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VIEIRA, M. M.; LACERDA, D. S. Poder nas Organizações: da Dominação de Poucos à 
Ação de Todos. In: PICCININI, V. C. ; ALMEIDA, Marilis Lemos ; ROCHA-DE-
OLIVEIRA, Sidinei. (Org.). Sociologia e Administração: relações sociais nas organizações. 
1ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, p. 63-82. 
 
Poder nas Organizações: da Dominação de Poucos à Ação de Todos 
 
 Marcelo M. F. Vieira 
 Daniel S. Lacerda 
 
1. PODER NAS ORGANIZAÇÕES 
O interesse que o estudo do Poder desperta nos estudos de organizações é tão grande quanto a 
controvérsia que existe em suas várias abordagens possíveis. Muitos autores sequer admitem 
a sua existência como algo inerente às organizações, interpretando-o como ações informais, 
ilegítimas ao desenho teórico da organização. Na verdade, o poder é uma das categorias 
centrais para a análise das organizações (CARVALHO e VIEIRA, 2007), e as questões que 
geralmente o acompanham (funcional ou disfuncional; consciente ou desinteressado; 
repressivo ou produtivo; etc.) são apenas formas diferentes de o conceber que partem de 
perspectivas teóricas distintas. 
O poder pode ser definido de duas formas aparentemente simples, mas que guardam grandes 
diferenças de fundo, com implicações diretas para a compreensão e ação no mundo. Pode-se 
defini-lo como a capacidade que tem um agente de influenciar o comportamento de 
outro. Esta definição tem sido a mais utilizada para a análise das organizações formais. Ela 
conduz inevitavelmente à interpretação da dinâmica social e das (e nas) organizações a partir 
de um olhar sobre o agente dominante na relação, ou seja, aquele que influencia. Pouco 
conduz à análise do influenciado e quando o faz, o coloca invariavelmente em uma posição 
de inferioridade. Outra definição de poder que se pode assumir é de que ele corresponde à 
capacidade de gerar ação, ou capacidade de agir. Esta definição estabelece o foco da 
análise na relação, o que permite não só compreender a capacidade de um agente influenciar 
outro, mas também a capacidade do outro reagir. A reação pode ser considerada uma ação em 
si, o que significa que o outro também tem poder. Assim, a resistência é também considerada 
uma expressão do poder. Esta segunda definição tem sua origem na filosofia humanista e é 
mais difundida e utilizada na ciência política (ver BOBBIO, 2000) do que nos estudos 
organizacionais. Essas são as duas definições fundamentais do conceito de poder, as quais 
são trabalhadas neste capítulo. 
Faz-se oportuno, entretanto, contextualizar os estudos sobre poder no âmbito dos Estudos 
Organizacionais. As organizações têm sido tratadas como expressões concretas de exercício 
de poder. Nas análises tradicionais sobre as organizações formais, particularmente no que se 
refere às organizações do trabalho e da produção, o poder remonta à época do surgimento da 
Administração como área sistematizada do conhecimento. Nos trabalhos de Taylor (1960 
[1911]) o poder já aparecia, de forma subliminar, como variável central para possibilitar 
controle e gerar eficiência. Com esse objetivo Taylor delineou a divisão do trabalho em 
diferentes tarefas simples, o que facilitava sua execução. Ao fazer isso, os trabalhadores 
 2 
perderam poder em relação à organização, uma vez que poderiam ser substituídos facilmente 
por outros, caso demonstrassem alguma resistência às demandas organizacionais1. 
Hickson (1966) já chamava atenção para o fato de que as teorias sobre estruturas 
organizacionais convergem todas para uma única linha de análise, qual seja, a especificidade 
da prescrição do papel social que cada indivíduo nelas desempenha. Dessa forma, o exercício 
do poder torna-se mais eficaz e, por conseqüência, o controle passa a ser também um 
conceito correlato chave nos estudos organizacionais. Como afirma Kouzmin (1980, p.134) 
“organização significa um método de controle social, uma forma de impor regularidade à 
sociedade e à ação coletiva.” 
As formas de exercício de poder por meio das organizações do trabalho e da produção 
evoluíram de formas mais visíveis para formas menos visíveis; do exercício do poder 
diretamente sobre o trabalhador para o exercício do poder por vias impessoais e menos 
visíveis, chamadas de controle das premissas cognitivas dos indivíduos, por meio daquilo que 
se convencionou rotular como cultura organizacional. Essa “evolução” das formas de 
exercício do poder e do controle (dominação, no sentido weberiano) são reflexos do processo 
de racionalização do mundo, particularmente o do trabalho. O desencantamento de Max 
Weber com esse processo diz respeito à sua análise em relação ao predomínio de um tipo de 
racionalidade como orientador da estruturação e estabelecimento da sociedade moderna: a 
racionalidade instrumental. Como esse tipo de racionalidade corresponde à ação orientada 
pelo cálculo utilitário das conseqüências, há cada vez menos espaço para julgamentos de 
valor sobre o bem e o mal. A ação é legítima e considerada válida quando gera eficiência. Os 
julgamentos valorativos estariam, portanto, cada vez mais escassos, pois só seriam possíveis 
em ações orientadas pela racionalidade substantiva. Ela é o único tipo de racionalidade capaz 
de proporcionar julgamentos éticos (KALBERG, 1980). 
Entretanto, este não é um texto pessimista. Ao trabalhar com uma definição de poder como a 
capacidade de agir, abre-se espaço para análises diferentes daquelas recorrentes na literatura 
de Estudos Organizacionais, que enfatizam o controle e as formas de dominação. Trata-se de 
um instrumental teórico rico para a análise de práticas de resistência nas organizações 
formais, bem como para o estudo de formas organizativas que não se estruturam a partir dos 
conhecimentos tradicionais gerados pelas teorias da Administração (e das organizações) 
estabelecidas. O objeto central se transforma. Deixa de ser o controle como manifestação do 
poder e passa a ser a liberdade. Este conceito, apesar de pouco tratado nos estudos 
organizacionais tradicionais, permite enxergar além da dominação e do controle, colocando o 
homem no centro do processo organizativo. 
Esse capítulo se baseia fundamentalmente em dois autores para ilustrar as formas de 
manifestação do exercício do poder nas organizações: Max Weber e Hannah Arendt. Ambos 
os pensadores fundaram, partindo de perspectivas e motivações distintas, arcabouços 
 
 
1 À execução de tarefas simples corresponde a alienação, em função da perda do sentido do trabalho. Um operário que 
controla a mistura de cores em uma fábrica produtora de cerâmicas não sente nenhuma relação emocional com um vaso em 
tons de verde e vermelho, considerando este como produto final do processo produtivo. Ao ser questionado como ele se 
sente como alguém que faz vasos, responderá que não saber fazê-los; ele se definirá como trabalhador que opera a máquina 
misturadora de cores. O trabalho composto por um conjunto de tarefas simples, cujo poder discricionário é praticamente 
nulo, não possui sentido em si. 
 3 
conceituais que permitem compreender e observar o poder e suas particularidades como 
objetivamente presentes nas organizações. 
 
1.1. Conceito de poder 
O poder é mais largamente conhecido na modernidade através da definição postulada por 
Weber (1994), que engloba as várias manifestações e estudos gerencialistas do poder: 
a probabilidade de que um ator, dentro de uma relação social, esteja em 
condições de realizar sua própria vontade apesar da resistência, 
independentemente da base na qual essa probabilidade repousa (WEBER, 
1994, p. 54) 
Entretanto, como será explicado, essa definição pressupõe uma visão particular de poder, que 
pode ser caracterizado antes a partir de elementos mais genéricos. Segundo Lukes (1980, 
p.826), o núcleo absolutamente básico e comum a todas as concepções de poder é “a noção 
da provocação das consequências, sem nenhuma restrição ao que tais consequências 
poderiam ser ou o que as provoca”. Partindo dessa definição,para dar significância ao 
conceito de poder, deve-se assumir uma teoria que responda o que torna as consequências 
provocadas como características de poder. 
As diversas concepções de poder podem ser divididas em duas grandes categorias, distintas 
entre si e abordadas a partir de diferentes perspectivas. De um lado, a perspectiva do poder 
assimétrico, bem representado pela definição de Weber, e que envolve sempre conflitos reais 
ou potenciais. Segundo essa visão, o poder seria exercido através da ação de um indivíduo ou 
grupo de indivíduo sobre outros, e existe sempre uma diferença de probabilidade de 
condições entre o detentor do poder e os demais participantes desse espaço social. 
Em outra linha, o poder pode ser visto como uma capacidade ou realização coletiva, a partir 
da qual qualquer manifestação não coletiva é vista como alternativa ao poder. Dessa forma, 
apenas a conjunção de todos para a ação são enxergados como poder, e uma eventual 
assimetria entre o suposto detentor do poder e os demais indivíduos são caracterizados na 
verdade como violência. 
Essas duas visões excludentes de poder não podem ser entendidas em conjunto, uma vez 
utilizam premissas que partem de interpretações diferentes das relações sociais e políticas: 
entendidas como eminentemente conflituais para uns e harmoniosas ou comunais para outros. 
 
1.2. Poder e Autoridade 
Toda teoria que trate de poder deve dar uma interpretação também à questão da autoridade. 
Poder e autoridade podem ser enxergados como conceitos afins, e abarcam estruturas 
análogas de concepções. Existem dois aspectos fundamentais no reconhecimento da 
autoridade (LUKES, 1980, p.831): 
• o não exercício do julgamento particular; 
• a identificação do possuidor de autoridade como tendo direito a isso. 
O primeiro aspecto é entendido como o reconhecimento de que aquele que outorga uma 
ordem o faz com pretensão reconhecida pelo comandado, que se abstém de examinar o 
 4 
conteúdo dessa ordem de forma racional para seguir a determinação: o questionamento dessa 
ordem já pressupõe a não aceitação da autoridade. Ainda que possa questionar a autoridade, o 
indivíduo pode se submeter a ela, considerando a existência de um poder coercivo que o 
incentive/obrigue a isso. 
Já o segundo componente do conceito de autoridade conota a existência de regras de 
reconhecimento da autoridade (tácitas ou formais) que revelam mutuamente quem dispõem 
de autoridade e quem não dispõem. Essas regras podem estar contidas i) sobre a crença; ii) 
por convenção ou; iii) pela imposição. No caso das organizações, a autoridade exercida pela 
crença pode ser observada pelo reconhecimento de um perito, que pode trazer a validade de 
sua autoridade no reconhecimento de seu conhecimento, independente do conteúdo de suas 
ordens. A autoridade por convenção é observada rotineiramente quando se identifica, por 
exemplo, um líder de uma reunião ou o presidente eleito de um sindicato. Já a concepção da 
autoridade pela imposição é aquela mais diretamente ligada ao poder, pois é outorgada por 
quem o detém, como no caso da delegação de atribuições do chefe para um subordinado. 
Muitos pensadores julgam que a autoridade obtida pela imposição como a única forma 
concretamente realizada na sociedade, uma vez que o poder estaria presente na determinação 
tanto das razões da autoridade como nas regras para reconhecimento da autoridade. Para 
esses pensadores, as demais formas de autoridade (sobre a crença e por convenção) nunca se 
realizaram na história, e poderiam ser observados a partir da perspectiva do poder simétrico 
quando servissem ao bem comum (LUKES, 1980, p. 837). 
Apesar da freqüente coexistência, poder e autoridade são conceitos distintos. Na sociedade 
romana, originalmente autoritas significava a posse de um status especial, e o Senado era 
revestido dessa autoridade. No entanto, o mesmo Senado não emanava o poder (potentas), 
que vinha unicamente do povo. Durante a idade média, os dois conceitos se aglutinaram 
através da Igreja, que misturada ao Estado se investia de poder e autoridade, e as palavras 
passaram a ser utilizadas de forma indistinta. Segundo Lukes (1980), alguns autores 
acreditam que a distinção entre autoridade e poder foi restabelecida a partir do impacto que a 
Revolução Francesa causou sobre a sociedade tradicional, rompendo com a influência 
religiosa que ligava o poder político à autoridade social. 
2. A PERSPECTIVA DO PODER ASSIMÉTRICO 
Seguindo a abordagem funcionalista, em geral as organizações frequentemente se utilizam do 
poder (seja de forma conscientemente ou desinteressada) visando obter o consentimento, que 
pode servir para se vencer ou prevenir um conflito. Esse é um dos principais motivos do 
estudo do poder por essa corrente teórica, e está intimamente ligado aos interesses dos grupos 
(a partir da idéia básica de classe) dentro da organização. 
 
2.1. Categorizações dos estudos de poder 
Lukes (1980) categoriza as várias concepções de poder nesse campo em três modos distintos 
de concebê-los: a obtenção de aquiescência; a relação de dependência; e a desigualdade. A 
obtenção de aquiescência (que pode ser entendido como o controle de um sobre outros) se 
manifesta nas várias formas de predomínio da vontade de uma pessoa ou grupo sobre outro. 
Esse predomínio da vontade pode ser obtido através da força ou até mesmo pela manipulação 
utilitária que induza o comportamento desejado do controlado pelo controlador. Uma 
 5 
manifestação ativa desse modo de expressão pode ser visto nos estudos estruturalistas de 
Blau (1964), que defende que é o poder quem determina o quão eficiente será a troca que 
fundamenta as relações e interações humanas, seja na forma de recompensas ou punições. 
Mas, talvez sejam as formas passivas de poder aquelas mais representativas de aquiescência: 
trazem como resultado a manutenção do status quo através da redução do emprego do poder 
pelos subordinados. Os detentores de poder estabelecem relações de tal modo que aqueles 
que não o detém enxergam esse cenário como definitivo. Dessa forma, uma estrutura de 
relações já estabelecida contém uma ordenação tida como imutável, uma hegemonia 
ideológica2, que exclui a percepção de alternativas. 
Essa concepção do poder de controle de um ator sobre outro é bem observada na hierarquia 
das organizações. Os subordinados devem, via de regra, obedecer a seus chefes que tem a 
priori o controle sobre seus comandados. Essa forma de controle pode ser explícita 
(reafirmada continuamente) ou pode ser menos óbvia, por exemplo, através do discurso de 
um funcionário, independente de seu nível hierárquico, que induza outro funcionário ou 
grupo a perseguir um objetivo qualquer em prol de seus interesses (que podem ou não serem 
os mesmos da organização). O controle pode ser observado também no exemplo de uma área 
de PMO3 estratégico, comum nas organizações modernas, quando recebe a prerrogativa de 
definir quais projetos serão ou não executados pelas fábricas, ainda sejam projetos que 
pertencem a diretorias hierarquicamente superiores a ela. 
O poder como relação de dependência pode ser considerado um subtipo do primeiro – 
obtenção de aquiescência – a não ser pela diferença de que, neste caso, a relação em si entre 
os dois atores são suficientes para que um obtenha do outro a obediência, independentemente 
das ações ou até mesmo da consciência de existência dessa relação pelas partes. Em empresas 
as relações de dependência são largamente encontradas. A começar pelos próprios processos 
organizacionais, que são transversais a diversas áreas, e as variáveis de entrada para uma 
atividade dependem sempre dos produtos de outra área. De forma menos processual, a área 
de marketing, por exemplo, depende sempre da engenharia para definir os produtos e ofertas 
possíveis tecnicamente de serem implantados. Em qualquer tipo de organização (mesmo as 
sem fins lucrativos), os responsáveis pela manutenção de equipamentos e informática gozam 
depoder frente aos demais membros pela dependência que todos tem de seus serviços. 
O poder provocado por uma relação de desigualdade diz respeito ao saldo final de 
distribuição dos recursos que provocam um diferencial vantajoso para uma das partes, 
independentemente da aquiescência ou dependência entre as partes. Essa estratificação é 
visualizada pelo fluxo de recursos no sistema. Em uma organização, os membros que detém 
informações estratégicas antes dos demais (ou uma área sobre outra), a despeito do nível de 
aquiescência ou dependência dentre eles, obtém uma vantagem para movimentação interna 
nesse cenário. Assim como uma área que detém maior budget orçamentário que outra área 
par detém também maior poder de influência. 
 
 
2 Stewart Clegg (1989) relaciona essa categoria ao conceito de hegemonia ideológica de Antonio Gramsci, que caracteriza a 
liderança cultural-ideológica de uma classe sobre as outras. Ver também Bourdieu (2006). 
3 Project Management Office – área ou prática que visa garantir a seleção dos projetos, gerenciamento adequado e 
propagação da metodologia de gestão de projetos 
 6 
Como dito anteriormente, a definição de Weber - probabilidade de que um ator esteja em 
condições de realizar sua própria vontade – contempla as três categorias acima. O autor parte 
de um modelo teleológico da ação: “em que todos os atores estão orientados para o próprio 
sucesso: tendo um objetivo, trata-se de obter os meios apropriados para realizá-lo.” (VIEIRA 
e MISOCZKY, 2000). O estudo da perspectiva propagada por Weber desenvolveu muitas 
classificações e concepções do exercício do poder. 
 
2.2. Dominação e Legitimidade 
Weber considera o poder como um conceito amorfo, e por esse motivo define um “caso 
especial de poder” que chama de dominação: “a probabilidade que ordens específicas sejam 
obedecidas por um certo grupo de pessoas” (WEBER, 1994, p.212). A dominação seria, 
portanto, o exercício de um poder legítimo – ou, mais corretamente, legitimado. Esse 
conceito é importante aqui na medida em que, segundo o autor, toda organização carrega 
consigo sempre uma “estrutura de dominação em seu funcionamento”, e o poder pode ser 
visto através do controle sobre os meios e métodos de produção em organizações: 
[organizações podem ser vistas] como estruturas de domínio e 
subordinação regional dentro de um sistema social que é um sistema 
mundial, i.e. que tem limites, estruturas, onde membros se agrupam, 
regras de legitimação, e coerência', nos quais a 'vida é composta de 
forças contraditórias que unem tudo isto por tensão, e os rasga 
separada e eternamente da forma com que cada grupo molda para sua 
vantagem' (CLEGG, 1979, p. 114) 
Hardy e Clegg (1999, p.271) mostram que essa estrutura fundamenta algumas premissas nas 
organizações: as organizações em nada são sistemas neutros ou apolíticos, carregam 
incrustados em si um histórico de conflitos que permeia as relações atuais. Essa estrutura de 
dominação é concretizada a partir, por exemplo, de formas de controle, que podem ir desde o 
controle simples por supervisão até o controle tecnocrático das novas relações de trabalho. 
Weber enxerga três tipos de manifestação da dominação legítima, e cada uma delas está 
ligada a uma estrutura sociológica radicalmente diferente do corpo administrativo e dos 
meios da administração (WEBER, 1994, p.215): 
• Dominação de caráter racional/legal – repousa na crença da legalidade das regras 
estabelecidas e na autoridade daqueles que emanaram tais regras. Essa forma de 
dominação está intimamente ligada à administração burocrática, e é facilmente 
observada nos procedimentos internos de uma organização. 
• Dominação de caráter tradicional – fundada na crença cotidiana da “santidade” das 
tradições imemoriais e na legitimidade daqueles que exercem a autoridade delegada 
por ela. Essa influência da norma social tem em seu tipo mais “puro” o poder 
patriarcal, que existe em todas as unidades sociais onde o poder é reclamado 
unicamente em virtude do costume implantado. 
• Dominação de caráter carismático – baseada na devoção ao heroísmo ou caráter 
exemplar de um indivíduo e nos padrões ou ordens reveladas por ele. Esse é o tipo 
mais estudado pela abordagem gerencialista de administração, que se funda nas 
 7 
qualidades utilitárias que devem ser exercidas por um líder para permitir o comando 
de seus liderados. 
A dominação weberiana pode ser vista, portanto, como uma forma de manutenção de um 
estado de ordem por um período prolongado. Para tanto, vale-se principalmente da premissa 
de sua legitimidade, utilizada dentro da mesma perspectiva da administração burocrática. No 
entanto, a objetividade de tal conceito é certamente questionável na medida em que se abre 
espaço para contestação dessa dominação. 
Alguns autores da abordagem gerencialista utilizaram-se da suposta objetividade e 
neutralidade das estruturas de poder sedimentadas nas organizações para reforçar a sua 
distinção no tocante à sua legitimidade ou ilegitimidade. O poder legítimo seria aquele que 
deriva das funções hierárquicas previstas pelo desenho organizacional, concedendo aos seus 
detentores influência sobre todos os subordinados. De forma análoga, o poder ilegítimo seria 
exercido pelo uso informal dos recursos, tido, portanto como não aceito e problemático. Essa 
conceituação, certamente parcial, alicerça uma série de outras noções, como o conceito de 
política – entendida pelos autores dessa mesma perspectiva por uso do poder não sancionado, 
ou não legítimo: 
Reduzida à sua essência, portanto, política refere-se ao comportamento de um 
indivíduo ou de um grupo que seja informal, ostensivamente paroquial, tipicamente 
divisivo, e acima de tudo, no sentido técnico, ilegítimo – não é sancionado pela 
autoridade formal e ideologia aceita, nem por uma especialidade reconhecida 
(MINTZBERG, 1983, p. 172) 
Assim, o poder seria conferido funcionalmente a um grupo restrito, para que guardassem os 
interesses da instituição. Qualquer articulação que se utilize de comportamentos não 
sancionados por esse poder seria considerado ilegítimo. Essa visão é corroborada em estudos 
que sequer aprofundam o poder como tema a parte, tais como a liderança e a cultura 
organizacional, que são objetivados e geram mecanismos de coerção tidos como neutros e 
inevitáveis. 
Essa redução se torna problemática uma vez que ignora que os próprios gerentes e líderes da 
organização, como qualquer outro grupo, podem estar em busca dos próprios interesses 
ocultos (HARDY e CLEGG, 1999, p.271). De fato, há mais sentido em falar de poder 
legitimado do que legítimo, pois a classificação da legitimidade é sempre um julgamento de 
valor de um grupo ou indivíduo. Portanto, preferimos como classificação de aderência aos 
objetivos da organização as nomenclaturas de funcional (delegado aos gestores que buscam 
os objetivos organizacionais) e disfuncional (não previsto pelo desenho burocrático). Já o 
processo de legitimação do poder passa, portanto, pelo reconhecimento da autoridade, 
conforme explicado no início deste capítulo. 
3. A PERSPECTIVA DO PODER SIMÉTRICO 
Hannah Arendt foi uma das principais pensadoras do século XX, e conseguiu resgatar uma 
dimensão política relegada a segundo plano na modernidade tardia, que nos permite 
estabelecer a compreensão de um poder coletivo voltado para o bem comum. A filósofa 
rompe com o uso do poder em dimensão utilitária e estabelece a possibilidade de alcançá-lo 
através de, e apenas por, uma construção do espaço público feita pela não-violência. 
Seguindo a proposta de Avritzer (2006), visando entender esse processo, refaremos o 
percurso histórico de Hannah Arendt no qual alguns conceitos são resgatados e reassociados, 
 8 
em busca do estabelecimento da verdadeira ação política, que seja coerentemente 
institucionalizada sobre a legítima autoridade, e permita a refundação social. 
 
3.1. Labor, trabalho e ação 
Dentre os principaismotivos que levam Hannah Arendt a um resgate histórico da política, 
está a crítica à modernidade e ao pensamento de Karl Marx4 (AVRITZER, 2006), para o qual 
apenas a transformação da natureza pode ser considerada um ato reflexivo gerador de 
consciência. Esse conceito se baseia no fato que o homem só pode conhecer aquilo que ele 
mesmo faz/produz, enquanto o conceito tradicional defendia uma verdade apenas possível 
como revelação dada ao homem. A partir dessa motivação, a autora de A Condição Humana 
defende uma concepção diferente para naturalidade e artificialidade, e suas consequentes 
relações com a política. 
A distinção de naturalidade e artificialidade parte da separação de três conceitos 
fundamentais dessa teoria: labor, trabalho e ação. Para Arendt (2009), Labor e trabalho são 
atividades através das quais o homem renova o ciclo natural da sua própria vida ou 
transforma os objetos sociais. A filósofa resgata a distinção entre os dois conceitos, que 
convergiram para o mesmo significado na modernidade, apesar de todas as línguas européias 
possuírem palavras de etimologia diferentes para designar o que, hoje, adquire o mesmo 
significado. O labor é a “atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano” 
(ARENDT, 2009, p. 15), no qual o homem busca responder apenas às necessidades de 
sobrevivência, sem nenhuma orientação aos eventuais resultados posteriores à satisfação das 
necessidades em si. Já o trabalho é a que proporciona a fabricação da “infinita variedade de 
coisas cuja soma total constitui o artifício humano” (ARENDT, 2009, p. 149). O trabalho é 
reconhecido pelos seus produtos, que resistem ao uso do ser humano – uma cadeira 
permanece após a conclusão do trabalho e resiste ao uso –, e por isso possui caráter de 
permanência superior, através da durabilidade: 
É esta durabilidade que empresta às coisas do mundo sua relativa 
independência dos homens que as produziram e as utilizam, a 
«objetividade» que as faz resistir, «obstar» e suportar, pelo menos durante 
algum tempo, as vorazes necessidades dos seus fabricantes e usuários. Deste 
ponto de vista, as coisas do mundo têm a função de estabilizar a vida 
humana; sua objetividade reside no fato de que - contrariando Heraclito, que 
disse que o mesmo homem jamais pode cruzar o mesmo rio - os homens, a 
despeito de sua contínua mutação, podem reaver sua invariabilidade, isto é, 
sua identidade no contato com os objetos que não variam, como a mesma 
cadeira e a mesma mesa. (ARENDT, 2009, p.150) 
O labor é um conceito muito mais ligado à necessidade do que à vontade, e por esse motivo 
em muitas perspectivas ganha uma “importância” menor em nossa escala de valores. Até 
mesmo a escravidão da antiguidade era uma forma de excluir o labor de nossa vida cotidiana 
(e não de gerar lucros como na modernidade): “tudo que os homens tinham em comum com 
 
 
4 A Crítica a Karl Marx em nada se assemelha a feita por autores que “decidiram se tornar antimarxistas profissionais” 
(ARENDT, 2009, p.89), mas se motivam nas premissas utilizadas por Marx – a de que ação, discurso e pensamento são 
estruturas funcionais assentadas no interesse social, premissas que foram absorvidas por ele, mas o precedem historicamente 
 9 
outras formas de vida animal era considerado inumano” (ARENDT, 2009, p. 95). Assim 
como o esquilo persegue suas sementes e o leão busca a sua caça, o homem labora para 
permitir a manutenção da sua vida, seja plantando, transportando ou limpando. Foi dessa 
forma que historicamente acompanhou a aristocracia o valor e a veneração pelo ócio. Não 
pelo que o ócio representa em si, mas pelo fato de nos abster das necessidades da vida. 
Já o trabalho é considerado a atividade que eleva o homem de animal laborans a homo faber. 
A atividade humana permite nessa concepção a fabricação de coisas a partir do uso de suas 
mãos como instrumentos, em lugar do uso do corpo restrito ao labor pela simples manutenção 
da vida. Essa mudança estabelece também uma nova relação do homem com o mundo. 
Enquanto o labor aprisiona o homem junto à natureza que se coloca como condição de sua 
existência, como provedora das coisas boas que precisam ser usufruídas para garantir a sua 
sobrevivência, o trabalho insere uma nova perspectiva nessa relação. A natureza agora é 
apenas fornecedora apenas dos materiais que, em si, são desprovidos de valor, pois é o 
trabalho quem confere o valor das coisas. Essa mudança, no entanto, ainda não liberta o 
homem de sua maior necessidade. 
A emancipação do trabalho e a concomitante emancipação das classes 
trabalhadoras em relação à opressão e à exploração certamente significaram 
progresso na direção da não-violência. Muito menos certo é que tenham 
representado progresso também na direção da liberdade. Nenhuma violência 
exercida pelo homem, exceto aquela empregada na tortura, pode igualar a 
força natural com que as necessidades da vida compelem o homem. 
(ARENDT, 2009, p. 141) 
Essa categoria não atinge a imanência característica do homo rationale. Exatamente por esse 
motivo, ainda foi pouco valorizada na escala de valores da sociedade, até que a modernidade 
promovesse uma forte valorização do trabalho (labor), que passou a ocupar o centro da escala 
de valores antes comandada pela razão. Para a sociedade moderna, toda ocupação deveria 
demonstrar sua utilidade, e até mesmo a atividade política foi rebaixada a posição de 
‘necessidade’. 
A distinção entre trabalho manual e intelectual também é moderna. Hoje essa é uma das mais 
características manifestações de valor das funções de empresas econômicas: de um lado a 
operação do trabalhador executor que deve seguir impensadamente às ordens prescritas; e de 
outro o projetista ou planejador das ações que é, via de regra, vinculado a um maior poder 
assimétrico representado por maior cargo ou faculdade de decisão. Se nos voltamos à 
antiguidade, mesmo as atividades ditas intelectuais – como a dos escribas – eram executadas 
por escravos e consideradas servis. Em contraponto, uma atividade manual como a fabricação 
de uma cadeira, já menos valorizada na modernidade, tinha um componente de durabilidade 
que dava projeção igual à de qualquer outro trabalho. 
Apesar da evolução conceitual do trabalho frente ao labor, o uso contínuo dos produtos desse 
trabalho desgasta a sua durabilidade: a cadeira um dia voltará a ser lenha, e retornará para a 
natureza. Assim, a busca da permanência se volta à ação: única atividade da qual nenhum ser 
humano pode abster-se sem deixar de ser humano. A ação é a atividade humana que 
diferencia o homem enquanto ser coletivo, dotado da capacidade singular de abstrair suas 
relações diretas em prol de uma construção de algo novo. A ação transcende a mera atividade 
produtiva, e se localiza entre as manifestações de igualdade (sem a qual os homens não 
poderiam entender uns aos outros) e pluralidade (sem a qual não seria necessário o uso do 
discurso e da ação para entenderem uns aos outros). Esse conceito, original e central de 
 10 
Hannah Arendt, é inspirado nas atividades políticas da Grécia antiga, e teria a capacidade de 
criar verdadeiramente a permanência, em oposição a uma natureza sempre renovável. 
A permanência a qual se refere a filósofa é a busca pela eternidade, muito mais ligada à 
contemplação individual do que a imortalidade, que significa uma perene vida “entre o 
homens”. A ação é, nesse contexto, um contraste à vida natural sempre renovável. Daí parte 
a distinção entre o natural e o artificial. A artificialidade humana é a busca para ultrapassar e 
transcender a simples convivência. O objetivo é a construção da convivência, de modo que os 
seres humanos possam se manifestar uns aos outros como homens, e não como objetos 
físicos. Esse objetivo só pode ser alcançado através da artificialidade produzida pela ação, 
pois a naturalidade conduz o homem a uma existência limitada nesse mundo. 
O ambiente para o desenvolvimento dessa açãopautada na artificialidade é resgatado do 
conceito de espaço público. Esse espaço, equivalente à polis ateniense, diferencia-se 
radicalmente da esfera privada (oikia ateniense), por sua vez o lugar da tirania. O espaço 
público é o lugar construído em comum pelos indivíduos onde a política está presente. É 
nesse espaço que a ação do homem se manifesta quando existe para o alcance do bem 
comum, e é onde a política tem lugar. Portanto, quando há igualdade entre homens que se 
utilizam do discurso para manifestação em um espaço público, ali se cumprem todas as 
condições para realização da política através da ação humana. 
 
3.2. Contrato e autoridade 
Apesar da constituição da ação satisfazer a busca de Hannah Arendt pelo conceito 
verdadeiramente humano de política, segundo Avritzer (2006), a autora enxerga uma lacuna 
na capacidade grega de institucionalizar essa ação – individual e humana. Essa lacuna se 
traduz na incapacidade grega de perpetuar a ação para além dos limites da imprevisibilidade 
humana. Ou seja, a ação humana não consegue sozinha permanecer para além das próprias 
relações em que ela se sustenta, motivo pelo qual a filósofa se volta para a busca de uma 
solução histórica que permita transpor esses limites. 
As fundamentações de Hannah Arendt não rejeitam ou confrontam essa imprevisibilidade 
humana. Pelo contrário, de certo modo a exalta, observando ser característica de nossa 
existência. Promove, até mesmo, um diálogo entre as teorias evolucionistas (para quem 
seleção de algumas das inúmeras mutações ocasionais promove novas criações) e 
criacionistas (que preterem a explicação natural para enfocar a vida como dom de Deus) ao 
contemplar a constituição de nosso mundo. 
É da natureza do início que se comece algo novo, algo que não pode ser 
previsto a partir de coisa alguma que tenha ocorrido antes. Este cunho de 
surpreendente imprevisibilidade é inerente a todo o início e a toda a origem. 
Assim, a origem da vida a partir da matéria inorgânica é o resultado 
infinitamente improvável de processos inorgânicos, como o é o surgimento 
da Terra, do ponto de vista dos processos do universo, ou a evolução da vida 
humana a partir da vida animal. O novo acontece sempre à revelia da 
esmagadora força das leis estatísticas e da sua probabilidade que, para fins 
práticos e quotidianos, equivale á certeza; assim, o novo surge sempre sob o 
disfarce do milagre. (ARENDT, 2009, p. 190-191) 
Observando que ninguém pode reificar a si mesmo, a autora busca a chamada 
institucionalização na força do poder legislativo romano, que tinha um papel muito maior na 
 11 
vida política de Roma do que para os gregos (para quem as leis eram produto da fabricação e 
não da ação). Essa institucionalização permitiria à ação sobreviver para além dos seus atores 
e da imprevisibilidade que a renovação de gerações proporciona. 
A força da promessa presente na vida política de Roma era evidenciada na inviolabilidade 
dos contratos
5, tendo a faculdade de aplacar as dúvidas da imprevisibilidade que a liberdade 
em uma comunidade de iguais proporciona6. Deixados em seu rumo natural, os negócios 
humanos só poderiam seguir a lei da mortalidade, e é a ação humana quem interfere nesse 
curso inexorável da vida e interrompe o destino natural do processo da vida biológica. A 
institucionalização dessa ação promovida pelos contratos, por sua vez, permite a continuação 
dos efeitos da ação para além dos atores que interagem. 
A missão de se alcançar essa continuidade é creditada ao poder, oriundo da convivência entre 
os homens, que o faz através da preservação da esfera pública: 
É o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial da 
aparência entre homens que agem e falam [...] sem o poder, o espaço da 
aparência produzido pela ação e pelo discurso em público desaparecerá tão 
rapidamente como o ato ou a palavra viva.” (ARENDT, 2009, p. 212-216). 
Importante notar que esse “contratualismo” de Arendt é diferente, por exemplo, da teoria de 
Hobbes (1974), que defende a abdicação de todos os indivíduos da faculdade de exercer sua 
força e poder em benefício de um poder público comum, carregado da autorização de 
promulgar ordens em nome de cada um dos indivíduos. Apesar de considerar a igualdade 
entre homens, do ponto de vista de seu nascimento7, a premissa de “estado natural” de 
filósofos como Thomas Hobbes constitui indivíduos com interesses privados irredutivelmente 
conflitantes, que lançam mão do contrato social para criar o caráter político do homem 
visando à paz e estabilidade entre eles. Essa premissa de estado natural é fundamentalmente 
diferente do caso do pensamento grego, adotado por Hannah Arendt, de que o homem já é 
por natureza político, e lança mão do contrato para vincular o futuro a um anseio do presente, 
em uma sociedade de iguais também no exercício da cidadania. O contrato é manifestação 
potencial do poder enquanto forma de manter a continuidade da ação. 
Esse mesmo poder não pode ser armazenado ou mantido, só existe enquanto efetivação de ato 
e palavra em sinergia. Até ser efetivado, ele existe como algo potencial, potencialidade 
presente através da convivência entre os homens, que desaparece no momento em que eles se 
dispersam. Nessa perspectiva, o indivíduo isolado jamais poderia ser detentor de poder, mas 
sim de força. Essa força, sozinha, nunca poderia estabelecer relações de poder, mas sim de 
violência: é possível dividir o poder sem diminuí-lo, ao passo que a força é indivisível. 
A solução de institucionalização através dos contratos vem acompanhado de um outro 
elemento fundamental da influência romana: Roma teve um momento de ação com fundação 
 
 
5 Cuja descoberta a autora credita a Abraão no Antigo Testamento (ARENDT, 2009, p. 255) 
6 Hannah Arendt rejeita a individualização do conceito de liberdade, orientado pelo liberalismo a uma satisfação 
autosuficiente, desconectada do projeto comum. No mundo antigo, a liberdade é um conceito coletivo, alcançável 
coletivamente. 
7 Thomas Hobbes se contrapunha apenas a soberania dos monarcas pelos privilégios das nobrezas 
 12 
que foi essencial para o estabelecimento e exaltação da identidade de um espírito público. A 
fundação da cidade e o estabelecimento de suas leis foram atos decisivos, aos quais todos os 
sucessivos atos deveriam ser relacionados para sancionar a sua validade. Essa fundação é 
também uma forma de preservar a tradição e os negócios humanos. 
A disponibilidade dos indivíduos para a aceitação das bases institucionais do poder 
dependem do estabelecimento também da autoridade. A autoridade na relação entre duas 
pessoas não reside no senso comum nem mesmo no poder de quem comanda, e sim na 
hierarquia em si, cuja validade e legitimidade ambos reconhecem e aceitam. A autoridade 
prescinde, portanto, do uso de qualquer forma externa de coerção: “o uso da força é sinal de 
que a autoridade falhou” (ARENDT, 1961, p. 93). Para a autora, a autoridade foi instituída 
com a fundação, e concedeu ao mundo a permanência e durabilidade que os seres humanos 
dependiam justamente por serem mortais. Essa separação entre a autoridade e o poder, foi 
também reconhecido como artifício institucional romano para garantir a supremacia do povo, 
verdadeiro detentor do poder, sobre o Senado, a quem era outorgada a autoridade. 
 
3.3. A refundação de um verdadeiro poder 
Arendt observou a forma indiscriminada como os conceitos de poder e violência tem se 
confundido até mesmo no mundo político8, e mostra que a acepção de poder assimétrico 
alimenta os teóricos políticos tanto de direita quanto de esquerda, para quem “a violência 
nada mais é do que a flagrante manifestação do poder” (ARENDT, 1985, p.16). 
Essas definições acompanham o nascimento do Estado Absolutista, como quem detém a 
legitimidade da aplicação da violência de homens por outros homens. Foi na burocracia que 
esse Estado encontrou seu maior instrumento, permitindo escondera responsabilidade de sua 
tirania através da justificativa das regras e controles absolutos. No entanto, mais uma vez foi 
no resgate da tradição política da antiguidade que a autora desvelou as influências dos 
revolucionários do século XVIII para desenho de uma república onde o poder do povo 
sustenta as regras do Direito. 
É o apoio do povo que confere poder às instituições de um país, e esse apoio 
nada mais é que a continuação do consentimento que deu origem às normas 
legais. De acordo com o governo representativo, é o povo que detém o 
poder sobre aqueles que o governam. Todas as instituições políticas são 
manifestações e materializações do poder; estratificam-se e deterioram-se 
logo que o poder vivo do povo cessa de apóia-las. (ARENDT, 1985, p.17) 
A autora revela, então, que o poder não precisa da justificação, e sua legitimidade provem da 
autoridade, conforme mostrado anteriormente. Esse poder deriva da ação coletiva entre os 
homens, que se inicia com a fundação da comunidade política: quando os atos – fundados na 
comunicação e troca de opiniões9 – são usados para criar realidades através do mútuo 
 
 
8 Partindo das definições de autores clássicos como Mills, que afirma que “Toda política é uma luta pelo poder; o tipo de 
poder mais definitivo é a violência” (apud ARENDT, 1985, p. 14), e Voltaire, para quem o poder “consiste em fazer com 
que os outros ajam como eu quero” (idem, p. 15) 
9 Habermas denominou mais tarde essa noção arendtiana de poder de “poder comunicativo” dentro do seu arcabouço da 
Teoria da Ação Comunicativa 
 13 
consentimento. Para que essa fundação seja possível em uma sociedade que já está 
estabelecida, é necessário recorrer a refundação da mesma. 
A oportunidade de recomeçar e “refundar” as bases sociais do poder político só possível 
graças ao conceito da natalidade. A fragilidade das instituições humanas e suas leis repousa 
na existência da natalidade, que é a realização do início da ação. Sem a existência da 
natalidade, estaríamos condenados a uma simples continuidade natural (ao ciclo concêntrico 
dos processos vitais). Essa consciência de renovação desencadeia uma faculdade sempre 
presente de também desfazer aquilo que fazemos (sem a qual seriamos vitimas de uma 
necessidade automática regida pelas leis naturais inexoráveis), e consequentemente da 
possibilidade de instaurarmos um novo começo: a refundação. 
Uma refundação que se fundamente da manifestação humana coletiva não pode encontrar 
limites. O poder corresponde à condição humana da pluralidade e, assim como a ação, é 
ilimitado. A única condição material para o poder é a existência de outras pessoas, e onde 
quer que os seres humanos ajam em concerto em uma atividade contemplativa para além das 
necessidades vitais e materiais, o poder se constituirá de forma legítima. Qualquer ação 
contrária a ele não será um ato de resistência, mas um ato da força, que um ou mais homens 
podem exercer através da violência. A violência pode destruir o poder, mas jamais substituí-
lo. À tentativa frustrada de substituir o poder pela violência, Hannah Arendt define (a partir 
de Montesquieu) como a tirania. Para a autora, nada é mais difundido na modernidade do que 
a máxima de que “o poder corrompe”, fruto da dissolução da confiança que temos no poder. 
No entanto, o poder só corrompe, de fato, “quando os fracos se unem para destruir os fortes”. 
(ARENDT, 2009, p. 215) 
Hannah Arendt cita o movimento operário na modernidade como único tipo de organização 
na qual os homens agiam e falavam enquanto homens e não enquanto membros da sociedade 
(ARENDT, 2009, p. 231). Nesse sentido, além de defenderem seus interesses econômicos, 
travaram uma batalha inteiramente política, adquirindo uma distinção própria. Ainda segundo 
a autora, a mola propulsora dessa refundação de um novo espaço público não foi a atividade 
do labor em si, nem a rebelião utópica contra as necessidades da vida, mas sim as injustiças e 
hipocrisias típicas da sociedade de classes. 
De fato, o ponto de partida de Hannah Arendt para o seu resgate do poder como capacidade 
de agir em concerto está nas bases totalitaristas que emergiram no final do século XIX e se 
consumaram com os campos de concentração do século XX. Essa forma de organização 
rompe com todas as bases clássicas de sociedade e impõem imensos sacrifícios à vida 
humana sem uma causa que pudesse justificar o esforço do empreendimento (ARENDT, 
1989). O processo que se inicia com a compreensão desses eventos históricos que cristalizam 
as formas totalitárias de governo, termina por descaracterizá-los enquanto poder para 
categorizá-los como nada mais que violência. 
 
4. ONDE ESTÁ O PODER, AFINAL? 
O poder assimétrico tem sido estudado a partir de Weber, tanto em sua leitura mais 
interpretativista, como na leitura mais funcionalista feita por Parsons (1960) e seus 
seguidores – particularmente norte-americanos em estudos sobre burocracia. Muitos autores 
abordam ainda a questão do poder de forma velada, incluída em análises de cultura e 
liderança, por exemplo, como se o poder fosse manifestação natural dos sistemas 
 14 
burocráticos. Mesmo sob a ótica do poder assimétrico, a manifestação do poder não pode ser 
entendida como algo “neutro” (como no caso de papéis pré-definidos) e nem é uma 
prerrogativa de pessoas “más” (que resistiriam a uma autoridade determinada). Da mesma 
forma, a política não pode ser considerada apenas como instrumento de subversão, nem 
rótulo das pessoas que dela se utilizam para se mover em cenários organizacionais. 
Há uma questão muito importante sobre os limites do poder que, segundo Vieira e Vieira 
(2003, p.104) refere-se ao “discurso da presunção da verdade, usado por quem lança mão das 
relações múltiplas de poder para o convencimento de posições que nem sempre representam a 
natureza real dos fatos. São verdades não legitimadas pelos fatos e pela própria percepção da 
realidade que se contrapõem ao exercício do poder de convencimento.” 
Já o poder simétrico, fundamentado por Hannah Arendt e encontrado principalmente em 
estudos críticos que se baseiam na ciência política, deve ser observado sempre em uma 
perspectiva coletiva. Dessa forma, o poder simétrico seria analisado a partir de manifestações 
coletivas contra a ordem estabelecida em uma organização, ou manifesto em organizações 
que fogem da caracterização geral a elas atribuída (como burocracias, por exemplo). Na 
verdade, as teorias que conceituam poder simétrico ou assimétrico não excluem nenhum 
contexto específico para manifestação do poder, ou seja, são independentes do objeto de 
estudo de aplicação da teoria. A aceitação de uma ou outra forma de poder depende do modo 
como se conceituam para os atores as relações sociais existentes. No entanto, não é possível 
uma análise sob a perspectiva do poder simétrico que parta de abordagens oriundas das 
escolas de negócios, onde a perspectiva do poder é fundamentalmente a assimétrica. O poder 
simétrico, como capacidade ou realização coletiva, só pode se manifestar em um ambiente 
social de iguais, onde os indivíduos reconheçam a sua pluralidade, mas nunca a ascendência 
unilateral de um sobre outro. Essa premissa é incompatível com a grande maioria das 
organizações modernas que se estruturam hierarquicamente e estabelecem na orientação dos 
resultados a qualificação dos seus atores. 
O poder na concepção coletiva não é propriedade de um indivíduo, mas emana de um grupo e 
permanece apenas enquanto esse grupo permanecer unido. Surge do debate reflexivo e da 
discussão entre seus membros, que delegam a autoridade para um ou mais membros enquanto 
amparados por esse poder maior. Assim, toda organização que deseje em seu estabelecimento 
uma relação de igualdade entre seus membros, que fundamentem a autoridade para os atos 
individuais a partir da delegação de poder de todos os membros, devem excluir de suas 
relações as características conflituais do poder. Essasorganizações não poderiam permitir o 
controle de uns membros por outros; nem estabelecer dependência entre seus membros em 
função da simples relação entre eles; e não poderiam legitimar a distribuição desigual de 
vantagens e recursos entre os seus atores. Essas organizações são fluidas, e se manifestam 
através de uma racionalidade orientada a valores, diversamente da lógica tradicional do 
mercado, por exemplo. 
 
5. QUESTÕES PARA REFLEXÃO 
• Em uma organização sem fins lucrativos formada por associação livre (ex: centro 
acadêmico, associação de amigos, grupos religiosos, etc), de que formas o poder 
simétrico e o poder assimétrico podem se manifestar? 
 15 
• É possível a manifestação do poder simétrico em uma empresa moderna (ex: um 
banco, uma indústria, prestador de serviço...)? 
• De que forma o tamanho da organização poderia influir nas formas de poder 
existentes? 
• Pense nas formas de poder assimétrico existentes na organização que você mais 
freqüenta. São oriundas da ação coletiva de iguais ou formas de imposição? São 
devidas à obtenção de aquiescência, dependência ou desigualdade? 
 
6. REFERÊNCIAS 
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