Prévia do material em texto
<p>PEDAGOGIA</p><p>EMPRESARIAL</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>> Reconhecer a hierarquia da legislação educacional brasileira.</p><p>> Visualizar o processo e as divisões da legislação educacional brasileira.</p><p>> Identificar a educação nas constituições brasileiras.</p><p>Introdução</p><p>Neste capítulo, você vai estudar a legislação educacional brasileira, com desta-</p><p>que para os significados e as hierarquias. Na primeira seção, serão abordados</p><p>os Conselhos de Educação (a nível nacional, estadual e municipal). Na segunda,</p><p>o regime de colaboração entre União, Estado e Município para a elaboração da</p><p>legislação. Por fim, na terceira seção, você vai ver como a educação é abordada</p><p>nas constituições brasileiras, a partir de um resgate histórico.</p><p>Legislação educacional brasileira:</p><p>hierarquia</p><p>A princípio, é importante entender o que é a legislação de um Estado de-</p><p>mocrático. Uma legislação é proveniente de um processo legislativo que</p><p>compreende a elaboração, a análise e a votação de vários tipos de propostas,</p><p>decisões e interesses políticos, sociais e econômicos, definidos pelo poder</p><p>Legislação</p><p>educacional</p><p>brasileira</p><p>Karina Gomes Rodrigues</p><p>legislativo. Em resumo, a legislação é um conjunto de leis e normas legais</p><p>dadas a um povo.</p><p>Quando discutimos a legislação educacional, abordamos todas as leis que</p><p>objetivam organizar as políticas públicas educacionais tanto nas questões</p><p>pedagógicas quanto nas administrativas. Isso abrange desde a regulamen-</p><p>tação do direito à educação escolar em seus níveis e modalidades até a sua</p><p>articulação com as demais instâncias da sociedade.</p><p>De acordo com Pinto e Pizzirani (2017, p. 10), a legislação educacional pode</p><p>ser de natureza reguladora ou regulamentadora.</p><p>É reguladora quando é descritiva e se refere a leis, sejam federais, estaduais ou</p><p>municipais, ou seja, as normas que regulam o sistema nacional de educação. A</p><p>legislação é regulamentadora quando é prescritiva, ou seja, está voltada à práxis da</p><p>educação. Podemos citar, como exemplo, os decretos, as diretrizes e as resoluções</p><p>que prescrevem como serão executadas as regras jurídicas ou disposições legais</p><p>contidas no processo de regulação da educação nacional.</p><p>A Figura 1 mostra a hierarquia das leis nacionais adotada no processo</p><p>democrático brasileiro.</p><p>Figura 1. Pirâmide da hierarquia da legislação brasileira em um processo democrático de</p><p>elaboração legislativa.</p><p>Fonte: Adaptada de Pinto e Pizzirani (2017).</p><p>Constituição Federal</p><p>Emenda à Constituição</p><p>Lei Complementar</p><p>Lei Ordinária ou Código ou Consolidação</p><p>Lei Delegada</p><p>Decreto Legislativo</p><p>Resolução</p><p>Decreto</p><p>Instrução Normativa</p><p>Instrução Administrativa</p><p>Ato Normativo</p><p>Ato Administrativo</p><p>Portaria</p><p>Aviso</p><p>Legislação educacional brasileira2</p><p>Considerando essa hierarquia, a Constituição Federal de 1988 (BRASIL,</p><p>[2016]) e as Emendas Constitucionais encontram-se no topo, sendo as prin-</p><p>cipais fontes de inspiração para as demais normas gerais que organizam o</p><p>sistema educacional, compreendido em seus três níveis: União, estados e</p><p>municípios.</p><p>A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]), Seção I do Capítulo III,</p><p>estabelece os pontos fundamentais da educação e orienta a organização</p><p>dos sistemas de ensino. Além disso, define os deveres do Estado, estabelece</p><p>que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios organizarão em</p><p>regime de colaboração seus sistemas de ensino, trata dos recursos públicos</p><p>destinados à educação e deixa claro seus objetivos, que, de acordo com</p><p>art. 205, são “[...] o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o</p><p>exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, [2016],</p><p>documento on-line).</p><p>De 1988 até hoje, houve várias Emendas Constitucionais. Pinto e Pizzirani</p><p>(2017, p. 12) explicam que “[...] a Emenda Constitucional acontece devido a</p><p>necessidades posteriores de regulamentação e que não foram contempladas</p><p>no texto da versão original”. As autoras ainda destacam que: “Em hierarquia</p><p>similar à da Constituição, porém, em jurisdição própria, encontram-se as</p><p>Constituições Estaduais e as Leis Orgânicas dos Municípios (as Leis Orgânicas</p><p>funcionam à semelhança de uma Constituição para o Município)” (PINTO;</p><p>PIZZIRANI, 2017, p. 12).</p><p>Logo abaixo na hierarquia, há as leis complementares que derivam da</p><p>Constituição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]), como a Lei de Diretrizes e Bases</p><p>da Educação Nacional (LDBEN), Lei nº 9.394 (BRASIL, 1996), aprovada pelo</p><p>Congresso Nacional e sancionada pelo presidente em 20 de dezembro de</p><p>1996. Segundo Pinto e Pizzirani (2017, p. 13), essa legislação que deriva da</p><p>Constituição Federal “[...] é chamada de Lei Complementar, pois complementa</p><p>as normas institucionais. A Lei Complementar foi introduzida na hierarquia</p><p>da legislação brasileira após a Constituição de 1967 e tem sido usada com</p><p>maior frequência após a Constituição Federal de 1988”. Acredita-se que isso</p><p>acontece em decorrência da redemocratização do Estado e das demandas</p><p>contemporâneas da sociedade. Mais abaixo na hierarquia, há os decretos,</p><p>as resoluções e os pareceres, que definem a estrutura legal da educação</p><p>brasileira.</p><p>A LDBEN prevê a existência de órgãos normativos dos diferentes sistemas</p><p>de ensino. Na esfera Federal, a União é responsável pelo Conselho Nacional</p><p>de Educação (CNE), criado pela Lei nº 9.131/1995 e vinculado ao Ministério</p><p>da Educação (MEC). Na esfera Estadual, existem os Conselhos Estaduais</p><p>Legislação educacional brasileira 3</p><p>de Educação. Nos municípios, é facultativa a organização dos Conselhos</p><p>Municipais de Educação.</p><p>O atual CNE, órgão colegiado de responsabilidade administrativa do MEC,</p><p>foi sancionado pela Lei nº 9.131 (BRASIL, 1995), de 25 de novembro de 1995,</p><p>com o propósito de colaborar na criação da Política Nacional de Educação.</p><p>De acordo com o art. 7º da respectiva lei, “[...] possui atribuições normativas,</p><p>deliberativas e de assessoramento ao Ministro de Estado da Educação e do</p><p>Desporto” dentro do assunto ou matéria de sua competência (BRASIL, 1995,</p><p>documento on-line). Souza e Menezes (2017) destacam que a função norma-</p><p>tiva do CNE se dá por meio de pareceres e resoluções. Por isso, ele deve ter</p><p>provisão legal e sua intencionalidade é a de executar o ordenamento jurídico</p><p>que lhe dá fundamento.</p><p>A LDBEN, em seu art. 9, regulamenta que, “[...] na estrutura educacional,</p><p>haverá um Conselho Nacional de Educação, com funções normativas e de</p><p>supervisão e [de] atividade permanente, criado por lei” (BRASIL, 1996, docu-</p><p>mento on-line). O art. 10 determina que os estados devem se incumbir de:</p><p>I - organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus</p><p>sistemas de ensino;</p><p>II - definir, com os Municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamen-</p><p>tal, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades,</p><p>de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis</p><p>em cada uma dessas esferas do Poder Público;</p><p>III - elaborar e executar políticas e planos educacionais, em consonância com as</p><p>diretrizes e planos nacionais de educação, integrando e coordenando as suas ações</p><p>e as dos seus Municípios (BRASIL, 1996, documento on-line).</p><p>Indicando que devem trabalhar no âmbito do regime de cooperação recí-</p><p>proca, o exercício da função normativa é prerrogativa desses entes federativos</p><p>no que tange às suas atribuições referentes à educação escolar.</p><p>O Art. 11 da Lei nº 9.394/96 determina que aos municípios cabe “[...] or-</p><p>ganizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus</p><p>sistemas de ensino, integrando-os às políticas e planos educacionais da</p><p>União e dos Estados” (BRASIL, 1996, documento on-line). O artigo também</p><p>reforça a prerrogativa da colaboração entre os entes federados e destaca</p><p>que: “Os Municípios poderão optar, ainda, por se integrar ao sistema estadual</p><p>de ensino ou compor com ele um sistema único de educação básica” (BRASIL,</p><p>1996, documento on-line).</p><p>Mais abaixo na hierarquia, há um conjunto de leis complementares e</p><p>ordinárias que, muitas vezes, se sobrepõem ou se anulam.</p><p>São também leis</p><p>ordinárias as medidas provisórias do governo para casos urgentes e relevan-</p><p>Legislação educacional brasileira4</p><p>tes, os Decretos Legislativos e as Resoluções e Decretos Administrativos. As</p><p>resoluções dão origem a uma série de documentos legais de explicitação e</p><p>execução. Como exemplo, é possível citar a Resolução CNE/CP nº 1 de 2006</p><p>(BRASIL, 2006), que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso</p><p>de pedagogia. Por fim, na hierarquia, temos as instruções normativas, as</p><p>instruções administrativas, os atos e as portarias, que permitem a execução</p><p>das leis.</p><p>O Quadro 1 mostra as diferenças entre diretriz, decreto, resolução e parecer</p><p>de acordo com a estrutura legal da educação brasileira.</p><p>Quadro 1. Diferenças entre as Leis Complementares na estrutura legal da</p><p>educação brasileira</p><p>Leis Complementares Definição</p><p>Diretriz Tem como intuito indicar a direção a ser</p><p>seguida para colocar em prática os preceitos</p><p>legais. As diretrizes têm a incumbência de</p><p>sistematizar os princípios legais e transformá-</p><p>los em orientações para assegurar a formação</p><p>básica comum em território nacional. As</p><p>diretrizes podem ser organizadas em forma de</p><p>decretos federais ou estaduais.</p><p>Decreto São ordens emanadas pelo poder executivo,</p><p>ou seja, presidência, governo de estado e</p><p>prefeituras. Os decretos ordenam ações que</p><p>levem a cabo os preceitos legais. Exemplo: as</p><p>diretrizes e bases da educação nacional de 2013</p><p>foram decretadas pela presidente do Brasil.</p><p>Resolução Ato do poder administrativo, emanado pela</p><p>autoridade superior, com o objetivo de</p><p>normatizar um assunto de sua competência</p><p>específica. Uma resolução não pode causar</p><p>efeitos externos. Por exemplo, um secretário de</p><p>educação municipal pode baixar uma resolução</p><p>que defina procedimentos para matrículas nas</p><p>escolas daquele município. Tal resolução não</p><p>poderá ter efeito em outros municípios.</p><p>Parecer Ato enunciativo pelo qual um órgão emite</p><p>um encaminhamento fundamentado sobre</p><p>uma matéria de sua competência. Quando</p><p>homologado por autoridade competente da</p><p>administração pública, ganha força vinculante.</p><p>Fonte: Adaptado de Pinto e Pizzirani (2017).</p><p>Legislação educacional brasileira 5</p><p>Na hierarquia da legislação educacional, existem também as instru-</p><p>ções normativas, os atos e as portarias para permitir a execução das</p><p>leis. Eles fazem sempre o detalhamento de como executar, cobrar e dispensar</p><p>serviços, verificar aplicação legal ou executar obrigações paralelas.</p><p>Processo e divisões da legislação</p><p>educacional brasileira</p><p>O sistema educacional brasileiro segue os princípios da Constituição Federal</p><p>(BRASIL, [2016]) e está organizado a partir da LDBEN, sendo dividido em federal,</p><p>estadual e distrital e municipal. A partir da reflexão sobre a legislação e a</p><p>cidadania na educação escolar, é importante compreender a hierarquia exis-</p><p>tente na estrutura educacional. Aos profissionais da educação, é importante</p><p>entender que os órgãos federais (MEC e CNE) são as instâncias da União que,</p><p>acima das demais, executam os programas e definem as diretrizes para a</p><p>educação, que serão desenvolvidas em todo o Brasil.</p><p>Nessa concepção, Pacheco e Cerqueira (2013, p. 25) destacam que:</p><p>Na estrutura da República Federativa, em que estados e municípios são entes</p><p>autônomos, estão as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação e os Conse-</p><p>lhos Estaduais de Educação, instâncias de poder nas quais são tomadas decisões</p><p>que orientam a organização e a ação educativa nos estados bem como se fixam</p><p>as diretrizes para os sistemas estaduais de ensino, sem, com isso, contrariar as</p><p>deliberações das instâncias federais.</p><p>Em relação às políticas públicas educacionais, ao processo e às divisões</p><p>da legislação educacional, é importante saber que, embora possa haver casos</p><p>específicos em que os municípios legislam sobre os aspectos educacionais,</p><p>todos os entes federativos devem atender à Constituição Federal e à LDBEN.</p><p>Existe uma hierarquia nas leis que regulam a educação, bem como nos res-</p><p>pectivos órgãos responsáveis por essas leis em cada esfera administrativa. Ou</p><p>seja, um estado ou município, ao criar uma resolução ou lei, deve elaborá-la</p><p>em consonância com as instâncias superiores que a antecederam (Figura 2).</p><p>Legislação educacional brasileira6</p><p>Figura 2. Pirâmide da hierarquia da legislação da educação brasileira.</p><p>CF</p><p>LDBN</p><p>Programa de polí�cas do</p><p>Ministério da educação</p><p>Resoluções do Conselho Nacional de</p><p>Educação</p><p>Resoluções das Secretarias Estaduais de</p><p>Educação</p><p>Resoluções e pareceres dos Conselhos Estaduais de</p><p>Educação</p><p>Resoluções e pareceres das Secretarias Municipais de Educação</p><p>Resoluções, pareceres e normas dos Conselhos Municipais de Educação</p><p>União</p><p>Estado</p><p>Município</p><p>De acordo com o art. 211 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]),</p><p>os municípios atuam prioritariamente no ensino fundamental e na educação</p><p>infantil, sob a gestão das Secretarias Municipais de Educação, obedecendo às</p><p>normas do respectivo Conselho Municipal de Educação, quando implantado o</p><p>sistema municipal de ensino. Quando o município, respeitando a LDBEN, optar</p><p>por não constituir um sistema de ensino autônomo, este, além de seguir as</p><p>determinações federais, integrará e se submeterá às normas do respectivo</p><p>sistema estadual, sem renunciar ao atendimento específico das demandas</p><p>decorrentes das peculiaridades locais.</p><p>Nesse sentido, Pacheco e Cerqueira (2013, p. 26) afirmam que:</p><p>[...] a legislação da educação caracteriza-se como conjunto de normas — artigos</p><p>da Constituição, leis, decretos, resoluções, pareceres, portarias, instruções e atos</p><p>— que dá forma e regulamenta a estrutura e o funcionamento da educação, com</p><p>amplitude maior ou menor.</p><p>Contudo, Saviani (2008, documento on-line) destaca a subordinação entre</p><p>as leis no sistema educacional:</p><p>Ora, a própria Constituição, ao prescrever no artigo 22, inciso XXIV, que compete</p><p>privativamente à União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional; que</p><p>compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre</p><p>educação, cultura, ensino e desporto (artigo 24, inciso IX); e que é competência</p><p>comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proporcionar os</p><p>meios de acesso à cultura, à educação e à ciência (artigo 23, inciso V), não estendeu</p><p>aos municípios a competência para legislar em matéria de educação. Portanto,</p><p>Legislação educacional brasileira 7</p><p>não tendo autonomia para baixar normas próprias sobre educação ou ensino, os</p><p>municípios estariam constitucionalmente impedidos de instituir sistemas próprios,</p><p>isto é, municipais, de educação ou de ensino. Não obstante, o texto constitucional</p><p>deixa margem, no artigo 211, para que se possa falar em sistemas de ensino dos</p><p>municípios quando estabelece que "a União, os Estados, o Distrito Federal e os</p><p>Municípios organizarão, em regime de colaboração, os seus sistemas de ensino".</p><p>Isso objetiva o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito</p><p>nacional sobre algumas matérias, entre elas as educacionais. Ou seja, sobre</p><p>a educação, as três instâncias da federação poderão definir leis, desde que</p><p>a deliberação da de menor poder não implique em descumprimento do es-</p><p>tabelecido pelas esferas superiores a ela.</p><p>Pacheco e Cerqueira (2013, p. 26) ressaltam a importância de conhecermos</p><p>a legislação educacional e de exercermos de modo democrático o nosso papel</p><p>de cidadão de direitos:</p><p>Conhecer a legislação educacional torna-se fator relevante ao exercício da cidada-</p><p>nia, uma vez que é nela que estão, não apenas definidos, mas também limitados</p><p>tanto nossos direitos quanto nossos deveres. O que nos permite conhecer nossos</p><p>limites, os limites das autoridades de nosso município e estado, bem como a</p><p>quais instâncias cabe cada responsabilidade, o que eleva nossa capacidade de</p><p>reivindicação e de proposição de sugestões.</p><p>Nessa mesma perspectiva, Pinto e Pizzirani (2017) comentam sobre a ne-</p><p>cessidade e importância do profissional da educação de conhecer a legislação</p><p>educacional. As autoras ainda</p><p>trazem um exemplo prático:</p><p>Um coordenador pedagógico para proporcionar aos docentes, alunos e comunidade</p><p>o repensar contínuo do projeto educativo e do processo de ensino e aprendizagem</p><p>na escola em que atua necessita de uma compreensão maior da educação, certo?</p><p>Ou seja, precisa compreender, entre outras, a LDB e suas intenções, as políticas</p><p>educacionais em vigência e as orientações para a educação, a fim de promover</p><p>reflexões, mudanças, orientações no contexto escolar, contribuindo para uma</p><p>educação de qualidade e emancipadora (PINTO; PIZZIRANI, 2017, p. 16).</p><p>É muito importante que o profissional da educação conheça a legislação,</p><p>pois só assim entenderá a ação e as responsabilidades do Estado na organi-</p><p>zação do sistema educacional. Além disso, conhecerá seus direitos e deveres</p><p>assegurados por lei.</p><p>Legislação educacional brasileira8</p><p>Toda legislação citada neste capítulo para o nível federal serve</p><p>igualmente para os níveis estadual e municipal. Cada estado tem uma</p><p>constituição e um conjunto de leis estaduais próprios, e ambos devem sempre</p><p>estar de acordo com a esfera federal. Da mesma forma, nos municípios, as leis</p><p>orgânicas e as demais leis devem estar de acordo com as leis estadual e federais.</p><p>Os estados e municípios, com base na Constituição Federal, definem leis para</p><p>solucionar seus problemas de educação. Como cada estado e município vive</p><p>situações específicas, as leis definidas por eles vão solucionar essas questões</p><p>pontuais. O profissional da educação precisa conhecer a legislação educacional</p><p>tanto em relação à carta magna quanto em relação às constituintes estaduais e</p><p>municipais. Assim, será capaz de desenvolver seu trabalho de modo consciente,</p><p>contribuindo para a qualidade da educação.</p><p>Planos de Educação</p><p>Os Planos de Educação são considerados os principais instrumentos da política</p><p>pública educacional. Eles têm força de lei e estabelecem metas para garantir</p><p>que o direito à educação de qualidade seja prioridade para o município, estado</p><p>ou país no período de dez anos. Esses documentos abordam as diretrizes para</p><p>o atendimento educacional em um território, envolvendo redes municipais,</p><p>estaduais, federais e instituições privadas que atuam em diferentes níveis e</p><p>modalidades da educação: das creches até as universidades.</p><p>O Plano Nacional de Educação (PNE) é um instrumento da política educa-</p><p>cional, uma lei ordinária prevista na Constituição Federal de 1988 (BRASIL,</p><p>[2016]). De duração decenal, o PNE tem por finalidade “[...] articular o sistema</p><p>nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos,</p><p>metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e o</p><p>desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades”</p><p>(BRASIL, [2016], documento on-line). Ele faz isso a partir de ações integradas</p><p>com outros poderes públicos de diversas esferas federativas. O PNE tem</p><p>como objetivos:</p><p>I - erradicação do analfabetismo;</p><p>II - universalização do atendimento escolar;</p><p>III - melhoria da qualidade do ensino;</p><p>IV - formação para o trabalho;</p><p>V - promoção humanística, científica e tecnológica do País;</p><p>VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação</p><p>como proporção do Produto Interno Bruto (BRASIL, [2016], documento on-line).</p><p>Legislação educacional brasileira 9</p><p>Assim, o PNE, Lei nº 13.005/2014 (BRASIL, 2014), passa a ser uma política</p><p>do Estado brasileiro, tornando-se obrigatório. A partir de sua vigência, os</p><p>estados, o Distrito Federal e os municípios devem tomá-lo como base para</p><p>o desenvolvimento de seus planos educacionais.</p><p>O PNE, a cada cinco anos, é avaliado pela Secretaria da Educação Básica</p><p>(SEB), que formula políticas públicas para a educação do Brasil e estimula</p><p>os estados e municípios a criarem seus planos correspondentes de acordo</p><p>com a própria lei. Todas as ações e os programas da SEB visam ao alcance</p><p>das metas do PNE.</p><p>Em relação ao Plano Estadual de Educação (PEE), Souza e Menezes (2017, p.</p><p>3) destacam que eles são considerados importantes instrumentos de gestão,</p><p>[...] cuja particularidade implica, de um lado, integrar objetivos e metas do plano</p><p>nacional, traduzindo-os, portanto, para a realidade territorial do estado e, de outro,</p><p>prever a sua articulação às demandas municipais, a fim de que essas localidades</p><p>possam adequar o planejamento nacional às suas particularidades.</p><p>As políticas e os planos estaduais, além de consoantes ao PNE, devem</p><p>visar não apenas à integração e à coordenação de suas ações, mas também</p><p>às relativas ao âmbito municipal, embora não haja obrigatoriedade de os</p><p>municípios elaborarem o seu Plano Municipal de Educação (PME). É importante</p><p>considerar que os “[...] PEEs devem fornecer elementos que subsidiem, de</p><p>modo integrado e articulado, a elaboração de PMEs (Brasil, 2001, Capítulo</p><p>VI)” (SOUZA; ALCÂNTARA, 2017, p. 716).</p><p>Monlevade (2002, p. 58) aponta que os PEEs têm função estratégica na</p><p>implantação efetiva do PNE, já que suas metas somente serão atingidas se</p><p>“[...] os Planos Estaduais as compatibilizarem pela média de seus Municípios”.</p><p>Por isso, é muito importante o envolvimento dessas localidades na elaboração</p><p>do PEE. Caso contrário, cada município se responsabiliza “[...] por alcançar ou</p><p>ultrapassar as metas nacionais” (MONLEVADE, 2002, p. 58).</p><p>Dias (2018, documento on-line) ressalta que o PME é “[...] uma lei elaborada</p><p>com participação popular, discutido em audiências públicas, fóruns e confe-</p><p>rências municipais, apresentado pelo Poder Executivo ao Legislativo para sua</p><p>votação, aprovação e publicação”. O Poder Executivo do município recebe as</p><p>demandas da população quanto às necessidades no âmbito da educação e,</p><p>a partir dessas ideias e solicitações, a Câmara de Vereadores, em seu Poder</p><p>Legislativo, regulamenta e elabora as leis do campo educacional. Nesse caso,</p><p>a Câmara também é a responsável por zelar pelo seu cumprimento.</p><p>Vale destacar que, para que as metas dos Planos de Educação (PNE, PEE</p><p>e PME) se concretizem, é importante o apoio de vários órgãos e entes públi-</p><p>Legislação educacional brasileira10</p><p>cos municipais, estaduais e federais. Dias (2018, documento on-line) alerta</p><p>que “[...] existe a necessidade do legislador e Poder Executivo planejar sua</p><p>execução, ao longo dos dez anos de sua vigência, levando-o em conta ao</p><p>elaborar as peças orçamentárias municipais, reservando orçamento próprio</p><p>para cumprimento e efetivação da Lei”.</p><p>Reconhecido como um importante instrumento da política educacional,</p><p>o PME diagnostica a realidade local educacional e prevê ações planejadas e</p><p>sistemáticas para atender a demandas identificadas, junto ao PNE e ao PEE</p><p>(SOUZA; MENEZES, 2017).</p><p>O MEC, em conjunto com o Conselho Nacional de Secretários de Educação</p><p>(Consed) e com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação</p><p>(Undime), criou uma rede de suporte para orientar, acompanhar e assessorar</p><p>o trabalho de elaboração e aprovação dos PMEs em todo o Brasil. O MEC</p><p>destaca que:</p><p>A Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e o novo</p><p>PNE, que agora é lei, estipulam que as metas nacionais, especialmente aquelas que</p><p>dizem respeito às etapas obrigatórias da educação nacional, são responsabilidades</p><p>conjuntas da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Considerando</p><p>que as visões de políticas públicas e as soluções para os desafios educacionais</p><p>são as mais diversas e que os Planos Municipais de Educação a serem elaborados</p><p>ou adequados ao novo PNE e aos PEEs exigem compromisso e envolvimento de</p><p>todos — sociedade e governos [...] (BRASIL, 2014, p. 6).</p><p>Os Planos de Educação são importantes nas esferas nacional, estadual</p><p>e municipal. Eles são instrumentos de planejamento e desenvolvimento da</p><p>política educacional e devem respeitar à hierarquia da legislação educacional</p><p>vigente, bem como articular estratégias com os demais planos de médio e</p><p>longo prazo e com leis orçamentárias referentes ao nível governamental</p><p>em que estão vinculados. Esse engajamento serve para atingir as metas</p><p>no período</p><p>previsto. Vale ressaltar que os municípios, além de respeitar a</p><p>Constituição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]), a LDBEN, o PNE e as demais leis</p><p>nacionais, estaduais e municipais, devem estar vinculados aos planos locais</p><p>de médio e longo prazo, como o Plano Diretor e o Plano Plurianual (PPA),</p><p>cumprindo com o compromisso e envolvimento de todos os entes federados.</p><p>Legislação educacional brasileira 11</p><p>A LDBEN, em seu art. 24, estabelece que a carga horária mínima anual</p><p>será de 800 horas para o ensino fundamental e médio, distribuídas</p><p>por um mínimo de duzentos dias de efetivo trabalho escolar (BRASIL, 1996).</p><p>O estado ou o município deve organizar o seu sistema de ensino respeitando</p><p>essa diretriz. É possível ampliar a carga horária, mas jamais diminuí-la. Em São</p><p>Paulo, por exemplo, a carga horária dos anos iniciais do ensino fundamental é</p><p>de 1.000 horas, 200 a mais do que a lei prevê.</p><p>Educação nas constituições brasileiras</p><p>A Constituição Federal, lei suprema de um país, é o documento que reúne</p><p>as leis fundamentais de estruturação do Estado, a formação de poderes, as</p><p>formas de governo e os direitos e deveres dos cidadãos (TOLEDO, 2016). A</p><p>legislação como um todo deve estar subordinada e em consonância com a</p><p>Constituição. No Brasil, estamos na oitava constituição, que iniciou-se em 1988.</p><p>A legislação educacional brasileira evoluiu e, atualmente, assegura o</p><p>direito à educação como direito público subjetivo, respaldado pela Consti-</p><p>tuição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]). Porém, a positivação de um direito</p><p>não significa sua imediata concretização e efetivação para os cidadãos. O</p><p>resgate histórico da evolução do direito à educação pela Constituição começa</p><p>nos tempos do Império. Veja a seguir.</p><p>Legislação educacional no Brasil Colônia</p><p>As práticas educativas no Brasil tiveram início a partir da chegada dos je-</p><p>suítas, que tinham como principal objetivo disseminar e preservar a cultura</p><p>portuguesa e religiosa (católica).</p><p>As primeiras regras normativas educacionais foram formuladas pelo</p><p>fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. Houve a Constituição da</p><p>Companhia de Jesus (1547‒1551) e a Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis</p><p>Iesu (1548‒1599). A Companhia de Jesus foi expulsa em 1759 e obrigada a</p><p>sair do Brasil em 1760, com a política pombalina (PINTO; PIZZIRANI, 2017). Na</p><p>perspectiva dos autores:</p><p>Um novo sistema educacional é implantado, pior que o anterior, devido às precárias</p><p>condições de trabalho dos professores, de um ensino fragmentado e da falta de</p><p>um currículo regular. Além disso, há continuidade na escolarização, baseada na</p><p>formação clássica, ornamental e “europeizante” dos jesuítas (PINTO; PIZZIRANI,</p><p>2017, p. 24).</p><p>Legislação educacional brasileira12</p><p>A seguir, vamos abordar o Brasil Imperial.</p><p>Legislação educacional no Brasil Imperial</p><p>A partir da Declaração da Independência do Brasil, em 1822, novas preocupa-</p><p>ções surgiram para o Estado. A elite que dirigia o País tinha como prioridade</p><p>o enfrentamento a lutas armadas, tanto internas quanto externas, atreladas</p><p>à consolidação do Estado nacional. Assim, a educação foi deixada de lado.</p><p>D. Pedro I reservou apenas dois incisos do art. 179 da Carta Constitucional</p><p>de 1824 para tratar a educação (PINTO; PIZZIRANI, 2017). Ele limitou-se à</p><p>gratuidade da instrução primária a todos os cidadãos. Pinto e Pizzirani (2017,</p><p>p. 25) destacam que, em 1827, “[...] em forma de lei, a criação de escolas de</p><p>primeiras letras passa a ser orientada em todas as cidades, vilas e lugares</p><p>populosos do Império”. Isso, na prática, não se efetivou.</p><p>Legislação educacional na República</p><p>A República, inaugurada em 1889, foi consolidada pela Constituição, que tinha</p><p>o objetivo de organizar um regime livre e democrático. Para a educação, a</p><p>Constituição Republicana de 1891 trouxe uma abordagem indireta. Segundo</p><p>Bulhões (2009, p. 181), na leitura do art. 72, parágrafo § 6º, nota-se “[...] o</p><p>princípio da liberdade e da laicidade do ensino ministrado nos estabeleci-</p><p>mentos públicos”: a separação do Estado e da Igreja, “[...] limitando, assim,</p><p>os poderes de ingerência de um sobre o outro” (BULHÕES, 2009, p. 181). A</p><p>Constituição também definiu que cada estado organizaria sua educação,</p><p>mantendo como base um regime democrático e com ensino público e leigo.</p><p>Vale destacar o art. 35, que incumbe, ao Congresso, mas não apenas a ele</p><p>(BRASIL, 1891, documento on-line):</p><p>� animar no País o desenvolvimento das letras, artes e ciências, bem</p><p>como a imigração, a agricultura, a indústria e o comércio, sem privilégios</p><p>que tolham a ação dos governos locais;</p><p>� criar instituições de ensino superior e secundário nos estados;</p><p>� prover a instrução secundária no Distrito Federal.</p><p>No entanto, a organização de dois sistemas escolares permanece. A dua-</p><p>lidade do ensino, com origem no Brasil Colônia, foi ganhando força.</p><p>Legislação educacional brasileira 13</p><p>Legislação educacional do Estado Novo ao Golpe</p><p>Militar</p><p>Na década de 1920, o movimento educacional conhecido como Escola Nova</p><p>ganhou força no Brasil, propondo mudanças à educação. Em 1932, foi publicado</p><p>o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova: a reconstrução educacional</p><p>no Brasil. O período de 1930 a 1945 é chamado de Era Vargas. O governo de</p><p>Getúlio Vargas apresentou características nacionalistas, de autoritarismo</p><p>e incentivo por parte do Estado ao desenvolvimento industrial e populista.</p><p>Nesse período, foram promulgadas duas Constituições: a de 1934 e a de 1937</p><p>(PACHECO; CERQUEIRA, 2013).</p><p>A Constituição de 1934 assumiu como responsabilidade elaborar o PNE.</p><p>“Segundo Fávero (2005, p. 13), [no] texto constitucional de 1934 [...] o direito à</p><p>educação aparece disposto, de forma explícita, no art. 149, que compreende</p><p>as disposições acerca da família, da educação e da cultura” (BULHÕES, 2009,</p><p>p. 181). Vale destacar que o direito à educação passa a ser dividido entre o</p><p>Estado e a família, ou seja, a família tem a obrigatoriedade de enviar e manter</p><p>os filhos nas escolas, enquanto os poderes públicos têm de assegurar a gra-</p><p>tuidade do ensino. Considerando o contexto de desenvolvimento industrial</p><p>do país, aproveitou-se para estabelecer a gratuidade do ensino primário fora</p><p>dos centros escolares. Tornou-se dever das empresas industriais ou agrícolas</p><p>com mais de cinquenta trabalhadores oferecer educação aos funcionários</p><p>e a seus filhos.</p><p>A Constituição de 1937 foi a segunda Carta brasileira outorgada. Nesse</p><p>caso, foi pelo Estado Novo, “[...] que teve por objetivo ‘assegurar à Nação a</p><p>sua unidade, o respeito à sua honra e à sua independência’” (BULHÕES, 2009,</p><p>p. 182). Essa Constituição significou um retrocesso considerável em relação à</p><p>Constituição anterior, especialmente em relação à educação, atribuindo-se</p><p>à família a responsabilidade primeira pela educação integral da prole. Ao</p><p>Estado, havia “[...] o dever de colaborar para a execução dessa responsabi-</p><p>lidade. [...] O art. 130 define o ensino primário como obrigatório e gratuito,</p><p>mas a ênfase do texto [está no Estado subsidiar o] provimento da educação</p><p>àqueles a quem faltarem recursos” (BULHÕES, 2009, p. 182).</p><p>O período neoliberal de 1946</p><p>Com a Constituição Federal de 1946, o Estado perde a primazia, enquanto a</p><p>sociedade a ganha. A liberdade objetivava maior participação popular na vida</p><p>Legislação educacional brasileira14</p><p>social e econômica. Na Constituição de 1946, a educação se torna um direito</p><p>público subjetivo, sendo dever do Estado e da família.</p><p>“Os incisos I e II do art. 168 definem a obrigatoriedade e a gratuidade [do]</p><p>ensino primário oficial” (BULHÕES, 2009, p. 182). No entanto, dispõem sobre o</p><p>Estado subsidiar o “[...] provimento do ensino oficial posterior para aqueles</p><p>que provarem a falta ou insuficiência de recursos” (BULHÕES, 2009, p. 183).</p><p>Vale lembrar que é a partir da Constituição neoliberal de 1946 que surge o:</p><p>[...] ciclo das leis de diretrizes e bases, sendo a Lei nº 4.024/61 [...] a primeira lei geral</p><p>de educação. Essa Lei previa o Plano Nacional de Educação (PNE), [...] elaborado</p><p>em 1962,</p><p>revisto em 1965 e complementado pelo Conselho Federal de Educação</p><p>(CFE) em 1966. O PNE visava a instrumentalizar os dois princípios fundamentais</p><p>da LDBEN, ou seja, o direito de todos à educação e a igualdade de oportunidades</p><p>(BULHÕES, 2009, p. 183).</p><p>Ditadura Militar</p><p>A Constituição de 1967, de inspiração militar, limitou o poder da sociedade</p><p>civil. Ela foi decretada e promulgada pelo Congresso Nacional. “O direito à</p><p>educação encontra-se previsto no art. 168, [que dispõe] da família, da edu-</p><p>cação e da cultura” (BULHÕES, 2009, p. 183). Ainda segundo Bulhões (2009, p.</p><p>183), “O texto constitucional mantém alguns princípios gerais da educação,</p><p>como o direito de todos, a liberdade de ensino, a igualdade de oportunidades</p><p>e a limitação da gratuidade, mas inaugura o regime de bolsas de estudos</p><p>restituíveis, no ensino superior”.</p><p>A Emenda Constitucional nº 1 de 1969 [passa a ser a] nova Constituição [do País],</p><p>com características mais ditatoriais que sua antecessora. [...] No entanto, manteve</p><p>todos os dispositivos referentes à educação e reconheceu, pela primeira vez, [em</p><p>seu] (art. 176), que a educação é um direito de todos e dever do Estado, devendo</p><p>ser ministrada tanto no lar quanto na escola. As bolsas de estudos restituíveis se</p><p>estendem ao ensino médio (BULHÕES, 2009, p. 183-184).</p><p>Década de 1980: redemocratização do Brasil</p><p>Entre 1983 e 1984, o Brasil se organizou em torno de um dos maiores movi-</p><p>mentos de massa da história do País: o Diretas Já. Em 1985, terminou o período</p><p>ditatorial. A organização de diferentes movimentos sociais, que lutavam</p><p>pela redemocratização do Brasil e reivindicavam o retorno de um Estado</p><p>de direito, contribuiu para a elaboração de uma nova Constituição Federal,</p><p>Legislação educacional brasileira 15</p><p>promulgada em 5 de outubro de 1988 (BRASIL, [2016]), que estabeleceu o</p><p>Estado Democrático de Direito.</p><p>Chamada de Constituição Cidadã, ela mobilizou a sociedade brasileira e</p><p>ampliou o rol dos direitos sociais (dentro do qual se insere o direito à edu-</p><p>cação) e as atribuições do poder público. A declaração do direito à educação</p><p>encontra-se bem detalhada, com maior abrangência e precisão de redação,</p><p>e descreve os instrumentos jurídicos que garantam tal direito. O direito à</p><p>educação aparece na Carta Magna já no art. 6º, pela primeira vez como um</p><p>dos direitos sociais: “São direitos sociais a educação, a saúde, [...], o trabalho,</p><p>[...], o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à</p><p>infância, a assistência aos desamparados” (BRASIL, [2016], documento on-line).</p><p>Na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, [2016]), foram dedicados à educa-</p><p>ção os artigos de 205 a 214 da seção I do capítulo III do título VIII, além do art.</p><p>nº 60 das disposições constitucionais transitórias. Nota-se que a educação</p><p>é considerada relevante pelo legislador e reconhecida como importante</p><p>mecanismo na promoção da justiça social, mobilidade social e diminuição</p><p>das desigualdades. O art. nº 205 dispõe que a educação é direito de todos e</p><p>um dever do Estado (BRASIL, [2016]). Sua promoção tem como finalidade o</p><p>desenvolvimento tanto da pessoa quanto da própria sociedade.</p><p>O ensino começa a ser especificado no art. nº 206, que expõe como seus</p><p>princípios norteadores (BRASIL, [2016], documento on-line):</p><p>� igualdade de condições para o acesso e permanência na Escola;</p><p>� gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;</p><p>� garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida.</p><p>O ensino superior é, pela primeira vez, posto como gratuito, no art. nº</p><p>207 (BRASIL, [2016]). Ele aponta que as universidades têm “[...] autonomia</p><p>didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial”</p><p>(BRASIL, [2016], documento on-line). Além disso, devem obedecer ao princípio</p><p>de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.</p><p>O detalhamento do direito à educação se dá no art. nº 208 (BRASIL, [2016],</p><p>documento on-line):</p><p>O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:</p><p>I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não</p><p>tiveram acesso na idade própria;</p><p>II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;</p><p>III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, prefe-</p><p>rencialmente na rede regular de ensino;</p><p>Legislação educacional brasileira16</p><p>IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;</p><p>V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística,</p><p>segundo a capacidade de cada um;</p><p>VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;</p><p>VII - atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas</p><p>suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência</p><p>à saúde.</p><p>Em 2009, a Emenda Constitucional nº 59 alterou a redação do inciso</p><p>I, que passou a vigorar da seguinte forma: “A educação básica obri-</p><p>gatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada</p><p>inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na</p><p>idade própria” (BRASIL, 2009, documento on-line).</p><p>O art. nº 211 dispõe sobre a organização dos sistemas de ensino (BRASIL,</p><p>[2016], documento on-line):</p><p>A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de</p><p>colaboração seus sistemas de ensino.</p><p>§ 2º – Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na edu-</p><p>cação infantil.</p><p>§ 3º – Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino funda-</p><p>mental e médio.</p><p>Os entes federados, em regime de colaboração, organizam as responsabi-</p><p>lidades pela oferta do ensino em todos os níveis e modalidades da educação.</p><p>A educação infantil é obrigatória e gratuita a partir dos 4 anos de idade, e a</p><p>LDBEN garante a vaga na escola pública de educação infantil mais próxima</p><p>de sua residência. O ensino médio é universalizado e gratuito.</p><p>Em comparação com as constituições anteriores, é evidente o avanço em</p><p>relação ao direito à educação. Também é possível perceber que, ao longo</p><p>do período analisado, o direito à educação recebeu diferentes tratamentos,</p><p>refletindo ideologias e valores da época. Para concluir, vale lembrar que não</p><p>basta garantir direitos. Além disso, é imprescindível protegê-los e efetivá-los.</p><p>Ainda há um longo caminho a trilhar em relação a isso. No entanto, o sistema</p><p>educacional brasileiro está adequadamente estruturado e respaldado na</p><p>legislação do País.</p><p>Legislação educacional brasileira 17</p><p>Em 1948, foi apresentado à Câmara Federal um projeto de reforma</p><p>geral da educação nacional, elaborado por três subcomissões: do</p><p>Ensino Primário, do Ensino Secundário e do Ensino Superior. Foi desse projeto</p><p>que nasceu a primeira LDBEN. Ela trouxe como novidade a maior liberdade das</p><p>escolas na elaboração de programas e no desenvolvimento de conteúdos de</p><p>ensino, além de proporcionar a criação de setores especializados nas esco-</p><p>las para coordenar suas atividades. A primeira LDBEN também apresentou a</p><p>equivalência entre os cursos propedêutico e profissionalizante, abrindo-se ao</p><p>Ensino Superior, e uma ênfase no ensino da ciência como superior à religião.</p><p>Referências</p><p>BRASIL. [Constituição (1891)]. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil</p><p>(de fevereiro de 1891). Rio de Janeiro: República dos Estados Unidos do Brasil, 1891.</p><p>Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm.</p><p>Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.</p><p>Brasília: Presidência da República, [2016]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Emenda Constitucional n. 59, de 11 de novembro de 2009. Acrescenta § 3º ao</p><p>art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para reduzir, anualmente,</p><p>a partir do exercício de 2009, o percentual da Desvinculação das Receitas da União...</p><p>Brasília: Presidência da República, 2009. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc59.htm. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Lei n. 9.131, de 24 de novembro de 1995. Altera dispositivos da Lei n. 4.024, de</p><p>20 de dezembro de 1961, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República,</p><p>1995. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9131.htm. Acesso em:</p><p>7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da</p><p>educação nacional. Brasília: Presidência da República, 1996. Disponível em: http://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Lei n. 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação</p><p>- PNE e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 2014. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm. Acesso</p><p>em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Ministério da Educação. O plano municipal de educação: caderno de orien-</p><p>tações. Brasília: MEC/SASE, 2014. Disponível em: http://pne.mec.gov.br/images/pdf/</p><p>pne_pme_caderno_de_orientacoes.pdf. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CP n. 1, de 15 de maio de 2006. Institui</p><p>Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licencia-</p><p>tura. Brasília: CNE, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/</p><p>rcp01_06.pdf. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>Legislação educacional brasileira18</p><p>BULHÕES, R. R. R. A educação nas constituições brasileiras. Lex Humana, n. 1, p. 179-188,</p><p>2009. Disponível em: http://seer.ucp.br/seer/index.php/LexHumana/article/down-</p><p>load/9/8. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>DIAS, J. R. A importância do plano municipal de educação para desenvolver uma educação</p><p>de qualidade. Jus, 2018. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/67276/a-importancia-</p><p>-do-plano-municipal-de-educacao-para-desenvolver-uma-educacao-de-qualidade.</p><p>Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>MONLEVADE, J. A. C. de. Como elaborar o Plano Municipal de Educação. Educação</p><p>Municipal, n. 5, p. 55-69, 2002.</p><p>PACHECO, R. G.; CERQUEIRA, A. S. Legislação escolar: técnico em secretaria escolar.</p><p>Cuiabá: UFMT/Rede e-Tec Brasil, 2013. (Curso técnico de formação para os funcionários</p><p>da educação; Profuncionário, n. 12).</p><p>PINTO, R. O.; PIZZIRANI, F. Legislação educacional. Londrina: Editora Distribuidora</p><p>Educacional S. A., 2017.</p><p>SAVIANI, D. Desafios da construção de um sistema nacional articulado de educação.</p><p>Trabalho, Educação e Saúde, v. 6, n. 2, out. 2008. Disponível em: https://www.scielo.</p><p>br/j/tes/a/LVvkxRZdYczChk9qcxCdNFG/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>SOUZA, D. B.; ALCÂNTARA, A. B. (Des)vinculações de planos municipais de educação</p><p>metropolitanos com outros instrumentos de gestão local da educação. Educação e</p><p>Pesquisa, v. 43, n. 3, p. 711-726, jul./set. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/</p><p>ep/a/Zs4DqTHK4cxNjRvMPqjrVGG/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>SOUZA, D. B.; MENEZES, J. S. S. Planos estaduais de educação: desafios às vinculações</p><p>com outros instrumentos de gestão local da educação. Revista Brasileira de Educação,</p><p>v. 22, n. 71, p. 1-23, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/mhPLbnNmP</p><p>NSFF4KHSKFSJbs/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 7 jun. 2021.</p><p>TOLEDO, M. Direito educacional. São Paulo: Cengage, 2016.</p><p>Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos</p><p>testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da</p><p>publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas</p><p>páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores</p><p>declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou</p><p>integralidade das informações referidas em tais links.</p><p>Legislação educacional brasileira 19</p>