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REFLUXO GASTROESOFÁGICO Doença do refluxo — representa cerca de 10% de todas as questões de gastroenterologia que caem na prova. E o que geralmente é cobrado, pessoal? Olha só: fisiopatologia, tratamento clínico e exames, esôfago de Barrett, tratamento cirúrgico. Desses temas aqui, o esôfago de Barrett não vai ser falado nessa aula, por isso que ele está pintado em vermelho. A gente tem uma aula aqui no nosso bloco de refluxo só para falar de Barrett. São 30 minutos só para falar de Barrett. Então essa complicação não vai ser abordada na aula de hoje, tá? E o tema que mais cai de todos esses aqui, né, é tratamento clínico e exames complementares para investigação. Então nesse momento, quando for falar de tratamento e exames, eu vou gastar um pouco mais de tempo ali para explicar, entrar nessas nuances para você, porque a maioria das questões vão exatamente nesse ponto: para você entender, saber indicar qual é o tratamento correto, qual a conduta correta, se tem que fazer algum exame complementar ou não. Esse é onde mais tem questão dentro do tema doença do refluxo, tá bom? FISIOPATOLOGIA Então vamos começar logo falando sobre fisiopatologia, pessoal. A doença do refluxo acontece por conta de uma abertura transitória do nosso esfíncter esofagiano inferior. Ou seja, o esfíncter ali é uma área de alta pressão no final do esôfago que funciona como uma válvula antirrefluxo, se abre fora de hora permitindo que o conteúdo gástrico ou gás intestinal suba e vá parar no esôfago. Isso gera sintoma, isso pode gerar lesão, ferida na mucosa, certo? Então essa abertura transitória gera um fluxo retrógrado de conteúdo gastrointestinal para o esôfago. Geralmente esse conteúdo é predominantemente ácido, mas ele também pode ter uma parte fracamente ácida ou alcalina, tá? Como resíduos biliares, suco biliar, enzimas pancreáticas também podem compor esse refluxo, tá? Refluxate é o nome que a gente dá ao material que está voltando, que está indo lá para o esôfago, beleza? Uma coisa que as provas às vezes cobram para você lembrar é o seguinte: o esfíncter inferior do esôfago, para ser considerado normal, ele tem geralmente em torno de 3 a 4 cm de extensão, tá? Ele tem um predomínio abdominal aqui nessa região e, em repouso, ele tem uma pressão entre 10 a 30 mm de mercúrio, beleza galera? Quando a gente fala do esfíncter esofagiano inferior tem que estar muito claro para você que o esfíncter não é uma estrutura anatômica. Porque nós temos lá o esfíncter anal, que é uma musculatura circular que configura realmente, abre e fecha ali uma estrutura específica, bem delimitada. Tem o esfíncter pilórico, tá? A gente tem vários esfíncteres — esfíncter do oddi... O esfíncter esofagiano inferior não é uma estrutura bem delimitada. Na verdade, é muito mais complexo. A gente chama de esfíncter inferior uma região, uma área de alta pressão. E aquela área é formada por diversas estruturas. É como se eu pedisse emprestado aqui várias estruturas que comprimem aquela região e geram uma área de alta pressão. Então elas têm um efeito de válvula antirrefluxo, tá? E a gente dá o nome disso de esfíncter esofagiano inferior, tá? Então esse esfíncter, na verdade, é formado tanto por músculos do esôfago distal, lá no final do esôfago, tá? A musculatura circular interna do finalzinho do esôfago também pega a musculatura oblíqua da região da cárdia, no iniciozinho do estômago, o pilar diafragmático, principalmente ali o pilar direito, e os ligamentos — ligamento frenoesofágico. Então esse conjunto de estruturas aqui que você está vendo é que forma essa área de alta pressão. Vou até colocar uma figura anatômica aqui para você ter uma ideia. Então olha só: o esfíncter é nessa região aqui, ó, onde eu estou pintando de vermelho. Então essa área aqui é uma área que, em repouso, tem entre 10 a 30 mm de mercúrio. Então tem uma alta pressão ali em repouso. Então o que que forma isso? A gente tem aqui a musculatura circular interna do esôfago, a gente tem aqui a musculatura da cárdia, essas fibras sling, que são fibras oblíquas. A gente tem aqui do lado de fora, ó, o que que é isso aqui? O pilar diafragmático direito. E a gente também tem os ligamentos que ligam o esôfago ao pilar diafragmático, certo? Então essas quatro estruturas fazem essa compressão, mais ou menos na altura da junção esôfago-gástrica, tá? Veja que onde eu pintei aqui, ó, essa área de alta pressão é um pouquinho acima da transição entre o epitélio do esôfago e do estômago, um pouco acima da linha da junção esôfago-gástrica — uma área de alta pressão. Qualquer uma dessas estruturas aí — por exemplo, os ligamentos frenoesofágicos — se eles ficam mais frouxos, como acontece na obesidade; se eu tenho um alargamento do pilar direito do diafragma, provocando uma hérnia de hiato; se eu tenho uma fraqueza muscular do esôfago... Então qualquer um desses componentes que se enfraquece, ele deixa de contribuir para essa área de alta pressão e acaba gerando uma fragilidade, uma ruptura desse sistema de válvula antirrefluxo. E a gente poderia ter, então, o refluxo gastroesofágico acontecendo, tá certo? Geralmente não é uma abertura fixa — ela fica abrindo fora de hora, né? Como aquela área de alta pressão é meio frágil, às vezes ela abre, né? A pressão cai e aí sobe o material do estômago lá na direção do esôfago, tá certo? SINTOMATOLOGIA E quando isso acontece, nós temos sintomas típicos, chamados sintomas esofágicos. A pirose é o principal deles, mas também pode estar acompanhada da regurgitação. Então pirose e regurgitação são os dois sintomas típicos, sintomas clássicos que definem a doença do refluxo. Se você estiver numa prova e encontrar esses sintomas, imediatamente você tem que considerar que o provável diagnóstico é a doença do refluxo. Então: pirose — queimação retroesternal ascendente no sentido cranial — e regurgitação — a sensação do conteúdo gastrointestinal chegando na cavidade oral, tá? Seriam esses os sintomas chamados típicos, pessoal. Eles têm entre 67 e 70% de acurácia diagnóstica para a doença do refluxo. Ou seja, só por ter esses sintomas, o paciente já provavelmente é portador da doença do refluxo. Mas, obviamente, você tem que considerar também outras coisas ali para esse diagnóstico, tá? Além dos sintomas atípicos, a gente também pode ter os chamados sintomas atípicos ou sintomas extraesofágicos. São sintomas, galera, que representam ou a presença do ácido acima do esôfago ou sintomas reflexos por estimulação de nociceptores, receptores de dor, sintomas reflexos que podem atingir ali as vias respiratórias, o coração... Então dá uma olhada: a gente chama aí a tosse, rouquidão e o pigarro como os principais sintomas atípicos, certo? Mas também tem pneumonia, asma e dor torácica não cardíaca, certo? Então eu possoter esses sintomas associados aos sintomas típicos em até 30% dos casos na doença do refluxo. E, em alguns casos, os sintomas extraesofágicos ou sintomas atípicos podem ser uma manifestação isolada da doença do refluxo. Isso acontece em até 10% das vezes. Então, em até 10% dos pacientes, eles podem ter apenas a tosse crônica como manifestação da doença do refluxo. Isso é questionável. A gente tem que investigar bastante, porque pode ser uma alergia, pode ser um gotejamento pós-nasal, pode ser uma sinusopatia crônica. Mas, em 10% das vezes, quando você investiga, você percebe que apenas o refluxo é que deve estar provocando aquilo, tá certo? Então são sintomas atípicos. FATORES DE RISCO Agora vamos falar um pouco sobre os principais fatores de risco, condições que facilitam, que favorecem a doença do refluxo, tá? O principal deles é a obesidade. O principal. Você vai ver na maioria das questões de prova que a obesidade é o fator mais associado à doença do refluxo. Mas depois dele, também tem o tabagismo, a presença da hérnia de hiato tipo 1. Por quê? Veja: na hérnia de hiato eu tenho uma subida da junção esofagogástrica, que se desloca na direção do tórax. Se eu faço isso, eu perco aquela área de pressão, eu comprometo a válvula antirrefluxo. Então hérnia de hiato tipo 1 favorece, facilita o refluxo. Gastroparesia: se eu tenho um estômago lá que está demorando mais para se esvaziar, aquele conteúdo gástrico vai subir, vai parar no esôfago. Alguns medicamentos, principalmente bloqueadores de canal de cálcio, também anti-hipertensivos, nitratos, nitritos, podem relaxar a musculatura esofágica e provocar o refluxo. Esclerodermia é uma doença que pode estar associada a um refluxo extremamente grave. Ela provoca uma hipotonia do esfíncter inferior do esôfago. Tá beleza? Então galera, esses fatores de risco você vai ter que identificar. Fica de olho, porque se tem uma questão de prova onde o paciente tem pirose, regurgitação, tosse crônica, tem obesidade, tem diabetes, aí você fala: poxa, esse paciente tem doença do refluxo. Provavelmente é o caso. Beleza? Vamos lembrar por que que a hérnia de hiato, então, provoca o refluxo? Olha só: nós acabamos de falar aqui lá atrás sobre essas estruturas. A junção esofagogástrica fica mais ou menos no nível dos pilares diafragmáticos. Se eu tenho um alargamento desse pilar diafragmático e a junção esofagogástrica sobe, vai lá na direção do tórax, eu estou deslocando essa área aqui para cima. E eu perco esse componente estrutural das pressões. Então vai cair bastante a pressão, vai abrir a minha válvula antirrefluxo, tá? Então eu tenho uma distância entre a junção esofagogástrica e os pilares diafragmáticos aqui. Isso aqui é o que eu chamo de hérnia. Eu preciso ter essa distância, pelo menos 2 cm, para ser uma hérnia de hiato do tipo 1, que é a hérnia por deslizamento, tá certo? Essa hérnia está muito associada à doença do refluxo. É obrigatório ter hérnia para ter refluxo? Não. Todo mundo que tem hérnia vai ter refluxo? Também não. Mas, se eu tenho uma hérnia tipo 1, a minha probabilidade, a minha facilidade, o meu favorecimento para ter refluxo é bem mais alto, tá bom? Então vamos lá, vamos resolver aqui agora uma questãozinha. Doença do refluxo acomete 10 a 23% da população — verdade, pessoal. E essa estatística se reproduz aqui no Brasil: 10 até 25% da população brasileira tem algum grau de refluxo, tá? E a morbidade, ou seja, a presença de complicações, pode atingir 15%. No seu quadro clínico podem ter sintomas típicos, sintomas atípicos e diferentes fenótipos. QUESTÃO DE PROVA Aí, pergunta para a gente: qual desses aqui é um sintoma atípico da doença do refluxo? Vamos riscar pirose e regurgitação, que são típicos. Sialorreia não é nem típico nem atípico, não é um sintoma esperado que costuma acompanhar a doença do refluxo. Agora, rouquidão, assim como a tosse, pigarro, globo faríngeo, são sintomas aqui, ó, das vias aéreas superiores que podem ser sintomas atípicos associados à doença do refluxo, tá certo? Em 10% das vezes pode ser o único sintoma. Em 30% das vezes, eles estão associados aos sintomas típicos. Beleza? SINTOMAS E TRATAMENTO Então vamos continuar. Agora a gente vai entrar naquela parte que é a mais importante: que é como é que eu vou manejar essa doença? Quando que eu trato direto ou quando que eu indico exames complementares? Então grava isso aqui, galera. Isso aqui é muito importante. E os principais guidelines americanos — do Colégio Americano de Gastroenterologia, Associação Americana de Gastroenterologia, Harrison, Sabiston — todos vêm dessa forma. Entretanto, eu preciso te dizer: a FBG, que é a Federação Brasileira de Gastro, ela quer te induzir mais a já começar o manejo da doença do refluxo pedindo exame complementar logo de início, tá? Mas até ela admite que, se um paciente é muito jovem, se ele não tem sinal de alarme e nunca foi tratado, você até poderia selecionar alguns casos ali para começar um tratamento empírico. Mas eu digo para você: o raciocínio que você tem que ter na prova é exatamente esse que eu vou te trazer. Se o paciente tem menos de 50 anos de idade Ele é jovem, ele tem sintomas típicos, predominantemente como pirose ou regurgitação, podendo ou não ter associação com sintomas atípicos, tá? E não, nunca tratou previamente, é a primeira vez que você está abordando esse paciente. Ele não precisa de nenhum exame complementar. Você pode fazer uma terapia empírica inicial apenas com medicamento e alteração dos hábitos comportamentais, tá? E aqui vem uma mudança proposta pelo novo guideline brasileiro. A gente sempre começou a terapia empírica com o inibidor da bomba de prótons: omeprazol, pantoprazol, esomeprazol. Isso continua, mas agora o consenso assume que a gente pode usar também uma outra medicação como primeira linha de tratamento, que são os bloqueadores ácidos seletivos de potássio. Uma classe nova, uma classe que é superior aos IBPs. O bloqueio ácido é mais potente. Então você poderia ou usar um IBP ou usar um bloqueador ácido seletivo de potássio, chamado de PCAB, tá? A única droga disponível no mercado brasileiro é a vonoprazana. Então você pode usar um IBP por 4 a 8 semanas ou pode usar a vonoprazana na dose de 4 semanas. Um ou outro, tá? Ah, qual que é o melhor nesse caso aqui? Tanto faz, tá? Os consensos atuais, os estudos só mostraram que eles são equivalentes. Você pode começar por um ou por outro. A diferença é que a vonoprazana é 10 vezes mais cara do que os inibidores da bomba de prótons. Então, se não faz tanta diferença, a gente tem preferido, na prática, usar os inibidores da bomba de prótons e fazer a vonoprazana só em casos mais graves, tá? Ou em casos que não teve uma boa resposta inicial, e vocêquer trocar a classe da medicação, tá certo? De qualquer forma, o recado é: paciente muito jovem, abaixo de 50 anos, com predomínio de sintoma típico, podendo ou não ter atípico, que nunca foi tratado anteriormente, você não precisa pedir de cara nenhum exame. Começa pela terapia empírica, podendo ser o IBP ou PCAB. Tem diferença entre IBPs? Pequena, tá. Então os estudos mostram que não faz tanta diferença assim entre um IBP e outro. Ah, eu quero começar com omeprazol. Não, eu prefiro o pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol. Não faz muita diferença. Para a prova, eles são iguais. O que você tem que estar atento é o paciente usar 30 a 60 minutos antes da refeição. Ou seja, tem que tomar em jejum, tá? E ficar ali 30 a 60 minutos antes de se alimentar. A única exceção seria o dexlansoprazol, que é um inibidor de bomba de prótons novo, que tem dois picos de ação: uma absorção ali logo no duodeno e outro no íleo terminal. Então você poderia usar o dexlansoprazol mesmo fora do jejum. Mas eu nunca vi ser cobrado em prova até aqui, então a gente vai decorar que os IBPs são todos iguais e tem que manter ali o jejum para fazê-lo, tá certo? Quatro a oito semanas é o pecado certo.Galera, quais as medidas comportamentais importantes você tem que lembrar? Se o paciente tem sobrepeso: perder peso, emagrecer, praticar atividade física. Se ele fuma: interromper o tabagismo. Outras medidas que são até um pouco controversas, mas são sempre cobradas na prova — e os guidelines confirmam —: elevar a cabeceira da cama, evitar o decúbito lateral direito (então, tem mais associação de sintoma quando o indivíduo deita do lado direito), certo? Evitar alimentos logo antes de deitar — então dar pelo menos duas horas de intervalo entre a última refeição e o ato de se deitar, certo? Evitar álcool. Evitar alimentos deflagradores.O que é isso aí? Antigamente a gente tinha uma lista, como se fosse uma receita de bolo: evitar gordura, fritura, chocolate, pimenta, condimentos e tal. Isso é controverso. Não teve nenhum grande estudo mostrando que realmente uma classe ou outra de alimentos tinha que ser proibida. Isso é individual. Então você tem que individualizar, tem que ver com aquele paciente que alimentos deflagram o sintoma nele, e esse grupo ele tem que evitar, tá? Em geral, as gorduras, frituras e temperos excessivos são campeões aí dos pacientes reclamarem. Mas, no guideline, hoje em dia a gente é estimulado a descobrir junto com o paciente quais são os alimentos que mais provocam sintoma nele e passar a evitar a partir daí. Beleza? Vamos lembrar aqui de uma coisa: procinéticos como domperidona, metoclopramida, motilium, digesan — esses medicamentos não são Indicados para a doença do refluxo. Há 10, 15 anos atrás eram, mas não são mais, porque não mostraram nenhum benefício no tratamento da doença do refluxo. Não ajuda a diminuir sintoma, nem ajuda a cicatrizar a mucosa. Só tem uma situação onde a gente usa esses medicamentos atualmente: é se o paciente também tiver sintomas de dispepsia. Então, se o meu paciente com refluxo tem plenitude, distensão abdominal, empachamento, saciedade precoce — ou seja, além dos sintomas da doença do refluxo (pirose, regurgitação), ele também tem sintomas dispépticos semelhantes à gastroparesia —, aí tem indicação dessas medicações. Mas só para os sintomas do refluxo, para cicatrizar a mucosa, para ter alívio da pirose, não são indicados, tá certo? E os bloqueadores H2 — famotidina, cimetidina — são indicados, mas são muito inferiores aos IBPs e ao PCAB. Então eles não estão nem na segunda linha de tratamento ali, tá certo. É só realmente para aqueles pacientes que não toleram IBP, não toleram PCAB, não toleram nada. Aí você poderia usar os bloqueadores H2. Então eles são medicamentos de segunda linha, tá? Se quiser que eu continue com outras partes ou revise com foco gramatical mais profundo (coerência, clareza, formalidade), posso também. Certo. Agora, pessoal, naqueles pacientes que têm sintomas esofágicos crônicos, com mais de 50 anos de idade, que fizeram lá uma terapia empírica com IBP ou PCAB e não tiveram boa resposta, ou então toda vez que suspendem o remédio voltam a ter sintoma, ele é mais difícil, mais desafiador, fica dependente da medicação. Naqueles que têm predomínio só de sintoma extraesofágico — então o paciente não tem pirose, regurgitação, ele só tem pigarro, tosse crônica, globo faríngeo, dor torácica não cardíaca, certo? — ou naquele que tem sinal de alarme, por exemplo: disfagia, impactação, anemia, sangramento, perda de peso, vômitos de repetição — esses pacientes aqui têm indicação para investigação complementar. Então, se tiver nesse cenário aí, você até pode começar o inibidor da bomba de prótons, mas tem que ir lá e fazer endoscopia digestiva num primeiro momento, tá certo? Então você tem que investigar esses pacientes que estão nessas condições aqui, certo? INVESTIGAÇÃO COMPLEMENTAR Como eu já dei o spoiler, o primeiro exame que a gente pede na investigação complementar é a endoscopia digestiva alta. Ah, professor, mas eu li que a endoscopia não detecta o refluxo. E é verdade: endoscopia não detecta refluxo. O objetivo aqui é a gente, primeiro, investigar se há alguma lesão na mucosa, se há alguma complicação do refluxo que me ajude a confirmar o diagnóstico. Por exemplo: você entra lá na endoscopia e o paciente tem esofagite grau C, grau D, tem epitélio de Barrett, tem estenose péptica... Cara, esse paciente eu não preciso investigar mais. Ele realmente tem refluxo. Mas é um refluxo desafiador, um refluxo com comorbidade, um refluxo com complicação, tá certo? Mas eu consegui dar o diagnóstico. Outro objetivo da endoscopia é fazer diagnóstico diferencial. Eu entrei lá e tem aspecto de esofagite eosinofílica, avaliar se já há alguma complicação do refluxo que vai me ajudar a confirmar o diagnóstico ou afastar outros diagnósticos diferenciais. Caso a endoscopia não seja esclarecedora, eu vou continuar na dúvida. Tá normal a endoscopia? Aí eu vou para o exame chamado padrão-ouro, que é a pHmetria de 24 horas. É a monitorização ambulatorial da acidez do esôfago, certo? Então, a pHmetria é o padrão-ouro. É ela que crava o diagnóstico do refluxo. Mas eu só uso a pHmetria quando há dúvida diagnóstica e eu preciso confirmar, tá certo? Falar rapidamente aqui sobre a endoscopia: a endoscopia, galera, me ajuda a investigar as três principais complicações do refluxo. Quais são? A mais comum é esofagite — solução de continuidade, ferida na mucosa. Um quarto (25%) dos pacientes com doença do refluxo podem ter esofagite. A endoscopia vai mostrar isso, tá? Estenose péptica também vai mostrar, e esôfago de Barrett — aquela substituição do epitélio escamoso do esôfago por epitélio colunar. Endoscopia+ biópsia. Então ela é capaz de detectar isso. E vamos lembrar: eu posso ter alterações em até 40% dos pacientes com doença do refluxo. Entretanto, os outros 60% de quem tem refluxo não vão ter nenhuma alteração na endoscopia. Então 60% dos pacientes com refluxo não têm complicações — é a doença do refluxo não erosiva. Ou seja: se a endoscopia vier normal, não descarta refluxo, porque a maioria dos pacientes tem endoscopia normal, entendeu? Trouxe até uma foto aqui para você ver imagens endoscópicas. Olha essa imagem aqui: é uma imagem de esofagite, ferida no esôfago. Então, se eu encontro essa imagem — esofagite ali grau C — eu já confirmo que aquilo provavelmente é refluxo. E se eu vejo aqui um esôfago de Barrett, uma área de metaplasia colunar, projeções digitiformes, também vão favorecer o meu diagnóstico, tá certo? E a endoscopia também vai avaliar esofagites não pépticas, como esofagite infecciosa, e também vai avaliar a presença de tumores no esôfago. Por isso que é o primeiro exame que eu peço. Beleza? Quando ela não for esclarecedora, aí eu vou fazer a monitorização do pH do esôfago, através da pHmetria de 24 horas. O paciente vai passar uma sonda no esôfago, vai para casa com aquela sonda. É uma sonda toda fenestrada, capaz de detectar alterações de pH, tá? Uma coisa muito importante, galera: todos os consensos novos dizem isso. Atualmente, o padrão ouro mais moderno, mais atualizado, não é mais a pHmetria, tá? A pHmetria só detecta refluxo ácido. Ela não é capaz de detectar um refluxo alcalino ou fracamente ácido, certo? Ah, mas 90% da doença do refluxo é ácida. Beleza. Por isso que, aqui no Brasil, a gente ainda usa a pHmetria antiga — a pHmetria de 24 horas, mais simples. Por quê? Porque a gente sabe que 90% dos refluxos são ácidos, certo. Então a gente usa a pHmetria ainda no Brasil por isso. E a gente usa lá o score de DeMeester, tá? O score de DeMeester é um cálculo onde ele pega todos os parâmetros avaliados na pHmetria, joga numa conta que você não precisa decorar. E toda vez que esse número está maior do que 14,72, quer dizer que tem alta probabilidade de ser uma doença do refluxo, beleza? Mas o novo padrão-ouro é uma associação da pHmetria com a impedanciometria. A gente chama de impedâncio-pHmetria ou pHmetria com impedância. Através desse exame, a gente é tanto capaz de avaliar o refluxo ácido quanto o refluxo não ácido. Por isso ele é mais completo, tá? Ele consegue detectar diferença de resistência do tecido, consegue ver qualquer coisa que esteja voltando — seja sólido, seja líquido, seja gasoso, inclusive. E, associado ao pH, a gente consegue ver: se aquela substância que está voltando for ácida, o pH detecta. Mas, se o pH não detectar, a gente estima que aquela substância provavelmente é alcalina. Então, a impedâncio- pHmetria é o novo padrão-ouro. Mas, na prova, o que você vai ver? Provavelmente, eles não vão colocar "pHmetria com impedância". O pH — qualquer uma das duas que aparecer — é o padrão-ouro da tua prova, tá certo? Porque hoje em dia eles ainda cobram muito a pHmetria, porque é o que mais a gente usa no Brasil, beleza galera? INDICAÇÕES CIRÚRGICAS E agora vamos dizer quando que a gente indica que esse paciente com doença do refluxo não tem mais condições de ser tratado clinicamente e vai pra cirurgia, tá? Tem indicação para tratamento cirúrgico. Quem é esse paciente? Primeiro: aquele que a gente chama de doença do refluxo refratária, aquela doença do refluxo que não respondeu ao tratamento clínico ou que é dependente do tratamento clínico — ele não consegue ficar sem o remédio. Isso aqui é uma confusão muito grande que as pessoas fazem. "Ah, ele tomou lá o pantoprazol e ficou sem sintoma, mas toda vez que para, volta a ter ferida no esôfago, volta a ter sintoma." Ele é dependente do remédio, e às vezes precisa tomar o remédio em dose dobrada. Cara, isso é falência de tratamento clínico. Por quê? Porque o ideal é ele usar oito semanas do remédio, parar de tomar as oito semanas e manter com o tratamento não farmacológico, usando os inibidores de bomba ou PCAB só sob demanda. Ah, vai comer uma coisa mais gordurosa e tal, vai fazer um exagero alimentar naquele dia, ele usa. Ou, quando tem sintoma, usa SOS e vai mantendo dessa forma. Se ele é dependente da medicação em alta dose e, mesmo assim, ainda tem esofagite, ainda tem ferida, a gente chama isso de falência do tratamento clínico, tá certo? Então, as duas situações de falência de tratamento clínico que têm melhor benefício em ser operado são: 1. Quando é aquele paciente que tem esofagite grave, principalmente esofagite grau C e D de Los Angeles. Esse é o que tem melhor resposta à cirurgia. 2. Também aqueles pacientes com hérnia de hiato maior do que 5 cm sintomática. Isso é importante dizer: Ah, uma hérnia de 6 cm. Vamos operar? Ela é sintomática? Esse paciente com hérnia de 6 cm vive com queimação, com azia, com ferida no esôfago? Não? Não tem sintoma nenhum? Então não é cirúrgico. Aqui eu tô falando do refratário clinicamente, tem uma hérnia volumosa e tá sempre sintomático. Aí ele tem indicação para o tratamento cirúrgico. E geralmente são os pacientes que têm melhor resposta ao tratamento cirúrgico, são esses aqui. Aquele que não tem ferida no esôfago, tá? Aquele paciente com doença do refluxo não erosiva, ele geralmente responde pior do que o que tem esofagite erosiva. Por quê? Porque aquele que não tem erosão pode estar com sintoma por outros motivos — ele pode ter uma hipersensibilidade visceral, ele pode ter uma pirose funcional, ou seja, os sintomas dele podem ter participação de estresse, ansiedade, depressão... Podem ser sintomas sobrepujados, que não são necessariamente pela presença do ácido. Agora, o que tem ferida, não. Esse eu posso te garantir: o fator central do sintoma dele é a acidez no esôfago. Por isso, ele responde melhor, tá? Então, a presença de ferida no esôfago é um ótimo preditor de resposta cirúrgica. Outras indicações são: aqueles indivíduos que têm eventos adversos ou intolerância ao tratamento medicamentoso. Ele usa IBP, ele tem cefaleia, ele tem dor abdominal, ele tem diarreia crônica toda vez que usa IBP, tá? Ou ele tem esses mesmos sintomas com PCAB. Hoje, como a gente tem a vonoprazana — que é o PCAB — como uma alternativa, então pode ser que ele tenha se dado mal com IBP, com sintoma adverso, mas a vonoprazana ele vai tolerar maravilhosamente. Pode ser que isso aconteça, então talvez essa indicação aqui vá diminuindo com o tempo. Outra indicação é aquele indivíduo dependente, que já usa há 5, 6, 7 anos e não quer mais saber de remédio. "Olha, eu quero tentar uma alternativa terapêutica que não precise de remédio." Então, aquelesque têm o desejo de descontinuar a terapia farmacológica também são uma indicação para tratamento cirúrgico. E aqui: questão de prova, galera! Se o paciente, com o IBP, ele consegue suprimir o sintoma, tá? Ou aquele paciente que tem esofagite grave — esses são os dois maiores preditores de sucesso ao tratamento cirúrgico. Eu já até adiantei isso pra você lá no primeiro item, né? Então, aquele paciente que teve uma boa resposta ao IBP — significa que, quando você suprime o ácido, ele fica bem — então ele também vai ficar bem com a cirurgia. Aquele indivíduo que tem ferida — é uma forma de mostrar que o ácido, de fato, é o fator central do problema dele. Então, ter esofagite erosiva e ter boa resposta ao inibidor de bomba são os melhores fatores de bom prognóstico de boa resposta ao tratamento cirúrgico, tá certo? Vamos dar uma olhada aqui agora numa questão de prova que vai ser um spoiler do próximo tema. Olha só: Qual é o exame obrigatório na avaliação pré-operatória da cirurgia de refluxo? E qual a justificativa do mesmo? Ou seja, agora eu quero indicar o paciente para a cirurgia — ele é refratário ao tratamento clínico — o que que eu preciso necessariamente pedir de exame? • É a endoscopia? • É a pHmetria de 24 horas? • É um esofagograma baritado? E aqui vem o conceito, tá? Se eu estou indicando o meu paciente para cirurgia, se eu falo: "Olha, você é cirúrgico" ...é porque eu já fiz isso tudo! Porque a cirurgia é no refratário clinicamente. Então eu já investiguei esse paciente, ele já passou pelos exames de investigação complementar diagnóstica. Agora eu quero um exame que vai servir só como pré-operatório, é para eu programar qual é a técnica cirúrgica que eu vou usar nesse paciente. Nesse caso, o exame é a manometria. A manometria é o exame que vai indicar qual é a técnica cirúrgica. Vou te explicar isso agora. Qual é a cirurgia que a gente faz para tratar doença do refluxo? É a chamada fundoplicatura, tá? Então eu vou descolar os vasos aqui do fundo gástrico, tá? Ah, e vou pegar esse fundo gástrico e fazer um nó de gravata ao redor do esôfago, tá? Então eu vou fazer uma nova válvula, vou fazer uma nova área de pressão no final do esôfago, tá? E a cirurgia primeira que foi descrita e que tem melhores resultados é uma fundoplicatura completa. Eu pego o fundo gástrico e dou uma volta de 360º ao redor da cárdia, ao redor ali do finalzinho do esôfago. Por isso é a fundoplicatura à Nissen, ou fundoplicatura 360º, tá certo? Entretanto, tem algumas situações onde esse paciente portador da doença do refluxo já pode ter um déficit de contratilidade — o esôfago dele já não se contrai tão bem. E pessoal, a doença do refluxo pode ter essa complicação. Se o indivíduo tem uma exposição ácida crônica, tem muito ácido chegando no esôfago dele há muito tempo, ele pode ter uma deficiência já de contratilidade — o esôfago não contrai tão bem. Agora imagina: se aquele esôfago não está contraindo direito, tem uma hipocontratilidade, e eu vou lá e crio uma nova válvula antirrefluxo ali, o alimento não vai conseguir mais descer, porque ele não tem força de contração para vencer essa nova válvula que eu estou criando ali no final do esôfago. Por isso, se o indivíduo tiver deficiência de contratilidade, ele vai ter que fazer uma fundoplicatura parcial, como por exemplo a parcial anterior à Dor, que é uma fundoplicatura de 180º — só vou dar meia volta, tá? Mas tem outras anteriores: eu posso fazer a anterior à Belsey, que é uma fundoplicatura entre 240º e 270º, pouquíssimo usada hoje em dia. E tem as fundoplicaturas posteriores, onde eu vou dar a volta por trás, ó, tá vendo? Tem a fundoplicatura à Toupet, que é 270º, e tem a posterior à Guarner, que é 240º, tá? A mais usada acaba sendo a Toupet hoje em dia, tá? Então quando que eu vou usar isso? Quando o paciente tiver um déficit de contratilidade. AVALIAÇÃO PRÉ-OPERATÓRIA Então, a manometria é obrigatória no pré-operatório da cirurgia antirrefluxo, que é esse exame aqui, ó. A manometria serve para afastar distúrbios motores e para planejamento cirúrgico. Então eu vou conseguir botar uma sonda no esôfago e avaliar se a peristalse está ok, como é que está o relaxamento dos meus esfíncteres, como está a força de contração. E toda vez que eu tiver ausência de hipomotilidade — ou seja, o esôfago está contraindo perfeitamente, tá? A parte motora está normal — eu vou fazer uma fundoplicatura total, ou fundoplicatura à Nissen 360º. Toda vez que tiver uma hipocontratilidade — tá? O esôfago está contraindo menos de 60% do esperado — então ele não vai conseguir romper uma fundoplicatura total, uma válvula completa. Aí eu tenho que optar por uma fundoplicatura parcial apenas, tá certo? Vamos lembrar aqui de complicações da fundoplicatura. No momento da cirurgia, as principais complicações são pneumotórax e sangramento por manipulação. Aquela área está próxima do diafragma, próxima da pleura, tá? Pós-operatórias: • Disfagia • Síndrome da bolha gasosa A disfagia acontece justamente porque eu vou ter um paciente que — se eu fizer uma fundoplicatura sem ter programado a manometria antes — pode ter uma disfagia no pós-operatório tardio. Síndrome da bolha gasosa: aquele paciente que não consegue eructar. Agora ele tem uma válvula fixa que o cirurgião confeccionou. Ele tem aquela sensação de eructação presa, não consegue eliminar o ar, e isso pode ser desconfortável para o paciente. A gente tem que fazer um ajuste dietético para reduzir esses sintomas aí, tá bom? Então tem questão de prova sobre isso, perguntando quais são as principais complicações intra e pós-operatórias, beleza? Ainda no tema tratamento cirúrgico, eu quero trazer aqui um tópico fundamental que é: Doença do refluxo e obesidade. A obesidade, como eu falei no início da aula, é um dos principais — senão o principal — fator de risco da doença do refluxo, certo? Toda vez que um paciente com doença do refluxo tiver indicação cirúrgica para cirurgia bariátrica para tratar obesidade, a gente tem uma técnica específica que a gente indica — questão de prova, galera, tá? Mas antes de falar da técnica, eu quero te lembrar das indicações para cirurgia bariátrica conforme a OMS, validadas pelo Conselho Federal de Medicina aqui no Brasil: • Qualquer indivíduo com IMC maior ou igual a 40 já tem indicação cirúrgica, tá? Já vai fazer uma cirurgia para tratamento da obesidade — cirurgia bariátrica. • Entre 35 e 39,9, tá? Esse indivíduo tem indicação para cirurgia bariátrica desde que ele tenha comorbidades associadas à obesidade. • Atualmente — desde 2017, 2018 — o CFM já autoriza que entre 30 e 35 (obesidade grau I), eu já posso oferecer cirurgia bariátrica, que agente chama de cirurgia metabólica, naqueles pacientes que tiverem diabetes tipo 2 descontrolado há mais de 2 anos, tá? Então essa é uma indicação relativamente recente. Beleza? Esses pacientes aqui vão ter indicação para a técnica de gastroplastia em Y de Roux, que é o bypass gástrico. Então, se o paciente tem doença do refluxo com indicação de cirurgia bariátrica, você não vai fazer o sleeve, que é a gastroplastia vertical, gastrectomia vertical. Você vai fazer o bypass gástrico em Y de Roux, porque o bypass gástrico em Y de Roux até reduz a doença do refluxo dele, mas o sleeve aumenta, piora a doença do refluxo. Decora isso pelo amor de Deus! E aqui eu aproveito para trazer algumas comorbidades: Se o indivíduo tiver ali entre 35 e 39,9 e tiver: • Doença arterial coronariana • Apneia obstrutiva do sono • Uma doença articular degenerativa • Doença óssea (artrose) • Esteato-hepatite metabólica • Diabetes • Hipertensão de difícil controle ...esses são apenas alguns exemplos. São 21 doenças que o CFM autoriza. Se ele tiver entre 35 e 39,9, ele já pode ser operado com cirurgia bariátrica também, tá? Aqui eu quero fazer um asterisco enorme. Por quê? Desde 2022, a Federação Internacional de Cirurgia Bariátrica já fez uma atualização desse critério. Tá, como assim? Então, a gente já tem que o IMC entre 35 e 39,9, segundo a Federação Internacional, já poderia ser submetido à cirurgia bariátrica mesmo que o paciente não tenha nenhuma comorbidade, ou seja, o 35 até 39,9 seria que nem é o 40. Porém, galera, cuidado: isso ainda não foi, até o momento em que eu tô gravando essa aula, validado pelo CFM, pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil. O CFM ainda usa a normativa que eles publicaram lá na resolução de 2015, então o CFM ainda não atualizou. Assim que isso for atualizado eu trago pra vocês, mas como não foi publicado no CFM, você não pode marcar isso na tua prova, tá? Você não pode se basear porque aqui no Brasil, as regras de cirurgia bariátrica obrigatoriamente precisam ser validadas pelo CFM, não importa o que acontece lá fora, tá bom? Então isso é muito importante. Aqui, só pra te lembrar como é que é a técnica do sleeve: por que que ela provoca isso? Então o estômago vira um tubo vertical, olha lá, parece um cano. Não raro, a gente tem uma angulação importante aqui. Então, ele continua produzindo ácido, e esse ácido e o alimento às vezes se acumulam aqui em cima, formando uma área de alta pressão e começam a subir — eu tenho refluxo pior, tá certo? Já o bypass gástrico, eu vou desconectar o estômago e ainda vou fazer um Y de Roux, ó. Então aquele — eu tenho um cotoquinho aqui que quase não produz ácido nenhum, em torno de 3 a 4 cm — e as secreções biliares vão cair lá embaixo, no Y. Então o bypass gástrico é a técnica de escolha em pacientes com doença do refluxo que precisam se submeter à cirurgia bariátrica, beleza? Vamos ver essa questãozinha aqui, ó: 40 anos de idade, esse homem com pirose há 10 meses. Então já tem sintomas de doença do refluxo. Apesar do uso do IBP duas vezes ao dia, ele já é dependente de IBP há quase um ano, e na endoscopia, apesar de usar o omeprazol duas vezes por dia, olha o que que deu: esofagite grau C. Então o camarada tem um refluxo grave, ele usa o remédio em dose dobrada e tem esofagite grau C, que é quase o grau máximo de ferida no esôfago, certo? E devido à pandemia de COVID-19, ele não voltou pra reavaliação. E agora ele, ó, continua com a pirose, além da pirose ele passou a ter rouquidão e tosse seca. Então ele começou a ter, além dos sintomas típicos, sintomas atípicos, e tudo isso usando o inibidor da bomba de prótons. Foi encaminhado lá para a gastroenterologia, que pediu a pHmetria. Olha o score de DeMeester, galera: score de 20! Você vai lembrar que eu falei que o DeMeester, se for maior que 14,7 ou 14,72, é indicativo de refluxo — que o paciente está com refluxo naquele momento. E ele tá com esse DeMeester de 20, mesmo tomando inibidor da bomba de prótons. Então é um paciente que já trata, que tá usando já o medicamento há quase um ano, continua com ferida, continua com sintoma e uma pHmetria super alterada. Então é refratário ao tratamento clínico, sim. E aí eles fizeram uma esofagomanometria. Poxa, se fizeram manometria, por que que fizeram manometria? Porque estão considerando operar. Porque manometria é um exame pré- operatório. Eu já vi que o paciente é refratário ao tratamento clínico, continua com sintoma, continua com ferida, e eu decidi pedir um exame pra ver a contratilidade — o quanto aquele esôfago tá se contraindo. Vamos olhar lá: Evidenciou hipotonia acentuada do esfíncter inferior e dismotilidade grave. O que que é dismotilidade? O esôfago não contrai, tem um distúrbio motor, um déficit de contratilidade. Ou seja: vamos ter que fazer uma fundoplicatura parcial. Então vamos indicar tratamento cirúrgico. Não adianta medida dietética, tá? Não adianta só alterar a dose do pantoprazol. E também não adianta fazer uma fundoplicatura total. Se eu for fazer uma fundoplicatura de 360º num paciente que tem dismotilidade de esôfago, ele vai ficar com uma disfagia intratável no pós- operatório, tá certo? Então aqui a gente vai indicar a fundoplicatura, porém parcial. Ele nem entra em detalhe de qual é a parcial aí, mas você já sabe que não pode ser a total, tá bom? Mais uma agora: Uma mulher de 47 anos de idade, em acompanhamento no ambulatório de especialidade por causa de hipertensão e diabetes — não falou aí se a hipertensão e o diabetes eram mal controlados, mas ok — apresenta refluxo e foi submetida à endoscopia alta há um mês, que revelou esofagite grau C. Então é uma paciente com esofagite grave e já com comorbidades. E olha só, galera: Ela tem essa esofagite usando omeprazol há 6 meses, 40 mg, com persistência dos sintomas. Então olha só: usa IBP há 6 meses, continua com sintoma e continua com ferida grau C — ferida grau máximo. E agora vem aqui a cereja do bolo: exame clínico em bom estado geral, mas um IMC de 36. Um IMC de 36, tá? Ela já tem aquele IMC maior do que 35, tem comorbidade — tem duas: hipertensão e diabetes. E o CFM já coloca a doença do refluxo grave, de difícil tratamento, refratária como uma doença também que, se tiver obesidade mórbida associada, já entra como indicação de cirurgia. Então aqui nós temos uma paciente naquela classe ali de 35 a 39,9 com comorbidade: hipertensão, diabetes e também uma doença do refluxo grave, incontrolável do ponto de vista terapêutico clínico. Certo? E ele pergunta: Qual é a melhor opção de tratamento cirúrgico para a doença do refluxo dessa paciente? Letra A: gastrectomiavertical, cirurgia de sleeve Se você fizer o sleeve, você vai piorar essa doença do refluxo dela e torná- la intratável. Você vai arrumar um problema pro resto da vida dessa paciente. Então não pode ser a letra A. Pode ser a gastroplastia com derivação em Y de Roux? Pode! Olha, ela tem indicação para cirurgia bariátrica, ela tem entre 35 e 39,9 com comorbidade, tá? Se a gente fosse seguir a nova diretriz dos Estados Unidos, a gente não precisaria nem de comorbidade pra operar essa paciente. E qual é a técnica de obesidade aqui que melhor se adapta para ela? É o bypass gástrico em Y de Roux, que vai estar tratando tanto a obesidade quanto a doença do refluxo dela. Então, tá aqui. Nas letras C e D, fala apenas de fundoplicatura. A fundoplicatura, num paciente com obesidade grau II ou grau III, é um procedimento bem desafiador, extremamente desafiador. É por isso que, se for um paciente com obesidade com indicação de cirurgia bariátrica, vamos fazer aquele tratamento que atue nos dois problemas. E no caso aqui, é o bypass gástrico em Y de Roux. Mais uma questão: homem, 50 anos de idade, com IMC de 32. Opa! Então aqui, agora, ele não tem o IMC de 35 a 39. Vamos lembrar aqui: de 30 até 35, eu só indico cirurgia se eu tiver um diabetes grave clinicamente refratário há mais de 2 anos, tá? Recebe até o nome de cirurgia metabólica. Então, IMC de 32 ainda não é para tratamento da cirurgia bariátrica. Tá certo? O que acontece com esse homem de 50 anos? Ele é usuário de losartana, é hipertenso, tá? E tem azia e regurgitação. Opa, me deu todos os sintomas lá da doença do refluxo. Ultrassom tem esteatose hepática, mas não tem litíase. Olha só: deu hipertensão, deu doença do refluxo, deu esteatose, mas, nessa faixa de 30 a 35, isso não é indicação para cirurgia bariátrica — pelo menos ainda. A endoscopia mostra uma hérnia pequena por deslizamento e esofagite leve, deve ser um grau A ou grau B. Com base nesse caso hipotético, como é que eu vou tratar esse paciente? Pessoal, perceba o seguinte: aí fala alguma coisa de que esse paciente já teve tratamento prévio? Não. Então eu não posso classificá-lo como paciente que teve tratamento prévio. Ele não fez nada até agora. Tem uma esofagite leve, uma pequena hérnia de hiato, uma obesidade grau I, tá? E nunca foi tratado, não tem indicação para cirurgia bariátrica nesse momento, e eu não posso chamar ele de refratário porque ele não tratou ainda. Ele não teve nenhum tratamento clínico, não tentou perder peso, não fez nada, tá? É como se fosse a primeira vez chegando aí para você. Então, o que que você vai fazer? Vai pedir pHmetria como primeiro método? Não, né galera? Olha só: 50 anos de idade, qual é o primeiro exame que a gente pede? A gente pede a endoscopia, para avaliar se tem algum estigma de doença do refluxo ou complicações — e ele tem! Ele tem hérnia de hiato e esofagite. Então, ele já tem sinais de refluxo na endoscopia. Eu precisaria pedir uma pHmetria nesse momento? Não! Se eu já tenho evidências de complicações de refluxo, eu não preciso pedir uma pH. Eu não tenho dúvida diagnóstica nesse momento. Manometria? Letra B? É só se eu já fosse planejar o tratamento cirúrgico — tá muito longe disso, tá? Vamos pular a C. Na letra D de dado, manda corrigir a hérnia de hiato com fundoplicatura — ainda não! Não é uma hérnia grande, não é refratária, eu nem tratei esse paciente ainda. E na letra E, manda encaminhar para tratamento cirúrgico da obesidade. Nós vimos que, na faixa em que ele está, ele só teria indicação cirúrgica se tivesse uma comorbidade como diabetes tipo 2 refratário por pelo menos 2 anos. Então ainda não seria o caso de tratar com cirurgia bariátrica aqui. Então a resposta é a letra C de casa: Eu vou iniciar inibidor da bomba de prótons como pantoprazol ou esomeprazol, estimular perda de peso e orientação dietética. Ou seja, esse paciente está no início da abordagem terapêutica dele, no início do tratamento clínico, beleza?