Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

ESTUDO DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti sa SOLUÇÕES G a H EDUCACIONAIS INTEGRADASA cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a cidade ao nível dos olhos. Identificar fatores de vitalidade urbana. Exemplificar a utilização de fatores de vitalidade. Introdução O ser humano percebe seu entorno a partir da perspectiva de quem caminha, ou seja, aproximadamente, 1,70 m de altura movimentando-se a 5 km/h. As cidades que são percebidas como as mais agradáveis têm características que as tornam prazerosas por esse modo de percepção. Neste capítulo, você perceberá a cidade a partir do nível dos olhos e conhecerá os fatores que influenciam a vitalidade urbana a partir desse ponto de vista. Também verá alguns exemplos de centros urbanos que exploraram essa característica com sucesso. 1 Cidade ao nível dos olhos Imagine que você está caminhando em uma calçada de uma rua bastante agradável. Que imagem vem à sua cabeça? Pessoas aproveitando a sombra das árvores? Crianças brincando nos recuos de jardins dos edifícios? Talvez uma ou outra senhora abanando para você da janela de seus apartamentos? Essas são características de um espaço urbano otimizado para a escala humana, em que a principal forma de percepção é a de uma pessoa caminhando em velocidade moderada.2 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Agora, imagine que você está em uma rua desagradável para quem ca- minha. Provavelmente, a imagem que vem à sua mente é a de uma calçada com muito sol e calor, certo? Também deve pensar em uma via barulhenta, com muitos carros passando em alta velocidade, fazendo com que a calçada pareça ainda mais estreita. Ao olhar para os edifícios, a única visão é a de um paredão contínuo com poucas aberturas, sem pessoas aproveitando o espaço. Nesse exemplo, o que temos é uma cidade desenhada para quem está em um veículo, em velocidade muito mais alta do que a de um pedestre. As cidades tradicionais, cujas ruas e calçadas evoluíram lentamente ao longo das gerações, em geral, apresentam-se bem adaptadas aos pedestres. Por outro lado, algumas cidades planejadas, em especial, aquelas projetadas no século XX, em muitos casos, não levaram em conta como os espaços seriam percebidos por uma pessoa caminhando em velocidade moderada pela cidade. Segundo o urbanista dinamarquês Jan Gehl, é na "[...] pequena escala, na paisagem de 5 km/h, que as pessoas se relacionam intimamente com a cidade" (GEHL, 2010, p. 118, tradução nossa). É nessa velocidade que a maior parte das pessoas frui a cidade e, portanto, os esforços de planejamento devem ocorrer no sentido de tornar essa experiência agradável. As atividades realizadas nos espaços públicos das cidades podem ser divididas em caminhar, ficar em pé, sentar, escutar e conversar. Todas essas atividades podem ser enquadradas nas ações que são beneficiadas por cidades agradáveis ao nível dos olhos (GEHL, 2010). Cidades boas para caminhar Gehl (2010, p. 119, tradução nossa) afirma que: É um grande dia quando [...] uma criança dá o primeiro passo. [...] pequeno caminhante pode ver muito mais e mover-se mais rapidamente. A partir de agora o mundo da criança campo de visão, perspectiva, velocidade, flexi- bilidade e oportunidade se moverá em um plano mais rápido e alto. Todos os momentos importantes da vida a partir de agora serão experienciados em pé, seja caminhando ou parado. O caminhar é uma das atividades que define o ser humano. Segundo Yuval Noah Harari, o fato de as pessoas caminharem de maneira ereta sobre duas pernas é um traço humano singular que nos permitiu "[...] realizar tarefas complexas com as mãos" (HARARI, 2015, p. 14). Jan Gehl defende que uma das características que torna a cidade agradável para os pedestres é ter espaço para caminhar, ou seja, ter espaço suficiente nas calçadas para transitar sem desviar de outras pessoas ou objetos no caminho (GEHL, 2010). Além disso, as distâncias percorridas pelosA cidade como um organismo vivo, seguro e saudável 3 pedestres devem ser pequenas o suficiente para permitir o deslocamento eficiente e confortável. Em seu livro, Jan Gehl traz um mapa mostrando como os centros de cidades notoriamente agradáveis se inserem em um raio de até 500 metros, permitindo a caminhabilidade para a maioria das pessoas. A Figura 1 mostra a sobreposição dos centros de quatro cidades com o raio de 500 m. Zurique Brisbane km/ 0.6milha 1 km/ 0.6 milha Pittsburgh Copenhagen 1 km/ 0.6milha 1 km/ 1:50,000 n 4,000 ft 1,500 m Figura 1. Centros urbanos e escala humana. Fonte: Adaptada de Gehl (2010). Para que uma cidade seja agradável ao nível dos olhos, é preciso que ela tenha a infraestrutura necessária para que as pessoas possam ficar paradas realizando alguma atividade como vendas ou até mesmo esperando alguém sem propósito definido. As cidades agradáveis devem apresentar elementos que facilitem e encorajem a permanência. A Figura 2 demonstra uma cafeteria cujas mesas são colocadas em duas fileiras independentes, com espaço para caminhar entre elas.4 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Figura 2. Café com mesas na calçada. Fonte: María Teresa Martínez/Pixabay.com. Cidades boas para encontro Segundo Gehl (2010, p. 148, tradução nossa): Encontros nos espaços urbanos se dão em vários níveis. Encontros ao acaso e oportunidades de ver e ouvir a vida urbana representam uma forma despre- tensiosa e não obrigatória de contato. Ver e ser visto é, de longe, a maneira mais difundida de encontro entre pessoas. Para permitir o encontro entre seus moradores, as cidades devem possuir um conjunto de características complementares que as tornarão um espaço agradável e propício para esse tipo de interação involuntária. A primeira delas é que os espaços urbanos devem ter visuais agradáveis, que façam com que as pessoas permaneçam por mais tempo, potencializando, assim, as chances de encontros não planejados. Os encontros entre desconhecidos são potencializados pela possibilidade de interação entre pessoas que estão dentro de espaços fechados e aqueles que transitam pelas calçadas. Para isso, os térreos dos edifícios devem ser porosos o suficiente para que essas interações aconteçam de maneira espontânea. Assim, os espaços urbanos agradáveis ao nível dos olhos são aqueles que são pensados para satisfazer a necessidade de uma pessoa caminhando a, aproximadamente, 5 km/h. Esses espaços devem permitir, obviamente, oA cidade como um organismo vivo, seguro e saudável 5 trânsito desses pedestres, mas também devem apresentar oportunidades para que essas pessoas possam ficar paradas para verem e serem vistas por outros em encontros não planejados. 2 Fatores de vitalidade urbana As cidades são entidades complexas e mutáveis, o que torna o entendimento de seu sucesso um assunto bastante complicado. A maneira mais assertiva que os planejadores têm para garantir o sucesso de novos empreendimentos urbanos é analisar os acertos e os erros daquelas cidades que já são ocupadas há bastante tempo. Nesse sentido, a jornalista americana Jane Jacobs escreveu, nos anos de 1960, um livro que se tornou um clássico do planejamento urbano: Morte e vida das grandes cidades. Em seu livro, Jacobs narra as qualidades de bairros com bastante vitalidade, demonstrando os elementos que esses espaços têm em comum. Ao mesmo tempo, traz algumas experiências malsucedidas de intervenções urbanas realizadas após a Segunda Guerra para demonstrar como um planejamento ineficaz pode destruir a vitalidade de uma rua. Uma das grandes contribuições de Jacobs para a disciplina do planejamento urbano foi a identificação de quatro atributos, os quais ela chamou de geradores de diversidade que, em conjunto, podem tornar os espaços da cidade mais mo- vimentados e interessantes. As quatro condições são, segundo Jacobs, o ponto mais importante de sua obra. No entanto, ela alerta que "[...] nem todos os bairros irão produzir diversidade equivalente" (JACOBS, 1992, p. 151, tradução nossa), mas que a adoção dessas táticas farão com que "[...] o bairro atinja o seu melhor potencial, qualquer que este seja" (JACOBS, 1992, p. 151, tradução nossa). As quatro condições apontadas por Jacobs são: encorajar a adoção de diferentes usos nos edifícios; ter cuidado com o tamanho das quadras, que devem ser relativamente curtas; evitar que existam apenas edifícios novos; e garantir uma densidade mínima de habitantes na área. Necessidade de uso misto Os edifícios de um bairro devem apresentar, preferencialmente, mais de um uso, por exemplo, uma loja no térreo e apartamentos nos andares superiores. Para Jacobs, em uma situação ideal, um bairro teria ainda mais diversidade. O exemplo apresentado pela autora é o seu bairro, o Greenwich Village, em Nova York, que apresenta, segundo a autora, um verdadeiro balé de funções ao longo do dia.6 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Para entender como o uso misto pode tornar um espaço mais movimentado, pense em uma rua onde as pessoas saem para trabalhar entre 7h e 9h da manhã. Se existirem apenas casas ou apartamentos nesse bairro, esse será o único horário em que haverá movimento nas calçadas. No entanto, se o bairro que estamos imaginando abrigar fruteiras, mercados e outros tipos de comércio, mais pessoas circularão pelas ruas durante o dia. Ainda, se alguns bares e restaurantes se instalarem na região, o movimento se estenderá para a noite, garantindo um fluxo contínuo de pessoas nas calçadas na maior parte do dia. Necessidade de quadras curtas Quadras muito longas diminuem as possibilidades de trajetos de um ponto para outro. As pessoas que moram em edifícios construídos em quadras muito longas tendem a tomar o mesmo caminho sempre, diminuindo as potencialidades de animação das calçadas. Desse modo, essas ruas tornam-se pouco atrativas para o comércio, que demanda movimento constante de pedestres. A Figura 3 traz uma ilustração apresentada por Jane Jacobs que demonstra em forma de diagrama como as quadras mais curtas facilitam a tomada de caminhos alternativos de um ponto para outro, aumentando a animação das ruas. 89 89 88 88 87 87 86 86 85 85 Figura 3. Comparativo entre quadras longas e curtas. Fonte: Jacobs (1992, p. 179 e 181).A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável 7 Necessidade de edifícios antigos Esse critério parece pouco objetivo e um pouco arbitrário, mas trata-se de um argumento econômico. Edifícios antigos tendem a ter preços de aluguéis mais baratos do que os lançamentos imobiliários e, por isso, essas construções atraem um conjunto de moradores que não teria condições de pagar por espaços mais caros. Dessa maneira, a diversidade de edifícios traz consigo uma variedade de moradores, o que cria padrões de movimento diferenciados ao longo do dia. A Figura 4 mostra como o contraste entre os edifícios traz benefícios visuais para a cidade, tornando a experiência mais rica. Figura 4. Edifício antigo e edifício moderno. Fonte: Sinuswelle/Shutterstock.com. Necessidade de densidade Para garantir a vitalidade urbana, é preciso que exista vida na cidade. Para isso, os bairros devem ter uma densidade relativamente alta de moradores por metro quadrado. No entanto, esse número deve ser equilibrado para8 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável não gerar um espaço urbano muito denso, onde as infraestruturas como transporte, esgoto e eletricidade acabem entrando em colapso. Além do número de moradores de um bairro, os dados de densidade devem levar em consideração as pessoas que utilizam as ruas em diferentes horários, como trabalhadores de um edifício de escritórios ou consumidores em um shopping center. A Figura 5 demonstra como a densidade das cidades se modificou ao longo dos anos. 1900 2000 2000 2000 Cidades antigas Cidades modernas Cidades modernas Cidades modernas (alta densidade) (baixa densidade) (subúrbios) Tamanho médio das famílias 4 1,8 2 2.2 pessoas pessoas pessoas pessoas Tamanho médio das casas por habitante 10 60 60 m² 60 Proporção entre terreno e edifício 200 200 25 20% Número de habitações por 475 155 21 8 hectare Número de moradores por 2.000 280 42 17 hectare pessoas pessoas pessoas pessoas Figura 5. Transformação da densidade ao longo do tempo. Fonte: Adaptada de Gehl (2010). As cidades são fenômenos humanos extremamente complexos, muitas vezes, encaradas como entidades incontroláveis pelas autoridades. Os exemplos de Jacobs e Gehl nos demonstram, no entanto, que as cidades bem-sucedidas do passado podem servir de guia para novas intervenções urbanas.A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável 9 3 Exemplos de cidades com vitalidade "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira" (TOLSTÓI, 2017). A descrição das famílias russas feita pelo Conde Liev Tolstói no clássico Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877, pode ser facil- mente adaptada às cidades. Os exemplos de espaços urbanos bem-sucedidos compartilham um conjunto de soluções que se repetem ao longo de todo o mundo, adaptando-se às necessidades locais. Em Cidades para pessoas, Jan Gehl demons- tra esse princípio ao mostrar quatro exemplos de fachadas porosas que permitem que as pessoas fiquem paradas com conforto e segurança no espaço, cada um em uma localidade com cultura distinta. A Figura 6 mostra pessoas se apoiando em recessos de térreos de edifícios na Espanha, Portugal, México e Canadá. Figura 6. Pessoas utilizando recessos em edifícios. Fonte: Gehl (2010, p. 140).10 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Orla de Chicago A revitalização da orla de Chicago é um exemplo claro de apropriação das potencialidades do entorno. Nesse projeto, os arquitetos da prefeitura da cidade americana utilizaram o desnível entre calçada e rio para criar escadarias que funcionam como arquibancadas, gerando vitalidade e usos espontâneos ao longo do dia. Na Figura 7, é possível observar como essas atrações, somadas à mistura de edifícios novos e antigos com densidade adequada, geram vitalidade no espaço. Figura 7. Orla de Chicago. Fonte: Adaptada de Departamento de Transporte de Chicago (2016). Outro atributo interessante desse projeto é a reutilização de armazéns antigos para funções diversas como lojas e restaurantes, complementando a mistura de usos do entorno. Desse modo, esses espaços servem tanto para quem mora e trabalha no local quanto para outros visitantes. Caminho em Pilar de la Horadada Esse singelo projeto de requalificação urbana na Espanha toma partido dos usos e fluxos existentes para potencializar a vitalidade do espaço urbano. Em vez de tentar criar comportamentos inexistentes, os projetistas levaram em conta as atividades já realizadas no local, aumentando o conforto dos usuários. Na Figura 8, é possível observar como as calçadas abrigam espaços de estar confortáveis, deixando uma faixa livre para a movimentação de pedestres. Nas ruas desse espaço, já existiam condições de vitalidade, como a mistura de usos e de idades dos edifícios - nesse caso, coube aos arquitetos contemplar esses usos.A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável 11 b Figura 8. (a) Calçada do Caminho em Pilar de la Horadada. (b) Adaptação dos espaços urbanos para usos que gerem vitalidade. Fonte: Adaptada de Bañón (2014). As experiências bem-sucedidas de outras cidades podem servir de guia para a criação de espaços urbanos que preencham os potenciais de vitalidade do bairro que se está projetando. Para isso, é preciso conhecer tanto as teorias e análises urbanas quanto os exemplos de lugares onde as pessoas se sentem seguras e felizes nas ruas. Referências BAÑÓN, J.A. Caminho em Pilar de la Horadada. 2014. Disponível em: https://www. -banon. Acesso em: 4 fev. 2020. DEPARTAMENTO DE TRANSPORTE DE CHICAGO. Chicago riverwalk. 2016. Disponível em: -transporte-de-chicago. Acesso em: 4 fev. 2020. GEHL, J. Cities for people. Washington: Island, 2010. HARARI, Y.N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 3. ed. Porto Alegre: L&PM, 2015. JACOBS, J. Death and life of great American cities. New York: Vintage Books, 1992. TOLSTOY, L. Anna Kariênina. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.12 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Fique atento Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links.Encerra aqui 0 trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.Conteúdo: S a SOLUÇÕES EDUCACIONAIS INTEGRADAS

Mais conteúdos dessa disciplina