias biliares. A vesícula biliar serve para armazenamento e concentração da bile produzida pelo fígado. Vale ressaltar que a vesícula biliar é preenchida por meio de um refluxo, quando o esfíncter hepatopancreático está fechado em sua desembocadura no duodeno. Portanto, ao contrário do fígado, a vesícula biliar não é um órgão vital. O fundo da vesícula biliar ultrapassa a margem inferior do fígado e se projeta no nível da 9a costela. Neste local, ela fica diretamente em contato com a parede abdominal. A vesícula biliar só se torna palpável quando está intensamente aumentada de volume em função de uma estase da bile. O fundo da vesícula biliar estabelece contato com a flexura direita do colo; o corpo e o colo se situam anteriormente ao duodeno. CURIOSIDADE EM RELAÇÃO A ANATOMIA: devido às íntimas relações anatômicas com o duodeno e o intestino grosso, nos casos de uma inflamação da vesícula biliar (colecistite), devido à presença de cálculos biliares (colelitíase), tais cálculos podem atingir o intestino a partir da perfuração da parede da vesícula biliar, podendo ser excretados ou ocasionar obstrução intestinal (ileus por cálculos biliares). A vesícula biliar mede 7-10 cm de comprimento e é dividida em um corpo (corpo da vesícula biliar) com um fundo (fundo da vesícula biliar) e um colo (colo da vesícula biliar). Em condições de repouso, ela comporta 40-70 mL. O colo é seguido pelo ducto excretor (ducto cístico), com 3-4 cm de comprimento, fechado por uma prega (prega espiral de Heister) antes de se unir ao ducto principal do fígado (ducto hepático comum) para a formação do ducto colédoco. O ducto hepático comum se forma na porta do fígado, a partir da união dos ductos hepáticos direito e esquerdo. No colo existe uma duplicação peritoneal para o fígado na qual segue a artéria cística. O ducto colédoco mede cerca de 6 cm de comprimento e tem 0,4 a 0,9 cm de calibre. O comprimento é muito variável e depende do nível em que o ducto cístico se une ao ducto hepático comum. Em casos raros, o ducto cístico pode estar duplicado ou ausente. O ducto colédoco segue, inicialmente, no ligamento hepatoduodenal, anteriormente e à direita da veia porta do fígado, em seguida posteriormente à parte superior do duodeno e, finalmente, atinge a parte descendente do duodeno passando através da cabeça do pâncreas. Sua desembocadura se localiza na papila maior do duodeno (ou papila de Vater), distante 8-10 cm do piloro do estômago, na parede posteromedial do terço médio da parte descendente do duodeno. Antes da desembocadura, o ducto colédoco geralmente se une (em 60% dos casos) ao ducto pancreático para formarem a ampola hepatopancreática. A musculatura lisa da parede forma um músculo esfíncter do ducto colédoco cujo segmento inferior, caracterizado como músculo do esfíncter da ampola hepatopancreática (esfíncter de Oddi), também inclui a ampola e a sua desembocadura. Juntamente com o músculo esfíncter do ducto pancreático, forma-se um complexo esfinctérico com 3 cm de comprimento. TRÍGONO CISTO-HEPÁTICO: O ducto cístico forma, juntamente com o ducto hepático comum e a superfície inferior do fígado, o trígono cisto-hepático, que também é chamado triângulo de Calot. Seus limites são: Ducto cístico. Ducto hepático comum. Superfície inferior do fígado. Em 75% dos casos a artéria cística se origina no trígono cisto- hepático, a partir do ramo direito da artéria hepática própria, e se estende posteriormente através do trígono para o ducto cístico e para o colo da vesícula biliar. Nos demais casos, existem diferentes padrões de origem e trajeto da artéria cística. CURIOSIDADE: o trígono cisto-hepático é uma importante referência de orientação que deve ser reconhecida durante a remoção da vesícula biliar. Antes de proceder à remoção, todas as estruturas relevantes são identificadas antes que a artéria cística e o ducto cístico sejam ligados. Isso pode reduzir o risco de ligadura errônea do ducto colédoco, o que causaria estase da bile (colestase). RESUMINDO A FISIOLOGIA: A bile secretada pelos hepatócitos flui pelos ductos hepáticos até a vesícula biliar, que armazena e concentra a solução biliar. Durante uma refeição que inclua gorduras, a contração da vesícula biliar envia bile para o duodeno através do ducto colédoco. A vesícula biliar é um órgão que não é essencial para a digestão normal, e se o ducto torna-se bloqueado por depósitos duros, conhecidos como pedras da vesícula, a vesícula biliar pode ser removida sem criar problemas de longo prazo OBJETIVO 2: Discorrer sobre os fatores de risco e epidemiologia da colelitíase: EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO A idade é um importante fator de risco para a formação de cálculos vesiculares. A doença predomina a partir da quinta década de vida, acometendo 5 a 20% das mulheres entre 20e 55 anos de idade, aumentando para 25 a 50% naquelas acima de 50 anos. Os cálculos vesiculares raramente dissolvem espontaneamente, pois a secreção de colesterol na bile aumenta com a idade, enquanto a formação de ácido biliar pode diminuir, tornando a bile mais litogênica com o passar dos anos. IMPORTANTE: a incidência é maior no sexo feminino (duas a três vezes) até a quinta década, sugerindo que o estrogênio aumenta a secreção de colesterol na bile e causa redução na motilidade vesicular. As influências genéticas não são totalmente conhecidas, sendo, provavelmente, multifatoriais e variando entre populações. Em uma determinada população, parentes de primeiro grau de pacientes com litíase biliar têm 4,5 vezes mais chance de desenvolver a doença. As índias Pima e Chipewa do sudoeste americano são exemplos de populações de alto risco (70% das mulheres têm colecistolitíase aos 25 anos de idade); assim como os escandinavos (metade da população tem a doença aos 50 anos). Mutação no gene que codifica o transportador da fosfatidilcolina hepatocelular (ABCB4) causa redução da fosfatidilcolina biliar resultando em precipitação do colesterol, formação de cristais e cálculos. Fatores ambientais são responsáveis pela diferença na composição dos cálculos entre Oriente e Ocidente. Assim, enquanto nos países ocidentais predominam os cálculos de colesterol; no Japão, até recentemente, predominavam os de bilirrubinato de cálcio. Os cálculos de colesterol são três vezes mais frequentes em obesos, em razão do aumento da atividade da 3-hidroxi-3- metilglutaril coenzima A (HMG CoA) redutase, que aumenta a biossíntese de colesterol no fígado e maior secreção na bile. O emagrecimento acelerado é outro fator de risco, reconhecido mais recentemente. Barro biliar ou cálculos desenvolvem-se em 50% dos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica no sexto mês do pós-operatório. As alterações fisiológicas associadas ao emagrecimento rápido e à litíase biliar são múltiplas: aumento da secreção hepática de colesterol e da produção de mucina associados à redução da motilidade vesicular. Existe maior prevalência de colelitíase em indivíduos obesos, com hipertrigliceridemia e níveis baixos de HDL-colesterol, pois ocorre redução dos sais biliares e síntese deficiente de lecitina. Entretanto, o tratamento com clofibrato agrava o potencial litogênico da bile, pois a redução do colesterol se faz às custas do aumento da secreção biliar. A dieta é tema controverso na etiologia da colelitíase. As hipercalóricas parecem ser litogênicas, assim como o jejum prolongado. Por outro lado, parece não haver relação entre dietas ricas em colesterol e formação de cálculos biliares. A nutrição parenteral total (NPT) associa-se ao desenvolvimento de colecistite alitiásica, assim como colelitíase e colecistite. Colelitíase desenvolve-se em até 45% dos adultos após três a quatro meses de NPT. A frequência de barro biliar é ainda maior, sendo detectado três semanas após o início da NPT. O defeito fisiológico primário é a hipomotilidade vesicular com estase biliar, resultado do jejum prolongado. Além disso, há déficit de relaxamento do esfíncter de Oddi com refluxo biliar para a vesícula. Existe uma maior prevalência de litíase em grávidas e multíparas tanto pelo aumento dos níveis de estrogênio circulante quanto pelo aumento dos níveis de progesterona, que causa redução da motilidade vesicular. Litíase vesicular desenvolve-se em 2% das grávidas, desaparecendo em 20 a 30% dos casos após o parto. Várias drogas estão associadas à formação de cálculos biliares, sendo as mais estudadas estrogênio, clofibrato, octreotide e ceftriaxone. Observou-se maior incidência de colelitíase em diabéticos insulino-dependentes, provavelmente pela associação comum com hipertrigliceridemia, obesidade e hipomotilidade vesicular. Pacientes com exclusão funcional ou anatômica do íleo terminal, principalmente pacientes com doença de Crohn, têm duas a três vezes maiores risco de desenvolver colelitíase. Isso ocorre pela perda de receptores para absorção de bile no íleo terminal com consequente aumento da excreção e diminuição de sais biliares. Também pacientes com lesões medulares têm maior incidência de colelitíase, porém os mecanismos desencadeadores dessa associação ainda são desconhecidos. CURIOSIDADE: É clássico dizermos que pessoas "4F" apresentam maios riscos de desenvolver cálculos biliares, isto é: - Mulheres (female). - Em idade fértil (fertility). - Ao redor dos 40 anos (fourty). - E obesas (fat). OBJETIVOS 3, 4, 5 e 6: Explicar a fisiopatologia, quadro clínico, conduta propedêutica e terapêutica (separei e falei tudo de cada condição clínica): LITÍASE BILIAR - INTRODUÇÃO: A litíase biliar é uma das principais causas de hospitalização por doença gastrintestinal no mundo ocidental, com prevalência estimada entre 10 a 15%. Nos Estados Unidos, um milhão de casos novos são diagnosticados, e cerca de 700 mil colecistectomias são realizadas por ano. O termo “calculose” ou “litíase biliar” pode ser definido no seu conceito mais amplo como a presença de concreções, sejam elas cálculos (> 3 mm) ou barro biliares (de colesterol em sua superfície – fases 2 e 3. Explicação: o colesterol é praticamente insolúvel em meio aquoso, necessitando dos sais biliares e fosfolípides para promover sua solubilização. Quando os sais biliares atingem a concentração micelar crítica (CMC), agregam-se espontaneamente, formando as micelas simples que dissolvem as moléculas de colesterol. Nesse processo, os fosfolípides também se solubilizam e formam, junto aos sais biliares, as micelas mistas. Quando os fosfolípides se ligam às moléculas de colesterol, formam as vesículas unilamelares, mais estáveis e com elevada capacidade de solubilização do colesterol. Independentemente da proporção dos principais elementos, quanto menor a concentração total de lipídios na bile, mais estáveis são as vesículas, prevenindo a nucleação do colesterol, ao mesmo tempo, a quantidade de colesterol disponível para ser solubilizada depende da concentração dos sais biliares. Sobre a imagem: apenas para relembrar o que é a micela. Os fosfolípides representam cerca de 15 a 25% do soluto biliar, sendo a lecitina o fosfolípide predominante (95% do total). Todos os três constituintes da bile são secretados do hepatócito para o canalículo biliar através de membros da superfamília ABC (ATP-binding cassete): ABCB4 transporta fosfolípides. ABCB11 transporta ácidos biliares. ABCG5 juntamente com ABCG8 transportam colesterol. Mutações nos transportadores ABCB4 têm sido associadas a litíase biliar em adultos jovens. Explicação: as funções dos fosfolípides na bile incluem emulsificação de gorduras, solubilização de colesterol e prevenção da precipitação de colesterol para formar cálculos biliares. Quando há uma deficiência de fosfolípides na bile devido à mutação no gene ABCB4, o equilíbrio entre colesterol, fosfolípides e sais biliares pode ser perturbado, aumentando assim o risco de formação de cálculos biliares. Os sais biliares são elementos críticos para a solubilização do colesterol. Apenas dois ácidos biliares primários são sintetizados em humanos (cólico e chenodeoxicólico), sendo que cada um representa 35% do total de ácidos biliares. Os ácidos biliares secundários são o deoxicólico e o litocólico, o terciário é o ácido ursodeoxicólico (AUDC). Estes ácidos representam 24%, 1 a 3% e 4% do total de ácidos biliares, respectivamente. Todos os ácidos biliares são conjugados com glicina e taurina antes da secreção. Quanto mais hidrofóbico o ácido biliar, maior sua capacidade de induzir secreção de colesterol e suprimir a síntese de ácidos biliares, aumentando a litogenicidade da bile. O ácido deoxicólico é hidrofóbico, sendo litogênico. Já o AUDC (terciário) é hidrofílico, tendo a capacidade de dissolver e prevenir formação de cálculos vesiculares. NUCLEAÇÃO: Após a supersaturação da bile, o primeiro passo é a nucleação. Trata-se de um processo de condensação e agregação pelo qual são formados cristais microscópicos e partículas amorfas. Cristais monoidratados de colesterol podem se aglomerar e formar cristais macroscópicos. Um grande número de agentes pró-nucleação e antinucleação tem sido estudado e, com exceção da mucina, suas relevâncias fisiológicas continuam sob debate. A mucina, uma glicoproteína, é o fator pró-nucleação mais importante. O núcleo da mucina contém regiões hidrofóbicas que podem se ligar a colesterol, fosfolípides e bilirrubina. A ligação dessas regiões hidrofóbicas com vesículas ricas em colesterol parece acelerar o processo de nucleação. Outros agentes pró-nucleação são: cálcio, IgG, IgM, aminopeptidase M, haptoglobina e alfa-1-glicoproteína ácida. Fatores antinucleação são ApoA-I e ApoA-II (apoliproteínas) sendo ainda pouco conhecidos seus efeitos fisiológicos. HIPOMOTILIDADE VESICULAR: A bile é concentrada na vesícula biliar durante o jejum; após refeição, seu volume reduz cerca de 70 a 80% pela ação da colecistocinina (CCK), sendo esta o estimulador fisiológico mais potente da contração vesicular. Pacientes com colecistolitíase têm menor resposta contrátil após injeção intravenosa de CCK. Permanece controverso se a dismotilidade vesicular é fator primário ou secundário a inflamação e acúmulo excessivo de colesterol na vesícula, havendo diversas evidências que favorecem a hipótese de se tratar de distúrbio primário. Explicação mais simples: durante o jejum, a bile é continuamente produzida pelo fígado e armazenada na vesícula biliar. Nesse período de jejum, a vesícula biliar concentra a bile, o que significa que ela retém a água e outros componentes, tornando-a mais espessa e concentrada. Essa concentração da bile ajuda a manter um volume relativamente baixo na vesícula biliar durante o jejum. Após uma refeição, especialmente uma refeição rica em gorduras, a presença de alimentos no intestino delgado estimula a liberação de hormônios, como a colecistocinina (CCK), que é secretada pelo intestino em resposta à presença de gorduras e proteínas na dieta. A CCK é um potente estimulador da contração da vesícula biliar e, quando liberada, estimula a vesícula biliar a contrair-se vigorosamente, liberando a bile concentrada no intestino delgado para ajudar na digestão de gorduras. No entanto, em pacientes com colecistolitíase, que é a presença de cálculos biliares na vesícula biliar, há uma redução na resposta contrátil da vesícula biliar à CCK. Isso significa que a vesícula biliar tem uma capacidade reduzida de contrair-se e liberar a bile após a estimulação pela CCK. Essa redução na resposta contrátil pode levar a sintomas como dor abdominal, distensão abdominal e dispepsia (má digestão), especialmente após refeições ricas em gorduras. Observação sobre a lama biliar: a lama biliar é um material mucoso espesso que, ao exame microscópico, revela cristais líquidos de lecitina-colesterol, cristais de monoidrato de colesterol, bilirrubinato de cálcio e géis de mucina. A lama biliar forma uma camada semelhante a um crescente na porção mais baixa da vesícula biliar, sendo reconhecida por ecos característicos na ultrassonografia. A presença de lama biliar sugere duas anormalidades: Desarranjo do equilíbrio normal entre a secreção de mucina pela vesícula biliar e sua eliminação. Ocorrência de nucleação dos solutos biliares. Várias observações que evidenciam a lama biliar pode ser uma forma precursora de doença calculosa. Deve ser enfatizado que a lama biliar pode formar-se nos distúrbios que causam hipomotilidade de vesícula, isto é, cirurgia, queimaduras, nutrição parenteral total, gravidez e contraceptivos orais – todos associados à formação de cálculos biliares. Contudo, a presença de lama biliar indica supersaturação da bile com colesterol ou bilirrubinato de cálcio. LITÍASE PIGMENTAR: Os cálculos pigmentares correspondem a apenas 10 a 25% de todos os cálculos biliares nos EUA, sendo tal porcentagem bem maior nos países orientais. São denominados pigmentares em razão da precipitação de bilirrubina. Assim como ocorre com os cálculos de colesterol, a prevalência dos cálculos pigmentares aumenta com a idade, e eles são, em geral, mais comuns no sexo feminino. São classificados como cálculos pigmentares pretos e marrons. A formação dos cálculos pigmentares PRETOS ocorre na vesícula biliar e está associada à hemólise crônica (como ocorre em beta- talassemia, esferocitose hereditária e anemia falciforme), cirrose avançada, NPT, estados pós-ressecção ileal e pancreatite. Nas situações de hemólise crônica, ocorre desconjugação da bilirrubina conjugada secretada, que precipita na forma de bilirrubinato de cálcio para formar os cálculos. Em cirróticos, haveria diminuição do transporte da bilirrubina pelo mecanismo micelar, assim como em situações de interrupção da circulação êntero-hepática causada pela ressecção ileal. A estase vesicular prolongada é o mecanismo aventado para explicar os cálculos pigmentaresque acompanham a hiperalimentação parenteral. Os cálculos pigmentares MARRONS são mais comuns em áreas nas quais a prevalência de infecções biliares é alta, pois estão associados à colonização da bile por organismos entéricos e colangite ascendente. Podem se formar tanto na vesícula quanto nos ductos biliares. As bactérias entéricas produzem beta-glucuronidase, fosfolipase A e hidrolase de ácidos biliares conjugada. A atividade da beta-glucuronidase resulta na produção de bilirrubina não conjugada; fosfolipase A libera ácidos graxos livres; hidrolase de ácidos biliares produz ácidos biliares não conjugados. Os produtos aniônicos desses processos enzimáticos podem se ligar ao cálcio formando sais de cálcio insolúveis que resultam na formação de cálculos. HISTÓRIA NATURAL E QUADRO CLÍNICO: A litíase vesicular, geralmente, é diagnosticada de maneira incidental durante ultrassonografia abdominal permanecendo assintomática em cerca de 75% dos casos. Após diagnóstico, o risco de desenvolver dor ou complicações é baixo: 1 a 4% por ano, com apenas 10 a 20% desenvolvendo sintomas em 5 e 20 anos, respectivamente. A história natural da colecistolitíase sintomática tem curso mais agressivo do que nos casos assintomáticos. As complicações também tendem a ocorrer com maior frequência nos pacientes sintomáticos, com risco estimado de 1 a 2% ao ano, mantendo-se relativamente constante ao longo do tempo. Pacientes diabéticos com colecistolitíase, assintomáticos, foram, até recentemente, considerados de alto risco para desenvolver sintomas e complicações. O sintoma mais característico é a dor biliar, mais conhecida como cólica biliar, caracterizada por dor em queimação no epigástrio ou hipocôndrio direito (HCD), intensa e intermitente. Apesar de consagrado, esse termo não se aplica aos casos de dores de origem biliar, pois esta é contínua (não em cólica), piora gradativamente por quinze minutos a uma hora, atingindo, então, um platô que se mantém por cerca de uma hora ou mais, terminando gradativamente. Em cerca de 30% dos pacientes, o início da dor pode ser súbito. Suspeitar de complicações, como colecistite, em dores que se prolonguem por mais de seis horas. Em ordem decrescente de frequência, a dor pode ser referida em epigástrio, HCD, hipocôndrio esquerdo, precórdio e abdome inferior. Em metade dos casos, a dor irradia para região escapular, ombro direito e abdome inferior. São frequentes náuseas e vômitos. Sintomas dispépticos são comuns em pacientes com colecistolitíase; mas, provavelmente, não estão relacionados a ela. Exame físico é, geralmente, normal, havendo dor leve ou moderada à palpação da vesícula biliar durante episódio agudo. DIAGNÓSTICO: Em pacientes com dor biliar não complicada, os exames laboratoriais são, geralmente, normais. Elevações de bilirrubina, fosfatase alcalina ou amilase sugerem coexistência de coledocolitíase. Existem vários métodos de imagem disponíveis para diagnóstico da LB, mas, em geral, o primeiro e único exame recomendado é a ultrassonografia de abdome (US). A radiografia simples de abdome, apesar de útil na avaliação de pacientes com dor abdominal, tem sensibilidade e especificidade baixas para diagnóstico de cálculos biliares, pois apenas 25% são radiopacos. Desde sua introdução, na década de 1970, a US tornou-se o método de escolha para diagnóstico da colecistolitíase. É rápida, inócua, não invasiva, de baixo custo e amplamente disponível, com mais de 95% de sensibilidade e especificidade na detecção de cálculos com diâmetro maior do que 2 mm. Cálculos aparecem como imagens ecogênicas móveis no interior da vesícula que produzem sombra acústica posterior. Cálculos menores podem não ser vistos ou confundidos com barro biliar (camada ecogênica sem sombra acústica posterior). Em situações nas quais a vesícula não pode ser analisada à US, outros exames podem ser realizados, como colecistografia oral (CO) ou tomografia computadorizada de abdome (TC). A CO está indicada apenas para candidatos à terapia de dissolução oral para excluir obstrução do ducto cístico (a visualização da vesícula durante o exame indica que o ducto cístico está patente). A US fornece informações sobre tamanho da vesícula, presença de espessamento de sua parede e líquido a seu redor (sinais de colecistite), diâmetro do colédoco e ductos hepáticos, além de análise dos parênquimas hepático e pancreático. TRATAMENTO: O tratamento da LB assintomática é controverso, porém não é recomendado rotineiramente, por ser baixo o risco de desenvolver dor biliar, complicações e câncer de vesícula biliar. A colecistectomia profilática deve ser considerada em pacientes com risco aumentado de desenvolver sintomas, como crianças e obesos mórbidos que realizarão gastroplastia redutora. Também está indicada em populações de alto risco de câncer de vesícula e na presença de cálculos grandes (> 3 cm de diâmetro) ou de vesícula calcificada. Em pacientes com risco aumentado de pancreatite, como naqueles com microcálculos (de migração a partir da vesícula biliar ou formados primariamente nos ductos. Os cálculos de colesterol formam-se exclusivamente na vesícula biliar; portanto, se forem encontrados nos ductos biliares, significa que migraram a partir da vesícula. Cálculos pigmentares pretos também se formam na vesícula e raramente migram a partir delas para os ductos biliares. A maior parte dos cálculos pigmentares encontrados nos ductos biliares é de marrons, formados como resultado da ação de bactérias sobre fosfolípides e bilirrubina da bile. Geralmente, são encontrados em locais proximais a estenoses e associam-se à colangite (comum em pacientes com colangite piogênica recorrente) A incidência da litíase de via biliar principal em portadores de litíase vesicular gira em torno de 15 a 20%. Contrariamente, cerca de 95% dos pacientes com litíase da via biliar principal têm colecistolitíase. Em geral, os cálculos presentes em um mesmo paciente são de um único tipo (colesterol ou pigmentar), independente da localização. Podem ser únicos ou múltiplos; em 60% dos casos, situam-se no segmento retropancreático do colédoco; em 5 a 6%, estão alojados na ampola de Vater. A prevalência aumenta com a idade, chegando a atingir 13 a 18% em pacientes entre 60 e 80 anos de idade e 33% nos acima de 80 anos. Na maioria das vezes em que há obstrução biliar, a causa é litíase, estenose ou câncer. A pressão normal no interior do colédoco é de 10 a 15 cmH2O, podendo se elevar até 40 cmH2O na presença de obstrução. QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO: A coledocolitíase é assintomática em 10 a 25% dos casos. Surgimento e gravidade dos sintomas vão depender de existência e extensão da obstrução e presença ou não de bactérias na bile. Obstrução aguda, geralmente, manifesta-se com dor, constante ou tipo cólica, localizada em epigástrio ou HCD, e icterícia. Obstrução que se desenvolve de forma gradual pode se manifestar, inicialmente, com prurido ou icterícia isolados. O exame físico pode revelar icterícia, geralmente pouco intensa. As fezes, raramente, são acólicas (na maioria das vezes, hipocólicas), porque a obstrução é parcial. A colúria torna-se presente, e a palpação do HCD é discretamente dolorosa. Normalmente, não se palpa a vesícula, sendo sua palpação (sinal de Courvoisier) sinal sugestivo de obstrução neoplásica do colédoco. As alterações laboratoriais podem ser as únicas pistas que sugerem presença de cálculos em colédoco. A obstrução biliar leva ao aumento de gamaglutamiltranspeptidase, bilirrubina direta (pelo bloqueio da excreção) e fosfatase alcalina (pelo aumento da síntese no epitélio canalicular). A elevação da fosfatase alcalina é mais precoce do que a da bilirrubina. Os níveis de bilirrubina, geralmente, encontram-se entre 2 e 5 mg/dL, raramente ultrapassando 12 mg/dL. Elevações transitórias das transaminases ou amilase sugerem passagem do cálculo para o duodeno. A sensibilidade da bioquímica hepática para detecção de coledocolitíase gira em torno de 94%. A ultrassonografia é, geralmente, o exame inicial, porém visualiza apenas 50% dos cálculos menores de 2 mm. A sensibilidade aumenta com a dilatação das vias biliares e com o tamanho dos cálculos. O exame detecta dilatação ductal maior de 6 mm em 75% dos casos. A UE (ultrassonografia endoscópica) tem maior acurácia, apresentando sensibilidade e especificidade em torno de 98% para o diagnóstico de coledocolitíase quando comparado à CPRE. Em casos de baixa probabilidade de haver cálculos, UE ou colangio ressonância magnética devem ser realizadas antes da CPRE. A CPRE possibilita, além do diagnóstico objetivo da litíase ductal e das características dos canais biliares, realização da papilotomia e extração dos cálculos. Pode ser realizada na presença de colangite e tem bons resultados mesmo em casos de canais biliares não dilatados, ao contrário da colangiografia transparietoepática (CTPH). A CTPH está indicada quando não há CPRE disponível, ou quando esta tiver sido realizada sem sucesso. COMPLICAÇÕES: As principais complicações da litíase da via biliar principal são: colangite, abscessos hepáticos, cirrose biliar secundária e pancreatite aguda. A forma mais comum de colangite é a não supurativa. Entretanto, em raros casos, pode desenvolver-se a forma grave, chamada colangite supurativa aguda, causada por supuração intraductal e obstrução total do colédoco. Os abscessos hepáticos, geralmente, são múltiplos e apresentam alta mortalidade, pois respondem mal tanto ao tratamento clínico quanto ao cirúrgico. A cirrose biliar secundária resulta da obstrução biliar prolongada e evolui ainda mais rápido quando há infecção biliar. A pancreatite aguda resulta da obstrução do ducto pancreático principal por cálculo impactado na papila ou no colédoco distal. TRATAMENTO: A presença de cálculos ductais é indicação de tratamento mesmo quando são assintomáticos. A coledocolitíase pode ser detectada em pré-operatório, durante ou após a colecistectomia. A escolha do tratamento depende da apresentação clínica (icterícia, colangite, pancreatite ou assintomática), status da vesícula, estado geral do paciente e disponibilidade de endoscopistas, radiologistas e cirurgiões experientes. Quando a coledocolitíase é detectada antes da colecistectomia, pode-se realizar papilotomia endoscópica previamente à CVL ou exploração do colédoco durante a CVL. Se detectada durante a colangiografia intra-operatória, existem três opções disponíveis: conversão para cirurgia aberta com exploração do colédoco, exploração laparoscópica do colédoco (via coledocoscopia) ou realização da CVL seguida de esfincterotomia endoscópica pós-operatória. A esfincterotomia endoscópica pós-operatória é satisfatória na maioria dos pacientes com a vantagem de ser minimamente invasiva. A exploração laparoscópica do colédoco é semelhante à esfincterotomia endoscópica em termos de eficácia, custos e segurança. Quando a coledocolitíase é identificada em pacientes já submetidos à colecistectomia, está indicada a esfincterotomia endoscópica com remoção dos cálculos. Pacientes idosos ou doentes sintomáticos com elevado risco cirúrgico são mais bem tratados por papilotomia endoscópica apenas, deixando a vesícula in situ. Permanecerão em observação visando a possível colecistite aguda no futuro. Apenas 10% desses pacientes necessitarão de colecistectomia posteriormente, o que é uma grande vantagem para os outros 90%. COLECISTITES COLECISTITE AGUDA É essencial para o diagnóstico de colecistite aguda desconforto ou dor intensa no hipocôndrio direito ou epigástrio associado a náuseas e vômitos, febre e leucocitose, além de exame de imagem compatível. A colecistite aguda pode ser calculosa ou acalculosa, sendo a primeira responsável pela maioria dos casos. COLECISTITE AGUDA CALCULOSA: A colecistite é associada à colelitíase em mais de 90% dos casos e é desencadeada por impactação do cálculo biliar no ducto cístico e consequente inflamação decorrente da obstrução. A distensão da vesícula biliar pode ocasionar isquemia de suas paredes, determinando gangrena e, possivelmente, perfuração. Embora a peritonite generalizada possa ocorrer, a perfuração, mais comumente, permanece localizada formando um abscesso circunscrito. QUADRO CLÍNICO: A crise de coleciscite aguda é, com frequência, precipitada por ingestão substancial de alimentos gordurosos. Inicia-se subitamente com dor contínua em epigástrio ou hipocôndrio direito que cede, de forma gradual, em doze a dezoito horas. Desconforto no hipocôndrio direito está quase sempre presente, geralmente associado à defesa muscular. Vômito ocorre em 75% dos pacientes; e, em metade dos casos, ocasiona alívio temporário dos sintomas. Vesícula palpável é observada em 15% dos casos, e icterícia em 25%. Quando a icterícia for intensa ou persistente, deve-se fazer diagnóstico diferencial com coledocolitíase.Febre é um sintoma típico. O sinal de Murphy pode estar presente, sendo caracterizado por desconforto subcostal direito durante inspiração mantida. DIAGNÓSTICO: - EXAMES LABORATORIAIS: Em geral, leucocitose (12.000 a 15.000 leucócitos) está presente. Níveis séricos de bilirrubina de 1 a 4 mg por decilitro podem ser observados mesmo na ausência de obstrução do ducto biliar comum. Aminotransferases e fosfatase alcalina estão elevadas com frequência, assim como a amilase está moderadamente elevada. - EXAMES DE IMAGEM: A radiografia simples de abdome pode evidenciar cálculos radiopacos em 15% dos casos. A US abdominal mostra presença de cálculos na vesícula biliar, com alta sensibilidade em detectar colecistite aguda. A tomografia computadorizada pode detectar vesícula biliar de paredes espessadas (> 4 mm), líquido pericolecístico, edema subseroso (na ausência de ascite) e até gás intramural. Cintilografia hepatobiliar marcada com 99mTecnécio é útil na demonstração da obstrução do ducto cístico, que é a causa de colecistite aguda na maioria dos casos. Esse exame é confiável se o nível sérico de bilirrubinas estiver abaixo de 5 mg por decilitro. - DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: As desordens que podem se confundir com colecistite aguda são úlcera perfurada, pancreatite aguda, apendicite aguda, carcinoma de cólon perfurado, abscesso hepático, pneumonia com pleurite em base direita e isquemia miocárdica. HISTÓRIA NATURAL: Metade dos casos resolve-se espontaneamente, em sete a dez dias sem cirurgia, 10% complicam-se com perfuração localizada e 1% com peritonite generalizada. COMPLICAÇÕES: - Gangrena da vesícula biliar: se o quadro clínico persistir por mais de 24 a 48 horas, pode ocorrer isquemia e gangrena da vesícula biliar, podendo levar à formação de abscesso localizado ou peritonite generalizada. Em pacientes obesos, diabéticos, idosos ou imunossuprimidos, necrose pode ocorrer sem sinais e sintomas típicos. - Colangite: ocorre por obstrução do colédoco por migração do cálculo biliar e apresenta-se, classicamente, com a tríade de Charcot, caracterizada por febre e calafrios, dor no quadrante superior direito do abdome e icterícia. - Colecistite crônica: ocorre por episódios repetidos de colecistite aguda ou irritação crônica da parede da vesícula biliar por cálculos. TRATAMENTO: A colecistite aguda costuma ceder com jejum, hidratação venosa, analgesia e antibióticos. Pelo risco aumentado de ataques recorrentes (10% no primeiro mês e 30% em um ano), colecistectomia, geralmente laparoscópica, deve ser realizada com dois a três dias de hospitalização. Em pacientes com risco cirúrgico elevado, como idosos com comorbidades, pode-se optar pelo tratamento não-cirúrgico, como aspiração por agulha fina guiada por US ou colecistostomia percutânea. Na presença de gangrena ou perfuração, a colecistectomia é mandatória. Também é mandatória a realização de colangiografia intra-operatória e consequente exploração do ducto biliar comum ou CPRE para remoção de cálculos uma vez evidenciados. COLECISTITE CRÔNICA CALCULOSA: INTRODUÇÃO: Inflamação crônica da vesícula. Espessamento da parede do colecisto. Fibrose. Os achados anatomopatológicos acima que definem a colecistite crônica. O termo colecistite crônica para definir a dor biliar não é correto, pois nem sempre a inflamação do órgão está presente. Entretanto, existe, em uma minoria dos pacientes, uma correlação entre gravidade e frequência da dor biliar e alterações histológicas da vesícula. É frequente a presença de alterações histológicas na vesícula biliar de pacientes com litíase que nunca tiveram colecistite aguda. FISIOPATOLOGIA: A formação do cálculo, e não a inflamação, é a etapa mais precoce da doença. A fisiopatologia da formação do cálculo biliar foi descrita anteriormente. QUADRO CLÍNICO: A dor biliar típica, quando presente, localiza-se no andar superior do abdome, no quadrante superior direito ou epigástrio, podendo, contudo, localizar-se em outra região. Em geral, apresenta duração de poucas horas. Aumenta de intensidade no início, atingindo um platô durante uma hora ou mais para, em seguida, decrescer até melhora completa. A dor persistente por mais de seis horas sugere colecistite aguda. Náusea e vômito podem acompanhar o episódio doloroso. Queixas de flatulência, distensão abdominal e dispepsia, provavelmente, não estão relacionadas à presença de litíase, pois são comuns em pacientes com vesícula alitiásica. DIAGNÓSTICO: O diagnóstico é histológico por ocasião da realização de colecistectomia. TRATAMENTO: Pacientes com dor biliar recorrente, sem complicação e presença de litíase são candidatos à realização de colecistectomia eletiva. A colecistectomia não está indicada em pacientes com litíase vesicular com queixas dispépticas ou sintomas de flatulência e distensão abdominal; pois esses sintomas podem estar presentes em pacientes não portadores de litíase vesicular. COLANGITE AGUDA INTRODUÇÃO: A designação colangite refere-se à inflamação do trato biliar como resultado de colonização e proliferação bacteriana em uma via biliar obstruída. Ela abrange uma série de formas de apresentação clínica que varia em intensidade podendo apresentar elevados índices de morbidade e mortalidade, especialmente em idosos. ETIOPATOGENIA: A causa mais comum de obstrução biliar e infecção biliar é a litíase biliar, sendo ela responsável por 80% dos casos. O trato biliar é estéril e, quando obstruído, tem um grande risco de se infectar. A via de contaminação nem sempre é clara. Estudos têm demonstrado a relação direta entre bacteremia ou endotoxemia e a pressão dentro da via biliar. As principais vias de contaminação parecem ocorrer a partir do duodeno ou através do sangue portal. Entretanto, existe uma dificuldade de correlacionar os microorganismos duodenais com aqueles presentes na infecção biliar. A translocação de bactérias do intestino para a circulação portal tem sido bem demonstrada, especialmente na presença de icterícia. As consequências de endotoxemia e bacteremia dependerão da resistência do paciente. Importante é ressaltar que a colonização por bactéria na ausência de obstrução não causa colangite aguda. QUADRO CLÍNICO: IMPORTANTE: o quadro clínico clássico, conhecido como tríade de Charcot, compreende: Febre (calafrios). Icterícia. Dor no quadrante superior direito. Tal quadro pode estar associado a alteração do estado mental e choque séptico (pêntade de Reynolds), o que resulta em situação clínica muito mais grave. Como a colangite abrange um espectro que inclui desde formas leves até estágios gravíssimos de alta mortalidade, suas manifestações clínicas variam de quadros frustos, de mais fácil resolução, até estados de alta letalidade. Pacientes mais idosos podem apresentar manifestação clínica pouco característica, que pode retardar o diagnóstico, permitindo que uma colangite leve a moderada apresente evolução imprevisível para sepse e óbito. DIAGNÓSTICO: O diagnóstico é estabelecido mediante critérios clínicos que devem ser complementados por exames laboratoriais e de imagem. Achados laboratoriais característicos de infecção, geralmente, estão presentes, como leucocitose com aumento de formas jovens no sangue periférico. Elevações de enzimas hepáticas para níveis superiores a uma ou duas vezes o nível basal e hiperbilirrubinemia são esperadas. Hiperbilirrubinemia, principalmente às custas da fração conjugada, e aumentos da fosfatase alcalina e da gamaglutamiltranspeptidase correlacionam-se a grau e tempo de obstrução da via biliar. A amilase sérica pode estar elevada em até 40% dos pacientes sem, no entanto, indicar presença de pancreatite. Os métodos de imagem são indispensáveis para detectar presença e causa da obstrução biliar, assim como presença de possíveis complicações. Aultrassonografia é um exame de fácil acesso que pode demonstrar colelitíase com precisão e diferenciar colestase intra- hepática de extra-hepática quando a via biliar está dilatada. A tomografia computadorizada e a colangiopancretografia por ressonância magnética apresentam, por sua vez, altas sensibilidade e especificidade no diagnóstico da obstrução biliar e podem ser superiores à ultrassonografia na localização e detecção de causas de obstrução biliar. Entre os métodos de imagem invasivos, a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (MAIS IMPORTANTE) apresenta vantagem de permitir atuação terapêutica no mesmo procedimento, apresentando altas sensibilidade e especificidade, sendo, ainda, considerada o padrão de referência para diagnóstico da causa e do nível da obstrução. A UE (ultrassonografia endoscopia) apresenta níveis de acerto elevados, sendo especialmente útil para esclarecimento de casos de etiologia ainda não definida e diagnóstico de microlitíase. A colangiografia percutânea é uma alternativa na impossibilidade da realização da CPRE com índices de complicações elevados. TRATAMENTO: Se não tratada, a colangite apresenta mortalidade superior a 80%. O tratamento inicial compreende manutenção estável dos sinais vitais e antibioticoterapia. Pacientes com a forma leve beneficiam-se com antibioticoterapia após 24 a 48 horas em, aproximadamente, 80% dos casos; e a drenagem da via biliar pode ser realizada nas 72 horas subsequentes com posterior tratamento eletivo da doença de base; em geral, litíase biliar. Os que desenvolvem formas mais graves apresentam alta taxa de mortalidade e, além do tratamento com antibióticos, necessitam de drenagem da via biliar em caráter emergencial. Tempo e escolha da descompressão biliar variam dependendo de resposta à antibioticoterapia, presença de comorbidades e etiologia da doença. O uso racional dos antimicrobianos deve basear-se nos aspectos microbiológicos da bile ou das hemoculturas, na excreção biliar, no custo e na toxicidade dos antibióticos. Bons resultados têm sido obtidos nos casos leves com quinolona. Nos casos mais graves, a associação de antibióticos se faz necessária visando ao espectro de cobertura para Gram-negativos, anaeróbios e enterococos. A drenagem biliar pode ser realizada por via endoscópica (CPRE), cirúrgica ou percutânea; e o reconhecimento das limitações de cada método é muito importante na prevenção das complicações. IMAGEM DE ALGUMAS EM ESPECÍFICO: