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ACREDITAÇÃO EM SERVIÇOS DE SAÚDE 2 Sumário UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS DE QUALIDADE, AVALIAÇÃO E ACREDITAÇÃO EM SAÚDE ............................................................................. 4 1. Evolução histórica e modelos internacionais .............................................. 4 2. Estrutura–processo–resultado e valor em saúde ........................................ 5 3. Acreditação, certificação e licenciamento: diferenças e usos ..................... 6 4. Qualidade centrada na pessoa e equidade ................................................. 6 5. Impactos organizacionais: governança, eficiência e desfechos .................. 7 UNIDADE 2 — METODOLOGIA ONA E SISTEMA BRASILEIRO DE ACREDITAÇÃO ................................................................................................. 8 1. Estrutura do Sistema Brasileiro de Acreditação (SBA) e níveis de acreditação ..................................................................................................... 8 2. Requisitos transversais e evidências .......................................................... 9 3. Normas orientadoras e normas de avaliação ............................................ 10 4. Requisitos CORE e maturidade institucional .............................................11 5. Transição OPSS 2022/2025 → OPSS 2026: mudanças e tendências...... 12 UNIDADE 3 — GESTÃO POR PROCESSOS E MELHORIA CONTÍNUA ...... 13 1. Mapeamento de processos e desenho de fluxos assistenciais ................. 13 2. Padronização (POPs), gestão documental e rastreabilidade .................... 14 3. Ferramentas de melhoria (PDCA/PDSA, Lean, 5S, A3) ............................ 14 4. Auditoria interna, não conformidades e ações corretivas .......................... 15 5. Sustentação de melhorias e cultura organizacional .................................. 16 UNIDADE 4 — SEGURANÇA DO PACIENTE E GESTÃO DE RISCOS ........ 17 1. Cultura de segurança, cultura justa e aprendizagem organizacional ........ 17 2. Identificação e gestão de riscos (ISO 31000, FMEA, RCA) ...................... 18 3. Protocolos e práticas seguras ................................................................... 19 4. Notificação, análise de incidentes e barreiras de prevenção .................... 19 5. Integração com indicadores e com a acreditação ..................................... 20 UNIDADE 5 — INDICADORES, DESEMPENHO E GOVERNANÇA CLÍNICA ......................................................................................................................... 21 1. Construção e validação de indicadores .................................................... 21 2. Painéis gerenciais e gestão à vista ........................................................... 22 3. Benchmarking, metas e priorização por risco ........................................... 23 4. Governança clínica e integração multiprofissional .................................... 23 5. Experiência do paciente e avaliação de satisfação ................................... 24 UNIDADE 6 — CONFORMIDADE, ESG, DIGITAL E PREPARAÇÃO PARA AVALIAÇÃO .................................................................................................... 25 3 1. Regulação sanitária, compliance e responsabilidade institucional ............ 25 2. LGPD e segurança da informação em saúde ........................................... 26 3. ESG e sustentabilidade na gestão da qualidade ...................................... 27 4. Autoavaliação, organização de evidências e simulações de visita ........... 27 5. Plano de ação pós-visita e sustentação do certificado .............................. 28 REFERÊNCIAS.................................................................................................30 4 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS DE QUALIDADE, AVALIAÇÃO E ACREDITAÇÃO EM SAÚDE 1. Evolução histórica e modelos internacionais A qualidade em saúde não constitui um conceito estático ou meramente técnico, mas resulta de um processo histórico profundamente influenciado pelas transformações sociais, científicas e institucionais que marcaram o desenvolvimento dos sistemas de saúde ao longo do século XX. Inicialmente, a qualidade era compreendida como atributo individual do profissional, associada à habilidade clínica e à ética pessoal, sem maior preocupação com a organização dos serviços ou com os resultados produzidos em escala populacional. Esse modelo, centrado na figura do médico, mostrou-se insuficiente diante da crescente complexidade dos sistemas de atenção à saúde. A partir da segunda metade do século XX, especialmente no contexto pós- guerra, emergiu a necessidade de modelos sistematizados de avaliação da qualidade, impulsionados pela expansão dos serviços de saúde, pelo aumento dos custos assistenciais e pela crescente demanda social por segurança e efetividade. Nesse cenário, destacam-se as contribuições de Avedis Donabedian, que introduziu uma abordagem analítica capaz de transcender o desempenho individual e incorporar dimensões organizacionais e sistêmicas da atenção à saúde (DONABEDIAN, 2003). Paralelamente, diferentes países passaram a desenvolver modelos próprios de avaliação e acreditação, como a Joint Commission nos Estados Unidos, os sistemas nacionais europeus e iniciativas regionais apoiadas por organismos internacionais. Esses modelos compartilham a premissa de que a qualidade deve ser monitorada, avaliada e continuamente aprimorada, mas diferem quanto ao grau de obrigatoriedade, aos critérios utilizados e à articulação com políticas públicas nacionais (SCRIVENS, 1995). No plano internacional, a Organização Mundial da Saúde passou a desempenhar papel central ao promover a qualidade como eixo estruturante dos sistemas de saúde, articulando-a aos princípios de equidade, segurança e atenção centrada na pessoa. Essa evolução histórica demonstra que a qualidade em saúde deixou de ser um atributo implícito e passou a constituir um 5 compromisso institucional e social, exigindo metodologias robustas de avaliação e mecanismos formais de reconhecimento, como a acreditação (WHO, 2006). 2. Estrutura–processo–resultado e valor em saúde O modelo estrutura–processo–resultado, formulado por Avedis Donabedian, consolidou-se como um dos referenciais teóricos mais influentes na avaliação da qualidade em saúde. Sua relevância reside na capacidade de organizar a análise da atenção à saúde em dimensões interdependentes, permitindo identificar não apenas falhas assistenciais, mas também fragilidades organizacionais que impactam diretamente os desfechos clínicos (DONABEDIAN, 1988). A dimensão estrutural refere-se aos recursos físicos, humanos, tecnológicos e organizacionais disponíveis para a prestação do cuidado. Embora a presença de estrutura adequada não garanta, por si só, a qualidade da assistência, sua ausência compromete significativamente a segurança e a efetividade do cuidado. Estrutura, portanto, deve ser compreendida como condição necessária, ainda que não suficiente, para a produção de resultados satisfatórios. O processo diz respeito à forma como o cuidado é efetivamente prestado, incluindo práticas clínicas, fluxos assistenciais, comunicação entre equipes e interação com o paciente. É nessa dimensão que se manifestam, de maneira mais evidente, os efeitos da padronização, da capacitação profissional e da cultura organizacional. Processos mal desenhados ou inconsistentes tendem a gerar variabilidade indesejada e maior exposição a riscos assistenciais. Os resultados, por sua vez, correspondem aos efeitos do cuidado sobre a saúde das pessoas e das populações, abrangendo desfechos clínicos, segurança, experiência do paciente e impacto econômico. A incorporação do conceito de valor em saúde, conforme proposto porPorter, amplia essa perspectiva ao relacionar resultados relevantes para o paciente com os custos envolvidos em sua obtenção, deslocando o foco da produção de serviços para a geração de benefícios efetivos (PORTER, 2010). 6 3. Acreditação, certificação e licenciamento: diferenças e usos A distinção conceitual entre acreditação, certificação e licenciamento é fundamental para a compreensão dos mecanismos de regulação e avaliação da qualidade em saúde. Embora frequentemente utilizados como sinônimos no discurso cotidiano, esses instrumentos possuem naturezas jurídicas, finalidades e impactos institucionais distintos, devendo ser analisados de forma rigorosa no contexto acadêmico e profissional. O licenciamento configura-se como exigência legal para o funcionamento dos serviços de saúde, estando vinculado ao poder de polícia do Estado e à regulação sanitária. Seu objetivo principal é assegurar condições mínimas de segurança e conformidade legal, não se propondo, contudo, a avaliar a excelência ou a maturidade organizacional dos serviços. Trata-se, portanto, de instrumento obrigatório e de caráter eminentemente normativo. A certificação, por sua vez, tem como foco principal a conformidade com normas técnicas específicas, como as normas ISO, sendo aplicável a processos, produtos ou sistemas de gestão. Embora contribua para a padronização e a melhoria de processos, a certificação não avalia, de forma abrangente, a integralidade do cuidado ou os resultados assistenciais, limitando-se ao escopo normativo definido pela norma adotada. A acreditação distingue-se desses instrumentos por seu caráter voluntário, educativo e progressivo, orientado à melhoria contínua da qualidade e da segurança do cuidado. Conforme destacado por Shaw, a acreditação não se limita à verificação de conformidade, mas promove aprendizagem organizacional, cultura de qualidade e alinhamento estratégico com os objetivos institucionais (SHAW, 2003). No contexto brasileiro, a metodologia da ONA materializa essa concepção ao integrar avaliação, desenvolvimento organizacional e foco no paciente. 4. Qualidade centrada na pessoa e equidade A incorporação da qualidade centrada na pessoa representa uma inflexão paradigmática nos modelos tradicionais de avaliação em saúde, historicamente orientados por perspectivas profissionais ou institucionais. Essa abordagem 7 reconhece o paciente como sujeito ativo do cuidado, cujas necessidades, valores e preferências devem orientar a organização dos serviços e a tomada de decisão clínica (IOM, 2001). A atenção centrada na pessoa transcende a satisfação do usuário, envolvendo aspectos como comunicação efetiva, respeito à autonomia, participação no cuidado e continuidade assistencial. Estudos internacionais demonstram que serviços organizados segundo essa lógica apresentam melhores desfechos clínicos, maior adesão terapêutica e redução de eventos adversos, evidenciando a convergência entre qualidade técnica e qualidade percebida (WHO, 2016). A equidade constitui dimensão indissociável da qualidade em saúde, especialmente em sistemas que se orientam pelo princípio da universalidade. Não se trata apenas de oferecer o mesmo cuidado a todos, mas de reconhecer desigualdades sociais, econômicas e culturais que impactam o acesso e os resultados em saúde. A qualidade, nesse sentido, deve ser sensível às diferenças, ajustando estratégias e recursos para garantir justiça distributiva. No contexto brasileiro, a centralidade da pessoa e da equidade encontra respaldo constitucional, especialmente nos arts. 196 e 198 da Constituição Federal, que afirmam a saúde como direito de todos e dever do Estado. A Política Nacional de Humanização reforça esse compromisso ao propor práticas que valorizem usuários, trabalhadores e gestores, integrando qualidade técnica, ética e relacional (BRASIL, 2013). 5. Impactos organizacionais: governança, eficiência e desfechos A adoção sistemática de modelos de qualidade e acreditação produz impactos significativos na governança das organizações de saúde, ao induzir maior clareza de papéis, fortalecimento dos processos decisórios e alinhamento estratégico entre missão institucional e práticas assistenciais. A governança passa a incorporar a qualidade e a segurança como dimensões centrais da gestão, e não como responsabilidades periféricas ou setoriais. 8 Do ponto de vista da eficiência, a padronização de processos, o uso de indicadores e a gestão baseada em evidências contribuem para a redução de desperdícios, retrabalho e variabilidade indesejada. Embora frequentemente associada a aumento de custos, a implementação de sistemas de qualidade tende, a médio e longo prazo, a promover melhor utilização dos recursos disponíveis, com impacto positivo na sustentabilidade organizacional. Os desfechos assistenciais constituem o critério último de avaliação do valor gerado pelas organizações de saúde. A literatura internacional indica associação consistente entre acreditação, melhoria de processos e redução de eventos adversos, ainda que reconheça a complexidade metodológica na mensuração desses efeitos (SHAW, 2003). Tais evidências reforçam a acreditação como instrumento de aprimoramento contínuo, e não como fim em si mesma. Por fim, os impactos organizacionais da qualidade e da acreditação devem ser compreendidos de forma sistêmica, articulando governança, cultura organizacional e foco no paciente. Organizações que internalizam esses princípios tendem a apresentar maior resiliência, capacidade de adaptação e legitimidade social, elementos essenciais em contextos de crescente complexidade regulatória e expectativas sociais em relação aos serviços de saúde. UNIDADE 2 — METODOLOGIA ONA E SISTEMA BRASILEIRO DE ACREDITAÇÃO 1. Estrutura do Sistema Brasileiro de Acreditação (SBA) e níveis de acreditação O Sistema Brasileiro de Acreditação (SBA) foi concebido como uma estratégia nacional de indução à melhoria contínua da qualidade e da segurança nos serviços de saúde, estruturando-se a partir de princípios técnicos, éticos e organizacionais alinhados às melhores práticas internacionais. Coordenado pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), o SBA estabelece um modelo 9 avaliativo que transcende a lógica meramente fiscalizatória, assumindo caráter educativo, progressivo e orientado ao desenvolvimento institucional. A arquitetura do SBA baseia-se na atuação integrada entre a ONA, as Instituições Acreditadoras Credenciadas (IACs) e as organizações de saúde avaliadas. Essa estrutura garante independência técnica do processo avaliativo, ao mesmo tempo em que assegura padronização metodológica e isonomia na aplicação dos critérios. Diferentemente de modelos centralizados, o SBA aposta na descentralização operacional com centralização normativa, estratégia que favorece capilaridade sem perda de rigor. Os níveis de acreditação — tradicionalmente denominados Acreditado, Acreditado Pleno e Acreditado com Excelência — representam estágios de maturidade organizacional, e não categorias estanques de qualidade. Cada nível pressupõe requisitos cumulativos, ampliando progressivamente o foco: da segurança estrutural e assistencial, para a gestão integrada dos processos e, por fim, para a cultura organizacional orientada a resultados sustentáveis e inovação (ONA, Manual OPSS 2022/2025). A compreensão dos níveis como uma jornada de desenvolvimento institucional é fundamental para evitar interpretações reducionistas do processo de acreditação. A metodologia ONA enfatiza que a progressão entre níveis deve ser resultado de amadurecimento real da gestão e da assistência, e não apenas de adequações pontuais para fins de certificação, reforçando o compromisso com a qualidade como valor organizacional permanente. 2. Requisitos transversais e evidências Osrequisitos transversais constituem um dos pilares metodológicos mais relevantes da acreditação ONA, pois atravessam diferentes áreas, processos e níveis organizacionais, promovendo integração sistêmica e coerência institucional. Esses requisitos refletem a compreensão de que a qualidade em saúde não pode ser fragmentada em setores isolados, mas deve permear toda a organização, da governança à assistência direta ao paciente. Entre os principais requisitos transversais destacam-se aqueles relacionados à segurança do paciente, gestão de riscos, liderança, 10 comunicação, educação permanente, ética e foco no cliente. Tais elementos não se restringem a áreas específicas, mas devem ser evidenciados de forma consistente em múltiplos processos e práticas organizacionais, funcionando como indicadores da maturidade do sistema de gestão da qualidade (ONA, 2022). A noção de evidência assume papel central nesse contexto. Na metodologia ONA, evidenciar não significa apenas apresentar documentos ou registros formais, mas demonstrar, de forma rastreável e coerente, que os processos estão implementados, monitorados e efetivamente utilizados na prática cotidiana. Evidências frágeis, desconectadas da realidade assistencial, tendem a revelar formalismo excessivo e baixa internalização dos princípios da qualidade. Do ponto de vista pedagógico, a centralidade das evidências induz as organizações a desenvolverem pensamento crítico sobre seus próprios processos, estimulando a análise de resultados, a aprendizagem organizacional e a melhoria contínua. Assim, os requisitos transversais operam como vetores de integração e consistência, evitando abordagens compartimentalizadas e promovendo visão sistêmica da qualidade. 3. Normas orientadoras e normas de avaliação A metodologia ONA estrutura-se a partir da articulação entre normas orientadoras e normas de avaliação, cada qual com funções complementares no processo de acreditação. As normas orientadoras apresentam diretrizes conceituais e expectativas gerais de qualidade, funcionando como referência para o desenvolvimento institucional e para a compreensão do modelo avaliativo adotado. As normas de avaliação, por sua vez, operacionalizam essas diretrizes em critérios objetivos, passíveis de verificação durante o processo avaliativo. Elas descrevem requisitos, práticas esperadas e elementos de evidência, permitindo maior padronização na condução das visitas de acreditação e maior transparência para as organizações avaliadas (ONA, Normas Orientadoras). 11 Essa distinção metodológica evita confusões entre orientação e exigência, reforçando o caráter educativo da acreditação. Enquanto as normas orientadoras estimulam reflexão e planejamento estratégico, as normas de avaliação delimitam o escopo da verificação externa, assegurando isonomia e rigor técnico no julgamento da conformidade. Do ponto de vista acadêmico e institucional, essa estrutura contribui para a credibilidade do processo de acreditação, ao equilibrar flexibilidade interpretativa com objetividade avaliativa. Organizações que compreendem adequadamente essa distinção tendem a utilizar a metodologia ONA não apenas como instrumento de certificação, mas como ferramenta contínua de gestão da qualidade. 4. Requisitos CORE e maturidade institucional A introdução e o fortalecimento dos chamados requisitos CORE refletem a evolução da metodologia ONA em direção a um modelo mais centrado na essência da qualidade e da segurança assistencial. Esses requisitos representam elementos considerados fundamentais e inegociáveis para o funcionamento seguro e ético das organizações de saúde, independentemente de porte, complexidade ou nível de acreditação. Os requisitos CORE concentram-se em aspectos como liderança efetiva, segurança do paciente, gestão de riscos, conformidade regulatória e foco no cuidado centrado na pessoa. Sua observância é condição indispensável para a progressão na jornada de acreditação, funcionando como base estrutural sobre a qual se constroem práticas mais avançadas de gestão e inovação. A noção de maturidade institucional, associada a esses requisitos, desloca o foco da simples conformidade normativa para a capacidade organizacional de aprender, adaptar-se e sustentar melhorias ao longo do tempo. Maturidade, nesse contexto, não se confunde com ausência de não conformidades, mas com a existência de mecanismos robustos de identificação, análise e tratamento de falhas. Essa abordagem aproxima a metodologia ONA de modelos contemporâneos de excelência organizacional, nos quais a qualidade é 12 entendida como processo dinâmico e evolutivo. Ao enfatizar maturidade institucional, a ONA reforça a ideia de que a acreditação é um meio para o fortalecimento da governança e da cultura organizacional, e não um fim em si mesma. 5. Transição OPSS 2022/2025 → OPSS 2026: mudanças e tendências A transição do Manual OPSS 2022/2025 para o OPSS 2026 representa um marco relevante na evolução da metodologia de acreditação da ONA, refletindo mudanças no contexto assistencial, regulatório e social da saúde. Essa atualização responde a desafios contemporâneos como a complexidade das redes de cuidado, a transformação digital, a centralidade da experiência do paciente e a incorporação de princípios de sustentabilidade e governança. Entre as principais tendências anunciadas para o OPSS 2026 destacam- se a reorganização dos requisitos em jornadas mais integradas, a valorização de resultados assistenciais e a ampliação do foco em temas transversais como ESG, inovação e cultura organizacional. Observa-se um movimento claro de redução do formalismo documental excessivo, com maior ênfase na efetividade dos processos e nos impactos gerados para pacientes e profissionais. A transição também reforça a expectativa de maior alinhamento entre acreditação, estratégia organizacional e responsabilidade social. A qualidade passa a ser entendida não apenas como conformidade técnica, mas como compromisso institucional com valor em saúde, equidade e sustentabilidade, aproximando a metodologia ONA de agendas globais promovidas por organismos internacionais e pelo debate contemporâneo em saúde. Do ponto de vista das organizações, a adaptação ao OPSS 2026 exige leitura crítica, planejamento estratégico e fortalecimento da cultura da qualidade. Mais do que adequações pontuais, trata-se de um reposicionamento conceitual, no qual a acreditação se consolida como instrumento de transformação organizacional contínua, alinhado às demandas atuais e futuras dos sistemas de saúde. 13 UNIDADE 3 — GESTÃO POR PROCESSOS E MELHORIA CONTÍNUA 1. Mapeamento de processos e desenho de fluxos assistenciais A gestão por processos constitui um dos pilares fundamentais dos sistemas modernos de qualidade em saúde, ao deslocar o foco da estrutura organizacional formal para a forma como o trabalho é efetivamente realizado. Processos podem ser compreendidos como conjuntos de atividades inter- relacionadas que transformam insumos em resultados com valor para o usuário final, no caso, o paciente. Essa abordagem permite visualizar a organização como um sistema integrado, no qual falhas locais produzem impactos globais. O mapeamento de processos assistenciais tem como finalidade identificar, descrever e analisar o percurso real do cuidado, desde o acesso do paciente ao serviço até a conclusão do atendimento. Diferentemente de fluxogramas idealizados, o mapeamento eficaz revela gargalos, redundâncias, riscos e pontos críticos de comunicação entre equipes e setores. Essa visão sistêmica é essencial para a redução de variabilidade indesejada e para o fortalecimento da segurança do paciente (DONABEDIAN, 2003). O desenho de fluxos assistenciais deve considerar não apenas a eficiência operacional, mas também a experiência do pacientee a coordenação do cuidado. Fluxos mal estruturados tendem a gerar atrasos, retrabalho, aumento de custos e maior exposição a eventos adversos. Por essa razão, organismos internacionais enfatizam a necessidade de alinhar fluxos assistenciais às necessidades clínicas, à capacidade instalada e às diretrizes baseadas em evidências (WHO, 2006). No contexto da acreditação, o mapeamento de processos assume função estratégica, pois permite demonstrar coerência entre práticas assistenciais, protocolos institucionais e resultados alcançados. Organizações que dominam seus processos conseguem evidenciar maturidade organizacional, facilitando a rastreabilidade das ações e a integração entre qualidade, segurança e governança. 14 2. Padronização (POPs), gestão documental e rastreabilidade A padronização dos processos, materializada por meio de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), constitui elemento essencial para a consistência do cuidado e para a redução da variabilidade clínica e administrativa. Em serviços de saúde complexos, a ausência de padronização tende a gerar dependência excessiva do desempenho individual, aumentando o risco de falhas e inconsistências assistenciais. Os POPs devem ser compreendidos como instrumentos vivos de gestão, construídos a partir da prática real e periodicamente revisados à luz de evidências científicas, requisitos regulatórios e resultados monitorados. Documentos meramente formais, desconectados da rotina assistencial, não cumprem sua função organizacional e fragilizam o sistema de qualidade, aspecto frequentemente observado em avaliações externas (ONA, 2022). A gestão documental envolve não apenas a elaboração de normas e procedimentos, mas também o controle de versões, a acessibilidade, a capacitação dos profissionais e a garantia de uso efetivo. Sistemas de gestão da qualidade eficazes asseguram que a informação correta esteja disponível no momento certo, contribuindo para decisões seguras e coerentes com os padrões institucionais (ISO 9001:2015). A rastreabilidade, por sua vez, permite acompanhar a execução dos processos ao longo do tempo, relacionando registros, decisões e resultados. Em saúde, a rastreabilidade assume dimensão ética e legal, especialmente no que se refere à segurança do paciente, à responsabilização profissional e à transparência institucional. No contexto da acreditação, evidenciar rastreabilidade consistente é indicativo de maturidade e confiabilidade organizacional. 3. Ferramentas de melhoria (PDCA/PDSA, Lean, 5S, A3) A melhoria contínua em saúde fundamenta-se na aplicação sistemática de métodos e ferramentas capazes de promover aprendizagem organizacional e aperfeiçoamento progressivo dos processos. Entre essas ferramentas, destacam-se os ciclos PDCA e PDSA, amplamente difundidos na gestão da 15 qualidade e adaptados ao contexto da assistência à saúde por sua simplicidade e eficácia (DEMING, 2000). O ciclo PDCA — planejar, executar, verificar e agir — permite testar mudanças em pequena escala, avaliar seus efeitos e institucionalizar melhorias bem-sucedidas. No ambiente assistencial, essa abordagem favorece a tomada de decisão baseada em dados e reduz o risco de intervenções abruptas sem avaliação prévia. O modelo PDSA, por sua vez, enfatiza o aprendizado contínuo como elemento central do processo de melhoria. A metodologia Lean Healthcare introduz uma perspectiva complementar ao focar na eliminação de desperdícios e na maximização do valor para o paciente. Desperdícios como esperas prolongadas, retrabalho, movimentações desnecessárias e excesso de etapas burocráticas comprometem tanto a eficiência quanto a experiência do usuário. A aplicação do pensamento Lean em saúde tem demonstrado impactos positivos na redução de custos e na melhoria dos fluxos assistenciais (WOMACK; JONES, 2003). Ferramentas como 5S e A3 contribuem para a organização do ambiente de trabalho, a padronização visual e a resolução estruturada de problemas. Embora simples, essas ferramentas possuem elevado potencial transformador quando integradas a uma cultura organizacional orientada à qualidade. Seu uso sistemático reforça a disciplina operacional e a responsabilidade compartilhada pela melhoria contínua. 4. Auditoria interna, não conformidades e ações corretivas A auditoria interna constitui instrumento fundamental para a avaliação sistemática da conformidade dos processos e para a identificação de oportunidades de melhoria. Diferentemente da auditoria externa, seu objetivo principal não é a certificação, mas o fortalecimento da governança e da cultura de qualidade, por meio da análise crítica das práticas organizacionais. Auditorias eficazes devem ser planejadas com base em riscos, prioridades estratégicas e resultados de desempenho. A abordagem meramente checklist, dissociada da análise crítica dos processos, tende a gerar baixo impacto organizacional. Em contrapartida, auditorias orientadas à compreensão 16 das causas das não conformidades promovem aprendizagem e engajamento das equipes (ISO 9001:2015). A identificação de não conformidades não deve ser interpretada como falha individual, mas como oportunidade de aprimoramento do sistema. No contexto da saúde, a cultura punitiva associada a erros compromete a transparência e dificulta a melhoria contínua. Por essa razão, modelos contemporâneos de qualidade defendem abordagens sistêmicas, focadas na análise de processos e na prevenção de recorrências. As ações corretivas e preventivas devem ser estruturadas a partir da análise de causa raiz, garantindo que as intervenções tratem efetivamente os fatores subjacentes aos problemas identificados. A simples correção pontual, sem revisão do processo, tende a produzir soluções temporárias e insustentáveis. A integração entre auditoria, análise crítica e gestão de riscos fortalece a capacidade institucional de evoluir de forma consistente. 5. Sustentação de melhorias e cultura organizacional A sustentabilidade das melhorias implementadas representa um dos maiores desafios da gestão da qualidade em saúde. Mudanças pontuais, dissociadas de uma cultura organizacional favorável, tendem a se dissipar ao longo do tempo, especialmente diante de rotatividade de profissionais, pressão assistencial e mudanças de liderança. A cultura organizacional pode ser compreendida como o conjunto de valores, crenças e práticas compartilhadas que orientam o comportamento dos membros da organização. Em sistemas de saúde de alta confiabilidade, a cultura da qualidade e da segurança é reforçada continuamente por meio de liderança ativa, comunicação transparente e aprendizado organizacional permanente (IOM, 2001). A sustentação de melhorias exige mecanismos formais de monitoramento, como indicadores de desempenho, reuniões de análise crítica e integração das ações de melhoria aos processos decisórios estratégicos. Quando a qualidade é incorporada à governança institucional, deixa de ser um projeto isolado e passa a constituir eixo estruturante da organização. 17 No contexto da acreditação, a cultura organizacional orientada à melhoria contínua é um dos principais diferenciais entre organizações que mantêm seus padrões ao longo do tempo e aquelas que enfrentam ciclos recorrentes de conformidade superficial. A consolidação dessa cultura representa, portanto, não apenas requisito metodológico, mas condição essencial para a excelência e a sustentabilidade dos serviços de saúde. UNIDADE 4 — SEGURANÇA DO PACIENTE E GESTÃO DE RISCOS 1. Cultura de segurança, cultura justa e aprendizagem organizacional A segurança do paciente consolidou-se como dimensão central da qualidade em saúde a partir do reconhecimento de que eventos adversos representam importante causa de morbimortalidade evitável nos sistemas de saúde contemporâneos. O relatórioTo Err is Human, do Institute of Medicine, marcou esse debate ao evidenciar que erros assistenciais decorrem majoritariamente de falhas sistêmicas, e não de condutas individuais isoladas, deslocando o foco da culpabilização para a melhoria dos processos (IOM, 2001). Nesse contexto, a cultura de segurança emerge como fundamento indispensável para a prevenção de danos. Trata-se de um conjunto de valores, atitudes e comportamentos compartilhados que priorizam a segurança acima de metas concorrentes, como produtividade ou redução de custos. Organizações com cultura de segurança madura incentivam a comunicação aberta, o reporte de incidentes e o aprendizado contínuo, reconhecendo que a identificação precoce de falhas é condição para a melhoria sustentável. A noção de cultura justa complementa esse paradigma ao estabelecer equilíbrio entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional. Diferentemente de culturas punitivas, a cultura justa distingue erros humanos não intencionais, condutas de risco e comportamentos deliberadamente negligentes, promovendo respostas proporcionais e educativas. Esse modelo 18 favorece a confiança institucional e reduz a subnotificação de incidentes, aspecto crítico para a gestão de riscos em saúde (REASON, 2000). A aprendizagem organizacional constitui o elo entre cultura de segurança e melhoria contínua. Organizações que aprendem sistematicamente a partir de falhas e quase falhas desenvolvem maior resiliência e capacidade adaptativa. No âmbito da acreditação, a ONA valoriza explicitamente ambientes que demonstram aprendizado institucional estruturado, evidenciando que a segurança do paciente não se limita a protocolos, mas se manifesta na forma como a organização interpreta e responde aos riscos. 2. Identificação e gestão de riscos (ISO 31000, FMEA, RCA) A gestão de riscos em saúde consiste em processo estruturado destinado a identificar, analisar, avaliar e tratar riscos que possam comprometer a segurança do paciente, dos profissionais e da organização. A norma ISO 31000 estabelece diretrizes amplas para a gestão de riscos, enfatizando que o risco deve ser compreendido como efeito da incerteza sobre os objetivos organizacionais, abordagem plenamente aplicável ao contexto da assistência à saúde (ISO 31000:2018). A identificação de riscos pode ocorrer de forma proativa ou reativa. Abordagens proativas, como a Análise de Modos de Falha e Efeitos (FMEA), permitem antecipar falhas potenciais antes que causem danos, sendo especialmente úteis na implantação de novos processos, tecnologias ou fluxos assistenciais. Ao priorizar riscos com maior impacto e probabilidade, a FMEA contribui para intervenções preventivas mais eficazes. As abordagens reativas, por sua vez, concentram-se na análise de eventos já ocorridos, utilizando ferramentas como a Análise de Causa Raiz (RCA). Essa metodologia busca identificar fatores sistêmicos subjacentes aos incidentes, evitando explicações simplistas centradas no erro humano. A RCA é amplamente recomendada por organismos internacionais e pela própria ONA como instrumento de aprendizado organizacional e prevenção de recorrências. A integração dessas ferramentas em um sistema institucional de gestão de riscos fortalece a governança clínica e a maturidade organizacional. 19 Organizações acreditadas demonstram não apenas a aplicação pontual dessas metodologias, mas sua incorporação aos processos decisórios, evidenciando que a gestão de riscos é prática contínua e estratégica, e não resposta episódica a eventos críticos. 3. Protocolos e práticas seguras Os protocolos assistenciais representam instrumentos essenciais para a promoção da segurança do paciente, ao traduzirem evidências científicas e diretrizes clínicas em práticas padronizadas. Protocolos bem estruturados reduzem a variabilidade indesejada, promovem consistência do cuidado e funcionam como barreiras de proteção contra erros previsíveis, especialmente em ambientes de alta complexidade. No Brasil, o Programa Nacional de Segurança do Paciente estabeleceu protocolos prioritários, como identificação correta do paciente, cirurgia segura, prevenção de quedas e segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Esses protocolos constituem referência normativa e técnica para os serviços de saúde, sendo frequentemente avaliados em processos de acreditação (BRASIL, Portaria nº 529/2013). Entretanto, a simples existência de protocolos não garante práticas seguras. A efetividade depende de fatores como capacitação contínua, adesão das equipes, monitoramento de conformidade e revisão periódica à luz de novos conhecimentos e resultados. Protocolos desatualizados ou desconectados da realidade operacional tendem a perder legitimidade e impacto prático. A metodologia de acreditação da ONA valoriza a implementação efetiva de protocolos, associando-os a indicadores, auditorias internas e análise de eventos adversos. Essa abordagem reforça a compreensão de que práticas seguras devem ser incorporadas à rotina assistencial e sustentadas por cultura organizacional favorável, integrando segurança, qualidade e governança clínica. 4. Notificação, análise de incidentes e barreiras de prevenção A notificação de incidentes constitui elemento central dos sistemas de segurança do paciente, ao permitir a identificação de falhas e vulnerabilidades 20 antes que se traduzam em danos graves. Sistemas eficazes de notificação incentivam o reporte voluntário, confidencial e não punitivo, reconhecendo que a transparência é condição indispensável para o aprendizado organizacional. A análise sistemática dos incidentes notificados possibilita identificar padrões recorrentes, fatores contribuintes e fragilidades estruturais. Essa análise deve ir além da descrição do evento, buscando compreender o contexto organizacional, os processos envolvidos e as condições latentes que favoreceram sua ocorrência. Tal abordagem está alinhada ao modelo de acidentes organizacionais proposto por Reason, amplamente adotado na segurança em saúde (REASON, 2000). As barreiras de prevenção representam mecanismos físicos, tecnológicos ou organizacionais destinados a interromper a progressão do erro antes que atinja o paciente. Exemplos incluem duplas checagens, alarmes, padronização de rotulagem e sistemas informatizados de apoio à decisão clínica. A eficácia dessas barreiras depende de seu desenho adequado e de sua integração aos fluxos assistenciais reais. No contexto da acreditação, a existência de sistemas estruturados de notificação, análise e implementação de barreiras preventivas é indicativa de maturidade em segurança do paciente. Organizações que utilizam incidentes como fonte de aprendizado demonstram compromisso com a melhoria contínua e com a proteção efetiva dos usuários e profissionais. 5. Integração com indicadores e com a acreditação A integração entre segurança do paciente, indicadores de desempenho e processos de acreditação é fundamental para transformar dados em ações estratégicas. Indicadores de segurança permitem monitorar tendências, avaliar a efetividade das intervenções e subsidiar a tomada de decisão em diferentes níveis organizacionais. Sem mensuração sistemática, iniciativas de segurança tendem a permanecer fragmentadas e reativas. Indicadores como taxas de infecção, eventos adversos, quedas e erros de medicação devem ser analisados de forma contextualizada, considerando características da população atendida e da complexidade assistencial. A 21 utilização isolada de números, sem análise crítica, pode gerar interpretações equivocadas e decisões inadequadas, comprometendo a credibilidade dos sistemas de qualidade (DONABEDIAN, 2003). A metodologia de acreditação da ONA reforça a necessidade de articulação entre indicadores, gestão de riscos e melhoriacontínua. Durante os processos avaliativos, espera-se que as organizações demonstrem não apenas a existência de indicadores, mas sua utilização efetiva para orientar ações corretivas, preventivas e estratégicas, evidenciando coerência entre dados, decisões e resultados. Por fim, a integração da segurança do paciente à acreditação consolida a qualidade como valor institucional e não como exigência episódica. Organizações que internalizam essa lógica tendem a apresentar maior consistência assistencial, melhores desfechos clínicos e maior confiança social, reafirmando a segurança do paciente como eixo estruturante da excelência em saúde. UNIDADE 5 — INDICADORES, DESEMPENHO E GOVERNANÇA CLÍNICA 1. Construção e validação de indicadores Os indicadores de desempenho constituem instrumentos centrais para a gestão da qualidade em saúde, pois permitem traduzir fenômenos complexos em informações mensuráveis, comparáveis e passíveis de monitoramento ao longo do tempo. A construção de indicadores exige clareza conceitual quanto aos objetivos organizacionais e alinhamento com as dimensões clássicas da qualidade — estrutura, processo e resultado — conforme sistematizado por Donabedian (DONABEDIAN, 2003). A definição de um indicador deve considerar critérios técnicos como relevância, validade, confiabilidade, sensibilidade e viabilidade operacional. Indicadores mal definidos ou excessivamente complexos tendem a gerar dados pouco úteis para a tomada de decisão, comprometendo a credibilidade dos sistemas de monitoramento. Por essa razão, organismos internacionais 22 recomendam a utilização de conjuntos enxutos de indicadores, diretamente relacionados a riscos prioritários e objetivos estratégicos (WHO, 2018). A validação dos indicadores constitui etapa essencial do processo, envolvendo testes de consistência dos dados, revisão periódica das definições operacionais e capacitação das equipes responsáveis pela coleta e análise. Indicadores não validados podem induzir a decisões equivocadas, especialmente quando utilizados como base para comparações internas ou externas e para avaliação de desempenho institucional. No contexto da acreditação, a ONA valoriza indicadores que demonstrem capacidade analítica e uso efetivo das informações geradas. Mais do que cumprir exigências formais, espera-se que os indicadores sustentem ciclos de melhoria contínua, evidenciando maturidade organizacional e compromisso com resultados assistenciais e gerenciais relevantes. 2. Painéis gerenciais e gestão à vista Os painéis gerenciais configuram instrumentos estratégicos para a visualização integrada do desempenho organizacional, permitindo que gestores e equipes acompanhem, em tempo oportuno, indicadores críticos de qualidade, segurança, eficiência e experiência do paciente. A gestão à vista, ao tornar os resultados transparentes, favorece o alinhamento das ações cotidianas aos objetivos institucionais. A construção de painéis eficazes requer seleção criteriosa de indicadores, evitando excesso de informações que dificultem a interpretação e a priorização. Painéis bem estruturados organizam dados de forma hierarquizada, destacando desvios relevantes e facilitando a identificação de tendências, o que contribui para respostas mais ágeis e fundamentadas (KAPLAN; NORTON, 1997). No ambiente assistencial, a gestão à vista também desempenha papel pedagógico, ao estimular o engajamento das equipes e a corresponsabilização pelos resultados. Quando os profissionais compreendem como suas ações impactam os indicadores, fortalece-se a cultura de melhoria contínua e a percepção de sentido no trabalho, elementos fundamentais para a sustentabilidade das iniciativas de qualidade. 23 A metodologia de acreditação reconhece o valor dos painéis gerenciais como evidência de governança e maturidade. Organizações que utilizam dados de forma sistemática e integrada demonstram capacidade de transformar informação em ação, superando abordagens reativas e fragmentadas da gestão da qualidade. 3. Benchmarking, metas e priorização por risco O benchmarking consiste na comparação sistemática de indicadores e práticas organizacionais com referências internas ou externas, visando identificar oportunidades de melhoria e estimular o aprendizado institucional. Em saúde, essa prática permite contextualizar o desempenho próprio frente a padrões reconhecidos, evitando análises isoladas ou autorreferenciadas. A definição de metas deve ser realista, progressiva e alinhada ao perfil assistencial e à capacidade organizacional. Metas excessivamente ambiciosas ou descoladas da realidade tendem a gerar frustração e descrédito nos sistemas de avaliação. Por outro lado, metas pouco desafiadoras comprometem o potencial transformador da gestão por indicadores (WHO, 2018). A priorização por risco representa abordagem estratégica que orienta a alocação de recursos e esforços para áreas com maior impacto potencial sobre a segurança do paciente e os desfechos assistenciais. Ao integrar dados de desempenho com análises de risco, as organizações conseguem direcionar ações de melhoria de forma mais eficaz e racional. No contexto da acreditação, a utilização de benchmarking e priorização por risco demonstra maturidade analítica e capacidade de gestão baseada em evidências. A ONA valoriza organizações que utilizam comparações e análises críticas para sustentar decisões estratégicas, reforçando a lógica de melhoria contínua orientada a resultados. 4. Governança clínica e integração multiprofissional A governança clínica refere-se ao conjunto de estruturas, processos e responsabilidades destinados a assegurar que a qualidade e a segurança do cuidado sejam prioridades institucionais permanentes. Trata-se de conceito que 24 integra gestão, prática clínica e responsabilidade organizacional, superando dicotomias tradicionais entre áreas assistenciais e administrativas. A efetividade da governança clínica depende da integração multiprofissional e da clareza de papéis e responsabilidades. Equipes que atuam de forma fragmentada tendem a apresentar falhas de comunicação e inconsistências assistenciais. Em contrapartida, modelos colaborativos favorecem decisões compartilhadas, continuidade do cuidado e melhor utilização dos recursos disponíveis (IOM, 2001). A liderança clínica desempenha papel central nesse processo, ao articular diretrizes institucionais, evidências científicas e realidade assistencial. Líderes comprometidos com a qualidade influenciam positivamente a cultura organizacional, promovendo ambientes mais seguros e orientados ao aprendizado contínuo. No âmbito da acreditação, a governança clínica é avaliada a partir da capacidade da organização de demonstrar integração entre indicadores, gestão de riscos, protocolos assistenciais e resultados. Essa integração evidencia que a qualidade não é responsabilidade isolada de setores específicos, mas compromisso coletivo e estratégico. 5. Experiência do paciente e avaliação de satisfação A experiência do paciente consolidou-se como dimensão essencial da qualidade em saúde, complementando indicadores clínicos tradicionais e ampliando a compreensão dos resultados assistenciais. Diferentemente da satisfação, que reflete percepções pontuais, a experiência abrange toda a jornada do paciente, incluindo acesso, comunicação, acolhimento e continuidade do cuidado (WHO, 2016). A avaliação sistemática da experiência do paciente fornece informações valiosas para a melhoria dos processos e para o fortalecimento do cuidado centrado na pessoa. Instrumentos como pesquisas estruturadas, entrevistas e análise de relatos permitem identificar fragilidades e oportunidades de aprimoramento que nem sempre são captadas por indicadores clínicos ou administrativos. 25 A incorporação da voz do paciente à governançaclínica reforça princípios de transparência, equidade e corresponsabilização. Organizações que utilizam ativamente esses dados tendem a desenvolver soluções mais alinhadas às necessidades reais dos usuários, promovendo maior adesão ao cuidado e melhores desfechos em saúde. No contexto da acreditação, a valorização da experiência do paciente reflete a evolução do conceito de qualidade para além da conformidade técnica. A ONA reconhece que a excelência em saúde pressupõe escuta qualificada, respeito à autonomia e compromisso com a dignidade humana, integrando desempenho clínico e experiência vivida pelo usuário. UNIDADE 6 — CONFORMIDADE, ESG, DIGITAL E PREPARAÇÃO PARA AVALIAÇÃO 1. Regulação sanitária, compliance e responsabilidade institucional A regulação sanitária constitui o alicerce normativo mínimo para o funcionamento dos serviços de saúde, expressando o dever do Estado de proteger a saúde coletiva por meio de padrões legais de segurança, qualidade e ética. Diferentemente da acreditação, a regulação possui caráter obrigatório e coercitivo, sendo exercida por órgãos de vigilância sanitária que fiscalizam o cumprimento de requisitos legais indispensáveis à operação das organizações de saúde. O compliance em saúde emerge como estratégia institucional voltada à conformidade regulatória, ética e legal, transcendendo o simples atendimento a normas para incorporar práticas de governança, integridade e gestão de riscos. Programas de compliance eficazes articulam políticas internas, capacitação contínua, canais de denúncia e monitoramento sistemático, reduzindo riscos legais, assistenciais e reputacionais (OECD, 2015). A responsabilidade institucional em saúde não se limita à observância formal da legislação, mas abrange a garantia de ambientes seguros, decisões éticas e proteção dos direitos dos usuários e profissionais. Nesse sentido, a 26 conformidade regulatória deve ser compreendida como condição necessária, porém insuficiente, para a excelência assistencial, exigindo integração com sistemas de qualidade e segurança. No contexto da acreditação, a ONA pressupõe plena conformidade regulatória como requisito básico, reforçando que não há qualidade sustentável sem legalidade. Organizações que integram compliance à governança institucional demonstram maior maturidade organizacional, capacidade de prevenção de riscos e alinhamento com os princípios do Estado Democrático de Direito. 2. LGPD e segurança da informação em saúde A transformação digital dos serviços de saúde ampliou exponencialmente o volume, a sensibilidade e a circulação de dados pessoais, especialmente dados relativos à saúde, classificados pela Lei Geral de Proteção de Dados como dados sensíveis. Nesse cenário, a LGPD (Lei nº 13.709/2018) impõe novo paradigma de responsabilidade institucional, exigindo tratamento ético, seguro e transparente das informações dos usuários. A adequação à LGPD em saúde envolve múltiplas dimensões, incluindo governança de dados, definição de bases legais para o tratamento, controle de acesso, rastreabilidade, gestão de incidentes e capacitação das equipes. A segurança da informação deixa de ser tema exclusivamente tecnológico e passa a integrar a agenda estratégica das organizações, com impacto direto na confiança dos pacientes e na legitimidade institucional. A adoção de medidas técnicas e administrativas proporcionais aos riscos é requisito central da legislação, aproximando a LGPD de normas internacionais de segurança da informação, como a ISO/IEC 27001. Vazamentos de dados, acessos indevidos e falhas de confidencialidade podem gerar danos significativos aos usuários e à reputação das instituições, além de sanções administrativas relevantes. No âmbito da acreditação, a proteção de dados e a segurança da informação passam a ser avaliadas como componentes da qualidade e da governança. A ONA, alinhada às tendências internacionais, reconhece que a 27 confiança do paciente e a integridade da informação são elementos indissociáveis da segurança do cuidado e da excelência organizacional. 3. ESG e sustentabilidade na gestão da qualidade A incorporação dos princípios ESG — ambiental, social e governança — à gestão da qualidade em saúde representa evolução significativa do conceito de excelência organizacional. Tradicionalmente focada em segurança e eficiência assistencial, a qualidade passa a incorporar preocupações com sustentabilidade ambiental, impacto social e responsabilidade corporativa, refletindo demandas globais contemporâneas. No eixo ambiental, organizações de saúde são chamadas a gerenciar de forma responsável recursos naturais, resíduos, energia e emissões, reduzindo impactos ambientais sem comprometer a segurança assistencial. Práticas sustentáveis contribuem não apenas para a preservação ambiental, mas também para a eficiência operacional e a imagem institucional (BRAZIL HEALTH, 2025). O componente social do ESG relaciona-se à equidade no acesso, às condições de trabalho, à diversidade, à inclusão e à relação ética com pacientes e comunidades. Serviços de saúde comprometidos com esse eixo demonstram sensibilidade às desigualdades sociais e ampliam seu papel como agentes de desenvolvimento social. A governança, por sua vez, integra os pilares ESG à tomada de decisão estratégica, reforçando transparência, accountability e gestão de riscos. A ONA, ao sinalizar a incorporação do ESG no OPSS 2026, reforça a compreensão de que a sustentabilidade organizacional é inseparável da qualidade e da segurança do cuidado, ampliando o horizonte da acreditação para além do ambiente assistencial imediato. 4. Autoavaliação, organização de evidências e simulações de visita A autoavaliação constitui etapa estratégica da jornada de acreditação, permitindo que a organização identifique lacunas, fortalezas e prioridades antes da avaliação externa. Mais do que checklist de conformidade, a autoavaliação 28 eficaz promove reflexão crítica sobre processos, resultados e cultura organizacional, funcionando como instrumento de aprendizagem institucional. A organização de evidências é elemento central nesse processo. Evidências devem demonstrar coerência entre o que está normatizado, o que é praticado e os resultados obtidos, assegurando rastreabilidade e consistência. Documentos, registros, indicadores e relatos de prática devem ser integrados de forma lógica, evitando fragmentação e excesso de formalismo. As simulações de visita, frequentemente conduzidas como auditorias internas ampliadas, permitem testar a prontidão institucional, preparar equipes e ajustar fluxos de comunicação. Essas simulações contribuem para reduzir ansiedade, alinhar expectativas e fortalecer a cultura de transparência e aprendizado, aspectos valorizados nos processos avaliativos da ONA. Do ponto de vista metodológico, a preparação estruturada para a avaliação reforça a ideia de que a acreditação não é evento isolado, mas culminação de um processo contínuo de melhoria. Organizações que utilizam a autoavaliação como ferramenta estratégica tendem a extrair maior valor do processo acreditador. 5. Plano de ação pós-visita e sustentação do certificado A visita de acreditação não representa o término da jornada de qualidade, mas um marco dentro de um ciclo contínuo de aprimoramento. O plano de ação pós-visita constitui instrumento essencial para tratar oportunidades de melhoria identificadas, corrigir fragilidades e consolidar avanços alcançados durante o processo avaliativo. Planos de ação eficazes devem ser priorizados por risco e impacto, conter responsáveis definidos, prazos realistas e indicadores de acompanhamento. A ausência de monitoramento sistemático compromete a efetividade das ações e favorece a recorrência de não conformidades, fragilizando a sustentabilidade do certificado obtido.A sustentação da acreditação exige integração das ações de melhoria à governança institucional, evitando que a qualidade seja tratada como projeto temporário. Liderança ativa, análise periódica de indicadores e incorporação das 29 lições aprendidas aos processos decisórios são condições fundamentais para manter o nível de desempenho alcançado. Por fim, a sustentação do certificado reflete a consolidação de uma cultura organizacional orientada à excelência, à segurança e à responsabilidade social. Organizações que internalizam esses valores demonstram não apenas conformidade metodológica, mas compromisso ético e estratégico com a qualidade em saúde, alinhando-se às exigências contemporâneas da acreditação e às expectativas da sociedade. 30 REFERÊNCIAS BRAZIL HEALTH. Novo Manual OPSS 2026 da ONA traz foco no paciente, inovação e ESG. São Paulo: Brazil Health, 2025. Disponível em: https://brazilhealth.com. Acesso em: 7 jan. 2026. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). 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