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1 de 9faculdade.grancursosonline.com.br PROFESSOR(A): CAROLINA MENEZES DE ALMEIDA SANTOS As Informações e o Inconsciente Vieses Cognitivos Objetivo da Aula Compreender a influência dos vieses cognitivos no nosso comportamento e na forma como interpretamos o mundo. Apresentação Olá, estudante! Nesta aula, você aprenderá o que são vieses cognitivos e como eles influenciam o nosso comportamento. Como os vieses são inconscientes, muitas vezes nem sabemos explicar o motivo pelo qual fazemos um determinado julgamento, sem nem mesmo ter informações suficientes para tanto. Por que preferimos manter as coisas como estão, mesmo quando as mudanças são boas? Por quê para nós é mais fácil procurar evidências que confirmem nossas crenças do que aquelas que nos contradizem, mesmo quando comprovado que o mundo muda a todo momento? E o que dizer sobre a tendência natural em concordar com a opinião do grupo, mesmo quando sabemos que ela está errada? Pois é, são muitos os comportamentos ilógicos e irracionais que adotamos no dia a dia que não sabemos explicar. E mesmo assim ainda temos que conviver com as consequências deles. Será que tem uma razão biológica para isso tudo? Venha comigo descobrir! 1. Viés, Cognição e Modelos Mentais As pessoas tomam decisões ruins e erradas. Independentemente do nível de experiência e da idade, todos nós estamos suscetíveis a escolher a alternativa errada quando estamos diante de um leque de opções variadas. Isso é tão normal e comum que, geralmente, após reconhecermos o erro, nós simplesmente nos arrependemos, amargamos nossas perdas e derrotas, aprendemos com a experiência e seguimos com a vida. Afinal, mais decisões precisam ser tomadas todos os dias. E vamos seguir errando em muitas delas. 2 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Caso você tenha reconhecido diversos momentos da sua vida na trajetória que acabei de narrar, talvez você se sinta mais tranquilo(a) em saber que isso é natural. E não estou falando de ser natural por ser frequente, e sim porque existe uma explicação científica para esses erros de julgamento: não podemos evitá-lo. Esses erros são chamados de vieses cognitivos. Para compreender melhor este conceito, vamos por partes. Viés é uma distorção ou tortuosidade na maneira de observar, de julgar ou de agir (Camargo e Moura, 2022). Já cognição é: [...] a capacidade de processar informações e transformá-las em conhecimento, com base em um conjunto de habilidades mentais e/ou cerebrais como a percepção, a atenção, a associação, a imaginação, o juízo, o raciocínio e a memória (Enciclopédia Significados, 2024). Essas funções cognitivas trabalham em conjunto para que possamos adquirir novos conhecimentos e criar interpretações. Dentro deste contexto, podemos definir que: “Vieses cognitivos são tendências psicológicas que nos fazem tirar conclusões incorretas e gerar comportamentos distorcidos ou não racionais e nem lógicos, a princípio, mas que têm uma explicação biológica evolutiva” (Camargo, 2013, p. 56). Eles podem controlar a nossa vida, influenciando a maneira como vemos o mundo, fazemos julgamentos, tomamos decisões e, consequentemente, agimos. Tomamos várias decisões irracionais ao longo do dia. São os vieses cognitivos que nos fazem tirar conclusões erradas e gerar comportamentos distorcidos ou não racionais nem lógicos. Os vieses cognitivos são objeto de estudos de diversas áreas do conhecimento como a ciência cognitiva, a psicologia social, a neurociência, e também de novas ciências, como a economia comportamental, finanças comportamentais e, é claro, o neuromarketing (Camargo, 2013). Experiências realizadas para compreender melhor como eles funcionam tem revelado informações importantes sobre como eles indicam a maneira como as decisões afetam a teoria de escolha. E esse é o foco dos estudos do neuromarketing: demonstrar como os julgamentos e decisões se distanciam da teoria racional das escolhas (Camargo, 2013). Os vieses cognitivos dificultam a obtenção de informações verdadeiras sobre os motivos de influência, escolha, tomada de decisão e consumo de bens, serviços e ideias. Eles acontecem quando prevalecem os nossos modelos mentais. Eles são formados ao longo de toda nossa vida. 3 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Modelos mentais são mecanismos da mente que têm como função principal representar a realidade externa de cada indivíduo perante o mundo. Em outras palavras, são a forma com que as pessoas interpretam os fatos e acontecimentos diários. Esses modelos mentais definem a maneira com que percebemos e reagimos a tudo o que acontece à nossa volta (Marques, 2019). Os modelos mentais são formados a partir de informações do nosso sistema nervoso, a linguagem, a cultura e a história pessoal do indivíduo (Marques, 2019). Eles exercem uma grande influência sobre a nossa percepção e sobre o nosso comportamento. Num primeiro momento, preferimos tomar as nossas decisões com base nos nossos modelos mentais porque é mais fácil do que ir buscar informações, que nem sempre estão disponíveis. Dessa forma, damos margem para julgar utilizando os nossos pré-conceitos. Não fazemos uma análise aprofundada da situação e tomamos nossas decisões com base nos nossos modelos mentais. 2. Evolução e Aspectos Biológicos Nem sempre assumir comportamentos sob a influência dos vieses cognitivos é algo negativo. Na verdade, a adoção de vieses para tomar decisões rápidas tem origem biológica e são diretamente influenciados pela evolução. Os objetivos básicos da vida, do ponto de vista da biologia, são a sobrevivência e a reprodução da espécie. Tomar decisões rápidas em situações quando há pouca ou nenhuma informação é extremamente importante diante do perigo e da ameaça eminentes. Afinal, nosso cérebro não foi formado agora, mas há milhares de anos. Lembra dos “homens das cavernas”? Naquela época, nós, seres humanos, enfrentávamos diversos perigos comuns da vida em contato direto com a natureza. Do deserto à floresta, os vieses cognitivos nos ajudaram em momentos nos quais levar um segundo a mais para tomar uma decisão poderia se tornar uma questão de vida ou morte. Hoje os perigos são outros. Ao invés de animais selvagens, enfrentamos ameaças diferentes, como, por exemplo, o crescimento da criminalidade. É bem maior o número de situações nas quais o acesso à informação e a análise mais aprofundada das opções existentes são uma realidade. Isso tudo justificado pelos avanços tecnológicos que facilitaram esse acesso (como a internet e os dispositivos móveis) e pelos avanços socioeconômicos (no nível educacional médio da população) que elevaram a nossa capacidade de análise, mas 4 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos mesmo assim, os vieses continuam e continuarão a operar, influenciando nosso julgamento, decisões e ações. Cometemos tais erros não por vontade própria, consciente. Os vieses são inconscientes e automáticos. Se assemelham a uma ordem interna, um ato instintivo, com razões na biologia que remontam aos nossos ancestrais. Todas as raças, idades, gêneros e culturas cometem esses erros de julgamento. Ninguém está isento. Acredite: nosso cérebro cria esses padrões para facilitar a nossa vida. Dessa forma, podemos lidar mais facilmente com o ambiente externo. Ou seja, já que ele já tem esses padrões prontos, o cérebro não precisa gastar tanta energia processando todas as situações pelas quais passamos no nosso dia a dia. De acordo com Camargo (2013), o cérebro é o órgão que mais exige energia do organismo. O objetivo é diminuir o esforço feito na hora de processar essas informações: Para tomar decisões sábias e precisas, necessitamos pensar mais de uma vez no problema que se apresenta para nós e isso é algo que naturalmente nossa caixa-preta não quer fazer, ou me- lhor, preferenão fazer, para economizar energia e também para tomar decisões rápidas que facilitarão a sobrevivência (Camargo, 2013, p. 58). Nossa maneira de pensar e agir é influenciada por dois tipos de visões: a interna e a externa. A figura 1 apresenta como essas duas visões operam diante de um problema. Figura 1: Visões que influenciam nossa maneira de pensar e agir Fonte: Adaptação de Camargo (2013). 5 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Segundo Camargo (2013), é o uso constante da visão interna que gera vieses comportamentais. Os estudos desenvolvidos pelo economista comportamental Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel em 2002, propõem que nós humanos temos dois sistemas de tomada de decisão: o experimental e o analítico. A figura 2 apresenta suas principais características. De acordo com Camargo (2013), na maioria das vezes, tomamos decisões tendo como base a visão interna. Dessa forma, as pesquisas qualitativas deveriam focar nessa visão para analisar o comportamento do consumidor. As respostas conscientes não são confiáveis, pois, as pessoas tendem a disfarçá-las e encobri-las. A verdade sobre o comportamento reside nas reações orgânicas, ou seja, naturais, não forçadas como numa entrevista. E as pessoas seguem sua visão interna devido aos vieses cognitivos. Figura 2: Sistemas de tomada de decisão Fonte: Adaptação de Camargo (2013). 3. Classificação dos Vieses e Marketing Cognitivo Para fins de facilitação da análise e estudo desses vieses, é comum que eles sejam separados em grupos pelos especialistas. Neste ponto, é bom que você aprenda que a forma como essa divisão é feita depende de uma questão de interpretação de cada autor. Portanto, a classificação apresentada aqui pode variar caso você faça uma pesquisa mais ampla sobre esta temática em diferentes fontes de referências. 6 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Metodologicamente, os vieses podem ser classificados em (Andrade, 2023): a) Sociais: que envolvem as relações com outras pessoas e a interação em um grupo; b) De memória: que envolvem informações internalizadas ou modelos mentais; c) De tomada de decisão: que envolvem as tomadas de decisões de risco na presença da incerteza, nas ações do cotidiano como na compra e consumo de bens e serviços; d) De probabilidade: que envolvem decisões econômicas e pesquisas experimentais; e) De julgamento e ligação: que envolvem a forma como julgamos os outros e esperamos ser julgados por eles. Todos esses grupos são compostos por vieses que afetam, de forma direta e indireta, o comportamento do consumidor. Ao compreender a forma como operam e os efeitos sobre indivíduos e grupos, o profissional de marketing será capaz de fortalecer argumentos, antecipar reações e fazer conexões de forma muito mais assertiva e eficaz. Eles nos mostram tendências de comportamentos que já podemos esperar que as pessoas irão adotar. Dessa forma, podemos prever esses comportamentos e preparar melhor nossos produtos, serviços e estratégias de marketing. Segundo Andrade (2023), o viés do consumidor pode afetar quais produtos alguém coloca em sua cesta, qual marca escolhe e até como irá comprar. Quando compreendemos profundamente como se dá esse processo, podemos obter respostas melhores a partir de campanhas mais bem sucedidas. O viés do consumidor é causado por atalhos na mente que nem mesmo ele sabe que existem, eles acabem por atrapalhar o trabalho dos profissionais de marketing. A personalização é uma das ferramentas utilizadas pelo marketing cognitivo para amenizar esses efeitos nos consumidores. “O marketing cognitivo ajuda a formar uma conexão entre marcas e clientes que pode influenciar o comportamento de compra e lealdade quando usado corretamente” (Andrade, 2023, p. 377). Funciona dessa forma: usa o que as pessoas já estão pensando de maneira positiva (Exemplo: “Brastemp é a melhor marca de geladeira”) para dar à marca uma posição que reflita a posição do cliente (frase de uma campanha da Brastemp: “essa geladeira é boazinha, 7 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos mas não é, assim, uma Brastemp, sabe?”). Vários tipos de vieses são utilizados na criação de uma campanha. Quando bem aplicados, podem fazer com que gerações continuem lembrando do produto e até cheguem a modificar a forma de falar, substituindo o nome de uma característica (Ex.: qualidade) pela sua marca (Ex.: Brastemp). O quadro 1 apresenta alguns exemplos de vieses cognitivos. Quadro 1: Exemplos de vieses cognitivos Viés Descrição Viés de Confirmação Tendemos a buscar e interpretar informações que confirmam nossas crenças pré-existentes, ignorando evidências contrárias. Efeito de Ancoragem Nossa mente fixa-se em informações iniciais ao tomar decisões, mesmo que não sejam relevantes ou precisas. Viés de Disponibilidade Damos mais peso a informações facilmente disponíveis em nossa memória, mesmo que não sejam representativas da realidade. Viés de Grupo Favorecemos opiniões alinhadas com nosso grupo social, mesmo que não sejam objetivamente corretas. Viés de Autoatribuição Atribuímos sucessos a habilidades pessoais e fracassos a fatores externos. Viés de Conservadorismo Resistimos a atualizar crenças mesmo com novas evidências. Viés de Confiança Excessiva Superestimamos nossa capacidade e subestimamos riscos. Viés de Atribuição Fundamental Atribuímos comportamento dos outros a traços de personalidade e nosso próprio comportamento a circunstâncias externas. Viés de Recência Damos mais importância a eventos recentes ao tomar decisões. Viés de Representatividade Julgamos a probabilidade de um evento com base em estereótipos ou categorias mentais, ignorando dados estatísticos reais. Viés de Status Quo Preferimos manter situações existentes, mesmo quando mudanças seriam benéficas. Viés de Cegueira de Confirmação Ignoramos ou minimizamos informações que contradizem nossas crenças. Viés de Dunning-Kruger Superestimamos nossa habilidade em áreas que não dominamos. Viés de Negatividade Damos mais peso a informações negativas do que positivas. Viés de Sobrevivência Baseamos conclusões apenas em exemplos sobreviventes, ignorando falhas ou ausências. Fonte: Elaboração própria (2024). 8 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Quantos comportamentos seus você consegue reconhecer na lista apresentada no quadro 1? Viés cognitivo e preconceito são conceitos relacionados, mas têm diferenças importantes. Um viés cognitivo é um erro sistemático de pensamento que ocorre quando as pessoas processam e interpretam informações do mundo à sua volta (Abogado, 2022). Ele é sempre inconsciente. Já o preconceito refere-se a atitudes ou sentimentos negativos ou positivos em relação a um grupo de pessoas com base em características como raça, gênero, religião ou nacionalidade (Davidoff, 2001). É uma predisposição para julgar ou tratar alguém de maneira desfavorável sem considerar a individualidade. O preconceito pode ser um comportamento consciente ou não. Considerações Finais da Aula O objetivo desta aula foi compreender a influência dos vieses cognitivos no nosso comportamento e na forma como interpretamos o mundo. Para tanto, aprendemos primeiro que um viés é uma distorção ou tortuosidade na maneira de observar, de julgar ou de agir. Depois, vimos que a cognição é a capacidade de processar informações e transformá-las em conhecimento com base em diversas atividades mentais. Logo em seguida, chegamos ao conceito de viés cognitivo, que são tendências psicológicas que nos fazem tirar conclusões incorretas e gerar comportamentos distorcidos ou não racionais. Identificamos a relação entre os vieses e os modelos mentais e aprendemos detalhes sobre a evolução e os aspectos biológicos que explicam a existência desses erros.Por fim, pudemos analisar alguns dos vieses mentais já existentes. 9 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Carolina Menezes De Almeida Santos Material Complementar Vieses cognitivos aplicados em comportamento de consumo 2023, Norberto Almeida de Andrade. Comportamento do consumidor aplicado ao neu- romarketing. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Freitas Bastos. Em seu livro Comportamento do consumidor aplicado ao neuromarketing, Andrade (2023) conseguiu identificar pelo menos 137 exemplos de vieses cognitivos. Disponível em: https://www.bvirtual.com.br/NossoAcervo/Publicacao/208243. Acesso em: 7 mai. 2024. Referências ABOGADO, Ismael. O que são os Preconceitos Cognitivos? Aprenda a identificá-los. The Brain, 2022. Disponível em: https://thebrain.blog/pt/preconceitos-cognitivos/. Acesso em: 8 abr. 2024. ANDRADE, N. A. D. Comportamento do consumidor aplicado ao neuromarketing. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2023. CAMARGO, P. C. J. D. Neuromarketing: a nova pesquisa de comportamento do consumi- dor. Barueri: Grupo GEN, 2013. CAMARGO, S. M.; MOURA, V. A. B. Introdução ao neuromarketing: desvendando o cére- bro do consumidor. Curitiba: Intersaberes, 2022. DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia. São Paulo: Person Makron Books, 2001 MARQUES, J. R. O que é modelo mental? Instituto Brasileiro de Coaching, 2019. Dispo- nível em: https://www.ibccoaching.com.br/portal/o-que-e-modelo-mental/. Acesso em: 17 mar. 2024. O que é cognição? Enciclopédia Significados, 2024. Disponível em: https://www.signifi- cados.com.br/cognicao/. Acesso em: 17 mar. 2024. https://www.bvirtual.com.br/NossoAcervo/Publicacao/208243 https://thebrain.blog/pt/preconceitos-cognitivos/ https://www.ibccoaching.com.br/portal/o-que-e-modelo-mental/ https://www.significados.com.br/cognicao/ https://www.significados.com.br/cognicao/ O Inconsciente e os Métodos Tradicionais de Pesquisa do Comportamento Pesquisas de Mercado: Mentira, Engano e Autoengano Vieses Cognitivos Genética, Memética, Aprendizado e Memória O Comportamento Econômico do Consumidor