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AULA 2 DISCIPULADO E EVANGELIZAÇÃO Prof.ª Merlise dos Santos 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa vamos tratar do discipulado no Novo Testamento, conheceremos os Talmidim, passaremos pelo papel do discípulo no cumprimento da sua missão, bordaremos os perigos do etnocentrismo no desenvolvimento da evangelização e falaremos do preço do discipulado e do papel do discípulo no desenvolvimento da missão. A palavra discípulo vem da raiz grega e significa aprendiz, estudante, aluno, seguidor, aquele que ensina e instrui (posterior ao aprendido). Não está necessariamente relacionada ao fato de ser um simples seguidor de algo ou alguma coisa, mas refere-se àquele que toma como exemplo os preceitos do seu mestre. Para entendermos melhor o discípulo no NT, convido-o a olhar brevemente para o original grego. TEMA 1 – DISCÍPULO NO NOVO TESTAMENTO O Novo Testamento traduz a palavra discípulo do grego Mathetês: 24 Então Jesus disse aos discípulos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. 25 Pois quem quiser preservar sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa, este a preservará. 26 Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a vida? Ou, que dará o homem em troca da sua vida? 27 Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo suas obras. 28 Em verdade vos digo: Alguns dos que estão aqui de modo nenhum provarão a morte até que vejam o Filho do homem vindo no seu reino. (Mateus 16.24-28/ Bíblia Almeida Século XXI) 1.1 Estudo indutivo Citação Texto Significado Mateus 16.24 Então Jesus disse aos discípulos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Aprendiz, pupilo, aluno, discípulo. João 8.31 Jesus dizia aos judeus que haviam crido nele: Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos; Aprendiz, pupilo, aluno, discípulo. Mateus 27.57 Ser discípulo de alguém, seguir seus preceitos e 3 Ao cair da tarde, um homem rico chamado José, que também era discípulo de Jesus, veio de Arimateia. instruções, tornar discípulo, ensinar, instruir. 1.2 Descrição provisória No Novo Testamento a palavra discípulo é a tradução do grego mathetes, (μαθητής), que está relacionada com a palavra manthano (“aprender”) e significa “aprendiz, aluno, adepto”, traz a ideia de pupilo, ser instruído e ensinado. A palavra aparece aproximadamente 80 vezes só no Evangelho de Mateus, e tanto nas versões NTLH, NVI e Almeida sec. XXI a palavra é traduzida como “como aqueles que seguiam a Jesus”, A única exceção é Mt 10.24,25, que é um ensino sobre a relação de grandeza entre discípulo e mestre (Martins, 2017, p. 20). 1.3 Consulta em outras fontes 1.3.1 Dicionário VINE Mathetes (μαθητής), literalmente, “aprendiz” (derivado de manthanõ, “aprender”, proveniente de uma raiz math-, que indica pensamento acompanhado por esforço). Um “discípulo” não era somente um aluno, mas um partidário; por conseguinte, falava-se que eles eram imitadores do mestre (cf. Jo 8.31; 15.8). O verbo matheteuõ é usado na voz ativa, no intransitivo, em alguns manuscritos, em (Mt 27.57), no sentido de ser o “discípulo” de uma pessoa; porém, aqui os melhores manuscritos têm a voz passiva, literalmente, “tinha sido discípulo”, como em (Mt 13.52) (“escriba”), “aquele que tinha sido discípulo”. É usado neste sentido transitivo, na voz ativa, em (Mt 28.19 e At 14.21) (Vine; Unger; William Jr. 2002, p. 569). 1.3.2 Concordância fiel do Novo Testamento Discípulo – cf. Embaixador (Concordância..., 1994, p. 187). 1.3.3 Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento O verbo manthanõ ocorre apenas 25 vezes no NT, e apenas 6 vezes nos Evangelhos, onde se poderia esperar que ocorresse mais frequentemente como marca do discipulado. (3 vezes em Mateus, 1 vez em Marcos, 2 vezes em João; Lucas o emprega uma só vez, em Atos). O substantivo mathetês ocorre 264 vezes no NT, exclusivamente nos Evangelhos e Atos. Emprega-se para indicar total devoção a alguém, no discipulado (Coenen; Brown, 2000, p. 583-584). 4 1.3.4 Dicionário Ilustrado da Bíblia Estudante, aprendiz ou pupilo. Na Bíblia, a palavra é muitas vezes usada para se referir a um seguidor de Jesus. A palavra é raramente usada no Antigo Testamento. Isaías usou o termo discípulos para se referir àqueles que eram ensinados ou instruídos (Is 5.16). Essa palavra é, por vezes, usada de maneira mais específica para indicar os doze discípulos (Mt 10.1; 11.1; 20.17; Lc 9.1; os doze, ARA). De modo geral, os apóstolos correspondem a um grupo mais íntimo dos seguidores de Jesus: os discípulos referem-se a um grupo maior de seguidores do Mestre, tais como as mulheres que observavam Jesus na cruz e que descobriram o sepulcro vazio (Youngblood, 2004, p. 424). TEMA 2 – MENINOS EM ISRAEL Os meninos em Israel iniciavam os estudos bem cedo: o primeiro estágio era chamado de Beit Sefer. Essa é uma expressão em hebraico que se refere a uma escola ou casa de estudos, e tem grande relevância no contexto educacional judaico. Conforme as tradições judaicas, Beit Sefer é um espaço onde crianças e jovens estudam os princípios da fé judaica, as escrituras sagradas, e aprendem sobre a cultura judaica. Segundo Kivitz (2016, p. 7) nesse primeiro estágio: 6 anos 10 anos 14 anos os meninos decoravam a Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio Aos dez anos quando iniciavam o segundo estágio, chamado de Beit Talmud, já haviam decorado toda a lei de Moisés. Passavam então a estudar e decorar os livros históricos, poéticos, de sabedoria e os profetas de Israel Aos 14 anos, os meninos já haviam decorado o que hoje chamamos de Antigo Testamento, a Bíblia Hebraica” A preservação da língua hebraica, a leitura das escrituras sagradas, o estudo dos textos religiosos e a discussão de princípios éticos são algumas das atividades típicas realizadas em um Beit Sefer. O ambiente informal e acolhedor dessas instituições visa criar uma comunidade de aprendizado onde os 5 estudantes se sintam conectados e engajados com sua herança cultural e religiosa. Assim, ao atingir os 14 anos de idade, os meninos mais notáveis eram selecionados e designados para dar continuidade aos estudos sob os cuidados de algum rabino, para que aprendessem aos seus pés. Os meninos escolhidos eram chamados de Talmidim, conceito que o Novo Testamento traduz por discípulos. No singular, talmid (Kivitz, 2016, p. 7). O menino Jesus foi um desses meninos, capaz de maravilhar os rabinos: aos 12 anos de idade, além de decorar, compreender, citar, Jesus interpretava a Lei. Conforme o relato de Lc 2.46,47, “depois de três dias o encontraram no templo, sentado entre os mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. Todos os que ouviam ficavam maravilhados com o seu entendimento e com as suas respostas”. Mas Jesus também passou a ser chamado de mestre, rabi, rabino, e assim, começou a ter discípulos, condição essa que começou a incomodar os rabinos, pois os talmidim seguiam um ditado da época: “deixem-se cobrir pela poeira dos pés do seu rabino”. Kivitz explica que, ao andar tão próximos do seu mestre, ao final do dia estariam cobertos pela poeira dos pés do rabino. Dessa forma, os meninos talmidim deviam seguir, observar, ouvir o seu rabino com o objetivo de se tornarem iguais a eles (Kivitz, 2016, p. 8). TEMA 3 – DISCIPULADO Se sua escolha for pelo discipulado, é porque algo mais encantador que o espelho cativou sua alma. Por isso, o discipulado começa com a admiração por Cristo e se transforma na imitação diária de Cristo, a ponto desermos admirados por outras pessoas, não, obviamente, por quem somos, mas por quem imitamos. (FILHO, In: O custo do discipulado, 2019, p. 10). A palavra discipulado possui dois sentidos: o primeiro refere-se ao ato de seguir a Jesus, e o outro refere-se ao ato de ajudar alguém a seguir a Jesus. No primeiro caso, imito a Cristo, no segundo ajudo outras pessoas a imitarem Cristo. Diante dessa afirmativa, podemos concluir que quem não segue a Jesus não pode ajudar pessoas a seguirem a Jesus. Todo o discipulado gera uma decisão, e toda decisão implica um custo. Seguir a Jesus é uma decisão, logo tem um custo. Jesus responde sobre o custo de segui-lo em Lucas 14.25-35: ²⁵ Uma grande multidão ia acompanhando Jesus; este, voltando-se para ela, disse: 6 ²⁶ "Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. ²⁷ E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo. ²⁸ "Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? ²⁹ Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, ³⁰ dizendo: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar’. ³¹ "Ou, qual é o rei que, pretendendo sair à guerra contra outro rei, primeiro não se assenta e pensa se com dez mil homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? ³² Se não for capaz, enviará uma delegação, enquanto o outro ainda está longe, e pedirá um acordo de paz. ³³ Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo. ³⁴ "O sal é bom, mas se ele perder o sabor, como restaurá-lo? ³⁵ Não serve nem para o solo nem para adubo; é jogado fora. "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça". Lucas 14:25-35 Conforme Madureira (2019), os motivos pelos quais há impedimentos para seguir a Jesus, estão destacados no texto. Quem não pode ser um discípulo de Jesus? 1. Quem amar a própria vida 2. Quem não levar a sua cruz 3. Quem não renunciar 3.1 Quem ama mais a própria vida Já entendemos que um discípulo é um aprendiz, alguém que está perto do mestre a fim de aprender. O discipulado é uma decisão diferenciada, porque se refere a pessoas que estão dispostas a pagar um preço. O verdadeiro discípulo de Jesus ama. Qual é o seu time de futebol preferido? Como você o ama? Podemos amar determinadas coisas como se elas fossem algo que elas não são. E o que isso tem a ver com o discipulado? No discipulado de Jesus, Ele exige que nos tornemos semelhante a Ele. “A ideia não é que o discípulo que ama, reflete as características ou atributos do objeto da adoração” (Beale, 2014, p. 12). 3.2 Quem não levar a sua cruz O que significa carregar a cruz, nos dias de hoje? Significa dia a dia aproximar-se de Cristo, entregando as suas dores, seus sofrimentos, suas vontades, aos seus pés. Significa morrer para si mesmo, para os planos e 7 ganâncias desse mundo, e estar dispostos a aprender com a vida do mestre. Quando Jesus usou essas afirmações, ele estava a caminho de Jerusalém, ou seja, estamos falando aqui de alguém que sabe o que é verdadeiramente o significado de carregar uma cruz. A cruz era sinônimo de humilhação e rejeição, só os banidos pela sociedade carregavam uma cruz. 3.3 Quem não renunciar A ideia de renúncia está ligada à disposição de abrir mão, das prioridades mundanas, como riquezas materiais, ambições egoístas e até mesmo laços familiares, em prol de um relacionamento mais profundo com Deus. Essa renúncia representa um compromisso de priorizar os valores espirituais sobre os temporais. Renunciar tudo para seguir a Jesus é um princípio fundamental no ensinamento cristão, refletindo a chamada à entrega total ao serviço divino. Ao longo dos séculos, muitos indivíduos exemplificaram essa renúncia em suas vidas, dedicando-se ao serviço, à caridade e à propagação do Evangelho. O exemplo mais marcante é encontrado nos próprios apóstolos de Jesus, que deixaram suas carreiras, famílias e seguranças para segui-Lo. Esse ato de renúncia não apenas os transformou como indivíduos, mas também impactou profundamente a disseminação da mensagem cristã. A renúncia para seguir a Jesus também traz consigo a promessa de uma vida plena e significativa, enraizada na comunhão com Deus e na participação ativa na construção do Seu Reino na Terra. Jesus, ao falar sobre a renúncia, promete recompensas espirituais e uma vida abundante, sugerindo que o que se perde neste mundo é superado pelo que é ganho na esfera espiritual. Assim, renunciar tudo para seguir a Jesus é um desafio radical, mas também uma jornada de transformação e plenitude espiritual. É uma resposta ao chamado divino para uma vida de fé, serviço e amor, moldada pela convicção de que seguir a Jesus é o caminho para a verdadeira realização e propósito. TEMA 4 – DISCÍPULO – QUEM É ELE AFINAL? No sentido real da palavra, discípulo é um aluno ou seguidor, aquele que se submete aos ensinos de alguém, que trilha o mesmo caminho, que usa das mesmas ideias do seu mestre. Ele procura conhecer, praticar e aplicar o mesmo modo de vida e a filosofia de vida do seu mestre. 8 Solonca (1993, p. 27) descreve o discípulo como alguém “disposto a deixar- se moldar tanto por seus pensamentos quanto por suas ações”. É seguindo essa linha de pensamento, buscando o envolvimento e o desenvolvimento das relações entre si, que os “doze” amigos de Jesus foram um a um sendo convocados, tomados de um espírito profundo de amor, obediência e respeito: “Jesus chamou os doze discípulos e lhes deu poder e autoridade para expulsar todos os demônios e curar doenças. Então os enviou para anunciarem o Reino de Deus e curarem os doentes” (Lucas 9.1,2). Em Mateus 10.2-4, Jesus os chama: “Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, que o traiu”. Esses homens foram ensinados, treinados para alcançar outras pessoas, em conformidade com a ordem de Jesus em Mateus 28.18-20. Ali, Jesus, sabendo que seria a última vez que estaria junto com seus discípulos, deixa a sua ordem final, ordem que implicaria todas as energias de seus seguidores no trabalho a ser realizado dia após dia, por onde andassem: “portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo que eu lhes ordenei”. O mandamento é claro: “vão e façam discípulos”. Isto é, ensinem outras pessoas a obedecer às ordens de Jesus, andem com elas, acompanhem suas vidas, até o amadurecimento de seu caráter, a fim de que sejam capazes de gerar mais seguidores, visando o fortalecimento do corpo de Cristo, a Igreja. 4.1 O que faz um discípulo? 4.1.1 Ele faz uma escolha O discípulo faz uma escolha, que envolve uma disponibilidade para pagar um preço alto, por um objetivo mais alto ainda. Sua escolha o torna uma pessoa voluntária. Tal escolha, em momento algum lembra uma obrigação ou peso, mas com alegria em seu coração deseja seguir seu mestre. Cristo chama e o discípulo simplesmente escolhe segui-lo. 9 4.1.2 Ele visualiza as coisas do alto O discípulo visualiza as coisas do alto e aplica em primeiro lugar na sua vida e depois usa desse mesmo método para atingir e fazer outros discípulos, seus atos são o resultado de um andar corajoso com Cristo, produzindo frutos, multiplicando, compartilhando com persistência a visão de Jesus. O que torna sua missão comprometida com os propósitos do coração do mestre. 4.1.3 Ele segue os passos do mestre Ao contrário da multidãoe dos curiosos que seguiam a Jesus porque desejavam algo que Ele poderia dar, os discípulos escolheram segui-lo movidos pelo amor. Essa relação discípulo/mestre deixava claro o tipo de relacionamento que eles teriam. Ao seguir os passos do mestre, o discípulo deveria se deixar cobrir pela poeira dos seus pés. Essa era a proposta ousada de Jesus, que foi adotada por alguns discípulos relevantes do NT, como Timóteo, por exemplo. Timóteo foi discipulado por Paulo, conforme 2 Tm 3.10,11: “você tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as perseguições e os sofrimentos que enfrentei”. 4.1.4 Ele aceita as instruções Uma das principais características do discípulo é que ele aceita as instruções. Ao fazer isso, ele decide não ditar as regras de como as coisas deveriam funcionar, mas acredita com confiança absoluta nos ensinos de Jesus, como afirma Michael Horton, “o primeiro sinal do discipulado era a aceitação dos ensinos de Jesus a respeito de si mesmo” (Martins, 2017, p. 22). 4.1.5 Ele é comprometido O discípulo está totalmente comprometido com Jesus Cristo, ele foge do legalismo e da religiosidade e tem convicção que o silêncio não é mais uma opção, mas sim mergulhar no discipulado com fé, coragem e obediência. 10 TEMA 5 – DISCÍPULO E MISSÃO Missão é a razão da existência de algo, ou papel desempenhado por alguém. Seguindo um ponto de vista tradicional, há uma tendência de igualar os papéis, quando se fala de: • Missão e evangelismo • Missionários e evangelistas • Missão e programas evangelísticos Esses conceitos foram fixados pelo senso comum como sendo a mesma coisa. Mas Jesus apresenta algumas peculiaridades quando se trata da missão e afirma que ela também é coletiva, mas ao definir a missão, Ele o faz mais de uma vez de maneira individual, para cada um que o chama de Senhor. Stott (2010, p. 27) nos ajuda a entender que “Jesus fez mais do que traçar um paralelo vago entre sua missão e a missão do cristão. Precisa e deliberadamente, ele fez de sua missão um modelo para a nossa, dizendo: ‘assim como o Pai me enviou, eu também vos envio’”. Assim, missão diz respeito ao povo de Deus redimido, que aceita cumprir a ordem de ir e fazer discípulos e tornar Jesus conhecido entre as nações. Essa ordem é encontrada no evangelho de Mateus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” (Mt 28.19,20). 5.1 Teologia de Missões A grande comissão foi a última ordem dada por Jesus Cristo a sua igreja de ir e fazer discípulos. • Atos 1.8 = IDE VOluntário • Atos 8.1 = IDE INvoluntário (foram porque estavam sendo perseguidos, mas enquanto iam, pregaram a Palavra). Conotações da palavra “MISSÃO”: ENVIO: Pai → Filho → Espírito Santo → EU a. Alguém que envia: é superior e tem autoridade para isso; b. Alguém que é enviado em missão: investido de autoridade para realizar algo pelos destinatários ou mesmo pelos próprios enviadores; c. Objeto da missão. 11 Até o século 16, afirma Nascimento (2015), “o termo missão era usado para se referir a doutrina da Trindade. Segundo ela, os jesuítas foram os primeiros a utilizar o termo para se referir à difusão da fé entre pessoas, incluindo protestantes, que não eram membros da Igreja Católica” (Nascimento, 2015, p. 34). As missões do século 16 também foram intrinsecamente ligadas aos interesses políticos e econômicos das potências coloniais europeias. A disseminação do cristianismo frequentemente acompanhava a expansão do poder colonial, e as missões desempenhavam um papel na consolidação do domínio europeu sobre terras recém-descobertas. Os jesuítas, em particular, destacaram- se como uma ordem missionária influente durante esse período (Nascimento, 2015, p. 34). O período colonial foi o grande responsável pelo avanço das missões, mas também por conflitos entre culturas. A imposição de crenças religiosas, práticas culturais e estruturas sociais europeias nem sempre foi bem recebida pelas comunidades locais, resultando em tensões e resistência, tornando o evangelho um instrumento reducionista (Nascimento, 2015, p. 50). 5.2 Contextualização missionária Na obsessão de evangelizar, muitas vezes o outro é tratado como o objeto da missão, numa prática missionária colonialista, reforçada por uma negação da identidade e alteridade do outro. Forte (1991) nos ajuda a entender quem é o outro: o outro é sujeito e nunca será objeto da missão. E sendo o sujeito, ele é passível de um encontro, onde o coração do homem se abre à verdade, e a verdade ao coração do homem (Forte, 1991, p. 12). 5.3 Etnocentrismo missionário De acordo com John Wesley, “A Igreja não muda o mundo ao gerar novos membros, mas muda o mundo ao gerar novos discípulos de Jesus”. Menezes (1999, p. 19) propõe uma definição de etnocentrismo: “é um preconceito que cada sociedade ou cada cultura produz, ao mesmo tempo que procura incutir em seus membros normas e valores peculiares. Se sua maneira de ser e de proceder é a certa, então as outras estão erradas, e as sociedades que as adotam constituem ‘aberrações’”. 12 O etnocentrismo missiológico se manifesta quando uma cultura ou grupo religioso julga as práticas e crenças de outros com base em seus próprios padrões culturais. Este pode ser um obstáculo significativo para a eficácia das missões, pois carrega consigo vários perigos que podem comprometer o propósito fundamental da missão, que é compartilhar a mensagem de amor e alteridade (Menezes, 1999, p. 19). 5.3.1 Perigos 5.3.1.1 Imposição cultural Um dos perigos mais evidentes do etnocentrismo missiológico é a imposição cultural. Quando missionários tentam impor suas próprias tradições, formas de culto e estruturas eclesiásticas sobre uma comunidade diferente, isso não apenas mina a riqueza da diversidade cultural, mas também pode ser percebido como uma forma de colonização cultural. Isso pode levar a resistência e, em última instância, ao fracasso da missão (Nascimento, 2015, p. 7). 5.3.1.2 Falta de sensibilidade cultural Outro perigo é a falta de sensibilidade cultural. O etnocentrismo pode levar a uma compreensão inadequada das práticas locais, crenças e valores, resultando em esforços missionários que não respeitam a identidade cultural da comunidade. Isso pode gerar conflitos, mal-entendidos e uma recepção negativa à mensagem que está sendo compartilhada (Menezes, 1999, p. 19). 5.3.1.3 Marginalização cultural O etnocentrismo missiológico pode contribuir para a marginalização de culturas consideradas “diferentes” ou tidas como inferiores. Isso contradiz a essência da mensagem cristã, que prega a igualdade e o amor para com todos. O desrespeito à diversidade pode criar barreiras, prejudicar relações e perpetuar estereótipos prejudiciais a missão (Meneses, 1999, p. 19). Conforme Menezes (1999, p. 19), “a identificação de um indivíduo com sua sociedade induz à rejeição das outras”. 13 5.4 Ressignificando a missão Para superar esses perigos, é crucial adotar uma abordagem mais inclusiva e contextualizada nas missões: a inculturação. De acordo com Menezes (1999), “missionários católicos foram muito influenciados pela Antropologia para corrigir o tradicional proselitismo que identificava evangelização com destruição radical das culturas diferentes, e adotaram a linha da assim chamada ‘inculturação’” (Menezes, 1999, p. 23). Os missionários precisam dedicar tempo para compreender profundamente a cultura local, ouvir atentamente as histórias e perspectivas dos habitantes, e reconhecer que diferentes contextos exigem abordagens adaptadas, pois a prática de uma missiologia contextual respeita a autonomia e a riqueza cultural dascomunidades locais. Isso promove uma abordagem colaborativa, em que a troca de experiências e aprendizados é valorizada, criando uma base mais sólida para o entendimento e aceitação mútua. Em resumo, ao se libertar de perspectivas exclusivistas, os missionários podem contribuir para a construção de pontes culturais, abrindo espaço para um diálogo autêntico e uma comunicação eficaz da mensagem que desejam compartilhar: As missões não representam o alvo principal da Igreja, a adoração sim. As missões existem porque muitas vezes a adoração foi deixada de lado. Quando esta era se encerrar e os incontáveis milhões de redimidos estiverem perante o trono de Deus, não haverá mais missões. Elas representam uma necessidade temporária, mas a adoração é permanente (John Piper) FINALIZANDO Chegamos ao final desta etapa e vimos que o NT oferece um retrato profundo e abrangente do que significa ser um discípulo de Jesus Cristo. Nos relatos dos Evangelhos e nos ensinamentos dos apóstolos, somos convidados a seguir os passos de Jesus, comprometendo-nos com uma vida de fé, amor e serviço. Ser um discípulo no Novo Testamento implica uma entrega total a Cristo, buscando imitar seu caráter, obedecer a seus ensinamentos e compartilhar seu amor redentor com o mundo ao nosso redor. É um chamado não apenas para uma crença intelectual, mas para uma transformação radical da vida, respeito mútuo e um novo olhar moldado pela graça e pelo poder de Jesus. 14 REFERÊNCIAS BEALE, G. K. Você se torna aquilo que adora: uma teologia bíblica da idolatria. Trad. Marcos Throup. São Paulo: Vida Nova, 2014. COENEN, L.; BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2000. v. 1. CONCORDÂNCIA fiel do Novo Testamento Grego – Português. São José dos Campos: Fiel, 1994. v. 1. FORTE, B. A Teologia, como companhia, memória e profecia: introdução ao sentido e ao método da teologia como história. São Paulo: Paulinas, 1991. KIVITZ, E. R. Talmidim 52: o passo a passo de Jesus em meditações semanais. São Paulo: Mundo Cristão, 2016. MARTINS, Y. Faça discípulos ou morra tentando – o significado, a extensão e o selo do discipulado. Niterói: Concílio, 2017. MENEZES, P. Etnocentrismo e relativismo cultural: algumas reflexões. Revista Synposium, ano 3, n. esp., dez./1999. Disponível em: . Acesso em: 22 fev. 2024. NASCIMENTO, A. Evangelização ou colonização?: o risco de fazer missões sem se importar com o outro. Viçosa: Ultimato, 2015. SOLONCA, P. Manual do discípulo. Florianópolis: Discípulo, 1993. STOTT, J. A missão cristã no mundo moderno. Trad. Meire Portes Santos. Viçosa: Ultimato, 2010. VINE, W. E.; UNGER, M. F.; William Jr., W. Dicionário Vine – o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento. Trad. Luís Aron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. YOUNGBLOOD, R. F. Dicionário ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004.