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DISCIPULADO E EVANGELIZAÇÃO Profª Merlise dos Santos AULA 4 2 INTRODUÇÃO Nesta etapa, vamos tratar de períodos importantes da história da Igreja, no que se refere à evangelização. Vamos relembrar a importância dos períodos como a pré-reforma, que embora menos conhecida do que a Reforma Protestante em si, o período da pré-Reforma foi um momento crucial na história do Cristianismo, marcando o início de uma Era de mudança e reforma na igreja ocidental. Com relação à Reforma Protestante, foi um dos eventos mais significativos na história do Cristianismo, que transformou a compreensão da fé em Cristo, enfatizando a importância das Escrituras e da liberdade religiosa. Entenderemos também um pouco mais sobre a chegada dos colonizadores ao Brasil e suas pretensões de civilizar, explorar e evangelizar o país. O período da pré-Reforma, também conhecido como a Era Pré- Reformista, foi um momento de agitação e fermento religioso na Europa que antecedeu o movimento mais conhecido da Reforma Protestante. Este período, que abrangeu os séculos XIV e XV, viu uma série de vozes críticas dentro da Igreja Católica Romana e movimentos de reforma que pavimentaram o caminho para as mudanças radicais que viriam a seguir. TEMA 1 – PERÍODO DE PRÉ-REFORMA Um dos fatores-chave que contribuíram para o clima pré-reformista foi a crescente insatisfação com a corrupção e o abuso de poder dentro da igreja. Muitos líderes religiosos e intelectuais começaram a questionar as práticas da Igreja, incluindo a venda de indulgências, o nepotismo entre os líderes eclesiásticos e a riqueza excessiva da hierarquia da igreja. Além disso, avanços na educação e na disseminação da informação, como a invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, permitiram que ideias críticas se espalhassem mais rapidamente do que nunca. Isso levou ao aumento da alfabetização e à disseminação de Bíblias em línguas vernáculas, permitindo que as pessoas lessem e interpretassem as Escrituras por si mesmas. Entre os precursores da Reforma estava John Wycliffe, um teólogo e acadêmico inglês que desafiou a autoridade papal e defendeu a tradução da Bíblia para o inglês. Suas ideias influenciaram muitos dos reformadores posteriores, incluindo Martinho Lutero. Wycliffe é frequentemente considerado o 3 "precursor" da Reforma por suas críticas à corrupção da Igreja Católica e sua ênfase na autoridade das Escrituras. Outro líder pré-reformista significativo foi Jan Hus (abordaremos ele em seguida), um teólogo checo que também criticou a corrupção na igreja e defendeu reformas semelhantes às propostas por Wycliffe. Hus foi queimado na fogueira como herege em 1415, mas suas ideias continuaram a inspirar os reformadores posteriores e contribuíram para o clima de insatisfação que culminaria na Reforma Protestante. O período da pré-Reforma estabeleceu as bases para as mudanças radicais que viriam a seguir. As críticas à Igreja Católica, a ênfase na autoridade das Escrituras e a crescente demanda por reformas prepararam o terreno para os eventos que transformariam para sempre o panorama religioso da Europa. 1.1 John Wycliffe John Wycliffe, um teólogo e filósofo inglês do século XIV, destacou-se como uma figura proeminente no cenário religioso e intelectual da Idade Média. Ele foi criado no norte da Inglaterra e educado na Universidade de Oxford, onde concluiu o doutorado em 1372 e ascendeu imediatamente à preeminência como principal professor na universidade (Shelley, 2018, p. 296). Wycliffe questionava de que maneira o direito de governar era transmitido por Deus aos governantes terrenos. Na época, o senhorio só era reconhecido quando derivava da Igreja romana, confiando ao papa o domínio universal sobre todas as pessoas. Wycliffe não concordava com essa visão. Em 1377, o papa condenou os ensinamentos do reformador de Oxford. A Igreja manifestou sua oposição a Wycliffe naquele momento, porém influentes aliados na Inglaterra garantiram que essa condenação jamais fosse além de meras ameaças (Shelley, 2018, p. 296). Sua convicção levou à sua tradução da Bíblia para o inglês, ele liderou alguns estudiosos de Oxford na tradução da Bíblia latina para a língua inglesa e seguindo os métodos de São Francisco e dos frades. Esse feito ampliou o acesso à Palavra de Deus além dos limites dos clérigos e acadêmicos. Conforme Shelley (2018), “Wycliffe antecipa a doutrina de Lutero de justificação somente pela fé, e ambos destroem as barreiras medievais entre Deus e seu povo” (p. 297). A sua morte em 31 de dezembro de 1384 não diminuiu 4 seu legado. Sua tradução da Bíblia para o inglês foi um marco na história da língua inglesa e na disseminação da fé cristã entre o povo comum. Ele é lembrado como um dos precursores da Reforma Protestante e um defensor da liberdade religiosa e da reforma da igreja (Shelley, 2018, p. 301). Apesar de ser considerado herege por muitos de seus contemporâneos, John Wycliffe deixou um impacto duradouro na história da religião e da cultura europeias. 1.2 John Huss Jan Huss, também chamado de John Huss, nascido em Husinetz, na Boêmia (atual República Tcheca), por volta de 1369, estudou na Universidade Carolina em Praga, onde se destacou em seus estudos teológicos. Sua erudição e eloquência rapidamente o elevaram à posição de destaque dentro do cenário acadêmico e eclesiástico da época. Em seus estudos, Huss teve contato com os escritos filosóficos de Wycliffe e, posteriormente, com os escritos religiosos de Wycliffe, que o levou a adotar a visão do reformador inglês a respeito da Igreja como um grupo eleito que tinha em Cristo seu cabeça, não o papa (Shelley, 2018, p. 302). Segundo Shelley (2018), “a capela de Belém, perto da universidade, concedeu a Huss uma oportunidade de transmitir os ensinamentos de Wycliffe, incluindo suas críticas contra os abusos do poder no papado”. Huss denunciou vigorosamente a corrupção clerical, a venda de indulgências e outras questões dentro da hierarquia eclesiástica (Shelley, 2018, p. 302). O desejo de Huss era tornar a Escritura acessível ao povo comum da época. Ele não só pregou em tcheco, mas traduziu partes da liturgia, assim como vários hinos latinos para a língua local. Sua insistência na primazia das Escrituras e na salvação pela fé, em vez de pelas obras, o colocou em rota de colisão com as autoridades. Assim, em 1410 Huss foi excomungado por heresia. Como consequência, um grande tumulto popular eclodiu e Huss fugiu para o sul da Boêmia (Delinger, 2017, s.p.). Conforme Delinger (2017), “em 1414, foi citado para comparecer perante o Concílio de Constança, para responder às acusações de heresia, e lhe foi prometido um retorno seguro do concílio” (S.p.). Ali Huss foi preso e julgado como herege. Por fim, em 6 de julho de 1415, foi condenado à morte na fogueira (Shelley, 2018, p. 304). 5 TEMA 2 – REFORMA PROTESTANTE A Reforma Protestante foi um dos eventos mais significativos na história do Cristianismo, marcando uma ruptura profunda com a autoridade da Igreja Católica Romana e dando origem a diversas tradições e denominações protestantes que moldaram a paisagem religiosa e cultural do mundo ocidental. O movimento da Reforma teve suas raízes no século XVI, quando líderes como Martinho Lutero, João Calvino, Ulrico Zuínglio e outros começaram a questionar as doutrinas e práticas da Igreja Católica da época. 2.1 Martinho Lutero Martinho Lutero era filho de Hans Luder e Margarethe Lindemann, membros da classe média alemã. Seu pai era minerador e desejava que Martinho se tornasse advogado, mas, após uma experiência espiritual durante uma tempestade, o jovem decidiu ingressar na vida monástica. Lutero sentia-se extremamente culpado e pecador, o que o levava ao autoflagelo (Shelley, 2018, p. 310). Porém, “quando foi nomeadopara lecionar o curso de estudos bíblicos na recém-estabelecida Universidade de Wittenberg” (Shelley, 2018, p. 311), na Alemanha, o encontro com as Escrituras transformou sua vida. Lutero agora via com clareza que o homem é salvo apenas pela fé no mérito do sacrifício de Cristo. Ele ensinou que os seres humanos são justificados diante de Deus não pelas suas próprias obras, mas pela fé em Jesus Cristo e no seu sacrifício na cruz. Isso representou uma mudança significativa na compreensão da salvação e do relacionamento entre Deus e os seres humanos. Foi assim que Lutero chegou à sua doutrina da justificação somente pela fé e percebeu como ela conflitava nitidamente com a doutrina da Igreja Romana de justificação que incluía fé e boas obras. As implicações da descoberta de Lutero foram enormes. Na concepção de Lutero, se a salvação vem somente por meio da fé em Cristo, a intercessão dos sacerdotes seria desnecessária, pois, todos os cristãos têm acesso a Deus por meio de Cristo, sem a necessidade de mediação da Igreja de Roma (Shelley, 2018, p. 311). 6 Em 31 de outubro de 1517, Lutero desafiou publicamente a doutrina católica ao afixar suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, marcando o início do movimento reformista, criticando a venda de indulgências e expondo outras questões teológicas e práticas que ele considerava contrárias às Escrituras. A oposição de Lutero à Igreja Católica e sua recusa em se retratar levaram à sua excomunhão em 1521, pelo Papa Leão X, durante a Dieta de Worms. Ele foi então protegido pelo Príncipe Frederico da Saxônia, que o salvou da prisão e da morte, oferecendo a Lutero refúgio em seu Castelo de Wartburg (Shelley, 2018, p. 313). Conforme o autor, Lutero, disfarçado como um nobre de classe inferior chamado cavaleiro Jorge, o reformador permaneceu ali até 1522; durante o período, traduziu o Novo Testamento para o alemão, um importante primeiro passo rumo à reformulação do culto público e privado na Alemanha. (Shelley, 2018, p. 317) Lutero seguiu pregando e produzindo textos, livros e hinos até sua morte, em 18 de fevereiro de 1546. 2.2 As Cinco Solas As Cinco Solas são princípios teológicos fundamentais que resumem as doutrinas centrais da Reforma Protestante. Estas afirmações foram formuladas pelos líderes reformadores, especialmente por Martinho Lutero, e tornaram-se marcos distintivos do movimento protestante. Cada uma das Cinco Solas enfatiza um aspecto essencial da fé cristã, destacando a supremacia de Deus, a autoridade das Escrituras e a centralidade de Cristo na salvação. • Sola Scriptura (Somente a Escritura): este princípio afirma que a Bíblia é a única fonte de autoridade para a fé cristã e prática. Em contraste com a visão católica romana, que reconhecia a autoridade tanto das Escrituras quanto da tradição da igreja, a Reforma defendia que a Palavra de Deus contida na Bíblia era suficiente para orientar a vida e a doutrina cristãs (Oliveira, 2017, p. 22); • Sola Fide (Somente a Fé): este princípio enfatiza que a salvação é pela graça de Deus, recebida somente pela fé em Jesus Cristo, e não pelas obras humanas. Lutero e outros reformadores rejeitaram a ideia de que 7 as boas obras poderiam garantir a salvação, defendendo que é somente pela fé que somos justificados diante de Deus (Perez et al., 2017, p. 50); • Sola Gratia (Somente a Graça): este princípio destaca que a salvação é um dom gratuito de Deus, concedido pela sua graça, e não por mérito humano. A Reforma enfatizou que a iniciativa para a salvação vem inteiramente de Deus e que os seres humanos não podem ganhar ou merecer a salvação por seus próprios esforços (Oliveira, 2017, p. 57); • Solus Christus (Somente Cristo): este princípio proclama que Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os seres humanos, e que Ele é a única fonte de salvação. Os reformadores rejeitaram a ideia de que a igreja, os santos ou qualquer outra pessoa poderiam servir como intermediários entre Deus e os indivíduos, enfatizando que apenas Cristo pode reconciliar os pecadores com Deus (Oliveira, 2017, p. 41); • Soli Deo Gloria (Glória Somente a Deus): este princípio reconhece que toda glória e louvor devem ser dados somente a Deus. A Reforma enfatizou a supremacia de Deus em todas as áreas da vida, ensinando que o propósito final de todas as coisas é a glória de Deus e que todas as nossas ações devem ser realizadas com esse objetivo em mente (Perez et al., 2017, p. 90). Essas Cinco Solas serviram como pilares teológicos essenciais da Reforma Protestante e continuam a ser princípios fundamentais para muitos cristãos protestantes hoje, moldando sua compreensão da fé e influenciando sua prática religiosa. 2.3 Companhia de Jesus Em 1540 a Companhia de Jesus, também conhecida como Ordem dos Jesuítas, foi oficialmente reconhecida pelo Papa Paulo III. Este grupo religioso representou uma das principais forças na tentativa de restaurar a supremacia do catolicismo após os desafios impostos pelo protestantismo (Shelley, 2018, p. 358). Os membros da Companhia de Jesus eram conhecidos como jesuítas e se comprometeram com um rigoroso treinamento espiritual e intelectual, seguindo os Exercícios Espirituais desenvolvidos por Inácio. A missão fundamental da ordem consistia em restabelecer a proeminência espiritual e a 8 influência da Igreja Católica Romana, que havia sido proeminente sob o papado de Inocêncio III, três séculos antes. Todos os esforços dos jesuítas estavam voltados para a recondução da supremacia da Igreja de Roma, uma vez que Inácio sustentava firmemente a crença na exclusividade da presença do Cristo vivo na estrutura institucional da Igreja (Shelley, 2018, p. 358). Em 1545, a cidade de Roma experimentou uma nova fase de rigor. O movimento reformista ganhava força, as obras dos reformadores e as Bíblias protestantes estavam entre os itens proibidos e, na Espanha, durante um longo período, a posse de um desses livros proibidos era punível com a pena de morte (Shelley, 2018, p. 356). O chefe da primeira missão jesuíta mandada para a América foi o padre Manoel da Nóbrega, de 32 anos, membro da Companhia de Jesus desde 1544. Conforme César (2000), ele chegou acompanhada de mais seis jesuítas que desembarcaram na Bahia no dia 29 de março de 1549, na companhia de mais de mil pessoas, entre soldados, funcionários, colonos, artesãos e cerca de 400 criminosos condenados a viver fora de sua terra natal. (César, 2000, p. 27) A influência da Companhia de Jesus foi significativa em áreas como educação, ciência, política e missões globais. Os jesuítas fundaram muitas escolas, universidades e colégios em todo o mundo, desempenhando um papel fundamental no avanço do conhecimento e na formação de líderes religiosos e intelectuais. 2.4 Chegada ao Brasil No quarto dia após a "descoberta", em 26 de abril de 1500, ocorreu a primeira celebração da missa em território brasileiro, conduzida por Dom Henrique Soares de Coimbra. O interesse pela conversão dos indígenas é em parte baseado em uma impressão excessivamente otimista e simplista que existia dos nativos. Nesse evento, os índios auxiliaram no transporte da cruz até o local designado e imitaram os portugueses durante a cerimônia religiosa, seguindo seus gestos de ajoelhar, levantar-se, erguer as mãos para o alto e observar atentamente o celebrante. Nesse tempo, a atenção de Portugal estava voltada à Reforma Protestante na Europa e aos interesses econômicos nas Índias, e embora alguns 9 religiosos franciscanos tenham temporariamente estado presentes antes da chegada efetiva da primeira missão jesuíta em 1549, levou-se 50 anos para que fossem enviados missionários para evangelizar os 1,5 milhão de indígenas, distribuídos em mais de mil etnias que havia no Brasil. Gradualmente, os portugueses perceberamque os nativos habitavam toda a extensão litorânea, desde o Pará até o Rio Grande do Sul, bem como o interior, tanto próximo quanto distante. Observaram também que os indígenas falavam línguas diversas e não compartilhavam a mesma cultura (César, 2000, p. 29). No início do século XVI, o clérigo era basicamente um funcionário eclesiástico, sem necessariamente estar focado na evangelização, catequese ou conversão do povo, já que o sacerdócio era considerado principalmente uma profissão (César, 2000, p. 56). Não havia imprensa nem universidade no Brasil durante os três primeiros séculos de sua história, o que implica na ausência de livros. Isso resultou em um conflito de culturas: europeia, indígena e africana, culminando na fusão das três culturas dominantes, já compostas por diversas misturas anteriores, especialmente entre os africanos. Essa fusão é conhecida como sincretismo cultural e religioso (César, 2000, p. 53). TEMA 3 – PROTESTANTES CHEGAM AO BRASIL Em 1555, apenas 38 anos após a proclamação da Reforma Protestante e seis anos após a chegada dos jesuítas à Bahia, aportou no Brasil uma caravana ecumênica procedente da França. Eram nobres, artesãos, soldados, criminosos e agricultores, alguns católicos e outros protestantes, sob o comando do navegador Nicolau Durant de Víllegaignon, de 45 anos. Os três navios e os 600 tripulantes e passageiros haviam saído de Hâvrede-Grâce no dia 22 de julho de 1555 e chegaram à Baía de Guanabara menos de quatro meses depois, em 10 de novembro (César, 2000, p. 37). 3.1 Primeiros protestantes 10 No dia 7 de março de 1557, um ano e três meses depois da primeira expedição, chegou a segunda leva de franceses: cerca de 300 colonos, católicos e sem religião em sua maioria. Com eles vieram quatorze huguenotes (nome que se dá aos reformados de língua francesa) de Genebra, enviados por João Calvino, a pedido do próprio Villegaignon (César, 2000, p. 38). No dia 10 de março de 1557 o primeiro culto protestante foi realizado. Pierre Richíer pregou em francês sobre o verso 4 do Salmo 27: "Uma coisa pedi ao Senhor, é o que procuro: que eu possa viver na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a bondade do Senhor e buscar sua orientação no seu templo” (César, 2000, p. 38). Conforme César (2000), a cerimônia foi realizada no Forte Coligny, na ilha de Serijipe, hoje Villegaignon, no Rio de Janeiro. Em 21 de março foi organizada a primeira igreja protestante do Brasil e da América do Sul, com a celebração da Santa Ceia à maneira calvinista e com a presença de Villegaígnon. Isto significa que entre a primeira missa católica e a primeira celebração reformada houve um espaço de apenas 57 anos. Em janeiro de 1558, Richier e seus companheiros foram obrigados a voltar para a Europa, após desentendimento doutrinário com Villegaígnon. Como a viagem seria muito difícil, cinco deles se ofereceram para ficar no Brasil. Estes foram condenados à morte como hereges e são considerados os mártires calvinistas do Brasil (César, 2000, p. 38). 3.2 João Ferreira de Almeida João Ferreira de Almeida tinha 16 anos quando traduziu o Novo Testamento para o português, utilizando a versão latina de Teodoro de Beza (1519-1605) (César, 2000, p. 68). Após exercer trabalho missionário no Sri Lanka (antigo Ceilão) e na Índia, Almeida iniciou a tradução completa da Bíblia a partir dos originais hebraico e grego. Inicialmente, a tradução de Almeida tinha como público-alvo os falantes de português no sudeste asiático. No entanto, em 1809, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira começou a publicar a Bíblia de Almeida, tornando-se a primeira Bíblia em português e a 32ª versão completa das Escrituras em línguas modernas após a Reforma (César, 2000, p. 68). 11 A introdução das Escrituras no território brasileiro teve início de maneira discreta no ano de 1814. A partir do ano de 1818, a distribuição de exemplares das Sagradas Escrituras na América Latina foi realizada por representantes das duas principais sociedades bíblicas existentes na época, a Britânica e a Americana. Um marco importante nesse processo foi a atuação do missionário metodista americano Daniel Parish Kidder (1815-1891), que se estabeleceu como correspondente da Sociedade Bíblica Americana no Brasil (César, 2000, p. 69). A versão da Bíblia de João Ferreira de Almeida, após passar por múltiplas revisões, mantém-se como a preferida tanto entre os evangélicos portugueses quanto brasileiros (César, 2000, p. 70). Conforme dados da SBB, a tradução do Antigo Testamento foi concluída em 1694 por Jacobus op den Akker, um pastor holandês que colaborou com Almeida. No entanto, a publicação do texto completo do Antigo Testamento só ocorreu em 1751, enquanto a versão completa da Bíblia em um único volume foi lançada em 1819. A edição de 1898, denominada "Revista e Corrigida", foi lançada na Europa e, posteriormente, no Brasil, durante meados do século XX, o texto de Almeida passou por uma revisão e atualização, resultando na edição conhecida como "Revista e Atualizada". Em setembro de 2013, após uma reunião com representantes das igrejas cristãs brasileiras, foi iniciado o processo de revisão da "Revista e Atualizada", culminando no lançamento da "Nova Almeida Atualizada" em 2017. TEMA 4 – CRONOLOGIA DOS 500 ANOS 4.1 Brasil Colônia Em 22 de abril de 1500, a armada portuguesa liderada por Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. Quatro dias depois, em 26 de abril, Dom Henrique Soares de Coimbra realiza a primeira cerimônia cristã no solo brasileiro. É importante ressaltar que em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero dá início oficial à Reforma Protestante, marcando um período de agitação religiosa na Europa após séculos de supremacia da igreja católica (César, 2000, p. 169). Em resposta à Reforma Protestante, em 1540 a Contrarreforma ganhou impulso com a fundação da Companhia de Jesus, liderada por Inácio de Loyola. 12 Em 1549, desembarcam na Bahia os seis primeiros missionários jesuítas, com eles vêm também o primeiro governador do Brasil, Tomé de Sousa, e o padre Manoel da Nóbrega (César, 2000, p. 170). O primeiro culto presbiteriano acontece em 1557, na ilha de Serijipe, na Baía de Guanabara, seguido pela organização da primeira igreja evangélica do Brasil e da América do Sul. Isto significa que entre a primeira missa católica e a primeira celebração reformada houve um espaço de apenas 57 anos (César, 2000, p. 170). Em 1597 morre o padre José de Anchieta, o renomado missionário jesuíta conhecido como "o apóstolo do Brasil", após 44 anos de trabalho missionário no país (César, 2000, p. 170). De acordo com César (2000), de 1630 até 1654 tropas holandesas ocupam Pernambuco, estabelecendo a Nova Holanda no Nordeste brasileiro. O período áureo do Brasil holandês durou oito anos (1637 – 1644). Coincide com o governo do Conde João Maurício de Nassau-Siegen, membro e frequentador assíduo da Igreja Reformada. Um ano após o seu retorno para a Holanda, o padre André de Soveral e setenta fiéis foram mortos durante uma missa na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, no Rio Grande do Norte. Algumas dessas vítimas foram beatificadas pelo papa João Paulo II mais de 350 anos depois, em março do ano 2000. Em 1654, encerra-se a invasão holandesa após a organização de 22 igrejas reformadas no Nordeste brasileiro (César, 2000, p. 170-171). Em 1810 é assinado o Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra, garantindo liberdade religiosa aos súditos britânicos no Brasil (César, 2000, p. 170-172). 4.2 Brasil Império Em 7 de setembro de 1822, durante uma visita a São Paulo, o príncipe regente Dom Pedro, ao perceber as pressões de Portugal, decide proclamar a Independência do Brasil. Menos de dois meses depois é aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuodo Brasil, com 24 anos de idade. No mesmo ano, inaugura-se no Rio de Janeiro o primeiro templo protestante em solo brasileiro, obedecendo às cláusulas do tratado para evitar conflitos religiosos (César, 2000, p. 172). 13 No dia 25 de março de 1824 é promulgada a Constituição Política do Império do Brasil, que estabelece a religião católica romana como oficial do Império, permitindo outras religiões apenas em cultos domésticos ou particulares, sem manifestação pública de templos. Nesse mesmo ano, começam a chegar ao Brasil as primeiras levas de imigrantes alemães, principalmente luteranos, que se fixam especialmente no Rio Grande do Sul (César, 2000, p. 172). Em 1855 desembarca no Rio de Janeiro o primeiro casal de missionários protestantes, em caráter permanente: Sarah e Robert Kalley. E em 1859, o missionário presbiteriano americano Ashbel Green Símonton chega também ao Rio de Janeiro (César, 2000, p. 173). No da 5 de novembro de 1864, o primeiro jornal protestante do Brasil e da América do Sul, por iniciativa de Ashbel Símonton, começa a circular. Chamado de Imprensa Evangélica, tem o objetivo de alcançar pela palavra escrita os não alcançados pela palavra falada. Além do mais, pretende publicar artigos em defesa de reformas legais necessárias à completa liberdade de culto (César, 2000, p. 173). De acordo com César (2000), “Em 1865, José Manoel da Conceição é ordenado pastor presbiteriano, na cidade de São Paulo, é o primeiro brasileiro a se tornar pastor protestante” (p. 173). Em 1882, chegam a Salvador, Bahia, os primeiros missionários enviados pelos batistas do sul dos Estados Unidos (César, 2000, p. 174). 4.3 Brasil República Em 15 de novembro de 1889, Manuel Deodoro da Fonseca proclama a república brasileira nas primeiras horas da madrugada. Esse evento marca o fim do regime imperial que perdurou por 67 anos. Pedro II, com 64 anos de vida e 49 anos de governo, juntamente com sua família, tem um prazo de 24 horas para deixar o país (César, 2000, p. 175). Em 1910, após frequentar brevemente a Igreja Presbiteriana do Brás, em São Paulo, o italiano Louis Francescon estabelece na capital paulista a Congregação Cristã no Brasil, tornando-a a primeira igreja pentecostal do país (César, 2000, p. 175). 14 No ano de 1911, os missionários suecos Gunnar Vingren, de 32 anos, e Daniel Berg, de 27 anos, fundam em Belém do Pará a primeira Assembleia de Deus do Brasil (César, 2000, p. 175). Em 8 de maio de 1922, o casal suíço Stelle e David Miche chega ao Rio de Janeiro com o objetivo de estabelecer o Exército de Salvação no Brasil. Em 1948, é estabelecida no Rio de Janeiro a Sociedade Bíblica do Brasil, com a finalidade de "promover e intensificar, sem fins lucrativos, a disseminação das Escrituras Sagradas como meio de elevar moral, social e espiritualmente o povo brasileiro" (César, 2000, p. 176). Durante o período entre 1951 e 1962, são fundadas as seguintes igrejas: Igreja do Evangelho Quadrangular do Brasil, Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo e a Igreja Pentecostal Deus é Amor (César, 2000, p. 176). No ano de 1970, em Campinas, São Paulo, dois missionários jesuítas americanos, Harold J. Rahm, com 51 anos, e Edward J. Dougherty, com 29 anos, iniciam a Renovação Carismática Católica no Brasil (César, 2000, p. 177). Em 6 de outubro de 1974, o evangelista Billy Graham conclui a cruzada de evangelização realizada no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, com a participação de aproximadamente 250 mil pessoas (César, 2000, p. 177). TEMA 5 – MULHERES 5.1 Catarina Parr Catarina Parr foi a sexta e última esposa do rei Henrique VIII da Inglaterra, que se encantou com sua beleza não apenas física, mas também intelectual. Nascida por volta de 1512, pouco se sabe sobre sua infância, mas sua vida tomou um rumo significativo quando se tornou a esposa do rei em 1543, após a morte de sua antecessora, Jane Seymour (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 144). Ela desempenhou um papel crucial na reconciliação entre Henrique VIII e suas filhas, Maria e Isabel, provenientes de casamentos anteriores. Seu interesse pela educação das princesas mostrou seu compromisso com o bem- estar da família real e do reino (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 145). Durante seu casamento com Henrique VIII, Catarina enfrentou desafios políticos e religiosos, especialmente devido às mudanças religiosas tumultuadas da época, com a Reforma Protestante ganhando força na Inglaterra. Apesar de sua formação católica e educação humanista, Catarina ao estudar a Bíblia e os 15 escritos teológicos, simpatizou-se cada vez mais com o protestantismo (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 154). Como rainha estava sempre na presença de mulheres eruditas, compartilhando as Escrituras e práticas devocionais. Mantendo também contato com grandes reformadores como Thomas Cranmer e Hugh Latimer, aumentando ainda mais seu entusiasmo pela fé protestante (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 146). A influência protestante da rainha não foi vista com simpatia pelo bispo Gardner e os demais líderes da igreja católica. Apesar do rompimento de Henrique VIII com a igreja católica, ele ainda permanecia confesso e praticante desta religião. O bispo aproveitou isso para influenciar o rei contra Catarina (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 146). Catarina Parr promoveu a distribuição de Bíblias na língua do povo e a publicação de obras sacras, dentre elas a tradução das “Parafrases do Novo Testamento” de Erasmo, que se tornaria um instrumento importante para a consolidação da Reforma durante o governo do rei Eduardo VI. Tornou-se também a primeira rainha inglesa a publicar um livro, Orações e meditações (1545), uma complicação de preces e meditações no estilo clássico (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 148). Em 1545, Catarina promovia encontros diários para pregação em seus aposentos, contando com a presença de mulheres, nobres e líderes reformadores. Esses encontros ficaram conhecidos como “Salão Protestante”. Os encontros não eram secretos, apenas contavam com a indiferença de Henrique VIII em relação a eles (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 148). Como uma mulher de convicções religiosas fortes, Catarina navegou habilmente pelas águas perigosas da política religiosa, mantendo a confiança do rei enquanto protegia suas próprias crenças, apesar das inúmeras tentativas católicas de a prenderem (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 149). Após a morte de Henrique VIII em 1547, Catarina publicou o livro Lamentação de uma pecadora, no qual lamenta a apatia e falta de acesso do povo aos ensinamentos bíblicos e critica os clérigos por contribuírem para isso. Ela defende a autoridade da Bíblia, a doutrina da justificação pela fé e declarou que as boas obras não contam para a salvação. Casou-se com Thomas Seymour, mas morreu em 1548, após dar à luz a sua única filha, Mary Seymour (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 151). 16 De acordo com Almeida e Pinheiro (2021), a rainha Catarina Parr teve grande influência na propagação do protestantismo na Inglaterra, e seu “Salão Protestante” influenciou outras mulheres nobres a transmitirem o legado e os ideais protestantes (Almeida; Pinheiro, 2021, p. 151). 5.2 As Beguinas As Beguinas foi um movimento que floresceu principalmente nos Países Baixos, Bélgica e partes da França, chegando até a Alemanha durante a Idade Média (Almeida, 2022, p. 1365). Começou no final do século XII e atingiu seu auge nos séculos XIII e XIV. As beguinas eram mulheres de diversas origens sociais e econômicas, incluindo viúvas, solteiras e até mesmo algumas casadas, que buscavam viver uma vida piedosa e comunitária, sem se tornarem freiras. Elas não faziam votos religiosos formais, como as freiras, e mantinham a liberdade de deixar a comunidade a qualquer momento para se casar ou seguir outro caminho. Eram mulheres leigas que buscavam viver a sua fépara além dos muros dos conventos e mosteiros (Almeida, 2022, p. 1321). As beguinas viviam juntas em pequenas comunidades conhecidas como beguinarias, que eram frequentemente construídas nas periferias das cidades. As beguinarias eram autossuficientes, com suas próprias capelas, hortas, enfermarias e oficinas. Eram também centros educativos, onde todas as mulheres aprendiam a ler e a escrever e se tornavam independentes (Almeida, 2022, p. 1341). As beguinas trabalhavam como costureiras, tecelãs, enfermeiras e em outras ocupações, sustentando-se e ajudando os pobres da comunidade. Algumas beguinarias se transformavam também em hospitais para dar assistência aos leprosos e doentes, davam trabalho às prostitutas e cuidavam dos órfãos (Almeida, 2022, p. 1355). Uma das características mais marcantes das beguinas era sua ênfase na devoção pessoal e na espiritualidade interior, em contraste com as práticas mais formais e hierárquicas da Igreja Católica da época. De acordo com Almeida (2022), elas eram pobres e se dedicavam à oração, à meditação, ao estudo das Escrituras, buscando uma conexão direta com Deus. Não se tratava de uma 17 nova ordem religiosa, elas não eram monjas e se negavam viver debaixo da autoridade de um sacerdote, pai ou marido (Almeida, 2022, p. 1341). No entanto, o movimento beguino não escapou da perseguição. Algumas beguinas foram acusadas de heresia, especialmente durante os períodos de agitação religiosa na Europa medieval. A Igreja estava preocupada com a independência das beguinas e com a possibilidade de elas propagarem ensinamentos considerados heréticos (Almeida, 2022, p. 1375). Com o tempo, a influência das beguinas diminuiu à medida em que a Igreja reforçava seu controle sobre as práticas religiosas e a sociedade europeia mudava. Muitos beguinários foram fechados durante a Reforma Protestante e a Contrarreforma Católica, o que fez com que muitas se juntassem ao movimento da Reforma Protestante. No entanto, algumas comunidades de beguinas persistiram até o século XX, quando o último beguinário formal foi fechado na Bélgica (Almeida, 2022, p. 1385). Apesar de sua eventual dissolução como um movimento organizado, o legado das beguinas continua a ser lembrado como um exemplo de devoção religiosa, autonomia feminina e busca por uma espiritualidade pessoal dentro do contexto medieval europeu. Suas comunidades representaram uma alternativa importante para as mulheres que desejavam uma vida dedicada a Deus, mas que não se encaixavam nos moldes tradicionais da vida monástica (Almeida, 2022, p. 1311). FINALIZANDO Chegamos ao final desta etapa, e tivemos a oportunidade de rever como a pré-Reforma, a Reforma Protestante e suas consequências tiveram um impacto profundo não apenas na Europa, mas também em todo o mundo, incluindo o Brasil. Esses movimentos históricos moldaram não apenas a paisagem religiosa, mas também influenciaram a cultura, a política e a sociedade de maneiras significativas. Vimos como as mulheres desempenharam papéis significativos durante o período da Reforma Protestante, embora muitas vezes suas contribuições tenham sido obscurecidas ou esquecidas pela história. No entanto, essas mulheres corajosas desempenharam uma variedade de papéis importantes, 18 desde apoiar os líderes reformadores até liderar movimentos de reforma em suas próprias comunidades, a exemplo das Beguinas. Esses movimentos tiveram um impacto duradouro na evangelização, de todo o mundo, incluindo o Brasil. Com a disseminação das ideias da Reforma, surgiu um maior acesso à Bíblia e ao evangelho em línguas vernáculas, o que permitiu uma compreensão mais direta e pessoal da fé cristã. Missões protestantes, influenciadas pelas ênfases da Reforma, foram estabelecidas no Brasil, trazendo uma mensagem de salvação pela fé em Jesus Cristo. 19 REFERÊNCIAS ALMEIDA, R. S. Teólogas da Igreja Medieval – mulheres que iluminaram a espiritualidade na idade das trevas. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2022. ALMEIDA, R. S.; PINHEIRO, J. S. Reformadoras – mulheres que influenciaram a Reforma e ajudaram a mudar a igreja e o mundo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021. CÉSAR, E. M. L. História da evangelização do Brasil: dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000. DELINGER, A. Uma biografia de John Huss. Fiel Ministério, 25 maio 2017. Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2024. OLIVEIRA, L. N. A Reforma Protestante. Uberaba, MG: EBD Comentada, 2017. PEREZ, J. J. et al. Las 5 Solas de la reforma: Sola Scriptura, Solo Christus, Sola Fide, Sola Gratia, Soli Deo Gloria. 2017. SHELLEY, B. L. História do cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã desde as origens até o século XXI. Trad. Giuliana Niedhardt. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018. SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. João Ferreira de Almeida. Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2024.