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1 VIEIRA, M. M.; LACERDA, D. S. Poder nas Organizações: da Dominação de Poucos à Ação de Todos. In: PICCININI, V. C. ; ALMEIDA, Marilis Lemos ; ROCHA-DE- OLIVEIRA, Sidinei. (Org.). Sociologia e Administração: relações sociais nas organizações. 1ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, p. 63-82. Poder nas Organizações: da Dominação de Poucos à Ação de Todos Marcelo M. F. Vieira Daniel S. Lacerda 1. PODER NAS ORGANIZAÇÕES O interesse que o estudo do Poder desperta nos estudos de organizações é tão grande quanto a controvérsia que existe em suas várias abordagens possíveis. Muitos autores sequer admitem a sua existência como algo inerente às organizações, interpretando-o como ações informais, ilegítimas ao desenho teórico da organização. Na verdade, o poder é uma das categorias centrais para a análise das organizações (CARVALHO e VIEIRA, 2007), e as questões que geralmente o acompanham (funcional ou disfuncional; consciente ou desinteressado; repressivo ou produtivo; etc.) são apenas formas diferentes de o conceber que partem de perspectivas teóricas distintas. O poder pode ser definido de duas formas aparentemente simples, mas que guardam grandes diferenças de fundo, com implicações diretas para a compreensão e ação no mundo. Pode-se defini-lo como a capacidade que tem um agente de influenciar o comportamento de outro. Esta definição tem sido a mais utilizada para a análise das organizações formais. Ela conduz inevitavelmente à interpretação da dinâmica social e das (e nas) organizações a partir de um olhar sobre o agente dominante na relação, ou seja, aquele que influencia. Pouco conduz à análise do influenciado e quando o faz, o coloca invariavelmente em uma posição de inferioridade. Outra definição de poder que se pode assumir é de que ele corresponde à capacidade de gerar ação, ou capacidade de agir. Esta definição estabelece o foco da análise na relação, o que permite não só compreender a capacidade de um agente influenciar outro, mas também a capacidade do outro reagir. A reação pode ser considerada uma ação em si, o que significa que o outro também tem poder. Assim, a resistência é também considerada uma expressão do poder. Esta segunda definição tem sua origem na filosofia humanista e é mais difundida e utilizada na ciência política (ver BOBBIO, 2000) do que nos estudos organizacionais. Essas são as duas definições fundamentais do conceito de poder, as quais são trabalhadas neste capítulo. Faz-se oportuno, entretanto, contextualizar os estudos sobre poder no âmbito dos Estudos Organizacionais. As organizações têm sido tratadas como expressões concretas de exercício de poder. Nas análises tradicionais sobre as organizações formais, particularmente no que se refere às organizações do trabalho e da produção, o poder remonta à época do surgimento da Administração como área sistematizada do conhecimento. Nos trabalhos de Taylor (1960 [1911]) o poder já aparecia, de forma subliminar, como variável central para possibilitar controle e gerar eficiência. Com esse objetivo Taylor delineou a divisão do trabalho em diferentes tarefas simples, o que facilitava sua execução. Ao fazer isso, os trabalhadores 2 perderam poder em relação à organização, uma vez que poderiam ser substituídos facilmente por outros, caso demonstrassem alguma resistência às demandas organizacionais1. Hickson (1966) já chamava atenção para o fato de que as teorias sobre estruturas organizacionais convergem todas para uma única linha de análise, qual seja, a especificidade da prescrição do papel social que cada indivíduo nelas desempenha. Dessa forma, o exercício do poder torna-se mais eficaz e, por conseqüência, o controle passa a ser também um conceito correlato chave nos estudos organizacionais. Como afirma Kouzmin (1980, p.134) “organização significa um método de controle social, uma forma de impor regularidade à sociedade e à ação coletiva.” As formas de exercício de poder por meio das organizações do trabalho e da produção evoluíram de formas mais visíveis para formas menos visíveis; do exercício do poder diretamente sobre o trabalhador para o exercício do poder por vias impessoais e menos visíveis, chamadas de controle das premissas cognitivas dos indivíduos, por meio daquilo que se convencionou rotular como cultura organizacional. Essa “evolução” das formas de exercício do poder e do controle (dominação, no sentido weberiano) são reflexos do processo de racionalização do mundo, particularmente o do trabalho. O desencantamento de Max Weber com esse processo diz respeito à sua análise em relação ao predomínio de um tipo de racionalidade como orientador da estruturação e estabelecimento da sociedade moderna: a racionalidade instrumental. Como esse tipo de racionalidade corresponde à ação orientada pelo cálculo utilitário das conseqüências, há cada vez menos espaço para julgamentos de valor sobre o bem e o mal. A ação é legítima e considerada válida quando gera eficiência. Os julgamentos valorativos estariam, portanto, cada vez mais escassos, pois só seriam possíveis em ações orientadas pela racionalidade substantiva. Ela é o único tipo de racionalidade capaz de proporcionar julgamentos éticos (KALBERG, 1980). Entretanto, este não é um texto pessimista. Ao trabalhar com uma definição de poder como a capacidade de agir, abre-se espaço para análises diferentes daquelas recorrentes na literatura de Estudos Organizacionais, que enfatizam o controle e as formas de dominação. Trata-se de um instrumental teórico rico para a análise de práticas de resistência nas organizações formais, bem como para o estudo de formas organizativas que não se estruturam a partir dos conhecimentos tradicionais gerados pelas teorias da Administração (e das organizações) estabelecidas. O objeto central se transforma. Deixa de ser o controle como manifestação do poder e passa a ser a liberdade. Este conceito, apesar de pouco tratado nos estudos organizacionais tradicionais, permite enxergar além da dominação e do controle, colocando o homem no centro do processo organizativo. Esse capítulo se baseia fundamentalmente em dois autores para ilustrar as formas de manifestação do exercício do poder nas organizações: Max Weber e Hannah Arendt. Ambos os pensadores fundaram, partindo de perspectivas e motivações distintas, arcabouços 1 À execução de tarefas simples corresponde a alienação, em função da perda do sentido do trabalho. Um operário que controla a mistura de cores em uma fábrica produtora de cerâmicas não sente nenhuma relação emocional com um vaso em tons de verde e vermelho, considerando este como produto final do processo produtivo. Ao ser questionado como ele se sente como alguém que faz vasos, responderá que não saber fazê-los; ele se definirá como trabalhador que opera a máquina misturadora de cores. O trabalho composto por um conjunto de tarefas simples, cujo poder discricionário é praticamente nulo, não possui sentido em si. 3 conceituais que permitem compreender e observar o poder e suas particularidades como objetivamente presentes nas organizações. 1.1. Conceito de poder O poder é mais largamente conhecido na modernidade através da definição postulada por Weber (1994), que engloba as várias manifestações e estudos gerencialistas do poder: a probabilidade de que um ator, dentro de uma relação social, esteja em condições de realizar sua própria vontade apesar da resistência, independentemente da base na qual essa probabilidade repousa (WEBER, 1994, p. 54) Entretanto, como será explicado, essa definição pressupõe uma visão particular de poder, que pode ser caracterizado antes a partir de elementos mais genéricos. Segundo Lukes (1980, p.826), o núcleo absolutamente básico e comum a todas as concepções de poder é “a noção da provocação das consequências, sem nenhuma restrição ao que tais consequências poderiam ser ou o que as provoca”. Partindo dessa definição,para dar significância ao conceito de poder, deve-se assumir uma teoria que responda o que torna as consequências provocadas como características de poder. As diversas concepções de poder podem ser divididas em duas grandes categorias, distintas entre si e abordadas a partir de diferentes perspectivas. De um lado, a perspectiva do poder assimétrico, bem representado pela definição de Weber, e que envolve sempre conflitos reais ou potenciais. Segundo essa visão, o poder seria exercido através da ação de um indivíduo ou grupo de indivíduo sobre outros, e existe sempre uma diferença de probabilidade de condições entre o detentor do poder e os demais participantes desse espaço social. Em outra linha, o poder pode ser visto como uma capacidade ou realização coletiva, a partir da qual qualquer manifestação não coletiva é vista como alternativa ao poder. Dessa forma, apenas a conjunção de todos para a ação são enxergados como poder, e uma eventual assimetria entre o suposto detentor do poder e os demais indivíduos são caracterizados na verdade como violência. Essas duas visões excludentes de poder não podem ser entendidas em conjunto, uma vez utilizam premissas que partem de interpretações diferentes das relações sociais e políticas: entendidas como eminentemente conflituais para uns e harmoniosas ou comunais para outros. 1.2. Poder e Autoridade Toda teoria que trate de poder deve dar uma interpretação também à questão da autoridade. Poder e autoridade podem ser enxergados como conceitos afins, e abarcam estruturas análogas de concepções. Existem dois aspectos fundamentais no reconhecimento da autoridade (LUKES, 1980, p.831): • o não exercício do julgamento particular; • a identificação do possuidor de autoridade como tendo direito a isso. O primeiro aspecto é entendido como o reconhecimento de que aquele que outorga uma ordem o faz com pretensão reconhecida pelo comandado, que se abstém de examinar o 4 conteúdo dessa ordem de forma racional para seguir a determinação: o questionamento dessa ordem já pressupõe a não aceitação da autoridade. Ainda que possa questionar a autoridade, o indivíduo pode se submeter a ela, considerando a existência de um poder coercivo que o incentive/obrigue a isso. Já o segundo componente do conceito de autoridade conota a existência de regras de reconhecimento da autoridade (tácitas ou formais) que revelam mutuamente quem dispõem de autoridade e quem não dispõem. Essas regras podem estar contidas i) sobre a crença; ii) por convenção ou; iii) pela imposição. No caso das organizações, a autoridade exercida pela crença pode ser observada pelo reconhecimento de um perito, que pode trazer a validade de sua autoridade no reconhecimento de seu conhecimento, independente do conteúdo de suas ordens. A autoridade por convenção é observada rotineiramente quando se identifica, por exemplo, um líder de uma reunião ou o presidente eleito de um sindicato. Já a concepção da autoridade pela imposição é aquela mais diretamente ligada ao poder, pois é outorgada por quem o detém, como no caso da delegação de atribuições do chefe para um subordinado. Muitos pensadores julgam que a autoridade obtida pela imposição como a única forma concretamente realizada na sociedade, uma vez que o poder estaria presente na determinação tanto das razões da autoridade como nas regras para reconhecimento da autoridade. Para esses pensadores, as demais formas de autoridade (sobre a crença e por convenção) nunca se realizaram na história, e poderiam ser observados a partir da perspectiva do poder simétrico quando servissem ao bem comum (LUKES, 1980, p. 837). Apesar da freqüente coexistência, poder e autoridade são conceitos distintos. Na sociedade romana, originalmente autoritas significava a posse de um status especial, e o Senado era revestido dessa autoridade. No entanto, o mesmo Senado não emanava o poder (potentas), que vinha unicamente do povo. Durante a idade média, os dois conceitos se aglutinaram através da Igreja, que misturada ao Estado se investia de poder e autoridade, e as palavras passaram a ser utilizadas de forma indistinta. Segundo Lukes (1980), alguns autores acreditam que a distinção entre autoridade e poder foi restabelecida a partir do impacto que a Revolução Francesa causou sobre a sociedade tradicional, rompendo com a influência religiosa que ligava o poder político à autoridade social. 2. A PERSPECTIVA DO PODER ASSIMÉTRICO Seguindo a abordagem funcionalista, em geral as organizações frequentemente se utilizam do poder (seja de forma conscientemente ou desinteressada) visando obter o consentimento, que pode servir para se vencer ou prevenir um conflito. Esse é um dos principais motivos do estudo do poder por essa corrente teórica, e está intimamente ligado aos interesses dos grupos (a partir da idéia básica de classe) dentro da organização. 2.1. Categorizações dos estudos de poder Lukes (1980) categoriza as várias concepções de poder nesse campo em três modos distintos de concebê-los: a obtenção de aquiescência; a relação de dependência; e a desigualdade. A obtenção de aquiescência (que pode ser entendido como o controle de um sobre outros) se manifesta nas várias formas de predomínio da vontade de uma pessoa ou grupo sobre outro. Esse predomínio da vontade pode ser obtido através da força ou até mesmo pela manipulação utilitária que induza o comportamento desejado do controlado pelo controlador. Uma 5 manifestação ativa desse modo de expressão pode ser visto nos estudos estruturalistas de Blau (1964), que defende que é o poder quem determina o quão eficiente será a troca que fundamenta as relações e interações humanas, seja na forma de recompensas ou punições. Mas, talvez sejam as formas passivas de poder aquelas mais representativas de aquiescência: trazem como resultado a manutenção do status quo através da redução do emprego do poder pelos subordinados. Os detentores de poder estabelecem relações de tal modo que aqueles que não o detém enxergam esse cenário como definitivo. Dessa forma, uma estrutura de relações já estabelecida contém uma ordenação tida como imutável, uma hegemonia ideológica2, que exclui a percepção de alternativas. Essa concepção do poder de controle de um ator sobre outro é bem observada na hierarquia das organizações. Os subordinados devem, via de regra, obedecer a seus chefes que tem a priori o controle sobre seus comandados. Essa forma de controle pode ser explícita (reafirmada continuamente) ou pode ser menos óbvia, por exemplo, através do discurso de um funcionário, independente de seu nível hierárquico, que induza outro funcionário ou grupo a perseguir um objetivo qualquer em prol de seus interesses (que podem ou não serem os mesmos da organização). O controle pode ser observado também no exemplo de uma área de PMO3 estratégico, comum nas organizações modernas, quando recebe a prerrogativa de definir quais projetos serão ou não executados pelas fábricas, ainda sejam projetos que pertencem a diretorias hierarquicamente superiores a ela. O poder como relação de dependência pode ser considerado um subtipo do primeiro – obtenção de aquiescência – a não ser pela diferença de que, neste caso, a relação em si entre os dois atores são suficientes para que um obtenha do outro a obediência, independentemente das ações ou até mesmo da consciência de existência dessa relação pelas partes. Em empresas as relações de dependência são largamente encontradas. A começar pelos próprios processos organizacionais, que são transversais a diversas áreas, e as variáveis de entrada para uma atividade dependem sempre dos produtos de outra área. De forma menos processual, a área de marketing, por exemplo, depende sempre da engenharia para definir os produtos e ofertas possíveis tecnicamente de serem implantados. Em qualquer tipo de organização (mesmo as sem fins lucrativos), os responsáveis pela manutenção de equipamentos e informática gozam depoder frente aos demais membros pela dependência que todos tem de seus serviços. O poder provocado por uma relação de desigualdade diz respeito ao saldo final de distribuição dos recursos que provocam um diferencial vantajoso para uma das partes, independentemente da aquiescência ou dependência entre as partes. Essa estratificação é visualizada pelo fluxo de recursos no sistema. Em uma organização, os membros que detém informações estratégicas antes dos demais (ou uma área sobre outra), a despeito do nível de aquiescência ou dependência dentre eles, obtém uma vantagem para movimentação interna nesse cenário. Assim como uma área que detém maior budget orçamentário que outra área par detém também maior poder de influência. 2 Stewart Clegg (1989) relaciona essa categoria ao conceito de hegemonia ideológica de Antonio Gramsci, que caracteriza a liderança cultural-ideológica de uma classe sobre as outras. Ver também Bourdieu (2006). 3 Project Management Office – área ou prática que visa garantir a seleção dos projetos, gerenciamento adequado e propagação da metodologia de gestão de projetos 6 Como dito anteriormente, a definição de Weber - probabilidade de que um ator esteja em condições de realizar sua própria vontade – contempla as três categorias acima. O autor parte de um modelo teleológico da ação: “em que todos os atores estão orientados para o próprio sucesso: tendo um objetivo, trata-se de obter os meios apropriados para realizá-lo.” (VIEIRA e MISOCZKY, 2000). O estudo da perspectiva propagada por Weber desenvolveu muitas classificações e concepções do exercício do poder. 2.2. Dominação e Legitimidade Weber considera o poder como um conceito amorfo, e por esse motivo define um “caso especial de poder” que chama de dominação: “a probabilidade que ordens específicas sejam obedecidas por um certo grupo de pessoas” (WEBER, 1994, p.212). A dominação seria, portanto, o exercício de um poder legítimo – ou, mais corretamente, legitimado. Esse conceito é importante aqui na medida em que, segundo o autor, toda organização carrega consigo sempre uma “estrutura de dominação em seu funcionamento”, e o poder pode ser visto através do controle sobre os meios e métodos de produção em organizações: [organizações podem ser vistas] como estruturas de domínio e subordinação regional dentro de um sistema social que é um sistema mundial, i.e. que tem limites, estruturas, onde membros se agrupam, regras de legitimação, e coerência', nos quais a 'vida é composta de forças contraditórias que unem tudo isto por tensão, e os rasga separada e eternamente da forma com que cada grupo molda para sua vantagem' (CLEGG, 1979, p. 114) Hardy e Clegg (1999, p.271) mostram que essa estrutura fundamenta algumas premissas nas organizações: as organizações em nada são sistemas neutros ou apolíticos, carregam incrustados em si um histórico de conflitos que permeia as relações atuais. Essa estrutura de dominação é concretizada a partir, por exemplo, de formas de controle, que podem ir desde o controle simples por supervisão até o controle tecnocrático das novas relações de trabalho. Weber enxerga três tipos de manifestação da dominação legítima, e cada uma delas está ligada a uma estrutura sociológica radicalmente diferente do corpo administrativo e dos meios da administração (WEBER, 1994, p.215): • Dominação de caráter racional/legal – repousa na crença da legalidade das regras estabelecidas e na autoridade daqueles que emanaram tais regras. Essa forma de dominação está intimamente ligada à administração burocrática, e é facilmente observada nos procedimentos internos de uma organização. • Dominação de caráter tradicional – fundada na crença cotidiana da “santidade” das tradições imemoriais e na legitimidade daqueles que exercem a autoridade delegada por ela. Essa influência da norma social tem em seu tipo mais “puro” o poder patriarcal, que existe em todas as unidades sociais onde o poder é reclamado unicamente em virtude do costume implantado. • Dominação de caráter carismático – baseada na devoção ao heroísmo ou caráter exemplar de um indivíduo e nos padrões ou ordens reveladas por ele. Esse é o tipo mais estudado pela abordagem gerencialista de administração, que se funda nas 7 qualidades utilitárias que devem ser exercidas por um líder para permitir o comando de seus liderados. A dominação weberiana pode ser vista, portanto, como uma forma de manutenção de um estado de ordem por um período prolongado. Para tanto, vale-se principalmente da premissa de sua legitimidade, utilizada dentro da mesma perspectiva da administração burocrática. No entanto, a objetividade de tal conceito é certamente questionável na medida em que se abre espaço para contestação dessa dominação. Alguns autores da abordagem gerencialista utilizaram-se da suposta objetividade e neutralidade das estruturas de poder sedimentadas nas organizações para reforçar a sua distinção no tocante à sua legitimidade ou ilegitimidade. O poder legítimo seria aquele que deriva das funções hierárquicas previstas pelo desenho organizacional, concedendo aos seus detentores influência sobre todos os subordinados. De forma análoga, o poder ilegítimo seria exercido pelo uso informal dos recursos, tido, portanto como não aceito e problemático. Essa conceituação, certamente parcial, alicerça uma série de outras noções, como o conceito de política – entendida pelos autores dessa mesma perspectiva por uso do poder não sancionado, ou não legítimo: Reduzida à sua essência, portanto, política refere-se ao comportamento de um indivíduo ou de um grupo que seja informal, ostensivamente paroquial, tipicamente divisivo, e acima de tudo, no sentido técnico, ilegítimo – não é sancionado pela autoridade formal e ideologia aceita, nem por uma especialidade reconhecida (MINTZBERG, 1983, p. 172) Assim, o poder seria conferido funcionalmente a um grupo restrito, para que guardassem os interesses da instituição. Qualquer articulação que se utilize de comportamentos não sancionados por esse poder seria considerado ilegítimo. Essa visão é corroborada em estudos que sequer aprofundam o poder como tema a parte, tais como a liderança e a cultura organizacional, que são objetivados e geram mecanismos de coerção tidos como neutros e inevitáveis. Essa redução se torna problemática uma vez que ignora que os próprios gerentes e líderes da organização, como qualquer outro grupo, podem estar em busca dos próprios interesses ocultos (HARDY e CLEGG, 1999, p.271). De fato, há mais sentido em falar de poder legitimado do que legítimo, pois a classificação da legitimidade é sempre um julgamento de valor de um grupo ou indivíduo. Portanto, preferimos como classificação de aderência aos objetivos da organização as nomenclaturas de funcional (delegado aos gestores que buscam os objetivos organizacionais) e disfuncional (não previsto pelo desenho burocrático). Já o processo de legitimação do poder passa, portanto, pelo reconhecimento da autoridade, conforme explicado no início deste capítulo. 3. A PERSPECTIVA DO PODER SIMÉTRICO Hannah Arendt foi uma das principais pensadoras do século XX, e conseguiu resgatar uma dimensão política relegada a segundo plano na modernidade tardia, que nos permite estabelecer a compreensão de um poder coletivo voltado para o bem comum. A filósofa rompe com o uso do poder em dimensão utilitária e estabelece a possibilidade de alcançá-lo através de, e apenas por, uma construção do espaço público feita pela não-violência. Seguindo a proposta de Avritzer (2006), visando entender esse processo, refaremos o percurso histórico de Hannah Arendt no qual alguns conceitos são resgatados e reassociados, 8 em busca do estabelecimento da verdadeira ação política, que seja coerentemente institucionalizada sobre a legítima autoridade, e permita a refundação social. 3.1. Labor, trabalho e ação Dentre os principaismotivos que levam Hannah Arendt a um resgate histórico da política, está a crítica à modernidade e ao pensamento de Karl Marx4 (AVRITZER, 2006), para o qual apenas a transformação da natureza pode ser considerada um ato reflexivo gerador de consciência. Esse conceito se baseia no fato que o homem só pode conhecer aquilo que ele mesmo faz/produz, enquanto o conceito tradicional defendia uma verdade apenas possível como revelação dada ao homem. A partir dessa motivação, a autora de A Condição Humana defende uma concepção diferente para naturalidade e artificialidade, e suas consequentes relações com a política. A distinção de naturalidade e artificialidade parte da separação de três conceitos fundamentais dessa teoria: labor, trabalho e ação. Para Arendt (2009), Labor e trabalho são atividades através das quais o homem renova o ciclo natural da sua própria vida ou transforma os objetos sociais. A filósofa resgata a distinção entre os dois conceitos, que convergiram para o mesmo significado na modernidade, apesar de todas as línguas européias possuírem palavras de etimologia diferentes para designar o que, hoje, adquire o mesmo significado. O labor é a “atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano” (ARENDT, 2009, p. 15), no qual o homem busca responder apenas às necessidades de sobrevivência, sem nenhuma orientação aos eventuais resultados posteriores à satisfação das necessidades em si. Já o trabalho é a que proporciona a fabricação da “infinita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano” (ARENDT, 2009, p. 149). O trabalho é reconhecido pelos seus produtos, que resistem ao uso do ser humano – uma cadeira permanece após a conclusão do trabalho e resiste ao uso –, e por isso possui caráter de permanência superior, através da durabilidade: É esta durabilidade que empresta às coisas do mundo sua relativa independência dos homens que as produziram e as utilizam, a «objetividade» que as faz resistir, «obstar» e suportar, pelo menos durante algum tempo, as vorazes necessidades dos seus fabricantes e usuários. Deste ponto de vista, as coisas do mundo têm a função de estabilizar a vida humana; sua objetividade reside no fato de que - contrariando Heraclito, que disse que o mesmo homem jamais pode cruzar o mesmo rio - os homens, a despeito de sua contínua mutação, podem reaver sua invariabilidade, isto é, sua identidade no contato com os objetos que não variam, como a mesma cadeira e a mesma mesa. (ARENDT, 2009, p.150) O labor é um conceito muito mais ligado à necessidade do que à vontade, e por esse motivo em muitas perspectivas ganha uma “importância” menor em nossa escala de valores. Até mesmo a escravidão da antiguidade era uma forma de excluir o labor de nossa vida cotidiana (e não de gerar lucros como na modernidade): “tudo que os homens tinham em comum com 4 A Crítica a Karl Marx em nada se assemelha a feita por autores que “decidiram se tornar antimarxistas profissionais” (ARENDT, 2009, p.89), mas se motivam nas premissas utilizadas por Marx – a de que ação, discurso e pensamento são estruturas funcionais assentadas no interesse social, premissas que foram absorvidas por ele, mas o precedem historicamente 9 outras formas de vida animal era considerado inumano” (ARENDT, 2009, p. 95). Assim como o esquilo persegue suas sementes e o leão busca a sua caça, o homem labora para permitir a manutenção da sua vida, seja plantando, transportando ou limpando. Foi dessa forma que historicamente acompanhou a aristocracia o valor e a veneração pelo ócio. Não pelo que o ócio representa em si, mas pelo fato de nos abster das necessidades da vida. Já o trabalho é considerado a atividade que eleva o homem de animal laborans a homo faber. A atividade humana permite nessa concepção a fabricação de coisas a partir do uso de suas mãos como instrumentos, em lugar do uso do corpo restrito ao labor pela simples manutenção da vida. Essa mudança estabelece também uma nova relação do homem com o mundo. Enquanto o labor aprisiona o homem junto à natureza que se coloca como condição de sua existência, como provedora das coisas boas que precisam ser usufruídas para garantir a sua sobrevivência, o trabalho insere uma nova perspectiva nessa relação. A natureza agora é apenas fornecedora apenas dos materiais que, em si, são desprovidos de valor, pois é o trabalho quem confere o valor das coisas. Essa mudança, no entanto, ainda não liberta o homem de sua maior necessidade. A emancipação do trabalho e a concomitante emancipação das classes trabalhadoras em relação à opressão e à exploração certamente significaram progresso na direção da não-violência. Muito menos certo é que tenham representado progresso também na direção da liberdade. Nenhuma violência exercida pelo homem, exceto aquela empregada na tortura, pode igualar a força natural com que as necessidades da vida compelem o homem. (ARENDT, 2009, p. 141) Essa categoria não atinge a imanência característica do homo rationale. Exatamente por esse motivo, ainda foi pouco valorizada na escala de valores da sociedade, até que a modernidade promovesse uma forte valorização do trabalho (labor), que passou a ocupar o centro da escala de valores antes comandada pela razão. Para a sociedade moderna, toda ocupação deveria demonstrar sua utilidade, e até mesmo a atividade política foi rebaixada a posição de ‘necessidade’. A distinção entre trabalho manual e intelectual também é moderna. Hoje essa é uma das mais características manifestações de valor das funções de empresas econômicas: de um lado a operação do trabalhador executor que deve seguir impensadamente às ordens prescritas; e de outro o projetista ou planejador das ações que é, via de regra, vinculado a um maior poder assimétrico representado por maior cargo ou faculdade de decisão. Se nos voltamos à antiguidade, mesmo as atividades ditas intelectuais – como a dos escribas – eram executadas por escravos e consideradas servis. Em contraponto, uma atividade manual como a fabricação de uma cadeira, já menos valorizada na modernidade, tinha um componente de durabilidade que dava projeção igual à de qualquer outro trabalho. Apesar da evolução conceitual do trabalho frente ao labor, o uso contínuo dos produtos desse trabalho desgasta a sua durabilidade: a cadeira um dia voltará a ser lenha, e retornará para a natureza. Assim, a busca da permanência se volta à ação: única atividade da qual nenhum ser humano pode abster-se sem deixar de ser humano. A ação é a atividade humana que diferencia o homem enquanto ser coletivo, dotado da capacidade singular de abstrair suas relações diretas em prol de uma construção de algo novo. A ação transcende a mera atividade produtiva, e se localiza entre as manifestações de igualdade (sem a qual os homens não poderiam entender uns aos outros) e pluralidade (sem a qual não seria necessário o uso do discurso e da ação para entenderem uns aos outros). Esse conceito, original e central de 10 Hannah Arendt, é inspirado nas atividades políticas da Grécia antiga, e teria a capacidade de criar verdadeiramente a permanência, em oposição a uma natureza sempre renovável. A permanência a qual se refere a filósofa é a busca pela eternidade, muito mais ligada à contemplação individual do que a imortalidade, que significa uma perene vida “entre o homens”. A ação é, nesse contexto, um contraste à vida natural sempre renovável. Daí parte a distinção entre o natural e o artificial. A artificialidade humana é a busca para ultrapassar e transcender a simples convivência. O objetivo é a construção da convivência, de modo que os seres humanos possam se manifestar uns aos outros como homens, e não como objetos físicos. Esse objetivo só pode ser alcançado através da artificialidade produzida pela ação, pois a naturalidade conduz o homem a uma existência limitada nesse mundo. O ambiente para o desenvolvimento dessa açãopautada na artificialidade é resgatado do conceito de espaço público. Esse espaço, equivalente à polis ateniense, diferencia-se radicalmente da esfera privada (oikia ateniense), por sua vez o lugar da tirania. O espaço público é o lugar construído em comum pelos indivíduos onde a política está presente. É nesse espaço que a ação do homem se manifesta quando existe para o alcance do bem comum, e é onde a política tem lugar. Portanto, quando há igualdade entre homens que se utilizam do discurso para manifestação em um espaço público, ali se cumprem todas as condições para realização da política através da ação humana. 3.2. Contrato e autoridade Apesar da constituição da ação satisfazer a busca de Hannah Arendt pelo conceito verdadeiramente humano de política, segundo Avritzer (2006), a autora enxerga uma lacuna na capacidade grega de institucionalizar essa ação – individual e humana. Essa lacuna se traduz na incapacidade grega de perpetuar a ação para além dos limites da imprevisibilidade humana. Ou seja, a ação humana não consegue sozinha permanecer para além das próprias relações em que ela se sustenta, motivo pelo qual a filósofa se volta para a busca de uma solução histórica que permita transpor esses limites. As fundamentações de Hannah Arendt não rejeitam ou confrontam essa imprevisibilidade humana. Pelo contrário, de certo modo a exalta, observando ser característica de nossa existência. Promove, até mesmo, um diálogo entre as teorias evolucionistas (para quem seleção de algumas das inúmeras mutações ocasionais promove novas criações) e criacionistas (que preterem a explicação natural para enfocar a vida como dom de Deus) ao contemplar a constituição de nosso mundo. É da natureza do início que se comece algo novo, algo que não pode ser previsto a partir de coisa alguma que tenha ocorrido antes. Este cunho de surpreendente imprevisibilidade é inerente a todo o início e a toda a origem. Assim, a origem da vida a partir da matéria inorgânica é o resultado infinitamente improvável de processos inorgânicos, como o é o surgimento da Terra, do ponto de vista dos processos do universo, ou a evolução da vida humana a partir da vida animal. O novo acontece sempre à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e da sua probabilidade que, para fins práticos e quotidianos, equivale á certeza; assim, o novo surge sempre sob o disfarce do milagre. (ARENDT, 2009, p. 190-191) Observando que ninguém pode reificar a si mesmo, a autora busca a chamada institucionalização na força do poder legislativo romano, que tinha um papel muito maior na 11 vida política de Roma do que para os gregos (para quem as leis eram produto da fabricação e não da ação). Essa institucionalização permitiria à ação sobreviver para além dos seus atores e da imprevisibilidade que a renovação de gerações proporciona. A força da promessa presente na vida política de Roma era evidenciada na inviolabilidade dos contratos 5, tendo a faculdade de aplacar as dúvidas da imprevisibilidade que a liberdade em uma comunidade de iguais proporciona6. Deixados em seu rumo natural, os negócios humanos só poderiam seguir a lei da mortalidade, e é a ação humana quem interfere nesse curso inexorável da vida e interrompe o destino natural do processo da vida biológica. A institucionalização dessa ação promovida pelos contratos, por sua vez, permite a continuação dos efeitos da ação para além dos atores que interagem. A missão de se alcançar essa continuidade é creditada ao poder, oriundo da convivência entre os homens, que o faz através da preservação da esfera pública: É o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial da aparência entre homens que agem e falam [...] sem o poder, o espaço da aparência produzido pela ação e pelo discurso em público desaparecerá tão rapidamente como o ato ou a palavra viva.” (ARENDT, 2009, p. 212-216). Importante notar que esse “contratualismo” de Arendt é diferente, por exemplo, da teoria de Hobbes (1974), que defende a abdicação de todos os indivíduos da faculdade de exercer sua força e poder em benefício de um poder público comum, carregado da autorização de promulgar ordens em nome de cada um dos indivíduos. Apesar de considerar a igualdade entre homens, do ponto de vista de seu nascimento7, a premissa de “estado natural” de filósofos como Thomas Hobbes constitui indivíduos com interesses privados irredutivelmente conflitantes, que lançam mão do contrato social para criar o caráter político do homem visando à paz e estabilidade entre eles. Essa premissa de estado natural é fundamentalmente diferente do caso do pensamento grego, adotado por Hannah Arendt, de que o homem já é por natureza político, e lança mão do contrato para vincular o futuro a um anseio do presente, em uma sociedade de iguais também no exercício da cidadania. O contrato é manifestação potencial do poder enquanto forma de manter a continuidade da ação. Esse mesmo poder não pode ser armazenado ou mantido, só existe enquanto efetivação de ato e palavra em sinergia. Até ser efetivado, ele existe como algo potencial, potencialidade presente através da convivência entre os homens, que desaparece no momento em que eles se dispersam. Nessa perspectiva, o indivíduo isolado jamais poderia ser detentor de poder, mas sim de força. Essa força, sozinha, nunca poderia estabelecer relações de poder, mas sim de violência: é possível dividir o poder sem diminuí-lo, ao passo que a força é indivisível. A solução de institucionalização através dos contratos vem acompanhado de um outro elemento fundamental da influência romana: Roma teve um momento de ação com fundação 5 Cuja descoberta a autora credita a Abraão no Antigo Testamento (ARENDT, 2009, p. 255) 6 Hannah Arendt rejeita a individualização do conceito de liberdade, orientado pelo liberalismo a uma satisfação autosuficiente, desconectada do projeto comum. No mundo antigo, a liberdade é um conceito coletivo, alcançável coletivamente. 7 Thomas Hobbes se contrapunha apenas a soberania dos monarcas pelos privilégios das nobrezas 12 que foi essencial para o estabelecimento e exaltação da identidade de um espírito público. A fundação da cidade e o estabelecimento de suas leis foram atos decisivos, aos quais todos os sucessivos atos deveriam ser relacionados para sancionar a sua validade. Essa fundação é também uma forma de preservar a tradição e os negócios humanos. A disponibilidade dos indivíduos para a aceitação das bases institucionais do poder dependem do estabelecimento também da autoridade. A autoridade na relação entre duas pessoas não reside no senso comum nem mesmo no poder de quem comanda, e sim na hierarquia em si, cuja validade e legitimidade ambos reconhecem e aceitam. A autoridade prescinde, portanto, do uso de qualquer forma externa de coerção: “o uso da força é sinal de que a autoridade falhou” (ARENDT, 1961, p. 93). Para a autora, a autoridade foi instituída com a fundação, e concedeu ao mundo a permanência e durabilidade que os seres humanos dependiam justamente por serem mortais. Essa separação entre a autoridade e o poder, foi também reconhecido como artifício institucional romano para garantir a supremacia do povo, verdadeiro detentor do poder, sobre o Senado, a quem era outorgada a autoridade. 3.3. A refundação de um verdadeiro poder Arendt observou a forma indiscriminada como os conceitos de poder e violência tem se confundido até mesmo no mundo político8, e mostra que a acepção de poder assimétrico alimenta os teóricos políticos tanto de direita quanto de esquerda, para quem “a violência nada mais é do que a flagrante manifestação do poder” (ARENDT, 1985, p.16). Essas definições acompanham o nascimento do Estado Absolutista, como quem detém a legitimidade da aplicação da violência de homens por outros homens. Foi na burocracia que esse Estado encontrou seu maior instrumento, permitindo escondera responsabilidade de sua tirania através da justificativa das regras e controles absolutos. No entanto, mais uma vez foi no resgate da tradição política da antiguidade que a autora desvelou as influências dos revolucionários do século XVIII para desenho de uma república onde o poder do povo sustenta as regras do Direito. É o apoio do povo que confere poder às instituições de um país, e esse apoio nada mais é que a continuação do consentimento que deu origem às normas legais. De acordo com o governo representativo, é o povo que detém o poder sobre aqueles que o governam. Todas as instituições políticas são manifestações e materializações do poder; estratificam-se e deterioram-se logo que o poder vivo do povo cessa de apóia-las. (ARENDT, 1985, p.17) A autora revela, então, que o poder não precisa da justificação, e sua legitimidade provem da autoridade, conforme mostrado anteriormente. Esse poder deriva da ação coletiva entre os homens, que se inicia com a fundação da comunidade política: quando os atos – fundados na comunicação e troca de opiniões9 – são usados para criar realidades através do mútuo 8 Partindo das definições de autores clássicos como Mills, que afirma que “Toda política é uma luta pelo poder; o tipo de poder mais definitivo é a violência” (apud ARENDT, 1985, p. 14), e Voltaire, para quem o poder “consiste em fazer com que os outros ajam como eu quero” (idem, p. 15) 9 Habermas denominou mais tarde essa noção arendtiana de poder de “poder comunicativo” dentro do seu arcabouço da Teoria da Ação Comunicativa 13 consentimento. Para que essa fundação seja possível em uma sociedade que já está estabelecida, é necessário recorrer a refundação da mesma. A oportunidade de recomeçar e “refundar” as bases sociais do poder político só possível graças ao conceito da natalidade. A fragilidade das instituições humanas e suas leis repousa na existência da natalidade, que é a realização do início da ação. Sem a existência da natalidade, estaríamos condenados a uma simples continuidade natural (ao ciclo concêntrico dos processos vitais). Essa consciência de renovação desencadeia uma faculdade sempre presente de também desfazer aquilo que fazemos (sem a qual seriamos vitimas de uma necessidade automática regida pelas leis naturais inexoráveis), e consequentemente da possibilidade de instaurarmos um novo começo: a refundação. Uma refundação que se fundamente da manifestação humana coletiva não pode encontrar limites. O poder corresponde à condição humana da pluralidade e, assim como a ação, é ilimitado. A única condição material para o poder é a existência de outras pessoas, e onde quer que os seres humanos ajam em concerto em uma atividade contemplativa para além das necessidades vitais e materiais, o poder se constituirá de forma legítima. Qualquer ação contrária a ele não será um ato de resistência, mas um ato da força, que um ou mais homens podem exercer através da violência. A violência pode destruir o poder, mas jamais substituí- lo. À tentativa frustrada de substituir o poder pela violência, Hannah Arendt define (a partir de Montesquieu) como a tirania. Para a autora, nada é mais difundido na modernidade do que a máxima de que “o poder corrompe”, fruto da dissolução da confiança que temos no poder. No entanto, o poder só corrompe, de fato, “quando os fracos se unem para destruir os fortes”. (ARENDT, 2009, p. 215) Hannah Arendt cita o movimento operário na modernidade como único tipo de organização na qual os homens agiam e falavam enquanto homens e não enquanto membros da sociedade (ARENDT, 2009, p. 231). Nesse sentido, além de defenderem seus interesses econômicos, travaram uma batalha inteiramente política, adquirindo uma distinção própria. Ainda segundo a autora, a mola propulsora dessa refundação de um novo espaço público não foi a atividade do labor em si, nem a rebelião utópica contra as necessidades da vida, mas sim as injustiças e hipocrisias típicas da sociedade de classes. De fato, o ponto de partida de Hannah Arendt para o seu resgate do poder como capacidade de agir em concerto está nas bases totalitaristas que emergiram no final do século XIX e se consumaram com os campos de concentração do século XX. Essa forma de organização rompe com todas as bases clássicas de sociedade e impõem imensos sacrifícios à vida humana sem uma causa que pudesse justificar o esforço do empreendimento (ARENDT, 1989). O processo que se inicia com a compreensão desses eventos históricos que cristalizam as formas totalitárias de governo, termina por descaracterizá-los enquanto poder para categorizá-los como nada mais que violência. 4. ONDE ESTÁ O PODER, AFINAL? O poder assimétrico tem sido estudado a partir de Weber, tanto em sua leitura mais interpretativista, como na leitura mais funcionalista feita por Parsons (1960) e seus seguidores – particularmente norte-americanos em estudos sobre burocracia. Muitos autores abordam ainda a questão do poder de forma velada, incluída em análises de cultura e liderança, por exemplo, como se o poder fosse manifestação natural dos sistemas 14 burocráticos. Mesmo sob a ótica do poder assimétrico, a manifestação do poder não pode ser entendida como algo “neutro” (como no caso de papéis pré-definidos) e nem é uma prerrogativa de pessoas “más” (que resistiriam a uma autoridade determinada). Da mesma forma, a política não pode ser considerada apenas como instrumento de subversão, nem rótulo das pessoas que dela se utilizam para se mover em cenários organizacionais. Há uma questão muito importante sobre os limites do poder que, segundo Vieira e Vieira (2003, p.104) refere-se ao “discurso da presunção da verdade, usado por quem lança mão das relações múltiplas de poder para o convencimento de posições que nem sempre representam a natureza real dos fatos. São verdades não legitimadas pelos fatos e pela própria percepção da realidade que se contrapõem ao exercício do poder de convencimento.” Já o poder simétrico, fundamentado por Hannah Arendt e encontrado principalmente em estudos críticos que se baseiam na ciência política, deve ser observado sempre em uma perspectiva coletiva. Dessa forma, o poder simétrico seria analisado a partir de manifestações coletivas contra a ordem estabelecida em uma organização, ou manifesto em organizações que fogem da caracterização geral a elas atribuída (como burocracias, por exemplo). Na verdade, as teorias que conceituam poder simétrico ou assimétrico não excluem nenhum contexto específico para manifestação do poder, ou seja, são independentes do objeto de estudo de aplicação da teoria. A aceitação de uma ou outra forma de poder depende do modo como se conceituam para os atores as relações sociais existentes. No entanto, não é possível uma análise sob a perspectiva do poder simétrico que parta de abordagens oriundas das escolas de negócios, onde a perspectiva do poder é fundamentalmente a assimétrica. O poder simétrico, como capacidade ou realização coletiva, só pode se manifestar em um ambiente social de iguais, onde os indivíduos reconheçam a sua pluralidade, mas nunca a ascendência unilateral de um sobre outro. Essa premissa é incompatível com a grande maioria das organizações modernas que se estruturam hierarquicamente e estabelecem na orientação dos resultados a qualificação dos seus atores. O poder na concepção coletiva não é propriedade de um indivíduo, mas emana de um grupo e permanece apenas enquanto esse grupo permanecer unido. Surge do debate reflexivo e da discussão entre seus membros, que delegam a autoridade para um ou mais membros enquanto amparados por esse poder maior. Assim, toda organização que deseje em seu estabelecimento uma relação de igualdade entre seus membros, que fundamentem a autoridade para os atos individuais a partir da delegação de poder de todos os membros, devem excluir de suas relações as características conflituais do poder. Essasorganizações não poderiam permitir o controle de uns membros por outros; nem estabelecer dependência entre seus membros em função da simples relação entre eles; e não poderiam legitimar a distribuição desigual de vantagens e recursos entre os seus atores. Essas organizações são fluidas, e se manifestam através de uma racionalidade orientada a valores, diversamente da lógica tradicional do mercado, por exemplo. 5. QUESTÕES PARA REFLEXÃO • Em uma organização sem fins lucrativos formada por associação livre (ex: centro acadêmico, associação de amigos, grupos religiosos, etc), de que formas o poder simétrico e o poder assimétrico podem se manifestar? 15 • É possível a manifestação do poder simétrico em uma empresa moderna (ex: um banco, uma indústria, prestador de serviço...)? • De que forma o tamanho da organização poderia influir nas formas de poder existentes? • Pense nas formas de poder assimétrico existentes na organização que você mais freqüenta. São oriundas da ação coletiva de iguais ou formas de imposição? São devidas à obtenção de aquiescência, dependência ou desigualdade? 6. REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ______. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras,1989. ______. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. ______. Between Past and Future. 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